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Canto coral melhora sintomas vocais

em idosos saudáveis
Singing choir improves vocal symptoms in healthy elderly

Mauriceia Cassol*
Ângelo José Gonçalves Bós**

Resumo para observar o efeito do canto coral


no segundo ano de atividade vocal dos
Esta pesquisa avaliou modificações
sujeitos desta pesquisa, através do tes-
de sintomas vocais em indivíduos ido-
te Z para proporções. Comprovando
sos no período de dois anos de ativida-
nossa hipótese, de que as atividades de
de em canto coral. A amostra consistiu
canto coral melhorariam os sintomas
de 44 indivíduos idosos, acima de ses-
vocais, observou-se diminuição gradual
senta anos, de ambos os sexos, sem ex-
dos sintomas detectados inicialmente
periência prévia recente, mas dispostos
ao longo da atividade no canto coral.
a participar de atividades de canto co-
A partir das mudanças observadas nas
ral. Os sintomas vocais foram avaliados
vozes de indivíduos idosos ao longo das
em quatro das etapas do trabalho (ava-
avaliações, conclui-se que o programa
liação inicial, pós-8 meses, pós-férias e
do canto coral foi efetivo e proporcio-
pós-21 meses) por meio da aplicação de
nou a obtenção de melhora.
um questionário contendo 14 pergun-
tas referentes à voz. O qui-quadrado
Palavras-chave: canto coral, voz, envelhe-
foi calculado para testar a distribuição
cimento, idoso, geriatria, gerontologia.
dos participantes que referiram ou não
determinado sintoma (prevalências) nas
quatro avaliações. Os resultados da ava-
liação aos oito meses foram comparados
com a avaliação inicial para observar o
efeito da atividade de canto coral ao *
Fonoaudióloga, Doutora em Ciências da Saúde na área de
Geriatria, professora do Centro Universitário Metodista IPA.
longo desse período, através do teste **
Professor do Instituto de Geriatria da PUCRS.
Z para proporções. Os resultados da
avaliação aos oito meses foram com-
parados com a avaliação aos 21 meses,
Recebido em out. 2005 e avaliado em dez. 2005

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Introdução A presbifonia deve ser compreendida
como parte do processo de envelhecimen-
O treinamento vocal em cantores é to normal do indivíduo, não como uma
considerado responsável por manter flexi- desordem vocal, embora muitas vezes seja
bilidade, regularidade e simetria dos mo- difícil estabelecer-se um limite entre o
vimentos das pregas vocais, contribuindo que é processo vocal fisiológico inerente
para uma longevidade nas vozes cantadas à idade e o que é uma desordem vocal
treinadas e melhor eficiência respiratória estabelecida. Pesquisas revelam que vozes
(PEPPARD, 1990). treinadas e os melhores resultados vocais
Na avaliação da voz, realiza-se uma em indivíduos fisicamente ativos permi-
anamnese específica para os aspectos tem inferir que os exercícios contribuem
vocais e, ao mesmo tempo, abrangente para minimizar os efeitos da idade sobre
para as doenças sistêmicas que podem ter a voz. O indivíduo com uma voz treinada,
sintoma na fonação. Os sintomas referidos que conhece e segue as orientações de hi-
por um indivíduo idoso com queixa vocal giene vocal, pode apresentar as modifica-
podem nos dar indícios de se a alteração ções da presbifonia de maneira mais sutil,
vocal apresentada é decorrente apenas do não interferindo significativamente nas
processo de envelhecimento, ou se está atividades vocais executadas (BILTON,
associada a outro tipo de alteração. Na se- VIÚDE e SANCHEZ, 2002).
nescência observa-se uma alteração mais
precoce na mulher e as queixas são mais
marcadas na voz cantada, caracterizando- Pacientes e métodos
se pela diminuição da modulação da voz, Esta pesquisa foi desenvolvida na
com a perda dos agudos e diminuição Pontifícia Universidade Católica do Rio
da extensão vocal. As principais queixas Grande do Sul (PUCRS). Os participantes
e sintomas vocais relatados podem ser da pesquisa fazem parte do projeto Nunca
de alteração na qualidade vocal, como a é Tarde Para Cantar, o qual desenvolve a
rouquidão e a afonia (perda total da voz). atividade do canto coral para a terceira
Outros sintomas incluem a fadiga, cansa- idade. A programação dos encontros,
ço associado à produção da voz, esforço coordenados pela maestrina, conta com
para melhorar a projeção vocal, presença leitura de texto motivacional, exercícios
de ar na voz, falta de modulação vocal, voz de relaxamento, educação postural e
trêmula, dificuldade em modular a inten- técnica vocal, reintegração social, devo-
sidade vocal, dor à produção da voz, dor lução da auto-estima e motivação. Nos
muscular na região da cintura escapular, ensaios semanais de duas horas de dura-
sensação de ardor e queimação ou corpo ção, a maestrina desenvolve um trabalho
estranho na laringe. Tais sintomas podem voltado aos aspectos da educação da voz
estar associados a alterações que excedem e da respiração e fornece informações
aquelas decorrentes apenas do processo de sobre leitura e escrita musical (teoria e
envelhecimento vocal (BILTON, VIÚDE solfejo), objetivando o desenvolvimento
e SANCHEZ, 2002). do aspecto rítmico. A voz é trabalhada
cuidadosamente por meio de técnicas de

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Canto coral melhora...

relaxamento, aquecimento e desaqueci- após oito meses de atividade, pós-férias e


mento vocal, articulação, respiração e após 21 meses, por meio da aplicação de
projeção vocal, sendo realizados exercícios um questionário contendo 14 perguntas
preparatórios direcionados ao repertório referentes à voz (Apêndice A). Os resul-
proposto. A população desta pesquisa tados da avaliação aos oito meses foram
constou de indivíduos idosos acima de comparados com a avaliação inicial para
sessenta anos. A amostra consistiu de 44 observar o efeito da atividade de canto
indivíduos idosos, de ambos os sexos, os coral ao longo desse período. Os resul-
quais estavam iniciando as atividades de tados da avaliação aos oito meses foram
canto. Os sintomas vocais foram avaliados comparados com a avaliação aos 21 meses
em quatro etapas pela aplicação de um para observar o efeito do canto coral no se-
questionário para identificar possíveis gundo ano de atividade vocal dos sujeitos
sintomas relacionados ao uso da voz para desta pesquisa. Os resultados da avaliação
o canto relatados pelos participantes nas aos 21 meses foram comparados com a
quatro avaliações. avaliação inicial para observar o efeito a
O estudo realizado foi do tipo longitu- longo prazo do canto coral. Foi construída
dinal e experimental. A amostra consistiu uma tabela de distribuição dos sintomas e
de 44 indivíduos idosos, de ambos os sexos, o qui-quadrado foi calculado para testar a
que estavam iniciando a atividade de canto distribuição dos participantes que referi-
coral. O grupo avaliado constou de indi- ram ou não determinado sintoma (preva-
víduos idosos na faixa etária de sessenta lências) nas quatro avaliações. Níveis de
a oitenta anos, sendo a média de 65 anos significância menores que 5% para esses
para o sexo feminino e de 67 anos para o testes foram considerados significativos.
masculino. Na amostra houve predomínio Na análise estatística deste estudo, foi
de indivíduos de cor branca, totalizando utilizado o programa EpiInfo versão 2002.
36 indivíduos. Em relação aos hábitos Comparações entre proporções foram ava-
investigados, o tabagismo foi encontrado liadas pelo teste Z para propoções.
em apenas um indivíduo. Foram excluídos A pesquisadora comprometeu-se a
da pesquisa indivíduos com condições clí- manter confidencialidade e sigilo em
nicas como doenças crônico-degenerativas relação aos dados coletados, vinculados
(doença neurológica prévia: AVC, Parkin- aos nomes dos participantes da pesquisa.
son, ou demência, por exemplo) e indiví- Após esclarecidos quanto aos objetivos
duos com cirurgias de cabeça e pescoço e metodologia do trabalho, os idosos
prévias. Indivíduos que não concordaram participantes da pesquisa assinaram um
com a participação, ou que, posteriormen- termo de consentimento informado, o
te, desistiram de participar desta pesquisa e qual ressalta a não-existência de descon-
indivíduos que iniciaram sua participação fortos ou riscos aos mesmos, e descreve os
no coral após o início da pesquisa também procedimentos empregados na pesquisa
não foram incluídos. (GOLDIN, FRANCISCONI e MOTER,
Os sintomas vocais foram avaliados em 2000).
cada uma das etapas do trabalho, inicial,

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Resultados canto coral; a segunda, após oito meses de
atividade de canto coral; a terceira, após
Os sintomas vocais foram avaliados em um período de três meses de férias sem a
cada uma das etapas do trabalho por meio prática do canto e a quarta avaliação aos
da aplicação de um questionário contendo 21 meses de prática de canto coral. Foi
14 perguntas referentes à voz (Apêndice contruída a tabela de distribuição dos
A). A primeira avaliação foi realizada sintomas (Tabela 1).
quando os sujeitos iniciaram a prática do
Tabela 1 - Resultado das quatro etapas de avaliação dos sintomas vocais
Pós- 21
Inicial 8 meses
Sintoma vocal respostas (%) férias meses p
Sim Sim Sim Sim
1. Queixa de voz rouca 6,8 13,6 11,4 15,9 0,2483
2. Rouquidão pós-ensaio do coral 9,1 2,3 9,1 0,0 0,0192
3. Problemas de voz 25,0 20,5 22,7 22,7 0,0003
4. Piora da voz após canto coral 4,5 0,0 2,3 2,3 0,0054
5. Quebras na voz durante o canto 27,3 18,2* 20,5 20,5** 0,7660
6. Voz desafina durante o canto 38,6 27,3 15,9 9,1 0,0124
7. Dificuldade na emissão de tons agudos 45,5 38,6 36,4 25,0 0,5628
8. Dificuldade na emissão de tons graves 25,0 29,5 31,1 22,7 0,9676
9. Sintomas sensoriais laríngeos 45,5 22,7 25,0 25,0 0,7510
10. Falta de ar para terminar frases musicais 36,4 25,0 15,9 9,1** 0,1130
11. Controle da emissão cantada em grupo 45,5 61,4 81,8 88,8** 0,0656
12. Hábito de pigarrear 31,8 40,9 25,0 29,5 0,5142
13. Automedicação para sintomas vocais 20,5 25,0 13,6 2,3** 0,4362
14. Uso intensivo da voz em outras atividades 20,5 29,5 31,8 34,1 0,5950

Houve variação em relação à queixa aos 21 meses, 37 pessoas (84%) referiram


de voz rouca no período de avaliação. não ter queixa de voz rouca. O resultado do
Na avaliação aos oito meses constatou-se teste qui-quadrado não foi significativo. É
um aumento em relação à queixa de voz importante ressaltar que a voz rouca tem
rouca. Na avaliação pós-férias houve uma uma psicodinâmica considerada positiva,
diminuição da queixa de voz rouca e, na sendo socialmente aceitável por não se
avaliação aos 21 meses, um aumento desta caracterizar como uma qualidade vocal
queixa. Na avaliação inicial 41 pessoas desagradável, o que para muitos indivíduos
(93%) referiram não ter queixa de voz rou- não é perceptível nem referenciado como
ca; na avaliação aos 8 meses, 38 (86%); na voz alterada.
avaliação pós-férias, 39 (89%); na avaliação Observamos diminuição do sintoma de
voz rouca na avaliação aos 8 meses, com

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um aumento deste sintoma na avaliação ter quebra na voz durante o canto; aos
pós-férias e posterior nova diminuição da 8 meses, 36 (82%); na avaliação pós-fé-
rouquidão após o canto coral na avaliação rias, 35 (79%); aos 21 meses, 35 (79%).O
aos 21 meses. Na avaliação inicial, 40 resultado do teste qui-quadrado não foi
pessoas (91%) referiram não ter rouqui- significativo.
dão após o canto; aos 8 meses, 43 (98%); Observamos na questão nº 6 que houve
na avaliação pós-férias, 40 (91%); aos 21 decréscimo de vozes que desafinavam no
meses, 44 (100%). O resultado do teste período de avaliação. Na avaliação inicial,
qui-quadrado não foi significativo. 27 pessoas (61%) referiram não desafinar
Houve um decréscimo no número de a voz durante o canto; aos 8, 32 (73%);
pessoas que referiram problemas na voz na avaliação pós-férias, 37 (84%); aos 21
no período inicial para a avaliação aos meses, 40 (91%). O resultado do teste qui-
8 meses. Na avaliação pós-férias, houve quadrado foi significativo. O teste Z não
aumento deste sintoma, permanecendo o foi significativo entre a inicial e a avaliação
mesmo resultado para a avaliação aos 21 aos oito meses, mas significativo entre a
meses. Na avaliação inicial, 33 pessoas avaliação aos 8 e aos 21 meses e entre a
(75%) não referiram problemas na voz; inicial e aos 21 meses.
aos 8 meses, 35 (79%); na avaliação pós- Observamos na questão nº 7 que houve
férias, 34 (77%); aos 21 meses, 34 (77%). menor dificuldade na emissão de tons
O resultado do teste qui-quadrado não foi agudos durante o período de avaliação.
significativo. Na avaliação inicial, 24 pessoas (55%)
Na questão nº 4, houve variação em referiram não ter dificuldade na emissão
relação à piora na voz após o canto coral de tons agudos durante o canto coral; aos
no período de avaliação. Em relação à 8 meses, 27 (61%); na avaliação pós-fé-
inicial e à avaliação aos 8 meses, houve rias, 28 (64%); aos 21 meses, 34 (75%). O
diminuição da queixa de piora de voz após resultado do teste qui-quadrado não foi
o canto, porém a queixa esteve presente significativo, porém os idosos referiram
na terceira e na avaliação aos 21 meses. menos dificuldade na emissão de tons
Na avaliação inicial, 42 pessoas (95%) agudos nas várias etapas durante o perío-
não referiram piora na voz após o canto; do de avaliação.
aos 8 meses, 44 (100%); na avaliação pós- Observamos na questão nº 8 que houve
férias, 43 (98%); aos 21 meses, 43 (98%). menor dificuldade na emissão de tons gra-
O resultado do teste qui-quadrado não foi ves durante o canto coral da inicial para
significativo. a avaliação aos 8 meses, permanecendo
Observamos na questão nº 5 que hou- igual na avaliação pós-férias e aumentan-
ve diminuição do sintoma de quebra na do na avaliação aos 21 meses. Na avaliação
voz durante o canto no período da inicial inicial, 33 pessoas (75%) referiram não
para a avaliação aos 8 meses, havendo ter dificuldade na emissão de tons graves;
um aumento na avaliação pós-férias e aos 8 meses, 31 (70%); na avaliação pós-
permanecendo o mesmo resultado para férias, 30 (68%); aos 21 meses, 34 (77%).
a avaliação aos 21 meses. Na avaliação O resultado do teste qui-quadrado não foi
inicial, 32 pessoas (73%) referiram não significativo.

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Observamos na questão nº 9 que houve meses, mas significativo entre a avaliação
decréscimo nos sintomas sensoriais na aos 8 meses e aos 21 meses e entre a inicial
avaliação aos oito meses. Na avaliação e a avaliação aos 21 meses.
pós-férias observou-se um aumento dos Na questão nº11, os participantes
sintomas sensoriais relacionados ao uso foram questionados se conseguiam ter
vocal (ardor, dor, sensação de garganta controle sobre a emissão cantada no coral,
seca, sensação de queimação, sensação de ou apenas seguiam a voz do grupo. Houve
corpo estranho na laringe), permanecendo diminuição na dificuldade de controlar
o mesmo resultado na avaliação aos 21 a emissão vocal durante o canto coral no
meses. Na avaliação inicial, 24 pessoas período de avaliação. Na avaliação inicial,
(54%) referiram não ter sintomas vocais; 24 pessoas (54%) referiram não ter con-
aos 8 meses, 34 (77%); na avaliação pós- trole da própria voz durante o canto; aos 8
férias, 33 (75%); aos 21 meses, 33 (75%). meses, 17 (39%); na avaliação pós-férias, 8
O resultado do teste qui-quadrado não foi (18%); aos 21 meses, 8 (18%). O resultado
significativo. Na literatura, sintomas de do teste qui-quadrado foi significativo. O
sensações desagradáveis à emissão, como teste Z não foi significativo entre a inicial
as queixas de dor à produção da voz, dor e a avaliação aos oito meses, mas signifi-
muscular em áreas da cintura escapular cativo entre a avaliação aos 8 meses e aos
ou da face após fala prolongada, sensação 21 meses e entre a inicial e aos 21 meses.
de ardor, queimação ou corpo estranho na Observamos na questão no 12 variação
laringe, podem ser referidas pelo paciente em relação à queixa de pigarro no período
de modo isolado ou em combinação com de avaliação. Na avaliação aos 8 meses
quaisquer outras queixas. Tais sintomas houve aumento da queixa de pigarro em
geralmente indicam tensão muscular ou relação à avaliação inicial. Na avaliação
lesões da região posterior, particularmente pós-férias, houve diminuição da queixa de
os granulomas por refluxo laringofarín- pigarro e, aos 21 meses, houve, novamente,
geo (BEHLAU, MADAZIO e PONTES, um aumento em relação à queixa de pigarro.
1999). Na avaliação inicial, 30 pessoas (68%) refe-
Observamos na questão nº 10 que hou- riram não ter queixa de pigarro; aos 8 meses,
ve diminuição em relação à queixa de falta 26 (59%); na avaliação pós-férias, 33 (75%);
de ar em finais de frase durante o canto aos 21 meses, 31 (70%). O resultado do teste
no período de avaliação. Na avaliação qui-quadrado não foi significativo.
inicial, 28 pessoas (64%) referiram não Observamos na questão nº 13 que
ter dificuldade de falta de ar em finais houve variação do uso de medicamentos
de frase durante o canto; aos 8 meses, 33 para sintomas vocais durante o período
(75%) referiram não sentir falta de ar em de avaliação. Na avaliação inicial, 35
finais de frase durante o canto ; na ava- pessoas (79%) referiram não fazer uso de
liação pós-férias, 37 (84%) referiram não automedicação; aos 8 meses, 33 (75%);
ter dificuldade de falta de ar em finais de na avaliação pós-férias, 38 (86%); aos 21
frase durante o canto; aos 21 meses, 40 meses, 43 (98%). O resultado do teste qui-
(91%). O resultado do teste qui-quadrado quadrado foi significativo. O teste Z não
foi significativo. O teste Z não foi signi- foi significativo entre a inicial e a avalia-
ficativo entre a inicial e a avaliação aos 8 ção aos 8 meses, mas significativo entre

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a avaliação aos 8 meses e aos 21 meses e levemente na avaliação pós-férias, quando


entre a inicial e aos 21 meses. ocorreu o intervalo das atividades do co-
Observamos na questão nº 14 que ral. Observa-se, assim, que a atividade do
houve aumento do uso da voz além da canto pode estar relacionada à diminuição
atividade do canto coral no período de do sintoma de rouquidão nos idosos. Para
avaliação. Na avaliação inicial, 35 pessoas muitos pacientes a alteração vocal não é
(79%) referiram não fazer uso intensivo da tão importante, mas o esforço ou o cansaço
voz; aos 8 meses, 31 (70%); na avaliação associado à produção da voz pode modi-
pós-férias, 30 (68%); aos 21 meses, 29 ficar completamente o comportamento
(66%). O resultado do teste qui-quadrado vocal; o paciente pode referir cansaço pro-
não foi significativo. gressivo, esforço para melhorar a projeção,
ou, ainda, piora da voz em determinados
Discussão períodos. Esses sintomas estão associados
às fendas glóticas ou disfonia por tensão
Observou-se neste trabalho uma me- muscular (BEHLAU, MADAZIO e PON-
lhora na maioria dos sintomas questiona- TES, 1999).
dos. Os sintomas vocais revelam o grau de Os participantes referiram desafinar
conscientização do paciente sobre sua al- cada vez menos a voz durante o canto coral,
teração, além de expressar sua habilidade sendo este resultado significativamente
em organizar verbalmente a informação observado durante as quatro avaliações.
sobre a dificuldade atual. É importante A qualidade da voz cantada pode ser di-
ressaltar que na primeira avaliação os par- ferenciada de acordo com fatores como
ticipantes estavam bastante apreensivos timbre e tessitura. O timbre é o resultado
em relação aos testes aplicados e, como de vários sons harmônicos, que, unidos
estavam ingressando no coral, não tinham entre si, concorrem para o embelezamento
ou não costumavam prestar atenção aos e formação da voz, e a tessitura é a extensão
hábitos de higiene vocal enfatizados nas vocal alcançada, que varia de indivíduo para
perguntas do questionário. Após um ano indivíduo, dependendo principalmente de
de prática do canto coral, os participantes fatores físicos e de treinamento vocal (COS-
sentiram-se mais à vontade com a pesqui- TA, 2001). Quando questionados sobre a
sadora e, conseqüentemente, responderam dificuldade para atingir as notas agudas e
às perguntas de forma mais objetiva, pois as notas graves, apesar de o resultado não
já haviam adquirido conhecimentos sobre se mostrar significativo, o número de pes-
cuidados com a voz. soas que referiram dificuldade na emissão
Detectou-se, no presente trabalho, que de tons agudos diminuiu lentamente ao
poucos idosos referiram piora da voz após longo do período de avaliação. A avaliação
o canto, número que se manteve constante inicial talvez tenha sido influenciada pela
durante o período de avaliação. Quando impressão que alguns participantes tive-
questionados sobre rouquidão após os ram sobre os objetivos do questionário e,
ensaios, poucas pessoas referiram este sin- assim, referir pouca dificuldade no quesito.
toma após o canto, entretanto esse número Em relação à emissão de tons graves, na
diminuiu tanto na avaliação aos oito me- avaliação aos 8 meses e na pós-férias, os
ses quanto na aos 21 meses, aumentando idosos relataram dificuldades, melhoran-

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do somente na última avaliação após 21 diencefálica e a voz cantada cortical, o que
meses. Sintomas de perda de freqüências explica por que a voz cantada é consciente
da extensão vocal, tais como sintomas de e controlada em comparação com a voz
extensão vocal reduzida, tanto na região falada (MENALDI, 1992).
dos agudos como na região dos graves, são O número de participantes que refe-
bastante comuns entre os profissionais da riram fazer uso de medicamentos para
voz e podem estar relacionados a quadros sintomas vocais sem orientação diminuiu
inflamatórios agudos, à presença de edemas, ao longo do período de avaliação e de
ou, ainda, após uso excessivo de voz, apesar forma mais acentuada na última avalia-
de técnica adequada.4 Quando questionados ção. Os perigos da automedicação foram
sobre a falta de ar para terminar as frases abordados durante encontros do coral. A
musicais durante o canto, os participantes diminuição deste hábito demonstra que
referiram gradativamente menor dificulda- discutir automedicação durante os encon-
de ao longo do período de avaliação. Essa tros foi importante no grupo estudado.
melhora gradual e estável foi significativa Os participantes passaram a utilizar
nas comparações analisadas. Como no canto mais a voz de forma intensa após o ingres-
a respiração é programada de acordo com as so no coral em atividades diversas, como
frases musicais e pausas, o que não ocorre voluntariado, grupos de teatro e minis-
na fala, quando a entrada e saída de ar va- trando palestras. Pode-se observar uma
riam de acordo com a emoção e a mensagem mudança maior entre a avaliação inicial
transmitida, o treinamento vocal no coral e aos oito meses, permanecendo pratica-
provocou melhor controle da respiração no mente estável durante o período de acom-
grupo estudado. Na voz cantada, a respira- panhamento. Na literatura encontram-se
ção é exclusivamente oral principalmente relatos sobre melhores resultados vocais
pelo fato de ser muito rápida, ao contrário em indivíduos fisicamente ativos, permi-
da fala, que ocorre por meio de um modo tindo inferir que os exercícios contribuem
respiratório misto (BEHLAU e REHDER, pra minimizar os efeitos da idade sobre
1997; DINVILLE, 2001). a voz (BILTON, VIÚDE e SANCHEZ,
Os resultados encontrados mostraram 2002). Há de se destacar, entretanto, que
que os participantes passaram a ter mais os idosos participantes passaram a apre-
controle sobre a própria emissão no canto sentar maior número de atividades fora do
coral, ao invés de seguirem a voz do grupo, coral, tornando-se mais ativos, o que leva
o que pode se dever à melhora significativa a supor que o inverso seja também verda-
constatada ao longo das quatro avaliações. deiro: idosos que melhoram sua voz pre-
Sendo a voz cantada resultado de treino, a dispõem-se a ser mais socialmente ativos.
qualidade vocal caracteriza-se por ser mais O indivíduo com uma voz treinada, que
estável. Para que o cantor possa variar as conhece e segue as orientações de higiene
qualidades integrantes da voz, sofrendo vocal, pode apresentar as modificações
menos influência de fatores externos, é da presbifonia de maneira mais sutil,
importante que tenha um bom controle não interferindo significativamente nas
auditivo, técnica apropriada, além da pro- atividades vocais executadas (BILTON,
priocepção, que auxilia as coordenações VIÚDE e SANCHEZ, 2002).
musculares. A voz falada tem estimulação

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Canto coral melhora...

Conclusão cimento do processo natural do envelhe-


cimento, por si só, foram suficientes para
Observaram-se uma melhora em re- um melhor uso da voz.
lação aos sintomas de dificuldade na
emissão de tons agudos durante o canto,
dificuldade na emissão de tons graves du- Abstract
rante o canto, piora da voz após os ensaios This research evaluated changes in
do coral, existência de problemas vocais, vocal symptoms of elderly individuals
quebras na voz, rouquidão após os ensaios, (over 60 years old) that practice singing
sintomas sensoriais relacionados ao uso choir during a two-year period. The sam-
vocal (dor, sensação de garganta seca, sen- ple consisted of 44 healthy individuals of
sação de queimação, sensação de aperto na both genders, with no recent experience,
garganta, pigarro) e sintomas de voz rouca willing to participate in a choir. Initially,
ao longo do período das quatro avaliações, a questionnaire was applied in order to
embora tenham mostrado resultados es- identify potential symptoms and voice
tatisticamente não significativos. Pode-se problems in the participants. The vocal
constatar que os participantes do coral symptoms were evaluated in each one
demonstraram ter menos queixas vocais e of the stages of work by means of the
mostraram-se mais ativos vocalmente com application of the questionnaire which
a participação no coral. Algumas queixas argued 14 questions on the participant’s
referidas posteriormente à participação voice. Chi square was calculated to test
podem ser decorrentes do fato de os in- the distribution of the participants that
tegrantes do coral terem se tornado mais mentioned a certain symptom (prevalen-
sapientes quanto ao significado dos sinto- ce) or not in the 4 evaluations. The results
mas. Assim, os integrantes do coral foram of evaluation at 8 months were compared
instruídos durante as atividades e tiveram with the initial evaluation to observe the
maior consciência dos seus sintomas. effect of the activity of singing choir to
Em relação aos sintomas vocais relatados, the long of this period, using the Z-test
pode-se concluir que os participantes da pes- for proportions. The results of evalua-
quisa passaram a ter mais controle sobre a pró- tion at 8 months were compared with the
pria emissão no canto coral, desafinar menos a evaluation at 21 months, to observe the
voz, relataram maior controle de ar, passaram effect of the singing choir in the second
a ter menos queixas vocais e mostraram-se year of vocal activity, using the Z-test for
mais ativos vocalmente com a participação no proportions. We tested the hypothesis that
coral. Apesar de a maioria das melhoras dos the elderly participating in a choir would
sintomas vocais não ter sido significativa, são improve their vocal symptoms. There was
clinicamente importantes. O fato de os par- a decrease in initially detected symptoms
ticipantes serem saudáveis do ponto de vista and voice problems in the course of the
médico e de terem poucos sintomas vocais stint with the choir.
talvez tenha influenciado a não-obtenção de
resultados estatisticamente significativos para Key words: singing choir, voice, aging,
a maior parte dos sintomas. elderly, geriatrics, gerontology.
Para alguns indivíduos, as orientações
quanto aos cuidados com a voz e o conhe-

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Referências APÊNDICE I
BEHLAU, M.; MADAZIO, G.; PONTES, P. Ana-
mnese. In: Avaliação de voz. São Paulo: Centro Identificação de Problemas de Voz
de Estudos da Voz, 1999.
em Cantores
BEHLAU, M.; REHDER, I. M. Higiene vocal para
o canto coral. São Paulo: Revinter, 1997. Adaptado de Behlau & Rehder (1997)
BILTON, T.; VIÚDE, A.; SANCHEZ, E. P. Fo-
noaudiologia. In: GORZONI, M. L.; ROCHA, Nome:__________________________
S. M. Tratado de geriatria e gerontologia. Rio de Idade:__________________________
Janeiro: Guanabara Koogan, 2002. Data:___________________________
COSTA, E. Voz e arte lírica - técnica vocal ao
alcance de todos. São Paulo: Lovise, 2001. 1. ( ) Você acha que a sua voz é rouca?
DINVILLE, C. Os distúrbios da voz e sua reeduca-
2. ( ) Sua voz fica rouca após os ensaios do coral?
ção. Rio de Janeiro: Enelivros, 2001.
GOLDIM, J. R.; FRANCISCONI, C.; MOTER, 3. ( ) Você tem ou já teve algum problema de
J. Consentimento informado. Porto Alegre: Edi- voz?
pucrs, 2000.
4. ( ) Sua voz piorou depois que você entrou no
MENALDI, J. Análisis y características de la coral?
voz hablada y cantada. ln: MENALDI, J.; BEN-
VENUTO, A; JACKSON, G.; TOSI, S. La voz 5. ( ) Durante o canto sua voz quebra ou some?
normal. Buenos Aires: Panamericana, 1992.
6. ( ) Durante o canto a sua voz desafina?
PEPPARD, R. C. Effects of aging on selected vocal
characteristics of female singers and non-singers. Tese 7. ( ) Você tem dificuldades para atingir as notas
(Doutorado) - University of Wiscosin Madison, agudas?
1990.
8. ( ) Você tem dificuldades para cantar as notas
graves?
Endereço:
9. ( ) Você tem alguns desses sintomas na laringe:
Mauriceia Cassol ardor, dor, sensação de garganta seca, sen-
Rua botafogo, 1212/803 sação de queimação, sensação de aperto ou
bola na garganta?
Bairro Menino Deus
CEP 90150-052 10. ( ) Falta ar para você terminar as frases mu-
Porto Alegre - RS sicais?
E-mail: m.cassol@terra.com.br 11. ( ) Você consegue controlar sua emissão cantada
no coral, ou apenas segue a voz do grupo?

12. ( ) Você pigarreia constantemente?

13. ( ) Você se automedica quando tem problemas


de voz?

14. ( ) Além da atividade do coral, você usa a voz de


modo intensivo em outras situações?

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RBCEH - Revista Brasileira de Ciências do Envelhecimento Humano, Passo Fundo, 113-122 - jul./dez. 2006