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Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

Campus São Gabriel – Belo Horizonte


Curso: Psicologia – Noite
Disciplina: Teoria Psicanalítica II

ANÁLISE DO FILME:
“EU SOU O SENHOR DO CASTELO”

Belo Horizonte, Abril de 2009.


ANÁLISE DO FILME “EU SOU O SENHOR DO CASTELO”

Diante da análise do filme, fica perceptível a importância que Thomas representa em


sua casa, ele assiste a morte de sua mãe sem ter como fazer nada, sua única frase é “eu não
consigo viver sem você”, demonstrando sua simbiose com a mãe. Assim, após a morte da
mãe, ele passa a conseguir do pai tudo aquilo que pretende, nem que para isso, precise usar
artifícios como o desmaio, por exemplo.
Freud (1996) esclarece que, na fase de Narcisismo Primário, aquela em que a criança
já conseguiu constituir seu ego e investe agora a libido nele próprio, há um investimento
libidinal também dos pais nesta criança.

Se prestarmos atenção à atitude dos pais afetuosos para com os filhos,


temos de reconhecer que ela é uma reverência e reprodução de seu próprio
narcisismo, que de há muito abandonaram. O indicador digno de confiança
constituído pela supervalorização, (...). Assim, eles se acham sobre a compulsão de
atribuir todas as perfeições ao filho (...) e de ocultar e esquecer todas as deficiências
dele. (Freud, 1996, p. 107-108)

Pensando nisso, fica bem definido o lugar que Thomas ocupava naquele castelo. Um
lugar de destaque, em que todas as ações do pai, ainda que inconscientemente, fossem
voltadas para satisfazê-lo.
Com a chegada de Charles na casa, Thomas se sente ao mesmo tempo ameaçado e
completo, os dois vão desenvolver durante o filme uma relação de amor e ódio.
Deve ser lembrado também que nesta fase a criança toma o outro, devido à
identificação, como sua semelhança. Por isso, em várias passagens, como quando diz que não
pode viajar, pois tem que cuidar da fábrica, Thomas comporta-se como se fosse seu pai. Já
Charles tem características de sua mãe, como a sensibilidade e até um pouco de feminilidade,
ele sente-se como parte da sua mãe.
Thomas, em várias passagens, tenta provocar Charles dizendo que seu pai o havia
abandonado. Em outro momento, ele fala até mesmo que, da mesma forma que sua mãe, o pai
de Charles também havia morrido. Isso ocorre, pois, quem está vivendo o narcisismo
primário, deseja que aquilo que acontece com ele, aconteça também com o outro com o qual
estabelece a relação especular.
A partir de estudos sobre o narcisismo, através da observação da vida erótica do
sujeito, Freud percebe que a criança deriva suas primeiras escolhas objetais a partir de suas
experiências de satisfação, isto porque, as funções vitais que tem a finalidade de auto
preservação tornam-se as primeiras satisfações sexuais auto-eróticas. Sendo assim,

Os primeiros objetos sexuais de uma criança são as pessoas que se


preocupam com sua alimentação, cuidados e proteção: isto é, no primeiro caso com
sua mãe ou quem quer que a substitua. (Freud, 1996, p.103-104)

O pai de Thomas representa então para Charles, aquele que roubaria o amor de sua
mãe, ao mesmo tempo em que desperta nele também uma relação especular.
Seguindo a mesma linha de raciocínio, para Thomas, enquanto a mãe de Charles
desempenha a função de governanta, ela passa a representar a “mulher que alimenta”. Ou seja,
a mãe de Charles passa a cumprir o papel da mãe ausente de Thomas, fazendo para ele tudo
que uma mãe faria. Assim, Thomas idealiza a mãe de Charles como um objeto libidinal, uma
vez que ela agora é aquela que cuida dele. Quando ele olha a governanta como objeto de
desejo é como se ele a colocasse no lugar de sua própria mãe. O desejo sexual por esta mulher
não deve ser desconsiderado levando-se em conta a identificação que o faz imagem e
semelhança de pai. Thomas elege ainda, algumas vezes, Charles, para o lugar que era ocupado
por sua mãe, além de seu pai.
Como já relatado, a relação entre as duas crianças era especular, no sentido de um ser
extensão do outro. Cabe lembrar que ambos passam pela fase do narcisismo primário, que
segundo Freud:

(...) diria respeito à criança e à escolha que ela faz de sua pessoa como
objeto de amor, numa etapa precedente à plena capacidade de se voltar para objetos
externos. Considerar a existência permanente e simultânea de uma oposição entre a
libido do eu e a libido do objeto, e a formular a hipótese de um movimento de
gangorra entre as duas, uma enriquece, a outra empobrece, vice-versa. Nessa
perspectiva, a libido de objeto, em seu desenvolvimento máximo, caracteriza o
estado amoroso, ao passo que, inversamente, em sua expansão máxima, a libido do
eu fundamenta a fantasia do fim do mundo no paranóico. (Freud, 1996, p.203)

Na cena do teatro, mais do que indícios de descobertas sexuais, as crianças deixam


bastante explícita a identificação com seus progenitores, Charles representa sua mãe,
enquanto Thomas, o seu pai. Thomas tenta colocar Charles como aquele que o completa.
Cada um desempenhando um papel, um feminino e o outro masculino, nesta hora, um
completa o outro, na relação especular, não existe simbólico, ou seja, o outro faz parte de si e
mascara a sua falta. Freud atribuía grande importância às brincadeiras infantis no que diz
respeito à satisfação de desejos.
A relação especular dos dois acaba em agressividade nesta cena do teatro, Charles diz
a Thomas “me bate, me bate com força”. Como na relação dos dois não existe ainda o
simbólico, que é aquilo que diferencia as pessoas umas das outras, sua identificação é
primária e imediata, eles se sentem tão iguais que acabam querendo se destruir, a identificação
é tanta que fica insuportável para eles. Durante o narcisismo primário a relação especular é
vivida com todos que estão próximos, muitas vezes um acaba se perdendo no outro, tentando
destruir o outro buscando se encontrar. Esta consideração justifica as muitas passagens do
filme em que o amor se transparece como ódio entre os dois meninos.
O dinheiro era usado por Thomas como forma de destruir Charles. Ele queria mostrar
sua superioridade em relação ao outro, dizendo-se rico e ele pobre, dizia também que sua mãe
precisava do dinheiro de se pai como forma de humilhá-lo, voltando à cena do teatro, isto
também fica explícito. Em uma outra cena, quando Thomas paga a Charles, ele quer igualar a
mãe de Charles com sua mãe, pois de acordo com o pai de Thomas ela se casou por dinheiro.
Já Charles usa o dinheiro que ganhou de Thomas para levar sua mãe a um bar, ele paga a
conta e a chama para dançar, desempenhando então o papel do pai.
Em frente ao espelho, Thomas diz coisas horríveis para Charles sobre o colégio e,
assustado, Charles foge em busca do pai. Na hora da fuga, Thomas segue Charles para não
deixá-lo ir sozinho, como complementares, se um vai o outro também tem que ir. Thomas tem
medo de ir, mas não consegue voltar por causa de sua identificação com Charles, um é o
espelho do outro. Por sua vez Charles foge da mesma forma que o pai fugiu, demonstrando,
nesta hora, sua relação especular com o pai.
De mesma forma, na cena da reza, um é importante para o outro, portanto o que um
faz o outro deve fazer também. Assim como, quando um sente medo, o outro também sente. E
também no momento em que os dois fazem um pacto de sangue, a mistura de sangue
simboliza que os dois formam somente um, mais uma confirmação da relação especular dos
dois.
No final do filme, Charles percebe a presença do pai de Thomas como aquele que
tomaria o lugar de “homem” protetor e objeto de desejo e completude de sua mãe. Isto, para
ele, torna-se insuportável, pois é justamente o lugar que ele gostaria de ocupar. Com isso,
Charles foge então, como se fosse em busca de seu pai, aquele com quem se identifica, e entra
no mar.
Ao final desta análise, fica perceptível o quanto o filme em questão é rico no que diz
respeito a passagens que se referem à teoria psicanalítica estudada. Como exposto, várias são
as cenas que podem ilustrar aquilo que aprendemos teoricamente, o que torna a compreensão
do conteúdo melhor elaborada.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma introdução (1914). Edição Standard


brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud: volume 14 : a história do
movimento psicanalítico, artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos. Rio de Janeiro:
Imago, 1996. 396p.
JE SUIS LE SEIGNEUR DU CHATEAU. (Eu sou o senhor do castelo).
Direção: Regis Wargnier. Régis Arpin; David Behar; Dominique Blanc; Jean Rochefort.
França: 1989, VHS (90min.), color.
LACAN, Jacques. O estádio do espelho como formador da função do eu. Escritos.
Rio de Janeiro: J. Zahar, c1998. 96 a 103pg.

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