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Perseverança:

“A arte de não desistir da vida de oração”

Nossa fé de cada dia


Produções

JATAIZINHO – 2020
Sumário

INTRODUÇÃO ...................................................................4
Atos dos Apóstolos e a perseverança na oração .............11
Oração, uma herança da Reforma ..................................19
Algumas considerações sobre Oração .............................26
Bibliografia ........................................................................37
Sobre o Autor: ...................................................................38
A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

INTRODUÇÃO

“Assim como o negócio dos alfaiates é fazer


roupas, e o dos sapateiros é remendar
sapatos, o negócio dos cristãos é orar”.
(Martinho Lutero)

Gostaria de iniciar este capítulo sobre


oração com uma afirmação de SPROUL: A
negligência da oração é uma das principais
causas de estagnação na vida cristã. Esta frase
faz parte de seu livro cujo título, por si só já é
muito intrigante, “a oração muda as coisas?”
Para qualquer cristão, em uma resposta
rápida e direta diríamos que sim, a oração muda
muita coisa. Talvez seja por este motivo que
Jesus orienta aos seus discípulos a orar e vigiar.
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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

Horas antes de ser preso, Jesus havia alertado


aos discípulos, Pedro, Tiago e João de que eles
deveriam vigiar e orar para que não entrassem
em tentação, pois, apesar do espírito estar
preparado, a carne continua fraca, e então, Pedro
negou Jesus e praguejou seu nome.
Por isso se faz tão importante nos lembrar
de 1 Tessalonicenses 5.17, onde temos a
ordenança, “orai sem cessar”, neste texto bíblico
podemos ver a seriedade e sua necessidade em
desenvolvermos uma vida de oração constante,
pois a oração é, portanto, central e crucial na
vida do cristão. (SPROUL, 2013)
FOSTER (1983), no famoso livro,
“Celebração da Disciplina”, afirma que a uma
vida de oração é o que nos leva à obra mais
profunda e mais elevada do espírito humano,
talvez seja pelo fato de que a oração nos coloca
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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

no lugar e na posição correta, pois nos conecta


ao nosso Criador e nos concede um coração
quebrantado, completamente quedado aos pés
do Senhor.
Conta-nos a tradição da Igreja Reformada
sobre Martinho Lutero (1483-1546): “Tenho
tanto o que fazer que não posso prosseguir sem
passar três horas diariamente em oração.” Esta
afirmação nos constrange, pois quanto mais
trabalho e mais atividade ele tivesse, mais se
sentia impelido a orar. Lutero descobriu algo
que muitos de nós ainda está a procura, à saber:
um momento na presença de Deus nos
leva alcançar as chaves que abrem
todas as portas; um tempo de oração
nos concede a luz que esclarece todo
caminho, que revela o que está em
oculto.
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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

Outro exemplo que muito nos inspira é a vida de


David Brainerd. Nascido em Connecticut, aos
20 de abril de 1718, faleceu em
Northampton, aos 9 dias de outubro de 1747, ele
foi um grande missionário norte-
americano ligado a Igreja Congregacional e
grande admirador das doutrinas presbiterianas.
Brainerd foi pastor da igreja que ele mesmo
organizou junto aos índios que evangelizou,
tendo como base doutrinária o Catecismo de
Westminster.
Brainerd era um cristão de sabia aproveitar
seu tempo, priorizava seu tempo de solitude em
meio as florestas em caminhada ou mesmo em
sua cabana para jejuar, orar e buscar aos Senhor
de maneira profunda. Em seus diários pode se
encontrar frases, como: “Gosto de estar sozinho
em meu chalé, onde posso passar bastante tempo
em oração.”

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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

Olhemos frequentemente para


Brainerd que derramava, nos bosques
da América, a sua alma diante de
Deus em favor dos pagãos que
pereciam e nada poderia torná-lo
feliz a não ser a salvação deles.
Oração — oração secreta, fervorosa
e confiante — aí se origina toda
piedade pessoal. (REACHERS, 2019,
p.138)
Richard Foster, arremata sua compreensão
sobre a vida de oração dizendo:
Esses “gigantes da fé” acham-se tão
distantes de qualquer coisa que
tenhamos que experimentar que
chegamos a desesperar-nos. Mas em
vez de flagelar-nos por nossa falha
óbvia, deveríamos lembrar-nos de
que Deus sempre nos encontra onde
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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

estamos e lentamente nos conduz a


coisas mais profundas.
“Deus sempre nos encontra onde estamos”,
o mais lindo dessa frase é o fato de expor algo
ainda mais profundo, ela nos traz a memoria o
grande amor de Deus, uma amor que se mostra
muito maior que o nosso pecado, maior que as
nossas dores e frustrações, um amor que nos
encontra, nos transforma, nos impacta de tal
forma que nos faz caminhar em uma nova
direção, não mais para condenação, mas para
glória, para os braços do Pai. Isso pode ser
descoberto por meio da vida de oração.
Pai celeste, não peço nem por
saúde nem
por doença, nem por vida nem por
morte.

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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

Peço-te que disponhas de minha


saúde, de
minha doença, de minha vida, de
minha
morte para teu louvor e para
minha salvação.
Só tu sabes o que serve para o meu
bem.
Só tu és o Senhor. Dá-me, ou tira
de mim,
mas faze minha vida ser
semelhante à tua vida!

Oração do cristão, matemático e filósofo francês,


Blaise Pascal ( 1623 – 1662)

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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

Atos dos Apóstolos e a perseverança na


oração

Uma vez compreendida a importância da


oração na vida cristã, passemos estudar um
pouco mais especificamente seu valor para
comunidade cristã do Livro de Atos.
Para FABRIS (1991) a vida de oração dos
primeiros cristãos tem como referência as
normativas judaicas, tendo o Templo de
Jerusalém como sua principal referência, se
observarmos veremos os apóstolos seguindo os
horários costumeiros de reunião no templo,
conforme registrado em Atos 3.1: “Pedro e João
subiam ao templo para a oração da hora nona.”

Mais detalhes são registrados por Lucas,


descritos no Evangelho, ao nos mostrar o
próprio Menino Jesus, ainda adolescente sendo
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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

apresentado no templo (Lc 2.41-50), onde


manifesta toda sua sabedoria na presença das
autoridades religiosas. Em resumo, FABRIS
comenta sobre a vida de oração da Comunidade
de Atos 2, dizendo:
O v.47 do sumário recorda um traço
característico das reuniões fraternas:
o canto de louvor a Deus. Uma
comunidade unida, solidária, pronta
a repartir até os bens materiais, é
aberta à esperança e reconhecida a
Deus. Este estilo de vida traduz-se
espontaneamente num estilo de
oração, que dá o ritmo da vida
comum dos primeiros discípulos após
a páscoa. (1991, p.77)

Portanto, o que dava suporte a vida prática


os primeiros irmãos era a comunhão profunda
que desfrutavam com o Senhor ressurreto em
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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

oração. Eles só puderam suportar as


perseguições, as necessidades, as lutas e as
dores, porque aprenderam o caminho da oração
fervorosa, a qual os levava a total dependência
de Deus.
Voltemos um pouco ao início do Livro de
Atos, lá veremos os discípulos reunidos em
oração no Cenáculo, onde buscaram ao Senhor
para saber quem ocuparia o lugar de Judas
Iscariotes, e foi neste contexto de oração que
receberam a dádiva do derramamento do
Espírito Santo, sendo eles plenamente cheios do
poder do alto. Não há poder sem oração.
Robert L. Brndt e Zenas J. Bicket (2007),
no livro “Teologia Bíblica da Oração”, faz uma
afirmação preciosa quanto aos resultados
alcançados através da vida de oração: a oração
é a principal chave para o derramamento do
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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

Espírito Santo; orações longas podem ser


necessárias para produzir união entre os
membros do corpo de Cristo; e a oração sempre
será prelúdio de poderosas manifestações do
poder de Deus.
Com isto podemos afirmar que quanto mais
desejamos ver o agir de Deus em nossa vida,
família ou comunidade, quando mais ansiamos
presenciar o sobrenatural, mais precisamos orar.
Neste sentido, a oração torna-se um canal por
meio do qual Deus usa para fazer grandes coisas
no mundo.
Por isso fica para nós o grande desafio de
restaurarmos o altar da oração em nossa casa,
em nossa igreja, em nossa vida. Para isso será
necessário buscarmos a orientação bíblica para
não mais vivermos baseado no engano que tanto
tem frustrado a muitos na vida cristã.
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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

Vemos no texto bíblico de Atos 2.42-47,


um ensino precioso sobre a oração, e desejamos
compartilhar com você. Neste contexto
aprendemos que a oração é um processo
contínuo, e que a vida de oração nos leva à
atitudes altruístas semelhantes aquelas as que
teve Jesus, que, com o coração cheio de
humildade, foi capaz de se doar completamente.
O Diácono Estevão, compreendeu o
propósito de sua vida e chamado, ele descobriu
o poder da oração como meio de liga-lo ao seu
Deus em todos os momentos e, de forma
especial, nos momentos de maior desespero e
dor. Somente um homem em profunda
intimidade com Deus é capaz de perdoar e pedir
ao Senhor que perdoe seus opositores no
momento de sua execução. Isso mostra que o
mesmo Espírito que estava com Jesus na cruz
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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

também sustentava Estevão no momento de


maior dor. Em sua oração ele pediu a Deus que
não julgasse aqueles que o apedrejavam: Então,
ajoelhando-se, clamou em alta voz: Senhor, não
lhes imputes este pecado! Com estas palavras,
adormeceu. (At 7.60)
O livro de Atos tem muito a nos ensinar
sobre oração. Quando Pedro estava preso a
Igreja se colocou em grande clamor por sua
libertação, e ele não foi executado e morto como
queriam as autoridades, mas foi liberto e
devolvido em segurança àqueles que oravam por
sua vida. Deus efetuou grande libertação
enviando um anjo dentro da cela de Pedro que
abriu as cadeias e o pôs em liberdade. A oração
da Igreja move a milagrosa mão de Deus.
Cornélio, pedia a orientação de Deus em
oração, mesmo sendo ele um gentil, um sujeito
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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

que não seguia, como se esperava, as normas


religiosas dos judeus, o Senhor ouviu sua oração
e enviou Pedro até a sua casa, e o poder de Deus
foi manifestado naquele lugar, ficando todos
cheios do Espírito Santo, pois quando há um
verdadeiro clamor, quando há um coração
orando com sinceridade, Deus quebra as normas
humanas, as limitações culturais e derrama do
seu Espírito, traz o sobrenatural na Terra.
E porque não falar sobre a oportunidade
que o Senhor dá ao Apóstolo Paulo na ilha de
Malta, quando ele ora pelo homem tomado em
febre e Deus o cura completamente:
Aconteceu achar-se enfermo de
disenteria, ardendo em febre, o pai de
Públio. Paulo foi visitá-lo, e, orando,
impôs-lhe as mãos, e o curou. À vista
deste acontecimento, os demais
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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

enfermos da ilha vieram e foram


curados, os quais nos distinguiram
com muitas honrarias; e, tendo nós de
prosseguir viagem, nos puseram a
bordo tudo o que era necessário.
(Atos 28.8-10)
A Igreja que nos serve de modelo era uma
comunidade movida pela oração diária, e
sobretudo, era um povo de não se recusa clamar
em tempo de dificuldades. Um ótimo exemplo
para nós. Que sejamos uma Igreja de oração, e
em cada um de nós, haja um cristão movido pela
oração.

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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

Oração, uma herança da Reforma

Existem alguns documentos importantes


na vida da Igreja Cristã, os quais marcam
determinados períodos específicos e servem
para dar suporte doutrinário e direcionamento
para os cristãos. No que diz respeito a oração
temos ouvido muitas informações e ensinos
mostrando como se deve orar, e as vezes “soa”
como uma formula mágica, ou pior, uma forma
de manipulação do divino, seguido um discurso,
mais ou menos assim: “se você fizer desta
maneira será abençoado”. Como já dizia João
Calvino, orar da maneira correta é um dom
raro.
Isso é muito triste e vergonhoso para a
Igreja de Cristo. Há na Bíblia tudo que

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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

precisamos para alcançar o coração do Pai e nos


alinhamos a sua vontade, bem como
apreciarmos e nos maravilharmos com sua
presença, o que, no final, isso é de fato a oração:
“é o crente aprendendo a se maravilhar com a
presença de Deus”.
Não temos a liberdade de clamar a
Deus para que siga as sugestões de
nossa mente e vontade, mas
precisamos buscá-lo somente da
maneira como ele nos convidou a nos
aproximarmos dele. (João Calvino)

Quanto as Confissões de Fé, são


documentos organizados com fim doutrinário e
pedagógico fruto do trabalho muitos irmãos
fervorosos e tementes a Deus, que buscam
estudar a Bíblia e fundamentar um ensino capaz
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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

de gerar fé, compromisso e amor para com nosso


Salvador, Senhor e Mestre Jesus Cristo. Dentre
estes documentos temos, por exemplo, o
Catecismo de Heidelberg, o qual traz a seguinte
ministração sobre a oração:
O que é preciso para que nossa
oração agrade a Deus e por Ele seja
ouvida?
R. Primeiro, devemos invocar de
coração apenas o único e verdadeiro
Deus — que se revelou em Sua
Palavra — por tudo aquilo que Ele
nos ordenou orar.1
Segundo, devemos ter plena
consciência da nossa necessidade e
miséria, para que possamos nos
humilhar diante de Deus.2

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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

Terceiro, devemos descansar no


fundamento inabalável — do qual não
somos merecedores — de que Deus
com certeza ouvirá às nossas orações
por causa de Cristo, nosso Senhor,
conforme Ele nos prometeu na Sua
Palavra. (Parágrafo 117)1
O que temos nesta exposição é uma palavra
fundamentada nas Escrituras Sagradas capaz de
nos orientar e inspirar uma vida de oração em
profunda comunhão com o Senhor.

1
Referências bíblicas relacionadas apresentadas pelo Catecismo de
Heidelberg: 1. Sl 145.18-20; Jo 4.22-24; Rm 8.26, 27; Tg 1.5; 1Jo
5.14, 15 ; Ap 19.10. 2. 2Cr 7.14; 20.12; Sl 2.11; 34.18; 62.8; Is 66.2;
Ap 4. 3. Dn 9.17-19; Mt 7.8; Jo 14.13, 14; 16.23; Rm 10.13; Tg 1.6.

O Catecismo de Heidelberg, o segundo dos padrões doutrinários das


Igrejas Reformadas, foi escrito em Heidelberg a pedido do Eleitor
Frederico III, governador, entre 1559 e 1576, da mais influente
província alemã, o Palatinado.
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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

O bem conhecido, Catecismo Maior de


Westminster2, muito utilizado pelas Igreja
Reformadas, principalmente as Igrejas
Presbiterianas, assim se expressa quanto a
oração:
Quais são os meios exteriores pelos
quais Cristo nos comunica os
benefícios de sua mediação?
Os meios exteriores e ordinários,
pelos quais Cristo comunica à sua
Igreja os benefícios de sua mediação,
são todas as suas ordenanças,
especialmente a Palavra, os
Sacramentos e a Oração; todas essas
ordenanças se tornam eficazes aos

2
Este catecismo é uma forma simplificada da Confissão de Fé de
Westminster, a qual já foi apresentada em capítulos anteriores.
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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

eleitos em sua salvação. (Parágrafo


154)3

Neste caso nos é apresentada a oração nos


é apresentada como um recurso preciso que nos
faz experimentar todas as graças alcançadas por
Cristo seu sacrifício vicário. Fiquemos com a
oração de João Calvino (1509 – 1564), para que
nos sirva de modelo:

Todo-poderoso Deus, dá que não


desprezemos tua grande bondade
e que não fechemos os nossos
ouvidos
ao teu chamado.
Faze com que nos

3
Referências bíblicas citadas pelo Caticismos Maior de
Westminster: Mt 28.19-20; At 2.42, 46; 1Tm 4.16; 1Co 1.21; Ef
5.19, 20; Ef 6.17, 18.

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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

empenhemos em servir-te de uma


forma que teu nome seja
glorificado
através de nossa vida.
E cada vez
que de ti nos afastarmos, faze-nos
voltar ao teu caminho e obedecer
à tua santa palavra.

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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

Algumas considerações sobre Oração

Talvez, nossa maior dificuldade em orar


está no fato de não sabermos nos relacionar. Se
aprendemos a nos relacionar por interesse
também iremos orar por interesse. Isso prejudica
o fundamento da vida de oração, que é o
relacionamento de intimidade com Deus.
Relacionamentos que nos enchem o
coração são relacionamentos onde nosso maior
interesse é a própria pessoa com quem nos
relacionamos; o prazer em estarmos com ela, de
conversar, de ouvir, de contar uma novidade, de
ouvir um conselho, de concordar e de discordar,
afim de chegarmos ao fim de um assunto para
começarmos um novo.

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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

Quando a oração é fruto de um


relacionamento saudável, será possível orar
mais e “melhor”. Por exemplo, ao pedir a Jesus
que os ensinassem a orar, o Senhor disse assim
aos seus discípulos: Quando orardes, dizei:
“Pai”. No Evangelho de Lucas 11.2, está assim
registrado o segredo da oração, ou seja, orar é,
antes de tudo, aprender chamar Deus de Pai.
Dentre as várias ideias e imagens para
palavra “pai” nos traz a mente, podemos
destacar, por exemplo, benevolência e proteção;
respeito e honra; autoridade (governante ou
chefe). Isso podemos desfrutar por meio de um
relacionamento profundo com Deus chamado,
oração. Descobrimos Nele a nossa proteção,
nosso sustento e tudo mais que precisamos, mas,
sobretudo, o que devemos experimentar é a

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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

intimidade e, então, as demais coisas nos serão


acrescentadas.
Umas das cenas mais intrigantes da Bíblia,
e porque não dizer, uma das mais dramáticas, é
a registrada no livro do Gênesis, quando Abraão
deita seu filho sobre o altar para sacrificá-lo. Há
muita discussão e, as vezes, um pouco de
polêmica sobre isso, mas o que mais me chama
atenção é que o Pai da Fé foi capaz de lançar
sobre o altar do Senhor toda sua alegria.
O significado de Isaque é “riso”, naquele
momento toda felicidade e realização de um
homem idoso, toda sua plenitude de vida e
contentamento estavam sendo deixados por
obediência. Imagine a dor da alma, imagine o
quanto era doloroso à Abraão ver tudo com que
sonhou agora sendo sacrificado sobre o altar?

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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

Deus permite que provemos nosso amor


nos dando a oportunidade de entregar a Ele o
que nos é mais caro, mais precioso, aquilo que
somos capazes dar nossa vida para defender. Ele
fez isso com Abraão e este foi aprovado, pois
soube amar mais a Deus que suas bênçãos, e por
isso, somente por isso, pode ter de volta seu
amado filho Isaque, e então, o “riso”, a
felicidade pode obter novamente.
A oração nos leva para o altar, ela nos dá a
oportunidade de demonstrar ao Senhor o quanto
Ele é precioso, e o quanto o amamos mais do que
qualquer coisa, pois Ele está acima de qualquer
coisa. Quando aprendemos o caminho da oração
como relacionamento, aprendemos a amar o
Senhor mais do que amamos as “coisas do
Senhor”, ou seja, as suas bênçãos. Este foi o
segredo de Abraão, este é o segredo de uma vida
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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

de oração poderosa e vitoriosa: Deus deve estar


acima de tudo.
Uma outra questão que devemos valorizar
na vida de oração, é que ela deve estar
fundamentada na Bíblia. Jesus disse: “Se
permanecerdes em mim e as minhas palavras
permanecerem em vós, pedirei o que quiserdes,
e vos será feito” (João 15.7). Há muitas
orientações acerca da oração que são estranha a
Palavra de Deus, há muitos cristãos seguindo
caminhos estranhos ao ensino das Sagradas
Escrituras.
Existe um caminho de “sacrifícios” como
meio de se alcançar as bênçãos do Senhor, sendo
que, na verdade, “Deus dá aos seus amados
enquanto estes dormem” (Sl 128). Orar a
Palavra não é fazer com que o Senhor se lembre
do que nos prometeu, pois Ele não tem amnésia.
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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

Deus não se esquece. Inclusive, Ele diz que até


pode uma “mãe se esquecer de seu filho”, mas
Ele não se esquecerá de nós.
Orar a Palavra é permanecer na fé, na
fidelidade e na esperança. Conhecer mais de
Deus para experimentar mais de Deus, significa
mais do que nos encher das ricas bênçãos do
Senhor, significa estar cheio da presença do
próprio Deus. Neste sentido, podemos dizer que
permanecer nas palavras de Cristo, é alinhar a
nossa vontade a vontade do Senhor, é alinhar-
nos ao propósito do Senhor para nós, e quanto
ao suprimento que precisamos, Ele mesmo há de
suprir.
Permaneciam os cristãos da primeira
Igreja, conforme registrado no livro de Atos,
perseverantes na oração. Porque sabiam eles que
sem um profundo relacionamento com seu Deus
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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

não haveria chance de continuar numa


caminhada de lagrimas, dor e morte; e, foi meio
aos maiores desafios da vida, esta Igreja
presenciou os maiores milagres.
Eles viram o Espírito Santo como chamas
de fogo, viram os céus se abrindo; receberam a
visita de anjos; portas das cadeias se abrindo; e
participaram de uma enorme colheita de almas
salvas em Cristo, bem como tantos outros
milagres que possivelmente nem foram
descritos. Somente a oração nos faz
perseverantes e nos dá o ânimo para
continuarmos em meio as crises da vida.
Há, ainda, algo mais que gostaríamos de
compartilhar sobre a oração bíblica, ela nos
sensibiliza quanto ao próximo, nos enchendo de
compaixão. Lemos nas páginas do livro de Atos
o quanto eles eram solidários, o quando eram
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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

capazes de abrir mão de seus bens e recursos


para suprir as necessidades uns dos outros. Na
verdade, quando mais de Deus nós temos, mais
somos capazes de dividir, compartilhar, nos
doar.
É bem interessante, olharmos para Jesus
em seus muitos exemplos de amor e cuidado.
Como, registra Lucas, em seu Evangelho no cap.
7.13-16, ao mostrar o Salvador indo ao encontro
de uma mãe em pleno cortejo de seu filho:
Vendo-a, o Senhor se compadeceu
dela e lhe disse: Não chores!
Chegando-se, tocou o esquife e,
parando os que o conduziam, disse:
Jovem, eu te mando: levanta-te!
Sentou-se o que estivera morto e
passou a falar; e Jesus o restituiu a
sua mãe. Todos ficaram possuídos de
temor e glorificavam a Deus, dizendo:
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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

Grande profeta se levantou entre nós;


e: Deus visitou o seu povo.

O que movia o coração de Jesus era a


compaixão, o movia a Igreja na comunhão e no
suprimento dos irmãos era a compaixão. Quem
mais ora, mais se doa.
Vivemos dias em que a questão da
espiritualidade está em alta e muito se fala sobre
a meditação, a contemplação e outras práticas
para o encontro de si mesmo, para o
autocontrole da vida, mas vida cristã propõe
algo a mais, pois quanto mais nos aproximamos
de Deus em oração mais parecido com Ele nos
tornamos, e então, passamos a ter compaixão,
amor, disposição em abençoar aqueles que
congregam conosco, que partilham sua vida e
caminham ao nosso lado. A compaixão é fruto
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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

de uma vida de oração. Ambas podem acontecer


separadamente, mas para um coração que
aprendeu o caminho da oração, certamente foi,
está sendo, e será tocado pela compaixão.
A compaixão é a marca da igreja. Foi e é a
qualidade impressa por nosso Senhor e Salvador
Jesus e deve ser considerada por todo cristão.
Quanto mais oramos, mais nos compadecemos,
isso é o que nos faz verdadeiros intercessores
pelas vidas carentes e por aqueles que se
perdem.
Terminemos este tempo de reflexão sobre
este importante tema, com uma sincera oração
ao Senhor, apresentada por Santo Agostinho de
Hipona (354 – 430):
Voltar as costas a ti significa cair.

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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

Voltar o rosto a ti significa


ressurgir.
Viver em ti dá refúgio eterno.
Em todas
as nossas tarefas queiras dar-nos
o teu
apoio,
em toda a nossa insegurança
queiras guiar-nos,
em todo sofrimento
dar-nos a tua paz.

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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

Bibliografia

Igrejas Reformadas do Brasil. O Catecismo de


Heidelberg . Clire. Edição do Kindle, 2016.
BRENDT, Robert L.; BICKET, Zenas J.
Teologia Bíblica da Oração. Rio de Janeiro: 4ª
Edição; CPAD, 2007. P.214
Sproul, R. C.. A Oração Muda as Coisas? (Série
Questões Cruciais Livro 3). Editora Fiel. Edição
do Kindle, 2013.
FOSTER, Richard J. Celebração da Disciplina.
São Paulo: Vida; 1983, p. 30.
REACHERS, Sammis (org.). Páginas de Ouro
da Oração [livro eletrônico]. São Gonçalo (RJ):
Edição do autor, 2019.

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A ARTE DE NÃO DESISTIR DA VIDA DE ORAÇÃO

Sobre o Autor:
Possui Especialização em
Docência do Ensino Superior
com ênfase em Educação à
Distância (2016) e Mestrado Livre em Liderança
Pastoral Urbana, ambas pelo Centro Universitário
Filadélfia (2017);

Graduação em Teologia pelo Seminário Teológico


Antônio de Godoy Sobrinho (2001) e convalidação
pela Faculdade Teológica Sul Americana (2012).

Possui licenciatura plena, habilitação para o Magistério


em Filosofia e Ensino Religioso pelo Programa
Especial de formação - PROLIC (2015).

Pastor Presbiteriano desde 2002.

Contato: nossafedecadadia@gmail.com
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