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DOS ACTOS LEGISLATIVOS

DA ASSEMBLEIA DE REPÚBLICA Lei – arts. 112º/1 e 2; 119º/1/c); 161º e 166º/2 e 3

Lei orgânica1 (ou Lei “de valor reforçado”) – arts. 166º/2; 112º/3; 168º/5; 278º/4 a 7; 136º/3;
280º/2/a) e 280/1/b)

DO GOVERNO Decreto-Lei – arts. 112º/1 e 2; 119/1/c); 198º; e 200º/1/h)

DE ASSEMBLEIA LEGISLATIVA REGIONAL Decreto Legislativo Regional – arts. 112º/1/4/8; 119º/1/c); 227º/2 e 3; 233º/1

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Aqui apresentada como uma sub-espécie da Lei e não como um (hipotético) 4º tipo de acto legislativo.
DO PRIMADO DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA 1/2
a) COMPETÊNCIA LEGISLATIVA GENÉRICA [cfr. art. 161º/c)]
... que apenas não inclui: – a organização e funcionamento do Governo [art. 198º/2]
e
– o conteúdo essencial da competência legislativa das regiões autónomas [arts. 112ª/4; 227º/1/a) e
228º]
B) LARGA RESERVA DE COMPETÊNCIA LEGISLATIVA EM FACE DO GOVERNO
 em termos absolutos: arts. 161º/b) e ss; 164º; 163º/f) e i); 167º/1, 227º/1/i); 255º; 256º e 293º
 em termos relativos: art. 165º
C) NO ÂMBITO DA RESERVA RELATIVA DA COMPETÊNCIA LEGISLATIVA
(que, conforme o âmbito das matérias, pode delegar, através de “Lei de autorização”)
 ao Governo: art. 165º/2
 à Assembleia Legislativa Regional: art. 227º/1/b) e 2
d) (fora da reserva de competência) QUANDO A AR ESTABELECE AS BASES GERAIS DOS REGIMES JURÍDICOS
São-lhe subordinados os Decretos-Leis e os decretos legislativos regionais que os desenvolvem: art. 112º/2
e) TODOS OS DECRETOS-LEIS ESTÃO SUJEITOS A APRECIAÇÃO...
... com eventual possibilidade de alteração, suspensão ou cessação de vigência, [arts. 162º/c) e 169º]
O mesmo, obviamente, vale para os decretos legislativos regionais e decretos de desenvolvimento.
DO PRIMADO DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA 2/2
f) DA DIFERENÇA NO PRAZO DE PROMULGAÇÃO [art. 136º/1 e 4]
 para as Leis é de 20 dias
 para os Decretos-Leis é de 40 dias
g) DA DIFERENÇA NO VETO PRESIDENCIAL [art. 136º]
 na Lei, o efeito é meramente suspensivo
 no Decreto-Lei, o efeito é absoluto
H) DA DIFERENÇA EM CASO DE VETO POR INCONSTITUCIONALIDADE EM SEDE DE FISCALIZAÇÃO PREVENTIVA
 a Lei poderá ainda ser promulgada (se houver uma votação de confirmação, aprovada por 2/3 dos deputados presentes e se estes
fo-rem em número superior à maioria dos absoluta dos deputados em efectividade de funções) – art. 279º/2
 para o Decreto-Lei não há essa possibilidade
I) AS LEIS DE VALOR REFORÇADO SÃO SEMPRE DA AR...
... nunca Decretos-Leis
DA COMPETÊNCIA LEGISLATIVA DO GOVERNO 1/2

Competência legislativa reservada: relativamente à sua própria organização e funcionamento (art.


198º/2); e sobre o número,
designação e atribuições específicas dos ministérios e secretarias de Estado,
bem como as

Competências legislativas primárias formas como eles concretamente se coordenam entre si (art.
183º/3)

Competência legislativa concorrencial: com a AR em matérias a esta não reservadas [art. 198º/1/a)]

Competência legislativa derivada ou autorizada: em matérias de reserva relativa da AR [arts.


198º/1/b) e 165º]

Competências legislativas secundárias


Competência legislativa complementar: desenvolvimento dos princípios ou das bases gerais dos
regimes jurídicos contidos nas leis que
a eles se circunscrevem [art. 198º/1/c)]
DA COMPETÊNCIA LEGISLATIVA DO GOVERNO 2/2
Apesar de dispôr de amplos poderes legislativos, ao contrário do que aconteceu noutras versões constitucionais, o
Governo não dispõe, em caso algum – nem a Constituição o prevê –, de quaisquer PODERES LEGISLATIVOS DE EXCEPÇÃO ,
atribuíveis pelo PR, eventualmente justificáveis por circunstâncias de urgência ou de necessidade política.
Em compensação, tal como acontece em muitas outras soluções constitucionais, o Governo português dispõe de
diversas formas de intervenção nos procedimentos legislativos parlamentares, a saber:
a) Iniciativa de Lei em geral (art. 167º/1) e reservada quanto a Grandes Opções do Plano, Orçamento, empréstimos,
avales e auto-rizações legislativas [art. 161º/g), h) e o), art. 106º e art. 165º/3/4/5];
b) Participação dos membros do Governo nas reuniões plenárias da AR e nas comissões (art. 177º/3), quando
estejam a ser apreciados e discutidos propostas e projectos de Lei;
c) Solicitação do processo de urgência para projectos e propostas de Lei (art. 170º/1);
d) Solicitação de prioridade, na determinação da Ordem do Dia, para assuntos (especialmente, em matéria
legislativa) de interesse nacional de resolução urgente (art. 176º/2);
e) Iniciativa, do PM, de fiscalização preventiva da constitucionalidade de normas constantes de decretos da AR
para se-rem publicados como Leis orgânicas (art. 278º/4/5).
A competência legislativa do Governo é exercida através do Conselho de Ministros [art. 200º/1/d)].
DA COMPETÊNCIA LEGISLATIVA DAS ASSEMBLEIAS LEGISLATIVAS
REGIONAIS
DA FIXAÇÃO DA COMPETÊNCIA LEGISLATIVA 1/2
1.º só são órgãos legislativos aqueles que a Constituição, como tal, estabelece:
 a AR (arts. 161º, 164º e 165º);
 o Governo (art. 198º);
 as Assembleias Legislativas Regionais (arts. 227º e 232º).
2.º as faculdades legislativas que cada órgão pode exercer são apenas as que constam de normas constitucionais;
3.º porque o poder legislativo é mais do que a mera faculdade positiva originária, sobre certas leis, o decretar das
subsequentes normas especiais, o alargar ou restringir da sua aplicação, a sua modificação, suspensão, revogação
ou interpretação (autêntica) apenas pode ser rea-lizada por aquele órgão que recebeu competência material específica
própria para as fazer;
4.º a reserva, pela Constituição, da competência a um órgão (a AR) para a fixação das bases ou das bases gerais de
certas matérias [art. 164º/d) 3ª parte e i); art. 165º/1/f), g), n), f), u) e z)] ou do regime geral [art. 165º/1/d), e) e h)] ou um
enquadramento [arts. 106º/1, 164º/n) e r), 227º/1 in fine, 225º e 296º], esse órgão fica adstrito a imprimir um conteúdo útil,
uma densificação suficiente, uma direcção específica à lei a emitir;
5.º ocorrendo modificação das normas constitucionais de competência, ainda que sejam inteiramente válidos e
eficazes os actos praticados durante a vigência das antigas normas (pois ‘tempus regit actum’), no entanto, as suas
futuras interpretação, revogação, suspensão ou modificação passarão a ser feitas de acordo com as novas normas;
6.º apenas pode haver autorizações ou delegações legislativas no âmbito das relações inter-orgânicas e nos termos
expressamente previstos na Constituição (art. 111º/2):
 da AR ao Governo [art. 161º/d)]
 da AR às Assembleias Legislativas Regionais [art. 161º/e)]
DA FIXAÇÃO DA COMPETÊNCIA LEGISLATIVA 2/2
7.º em caso algum se admitem sub-autorizações (ou sub-delegações) da faculdade de, directa ou indirectamente,
regular a matéria re-servada objecto de autorização legislativa;
8.º a substituição do órgão normalmente competente para a prática de certos actos legislativos (ou de certos actos
integrados no procedimento legislativo) só pode dar-se se consentida pela Constituição [ou seja, os previstos nos arts.
168º/3 e 179º/3/f)];
9.º muito menos se admite a devolução dos poderes de natureza legislativa a quaisquer entidades públicas ou
privadas;
10.º apenas os órgãos constitucionalmente competentes na matéria podem proceder à transposição, para o Direito
interno, de Di-rectivas da União Europeia e à execução legislativa de tratados que não são por si mesmos exequíveis;
11.º a não ser nos casos previstos na Constituição, nenhum órgão pode intervir (designadamente, por via da
iniciativa) no procedi-mento legislativo de outro;
12.º salvo nos casos previstos na Constituição, nenhum órgão – nem sequer legislativo – pode determinar o se e o
quando da acti-vidade legislativa de outro órgão;
13.º nenhum órgão – mesmo legislativo – pode dispôr sobre o exercício de competências e sobre o procedimento de
outro órgão ou so-bre as audições que ele deva fazer antes de deliberar;
14.º por directa imposição do Princípio da Separação de Órgãos Constitucionais, nenhum órgão – mesmo
legislativo – pode obrigar ou-tro – mesmo que também legislativo – a conferir forma de lei a qualquer acto da
competência deste (seja qual fôr a natureza da competência e mais ainda quando a competência fôr administrativa,
porque a forma de lei não é para o exercício de com-petência não-legislativa).
DA FIXAÇÃO DAS FORMAS DE LEI
E DAS RELAÇÕES ENTRE LEI E REGULAMENTO 1/8

Artigo 112º
Actos normativos

1. São actos legislativos as leis, os decretos-leis e os decretos legislativos regionais.


2. As leis e os decretos-leis têm igual valor, sem prejuízo da subordinação às correspondentes leis
dos de-cretos-leis publicados no uso de autorização legislativa e dos que desenvolvam as bases
gerais dos regimes jurídicos.
3. Têm valor reforçado, além das leis orgânicas, as leis que carecem de aprovação por maioria de
dois ter-ços, bem como aquelas que, por força da Constituição, sejam pressuposto normativo
necessário de outras leis ou que por outras devam ser respeitadas.
4. Os decretos legislativos têm âmbito regional e versam sobre matérias enunciadas no estatuto
político- -administrativo da respectiva região autónoma que não estejam reservadas aos órgãos de
soberania, sem prejuízo do disposto nas alíneas b) e c) do n.º 1 do artigo 227º.
DA FIXAÇÃO DAS FORMAS DE LEI
E DAS RELAÇÕES ENTRE LEI E REGULAMENTO 2/8

5. Nenhuma lei pode criar outras categorias de actos legislativos ou conferir a actos de outra
natureza o poder de, com eficácia externa, interpretar, integrar, modificar, suspender ou revogar
qualquer dos seus preceitos.
6. Os regulamentos do Governo revestem a forma de decreto regulamentar quando tal seja
determinado pela lei que regulamentam, bem como no caso de regulamentos independentes.
7. Os regulamentos devem indicar expressamente as leis que visam regulamentar ou que definem a
compe-tência subjectiva e objectiva para a sua emissão;
8. A transposição de actos jurídicos da União Europeia para a ordem jurídica interna assume a forma
de lei, decreto-lei ou, nos termos do disposto no nº 4, decreto legislativo regional.

Daqui se conclui que:


a) só são actos legislativos os definidos pela Constituição e nas formas por esta prescritas (art. 112º/1):
 Lei
 Decreto-Lei
 Decreto Legislativo Regional
DA FIXAÇÃO DAS FORMAS DE LEI
E DAS RELAÇÕES ENTRE LEI E REGULAMENTO 3/8

b) cada competência legislativa deve exercer-se através da forma constitucionalmente estabelecida e cada forma deve
servir pa-ra o exercício de certa competência;
c) nenhuma lei pode criar outras formas de lei ou outras categorias de actos legislativos (art. 112º/5/1ª parte);
d) nenhuma lei pode conferir a acto de outra natureza o poder de, com eficácia externa, interpretar, integrar, modificar,
suspender ou revogar qualquer dos seus preceitos (art. 112º/5/2ª parte) – entendendo-se que a modificação abrange a
própria extensão ou redução do seu âmbito;
e) em consequência, lei que contrarie estas regras é materialmente inconstitucional;
f) porque este artigo foi introduzido na revisão de 1982 e também em consequência de estas regras serem substantivas
(dirigirem-se ao conteúdo e não à forma dos actos), as leis e os regulamentos que lhe são anteriores (e que contrariem
estas regras) encon-tram-se feridos de inconstitucionalidade material superveniente (art. 282º/2).

Além dos actos tipificados, existem ainda, previstos na Constituição, actos que, por terem (ou terem em parte) força afim
da força de lei, acabam por, de uma maneira ou de outra, interferir no exercício da função legislativa. São eles:
1.º o Referendo Político Vinculativo: ao nível do Estado e das regiões autónomas (arts. 115º, 232º/2 e 256º/3);
2.º a Declaração de Estado de Sítio (ou de Estado de Emergência) pelo PR (art. 138º) – e a correspondente
autori-zação ou confirmação pela AR [arts. 138º, 161º/l) e 179º/3, f)];

DA FIXAÇÃO DAS FORMAS DE LEI


E DAS RELAÇÕES ENTRE LEI E REGULAMENTO 4/8
3.º a Declaração de Guerra pelo PR [art. 135º/c)] – e a correspondente autorização da AR [arts. 161º/m) e
179º/3/f)];
4.º (quando defina as atribuições dos ministérios e secretarias de Estado e as formas de coordenação entre
eles) o Decreto de Nomeação de ministros e secretários de Estado (art. 183ª/3);
5.º a Resolução da AR de cessação ou de suspensão de vigência de decretos-leis autorizados ou de
decretos legislativos regionais autorizados [arts. 162º/c), 169º/2 e 3, e 227º/4].

Caso se entendesse qualificar como estes actos como “legislativos”, no entanto não estaria em causa o Princípio da
Tipicidade Consti-tucional dos Actos Legislativos (pois todos eles são previstos e regulados pela Constituição), apenas se
podendo arguir sobre uma even-tual necessidade de apurar a técnica legislativa e uma requerer reformulação do art. 112º.
O mesmo não acontece com os casos das declarações de inconstitucionalidade (ou de ilegalidade) com força obrigatória
geral (art. 281º/3) – mesmo quando compreendam a conformação de efeitos ou possuam conteúdo aditivo.
A grande relevância – e principal corolário – do Princípio da Tipicidade Constitucional dos Actos Legislativos verifica-se
nas relações entre os actos legais e infralegais, pois que é por este que se proíbem os chamados reenvios normativos, ou
seja, comandos inscritos em lei (na própria ou em outra, anterior ou posterior) que pretende atribuir a acto infralegal
(normalmente um regulamento) poder de interpretar, integrar, modificar, suspender ou revogar preceitos legais.
DA FIXAÇÃO DAS FORMAS DE LEI
E DAS RELAÇÕES ENTRE LEI E REGULAMENTO 5/8

Da repercussão nas relações entre a lei e os actos infra-legais

a) proibição dos reenvios normativos (a lei – a própria ou outra, anterior ou posterior – remeter para
regulamento as faculdades de interpretação, de integração, de modificação, de suspensão ou de revogação de
preceito legal) – art. 112º/5 (o que até nem precisaria de disposição constitucional expressa, pois que já decorre
dos princípios da hierarquia do ordena-mento jurídico, da racionalização das tarefas normativas e da
segurança jurídica dos cidadãos);
b) [indicando as leis que definem a competência objectiva e subjectiva para a sua emissão (art. 112º/7, 2ª parte)]
podem existir:
 regulamentos de execução
 regulamentos autónomos ou independentes
 regulamentos destinados a conferir plena operatividade, execução ou concretização a uma pluralidade
de leis não deter-minadas (ou a princípios nelas ínsitas)
c) não podem existir regulamentos delegados ou autorizados (ou outros que pretendam assumir função de lei),
ou seja, aqueles que, em vez de se dirigirem à «boa execução das leis» [cfr. art. 199º/c)] fariam o mesmo que a
lei.
DA FIXAÇÃO DAS FORMAS DE LEI
E DAS RELAÇÕES ENTRE LEI E REGULAMENTO 6/8

Não obstante as restrições inscritas no Art. 112º/5, pode a Administração, através de instruções genéricas (ou actos
análogos), proce-der à interpretação ou à integração – mas com (aparente) mera eficácia interna.
Mais: segundo JORGE MIRANDA, a Administração tampouco ficaria impedida de, mesmo através de regulamentos,
interpretar e integrar as normas legais que tem de executar – isto porque considera que o regulamento, o acto
administrativo, o (conteúdo dos) contratos (públicos), ou as decisões jurisdicionais, ainda que proferidos com base em
critérios jurídicos, são actos que sempre resul-tam de uma apriorística operação de hermenêutica (ainda que, depois,
reafirme que, de ‘per se’, esse produto hermenêutico «não tem força de lei, não adquire o carácter de vinculatividade
próprio das normas legais, não é interpretação autêntica e, por isso, a sua legalidade pode sempre ser questionada»).
Porém, da “abertura (doutrinária) desta janela” resultam vários problemas:
1. a violação dos já referidos princípios constitucionais da hierarquia do ordenamento jurídico, da racionalização
das tarefas normativas e da segurança jurídica dos cidadãos;
2. a atribuição – com pouquíssima ou mesmo nenhuma “democratic accountability” – de faculdades que são
exclusivas do Poder Legislativo (ficando expostos não só “degraus mais baixos” da Administração – cujos
agentes sentir-se-ão hierarquicamente subjugados a uma acrítica obediência a tais actos e à sua automáti-ca
reprodução – como também os destinatários últimos e úteis de tais actos, os administrados);
3. a exígua disponibilidade de reais possibilidades de se questionar a legalidade de tais actos , dada a enormíssima
disparidade de meios e recursos entre a Adminis-tração e o administrado.
DA FIXAÇÃO DAS FORMAS DE LEI
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Da relação entre as leis e os regulamentos de execução

Para se tornarem, no todo ou em parte, exequíveis, muitas leis carecem de regulamentos de execução. Nesse sentido e
para tanto, não raras vezes nessas leis são estabelecidos prazos para que tais regulamentos sejam publicados (ainda que, na
prática, esses prazos tenham um carácter mais indicativo que preceptivo).

Todavia, porque a entrada em vigor dessas leis não está subordinada à da dos regulamentos dos quais a sua
exequibilidade depende (pois tal significaria conferir ao Poder Regulamentar faculdades com uma natureza tipicamente
legislativa), deve afirmar-se que, como analogamente acontece com as normas constitucionais ainda não tornadas
exequíveis, estas normas legais que aguardam a pu-blicação dos regulamentos de execução adquirem, desde a data da sua
própria publicação, eficácia sistemática.
DA FIXAÇÃO DAS FORMAS DE LEI
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Da questão da deslegalização vs. Regulamentos Delegados

Só por mera ilusão se pode julgar que há aparência – ou até confundibilidade! – entre os regulamentos delegados e a
deslegalização. Pois, nunca podendo haver deslegalização em matérias de reserva de Lei,

alarga-se a área dos tipos de actos (e, por isso, dos órgãos) que legislativamente
podem con-vergir em certas matérias;
– nos Regulamentos Delegados
o regulamento é elevado à função e força de lei.

há uma restrição, passando a matéria de lei a regulamento e o órgão de legislativo a


regula-mentário;
– na Deslegalização
a matéria de lei é despromovida, degradada à de regulamento.
DAS LEIS REFORÇADAS 1/6
O facto de, pelo Art. 112º/2, a Constituição atribuir idêntica força jurídica a todos os actos legislativos, tal não significa
que, entre eles, exista uma sempre equivalente, neutra ou indistinta relação. Uma coisa é a força genérica que, na Ordem
Jurídica, a lei dispõe em relação a todos os outros actos jurídico-políticos (e até normativo-políticos, como os
regulamentos); outra é a força específica que certas leis (por terem “valor reforçado”), ainda que dentro do mesmo género,
podem assumir em relação a outras – assim tornando mais evidente que o princípio da mútua revogabilidade só se verifica
entre actos legislativos de força específica equivalente.

Esta diferenciação:
 é tipificada, ou seja, é definida pelo próprio legislador constituinte (não podendo o legislador ordinário não
respeitar as matérias que foram escolhidas, nem tampouco criar novas);
 resulta da estrutura e do desenvolvimento dinâmico do sistema construídos pela Constituição, como mecanismo
indispensável para assegurar a prossecução de certos fins específicos;
 o seu carácter reforçado é um fenómeno de relação: a lei só é “de valor reforçado” porque por referência a outro
acto legislativo que lhe é subordinado;
 a “lei de valor reforçado” não é fundamento de validade da outra lei, mas tão só seu pressuposto ou condição de
validade (ou até, em certas circunstâncias, mero pressuposto ou condição de eficácia).
DAS LEIS REFORÇADAS 2/6

Exemplos de “leis de valor reforçado”

 Lei do Regime do Estado de Sítio e do Estado de Emergência [Art. 19º/5/7, Art. 164º/e) e Art. 275º/7]
 Orçamento do Estado [Art. 105º, Art. 106º, Art. 161º/g) e Art. 165º/5]
 Orçamentos das regiões autónomas [Art. 227º/1/o) e Art. 232º/1]
 Lei do regime dos planos de desenvolvimento económico e social [Art. 92º e Art. 165º/1/n)]
 Lei de enquadramento orçamental [Art. 106º, Art. 164º/r), Art. 227º/1/p) e 232º/1]
 Lei (ou leis) do regime dos referendos [Art. 164º/b), Art. 166º/2, Art. 115º/1/2/6, Art. 256º/3 e Art. 223ª/2/f)]
 Leis de autorização legislativa [Art. 112º/2, Art. 161/d)/e), Art. 165º/2/5, Art. 169º/2/3, Art. 198º/1/b) e 3, Art. 227º/1/b) e 2/3/4]
 Leis de bases [Art. 112º/2, Art. 198º/1/c) e 3 e Art. 227º/1/c)]
 Estatutos político-administrativos das regiões autónomas [Art. 161º/b), Art. 226º, Art. 227º/1/e), Art. 231º/6, Art. 232º/2, Art.
280º/2/b) e c) e Art. 281º/1/c) e d) e 2/g)]
 Lei-quadro das reprivatizações [Art. 293º]
DAS LEIS REFORÇADAS 3/6
Além do seu considerável número (JORGE MIRANDA enumera 14), há que relevar a sua diversidade.

Porém, é possível agrupá-las de acordo com a sua semelhança de estrutura:

a) as leis de enquadramento

b) as leis orçamentais

c) as leis de autorização legislativa

d) as leis de bases

e) os estatutos político-administrativos das regiões autónomas


DAS LEIS REFORÇADAS 4/6
A qualificação de uma lei como “de valor reforçado” não é consequência do arbítrio daquele que exerce o Poder
Legislativo ordinário, mas da verificação dos pressupostos, dos requisitos de qualificação fixados pelo legislador
constituinte, a saber:

 o objectivo da lei
 as matérias sobre que versa
 a função que pretende exercer, e
 (nalguns casos, complementarmente) com o respectivo procedimento
Preenchidos os requisitos e subsumindo-se ao tipo (ou subtipo do género lei) de “lei de valor reforçado”, então não só
poderá usar da designação como – muito mais importante! – o decreto enviado para promulgação presidencial (e a lei, após
esta) beneficiará do consequente regime de garantia. Se não,... de nada lhe servirá o nomen iuris e a aparência de forma
reforçada: muito provavelmente será inconstitucional (ou ilegal), quando muito valerá como mera lei comum.

Este desvalor tanto que vale para uma lei comum que pretende aparentar uma “lei de valor reforçado” também se
aplica às situações de disposições avulsas que, não obstante estarem, de facto, inscritas numa verdadeira “lei de valor
reforçado”, a ela são alheias em termos de objecto ou com ele não têm qualquer conexão objectiva ou estruturante: não
podem, pois, beneficiar da consistência, nem da protecção inerentes.
DAS LEIS REFORÇADAS 5/6
À partida, poder-se-ia afirmar que existe uma correspondência estreita entre as leis orgânicas e as leis de valor
reforçado pois:

a) surgiram ao mesmo tempo;


b) a CRP qualifica-as – ambas – como tendo «valor de reforçado» (cfr. Art. 112º/3).

Todavia, deve atender-se menos a fenomenologia e muito mais à terminologia jurídico-constitucional. Assim, uma lei
orgânica pode ser infringida por uma lei não-orgânica em 3 casos:

1. contradição entre lei e decreto-lei sobre matéria militares e a lei de bases gerais de organização, funcionamento
e disciplina das Forças Armadas [Art. 164º/d)]
2. incumprimento da lei do regime de Estado de Sítio e de Estado de Emergência pela declaração de um destes ou
pela respectiva autorização (pela AR) ou confirmação (pelo Governo) [Art. 19º/7, Art. 164º/d) e 138º/3]
3. (a partir de 1997) em caso de desrespeito da lei relativa à criação das regiões administrativas (Art. 235º).
Nenhuma destas hipóteses tem a ver com o procedimento.
DAS LEIS REFORÇADAS 6/6
Além das anteriores, só mais duas hipóteses:

4. alguma lei que verse sobre qualquer das matérias previstas no Art. 166º/2 observa as normas procedimentais dos
nos 4 e 5 do art. 168º (bem como – tendo havido veto – o nº 3 do Art. 136º) e ela deve considerar-se uma lei orgânica

e intitular-se como tal;


5. ou não respeita essas normas e o fenómeno redunda em inconstitucionalidade formal

Coisa semelhante se diga a respeito das leis e disposições legais carecidas de aprovação por maioria de 2/3.

Não se vê como possa haver violação, por outra lei, de lei orgânica ou lei aprovada por maioria de 2/3. Mas já isso
pode acontecer com uma lei funcional ou materialmente reforçada [Art. 280º/2 e Art. 281º/1/b) e c)] – aliás o Art. 282º/2 prevê a
inconstitucionalidade ou a ilegalidade superveniente (e esta só pode ser material, nunca orgânica ou formal), ou seja, apenas
pode estar a referir-se a leis com função paramétrica (como, p. ex, estatutos político-administrativos regionais) e nunca leis
reforçadas pelo procedimento.
DO REFERENDO POLÍTICO VINCULATIVO E OS SEUS EFEITOS
DAS LEIS DO ESTADO E DECRETOS LEGISLATIVOS REGIONAIS

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