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PERÍODO INTERBÍBLICO

AULA 1: Definição, Ambiente e a Plenitude dos Tempos

DEFINIÇÃO:

“Interbíblico” quer dizer “entre a Bíblia”, ou melhor, “entre os Testamentos”, isto é, entre o
Antigo e o Novo Testamento. Também é chamado de “Período Intertestamentário”.

Designa o período entre o fim do ministério profético de Malaquias (470 a.C. a 433 a.C), que
termina com a promessa do precursor do Messias (Ml 4.4-6; 3.1), e o início do ministério de
João Batista (c. 20 d.C).

AMBIENTE:

Neste período os judeus viveram sob o domínio consecutivo de três nações: Pérsia, Grécia e
Roma.

Antes do Período Interbíblico, as tribos de Israel já haviam desaparecido. Isaías profetizou que
apenas um “restante” de Judá seria salvo, e isso se cumpriu pela estratégia babilônica de
misturar os povos conquistados. Somente a tribo de Judá resistiu a todas as tribulações e
humilhações a que foi submetida, além de enfrentar os opressores. Eles continuaram seguindo
suas tradições cívico-religiosas e apegados à Cidade Santa.

Neste período de opressão, a esperança messiânica, cujo desfecho aconteceria em Jerusalém,


cresceu no coração dos judeus. Por isso alimentavam o desejo de voltar para Jerusalém, a
cidade do Grande Rei. Essa esperança é que os manteve fiéis.

Após o cativeiro babilônico, o uso do idioma hebraico se limitava praticamente à leitura das
Escrituras, sendo substituída pelo idioma aramaico - um hebraico transformado pela influência
de diversos idiomas orientais.

O cativeiro babilônico marcou o fim da idolatria do povo judeu. Hoje, o judeu prefere a morte
a prestar culto a uma imagem. Nem as chamas da Inquisição Espanhola, nem as atrocidades de
D. João III conseguiram fazer com que judeus se ajoelhassem diante de imagens.

A PLENITUDE DOS TEMPOS (Gálatas 4.4):

Definição: Plenitude – do que é inteiro, completo; integridade, totalidade.

Se o Messias viesse hoje, a Igreja não alcançaria o Mundo como foi na época do nascimento de
Jesus. Como doze homens simples conseguiram expandir a mensagem do Evangelho com tanta
rapidez e facilidade?

Fator Geográfico:

Quando Deus mandou Abraão sair de sua terra para possuir aquele pedacinho de terra na
Palestina, ele tinha um propósito para isso:

- A região da Palestina fica na rota entre o Ocidente e o Oriente, entre a Mesopotâmia e o


Egito. Por isso esse território sempre despertou o interesse dos grandes impérios antigos.
Quem habitava ali acabava se informando melhor do que em outras regiões.
Fator Religião judaica:

- O cativeiro babilônico não se estendeu por 70 anos atoa. Foi um castigo de Deus pela
obediência e ganância do povo. Havia a ordem para que o povo plantasse durante seis anos e
descansasse a terra por um ano (Lv 25.1-5). A desobediência do povo durou 490 anos, logo,
quantos anos de descanso eles deviam à terra?

- Depois desses 70 anos, durante o império medo-persa com o Rei Ciro, o povo ganhou a
liberdade de voltar para a sua terra. Muitos voltaram para a Palestina, mas uma parcela
significativa se espalhou, iniciando o que ficou conhecido como a Diáspora Judaica.

- O Templo, a Terra e a Lei eram as marcas dos judeus, mas durante o domínio dos impérios
pagãos só lhes restou a Lei. Esse é o motivo pelo qual os judeus se tornaram tão radicais no
zelo pela Lei (Torá).

- Com a Diáspora Judaica, surgiram as sinagogas, reuniões em casas onde os judeus


conseguiam manter a prática de suas tradições. Isso fez com que as Escrituras judaicas fossem
conhecidas por todo o mundo da época. Isso ajudou a propagar alguns pontos característicos
do Judaísmo, por exemplo: a) o monoteísmo; b) a esperança messiânica; c) a ética judaica; e d)
a visão linear da História.

Fator Idioma Grego:

- A Bíblia se cala quando o Império Medo-Persa está no poder, e logo em seguida se inicia o
Império Grego.

- Nascido em 356 a.C., Alexandre, o Grande, inspirado por Aquiles (guerreiro da Ilíada), tinha o
propósito de helenizar o Mundo. Em grego, “hélas” significa Grécia, logo, a helenização foi a
estratégia de Alexandre de conquistar todos os povos através da cultura grega. E apesar de sua
curta vida (morreu com 33 anos) e apenas 13 anos no comando (336-323 a.C.), ele conseguiu
dominar todo o Império Persa e muito mais. Seu domínio se estendia da Grécia à Índia, do Sul
da Rússia ao norte da África, tendo Israel sido dominada em 331 a.C.

Mapa do Império de Alexandre, o Grande (fonte: Wikipédia)


- Assim como sob o domínio persa, os judeus receberam as mesmas liberdades de culto no
governo grego, desde que permanecessem leais à Grécia. Assim, Alexandre desejava unir o
Oriente e o Ocidente para criar uma cultura, religião e povo híbridos, porém, subjugados à
cultura helênica.

- A popularização da língua grega possibilitou que tanto um cidadão culto como Paulo, quanto
um simples pescador como Pedro produzissem os escritos do Novo Testamento. Hoje, a
barreira linguística impede e muito o avanço da mensagem do Evangelho, enquanto os
discípulos do primeiro século não tinham esse problema, pois todos falavam o grego koiné,
que era o grego comum e popular da época. Assim, surgiu a necessidade de uma tradução do
AT, que ficou conhecida como Septuaginta (LXX).

- Nesse período foi produzido uma grande quantidade de livros apócrifos e pseudo-epígrafos,
principalmente em uma das primeiras cidades fundadas por Alexandre – Alexandria, no
Egito, para onde muitos judeus foram morar durante a Diáspora. O centro acadêmico de
Tarso também foi criado durante o governo de Alexandre.

Fator Filosofia Grega:

- Apesar de Alexandre ter sido tutoriado por Aristóteles, a filosofia predominante era a de
Platão (professor de Aristóteles). Platão acreditava que o Mundo da Matéria (imperfeito) é
apenas um reflexo do Mundo das Ideias (perfeito). Alguma semelhança com o cristianismo?
Isso preparou a mente das pessoas para a chegada do Evangelho, e a realidade de um mundo
superior. Porém, o platonismo influenciou até mais do que deveria, de forma que até hoje
nós usamos expressões platônicas achando que se tratam de expressões cristãs.

Fator Política Romana:

O Império Romano foi a maior organização missionário de toda a história. Por exemplo, quem
levou Paulo para a sede do Império com tudo pago e protegido? Esses seguintes fatores são
importantes para compreendermos isso:

- Por causa de Antípater, um idumeu governador da Judeia, que em 47 a.C. ajudou as tropas de
Julio César em Alexandria, o imperador romano reduziu os impostos de Israel, permitiu a
reconstrução das muralhas de Jerusalém, a fortificação de outras cidades e deu ao judaísmo
liberdades religiosas sem iguais. Eis a origem do judaísmo como religio licita (termo latino para
“religião legal”), o que mais tarde o livrou da exigência de oferecer sacrifícios aos imperadores
que passaram a acreditar que eram deuses. Somente no período do imperador Nero (c. 60
d.C.) o cristianismo passou a ser visto como uma religião distinta do judaísmo - uma ameaça,
portanto.

- As estradas romanas revolucionaram o sistema de locomoção, de forma que o que chegava


em Roma se espalhava facilmente por todo o mundo. Além de bem elaboradas, as estradas
romanas também eram seguras, com soldados espalhados responsáveis por manter a
segurança dos viajantes. Daí surgiu a expressão “todos os caminhos levam à Roma”.
Por isso o livro de Atos termina com Paulo pregando em Roma. Somente no século XII as
estradas romanas foram superadas por outras mais bem projetadas.

- Antes do Império Romano era impossível navegar pelo Mar Mediterrâneo, pois havia
muitos piratas salteadores. Todas as viagens missionárias relatadas em Atos teve o Mar
Mediterrâneo como rota.
- A lei romana assegurava o que ficou conhecida como a Pax Romana, um tratado de paz que
assegurava a ausência de conflitos em todo o seu território – que por sinal foi o império de
maior expansão na Idade Antiga.

- Calcula-se que o serviço de correio do governo romano podia percorrer 75 km por dia.
Mensageiros a cavalo usando estações de reabastecimento podiam cobrir até 100 km por dia.
Os soldados deviam marchar 30 km diariamente. Estima-se que esse sistema de comunicação
só foi equiparado nos tempos da Reforma Protestante (c.1500-1600 d.C.).

- A conversão de soldados ajudou muito na divulgação do Evangelho, pois eles não ficavam em
postos fixos, levando a mensagem para onde haviam de cumprir suas missões. No século IV,
cerca de 40 soldados foram executados por se negarem a adorar uma estátua de César.

- Os povos conquistados perdiam a fé em seus deuses, pois não acreditavam mais que eles
possuíam poder – uma visão completamente materialista.

- Um crescente espírito de unidade ultrapassava as barreiras nacionais, e as velhas distinções e


identidades tribais eram demolidas. Isso fez com que as pessoas ficassem mais vulneráveis à
novas religiões ou ideologias. O Evangelho, nesse clima, satisfazia muitas das necessidades
sentidas.

Mapa do Império Romano (fonte: Wikipédia)

Por isso tudo, estudar o Período Interbíblico é testemunhar a ação soberana de Deus na
História (Isaías 46.9-11).

Bibliografia:

Introdução aos Evangelhos, BLOMBERG, Craig (Editora Vida Nova)


Período Interbíblico, TOGNINI, Enéas (Editora Hagnos)
Entre o Antigo e o Novo Testamento, RUSSEL, David S. (Editora Press Abba)