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Escrito ao longo dos últimos 40 anos, O mundo como idéia sintetiza a poesia publicada pelo autor que
naturalmente se compara ao genial criador de Fausto

  
   

Bruno Tolentino retornou ao Brasil em 1994, depois de 30 anos no exterior. Aterrissou por aqui sem
papas na língua e foi logo comprando brigas. Muitas brigas. Reclamou que Caetano Veloso era
considerado poeta quando não passava de letrista, que os irmãos Campos (Haroldo e Augusto) nada
sabiam de traduções e andou soltando farpas contra professores de filosofia da Universidade de São
Paulo. Disse que fez isso somente para estimular o debate.

Virou, óbvio, figura non grata e polêmica ao acusar o concretismo de minar a poesia brasileira de
qualidade produzida nos anos 50. Tolentino também levou a pecha de mitômano. Culpa da sua biografia,
em muitos pontos extravagante e até duvidável. Diz ele ter convivido com figuras como Elisabeth Bishop,
Samuel Beckett ² que o teria aconselhado a escrever em inglês, já que os escritos em português eram
µµexcelentes¶¶ ², Marguerite Yourcenar e Giuseppe Ungaretti, do qual foi hóspede em Roma em 1964,
depois de fugir do regime militar.

A lista de referências é tão µµespecial¶¶ que a imprensa tentou checar a veracidade. Não conseguiu. Mas
também não provou o contrário. À mitomania de Tolentino também foram creditados um câncer (curado!)
e a Aids, além de oito anos de prisão na Inglaterra, onde morou, por tráfico de drogas. µµÀs vezes, dão
mais importância à minha biografia que aos meus livros¶¶, costuma lamentar, sem no entanto deixar de
falar sobre o assunto. Fato é que o poeta trabalhou com W.A. Auden quando dirigiu o Oxford Poetry Now,
departamento de poesia da Oxford Press University. Também é primo de Bárbara Heliodora e Antonio
Cândido, responsável por eventuais encontros de um Tolentino adolescente e personalidades literárias.

Aos 62 anos, o poeta tem no currículo obra bilíngüe. Escreveu em inglês (About the hunt), francês (Le
Vrai Le Vain) e português (As horas de Katharina, Os deuses de hoje). Agora, lança no Brasil O mundo
como idéia, fruto de 40 anos de trabalho e espécie de síntese de sua poesia publicada. µµO mundo como
idéia está em todos os meus livros, e não é de espantar, pois sua matéria está ligada ao centro nevrálgico
de toda minha problemática¶¶, explica, em entrevista por e-mail ao Correio. Entrevista, aliás, na qual se
permitiu alterar algumas perguntas e respondê-las com a justificativa de que ficavam melhor a seu modo.
Não há modéstia com Bruno Tolentino. Com naturalidade, ele se compara a Goethe. A língua afiada já lhe
valeu o título de maldito, mas a produção literária é celebrada em muitos meios. Nas resenhas (que o
poeta não chama de resenhas, já que, segundo ele, não há críticos literários no Brasil) publicadas
recentemente, poucos são os críticos desgostosos. Tolentino é sofisticado, sugerem.

De volta ao Brasil, dividido entre um mosteiro em Caeté (MG), a montagem do Centro de Fé e Cultura da
PUC em São Paulo e o Rio de Janeiro, onde nasceu e tem família, o poeta resolveu não mais deixar o
solo tupiniquim. Lei abaixo trechos da entrevista.

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)  *c *   Porque não é meramente de uma temática, mas de uma problemática que se
trata. Todos os meus demais livros seriam extensões, ou particularizações, das questões fundantes, dos
contrastes cruciais, de cujo embate contínuo este livro-arena foi durante 40 anos o espelho vivo e o
campo de batalha. Este é o único livro que eu planejava escrever, ou seja, o projeto de composição de O
mundo como idéia desde cedo aparecia-me como a indispensável decifração do mapa da mina, sem a
qual eu jamais encontraria, digamos, o Ouro da Musa...

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*c *   Chamo má consciência em arte o 171 típico do mau artista, aquele que a si mesmo
insiste em vender gato por lebre. Exemplos: por um lado, a noção de arte µµespontânea¶¶, a arte como
espirro emocionado, e, por outro, os simplismos que levam a tantos outros µµismos¶¶, a facilidade das
fórmulas que terminam por substituir-se ao esforço e à lucidez. Em arte, há má consciência sempre que,
falseando a complexidade da questão capital das relações entre a expressão e a forma, os variegados
formalismos esvaziam-na de todo significado relevante e fazem do ato de criação mero malabarismo, jogo
mental. Concordo com (Yves, poeta) Bonnefoy, quando nos adverte de que não há pior maldição neste
mundo do que reduzir a vida a uma brincadeirinha solenizada, a um jogo aparentemente arrojado, mas de
mentirinha. Ora, o vale-tudo de nossa poesia desde os anos 60 é predominantemente o resultado desse
vício, dessa moléstia fatal à vida do espírito. Foi a contrapelo disso que compuz este livro: µµ...para contar
daquele instante/ quando o que mais amamos chega ao fim,/ e um belo simulacro delirante/ usurpa-lhe o
lugar; quando é assim/ que a arte desfaz da luz agonizante,/ convence a muitos, não comove a mim.¶¶

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*c *  Só de certo modo, e ainda assim até certo ponto, ou seja, haverá sempre esse momento
de risco, basicamente o problema da adequação de uma linguagem a uma visão. A esse risco chamo no
livro µµpassagem de nível¶¶, algo assim como o cruzar de uma ferrovia. É a operação inerente ao fenômeno
formal, daí a necessidade de filosofia da forma que clarifique os termos em questão e minimize os riscos
da substituição, digamos, de um sujeito (ou, no caso da pintura, de um objeto) por uma imagem; aqui os
riscos são enormes, a questão da justeza da forma é coisa delicadíssima, dado que na arte não há
figuração sem transfiguração. É aqui, nesse ponto crucial de transformação de uma visão do mundo num
fenômeno de representação pela linguagem, que surge o perigo de desvio, de perda de substância. Se
lhe pergunto onde fica a padaria tal, não me posso contentar com uma dissertação sobre a correta
temperatura em que se µµdeve¶¶ fazer o pão, e em que tipo de forno etc. Pertinente ou não, isso é teoria, e
a arte não procede de generalidades, sua forma e sua função estão ligadas à pertinência de tal ou tal
visão pessoal, é a particularidade da percepção do real em ato que lhe confere voz, veracidade, vida.
Como se deve fazer o pão não vem ao caso, jamais vou me alimentar disso... É isso o mundo-como-idéia,
substituição indevida, que nos menos dotados resulta em discurso oco, na vã eloqüência, numa
pomposidade tão danosa quanto inútil.

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*c *   A semente surge entre 1957 e 1959, das conversas com o (Ferreira) Gullar e da
correspondência com Bonnefoy. A partir de então, a questão da µµveracidade¶¶ da obra contra o fundo de
µµirrealidade¶¶ da forma não me daria mais sossego. Comecei o livro em francês, e em 1966 ele ainda se
confundia com Le Vrai Le Vain. Foi só depois da publicação deste, em 1971, que a autonomia de O
mundo como idéia se tornou evidente e a necessidade de continuá-lo fez-se imperativa. Ainda assim, foi
ao longo da composição de About the hunt, publicado em 1979, que a necessidade de aprofundar todas
aquelas questões me forçou a estender até seus limites a enorme imprudência daquele projeto juvenil.
Posteriormente, ao coligir em 1984 dez anos de anotações para o curso de História das Idéias que vinha
mantendo em Oxford, todo ele baseado na mudança de paradigma como aparece na pintura da
Renascença, foram-me surgindo os 101 sonetos da parte principal da obra, A imitação da música, todos
em português, uma dezena dos quais já no Brasil. Mas o batismo de fogo de O mundo como idéia foi
mesmo o empenho com que José Mário Pereira praticamente me acorrentou à tarefa de ampliar ao
máximo o livro que lhe mostrei em 1995. Daí a encomenda que me fez desse prólogo sobre µµa gênese do
livro¶¶. Como vê, nem tudo é culpa minha...

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*c *  Não, é o contrário que me parece verdade: O mundo como idéia está em todos os meus
livros, e não é de espantar, pois sua matéria está ligada ao centro nevrálgico de toda minha problemática.
Como espécie de ponto de convergência de minha visão de mundo, neste livro estão todos os dados
objetivos de minha busca do real através da arte, mas há outros aspectos dessa relação que se
desenvolveram em livros independentes. Por exemplo: As horas de Katharina ficcionaliza coisa bem mais
profunda que meras interrogações filosóficas, pois concerne à busca específica de relação pessoal com
Deus; assim como Os deuses de hoje retrata minha relação pessoal com a pátria, as raízes, o passado
da raça; já A balada do cárcere, não obstante ser livro quase acidental, também analisa a inadequação da
criatura à realidade, o conflito entre vontade de poder e os conceitos de Bem como de Mal. Mas tudo em
meus 45 anos de escrita converge para ou nasce deste O mundo como idéia, de modo especial meu livro
sobre a filosofia da História, o Eros-Thanatos, a antinomia Oriente-Ocidente, segundo muita gente boa, o
meu melhor trabalho: A imitação do amanhecer, a ser publicado ano que vem.

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*c *   Uma coisa e outra, de resto inseparáveis em minha definição de forma. Note-se que
Goethe também investiu quatro décadas na composição de seu Fausto, súmula de obra ímpar que sem
aquele apogeu teria bem menos impacto. Malgrado o esplendor de tudo o mais que fizera, seria em seu
livro-cume que o sábio de Weimar iria expor e elucidar questões cruciais que vão da análise das
categorias do real à definição dos fundamentos do ser, dos riscos do livre arbítrio aos termos e limites da
liberdade, do duelo do Bem e do Mal ao confronto do real com seus simulacros. Tudo isso deveria estar
também no meu O mundo como idéia. Aliás, como Goethe, também venho sendo acossado pelas
µµmatilhas do irracional¶¶, meu µµdrama da razão¶¶ tem tudo a ver com o dele. Acusado de altivez e
alheamento ante as convulsões de seu tempo, faço minha sua famosa resposta, segundo a qual a
obsessão com a atualidade do presente é tarefa para os que nela cabem inteiros e com ela se contentam;
a do verdadeiro artista é a de µµgarantir valores imprescindíveis à possibilidade mesma de um futuro¶¶.

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*c *   Talvez. Mas hoje não tenho dúvidas de que O mundo como idéia responde, em termos
de modernidade estética e pertinência filosófica, à mesma µµsituação¶¶ que Goethe enfrentou há 200 anos.
Como no caso do seu Fausto, não fiz um livro µµsobre¶¶ uma civilização em crise de autoconfiança, mas a
análise de uma enfermidade da mente, a nosema te adikias segundo o Górgias de Platão. E espero ter
indicado um roteiro para fora, para além, para acima ² para muito acima ² desse labirinto de ilusões
banais que insistimos em cultuar como moderno, atual, da hora etc. Porque, afinal, não estamos vivendo
nenhum fim da História, mas apenas a catarse de drama barato, totalmente manufaturado por caricatura
do Prometeu clássico, o homem pós-renascentista, esse candidato a clone que já nem sabe que nome
dar à falida falácia de seu sonho de onipotência.

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*c *  Esse pessoal só pensa nesses termos. São caixeiros de supermercado. Não conseguem
entender que não se faça nada que não seja pela cultura. Além de terem biotipo de quitandeiros. Não fiz
nada disso para lançar livros. Aliás, escrevi até artigo para denunciar essas pessoas que fazem parte do
crime organizado da República das Letras.

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*c *   A caralhice (sic) da universidade brasileira só me deixa entrar se for disfarçado de
cachorro. A universidade é um esgoto pensante. Se eu vier a dar aulas será na PUC/SP e para detonar.
Aqui, você não pode ter idéias que não sejam marxistas. A PUC é um túmulo de Tutankamon. É o último
baluarte do muro de Berlim. Todos os professores são ex-guerrilheiros. Essa é a elite radical. É lá que
posso fazer a diferença.

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*c *   Aí você me pegou. Vamos ver... Alberto Cunha Mello. É de uma integridade total, tem
responsabilidade moral e vive essa responsabilidade. É pernambucano. O problema é que se houver algo
que preste por lá eles (Ariano Suassuna e o falecido João Cabral de Melo Neto) tratam de cobrir de
silêncio. Se houver alguém que não rode a bolsinha não está no noticiário. A não ser que seja bandido
que nem eu.

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*c *   É como boa trepada. Ou você sabe ou não sabe. É alquimia inconfundível, você sabe
muito bem o que aconteceu. A boa poesia você tem que poder viver como se vive um romance. A
emoção estética pode até existir em nível de instinto, mas a boa poesia é coisa tão bem resolvida que se
sabe imediatamente que se está diante de algo bom.

Poema

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