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LHOS E NOVOS MUNDOS:


da conquista da .Atnérica
ao domínio do espaço cósmico

Guillermo Giucci

Cristóvão Colombo, Pero Vaz de Caminha


Sobre heróis e tumbas e América Vespúcio. De Francesco Pelrar­
ca, poeta laureado, que em 26 de abril de
s livros de cavalaria foram escritos 1336 conquista epistolarmente o monte
na Europa, mas foram vividos na Ventoso para inaugurar, com sua carta ao
América, porque, embora as aventu­ professor de teologia Francesco Dionigi
ras de Amadis de Gaula tenham sido d'Roberti, a Renascença italiana, passa­
escritas na Europa, é Bemal Diaz dei Cas­ mos, quase dois séculos mais tarde, a
tillo quem nos apresenta o primeiro livro Hemán Cortés e Francisco Pizarro, mode­
autêntico de cavalaria. com sua Historia de los do guerreiro, conquistadores dos
la conquista de la Nut!Va Espana (Carpen­ impérios asteca e inca. Dante e Petrarca
tier, 1984:122). NaAmérica, de acordo com privilegiam, também, o âmbito do conheci­
a proposta do escritor e crít'ico cubanoAlejo mento e da visão. Descobrir um outro
Carpentier, a fantasia européia se transfor­ mundo desabitado, que se encontraria se­
ma em vivência. O verbo se encama no guindo o Sol, é a motivação explícita do
Novo Mundo. Deslizamos territorialmente navegante medieval; escalar a montanha
da idéia à corporalidade, do romance ao mais alta da região, para observar do seu
enfrentamento e da ficção à história. Da cume a beleza da natureza, é a razão decla­
figura do Ulisses medieval, retratado por rada do alpinista. Mas nem o conhecimento
Dante A1ighieri na Divina commedia (In­ nem o esteticismo se movem no plano res­
ferno, XXVI), que, com sua travessia trito do desejo. Pretender decifrar os
ocidental à procura de um mundo desco­ enigmas do planeta transfonna-se em posse
nhecido encerra poeticamente a Idade no contexto do expansionismo europeu.
Média, transferimo-nos à santa trindade dos Foi o que aconteceu em 12 de outubro
descobridores-cronistas da Renascença: de 1492. Cristóvão Colombo, afirmando

NO/a: Este artiio foi lraduzido por Gloria Rodrfguez.

Estwdos Hist6ricos. Rio de Janeiro, \/01.4, n. 7, 1991. p. 3·18


4 ES1UDOS H1STÓRlCXJS - 199lf1

encontrar-se nas costas do extremo oriente bertas,forma de relação com o vislumbrado


,

da Asia, desembarca na ilha de Guanabani, que anuncia o irracionalismo que presidiu


no arquipélago das Bahamas, e imediata­ a conquista da América espanhola, para
mente toma posse do seu território em nome passar depois à análise do discurso dos as­
dos reis católicos. Ocorre um caso seme­ tronautas sobre o empreendimento do do­
lhante em 22 de abril de 1500, data do mínio do espaço cósmico.
descobrimento do Brasil (Terra de Vera A varinha de condão de Próspero resolve
Cruz). O cronista português Pero Vaz de os problemas de uma das últimas obras de
Caminha, membro da esquadra de Pedro Shakespeare, A tempestade (1611), comé­
,

Alvares Cabral e escrivão da feitoria de dia cujo marco de referência hispano-ame­


Calicut declara - na primeira frase de sua ricano é evidente. Na ilha do desterro, gra­
carta ao rei d. Manuel de Portugal - que ças ao estudo das ciências ocultas,Próspero
escreve para dar "notícia do achamento vence seu innão Antônio, usurpador do du­
desta Vossa terra nova, que agora nesta cado de Milão. Mas antes de retomar à
navegação se achou" (Castro, 1985:75), e Europa, renuncia à magia negra,rompe sua
anuncia a posse que ocorreria de modo for­ varinha fantástica e sepulta,muitos palmos
mal e ritualizado poucos dias depois. Nos debaixo da terra, o livro dos feitiços. No
dois exemplos mencionados, a denomina­ navio que o conduz de volta à metrópole,já
çao das terras funciona como um marco que desfeitos seus encantos de mágico,Próspe­
consolida o poder peninsuJar. As coroas ro sente-se um homem simples, reduzido a
ibéricas se consideram as novíssimas e le­ suas forças, acossado pela fraqueza huma­
gítimas proprietárias de territórios estra­ na. Era como se fora de seu ambiente habi­
nhos, e cumpre redefinir sua identidade. tuai, em regiões ignotas, se revelassem os
Desde então, os emissários de ambas as lados reprimidos de sua personalidade. E
coroas intitulam os domínios ibéricos na com isso voltamos à citação de Alejo Car­
América a partir de critérios hagiológicos, pentier sobre a atualização dos livros de
de gêneros comerciais, de semelhanças na­ cavalaria na América: ser um viajante em
turais ou do transplante do conhecido para terras recônditas implicaria a metamorfose
regiões recõnditas (no estilo da Nova Espa­ da fantasia em ação, da lenda em luta cor­
nha), negando autonomia a um quarto con­ poral e das extraordinárias andanças do ca­
tinente que surgia, de forma contraditória valeiro errante das ('histórias mentirosas"
qualificado de Novo Mundo. nas aventuras "real-maravilhosas" do expe­
O fato da denominação, como fonna dicionário da conquista das Índias Ociden­
simbólica de domínio sobre as novas terras, tais.
nos conduz a um horizonte mágico. É evi­ Se no Novo Mundo americano os guer­
dente que os expedicionários passarão rapi­ reiras castelhanos se internaram em'regiões
damente da palavra oral ao ritual escrito, desconhecidas com uma audácia excessiva,
numa teatralização da conquista, dirigida, se não atroz, isso foi porque perseguiam
em parte, a índios nus que não podiam nas fronteiras do vislumbrado ou desconhe­
compreender, nem sequer imaginar, o sig­ cido o princípio alquímico da conversão
nificado agressivo das declarações escritas das imagens em ouro. Ao transfonnar a
dos estranhos, e, em parte, a legitimar pe­ terra em espaço metálico, procederam co­
rante as demais �otências européias rivais mo se tivessem na mão a varinha mágica
o direito à posse. com a qual a personagem de Gonçalo opri­
A seguir, examinaremos as implicações mia Calibã na ilha enfeitiçada deA tempes­
da relação de posse mágica estabelecida tade. A busca obsessiva do ouro por parte
entre os expedicionários e as terras desco- de aventureiros e conquistadores sacramen-
VEUlOS E NOVOS MUNDOS ,

tou a irracionalidade da magia negra e tes­ Também se apoiaram nas palavras e em


temunhou a flexibilidade do conceito de pequenas amostras de metais preciosos
idolatria. Por causa da adoração de metal­ aqueles náufragos abandonados que, com
ou antes, de sua imagem -, o soldado entre­ suas versões das riquezas do interior da
gou I alma ao diabo contra o qual pretendia América do Sul, consolidaram as expecta­
lutar no Novo Mundo. Sem dúvida, o expe­ tivas de novas tropelias de expedicionários
dicionário castelhlno apoiou-se em sua c1a­ e os induziram a penetrar em terras desco­
R superioridade temológica e na cumplici­ nhecidas, em empreendimentos despropo­
dade dos próprios indígenas para subjugar sitados. Em seu livro Bistoria crEtica de /os
o desconhecido; mas também se valeu da mitos de Ia conquirta americana, Enrique
"onipot!ncia dls idéias", do desejo e do de Gandia narra como um náufrago da es­
voluntarismo que, segundo Freud, caracte­ quadra de Solís, Henrique Montes, faméli­
rizam tanto IS sociedades primitivas quanto co e esfarrapado, chorava de emoção ao
os neuróticos obsessivos. O conquistador se relatar a Sebastião Gaboto • história da
dirigiu para metas precisas - com freqüên­ serra da Prata (Gandia, 1929:145-96). Ga­
cia inexistentes - como uma máquina; e boto deixou de lado o objetivo declarado de
como um autômato impiedoso subjugou o sua expedição e se internou - tendo como
guia o emocionado Montes - em busca da
nativo e o ambiente natural e cultural que o
encantada serra da Prata. Não a encontrou,
cercava.
mas isso não foi motivo suficiente para
Um outro elemento secundou, afiançou
desarticular a esperança coletiva de encon­
e completou a irracionalidade voluntarista
trar o monte argênteo que, segundo os ru­
d. magia negra: o poder da palavra. Tanto
mores, era dominado das alturas por um rei
a transformação das imagens em ouro
branco.
quanto I confiança depositada na palavra
Em outras ocasiões, onde também inter­
integram um mesmo fenômeno de dignifi­
veio o poder da persuasão da palavra, é
cação das esperanças, processo que sofreria
preferível ampliar o espectro teórico para
posteriormente na América um violento além da disputa "mito versus realidade".É
desprestígio, após a seqüência de fracassos o caso dos tesouros dos impérios asteca e
dos expedicionários. Os indígenas cativos inca e de histórias como as do reiDourado
se apoiaram no poder da palavra para esti-•
(ElDorado) ou da serra da Prata antes men­
mular falazmente as esperanças dos con- cionada. Nesses exemplos, da afluência de
quistadores. Ao se referir à figura do cativo discursos forjou-se, temporariamente, uma
indígena durante a conquista espanhola do imagem maravilhosa. A brevidadebistórica
sudeste dos atuais Estados Unidos, Beatriz do atrativo dessas imagens, pois seu valor
Pastor (1988:18) afirma que "de Lucas se limitou, sobretudo, ao século XVI, espe­
Vázquez de Ayllon até o próprio Vázquez cialmente aos setenta primeiros anos, de­
de Coronado foi-se repetindo a presença de veu-se principalmente ao rato de que, origi­
uma fonte de informação que corroborava nadas no desconhecido e viveneiadas como
mitos existentes, inventava outros novos e extraordinArias durante o intervalo do seu
estimulava, em empreendimentos condena­ consumo - caso dos tesouros asteca e inca
dos ao fracasso, uma longa série de explo­ - ou como simples riquezas - caso do EI
radores e conquistadores, cujo objetivo se Dorado e da Serra da Prata - elas não con­
identificava com algum dos reinos míticos seguiram conter o avanço corrosivo da ha­
• respeito dos quais circulavam notícias e bituação. Logicamente, essas imagens fa­
rumores insistentes em toda a colônia. Tra­ bulosas se transformaram, reforçando uma
�-se da figura do cativo indígena". frase absurda do cotidiano, "no que são": o
• ES11JDOS msTORlaJS -1991/7

impenldor Carlos V mandou fundir a maior como derrotou o ciclope Polifemo, duplo
parte da ourivesaria peruana para financiar monstruoso e primitivo de Aquiles. São
as despesas militares na Europa; EI DOnldo, precisamente as astúcias de Aquiles que o
após conduzir muita gente l morte, e à eternizam na memória do tempo. O cavalo

riqueza os poucos que acharam as areias de Tróia tem sua marca, I do personagem
dos afluentes auriferos do Cauca, transmu­ opaco, ambíguo, que transfonua a retórica
tou-se num simbolo de emigração esperan­ em arma, que se desloca brilhantemente
çosa dos europeus nos stculos XIX e XX pelo plano da representação. Cabe ao enge­
para a América; e até boje a expressão "vale nho di razão e à implacável duplicidade das
um PotosV'lembnl a cobiça de um grupo de palavras, desde a epopéia bomérica, o lu­
aventureiros e colonos que preseguiu até a gar de honra na lista dos triunfos inesque­
morte a prata boliviana e que, uma vez cíveis da civilização.
exauridas as minas que proporcionavam as A Castela quinhentista combate os ín­
riquezas, sem mais nem menos as abando­ dios americanos com idtias procedentes da
naram. Mais que a vitória do mito ou da Reconquista, com aistãos velhos, cavalos,
realidade, a linguagem dupla que envolve arcabuzes, espadas, intimações e romances
toda possível descrição do ignoto tomou de cavalaria. A dimensão tpica das vitórias
conta dos exemplos mencionados, até que castelhanas no Novo Mundo apagou o fatg
a habituação acabou por desencaná-Ios, de que a conquista dos impérios asteca e
assim como açabou com aquelas pedras inca constitui uma exceção para os inúme­
asiáticas negras e fumegantes que, para ros infortúnios que marcaram o domínio
Marco Polo, eram ainda um exemplo de dos territórios americanos. Vista em con­
pedns extIaordinárias e que para nós não junto, I conquisti da América bispinica
passam de um simples carvão. esá tecida·de fracassos e desastres, de múl­
Aquiles reagia unicamente aos senti­ tiplas pequenas Armadas Invencíveis. Ape­
mentos. Abandonou a luta em Tróia por se sar da conlgem demonstrada pelos guenei­
sentir ofendido e retomou as annas quando ros castelhanos nas Índias, em genll quem
Pátroclo, seu amigo Intimo, morreu em os denotou foram calamidades natunlis ou
mãos de Heitor. O grande ponto de apoio de militares, assim como foram castigados pe­
Aquiles, mais que na vontade dos deuses e lo· caráter ilusório das metas inexistentes.
na sua coragem, tem origem na força cor­ Por outro lado, a ambição de riquezas vol­
poral. Aquiles é o protótipo do gueneiro tou-se contra OS próprios conquistadores
épico que, soliário,enfrenta os adversários como um bumerangue descontrolado, ge­
até a morte. A epopéia homérica o situa rando deserções, enfrentamentos, rebeliões
inevitavelmente entre os pólos do repouso e guenas civis. Um a um, até os objetivos
e da ação. Quando em combate, descansa auríferos mais resistentes, desgastaram-se.
nas tendas; quando não descansa,luta como E, paralelamente ao esgotamento das metas
o furacão que anasa tudo à sua passagem. maravilhosas, os guerreiros foram perecen­
Em contraposição, o Ulisses de Homero do. Até um chefe vitorioso como Fnlncisco
tncama o guerreiro da reflexão: simuJa, Pilarro morreu assassinado em mãos de
mente, desinfonna, fantasia-se, oculta sua almagristas (partidários de Diego de A1ma­
identidade,mas nunca se entrega ao chama­ gro) em sua residêncil, na cidade de Lima.
do do imediato. Acompanhar o impulso dos Nas fases iniciais das conquistas impe­
sentimentos significa panl Odisseo o cami­ riais, não houve batalha no sentido estrito.
nho mais direto rumo lO fracasso e à perdi­ Apesar da evidente superioridade numtrica
ção. Ele estuda a psicologia do adversário, dos astecas, o IIder Moctezuma foi feito
o examina; decifra e depois derrota, assim prisioneiro por Cortés de fonul anti-herói-
VEllIOS E NOVOS MUNDOS 7

ca.E O impendor inca Atahualpa deixou-se to isso, a poucos quilômetros de Cajamarca,


captunr por Pizuro de maneira tíio infantil outros 45 mil soldados incas permaneciam
que - quase um s6culo depois - o inca de prontidão, sob o comando do cacique
Garcilazo de la Vega se veria forçado a Ruminagui. E ante da iminência do encon­
argumentar em seus Comentarios reales de tro com 50 mil incas, os 160 castelhanos
los incas, que a conquista do Peru era um sentiram-se perdidos em nzão da i
.
fato inexplicável se não fosse considerada dade numérica, conforme relato de protago­
a interferência da mão do Deus cristíio no nistas. do golpe de Cajamarca. Miguel de
golpe de Cajamarca. Estete narra em sua Noticia dei Perú que,
Os impérios americanos sofrenm lI1lgi­ na manhã de 15 de novembro os espanhóis
camente sua inadequação no que diz respei­ assistiram i. missa e se encomendaram lO
2
to ao mundo do impreviito. Sua férrea Senhor "suplicando-lhe que nos sustentasse
estnllUI1l teocnltica e as múltiplas hostilida­ com sua mão". O seaetário de Pizano,
des regionais contnbuiram pan seu exter­ Francisco de Jeréz, que tenta ocultar o pi­
minio. A verdadeira batalha entre os caste­ nico castelhano, registra o esforço do capi­
lhanos e os astecas só se lI1lvou depois que tão para infundir coragem em seus solda­
Moctezuma, que, apesar das vacilações es­ dos, "dizendo a todos que de seus corações
pirituais, acolheu Cortés como um Deus e ftzessem fortalezas, pois não tinham outras,
se resignou il fatalidade anunciada pelas nem outro socono senão o de. Deus, que
profecias, perdendo de fato sua posição de socorre nas maiores necessidades quem es­
lfder indiscutlvel. Quando Cauahtémoc as­ tá a seu serviço" (Verdadera relación de la
sumiu o poder, conseguiu dizimar IS tropas conquista dei Perú). Pedro Pizarro é muito
de Conés, que deixou de lado a auréola da mais direto. Em sua Relación dei descubri­
divindade manipulável e empreendeu a re­ miemo y conquista dei Perú assinala que o
tinda protegido pela escuridão, num episó­ "índio dizia a verdade, porque ouvi muitos
dio conhecido atualmente como" a Noite espanhóis que sem o perceber urinavam nas
Triste" (19 de junho de 1520). Mas, um ano calças de puro temor". E o cronista Francis­
depois, o exército de Cortés, acrescido por co López de Gómara, que fundamenta seu
um poderoso contingente Uaxcalteca, cóm­ relato em fontes orais e informações escri­
plice dos invasores, retomou lO lugar da tas, chega ao extremo de afirmar que"Pi­
batalha. E a guerra só chegou ao fim com zarro falou aos espanhóis, porque a alguns
uma espécie de suicídio coletivo do povo se soltava o ventre por verem de tíio peno
asteca, que resistiu até a morte il tomada de tantos !ndios de guerra, estimulando-os il
Tenochtitlán pelas tropas indo-castelhanas. batalha com o exemplo da vitória de Tum­
Paralelamente, em 15 de novembro de bes e Puná" (Historia general de las [ndias,
1532, o analfabeto Pizarro capturou, com "Prisión de Atabaliba'}
apenas 160 soldados, na emboscada de Ca­ Diz� lenda que Francisco Pizarro jamais
jamarca, o orgulhoso impendor Atahualpa. conheceu o medo. Seja como for, o fato t
Este óltimo chegou ao encontro dos espa­ que no momento em que considerou opor­
nhóis precedido por servidores que varriam tuno ou necessário, deu o grito de guerra e
o caminho real. Ele vinha numa Iiteira sus­ se lançou diretamente sobre o inca a fim de
tentada por oitenta senhores e sentado nu­ derrubá-lo da litein. Com a queda do Uder,
ma pequena cadeira com um coxim de ouro. o império dos incas paralisou-se. Todas as
Chegou com uma coroa na cabeça, um testemunhas presentes que narraram o
grande colar de esmeraldas no pescoço e evento da emboscada de Cajamarca coinci­
protegido por um contingente de uns cinco dem em afirmor que os Indios nio opuseram
mil combatentes semidesarmados. Enquan- resistSncia. E no espaço de duas horas

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• ESlUDOS HlSTóRI<X>S - 199lí1

Umorreram" (versão espanhola da carnifici­ por este como fIxa e estável. numa fi�o
na de Cajamarca) <nlre dois mil e Irês mil manipulável.
soldados incas - cifra que o Anônimo Sevi­ Situação diferente ocorreu quando os
lhano aumenta, em sua Conquista dei Perú, expedicionários europeus se acharam em
para seis mil ou sete mil -, mas nenhum inferioridade de condições com respeito
espanhol. Somente uns anos depois, na ca­ aos indígenas, geralmente isolados de seus
pital, Cuzco, aconteceria a rebelião dos in­ companheiros e submetidos à vontade dos
cas comandada por Manco lI, apelidado de captores. Apelaram então para uma moda­
I�O Fugitivo", rebelião que, apesar das hos­ lidade singular de improvisação de poder,
tilidades existentes entre os bandos dos par­ estratagema a que chamamos de "manipu­
tidários de Pizarro e de A1magro, os espa­ lação do sagrado", Confundida às vezes
nhóis se encarregariam de dominar. com os milagres, a manipulação do sagrado
A ambição doviajante quinhentista foi o foi a arma dos europeus escravos. nas rans

enriquecimento, Mas nas Índias Ociden­ ocasiões em que conseguiram utilizA-la pa- ,
tais, as aspirações dos expedicionários, as­ ra fugir do cativeiro. O expedicionário ca.

sim como seus códigos de guerra, desloca­ tivo contou na América com a vantagem de

ram-se com freqüência para o terreno do perceber na natureza um objeto sem espíri­
to, sem aquela "virtude" que os índios da
inesperado, onde produziram exemplos no­ , .

ilha do Mal Hado atribuíam aos objetos,


táveis de "improvisação do poder' e de
segundo consta na relação dos Naufragiós
"manipulação do sagrado", Stephen Green­
de A1var Núôez Cabeza de Vaca, e que os
blatt, que cunhou a expressão "improvisa­
antropólogos designam com o nome de
ção do poder", define-a como a "dupla ba­
"mana", Forçado pelas circunstâncias, e
bilidade de capitalizar sobre o imprevisto e
numa série de atos que assinalam o cadter
de transformar os materiais dados dentro do
consciente da elaboração das ficções, A1var
cenbio de si mesmo". E acrescenta que o
Núôez usufruiu da distinção entre o objeto
essencial da improvisação dos europeUs é
e o sujeito em beneficio próprio: redivini­
sua habilidade de, "vez por outra, insinua­
zou a natureza desdivinizada para ameaçar
rem-se dentro de estruturas preexistentes
os chefes, dividir a comunidade e infundir
dos nativos - políticas, religiosas e mesmo
um temor coletivo entre os índios. Entretan­
psíq\licas - e transformarem essas estrutu­
3 to, a meta do cativo já não era a conquista
ras em beneficio próprio", Em situações
- como aconteceu também no caso da his­
vantajosas para o europeu, essa ronna de
tória do arcabuzeiro alemão Hans Staden,
conquista manifestou-se alravés da capaci­
aprisionado pelos índios tupinambás -, mas
dade do viajante de Iransfigurar a coação a simples sobrevivência e a volta à civiliza­
ideológica em vontade própria do nativo, ção européia,
Na Newen Zeytung aus BresiJlg Landt (No­
Está suficientemente provado que a con­
va Gazeta da Terra do Brasil), opúsculo quista da América foi de uma violência
escrito em alemão por volta de 1515 e onde brutal. Como descrevê-la se não por meio
se narra uma viagem comercial ao Brasil, o do pesadelo do sangue, com suas desditas,
autor informa que os indígenas embarca­ prantos, lamentos, mortes, suicídios e as­
ram nos navios portugueses certos de que sassinatos? No Novo Mundo, o enfrenta­
seriam levados à terra prometida, Que o mento de subjetividades não pressupôs o
destino dos nativos fosse a escravidão. s6 verdadeiro reconhecimento da alteridade
demonstra a vitória da improvisação, que dos indígenas, Os europeus lutaram conin
triunfa, como afirma GreenblaU, quando o aborígene e, em raras ocasiões, a favor
Iransforma a realidade do outro, percebida dele, como no caso do frade dominicano
VELHOS E NOVOS MUNDOS 9

Bartolomé de las Casas. Contudo, até a luta transparência terrenal das hierarquias do
ideológica levada a cabo na península e na poder rumo ao misterioso plano da abstra­
América refletiu a elasticidade das aspira­ ção cósmica.
ções dos espanhóis; a disputa dos letrados Para começar, os instrumentos abertos e
sobre a justeza da guerra situou-se entre os contaminados foram substitllÍdos pelos her­
pólos da violência épica e da colonização méticos e higienizados. Do navio ao cavalo,
pacífica. Essa ânsia de incorporar o nativo essência na conquista do Novo Mundo, pas­
americano ao âmbito da cultura eurocristã 'samos para o avião e o foguete, annas in­
foi concretizada com um duplo resultado: o dispensáveis que visam a exploração do
etnocídio cultural americano e o genocídio espaço. Enquanto a armadura do soldado o
indígena, ambos ferozmente acelerados na protegia das flechas e dos ataques do inimi­
América pela difusão das epidemias viróti­ go, a proteção da roupa do astronauta tam­
cas provenientes do contato, amiúde beli­ bém serve para isolá-lo do ambiente que o
coso, das cul turas. Se algo consegue chocar ameaça. E das descrições dos cosmonautas
a sensibilidade moderna é essa presença se deduzem sistematicamente dois fatores
excessiva do corpo e do som nas guerras comuns: o silêncio sepulcral do espaço e a
quinhentistas. A busca de metais preciosos, perda do peso corporal. Todos percebem
o domínio a todo custo, o escravismo e as essa espécie de euforia proveniente da au­
matanças percorrem estrondosamente os sência da gravidade. Presume-se que Santo
reinos e províncias das índias Ocidentais. Tomás de Aquino pesava mais de 150 kg,
Na ação, os viajantes prescindiram da suti­ mas Dante teve a ousadia de representá-lo
leza; contudo, na reelaboração narrada dos dançando no paraíso. Falando em termos
eventos apresentaram uma elevada cons­ históricos -e não nos de nossas biografias
ciência da importâucia da palavra escrita e individuais -não está distante o dia em que
do lugar de destaque que ela ocupa no mu­ o papa e os líderes das potências mundiais
seu da fama. se reúnam como plumas flutuantes numa
plataforma espacial para disputaras proble­
mas que afetam a Terra; tampouco aquele
.
dia anunciado da utilização de subúrbios
Operação conquista do espaço satelizados que servirão para distanciar os
ricos das massas ou para forjar a nova fron­
O submetimento da alteridade pelas ar­ teira da esperança dos imigrantes em sua
mas e pelo verbo divino, a improvisação do busca de uma segunda terra prometida. O
poder, a manipulação do sagrado, as figuras encontro pacífico dos supersatélites russo e
do cativo indígena, de náufrago abandona­ americano no espaço já é uma realidade,
do e de índio-intérprete, nada disso existe desde julho de 1975, evento que recapitula
na conquista moderna, a do sistema solar. a reunião de espanhóis e portugueses na ilha
Em compensação, pennanecc a valorização de Tidoro, no arquipélago das Malucas, em
da ação e da palavra escrita, numa busca da 1521. Assim como as diversas regiões do
fama talvez mais peremptória que a de an­ planeta ficaram interligadas a partir de
tigamente. Mas hoje nos remetemos a uma 1521, pois, devido a travessias opostas (oci­
forma de subjugação que se distancia pro­ dental e oriental) os navegantes ibéricos
gressivamente do marco de referência hu­ convergiam na mesma minúscula ilha das
mano, pois persegue a eliminaç.ão do corpo especiarias, o sistema solar anora, desde
e do som. É a conquista c1ean, infonnatiza­ julho de 1975, como o novíssimo laborató­
da, robotizada, que denuncia o anacronis­ rio de experimentação dos países de van­
mo da fumaça industrial, que desloca a guarda.
10 FS11JIX)S HlSTÓRICDS -199m

No projeto de colonização dos mistérios anos 60 à diversidade cultural contnbuiu


solares despontam os primeiros sintomas para tornar válida uma multiplicidade de
da dissolução da medida humana que' im­ referentes estéticos. Evidentemente, con­
pregna os empreendimentos colonizadores ceitos como simetria, proporção e harmonia
anteriores. Cristóvão Colombo concebeu o ainda perduram como coordenadas que re­
projeto de atravessar o Atlântico pela rota gem o cotidiano, embora entrem em contra­
ocidental, para encadear o ouro dos asiáti­ dição com a demanda de originalidade exi­
cos aos interesses da Coroa de Castela. gida por contextos sociais de acelerada
Bastava, na concepção geográfica do almi­ competitividade. Este fenômeno de cance­
rante, atravessar o mar Tenebroso (Atlânti­ lamento da unicidade dos referentes estéti­
co) para atingir, pelas costas, os súbditos do cos, cuja fase preliminar é levada a cabo
Grão-Cã. A interferência de uma massa com a substituição - no século XX - de
continental desconhecida seria um golpe gosto novecentista francês pela estética de
violento para os ideais de enriquecimento massas dos Estados Unidos, consolidou-se
imediato de Colombo e da Coroa castelha­ durante a segunda metade deste século com
na. o triunfo da instituição do exotismo. Mas os
Embora de dimensões muito maiores modelos que favoreceram o gosto pelo exó­
que as imaginadas pelo navegante genovês, tico, corrente que se desenvolveu paralela­
a primeira circunavegação do mundo pela mente à redescoberta da alteridade (espe­
expedição de Magalhães-Elcano (1519- cialmente nas décadas de 60 e 70), não
1522) demonstraria que o globo terrestre resistiram ao embate modernizador e hoje
era acesslvel ao domlnio humano: tratava­ abandonam seu antigo lugar de honra para
se de um formidãvel empório de riquezas abrir espaço a um novo tnbuto visual que,
. para a Europa Ocidental, que coroava sua seguindo o rastro do ouro, imita sem a
ambição descobridora com o butim plane­ menor dor de consciência desde os p op­
tário e consolidava, dessa fonna, sua posi· stars e os pilotos de corridas de automóvel
ção de pantolcrator do poder e da moderni­ até milion' rios de toda espécie e os insossos
dade. E quando, em meados do século XIX, apologistas da ecologia.
Sarrniento proclamava em seu Facundo Considerado da perspectiva da dimen­
que o mal que assola a república Argentina são cultural, o fenômeno da reeducação e
é a extensão, propõe resolver o problema do da bifurcação do gosto estético constitui um
despovoamento com a emigração européia. sinal inequívoco da desvalorização do mo­
A imensidão da planlcie, das florestas, dos delo que depositava sobre as "obras imor­
rios, do pampa, da selva e do horizonte tais" o acúmulo total do conhecimento. A
"sempre incerto" preserva uma relação de explosão da unidade estética é o outro lado
intimidade com o esforço do colonizador. do fim do antigo conceito de "cultura", Mas
Nem a realidade das megalópoles moder­ já não se entende por cultura uma entidade
nas, apesar dos fenômenos da desterritoria· homogênea integrada pelos clássicos euro­
Iização e da desintegra' peus, e sim uma saudável diversidade de
4
°nos alegados pelos crlticos, conseguiu expressões espirituais e materiais. Entre­
reduzir a persistente diminuição do planeta tanto, o problema de fundo é muito mais
às dimensões do corpo, ao circulo leonardi­ grave. Porque também a fase da diversidade
no, embora tenha contribuído para sacudi­ cultural se precipita no abismo, sepultada
la. pelo avanço da tecnologia, cultura moderna
Ao mesmo tempo que o corpo humano e tecnologia coincidem, associação que
constitui ainda para nós a medida de todas ameaça reintegrar e centralizar num só pIa­
as coisas, a positividade conferida desde os no a realidade referencial da modernidade.
• •
VELHOS E NOVOS MUNOOS It

Por trás da agonia dos antigos valores, que dos remotos reinos e províncias de ultramar
se deslocam rapidamente para a museifica­ indianos foi insignificante. Pelo contrário,
ção neutralizadora, perfila·se - de forma em nenhuma etapa da história os porta-vo­
cada vez mais perturbadora - a gênese de zes das mudanças manifestaram de forma
uma transformação profunda e dificil de tão taxativa a consciência de se encontra­
captar: o cancelamento da intimidade do ser rem no limiar de um novo mundo de caráter
humano com o ambiente natural ou artifi­ utópico quanto durante a segunda metade
cial que o cerca. A participação do micro­ do sécu10 XX. E nesse caso, próximo ao
cosmo no macrocosmo, do criador em sua início do terceiro milênio, os porta-vozes da
obra planetária monumental, está longe de mudança são os astronautas.
ser uma característica da conquista do espa­ Para a humanidade, a consciência da
ço c6s�ico, pois o projeto solar se abre para transcendência da época espacial supera
o infinito como a aventura intenninável dos amplamente a reflexão histórica dos huma­
séculos, sob a regência absoluta da mente e nistas italianos do Irecento e do quaurocen·
da tecnologia, no interior de um vazio onde to. O conceito de Renascença implicava
as noções de fronteira e de corporalidade uma ressurreição do modelo de Antiguida­
parecem diluir-se e carecem de substância. de e uma comparação com ele, indepen·
Ao contrário da conquista da América, dentemente da seletividade e do utilitaris­
que perseguiu o ouro e o acrescentamento mo que reagiam o processo das analogias.
da mensagem de Cristo em terras férteis, as Termos como 'Ireposição", uredescoberta",
m'ttas da exploração do sistema solar não "restauração" e "devolução" abundam nos
são nem transparentes, nem imediatas. De textos dos humanistas italianos, tennos que
fato, a militarização do espaço, que assegu­ parecem ligados à influência dos modelos
ra amplas vantagens em termos de informa­ clássicos. E é conhecido o fato de que Pe­
ção e controle sobre o adversário, explica trarca criou a noção da unova era" a part'ir
em parte sua vitalidade, meta primária à de suas caminhadas pelas rumas da antiga
S
qual seria necessário adicionar a importân­ Roma. Outro descobridor de um novo
cia crescente do componente econômico e mundo, Cristóvão Colombo, sustentou até
,

ecológico de corte multinacional. Já num sua morte, em 1506, que atingira a Asia
plano mais abstrato, a pesquisa solar expri­ pelo caminho do Ocidente. E o Mundis
me'concomitantemente a curiosidade infa­ Novus de Américo Vespúcio teve como
tigável do ser bumano por decifrar o além contrapartida o apocalipse das culruras in­
desconhecido e seu desejo de domínio ab­ dígenas. A revolução científica também
soluto. A travessia do Plus Ultra, emblema não gerou, em sua época, uma visão co1eti­
soberbo da curiosidade científica no fron­ va da profundidade da mudança. As teorias
tispício da Instauratio Magno (1620) de que destacam a passagem do "mundo fe­
Franeis Bacon, estava acompanhada, na cbado para o universo infmito", assim co­
versão terrestre e marítima da viagem da mo o trânsito da fisica aristotélica e da
curiosidade, pela chegada do aparelho mosofia escolástica medieval para a ciên­
coercitivo. Apossar-se das índias Ociden­ cia moderna, são - salvo raras exceções -
tais significou, além do domínio territorial conceitualizaçõts do século XX.
castelhano, a imposição do modelo político Com freqüência os cosmonautas ligam
e cultural ibérico. Mas os expedicionários explicitamente a experiência da descoberta
europeus quinhentistas mostraram escasso da América à exploração do sistema solar.
interesse por subjugar o tempo. Ao contr.\­ Marc Garneau, o primeiro astronauta cana­
rio do que se cosruma algumentar, a impor­ dense a passar oito dias no espaço
tância do substrato utópico na construção (5/10/1984), realizando experiências do
12 ESTUDOS IIISTÓRlOOS -199117

programa espacial canadense, compara am­ imaginada ou esperada, pode provocar um


bos os eventos e sustenta que a etapa do profundo impacto de transformação. Edgar
descobrimento que se inicia será semelhan­ D. Mitchell participou da terceira alunissa­
te à de Colombo ao partir do porto de PaIos, gem como piloto do Apolo 14, mas abando­
quinhentos anos atrás. Segundo Gameau, nou logo a NASA e fundou o Instituto de
Colombo começou o movimento do "Let's Ciências Noéticas, orientado para a pesqui­
explore lhe reSI Df our world" - "Vamos sa da consciência humana. Segundo Mit­
explorar o resto do nosso mundo" -, propi­ cbeH, a experiência lunar gera a mudança
ciador do aluvião de pessoas que se expan­ de perspectiva mais importante da história.
diu para explorar o mundo além das costas
-

da Europa e da Asia. E mesmo em 110SS0 "11 is precisely IJUs shift in viewpoint and
século, acrescenta o astronauta canadense, whal it implies for lhe capability of lhe
seriam descobertos lugares desconhecidos. human being and for our view of
(White, 1987:255). lhe universe IIIal makes it so powerful.
A simplicidade da analogia de Gameau Un l i l t h e last t w e n l y years, ali
é de arripiar. Em todo caso, não supõe um plrUosophers, tllinkers, scientists and
retomohist6rico. Implica a incorporação de poets IIave been Earlllbound. Tlley IIad
um modelo que é conhecido para o leitor, an Earlllbound point of view. Space·
pois a conquista espacial carece de prece­ fUgiu is one of IIU! more powerful expe­
dentes. Contrariamente à reação dos caste­ riences tlral Immans can lzave, and the
lhanos diante da descoberta do quarto con­ lecllnological event of breaking IIU!
tinente, o americano, depositando durante bonds of Earlh is far more IIIan IIIe te­
considerável espaço de tempo em seu inte­ c/mology Ihal went into it, because of
rior vislumbrado maravilhas dignas de es­ IIIis perspective" (White, 1987:219).
panto, a colonização do espaço tende a des­
valorizar com pavorosa rapidez o exotismo ("É precisamente essa mudança de pers­
dos lugares "afastados" do planeta, pois sair pectiva e o que ela implica para a capa­
da Terra significa que já se controla uma cidade do serbumano e para nossa visão
sofisticada máquina de diminuir os obstá­ do universo o que a toma tâo poderosa.
culos da distância. Bali, Afeganistão ou Ti­ Até os últimos vinte anos, todos os filó­
bete encontram-se, para o astronauta mór­ sofos, pensadores, cientistas e poetas es­
mon e físico D. L. Lind, "jusl around IIU! tiveram atados à Terra. Eles tinham um
corner" - "logo ali na esquina" (While, ponto de vista amarrado à Terra. A via­
1987:278). E com o acesso semi-imediato gem espacial é uma das experiências
(instantâneo no caso da televisão) às mais mais fortes que os seres humanos podem
distantes regiões do Morbe, dilui-se O en­ ter, e o evento tecnológico de romper o
canto derivado do imaginado ou vislumbra­ laço da terra é muito mais importante
do. A onipresença dos meios de comunica­ que a tecnologia que entrou nele, por
ção que limitam seu comentário aos rituais causa dessa perspectiva. ")
de transição e aos desastres de todo tipo
conseguiu trans(onnar aqueles lugares que Nesse sentido, a experiência da conver­
antigamente estavam envolvidos pelos são de perspectivas distancia-se do signifi­
véus do mistério em pouco mais que peri­ cado da ascensão de Petrarca ao monte Ven­
ferias pobres e desgraçadas. t o s o . P e r s i s t e a fluidez d a r e l a ç ão
Enquanto a descoberta de regiões inex­ exterior/interior que distingue a peregrina­
ploradas as desmistifica, o enfrentamento ção da simples viagem; e preserva-se a
inicial do viajante com a diferença, antes s6 transferência de sentido que vai do impacto
VEl..J{OS E NOVOS MUNOOS 13

com a exterioridade A transcendência da Heitor se assusta e chora de medo ao ver seu


interioridade, das coisas corpóreas às incor­ pai com o capacete de guerra? Imagino que
póreas. Mas o poeta sofre a conversão pela qualquer criança de hoje teria uma reação
palavra. "Os homens viajam" -lê Petrarca similar diante da visão diabólica de seus
numa passagem do livro 10 das ConfISsões pais usando uma máscara antigás, como as
de Santo Agostinho, justo no momenlo em utilizadas recenlemenle na guerra do Golfo
que o poeta se encontra no cume do monte Pérsico. A mesma comparação, em tennos
Ventoso e precisamente após expressar sua de tecnologia militar, hoje nos parece sim­
admiração pelo espetáculo extasiante da plesmente absurda. Quem compararia, a
natureza -upor admirar as alturas dos mon­ não ser d. Quixote (nem sequer Rambo o
tes, e as grandes ondas do mar, e as largas faria), o poder da furiosa espada de Aquiles
correntes dos rios, e a imensidão do oceano, com a infernal tecnologia m�dema? Em
e o girar dos astros, e se esquecem de si conseqüência, se for verdade que as viagens
6
mesmos". espaciais são a metáfora para a tecnologia
Evidentemente. a citação nos remete a do século XX, como sustenta MitcbeU, en­
uma história anterior de conversões letra­ tão seu projeto universal de integração en­
das que o poeta laureado recapitula e de tre a consciência e a matéria exigirá vários
passagem aproveita para reinterpretar, da séculos até tornar-se efetivo.
perspecliva do humanismo emergenle. Pois O que chama a atenção nas apreciações
enquanto Santo Agostinho e Santo Antônio dos asl' ranautas é sua consciência de estar
lêem trechos da Bíblia e, guiados pela luz criando o futuro. Assistimos, Connulada em
da palavra divina, abandonam o mundo dos tennos ideais, à busca de realização da uto­
prazeres terrestres para se entregarem ao pia. O espaço projeta em tela cósmica a
serviço de Deus, Petrarca lê a frase de imagem especular de nossos sonhos de fu­
Agoslinho e a interpreta como apoio à Epís­ turo. O ser humano nunca esteve tão próxi­
tola 8.5 de Sêneca, na qual o filósofo roma­ mo dos dons divinos da criação: novas so­
no exalta a nobreza da mente: "nada é ad­ ciedades em lugares remotos, inventadas
mirável ao lado da mente; comparado com ex-nihilo, planejadas pela razão e levadas à
sua grandeza nada é grande". O trãnsilo do prálica pela lêcnica. Ainda "não há tal lu­
sagrado ao profano está nos primórdios de gar". Mas no fim do século XX, numa épo­
sua legitimação. Por outro lado, no exem­ ca em que a aceleração tecnológica cancela
plo da conversão dos astronautas, corpori­ a categoria do inconcebível, a percepção do
ficado por Mitchell, a mediação da palavra caráter imaginário da ciência-ficção perde
carece de valor e a dimensão profana está força minulo a minulo. A exploração e a
firmemente arraigada em qualquer rilual de ocupação do sislema solar é um fenômeno
Iransição. Éa visão orbilal do planeta como irreversível; sua atualização é questão de
uno, pequeno e homogêneo, que sacode a tempo. Se as sociedades agroindustriais
consciência do ser e se incrusta na artificia­ ainda estão longe de participar desse novo
Iidade da heterogeneidade cultural, com um mundo anunciado, isso se deve a quatro
caráter marcadamente universal. Em ter­ motivos: primeiro, a pesquisa científica res­
mos estritos, não se trata de uma conversão tringe-se a um círculo de nações tecnologi­
religiosa ou política. O conflilo que se insi­ camente avançadas; segundo, essa restrição
nua tem raízes na inadequação do sistema tecnológica exclui o imaginário solar do
de valores e crenças ao contexto da acele­ imaginário cotidiano; terceiro, a tecnologia
ração científica dos países de vanguarda. aparece simplesmente como um instrumen­
Quem não se emociona, por exemplo, dian­ to da cultura moderna, e não como sua
le do episódio da Díada em que o filho expressão mais vital; quarto, os problemas
14 ES1UOOS InsTÓRICOS -1991/7

das sociedades agroindustriais, tanto em Por baixo da utopia desponta o fantasma


sua vertente estrutural quanto na conjuntu· das relaçõcs de poder. Uma das virtudes
ral, são de lal gravidade que as preocupa­ insubstituíveis da utopia insular da Renas­
ções coletivas dirigem-se necessariamente cença consistia em que os utopistas eram
ao âmbito do imediato. invisíveis para o resto do mundo, enquanto
Ao longo da história, e de modo inevitá­ os adversários estavam ao alcance dos uto­
vel, as utopias refletiram os problemas e as pislas. A utopia modema do poder pennite
esperanças próprias de seu tempo e ambien­ a visibilidade, mas não o alcance. Ser ina­
te. tingível para os outros enquanto estes per­
manecem a nosso alcance: tal será, se ainda
Os princípios que regulam a Comissão
não é, o sonho máximo dos ditadores do
Nacional sobre o Espaço (National Com­
mission 00 Space) são testemunha do sonho futuro.

ordenador dos atuais senhores do planeia. Durante a década de 50, o soviético K.


Integrada por nortc- americanos, essa co­ Guilzine, em seu livro Viagem aos mundos
missão considera o sistema solar como a distantes, referia-se à época extraordinária
'lCasa da Humanidade", sobretudo como que cabia à humanidade viver. 0 que hoje
11

unossa" casa. é impossível amanhâ será possível", assina­


la a epígrafe do primeiro capítulo de seu
E a exploração do sistema solar tem por
livro, onde o autor associa a conquista in­
objetivo dcc1arado o estabelecimento de
terplanetária aos avanços materiais e mo­
novas sociedades em novos mundos.
rais do comunismo soviético. Se o poder
sobre a natureza aumentou de maneira for­
"The seu/ement of Norlh America and midável, em contrapartida refinou nosso
olher conlinems was a prelude 10 distanciamento com respeito a ela. Hork­
humanily's grealer challenge: lhe space heimer e Adorno também notaram, no exí­
frontier. As we deve/op new /ands of lio norte-americano e no contexto da ascen­
opporlUniJ.y for ourselves and our des· são d o s regimes t o ta l i t á r i os, q u e a
cendants, we mllsl carry with llS lhe gua· triunfante dialética da Ilustração consolida­
ranlees expressed in OI/r Bill of Righls: va a alienação do sujeito social com relação
lO IIIink, comml/nicale, and /ive in free­ aos poderosos e incentivava a atrofia da
dom. We muSI stimulate individual ini· imaginação. Suprimido o mana dos primi­
lialive and free enterprise in space" tivos, esfumava-se o âmbito do desconhe­
(National Commissioll 011 Spacc, cido espiritual. O extennínio do fantasma­
1986:3-4). górico, que signi ficava para Freud um
indício n
i equívoco do progresso da civili­
("A colonização da América do Norte e zação, ameaça transferir-se do círculo da
de outros continentes foi um prelúdio de intimidade à totalidade do universo. Seja
um desafio maior para a humanidade: a como for, a exploração das regiões desco­
fronteira do espaço. A medida que de­ nhecidas do espaço ser.! uma das tarefas
senvolvemos novas tcrras em nosso be­ insubstituíveis do futuro próximo. Louvar a
nefício e de nossos descendentes, ordem interna mas transgredir os limites do
devemos transportar conosco as garan­ conhecido revela a marca do espírito do fim
tias que constam em nossa Declaração do século. Nada mais sofisticado, organiza­
de Direitos: pensar, comunicar e viver do e ordenado do que uma nave espacial;
em liberdade. Devemos estimular a ini­ nada mais transgressor. Nossa época assis­
ciativa privada e a livre empresa no es­ te, em tela panorâmica, à duplicidade que
paço." ) marcou o processo civilizador desde suas
VEl.JiOS E NOVOS MUNDOS

origens: conquistar poder sobre a a"sência mento - integra de fonna substancial o pen­
de sentido. samento de Maquiavel.

Por uexperiência" , Maquiavel se referia Por um lado, a experiência decorrente da


à trajetória da vida política, à acumulação conquista da América criou tensões no vín­
de êxitos e fracassos do homem público, culo entre o mundo renascentista e I Anti­
sucessos que lhe permitiam delinear uma guidade. Aampliação do limite das frontei­
teoria sobre a natureza do ser humano e ras territoriais lançou o europeu contra
esboçar uma série de regras político-morais realidades até então insuspeita das. No fim
visando maximizar a efidcia do governo e do século XVI manifestam-se indícios ine­
,

a manutenção dos principados, por parte do quívocos da ascensão da importlincia da


príncipe. Sua fonte de reflexão preferida, descoberta do Novo Mundo para a Europa,
além da observação dos dramas políticos de não só em termos econômicos como tam­
seu tempo, foi a leitura dos historiadores bém espirituais. Um pensador como Mon­
antigos. E a análise do presente histórico taigne, embora de formação clássica e exí­
surgia diante de seus olhos como a confIr­ mio conhecedor dos antigos, j á não
mação do substrato psicol6gico inerente ao consegue conceitual izar a noção de "expe­
ser humano, que os antigos se encarregaram riência" a partir do estudo da hist6ria e da
de registrar e o escritor florentino de inter­ observação de seu próprio meio social. Em
pretar e explicar. A "nova rota" da qual fala seu famoso ensaio Sobre a experiência, ele
Maquiavel no pr610go de seus Discors; inclui como parâmetro de referência os ín­
edetenninei entrar pela via que, não segui­ dios tupinambás, que lhe servem de instru­
da até agora por ninguém, ser-me-á dil'ícil mento demonstrador da historicidade das
e trabalhosa'1, constitui a expressão de um f6rrn.ulas culturais européias. A América
pensamento revolucionário diante do an­ cump�e, em relação ao pensamento ordena­
daime ideol6gico de omissões eocultações dor do século XVI um papel semelhante ao
,

de uma realidade política flagelada pelo que a antropologia do século XX desempe­


desejo de conquista e pelo exercício do nha com respeito às teorias psicanaHticas
poder. NeSse sentido, a ruptura se consagra, de Freud: desmascara sua historicidade.
o discurso sagrado cede seu trono ao profa­ . Por outro lado, e com uma repercussão
no e a análise da realidade política adquire muito mais profunda que o reconhecimento
um estatuto científico. Mas a ruptura deve da diversidade e do questionamento da frá­
ser entendida em relação às distorções ha­ gil solidez do mundo, perfila-se na segunda
bituais dos ide61ogos, e não à tradição, pois metade de século XVI a ascensão do com­
Maquiavel extrai desta última a maior parte ponente científico-tecnol6gico, embora es­
do material teórico que contribui para con­ te ainda não se estenda à vida cotidiana.
solidar sua visão pouco romântica da natu­ Atualmente, a proliferação de mecanismos
reza do ser humano. cada vez mais sofisticados para encurtar as
Apesar da referência ao usempre tão pe­ distâncias tempo-espaciais tende a apagar o
rigoso descobrir novos e originais procedi­ contexto de precariedade no qual se origi­
mentos como mares e terras desconheci­ naram as antigas invenções tecnológicas
das", assinalada à maneira de desafio no que possibilitaram a transgressão das fron­
pr610go dos Discors;, nem a descoberta do teiras geográficas. As primeiras caravelas,
Novo Mundo - como seu corolário, a cons­ os primeiros aeroplanos e foguetes espl­
ciência da diversidade - nem a invasão da ciais mais parecem brinquedos infantis do
ciência matemática na redução do planeta a que verdadeiras obras de arte. Se há um
coordenadas numéricas e abstratas - como elemento a distinguir entre I contempora­
seu corolário, a tecnificação do conheci- neidade e a Renascença· de Maquiavel, é o
\6 ESTIJDOS HISTÓRICDS - 199V1

nosso vago sentimento de que uma parcela América, os pensadores do século XXI não
da humanidade, guiada pela infonnática, poderão deixar de relletir sobre a relação do
ingressou, de fonna irreversível, num Mun­ ser humano com a divindade e com a socie­
do Novo, fenômeno cujos primeiros sinais dade a partir de um fenômeno radicalmente
despontam em meados do século XVI e se novo: a conquista do espaço cósmico. Ca­
acentuam notavelmente nas últimas déca­ berá às que chamamos de "filosofias nu­
das do século XX. cleares" - em uma época terciária-ciberné­
Nada expressa melhor esse sentimento tica tão extraordinária que não se poderá
de "novomundismo" que a crença genera­ companr com nenhum período do passado
lizada da inutilidade dos pensadores pré­ - a tarefa da ordenação teórica do sentido
iluministas para a compreensão das socie­ do Novo Mundo. Paradoxalmente, se forem
dades pós-industriais e para o conhecimen­ confinnadas as tendências sociais em as­
to dos seres humanos que as habitam. De censão - em especial a da substituição da
fato, argumentou-se que a aceleração verti­ busca do ser pela prova de seus limites - a
ginosa das inovações científico-tecnológi­ maioria dos habitantes deverá ajoelhar-se
cas produziu profundas mudanças nos paí­ diante do empobrecimento espiritual. Des­
ses de vanguarda, dando lugar, ali, a uma providas de interesse pela experiência an­
era pós-industrial que fonnou sociedades cestral, presas à simultaneidade sem vincos
terciário-cibernéticas. As repúblicas ideais da imagem, submetidas pela suplantação
de Piatio, as consolações pela filosofia de incansável dos heróis da indústria cultural.
Boécio, as cidades divinas ou profanas de angustiadas pela aceleração do rilmo histó­
Santo Agostinho, as histórias calamitosas rico e pela vertigem das inovações da tec­
de Pedro Abelardo, as sumas teológicas de nologia, as novas gerações que aOoram fa­
São Tomás de Aquino, os cavaleiros quixo­ zem um alarde patético de sua
tescos ou sanchopancescos de Cervantes, mediocridade vivencial. A etapa que se ini­
esse passado pré-industrial, em certas oca­ cia para a humanidade - a etapa interplane­
siões e o pr6prio passado industrial, pare­ tária -, que o viajante norte-americano do
cem sofrer o impacto da tecnologia e serem espaço Amslrong confunde com o progres­
postos de lado, junto com a roca e o tear. A so da ciência e da tecnologia, pode não ser
ciência, na paráfrase da orgulhosa frase de agradável nem justa, mas irrompe no cená­
Arnstrong, deu um passo gigantesco quan­ rio da história sem se preocupar com os
do o astronauta pousou a bota norte-ameri­ matizes e possuída de uma vontade férrea
cana na lua. Ela apregoa, com seus triunfos de cxtenninar, não s6 Deus e o passado,
aterradores, o fim do diálogo com a autori­ como o próprio planeta Terra.
dade da letra, seja sagrada ou secular.
Abelardo, São Tomás de Aquino e Lute­
ro dialogavam, com mestria e originalida­
de, com a tradição clássica. as Sagradas
Escrituras ou Agostinho; Maquiavel, com Notas
Aristóteles e Tito Lívio, entre outros. Inde­
pendentemente das críticas à tradição, suas
l.a. T. Todorov, La conquêu: de I'Améri­
visões do ser humano e da história não
que. Editions du Seuil, 1982� Grcenblatt, "Ma­
pressupunham a supressão dos ensinamen­
ravilhosas possessóes", em Estudos Históricos.
tos do passado. Todavia, assim como os
trad. F. de Castro Azevedo, Rio de Janeiro. 1989,
cronistas quinhentistas espanhóis foram v. 2, n.3, p. 43-62. Em 1507, a partir da homena­
forçados a revisar e ajustar sua cosmovisão gem por parte de um obscuro grupo de humanis­
a partir da descoberta e da conquista da tas da rorte do duque de Lorena ao piloto e
VEUlOS E NOVOS MUNOOS 17

cartógrafo América Vcspúdo. autor da epístola toengaflo?" em Renacimiento y renacimi�nlos


Mundus no\IUS, .de 1503 e como resultado
- en eI arle occidenta� trad. M. L. Balseiro, Ma­
direto do expansionismo mercantil europeu - drid,AJianza Universidad, 1975 (título original:
inicia sua trajetória triunfal o vocábuloAmérica. Renawance and rena.scenas in Western art,
ou terras de Amirico. O termo América Latina Slockhol m, 1960).
SÓ surgirá no século XIX, no contexto do expan­ 6. '"Letter to Francesco Dionigi de'Roberti
sionismo francês, cuidando de seus interesses dei Borgo San Sepolcro, professor of theology
diante da ameaça do avanço anglo-saxão. in Paris. Malaucene, April 26,1336". em The
2 . Para uma análise das desvantagens da Renawance phi/osoplry 01 man, Oticago, 1be
estabilidade hierárquica no que diz respeito à Unive",ilY o[ Oliaogo Press, 1971, p. 44. A
conquista do império asteca por Cortês, ver T. versão em espanhol citada provém das Confesio­
Todorov, op. dI. capo 2. nes de San Agustín, X, 8. 15, Madri, Biblioteca
3. a. Stephen Grecnblatt, Renaissallce se/F de A utores Cristianos, 1974, p. 402. O original
lashioning: from More toShakespeare, Chicago, em latim diz o seguinte: "Et cunt homines mirari
University af Chicago Press, Chicago, 1980, p. alta montium et ingentes nuetus maris et latissi­
227. "I shall call lha I mode improvisation, by mos lapsus numinum et oceani ambitum el gyros
which I mean lhe ability bolh to capitalizeon lhe sidcrum et relinquunl se ipsos" (id. ibid.).
unrorcsccn and to lransform given materiais into
onc's own sccnaria ( ...) What is essencial in lhe
Europeans' ability again and again to insinua te
themselves into the preex isting political, reli­
gious, even psychic struClures of lhe natives and
lO tum those structurcs to lheir advantage." Bibliografia
4. Em seu famoso ensaio Ariel. de 1900, o
esaitor uruguaio José Enrique Rodó proclama­
va que a cultura latino-americana estava integra­
ADORNO & HORKHEIMER. 1969. DialektiJc
da por uma estética grega e uma ética cristã. De
der Aufklarung - Philosophisch� Fragmen­
um modo geral, os filhos da geração de 20 não
te. Frankfurt am Main, S. Fischer Verlag
fugiram à noção de que a cultura letrada exce­
GmbH. (1' cd., New Yorlc, 1944.)
desse os limites do compêndio nominal dos au­
ALLEN, Joseph P. 1984. Entering space: an
tores considerados "clássicos", lista que passou
asrronaut's odyssey. New York., Stewart. Ta ­
a incluir entre eles os consagrados ao marxismo­
bori & Cha ng.
leninismo e que encerrava sua ilustre genealogia
CABEZA DE VACA, Alvar Núiiez. 1985. Nau­
com o desespero k.alliano (ruptura diferencial
fragios, Madrid, A1ianza Editorial.
que é, no exemplo particular dos nasddos na
CARPENTER, M . 50011, etalii. 1962. lV..e.... . :
geração de 20, ainda muito mais taxativa no caso
by the aslronauls themselves. New York.
da pintura e da música). Também os defensores
Simon and Schusler.
do nativismo, inclusive os '"calibanistas"'. não
CAl\PENllER, Alejo. 1984. "Lo barrooo y lo
tiveram a suficiente lucidez crítica para estabe­
real maraviI loso",em Ensayos. Cuba, Letras
lecer a diferença entre mitificação e cultura mo­ Cubanas.
derna. Sua c o n t r i b u ição hi s t ó r i c a no CASlRO, Silvio, 00. 1985.A carta de Pero Vaz
reconhecimento do valor da cultura 18Iino-ame� de Caminha. O descobrimento do Brasil.
ricana foi um passo indispensável para que sua São Paulo, L & PM.
modernidade emergisse. Hoje constitui um obs� COLLlNS, Michael. Carryi.g lhe fir<o 1974.
táculo injustificável para sua evolução. Mas, no New York, Farrar. Slraus and Giroux.
âmbito da discussão deste trabalho, a controvér­ COLÓN, Cri stóbaJ. Textos y documentos com­
sia lati no�americana entre arielistas e calibanis­ pletos. 1982. Madrid, Alianza Editorial.
tas não tem a menor importância, e revela CORTESÃO, Jairne. 1943.A carta de Pero Vaz
somente a inadequação das partes às condições de Caminha. Rio de Janeiro, Edições üvros
do mundo contemporâneo. de Portugal.
5. Ver, por exemplo, o artigo de Erwin Pa� GAGARIN, Yuri, & LEBEDEV, Valentin. Sur­
norsky, -Renacimiento, autodcrini cHHI " ;IU- \·/I.:a llflspace. New York, Frcderick Praeger.
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