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O RETORNO DA FILOSOFIA AO ENSINO MÉDIO NO BRASIL 
 
 
 
 
Resumo   
Pretendemos analisar os momentos em que a disciplina de  Fábio Antonio Gabriel 
Filosofia se fez ausente e/ou presente no contexto escolar a  SEED PR 
nível  médio  durante  a  História  da  Educação  brasileira.  fabioantoniogabriel@gmail.com 
Ademais,  para  investigar  como  deve  ser  o  ensino  de   
Filosofia nas escolas hoje, sem desconsiderar a realidade da   
escola  e  dos  estudantes  dessas  instituições.  O  caminho   
escolhido foi o da análise e contraposição de duas teorias: a  Ana Lucia Pereira Baccon 
de Kant e a de Hegel. Esta, defendendo o ensino da História  Universidade Estadual de Ponta Grossa 
da Filosofia nas escolas. Já aquela, defendendo a autonomia  ana.baccon@hotmail.com 
individual,  pautada  no  convite  a  aprender  a  pensar,  ou   
melhor,  que  só  se  aprende  filosofia,  filosofando.  Nossas 
considerações  apontam  no  sentido  de  que  é  necessário 
pensar um ensino de Filosofia que possibilite ao estudante 
criar seus próprios valores e concebemos a aula de Filosofia 
enquanto  um  momento  que  leve  os  estudantes  a  criar  e 
avaliar conceitos. 
 
Palavras‐chave: Ensino; Filosofia; Criar conceitos e História 
da filosofia. 
 
 
 
 
 
 
 
 

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O RETORNO DA FILOSOFIA AO ENSINO MÉDIO NO BRASIL 
 Fábio Antonio Gabriel ‐ Ana Lucia Pereira Baccon 

Introdução 
Com  o  retorno  da  Filosofia  nos  currículos  escolares  quais  são  os  recursos 
metodológicos  a  serem  adotados  para  que  o  Ensino  de  Filosofia  propicie  a  experiência 
filosófica?  Essa  investigação  baseia‐se  nessa  pergunta  e,  justifica‐se  pelo  fato  de  que  a 
Filosofia  passou  algumas  décadas  fora  dos  currículos  escolares  e  também  pela 
importância  da  mesma  na  vida  dos  jovens  e  adolescentes  que  estão  em  uma  fase  de 
descobertas, dúvidas e de criação de conceitos. 

Entendemos  conforme  a  perspectiva  de  Deleuze  que  a  Filosofia  é  a  arte  de  criar 
conceitos.  Nesse  artigo  limitamo‐nos  a  apresentar  a  trajetória  histórica  da 
ausência/presença da disciplina no currículo com o intuito de investigar as diversas vezes 
que  o  Ensino  de  Filosofia  ao  invés  de  ser  reflexivo  e  criador  de  conceitos,  limitou‐se  a 
apenas  reproduzir  teorias  filosóficas  e  ou  menos  possuir  um  intuito  de  apenas 
“doutrinar” os estudantes.  

Contexto histórico do retorno da Filosofia no Ensino Médio: dos primórdios 
da Reforma Pombalina aos dias atuais 
A  Filosofia  encontrou  diversos  obstáculos  para  sua  firmação  como  disciplina 
obrigatória  do  currículo  escolar  nacional.  Várias  foram  as  intervenções  e  preconceitos 
sofridos  por  esta  disciplina  que  sempre  atendeu  aos  interesses  dos  poderosos  e 
carregava  os  interesses  políticos  e  religiosos  dos  mesmos,  ora  permanecendo  como 
disciplina, ora sendo excluída quando convinha à classe dominante. 

Tais  obstáculos  impediram  o  conhecimento  dessa  disciplina  para  muitos 


educandos.  E  sua  importância  se  vê  justificada  não  só  pelo  desenvolvimento  da 
criticidade  do  aluno  (obtida  também  através  de  outras  disciplinas),  pela  reflexão  das 
questões  cotidianas,  para  exercer  a  cidadania,  mas  também  pela  criação  de  conceitos1. 
Quanto a isso: 

                                                            
1
 Gallo (2007), na tradição filosófica, o conceito é sempre visto como universal, na esteira de Platão, Kant o 
definiu da seguinte maneira: Todos os conhecimentos, isto é, todas as representações conscientemente 
referidas  a  um  objeto,  são  ou  intuições  ou  conceitos.  A  intuição  é  uma  representação  singular;  o 
conceito, uma representação universal ou representação refletida. 

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 [...]  Gilles  Deleuze  e  Félx  Gattari  afirmam  que  a  arte,  ciência  e  filosofia 
são  três  potêcias  do  pensamento,  na  medida  em  que  permitem  o 
exercício da criatividade. Cada uma, à sua maneira, significa um mergulho 
no caos e um lampejo de pensamento novo, criativo. De seu mergulho no 
caos, o artista traz seus perceptos e afectos ; o cientista traz funções ; o 
filósofo traz conceitos. Assim, arte, ciência e filosofia se complementam, 
cada  uma  delas  permitindo  uma  experiência  distinta  do  pensamento 
criativo ( GALLO, 2007, p. 20.). 
   
  Em  vista  disso,  abordaremos  a  seguir  a  trajetória  dessa  disciplina  e  os  percalços 
sofridos do século XVI, quando se tem notícia do início da Filosofia ; do momento em que 
ela foi extinta dos currículos escolares; até o processo que possibilitou a sua volta. 

Nos primórdios: Do Brasil Colônia ao Período Imperial  
O  ensino  de  Filosofia  no  Brasil  teve  início  em  meados  do  século  XVI,  com  os 
Jesuítas, em Salvador tendo como principal representante Padre Manuel da Nóbrega. O 
método  de  ensino  era  a  Ratio  Studiorum2,  cujo  documento  sintetizou  no  conjunto  de 
normas  e  estratégias,  publicado  em  1599,  baseado  na  cultura  Européia.  Ignorava  as 
necessidades,  realidades  e  interesse  de  povos  que  ocupavam  o  território  brasileiro: 
negros,  índios  e  colonos.  Seu  ensino  era  repetitivo,  valorizando  a  retórica,  deixando  de 
lado a reflexão crítica.  

Gallina  (2000)  caracteriza  a  disciplina  de  filosofia  no  período  Jesuítico  como 
livresca,  com  conteúdos  baseados  no  ensino  de  Aristóteles  e  da  filosofia  escolástica 
garantindo seu caráter propedêutico. Lecionada no 1º ano do nível secundário.  

O ensino de Filosofia no Brasil estava dividido: por um lado, assegurava a religião 
cristã;  por  outro,  garantia  a  hegemonia  da  Coroa  na  Colônia,  impedindo  sua 
fragmentação e possíveis levantes por parte dos colonos. Conforme relata Horn (2009, p 
19): 

                                                            
2
  Conjunto  de  normas  criado  para  regulamentar  o  ensino  nos  colégios  jesuíticos.  Sua  primeira  edição,  de 
1599, além de sustentar a educação jesuítica ganhou status de norma para toda a Companhia de Jesus. 
Tinha por finalidade ordenar as atividades, funções e os métodos de avaliação nas escolas jesuíticas. O 
objetivo  maior  da  educação  jesuítica  segundo  a  própria  Companhia  não  era  o  de  inovar,  mas  sim  de 
cumprir as palavras de Cristo: “Docete omnes gentes, ensinai, instrui, mostrai a todos a verdade”. 

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Um  olhar  mais  atento  a  história  do  ensino  da  filosofia  no  Brasil,  que 
remonta  ao  período  colonial,  indica  políticas  sua  utilização  ora  como 
forma  doutrinadora  das  concepções  religiosas  e  políticas,  ora  como  um 
privilégio intelectual das elites econômica e politicamente dominantes.  
 
A educação nesse momento voltava‐se para as classes mais favorecidas, ou seja, o 
ensino era elitista e não dava espaço para outros estratos sociais como o negro, o índio e 
também  a  mulher.  Tinha  como  principal  objetivo  formar  homens  cultos  e  instruídos 
(HORN, 2009).   A  filosofia  que  se  estudava  nesta  época  estava  de  acordo  com  os 
interesses da Companhia de Jesus, que visava além de barrar o protestantismo, assegurar 
e fortalecer a Igreja.  Alves (2007), relata que houve um rígido controle sobre professores 
e leituras feitas pelos alunos, para que não houvesse influências externas, em contradição 
a Igreja católica. Estudava‐se Tomás de Aquino, com algumas advertências, para que não 
se desvirtuassem os dogmas católicos.  

Contudo,  todo  este  poder  no  campo  da  educação  perdurou  até  a  reforma 
constituída por  Marquês  de  Pombal.  No  ano  de  1759,  houve  a  expulsão  dos  Jesuítas  de 
Portugal e consequentemente, das colônias.   Com  a  expulsão  dos  jesuítas  no  século 
XVIII, o ensino de Filosofia permaneceu dirigido para os interesses religiosos e livrescos, 
com nível baixo, fragmentado e parcelado.   O que se valorizava agora era o Estado e 
as ideias disseminadas pelos pensadores iluministas. Sendo assim :  

[...]  estas  reformas  contarpõem‐se  ao  predomíno  das  idéias  religiosas  e 


com base nas idéias laicas inspiradas no iluminismo instituem o privilégio 
do Estado em matéria de instituição, surgindo assim uma nova versão da 
educação pública estatal. (PUPIN, 2006, p.31 apud DUTRA, et al.2010). 
 
Assegura‐se,  que  no  período  Pombalino,  o  ensino  secundário  foi  oferecido  no 
Brasil  pelo  sistema  de  aulas  régias  de  disciplinas  avulsas  e  isoladas.  No  entanto,  essa 
reforma  terminou  contribuindo  de  modo  negativo  quanto  ao  ensino  no  Brasil  colônia. 
Pois não possuía estrutura educacional alguma para ministrar a instrução educacional na 
colônia. 

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Do Período Imperial ao Período Republicano 
No Período Imperial houve um processo de emancipação da política do Brasil, que 
refletiu  de  modo  positivo  na  educação  brasileira.  Criou‐se  um  clima  de  entusiasmo 
universalista e humanístico no pensamento pedagógico, e até mesmo ideias reinantes da 
Europa se tornaram modelos aos nossos intelectuais (HORN, 2009). 

No  ano  de  1837,  fundou‐se  o  Colégio  Pedro  II,  o  único  mantido  pelo  governo 
central.  Ofereceu  a  disciplina  de  filosofia.  Mas  ainda  antes,  do  colégio  Pedro  II,  nas 
províncias, a Filosofia já era disciplina obrigatória no currículo dos liceus e dos ginásios do 
curso  secundário.  Quanto  a  isso,  Horn  afirma  “Nas  províncias,  a  Filosofia  já  era  incluída 
obrigatoriamente  no  currículo  dos  liceus  e  dos  ginásios  do  curso  secundários,  desde  o 
início do século, mesmo antes do colégio Pedro II” (2009, p. 24). Havia o predomínio dos 
estudos  das  letras  clássicas,  os  literários,  das  línguas  modernas,  matemáticas,  ciências 
naturais físicas e história.  

Segundo  Alves  (2007),  até  este  período  a  Filosofia  esteve  presente  na  educação 
escolar  com  caráter  propedêutico,  ou  seja,  que  preparava  para  o  ensino  superior, 
principalmente para cursos de Direito e Teologia. Mas com a Proclamação da República, o 
comparecimento desta disciplina no ensino brasileiro, antes pacífico, muda totalmente de 
caminho.  Com  a  chegada  da  República,  no  ano  de  1889,  necessitou  promulgar  nova 
Constituição  que  desse  garantia  a  uma  nova  forma  de  governo  vigente.  Em  1891, 
promulgou a constituição da República estabelecendo o sistema federativo de governo. 
Sendo  assim,  os  Estados  tinham  sua  própria  autonomia  para  a  elaboração  de  suas  leis 
educacionais e alguns graus de ensino.  

Benjamin Constant se tornou responsável pelo Ministério da Instituição Pública no 
ano  de  1889.  Estabeleceu  uma  reforma  do  ensino  no  nível  primário  e  secundário, 
ajustando  em  laicidade  e  princípios  de  liberdades  do  ensino.  Deu  ênfase  na  ciência, 
mostrando grande influência das idéias positivistas (HORN, 2009). Com a Proclamação da 
República,  a  disciplina  de  Filosofia  passou  a  ser  obrigatória  sendo  componente  de 
currículos oficiais. Porém, isso não teve muito significado devido ao momento em que a 
sociedade  Brasileira  vivia.  Vacilava  entre  o  populismo,  democracia  formal  e  a  ditadura. 
(PARANÁ, 2008) 

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Deste  modo,  a  propedêutica  cedeu  à  formação,  no  qual  preparava  jovens  para 
vida  pública  e  aprendizado  de  atividades  bem‐sucedidas.  Deu  ênfase  à  formação  para  o 
trabalho  com  cursos  profissionalizantes  excluindo‐o  de  cursos  superiores.  Limitava‐se  a 
formação  superior  aos  que  desejavam  cargos  políticos,  jurídicos,  públicos  e 
administrativos. Esta reforma apenas acrescentou algumas disciplinas científicas. (HORN, 
2009) 

A  filosofia  não  desapareceu  dos  currículos  escolares,  mas  não  consistia  nas 
disciplinas solicitadas ao acesso nos cursos superiores. Entretanto, a Filosofia perdeu seu 
lugar  na  escola,  pois  queriam  a  formação  com  uma  cultura  mais  abrangente  que 
superasse questões corriqueiras. Na reforma de Carlos Maximiliano, em 1915, o ensino de 
Filosofia  era  facultativo.  Segundo  Horn  (2009),  no  ano  de  1925,  a  reforma  Rocha  Vaz 
articulou  sobre  a  importância  de  o  ensino  secundário  fornecer  uma  “cultura  geral”  a 
todos,  não  vinculada  à  escolha  profissional,  mas  que  se  constituísse  em  alicerce  para  a 
vida. 

Sobre este aspecto, incluiu‐se o ensino de filosofia nas últimas séries, contudo, em 
conceitos que mantinham a ordem social vigorante e os interesses dos grupos menores e 
dominantes tanto econômico quanto político. Os Republicanos suspeitavam da filosofia, 
principalmente  os  positivistas,  visto  que  a  filosofia  que  se  ensinava  nos  colégios  ou  em 
“aulas  avulsas”  naquela  época  estava  carregada  de  ideologias  monárquicas  e  católicas, 
do qual se identificava com a concepção do mundo feudal, de cunho aristotélico‐tomista 
(ALVES, 2007 p.15). 

Da Ditadura à Redemocratização 
Saviani  (1996)  sintetiza  que  o  período  Ditatorial  iniciou‐se  na  madrugada  de 
primeiro de abril de 1964, pelos Generais das forças armadas, contra o Governo de João 
Goulart.  A  ditadura  militar  foi  estabelecida  como  forma  de  Governo  afirmando  a  ordem 
socioeconômica, ameaçada neste momento.  Estas reformas políticas encarregadas pelo 
governo  militar,  objetivavam  manter    o  desenvolvimento  e    a  segurança.  Acordos 
internacionais  refletiram  na  educação,  nos  quais  deram  assistência  e  cooperação 

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financeira na organização do sistema de educação do Brasil, tendo o dever de se ajustar 
ao  novo  modelo  de  desenvolvimento  político  e  econômico  da  nação  brasileira  (ALVES, 
2007). 

Neste  momento,  valoriza‐se  a  educação  tecnicista,  visto  que  necessitavam  de 


mão‐de‐obra  barata  para  trabalhar  nas  empresas  que  estavam  se  expandindo.  Os 
currículos  escolares  foram  reorganizados,  pois  a  intenção  era  a  formação  de  indivíduos 
executores  de  conceitos  externos,  seguindo  o  modelo  tecnicista.  Deixando  de  lado  a 
realidade  nacional,  a  formação  de  pessoas  criativas  e  pesquisadoras.  Nesse  impasse, 
Alves (2007), discorre que a Filosofia foi perdendo gradativamente sua importância e seu 
valor. O motivo foi por não servir aos objetivos tecnicistas ou por não comungar com os 
objetivos  ideológicos  resumidos  na  Doutrina  de  Segurança  Nacional  (DSND).  Logo 
ideólogos  do  poder  dominante  descartam  esta  disciplina,  alegando  ser  um  risco  a 
segurança  nacional.  Outras  disciplinas  foram  estabelecidas  no  lugar  da  filosofia  como 
EMC – Educação Moral e Cívica, OSPB – Organização Social e Política Brasileira e para o 
nível  superior  a  EPB  –  Estudos  dos  Problemas  Brasileiros  que  foram  necessárias  para 
incutir  na  população  a  ideologia  militar.  Nenhuma  destas  disciplinas  traziam  consigo  os 
conteúdos próprios da filosofia, mas era um álibi para a não inclusão desta disciplina no 
currículo,  que  neste  momento  era  matéria  optativa.  Por  não  atender  aos  objetivos 
presentes, ficou ausente do currículo brasileiro. Décadas depois, retornará em lentidão e 
sob controle. 

Mas  com  a  Redemocratização,  os  seguimentos  mudaram.  Vários  movimentos 


foram  criados  a  favor  da  sua  readmissão  no  currículo  brasileiro.  A  mobilização  desse 
período  aconteceu  nos  grandes  centros  contribuindo  para  a  criação  de  movimentos 
intelectuais. Em PARANÁ (2008) encontramos o seguinte esclarecimento: 

A  partir  da  década  de  1980,  com  o  processo  de  abertura  política  e  de 
redemocratização  do  país,  as  discussões  e  movimentos  pelo  retorno  da 
Filosofia  ao  Ensino  Médio  (à  época,  denominado  Segundo  Grau) 
ocorreram  em  vários  estados  do  Brasil.  Na  Universidade  Federal  do 
Paraná,  professores  ligados  à  Filosofia  iniciaram  um  movimento  que 
contava  com  articulações  políticas  e  organização  de  eventos  na  defesa 
da  retomada  do  espaço  da  Filosofia,  em  contestação  à  educação 
tecnicista, oficializada pela Lei n. 5.692/71 (p. 43‐44). 

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  Esses movimentos foram fundamentais para a criação da Sociedade de Estudos e 
Atividades Filosóficas (Seaf). Esse movimento intelectual amparou a presença da Filosofia 
nos  currículos  escolares  brasileiros  e,  por  isso,  estabeleceu  um  importante  marco  na 
afirmação dessa disciplina na formação do estudante do nível médio. 

   

O Ensino de Filosofia a partir das Leis Educacionais no Brasil 
Para  entendermos  a  implantação  de  importantes  leis  no  Brasil,  necessitamos 
relembrar  acontecimentos  que  incentivaram  tais  reformas  no  campo  da  educação 
brasileira. 

No  período  pós  1930,  com  o  golpe  de  Estado  efetivado  pela  revolução  de  30, 
levaram Getúlio Vargas à chefia do governo o que determinava o princípio de uma nova 
era na história brasileira que só terminou no ano de 1945, quando foi derrubado pelo um 
golpe  militar.  Durante  15  anos  ele  foi  presidente.    Sobre  de  que  forma  se  deu  o  seu 
governo nos exemplifica Alves : 

Durante  esses  15  anos,  Vargas  foi  presidente,  primeiro  garantido  pelas 
armas das milícias das oligarquias dissidentes e do Exército; depois eleito 
pelo congresso Nacional; e, por último sustentado pelo exército, já como 
monopólio  do  uso  da  força,  representando  os  interesses  das  classes 
dominantes (CUNHA, 1980 p.204 apud ALVES p.31). 
 
Essas  leis  educacionais  foram  implementadas  devido  à  um  conjunto  de  reformas 
realizadas  durante  o  governo  de  Getúlio  e  se  fizeram  necessárias  para  dar  sustentação 
político‐ideológica para sua liderança. 

Reforma de Francisco Campos e a Reforma de Gustavo Capanema  
A  partir  da  década  de  30,  duas  reformas  causaram  novidades  com  mudanças  no 
ensino médio: Reforma de Francisco Campos e Reforma de Capanema.  

Na reforma de Francisco Campos, novas disciplinas foram inseridas no currículo do 
ciclo  complementar,  dentre  elas  está  a  História  da  filosofia  que  esteve  presente  nos 
cursos Jurídicos. Alves (2007, p. 32) ao citar Cartolano (1985) relata que com a Reforma de 
Campos houve uma nova estruturação do curso secundário, este ficou dividido em dois 

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ciclos:  um  fundamental,  de  cinco  anos,  imprescindível  para  o  ingresso  nas  escolas 
superiores, que dava uma formação básica geral; e o outro complementar, de dois anos, 
que preparava para o ingresso nas escolas de medicina, engenharia e direito. 

 Com  a  Reforma  de  Capanema,  a  Filosofia  se  tornou  disciplina  obrigatória  nos 
cursos  Clássicos  e  Científicos.  Com  uma  percepção  enciclopédica  e  elitista.  Também 
tinham dois ciclos, o ensino secundário dividiu‐se entre o ginásio com duração de quatro 
anos, e o outro, o Colegial que tinha duração de três anos, subdividia‐se em dois cursos 
paralelos:  o  clássico  e  o  científico.  No  colégio,  a  Filosofia  era  recomendada  como 
disciplina obrigatória no curso clássico na 2ª e 3ª série, e no curso científico apenas na 3ª 
série. 

Horn  (2009),  retrata  que  neste  período  o  ensino  valorizou  a  moral  e  dignidade 
pessoal.  Capanema  acreditava  que  este  nível  de  ensino  tinha  como  alvo  oferecer  aos 
adolescentes uma sólida cultura geral, com consciência patriótica e humanista. 

Para  Gallina  (2000  p.  38),  o  ápice  do  Ensino  Médio  nesse  período  pode  ser 
atribuído  a  três  fatores  básicos:  primeiro,  o  incentivo  para  a  formação  técnico‐
profissionalizante.  Segundo,  o  aumento  para  a  formação  de  número  de  bibliotecas. 
Terceiro,  a  campanha  desenvolvida  pelos  defensores  da  “Escola  Nova”.    Contudo,  a 
filosofia perdeu gradativamente sua importância na instituição escolar, mesmo com carga 
horária  mínima  ela  ainda  era  obrigatória.  Essas  reformas  no  ensino  médio  valorizaram 
apenas aparências legalistas e burocráticas e não pedagógicas.  

As Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional: nº 4.024/61, nº 5.692/71 e 
nº 7.044/82 
A  partir  da  LDB  nº  4.024/61  a  obrigatoriedade  do  ensino  de  Filosofia  deixou  de 
acontecer  e  tornou‐se  complementar.  Com  a  lei  nº  5.692/71,  no  período  da  ditadura,  a 
Filosofia não serviria aos interesses políticos, ideológicos e econômicos e foi abolida dos 
currículos escolares do segundo grau (PARANÁ, 2008). Horn (2009), analisa que foi a Lei 
nº 5.692/71 instituída pelos militares, com caráter profissionalizante, que definiu de vez a 

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ausência da disciplina de Filosofia nos currículos escolares, nível secundário, até no fim do 
regime ditatorial do Brasil. 

A lei n° 7.044/82 liberou a obrigatoriedade do ensino profissionalizante nas escolas 
e possibilitou que estas pudessem se dedicar à formação dos estudantes tendo a Filosofia 
com  disciplina  optativa.  Um  descaso  geral,  com  a  disciplina  visto  que  não  havia  nem 
concursos para professores na área, nem materiais pedagógicos.   Através da nova LDB e 
com  o  processo  da  abertura  política  do  país,  é  que  houve  movimentos  e  discussões  a 
respeito do ensino de filosofia no Ensino Médio.  

Lei nº 9.394/96: A Atual LDB e Alguns Impasses no Ensino de Filosofia 
Em  1996,  com  a  aprovação  da  nova  Lei  de  Diretrizes  e  Bases  da  Educação,  a 
filosofia  é  caracterizada,  então,  não  como  mais  uma  disciplina  curricular,  mas  apenas 
como uma espécie de “conhecimento a ser dominado” (HORN 2009, p. 33). 

A Filosofia, com a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação aprovada em 1996, 
torna‐se uma mera condição de conhecimento a ser dominado.  O aluno ao sair do Ensino 
Médio  deveria  dominar  os  conteúdos  de  Filosofia  e  também  de  Sociologia  necessários 
para exercer a cidadania (PARANÁ, 2008).  No ano de 2001, mas precisamente no dia 8 de 
outubro,  instituiu‐se  um  projeto  de  obrigatoriedade  das  disciplinas  de  Filosofia  e 
Sociologia no ensino Médio. Projeto este, que obrigava os Estados a incluírem a Filosofia 
como  disciplina  nos  currículos  do  Ensino  Médio.  Mas,  foi  proibido  pelo  presidente 
Fernando  Henrique  Cardoso.    Justificava‐se  então,  a  exclusão  da  Filosofia  do  currículo 
visto  que  não  havia  profissionais  preparados  para  a  atuação  nessa  área  do  ensino.  Ou 
afirmavam  que  a  Filosofia,  não  tinha  nenhuma  conveniência  na  preparação  de 
profissionais  para  atender  as  questões  do  mercado.  Porém,  numa  abordagem  mais 
profunda compreendeu‐se que não há procedências (HORN , 2009). 

No  ano  de  2004,  através  dos  dados  de  um  concurso  no  Estado  do  Paraná,  foi 
possível  comprovar  com  valor  significativo,  o  número  de  profissionais  formados  em 
filosofia. Também não haveria elevação nos custos do Estado e municípios, pois a carga 
horária já existente seria apenas remanejada. Quando a ação da Filosofia nas escolas vale 

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lembrar  que  é  no  espaço  escolar  que  a  Filosofia  busca  comprovar  aquilo  que  lhe  é 
próprio: a resistência, o pensamento crítico, e a criação de conceitos (PARANÁ, 2008). Em 
fevereiro  de  2006,  o  Conselho  Nacional  de  Educação  analisa  e  dá  um  parecer  favorável 
para  a  inclusão  da  Filosofia  nos  currículos.    O  Estado  do  Paraná  criou  espaço  para  a 
Filosofia, como nos mostra Mendes (2008, p.85) que em suas palavras apresenta:      

Pode‐se  dizer  que,  no  ano  de  2006,  foi  oficialmente  criado  um  espaço 
para a Filosofia no currículo do Ensino Médio do Estado do Paraná, com a 
Resolução CNE nº.4/06, com fundamento no Parecer CNE nº.38/2006, que 
a tornou obrigatória, e por meio das políticas educacionais do Estado do 
Paraná,  ao  se  produzirem  condições  mínimas  para  sua  existência  e 
manutenção no currículo, como: o concurso público 37 para professores 
de  Filosofia,  a  elaboração  de  diretrizes  curriculares,  a  produção  e 
distribuição  de  materiais  de  apoio  didático‐pedagógico  e  a  formação 
continuada de professores. 
 
Com a obrigatoriedade, o Estado do Paraná enfrenta outra situação. Horn discorre 
que  “com  a  conquista  da  obrigatoriedade,  no  Paraná,  por  exemplo,  a  discussão  passa 
para  outro  nível,  no  qual  se  destaca  a  preocupação  de  assegurar,  para  a  disciplina  de 
Filosofia, uma carga horária mínima de duas horas semanais” (2009, p.34). 

  Outro fato positivo que Horn (2009) salienta também a inclusão de 60 horas/aulas 
de  Filosofia  na  EJA  (Educação  de  Jovens  e  Adultos),  no  estado  do  Paraná,  no  ano  de 
2006. 

  No  entanto,  afirma  Horn  que  “[...]  a  permanência  da  Filosofia  no  currículo  do 
Ensino  Médio  depende,  efetivamente,  de  como  se  compreende  a  natureza  do 
conhecimento filosófico, de como se ensina Filosofia e do que se espera dela na formação 
de adolescentes e jovens” (2009 p. 35). 

  No  entanto,  ainda  no  ano  de  2006,  a  lei  não  deixa  clara  sua  obrigatoriedade.  A 
disciplina de filosofia no Ensino Médio ainda não tem seu locus.  

A Lei nº 11.684/08 
Em Junho de 2008, mais precisamente no dia 2, aprovou‐se a lei alterando o artigo 
36 da LDB: 

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IV – serão incluídas a filosofia e a sociologia como disciplinas obrigatórias 
em todas as séries do ensino médio (BRASIL, 2008). 
 
Fez‐se  obrigatória  à  disciplina  de  Filosofia  nos  currículos  das  escolas  de  Ensino 
Médio no Brasil, pelo então Presidente da República José de Alencar Gomes da Silva. 

A  filosofia  que  tanto  se  quer  ensinar  hoje  sempre  esteve  presente  em  nossa 
história. No entanto, conquistá‐la como disciplina obrigatória pra o ensino médio foi uma 
grande  batalha.    Esta  conquista  só  foi  possível  graças  aos  movimentos  liderados  por 
professores  universitários,  alunos  e  professores  das  escolas  públicas  que  mobilizaram 
toda  a  comunidade  e  engajados  nessa  luta,  lutaram  pelo  seu  retorno.    Se  faz  mister 
salientar aqui, a importância de se ter feito esse breve panorama histórico para expor a 
influência  política  e  ideológica  que  a  Filosofia  sofreu  nas  mãos  dos  governantes 
brasileiros, desde o Período Colonial, com a intenção de cristianizar a nova terra, até os 
tempos  da  ditadura  quando  a  Filosofia  foi  extinta  das  grades  curriculares  por  não  ser 
compatível  com  os  desejos  dos  governantes  de  alienar  e  massificar  a  população.  Foi 
substituída  por  disciplinas  cujo  intuito  era  justificar  o  autoritarismo  e  o  de  criar  um 
patriotismo cego, capaz de se calar frente às injustiças e irregularidades. 

   Após  ter  sido  feita  uma  abordagem  histórica  do  ensino  de  Filosofia, 
apresentaremos  na  próxima  sessão,  o  nosso  objeto  de  pesquisa  que  é  investigar  quais 
caminhos  metodológicos  são  mais  satisfatórios  para  que  a  Filosofia  possa  ser  ensinada. 
Uma  pergunta  nos  vem  a  mente:  qual  será  o  melhor  perspectiva  de  ensino?  Ensinar  a 
filosofar ou ensinar Filosofia?   Para que essa análise seja feita, confrontaremos duas 
propostas  distintas:  a  de  Kant  e  a  de  Hegel.  O  primeiro  defende  a  tese  de  que  se  deve 
ensinar  a  filosofar  e  o  segundo  de  que  se  deve  ensinar  os  conteúdos  da  História  da 
Filosofia.  

 Composições metodológicas do ensino de filosofia no Ensino Médio 
A  seguir,  trataremos  sobre  a  superação  do  ensino  enciclopédico  de  Filosofia  no 
Ensino  Médio.  Mas,  ao  mesmo  tempo,  não  desvalorizando  os  textos  que  possam  ser 
trabalhados ao longo do percurso filosófico.  

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Devemos  considerar  a  história  da  filosofia,  não  como  um  mero  artefato,  mas 
primordial ao ato de filosofar. Não há dúvidas quanto à necessidade de estudá‐la, pois é 
indissociável  à  Filosofia.  A  história  da  filosofia  dará  subsídios  fundamentais  entre  o 
passado  e  o  presente,  a  filosofia  e  o  filosofar,  facilitando  encontrar  caminhos  para  a 
solução de problemas propostos atualmente. Muitas outras questões se levantam quanto 
ao saber filosófico em sala de aula: metodologias, vantagens e desvantagens nas práticas 
docentes, grandes desafios a serem superados.   

Ensinar história da filosofia ou ensinar a filosofar: um problema? 
É  uma  das  questões  que  mais  se  discutem  e  que  incomodou  e  incomoda  muitos 
filósofos  e  educadores.  Dentre  estas  dúvidas  encontramos  duas  questões  pertinentes: 
como  deve ser  o  seu  ensino?    Ensinar  história  da  Filosofia  ou  ensinar  a  Filosofar?  Esta é 
uma dúvida que paira no ar, desde o nascimento da filosofia. Neste aspecto HORN (2009) 
apresenta duas teses opostas: Kant3 e Hegel4. Cada um defende sua tese alicerçada em 
pressupostos  filosóficos,  que  se  construiu  em  suas  experiências,  levando  em 
consideração  a  sua  época.  Porém,  acreditamos  que  se  trata  de  um  falso  dilema  de 
oposição de ambos, “Pois filosofar é filosofia e filosofia é filosofar”. 

Teoria Kantiana 
  Partindo das idéias kantianas com influência de Rosseau, Horn (2009) diz que “[...] 
Kant  tomou  como  princípio  que  não  se  devem  aprender  pensamentos,  conteúdos,  mas 
aprender a pensar.” (p.69).  Antes de mais delongas, vale enfatizar que nesta época, não 
se dava valor nenhum a infância, ela tinha acabado de ser inventada. A criança era vista 
                                                            
3
  Segundo  Konder  (2006)  “Immanuel  Kant  (1724‐1804)  nasceu,  viveu,  trabalhou,  envelheceu  e  morreu  no 
oriente da Prússia[...] Estudava muito, publicou numerosos trabalhos, desde 1747, abordando problemas 
de  campos  bem  diversos(p.  64).  Kant  oferece  um  alto  relevo  de  como  educar  as  crianças  e 
adolescentes, diz ele que o homem é a única criatura que precisa ser educada, e que  homem não pode 
se tornar um verdadeiro homem senão pela educação e orienta ao jovem para alegria e o bom humor. 
4
 Ainda em consonância com Konder (2006), Georg Wilhelm Friedrich Hegel nasceu em 1770, em Stuttgart. 
Quando falava de espírito ou razão do mundo, ele estava se referindo à soma de todas as manifestações 
humanas.  Hegel,  dizia  que  a  verdade  era  basicamente  subjetiva  e  contestava  a  possibilidade  de  haver 
uma verdade acima ou além da razão humana. Confiava que ao refletir sobre o conceito de "ser" não 
podia  deixar  de  lado  a  reflexão  da  noção  oposta,  ou  seja,  o  "não  ser"  e  que  a  articulação  entre  esses 
dois conceitos era resolvida pela idéia de transformar‐se (p.67‐68). 

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como um adulto em miniatura que tinha que copiar as atitudes dos adultos. Horn (2009), 
caracteriza que não havia frequência escolar, muito menos escolas. Deste modo, a obra 
de Rosseau teve grande valor para Kant. Ele valoriza a experiência da criança (empirismo 
lógico).  Considera  que  o  ser  humano  é  livre  e  que  diferente  dos  animais  pelo  fato  de  
precisar ser educado, disciplinado e instruído, isso, porém, depende do conhecimento e 
experiência  de  outro  homem  que  já  foi  educado.  Afirma  que  só  será  possível  ser  um 
verdadeiro homem pela educação. 

A teoria de aufklãrung5 enfatiza três pontos centrais: Autonomia do pensamento / 
livre  pensar;    Aperfeiçoamento  /  perfectibilidade;  Educação  /  formação.  No  entanto, 
aprender a pensar não é a aprendizagem do que se ensina o professor.  Kant afirma que 
se  aprende  a  filosofar  pelo  exercício  e  uso  que  se  faz  para  si  mesmo  de  sua  razão 
particular.  O  real  papel  da  razão  ou  reflexão  não  está  na  erudição  nem  em  treinar  a 
memória.  Mas  Horn  (2009)  levanta  uma  questão:  “como  aprender  a  pensar  se  o  aluno 
não  está  amparado  teoricamente,  ou  seja,  se  ela  ainda  não  possui  conhecimentos 
suficientemente  sólidos?”  Contudo,  Kant  acredita  que  tanto  o  educando,  quanto  o 
educador  tem  acondicionamento  natural  para  aprender.  Afirma  ainda  que  todo  ser 
humano  tem  condições  para  ser  um  autodidata.  Mas  há  contradições.  Kant  jamais  vai 
aceitar que o ser humano é incapaz de autonomia, visto que ele é um teórico racionalista. 
Em  suma,  HORN  (2008,  p  74),  “afirma  que,  para  Kant,  o  ser  humano  atinge  sua 
maturidade ou sua maioridade se ele conseguir pensar por si, colocar‐se no lugar do outro 
e pensar de forma consequente”. 

Teoria Hegeliana 
Em  contrapartida,  temos  a  Teoria  de  Hegel,  que  vincula  disciplina  e  conteúdos 
inicialmente,  ultrapassando  o  estado  de  inércia  da  primeira  natureza  (alienação), 
aperfeiçoa  e  realiza  o  indivíduo,  mas  principalmente  a  história.  Relevando  assim,  que  

                                                            
5
 Para Horn (2009) Esta teoria do esclarecimento (Aufklãrung), tem significado de autonomia, ser livre, ser 
senhor  de  si  próprio  num  processo  de  melhoras  tanto  moral,  quanto  cultural,  ou  seja,  sair  da 
menoridade. Para que seja capaz de pensar por si mesmo. A partir do momento, o individuo é capaz de 
julgar questões sobre sua própria reflexão, com ousadia.  
 

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para  que  seja  possível  essa  ascensão  pessoal  é  preciso  que  o  educando  aprenda 
conteúdos filosóficos e não apenas a filosofar. 

Num  momento  seguinte,  Hegel  contrapõe‐se  a  Kant,  exatamente  porque 


caracteriza  a  Filosofia  como  algo  que  se  pode  ensinar.  Caso  contrário,  como  vamos 
filosofar, sem saber o que é a Filosofia? Quanto à metodologia do ensino de filosofia no 
ensino Médio, Hegel garante que o melhor a fazer é aprender a conhecer conteúdos da 
filosofia,  pois  assim,  além  de  filosofar  pode  efetivá‐la.  Pois,  para  Hegel,  assim  como  as 
outras  matérias  ela  também  precisa  ser  ensinada.  Quando  se  tem  uma  filosofia  rica  em 
conteúdos,  é  possível  filosofar.  Portanto  ela  deve  ser  ensinada  e  aprendida,  como 
qualquer outra disciplina. (HORN, 2009) 

Segundo  Horn  (2009),  para  Hegel  o  objetivo  da  Filosofia  no  Ensino  Médio  é 
proporcionar ao educando o início do pensamento reflexivo. Para isso, este ensino deve 
ser distribuído por classe e prévio. 

As Fases das Teorias de Kant e Hegel 
De  um  lado  temos  a  Teoria  Kantiana  que  visava  mais  a  realização  da  autonomia 
individual  (crescimento  pessoal)  com  conteúdos  retirados  dos  próprios  sujeitos. 
Enquanto a Teoria Hegeliana buscava a educação voltada para a cidadania num contexto 
social maior, com conteúdos sistematizados. 

Só se aprende a Filosofia no momento em que se aprende a pensar, porém só se 
sabe filosofar (pensar) quando se aprende a Filosofia. Ela possibilita o livre pensar, mas 
um  livre  pensar  com  fundamentos.  Já  um  livre  pensar  sem  base  nenhuma,  permanece 
oco, além de desvalorizar a Filosofia, no consentimento de Hegel.  

Os Prós e os Contras das Práticas Docentes no Ensino da Filosofia 
Mediante a primeira questão, que trata a História da filosofia como centro, Horn 
(2009) enfatiza suas vantagens. Aceitar a história da filosofia como centro, em relação ao 
plano  de  ensino,  constitui  focalizar  os  sistemas  e  autores  na  ordem  histórica  do  seu 

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desenvolvimento,  buscando  familiarizar  os  alunos  com  os  problemas  e  maneiras  de 
encaminhar as soluções, facilitando a compreensão dos seus educandos. 

Mas as desvantagens são que, se valoriza mais a ordem cronológica. Questiona‐se, 
sobre quais critérios deveria adotar diante da história da Filosofia num geral. Pergunta‐se 
também, como costurar idéias onde muitos autores estão cronologicamente longes uns 
dos outros. (HORN, 2009) Neste caso, o professor pode criar as “linhas de pensamento” 
(ou,  linhagem  filosófica).  Ligando  várias  faces,  a  outros  pensadores.  Isso  facilitará  ao 
educando e educador, na compreensão clara dos conceitos, visto que estão ligados a um 
fio que conduz as idéias. 

No segundo aspecto, o ensino de temas que adotam a História da Filosofia como 
referência,  diferencia‐se  bem  da  anterior.  Pois  o  ponto  de  partida  são  os  temas  não  à 
história,  no  entanto,  esses  temas  são  retirados  de  algum  sistema.  Requer  do  professor 
uma  busca  à  história  da  Filosofia,  contextualizando  essa  temática,  não  necessitando  de 
alegação  rigorosa.  Propõe  apenas  organização  e  apresentação  do  conteúdo.  Duas 
vantagens se destacam: Liberdade de escolha e maior interesse e dinamismo á exposição 
ou discussão. Horn (2009) cita Leopoldo e Silva (p.160) que diz “... os temas podem ser 
escolhidos  em  função  da  atualidade,  o  que  é  inegavelmente  fator  de  interesse”.  Mas 
também  existem  suas  desvantagens.  Quanto  ao  educador,  será  necessário  que  ele 
domine bem os conteúdos da História da filosofia programando estas aulas, para que haja 
relação de conteúdos e os temas escolhidos. Outro problema é que se exige que além de 
professor ele deva ser filósofo, não se pode perder do contexto. Não se pode, discutir os 
temas  filosóficos,  sem  buscar  subsídios  na  história  da  filosofia.  Isso  não  seria 
aprendizado,  seria  apenas  um  pensamento  livre.  Na  terceira  perspectiva,  Horn  (2009) 
explica que esta nas preocupações que o aluno traz à sala de aula – temas centrados no 
cotidiano dos alunos. Não podemos classificar esta como estratégia de ensino, pois não 
busca os conteúdos do estatuto da Filosofia. 

O  grande  problema,  é  que  não  se  preocupam  com  a  especificidade  do 


conhecimento filosófico. Então, como podemos aceitá‐lo como ensino de filosofia, sendo 
que  não  são  valorizados  os  conteúdos  históricos  e,  nem  os  sistemas  filosóficos.    A 
Filosofia  tem  grande  importância  no  ensino  regular,  mas  cabe  a  nós  analisar  como  ela 

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está sendo oferecida aos educandos. Considera‐se que, a falta do ensino de filosofia de 
qualidade garante a nós uma série de perdas no desenvolvimento humano. É necessário 
conhecer o exercício consciente da reflexão filosófica e compreendam o real sentido do 
ensino da filosofia formando cidadãos críticos e reflexivos. 

Considerações finais 
Através  de  um  resgate  histórico,  buscou‐se  mostrar  que  a  Filosofia  nunca  foi 
valorizada como disciplina, só quando atendia aos interesses dos governantes, religiosos 
e  a  classe  dominante.  Mesmo  sendo  disciplina  importante  na  vida  de  todos  os  seres 
humanos,  houve  grandes  lutas  para  que  ela  se  estruturasse  na  matriz  curricular.  As 
batalhas  enfrentadas  por  professores  e  alunos  que  lutaram  para  o  seu  retorno  jamais 
serão esquecidas. 

Com o seu retorno, faz‐se relevante refletir sobre como ensiná‐la e qual ou quais 
as metodologias e conteúdos devem fazer parte desse ensino para os jovens que tenha 
contato com essa disciplina se tornem mais críticos, mais reflexivos, ou melhor, criadores 
de  conceitos.  E,  que  entendam  que  o  importante  na  Filosofia  é  a  reflexão,  são  as 
perguntas  e  não  necessariamente  as  respostas,  já  que  não  existem  verdades  absolutas. 
Grandes  autores  destacam  a  importância  do  ensino  de  Filosofia  no  Ensino  Médio.  No 
entanto,  muitas  são  os  desafios  enfrentados  pelos  educadores  em  função  da 
metodologia  a  se  utilizar,  visto  que  é  muito  recente  sua  obrigatoriedade  no  sistema  de 
ensino  brasileiro,  em  especial  no  nível  médio.  Como  também  outros  desafios:  o 
desinteresse em sala de aula, falta de um bom material didático que procure aproximar a 
filosofia da vida do aluno.  

A história da filosofia não deve ser usada como mera memorização e sim utilizá‐la 
como  forma  de  provocação  a  um  pensar  de  maneira  mais  profundo  e  rigoroso  sobre 
diversas questões da própria existência da humanidade. A escolha de temas e de alguns 
problemas próprios da filosofia, são um bom caminho para a condução de uma aula que, 
posteriormente,  levará  os  alunos  a  criarem  seus  próprios  conceitos.  Para  que  o  aluno 
possa filosofar e adquirir assim, um pensamento emancipado é necessário que ele tenha 

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embasamento  para  isso  que  será  dado  a  ele  através  da  apresentação  dos  sistemas 
filosóficos e do contato com os textos filosóficos. Os processos de ensinar a filosofar e de 
ensinar história da filosofia não são dissociáveis, pois se o aluno não apresenta elementos 
para o filosofar, este ato vai se tornar vago e não irá se efetivar.  

Para  que  isso  aconteça,  a  figura  do  professor  é  indispensável  como  aquele  que 
mostra os caminhos, iniciando os alunos pelas veredas da Filosofia para que depois, estes 
possam  escolher  seus caminhos  e  criar  seus conceitos, encontrando  soluções para  seus 
problemas.  Mediante  a  isso,  é  imprescindível  a  colaboração  do  docente  no  que  diz 
respeito  ao  domínio  dos  conteúdos  filosóficos,  com  metodologias  que  trazem 
significação  da  disciplina  para  a  vida  dos  educandos,  trazendo  sentido  a  filosofia  e 
passando  a  não  ser  mais  aceita  como  um  mero  conteúdo  a  ser  dominado  para  a 
conclusão de mais um ano letivo, mas sim um conhecimento que possibilite ao educando 
pensar no valor dos seus valores, revisar seus próprios conceitos e realizar em sua vida a 
máxima Kantiana: “Ouse pensar por ti mesmo.” 

REFERÊNCIAS 
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Campinas: Autores Associados, 2007 
 
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http://www.histedbr.fae.unicamp.br/navegando/glossario/verb_c_ratio_studiorum.htm.a
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