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M I S T I C I S M O l C I Ê N C I A l A R T E l C U L T U R A

OUTONO 2019
Nº 308 – R$ 10,00

ISSN 2318-7107
Prezado Estudante Rosacruz,

Temos tentado, nos últimos 10 anos, estabelecer um meio rápido,


seguro e econômico de nos comunicarmos com nossos fratres e
sorores e vice-versa.

Entretanto, por várias razões, nosso cadastro conta somente com


50% de recadastrados. Isto dificulta e encarece a comunicação.

Assim, peço sua especial atenção para este assunto, atualizando


seu cadastro no seguinte endereço:

https://www.amorc.org.br/atualizacao-cadastral-amorc/

ou através da Área do Afiliado, após login e senha, no endereço:

https://afiliado.amorc.org.br/

Pessoalmente, em prol de um melhor atendimento da Grande Loja,


agradeço sua especial atenção para este importante pedido.

Com os mais sinceros votos de Paz Profunda!

Hélio de Moraes e Marques


Grande Mestre
n MENSAGEM

Prezados do: “Em toda crise e em todo desastre, em cada


© AMORC

Fratres e Sorores onda de sofrimento ou de perplexidade, é a


influência da mulher e de seus poderes naturais
Saudações que vem em socorro e que traz paz e paciência.”
Rosacruzes! O artigo relacionado à nossa capa, Clemence
Isaure – a Isis Dourada Rosacruz, escrito pela
Quando a mente Grande Mestre Soror Julie Scott, é um relato
amadurece, o ser dessa obra fascinante que veio a ter impor-
humano entende tância na vida do Frater H. Spencer Lewis por
a transforma- estar relacionada à sua iniciação na França.
ção das coisas Voltando às transformações, uma bela
de um modo obra está sendo concluída em nosso comple-
mais elevado. xo em Curitiba. O novo prédio comportará
Como uma lei a Grande Heptada Martinista, um estúdio de
natural que impulsiona a criação em direção gravações, o novo museu e salas de aula a se-
ao seu fim, a mutação é o meio para se chegar rem utilizadas pela URCI.
ao ponto máximo ou de perfeição. O conceito A inauguração destes espaços contará
que os gregos antigos atribuíam à aretê trazia com a presença do novo Imperator, Frater
subjacente a ideia de telos ou finalidade, que Claudio Mazzucco, que passará duas semanas
representa que se uma pessoa ou coisa cumpre no Brasil em sua primeira viagem ao nosso
sua aretê, cumpre seu fim, ou a função que lhe é país após a sua posse na Convenção Mundial
própria. A aretê do olho, por exemplo, é enxer- em Roma. Frater Mazzucco estará no Rio de
gar bem, da faca, cortar bem e do Ser Humano, Janeiro, São Paulo e Curitiba, onde partici-
segundo Aristóteles, é ser feliz. pará de algumas homenagens cívicas e várias
Muitos artigos desta edição de O Rosacruz atividades Rosacruzes e Martinistas.
tratam, direta ou indiretamente, do princípio O Museu, com belas réplicas da tumba de
da transformação. Tutankhamon, será chamado de “O Rei Menino
Nesta direção, o artigo do Frater John de Ouro: Tutankhamon” e foi idealizado com a
Marshal traz do Antigo Egito o processo de orientação do ilustre Egiptólogo Zahi Hawass.
mumificação e a metamorfose do escarave- Para a inauguração do museu teremos, além de
lho para nos instar a buscar a Transformação autoridades locais e nacionais, a presença do
interior. No mesmo diapasão estão os artigos professor Hawass, que realizará uma palestra
A imagem múltipla da natureza do Homem: e sessão de autógrafos do seu livro “Monta-
da Rosa à Cruz no decorrer dos tempos do ex- nhas dos Faraós”, publicado pela AMORC.
-Imperator Frater Ralph M. Lewis e A essência A programação destes eventos encontra-se
da Iniciação, artigo que escrevi há alguns anos em folder anexo e pode ser acompanhada em
e revisto agora. Este artigo traz minha visão nosso site www.amorc.org.br.
das iniciações rosacruzes e sua importância no Boa leitura!
caminho do discípulo em busca da Luz Maior.
A comunidade mística dos Essênios traz escla- Sincera e Fraternalmente
recimentos importantes sobre essa comunidade AMORC-GLP
que nos inspira no âmbito da nossa Tradição e
Wagner, músico do inconsciente, excerto do livro
“Música e Misticismo” publicado pela AMORC,
nos mostra um viés diferente da arte deste gran-
de músico, muitas vezes mal compreendido.
A sensibilidade do Dr. H. Spencer Lewis é
evidenciada no excelente texto Os Anjos na Ter- Hélio de Moraes e Marques
ra, no qual dignifica o papel da mulher afirman- GRANDE MESTRE

OUTONO 2019 · O ROSACRUZ


1
n SUMÁRIO

04 Avante!
Por CHRISTIAN BERNARD, FRC
04
08 A essência da Iniciação
Por HÉLIO DE MORAES E MARQUES, FRC

12 Clemence Isaure – A Isis Dourada Rosacruz


Por JULIE SCOTT, SRC

19 Confiança

08
Por ROSANA SOUZA, SRC

20 A imagem múltipla da natureza do Homem:


da Rosa à Cruz no decorrer dos tempos
Por RALPH M. LEWIS, FRC

26 Transformação
Por JOHN MARSHALL, FRC

32 A comunidade mística dos Essênios

32
Por MAXIME QUINTAL, FRC

38 Santuário
Por CECIL POOLE, FRC

42 Wagner, músico do inconsciente


Por BERNARD COUSIN, FRC

46 Sanctum Celestial
“OS ANJOS NA TERRA” Por H. SPENCER LEWIS, FRC

52 Ecos do passado
UMA HOMENAGEM À HISTÓRIA DA AMORC NO MUNDO
38
2 O ROSACRUZ · OUTONO 2019
O
s textos dessa publicação não representam a palavra oficial da
AMORC, salvo quando indicado neste sentido. O conteúdo dos
artigos representa a palavra e o pensa­mento dos próprios autores
Publicação trimestral da e são de sua inteira respon­sabilidade os aspectos legais e jurídicos que
ORDEM ROSACRUZ, AMORC
possam estar inter-relacionados com sua publicação.
Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa
Bosque Rosacruz – Curitiba – Paraná Esta publicação foi compilada, redigida, composta e impressa na Ordem
Rosacruz, AMORC – Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa.
Todos os direitos de publicação e repro­dução são reservados à Antiga
e Mística Ordem Rosae Crucis, AMORC – Grande Loja da Jurisdição de
Língua Portu­guesa. Proibida a reprodução parcial ou total por qualquer meio.
As demais juris­dições da Ordem Rosa­cruz também editam uma revista
do mes­mo gênero que a nossa: El Rosacruz, em espanhol; Rosicru­cian
Digest e Rosicrucian Beacon, em inglês; Rose+Croix, em francês; Crux
Rosae, em alemão; De Rooz, em holandês; Ricerca Rosacroce, em italiano;
Barajuji, em japonês e Rosenkorset, em línguas nórdicas.
CIRCULAÇÃO MUNDIAL

Propósito da expediente
Coordenação e Supervisão: Hélio de Moraes e Marques, FRC
Ordem Rosacruz n

A Ordem Rosacruz, AMORC é uma orga- n Editor: Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa
nização interna­cio­nal de caráter templário,
místico, cul­tural e fraternal, de homens e
n Colaboração: Estudantes Rosacruzes e Amigos da AMORC
mulheres dedicados ao estudo e aplicação

como colaborar
prática das leis naturais que regem o uni-
verso e a vida.
Seu objetivo é promover a evolução da
huma­nidade através do desenvolvimento
das potencia­lidades de cada indivíduo e
n Todas as colaborações devem estar acom­panhadas pela declaração do
propiciar ao seu estudante uma vida har- autor cedendo os direitos ou autori­zando a publicação.
moniosa que lhe permita alcançar saúde,
felicidade e paz.
n A GLP se reserva o direito de não publicar artigos que não se encaixem
Neste mister, a Ordem Rosacruz ofe- nas normas estabelecidas ou que não esti­verem em concor­dância com a
rece um sistema eficaz e comprovado de pauta da revista.
instrução e orientação para um profundo
auto­c onheci­mento e compreensão dos n Enviar apenas cópias digitadas, por e-mail, CD ou DVD. Originais não
processos que conduzem à Iluminação. serão devolvidos.
Essa antiga e especial sabedoria foi cui-
dadosamente preservada desde o seu n No caso de fotografias ou ilustrações, o autor do artigo deverá providenciar
desenvolvimento pelas Escolas de Misté- a autorização dos autores, necessária para publicação.
rios Esoté­ricos e possui, além do aspecto
filosófico e metafísico, um caráter prático. n Os temas dos artigos devem estar relacionados com os estudos e práticas
A aplicação destes ensinamentos está ao rosacruzes, misti­cismo, arte, ciências e cultura geral.
alcance de toda pessoa sincera, disposta a

nossa capa
aprender, de mente aberta e motivação
positiva e construtiva.

Nossa capa contém a obra de Henri Martin


A Aparição de Clemence Isaure aos Trovadores.
Clemence Isaure representava a perpetuação
dos antigos mistérios, principalmente aqueles
associados ao feminino e à deusa Isis. O quadro
teve grande importância para o Frater H. Spencer
Rua Nicarágua 2620 – Bacacheri Lewis, conforme pode ser lido no artigo
82515-260 Curitiba, PR – Brasil
Clemence Isaure: a Isis Dourada Rosacruz da
Tel (41) 3351-3000 / Fax (41) 3351-3065
www.amorc.org.br Soror Julie Scott, na página 12 desta edição.

OUTONO 2019 · O ROSACRUZ


3
n IMPERATOR

Por CHRISTIAN BERNARD, FRC – Imperator da AMORC*

U
m dos princípios básicos da psicologia das últimas
décadas diz que um problema só pode ser resolvido
quando se conhece a causa, o que criou a moda das
longas análises com terapeutas, regressão por hipno-
se à primeira infância e mesmo regressão a vidas passadas etc.
Sem dúvida, temos uma visão melhor dos nossos problemas e de
nossa reação a eles quando conhecemos sua causa, mas será que
isso basta? Será que devemos nos satisfazer com um princípio
que justifica muitas de nossas atitudes e nos isenta das respon-
sabilidades? Será que devemos nos contentar apenas com termos
descoberto o motivo de nossas más ações, de nossas mentiras e de
nossos pensamentos negativos? Uma explicação pode nos ajudar
a compreender, mas de nada serve se não vier acompanhada do
desejo de mudar. E se o fundamental não for conhecer a origem de
nossos problemas, mas simplesmente aceitá-los (de forma Zen), ou
combatê-los (de forma cavalheiresca)?
Nossa existência é regida por ritmos e hábitos. Nossos receios,
medos e fobias podem ser superados, mas para isso é preciso ter
vontade. Por exemplo, saber por que ficamos aterrorizados em
determinadas situações, ou por que sentimos um pavor irracional
diante de um determinado objeto, de um animal, de certas circuns-
tâncias ou pessoas é, sem dúvida, interessante do ponto de vista
intelectual, mas não resolve nada. Nossas reações e nossas faltas de
reação são também – e acima de tudo – hábitos. Tomemos como
exemplo uma viagem. Se o desconhecido nos amedronta, deslocar-
-se de um local para outro pode nos parecerá difícil. Na primeira
vez, podemos hesitar, nos estressar. Naquele momento, a estrada nos
parece longa… Depois, aos poucos, com a experiência e o hábito,
aquilo que parecia difícil e desagradável acaba parecendo simples. A
viagem nos parece mais curta, reagimos melhor, nos acostumamos.

4 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


“ Se quisermos descobrir o que há
por detrás da porta que está diante


de nós, precisamos ousar abri-la.
© GETTYIMAGES

OUTONO 2019 · O ROSACRUZ


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n IMPERATOR

Não se consegue avançar andando


para trás, nem subir as escadas da vida
indo degraus abaixo. Se quisermos
descobrir o que há por detrás da porta
que está diante de nós, precisamos
ousar abri-la. O passado pode ajudar administramos as provações que a vida nos
a viver o presente e a preparar para o fu- apresenta. Antes de tudo, é preciso tentar,
turo, mas não deve travar nossa evolução. com discernimento e – certamente – com
“Querer é poder!”. É bem verdade que não prudência, superar nossos medos e apreen-
vencemos sempre na vida, mas, mesmo sões ou mudar nosso modo de pensar, de
quando caímos, podemos nos levantar e co- falar e de reagir. Em muitos momentos da
meçar de novo de uma outra forma, ainda vida, quando obrigados, nos esforçamos e
melhor… Muitas vezes se diz “que a sorte conseguimos superar nossos medos. Isso
sorri para os ousados”. Não sei se é sempre se aplica a muitas coisas na vida, basta nos
assim, mas, por outro lado, é possível perce- esforçarmos um pouco no início e depois
ber que a alegria e a felicidade não sorriem tudo vai em frente. É claro que apenas ter
muito para os pessimistas de carteirinha. consciência disso não nos garante proteção
As dificuldades, as experiências, as aflições contra as vicissitudes da nossa existência
e os sofrimentos fazem parte da condição terrena e, além disso, faz com que sofra-
humana. Ninguém está livre disso, mas o mos ainda mais com as consequências
que pode fazer a diferença é a forma como dos acontecimentos que provocamos.
reagimos diante das adversidades e como Retomando a primeira ideia, gostaria de
as superamos. É principalmente nisso que insistir no fato de que devemos nos esfor-
consiste o “Domínio da Vida”. Somos do- çar para melhorar nosso comportamento e
nos de nosso destino e temos nosso livre- fazer nossa vida evoluir positivamente sem
-arbítrio, pelo menos em relação a como esperar nada dos outros, sem ficar procu-

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rogação ambulante. De fato, isto é


indispensável, pois a reflexão é tão
importante quanto a pura meditação.
No entanto, não devemos permitir
que todas as perguntas que tocam
nosso espírito – e mesmo o embaçam
rando o culpado – ou os culpados – sem – venham arruinar nossa vida, nem nos
pretextos e sem desculpas. Mesmo que te- privem das alegrias simples ou dos momen-
nhamos tido uma infância difícil, mesmo tos fugazes de felicidade que muitas vezes
que achemos que “o inferno são os outros”, deixamos passar sem lhes dar o devido
mesmo que…, isso não deve nos impedir valor. Podemos ter consciência do mundo
de ir em frente. Sejam quais forem nossas que nos cerca, da crueldade que prevalece
escolhas, devemos assumi-las, e se elas não sobre a terra e das injustiças que sofremos
forem felizes, não devemos colocar a culpa grupal ou individualmente, mas é preciso
nos outros. É preciso também ser paciente, sempre lembrar de que, como disse o poeta
pois aquilo que num momento achamos que e cantor Jacques Brel, “devemos ver em cada
é uma catástrofe pode de repente se revelar coisa, uma coisa linda”. Quando a maré das
uma bênção. Tenho certeza de que já tive- lembranças o inunda, quando a tristeza
ram essa experiência uma ou mais vezes, o sufoca e você sente o coração apertado,
em diferentes esferas da vida. Certamente quando apenas o lado feio do mundo se lhe
conhecem o ditado chinês: “Depois de 7 mostra, então, com a força do espírito que
anos, uma desgraça se torna uma graça”. existe em você, resista, recorra à centelha
De minha parte, estou convencido de que 7 que ainda brilha dentro de sua alma e en-
dias, 7 horas, 7 minutos, podem ser suficien- tão, numa atitude desafiadora, de forma
tes. Assim também é a alquimia da vida. ousada, levante a cabeça, enfrente as forças
Já pude perceber que aqueles que re- que o estão empurrando para baixo e, com
agem do modo mais positivo possível convicção e altivez, diga: “Eu vou em fren-
diante de um problema acabam atraindo te… Eu vou em frente. Eu vou em frente!”.
o que chamam de sorte; isto é, uma nova Consciência, confiança, perseverança e
oportunidade. Costumamos dizer que um coragem. Avante!
Rosacruz deveria ser um ponto de inter- É o que lhes desejo. 4

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n PRÁTICA ROSACRUZ

Por HÉLIO DE MORAES E MARQUES, FRC

A
s iniciações têm um significativo Embora nossas iniciações sejam estili-
papel na vida do estudante ro- zadas e simbólicas às condições dos nossos
sacruz. Seu efeito é diretamente tempos, sem as circunstâncias arrojadas das
proporcional ao valor da “inten- iniciações primitivas que eram ambientadas
ção” em sua realização. em florestas, grutas e locais pitorescos, elas
Intenção, sob o enfoque filosófico, é uma têm seu significado próprio na mente do
categoria que representa a intencionalidade candidato, cujos efeitos atingem seu emocio-
no sentido prático, ou seja, o nível ou grau nal, transmitindo a elevação e a mensagem
com que se desenvolve uma ação em relação transformadora que toda iniciação pretende.
ao seu objetivo, ao seu fim. Observamos nas monografias de inicia-
Em outras palavras, o valor é medido ção a mensagem: “A iniciação leva, ao reino
sobre o fundamento da direção que o sujeito da razão, o propósito; e ao reino da emo-
imprime à ação, que é exatamente a inten- ção, o espírito da introdução do estudante
ção. São Tomás nos diz que a Intenção é o nos mistérios.” Em outras palavras, elas
nome do ato da vontade, estando pressuposto têm um conteúdo definido tanto no aspecto
o ordenamento da razão, que direciona algu- racional, que se traduz num conhecimento
ma coisa para um fim. Na mesma direção, novo, como no emocional que eleva o candi-
Abelardo dizia: Deus toma em consideração dato a um novo patamar como indivíduo.
não as coisas que se fazem, mas o ânimo com Mas para se compreender melhor esse
que se fazem e o mérito e o valor daquele que efeito, devemos conhecer as bases e as ori-
age não consistem na ação, mas na Intenção. gens daqueles princípios envolvidos e isto só
Se a iniciação for corretamente realizada, ela é possível se lançarmos um olhar especial
resgata a intenção daqueles que a conceberam, para os mitos.
sejam os mestres do passado ou o Dr. H. Spencer As raízes das iniciações encontram-se no
Lewis. A mensagem e seu poder transforma- mito. No passado, o mito, do vocábulo grego
dor atingem o iniciando e ele vive a iniciação. mythos, denotava tudo o que não podia exis-

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tir materialmente. Embora exista uma vi-
são de mito como acepção de ilusão, já vai
completar um século que não se entende
mais mito como fábula, invenção, ficção,
mas, ao contrário, como uma história ver-
dadeira e extremamente preciosa por seu
caráter sagrado, exemplar e significativo.
Nosso artigo, por força de seu objeti-
vo, procurará explorar o sentido do mito
“vivo”, ou seja, aquele cuja presença re-
monta às sociedades arcaicas e é um mo-
delo para a conduta humana, conferindo
por isso significação e valor à existência.
As ideias estruturantes desta aná-
lise estão baseadas nos pensamentos
do professores Mircea Eliade, romeno,
cientista das religiões, mitólogo, filósofo
e romancista naturalizado norte-ame-
ricano e Joseph John Campbell, mitó-
logo, escritor, conferencista e professor
universitário estadunidense. O professor
Eliade possui uma definição, talvez me-
nos imperfeita, por ser mais ampla, que
nos diz que o mito conta uma história
sagrada: ele relata um acontecimento
ocorrido no tempo fabuloso do “princí-
pio”. O mito fala em como ele foi criado
e revela como tem exercido sua atividade
criadora desvendando a sacralidade, ou
aquilo que está além, o transcendental.
É esse parto ou irrupção do sagrado que
realmente fundamenta o mundo e justi-
fica o que ele é hoje. E mais, é em razão

“ … conhecer
a origem de um
objeto, de um
animal ou planta,
equivale a adquirir
sobre eles um


© GETTYIMAGES

poder mágico…

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n PRÁTICA ROSACRUZ

© COMMONS.WIKIMEDIA.ORG
“A Tomada da Bastilha”, por Jean-Pierre Houël.
© COMMONS.WIKIMEDIA.ORG

ao rememorar os mitos e reatualizá-los, ele é


capaz de repetir o que os deuses, os heróis ou
os ancestrais fizeram nas origens. Conhecer
os mitos é aprender o segredo da origem das
coisas. Em outros termos, aprende-se não
“A entrada do sultão Mehmet II em Constantinopla”,
por Jean-Joseph-Benjamin Constant.
somente como as coisas vieram à existência,
mas também onde encontrá-las e como fazer
com que reapareçam quando desaparecem.
da atuação desse algo superior que o homem Por isso, em nossas iniciações da Ordem
é hoje um ser moral, sexuado e cultural. Rosacruz, AMORC ou da Tradicional Ordem
Não conhecer os mitos das civilizações Martinista, TOM tenho afirmado que o tempo
antigas implica em não poder repetir o da iniciação é diferente do tempo do relógio,
ato que lhes deu origem, e a consequência usual, profano. Mas, ao contrário, ele é espe-
é a perda da possibilidade de constante- cial porque é o tempo sagrado que se instaura
mente atualizá-lo através de cerimônias. por força do rito de reatualização daquele
Por exemplo, diz-nos o professor Eliade: momento do princípio em que o ritual foi
Constantinopla foi conquistada pelos turcos concebido. Nesta ocasião, procuramos resga-
em 1453 e a Bastilha caiu a 14 de julho de tar o arquétipo da cerimônia, unimos signifi-
1789. Esses acontecimentos são irreversíveis. cando a significado e recuperamos a energia
Claro que, tendo o 14 de julho se conver- da arché ou dos arquétipos e dos símbolos
tido na data nacional da República Fran- envolvidos. Dito de outro modo, resgatamos
cesa, a tomada da Bastilha é comemorada a força, diríamos, mântrica dos símbolos que
anualmente, mas o acontecimento histórico conferem poder ao ato de repetir o rito.
propriamente dito não é atualizado. Para o Quando realizamos um ritual como
homem das sociedades arcaicas, ao contrário, oficiais iniciáticos, esta é a meta. Resgatar o
o que aconteceu nas origens pode ser repetido arquétipo daquilo que era “no princípio”.
através do poder dos ritos. Para ele, portanto, Por isso que destacamos que, quando
o essencial é conhecer os mitos. Essencial não o ritual transcorre de forma harmoniosa,
somente porque os mitos lhe oferecem uma nos transportamos para aquele tempo das
explicação do Mundo e de seu próprio modo origens que inspirou o ritual. É o in illo
de existir no Mundo, mas, sobretudo, porque, tempore, tempo sagrado em contraste com

10 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


o tempo profano. Quando isto acontece, o Talvez seja por isso que a abertu-
candidato entra um e sai outro porque ele ra de nossas convocações ritualísticas
é tocado pela experiência e sua alma re- seja: “Unamo-nos em invocação!”
cebe uma certa iluminação que altera seu Esquecer, ou não conseguir invo-
nível vibratório e atinge as suas emoções. car os símbolos, os princípios transcen-
Além disso, sabemos, como estudantes dentes de nossa tradição, enfraquece,
rosacruzes, que a força que podemos obter a nosso ver, os nossos valores que
sobre determinada lei ou princípio cósmico conferem identidade a nossa cultura ro-
está no nível de conhecimento que temos da sacruz e que dão poder para o Adepto.
mesma e da confiança na sua aplicação. Por fim, a essência das iniciações está nas
Nossos ensinamentos destacam a impor- suas origens, que está apoiada fundamen-
tância da confiança para o êxito de nossos talmente nos mitos. O efeito transformador
empreendimentos e esta é obtida em grande está no grau de entrega com que o iniciando
parte pelo conhecimento. participa nela. O seu poder está no conhe-
Assim, nas sociedades antigas, os mitos das cimento e na capacidade de invocação do
origens são comunicados aos neófitos durante Adepto das leis subjacentes à sua magia.
sua iniciação. Ou antes, eles são “celebrados” e Termino com votos de grandes e profundas
reatualizados. “Quando os jovens passam pelas iniciações ao longo de vossas vidas e com um
diversas cerimônias de iniciação, celebra-se diante pensamento do profes-
deles uma série de cerimônias que se destinam a sor Joseph Campbell
mostrar a maneira de celebrar esses cultos àqueles em seu clássico

© AMORC
que estão para ser elevados, ou que acabam de O Poder do Mito:
ser elevados, à categoria de homens.”
Vemos, portanto, que a “história” narrada “Lembro-me de
pelo mito constitui um “conhecimento” de ter lido, quando
ordem esotérica, não apenas por ser secreta e criança, sobre o
transmitida no curso de uma iniciação, mas tam- grito de guerra dos
bém porque esse “conhecimento” é acompanha- corajosos índios
do de um poder mágico-religioso. Com efeito, que partiam para a
conhecer a origem de um objeto, de um animal batalha, enfrentando
ou planta, equivale a adquirir sobre eles um a chuva de balas dos
poder mágico, graças ao qual é possível dominá- homens do General
-los, multiplicá-los ou reproduzi-los à vontade. Custer. Gritavam:
Aí talvez esteja a explicação da forma como “Que belo dia para
o nosso ex-lmperator, Dr. Harvey Spencer morrer!”. Não havia
Lewis, nos transmite o significado e o poder ali nenhum apego à
da palavra perdida. Em outros termos, o sig- vida. Essa é uma das
nificado é revelado letra por letra até a última, grandes mensagens
“Ritual de Iniciação no
e então é acrescentada à base mental sobre a da mitologia. Eu, tal Egito Antigo”, por H.
qual ela se tornará poderosa. Sua mente sábia como me conheço Spencer Lewis.

colocou o princípio de modo a possibilitar ao hoje, não sou a for-


estudante da AMORC invocar significado ao ma definitiva do meu ser. Constantemente
significando de nossos símbolos. temos de morrer, de um modo ou de outro,
Esse processo possibilita “invocar”, por para aquele nível de ser já atingido e renascer
assim dizer, o poder mântrico dos arquéti- para um nível superior e mais iluminado”.
pos, a chamada “alma do símbolo” que é sua
contraparte cósmica. Assim Seja! 4

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11
n ARTE

Por JULIE SCOTT, SRC

“A Aparição de Clemence Isaure aos Trovadores” (detalhe), por Henri Martin. Reimpressa com a permissão do Capitólio de Toulouse, França.

12 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


I
sis, em uma de suas manifestações,
estava presente na transmissão da
Tradição Rosacruz dos Rosacruzes
de Toulouse à H. Spencer Lewis e à
Ordem Rosacruz, AMORC, em agosto
de 1909. A Grande Mestre Julie Scott
traça a fascinante história dessa Isis
Dourada da Idade Média aos primórdios
dessa fase do trabalho rosacruz.
Em 1909 um jovem H. Spencer Lewis
se pôs diante dessa pintura, A Aparição
de Clemence Isaure (a Isis Dourada) aos
Trovadores, contemplando seu significado
místico, ocasião em que o Grande Mestre
dos Rosacruzes de Toulouse se apresentou
e direcionou H. Spencer Lewis ao pró-
ximo passo de sua iniciação na Tradição
Rosacruz, que eventualmente levou à fun-
dação da Ordem Rosacruz, AMORC.
Porque neste local, o Hall of the Illustrious
(Salão dos Ilustres), no Capitólio de Toulouse
(Prefeitura) e diante dessa pintura, o Grande
Mestre escolheu se apresentar ao místico
americano que, mais tarde, iria restabele-
cer a Tradição Rosacruz na América como
a Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis?
A resposta remonta às antigas tradições de
mistérios, perpetuadas pela nossa Ordem e
tão lindamente simbolizadas nessa pintura.

Quem foi
Clemence Isaure? Antoine-Augustin Préault, estátua de Clemence Isaure em
mármore, 1846. Parte da série das famosas mulheres nos
Jardins de Luxemburgo em Paris. Foto © 2008 por Marie-Lan
O nome Clemence significa clemência ou Nguyen, Wikimedia Commons.
misericórdia e Isaure significa Isis de ouro,
ou Isis Dourada. Várias fontes descrevem
Clemence Isaure como uma pessoa real, De acordo com a lenda, depois da mor-
que viveu no Território de Oc no final dos te de seu amado trovador, que a enaltecia
anos 1400 e no começo dos anos 1500, com as belas canções e a quem ela adorava,
cuja beleza e talento eram raros e inspira- Clemence Isaure fez um voto de castidade e
dores. Outros dizem que ela era uma per- silêncio. No entanto, antes de fazer isso, ela
sonagem fictícia criada para perpetuar as fez um donativo à cidade de Toulouse para
tradições femininas dos tempos antigos. restaurar os concursos de poesia da Gai Sa-

OUTONO 2019 · O ROSACRUZ


13
n ARTE

Baseando-se nas tradições místicas mais


antigas, as primeiras versões da Cabala
surgiram dessa área no começo do sécu-
lo XII. Os Cátaros, uma seita de místicos
cristãos cujas crenças provavelmente se
originaram nas tradições da Antiga Euro-
pa e no maniqueísmo (gnosticismo persa),
© GETTYIMAGES

também viviam em Languedoc e em outras


partes da Europa iniciando no século XI.
Os reis da França do norte (na época um
país separado) e a Igreja Católica Romana
queriam a riqueza, as terras e os convertidos
de Languedoc, principalmente os Cátaros
para que essas duas poderosas forças cons-
pirassem contra o povo de Oc, resultando
em sua perseguição e a iminente extinção
A Cruz Occitana das tradições occitanas, pelo menos em sua
presença pública nos anos 1200. Cerca de
500.000 pessoas de Languedoc, incluindo
voir, uma sociedade poética estabelecida em cristãos, judeus e outros místicos, podem
1323 por meio de um novo grupo chamado ter sido assassinadas durante a Cruzada
de Jeux Floraux. Albigense ao longo de 20 anos e, em segui-
Clemence Isaure simbolizava a nobre da, a Inquisição que durou um século.
ação, beleza e sabedoria inspiradas pela Os trovadores, que cantavam no idio-
poesia. Acima de tudo, ela representava a ma de Oc, encontraram uma forma oculta
perpetuação dos antigos mistérios, princi- de perpetuar as tradições occitanas e suas
palmente aqueles associados ao feminino fontes, os antigos mistérios, através do
e, de forma mais específica, à deusa Isis. simbolismo poético. Enquanto os trovadores
pareciam estar cantando sobre o amor de um
O Misterioso homem por uma mulher, na verdade, eles
estavam se referindo às leis do amor univer-
Território de Oc sal. Eles estavam expressando a benção da
união com o Divino e a paz que resulta desta
Na Idade Média, a metade sudeste onde comunhão. Um dos símbolos que os trovado-
agora é a França, partes da Espanha e res usavam para representar o desejo interior
Mônaco era chamada de Occitânia ou da alma por essa união mística era a rosa.
Território de Oc. Hoje essa região é cha-
mada de Languedoc (o idioma de Oc) ou
L’Occitanie. A vibrante cultura occitana A “Gai Savoir” e
permitiu direitos iguais para mulheres e
homens, incentivando a compreensão e o a “Jeux Floraux”
diálogo entre todas as fés, proporcionando Depois de intensa perseguição na área, em
uma educação excelente para seus cida- 1323 sete indivíduos em Toulouse, conheci-
dãos, e era muito pacífica e próspera. dos como os sete trovadores, fundaram uma

14 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


A Gai Savoir operava como uma Ordem,
com uma filosofia e regras que eles chama-
vam de “leis do amor”. Eles reuniram as anti-
gas tradições místicas que se espalharam ao
longo dos séculos, as preservando e discreta-
mente perpetuando.
Durante as Guerras Religiosas na França
nos anos 1500 (um século de horríveis guer-
ras entre os Católicos Franceses e os Protes-
tantes Huguenotes) a Gai Savoir adormeceu.
Mais tarde, o grupo reapareceu na forma de
Jeux Floraux, com a descoberta alegórica de
uma tumba, da mesma forma que a tumba de
Christian Rosenkreuz foi descoberta e aberta.
A tumba, que foi descoberta em Toulou-
se, foi a de Clemence Isaure, a fundadora
alegórica de Jeux Floraux. Flores também
foram encontradas nessa tumba, em alusão

“O Trovador Cantando para Seu Amor”. O “Hall of the Illus-


trious” (Salão dos Ilustres), no Capitólio de Toulouse apresenta
uma série de três murais exibindo um trovador cantando para
seu amor – como um homem jovem, como um homem de
meia-idade (como ilustrado aqui), e como um homem idoso.
A mulher, representando a eterna tradição, permanece para
sempre jovem nessa série. Foto dos Arquivos Rosacruzes.

sociedade mística chamada de Gai Savoir,


que significa “feliz conhecimento”. A missão
exotérica dessa sociedade era transformar
o mundo em um lugar melhor e mais feliz
através da poesia. Embora oculto, o signi-
ficado esotérico de suas poesias era claro
para aqueles com olhos para exergá-lo.
Os sete trovadores colocaram uma carta
em circulação para todos os poetas em
Languedoc, convidando-os para apresentar
sua poesia em um concurso no mês de maio
seguinte (1324). O painel dos sete juízes es-
colheu os vencedores, que foram premiados
com a violeta (sua cor simbolizando o grau A Primeira Reunião da Jeux Floraux, a Muito Alegre Companhia
místico mais elevado), a calêndula (represen- dos Sete Trovadores, 3 de maio de 1324, por Jean-Paul Laurens,
1912. Exibida na Grande Escadaria que leva ao “Hall of the
tando o ouro filosófico), e a rosa silvestre. Illustrious” no Capitólio em Toulouse, na França.

OUTONO 2019 · O ROSACRUZ


15
n ARTE

às premiações florais concedidas anterior-

© COMMONS.WIKIMEDIA.ORG
mente pela Gai Savoir. A basílica, na qual
dizem estar localizada a tumba, chamada de
La Dourade, se encontra no local do primeiro
Templo dos Visigodos em Gália, um antigo
templo à Minerva (Isis), que hoje é dedica-
do à “Virgem Negra” com uma bela estátua
dela olhando a capela principal do alto.

Os Rosacruzes
anunciam sua
presença na França
Em 1623, na sequência da publicação dos
três Manifestos Rosacruzes em 1614, 1615 e
1616, os Rosacruzes anunciaram sua pre-
sença na França ao fixarem misteriosos e
intrigantes pôsteres nos muros de Paris.

“Nós, Deputados do Colégio Principal


da Rosa+Cruz estamos fazendo uma
visita visível e invisível a esta cidade
pela graça do Altíssimo, para O qual
se volta o coração dos Justos.

Se alguém quiser nos ver somente por


curiosidade, jamais se comunicará
conosco, mas se a vontade o levar
realmente a se inscrever no registro
de nossa Confraternidade, nós, que
avaliamos pensamentos, faremos com que
ele veja a verdade de nossas promessas;
tanto é assim que não estabelecemos
o local de nossa morada nesta cidade,
visto que os pensamentos unidos à Poster do Salão Rosacruz, 1892.
real vontade do leitor serão capazes
de nos fazer conhecê-lo, e ele a nós.”
século dezenove e a primeira metade do
Depois disso e com as influências do Ilu- século vinte testemunharam o floresci-
minismo, Napoleão e Egiptosofia, Maço- mento das Ordens Rosacruzes na França.
naria, Martinismo, Teosofia, Magnetis- Isso incluía a Rose-Croix de Toulouse (em
mo e outras tradições, a metade final do Languedoc) e a Rose-Croix da França.

16 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


“Clemence Isaure”
– a Pintura
De 1892 a 1897, sob a direção de Joséphin
Péladan (que tinha fortes laços com a Jeux
Floraux e com a Rose-Croix de Toulouse), a
Rose-Croix da França organizava os Salões
da Rose-Croix em Paris. Esses salões, que
recebiam milhares de convidados todos os
anos, apresentava música e ritual Rosacruz,
assim como arte. O famoso compositor
rosacruz Erik Satie foi nomeado como o
diretor musical da Ordem da Rose-Croix
no começo dos anos 1890. Claude Debussy,
amigo de Satie e um dos grandes composi-
tores franceses, também era um Rosacruz.
Os Salões Rosacruzes exibiam obras de
muitos pintores do movimento do Simbo-
lismo, incluindo Henri Martin de Toulou-
se, cujas pinturas foram exibidas em 1892.
Neste mesmo ano, Martin foi contratado
para criar várias pinturas para o Hall of
the Illustrious no Capitólio de Toulouse.
“A Aparição de Clemence Isaure aos Trovadores” (detalhe),
Ele escolheu como tema a Jeux Floraux. por Henri Martin. Reimpressa com a permissão do Capitólio
Uma dessas pinturas é “A Aparição de de Toulouse, França.
Clemence Isaure aos Trovadores”. Nela,
Clemence Isaure mostra aos sete trovadores
um pergaminho da Jeux Floraux, que inclui mente por onde começar, ele escreveu a um
a rosa e a cruz. Ela está acompanhada de três vendedor de livros parisiense, que havia
Musas e da deusa Minerva, a Isis Egípcia. lhe enviado recentemente seu catálogo de
livros místicos, perguntando se ele conse-

H. Spencer Lewis guiria ajudá-lo em sua busca. O vendedor


sugeriu que H. Spencer Lewis fosse à Paris.

e “A Aparição de Na sequência de muitos acontecimentos


sincrônicos, H. Spencer Lewis conseguiu via-

Clemence Isaure jar à Paris depois de um ano e meio. Depois


de se encontrar com o vendedor e passar por

aos Trovadores” muitos testes e provações, por muitas cidades


na França, H. Spencer Lewis recebeu mis-
Em 1908, H. Spencer Lewis com vinte e teriosamente uma mensagem o orientando
quatro anos de idade teve uma experiência a ir ao Hall of the Illustrious no Capitólio
mística na qual ele foi conduzido a buscar de Toulouse num momento específico. Ele
os rosacruzes na França. Sem saber exata- não devia falar sobre isso com ninguém.

OUTONO 2019 · O ROSACRUZ


17
n ARTE

Rose-Croix de Toulouse, da Jeux Floraux e da


© AMORC

Sociedade Arqueológica de Midi, o Grande


Mestre Lassalle estava associado àqueles que
haviam conduzido H. Spencer Lewis em sua
jornada iniciatória, incluindo o vendedor
parisiense e aqueles que, mais tarde, inicia-
riam H. Spencer Lewis na Tradição Rosacruz.
À meia-noite do dia 12 de agosto de 1909,
H. Spencer Lewis recebeu sua iniciação
mística na Tradição Rosacruz em um antigo
castelo nos arredores de Toulouse. Lá ele
ainda aceitou o estatuto para restabelecer a
Tradição Rosacruz na América, perpetuando
assim os antigos mistérios que contribuíram
de forma tão significante, simbolizados lin-
damente pela imagem inspiradora de Cle-
mence Isaure, A Isis Dourada Rosacruz. 4
H. Spencer Lewis, 1915
Bibliografia: Academie des Jeux Floraux no http://jeux.floraux.
free.fr. DuPont, Paul, M.D. L’Initiation Guide du Toulouse
Mystique, publicação especial para o aniversário de 100 anos
da iniciação de H. Spencer Lewis à Tradição Rosacruz. Grande
Então, silenciosamente, ele se pôs diante Loja Francesa, 2009; “The Languedoc” no www.midi-france.
dessa pintura naquele dia, contemplando seu info/02_intro.htm.; Lewis, H. Spencer. “A Jornada de um
peregrino ao Leste” American Rosae Crucis 1:5 (Maio de 1916):
significado místico. Um homem na galeria 12-27; The Louvre Museum no www.louvre.fr; Positio Fraterni-
fez um sinal (um sinal Rosacruz), que ele tatis Rosae Crucis. San Jose: Rosicrucian Order, AMORC, 2001;
Rebisse, Christian. Rosacruz: História e Mistérios. San Jose:
havia visto em outros momentos de sua Rosicrucian Order, AMORC, 2005.
jornada. H. Spencer Lewis lhe disse, “Pardon,
Monsier, mas acredito estar me dirigindo a
um cavaleiro que tem alguma informação
para alguém que está buscando a Luz”.
O homem respondeu “Sim” em francês,
e então lhe perguntou a razão pela qual ele
escolheu estudar essa pintura específica. H.
Spencer Lewis respondeu “Porque, Monsier,
ela parece tão bela, tão maravilhosa e expres-
sa o que eu acredito. Vejo nela um signifi-
cado muito misterioso, um símbolo de...”
Satisfeito com essa resposta, o homem
então entregou uma mensagem à H. Spencer
© COMMONS.WIKIMEDIA.ORG

Lewis com instruções de como proceder.


Esse homem era o Grande Mestre da Rose-
-Croix de Toulouse, que provavelmente era
Clovis Lassalle, um conhecido fotógrafo (de
edifícios históricos e documentos arqui- Clovis Lassalle, Grande Mestre dos
vísticos) e místico de Toulouse. Através da Rosacruzes da França, 1915

18 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


n POESIA

E no tempo certo, o tempo aberto


num sopro, o silêncio cortado expira.
O grito da matéria inerte
diante das flores estáticas
colhidas para o sorriso pálido
transfigurando a paz urgente.
E num breve momento sem graça
retalhos de esperança
são desfiados nas contas do apego
pelas mãos que seguram o medo
rogando piedade, empostando a fé

© GETTYIMAGES
que escorre quente e inclemente
na chama ardente e pretensiosa
de iluminar o que já é.
Então, livre do invólucro a que pertenceu,
como pássaro à porta de seu cárcere,
a alma em apogeu
entrega ao ventre da mãe
a mortalha da vaidade.
Lançando-se por fim
num vôo livre e certeiro
como flecha na mão do arqueiro,
num alvo infinito segue a céu aberto,
no tempo certo,
levando em seu relicário
o que ficou do solitário coração
inspirando a lucidez da eternidade. 4

Por ROSANA SOUZA, SRC

OUTONO 2019 · O ROSACRUZ


19
n SIMBOLISMO

A imagem múltipla da
natureza do Homem:
da Rosa à Cruz no
decorrer dos tempos
© GETTYIMAGES / AMORC

Por RALPH M. LEWIS, FRC

20 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


O
simbolismo da cruz é tão antigo inspiração de um canto sagrado empregado
quanto a história do pensamen- há muito tempo pelos Rosacruzes. A frase
to. A cruz, na multiplicidade rosam per crucem, ad crucem per rosam,
de suas formas, teve diferentes significa literalmente “à rosa pela cruz, à
significados para diferentes povos, desde as cruz pela rosa”. Esotericamente, esse canto
nações altamente civilizadas até os homens se refere ao desdobramento da personali-
primitivos. Existem 385 tipos conhecidos dade da alma representada pelo florescer
de cruz. A maioria delas é heráldica, ou da rosa. Este desenvolvimento só pode ser
seja, composta por desenho armorial de- atingido através de provações, tribulações,
corativo. Na verdade, existem somente 10 lições e experiências representadas pela
tipos de cruz que representam significados cruz. Uma vez que “a cruz” é dominada,
religiosos tradicionais ou místicos. O sim- a crucificação do corpo, as provações e as
bolismo da cruz está ligado, por exemplo, a tribulações não são mais necessárias.
ideias como os quatro pontos cardinais, as Através desse simbolismo esotérico, o
noções de espaço e de movimento, a uni- indivíduo é levado a pensar nele mesmo
dade dos opostos e a salvação da alma. como uma cruz humana com uma rosa que
Para a maioria das pessoas do mundo brota no centro; sendo que a consciência, a
ocidental, a cruz é identificada com o cris- personalidade da alma, é a rosa. Evidente-
tianismo. Algumas pessoas acreditam até mente, esse simbolismo leva à imaginação.
que a cruz, como símbolo, nasceu no cris- Existe um atrativo poético, romântico. Mas
tianismo. O primeiro grande imperador será que a cruz e a rosa possuem uma relação
romano a se converter a esta religião foi concreta? Encontramos na ciência moderna
Constantino. Em seguida, no ano de 325, aquilo que chamamos de relação psicossomá-
Constantino adotou a cruz como símbolo tica. Digamos simplesmente que é a interação
oficial do cristianismo. No entanto, ver- entre os elementos psíquicos do homem com
sões da cruz já possuíam usos simbólicos e seu corpo. Sabemos muito bem hoje em dia
religiosos, séculos antes do período romano. que existe tal interação. As glândulas endó-
Uma das primeiras formas de cruz é a crinas, em suas secreções e suas distribuições
Rosa-Cruz. Esta cruz possui uma única rosa de hormônios, ajudam a construir a perso-
colocada na intersecção de suas partes. Esta nalidade, elemento intangível do homem.
versão da cruz tem, talvez, o significado As glândulas são válvulas de energia que
esotérico mais profundo entre todos os tipos ainda não são totalmente conhecidas. O Dr.
de cruz. Seu significado foi sacramentado H. Spencer Lewis dizia que essas glândulas
numa antiga frase latina que se tornou a “produzem no homem uma alquimia divina”.

“ Através desse simbolismo esotérico,


o indivíduo é levado a pensar nele
mesmo como uma cruz humana com
uma rosa que brota no centro…

OUTONO 2019 · O ROSACRUZ
21
n SIMBOLISMO

Consideremos a relação dessa rosa e dessa cruz tal

© COMMONS.WIKIMEDIA.ORG
como ela se reflete nas teorias da psicologia e da psiquia-
tria modernas. Podemos abordar unicamente de maneira
breve algumas das teorias mais geralmente conhecidas.
Sigmund Freud concebia três áreas básicas no funcio-
namento do espírito. Uma dessas áreas, o “isso1”, está no
inconsciente e completamente fora do contato do mundo
exterior. É a sede dos instintos e de poderosos impulsos
primitivos tais como a fome, a sede e o sexo. A segunda Sigmund
Freud
área, o ego (eu), reside no espírito objetivo consciente e
está em contato com o mundo exterior. Ele é sensível à
ética, à moral e às regras da sociedade. Freud dizia que
o eu tenta ser um freio para os impulsos primitivos do
“isso”. A terceira área à qual ele se referia era a do supe-
rego. Este aparece desde cedo na vida, e é resultado das
regras de conduta e das restrições que o homem se impôs.
Desta forma, segundo Freud, nascemos com o “isso”,
mas adquirimos o ego, e finalmente a sociedade nos
impõe o superego. Nesta concepção, vemos que a psi-
que influencia a personalidade, e que existe uma relação Alfred
Adler
entre a conduta física, as relações sociais e o ego (eu).
Opostas a esse ponto de vista, há as doutrinas de
Alfred Adler. Adler foi um célebre estudante de Freud
que discordava de seu mestre. Para Adler, a psique não
tem uma fôrma precisa da onde proviria a personali-
dade. A função da psique é a impulsão à sobrevivência.
Ela se esforça para dominar todos os acontecimentos.
Segundo Adler, a saúde do indivíduo e a sociedade,
ou o ambiente particular em que ele vive, formam a
personalidade. Além do mais, ele reivindicava que
os fatores físicos ou somáticos deviam frear a psi- Carl
Jung
que. No entanto, ele insistia firmemente a respeito da
unidade da psique e do corpo e sobre sua relação.
Outro grande aluno de Freud foi Carl Jung. Como
conclusão de seus estudos, Jung chegou a uma concep-
ção diferente da relação psicossomática. Jung acreditava
que existia algo além do inconsciente ou subconsciente
individual. Para além, ele dizia, havia uma consciên-
cia racial primitiva que representava toda a raça e que
ele chamava de “consciência coletiva”. Inerentes a esta
consciência coletiva, havia certas disposições e inclina-
ções que afetavam todos os homens. Estas inclinações Isaac
Newton
entravam no subconsciente individual como símbolos
psíquicos. Os homens podiam interpretar de forma

22 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


diferente esses símbolos, mas eles deviam ser ar corre e toca as cordas, que a harpa produz
corretamente compreendidos. Esses símbolos seu som. Cada um desses elementos é neces-
da consciência coletiva são as experiências sário ao outro para que haja efeito sonoro.
herdadas desde o início da raça humana, A psique moderna diz que a energia pode
durante seu processo evolutivo. Que elas ser convertida em massa, e que a massa pode
sejam certas ou falsas, as interpretações que novamente ser convertida em energia; mas,
os homens fazem desses símbolos herdados na mudança que ocorreu entre a psique e o
afetam sua atitude psíquica e sua conduta. corpo, não existe somente uma questão de
Qual é, então, a contribuição funda- quantidade, mas também de qualidade. Não
mental do psiquismo? A energia psíquica é é a massa ou a dimensão do corpo que torna
a energia cósmica misteriosa que vitaliza a possível as diferentes funções psíquicas. É
matéria. Podemos dizer que ela é o agente antes de tudo a complexidade, o desenvol-
catalisador que reúne as partículas de ma- vimento do órgão psíquico particular que
téria. No processo de reunião das partículas determina a plenitude da função psíqui-
de matéria, uma sensibilidade inerente que ca. O mesmo ocorre, particularmente, na
podemos chamar de “consciência” é nelas realização do desenvolvimento humano.
produzida. Depois de a matéria ser unificada Aquilo que chamamos de ego (eu), é o
através da ligação dessa energia psíquica, ela resultado da interação entre a psique e o
sofre mudanças em seu desenvolvimento. corpo. O ego não pertence exclusivamen-
A matéria viva, pelo fato de evoluir, ad- te nem à psique, nem ao corpo. Ele existe
quire tendências e tensões que se tornam potencialmente nos dois. O ego psíquico
impulsões e tendências inerentes, e que são do estado de realização não é possível sem
transmitidas à sua descendência. Finalmente, o corpo, e o ego objetivo não é igualmente
essas impulsões e tendências inerentes to- possível sem a psique. Por analogia, quando
mam forma de uma inteligência sutil. Nós as tocamos um gongo com uma baqueta, o som
conhecemos como os instintos e a intuição. é o “ego” desta ação porque ele é resultado
No entanto, esta energia psíquica, como de dois outros elementos. O som não é nem
a energia da luz visível, necessita de um a baqueta, nem o gongo separadamente.
intermediário para alcançar sua expressão. A Quando o psiquismo reage sob o cor-
luz deve ser refletida e refratada antes de ser po, as sensações de imagens se elevam na
visível ao olho. Desta forma, a energia psí- unidade dos dois. As imagens ou impressões
quica necessita agir sobre alguma coisa, bem mais íntimas da psique são misteriosamen-
como alguma coisa deve agir sobre ela para te chamadas de “eu interior”. No entanto,
que ela possa se exprimir. Sabemos que nada quando o corpo age sob a psique, as sensa-
tem uma causa simples, pois, para que haja ções resultantes são projetadas em noções de
um efeito, é necessário haver duas causas: espaço e de tempo. Os efeitos desse fenôme-
uma ativa e outra relativamente passiva. A no são chamados objetivos e eles possuem
primeira lei da mecânica de sir Isaac Newton qualidades tais como a forma e a dimensão.
demonstra esse princípio. Ela diz, em subs- Podemos, ainda, referirmo-nos à ana-
tância, que uma coisa ou condição continua logia da baqueta e do gongo para auxiliar
imutável a menos que uma força externa aja a compreensão. Quando tocamos o gongo,
sobre ela. É por isso que o corporal, o corpo, as impulsões do som escutadas no cômodo
é necessário ao psiquismo. É como o ar e as correspondem ao eu objetivo desta ação
cordas de uma harpa. É somente depois que o particular. Mas se pegamos a baqueta, perce-

OUTONO 2019 · O ROSACRUZ


23
n SIMBOLISMO

bemos que ela vibra enquanto bate no gongo. esforça para encontrar as causas primeiras
Estas vibrações são, em sentido figurado, o possíveis do fenômeno do universo. Além
eu interior da ação do gongo e do martelo. do mais, na religião e na filosofia, a parte
O eu que surge da interação da psique e concernente ao eu especula a respeito da
do corpo tenta se separar de cada um deles. verdadeira razão de tais causas na natureza.
Ele procura avaliar as verdadeiras causas das Essas qualidades do eu, o sensível e o
quais ele é composto, e o eu pode estabelecer conhecedor, podem ser combinadas de qual-
certos ditados e certas opiniões nos campos de quer maneira para formar um eu ideal? A
especulações religiosa e filosófica sobre aquilo perfeição parece ser o ideal que está associa-
que se acredita ser o eu absoluto. No entanto, da ao eu. Ela está associada à plenitude de
o grande erro dessas especulações e certas qualidades. É a transcendência
reflexões, é que não existe o eu de uma regra particular, uma
psíquico absoluto compa- condição de excelência.
rável àquilo que chama- Aqueles que aspiram à
mos de eu (ego), pois, perfeição dos atri-
como dissemos, o eu butos psíquicos do
(ego) é o resultado, eu, pensam nisso
ao mesmo tempo em termos de
da psique e do bondade divina.
corpo. Eles só Esta bondade é
© GETTYIMAGES

podem ter o po- definida como


der para produ- moralidade.
zir esse fenôme- A perfeição
no do eu, quando significa para
estão unidos. tais pessoas
Então, como o esforço para
deveríamos consi- tornar-se tão cons-
derar a verdadeira na- ciente das impulsões
tureza do eu? Para nós, psíquicas, quanto da
o eu possui duas qualida- vontade de criar no mundo
des: ele é sensível e conhecedor. um ideal que represente sua
Como sensível, o eu recebe o senti- compreensão da perfeição divina.
mento e impulsões cósmicas da força vital, a Por outro lado, aqueles que aspiram
energia psíquica. Ele recebe, ainda, o senti- à perfeição do conhecedor, que insistem
mento do ambiente no qual ele existe, sendo no aspecto do raciocínio do eu, creem na
que se trata aí de um estado de objetividade. perfeição em termos de domínio dinâmi-
O aspecto conhecedor do eu é a parte co. Em outras palavras, para eles a perfei-
que raciocina. Ele funciona de duas for- ção significa uma atividade criadora. Tais
mas: Ele procura conhecer as causas das pessoas almejam aprender os segredos das
sensações cujo eu experimenta, e tenta forças do universo e manipular a vontade de
aprender de que forma elas se produzem no tais forças. São pessoas que fazem avançar o
sentido finito e psíquico. Esta qualidade de conhecimento técnico de cada época, porque
raciocínio do eu se desenvolve nas ciên- querem realizar suas ideias de perfeição
cias e nas tecnologias. Desta forma, ele se material. Num certo sentido, estas pessoas

24 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


querem se tornar pequenos universos onde ser divino em essência, mas em substância
elas gostariam, no entanto, de estabelecer os ele não passa de um animal. Ele não deve
objetivos. Elas desejam empregar os poderes jamais ser motivado psicologicamente além
do grande universo para alcançar este fim. dos limites de seu poder mortal. O instinto,
O eu perfeito, o verdadeiro eu do homem por exemplo, não deveria ser nem completa-
não pode residir exclusivamente nem em mente freado, nem cegamente cultivado. O
um, nem em outro, ou seja, só no sensível instinto é formado por uma série de hábitos
ou só no conhecedor. Ele não pode estar primitivos que foram estabelecidos confor-
unicamente no psiquismo, e nem naquele me a escala de evolução. É por isso que o
em que chamamos de “material”. Por exem- eu conhecedor deve avaliar a utilidade dos
plo, conhecer somente nosso universo ou instintos no nosso atual estado evolutivo.
as causas cósmicas traria por resultado uma O valor particular da psique para cada
existência desbotada. O aspecto intelectual um de nós reside no fato de que ela nos
não seria suficiente. As satisfações que temos torna conscientes de uma realidade que é
através do nosso contato com a realidade maior do que aquela de nossa inteligência
dependem enormemente do psiquismo pessoal. Ela nos torna conscientes de ele-
pelo fato de que ele engendra em nós certos mentos que contribuem à nossa existência. A
estados e sentimentos emocionais. Conside- psique pode inculcar em nós, e deveríamos
remos as coisas da seguinte maneira: conhe- permiti-lo, uma responsabilidade moral
cer o fenômeno que causa um raio de sol não para o conhecimento que adquirimos. Este
iguala, certamente, o sentimento psíquico sentimento psicológico de responsabilidade
que o raio de sol pode suscitar em nós. Além é popularmente conhecido como “consci-
do mais, nenhuma palavra, por mais elo- ência”. As palavras que a consciência pro-
quente que seja, pode produzir a sensação nuncia não são adquiridas cosmicamente,
do amor de uma mãe por seu filho. Desta elas são, sobretudo, humanamente formadas
forma, não existe substituto intelectual à a partir de nossos pensamentos e de nossa
experiência mística de união com o Absoluto. linguagem. A consciência impõe sentimen-
Inversamente, no entanto, o sentimento tos de restrição sob as ações que poderiam
sem a razão pode produzir uma impulsão romper a unidade do eu. Tais impulsos da
cega. Quando somente o sentimento toma as consciência são verdadeiramente psíquicos,
rédeas do eu, isso pode conduzir ao fana- pelo fato de que eles sucedem os constran-
tismo. Os sentimentos mais profundos do gimentos que a consciência experimentou
psiquismo devem ser convertidos em causas quando o organismo físico havia rompido
razoáveis que preservem sua unidade com sua harmonia com ela em alguns momentos
o corpo, e não deveríamos jamais permitir do passado. A consciência então adverte que
ao psiquismo essa dependência recíproca. estamos trabalhando contra nós mesmos.
O intelecto, o eu conhecedor ou que Estão aí os elementos que dão signi-
raciocina (eu razoável), pode estabelecer um ficado à frase: Ad rosam per crucem, ad
ideal útil para as impulsões psíquicas que crucem per rosam. Ela também significa:
temos, e a razão pode aplicar intuições aos da psique ao corpo, do corpo à psique. 4
ideais que são compatíveis com a unidade do
eu. A razão deveria disciplinar estas faculda-
Nota da tradutora: 1. O inconsciente era também chamado
des mais elevadas. Ela deveria guardá-las no por Freud de id, palavra em latim que significa “isso”. O id
campo da vida mortal, finita. O homem pode significa a porção obscura, misteriosa da nossa psique.

OUTONO 2019 · O ROSACRUZ


25
n CULTURA

Por JOHN MARSHALL, FRC*


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26 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


A
Detalhe de uma
o pedir às pessoas que lhe digam

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múmia egípcia.

um nome ao qual associam a


expressão “Antigo Egito” essa
palavra geralmente é “múmias”.
O Egito e a antiga arte da mumificação são
tão sinônimos no imaginário popular que
a maioria das pessoas os associam auto-
maticamente, juntamente com as Pirâmi-
des e Cleópatra. Ainda assim, o propósito
por trás da prática da mumificação é
mais elusivo do que se pode imaginar.
Se você já visitou a seção egípcia do
Museu Britânico, você saberá que a quanti-
dade de visitantes que se apertam ao redor
da múmia dá à galeria uma atmosfera de
uma estação tubo lotada em um dia quente
de verão! Julgando por trechos de conversas
ouvidas lá, tenho a nítida impressão de que
os clássicos filmes de horror, retratando
múmias ambulantes trazidas de volta à vida à vida, contanto que os corretos procedi-
como zumbis, têm uma grande contribuição! mentos mágicos fossem seguidos, acidental
A curiosidade mórbida é uma falha ou intencionalmente. Os antigos egípcios
humana compreensível, mas tenho certeza faziam os mais elaborados preparativos para
que os olhos arregalados são alimentados por a acomodação daqueles que haviam passado
imagens de corpos enfaixados, vagando com pelo mundo físico. Em algum momento,
a intenção de vingança assassina por serem até mesmo os membros mais pobres da
perturbados. Não que você se importe se os sociedade poderiam receber formas mais
invólucros teriam impressionado os verda- simples de embalsamamento e enterro que,
deiros embalsamadores egípcios, pois eles anteriormente, eram concedidos apenas para
criaram os padrões mais meticulosos, puros os grandes da terra. Mas por que se esforçar
e complexos para encobrir seus mortos. tanto? Se a alma deixa o corpo no momen-
Parece ser uma parte interna do mito to da morte, por que seria tão importante
romântico de que múmias poderiam voltar preservar a casca exterior para uso contínuo?


… a morte é uma forma
de transformação, a final e
maior das transformações, e os
egípcios usavam símbolos para se
lembrarem dessa verdade.

OUTONO 2019 · O ROSACRUZ
27
n CULTURA

© GETTYIMAGES
progredir no caminho
para a iluminação.
O próximo estágio
para cada larva de
escaravelho é fiar um
pequeno casulo dentro
Escaravelho com da pelota de excremen-
bola de excremento.
to e permanecer dentro
dela, parado no tempo,
enquanto acontece uma
metamorfose gradual. Escondida dentro
deste pequeno sarcófago, a pupa ou crisá-
lida tem uma semelhança surpreendente
com a múmia humana envolvida meticu-
Larvas do
losamente em tiras de linho. Então, assim
escaravelho. como o escaravelho aguarda sua libertação
como um inseto totalmente alado, o corpo
do falecido repousa dentro de seu “casulo”
O Escaravelho até a alma surgir como um ser transfor-
mado em uma esfera nova e radiante da
Claro que, de fato, a morte é uma forma de existência. Desta forma, o falecido terá
transformação, a final e maior das trans- adquirido as suas “asas espirituais”.
formações, e os egípcios usavam símbolos
para se lembrarem dessa verdade. O esca-
ravelho de excrementos, que possui mais
de 5.000 espécies, foi considerado como Regeneração
sagrado porque seu ciclo de vida parecia O conceito de uma “pupa ou crisálida”
espelhar os estágios do destino humano. humana pode parecer improvável para
Ilustrado nas paredes do templo e da tumba nós no século XXI, mas era compreensi-
como um escaravelho rolando o sol nas- velmente óbvio para os antigos egípcios
cente em direção aos céus, o escaravelho que viam no ciclo de vida do escaravelho o
de excrementos, chamado de “Khepri” equivalente natural à mumificação diante
pelos egípcios, era especialmente sagrado. de seus olhos. Pode-se ainda argumentar
O escaravelho fêmea coloca seus ovos em que o equivalente cristão dessa transfor-
uma bola enrolada de excremento, represen- mação das pupas não é mais racional e
tando os primórdios terrestres de uma alma nem menos do que uma crença do que a
recém criada. Os ovos eclodem em larvas convicção dos antigos egípcios na vida
que passam seu tempo comendo e digerin- após a morte e no processo necessário
do o pedaço de excremento no qual estão para chegar lá. Certamente esse equi-
envoltos até atingirem o tamanho máximo valente deve ser o purgatório na crença
e estarem prontos para se transformarem cristã, um estado de purgação após a
em escaravelhos. Novamente, isso corres- morte, onde a alma aguarda o grande
ponde à vida física de uma alma, quando “dia do julgamento”, enquanto se puri-
o conhecimento deve ser absorvido para fica de todas as suas falhas mundanas.

28 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


Assim como a antiga alma egípcia era ao menos a forma do corpo do falecido
levada para o Salão de Osíris para ter seu tinha que ser mantida intacta, e a mumi-
coração pesado contra a pena da verdade, ficação era o melhor método disponível.
depois de ter atravessado câmaras terrí- Podem se estabelecer aqui paralelos com a
veis onde tinha que provar sua coragem tradição cristã com a morte de Jesus que “res-
e maturidade espiritual, os clérigos cris- suscitou dos mortos” e foi “visto em carne e
tãos medievais acreditavam que a alma osso” antes de ser transfigurado em um ser
passa por um estágio de sofrimento e de de pura luz. Essa insistência na ressurreição
limpeza no purgatório antes de aparecer física de Jesus tem sido, muitas vezes, um
diante do Criador no dia do julgamento. obstáculo para os cristãos contemporâne-
O deus com a cabeça de íbis, Toth, os, pois agora alguns colocam a ênfase na
presidia as balanças, enquanto o deus com sobrevivência da alma em vez da ressurreição
a cabeça de chacal, Anúbis, se assegurava física. Os egípcios aceitaram que se o corpo
que o embalsamamento e a mumificação “morresse” completamente durante a fase
de corpos fossem feitos em estrita confor- de pupa, então não viveria novamente no
midade com as regras, e atuava ainda como
um guia para todas as almas atravessando o
Submundo. Anúbis detinha ainda o poder
© GETTYIMAGES

da regeneração, o que parece ser um indí-


cio da necessidade egípcia da preservação
A Ressurreição
do corpo. Se a alma fosse transformada de Cristo.
em um novo ser apto a adentrar o nível
mais elevado da existência, era óbvio que

O julgamento dos mortos


na presença de Osíris.

OUTONO 2019 · O ROSACRUZ


29
n CULTURA

outro mundo. Somente através desse estágio

© GETTYIMAGES
de transformação em pupa, a alma dos que
partiram poderia aspirar a se tornar uma
das estrelas fixas do céu noturno, a morada
final de todas as almas que foram “elevadas”.
O poder latente por trás dessa anima-
ção suspensa é melhor ilustrado pela lenda
de Osíris. Apesar de tudo que seu irmão
e rival mortal, Seth, fez para destruir toda
a sua memória, o corpo fragmentado de
Osíris foi coletado pedaço a pedaço pelo
O voo do
sua irmã-esposa Ísis, reconstituído e revi- escaravelho.
talizado por apenas um dia para que ela
pudesse conceber um filho dele. Neste
sentido, Osíris renasceu em seu filho, o deus o tempo. Parece que estamos presos numa
falcão Hórus, o Ser radiante que emergiu terra de ninguém e, ainda assim, quando a
de Osíris mumificado, tão certo como o mudança chega, a celeridade nos pega de
escaravelho alado surge de sua crisálida. surpresa. A transformação só pode aconte-
cer devagar, interiormente, esperando que
Nossa o nosso verdadeiro Ser amadureça e, final-
mente, se revele. Mas quando começa a se
Transformação manifestar, acontece com relativa rapidez.
Tudo na vida tem um propósito, mes-
Espiritual mo que o plano possa nos iludir. Nenhuma
experiência é desperdiçada e nossas novas
Você deve ser perdoado por perguntar se perspectivas são paradas ao longo do ca-
isso tem alguma relevância em nossas vidas minho. Longe de lamentar os erros que
cotidianas. Tem! O ciclo de vida do esca- cometemos no passado, devemos aceitar
ravelho em evolução pode ser comparado que eles provavelmente foram necessários
com os marcos em nossa própria jornada para alcançarmos nosso atual estado de
espiritual. O ovo é como o bebê humano, consciência. O escaravelho não pode emer-
ainda esperando para revelar seu potencial. gir como um adulto alado até passar pelos
Então vem estágio “larval”, uma grande parte seus estágios larval e de pupa. Assim como
da vida em que aprendemos, vivenciamos e não podemos evoluir ao longo do caminho
assimilamos o máximo possível. Aqui nós espiritual sem passar pelos estágios essen-
seguimos nossa jornada espiritual..., pedin- ciais para a nossa nutrição e crescimento.
do, buscando, lendo e ouvindo..., tentando Cedo ou tarde todos nós vamos emergir
adquirir um conhecimento mais profundo de em um mundo que se tornou radiante pelo
nós mesmos através da meditação, devoção nosso novo senso de consciência, carregan-
aos ideais mais elevados e serviço aos outros. do conosco as sementes das futuras trans-
Na sequência, há o estágio de “pupa ou formações na medida em que os ciclos de
crisálida” no qual muito está acontecendo vida se transformam repetidas vezes. 4
conosco, embora possa parecer que não
estamos fazendo nada mais do que marcar * Rosicrucian Beacon – junho de 2018, Vol. 27, nº 3.

30 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


POLO TURÍSTICO E CULTURAL EGÍPCIO DA CIDADE
INAUGURA MUSEU AO ESTILO EUROPEU.
Maior complexo egípcio do país, a Ordem Rosacruz, AMORC, em par-
ceria com o arqueólogo egípcio e cientista Zahi Hawass, por meio do
projeto da empresa “Laboratorio Rosso”, da Itália, lançam em Curitiba
no segundo semestre desse ano
um novo museu: O Rei Menino
de Ouro: Tutankhamon.
Especialista na história do Fa-
raó Tutankhamon, o professor Zahi
Hawass concebeu a ideia e desenvolveu o conceito do novo museu.
Ao contrário do Museu Egípcio e Rosacruz que trabalha uma
nova temática para suas exposições a cada dois anos, o novo
espaço será totalmente dedicado a expor a história de Tutankha-
mon apresentando ao público réplicas fiéis às originais de al-
gumas das peças que foram encontradas em sua tumba no ano
de 1922. Essas peças foram confeccionadas pelo laboratório do
Conselho de Antiguidades do Egito, no Cairo.
Na escolha das peças que estarão em exposição no museu
O Rei Menino de Ouro: Tutankhamon levou-se em conside-
ração os artefatos ícones, os mais conhecidos, da tumba de Tu-
tankhamon. Os objetos selecionados estão relacionados ao po-
der real, associados ao cotidiano, ao divino e à garantia de vida
além tumulo desse rei. A disposição delas será em um ambien-
te organizado em quatro seções: Descoberta e apresentação do
vídeo da tumba de Tutankhamon, Vida de
um Rei, Religião e vida após a morte, e
Morte e Sepultamento.
Nesse trabalho para o novo mu-
seu da Ordem Rosacruz, AMORC,
“O Rei Menino de Ouro: Tutan­
khamon”, o Laboratorio Rosso fi-
cará responsável por desenvolver
o projeto museológico, o projeto
museográfico, o design gráfico,
ZAHI HAWASS, PROFESSOR além da produção de materiais
DOUTOR E ARQUEÓLOGO EGÍPCIO audiovisuais.
n TRADIÇÃO

Por MAXIME QUINTAL, FRC*

Morning Prayers
(Orações da Manhã), por
Otto Pilny (1866-1936).

32 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


A
natureza dos Essênios e dos
Manuscritos do Mar Morto
continua atraindo gerações de
buscadores. Este texto de 1967
adaptado do Rosicrucian Digest considera os
aspectos místicos da tradição dos Essênios.
Houve ansiosa expectativa nos anos se-
guintes à Segunda Guerra Mundial, quando
os Manuscritos do Mar Morto foram desco-
bertos. Foi uma descoberta que engendrou
uma consciência crescente de uma ordem
única cercada de mistérios por séculos.
Quem eram os Essênios que se referiam a si
mesmos como “os filhos de Zadoque”? Como
essa comunidade mística evoluiu e por quê?
A etimologia da palavra Essênio (um tó-
pico discutível) é egípcia. Na verdade, é uma
derivação da palavra Kashai, que significa
segredo. Também significando segredo e
silêncio existe a palavra judaica de som pare-
cido, chsahi, que é traduzida como Essênio.
A verdadeira origem dos Essênios se en-
contra na estranha terra do Egito, onde ini-
ciados das antigas escolas de mistérios adota-
ram os mistérios de Osíris em seus templos,
nos quais uma “gnose secreta” ou “superiori-
dade de conhecimento” era transmitida oral-
mente aos neófitos, que eram testados e pro-
vavam ser dignos, perpetuando assim uma
antiga tradição. Em estrito sigilo e confiabili-
dade os Kheri-Habs (Mestres, Sacerdotes Lei-
tores) transmitiam aos buscadores a verdade
e a sabedoria esotérica, que recebiam através
do juramento de nunca as revelar às massas
profanas ou em manuscritos em papiro.
Estudantes vinham de longas distâncias
para estudar filosofia em Tebas, Heliópolis e
Alexandria, onde as escolas de mistérios ha-
viam se estabelecido. Muitos profundos pen-
sadores viajaram ao Egito, entre eles estavam
Salomão, Pitágoras, Tales, Platão e Demócri-
to. A partir do Egito, essa gnose ou conhe-
cimento esotérico se espalhou para outras
terras durante os séculos que antecederam a

OUTONO 2019 · O ROSACRUZ


33
n TRADIÇÃO

Os Manuscritos do Mar Morto, textos e fragmentos de texto, encontrados em cavernas de Qumran.

Era Cristã; na Grécia foram encontradas as

“ De fato, os Ordens dos Terapeutas e dos Pitagóricos e,


na Palestina, a Comunidade dos Essênios.
Essênios eram No período entre as Escrituras Hebraicas
e o Novo Testamento Cristão, os Essênios
uma maravilha do da Palestina (havia ainda uma organização
dos Essênios em Alexandria) já haviam
mundo antigo e estabelecido uma divisão no norte de Ein
têm sido chamados Gedi na costa oeste do Mar Morto. Flávio
Josefo, um historiador judeu, afirma que
de ‘Irmãos e Irmãs os Essênios podiam ser encontrados em
todas as cidades... Eles não eram uma seita
de Veste Branca’, religiosa, como muitas vezes alegado. No
entanto, os Fariseus e Saduceus os teriam
‘Os Silenciosos’, considerado como tal, uma vez que as
‘Os Puros’ e ’Os doutrinas dos Essênios eram consideravel-
mente diferentes daquelas mais antigas.
Doutores’.

Seu líder espiritual era denominado
“Professor da Retidão” e a comunidade

34 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


o via como um Messias (Mashiah) ou “O tinham escravos e cada membro precisava
Ungido”. Os comentadores essênios, em fazer a sua parte do trabalho servil. Eles não
sua exegese, interpretaram as passagens do ofereciam sacrifícios. Eles não faziam jura-
Servo Sofredor de Isaías remetendo ao seu mentos, pois as suas palavras eram a garantia.
próprio Professor da Retidão. A passagem A população da época sabia disso, pois até
do Livro de Habacuque 2:4, que diz: “...o mesmo o Rei Herodes, o Grande (37-34 a.C.),
justo pela sua fé viverá”, que os teólogos os dispensou de fazerem o juramento de fi-
interpretaram como Jesus, está no Manus- delidade à coroa. Eles também não participa-
crito de Qumran interpretado como “o justo vam de discussões sobre religião ou política.
pela sua fé viverá no Professor da Retidão”. Os Essênios construíram hospices (o
Os antigos historiadores Fílon de Alexan- precursor dos hospitais modernos) em
dria, Plínio, o Velho, e Josefo escreveram sobre muitos distritos para ajudar os pobres e
esses Essênios em suas histórias. Seus escritos necessitados e para abrigar viajantes can-
refletem a profunda admiração e respeito sados. Isso fazia parte de suas atividades
que sentiam pelos associados à Comunidade humanitárias. Fílon disse que os idosos entre
dos Essênios. De fato, os Essênios eram uma eles eram vistos com reverência e honra.
maravilha do mundo antigo e têm sido cha-
mados de “Irmãos e Irmãs de Veste Branca”,
“Os Silenciosos”, “Os Puros” e “Os Doutores”. O manual da
disciplina
Vida na A Comunidade da Nova

comunidade Aliança tinha estatutos que


mantinham rígida disciplina
Os Essênios praticavam uma forma de vida entre seus membros. Seu
comunitária dentro de sua propriedade, código e preceitos
que pertencia igualmente à comunidade, estão publicados
um sistema que foi adotado pela Igreja com os títulos O
Primitiva. Nesta comunidade havia uma Manual da Discipli-
Segunda Câmara, ou uma Hierarquia, que na e o Documento
incluía doze indivíduos e três sacerdotes. de Damasco. Uma
Era necessário que seus iniciados servissem cópia do Docu-
por um período probatório de dois anos. mento de Damasco
Eles não estavam autorizados a partilhar da foi encontrada em
Refeição Pura da Congregação até a conclu- uma genizah (um Fragmento do “Documento de
Damasco”, 4Q271Df, encontrado
são de seu primeiro ano, nem da Bebida da depósito para escri- na Gruta 4 em Qumran.
Congregação até a conclusão de seu segundo tos hebraicos e objetos
ano. Os candidatos aceitos pelo Conselho da ritualísticos danificados) no Cairo, no início
Comunidade usufruíam então dos privilé- do século XX, e foi publicada em 1910 por
gios da comunidade e suas posses pessoais Solomon Schechter com o título Fragmentos
formariam parte dos recursos comuns. de uma obra Zadoque, enquanto O Manual
A comunidade era autossuficiente. Eles de Disciplina também foi publicado como A
praticavam a agricultura, embora não fossem Regra para toda a Congregação de Israel nos
exclusivamente vegetarianos. Eles não man- Últimos Dias e A Regra da Comunidade.

OUTONO 2019 · O ROSACRUZ


35
n TRADIÇÃO

Estudiosos modernos afirmam que Jesus era um membro da Ordem dos Essênios (pintura com título e autor desconhecidos).

Em sua vida comunal, eles eram severos sessão. Por qualquer uma dessas ofensas, o
principalmente com aqueles membros que membro faria penitência e seria excluído
mentiam deliberadamente sobre questões de temporariamente da “Pureza dos Muitos”.
posses pessoais, guardavam rancor contra Embora os Essênios, como uma organi-
o outro, transgrediram qualquer uma das zação secreta, fizessem seu trabalho discreta-
leis de Moisés ou falavam enraivecidos a um mente, de tempos em tempos alguns membros
sacerdote ou companheiro. Em tais casos, o saíam e ensinavam em público. O famoso
membro seria excluído da Assembleia por essênio Menahem se tornou popular por sua
um período e faria penitência. Em alguns profecia de que Herodes iria um dia reinar
casos o membro poderia ser suspenso, mas como Rei dos Judeus. Um outro essênio era
reintegrado por um período probatório para João Batista, que Jesus dizia ser o regresso de
consideração de seu caso pelos “Muitos”. Elias. João anunciou o advento do esperado
A punição por difamação ou murmúrios Salvador. Ele conclamou ao arrependimen-
contra a Comunidade era a excomunhão to e praticou o rito essênio do batismo. A
por toda a vida. Durante uma assembleia da semelhança entre o pensamento essênio e a
congregação, eles sentavam-se em sequên- teologia de Jesus é tão próxima que os estu-
cia hierárquica e falavam de acordo com o diosos modernos afirmam que Jesus era um
seu grau de progresso. Eles desaprovaram a membro da Ordem dos Essênios. Os Essênios,
fala insensata ou a risada tola, falar fora de não diferente de muitas seitas judaicas que
hora ou interromper outra pessoa enquanto floresceram na Palestina, tinham previsto que
ele ou ela estivesse falando. Essas transgres- o Messias nasceria dentro do seu rebanho.
sões eram punidas, assim como dormir ou O desaparecimento misterioso dos
se expor desnecessariamente durante uma Essênios tem levado por muitas vezes à

36 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


crença de que eles se uniram e se tornaram manuscritos da sua biblioteca nas cavernas
parte do movimento cristão. Isso parece de Qumram que ficavam nos arredores. Eles
ser pouco provável, pois os Essênios não então peregrinaram para o Monte Carmelo
eram um grupo missionário. Seus membros na Palestina, onde estabeleceram sua sede.
formavam uma escola esotérica e a afiliação Como estudantes místicos, os Essênios
era limitada a poucos buscadores sinceros e buscavam o summum bonum da existência – a
dignos. No entanto, não deve haver dúvidas evolução de seu ser espiritual. Eles buscavam
de que eles apoiavam entusiasticamente a um estudo e uma jornada para a harmoniza-
Igreja Cristã primitiva. De fato, a influên- ção com o próprio Deus, a iluminação adqui-
cia dos Essênios no Cristianismo tem tra- rida de suas experiências era para aprimorar
zido com frequência a declaração de que a fibra moral de sua existência e seus serviços
o Essenismo é “a mãe do Cristianismo”. humanitários para o mundo. Eles viviam com
simplicidade e humildade, com temperança

As escrituras e equilíbrio, e com pureza de verdade. 4

Zend-Avesta
* Rosicrucian Digest – Vol. 45, nº 11, novembro de 1967.

Eles foram estudantes das escrituras Zend-


© GETTYIMAGES

-Avesta e dos livros e escritos proféticos do Caverna em Qumran,


onde os Manuscritos
Antigo Testamento, o que incluía os Apó- do Mar Morto foram
encontrados.
crifos e os Pseudoepígrafos. Na biblioteca
de Qumran, fragmentos de cada livro do
Antigo Testamento, exceto o Livro de Ester,
foram encontrados. Inteiramente preservado
está o texto do Livro de Isaías. Alguns dos
livros encontrados nas cavernas de Qumran
uma vez formaram o Cânon Bíblico, mas
foram em algum momento descartados –
como o Livro de Enoque, o Livro dos Ju-
bileus e o Testamento dos Doze Patriarcas.
Os Manuscritos do Mar Morto precedem
os manuscritos mais antigos existentes
até então do Antigo Testamento - o Texto
Massorético Hebraico - em quase mil anos.
O que aconteceu com os Essênios?
Acredita-se que eles fugiram de sua Comu-
nidade no Mar Morto durante a Primeira
Guerra Judaica (66-70 E.C.) quando a Déci-
ma Legião Romana estava nas proximidades.
De alguma forma, os Essênios previram isso,
pois eles se prepararam cuidadosamente
para partir. No entanto, um sério problema
era lidar com o transporte dos manuscritos.
Sabe-se agora que eles esconderam parte dos

OUTONO 2019 · O ROSACRUZ


37
n MISTICISMO

Por CECIL POOLE, FRC*

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38 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


A
palavra “santuário” tem diferentes significados para pessoas diferentes. Muitos
a interpretam em termos religiosos, aplicando a palavra à área física de um
templo, mesquita, igreja ou outro lugar que consideram sagrado. Para outros, isso
significa uma libertação da responsabilidade e dos problemas, simbolizando uma
fuga dos problemas que são, inevitavelmente, parte da vida cotidiana de cada pessoa.
Para outros, porém, a palavra tem pouco significado. Diante das demandas
de um mundo objetivo em um esforço incessante para se manterem ocupados
mental e fisicamente, as pessoas não reconhecem objetivamente a necessidade
de se afastar dessas demandas que elas permitem dominar suas vidas.

O que é um Santuário?
Claro que o significado de várias palavras se baseia na experiência e no histórico do
indivíduo. Todos nós atribuímos a várias palavras e frases significados que sentimos
que elas expressam, e essas interpretações não são necessariamente sempre iguais
ao significado do dicionário, geralmente acordado pela sociedade. No entanto,
Santuário deve trazer para todos a conotação de que há alguma forma de libertação
para uma mente preocupada. O Santuário deve prover os meios pelos quais é possível
desprender-se daquelas coisas que causam dor e sofrimento, seja físico ou mental.
Com toda a dor, sofrimento e tristeza que existe em nosso mundo, temos
que encarar os fatos da existência e nos darmos conta de que nem todas as
razões para os acontecimentos são conhecidas por nós. O propósito de
alguns acontecimentos só pode ser explicado quando conseguimos nos
afastar das demandas habituais da vida diária e analisar cuidadosamente,
internalizar e arquivar as experiências que tivemos. Ao “nos apropriarmos”
de nossas experiências dessa forma, temos uma melhor visão geral
das coisas, uma visão inteiramente separada das considerações
objetivas e triviais da vida cotidiana. E essa visão é absolutamente
essencial para o nosso contínuo crescimento espiritual.
Um livro foi publicado há alguns anos contendo em seu título
as palavras: “Não há lugar para se esconder”. Esse livro pressupõe
que a Terra deve sofrer um acontecimento catastrófico, como
aconteceu muitas vezes no passado, sendo o mais notável o fim da era
dos dinossauros, e não haveria nenhum lugar onde qualquer um pudesse
estar seguro. O livro enfatizou o fato de que grande destruição é possível,
independentemente de onde estiver o indivíduo teria pouca chance de
escapar das consequências de algum acontecimento em nível de extinção.

“… sempre houve um lugar no qual


podemos nos refugiar, se quisermos,
e certamente esse lugar é interior.
” OUTONO 2019 · O ROSACRUZ
39
n MISTICISMO

Um Lugar de Retiro nossas obrigações. Toda semana, há uma ou


duas histórias de alguém que simplesmente
Se aplicada puramente ao meio físico e ao desapareceu da vida, deixou família e dívidas,
ser humano físico, essa afirmação certamen- e assim aparentemente conseguiu escapar das
te é verdadeira. É muito desanimador olhar obrigações que sentiu estarem lhe pressionan-
para o futuro com o constante pensamento do. Mas poucas dessas pessoas realmente se
de que algum acontecimento acabará em retiraram por um bom motivo, e cedo ou tar-
algum momento com a vida e a civiliza- de a lei os alcançou. Eles pareciam criar con-
ção como a conhecemos. A afirmação de dições semelhantes onde quer que fossem, e
que “não há lugar para se esconder” pode se eles escaparam a fim de evitar o pagamento
literalmente ser verdade no que se refere de dívidas em um lugar, dívidas de outro tipo,
ao nosso ser material e posses materiais na cedo ou tarde, se acumulariam novamente.
vida cotidiana. Mas, além das realidades A maioria das pessoas não percebe que o
físicas catastróficas, sempre houve um lugar meio ambiente, nossas circunstâncias espe-
no qual podemos nos refugiar, se quiser- cíficas, é tanto uma causa como um efeito
mos, e certamente esse lugar é interior. de como pensamos, sentimos e agimos. No
Ao usar a palavra “retiro”, não quero começo do século XX, os psicólogos esta-
dizer tentar escapar das consequências de vam inclinados a basear o comportamento
sua existência ou tentar evitar as consequ- humano, quase exclusivamente, na influên-
ências de suas ações e atitudes. Retirar-se, cia do meio ambiente. Acreditava-se que o
nesse sentido, significa simplesmente pro- ambiente moldava o caráter e a personalidade
curar abrigo interiormente de tal forma que do indivíduo e que, portanto, ele era inteira-
se obtenha uma perspectiva mais ampla das mente um produto desse ambiente. Isto é uma
coisas. Retirar-se da vida sempre tem sido o aplicação da filosofia mecanicista que preva-
desejo de muitas pessoas. Em todas as eras lecia naquela época. Se isso fosse totalmente
da história, independentemente da extensão verdade, para resolver qualquer problema
do avanço da civilização ou das realizações tudo o que seria necessário era fugir de seu
físicas, mentais e outras da humanidade, ambiente. Nesta teoria, a visão do fato de que
sempre houve aqueles que eram reclusos, ou os seres humanos são mais do que várias fases
seja, que se isolavam do mundo físico, a fim do seu ambiente estava perdida. Eles não são
de evitar a responsabilidade de arcarem com formados apenas da matéria, mas também
as consequências do ambiente de sua época. de outras substâncias menos tangíveis.
Esses indivíduos se recolhiam em cavernas A vida em si é um fator que não pode
ou mosteiros e, em um caso, no topo de ser explicado exclusivamente pela compo-
um pilar, com o sincero propósito de que, sição material. Consequentemente, entre
ao fazerem isso, seriam capazes de melhor a entidade humana e o ambiente não há
servir a seu Deus. Muitas vezes um desejo de uma rua de sentido único, há constante
se retirar do mundo se deve a um conceito interação. Nosso ambiente afeta cada um
psicológico pessoal, um desejo de se afastar de nós e, por sua vez, nós afetamos o nosso
das obrigações da vida e, assim, evitá-las. ambiente. E nossa própria personalidade,
Podemos conseguir nos afastar ou nos hábitos e comportamentos tendem a afetar
retirar das demandas imediatas de obrigações o ambiente em que vivemos. Se nos afastar-
físicas, ao menos por um tempo. É possível, mos desse ambiente, não necessariamente
pelo menos teoricamente, nos aliviarmos de resolver nossos problemas, nós só criamos

40 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


os mesmos problemas em outras situações. que provoca paz e fortalece os nossos valores
Em outras palavras, não há retiro do ser. mental e espiritual inerentes. Nesse encon-
O ser é contínuo e está sempre conosco. É a tro de mentes, podemos ser encorajados, ou
nossa fase que perdura, independentemente receber inspiração ao lidar com os problemas
da condição do mundo físico ou do ambien- que são parte do nosso ambiente cármico.
te em que vivemos. É possível se afastar dos O Santuário para todas as pessoas é a
problemas do mundo físico temporariamente, capacidade de encarar a vida consistente-
e até mesmo nos refugiarmos para adquirir mente com confiança e com a habilidade de
alguma inspiração ou perspectiva sobre como realizar tudo o que é necessário em sua vida.
melhorar a forma de lidar com os problemas A maior conquista que podemos alcançar
que o nosso meio ambiente e obrigações é sermos capazes de deixar sem resposta
exigem de nós. Mas não é necessário ir a algumas das questões que não são ime-
algum lugar para fazer isso. Alguns viajam diatamente visíveis no que se refere ao seu
longas distâncias para entrar em um mosteiro, propósito, e encontrarmos uma força inte-
para encontrar um lugar onde eles possam rior que nos leva a nos ajustarmos ao nosso
ficar sozinhos. Mas o resultado definitivo ambiente de uma forma que contribuirá
de tal tentativa é que eles ainda estarão com para o desenvolvimento da paz de espírito.
si mesmos e ainda enfrentarão a si mesmos O Sanctum Celestial moderno da Ordem
onde quer que forem. Lembre-se, você leva Rosacruz satisfaz um desejo que todos temos
o seu ser consigo onde quer que você vá. de um lugar ao qual podemos nos retirar vo-
luntariamente. É um ponto

Sanctum Celestial de absoluta privacidade


porque se trata da priva-
Nos anos 20, o antigo Imperator da Ordem cidade do ser. E nele você
Rosacruz, Dr. H. Spencer Lewis, estabe- pode encontrar, assim
leceu o conceito grupal de um “Sanctum como milhares antes de
Celestial”, um “santuário” no sentido mais você encontraram, um
amplo possível do termo. Na sua época, ele ponto de contato com
o chamava de “Catedral da Alma”. É um os poderes ou forças
apelo a todas as pessoas que gostariam de que suplantam aqueles
se retirar temporariamente das demandas que brincam ao nosso
de seu ambiente em busca de libertação redor no nosso meio e
do cansativo trabalho e das responsabili- que criam problemas
dades que são parte da vida de todos. triviais da vida física.
Para entrar em um santuário teórico, ou Sendo você um
podemos dizer mental, não é necessária ne- membro da Ordem Rosacruz ou
nhuma ação física. Precisa-se simplesmente da não, nós o convidamos a entrar em contato
associação da mente com pessoas de mentes e conosco e solicitar o livreto chamado de Liber
propósitos afins, e um forte desejo de se unir 777 que explica como o Sanctum Celestial
a eles se harmonizando com os mais elevados proporciona um santuário, livre de qualquer
níveis da experiência espiritual que os huma- restrição que possa ser imposta por pessoas,
nos são capazes. Por meio de um processo para a reabilitação do espírito humano. 4
específico, um breve período de um silêncio
interior completo pode ser encontrado, o * Rosicrucian Beacon – Junho de 2018, Vol. 27, nº 3.

OUTONO 2019 · O ROSACRUZ


41
n PERSONALIDADE

DIA.ORG
© COMMONS.WIKIME

Por BERNARD COUSIN, FRC*

42 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


R
ichard Wagner é antes de tudo na maravilhosa viagem que lhes farei empre-
um poeta, pois pensou em mi- ender. Deixai todo o orgulho e toda a vaidade
tos. Fala-se ordinariamente de- e entrai no santuário de Bayreuth!”2.
mais sobre o sentido filosófico e Os fatos nos revelam que Wagner queria
esquece-se sua poesia! Wagner é de fato um que sua música fosse escutada, no sentido
músico especial e extraordinário que, pode- próprio do termo: “Fechai os olhos e escutai”.
-se dizer, emitiu num comprimento de onda A partitura só nos permite penetrar as
muito preciso que é preciso encontrar. “estruturas” – as “artimanhas” geniais da
Sendo antes de tudo um poeta, sua músi- composição wagneriana. Seguir a partitura
ca é apenas um dos seus modos de expressão; durante uma audição nos mostra as coxias,
o outro é o teatro, que sempre dominou sua o lado técnico e o verso do cenário, mas isso
vida desde Leubald até Parsifal. Sonhan- salienta apenas o plano da inteligência. Ao
do imitar Shakespeare em sua juventude, assistirmos a um filme, não nos preocupa-
inspira-se então na tragédia grega, da qual mos com as câmeras e com os projetores.
ele toma e transforma o coro e seu papel de Vemos apenas aquilo que nos é mostrado,
comentarista cúmplice numa orquestra ins- ou seja, aquilo que é preciso ser visto. Em
pirada em Beethoven, embora amplificada. Wagner acontece a mesma coisa: é preciso
Originalmente, Wagner não era músico. Tra- ouvir apenas aquilo que é necessário. Seguir
ta-se de um poeta que recorreu a um gênero a partitura é trapacear. (Devemos todavia
de expressão externo à palavra para intensi- especificar que a leitura da partitura pode
ficar a emoção de seus dramas. Se Wagner se nos ajudar a captar a combinação de leitmo-
revela um gênio musicalmente, isto se deve tivs, assim como o conhecimento perfeito do
apenas às suas obras: “A música intervém libreto3 é indispensável para a compreensão).
quando a palavra se torna impotente”. A inteligência exclusiva não pode por-
O músico não encontrará em Wagner tanto ser conveniente numa audição, pois
os atrativos das sinfonias de Beethoven, por não é através dela que se pode compreender
exemplo, pois a música de Wagner não con- Wagner, e sim pela intuição. Inteligência e
siste num desenvolvimento de temas confor- intuição são duas esferas diferentes e não se
me regras estritas, mas sim numa superpo- pode falar de uma estando dentro da outra e
sição de leitmotivs1 relacionados ao drama. vice-versa. Como então uma obra de Wagner,
Wagner nos impõe sua música, que não é feita sendo fruto da inteligência – inteligência
nem para ser analisada e nem para ser segui- estimulada pela inspiração – pode apresen-
da com a partitura, mas unicamente para ser tar tal poder evocador para a intuição?
ouvida num contexto dramático, pois, como É na partitura que reside o gênio, pois é
dizia Rossini: “É só no teatro que se pode jul- nela que se encontra a ponte entre as duas
gar uma música destinada ao palco”. Mas nem esferas, a da inteligência e a da intuição.
mesmo Wagner pode nos dar esclarecimentos A partitura é o verso do cenário, lá onde
sobre sua música. Vemos aqui vir à tona o estão as “estruturas” que agem sob os re-
culto ao personagem: o deus de Bayreuth, sultados. É pela manipulação de “fenôme-
único mestre de seu universo. Que descul- nos” que Wagner reconstitui o Númeno,
pem-me essa pequena blasfêmia, mas Wagner para emprestarmos os termos kantianos.
é um Jesus Cristo em seu gênero, no sentido A intuição está portanto noutro plano além
em que nos diz: “Vinde a mim como a um da inteligência – noutra esfera alcançada brus-
pai, humildes e confiantes. Deixai-vos guiar camente por um patamar. É uma brusca toma-

OUTONO 2019 · O ROSACRUZ


43
n PERSONALIDADE

da de consciência da atmosfera wagneriana. leitmotivs, o bloco compacto dos atos, sem


Não vem lentamente, mas sim brutalmente cortes, sem silêncios e portanto sem divisões
com a implacabilidade do gênio. Chega de possíveis (não se pode nunca dizer com preci-
uma vez só, não importando quando. Existe, são quando em Wagner se passa de uma cena
pois, de modo inegável, uma grande dificulda- a outra), convergendo para essa abolição do
de para atingir esse patamar. Todavia, Wagner tempo; e não seria este o único meio de expli-
nos ajuda nesse esforço. Ele nos dirige, desde car essa frase de Gurnemanz a Parsifal?:
que sejamos dóceis. A intuição wagneriana
consiste numa extrapolação da consciência: na PARSIFAL – Ich schreite kaum – doc wähn’ ich
abolição do tempo. Ora, todo homem vive no mich schon weit.
tempo e sozinho não pode deixá-lo. O gênio GURNEMANZ – Du siehst, mein Sohn, zum
de Wagner o ajudará nesse particular. Raum wird hier die Zeit.
Wagner construiu seu próprio tempo,
diferente do tempo objetivo. Como num O que na tradução de M. Beaufils4 resulta em:
sonho, não se trata de suprimi-lo totalmen-
te ou de considerá-lo normalmente, mas PARSIFAL – Acabo de começar a caminhar e já
sim desarticulá-lo e desossá-lo para que ele sinto-me tão longe.
possa se alongar ou encolher variavelmente. GURNEMANZ – Vê, meu filho: espaço e tempo
Foi preciso atingir certo nível na história aqui são apenas um.
das civilizações para introduzir essa noção
científica de unidade de tempo. Neste senti- Sendo o tempo abolido, o ouvinte considera-
do, Wagner, tendo conservado o tempo que rá então, de um bloco, o ato: é lá que reside a
é o próprio do homem, embora havendo-o atmosfera wagneriana: fora do tempo.
desarticulado, remonta assim às sensações Entretanto, em Parsifal, os silêncios são
puras e primárias do ser humano. muitos e o ato não mais forma um bloco com-
Wagner nos ajuda a nos extrapolarmos pacto, uma vez que pode-se facilmente dele
para fora do tempo: é a preparação pelos retirar excertos – coisa difícil por exemplo em
prelúdios. Consideremos o prelúdio de Lo- Tristão e no Anel dos Nibelungos. Mas por que
hengrin, seus primeiros acordes sobretudo, o querer considerar estes silêncios como uma
prelúdio do Ouro do Reno, verdadeira gênese, barreira – como uma separação entre duas
ouvido em sonho, o prelúdio de Siegfried, partes? O silêncio aqui faz parte da música –
com seus ritmos que se esboçam tão lenta e faz parte do seu corpo. Escutemos Lavignac
penosamente, o de Tristão e Isolda, todo em falar dos silêncios do prelúdio que se repe-
semitons e, sobretudo, o de Parsifal. Não po- tirão através de toda a obra: “Estes silêncios
demos nos furtar de observar sua semelhan- solenes são prodigiosamente eloquentes e
ça: parece que Wagner quer nos desencarnar expressivos. Sentimos que há que se meditar
desse mundo terrestre por meio da meia- profundamente sobre o assunto ímpar que
-tinta enfeitiçadora e irreal dos prelúdios. Em acaba de ser exposto – e assim o fazemos”5.
Bayreuth, além disso, escuta-se os prelúdios A atmosfera wagneriana não está no ins-
mergulhado na escuridão. É a fronteira do tante, mas no ato, de modo que pode-se qua-
tempo, a passagem entre esse mundo tem- se dizer que surge após a audição.
poral e a própria obra viva. Os atos, por ve- Wagner remói nas grandes profundidades
zes longos, nos ajudam a perder a noção do do lago de nosso eu esse “indefinível”, uma
tempo. Tudo, a música, o encadeamento dos vez que “não exprimido” pela linguagem e

44 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


Leitmotif (motivo condutor) de “Siegfried” de Wagner (1876)

que os tempos modernos não nos deixam Há um ciclo concebido por Wagner. Tome-
sentir. É a era positivista e sua alienação da mos o exemplo dos Murmúrios da Floresta ou
linguagem. Wagner se contenta com a lingua- do Encantamento da Sexta-feira Santa. Essas
gem, introduzindo-a como um simples fio na páginas foram todas inspiradas por um “amor
trama orquestral. Suprime assim a dualidade à primeira vista”, uma inspiração, uma revela-
orquestra-palavra da ópera italiana, lá onde ção. Wagner está portanto aqui na presença do
justamente a orquestra “acompanhava” as vo- Númeno. Esse Númeno será por ele traduzido
zes e se contentava com esse papel. A palavra, pela esfera da música, e portanto por um fe-
em Wagner, não tem mais importância que nômeno que engendrará o Númeno. A causa
um instrumento da orquestra e é tratada como torna-se efeito e o efeito torna-se a causa.
tal, sobretudo em Parsifal. Lá reside a unidade O homem vive e permanece no seu mun-
da música wagneriana. É preciso compreender do concreto de ilusões e de fenômenos. Ele
essa palavra de unidade em Wagner no sen- continua na percepção. Wagenr remonta à
tido em que a orquestra está ligada a todas as sensação pura e abre as portas do Númeno.
partes da encenação. Nada acontece no placo, E a alegria é grande quando elas se abrem,
no Walhalla6, na natureza ou no coração do embora lenta e penosamente. Um longo cor-
homem que não tenha sua ressonância nessa redor sombrio e angustiante está por ser atra-
grande harpa que é a orquestra de Wagner. vessado: o prelúdio, para que então se chegue
Vê-se então aparecer um novo ponto da à luz plena – ao Númeno.
diferença de Wagner quanto ao resto da mú- Wagner é, portanto, um desses homens da ca-
sica. Essa unidade é a atmosfera wagneriana: verna de Platão: ele viu o sol da verdade e conta o
a orquestra wagneriana é uma das mais com- fato aos mortais acorrentados naquela caverna. 4
pletas, pois exprime por si só uma quantidade
imensa de sentimentos e fatos, tocando assim * Excerto do livro “Música e Misticismo”, obra coletiva,
as artes vizinhas; há portanto um único modo publicado pela AMORC-GLP.

de expressão para uma quantidade de elemen- Notas: 1. Significando “motivo condutor” em alemão, o
tos expressos. É compreensível a dificuldade leitmotiv consiste numa estrutura musical (normalmente
uma frase ou padrão melódico), recorrente ao longo de uma
da inteligência em se localizar nesse meio! obra musical, a qual é associada a um personagem, afeto
Assim como existe a consciência objetiva e o ou situação, de certa forma estabelecendo uma “assinatura
sonora” desse elemento. (N. do T.); 2. Essa frase exortatória,
subconsciente, é preciso distinguir duas músicas que não deixa de ser simultaneamente algo naïve e risível, é
– e a de Wagner é a música do subconsciente. típica de Wagner e não é estranha ao seu caráter, perpetua-
do pela História. (N. do T.); 3. O libreto é o texto da ópera,
“O poeta é um mago”, salienta Victor contendo as falas das personagens e detalhes sobre as
Hugo. Com isso ele quer dizer que o poeta é cenas. (N. do T.); 4. Para o francês, a partir da qual traduzi-
mos para o português. (N. do T.); 5. LAVIGNAC (Albert), Le
visionário, inspirado pelos deuses e que cabe Voyage artistique à Bayreuth [A viagem artística a Bayreuth],
a ele guiar a humanidade. “Wagner viu a na- Paris, Stock, 1980; 6. Edificação localizada na cidade de
Regensburg, na Alemanha, que contém retratos e estátuas
tureza nua”, escreveu Friedrich Nietzsche. das grandes personalidades alemãs da história. (N. do T.)

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45
Os Anjos
na Terra
Por H. SPENCER LEWIS, FRC
ex-Imperator da AMORC

É
completamente do gênero masculino. feitamente sua antipatia por
habitual para nós Os primeiros Padres da elas. Não obstante, ele não
pensarmos que Igreja, em particular, não negou a possibilidade de
os anjos são uma acreditavam que as mu- que uma mulher chegasse a
parte essencial do reino lheres tivessem alma ou uma elevada espiritualida-
celeste e residem exclusiva- pudessem se espiritualizar de, pois, no sentido espi-
mente no mundo espiritual, suficientemente para que ritual, ele não reconhecia
para além da nossa visão isto jamais lhes permi- nem o gênero masculino
atual. Acredita-se também, tisse tornarem-se anjos. nem o feminino. Nos seus
quase universalmente, Muitas pessoas parecem escritos, ele diz que no céu
que somente os homens se acreditar que São Pau- não haverá mais macho
tornam anjos. Em toda a lo é responsável por esta nem fêmea. Ele acreditava
Europa e em outras partes, primeira atitude inicial na universalidade da alma.
vêem-se magníficas está- da Igreja Cristã, porque Não podemos então
tuas que se supõe repre- São Paulo parece ter tido atribuir esta atitude dos
sentarem anjos; eles são experiências desagradáveis primeiros cristãos aos
sempre do sexo masculino. com relação a mulheres. escritos de São Paulo, mas
Mesmo o vocábulo latino Há em seus escritos podemos fazê-la remontar
para designar os anjos é páginas que indicam per- a uma crença pagã relativa

46 O ROSACRUZ · OUTONO 2019



às mulheres. É de se notar
que os místicos do Oriente … as primeiríssimas
não tiveram essa atitude
pagã, pois, nas primeiras
bases do trabalho rosacruz
Escolas de Mistérios, no
Egito e em outros países,
garantem às mulheres uma
as mulheres eram admi- regra igual à dos homens
tidas e podiam participar
no trabalho espiritual na e lhes permitem exercer as
mesmas altas funções.

mesma base dos homens.
Ficamos sempre conten-
tes em saber que as primei-
ríssimas bases do trabalho
rosacruz garantem às
© GETTYIMAGES

mulheres uma regra igual


à dos homens e lhes permi-
tem exercer as mesmas altas
funções. Com efeito, havia
nessas primeiras escolas al-
guns ramos do trabalho que
eram destinados exclusiva-
mente às mulheres devido
ao seu desenvolvimento
espiritual. Hoje, na nossa
organização, há cargos ofi-
ciais de natureza espiritual
que são atribuídos exclusi-
vamente ao sexo feminino.

A alma das
mulheres
A verdade a este respei-
to, se somos honestos e
sem preconceitos, é que
devemos admitir que os
verdadeiros anjos de hoje
são as almas altamente
espirituais das mulheres, São Paulo

OUTONO 2019 · O ROSACRUZ


47
“ A natureza das mulheres
é feita essencialmente
da ternura espiritual e
protetora que se adapta
facilmente aos princípios
cósmicos e portanto
chega mais facilmente
© AMORC

a dar uma expressão


A Mãe do Mundo
espiritualizada.

e que não é possível alcan- Religiões mais orientais ro som emitido por uma
çar um grau mais alto de falam em Deus como o criança quando ela tenta
desenvolvimento espiritual Criador pai-mãe do univer- se expressar por palavras é
do que aquele a que chegam so. É verdade que, na reli- geralmente a combinação de
as mulheres comuns que gião do Egito, Deus era sim- sons “Ma”. É surpreendente
o buscam. A natureza das bolizado pela palavra Ra, que nos países estrangeiros,
mulheres é feita essencial- mas é também verdadeiro onde nenhum vocábulo in-
mente da ternura espiritual que, entre os místicos deste glês é conhecido sobretudo
e protetora que se adapta país, a palavra Ma represen- das crianças pequenas, pos-
facilmente aos princípios tava o elemento maternal sam ser encontradas crian-
cósmicos e portanto chega da natureza dual de Deus e, ças gritando palavras, “ma,
mais facilmente a dar uma pela combinação das duas ma”, ou outras semelhantes.
expressão espiritualizada. palavras, temos Rama. Há na natureza da
Os antigos escritos Pode-se notar que a mulher algo especial que
das Escolas de Mistérios palavra Ma, ou o som M se- faz com que ela chegue
tratavam com frequência guido de não importa quais facilmente a uma expressão
e de diversas maneiras da sons de vogais, representa as mais refinada das vibrações
qualidade da natureza de vibrações de natureza ma- espirituais. Não somente
Deus. Somente no mundo terna, protetora, de natureza suas faculdades intuitivas
ocidental e em particular na maturativa nas vibrações naturais são mais desen-
religião cristã é que vemos cósmicas e, em quase todas volvidas do que as dos
negligenciada essa dualida- as línguas, a palavra para homens, mas faculdades
de da natureza de Deus, e mãe começa com o som M. e funções do seu eu inte-
isto com vistas a expressar Em todos os países e em rior são espiritualizadas a
Deus como uma Trindade. todas as raças, o primei- um grau muito elevado.

48 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


Compreensão dar ao cristão a impressão
de que a criação de Eva ou
Em muitos outros
escritos sagrados, porém,
Sua simpatia e sua compre- de um parceiro do sexo encontramos a história de
ensão, seu ajuste rápido e feminino foi secundária Adão e Eva apresentada de
completo aos pensamentos ou foi um pensamento que um modo que ilumina nossa
mentais e espirituais dos ou- ocorreu posteriormente. compreensão espiritual,
tros, seu abundante e rápido Se consideramos o fato pois não houve nenhuma
afluxo de magnetismo que de que Eva foi criada após voluntária ou acidental má
ameniza o sofrimento, o calor Adão como indicação de que apresentação que dê, como
da sua afeição que não está o pensamento da sua criação na Bíblia cristã, uma impor-
associada à natureza sexual, só veio depois e portanto tância injustificada ao lado
e sua maior tendência para que ela tinha menos impor- macho da espécie humana.
as coisas puras e elevadas da tância, devemos adotar a
vida, mostram facilmente o
alto grau de desenvolvimento
mesma atitude com relação
à alma do homem. A parte A dualidade
espiritual que ela alcançou ao física do homem foi criada A maioria dos relatos an-
longo das gerações passadas. primeiro e a alma foi insu- tigos descreve a criação do
Consideramos muito flada no seu corpo depois. primeiro ser humano como
provavelmente a história de Este fato que constatamos sendo a do lado material,
Adão e Eva, na Bíblia cristã, analisando atentamente todo grosseiro, da espécie huma-
como a única história da o processo da criação não na, e a criação da mulher
criação. Quando ela é lida indica que a alma tenha uma como a do elemento espi-
superficialmente, tende a importância secundária. ritual, refinado, necessário
para fazer do ser humano,
como espécie, uma expres-
são perfeita da Imagem
© GETTYIMAGES

Divina. Nesses relatos, Deus


é descrito como sendo ao
mesmo tempo macho e fê-
mea, ou como uma expres-
são dual de criação cósmica.
E o homem colhe nes-
se amor a força e o poder
de suprir as necessidades
físicas dos seres, ao passo
que a mulher transmite as
forças espirituais e prote-
toras à espécie humana.
Num relato como este
vemos imediatamente que
a mulher é elevada a um
estado espiritual mais alto
do que o do homem. Este
Adão e Eva é claramente uma criatura

OUTONO 2019 · O ROSACRUZ


49
de força e poder materiais, titulado Hyacinth a adoração no alto desenvolvimento
necessários no plano ter- da feminilidade e a homena- espiritual da mulher.
reno a fim de que a natu- gem que ele faz à sua própria Esta atitude ilógica da
reza espiritual da mulher esposa. Você terá encontrado religião judaica foi reencon-
possa se apoiar numa base nas suas palavras e nos seus trada na religião cristã, onde
material para criar uma pensamentos a apreciação ela foi levada tão longe que
raça de seres sadios. mística do estado feminino. até se negou a possibilida-
Sempre foi a tendência É verdade que em alguns de de que a mulher tivesse
dos místicos do Oriente e de dos primeiros movimen- uma alma que pudesse se
todos os países do mundo tos religiosos após o início espiritualizar suficiente-
prestarem uma constante da era cristã, a mulher foi mente para se tornar um
homenagem à beleza, à temida devido ao seu poder anjo. A despeito deste fato,
ternura, à simpatia espiritu- espiritual e à sua compreen- o mais santo dos seus santos
al, ao amor e à compreensão são espiritual mais eleva- é uma mulher, e a Virgem
da mulher. Para o místico, a da. Foi por isto que houve Maria tinha um elevado
mulher é a mais alta e a mais certo número de seitas que lugar na religião cristã
bela criação de Deus, e ele proibiram a mulher de par- original, um elevado lugar
nunca perde seu respeito ou ticipar nos seus trabalhos. que foi mantido para ela na
sua adoração à feminilidade. Igreja Católica Romana.
Se você leu os escritos de
Elbert Hubbard de Roycroft, A religião O homem comum de
hoje em dia mostra um
que foi um dos nossos
primeiros associados para judaica respeito maior pela mulher
no mundo ocidental do que
difundir o rosacrucianismo Observemos esta estranha em muitos países do mundo
nos Estados Unidos, você coincidência: imediatamente oriental. Não há os mesmos
terá pnotado no seu livro in- antes da era cristã, a reli- preconceitos no que con-
gião judaica fazia uma clara cerne ao lugar da mulher
distinção entre o homem e a no mundo dos negócios.
mulher, e esta era tida como No Oriente em que a
© COMMONS.WIKIMEDIA.ORG

menos elevada espiritual- natureza espiritual da mulher


mente; no entanto, no cora- é reconhecida, ela é tida
ção de todo homem judeu, como incapaz de assumir
há uma profunda e imutável responsabilidades materiais,
adoração, bem como um isto unicamente devido à sua
imenso respeito, pela mulher. natureza espiritual. Aqui, no
É notório que os homens Ocidente, os homens comuns
judeus estão sempre impe- pensam pouco na natureza
lidos e desejosos de prestar espiritual da mulher, mas
homenagem a suas mães e reconhecem nela possibili-
a seus parentes femininos. dades de desenvolvimento
Mas toda religião que assim material iguais às do homem.
exclui as mulheres é, até Por outro lado, os ho-
certo ponto, a representa- mens mais inteligentes e
Elbert Hubbard ção da atitude de crença aqueles que têm mais discer-

50 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


nimento no mundo ociden-

© GETTYIMAGES
tal, chegaram a compreender
que a intuição altamente
desenvolvida da mulher e
seu agudo espírito analítico
são qualidades valiosas nos
negócios. Eles estão pron-
tos, não somente a admitir
que ela tenha seu lugar nos
negócios, mas também a
consultam quando não se
fiam no seu próprio julga-
mento ou na sua intuição.

O mundo
sem mulher
Hoje, sem a influência da
mulher, o mundo seria bem
triste e estaríamos num te-
nebroso atoleiro. A natureza
mais elevada da mulher, sua
ternura, seu desejo natural
de salubridade e de limpeza,
sua apreciação das mais be-
las coisas da vida, não tive-
ram influência constritiva na
natureza naturalmente am-
pla do homem. Estes fatores
o inspiraram e o levaram a
criar coisas mais belas e mais A Virgem Maria
atraentes, a fim de agradar
à natureza da mulher.
Em toda crise e em todo e os sinais são tão evidentes é assim no mundo material,
desastre, em cada onda de que não podem passar des- temos o sentimento de que,
sofrimento ou de perple- percebidos. E se uma mulher no reino espiritual futuro,
xidade, é a influência da se introduz no seio de uma se há anjos para manter a
mulher e de seus poderes tal comunidade, uma me- paz, a beleza, a doçura, a
naturais que vem em socorro lhora se faz imediatamente elegância, o amor, a felici-
e que traz paz e paciência. sentir. Neste particular não dade e a adoração por tudo
Quando uma comunidade podemos deixar de conside- o que é bom e divino, assim
rejeita a influência da mu- rar as mulheres como anjos será porque lá também as
lher, ela persegue sua perda na Terra. Se sua influência mulheres serão anjos! 4

OUTONO 2019 · O ROSACRUZ


51
Nesta seção sempre
homenagearemos a história
de nossa Ordem no mundo
e na língua portuguesa,
lembrando por meio de
imagens os pioneiros que
OM

labutaram pelo Ideal Rosacruz


OCK.C

e plantaram as sementes cujos


INKST
© TH

frutos hoje desfrutamos. A


todos eles, a nossa reverência.

Centro Cultural AMORC – CCA


Tudo começou com os Cursos de Férias ain-
da no ano de 1986. Uma atividade mística
e cultural que a princípio era aberta apenas
aos membros, mas que, devido à procura,
passou a ser aberta ao público em geral.
Assim, em 1991, surgia o Centro Cultural
AMORC – CCA com o objetivo de realizar Curso de Fé
rias “O Ritu
frequentemente atividades de âmbito mís- com os inst
rutores Mar
al Pessoal”
ia H. Cellura
e Wilson S. le
tico, filosófico e artístico, de modo a con- 20 a 22 de
M ar tin s, realizad
janeiro de 19 o de
tribuir para o embelezamento do espírito 97.

humano com as joias permanentes da cultura


e levar a flâmula da AMORC a todos os que almejavam por eventos culturais
e de conhecimento. Para isso, além dos Cursos de Férias, o CCA começou a implantar outros cur-
sos, palestras, seminários, atividades ligadas ao misticismo e ciência, além de exposições de artes.
Ao proporcionar novas formas de serviço com a participação dos rosacruzes, ao longo desse tem-
po, essas atividades contaram e contam, cada
vez mais, com a participação dos amigos da
AMORC e pessoas da comunidade em geral.
Hoje o Centro Cultural está vinculado à URCI
e dele fazem parte o Auditório H. Spencer
Lewis (1970) onde são realizadas palestras
e cursos ao longo do ano; o Museu Egípcio
e Rosacruz (1990) que apresenta uma nova
temática para suas exposições a cada dois
anos; a Biblioteca Alexandria (1992) que re-
aliza atividades socioeducativas e o Espaço
de Arte Francis Bacon (1997) que tem uma
Exposição “I
maginarte”
03.
agenda anual de exposições individuais e
maio de 20
real iz ad a em coletivas de várias técnicas, estilos e temas.

52 O ROSACRUZ · OUTONO 2019


Tradicional Ordem M artinista
O Entusiasmo
Existe um impulso que acompanha as atividades humanas, dando gosto à vida, atiçando os apetites no
cumprimento do tempo da existência. O entusiasmo é esse impulso que leva à ação, afastando os impe-
dimentos, contornando os riscos, para descobrir, para realizar e realizar-se. Ele se encontra no Templo do
Homem, ali onde a alma e o ego, em comum acordo, definiram uma meta a alcançar. Etimologicamente,
o entusiasmo é uma exaltação divina que anima os seres. Em outras palavras, é uma virtude impressa no
homem, permitindo-lhe chegar a um estado de consciência que uns chamam de felicidade e que outros
denominam plenitude, conforme o sentido da vida.
Como toda virtude, o entusiasmo se cultiva e cresce durante todo o destino que o homem forja para
si. Em primeiro lugar, convém descobrir as raízes do entusiasmo escutando a intuição e comungando com
Deus. Em seguida, trata-se de fazê-lo desabrochar construindo a harmonia entre a vida psíquica, a vida
mental e a vida espiritual. Não dar nenhum sentido à vida ou dar-lhe uma nota pessimista é algo que
se afasta do princípio do entusiasmo, portanto, da energia essencial. O entusiasmo revela a doação de si
mesmo, a fim de esclarecer ainda mais a verdadeira meta da atividade humana. É preciso que essa meta
seja perfeitamente compreendida e aceita. Se for somente pressentida ou vaga, o entusiasmo por ela será
atenuado e perderá sua constância face aos acasos da vida.
O entusiasmo naturalmente produz alegria. Essa exaltação resulta também da simbiose entre alma e cor-
po, tanto na ação como na contemplação. Entregar-se inteiramente às suas atividades, não para si mesmo,
mas para a humanidade, para a vida, para Deus é governar o entusiasmo e a alegria com pureza de intenção.
Viver com pureza de intenção, é viver nos laços do Amor, que é onde nascem as raízes do entusiasmo.
Manter o entusiasmo ao longo de toda a existência é algo que depende de diversos fatores e especial-
mente da atitude do ser face às pessoas que compõem seu círculo de vida. Cada ser humano transmuta a
energia divina na multiplicação dos pensamentos, das razões de ser ativo, dos modos de ação e, finalmente
das próprias obras. O pensamento sintetiza as mensagens da alma e as dos sentidos, abrindo o caminho
da criatividade, de onde surge o entusiasmo. Os homens são complementares quando se unem em pensa-
mento. Uns trazem fé e coragem, outros alegria e outros inteligência e altivez.
Quaisquer que sejam as qualidades expressas, todos os seres recebem sua parcela de Amor. Quanto mais
ele for propagado, mais o entusiasmo é vivificado, conduzindo assim à obra de restauração. Ser entusiasta
é aprender, compreender e recitar a inocência, a confiança e o Amor na senda da vida, pois só estamos em
segurança ao som da Palavra divina. É para esse dever que se orienta a consciência dos Rosacruzes/Mar-
tinistas. Participando numa obra comum, habitado por ideais, por qualidades divinas e, principalmente,
pelo dom do Amor que valoriza a palavra e o gesto. Os Rosacruzes e os Martinistas da Rosacruz animam
tudo que os cercam com “o ardor do astral”, isto é com o entusiasmo.
“Onde quer que estejas, não te detenhas. É preciso que vás incessantemente de Luz em Luz.”
Texto inspirado em O Pantáculo nº 5, 1997, “O Entusiasmo”.

S.I.
A
humanidade recebe de tempos em tempos personalidades-
© WELLCOME LIBRARY, LONDRES

-alma que são “divisoras de águas”, ou seja, o mundo é um


antes delas e outro após elas.
Como verdadeiros mensageiros de Luz a serviço da
humanidade, esses seres receberam do Cósmico a missão de causar
uma forte influência na sociedade em que estavam inseridos,
recebendo postumamente o reconhecimento pela visão, liderança
e iluminação que abrangeram todo o nosso mundo. Vieram
para mudar, romper paradigmas e deixar os seus pensamentos,
palavras e ações como exemplos de seres humanos especiais.
Esta capa da revista “O Rosacruz” é dedicada a esses seres
de luz que, como Mestres, nos ensinaram o sentido da vida.

Pitágoras – Filósofo grego, matemático, criador


da Escola Pitagórica, uma espécie de irmandade dedicada à
Matemática, Religião, Política e Filosofia, Pitágoras de Samos é
considerado a pessoa responsável pela aplicação da geometria à
solução dos mistérios e problemas do mundo material. Essa consideração está relacionada à sua descoberta
e teoria no sentido de que todas as manifestações da natureza ocorrem de acordo com a lei dos números.
Além da forte presença na matemática, Pitágoras desenvolveu trabalhos nas áreas de filosofia, música,
geografia e medicina.
Filho de um comerciante da cidade de Tiro, Pitágoras nasceu na ilha de Samos, no mar Egeu, Grécia,
por volta do ano 570 a.C. Ele viajava muito com seu pai e assim pode conhecer muitas pessoas e locais
diferentes. Estudou com os melhores professores da época, alguns deles filósofos. Com eles aprendeu
aritmética, geometria, astronomia, poesia e a tocar Lira. Aos 16 anos foi enviado para Mileto para estudar
com o maior sábio do momento: Tales. Reconhecendo uma inteligência única em seu aluno, foi Tales quem
começou a estudar as descobertas geométricas e matemáticas com o rapaz.
Ao visitar o Egito ficou impressionado com as Pirâmides e após isso ele foi responsável por destacar
a geometria constatando a veracidade do Teorema de Pitágoras que consiste na teoria de que em um
triângulo retângulo, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. E isso foi
fundamental porque, ao se conhecer duas das medidas dos lados de um triângulo retângulo, facilita-se
descobrir a medida do lado faltante. É evidente que estamos rodeados desse símbolo, pois, na natureza por
exemplo, uma árvore consegue fazer um ângulo reto com o solo. Já nas construções feitas pelo homem é
possível observar ângulos retos nos prédios, pontes e marcos.
Pitágoras e seus adeptos acreditavam na reencarnação. Para o misticismo ele foi um dos importantes
mestres que muito contribuíram para o Rosacrucianismo. No calendário anual permanente de Cerimônias
Especiais Rosacruzes está incluído o Ritual Pitagórico. Sobre sua morte, dizem que ela ocorreu entre os
anos 497 a 490 a.C., em Metaponto, região sul da Itália.

“A Evolução é a Lei da Vida, o Número é a Lei do Universo, a Unidade é a Lei de Deus.”


– Pitágoras