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CENTRO UNIVERSITÁRIO IBMR

ANANDA DE ALMEIDA FONSECA


FABIANA CORRÊA FERREIRA GOMES
MARCELO GUIMARÃES PEREIRA
WAGNER HENRIQUE SANTOS DA SILVA
WALTER CISNE BRAGANÇA

O EXPERIMENTO DA PRISÃO DE STANFORD


PROFESSOR: THIAGO CRESPI

Botafogo - RJ
2020
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1 O EXPERIMENTO DA PRISÃO DE STANFORD;

1) Como foi organizado o experimento? Apresente as características e o


objetivo do experimento.
Realizado no verão de 1971, o experimento da prisão de Stanford, teve como
objetivo, revelar e refletir acerca das consequências psicológicas de ser um
prisioneiro ou um guarda de prisão. O estudo foi idealizado pelo professor de
psicologia Dr. Philip Zimbardo e realizado no porão do Departamento de Psicologia
da Universidade de Stanford. Para que a experiência fosse autêntica, o Dr. Zimbardo
equipou o lugar com 3 celas, sala dos guardas, sala de oficiais, um escritório de
supervisor e um closet, utilizado para representar a solitária, espaço punitivo de
escala maior em caso de ato transgressor ocorrido por parte dos prisioneiros.
Contaram com o auxílio de profissionais em prisões, bem como com a experiência
de um ex-presidiário que passou longos 17 (dezessete) anos na prisão, para ajudar
na montagem do ambiente carcerário que viria a ser utilizado no experimento. A
ideia seria produzir o mais fielmente possível o ambiente presidiário, tanto nos
aspectos físicos quanto psicológicos. Equiparam o local com câmeras e telas
escondidas, por onde seriam feitos os registros de todos os acontecimentos do
experimento. A pretensão inicial da duração do experimento era de duas semanas;
no entanto, houve a necessidade imperiosa da interrupção devido aos
acontecimentos.
Com vistas a divulgar tal experimento, anúncios foram postados nos jornais
da cidade, convidando as pessoas para participação. Os participantes receberiam 15
dólares por dia, e com isso mais de 70 pessoas aceitaram participar do experimento.
Essas pessoas foram entrevistadas e passaram por testes psicológicos, com intuito
de eliminar todos os candidatos com sinais de anormalidades psicológicas,
incapacidades, histórico de criminalidade ou usuários de drogas. Tal triagem serviria
para elencarem os indivíduos com maior sanidade psicológica e emocional
possíveis.
Ao todo, 24 (vinte e quatro) pessoas foram selecionadas para o experimento.
O perfil médio escolhido eram homens, de classe média. Foram escolhidos, então,
12 (doze) prisioneiros e 12 (guardas) através do método aleatório do "cara ou
coroa". Foi importante observar que não deveriam haver diferenças psicológicas
consideráveis entre guardas e prisioneiros.
Dr. Zimbardo orientou os guardas de que se revestissem do papel social a
que foram atribuídos, causando nos prisioneiros sensações de medo e frustração
bem como privando os prisioneiros de suas próprias subjetividades e de suas
privacidades. Apenas uma proibição lhes fora determinada: que não houvessem
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castigos físicos.
O experimento se inicia através das diligências que os policiais de verdade
fazem, indo às residências dos participantes, em breve prisioneiros, realizando a
tradicional revista, lendo os direitos inerentes ao futuro preso, algemando-os,
colocando-os na viatura e encaminhando-os à delegacia de polícia para serem
fichados e, daí, para a prisão fictícia dos porões da Universidade de Stanford.

2) Houve ética no experimento? Qual deve ser a conduta do(a)


psicólogo(a) na pesquisa científica? Justifique sua resposta, explicando quais
questões éticas devem ser levadas em consideração em uma pesquisa. Utilize
o Código de Ética do Psicólogo e as Resoluções CNS 466/12 e 510/16.
Ao se analisar o experimento e tendo como referência o código de ética do
psicólogo e as resoluções CNS 466/12 e 510/16, pode-se dizer que houve falta de
ética em alguns aspectos do estudo. Pelo que se observa nos vídeos, não parece ter
sido feito um registo de consentimento livre e esclarecido entre os pesquisadores e
os participantes da pesquisa. Neste documento seriam explicitados todos os
métodos e procedimentos que poderiam ser utilizados na pesquisa, bem como os
possíveis riscos trazidos aos participantes. Além disso, não parece ter sido dito com
clareza aos participantes que poderiam desistir e sair da pesquisa por livre e
espontânea vontade, garantia esta explicitada em ambas resoluções. Isso porque
quando um participante no papel de prisioneiro disse que eles não poderiam sair da
prisão, muitos deles acreditaram e ficaram nervosos e ansiosos com a informação.
Com relação à seleção dos candidatos, foi oferecida uma remuneração de 15
dólares por dia para os participantes do estudo. Levando-se em consideração a
resolução CNS 466/12, este também não seria um ato ético, visto que a norma
explicita que a participação de candidatos nas pesquisas científicas deve se dar de
forma gratuita.
Outro fator que demonstra falta de ética foi o fato de que os participantes que
atuaram como policiais, ao estarem tomados pelo papel de autoridade, muitas vezes
não agiram de acordo com sua personalidade, e excederam nas punições
humilhando os prisioneiros publicamente, desmoralizando-os e procurando afetá-los
emocionalmente. Como exemplos de algumas ações vexatórias impostas aos
prisioneiros podemos citar: a proibição dos prisioneiros do uso do banheiro bem
como a manutenção das fezes e urinas nos baldes nas celas por toda a noite e a
aplicação excessiva de exercícios físicos. Esses atos ferem princípios fundamentais
explícitos no código de ética do psicólogo, como respeito e promoção da dignidade e
integridade do ser humano bem como a promoção da saúde das pessoas e
eliminação de quaisquer formas de violência, crueldade e opressão. Tal
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ordenamento também encontra eco na Resolução CNS nº 510/16, no seu art 9º,
inciso III, onde é direito dos participantes de uma pesquisa ter sua privacidade
respeitada. Contudo, é importante dizer que o próprio Dr. Philip Zimbardo assumiu
que faltou com ética na pesquisa. Nas suas próprias palavras: "Foi antiético, não há
dúvida disso. Pessoas sofreram nessa experiência, como cobaias. E durou tanto,
porque me vi preso no papel, de investigador do projeto de estudos, e de supervisor
da prisão, o que nunca deveria ter feito."
Tendo em vista o exemplo desta pesquisa, é notável a importância da
discussão ética e de como os psicólogos devem procurar ter uma conduta ética nos
projetos de pesquisa e experimentos científicos. É necessário que o pesquisador
faça um balanço entre o custo do impacto emocional para os participantes nos
estudos e os possíveis benefícios gerados para a ciência e sociedade. No caso de
Stanford, apesar de toda a discussão do ponto de vista da ética, o pesquisador
afirmou que o experimento trouxe importantes aprendizados. A experiência de
Stanford traz reflexões, no sentido institucional, acerca dos objetivos teóricos do
sistema prisional contemporâneo e, para efeito comparativo, dos impactos práticos
que ela traz para todos os envolvidos diretamente no ambiente prisional e para a
sociedade. O sistema prisional tem conseguido o seu efeito ressocializador?
Além disso, importante observar como a atribuição do papel social através de
um conjunto de artefatos - uniforme, apito, regramentos, bastões - faz exercer
espaços de poder, muitas vezes, por meio de comportamentos sádicos, a ponto do
sequestro da subjetividade do outro. O corpo do outro é um instrumento e espaço de
fala deste poder. A influência ambiental promoveu, em diferentes níveis, um
processo de desconstrução identitária naqueles prisioneiros e guardas de Stanford.
Observando a existência da força desses atores, o psicólogo, acima de tudo, deve
considerar soberanamente todos os valores de direitos humanos, a sua dignidade,
liberdade, igualdade, privacidade. Além disso, exercitar a sensibilidade da
conscientização da natureza da subjetividade humana, muito diversa e rica, tendo
bem claro que o sofrimento psíquico é vivenciado de forma muito particular. Logo,
experimentos científicos não devem ultrapassar essa linha ética. haja vista que
podem gerar traumas nos sujeitos ali envolvidos, gerando prejuízos emocionais,
físicos e de relacionamentos interpessoais e sociais.
O ambiente é um dos moduladores de caráter, transformando estudantes que
nunca tinham tido episódios de violência em homens perversos, prontos para
cometerem atrocidades e tudo isso sem que a própria pessoa reconheça tal
mudança.
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REFERÊNCIAS

BBC. O controverso 'Experimento de Aprisionamento de Stanford',


interrompido após sair do controle. BBC. 2018. Disponível em:
https://www.bbc.com/portuguese/geral-46417388. Acesso em: 25 Abr. 2020.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do


Psicólogo. Conselho Federal de Psicologia. Brasília, 2005. 20 p. Disponível em:
https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2012/07/codigo-de-etica-psicologia.pdf.
Acesso em: 25 Abr. 2020.

CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE. Art. 1º Esta Resolução dispõe sobre as


normas aplicáveis a pesquisas em Ciências Humanas e Sociais cujos
procedimentos metodológicos envolvam a utilização de dados diretamente
obtidos com os participantes ou de informações identificáveis ou que possam
acarretar riscos maiores do que os existentes na vida cotidiana, na forma
definida nesta Resolução: Resolução 510. Conselho Nacional de Saúde. Brasília,
2016. 10 p. Disponível em:
http://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2016/Reso510.pdf. Acesso em: 25 Abr.
2020.

CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE. Conselho Nacional de Saúde aprovar as


seguintes diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo
seres humanos: Resolução 466. Conselho Nacional de Saúde. Brasília, 2012. 12
p. Disponível em: https://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2012/Reso466.pdf.
Acesso em: 25 Abr. 2020.

O EXPERIMENTO de Aprisionamento de Stanford. Direção de Kyle Patrick Alvarez.


Produção de Brent Emery, Lauren Bratman, Christopher McQuarrie, Karen Lauder,
Greg Little, Lizzie Friedman. EUA: IFC Films, 2015. Longa Metragem (2h 02min).

STANFORD Prison Experiment 01. Youtube (10:18min). Disponível em:


https://www.youtube.com/watch?v=Qhgl5aatEIg. Acesso em: 25 Abr. 2020.

STANFORD Prison Experiment 02. Youtube (9:49min). Disponível em:


https://www.youtube.com/watch?v=9m4FPeS4msw&t=. Acesso em: 25 Abr. 2020.

STANFORD Prison Experiment 03. Youtube (10:16min). Disponível em:


https://www.youtube.com/watch?v=yXJLZ_iSsf4&t=. Acesso em: 25 Abr. 2020.

STANFORD Prison Experiment 04. Youtube (7:43min). Disponível em:


https://www.youtube.com/watch?v=i08jS7BQZeA. Acesso em: 25 Abr. 2020.

STANFORD Prison Experiment 05. Youtube (12:50min). Disponível em:


https://www.youtube.com/watch?v=9BiinEAonrI. Acesso em: 25 Abr. 2020.

THE STANFORD Prison Experiment. Direção de Michael Stevens. Produção de


Mind Field T3 E4. Youtube Originals, 2018. Documental (34:28min). Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=KND_bBDE8RQ. Acesso em: 25 Abr. 2020.