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Centro Universitário Católica de Santa Catarina

Curso de Graduação - Arquitetura e Urbanismo


Teoria e história da arquitetura e das artes IV
Professora: Laura Bahia
Acadêmica: Paula Delai Riedi

RESENHA CRÍTICA - Mon Oncle (Jacques Tati)

Turma 5ª Fase - Matutino

Joinville, 010 de abril de 2019.


Resenha crítica: ​Mon Oncle, TATI Jacques - 1958, França.

A história acontece em Paris e é retratada em dois cenários opostos; entre os remanescentes


arquitetônicos da romântica Belle Epoque - repleta de surpresas e sutilezas da vida, em contraposição a
uma nova cidade pós-guerra, que enfatiza a modernidade estéril em que a funcionalidade supera a
beleza. Desta forma, é notável que ao longo do filme se estabelece uma visão pessimista sobre o
modernismo sendo que na maior parte do tempo o roteiro tem seu humor baseado na ridicularização e
futilização do mesmo. No contexto, um casal vaidoso e materialista que vive em uma luxuosa casa com
seu filho (Gérard), que se aborrece com a rotina regrada imposta pelos pais. E por outro lado, surge seu
tio (Monsieur Hulot), que o leva em aventuras no centro da cidade velha, onde vive em um velho e
simples apartamento. Desse ponto de vista podemos concluir que o menino torna-se o elo de ligação
entre os dois mundos distintos.

O personagem de Tati, Monsieur Hulot, passa grande parte do filme de costas para a câmera, de modo
com que se enfatiza sua perplexidade para com o design funcionalista da modernidade, que se opõe ao
seu conservadorismo que relaciona a felicidade aos valores do passado. Durante as cenas que se passam
em seu bairro, Mr. Hublot mergulha em uma dinâmica poética e apaixonada tanto em suas relações
sociais tanto para com os espaços; existe um envolvimento muito pessoal do personagem com tudo o
que vivencia e permeia, como na cena em que Hulot se maravilha com a forma como um simples reflexo
da luz do sol refletido em sua vidraça faz com que um um pássaro preso na gaiola comece a cantarolar.

Existe uma forte crítica de que o modernismo tornou-se um estado de espírito, o que se sobrepõe a
própria arquitetura e a construção do espaço. No momento em que o Sr. e a Sra. Arpel colocam suas
cadeiras do lado de fora da casa não para poder respirar o ar da noite e contemplar a natureza, mas sim
para olhar para dentro da televisão, reforça-se esta ideia dos novos costumes e a dinâmica da vida
moderna, isto significa que seus parâmetros ultrapassam a realidade física. Outra cena memorável e
uma das mais simbólicas, é o ​ponto de transição espacial entre os dois mundos; um muro em ruínas que
é transpassado pelo personagem de Tati, em que é possível visualizar aos fundos a cidade moderna com
suas linhas retas e monótonas, reforçando o conceito de impessoalidade e frieza.

Mon Oncle demonstra perfeitamente a forma como frequentemente usamos nossas casas como
símbolos de status em primeiro lugar, ao invés de priorizar a ideia de que a casa é um lugar de cuidado,
conforto e identidade, demonstrando a nocividade que os excessos de funcionalidade e estética podem
trazer à arquitetura, que é feita pelo homem e para o homem, e deve ser sempre acima de tudo
humana.