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Depósito de Literatura Cristã
“Estudos sobre a 1ª Epístola a Timóteo”
Capa + Projeto Gráfico / Diagramação
Liliana Ester Dinella
Impressão e Acabamento
Imprensa da Fé, São Paulo - SP, Brasil
Traduzido do original “Du aber... Eine Auslegung zum 1. Timotheusbrief”
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação
REMMERS, Arend
Estudos sobre a 1ª Epístola a Timóteo; São Paulo-SP:
Depósito de Literatura Cristã, 2018. 164 p. ; 14 x 21 cm.
ISBN: 978-85-9579-019-3
1. Comentário Bíblico. 2. Teologia. 3. Escatologia
CDD 230
1ª Edição - Outubro 2018
www.boasemente.com.br
Rua Athos Palma, 250
CEP 04476-020 - São Paulo - SP BRASIL
ÍNDICE
Introdução7
Capítulo 1 - Saudações, lei e graça 15
Capítulo 2 - A oração e a posição da mulher41
Capítulo 3 - Presbíteros (ou: bispos) e diáconos67
Capítulo 4 - Doutrina falsa e doutrina correta93
Capítulo 5 - Viúvas e anciãos (ou: presbíteros) 113
Capítulo 6 - Modéstia e riqueza 139
Anotações165
Lembramos ao leitor ser conveniente acompanhar a leitura deste
estudo com o texto correspondente na Bíblia. Recomendamos que
estude sempre em espírito de oração, pois só com a ajuda do
Espírito Santo será possível alcançar uma compreensão verdadeira
do que está escrito na Palavra de Deus.
INTRODUÇÃO
A
Paulo, que de acordo com o costume da época se apresenta
nos primeiros versículos como o autor da carta, era judeu da tribo de
Benjamim (Fp 3:5). Ele era proveniente de Tarso, na Cilícia (região
do sudoeste da atual Turquia) e possuía desde o nascimento a
cidadania romana (At 22:3,28). Recebeu a sua formação em
Jerusalém com o rabi Gamaliel, de acordo com os rígidos padrões
dos fariseus (At 26:5).
No Novo Testamento, Paulo, que na época ainda se chamava
Saulo, é mencionado pela primeira vez por ocasião do
apedrejamento de Estêvão (At 7:58). Logo a seguir são relatadas as
suas bárbaras ações como perseguidor da Igreja, às quais ele às
vezes se refere com grande tristeza em suas cartas (At 8:1-3; 9:1-2;
1 Co 15:9; Gl 1:13; 1 Tm 1:13).
Durante uma viagem a Damasco, o Senhor Jesus Cristo
glorificado opôs-se ao seu caminho. Saulo converteu-se, e Deus,
que o havia separado para si desde o vente materno, chamou-o
agora para servir-lO e anunciar o evangelho de Seu Filho às nações
pagãs. Logo após ser salvo, Paulo pôs-se a pregar a Boa-Nova, a
começar pelas sinagogas de Damasco. No entanto, os judeus da
cidade conspiraram para matá-lo, por isso ele fugiu para a Arábia.
Não temos informações no Novo Testamento a respeito dos três
anos que ele permaneceu nesse lugar.
Depois disso, Paulo se dirigiu a Jerusalém, onde conheceu
Pedro (Gl 1:18). No entanto, os judeus dali também atentaram
contra a sua vida, e ele foi se refugiar em Tarso, a sua cidade natal.
No caminho, passou por Cesareia, onde foi procurado por Barnabé,
que o levou para Antioquia. Ali os dois trabalharam juntos por algum
tempo na obra do Senhor (At 11:25-26).
Por volta de 46 a 49 d.C., Barnabé e Paulo partiram de
Antioquia para empreender a sua primeira viagem missionária de
maior envergadura, com destino a Chipre e à Ásia Menor. Eles
fizeram escala em Salamina, Pafos, Perge, Antioquia da Pisídia,
Icônio, Listra e Derbe, a terra natal de Timóteo. No caminho de
volta, visitaram quase todos esses lugares outra vez, passando
também por Atália, até chegar em casa (At 13 e 14).
Após uma segunda visita a Jerusalém (At 15; Gl 2), Paulo partiu
outra vez de Antioquia, por volta de 51 a 54, para a sua segunda
viagem missionária. Dessa vez, porém, não mais em companhia de
Barnabé, mas de Silas. Nessa viagem, Paulo chegou pela primeira
vez à Europa, mas antes disso fez nova visita a Derbe e Listra, onde
conheceu um jovem crente chamado Timóteo, que levou consigo
como segundo companheiro de jornada. Na Europa, a primeira
parada foi Filipos. Depois ele seguiu para Anfípolis, Tessalônica,
Bereia, Atenas e Corinto, onde permaneceu dezoito meses. De
Corinto, retornou a Antioquia, depois de passar por Cencreia, Éfeso
e Cesareia (At 15:36—18:22).
Logo em seguida, por volta de 54 a 58, Paulo deu início à sua
terceira viagem missionária, na qual teve Lucas como companheiro
por algum tempo. Nessa jornada, passou pela Galácia e pela Frígia
e chegou a Éfeso, onde permaneceu por três anos. De Éfeso, partiu
para a Macedônia e passou pela Grécia. A viagem de volta, que
teve outra passagem pela Macedônia, levou-o novamente à Ásia
Menor e às ilhas gregas adjacentes, para Jerusalém (At 18:23—
21:17).
Em Jerusalém, logo após a sua chegada, Paulo foi agarrado por
judeus hostis no Templo e aprisionado pelos romanos. Após um
cativeiro de dois anos em Cesareia, ele foi enviado a Roma porque,
como cidadão romano, havia apelado para César. Na capital do
império, ficou preso mais dois anos, embora em condições
relativamente vantajosas (At 21—28). Da prisão, escreveu cartas
aos efésios, aos filipenses, aos colossenses e a Filemom, nas quais
expressa a esperança de uma libertação em breve (Fp 1:25; 2:24;
Fm 22).
O Novo Testamento não registra as atividades do apóstolo após
esse período, exceto pelas informações contidas nas cartas
pastorais (1 e 2 Timóteo; Tito). Por exemplo, em 1 Timóteo 1:3
Paulo afirma ter deixado Timóteo em Éfeso enquanto viajava para a
Macedônia. Não há como a menção desse fato estar relacionada
com a sua breve visita a Éfeso no retorno de sua segunda viagem
missionária (At 18:19), nem à sua segunda permanência nessa
cidade, durante a terceira viagem, pois na ocasião Paulo seguiu
viagem para a Macedônia e a Grécia. Em Atos 20:4, porém, é dito
que Timóteo se uniu a ele outra vez no regresso à Ásia Menor.
Uma comparação da carta aos Efésios com a primeira carta a
Timóteo mostra que a situação da igreja em Éfeso havia piorado (1
Tm 1:3,6,19; 6:10,21). Além disso, na primeira carta a Timóteo,
Paulo não menciona nenhuma prisão (da mesma forma que na carta
a Tito). Já na carta aos Efésios, ele faz menção desse fato várias
vezes (Ef 3:1; 4:1; 6:20), e, na segunda carta a Timóteo, escrita
mais tarde, Paulo volta a fazer frequentes referências à sua prisão
(2 Tm 1:8,12,16; 2:9; 4:16), bem como à sua morte iminente (2 Tm
4:6-7).
Por esse motivo, podemos supor que a esperança de ser
libertado da primeira prisão, alimentada por Paulo, tenha se
concretizado. Ele então visitou a igreja de Éfeso, onde deixou
Timóteo, e seguiu viagem para a Macedônia. Ao seu colaborador
Tito, comunicou que pretendia passar um inverno em Nicópolis (Tt
3:12). Em seguida, passou mais um tempo em Trôade, onde deixou
a sua capa e os seus livros (2 Tm 4:13). Talvez tenha estado em
Éfeso também (1 Tm 3:14), de onde é possível que o seu caminho,
que incluiu nova passagem por Mileto e Corinto, o tenha levado ao
segundo aprisionamento (2 Tm 4:20). As razões e as circunstâncias
dessa prisão, no entanto, não são reveladas.
Por conseguinte, é bem possível que a primeira carta a Timóteo
tenha sido escrita logo após a última visita do apóstolo a Éfeso
(mencionada em 1 Tm 1:3), entre os anos 63 e 66. A redação da
carta a Tito também coincide com esse período. Depois de ter sido
preso outra vez, Paulo então escreveu o seu último testemunho
inspirado, provavelmente no outono do ano 66 — a segunda carta a
Timóteo.
Destinatário da carta
Timóteo era o filho de pai grego e mãe judia. Tanto a sua avó
Loide quanto a sua mãe Eunice o instruíram no Antigo Testamento,
a Santa Escritura dos judeus (At 16:1; 2 Tm 1:5; 3:15). Paulo
conheceu o jovem crente Timóteo durante a sua segunda viagem
missionária, na região de Derbe e Listra (Licaônia), porque os
irmãos de Listra e Icônio davam bom testemunho dele (At 16:2).
Como Paulo já havia evangelizado a região em sua primeira viagem
(At 13—15) e visitado Listra e Icônio duas vezes (At 14:1,8,21),
podemos supor que Timóteo já na ocasião ouvira a mensagem da
cruz e a recebera pela fé. A mãe e a avó de Timóteo também se
converteram.
Para que a sua descendência de pai pagão não fosse um
impedimento ao seu ministério entre os judeus, Paulo circuncidou a
Timóteo (At 16:3). Com esse novo acompanhante, Paulo e Silas
então passaram pela Ásia Menor e chegaram à Macedônia. De
Bereia, Paulo seguiu viagem sozinho para Atenas. Silas e Timóteo
reuniram-se a ele mais tarde (At 17:14; 1 Ts 3:2). Paulo, todavia,
preocupado com a situação espiritual da jovem igreja, enviou
Timóteo mais uma vez a Tessalônica (1 Ts 3:1-6). Eles só vieram a
se encontrar de novo em Corinto, e escreveram de lá a primeira
carta aos Tessalonicenses (At 18:5; 1 Ts 1:1).
Timóteo também acompanhou Paulo na terceira viagem
missionária do apóstolo. De Éfeso, na companhia de Erasto, foi
enviado à Macedônia e depois a Corinto, aonde chegou depois que
a igreja ali já havia recebido a primeira carta de Paulo (At 19:22; 1
Co 4:17; 16:10). Quando a segunda carta aos Coríntios foi escrita,
Timóteo estava outra vez com Paulo na Macedônia (2 Co 1:1). E,
quando Paulo, após uma permanência de três meses na Grécia,
voltou à Ásia Menor depois de passar pela Macedônia, Timóteo e
outros irmãos foram esperá-lo em Trôade (At 20:3-6). É provável
que ele não tenha ido com Paulo a Jerusalém, mas ficado em Éfeso,
onde também mais tarde trabalhou, a pedido do apóstolo.
Depois que Paulo foi preso e levado para Roma, Timóteo foi
visitá-lo ali. Nas cartas aos Filipenses, Colossenses e Filemom,
Timóteo é mencionado com Paulo nas palavras introdutórias de
saudação. Como fosse vedada a Paulo a possibilidade de fazer
qualquer visita, ele manifesta na carta aos Filipenses a intenção de
enviar-lhes Timóteo em seu lugar.
No início de sua parceria, Paulo chamava-o “nosso irmão [...] e
nosso cooperador no evangelho de Cristo” (1 Ts 3:2). Já na primeira
carta aos Coríntios, ele é o seu “filho amado, e fiel no Senhor” (1 Co
4:17). As expressões mais calorosas e amáveis, no entanto, estão
registradas em Filipenses 2:19-23:
Espero no Senhor Jesus que em breve vos mandarei Timóteo, para que
também eu esteja de bom ânimo, sabendo dos vossos negócios. Porque a
ninguém tenho de igual sentimento, que sinceramente cuide do vosso estado;
porque todos buscam o que é seu, e não o que é de Cristo Jesus. Mas bem
sabeis qual a sua experiência, e que serviu comigo no evangelho, como filho
ao pai. De sorte que espero vo-lo enviar logo que tenha provido a meus
negócios.
Esse jovem e tímido colaborador Paulo, porém fiel servo do
Senhor, foi um dos poucos que permaneceram firmes ao lado do
apóstolo, enquanto muitos se envergonhavam do prisioneiro e se
distanciavam dele. Depois de sua libertação, Paulo foi visitar mais
uma vez alguns dos lugares onde havia trabalhado e assim pôde
deixar Timóteo em Éfeso, porque confiava em sua integridade. Na
esperança de voltar a vê-lo em breve, porém pressentindo que o
Senhor poderia escolher outro caminho, o apóstolo escreveu a sua
primeira carta a Timóteo.
Por questão de clareza iremos subdividir a primeira carta a
Timóteo como segue:
Capítulo 1 — S ,L G

vv. 1-2 — Remetente, destinatário e saudação


vv. 3-4 — Advertência sobre um falso ensino
vv. 5-11 — O significado da lei
vv. 12-17 — Paulo agradece pela graça
vv. 18-20 — Mais uma vez, o falso ensino

Capítulo 2 — A O P M

vv. 1-8 — A oração


vv. 9-15 — A atitude da mulher

Capítulo 3 — P ( :B ) D

vv. 1-7 — O presbítero


vv. 8-13 — Os diáconos
vv. 14-16 — O comportamento na Igreja

Capítulo 4 — D F D C
vv. 1-5 — Doutrinas perigosas
vv. 6-16 — Pré-requisitos para um bom ministro

Capítulo 5 — V A ( :P )

vv. 1-16 — Assistência às viúvas


vv. 17-21 — Atitude para com os anciãos (ou: presbíteros)
vv. 22-25 — Atitude pessoal

Capítulo 6 — M R

vv. 1-2 — Escravos e senhores


vv. 3-10 — Visão de lucro
vv. 11-16 — O homem de Deus
vv. 17-19 — Riqueza
vv. 20-21 — Conclusão
CAPÍTULO 1
S ,
Remetente, destinatário e saudação (1:1-2)
1:1-2 — Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, segundo o mandado de Deus,
nosso Salvador, e do Senhor Jesus Cristo, esperança nossa, a Timóteo meu
verdadeiro filho na fé: Graça, misericórdia e paz da parte de Deus nosso Pai,
e da de Cristo Jesus, nosso Senhor.
Na época em que escrito o Novo Testamento foi escrito, era
costume o remetente citar primeiro o próprio nome e depois
apresentar os seus cumprimentos ao destinatário da carta (veja, por
exemplo, a carta do oficial romano de Jerusalém ao governador
Félix, At 23:26-30).
À semelhança das cartas aos Coríntios, aos Gálatas, aos
Efésios, aos Colossenses e a Tito, Paulo apresenta-se aqui como
apóstolo. Ele era um enviado (no grego, apostolos) de Cristo Jesus.
Durante a sua vida terrena, o Senhor Jesus havia escolhido e
enviado doze apóstolos. No intervalo entre a Sua ressurreição e a
ascensão, Ele reiterou essa ordem (Mt 28; Mc 16). O envio dos
Doze, portanto, foi de caráter terreno, porque se deu enquanto o
Senhor Jesus estava na terra. Isso também foi manifestado na
comissão que lhes deu. Paulo, no entanto, foi chamado e enviado
pelo Cristo glorificado, assentado à direita de Deus no céu. Essa
diferença é muito importante.
Na verdade, Paulo orientava o seu ministério de acordo com a
ordem do Deus eterno a todas as nações, da mesma forma que os
outros apóstolos do Senhor (compare Rm 16:26 com Mt 28:19).
Contudo, ao passo que estes foram encarregados pelo Senhor de
fazer discípulos de todas as nações batizando-os e ensinando-os,
Paulo, desde o princípio, recebeu outro ministério. O homem
glorificado Jesus Cristo revelou-se a ele como a Cabeça de Seu
corpo, a Igreja. Com isso, revelou-lhe um mistério que permanecera
oculto nas épocas precedentes. Esse “mistério” constituía o tema
básico da pregação de Paulo (veja Gl 1:11—2:10; Rm 16:25-26; Ef
3:2-11; 5:32; Cl 1:25-27; 2:2-3).
A diferença entre o ministério de Paulo e o dos demais
apóstolos já se evidencia nos nomes atribuídos ao Senhor nas
diferentes cartas do apóstolo. De acordo com as últimas pesquisas
textuais, Paulo, em suas cartas, nas quais se apresenta como
apóstolo, sempre denomina a si mesmo “apóstolo de Cristo Jesus”
(1 Co 1:1; 2 Co 1:1; Ef 1:1; Cl 1:1; 1 Tm 1:1; 2 Tm 1:1), com apenas
duas exceções (Gl 1:1; Tt 1:1). Já o apóstolo Pedro identifica-se em
suas duas cartas como “apóstolo de Jesus Cristo”. O título “Cristo”
fala da elevação daquEle que cumpriu todos os desígnios de Deus
(At 2:34-36), enquanto o nome Jesus foi dado ao Filho de Deus em
sua humilhação como homem. Quando os dois nomes são usados
juntos, a anteposição mostra se a ênfase é dada ao nome ou ao
título.
Portanto, Paulo foi um enviado do Filho do homem glorificado
com a missão de anunciar o mistério da unidade em Cristo, da
Cabeça no céu com o Seu corpo na terra, a Igreja. Mas ele também
era apóstolo “segundo o mandado de Deus, nosso Salvador, e do
Senhor Jesus Cristo, esperança nossa”. Por fim, foi constituído
apóstolo não apenas pela vontade de Deus (1 Co 1:1; 2 Co 1:1; Ef
1:1; Cl 1:1; 2 Tm 1:1), mas também por Sua ordem expressa. Essa
ordem divina não se referia apenas ao seu apostolado: também a
mensagem lhe foi confiada “segundo o mandamento de Deus,
nosso Salvador” (Tt 1:3).
Desse modo, diz Paulo, “se anuncio o evangelho, não tenho de
que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim, se
não anunciar o evangelho! E por isso, se o faço de boa mente, terei
prêmio; mas, se de má vontade, apenas uma dispensação me é
confiada” (1 Co 9:16-17).
A expressão “Deus, nosso Salvador”, nessa forma ou em outras
semelhantes, só aparece na primeira carta a Timóteo e na carta a
Tito (1 Tm 1:1; 2:3; Tt 1:3; 2:10,13; 3:4; compare com Lc 1:47). Ela
mostra o atual relacionamento entre Deus e toda a humanidade
desde a “aparição de nosso Salvador Jesus Cristo, o qual aboliu a
morte, e trouxe à luz a vida e a incorrupção pelo evangelho” (2 Tm
1:10). Deus, na condição de Salvador, oferece a salvação a todos os
homens, porque Ele mesmo fez tudo que era necessário para isso.
Por meio da vinda de Cristo à terra e de Sua obra expiatória na cruz,
foi demonstrado que o amor de Deus ultrapassa de longe o tamanho
do pecado e do antagonismo da humanidade perdida.
Esse amor ultrapassa também as leis divinas e as prescrições
humanas do judaísmo. Só depois de comprovado no exemplo de
Israel que os homens por si mesmos não podem satisfazer as
exigências de Deus foi aberto o caminho para a manifestação
perfeita da graça de Deus, que contemplou a humanidade inteira.
Até então, havia a “parede de separação”, que separava judeus e
gentios uns dos outros. Assim, por um lado, a relação especial entre
Deus e Israel foi interrompida temporariamente com a morte de
Cristo. Por outro lado, a porta da graça foi aberta a todas as nações.
Agora, da mesma forma que não há diferença entre os homens
quanto à sua perversão total, também não há desigualdade com
relação à graça e à reconciliação para todos os que creem no
Senhor Jesus.
A escolha nacional de Israel como povo de Deus podia dar a
impressão de que Ele fosse o Deus de um único povo. Mas o
período de cerca de 1.500 anos de validade da lei do Sinai para o
povo de Israel demonstrou apenas uma coisa: até o povo escolhido
e protegido por Deus é por natureza relutante e incapaz de fazer a
Sua vontade. Nem mesmo o envio de muitos profetas ao povo
terreno de Deus conseguiu produzir mudanças. E o juízo de Deus
foi este: “Nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da
lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado” (Rm 3:20).
Então Deus enviou o Seu Filho amado e, pelo evangelho da graça,
revelou ao mundo quem Ele é: um Deus Salvador, “que quer que
todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da
verdade” (1 Tm 2:3-4).
Por isso, Timóteo deve ter sempre diante dos olhos o Deus
Salvador, de modo a conservar um coração acolhedor e alegre
sempre que lhe pesasse alguma preocupação com uma pessoa em
particular ou com a Igreja como um todo. Essa percepção é
imprescindível não só aos evangelistas, como também aos pastores
e mestres na Igreja de Deus. Quando ela não existe, há o risco de
que o serviço na Igreja se torne insatisfatório e árido.
Se o Deus Salvador é a única solução para o mundo perdido,
então Cristo Jesus é a nossa única esperança. Contudo, Ele não é a
esperança apenas para desesperançados (veja Ef 2:12; Rm 15:12),
mas também para o crente, “porque em esperança fomos salvos”
(Rm 8:24). Quem recebeu a salvação de sua alma pela fé no
evangelho foi unificado com o seu Salvador, Jesus Cristo. E, apesar
de Ele morar no crente, ainda assim é chamado a “esperança da
glória” (Cl 1:27).
O crente só tomará posse dos resultados da obra salvadora em
sua total extensão quando o Senhor Jesus voltar para conduzir os
que Ele salvou à casa paterna. A esperança do cristão, no entanto,
não se concentra em coisas ou em acontecimentos, mas na pessoa
de Jesus Cristo. O crente aguarda o seu Salvador (Fp 3:20; 1 Ts
1:10). A esperança cristã não é uma expectativa indefinida ou
incerta, mas boa, bem-aventurada e viva (2 Ts 2.16; Tt 2:13; 1 Pe
1:3). É uma esperança que está guardada nos céus e não
envergonhará o esperançoso (Cl 1:5; Rm 5:5). É algo concreto e
irrefutável, chamado “esperança” apenas por estar no futuro.
Nesse texto, Paulo diz que Timóteo é seu “verdadeiro filho na
fé”. Em sua segunda carta, por duas vezes ele também o chama
“meu filho” (2 Tm 1:2; 2:1), e ainda em 1 Coríntios 4:17 e Filipenses
2:22. Tito também é designado assim (Tt 1:4). Mas, como no
exemplo de Onésimo (Fm 10), ele não quer dizer que essas
pessoas tenham sido necessariamente levadas ao novo nascimento
por ele (veja 1 Co 4:15; Gl 4:19). Embora a palavra “filho” (no grego,
teknon) em primeiro lugar indique a descendência, Paulo aqui, como
o mais velho dos dois, expressa no sentido espiritual a sua profunda
e especial simpatia pelo jovem Timóteo.
O apóstolo também lhe deseja “graça, misericórdia e paz da
parte de Deus nosso Pai, e da de Cristo Jesus, nosso Senhor”.
“Graça” é amor demonstrado imerecidamente. Só Deus, que é o
próprio amor, é capaz de graça absoluta. Ele a demonstra aos
perdidos. Ele traz os salvos para dentro de Sua graça e deseja que
estejam conscientes dela. Pelo fato de estar tantas vezes ausente
da vida diária do cristão, a graça aparece aqui em primeiro lugar.
“Paz” com Deus é o resultado da justificação pela fé. E, além
dessa paz da consciência, Deus concede aos que lançam todas as
suas ansiedades sobre Ele a Sua paz, a paz do coração (Fp 4:7).
Ela é um requisito indispensável para que possamos, no que
depender de nós, viver em paz com todos os homens (Rm 12:18; 1
Ts 5:13). É por isso que Paulo deseja também essa paz ao seu
querido Timóteo.
“Misericórdia” é uma forma especial de amor e graça, resultado
de uma comoção íntima provocada pela miséria dos homens (Hb
4:15-16). O cristão individualmente, por mais que seja aprimorado
pelo Senhor Jesus, ainda assim está na terra e se encontra em
condição de fraqueza. Por isso, ele necessita o tempo todo da
misericórdia divina. A Igreja, no entanto, como objeto das intenções
de Deus e do amor de Cristo, não é vista assim. Por essa razão, a
misericórdia nunca é mencionada nas palavras de saudação das
cartas dirigidas às igrejas.
No versículo 2, Paulo já não se refere a Deus como o nosso
Salvador, e sim como o nosso Pai. Com isso, lembra Timóteo da
posição maravilhosa de filiação dos crentes. Essa é a única vez que
o título “Pai” aparece na carta, que, aliás, não tem como tema
principal a graça nem o conselho do Pai, mas a responsabilidade
dos crentes na Casa de Deus — isso é reafirmado nas palavras que
se seguem.
Cristo Jesus aqui não é a nossa esperança, mas o nosso
Senhor. Nesse título, é manifestada a Sua autoridade, que todo
cristão verdadeiro reconhece de bom grado (Rm 10:9). Embora,
como Criador de todas as coisas, tivesse desde sempre poder sobre
todas as Suas criaturas, Ele também conquistou esse domínio como
homem, por meio de Sua humilhação e de Sua morte (At 2:36).
Mesmo que isso agora seja reconhecido apenas por aqueles que
nEle creem, chegará o momento em que todo joelho se dobrará
diante dEle e toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor,
“para glória de Deus Pai” (Fp 2:10-11).
Advertência sobre um falso ensino (1:3-4)
1:3-4 — Como te roguei, quando parti para a macedônia, que ficasses em
Éfeso, para advertires a alguns, que não ensinem outra doutrina, nem se
deem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões
do que edificação de Deus, que consiste na fé; assim o faço agora.
Antes de viajar para a Macedônia, Paulo deu a Timóteo a
incumbência de permanecer em Éfeso para acompanhar de perto o
ensino estranho disseminado por algumas pessoas. Para isso, põe
a abundância de seus pensamentos lado a lado com algumas
intercalações e acréscimos, de modo que os versículos seguintes
nem parecem estar ligados linguisticamente. Mas Timóteo com
certeza entende o que o apóstolo está dizendo, e nós também o
podemos. A palavra traduzida aqui por “pedir” (no grego, parakaleo)
é traduzida em outros lugares por “confortar” (2 Co 2:7),
“recomendar” (1 Co 16:12) e, na maioria das vezes, por “consolar”
(2 Co 1:4 etc.) ou “exortar” (1 Tm 2:1; 5:1; 6:2 etc.).
Portanto, Paulo teve de manter Timóteo em Éfeso, que era a
capital da província romana da Ásia e um centro de idolatria. De
acordo com o relato de Lucas, Paulo esteve duas vezes nessa
cidade. Na primeira vez, foi para uma visita muito breve (At 18:19).
Na segunda vez, ficou ali três anos, como ele mesmo informa (At
20:31; compare com 19:8,10). Provavelmente, em nenhuma outra
cidade o apóstolo atuou de forma tão intensa e por tanto tempo.
Antes de seu aprisionamento em Jerusalém, na sua última viagem
em liberdade, ele convocou os anciãos ou bispos da igreja de Éfeso
a Mileto e ali lhes fez um discurso de despedida solene e pungente
(At 20:17-38).
De sua prisão em Roma, Paulo escreveu uma carta a essa
igreja, na qual o Espírito Santo revela o inteiro conselho de Deus
para o crente individual e para a Igreja como um todo, bem como as
mais elevadas bênçãos espirituais. A primeira carta a Timóteo, que
contém as orientações sobre o comportamento prático na Casa de
Deus, também foi dirigida a Éfeso.
Por fim, na primeira das sete mensagens de Apocalipse 2 e 3,
vemos que a igreja de Éfeso abandonou o seu primeiro amor. Desse
modo, ela assume um papel especial, pois podemos dizer que o
Espírito Santo a usa para ilustrar um quadro de toda a Igreja de
Deus na terra, que, apesar de toda a graça, bênção e assistência de
Deus, tem negado largamente a sua posição privilegiada e
abandonado a sua realização prática.
Assim, Timóteo teve de ficar em Éfeso. A ordem do apóstolo foi
que ele advertisse “a alguns, que não ensinem outra doutrina, nem
se deem a fábulas ou a genealogias intermináveis”. Cinco vezes
Paulo usa na carta o verbo “ordenar” (no grego, parangello) e
sempre relacionado com a vida cristã e como a expressão da
autoridade de uma pessoa de respeito (veja 1 Tm 4:11; 5:7;
6:13,17).
Nesse caso, a ordem remete a “alguns”,1 que queriam introduzir
doutrinas estranhas. Ao todo, a palavra “alguns” (no grego, tines) é
mencionada seis vezes na carta, sempre em conexão com o desvio
da verdadeira fé (1:3,6,19; 4:1; 6:10,21). A frase “ensine outra
[doutrina]” é a tradução de uma única palavra grega
(heterodidaskaleo), que também aparece em 6:3, onde é traduzida
por “ensinar diferente” — no caso, doutrinas e ensinamentos
estranhos na área cristã, que serão mais bem explicados a seguir.
Não se tratava da introdução de doutrinas de religiões falsas na
igreja, e sim de ensinamentos apresentados como cristãos. No
entanto, conflitavam com a doutrina verdadeira, com o “modelo das
sãs palavras” (2 Tm 1:13).
As fontes desses ensinos — supostos entendimentos
superiores, porém falsos — consistiam de fábulas (no grego, mytos)
e genealogias intermináveis. Mais adiante, são mencionadas as
“fábulas profanas e de velhas” (4:7; compare com 2 Tm 4:4), e em
Tito 1:14, as “fábulas judaicas” e os “mandamentos de homens”.
Ainda em Tito são mencionadas também as “genealogias”, em
conexão com disputas tolas e debates sobre a lei (Tt 3:9).
Uma vez que os “mestres da lei” são citados na carta logo em
seguida (1:7), talvez as “fábulas” e “genealogias” não sejam
necessariamente uma alusão à mitologia pagã ou à especulação
gnóstica. Na verdade, o apóstolo faz referência a elementos
judaicos, como lendas rabínicas e genealogias extraídas da tradição
judaica, não aos modelos aeônicos do gnosticismo. As influências
gnósticas, que alguns comentaristas gostariam de ver nesses
elementos, só se manifestaram na cristandade algumas décadas
mais tarde, embora os seus começos já fossem reconhecíveis (veja
4:1-5).
Nessas doutrinas estranhas, havia — e ainda há — um grande
perigo para os cristãos, porque davam ensejo a perguntas,
explicações e discussões, mas nenhuma certeza da fé. O
distanciamento da Palavra de Deus escrita tem sido para muitos
uma atração perigosa, pois parece interessante e estimula a
fantasia. No final, porém, deparam com questões conflitantes,
porque nenhum partido pode afirmar com certeza que está com a
razão. O mesmo acontece hoje, quando os crentes não veem
problemas nos ensinamentos que vão além da Palavra de Deus. O
povo então se acha numa posição vacilante, e o resultado são só
desavenças. Com isso, a administração de Deus, que está na fé,
não é promovida. O coração dos crentes não é edificado, Deus não
é glorificado, e a consciência não é alcançada. No entanto, esse é
um pré-requisito indispensável à vida na fé (veja 1 Tm 1:5,19; 3:9).
No Novo Testamento, a palavra “administração” (no grego,
oikonomia) quer dizer que Deus confiou determinadas tarefas e
responsabilidades aos homens, as quais eles devem cumprir.
Genericamente, o Senhor já afirma, na parábola do mordomo infiel,
que este deve ser exonerado de sua função (Lc 16:2). A verdade
cristã que Deus, por sua graça, revelou foi confiada de modo
especial ao apóstolo Paulo, mas também a outros servos do Senhor,
para ser administrada por eles também (veja 1 Co 4:1-2; 1 Pe 4:10).
Paulo escreve aos coríntios que o anúncio do evangelho lhe foi
confiado como uma obrigação (1 Co 9:16). Na carta aos Efésios, ele
fala da administração da graça de Deus que lhe foi confiada e da
administração do mistério da Igreja (Ef 3:2-9). Na carta aos
Colossenses, o apóstolo afirma que se tornou, segundo a
administração de Deus, um servo da Igreja para cumprir a Palavra
de Deus (Cl 1:25). Tudo que Paulo recebeu por revelação e divulgou
em sua proclamação deve ser agora guardado pelos outros crentes,
pela fé (1 Co 2:10,13; Gl 1:11-12; Ef 3:3-5,8-9; 1 Tm 6:20; 2 Tm
1:13-14). Essa é a administração de Deus que reside na fé.
O significado da lei (1:5-11)
1:5 — Ora, o fim do mandamento é o amor de um coração puro, e de uma
boa consciência, e de uma fé não fingida.
O apóstolo interrompe aqui o seu pensamento a fim de lembrar
Timóteo da finalidade da lei (“mandamento”), que contrasta
nitidamente com as doutrinas humanas mencionadas anteriormente
(veja 1 Tm 1:3,18). E a finalidade da lei é que por ela seja produzida
a condição espiritual correta nos crentes. Só então eles serão
capazes de se apossar da verdade e fugir do erro. Só quem estiver
na condição moral correta poderá tomar posse da verdade.
A palavra “mandamento” (no grego, parangelia) não tem nada a
ver com a lei do Sinai. Ela está até em contraste com os mestres da
lei, mencionados no versículo seguinte. Embora Romanos 13:10 —
“O cumprimento da lei é o amor” — aparentemente diga o mesmo
que o presente versículo, trata-se na verdade de declarações
opostas. O cristão que por meio do novo nascimento recebeu uma
nova natureza não ama por estar cumprindo a exigência da lei, e
sim porque o amor de Deus foi derramado em seu coração (1 Jo
4:8,16; Rm 5:5). O exercício deste amor revela que ele praticamente
se tornou participante da natureza de Deus, e isso só é possível
pela graça, não pela lei. Essa lei é mencionada outra vez no
versículo 18 (em 1 Tm 6:14, é usada outra palavra grega, entole) e
inclui não apenas o que é dito nos versículos 3 e 4, mas resume
toda a vontade de Deus para os Seus filhos. A palavra aqui significa
“anúncio”, “instrução”, “mando”, “ordem”.
Qual era então a finalidade da lei? Era “o amor de um coração
puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida”. Quão
simples, claras e belas são essas palavras! Qualquer criancinha na
fé pode entendê-las. Deus, que é o próprio amor, demonstrou o Seu
amor para conosco no fato de que Cristo morreu por nós quando
ainda éramos pecadores (Rm 5:8). E agora, pelo Espírito Santo, o
Seu amor foi derramado em nosso coração. Como filhos amados de
Deus, somos exortados a ser Seus imitadores e a andar em amor
(Ef 5:1-2). A marca dos filhos de Deus é que eles demonstram esse
amor (Jo 13:35; 1 Jo 3:14).
O amor divino (no grego, agape) não é a mesma coisa que o
amor humano ou a simpatia. O amor natural entre os homens
carece de um oposto digno: precisa ser correspondido para não
esfriar. Já o amor divino brota como uma fonte por força própria.
Não obstante, entre os crentes muitas vezes a carne interfere com a
sua teimosia e inclinações pecaminosas. Por isso, o apóstolo
acrescenta os três suplementos, sem os quais não há verdadeiro
amor divino entre os crentes.
O “coração” é aqui a sede da vida espiritual com o seu pensar,
sentir e querer. Tudo isso é impuro no homem natural, “porque do
coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios,
fornicação, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. São estas
coisas que contaminam o homem” (Mt 15:19-20). Por isso, o
coração do homem precisa ser purificado e mantido nessa condição
de pureza na prática (veja Sl 24:4; 51:10; 73:1; Mt 5:8; 2 Tm 2:22; 1
Pe 1:22; At 15:9; Hb 10:22; Tg 4:8). Essa purificação acontece por
meio da Palavra de Deus (Jo 13:10; 15:3; Ef 5:26).
A “consciência” é a diretriz de nossa caminhada com Deus e se
apoia no conhecimento consciente do bem e do mal. A consciência
humana só acordou depois de sua queda no pecado. Deus disse:
“Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal” (Gn
3:22). Antes que o mal surgisse, o ser humano não podia ter esse
conhecimento.
No entanto, a consciência por si só não é um padrão absoluto.
Quando o homem entra na plena luz de Deus, a consciência passa
a atua com todo o seu poder. Ela é purificada pelo sangue de Cristo
(Hb 9:14). A consciência limpa é obtida pela confissão sincera da
culpa que reconhecemos e pela fé no pleno perdão de Deus. E
adquirimos uma boa consciência quando nos guardamos de tudo
que não corresponde à vontade de Deus. A maneira certa de
conhecermos a vontade de Deus é a contínua leitura da Santa
Escritura e a oração.
Em 1 Timóteo, que trata da responsabilidade pessoal e do
comportamento na Casa de Deus, a consciência, como o nosso
“árbitro” interno, é mencionada quatro vezes (1:5,19; 3:9; 4:2). Isso
prova a importância da condição prática da consciência para um
comportamento agradável a Deus em Sua casa.
Em seguida, é mencionada a “fé não fingida”. A palavra “fé”, que
nessa breve carta aparece dez vezes, tem dois significados no Novo
Testamento. Em primeiro lugar, designa a totalidade da doutrina
cristã, a herança da fé, que Deus revelou aos homens. Nesse
sentido, a palavra é usada na maioria das vezes com o artigo (veja
1:19; 4:1,6; 6:10). Em segundo lugar, designa a aceitação desses
fatos da salvação e aponta para uma vida em simples obediência e
confiança em Deus. Nesse caso, aparece sem o artigo na maioria
das vezes (veja 1:19; 2:15; 4:12), como acontece aqui.
Portanto, o versículo 5 apresenta os requisitos indispensáveis
para uma vida em amor verdadeiro. O amor de um coração puro, de
uma boa consciência e de uma fé não fingida deve ser a marca de
todos os que se reúnem na Igreja, na Casa de Deus. Se essa
condição do coração inexiste ou não é constantemente cultivada, o
crente se desviará do comportamento correto na Casa de Deus.
Múltiplas prescrições poderão ser emitidas e seguidas, mas serão
apenas palavrório fútil e não promoverão de maneira alguma a
administração de Deus, que reside na fé.
1:6-7 — Do que, desviando-se alguns, se entregaram a vãs contendas;
querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que
afirmam.
A locução “do que” refere-se às três coisas mencionadas no
versículo anterior: o amor de um “coração puro”, de uma “boa
consciência” e de uma “fé não fingida”. Todo distanciamento de
Deus é acompanhado de decadência moral. O descrente, que
rejeita o conhecimento de Deus, mergulha em profunda imoralidade
(Rm 1), e o cristão que não se esforça para permanecer na luz de
Deus com o coração e a consciência corre o risco de se trocar a sã
doutrina por palavrório superficial. O motivo dos ensinos estranhos
de alguns aqui não se encontrava nas condições externas, e sim no
âmago de seu relacionamento com Deus: pecados ocultos os
impediam de alcançar o objetivo final da lei. Para disfarçar o seu
vazio interior, valiam-se de palavrório fútil.
Esses mestres imitavam os rabinos judaicos, de cujas fileiras
parte deles parecia provir (veja At 15:5; Tt 1:10). Eles se gabavam
de sua erudição e se consideravam superiores ao povo por se
julgarem os únicos conhecedores das Escrituras (veja Jo 7:49).
Esses mestres da lei entre os judeus não buscavam a vontade de
Deus, apenas apregoavam as tradições dos anciãos e as opiniões
deles próprios (Lc 5:17; Mc 7:1-15). À semelhança daqueles, os
mestres da lei da cristandade não sabiam quem Deus realmente era
nem conheciam a situação real do homem, nem mesmo a lei e seu
verdadeiro objetivo, muito menos o verdadeiro caráter do
cristianismo. Se tivessem um mínimo de entendimento a respeito de
tudo isso, jamais teriam ousado apresentar-se como mestres da lei.
Dessa forma, eles comprovavam que não entendiam o que diziam
nem o que defendiam com firmeza.
Então, nos versículos seguintes, é respondida uma questão
importante: se a lei é a regra de conduta para o crente. E a resposta
é: não. A lei não é o padrão para a conduta na Casa de Deus, e sim
o mandamento de Deus, o “encargo evangélico” (“mandamento”),
como certa vez foi chamado (veja 1:5,18; 6:14).
1:8-10 — Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela usa
legitimamente; sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os
injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e
irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas, para os
devassos, para os sodomitas, para os roubadores de homens, para os
mentirosos, para os perjuros, e para o que for contrário à sã doutrina [...]
O crente tem o compromisso de fazer a vontade de Deus e não
ceder à carne, porque é santificado “para a obediência e aspersão
do sangue de Jesus Cristo” (1 Pe 1:2). A expressão e o padrão da
vontade de Deus para o crente não é a lei, mas a vida de nosso
Senhor Jesus Cristo na terra (Jo 4:34; 6:38; Fp 2:5; 1 Pe 2:21). O
judeu que se tornou crente agora também está morto para a lei,
“pelo corpo do Cristo”, para ser “de outro”, a saber, daquEle que
ressuscitou dos mortos, a fim de poder apresentar frutos a Deus
(Rm 7:4). Essa liberdade da lei, todavia, se manifesta na obediência
e na dedicação ao nosso Deus e Pai, coisas desconhecidas ao
judeu nascido sob a lei.
Exatamente como em Romanos 7:16, Paulo diz aqui que a lei
em si é boa (no grego, kalos — “bonita”, “excelente”), pois foi dada
por Deus. Trata-se, portanto, da expressão de Seu caráter e de Sua
vontade, mesmo não sendo completa, pois o Seu amor e a Sua
graça ainda estão por trás de Sua Santidade. Além disso, as
exigências da lei eram restritas ao povo de Israel e dirigidas a
homens naturais, não nascidos de novo. Se eles tivessem cumprido
a lei, isso teria sido para eles o caminho da vida e da justiça (Lv
18:5; Dt 6:25). O homem natural, porém, é incapaz de cumprir as
exigências da santidade de Deus. Por isso, a lei era uma constante
acusação: “Pela lei vem o conhecimento do pecado” (Rm 3:20; 7:7).
A última afirmação expressa o uso legítimo da lei. Ela foi
“ordenada” (Gl 3:19) para que as transgressões e o pecado do povo
de Israel, como representante da humanidade, ficassem patentes.
Aplicá-la como regra de vida ao justo, isto é, ao crente justificado,
que deve viver de acordo com a vontade de Deus, seria um uso
ilegítimo da lei. No versículo 9, o texto original diz: “Para um justo
não é dada lei” — sem artigo, isto é, indicando qualquer tipo de
prescrição legal.
Aqueles para os quais (a) lei foi destinada são agora citados,
inicialmente em quatro pares conceituais ligados pela conjunção “e”
e depois em dois grupos de três conceitos cada. Os três primeiros
pares abrangem pecados contra Deus, e o quarto descreve pecados
contra o próximo.
Os “injustos e obstinados” são aqueles que não sabem nada de
uma lei nem pretendem se sujeitar a alguma ordem superior.
Seguem-se os “ímpios e pecadores”, que negam adoração a Deus e
pecam contra os Seus mandamentos. Em seguida, vêm os
“profanos e irreligiosos”, que não consideram nada sagrado e pisam
com os pés tudo que seja devotado a Deus. Os “parricidas e
matricidas” violam o quinto mandamento (Êx 20:12); os homicidas, o
sexto mandamento; os “devassos” e os “sodomitas”, o sétimo
mandamento; os “roubadores de homens”, o oitavo mandamento.
Por fim, são mencionados os “mentirosos” e os “perjuros”, que
violam o nono mandamento.
Paulo não pretende apresentar aqui um registro de todos os
pecados aos quais a lei se aplica. Ele interrompe a enumeração
com a frase “e para o que for contrário à sã doutrina”. O uso da
expressão “sã doutrina”, em conexão com pecados morais
evidentes, não nos deve espantar (compare com 4:1; 6:3). Verdade
e santidade sempre andam juntas (veja Ef 4:24), da mesma forma
que a heresia e o pecado. A sã doutrina não contém apenas boa
orientação: conduz também a princípios morais saudáveis. Essa sã
doutrina, não a lei, é o padrão correto para o comportamento dos
crentes na Casa de Deus.
A primeira carta a Timóteo trata principalmente do
comportamento exterior dos que pertencem à Casa de Deus. É por
isso que o apóstolo não faz aqui profundas referências às verdades
divinas, como na carta aos Efésios, mas utiliza a expressão
genérica “doutrina” (veja também 4:1,6,13,16; 5:17; 6:1,3). Essa
doutrina é denominada “sã” aqui e em outras cartas pastorais (veja
2 Tm 4:3; Tt 1:9; 2:1). Literalmente, o termo significa “sendo sã”.
Isso quer dizer que a palavra pregada pelos apóstolos é pura, ou
seja, não misturada com ideias estranhas e humanas.
1:11 — [...] conforme o evangelho da glória de Deus bem-aventurado, que
me foi confiado.
Os pecados enumerados nos versículos 9 e 10 não são
condenados apenas pela lei: estão em contradição também com a
sã doutrina do Novo Testamento, que provém do evangelho. Nesse
sentido, a lei está em harmonia total com o “evangelho da glória”,
porque ambas dão testemunho da santidade de Deus. Por isso, não
podem tolerar o pecado. Em Sua essência, Deus é o mesmo
eternamente.
No entanto, o evangelho, com as suas bênçãos, excede de
longe toda a ação passada de Deus — e por conseguinte também a
lei. Essa verdade é percebida na expressão “evangelho da glória de
Deus bem-aventurado”. Esse bem precioso foi confiado ao apóstolo
Paulo. Ele ressalta esse fato com o uso da palavra “meu
[evangelho]” (veja Rm 2:16; 16:25; 2 Tm 2:8).
Quando lembramos a maneira em que Saulo de Tarso veio a
crer, entendemos por que deu ao evangelho a ele confiado a
designação “evangelho da glória” (veja 2 Co 4:4). No caminho para
Damasco, ele foi lançado ao chão pela visão da glória celestial (At
22:6,11). Essa glória foi o ponto de partida de seu ministério. A
mensagem da graça ao pecador perdido provém agora de um Deus
que foi glorificado pelo Seu Filho e que, por sua vez, glorificou o
Filho em Si mesmo (Jo 13:31-32). Essa mensagem revela o pleno
conselho de Deus, preenchido e marcado por Sua glória (Ef 1:18; Cl
1:27).
Os diversos títulos de Deus nessa carta descrevem a Sua
grandeza, bem-aventurança e graça. Aqui ele é o “Deus bem-
aventurado”; no versículo 1, “Deus, nosso Salvador” (veja 2:3); no
versículo 17, o “Rei dos séculos, imortal, invisível” e “único”; em
4:10, o “Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens” (veja
3:15); em 6:15-16, o “bem-aventurado, e único poderoso Senhor,
Rei dos reis e Senhor dos senhores; aquele que tem, ele só, a
imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos
homens viu nem pode ver, ao qual seja honra e poder sempiterno.
Amém”.
Deus quis introduzir os homens salvos em Sua bem-
aventurança, e Paulo foi o escolhido para anunciar essa boa
mensagem. Deus agora não fala mais por meio de raios e trovões,
como no Sinai, e sim na plenitude da graça e da verdade em Cristo.
Agora o Seu prazer é demonstrar, em Seu amor, misericórdia aos
pecadores perdidos.
Paulo agradece pela graça (1:12-17)
1:12-13 — E dou graças ao que me tem confortado, a Cristo Jesus Senhor
nosso, porque me teve por fiel, pondo-me no ministério; a mim, que dantes fui
blasfemo, e perseguidor, e injurioso; mas alcancei misericórdia, porque o fiz
ignorantemente, na incredulidade.
Vários manuscritos tidos como menos confiáveis acrescentam
no início do versículo 12 a palavra “e”, no entanto, ela está ausente
nos melhores textos. Evidentemente, foi intercalada mais tarde, para
destacar a estreita conexão com o versículo anterior. Para Paulo, o
pensamento em seu apostolado e naquEle que o transmitiu a ele, o
nosso Senhor Jesus Cristo, não estava forçosamente ligado à
obediência ou à preocupação com o resultado, e sim à profunda
gratidão. Em retrospecto, o apóstolo só podia louvar ao Senhor
Jesus Cristo com grande alegria pelo fato de tê-lo feito Seu
mensageiro.
Entretanto, o Senhor não apenas o chamou, mas em Sua
onisciência também o considerou fiel. Paulo, conscientemente, não
disse: “Achou-me fiel”, pois isso pressupõe certa experiência, a qual
ainda não existia na ocasião de sua chamada para o ministério. O
Senhor reconheceu nele alguém que no futuro seria fiel, chamou-o e
lhe deu a força necessária para chegar a esse ponto. A
autoglorificação era estranha para Paulo. Ao considerar o seu
trabalho, ele jamais se apoiou na própria eficácia, mas olhava com
gratidão para o Senhor.
Quem contrata uma pessoa para algum serviço demonstra que
o considera confiável e conta com a fidelidade dela. Assim agiu o
Senhor Jesus com Paulo, apesar de tudo que este havia feito contra
Ele. Com isso, demonstrou também toda a Sua misericórdia para
com ele. Quanto ódio contra Cristo e contra os Seus Paulo
demonstrou em sua vida antes do encontro em Damasco! Ele
mesmo se denomina aqui “blasfemo”, “perseguidor” e “injurioso”.
Mais tarde, em Atos 26:9-11, ele afirmaria diante do rei Agripa:
Bem tinha eu imaginado que contra o nome de Jesus Nazareno devia eu
praticar muitos atos; o que também fiz em Jerusalém. E, havendo recebido
autorização dos principais dos sacerdotes, encerrei muitos dos santos nas
prisões; e quando os matavam eu dava o meu voto contra eles. E,
castigando-os muitas vezes por todas as sinagogas, os obriguei a blasfemar.
E, enfurecido demasiadamente contra eles, até nas cidades estranhas os
persegui.
Paulo de maneira alguma está se desculpando. Mas a
ignorância na qual ele se encontrava tornava o perdão possível. O
próprio Senhor Jesus Cristo, na cruz, orou pelos inimigos: “Pai,
perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23:34). Mas nem
por isso Paulo era inocente. A cegueira e a ignorância, na verdade,
diminuem a culpa, mas não a suprimem (Lc 12:47).
1:14 — E a graça de nosso Senhor superabundou com a fé e amor que há
em Jesus Cristo.
Depois de sua chamada para o ministério do evangelho (1:13),
Paulo começa a falar de sua salvação e da misericórdia e graça de
Cristo. Ele inverte, portanto, a ordem dos acontecimentos, porque
precisa pôr em primeiro plano a doutrina correta de seu evangelho
contra os falsos mestres da lei. Em Romanos 5:20, ele escreve, de
forma geral: “Onde o pecado abundou, superabundou a graça”. Isso
tinha um valor especial valia para ele. A graça, a fé e o amor
praticamente não foram revelados nem eram conhecidos sob a lei.
Mas agora Paulo os conhece em toda a sua abundância. No lugar
da descrença, a graça produziu nele a fé. E, no lugar do ódio que
ele antes nutria, produziu o amor. Ambas as coisas estão
relacionadas com Cristo Jesus, que é a fonte de toda a bênção e o
alvo do louvor do coração do crente.
1:15 — Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus
veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.
As palavras iniciais desse versículo também aparecem em 3:1 e
4:9 e ainda em 2 Timóteo 2:11 e Tito 3:8, sempre em um
comunicado importante. Aqui confirmam o que já o próprio Senhor
Jesus havia declarado: “O Filho do homem veio buscar e salvar o
que se havia perdido” (Lc 19:10). A autenticidade divina é também o
motivo pelo qual essa palavra é “digna de toda a aceitação”. O
pecador pode recebê-la com o coração alegre e agradecido porque
Paulo, o principal dos pecadores, cita a si mesmo como exemplo.
De certa forma, ele estava no início da fila dos que odiavam a
Cristo, mas acharam a salvação da alma e, no retorno de Cristo,
terão a salvação do corpo (Ef 2:5; 1 Pe 1:5). Nesse sentido, Paulo
se denomina com profunda humildade o principal dos pecadores.
Suas palavras não são exageradas nem provêm de falsa humildade.
Mais de uma vez, inspirado pelo Espírito Santo, ele fala de si
mesmo de maneira igualmente humilde: “Eu sou o menor dos
apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, pois que
persegui a igreja de Deus” (1 Co 15:9); “A mim, o mínimo de todos
os santos, me foi dada esta graça...” (Ef 3:8). Paulo está ciente de
que, por causa de sua perseguição e do ódio contra Cristo e Sua
Igreja, ele era o principal dos pecadores. Ele perseguiu os crentes
como nenhum outro, justamente no período inicial da Igreja, quando
o evangelho já não deveria ser anunciado apenas às ovelhas
perdidas da casa de Israel, mas também às nações.
1:16 — Mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim, que sou o
principal, Jesus Cristo mostrasse toda a sua longanimidade, para exemplo
dos que haviam de crer nele para a vida eterna.
Pela segunda vez, Paulo menciona a misericórdia que alcançou.
No versículo 13, ele indica a causa e aqui revela o que Deus tinha
em mente ao agir dessa forma com ele. De igual modo, pela
segunda vez ele se denomina o “principal” porque em sua posição
de precursor entre os pecadores, que deviam ser salvos, ele
encarna de certa forma em si mesmo todos os inimigos de Cristo.
Foi por isso que o Senhor Jesus demonstrou toda a Sua
longanimidade com relação a ele. Paulo tornou-se exemplo (no
grego, hypotyposis) do amor de Deus, que se sobrepõe à maior
inimizade, e da longanimidade de Cristo, capaz de romper a mais
forte resistência.
Nenhum judeu ou pagão podia fazer pior do que Saulo de Tarso.
Ele estava à testa dos pecadores, devido ao seu ódio, mas depois
também se destacou entre os que experimentaram a longanimidade
de Cristo. Nenhum homem pode dizer hoje: “Sou pecador demais.
Para mim, a graça de Deus não basta!”. Todos devem saber que, se
Deus demonstrou a Sua graça ao maior dos pecadores, então pode
fazê-lo com qualquer um.
O objetivo da fé aqui não é a justiça proveniente de Deus (Rm
10:10) ou a salvação da alma (1 Pe 1:9), e sim a vida eterna, que
Paulo geralmente entende como a meta final na glória (veja Rm 2:7;
6:22; Tt 3:7). Nos escritos de João, esse objetivo é visto quase
sempre como a posse atual do crente.
Paulo aqui não está fazendo uma referência casual ou acidental
da misericórdia que lhe foi concedida. O que ele diz está
intimamente relacionado com a manutenção da sã doutrina contra
os mestres da lei e contra as doutrinas estranhas disseminadas em
Éfeso. A lei não pode salvar os homens nem guiar os cristãos no
caminho certo, e as fábulas e genealogias não podem contentar o
coração humano: só a graça e o amor de Deus em Cristo podem
fazê-lo.
1:17 — Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus sábio, seja
honra e glória para todo o sempre. Amém.
No versículo 12, Paulo inicia a descrição de sua experiência de
salvação com um simples agradecimento e a encerra com um louvor
efusivo àquEle que se manifestou a ele com tanta misericórdia. Aqui
o apóstolo não nomeia a Deus com nomes que expressam a Sua
relação com os homens. Ele não diz “Senhor” ou “Pai’, mas “Rei dos
séculos”. A majestade absoluta de Deus, o Seu domínio em todos
os tempos, é expressa nessa designação. Ele concebeu o Seu
conselho de graça antes de todos os tempos, realiza-o no tempo
presente e manifestará os seus resultados maravilhosos nos
séculos vindouros (Ef 2:7; 3:11).
Ele é o Incorruptível (Rm 1:23), ou seja, está acima de tudo que
esteja sujeito à corrupção, como a criação e os homens. Ele
também é o Invisível (Rm 1:20; 1 Tm 6:16), ou seja, está acima de
tudo que é visível, e nenhum olho humano jamais poderá
contemplar o Seu Ser absoluto. Ele também é o Único porque, em
Sua incorruptibilidade e invisibilidade está acima de todas as obras
que o homem tenha designado como seus deuses. Só a Ele
pertence a honra e a glória por toda a eternidade. A indicação do
tempo não significa de eternidade a eternidade, e sim de agora para
toda a eternidade — literalmente, “pelos séculos dos séculos” (no
grego, eis tous aionas ton aionon).
Mais uma vez, o falso ensino (1:18-20)
1:18 — Este mandamento te dou, meu filho Timóteo, que, segundo as
profecias que houve acerca de ti, milites por elas boa milícia [...]
O apóstolo Paulo retorna agora ao pensamento interrompido no
versículo 6 com a intercalação sobre a lei e a graça. O mandamento
aqui mencionado está relacionado com as palavras “advertir” e
“doutrina”, dos versículos 3 e 5, e refere-se também à incumbência
já comunicada. Paulo, mais uma vez, chama Timóteo de “filho”,
como no versículo 2, e com isso destaca a confiança com que o
incumbiu daquela tarefa de alta responsabilidade e que em Éfeso
não será cumprida com facilidade.
Ao mesmo tempo, ele lembra Timóteo — talvez para o animar —
das profecias dirigidas a este. Essa expressão tem dado ensejo a
diversas especulações. No entanto, significa apenas que existiam
pronunciamentos proféticos a respeito do moço e dos dons da graça
que recebeu. Essas profecias apontavam o caminho que ele iria
seguir (veja 4:14).
Sabemos, de Atos 16:2, que Timóteo tinha um bom testemunho
entre os irmãos de Listra e de Icônio, quando Paulo o escolheu
como companheiro. Pela imposição das mãos de Paulo, foi-lhe dada
essa graça divina, que o capacitou especialmente para o ministério
(2 Tm 1:6). Nada semelhante é comunicado a respeito de qualquer
outra pessoa no Novo Testamento. Trata-se de uma singularidade,
destacada ainda pelo fato de o presbitério ter imposto as mãos
sobre ele por ocasião de seu chamado, como sinal de comunhão.
Trata-se, portanto, de três passos. Primeiro: as profecias prévias
a respeito do dom de graça de Timóteo. Segundo: a ativação do
dom da graça em Timóteo pela imposição de mãos do apóstolo
Paulo. Terceiro, a expressão de comunhão e reconhecimento por
parte dos presbíteros, também com a imposição de mãos.
Da mesma forma, Paulo e Barnabé foram enviados de Antioquia
para a sua primeira viagem às nações, embora ambos já estivessem
a serviço do Senhor havia muito tempo. O Espírito Santo falou aos
profetas e mestres ali presentes (e talvez também por meio deles):
“Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho
chamado” (At 13:2). Aqui falta a imposição de mãos como
intermediária, porque ambos já haviam recebido os seus dons da
graça. Mas o parágrafo termina com uma imposição de mãos
subsequente por parte dos demais servos do Senhor, que se uniram
a Barnabé e a Saulo naquela tarefa importante e difícil (At 13:3).
A lembrança das profecias talvez pudesse animar e fortalecer
Timóteo para o bom combate que estava diante dele. Trata-se aqui
do mesmo combate que Paulo menciona em 2 Coríntios 10:3-4, não
de uma competição esportiva, como em 1 Timóteo 6:12 e 2 Timóteo
4:7. É uma a guerra contra o poder e a astúcia do inimigo dentro e
fora da Igreja. Ao anunciar o evangelho, a resistência de Satanás
acontece mais lá fora, no mundo. Timóteo, no entanto, teria de
enfrentar especialmente o combate dentro da Casa de Deus, onde
Satanás se opunha à obra de Deus por meio dos falsos mestres e
da imoralidade.
O combate contra essas influências deve ser “bom” (no grego,
kalos), isto é, uma luta correta e do agrado de Deus. Mas uma
questão pode ser levantada aqui: é possível haver combate entre
crentes? Ora, a palavra “combate” deve ser entendida no sentido
espiritual. Todo filho de Deus é convocado a lutar pelos direitos de
Deus, mesmo havendo resistência, e nisso dependemos do modo
de pensar correto, para que esse combate não se torne um morder
e devorar mútuo, como no caso dos gálatas (Gl 5:15).
1:19 — [...] conservando a fé, e a boa consciência, a qual alguns, rejeitando,
fizeram naufrágio na fé.
Como no versículo 5 e mais adiante, em 3:9, aqui a “fé” e a “boa
consciência” são colocadas juntas. A frase “conservando a fé” (no
grego, echon pistin) tem um significado diferente da declaração do
apóstolo Paulo sobre si mesmo em 2 Timóteo 4:7: “Guardei a fé” (no
grego, ten pistin tetereka), onde a fé significa um bem confiado (1
Tm 6:20; 2 Tm 1:14), o qual Paulo preservou incólume. Aqui,
todavia, é dito que Timóteo precisa ter fé e uma boa consciência.
Como em 3:9, não ocorre aqui nenhuma das palavras usadas
costumeiramente para “guardar”, e sim “possuir”, “segurar [firme]”.
Timóteo deve segurar a fé e a boa consciência, a fim de que possa
combater o bom combate.
O equipamento de proteção necessário ao combate espiritual é
apresentado em Efésios 6:16 como o “escudo da fé” e em 1
Tessalonicenses 5:8 como a “couraça da fé”. Aqui talvez se esteja
pensando mais na força interna para o combate. Essa ideia é
ressaltada pela adição da “boa consciência”, que é um pré-requisito
para a comunhão com Deus. Se não tivermos uma boa consciência
— e, portanto, nenhuma comunhão com Deus —, as portas estarão
abertas para a obra de Satanás. A consciência atua em nós como
uma bússola, que acusa qualquer desvio de curso. No entanto, essa
bússola precisa estar orientada corretamente, a saber, pela Palavra
de Deus.
A consciência não é um padrão absoluto. Ela precisa ser
aguçada constantemente pela Palavra viva. Alguns haviam rejeitado
a consciência, e o triste resultado foi que naufragaram na fé. Mesmo
que seja um pecado “pequeno”, pelo qual a pessoa não se sinta
condenada, quando falta o autojulgamento à luz de Deus os danos
são imensos. Paulo pensa aqui em pessoas que, com relação à
verdade da fé, fizeram uma aterrissagem desastrada, com avaria
completa. Eles não conservaram a fé, o seu testemunho perante o
mundo foi ruim e a sua vida pessoal foi reduzida a escombros.
1:20 — E entre esses foram Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a
Satanás, para que aprendam a não blasfemar.
Duas dessas pessoas eram Himeneu e Alexandre. Himeneu
pode ser o homem do qual se diz, na segunda carta, que se desviou
da verdade, na companhia de Fileto (2 Tm 2:18). Em 2 Timóteo,
também se menciona um ferreiro chamado Alexandre, mas que
talvez seja outra pessoa — Timóteo deveria tomar cuidado com ele.
Aqui Paulo declara que já entregou Alexandre — e também
Himeneu — a Satanás.
O que Paulo apresenta aqui como fato consumado, ele já havia
determinado à igreja de Corinto, no caso de um prostituto:
Eu, na verdade, ainda que ausente no corpo, mas presente no espírito, já
determinei, como se estivesse presente, que o que tal ato praticou, em nome
de nosso Senhor Jesus Cristo, juntos vós e o meu espírito, pelo poder de
nosso Senhor Jesus Cristo, seja, este tal, entregue a Satanás para destruição
da carne, para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus (1 Co 5:3-5).
Mas nessa ocasião possivelmente não se chegou a esse ponto,
porque a igreja havia excluído o maldoso de seu meio. E excluir não
é o mesmo que entregar a Satanás. A disciplina na igreja ocupa-se
dos que estão dentro dela, e a medida extrema é a exclusão do
maldoso de seu meio (1 Co 5:12-13). Dessa forma, a pessoa que
persiste no mal é excluída da comunhão daqueles que querem ater-
se à Palavra e à vontade de Deus em santidade. Tal pessoa, porém,
não é com isso igualada ao mundo, porque não se pode comer com
ela nem cumprimentá-la (1 Co 5:11; 2 Jo 10-11; compare com 1 Co
10:27). Ela deve ser conduzida à reflexão e ao arrependimento
sincero por meio dessa medida disciplinar.
Quando o apóstolo Paulo fala de entregar alguém a Satanás,
como em 1 Coríntios 5 e aqui, ele vai além do procedimento da
igreja com os que estão fora, porque toda comunicação é cortada.
Na verdade, em 1 Coríntios Paulo queria agir em conjunto com a
igreja, mas aqui ele age sozinho, como apóstolo. Em Corinto, o
prostituto, ao ser entregue a Satanás, deveria sofrer a “destruição
da carne”, isto é, castigo no corpo, na vida e possivelmente também
na alma. Aqui já se trata genericamente de aprendizagem por meio
da disciplina ou do castigo.
O instrumento dessa disciplina é Satanás, como no caso de Jó.
Em ambos os casos, únicos no Novo Testamento, o objetivo de
modo nenhum era a perdição eterna, e sim a conversão e o
arrependimento. Enquanto Paulo no caso de Corinto o objetivo é
“que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus”, Himeneu e
Alexandre devem aprender por meio dessa disciplina o que eles não
aprenderam pela verdade da Palavra e possivelmente com as
admoestações: cessar com as suas blasfêmias.
Não sabemos em que consistiam essas blasfêmias. Blasfemar
significa falar com desdém das coisas sagradas, em especial a
respeito de Deus. No caso de uma pessoa afastada de Deus, isso
não nos surpreende. Mas quando um seguidor do Senhor não
permanece na comunhão com Ele pela fé e não tem uma boa
consciência, ele pode chegar a uma situação terrível.
1 Aqui ainda são “alguns”, enquanto em 2 Timóteo o apóstolo escreve “os homens” (3:2; veja também 2 Tm
1:15; 2:17-18; 4:3-4)
CAPÍTULO 2
A
Agora chegamos ao próprio assunto da carta: o comportamento
na Casa de Deus. No capítulo 1, Paulo precisou esclarecer que o
padrão para esse comportamento não pode ser a lei, porque agora
conhecemos a misericórdia de Deus e vivemos em Sua graça. O
salvo, como pedra viva, pertence à Casa de Deus, que o próprio
Cristo edifica (Mt 16:18; Ef 2:21; 1 Pe 2:5). Em sua carta, todavia, o
apóstolo ressalta a responsabilidade ligada à Casa de Deus, como
já o fizera em 1 Coríntios 3:12-17, apenas com a diferença de que
aqui o crente é considerado alguém que se encontra nessa casa e
que, portanto, precisa saber como se comportar dentro dela (1 Tm
3:15).
O comportamento na Casa de Deus não se refere apenas às
reuniões dos crentes. No Novo Testamento, a Casa de Deus não é
um edifício material, como no Antigo Testamento (veja Sl 122:1), e
sim uma casa espiritual, uma morada de Deus no espírito. Essa
Casa de Deus na terra passou a existir desde o momento em que o
Espírito Santo desceu e inaugurou a Sua morada aqui.
Quem se declara pertencer a essa casa faz parte dela em todos
os momentos de sua vida. Por isso, a sua conduta de vida está
sempre relacionada com a Casa de Deus. Cada palavra e cada ato
devem ser vistos à luz dessa realidade. Paulo não escreve apenas
sobre a vida da igreja, mas também sobre a vida familiar e a
conduta no mundo e perante este. Por isso, o que se segue não
está limitado às reuniões dos crentes.
A oração (2:1-8)
2:1 — Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações,
orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens [...]
A primeira admoestação refere-se à oração. Por falta de
indicações adicionais, talvez se deva pensar aqui de maneira geral,
tanto na oração em público quanto na oração pessoal. Literalmente,
Paulo exorta Timóteo a considerá-la “a primeira de todas as coisas”.
Alguns intérpretes relacionaram essa expressão com a frase
seguinte, como se as orações por todos os homens devessem
preceder todas as outras ou serem feitas antes de qualquer outro
esforço. Nesse caso, a melhor tradução seria: “Admoesto-te agora
que antes de todas as coisas sejam feitas súplicas, orações...”.
No entanto, o contexto sugere que Paulo, com a adição dessas
palavras, quer destacar a importância de sua primeira admoestação.
Diz-se que a oração é o respirar da alma crente, um dos primeiros
sinais de vida espiritual. O Senhor Jesus, quando enviou Ananias ao
recém-convertido Saulo, informou também: “Eis que ele está
orando” (At 9:11). Uma das quatro principais características dos
primeiros cristãos em Jerusalém era que eles perseveravam nas
orações (At 2:42). Para o exercício prático da comunhão com o Pai
e com o Filho, a leitura da Palavra de Deus e a orações são duas
prerrogativas indispensáveis.
A admoestação do apóstolo não perdeu em nada a sua
atualidade, pelo contrário. Para nós, ainda é válida a expressão
“antes de tudo”. Aos efésios, Paulo recomenda que eles orem “em
todo o tempo com toda a oração e súplica no Espírito, e vigiando
nisto com toda a perseverança e súplica por todos os santos” e por
ele também (Ef 6:18). Aos filipenses, expressa o desejo de que
“antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de
Deus pela oração e súplica, com ação de graças” (Fp 4:6). Aqui, no
entanto, temos uma enumeração mais completa dos diversos tipos
de oração:
Súplica — Um pedido insistente e urgente.
Oração — A expressão geral para o ato de falar com Deus.
Intercessão — Aqui não significa apenas interceder por outros, mas
também o ato de se aproximar livremente de Deus. Encontramos a
mesma palavra em 4:5.
Ação de graças — É o convém àquele que se aproxima do Pai com
confiança e consciente de que Ele nos concede tudo que contribua para
o nosso bem espiritual.

A afirmação de que devem ser feitas orações por todos os


homens é uma particularidade notável nessa admoestação. Quando
Isaías, muito séculos antes, profetizou a respeito da graça que
alcançaria todas as nações, ele declarou também, fazendo
referência ao templo do Senhor: “A minha casa será chamada casa
de oração para todos os povos” (Is 56:7). O Senhor Jesus, na
ocasião em que purificou o Templo e expulsou os comerciantes e os
compradores, citou essa palavra profética (Mc 11:17). A graça
daquEle que se revelou como Deus Salvador (1 Tm 1:1; 2:3) não
está limitada a determinadas pessoas, mas é dirigida a todas as
nações e indivíduos.
Esse fato é ressaltado pela palavrinha “todos”, que aparece
várias vezes no mesmo parágrafo: “todos os homens” (vv. 1,4);
“todos os que estão em eminência” (v. 2); “por todos” (v. 6). Na Casa
de Deus, lidamos em primeiro lugar com o nosso Pai e com o Seu
Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor. Também vemos os companheiros
de fé, mas é muito fácil perder de vista “todos os homens”.
Especialmente para os crentes judeus, deve ter sido muito difícil
livrar-se do desprezo que nutriam pelos restante da humanidade,
pois consideravam os “incircuncisos” impuros e inimigos de Deus.
Além disso, as perseguições, que nesse tempo já haviam
começado, o escárnio e a ironia por parte dos que lhe eram
próximos podiam suscitar raiva e até ódio nos crentes contra esses
inimigos de Cristo.
Por fim, pelas mesmas razões, os cristãos corriam o risco de se
esquecer do próximo ou desprezá-lo. Nesse caso, estariam se
separando do mundo, algo que Deus queria, porém de maneira
errada e farisaica. A verdadeira separação consiste em separar-se
de tudo que esteja em contradição com a santidade de nosso
querido Senhor, por amor a Ele. Infelizmente, podemos chegar ao
ponto de nos distanciar de certas coisas apenas para nos diferenciar
de outros e com isso demonstrar superioridade. Isso é uma ilusão e
de maneira alguma corresponde à vontade de Deus.
Com a expressão “por todos os homens”, o Espírito Santo quer
nos resguardar, para que a nossa separação não se torne uma
forma de orgulho humano, em vez de um testemunho da santidade
e da graça de Deus. A vontade de nosso Salvador é intervir a favor
de todos os homens por meio de nossas súplicas, orações,
intercessões e ações de graça.
2:2 — [...] pelos reis, e por todos os que estão em eminência, para que
tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade
[...]
Da expressão abrangente “todos os homens” agora são
separados os “reis” e “todos os que estão em eminência”. Também
para eles vale a oração dos crentes, porque disso depende termos
ou não “uma vida quieta e sossegada”. Por causa de sua posição,
eles podem exercer boa ou má influência sobre o curso do mundo.
As orações a favor dos reis e de todos os que ocupam cargos
importantes referem-se a pessoas de todos os países. Não
podemos inferir dessas palavras que só devemos orar pelos
governantes do país em que residimos. Orar por todos expressa de
modo especial a unidade dos filhos de Deus em todo o mundo, que
juntos formam a Casa de Deus. Embora em santa separação de
toda política e de todo domínio mundano, eles têm a prerrogativa de
suplicar, orar e agradecer pela vida daqueles que foram investidos
de grande responsabilidade e talvez não queiram ou não possam
orar por si mesmos.
Convém observar aqui que não somos intimados a orar pelas
autoridades. Elas representam o princípio da ordem e do governo
humanos do mundo, outorgado por Deus, e devemos reconhecer
toda autoridade como instituída por Ele (veja Gn 9:6; Rm 13:1-7; Tt
3:1; 1 Pe 2:13-14). Os instrumentos desse governo e dessa ordem,
no entanto, são homens responsáveis perante Deus, e por eles
devemos orar — por todos, sem diferença. Quando Paulo escreveu
essas palavras, Nero, um dos soberanos mais cruéis e
desequilibrados da história, governava em Roma.
Na intercessão e na ação de graças, a posição elevada do
cristão neste mundo fica evidenciada. Todos os homens, sem
exceção, podem ser incluídos nas orações dos santos quando estes
se aproximam do trono da graça.
Duas razões são apresentados para justificar as orações
mencionadas nos versículos 1 e 2. A primeira é “para que tenhamos
uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade”.
Essa conclusão não se refere ao conteúdo das orações, mas aos
seus resultados. O profeta Jeremias escreveu aos judeus
deportados para a Babilônia: “Procurai a paz da cidade, para onde
vos fiz transportar em cativeiro, e orai por ela ao Senhor; porque na
sua paz vós tereis paz” (Jr 29:7). Com o povo de Deus do mundo
inteiro diante dos olhos, podemos apelar para a bondade de Deus, a
fim de que Ele oriente os soberanos da terra para que os Seus,
como estrangeiros, possam ter uma vida livre de perseguição e de
desvios por influência dos de fora.
A vida distanciada do mundanismo e da política deve ser
marcada pela piedade quando se olha para Deus e por seriedade
digna quando se olha para os homens. “Piedade” (ou devoção) é o
direcionamento da alma do homem para Deus, que se manifesta
quando o crente O adora e O serve. Essa palavra aparece oito
vezes na primeira carta a Timóteo (2:2; 3:16; 4:7,8; 6:3,5,6,11).
Nisso percebemos quanto o nosso Deus valoriza a nova vida que,
na prática, tenha também consequências em nosso comportamento
aos olhos dEle.
A palavra “honestidade” (ou seriedade digna) é traduzida de um
termo grego (semnotis) que também aparece em 3:4. Ela designa o
estilo de vida dos crentes na maneira em que tratam uns aos outros
e une em si os dois conceitos — dignidade e seriedade. Quando os
crentes vivem uma vida piedosa marcada por uma seriedade digna,
o nome de Deus é honrado e testemunhado de maneira correta
diante do mundo e de seus governantes.
2:3-4 — [...] porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador,
que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da
verdade.
A conjunção afirmativa “porque” (ausente, no entanto, em alguns
manuscritos importantes) une o versículo 3 com o precedente e, ao
mesmo tempo apresenta o segundo motivo das orações
mencionadas nos primeiros dois versículos. A primeira razão, citada
no versículo 2, é “uma vida quieta e sossegada”, mas que não deve
ser um fim em si mesmo, e sim um pressuposto para a divulgação
do evangelho no mundo.
O início do versículo 4 não é uma continuação da ideia
imediatamente precedente, e sim da admoestação do versículo 1, a
saber, de devemos orar por todos os homens. A semelhança está
no fato de que aqui, pela segunda vez, “todos os homens” são
mencionados. Deus quer que todos sejam salvos.
No entanto, desde o início é salientado que essa postura de
oração é boa e agradável aos olhos de Deus, nosso Salvador. A
palavra “bom” aparece com muita frequência na carta (no grego,
kalos — 1:8,18; 2:3; 3:1,7,13; 4:4,6; 5:10,25; 6:12,13,18,19 [duas
vezes em 4:6; 6:12]; como advérbio “bem” em 3:4,12,13; 5:17; no
grego, agathos — 1:5,19; 2:10; 5:10). A palavra mais frequente
(kalos) designa uma coisa que é em si boa e moralmente bela,
enquanto a segunda palavra (agathos) significa uma coisa boa por
natureza e categoria, mas também agradável em seus efeitos.
A palavra “agradável” (no grego, apodektos) aparece no Novo
Testamento apenas aqui e em 5:4 e aponta para alguma coisa digna
de aceitação. Nosso Deus considera as orações dos santos uma
coisa bela e agradável a Ele. O apóstolo aqui não diz “Deus
Salvador”, e sim “Deus nosso Salvador”. Assim Ele se revelou a
nós, e a Ele pertencemos agora. Uma vez que ele se mostra
favorável a nós, podemos nos aproximar dEle com toda franqueza.
Quando oramos pela salvação de alguém, até do pior dos
pecadores, podemos fazê-lo sabendo que isso é agradável ao Deus
nosso Salvador. Porque Ele se revela no evangelho como Deus
Salvador de todos os homens, sem distinção (veja 1:1), e quer que
todos os homens sejam salvos e venham ao conhecimento da
verdade.
Nos tempos do Antigo Testamento, o Senhor escolheu para Si
um único povo, que separou dos demais povos por meio da lei. Mas
vivemos agora a era da graça e da salvação para todos os homens.
O verbo “querer” (no grego, thelo1) aqui não remete ao propósito
eterno de Deus, e sim à sua atuação por meio do evangelho no
amor demonstrado a todos os homens.
Em sua carta aos Efésios, Paulo discorre sobre o propósito da
vontade de Deus. Ali o homem é considerado morto em delitos e
pecados, de modo que ele próprio não pode contribuir com
absolutamente nada para a própria salvação. Mas quando ele é
salvo, o seu Deus e Pai lhe comunica o Seu conselho eterno: ele foi
predestinado para ser filho do próprio Pai, “conforme o propósito
daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua
vontade” (Ef 1:5,11). Essas declarações maravilhosas são como um
mistério para os filhos da família da fé.
Entretanto, na primeira carta a Timóteo o apóstolo apresenta a
situação por outro ponto de vista. Aqui vemos o amor de Deus
nosso Salvador, que convida todos os homens à salvação e ao
conhecimento da verdade. Como Paulo diz aos coríntios, “Deus
estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes
imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da
reconciliação. De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo,
como se Deus por nós rogasse. Rogamo-vos, pois, da parte de
Cristo, que vos reconcilieis com Deus” (2 Co 5:19-20). “E quem
quiser, tome de graça da água da vida” (Ap 22:17).
Esses dois aspectos tão contrastantes da realidade da salvação
podem parecer paradoxais à mente natural. No entanto, eles nos
mostram a profundidade da riqueza da sabedoria e do entendimento
do eterno Deus. Pertencem aos mistérios que jamais entenderemos
aqui, mas que com certeza serão revelados na glória do céu.
Portanto, a declarada vontade de Deus é que todos os homens
sejam salvos e venham ao conhecimento da verdade. Pela segunda
vez, Paulo fala aqui da salvação. Em 1:15, ele escreve que Cristo
Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores. Aqui deixa claro
que não há exceção, pois todos os homens precisam ser salvos. A
salvação perfeita de Deus é a libertação do homem de todo perigo
no passado, no presente e no futuro, a saber, a libertação da alma e
do corpo. A única maneira de conseguir isso é crendo no Salvador:
“Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo” (At 16:31).
A salvação da alma é para todo aquele que creu no evangelho
da salvação (ou da salvação da bem-aventurança — no grego,
soteria), uma realidade inabalável (Ef 2:5; 2 Tm 1:9; Tt 3:4; 1 Pe
1:9). Mas também somos salvos diariamente dos perigos vindos da
parte do inimigo de nossa alma, graças à atividade do Senhor como
sumo sacerdote diante de Deus (Hb 7:25; compare com Rm 5:10).
Nossa salvação estará completa quando o Senhor voltar e, por meio
do arrebatamento, nos salvar por toda a eternidade de todas as
dificuldades em que agora nos encontramos (1 Pe 1:5; Fp 3:20-21).
Finalmente, por meio do batismo, também somos salvos — com
vistas à nossa posição na terra, não para a eternidade — desta
geração perversa, no meio da qual todos já viveram ou ainda se
encontram (1 Pe 3:21; compare com At 2:40-41).
No versículo em estudo, o apóstolo pensa na salvação da alma,
como se deduz das seguintes palavras: “... e venham ao
conhecimento da [‘de’, no original] verdade”. A ausência do artigo
antes da palavra “verdade” indica que se trata da verdade em geral,
não de uma determinada verdade relacionada com a salvação.
Todo homem separado de Deus está sob o poder de Satanás, o
pai da mentira (Jo 8:44-47). Só com Deus está verdade, e só Ele vê
todas as coisas em sua verdadeira essência, isto é, como de fato
são. Ele também abriu o único e verdadeiro caminho para a
salvação por meio de Seu Filho, o Salvador. Reconhecer isso,
curvar-se diante dessa verdade em arrependimento e crer é o único
caminho para a salvação do homem. Esse é o conhecimento da
verdade. Sem ela, a salvação é impossível (Tt 1:1; Hb 10:26; 2 Tm
3:7).
No entanto, esse conhecimento não termina com a salvação,
porque deve crescer mais e mais (compare com 2 Tm 2:25; Cl 1:9-
10; 2:3; 2 Pe 1:2,8). Só na glória conheceremos da mesma forma
em que fomos conhecidos (1 Co 13:12; compare com Ef 4:13). A
opinião de que salvação e conhecimento da verdade sejam a
mesma coisa ou que o conhecimento da verdade seja ele só o
caminho para a salvação é tão equivocada quanto a ideia de que o
conhecimento da verdade vem depois da salvação. Como já foi dito,
não se trata do conhecimento de uma determinada verdade, e sim
de que o homem entre na luz de Deus e nela faça progresso, ou
seja, que chegue ao pleno conhecimento (no grego, epignosis) da
verdade.
2:5 — Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens,
Jesus Cristo homem.
O fundamento de toda a revelação na Santa Escritura é a
realidade eterna de que Deus é um só. Assim foi revelado no Antigo
Testamento e já era do conhecimento do povo de Israel: “Vós sois
as minhas testemunhas, diz o Senhor, e meu servo, a quem escolhi;
para que o saibais, e me creiais, e entendais que eu sou o mesmo,
e que antes de mim deus nenhum se formou, e depois de mim
nenhum haverá. Eu, eu sou o Senhor, e fora de mim não há
Salvador” (Is 43:10-11); “Naquele dia um será o Senhor, e um será o
seu nome” (Zc 14:9).
O Deus único também é atestado várias vezes no Novo
Testamento: “Sabemos [...] que não há outro Deus, senão um só.
Porque, ainda que haja também alguns que se chamem deuses,
quer no céu quer na terra (como há muitos deuses e muitos
senhores), todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo
e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual
são todas as coisas, e nós por ele” (1 Co 8:4-6); “Ora, o medianeiro
não o é de um só, mas Deus é um” (Gl 3:20); “Tu crês que há um só
Deus; fazes bem” (Tg 2:19). Portanto, quão infundadas são as
críticas de judeus e muçulmanos, que alegam serem os cristãos
adoradores de três divindades! Não! Deus é um.
Todavia, já na primeira página da Bíblia um fato, que recebeu a
sua revelação completa com a vinda de Jesus Cristo à terra, é
reconhecível: que esse Deus único existe de três maneiras, em três
pessoas: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo (veja Mt
28:19). A Trindade divina é reconhecida em todos os seus atos na
criação, na encarnação do Filho, no início de Seu aparecimento em
público, na obra da redenção, na salvação dos pecadores e também
na Igreja de Deus.
Embora a unicidade de Deus tenha sido revelada e
testemunhada no judaísmo, Ele permaneceu oculto ao Seu povo
atrás do véu do Lugar Santíssimo, na Tenda da Congregação e mais
tarde no Templo, em Jerusalém. Mas quando o Filho veio ao mundo,
Deus foi revelado por completo. Depois que foi batizado por João
Batista no Jordão, o Espírito de Deus desceu sobre Ele de modo
visível, na forma de uma pomba, e a voz do Pai foi ouvida do céu:
“Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3:16-17).
Assim foi revelado o Deus único na Trindade do Pai, do Filho e do
Espírito Santo.
Sem a vinda do Senhor Jesus a este mundo, isso seria
impossível. “Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que
está no seio do Pai, esse o revelou” (Jo 1:18). Para essa finalidade,
o Filho tinha de se tornar homem. Nenhum ser criado poderia ver a
Deus em Sua sublime majestade (Êx 33:20; 1 Tm 6:16). Por graça
insondável, o Verbo tornou-se carne e habitou entre nós. Assim, o
apóstolo João pôde afirmar: “Vimos a sua glória, como a glória do
unigênito do Pai” (Jo 1:14). Era do agrado de toda a plenitude da
Divindade habitar no homem Cristo Jesus na terra.
No entanto, para os pecadores perdidos não era suficiente que
Deus se revelasse em carne. O homem Jesus Cristo precisava
tornar-se o Mediador entre Deus e os homens, porque Deus, em
Sua santidade e justiça absolutas, não pode ter comunhão alguma
com pecadores que se desligaram dEle. Além disso, o homem
caído, por si só, não tem como voltar para Deus. Por isso, um
Mediador era necessário, e só mesmo Deus poderia oferecer, como
disse Jó, um “árbitro que ponha a mão sobre nós ambos” (Jó 9:33).
O Filho eterno, que é a imagem do Deus invisível, era o único
capaz de revelar a Deus em Sua plenitude, conhecer a Sua vontade
e cumpri-la. Como homem, Ele podia interceder pela humanidade
perante o Deus santo e tomar sobre Si o salário do pecado — a
morte. Por isso, só o homem Cristo Jesus tinha condições de se
tornar esse único Mediador entre Deus e homens. Louvado seja o
Seu nome por isso! Mas ainda não foi dito tudo sobre a Sua
intermediação.
Esse trabalho não se limitava a que Ele, como Sacerdote e Rei,
estabelecesse a ligação entre o povo de Israel e Deus. Não, Cristo é
o Mediador, que corresponde plenamente tanto à natureza eterna de
Deus quanto às necessidades humanas em Sua presença. Ele
desceu às maiores profundidades para que até o pecador mais
miserável pudesse entender que Deus, por Sua bondade, se tornou
acessível para os homens. A mesma misericórdia que demonstrou
na terra, o Senhor Jesus possui agora no céu. Ele não deixou de ser
homem nem se esqueceu de Suas experiências na terra. Mesmo na
perfeição divina, Ele permanece homem na glória. É o Mediador
entre Deus e os homens. Nada nem ninguém se compara a Ele.
O Senhor Jesus é desonrado por grande parte da cristandade,
que põe substitutos humanos lado a lado com Ele e dirige preces a
anjos, santos e a Maria. Quão perniciosa é também a visão de
muitos teólogos de hoje, que consideram o Senhor Jesus apenas
um homem especialmente distinguido dos demais humanos, que
viveu por uma boa ideia e por fim morreu! A base de tais teorias é
que o homem não precisa de Salvador, porque Deus já não é mais
conhecido ou reconhecido como Criador e Juiz santo e justo. Tudo
que se refere ao além é negado e com isso também a vida após a
morte física. A religião tornou-se uma ferramenta de melhoria
mundial e de mudanças políticas. A respeito disso, a Palavra de
Deus declara: “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque
tudo o que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6:7).
2:6 — O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para
servir de testemunho a seu tempo.
Três fatos importantes referentes ao Mediador nos são
comunicados. O primeiro é que só existe um Mediador; o segundo é
que esse Mediador é um homem; o terceiro é apresentado no
versículo em estudo: Ele “se deu a si mesmo em preço de redenção
por todos”.
Deus não deu apenas o Seu Filho unigênito (Jo 3:16): também o
Filho deu a Si mesmo. Não pode existir dádiva maior! Também em
Gálatas 1:4 e Tito 2:14 lemos que o Senhor Jesus “se deu” por nós
(no grego, didomi). Em Gálatas Gl 2:20 e Efésios 5:2,25 é usada
uma expressão ainda mais forte: “se entregou” (no grego,
paradidomi), que expressa a entrega total.
O Senhor Jesus certa vez contou uma parábola para evidenciar
esse ato: “O reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido
num campo, que um homem achou e escondeu; e, pelo gozo dele,
vai, vende tudo quanto tem, e compra aquele campo” (Mt 13:44).
Esse comerciante entregou tudo que possuía para comprar o campo
— o mundo (compare com Mt 13:38). O Senhor, porém, fez mais:
Ele deu a Si mesmo. Pagou um resgate que correspondia à dívida
inteira a ser paga.
Na carta aos Efésios, lemos que o Senhor Jesus glorificou a
Deus por meio do cheiro suave da Sua autoentrega (Ef 5:2). Aqui,
entretanto, é mostrado mais o aspecto da obra redentora de Cristo,
voltada para o homem. Ele deu a Si mesmo em resgate de todos.
Na obra redentora de Cristo, manifesta-se o amor, isto é, a natureza
de Deus, e a Sua boa vontade em salvar todos os homens (compare
com 1 Tm 2:4). Isso não significa, porém, que todos os homens
entrarão no gozo dessa salvação. Uma comparação com uma
passagem muito semelhante pode explicitar essa importante
diferença: “Bem como o Filho do homem não veio para ser servido,
mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos” (Mt
20:28; compare com Mc 10:45). As palavras decisivas desses
versículos, são tão semelhantes entre si, apresentam três
diferenças:
A palavra grega para “resgate” (lytron) em Mateus 20:28 e Marcos 10:45
significa o dinheiro pago como resgate para libertar um escravo. Esse
termo não aparece em outra parte do Novo Testamento, mas está bem
documentado na língua grega da época. Em 1 Timóteo 2:6, a palavra
traduzida por “redenção” é antilytron, à qual é acrescentado um prefixo
de reforço cujo significado é “em vez de”. Essa palavra aparece no
Novo Testamento apenas nessa passagem.
Há uma diferença importante entre as preposições, que nos dois casos
foram traduzidas por “de/ por”. Em Mateus 20:28, o significado básico é
“em vez de”, “em lugar de” (no grego, anti). Exceto em algumas
passagens, em que anti tem a função de conjunção, a palavra é sempre
usada no Novo Testamento para exprimir substituição ou equivalência.
Citaremos agora todas essas passagens: Mateus 2:22; 5:38; 17:27;
20:28; Marcos 10:45; Lucas 11:11; João 1:16; Romanos 12:17; 1
Coríntios 11:15; 1 Tessalonicenses 5:15; Hebreus 12:2,16; 1 Pedro 3:9.
Em 1 Timóteo 2:6, no entanto, foi usada outra preposição, que
geralmente com o genitivo tem o significado de “para”, “para o melhor”
ou “para a vantagem de alguém” (no grego, hyper). Essa palavra
aparece com significado bem mais genérico, por exemplo, em Gálatas
1:4; 2:20; Efésios 5:2,25; Tito 2:14; também em Romanos 5:6; 2
Coríntios 5:14,15,21.
A terceira diferença consiste nas palavras “muitos”, em Mateus e
Marcos, e “todos”, no versículo em estudo. Enquanto nos Evangelhos o
Senhor fala daqueles que pela fé reconhecem que o resgate foi pago
também por eles, aqui é dito que o preço pago é suficiente para
resgatar todos os homens.

Portanto, entre essas duas sentenças tão semelhantes existe


uma grande diferença, a qual reside entre a expiação (1 Tm 2:6) e a
substituição de Cristo (Mt 20:28). Quando Ele realizou a Sua obra
na cruz, Deus foi plenamente glorificado e satisfeito. É com base
nessa obra que Ele oferece agora a graça e a salvação em Cristo a
todo pecador. O valor dessa obra é suficiente para resgatar todos os
homens. Sim, até a criação inteira estará livre do pecado com base
na expiação (Jo 1:29), porque Cristo também comprou o “campo”,
isto é, o mundo inteiro. Aqui, todavia, diz-se apenas que a vontade
de Deus é que todos os homens se salvem e venham ao
conhecimento da verdade. No entanto, a Palavra de Deus também
deixa muito claro que só os que pessoalmente tomam posse da
salvação, por meio do arrependimento e da fé, serão salvos de fato
(Mc 16:16; Ap 22:17).
Uma representação desses dois aspectos da obra de Cristo
pode ser encontrada nos dois bodes que no Antigo Testamento
eram ofertados no grande dia da expiação (Lv 16). O sumo
sacerdote degolava um dos bodes e levava o sangue para dentro do
véu (o Lugar Santíssimo), na Tenda da Congregação, onde era
aspergido sobre o propiciatório e perante a face do propiciatório.
Esse bode era dedicado ao Senhor e satisfazia as Suas exigências
santas e justas “por causa das imundícias dos filhos de Israel e das
suas transgressões, e de todos os seus pecados” (Lv 16:9,15-17).
Essa era a expiação.
Em seguida, era trazido o segundo bode, chamado Azazel. O
sumo sacerdote Arão impunha as mãos sobre a cabeça do animal e
sobre ele confessava todas as iniquidades dos filhos de Israel. Em
seguida esse bode, que simbolicamente carregava todos os
pecados do povo de Israel, era solto no deserto. Um animal inocente
levava, de forma substitutiva, a culpa com a qual fora carregado por
meio da confissão dos pecados por Arão. Ele era enviado ao
deserto para nunca mais voltar (Lv 16:10,20-22). Isso representava
a substituição de Cristo por todos os que nele creem.
No Novo Testamento, encontramos os dois pontos de vista
unidos em Romanos 3:22, onde na maioria dos manuscritos se lê:
“A justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos [isto é, a
expiação] e sobre todos os que creem [isto é, a substituição]”. Em 1
João 2:2, o apóstolo escreve: “Ele é a propiciação pelos nossos
pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o
mundo”.
A graça de Deus, que por causa da obra de Cristo permite o
anúncio do perdão e da salvação a todos os homens, deveria ser
atestada no devido tempo. Depois que Cristo entrou no céu, o
Espírito Santo veio para a terra, e a Casa de Deus se formou —
havia chegado o tempo. Antes de o resgate ter sido pago, isso seria
impossível. Até então, Deus esperava em Sua longanimidade. Mas
quando a perversidade dos homens — não apenas dos gentios,
mas também dos judeus — se tornou manifesta, o preço da
redenção na cruz do Calvário foi pago e a seu tempo também foi
dado o testemunho. Esse testemunho agora deve partir da Casa de
Deus e ser dirigido ao mundo inteiro.
2:7 — Para o que (digo a verdade em Cristo, não minto) fui constituído
pregador, e apóstolo, e doutor dos gentios na fé e na verdade.
Paulo foi uma ferramenta especial de Deus, um vaso escolhido.
Em outra passagem, ele explica como aconteceu a sua chamada
para o ministério apostólico (veja Gl 1:1,11-12,15). Aqui ele se limita
a citar os três títulos que marcaram o seu ministério.
O “pregador” (ou arauto) era aquele que proclamava anúncios e
mensagens do imperador. Era um funcionário bem conhecido no
Império Romano. A mensagem da salvação é proclamada da
mesma forma. A palavra usual para “pregar” no Novo Testamento
deriva desse termo. A autoridade do pregador repousa na
mensagem que ele proclama.
Além disso, Paulo era “apóstolo”. É assim que ele se apresenta
no primeiro versículo da carta. Como tal, ele podia reportar-se à
autoridade do Senhor, que o enviou. Mesmo assim, o seu
apostolado foi posto em dúvida muitas vezes (1 Co 9:1-3; 2 Co 11:4-
5; Gl 1 e 2). Talvez por isso ele tenha intercalado aqui a frase “digo a
verdade em Cristo, não minto” (compare com Rm 9:1; 2 Co 11:31;
Gl 1:20).
Finalmente, Paulo era “doutor dos gentios”. É verdade que ele
era também o “apóstolo dos gentios” (Rm 11:13), pois o Senhor, de
modo especial, lhe deu a incumbência de anunciar as riquezas
incompreensíveis de Cristo entre as nações (veja Rm 16:25-26; Gl
2:7-9; Ef 3:8). Mas como doutor Paulo recebeu um dom especial do
Senhor glorificado (Ef 4:11).
O ministério desse pregador, apóstolo e doutor foi marcado pela
fé e pela verdade. Ele mesmo vivia na prática as coisas que
proclamava aos povos. Mas a verdadeira fé e a única verdade
também eram temas de sua pregação. Afinal de contas, a fé no
evangelho e o entendimento da verdade constituem o único
caminho para o Deus Salvador.
2:8 — Quero, pois, que os homens orem em todo o lugar, levantando mãos
santas, sem ira nem contenda.
Depois da admoestação geral com respeito à oração, no
versículo 1, Paulo faz um apelo dirigido especialmente aos homens.
Ele determina, com autoridade apostólica, que apenas os membros
homens da Igreja de Deus orem em todo lugar. O modo em que ele
se expressa é tão claro que ficamos admirados ao ver a facilidade
com que muitos cristãos ignoram esse mandamento, porque o
desprezo à inspiração verbal de toda a Santa Escritura, no qual se
inclui o movimento mundial de emancipação das mulheres, tem
causado muito dano.
Por um lado, a Palavra de Deus ensina que a oração, como
expressão da dependência de Deus, é um privilégio não só dos
homens, mas também das mulheres. Pensemos, por exemplo, em
Ana (1 Sm 2:1), em Maria (Lc 1:46) e em outra Ana (Lc 2:36-37). Em
1 Coríntios 11:5-10, o apóstolo Paulo dá uma instrução restritiva e
detalhada sobre o assunto, quando adverte que toda mulher tenha a
cabeça coberta ao orar ou profetizar. Por outro lado, uma lição
importante está contida em 1 Coríntios 14:34-35: “As vossas
mulheres estejam caladas nas igrejas [reuniões]”. A mulher crente,
portanto, não podia e não pode orar em qualquer lugar. E, em
perfeita harmonia com as demais passagens do Novo Testamento
concernentes a esse assunto, o apóstolo escreve aqui: “Quero, pois,
que os homens orem em todo o lugar”.
Em conformidade com os pensamentos de Deus, só os homens
têm o privilégio de orar em todo lugar. A ordem divina na criação é
bem clara com relação a isso. Os homens não constituem uma
classe ou grupo à parte, como os presbíteros, os diáconos ou os
dons concedidos pelo Senhor glorificado, mas são considerados em
contraste com as mulheres. Os irmãos têm plena liberdade para
orar, mas devem fazer isso em submissão humilde ao Senhor e à
direção do Espírito Santo. Nas igrejas e comunidades cristãs,
todavia, essa verdade é quase desconhecida. Então como fica a
situação daqueles que, segundo eles mesmos declaram, se
retiraram das organizações humanas para se apoiar apenas na
Palavra de Deus? Não existe aqui também o perigo de deixar esse
ministério tão importante nos ombros de alguns poucos cristãos?
A expressão “em todo o lugar” não se refere apenas às reuniões
dos crentes. Quer dizer simplesmente que, para a oração dos
homens, em contraste com a das mulheres, não existe limitação
externa. No que diz respeito à oração em família, em um grupo
maior, em público ou nas reuniões, os homens podem orar em
qualquer lugar. Em grupo de mulheres, a irmã — com o marido e
com as crianças a ela confiadas — também pode se sentir à
vontade para orar, desde que não se descuide de sua posição de
mulher. Mas em público, a oração é obrigação e privilégio dos
homens.
A frase que encerra o versículo refere-se mais à atitude interna
que à postura externa dos homens em oração. Nos tempos bíblicos,
levantar ou estender as mãos era um costume bem conhecido (veja
2 Cr 6:12; Ed 9:5), da mesma forma que o hábito de juntar as mãos
nos dias de hoje. Também não é decisivo se a pessoa ao orar deva
estar de pé ou de joelhos (veja Dn 6:11; Mc 11:25; Lc 22:41; Ef
3:14).
A oração correta depende não só da atitude externa, mas do
fato de que as mãos de quem ora sejam santas. Aqui não é utilizada
a palavra grega hagios, a mais comum para “santo”, que significa
“separado para”, e sim hosios, de uso bastante raro, que também
pode ser traduzida por “piedoso”, “misericordioso”, “clemente” (veja
At 2:27; Tt 1:8; Hb 7:26). As mãos, como ferramentas e símbolos da
atividade humana, expressam aqui o estado interno da pessoa.
Quando na vida pessoal se tolera o pecado não julgado, quando a
relação com o próximo não está em ordem e quando na oração
pública falta a consciência de falar como boca dos que se reúnem
na presença do Deus santo, então as mãos levantadas não podem
ser santas.
Essa ideia é ressaltada por este grave complemento: “sem ira
nem contenda”. Se o crente nutre a ira no coração contra qualquer
pessoa, como poderá orar com sinceridade a favor dela? Isso é
impossível! O Senhor quer que perdoemos o próximo, da mesma
forma em que Ele nos perdoou (Cl 3:13; Mc 11:25). Também não se
deve abusar das orações em público usando-as para agredir ou
ensinar alguém.
Nossa relação com os homens não só precisa estar em ordem,
mesmo com relação ao próprio Deus, como também toda dúvida
deve estar ausente. Tiago escreve que devemos pedir “com fé, em
nada duvidando; porque o que duvida é semelhante à onda do mar,
que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte. Não
pense tal homem que receberá do Senhor alguma coisa. O homem
de coração dobre é inconstante em todos os seus caminhos” (Tg
1:6-8). Assim, quando não existe impedimento entre o coração e
Deus, o crente pode chegar com toda confiança ao trono da graça
(Hb 4:16; 1 Jo 3:20-21).
A atitude da mulher (2:9-15)
2:9-10 — Que do mesmo modo as mulheres se ataviem em traje honesto,
com pudor e modéstia, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou
vestidos preciosos, mas (como convém a mulheres que fazem profissão de
servir a Deus) com boas obras.
Muitos tradutores e intérpretes entendem a expressão “do
mesmo modo”, no início do versículo 9, como uma referência
referindo ao conteúdo do versículo 8, isto é, à exortação do apóstolo
a que os homens orem em todo lugar. Essa concepção, no entanto,
é insustentável, por dois motivos.
Em primeiro lugar, os versículos 9 e 10 no grego são
construídos gramaticalmente de tal forma que das palavras
introdutórias “eu quero” dependem duas sentenças com infinitivo
(que na tradução alemã da Bíblia de Elberfeld são reproduzidos com
a conjunção “que”: “Eu quero então, que os homens [...] orem [...],
do mesmo modo que as mulheres [...] se ataviem...”). A expressão
“do mesmo modo” está de maneira inequívoca anexada
linguisticamente à frase “eu quero então”.
Em segundo lugar, a explicação de que o apóstolo queria que as
irmãs também orassem em todo lugar está em contradição com os
demais ensinos do Novo Testamento sobre o serviço delas. Já
vimos, nas considerações sobre o versículo 8, que o serviço das
mulheres, devido à sua posição na criação, não é o mesmo que o
dos homens. Assim, de acordo com 1 Coríntios 14:34-35, elas
devem ficar caladas nas igrejas. Desse modo, a explicação de que
aqui “do mesmo modo as mulheres” são exortadas a orar em todo
lugar não é aceitável.
Assim como todos os homens crentes são exortados a orar em
todo lugar como uma atitude correta, com isso expressando a sua
dependência de Deus, aqui todas as mulheres que se confessem
sob o temor a Deus são exortadas ao pudor e à modéstia. Na
Palavra de Deus, encontramos desde os tempos antigos exemplos
do impulso das mulheres em se embelezar e se enfeitar. Mas já no
Antigo Testamento esse fato é considerado uma tendência carnal e
é condenado (veja 2 Rs 9:30; Is 3:16-24). Em 1 Pedro 3:3-5, essa
tendência perigosa do sexo feminino também é lembrada,
especificamente com vistas ao testemunho diante dos descrentes.
Na carta em estudo, trata-se do comportamento correto na Casa de
Deus e recomenda às mulheres um comportamento e uma
apresentação modestos, honrados, decentes e dignos, para o qual
uma apresentação externa contribui grandemente. A palavra grega
kosmios, em 3:2: na descrição das qualidades do presbítero, é
traduzida por “decente”.
Da mesma forma que o apóstolo, na exortação para os homens,
acrescenta a frase “sem ira nem contenda”, aqui a recomendação é
que as mulheres se portem “com pudor e modéstia [circunspeção]”.
Deus quer que a mulher cristã se enfeite, mas de um modo que Ele
possa aprovar. Seus enfeites não devem atrair a atenção de outras
pessoas para si, mas ser motivo de alegria para Deus. Isso significa
que os enfeites devem estar em concordância com a sua condição
de filha de Deus. Gostaríamos de citar aqui dois exemplos de
enfeites que agradam a Deus.
Na carta de Tito, os escravos são exortados a se comportar de
modo “que em tudo sejam ornamento [ou enfeite] da doutrina de
Deus, nosso Salvador” (Tt 2:10). Em Apocalipse 21:2, é assim
descrita a Igreja de Deus na eternidade: “Eu, João, vi a santa
cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, adereçada
como uma esposa ataviada para o seu marido”. O verdadeiro
adorno cristão serve para a honra do nosso Deus! Sem dúvida, isso
não pode ser dito de “tranças, [...] ouro, ou pérolas, ou vestidos
preciosos”, para os quais a atenção das pessoas é atraída. Não se
trata aqui (nem em 1 Pe 3:3-5) de uma regra de moda, e sim de
uma admoestação válida para sempre e para todos, que de modo
nenhum está vinculada ao tempo.
Naturalmente, em sua aplicação essa regra pode estar
vinculada ao tempo, porque o que há cem anos era apontado como
inadmissível hoje pode ser considerado algo decente por pessoas
sérias. Mas a mulher cristã que não quer desonrar o seu Senhor
precisa saber dizer não quando um lançamento da moda é
provocativo e imoral. Aceitar costumes que não estejam de acordo
com a Palavra de Deus, que permitam a excitação humana, não
corresponde ao espírito da graça nem do evangelho. Nosso desejo
é que as irmãs, tanto as mais idosas quanto as mais jovens, apenas
se perguntem se estão levando a Palavra de Deus a sério, se
entenderam o sentido dessas exortações e se as aplicam na prática.
A mulher que tem temor a Deus não deve se ataviar com tais
adereços, e sim com boas obras. As “boas obras” (no grego, erga
agatha) também são mencionadas em 5:10 e, como verbo, em 6:18.
São obras que, em seus efeitos, são benéficas e abençoadas. As
boas obras que traduzem a expressão grega ergo kala,
mencionadas em 3:1, 5:10a e 6:18b, são aquelas que em si são
belas, boas e nobres. Vemos nos Evangelhos que mulheres serviam
ao Senhor com os seus bens (Lc 8:3). Maria fez uma boa obra
quando ungiu o Senhor (Mt 26:7-10). Podemos citar também Dorcas
(At 9:39), Maria, mãe de João Marcos (At 12:12) e Lídia (At 16:14-
15).
Existem muitas boas obras que de podem ser realizadas de
preferência por uma irmã. Essas obras podem ser feitas para o
Senhor, para os seus ou também para os descrentes. Elas sempre
serão um fruto do novo homem e da dependência de Deus (Ef 2:10).
2:11 — A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição.
A ideia de modéstia, pudor e decência é desenvolvida nesse
versículo com respeito a outra área. A mulher crente deve
diferenciar-se em todos os sentidos de seus pares mundanos. A
mulher mexeriqueira não é uma invenção de nossos dias, e desde
sempre foi objeto de escárnio. Para uma cristã, seria muito triste ser
mencionada em conexão com gente desse tipo. Por isso, é dito que
ela deve aprender “em silêncio, com toda a sujeição”.
Para muitos comentaristas, esse versículo e o próximo referem-
se apenas às reuniões, mas o que é dito nesse texto vai além de 1
Coríntios 14:34-35. Trata-se aqui muito mais genericamente da
posição da mulher com atitude conveniente. Todos os crentes são
exortados com frequência a uma vida caracterizada pelo silêncio e
pela sujeição (veja 1 Ts 4:11; 2 Ts 3:12; Rm 13:1; 1 Co 16:16; Tt 2:9;
1 Pe 5:5). No Novo Testamento, no entanto, nenhum grupo de
pessoas é lembrado com mais frequência da necessária sujeição
que as mulheres (1 Co 14:34; Ef 5:22; Cl 3:18; Tt 2:5; 1 Pe 3:1-5).
Desde o início, o objetivo de Satanás era demover a mulher de sua
posição de sujeição perante o homem, a qual lhe foi determinada
por Deus.
Em nossos dias, essa tendência é cada vez mais evidente. O
apóstolo Paulo entra nesse assunto com mais pormenores no
versículo 14. Uma boa ilustração para o versículo em estudo é o
caso de Maria, que se assentou aos pés do Senhor Jesus para ouvir
a sua Palavra (Lc 10:38-42).
2:12-14 — Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade
sobre o marido, mas que esteja em silêncio. Porque primeiro foi formado
Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada,
caiu em transgressão.
Nas reflexões sobre o versículo 8, lembramos de duas
limitações referentes ao serviço das mulheres crentes. Elas devem
ficar caladas nas reuniões (1 Co 14:34-35) e cobrir-se quando forem
orar ou profetizar (1 Co 11:2-16). Aqui encontramos um terceiro
mandamento para as irmãs: “Não permito, porém, que a mulher
ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em
silêncio”. “Ensinar” e “usar de autoridade” segue-se a “aprender” e à
“sujeição” do versículo anterior, e tanto aqui como lá se destaca o
silêncio.
A posição de cabeça cabe ao homem, segundo a ordem de
criação e devido à queda no pecado (Gn 2:18; 3:16). O fato de uma
irmã às vezes possuir uma força moral que ultrapassa a dos irmãos,
por causa de sua maneira de viver, sua dedicação e seu amor ao
Senhor e aos seus, não a autoriza a deixar a posição de sujeição e
atrever-se a assumir a liderança, que Deus reservou ao homem.
Mas nada a impede de exercer uma influência moral que agrade a
Deus, na área que Ele lhe designou. Assim, as mulheres idosas
devem ser professoras do bem e ensinar as mais jovens a amar o
marido e os filhos, a serem moderadas, puras, boas donas de casa,
bondosas e sujeitas ao marido, a fim de que a Palavra de Deus não
seja blasfemada (Tt 2:3-5).
Dos muitos exemplos do serviço das irmãs no Novo Testamento,
citamos apenas Priscila e seu marido Áquila (At 18:2,18,26; Rm
16:3; 1 Co 16:19; 2 Tm 4:19). Nas três passagens em que Priscila é
mencionada em primeiro lugar, a dedicação pessoal está em
primeiro plano. Mas sempre que se trata de liderança e de aparição
em público, Áquila é mencionado em primeiro lugar.
Quando uma irmã ensina, ela está exercendo uma posição de
domínio sobre o homem, mesmo que nenhum homem esteja
presente. E, se ela o domina, é porque se atreveu a ocupar a
posição dele. A frase “use de autoridade [no grego, authenteo]
sobre” (ou domine) aparece apenas aqui e significa “usar de
autoridade de per si”, “agir arbitrariamente”. E o ato de ensinar é
apenas um tipo de domínio da mulher sobre o homem. Ela também
domina, por exemplo, quando fala na igreja (1 Co 14:34), quando
ora ou profetiza com a cabeça descoberta (1 Co 11:5) — enfim,
quando abandona a sua posição de sujeição e se equipara ao
homem.
Como já foi dito, mencionamos aqui apenas duas razões para a
posição da mulher. A primeira remete à criação do ser humano (Gn
2), quando é indicada a sequência em que Adão e Eva foram
formados. De início, Adão levava uma existência independente e
recebeu a tarefa de cultivar e proteger o jardim do Éden. Ele
também deu nome aos animais, sob a ordem de Deus. Só depois
Eva foi formada, a partir dele, como ajudadora idônea igual a ele,
isto é, correspondendo a ele. Desse modo, o homem tornou-se a
cabeça, e a mulher, o coração da humanidade, porque assim foram
equipados pelo Criador para preencher integralmente o lugar a eles
destinado. Em Efésios 5:22-33, somos ensinados que o homem é
uma imagem de Cristo, “a cabeça”, e a mulher, uma imagem da
Igreja, a Noiva do Cordeiro.
Como segunda razão para a posição conveniente da mulher, o
texto em estudo menciona a queda no pecado (v. 14). Adão seguiu
a sua mulher na desobediência, quando deveria tê-la guiado à
obediência. Ele tinha de estar ciente do alcance de sua ação, e foi
exatamente isso que tornou a situação tão grave. Mas Eva é que foi
enganada, não Adão (veja 2 Co 11:3). Por isso, a fraqueza dela e
suas consequências para o homem e a humanidade são citadas
como razão adicional para a mulher ficar em silêncio, não ensinar e
não usar de autoridade sobre o marido.
2:15 — Salvar-se-á, porém, dando à luz filhos, se permanecer com modéstia
na fé, no amor e na santificação.
Esse versículo, especialmente a primeira parte, tem causado dor
de cabeça a muitos comentaristas da Bíblia. Uma dificuldade surge
por apresentar a palavra “salvar” (no grego, sozo) com o mesmo
sentido que no versículo 4, em 4:16 etc., onde o assunto é a
salvação eterna. Mas não devemos esquecer que a mesma palavra
é também usada com relação à cura de doentes (Mc 5:34) e ao
livramento de perigos externos (At 27:44). Quanto ao sentido da
palavra “salvar”, portanto, não temos de pensar necessariamente na
salvação eterna.
A frase “dando à luz filhos” também pode ser traduzidas por
“passando [atravessando] pela experiência de dar à luz filhos”.
Alguns comentaristas vão longe demais ao pensar aqui no
nascimento do Senhor — porque por meio de uma mulher
aconteceu a queda no pecado e por meio de uma mulher o Salvador
veio ao mundo. Outros pensam que a mulher, que por ocasião da
queda no pecado abandonou o seu lugar, ao continuar a tarefa de
dar à luz filhos corresponde à ordem de Deus e com isso colabora
com a própria bem-aventurança. De qualquer forma, não há dúvida
de que a menção ao ato de dar à luz filhos acontece em conexão
com a queda no pecado.
Uma das consequências da desobediência da Eva foi o que
Deus sentenciou: “Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua
conceição; com dor darás à luz filhos” (Gn 3:16). Esse castigo, que
Deus em um ato governamental aplicou aos homens — e aqui em
especial à mulher —, ainda é válido. Mas agora pode tornar-se uma
oportunidade para obter a misericórdia e a ajuda de Deus. A mulher
crente — para isto aponta o verbo “permanecer” — pode confiar na
ajuda de Deus nas horas difíceis do parto. Trata-se, portanto, de
uma salvação terrena e temporal, quando a mulher enfrenta
dificuldades. Dar à luz filhos não é caminho, e sim a circunstância
pela qual a mulher é salva. No mesmo sentido, a palavra “salvar”
com a preposição “por” (no grego, dia — com o genitivo) é usada
também em 1 Coríntios 3:15 e 1 Pedro 3:20, mas em outra conexão.
A frase “se permanecer” (“se permanecerem”, no original)
constitui outra dificuldade para alguns comentaristas. É um erro
pensar nas crianças por nascer, nesse caso. A resposta mais
simples seria que o texto se refere às mulheres crentes em geral ou
à mulher com o marido. Entretanto, se a referência fosse apenas às
mulheres, seria difícil explicar, porque o versículo inicia no singular e
termina no plural. Mas se entendermos que se trata de homens e
mulheres, o sentido fica claro. A mulher será salva nas dores de
parto, mas o pré-requisito é que ambos, marido e mulher,
permaneçam com sobriedade na fé, no amor e na santificação.
Nos versículos precedentes o apóstolo Paulo também se dirige
a ambos quando os exorta. E, no final, são considerados juntos
outra vez. A unidade constituída por marido e mulher no casamento
é uma bênção e uma responsabilidade. Há grandes diferenças na
posição de cada um e nas tarefas que desempenham no mundo. Na
vida de fé, porém, podem e devem seguir unânimes o seu caminho,
porque na sua posição em Cristo diante de Deus “não há macho
nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3:28).
1 A palavra grega thelo indica principalmente um desejo, um anseio. Além disso, há outra palavra grega
muito rara no Novo Testamento para “querer”: boulomai, relacionada com a palavra thelo, como a “decisão
para a resolução” (S. Ch. Schierlitz, Griechisch-Deutsches Wörterbuch zum Neuen Testament). A palavra
grega boulomai é usada no Novo Testamento frequentemente com referência ao conselho de Deus (veja Mt
11:27; Lc 10:22; 22:42; 1 Co 12:11; Hb 6:17; Tg 1:18).
CAPÍTULO 3
P ( : )
O presbítero (3:1-7)
3:1— Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente
obra deseja.
No capítulo 2, o apóstolo escreve sobre a oração e o
comportamento com vistas a todas as pessoas. Discorre também
sobre o comportamento correto de homens e mulheres, inclusive no
matrimônio. Agora ele se dirige à ordem entre os crentes, que
formam a Casa de Deus. As exigências aos presbíteros e diáconos
enumeradas nesse capítulo remetem diretamente à sentença
essencial da carta (3:15).
A frase introdutória, “esta palavra é fiel”, aparece três vezes na
carta, como já observamos no comentário de 1:15. Além disso,
aparece uma vez em 2 Timóteo 2:11 e em Tito 3:8. Alguns
tradutores e comentaristas tentam ligar essa frase com o final do
parágrafo anterior. Em 3:9 e nas duas outras cartas, ela ressalta, por
um lado, o que foi dito antes e, por outro lado, servem de introdução
o que segue. Aqui, no entanto, só pode se referir a uma das duas
ideias e é por isso que aparece no início do capítulo 3 na maioria
das traduções.
A palavra aqui traduzida por “episcopado” (no grego, episcope)
é usada na língua grega apenas uma vez fora da Santa Escritura.
Mas na Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento,
aparece mais de trinta vezes (por exemplo, Nm 4:16 —
“supervisão”; 16:29 — “visitação”, “prova”). A palavra também é
usada com os dois significados no Novo Testamento, onde aparece
quatro vezes (veja Lc 19:44; 1 Pe 2:12; At 1:20). Aqui designa o
cargo ou o serviço do presbítero (no grego, episkopos). Sobre o
serviço do presbítero em si, depreendemos muito pouco na carta.
Em 5:17, temos os “anciãos” (em algumas traduções), mas uma
olhada em Atos 20:17,28 e em Tito 1:5,7 deixa claro que se trata do
mesmo grupo de homens e, por conseguinte, do mesmo serviço. A
palavra “ancião” designa mais a dignidade do cargo, enquanto a
palavra “presbítero” ressalta a sua responsabilidade.
Em Atos 20, são mencionadas três tarefas do serviço do
presbítero. Primeira: eles devem olhar por si mesmos e por todo o
rebanho (v. 28a). Segunda: devem apascentar a Igreja de Deus (v.
28b). Terceira: devem vigiar e proteger o rebanho das influências
perversas (v. 31).
Assim como já havia incentivado os coríntios a procurar com
zelo os melhores dons da graça, isto é, a se esforçar por isso (1 Co
12:31; 14:1), aqui o apóstolo diz ao seu fiel amigo Timóteo que
quem aspira ao presbitério deseja uma obra bela (no grego kalos —
“boa”; veja 2:10). Ambos, portanto, são muito positivos. Aquela
zelosa busca ou esta aspiração, no entanto, deve consistir em nada
mais que dedicação e amor ao Senhor Jesus e no desejo de servi-
lO em dependência e obediência.
Com isso as semelhanças entre os dons e os cargos (aos quais
também pertencem os diáconos, 3:8) também estão quase
esgotadas. É que existem diferenças significativas entre eles,
confundidas pela cristandade em quase todos os lugares.
Em primeiro lugar, os dons estão ligados à Igreja como Corpo de
Cristo (Rm 12; 1 Co 12; Ef 4) e servem para a sua edificação, isto é,
para o seu aperfeiçoamento e fortalecimento (Ef 4:12), enquanto os
cargos estão relacionados com a Casa de Deus (1 Tm 3:15) e a
ordem externa nas igrejas locais (At 20:28; 1 Pe 5:1-3).
Em segundo lugar, os dons são dados ao Corpo inteiro, como se
deduz das passagens citadas. Isso quer dizer, que em seu exercício
não estão sujeitos a nenhuma restrição geográfica. Já o exercício
dos cargos é restrito à igreja local (At 14:23; 20:17; Fp 1:1; 1 Pe 5:1-
2; Tt 1:5).
Em terceiro lugar, o serviço dos dons perdura, “até que todos
cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus”
(Ef 4:11-13), ou seja, até o momento em que o Senhor mesmo irá
encerrar tudo em glória. Nos cargos do Novo Testamento não se
conhece nenhuma continuidade ou continuação.
Em quarto lugar, cada membro no Corpo de Cristo tem alguma
função ou possui algum dom, embora nem todos sejam
evangelistas, pastores ou mestres (Rm 12:4-8; 1 Co 12:14-26; 1 Pe
4:10). Mas apenas uns poucos cumprem os pressupostos
estabelecidos para o presbitério (1 Tm 3:2-7; Tt 1:6-9).
Em quinto lugar, os dons são dados pelo Senhor glorificado no
céu, por meio do Espírito Santo (1 Co 12:4,11; Ef 4:11), sem
necessidade de intermediação humana. Já os anciãos ou
presbíteros são sempre mostrados a serviço dos apóstolos ou dos
encarregados destes, sempre sob a direção do Espírito, e os
diáconos, a serviço da igreja (At 6:6; 14:23; 20:28; Tt 1:5).
Os apóstolos ocupavam uma posição única. Em todas as listas
dos dons da graça, eles sempre são mencionados em primeiro
lugar. Com respeito à edificação da Igreja de Deus na terra, também
ocupavam a posição de liderança (veja Ef 2:20; 3:5). Assim,
representavam a máxima autoridade humana nomeada na igreja e
tinham a capacidade e o direito de se valer de outras autoridades
subordinadas, em nome do Senhor, como os presbíteros e os
diáconos. Eles o faziam de forma direta ou por meio de pessoas
especialmente autorizadas por eles, como Tito (Tt 1:5). Não há
registro de que Timóteo tenha utilizado o serviço dos presbíteros,
embora seja óbvio que ele recebeu essa incumbência.
Toda autoridade vem de Deus, segundo a Santa Escritura. No
entanto, esse princípio está sendo negligenciado pelos métodos
democráticos praticados nas igrejas e comunidades protestantes,
que adotaram a eleição ou a nomeação na investidura de cargos
eclesiásticos. Mas como alguém pode exercer verdadeira autoridade
sobre aqueles dos quais, no fundo, é dependente? O princípio de
autoridade católico baseia-se na doutrina falsa de que exista uma
sucessão apostólica ininterrupta. A Palavra de Deus não faz
menção disso. Pelo contrário, quando Paulo se despediu dos
anciãos da igreja de Éfeso, ele os encomendou “a Deus e à palavra
da sua graça” (At 20:32). Esse é o fundamento firme da fé que
possuímos ainda hoje.
Pela leitura do Novo Testamento, podemos deduzir que os
presbíteros ou anciãos só eram empregados nas igrejas cujos
membros, em sua maioria, provinham do paganismo: Éfeso, Filipos,
Creta, e assim por diante. Seus serviços eram utilizados para a
direção e a manutenção da ordem nas igrejas novas e
inexperientes. Nas igrejas em Jerusalém e Judeia, que se
compunham de judeus convertidos, havia também esse tipo de
obreiro, mas nada se diz sobre a sua nomeação (At 11:30; 15:6).
Havia anciãos em Israel desde os tempos antigos (Êx 3:16; Dt
19:12; Rt 4:2; Ed 10:14; Mt 26:59; At 6:12). Por causa de sua idade
e experiência, eles podiam assumir uma posição de liderança nas
cidades e sobre o povo inteiro.
No início, esse costume parece ter sido assumido pelas igrejas
judaicas sem que fosse realizada uma eleição ou se nomeasse
alguém para o cargo. Isso porque, entre os milhares que chegaram
à fé, é bem possível que alguns já ocupassem no judaísmo uma
reconhecida posição de liderança, a qual foi mantida entre os
crentes após a conversão. Eram homens que por seu exemplo de
vida, conhecimento de Deus e amor ao Senhor detinham autoridade
moral, que os capacitava para o episcopado.
Da mesma forma, existem hoje homens de fé e leais, que
possuem grande peso espiritual e moral. Eles correspondem às
exigências que a Palavra de Deus aqui espera dos presbíteros. Eles
não podem ser nomeados para esse cargo, porque nenhum homem
está capacitado ou autorizado a isso. Essa escolha está acima
deles. Mas também hoje devem ser reconhecidos e respeitados,
pois, “não havendo sábios conselhos, o povo cai” (Pv 11:14).
3:2 — Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher,
vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar [...]
Do presbítero (no grego, episkopos) chegou-se ao nosso
“bispo”, da mesma forma que do ancião (no grego, presbyteros) ao
“sacerdote” no catolicismo e ao “presbítero” no protestantismo. Não
há base na Santa Escritura para uma diferenciação entre os
presbíteros (“bispos”) e os sacerdotes ou anciãos (“presbíteros”). Na
Palavra de Deus, encontramos sempre vários deles em cada lugar
(At 14:23; Fp 1:1). Depois da partida dos apóstolos, a diferenciação
hierárquica — não bíblica — surgiu muito rapidamente entre os
bispos e os presbíteros a eles subordinados que atuavam em locais
definidos. Mas o Novo Testamento não reconhece nada disso. Os
presbíteros ou anciãos foram escolhidos pelos apóstolos ou por
seus encarregados e prestavam serviço na igreja local. Os atuais
desdobramentos desse cargo não são encontrados na Santa
Escritura.
Como já foi dito, o serviço de irmãos mais velhos e mais sábios
é muito necessário também — ou principalmente — nos dias de
hoje. Por isso, os requisitos aqui estabelecidos para esse serviço de
maneira alguma são supérfluos. Todo cristão sério deve esforçar-se
para atender a esses requisitos, pois o fato de essas qualidades
serem exigidas para o serviço do presbítero não significa que os
demais crentes não precisem cultivá-las! É exatamente o contrário:
ainda que todo crente deva se esforçar para ter essas qualidades,
para o presbítero elas são uma necessidade absoluta. Em
concordância com a tarefa, falaremos a seguir das qualidades
morais, não dos dons do Espírito.
Em primeiro lugar, é exigido do presbítero que ele seja
“irrepreensível”. Essa palavra só ocorre outra vez em 5:7 e 6:14.
Essa primeira virtude é considerada tão genérica e imprescindível,
que as demais soam como uma explicação detalhada do termo.
O presbítero deve ser “marido de uma mulher” (veja versículo
12; Tt 1:6). O autor inspirado parte do pressuposto de que o irmão
era casado. O matrimônio é um estado civil determinado por Deus
para esta terra e não perde o seu valor quando alguém, capacitado
pela graça a permanecer solteiro por amor ao Senhor, ocupe uma
posição de liderança (1 Co 7:7,32-38). Só o presbítero casado
estava apto a cumprir todas as suas tarefas nas famílias e com
relação às mulheres solteiras — o que para um solteiro, em alguns
casos, teria sido difícil ou até inconveniente.
No entanto, a ênfase aqui está na palavra “uma”. Embora no
relato da criação e, mais tarde, no restante da Bíblia a monogamia
não seja exigida nem a poligamia proibida expressamente, podemos
deduzir de Gênesis 2:24 e da instrução do Senhor Jesus referente a
esse texto (veja Mt 19:4-8) que a vontade de Deus é que um homem
e uma mulher permaneçam unidos pelo matrimônio até a morte de
um dos cônjuges. Essa unidade de homem e mulher na verdade é
uma imagem da unidade de Cristo com a Sua Noiva, a Igreja (Ef
5:31-32). A começar por Lameque (Gn 4:19), há no Antigo
Testamento numerosos casos de poligamia e isso causou muita
miséria nas famílias. Pensemos apenas em Abraão, Jacó, Davi e
Salomão!
Também o divórcio parece ter se difundido bastante,
principalmente no judaísmo pós-exílico (veja Ml 2:15-16; Mt 5:31;
19:3). Mas o Novo Testamento afirma de forma inequívoca que o
divórcio (exceto por adultério) é uma abominação para Deus (Mt
5:32; 19:6,9; 1 Co 7:10-11). Da mesma forma, a relação
extraconjugal de pessoas não casadas é vista como prostituição, e a
de pessoas casadas, como adultério. E ambas são severamente
condenadas pela Palavra de Deus (Êx 20:14; Mt 5:27-28; 1 Co 5;
6:9,13-20).
Embora esses pecados tão detestáveis sejam apontados com
clareza na Bíblia, são justamente os que com maior frequência dão
ocasião à disciplina nas igrejas. Os que caem ou vivem neles não
apenas desobedecem às claras instruções de Deus, como também
comprovam que lhes falta o amor ao seu Senhor e o profundo
desejo e a força espiritual para pôr em prática os pensamentos dEle.
Portanto, a pureza do matrimônio, instituído por Deus, é a primeira
exigência específica para o presbítero. Na verdade, os pecados
mencionados podem ser perdoados, e a comunhão interrompida à
mesa do Senhor pode ser restabelecida (compare 2 Co 2:5-10 com
1 Co 5). Mas quem peca dessa maneira não é apto para o serviço
de presbítero.
A expressão “marido de uma mulher” talvez não signifique que
alguém que viveu na bigamia ou mesmo na poligamia devia ser
rejeitado. Esse costume não era tão divulgado naquele tempo, nem
entre os judeus, nem entre os gregos. Trata-se apenas da pureza da
vida matrimonial, pois como o presbítero poderia exercer a sua
função, se ele próprio fracassou nesse sentido? Menos acertada
ainda seria a concepção de que o presbítero viúvo não poderia se
casar outra vez, embora essa opinião tenha sido defendida até em
anos mais recentes. O segundo matrimônio de um marido
enviuvado, além de não estar proibido em parte alguma da Palavra
de Deus, é apresentado como algo legítimo, “contanto que seja no
Senhor” (1 Co 7:39; veja Rm 7:3).
Uma vez que são citados os requisitos da vigilância, sobriedade
e honestidade, a vida desequilibrada, a extravagância e a
libidinagem incapacitam o crente para o episcopado. O presbítero
precisa ter uma visão clara e saudável e tudo que acontece ao seu
redor. Toda influência que não provém da Palavra pode torná-lo
intemperante. A vigilância é exigida de quem pretende avaliar uma
situação corretamente. E, para a execução dos passos necessários,
é preciso sobriedade e honestidade (ou prudência e decência). A
palavra “honesto” (no grego, kosmios) é traduzida por “modesto” em
2:9. À sobriedade no interior deve corresponder à decência no
exterior.
Ser hospitaleiro é uma obrigação de todos os crentes (Rm
12:13; Hb 13:2; 1 Pe 4:9). No grego, “hospitaleiro” significa
literalmente “amando o estranho”. No Antigo Testamento, é dito que
o Senhor “ama o estrangeiro, dando-lhe pão e roupa” (Dt 10:18).
Todos os crentes devem imitar a Deus, mas especialmente aqueles
que pretendem servir de exemplo para os demais. Assim, o
presbítero deve hospedar os irmãos em trânsito, oferecer abrigo aos
perseguidos e acolher aqueles que se tornaram itinerantes pelo
nome de Cristo para pregar o evangelho ou para ensinar (veja 3 Jo
5-8).
O presbítero também deve ser apto para ensinar. Quem possui
o dom de mestre (Ef 4:11) recebeu do Senhor tanto a capacitação
quanto a incumbência de disseminar a doutrina de Cristo em público
e nas casas. Para exercer a sua função, o presbítero precisa
apenas ter aptidão para ensinar, isto é, transmitir aos outros o que
recebeu ao longo da experiência pessoal ou por meio da instrução.
O presbítero, portanto, não precisa possuir o dom de mestre. No
entanto, há casos em que esse dom estava unido ao episcopado,
como vemos em 5:17. Ali são destacados os presbíteros “que
trabalham na palavra e na doutrina”.
3:3 — [...] não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe
ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento [...]
Após as sete características positivas do versículo 2, seguem-se
quatro negativas, ou seja, que o presbítero não deve apresentar. Em
uma região onde o vinho era uma bebida diária, o perigo de ser
dado à bebedice era mais frequente do que em nossas latitudes. É
por isso que encontramos várias alusões aos perigos do consumo
de álcool no Novo Testamento (Ef 5:18; 1 Ts 5:7; 1 Co 5:11). A falta
de domínio próprio, que levava ao consumo exagerado de vinho e
às suas consequências não podia ser tolerada no presbítero, que
tinha de ser um exemplo do rebanho (1 Pe 5:1-3).
O presbítero não pode ser “espancador”, ou seja, do tipo brigão.
Em sua segunda carta a Timóteo, Paulo admoesta: “Ao servo do
Senhor não convém contender, mas sim, ser manso para com
todos, apto para ensinar, sofredor; instruindo com mansidão os que
resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento…” (2
Tm 2:24-25). Essas palavras esclarecem por que o espancador não
é apto ao serviço de presbítero. Quem quer fazer valer o próprio
direito a todo custo, até mesmo pelo uso da força, revela
descontrole e egoísmo. No entanto, mesmo o coração mais duro
pode ser alcançado pela gentileza ou pela amizade (Pv 25:15).
Por fim, o presbítero não pode ser avarento. Em 6:5-19, Timóteo
é chamado à atenção para os perigos da avareza em geral, a qual
se expressa principalmente na avidez e na cobiça e é equiparada à
idolatria (Cl 3:5). A luta por vantagens materiais, que hoje em dia é
mais comum do que nunca e bastante encorajada, é um veneno
para qualquer atividade espiritual, mais ainda quando o servo do
Senhor precisa ser censurado nessa área.
3:4-5 — [...] que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em
sujeição, com toda a modéstia (porque, se alguém não sabe governar a sua
própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?) [...]
Nos versículos de 4 a 7, são mencionadas mais três exigências
importantes. Não são características espirituais, e sim provas de
que o presbítero já por algum tempo apresentou bons resultados em
sua vida de fé, na família, na igreja e diante do mundo.
A primeira esfera na qual o presbítero tem de apresentar uma
prova de bom testemunho reconhecível é a família, a sua casa. Aqui
está a tarefa e a responsabilidade mais próxima do marido e pai de
família. Se ele fracassar nesse quesito, não poderá falar nem ser
exemplo para outros com autoridade moral. A menção da mulher e
dos filhos aqui e em Tito 1:6 (compare com 1 Tm 3:12) parece
indicar que o homem solteiro não era chamado para o serviço de
presbítero ou ancião. Não se tratava, pois, apenas de uma questão
de compreensão espiritual. Era, em um grau muito mais elevado,
uma questão de peso moral, de sua personalidade e capacidade de
servir os crentes com base na própria experiência e de admoestá-
los, se necessário.
“Sua própria casa” inclui todo o governo do lar com todos os
seus membros, ao qual na época também pertenciam os escravos.
Nesse caso, era necessário administrar de maneira correta. O
homem, de acordo com o plano de Deus, é o administrador
responsável pelo governo da casa. Ele deve amar a esposa, como
Cristo ama a Igreja (Ef 5:25,28,33). Deve educar os filhos na
doutrina e na admoestação do Senhor e não os provocar à ira (Ef
6:4). Finalmente, deve conceder aos que trabalham para ele o que é
certo e justo, sem os ameaçar (Ef 6:9; Cl 4:1).
Uma vida de acordo com os pensamentos de Deus na área de
responsabilidade mais próxima é o pré-requisito básico para o
serviço de presbítero na igreja local. Como se quisesse ainda
ressaltar a importância desse fato, o apóstolo argumenta: “Porque,
se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da
igreja de Deus?” (v. 5). O cuidado prático com a igreja não é fácil. É
a Igreja de Deus (At 20:28) e o rebanho de Deus (1 Pe 5:2). Todo
servo de Deus deve ter isso em mente sempre.
3:6 — [...] não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na
condenação do diabo.
O presbítero também não deve ser um cristão recém-convertido,
e sim alguém com certa experiência. O apóstolo não se preocupa
com a adoção de certos hábitos, mas com o fato de que a alma
tenha aprendido a conhecer a si mesma no caminho da fé. Um
novato não pode conhecer a maldade do próprio coração nem a
graça preservadora e restauradora de Deus. Ele também não
conhece a disciplina muitas vezes humilhante que o Pai aplica aos
filhos. Portanto, há o risco de que ele se ensoberbeça se uma tarefa
de responsabilidade lhe for atribuída muito cedo. Quem se
ensoberbece considera-se maior do que é. Dar importância
exagerada à própria pessoa pode levar à arrogância e, portanto, ao
mesmo pecado que levou à queda do Diabo.
A palavra “condenação” (no grego, krima) pode conter a
acusação ou a condenação. Aqui é provável que seja a primeira. A
queda de Satanás, descrita em Isaías 14:12-15 na figura de Babel e
em Ezequiel 28:12-19 na figura do rei de Tiro, tinha a sua causa no
fato de que esse príncipe dos anjos, em sua arrogância, se rebelou
contra Deus. Depois de sua queda, ele tentou levar consigo tanto o
primeiro quanto o segundo homem (Gn 3:5; Mt 4:8-10). Com a
arrogância, o ser humano se expõe à mesma censura que uma vez
atingiu Satanás.
3:7 — Convém também que tenha bom testemunho dos que estão de fora,
para que não caia em afronta, e no laço do diabo.
Como última exigência, é citado o testemunho favorável do
mundo. “De fora” estavam os que não pertenciam ao testemunho da
Igreja de Deus no mundo (veja 1 Co 5:12-13; Cl 4:5; 1 Ts 4:12). A
vida e o procedimento do presbítero devem ser “irrepreensíveis” (v.
2), a ponto de os que estão de fora darem bom testemunho dele. Se
censuras legítimas podem ser levantadas contra ele, o Senhor, a
Igreja e o serviço serão blasfemados perante o mundo. Assim, ele
ficará preso no laço do Diabo (veja 2 Tm 2:26). Por causa disso, ele
também não terá condições de se ocupar da alma dos crentes, pois
com razão poderia ser acusado de não ser vigilante o suficiente com
relação à própria vida. Se um irmão não leva a honestidade muito a
sério na vida comercial, por exemplo, e dá origem a críticas
legítimas por parte do mundo, ele não é apto para o episcopado.
Amarrado pelo laço do Diabo, não poderá resistir ao inimigo. A
“condenação do diabo” e o “laço do diabo”, portanto, são coisas
diferentes.
Os diáconos (3:8-13)
3:8-9 — Da mesma sorte os diáconos sejam honestos, não de língua dobre,
não dados a muito vinho, não cobiçosos de torpe ganância; guardando o
mistério da fé numa consciência pura.
A palavra “diáconos” (no grego, diakonos) é usada isoladamente
no Novo Testamento em sentido geral para indicar aqueles que
estão sujeitos a um contrato de serviço terrenal (Jo 2:5,9). Na
maioria das vezes, todavia, designa os servos de Deus ou do
Senhor (compare com 2 Co 6:4; 11:23; 1 Tm 4:6). Vários crentes
são denominados “servos” no Novo Testamento: Febe (Rm 16:1),
Tíquico (Ef 6:21; Cl 4:7) e Epafras (Cl 1:7). Em Filipenses 1:1 e aqui,
entretanto, a palavra é usada em uma conexão que não deixa
dúvida de que se trata de um grupo reconhecido de homens em
suas respectivas igrejas, à semelhança dos presbíteros, incumbidos
de determinadas tarefas.
É geralmente aceito que o cargo de servo ou diácono
corresponde ao serviço dos “sete” em Atos 6:1-6 (compare com At
21:8), embora em nenhum lugar sejam chamados “diáconos”.
Diferentemente dos presbíteros ou anciãos, esses sete homens de
Jerusalém foram eleitos pela multidão dos discípulos e postos diante
dos apóstolos, que, orando, lhes impuseram as mãos. Essa eleição
pela igreja talvez explique o fato de os diáconos não serem
mencionados na carta a Tito quando ele é incumbido de designar
anciãos em cada cidade. Já na primeira carta a Timóteo, que não
trata de nomeação, mas apenas das qualificações dos presbíteros e
diáconos, os dois cargos são mencionados.
O motivo para a eleição dos sete diáconos em Atos 6 foi a
murmuração dos crentes de língua grega, os helenistas, porque as
suas viúvas eram desprezadas nas refeições diárias, que deviam ter
a participação de todos. Para que os apóstolos não fossem
desviados da oração e do ministério da palavra, foram escolhidos
esses sete diáconos, dos quais Estêvão e Filipe são os mais
conhecidos. Sua tarefa consistia em cuidar das necessidades
externas dos crentes, de modo que ninguém passasse necessidade
(compare com 1 Tm 5:3-16).
Ao lado dos presbíteros, que eram responsáveis especialmente
pela ordem espiritual interna da igreja, os diáconos cuidavam do
bem-estar externo dos crentes, mas também serviam na Igreja de
Deus e a favor dela. O autor inspirado exige, por isso, o mesmo
cuidado que com os presbíteros na avaliação dos candidatos ao
serviço diaconal. No entanto, uma vez que o trabalho deles estava
mais relacionado com o bem-estar material dos crentes, não lhes
foram feitas exigências tão severas como aos anciãos, embora
algumas fossem idênticas.
Com base nisso, podemos presumir que os interesses externos
da igreja, que aos nossos olhos às vezes parecem tão
insignificantes, têm a sua importância aos olhos de Deus. Por isso,
devem ser tratados com a mesma seriedade e dedicação que o
serviço espiritual aos irmãos. Por essa razão, a dignidade é a
primeira qualidade exigida do diácono. Essa virtude também deve
caracterizar a sua esposa (v. 11) e em geral os homens mais velhos
(Tt 2:2). Por fim, todos os irmãos devem pensar em coisas dignas
(Fp 4:8).
Os diáconos também não devem ter a “língua dobre”, o que
aliás não é exigido expressamente dos presbíteros. Mas em
qualquer serviço sustentado pela justiça em palavras e atos é
evidente o prejuízo quando se fala com uma pessoa de um jeito e
com a próxima de outro ou quando se diz algo diferente do que se
pensa.
À semelhança dos presbíteros, os diáconos devem demonstrar
domínio próprio e não ser “dados a muito vinho”. A expressão aqui,
porém, não é tão forte. No entanto, em vez de dizer apenas “não
avarentos”, exige-se que os diáconos sejam “não cobiçosos de torpe
ganância”. Em Tito 1:7 e 1 Pedro 5:2, essa é uma característica
necessária também aos anciãos. No grego, “ser cobiçoso de torpe
ganância” é uma só palavra e certamente não significa que o servo
não deva perseguir um lucro desonroso por meio de fraude ou de
injustiça, e sim que já é vergonhoso fazer o seu trabalho com
intenções lucrativas. Quão necessário era esse pressuposto para
alguém a quem cabia principalmente a distribuição equitativa do
dinheiro dos santos e de outros bens materiais!
O versículo 9 salienta a importância e a sublimidade do serviço
dos diáconos. É comum pensar que a ocupação com as
exterioridades da vida como algo secundário, para a qual não seja
preciso um entendimento espiritual mais desenvolvido! O texto,
porém, mostra que o nosso Deus considera importante e
inseparavelmente unido à verdade por Ele revelada tudo que diz
respeito aos seus. Assim, os diáconos têm a obrigação de guardar o
“mistério da fé” numa consciência pura.
O mistério da fé não significa a compreensão pessoal ou o
entendimento da verdade da salvação, mas a verdade em si, “que
desde tempos eternos esteve oculto, mas que se manifestou agora,
e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento
do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé” (Rm
16:25-26; compare com 1 Co 2:7-16; Ef 3:2-11; Cl 1:26-28). Essa
verdade de Deus não está dirigida ao intelecto do homem —
embora seja recebida por ele —, mas ao coração e à consciência,
que são purificados por ela. Ali esse tesouro precisa ser guardado
fielmente.
Uma boa consciência é o único vaso adequado para isso. A
consciência é mencionada nesta carta aqui pela terceira vez (veja
1:5,19). É o “árbitro” oculto, que à luz de Deus avalia e, se
necessário, condena os nossos pensamentos, palavras e atos. O
diácono deve não apenas conhecer e possuir o mistério de Deus,
mas a sua vida e o seu procedimento prático devem estar em plena
concordância com ele. Só assim estará apto a cumprir as suas
tarefas de modo correto e decente.
3:10 — E também estes sejam primeiro provados, depois sirvam, se forem
irrepreensíveis.
Assim como nenhum novato podia ser presbítero (v. 6), na
escolha dos diáconos devia prevalecer a cautela espiritual. A
palavra traduzida por “provar” (no grego, dokimazein) significa
também “avaliar” ou “discernir” (Lc 12:56), “aprovar” (Rm 2:18),
“experimentar” (Rm 12:2; 1 Co 11:28), e assim por diante. Aqui não
se deve pensar em um exame ou em um tempo de experiência, e
sim na avaliação da pessoa inteira em sua maneira de proceder
diante do mundo e no meio dos crentes. Para isso, um tempo é
necessário. A credulidade precipitada, prematura, não é oportuna. é
nesse sentido que deve ser entendida a admoestação: “A ninguém
imponhas precipitadamente as mãos, nem participes dos pecados
alheios; conserva-te a ti mesmo puro” (5:22).
Quando se comprovava que o irmão sob exame era
irrepreensível, ele era autorizado a fazer o serviço. Lemos a respeito
de uma experimentação semelhante em 2 Coríntios 8:22, referente
a um companheiro de Tito, no caso de uma doação em dinheiro a
ser transportada.
A exortação desse versículo não se dirige a Timóteo, embora o
duplo uso do conjuntivo possa sugerir esta ideia. Os verbos “provar”
e “servir” estão na língua grega na forma do imperativo da terceira
pessoa do plural. Uma tradução mais precisa, portanto, seria: “Estes
devem [...] ser experimentados e depois devem (ou podem) servir”.
O fato de essas palavras estarem no presente, não no aoristo,
mostra que não se trata de uma única admoestação relativa a esse
caso específico, e sim de uma diretriz válida em geral.
3:11 — Da mesma sorte as esposas sejam honestas, não maldizentes,
sóbrias e fiéis em tudo.
As instruções relativas aos diáconos, que iniciam no versículo 8
e continuam no versículo 12, são interrompidas no versículo 11 pela
instrução: “Da mesma sorte as esposas...”. Embora aqui sejam
enumeradas características desejáveis para todas as irmãs (veja Tt
2:3-4), o contexto não permite pensar em uma exortação geral. Com
base nas palavras introdutórias semelhantes do versículo 8 (“Da
mesma sorte os diáconos...”), alguns comentaristas acreditam que a
orientação do versículo 11 estende-se tanto às mulheres dos
presbíteros quanto às dos diáconos. Depõe contra isso, no entanto,
o fato de que o versículo 11 está inserido nos requisitos para os
diáconos.
A opinião mais difundida, já manifestada pelos chamados pais
da igreja, é que aqui se fala de servas femininas ou “diaconisas”.
Como “prova” disso é mencionada a irmã Febe, que em Romanos
16:1 é identificada como serva da igreja em Cencreia. Mas não se
pode deduzir dessa única passagem no Novo Testamento, onde
uma irmã é chamada “diaconisa” (no grego, diakonos), em que
exatamente consistia o seu serviço, e menos ainda se ela ocupava
um cargo correspondente. A verdade é que o desejo de buscar uma
base bíblica para as instituições humanas na igreja levou os
estudiosos a enxergar em uma única passagem mais do que aquilo
que está escrito nela.
Há muitas tarefas para as irmãs solícitas na Igreja de Deus, as
quais, por meio de seu serviço silencioso, podem adquirir o título
honorífico de “diaconisa da igreja” (veja Rm 16:12; Fp 4:2-3; 1 Tm
5:10). Mas para isso não se necessita de uma nomeação oficial
como “irmã da igreja”. As mulheres citadas no versículo 11 não são
diaconisas da igreja, apenas as esposas daqueles de quem se fala
antes e depois.
No entanto, aquilo que no serviço dos presbíteros seria não só
desnecessário, mas também injusto, no caso dos diáconos é uma
prerrogativa importante, a saber, que as suas mulheres os ajudem
na execução de seu serviço. A questão é que nessa tarefa elas
ficarão sabendo de muitos detalhes pessoais e particulares dos
crentes e de suas famílias, por isso é necessário que possuam as
características exigidas pelos apóstolos. Elas devem ser “honestas”
(ou dignas) como os maridos, os diáconos (veja v. 8), e “não
maldizentes”, ou seja, que não passem adiante o que ouviram nem
o exponham de forma distorcida. Elas devem ser “sóbrias” no
sentido material e espiritual e “fiéis em tudo” que de alguma forma
lhes for confiado. Essas características correspondem mais ou
menos às exigências feitas aos diáconos (vv. 8-9).
3:12-13 — Os diáconos sejam maridos de uma só mulher, e governem bem a
seus filhos e suas próprias casas. Porque os que servirem bem como
diáconos, adquirirão para si uma boa posição e muita confiança na fé que há
em Cristo Jesus.
O apóstolo volta agora aos diáconos, que, como os presbíteros
(vv. 2,4) devem ser exemplares na manutenção da pureza do
matrimônio, segundo os propósitos de Deus, na educação dos filhos
e na responsabilidade pela sua casa. Isso tudo é especialmente
importante para aqueles que, no desempenho de seu serviço, têm
acesso às casas de muitos crentes e a informações sobre elas.
O diácono só poderá cumprir a sua tarefa se tiver muito amor,
paciência, fidelidade e dedicação. Mas ele deve aplicar essas
virtudes primeiramente em sua casa. Se essas prerrogativas forem
cumpridas, o diácono “serviu bem”. Ele demonstrou plena lealdade
ao seu Senhor em uma área talvez tida como secundária ou menos
sublime por alguns. Esse é o pré-requisito para que lhe seja
confiado algo mais. A expressão “muita confiança na fé” comprova
que não se trata do futuro, isto é da vinda do Senhor ou do tribunal
de Cristo, embora as palavras do Senhor em Mateus 25:29
certamente possam ser aplicadas aqui na prática: “A qualquer que
tiver será dado, e terá em abundância”. Dois exemplos disso são
Estêvão e Felipe, que estavam entre os sete primeiros diáconos da
igreja em Jerusalém.
Em Atos 6:8, é relatado que Estêvão, cheio de graça e de poder,
realizava prodígios e grandes sinais entre o povo. Ele foi
aprisionado pelos inimigos do evangelho, condenado e apedrejado
até a morte. Assim, tornou-se o primeiro mártir da Igreja de Deus.
Poderia ele alcançar uma “posição” melhor do que seguir ao seu
Senhor na morte, a saber, em uma situação semelhante à dEle
(compare At 7:59-60 com Lc 23:34,46)? Alguns comentaristas
querem ver nessa “boa posição”, um cargo de confiança na igreja ou
a promoção a um posto mais elevado. Como é triste, quando tudo é
medido apenas pelo padrão humano, se o mais importante é o que
o Senhor diz a respeito de nossa atividade!
Filipe é um exemplo de diácono que recebeu “muita confiança
na fé”. “Confiança” (no grego, parrhesia) significa, no original,
“intrepidez firme e alegre no falar”, mas depois também na atuação.
Em Atos 8:5, vemos Filipe pregar o Cristo aos samaritanos; no
versículo 12, ele anuncia o evangelho do Reino de Deus e do nome
de Jesus Cristo; no versículo 35, leva o evangelho de Jesus ao
mordomo-mor de Candace. Em Atos 21:8, ele é chamado “Filipe, o
evangelista, que era um dos sete”. Ele é o único homem
apresentado no Novo Testamento com esse título. Sem dúvida, um
belo exemplo para um diácono que “serviu bem” e adquiriu “muita
confiança na fé” em Cristo Jesus!
O comportamento na Igreja (3:14-16)
3:14-15 — Escrevo-te estas coisas, esperando ir ver-te bem depressa; mas,
se tardar, para que saibas como convém andar na Casa de Deus, que é a
igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade.
O apóstolo interrompe aqui as suas instruções para dar ao seu
jovem colaborador uma explicação importante e útil. Paulo tinha
esperança de retornar em breve a Éfeso de sua viagem à
Macedônia. Todavia, ele não estava seguro se esse desejo iria se
cumprir. Mas como no íntimo se preocupava muito com Timóteo e
com a igreja de Éfeso, escreveu essa carta.
Vemos nesse exemplo a combinação harmoniosa entre as
motivações humanas dos autores do Novo Testamento e a
inspiração do Espírito de Deus. Esse “elemento humano na
inspiração”, como já foi chamado, não é uma prova contra a
inspiração divina da Santa Escritura. Pelo contrário, depõe a favor
da ideia de que os autores não escreveram mecanicamente, como
robôs, mas foram usados por Deus, cada um de acordo com acordo
com o seu caráter, a sua capacidade e as suas intenções, para
produzir a Palavra sem erros e infalível.
A intercalação dos versículos de 14 a 16 é importante, porque
neles são apresentados em breve palavras o propósito e o conteúdo
de toda a carta. A expressão “estas coisas” não se refere apenas às
instruções a respeito dos presbíteros e diáconos (3:1-13) ou apenas
dos últimos (vv. 8-13), mas a todo o conteúdo da carta. Três coisas
se destacam nos versículos 14 e 15:
a responsabilidade referente ao nosso comportamento;
o caráter da Igreja como Casa de Deus;
o mistério da vida devotada a Deus (em piedade).
Timóteo foi incumbido de uma tarefa de grande responsabilidade
em Éfeso. Para isso, ele tinha de entender os propósitos de Deus e
precisava de energia espiritual. Mas o entendimento dos propósitos
divinos estava em primeiro lugar. Por isso, Paulo lhe escreve: “Para
que saibas...”. Sem saber isso, era impossível a Timóteo, como
também ao cristão de hoje, comportar-se da maneira correta na
Casa de Deus.
O conhecimento necessário ao comportamento correto na Casa
de Deus está contido de modo especial nessa primeira carta de
Paulo a Timóteo. Ela trata da ordem externa na Igreja — não
apenas do que está diretamente relacionado com as reuniões e com
a ordem espiritual, mas com a vida dos que pertencem a essa casa,
em todos os aspectos.
No capítulo 1, é discutida uma questão básica: se a lei pode ser
a norma para tal, e a resposta é não. O cristão está na graça de
Deus e debaixo dela. No capítulo 2, segue o tema da atitude correta
diante do mundo (vv. 1-7) e no matrimônio (vv. 8-15), que deve ser
caracterizada pela oração. No capítulo 3, são indicados os pré-
requisitos para o serviço na igreja local. No capítulo 4, seguem
outras instruções, mais pessoais, sobre o tratamento a se dispensar
aos falsos mestres e às suas falsas doutrinas e sobre o ministério
de Timóteo na igreja. No capítulo 5, fala-se da assistência às viúvas
na igreja, e são respondidas perguntas específicas referentes ao
serviço. No capítulo 6, o autor discorre novamente sobre a esfera
mais ampla das obrigações e responsabilidades no mundo e conclui
com o desafio de guardar o bem precioso da verdade, que nos foi
confiado.
A essência do conteúdo, em torno da qual tudo gira, é Cristo, o
“mistério da piedade”. Esses ensinamentos, na verdade, visam dar
uma resposta à situação particular Timóteo, porém não valem
apenas para ele, pois o apóstolo escreve conscientemente: “... para
que saibas como convém andar na Casa de Deus”. Essas palavras
se dirigem, portanto, a cada um que tenha o seu lugar na Casa de
Deus.
Essa Casa de Deus é a Igreja do Deus vivo, na qual Deus vive
(1 Co 3:16; 2 Co 6:16; Ef 2:22). Uma vez que Deus, no Antigo
Testamento, fixou a Sua morada primeiramente na figura da Tenda
da Congregação, mais tarde na do Templo e só então nos homens,
depois de comprar para Si um povo como Sua propriedade, a Igreja
como Casa de Deus foi fundada sobre a obra redentora de Cristo e
na descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes. Quando
consideramos a Igreja de Deus a Noiva ou Esposa de Cristo, é-nos
apresentado principalmente o amor do Senhor pelos Seus. Quando
vemos a Igreja como Corpo de Cristo, então a unidade de cabeça e
membros está em primeiro plano.
A Casa de Deus mostra-nos, de um lado, o divino Mestre de
obras e as pedras vivas e, de outro lado, a autoridade daquEle que
nela reside. Mostra-nos também a ordem a ser seguida nessa casa
e, em consequência disso, a responsabilidade daqueles que fazem
parte dela ou, como aqui, nela se encontram. A Casa de Deus, por
conseguinte, é aqui a totalidade daqueles que professam a Cristo,
mas essa profissão ainda é viva, como vemos nos primeiros
capítulos de Atos.
No início, o Corpo de Cristo e a Casa de Deus consistiam dos
mesmos homens salvos. Mas no decorrer do tempo isso se mudou,
porque muitos, de acordo com a sua profissão, pertencem à casa,
mas não são nascidos de novo nem foram selados pelo Espírito
Santo. Por isso, na segunda carta a Timóteo, a igreja é comparada
a uma casa grande, na qual se encontram vasos para honra e
também para desonra do Dono da casa. Mas a Casa de Deus
permanece. Por isso, as regras de conduta são válidas ainda hoje. A
Igreja será sempre a casa ou morada de Deus e “a coluna e a
firmeza da verdade”.
A Casa de Deus aqui é chamada “a igreja do Deus vivo”. Em
contraste com os ídolos mortos e os seres humanos mortais, Ele
vive é a fonte de toda vida de eternidade a eternidade. No meio da
escuridão do paganismo e do fracasso do judaísmo, Ele separou a
Sua Igreja para si, a fim de que ela seja neste mundo a coluna e a
firmeza da verdade. Cristo mesmo é a verdade (Jo 14:6), a Palavra
de Deus Pai é a verdade (Jo 17:17) e o Espírito Santo é o “Espírito
de verdade” (Jo 16:13) e também a verdade (1 Jo 5:6). A Igreja foi
chamada para revelar toda a verdade de Deus no mundo e diante
dele. Ela tem a grande obrigação de manifestar a verdade em todos
os seus atos.
Isso implica uma grande responsabilidade para todos os que
pertencem à Igreja do Deus vivo. Enquanto a Igreja estiver na terra,
ela é e permanece coluna e firmeza, por meio das quais a verdade
de Deus se torna visível. Embora não seja a verdade, como já
vimos, só a Igreja foi chamada neste mundo para dar testemunho
dessa verdade. A Igreja também não instrui, como afirma certa
vertente teológica, mas é instruída pela Palavra de Deus e pelos
dons que o Senhor lhe concedeu e tem a tarefa de expor e
representar publicamente a doutrina que é segundo a verdade.
Os soberanos da Antiguidade mandavam cinzelar as suas
vitórias — e às vezes também os seus princípios e objetivos — em
colunas de pedra esculpidas artisticamente e de livre acesso, para
que todos pudessem lê-las. De igual modo, a Igreja é a coluna na
qual a verdade é gravada e tornada visível diante de um mundo, que
não crê no Senhor Jesus.
A palavra “firmeza” só aparece nessa passagem no Novo
Testamento. É derivada de um adjetivo que significa “firme”,
“seguro”. A Igreja, portanto, é também o fundamento seguro no qual
a verdade de Deus deve repousar. “Assim, a presença do Deus vivo
e o testemunho da verdade são as marcas da Casa de Deus. Onde
quer que esteja essa Igreja do Deus vivo e onde quer que se
encontre a verdade, aí está a Sua casa”.1
3:16 — E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se
manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos
gentios, crido no mundo, recebido acima na glória.
O versículo 16 encerra essa breve, mas importante, seção e
representa o centro da carta. No versículo 9, já foi mencionado o
“mistério da fé”, que significa a verdade objetiva da fé. Já o “mistério
da piedade” é a fonte de poder e a mola propulsora de tudo aquilo
que o crente individualmente e a igreja têm a manifestar diante do
mundo. Em contraste com as especulações humanas denunciadas
em 4:1-3, esse versículo põe a pessoa de Cristo no centro da vida.
O mistério da piedade não é o mistério da Divindade nem da
pessoa de Cristo. A palavra grega eusebeia pode ser traduzida
também por “mistério da piedade”. Ela aparece oito vezes na carta
(veja 2:2) e significa na realidade “correta adoração [a Deus]” e
designa a dedicação da alma a Deus em confiança e temor a Ele. O
mistério da piedade também não é um segredo, e sim, como em
quase todo o Novo Testamento, algo que esteve oculto, mas então
foi revelado e pode ser entendido por todos os que nasceram de
novo e receberam o Espírito Santo.
O ponto de partida e a fonte de poder para o comportamento
correto na Casa de Deus não é uma doutrina, mas uma pessoa: o
Filho de Deus, que se tornou homem. De fato, sem a verdade, que
Israel já possuía parcialmente, não pode haver uma correta
adoração a Deus, mas o mistério da piedade, agora revelado, é a
pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus, digno de adoração. Não
há dúvida quanto à grande importância desse mistério. Em seguida,
são descritos não os privilégios dos filhos de Deus e as bênçãos
celestiais que desfrutam, e sim as bases do relacionamento entre
Deus e os homens.
Aqui, como em toda a carta, são mencionadas verdades
significativas para o testemunho que a Igreja, a Casa de Deus, deve
dar a este mundo. As seis declarações sobre a pessoa do Filho de
Deus obedecem mais a uma sequência moral que a uma ordem
cronológica e podem ser divididas em três grupos. As duas
primeiras referem-se à sua vida e atuação na terra; as duas
seguintes descrevem os seus efeitos sobre toda a criação
inteligente; as duas últimas mostram os resultados definitivos de
Sua manifestação em carne.
A primeira das seis declarações transmitida aqui difere um
pouco dos manuscritos mais antigos. Pesquisas mais recentes em
trono desse texto confirmam os seguintes fatos:

Nenhum dos grandes manuscritos unciais2 (A; C) menciona em primeira


mão a palavra “Deus”.
Todas as traduções antigas estão baseadas na expressão “o qual” (ou
“a qual”).
Antes do final do século IV, nenhum dos pais da igreja confirma a
palavra “Deus” nessa passagem.

A mudança do pronome “o qual” para o substantivo Deus,


realizada mais tarde nos manuscritos mencionados e que na maioria
dos outros manuscritos foi aceita desde o princípio, pode ser
explicada facilmente, por duas razões. Primeira: o pronome podia
facilmente ser substituído pela palavra “Deus”, no caso de um erro
de leitura ou de cópia. Segunda: a inserção da palavra “Deus” pode
ter sido motivada pelo desejo da igreja de expressar uma afirmação
doutrinária inequívoca.
Se analisarmos a variante de leitura mais bem atestada, chegaremos logo à
feliz descoberta de que o uso do pronome relativo nesse contexto é bem
mais exato, porquanto pressupõe a mesma verdade (como o uso da palavra
“Deus”). Pois que sentido teria dizer que Adão, Abraão, Davi, Isaías, Daniel
ou qualquer outro homem se manifestou em carne? Se um anjo se
manifestasse dessa forma, seria uma insurreição contra a ordem divina. Para
o homem como tal, não há outro caminho que o da carne. O mais poderoso e
sábio, o mais talentoso orador, poeta, soldado ou político, assim como o mais
insignificante dentre os nascidos de mulheres são apenas carne. Mas não o
único Mediador entre Deus e os homens. Ele se humilhou, na verdade, para
ser homem, no entanto era essencial e eternamente Deus.3
Foi o Deus vivo e eterno quem “se manifestou em carne”. Em
João 1:14, temos uma declaração semelhante: “O Verbo se fez
carne, e habitou entre nós”. E antes disso o testemunho é muito
claro: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o
Verbo era Deus” (Jo 1:1). Para se tornar o Mediador entre Deus e os
homens, o Filho teve de se fazer em tudo igual aos irmãos. Assim,
Ele veio ao mundo na semelhança da carne do pecado e para o
pecado, e Deus condenou nEle o pecado na carne — nEle, que não
conheceu o pecado nem praticou pecado algum e em quem não
havia pecado (Rm 8:3; 2 Co 5:21; 1 Pe 2:22; 1 Jo 3:4). Só nEle o
amor e a santidade de Deus foram plenamente revelados (Jo 6:69;
14:9), e só nEle habitava toda a plenitude da Divindade (Cl 1:19).
Ele é o Senhor digno de adoração!
“Justificado no Espírito” diz respeito a toda a vida do Senhor
Jesus na terra. Ele não apenas foi gerado pelo Espírito Santo (Lc
1:35), mas também foi ungido e selado pelo Espírito (At 10:38; Jo
6:27). O Espírito Santo habitava e atuava no Senhor Jesus, que
como homem não tinha pecado algum, como um vaso puro, e era
inteiramente dedicado à honra de Deus (Mt 3:16-17; Jo 1:32-34).
Em nós, que somos seres pecaminosos por natureza, isso só pode
acontecer depois de termos crido na obra de salvação de Cristo e
de sermos purificados por meio dela (2 Co 1:21-22; Ef 1:13-14).
“Justificar” aqui não significa “fazer justo”, como na carta aos
Romanos, e sim “provar ou demonstrar ser justo”, como na carta de
Tiago. Cristo foi em tudo o homem reconhecido e confirmado por
Deus por meio do Espírito Santo, tanto em Seus atos (Lc 4:1,14; Mt
12:28) e em Sua obra expiatória (Hb 9:14) quanto em Sua
ressurreição (Rm 1:4; 1 Pe 3:18).
Ele, o Deus invisível, foi “visto dos anjos” durante e após a Sua
manifestação em carne. Imagine o que significou para essas
criaturas, posicionadas acima dos homens, ver o seu Criador pela
primeira vez em uma manjedoura de Belém! Os anjos foram
testemunhas de Suas tentações (Mc 1:13), de Sua luta em oração
no Getsêmani (Lc 22:43) e de Sua ressurreição (Jo 20:12). E, agora
que está assentado à direita da Majestade nas alturas, Ele e Sua
obra continuam a ser objeto de contemplação e adoração dos anjos
(Ef 3:9-10; 1 Pe 1:12; Ap 5:11-12).
“Pregado aos gentios” mostra o contraste entre o tempo atual e
a era do judaísmo sob a lei. Nosso Deus Salvador, que deseja que
todos os homens sejam salvos, enviou para isso pregadores do
evangelho, e adiante de todos eles o apóstolo Paulo, doutor dos
gentios (Gl 2:8-9; 1 Tm 2:7).
As duas últimas afirmações mostram os resultados da
manifestação do Filho de Deus. Ele é “crido no mundo” porque
agora é o objeto da fé para o mundo. Não foi o aguardo do Messias,
nutrido pelos judeus, que se cumpriu em primeiro lugar, mas o
convite do Senhor feito aos Seus discípulos em João 14:1: “Credes
em Deus, crede também em mim”. É certo que em breve Ele irá
exercer o Seu domínio sobre Israel e sobre todas as obras de Suas
mãos, porém o relacionamento entre Ele e os homens não se
baseia mais em ver e contemplar, e sim na fé. Só pela fé os
homens, para os quais Ele veio, podem reconhecê-lO e recebê-lO.
Ele foi “recebido acima na glória”. A palavra “recebido” é usada
cinco vezes no Novo Testamento para descrever a ascensão do
Senhor (Mc 16:19; At 1:2,11,22). Ele foi ressuscitado dos mortos
pela glória do Pai (Rm 6:4), mas depois que subiu ao céu a Sua
glória tornou-se, acima de tudo, visível. A expressão “na glória” (no
grego, em doxe) não designa o alvo, e sim as condições de Sua
recepção. A glória iluminou-O quando Ele subiu. A nuvem que O
recebeu e O ocultou dos olhos dos discípulos era a nuvem da glória
de Deus, a Shekinah (At 1:9; compare com Mt 17:5; 2 Pe 1:17). O
recebimento do Senhor em glória foi a resposta de Deus, o Pai, à
Sua obra (Jo 13:31-32; 17:4-5).
A descrição do mistério da piedade começa com a encarnação
do Filho de Deus eterno e termina com a recepção do homem
glorificado, Cristo Jesus, no céu. A verdadeira piedade baseia-se
nessa Pessoa e nos fatos por Ele comunicados. Cristo, o Filho do
Deus vivo, é o mistério da piedade. Esse mistério esteve oculto até
a cruz do Calvário e também agora não é reconhecido pelo mundo.
Só no poder desse mistério a igreja tem condições de corresponder
à sua responsabilidade como coluna e firmeza da verdade, e só no
poder desse mistério o crente individual pode se comportar de
maneira correta na Casa de Deus.
1 John Nelson Darby, Synopsis of the Books of the Bible.
2 Escritos em koiné maiúsculo. Para outros esclarecimentos sobre essa questão textual, veja Nestle-Aland,
Novum Testamentum Graece (27. ed.).
3 Willam Kelly, An Exposition of the Two Epistles to Timothy.
CAPÍTULO 4
D
Doutrinas perigosas (4:1-5)
4:1 — Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão
alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de
demônios [...]
Em nítido contraste com os dois últimos versículos do capítulo
precedente, o apóstolo passa a discorrer sobre os desvios religiosos
entre os cristãos, que ele como apóstolo e profeta (veja Ef 2:20) já
prevê agora.
O Espírito Santo, como Procurador vindo do Pai, estabeleceu a
Sua habitação em cada crente individualmente e na Igreja como um
todo (Jo 14:16-17; 1 Co 3:16; 6:19). Ele veio para guiar os filhos de
Deus a cada passo, introduzi-los em toda a verdade e comunicar-
lhes o que ainda há de vir (Rm 8:14; Gl 5:18; Jo 16:13). Já no tempo
de Paulo, por uma revelação pessoal feita ao apóstolo ou por meio
de Sua atuação na Igreja, o Espírito Santo apontou expressamente
os perigos que surgiriam na Casa de Deus nos últimos tempos, isto
é, o período que se seguiria àquela época. O apóstolo Paulo então
comunica esses perigos a Timóteo.
Os “últimos tempos” não se referem a um período tão remoto
quanto os “últimos dias” de 2 Timóteo 3:1 e 2 Pe 3:3 ou os “últimos
tempos” de Judas 18. A razão disso é que aqui Paulo ainda se
refere a “alguns”, como em 1:3,6,19. A palavra “homens”, que ocorre
em 2 Timóteo 3:2, indica que a decadência irá se acentuar.
A Igreja, vista como um todo, apresenta a característica de Casa
de Deus. Mesmo assim, em pouco tempo “apostatarão alguns da
fé”. Já na época da redação da carta alguns haviam naufragado na
fé (1:19) ou se desviado dela (1:6; 6:10,21). Mas a apostasia da fé
por parte de alguns, prognosticada aqui, baseia-se nitidamente na
decisão voluntária de rejeitar as verdades básicas da fé cristã e
aceitar em troca doutrinas de origem demoníaca.
Pode existir apostasia entre os crentes? A Palavra de Deus
afirma de modo inequívoco que alguém que creu no Filho de Deus e
com isso nasceu de novo não perece, mas tem a vida eterna (Jo
3:16; 10:28-29; Rm 8:31-39). Afirmar — como infelizmente às vezes
acontece — que alguém que nasceu de novo ainda pode perecer é
uma deturpação da Santa Escritura. Isso significaria que alguém
que nasceu de Deus e por isso se tornou um filho dEle (Jo 1:12-13),
membro do Corpo de Cristo e pedra viva na casa espiritual de Deus
(1 Co 12:27; 1 Pe 2:5) e que possui o selo do Espírito Santo (Ef
1:13-14) pode perder todos esses privilégios! Dá para imaginar isto:
hoje filho de Deus e amanhã perdido? Hoje um membro vivo do
Corpo de Cristo e amanhã extirpado dele? Não, tais ideias estão em
evidente contradição com a doutrina do Novo Testamento.
No entanto, outro aspecto da vida cristã é a profissão dessas
coisas e o viver por elas. João escreve a respeito de pessoas que
afirmam ter comunhão com Deus, que conhecem a Deus e que
estão na luz (1 Jo 1:6; 2:4,9 etc.). De modo semelhante, lemos em
Tiago 2:14: “Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem
fé, e não tiver as obras?”. Sim, é possível alguém se apegar, talvez
por muito tempo, à verdade cristã e manifestá-la externamente, de
acordo com a sua profissão de fé e o seu estilo de vida, mas sem ter
sido de fato salvo por meio do arrependimento e da fé na obra de
salvação de Cristo. Um dia, ele virará as costas para a verdade,
como aqueles judeus que no início foram conduzidos à profissão do
cristianismo, porém apenas externamente (veja Hb 6:4-8; 10:26-31).
É possível também aceitar o cristianismo como qualquer filosofia
ou ideologia humana, sem que a consciência tenha entrado na luz
de Deus. E, no momento em a pessoa negar as verdades
fundamentais da Palavra de Deus para chegar a conhecimentos
“mais elevados”, ela estará apostatando da fé. A fé (aqui novamente
com o artigo, como em 1:19; 3:9) é a totalidade das verdades da
salvação, a herança da fé.
Essa apostasia de alguns não deve ser confundida a apostasia
geral que, de acordo com 2 Tessalonicenses 2:3-12, há de abranger
o cristianismo nominal, morto sob a liderança do “homem do
pecado”, o Anticristo, após o arrebatamento da Igreja. Mas, a
exemplo do apóstolo João, que já na época reconhecia o espírito do
Anticristo em muitas pessoas, que professavam o cristianismo
apenas na aparência (1 Jo 2:18), Paulo escreve que o “mistério da
injustiça” já operava (2 Ts 2:7). Por conseguinte, quão importante
era — e é — a adesão fiel ao “mistério da piedade” (3:16) como
forma de se prevenir da apostasia iniciada com alguns!
Em seguida, o apóstolo cita as forças propulsoras invisíveis do
mal, por meio das quais esses homens são seduzidos: “espíritos
enganadores” e “doutrinas de demônios”. Os espíritos fraudulentos
ou enganadores são forças operantes nos homens, pelas quais o
Diabo se manifesta. O apóstolo João escreve: “Amados, não creiais
a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus” (1 Jo 4:1).
Nem lá nem aqui a palavra “espírito” se refere ao espírito humano,
mas apenas aos espíritos satânicos, que usam as pessoas como
suas ferramentas.
“Doutrinas de demônios” não significam ensinamentos a respeito
dos demônios, e sim os que saem deles. Os demônios são espíritos
maus (veja Ap 16:13-14). São ferramentas de Satanás (veja Mt
12:24-29) que no tempo da apostasia de toda a cristandade nominal
terão a sua habitação diretamente nela. Em Apocalipse 18:2 lemos:
“Caiu, caiu a grande Babilônia, e se tornou morada de demônios, e
coito de todo espírito imundo”. A influência dos espíritos
enganadores e dos demônios tem sido menosprezada nos dias de
hoje, porém é muito difundida por meio do espiritismo e do
ocultismo.
4:2 — [...] pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a
sua própria consciência [...]
A frase “pela hipocrisia de homens que falam mentiras” também
pode ser traduzida por “que na hipocrisia falam mentiras”. No
primeiro caso, deparamos com homens que proferem mentiras não
exatamente como vítimas de engano, mas como ferramentas dos
espíritos sedutores. Na segunda possibilidade de tradução, são os
demônio que, agindo com hipocrisia, proferem mentiras. A frase que
se segue, portanto, depende gramaticalmente de “demônios”.
As duas possibilidades devem ser harmonizadas, pelo fato de
que o Espírito Santo aqui identifica os demônios e suas ferramentas
um com o outro (compare com Mc 1:23-26; Lc 4:31-36; 8:27-33) e
na sequência muda o foco dos demônios para os homens possuídos
por eles — homens que tiveram a própria consciência cauterizada.
Os sedutores dão a aparência de piedosos, mas sob a máscara da
hipocrisia falam mentiras, para subjugar as almas das pessoas a
Satanás, ao pai da mentira. É assim que eles têm a consciência
cauterizada, como por um ferro de frisar.
A frase “cauterizada como por um ferro de frisar” é a tradução
de uma única palavra grega, cujo significado não é fácil averiguar.
Ela só aparece neste lugar no Novo Testamento. William Kelly a
traduz por branded (“queimado”, “temperado”). Na tradução do Novo
Testamento de John Nelson Darby para o inglês, consta cauterized
(“cauterizado”). Frederick William Grant utiliza a palavra seared
(“chamuscado”, “cauterizado”). Martinho Lutero, Hermann August
Menge e Carl Heinrich von Weizsäcker usam a palavra
“queimadura”. A maioria dos comentaristas pensa também em
algum tipo de estigmatização, pois na Antiguidade costumava-se
marcar a ferro os escravos e os criminosos (estes na testa).
Diante do exposto, esses hereges serão marcados como
pecadores e inimigos de Deus, ainda que não externamente, mas
em sua consciência. Em suma, isso significa que eles já trazem em
si o sinal da condenação, visível não só a eles próprios, mas
também aos outros. Ou ainda, eles estão marcados como escravos
de pecados ocultos. Mais evidente e sensata, no entanto, é a ideia
que se evidencia nas palavras “cauterizada como por um ferro de
frisar”. A consciência desses sedutores já não é pura nem sensível,
mas se tornou endurecida, porque eles se encontram consciente e
permanentemente em contradição com Deus e sua Palavra.
4:3 — [...] o casamento, e ordenando a abstinência dos alimentos que Deus
criou para os fiéis, e para os que conhecem a verdade, a fim de usarem deles
com ações de graças [...]
As doutrinas de origem demoníaca às quais Paulo se refere no
versículo 1 têm os seus efeitos na vida prática de seus adeptos, da
mesma forma que a doutrina de Cristo influencia os seus
seguidores. A diferença é que aquelas estão em crassa oposição à
verdadeira doutrina, “que é segundo a piedade” (6:3). Paulo resume
falsas doutrinas em duas ordenanças: a de não se casar e a de não
consumir determinados alimentos. A omissão do segundo verbo
“ordenando”, que seria de rigor aqui, já ocorre em 2:12 e
corresponde ao antigo uso linguístico traco-grego.
Essas doutrinas, na realidade, tinham a sua origem no judaísmo.
Isso se deduz das prescrições referentes à circuncisão, aos dias
festivos e aos alimentos, já mencionados na carta aos Colossenses
(Cl 2). Os membros da seita judaica dos essênios, que teve a sua
sede em Qumran, à margem do mar Morto, observavam ainda o
celibato, e a essa base foram acrescentadas outras ideologias
filosóficas, que não eram de origem judaica. Na Ásia Menor, as
barreiras entre os cidadãos judeus e não judeus já não eram muito
separatistas. A convivência em sociedade levou a uma mescla
religiosa judaico-greco-pagã (sincretismo).
Essa tendência filosófica teológica, que ficou conhecida como
gnosticismo, na verdade só alcançou o seu pleno desenvolvimento
na cristandade no século II, mas os seus começos já podem ser
reconhecidos aqui e nas cartas de João. O gnosticismo ensina a
uma elite intelectual um “conhecimento” mais elevado (no grego,
gnosis), por meio do qual a alma se liberta das algemas da matéria
e é conduzida às regiões mais elevadas da verdade e da luz. Em
alguns dos diversos sistemas gnósticos, manifestava-se o desdém
por tudo que fosse material, e era grande a severidade com relação
ao corpo humano. Acreditava-se que ascese corporal e o
enriquecimento espiritual eram interdependentes. Mas essas
especulações satânicas tinham apenas um objetivo: distanciar a
alma do Deus vivo.
A base da vida familiar e da sociedade divinamente instaurada,
o matrimônio (veja Gn 1:28; 2:18-25), foi a primeira coisa a ser
desprezada. Se alguém, por amor ao Senhor e com o desejo de
servi-lO melhor e sem estorvo, deixa de se casar, essa decisão é
correta e será abençoada (veja 1 Co 7). Mas quando um caso
isolado como esse é transformado em um princípio e a exceção se
torna regra, então há desprezo pela Palavra de Deus, a consciência
humana é dominada e destrói-se a base da fé.
O mesmo acontece com o mandamento de se abster de
alimentos. Deus deu ao homem mandamentos referentes aos
alimentos (Gn 1:29; 2:16; 9:2-4), dentre os quais apenas o consumo
de sangue foi e ainda é proibido (veja At 15:20). Quem deixa de lado
essas disposições divinas agride diretamente a autoridade do livro
de Gênesis e, com isso, a Palavra de Deus. Tal homem se põe em
clara contradição com a fé, porque quer obter a santidade indo um
caminho errado e sob uma pretensa comunicação com Deus. A
santidade, no entanto, Ele pode e quer dar exclusivamente àquele
que, em uma simples fé obediente, se submete à Sua vontade
revelada na Santa Escritura.
Nas funções e necessidades naturais da vida humana não há
em si nada que nos separe de Deus. Sem dúvida, a sexualidade e a
vontade de comer — como quase tudo em nossa vida — pode nos
levar ao pecado. Mas como essas coisas foram dadas por Deus,
não são ruins em si, se reconhecermos e respeitarmos a ordem
divina na qual estão encaixadas. Se reconhecermos a construção
de nosso corpo como algo preparado por Deus, podemos aceitar
com gratidão também o impulso sexual e a alimentação como
prescritos por Ele e até considerá-los um vínculo que nos mantêm
na fé e na dependência dEle. Naturalmente, isso vale apenas para
“para os fiéis, e para os que conhecem [ou reconhecem] a verdade”.
Quem está longe de Deus ou ainda não se reconciliou com Ele por
certo não irá reconhecer motivos de gratidão nos dons exteriores.
4:4-5 — [...] porque toda a criatura de Deus é boa, e não há nada que
rejeitar, sendo recebido com ações de graças. Porque pela palavra de Deus e
pela oração é santificada.
Tudo que provém de um Deus Criador bom, não pode ser
diferente de bom. Esse princípio está em contraposição ao engano
daqueles que viam o mal em tudo que fosse matéria, e iam tão
longe a ponto de atribuir à própria criação a um “deus” ou um
“demiurgo” ruim ou imperfeito. O que Deus dá deve ser recebido
com ações de graça, porque é bom. Para o crente, que reconhece a
verdade, tudo é santificado pela Palavra de Deus e pela oração.
O povo de Israel não podia consumir todos os alimentos, de
acordo com o próprio mandamento de Deus (veja especialmente Lv
11). Já os povos pagãos ou seguem os seus impulsos naturais ou
são tão comprometidos com as próprias prescrições religiosas que
preferem morrer de fome a matar uma “vaca sagrada”. Para o
cristão, entretanto, não existe nenhuma limitação além da proibição,
já mencionada, ao consumo de sangue, como a Palavra de Deus
nos orienta em várias passagens (veja Mt 15:11; Rm 14:14; 1 Co
10:27; 1 Tm 6:17).
As palavras da Santa Escritura deixam claro que toda criatura é
santificada para o consumo. Santificar significa que alguma coisa é
separada para um determinado fim escolhido por Deus. Assim, o
cristão que adotou sem necessidade o regime vegetariano
demonstra não se importar com essa disposição divina.
No entanto, o alimento não é santificado objetivamente apenas
pela Palavra de Deus. O texto menciona ainda uma santificação
subjetiva, obtida por meio da oração. Com isso, não se tem em
mente apenas o agradecimento nas refeições, mas também o
grande privilégio que o crente tem de se aproximar de Deus, o Pai,
com toda liberdade, em razão da obra da salvação operada por
Cristo, porque ele conhece a Sua graça e o Seu amor e os
experimenta no dia a dia. Por causa dessa comunhão íntima, ele
pode reconhecer as coisas aparentemente mais simples como
dádivas de um Pai cuidadoso, que também não poupou a maior de
todas as dádivas, o Seu único Filho, que entregou por todos nós.
Pré-requisitos para um bom ministro (4:6-16)
4:6 — Propondo estas coisas aos irmãos, serás bom ministro de Jesus
Cristo, criado com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido.
No grego, o pronome indicativo “estas” está no plural e pode ser
traduzido também por “estas coisas” [como na versão bíblica que
utilizamos] (assim também 3:14; 4:11,15; 5:7,21; 6:11). Além disso,
sempre se refere aos pontos de vista da verdade já citados a
respeito do comportamento. Se Timóteo apresentasse “estas coisas”
aos irmãos, estaria se provando um bom ministro de Jesus Cristo,
em contraposição aos hipócritas que proferiam mentiras.
Diferentemente de 3:8-13, aqui a palavra “ministro” (no grego,
diaconos) ou “servo” deve ser entendida em sentido geral.
A palavra “criado” significa também “alimentar” e aparece no
Novo Testamento só aqui. Não está, como algumas traduções
sugerem, no tempo passado, mas no presente (particípio presente
passivo), por isso não indica um ato concluído, e sim um processo
contínuo ou universal.
Os meios auxiliares para essa criação ou nutrição são “as
palavras da fé e da boa [no grego, kalos] doutrina”, que Timóteo
seguiu rigorosamente (sobre a palavra “seguido” compare com Lc
1:3; 2 Tm 3:10). A “boa doutrina”, que já aparece assim em 1:10 e
em conexão com as heresias de 4:1, é encontrada de novo em
4:13,16, 5:17 e 6:1,3. Enquanto a fé designa mais o conteúdo e o
assunto da verdade, a doutrina representa mais a forma, ou seja, a
estrutura em que a verdade é comunicada.
Da mesma forma que Timóteo, todo cristão deve conhecer a
verdade, não apenas recebê-la com a razão, mas em silêncio no
coração e na consciência. Os meios para essa criação espiritual não
são apenas a fé (isto é, a verdade da salvação; veja v. 1) ou a
doutrina isoladamente, mas também as palavras da fé e da boa
doutrina. O conteúdo e a forma da verdade divina estão unidos de
maneira inseparável (veja 1 Co 2:12-13).
Esse quadro de “sãs palavras”, como Paulo chama na segunda
carta, jamais poderá ser estudado ou seguido o bastante, porque
mais e mais tesouros de sabedoria e de conhecimento virão à luz. A
ocupação com as palavras da fé e com a sã doutrina em oração e
introspecção é a base de uma nutrição e de uma criação espiritual
boa e saudável, que é uma prerrogativa para o crescimento
espiritual, mas não a única: outra condição imprescindível para o
crescimento espiritual consiste em pôr em prática na vida de fé
diária o que foi aprendido e conhecido. Mas é exatamente nesse
ponto que fracassamos com frequência. Esse é um dos motivos da
pobreza e fraqueza espirituais. O servo do Senhor que não pratica o
que prega não possui autoridade moral.
Timóteo só poderia se apresentar como um bom ministro de
Cristo, com autoridade espiritual, se reconhecesse na própria vida a
autoridade absoluta das palavras da fé e da sã doutrina.
4:7 — Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas, e exercita-te a ti mesmo
em piedade [...]
Em contraste com as “palavras da fé” e com a “boa doutrina”, o
apóstolo menciona as “fábulas profanas e de velhas” (veja 6:20; 2
Tm 2:16), que Timóteo deve rejeitar com toda firmeza. Com essa
expressão, Paulo muito provavelmente não está se referindo às
doutrinas de demônios citadas no versículo 1, que só surgiriam mais
tarde. Entretanto, já em 1:3-4 lemos sobre outras doutrinas,
“fábulas” e “genealogias intermináveis”, que eram divulgadas em
Éfeso e que, em vez de edificar, apenas provocavam contendas. É
dessas fábulas que o apóstolo fala aqui (compare com Tt 1:14).
Segue-se a frase “e exercita-te a ti mesmo em piedade”. A
piedade abrange todos os nossos relacionamentos com Deus
(compare com o comentário de 2:2). Ela consiste na comunhão com
Deus e na prática que envolve as nossas palavras e atos
subsequentes a ela. Nesse sentido, Timóteo deve se exercitar. Para
isso, ele precisa, por um lado, rejeitar tudo que se oponha ao seu
relacionamento com Deus. Por outro lado, o desejo pela Palavra de
Deus, pela oração e pela meditação, bem como pela comunhão com
os filhos de Deus, faz parte desse exercício.
Mas desse exercício na piedade também faz parte que o crente
exercite autodisciplina sobre o próprio corpo. Os coríntios
encontravam-se em grande perigo nesse particular. Basta lembrar o
pecado da prostituição, mencionado em 1 Coríntios 5 e 6, e do
comportamento desenfreado na ceia do Senhor, citado no capítulo
11! Por isso, Paulo pôs a si mesmo como exemplo, como lemos em
1 Coríntios 9:24-27:
Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm,
mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. E todo
aquele que luta de tudo se abstém; eles o fazem para alcançar uma coroa
corruptível; nós, porém, uma incorruptível. Pois eu assim corro, não como a
coisa incerta [...]. Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão, para
que, pregando aos outros, eu mesmo não venha de alguma maneira a ficar
reprovado.
Sem o exercício na piedade, o servo de Cristo estará sempre
correndo o grande perigo de se distanciar interiormente dEle, apesar
de toda atividade externa para o seu Senhor.
4:8 — [...] porque o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade
para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente e da que há de
vir.
O exercício corporal não significa o ascetismo, já indicado no
versículo 3 e que mais tarde experimentaria uma triste floração no
monaquismo. Esse tipo de exercício é contrário aos propósitos de
Deus. Mas estaria o apóstolo pensando que a autodisciplina
corporal, inseparavelmente unida à disciplina espiritual do cristão
que aspira à piedade, é de pouco proveito? Bem, ele acaba de
incentivar a Timóteo a se dedicar a ela. Assim, só pode estar
pensado no treinamento para aumentar a força, a habilidade e o
desempenho corporais. O conceito de exercício corporal foi tirado
da vida esportiva grega e era bem conhecido do povo da época.
Nessa seção, portanto, são abordadas três práticas diferentes, que
devem ser vistas em separado para melhor compreensão.
Em primeiro lugar, o versículo 3 menciona os mandamentos
humanos referentes a ascese, que foi posta de lado pela Palavra de
Deus. Pela observação desses mandamentos, os seus adeptos
alcançariam uma suposta santidade e uma compreensão mais
elevada. Esse tipo de autodisciplina é severamente condenado na
Palavra de Deus.
Em segundo lugar, o exercício na piedade, mencionado no
versículo 7, inclui autodisciplina espiritual e corporal, de que cada
bom ministro de Cristo necessita para ficar protegido da indolência e
da conduta escandalosa.
Em terceiro lugar, no versículo 8 é mencionado o exercício
corporal, ou seja, o treinamento físico. Paulo não nega que esse tipo
de exercício tenha algum valor ou, como o Espírito Santo o faz
expressar literalmente, “para pouco aproveita”. O máximo que se
pode alcançar por meio dele, porém, é um bem-estar corporal e
certa alegria e honra na vida terrena.
Em contraste com isso, a piedade, na qual Timóteo deve
exercitar-se, para tudo é proveitosa, porque tem a promessa da vida
eterna da parte do próprio Deus. A piedade exige vigilância
contínua, santa autodisciplina e completa sujeição à vontade
revelada de Deus, da mesma forma que todo participante de uma
competição precisa acautelar-se continuamente de toda influência
danosa e de toda indolência, a fim de que tenha chances de vitória.
Na vida de fé e de piedade, o homem todo é chamado e se
considera morto para o pecado, mas vivo para Deus em Cristo
Jesus. Sobre essa piedade, repousa a promessa da vida atual e da
futura.
No tempo presente, o cristão pode descansar na confiança em
Deus com a consciência tranquila, “porque ele disse: Não te
deixarei, nem te desampararei” (Hb 13:5). Com vistas ao futuro,
lemos em Romanos 2:7 que Deus recompensará com a vida eterna
“aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e
incorrupção”. E em sua segunda carta a Timóteo o apóstolo
escreve: “Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também
com ele viveremos” (2 Tm 2:11). Em geral, encontramos nas cartas
pastorais não tanto os privilégios celestiais dos crentes e mais a
prática de uma vida saudável e dedicada segundo a piedade.
Paulo percebe a vida eterna na maioria das vezes como algo
futuro, que está adiante dos crentes, enquanto nos escritos de João
ela geralmente é considerada uma posse atual dos crentes.
Enquanto Paulo descreve a situação perfeita do crente perante
Deus em Cristo, devido à fé em sua obra de propiciação, João nos
vê como filhos de Deus que nasceram dEle e por isso possuem a
vida eterna desde já. Assim, para Paulo, o crente tomará posse da
vida eterna em perfeição e completude quando estiver com Cristo
na glória (veja 1:16; Rm 6:22; Gl 6:8; Tt 3:7).
4:9-10 — Esta palavra é fiel e digna de toda a aceitação; porque para isto
trabalhamos e somos injuriados, pois esperamos no Deus vivo, que é o
Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis.
Como em 1:15, o apóstolo utiliza aqui uma frase enfática: “Esta
palavra é fiel e digna de toda a aceitação” (compare com 3:1), que
se refere ao que é dito no versículo 8. “Para isto” (ou, como William
Kelly traduz, “para este fim”) não se relaciona diretamente com “esta
palavra”.
Os apóstolos e seus colaboradores estavam trabalhando, para
que as palavras da fé e da sã doutrina, cujo conteúdo é a piedade,
fossem divulgadas sobre a terra. Por isso, eles foram “injuriados”
(alguns bons manuscritos do Novo Testamento, como A, C, F, G e K,
entretanto, leem aqui agonizometha [“lutamos”], em vez de
oneidizometha [“somos injuriados”]). Mas esses servos do Senhor
não se deixaram desanimar, pois a mola propulsora de seu serviço e
de sua vida era a firme esperança no Deus vivo, que é o
Conservador e Sustentador de todos os homens, principalmente dos
crentes.
Mais uma vez, Paulo menciona o “Deus vivo”, como em 3:15
(veja Mt 16:16; 26:63; At 14:15; 1 Ts 1:9; Hb 9:14; 10:31). A palavra
“conservador” (no grego, soter) é traduzida nesta versão bíblica por
“Salvador” aqui e em 1:1 e 2:3. Esse título era usado pelos pagãos
para as suas divindades. Também no Império Romano, o imperador
era chamado “conservador/ sustentador [ou “salvador” — no grego,
soter] do mundo”, e como tal era venerado. Mas que diferença
imensurável entre um soter humano — por mais caritativo e
benevolente que se mostre em seu governo — e o Deus vivo, que é
o Conservador e Sustentador de todos os homens, principalmente
dos fiéis!
Na maioria das traduções bíblicas, a palavra aqui é traduzida
por “Salvador”, mas não se trata da obra de salvação de Cristo a
favor dos pecadores perdidos. Deus é visto aqui como o único e
verdadeiro Conservador e Sustentador de toda a humanidade, a
qual recebe cuidado de Seu governo (compare com Ne 9:6; Mt 5:45;
10:29; At 17:25). Mas os fiéis, que foram comprados pelo sangue de
Cristo, são os objetos principais de Sua assistência (1 Pe 3:12;
4:19).
O cristão verdadeiro jamais esquecerá os privilégios
imensuráveis da salvação, da vida eterna, da esperança celestial e
da glória eterna. Mas em vista das coisas invisíveis e eternas ele
pode não se dar conta da assistência constante e amorosa de Deus
na vida diária. Isso é uma desonra ao Senhor e um dano para ele
próprio. Mas o versículo em estudo e também o que já vimos no
início do capítulo devem preservar a alma do crente de tal equívoco.
A revelação de verdades e privilégios espirituais tão sublimes, em
virtude da obra de salvação de Cristo, pode exceder o fato
inalterável de que Deus é o Conservador e Sustentador de todos os
homens, porém nunca irá colocá-lo de lado. Mas em todo lugar onde
apareça uma heresia ou doutrina falsa há o perigo de que a criatura
seja desprezada.
4:11-12 — Manda estas coisas e ensina-as. Ninguém despreze a tua
mocidade; mas sê o exemplo dos fiéis, na palavra, no trato, no amor, no
espírito, na fé, na pureza.
As admoestações contidas nos versículos de 11 a 16 são
dirigidas especialmente a Timóteo e se referem ao seu ministério,
mas são também úteis para os servos de Deus de qualquer época.
A primeira exortação do apóstolo diz: “Manda estas coisas e ensina-
as”. O fato de o verbo “mandar” ser mencionado com tanta
frequência ressalta a importância do modo de viver prático do
cristão, que é o assunto da carta (veja 1:3; 5:7; 6:13,17). Aqui a
exortação é feita em termos muito gerais e sem dúvida excede em
muito o que é dito nos versículos 9 e 10.
Quando Paulo enviou o jovem Timóteo a Corinto, escreveu aos
crentes de lá: “Se Timóteo for, vede que esteja sem temor convosco;
porque trabalha na obra do Senhor, como eu também. Portanto,
ninguém o despreze...” (1 Co 16:10-11). Aqui ele exorta o próprio
Timóteo, como superior e mestre, a comportar-se de tal maneira que
ninguém seja levado a tratá-lo com menosprezo por causa de sua
juventude.1 Além disso, ele também deve ser um exemplo para os
crentes.
Com isso, o apóstolo aponta para uma questão muito importante
na vida da fé. O líder espiritual — o que Timóteo era, apesar de sua
juventude — não deve apenas ser capaz de mostrar o caminho
certo, mas ele mesmo caminhar à frente para que os outros possam
segui-lo. Paulo fala também de si mesmo (1 Co 11:1; Fp 3:17), e
Pedro exorta os anciãos com o exemplo perfeito de nosso Senhor
Jesus (1 Pe 2:21). O bom Pastor vai adiante de suas ovelhas, e elas
o seguem (Jo 10:4).
Não apenas os presbíteros e diáconos (compare com o cap. 3)
devem ser irrepreensíveis em sua conduta, mas também aqueles
que servem no evangelho, no pastoreio e no ensino com o seu dom
concedido pelo Senhor. De outra forma, que autoridade poderão
exercer em seu ministério?
De início, são mencionadas as duas áreas nas quais Timóteo
deve ser exemplo: palavra e conduta. Portanto, ele deve ser um
exemplo de discípulo fiel em toda a sua maneira de viver. Em suas
palavras, não deve faltar sinceridade nem existir desonestidade,
leviandade ou impureza. Seu falar deve ser gracioso, temperado
com sal (compare com Ef 4:29; 5:4; Cl 4:6). Mas toda a sua vida
deve ser exemplar, onde quer que ande e com quem quer que se
encontre.
Então são mencionadas as boas características ou virtudes com
as quais Timóteo poderá ser um exemplo: “amor”, “fé” e “pureza”.
Deus derramou o seu amor por meio do Espírito Santo no coração
dos crentes, e eles O amam porque Ele os amou primeiro (Rm 5:5;
1 Jo 4:19). A natureza divina se expressa no amor pela dedicação,
delicadeza e compaixão. A fé não é apenas a perseverança fiel na
verdade da salvação, o objetivo de nossa fé, mas também o
verdadeiro conhecimento de Deus e a confiança nEle em todas as
circunstâncias da vida diária. Essa fé viva é a poderosa mola
propulsora para a vida e o ministério fiéis. A pureza é indício da
autenticidade e da sinceridade do amor e da fé e não se limita à
área sexual, embora esta seja desde sempre motivo para impureza
e pecado. Talvez a pureza abranja tudo que confira à pessoa um
modo de ser puro e sincero. Sem essas prerrogativas, Timóteo não
poderá cumprir a tarefa mencionada em seguida.
4:13 — Persiste em ler, exortar e ensinar, até que eu vá.
Em 3:14, Paulo já havia expressado a esperança de voltar logo
a reencontrar Timóteo em Éfeso. Agora lembra-o de até lá dedicar-
se à leitura da Santa Escritura, à exortação e ao ensino. O verbo
aqui traduzido por “persistir” (no grego, prosechein) significa na
verdade “dirigir a atenção a alguma coisa”, “ter cuidado de alguma
coisa”. Por isso, é possível que Timóteo não esteja sendo exortado
a executar sozinho essas três atividades, mas a cuidar para que
outros também o façam.
A leitura e explicação dos livros do Antigo Testamento era uma
prática normal nas sinagogas judaicas, no sábado. Na sinagoga de
Nazaré, o Senhor Jesus leu e explicou um trecho do profeta Isaías
(Lc 4:16-17; compare com At 13:14-16). Nas reuniões dos cristãos,
acontecia a mesma coisa. Aos poucos foram chegando as primeiras
cartas (veja Cl 4:16), depois se juntaram os outros escritos
inspirados do Novo Testamento.
A leitura da Escritura Sagrada é a base de toda a instrução
cristã. Se ela acontece em espírito de subordinação e com
disposição verdadeira não apenas para ouvir, mas também para
obedecer, a simples leitura da Palavra de Deus já irá produzir um
fruto abençoado nas almas. Por isso, não reparemos em primeiro
lugar nas palavras humanas, e sim na Palavra de Deus, sem,
contudo, desprezar os dons que o Senhor concedeu para a
edificação da Igreja.
“Exortar” é a aplicação do que foi lido ao coração e à
consciência dos ouvintes. Por meio da exortação, os crentes são
despertados para as ações corretas e protegidos das más
influências e dos ensinos errados (compare com 1:3-4).
“Ensinar” é explicar o significado da Palavra de Deus, para que
os ouvintes possam reconhecer com clareza a vontade de Deus.
4:14 — Não desprezes o dom que há em ti, o qual te foi dado por profecia,
com a imposição das mãos do presbitério.
No versículo anterior, Timóteo é incentivado a ser ativo na igreja,
e isso não acontece sem razão. Ele possuía um dom da graça (no
grego, charisma; compare com Rm 12:6-8; 1 Co 12:14; 1 Pe 4:10).
Não é dito expressamente em que consistia esse dom, nem aqui
nem em outro lugar. Mas podemos deduzir de 2 Timóteo 4:5 que ele
era um evangelista, e os textos já comentados de 1:3 e 4:6-7,11
(bem como 2 Tm 4:2) mostram que ele também tinha o dom de
mestre (compare com Ef 4:11).
Timóteo não deve negligenciar esses dons. Por indolência,
indiferença ou ocupação demasiada com outras coisas, toda aptidão
pode ser negligenciada. Se no verão negligencio a minha horta, logo
as consequências serão visíveis: as ervas daninhas se alastram, e
as plantas atrofiam-se ou nem mesmo vingam. Se alguém recebe
um dom de graça do Senhor, está simultaneamente ligada a ele a
tarefa de usá-lo para a honra do Senhor e para a bênção dos
irmãos. O próprio Senhor esclarece esse ponto na parábola dos
talentos (Mt 25:14-30). Timóteo também é exortado a acionar o dom
da graça que recebeu, para que chegasse à plena utilização (2 Tm
1:6).
O dom da graça que Timóteo possuía foi recebido por profecia.
Já em 1:18, Paulo lembra-o das profecias a respeito dele, e aqui
com certeza se refere ao mesmo fato. Por meio de declarações
proféticas, já bem cedo se apontou a chamada de Timóteo para um
ministério especial.
O apóstolo Paulo comunicou-lhe o dom da graça de Deus pela
imposição de mãos — talvez em um caso único (2 Tm 1:6), pois em
nenhuma outra passagem do Novo Testamento lemos que os dons
de graça são conferidos ou mesmo confirmados por intermediação
humana. O próprio Senhor Jesus distribui os dons (no grego, doma;
Ef 4:10) à Sua Igreja, e só pelo poder do Espírito Santo eles podem
ser exercidos de maneira correta (1 Co 12:4,8-11). Toda nomeação
ou convocação para o exercício de um dom vira uma mistura de
dons da graça com cargos locais e demonstra completo
desconhecimento dos pensamentos de Deus sobre autoridade
divina e ministério espiritual (compare com o comentário do capítulo
3).
Por isso, é muito significativo que Timóteo não tenha recebido o
dom da graça por meio da imposição das mãos do presbitério. Ele
não recebeu o dom quando os presbíteros lhe impuseram as mãos,
e sim por meio de uma profecia e da imposição de mãos do
apóstolo. Os presbíteros lhe impuseram as mãos mais tarde, para
expressar a sua comunhão com ele no serviço. Assim, Timóteo
pôde fazer o seu trabalho na certeza de que os anciãos da igreja
reconheciam e apoiavam o seu ministério.
A imposição das mãos já era um fato bem conhecido na prática
dos sacrifícios do Antigo Testamento. Na oferta do holocausto, a
aceitação do animal ofertado a Deus como sacrifício pelo pecado
passava pela imposição de mãos do ofertante (Lv 1:4). Dessa
forma, o pecado era transferido para o animal (Lv 4:4,15,24; 16:21).
Na oferta de sacrifício pacífico, o gesto representava a comunhão
(Lv 3:2). Em todos os casos, era uma identificação com o animal
ofertado, que simbolicamente falava do sacrifício de Cristo.
No Novo Testamento, a imposição de mãos também expressa,
na maioria das vezes, identificação e comunhão (veja At 6:6; 13:3; 1
Tm 5:22). A ideia de uma consagração ou chamado para qualquer
ministério está ausente do ato da imposição de mãos na Santa
Escritura. Paulo impôs as mãos sobre Timóteo (2 Tm 1:6), mas com
esse gesto estava foi expressando, em primeiro lugar, a
identificação do servo experiente com o mais jovem (veja também
5:22).
4:15 — Medita estas coisas; ocupa-te nelas, para que o teu aproveitamento
seja manifesto a todos.
John Nelson Darby traduz da seguinte maneira a primeira parte
desse versículo: “Ocupa-te com estas coisas”. E William Kelly traduz
assim: “Emprega cuidado com estas coisas”. A palavra grega para
“meditar” (meletao) aparece apenas mais uma vez, em Atos 4:25,
onde é traduzida por “pensar”.
À semelhança dos versículos 6 e 11, aqui as exortações
anteriores são mais uma vez usadas para encorajar Timóteo de
maneira especial. Ele deve se concentrar totalmente nessas coisas,
não por interesse próprio ou mesmo por razões mundanas. Essa é a
marca do servo fiel e útil, que se preocupa com os interesses de seu
Senhor. Ele não deve viver e trabalhar para ele mesmo, e sim para o
seu Senhor.
Se Timóteo agir assim, o seu aproveitamento será evidente para
todos. A vida em comunhão com o Senhor não pode ficar oculta,
porque dá ao ministério uma autoridade moral que causará profunda
impressão sobre todos. Esse aproveitamento consiste no
conhecimento da Palavra de Deus, em sua aplicação no modo de
viver do próprio ministro e na vida dos ouvintes, na capacidade de
discernimento, no reconhecimento das necessidades das almas
individualmente e na aptidão para corresponder a elas
espiritualmente.
4:16 — Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas;
porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem.
Nas primeiras palavras desse versículo, o apóstolo repete o que
já inculcou a Timóteo: todo cristão — e também o ministro do
Senhor — é responsável em primeiro lugar por si mesmo e só
depois pelos outros. Por isso, Paulo recomenda aos anciãos de
Éfeso: “Olhai [...] por vós, e por todo o rebanho” (At 20:28). A
consciência própria, que na carta é mencionada tantas vezes, deve
ser mantida imaculada na luz de Deus.
Depois disso, a tarefa especial de Timóteo era cuidar da
doutrina. Paulo tem em vista aqui a pureza e o cuidado com o
ensino, mas também a própria ação de ensinar os irmãos (veja
5:17). A instrução dos crentes deve corresponder à imagem das sãs
palavras.
Timóteo deve perseverar nessas coisas. Isso significa agarrar-se
ao que foi dito sem se voltar para outras coisas. Significa também
que ele deve fazer isso continuamente. Muitos já quiseram ingressar
na obra do Senhor. Tinham muito fervor, mas quando surgiram as
primeiras dificuldades ou quando os resultados ou o reconhecimento
não sucederam como esperado, o interesse inicial esfriou, porque
lhes faltou a perseverança, que permite à pessoa colocar-se sob tais
situações e suportá-las.
Se Timóteo fizer isso, ele irá salvar tanto a si mesmo quanto aos
seus ouvintes. Aqui o verbo “salvar” não deve ser entendido como a
salvação da alma, que Deus concede àquele que crê no Senhor
Jesus (compare com 2:4; 2 Tm 1:9), e sim o livramento dos muitos
perigos que o crente enfrenta no caminho para a glória (compare
com Rm 5:10; 2 Tm 4:18; Hb 7:25). Cristo, à direita de Deus,
intervém a favor dos Seus, mas aqui vemos a nossa
responsabilidade nisso (veja Fp 2:12). A salvação aqui é a
prevenção eficaz contra as doutrinas e práticas danosas, a respeito
das quais somos advertidos expressamente pelo Espírito Santo no
início do capítulo.
1 Se Timóteo tinha de 20 a 25 anos quando Paulo o levou consigo em sua segunda viagem, por volta do ano
50 (At 16), então ele devia ter agora de 33 a 38 anos.
CAPÍTULO 5
V ( : )
Assistência às viúvas (5:1-16)
5:1-2 — Não repreendas asperamente o ancião, mas admoesta-o como a
pai; aos moços como a irmãos; as mulheres idosas, como a mães, às moças,
como a irmãs, em toda a pureza.
Mais uma vez na carta, Paulo admoesta o jovem Timóteo sobre
o comportamento correto (veja 4:6,11,15-16; 5:21; 6:2,11). E o
objetivo é sempre “para que saibas como convém andar na Casa de
Deus”.
A palavra “ancião” (no grego, presbyteros) é a mesma que no
versículo 17 designa o cargo de presbítero. Uma análise do
versículo 2, no entanto, mostrará que a palavra aqui não se refere
apenas aos presbíteros da igreja, e sim a todos os homens idosos.
Na condição de um jovem que recebeu a tarefa de ensinar e
admoestar a igreja, Timóteo deve tratar com especial delicadeza as
pessoas idosas, tanto os irmãos quanto as irmãs. Ele deve
admoestá-los como a pais e a mães, caso seja necessário, mas
sem os tratar com aspereza. No entanto, só poderá agir dessa
maneira se ele próprio estiver revestido de humildade (veja 1 Pe
5:5). Essa virtude é obtida da parte de Deus, por meio da graça, e
manifestada no respeito pelos idosos.
Lembremos também que é fácil acontecer em nossos dias de o
irmão mais jovem, a quem o Senhor confiou um dom e uma
responsabilidade espirituais, atingir um irmão mais velho de maneira
tão sensível que este acabe rejeitando uma exortação legítima.
Essa referência talvez seja especialmente importante para a nossa
época, com toda essa juventude. Quanto a isso, convém atentar
para esta admoestação divina do Antigo Testamento: “Diante das
cãs te levantarás, e honrarás a face do ancião; e temerás o teu
Deus. Eu sou o Senhor” (Lv 19:32).
A atitude de Timóteo com relação aos homens mais jovens
também deve ser marcada pelo amor, pois ele deve exortá-los como
a irmãos. Com relação às mulheres jovens, há um acréscimo
importante: “em toda a pureza”. A razão disso é que, no trato com
elas, os pensamentos carnais podem aflorar com muita facilidade.
Só uma vida em santidade e pureza diante do Senhor pode
proporcionar proteção suficiente contra os desejos carnais nesse
tipo de situação. Infelizmente, a importância dessa exortação aos
irmãos mais jovens que querem servir ao Senhor tem se confirmado
na prática muitas vezes por meio de experiências negativas!
5:3-4 — Honra as viúvas que verdadeiramente são viúvas. Mas, se alguma
viúva tiver filhos, ou netos, aprendam primeiro a exercer piedade para com a
sua própria família, e a recompensar seus pais; porque isto é bom e
agradável diante de Deus
Os versículos de 3 a 16, que se seguem agora, têm como tema
o cuidado com as viúvas na igreja. Alguém talvez se pergunte por
que dedicar tanto espaço a esse assunto. Mas o nosso Deus é um
Deus sábio (Rm 16:27). Ele sabe quão solitária e negligenciada
pode ser a vida de uma verdadeira viúva — na época e ainda hoje!
Ele também sabe quão facilmente as viúvas podem ser esquecidas,
até no meio dos crentes que têm família. Por isso, tanto quanto as
crianças, elas são alvos do cuidado especial de nosso Deus e Pai.
No Salmo 68:5, lemos: “Pai de órfãos e juiz de viúvas é Deus,
no seu lugar santo” (compare com Sl 146:9). Numerosas
prescrições no Antigo Testamento destacam esse fato. Quem
dedicava assistência especial a viúvas e órfãos podia contar com a
bênção do Senhor (Dt 14:29; 24:19), porque agia em um espírito
agradável a Deus. Hoje, no tempo da graça, não é diferente. Na
Igreja de Deus, as viúvas não devem ser abandonadas à própria
sorte.
No entanto, já nos primeiros dias da igreja surgiu um problema
com as viúvas em Jerusalém: elas acabaram negligenciadas no
ministério cotidiano, apesar de todos os crentes terem tudo em
comum (At 6:1). Assim, foram nomeados os primeiros diáconos,
cuja tarefa era garantir que as viúvas dos judeus gregos
recebessem tudo de que necessitavam. Nesse episódio, reparamos
que esses homens deviam ter boa reputação e ser cheios do
Espírito Santo e de sabedoria (At 6:3). E as palavras de Tiago
parecem especialmente importantes nessa conexão: “A religião pura
e imaculada para com Deus e Pai, é esta: Visitar os órfãos e as
viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo”
(Tg 1:27).
De início, Paulo faz uma declaração de caráter genérico: “Honra
as viúvas que verdadeiramente são viúvas”. Talvez nem todas
necessitassem de ajuda material. Mesmo assim, deviam ser
honradas e receber o apoio necessário. Nos países industriais de
hoje, as redes de assistência social, por meio de pensões e
seguros, têm resolvido as questões mais profundas de necessidade
material que antes caracterizavam a vida de muitas viúvas. Por
causa disso, o auxílio às viúvas carentes por parte da igreja tornou-
se uma raridade. O sentido da palavra “honrar”, todavia, vai muito
mais longe e ainda hoje tem a sua importância.
Nos versículos seguintes, o Espírito Santo classifica as viúvas
em três grupos:
Viúvas “mais novas” (vv. 11-14), que com mais facilidade se expõem a
perigos e às quais é ordenado que se casem outra vez.
Viúvas que tem filhos ou netos, que devem ser auxiliadas por eles (vv.
4,16).
Viúvas “que verdadeiramente são viúvas” (vv. 3,5,16), ou seja, que
estão sós e não têm parentes que possam auxiliá-las. A esse grupo
talvez pertençam também as viúvas que devem ser inscritas para
receber auxílio dos santos (vv. 9-10).

À primeira vista, essa classificação parece bem mecânica. Mas


“Deus não é Deus de confusão, senão da paz” (1 Co 14:33). A
ordem na Casa de Deus também vale para esse tipo de situação. O
ministério organizado dos diáconos é melhor que obras de caridade
de boa índole, porém desorganizadas e mal planejadas (veja 3:8-13;
At 6:1).
Depois de serem mencionadas as “viúvas que verdadeiramente
são viúvas” (v. 3), o apóstolo começa a falar das viúvas que têm
filhos ou netos (v. 4). Estes devem aprender antes de tudo a exercer
piedade para com a própria família. A eles cabe a responsabilidade
de cuidar de sua mãe ou avó. E, se ainda não sabiam desse dever
filial, devem aprendê-lo. À semelhança do versículo 16, aqui os
filhos e netos são aconselhados a compensar a mãe ou a avó que
ficou viúva com reverência amorosa e devotada, isto é, a lhe
devolver o que eles mesmos experimentaram do amor e da
assistência dela quando eram mais jovens.
Vemos um belo exemplo desse cuidado com o nosso Senhor na
cruz. Momentos antes de Sua morte, Ele ainda pensou em Sua mãe
com amoroso cuidado e recomendou-a ao seu discípulo João com
estas palavras: “Eis aí tua mãe”. Isso é agradável a Deus. Em 2:3,
lemos que orar “por todos os homens” e “por todos os que estão em
eminência [...] é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador”. A
piedade e a devoção a Deus abrangem a vida inteira do crente e
são demonstradas primeiramente na esfera familiar.
5:5 — Ora, a que é verdadeiramente viúva e desamparada espera em Deus,
e persevera de noite e de dia em rogos e orações [...]
O apóstolo agora se dirige outra vez às irmãs solitárias que são
de fato viúvas, já mencionadas no versículo 3. Ele classifica esse
tipo de viúva como “desamparada”. E quão pouco isso é levado em
conta entre os crentes! Tal viúva não conta com nenhuma fonte de
ajuda terrena, com nenhum auxílio humano. Mas o nosso Deus e
Pai prometeu a Sua ajuda a elas. Ele é o Juiz das viúvas. Um
exemplo de viúva temente a Deus é a profetisa Ana. Ela é descrita
desta forma: “Era já avançada em idade, e tinha vivido com o marido
sete anos, desde a sua virgindade; e era viúva, de quase oitenta e
quatro anos, e não se afastava do templo, servindo a Deus em
jejuns e orações, de noite e de dia” (Lc 2:36-37).
No versículo 5, por meio da interjeição “ora”, é construído um
contraste com o versículo 4 ou no mínimo é estabelecida uma
diferença. Aqui é destacada, com elogios, a atitude espiritual de tais
viúvas, e disso podemos deduzir que a viúva em tal situação
necessita da assistência da igreja em primeiro lugar. Alguém disse
que “uma ou duas viúvas desse tipo no nosso meio seria uma
grande fonte de poder. Toda ajuda, que os crentes pudessem lhes
proporcionar, seria como nada, em comparação com a ajuda que
elas representam para os santos, pois permanecem em súplicas
noite e dia”.
5:6 — [...] mas a que vive em deleites, vivendo está morta.
Esse versículo apresenta um quadro bem diferente. A viúva
descrita aqui dispõe de meios suficientes, para se dar uma vida
confortável e até luxuosa. O mal nisso tudo é que ela destina esses
recursos exclusivamente a essa finalidade. A palavra traduzida pela
frase “viver em deleites” (no grego, spatalao) também se acha em
Tiago 5:1,5, onde se diz aos ricos que falsamente se confessavam
cristãos: “Eia, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas
misérias, que sobre vós hão de vir. [...] Deliciosamente vivestes
sobre a terra, e vos deleitastes”. O que uma vida de luxúria,
divertimento e satisfação de paixões tem em comum com a
verdadeira vida para Deus? Quem vive assim está espiritualmente
morto, mesmo que professe a fé cristã.
No Novo Testamento, a morte espiritual significa sempre não ter
a vida de Deus (compare com Lc 9:60; Ef 2:1; 5:14; Ap 3:1). No
entanto, a alma nascida de novo, de cuja vida nenhum fruto para
Deus possa ser reconhecido, nunca é chamada “morta”, e sim
“adormecida”. A pessoa adormecida pode parecer morta (compare
com Ef 5:14; 1 Ts 5:6).
5:7 — Manda, pois, estas coisas, para que elas sejam irrepreensíveis.
Mais uma vez, é lembrada na carta, que trata da ordem na Casa
de Deus, a conduta correta nesse lugar. A palavra “ordenar” tem
aqui o significado especial de “inculcar”. Ela também aparece em
1:3 e 4:11. Esse versículo faz a conexão entre o que foi dito
anteriormente com o que segue e ressalta que tanto as viúvas
quanto a descendência delas devem viver de maneira
irrepreensível.
5:8 — Mas, se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da
sua família, negou a fé, e é pior do que o infiel.
O apóstolo fala pela segunda vez aos filhos, ou seja, aos
parentes das viúvas. A primeira vez foi no versículo 4, e no versículo
16 ele se dirige pela terceira vez ao mesmo grupo. Nesse tríplice
apelo, percebemos quão importante é — e de acordo com a vontade
de Deus — que os filhos não fujam à responsabilidade de cuidar dos
pais, mas especialmente da mãe viúva.
Contudo, enquanto no versículo 4 Paulo apresenta o lado
positivo dessa piedade ou devoção que agrada a Deus, aqui o
apóstolo dirige expressões mais severas ao que porventura estejam
negligenciando os seus deveres de assistência aos parentes mais
próximos ou a outros membros da família. A fé (aqui com o artigo)
não é o seu poder interno, mas o seu bem, a verdade cristã. O
dever de ajudar os parentes é ensinado tanto no Antigo Testamento
quanto no Novo Testamento (veja Mt 15:3-6; Ef 6:2-3). Aquele que
não cuida dos seus, especialmente dos membros da sua família, é
pior que o descrente.
Toda pessoa de pensamento e percepção normais reconhece e
respeita a relação familiar entre pais e filhos. O Criador pôs esse
amor natural no coração humano. O descrente que respeita e ama
os pais é um exemplo que deve envergonhar muito o cristão que
não o faz, pois este possui um padrão infinitamente superior para o
seu amor: “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e
andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si
mesmo por nós” (Ef 5:1-2). Que testemunho vergonhoso dá o filho
de Deus ao mundo quando não pratica as regras mais simples do
amor e da misericórdia cristãs!
5:9-10 — Nunca seja inscrita viúva com menos de sessenta anos, e só a que
tenha sido mulher de um só marido; tendo testemunho de boas obras: Se
criou os filhos, se exercitou hospitalidade, se lavou os pés aos santos, se
socorreu os aflitos, se praticou toda a boa obra.
Desde os tempos mais remotos, muitos comentaristas
procuraram ver nas palavras desse versículo uma posição especial
de viúvas servindo como “diaconisas” ordenadas, embora nada mais
tenha sido escrito sobre isso em todo o Novo Testamento. William
Kelly escreve em seu comentário a essa passagem:
Aqui o assunto trata mais especificamente de viúvas em posição privilegiada
ou mesmo oficial. Mas nada indica que essas viúvas teriam formado uma
classe de diaconisas, porque a idade delas depõe contra qualquer atividade
desse porte. Também aqui não se trata de atividade de presbitério, embora a
idade mínima de sessenta anos possa ser citada como argumento a favor
disso. No entanto, não há o menor apoio a tais tarefas nesse contexto,
embora alguns estudiosos, apoiados em algumas declarações dos pais da
igreja gregos e latinos, queiram ver a ideia de presbíteros femininos nessa
passagem. Ao que parece, o apóstolo fala aqui apenas das viúvas que a
igreja devia colocar numa lista com o propósito de lhes oferecer assistência e
provisão. As características mencionadas relacionam-se, portanto, com a sua
vida passada, não com obrigações futuras, menores ou maiores. Na
descrição das viúvas, podemos detectar certa graduação: em primeiro lugar,
viúvas em geral; em segundo lugar, viúvas que verdadeiramente são viúvas;
em terceiro lugar, viúvas especialmente reconhecidas pela igreja e
registradas como tais. Mas disso não se pode extrair nenhum indício de uma
classe organizada de viúvas, que tenham sido até mesmo ordenadas,
embora seja sabido que mais tarde tal coisa aconteceu.1
Portanto, o apóstolo está explicando a Timóteo quais viúvas
devem ser registradas, isto é, colocadas na lista de pessoas
sustentadas pela igreja. No caso, só podiam ser atendidas aquelas
que não tinham meios de sustento ou rendimentos nem parentes
próximos. Além disso, tinham de ter no mínimo 60 anos. Nessa
idade, bem avançada para os padrões da época, já era muito difícil
para elas conseguir o próprio sustento. Por isso a igreja tinha de
“ficar na brecha”. No entanto, é errado tirar disso a conclusão de
que a igreja, por exemplo, não precisava ajudar a viúvas mais
jovens em caso de doença ou em outras necessidades. As viúvas
com mais de 60 anos de idade, porém, deviam ser registradas, para
que recebessem um auxilio regular. As viúvas que eram
verdadeiramente viúvas haviam servido os irmãos com dedicação,
por isso não deveriam ser negligenciadas pela igreja agora que já
não podiam trabalhar como antes.
Como primeira condição para receber o auxilio, é mencionado o
fato de que ela tivesse sido a mulher de um só marido. Essa
observação é idêntica à que diz respeito aos presbíteros, em 3:2
(veja Lc 2:36-37). A ideia aqui talvez seja, em primeiro lugar,
certificar-se de que a viúva manteve a lealdade conjugal ao marido.
Além disso, a viúva registrada devia ter um testemunho de “boas [no
grego, kalos] obras”, ou seja, obras por meio das quais o Senhor
fosse glorificado.
Como pré-requisito seguinte é a educação de crianças. O fato
de que aqui não se mencionar os filhos da viúva pode indicar que
ela também tenha cuidado de outras crianças necessitadas e que as
tenha criado na doutrina e admoestação do Senhor.
Ela também devia ter exercido a hospitalidade para com
estranhos. Essa virtude é mencionada várias vezes no Novo
Testamento e pressupõe dedicação e generosidade (Rm 12:13; Hb
13:2). É a tarefa especial da dona de casa praticar a hospitalidade
verdadeira e por meio dela refrescar o coração dos santos.
Em conexão com isso está o seguinte pressuposto: “Se lavou os
pés aos santos...”. Na época, essa tarefa era realizada por
escravos, um serviço ao viajante cansado que chegasse a uma
casa, oferecido como sinal de especial atenção e hospitalidade. Que
alívio e refresco para os que viajavam por aquelas regiões quentes
calçados apenas com sandálias era receber esse serviço simples,
mas importante, após uma penosa caminhada a pé por estradas
difíceis e caminhos empoeirados. Quem fazia esse serviço também
seguia com humildade o exemplo do Senhor Jesus, que lavou os
pés de Seus discípulos (Jo 13). Embora hoje um serviço desse tipo
já não seja necessário, há sem dúvida outras tarefas a ele
comparáveis que uma serva do Senhor pode executar,
especialmente aos irmãos que trabalham na obra do Senhor.
A viúva também devia ter socorrido os aflitos, uma obra que por
certo despertava simpatia e compaixão. Nos períodos de
perseguição, os crentes enfrentavam terríveis dificuldades e
aflições. Alguns chegavam a perder todos os seus haveres (veja Hb
10:34), por isso necessitavam de muita ajuda. Ainda hoje há casos
de aflição causada por fatores externos e internos, em que o socorro
é muito oportuno, apesar das grandes mudanças nas condições de
vida. Entre os dons da graça enumerados em 1 Coríntios 12:28, a
prestação de socorro é mencionada expressamente.
Para finalizar, o apóstolo resume tudo na frase: “Se ela praticou
toda a boa [no grego, agathos] obra”. Ele cita apenas algumas
dessas obras, mas sem dúvida havia outras, que um coração cheio
de dedicação ao Senhor e aos seus podia reconhecer e praticar.
Essa sentença não é uma simples repetição das palavras citadas no
início dessa enumeração: “Tendo testemunho de boas obras...”. A
palavra ali usada (no grego, kalos) significa “por si só bom”, “nobre”.
Tais obras são “boas” aos olhos de Deus, mas não precisam
necessariamente acontecer com relação a outras pessoas. As “boas
obras” mencionadas por último (no grego, agathos) são aqueles que
também podem ser traduzidas por “benevolentes”, isto é, nas quais
se expressa o desejo de fazer bem a outros.
Uma viúva cuja vida fosse tão dedicada ao serviço do Senhor e
aos seus, embora pobre exteriormente, era rica no interior. E, se a
ela deviam ser concedidos cuidados especiais, isso por certo não
implicaria que ela já não cuidasse mais de outras pessoas, de
acordo com as suas possibilidades. Daí a instrução de honrar essas
verdadeiras viúvas de maneira especial.
5:11-12 — Mas não admitas as viúvas mais novas, porque, quando se
tornam levianas contra Cristo, querem casar-se; tendo já a sua condenação
por haverem aniquilado a primeira fé.
Os perigos que poderiam estar à espreita das viúvas mais novas
são apontados aqui pelo apóstolo. A seriedade e a simplicidade da
vida de uma verdadeira viúva, dedicada inteiramente ao serviço do
Senhor, poderia ser uma carga pesada demais para as mais jovens.
A teimosia poderia despertar nelas e levá-las a caminhos errados, o
que revelaria o seu verdadeiro relacionamento com o Senhor.
Quando Deus remove o marido de alguém por meio da morte,
isso representa para a parte que fica uma mensagem muito dura
enviada por Deus. Podia esperar-se então de uma viúva crente que
ela tirasse dessa mensagem e de sua dor a lição de que o tempo é
curto e que a aparência deste mundo passa (veja 1 Co 7:29-31).
Mas quando a viúva perdia de vista o Senhor e não entendia os
Seus tratos com ela, então já não procurava mais servi-lO. Dessa
forma, tornava-se “leviana” contra o Senhor e não descansava até
voltar ao estado anterior (o de casada), ao qual o Senhor havia
posto um termo em Sua caminhada com ela. Então ela cai em
condenação (literalmente: “têm [a] condenação”) porque (ou que)
aniquilou a primeira fé.
A frase “tendo já a sua condenação” é traduzida por “são
culpadas” nas versões bíblicas inglesa e francesa de John Nelson
Darby, bem como na tradução holandesa de Hermanus Cornelis
Voorhoeve. William Kelly traduz a frase desta forma: “elas têm como
acusação terem rejeitado a primeira fé”. Elas se tornam culpadas
pelas próprias ações e assim acusam a si mesmas.
A “fé” deve ser entendida aqui possivelmente como a confiança
prática em Deus. Em tal comportamento, ainda não deve ser vista
uma apostasia da fé cristã, embora possa chegar a isso. Em vez de
esperar em Deus e pela Sua orientação, como antes, essas viúvas
rejeitaram a vivacidade da fé e agiram de forma independente de
Deus, querendo elas mesmas determinar o seu caminho na vida.
5:13 — E, além disto, aprendem também a andar ociosas de casa em casa; e
não só ociosas, mas também paroleiras e curiosas, falando o que não
convém.
Quando alguém dá rédeas soltas à teimosia e já não tem o
serviço do Senhor no coração, as consequências são sempre
trágicas. A vida se torna espiritualmente vazia e ociosa. Mas como o
espírito do homem sempre procura alguma ocupação, essas viúvas
andam de casa em casa, para matar o tempo, e o apóstolo afirma
que elas não apenas são “ociosas”, como também “paroleiras e
curiosas”.
A palavra “curioso” (no grego, periergos) só aparece outra vez
no Novo Testamento em Atos 19:19, onde é usada com relação às
feitiçarias dos adivinhos efésios. Aqui indica a pessoa que se ocupa
de coisas inúteis e supérfluas. Quando um filho de Deus não tem
mais o coração ocupado com Cristo, ele passa a falar de todos os
assuntos possíveis e a meter o nariz em tudo. Contendas e
confusão são as consequências desse comportamento.
A ociosidade, a curiosidade e a tagarelice revelam-se finalmente
em falatórios que não convêm, porque a pessoa já perdeu todo o
senso de bom comportamento. Essas coisas deveriam ser uma
pedra de toque muito séria para todo cristão, embora aqui se trate
especificamente das viúvas mais novas.
5:14-15 — Quero, pois, que as que são moças se casem, gerem filhos,
governem a casa, e não deem ocasião ao adversário de maldizer; porque já
algumas se desviaram, indo após Satanás.
Como nem todas as viúvas mais novas incorriam na
condenação pronunciada nos versículos de 11 a 13, aqui também o
apóstolo não pensa em todas as viúvas mais novas. Isso pode ser
deduzido do fato de que nos dois casos falta o artigo, indicação de
que não se trata do grupo todo, mas apenas daquelas que
apresentavam essas características. Por isso, também não há
contradição entre a vontade do apóstolo Paulo expressa no
versículo 14 e a teimosia das viúvas mais novas no versículo 11.
O assunto do casamento é tratado pormenorizadamente em 1
Coríntios 7:1-11,25-40. Ali, inspirado pelo Espírito Santo, o apóstolo
reproduz em primeiro lugar o mandamento claro do Senhor (v. 10),
mas também, como aqui, dá a conhecer as suas ideias, como
alguém escolhido e preparado por Ele (vv. 6,8,12,25,35,40). Não se
trata de revelações da parte de Deus, e sim dos pensamentos de
um vaso escolhido, cujo acerto Deus confirmou com a inserção
deles em sua Palavra infalível, pela direção do Espírito Santo.
Assim, Paulo declara que o seu desejo é que as viúvas mais novas
se casem, porque o dom do celibato, que é o caso do próprio Paulo,
não foi dado à maioria das pessoas.
Quando uma viúva mais nova apresenta as suas ideias e
desejos ao Senhor, deve esperar pela Sua orientação e pelo Seu
tempo. Há total concordância com a vontade do Senhor quando
tudo está sob esta ideia fundamental: “Se falecer o seu marido fica
livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor” (1
Co 7:39). Casar, gerar filhos, governar a casa e não dar ocasião ao
adversário — todas essas coisas são apresentadas como
características da mulher crente, em oposição ao que é dito nos
versículos de 11 a 13.
Tudo deve ser feito “decentemente e com ordem” (veja 1 Co
14:40). É digno de nota que Deus faz menção de tais detalhes
visando à ordem em sua casa. Seja o assunto concernente aos
presbíteros (3:4-7), aos diáconos (3:10-13) ou às viúvas, a
consciência da pertença ou de filiação à Casa de Deus deve estar
sempre viva no coração. Nada deve ser tolerado em sua casa que
dê ao adversário oportunidade para difamação. O “adversário”, no
caso, não é o próprio Satanás. Essa palavra se refere a pessoas
que se tornam ferramentas dele (veja 1 Co 16:9; Fp 1:28; veja
também 2 Ts 2:4, “o qual se opõe”).
Por não observar essas instruções, algumas viúvas se
desviaram, “indo após Satanás” (veja v. 12). Com isso, não
abandonaram a fé cristã, mas o andar na fé, especialmente no que
diz respeito à pureza e à modéstia. Assim, caíram no laço do Diabo.
5:16 — Se algum crente ou alguma crente tem viúvas, socorra-as, e não se
sobrecarregue a igreja, para que se possam sustentar as que deveras são
viúvas.
Muitas traduções bíblicas omitem as palavras “algum crente ou”,
como também os editores do Greek New Testament,2 os quais
observam que há dúvidas consideráveis quanto à leitura correta, se
“uma crente” ou “um crente ou uma crente”. A variante de leitura
mais longa encontra-se na maioria dos manuscritos recentes e, por
isso, também no Textus Receptus, enquanto em vários manuscritos
antigos e confiáveis consta apenas “uma crente”. O conhecido
pesquisador bíblico William Kelly diz, com relação ao caso:
O peso do testemunho para a variante de leitura mais curta piste (A, C, F, G,
P etc., bem como algumas traduções antigas e os pais da igreja) é tão
grande que os editores modernos mais importantes a seguiram. Com isso, no
entanto, a passagem bíblica apresenta um significado peculiar e
insatisfatório. Por que o apoio ou a ajuda a uma viúva mais nova caberia
precisamente a uma mulher crente? Corresponderia isso à sobriedade,
generosidade e sabedoria da Sagrada Escritura? Seria muito mais
compreensível se em tal emergência homens ou mulheres crentes fossem
abordados. Essa variante é oferecida pelos manuscritos D, K e L, pela
maioria dos (manuscritos) cursivos, por algumas traduções antigas e pelos
pais da igreja.3
Alguns pais da igreja e algumas traduções antigas mencionam
apenas a forma masculina “um crente”. Se ponderarmos sobre as
afirmações acima, tudo depõe a favor de manter a variante de
leitura mais longa, “algum crente ou alguma crente”.
No versículo 4, os filhos e netos das viúvas são lembrados do
dever de sustentar os pais e os avós, o que é agradável a Deus. No
versículo 8, a negligência desse dever é seriamente reprovada.
Aqui, no versículo 16, o apóstolo vai mais longe. Ele exorta os
homens e as mulheres crentes com viúvas em casa a ajudar essas
viúvas (sem levar em consideração o grau de parentesco), a fim de
não sobrecarregar ou impedir a igreja de ajudar aquelas que são
verdadeiramente viúvas (veja vv. 3,5,9-10).
O coração humano tende a transferir a responsabilidade para
outros, especialmente para o público em geral. Mas a igreja não é
um “grupo de apoio”. A fé não alivia o homem da responsabilidade
pessoal. Deus instituiu o matrimônio e a família na criação. A união
e o compromisso dos familiares entre si deve também se revelar na
assistência mútua em casos de emergência. Se uma viúva ainda
tem membros da família que possam apoiá-la, ela não é
verdadeiramente viúva, no sentido mencionado aqui, a qual é
recomendada à assistência da igreja.
Atitude para com os anciãos (5:17-21)
5:17-18 — Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de
duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina;
porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o
obreiro do seu salário.
Como já vimos nos comentários sobre 3:1, a palavra
“presbíteros” designa no Novo Testamento em geral o mesmo grupo
de servos da igreja conhecido como “anciãos”. A palavra grega nada
mais é que o comparativo (forma aumentativa) de “velho” (no grego,
presbys) e significa normalmente “mais velho” (no grego,
presbyteros). Nesse sentido, é usada para designar o irmão do filho
pródigo em Lucas 15:25. Em 1 Timóteo 5:1 e 1 Pedro 5:5, a palavra
significa “homem mais velho”, uma vez que é óbvia a intenção do
contraste com os mais jovens.
No entanto, entre o povo de Israel , desde a Antiguidade, os
homens mais velhos e sensatos eram reconhecidos como líderes,
que em conjunto recebiam a designação de “anciãos” (veja Êx 24:9;
1 Sm 16:4). Também na igreja de Jerusalém havia anciãos e líderes,
embora jamais leiamos no Novo Testamento sobre a sua nomeação
para algum cargo. Nas igrejas recém-formadas fora da Judeia, no
entanto, muitas vezes anciãos eram estabelecidos pelos apóstolos
ou por seus encarregados (At 14:23; Tt 1:5; compare com At 20:17;
Fp 1:1).
O acréscimo “que governam bem”, no versículo 17, esclarece
que aqui não se trata apenas de irmão mais velhos, e sim de irmãos
incumbidos do serviço de ancião ou presbítero. Sua tarefa consiste
em apascentar o rebanho de Deus, que está entre eles (veja At
20:28; 1 Pe 5:2). As igrejas são intimadas a demonstrar aos servos
do Senhor a honra que merecem pelo seu serviço, muitas vezes
difícil (1 Co 16:16; 1 Ts 5:13; Hb 13:17).
Se eles fizerem o seu trabalho com dedicação e governarem
bem a igreja em que servem, então Timóteo deve cuidar para que
“sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os
que trabalham na palavra e na doutrina”. Embora os anciãos ou
presbíteros devam ser aptos para ensinar (3:2; Tt 1:9),
aparentemente não era a tarefa de todo ancião “trabalhar na palavra
e na doutrina”, e sim, em primeiro lugar, manter a ordem na Casa de
Deus. Já naquela época, porém, o respeito à sua autoridade e à
reverência a ela associada parece ter faltado, do contrário Paulo
não precisaria recomendar a Timóteo o cuidado para que os anciãos
que governavam bem fossem “estimados por dignos de duplicada
honra”. O que significa a “duplicada honra”? Certamente, não
significa apenas uma medida aumentada de respeito.
O versículo seguinte dá uma indicação clara, com a sua
conjunção justificativa introdutória, de que além do respeito amoroso
algum suporte material é exigido. Paulo apresenta maiores detalhes
sobre esse aspecto do ministério em 1 Coríntios 9. Portanto, é dever
dos filhos de Deus oferecer ajuda material aos que trabalham a
favor deles. Até que ponto os presbíteros podem depender ou fazer
uso dessa prerrogativa é outra questão. O próprio Paulo preferia
trabalhar com as próprias mãos para obter o seu sustento a se
expor à acusação de estar explorando a generosidade dos fiéis.
Dessa forma, não fazia o evangelho pesado a ninguém (veja At
20:33-35; 1 Co 9:15; 2 Ts 3:7-10). Também nisso o grande apóstolo
queria ser um exemplo para outros.
Mesmo assim, o princípio permanece: “Não ligarás a boca ao
boi que debulha” (compare com Gl 6:6). Esse versículo, que cita
Deuteronômio 25:4, já fora empregado por Paulo em 1 Coríntios 9:9
com este acréscimo: “Porventura tem Deus cuidado dos bois? Ou
não o diz certamente por nós? Certamente que por nós está escrito;
porque o que lavra deve lavrar com esperança e o que debulha
deve debulhar com esperança de ser participante”. O israelita que
observava esse mandamento de Deus na época da colheita sem
dúvida desconhecia o seu profundo significado espiritual. Para nós,
no entanto, é uma confirmação da magnificência e unidade da
Palavra de Deus, bem como da verdade expressa em 1 Coríntios
10:11: “Ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão escritas
para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos”
(veja Rm 15:4).
A citação seguinte — “Digno é o obreiro do seu salário” — foi
extraída de Lucas 10:7 (não de Mt 10:10, onde consta “alimento” em
lugar de “salário”). Essa citação é notável e muito importante, por
duas razões. Primeira: indica que o evangelho segundo Lucas já
existia na época da redação da primeira carta a Timóteo. Segunda:
prova que ele foi reconhecido de imediato pelos crentes como livro
canônico, pertencente à Santa Escritura.
As palavras introdutórias do versículo 18 — “Porque diz a
Escritura...” — colocam as citações de Deuteronômio 25:4 e Lucas
10:7 no mesmo nível, na plataforma da Palavra divinamente
inspirada. A palavra “escritura” (no grego, graphe) aparece mais de
cinquenta vezes no Novo Testamento e indica sempre a Palavra de
Deus escrita. No plural, refere-se à totalidade dos escritos do Antigo
Testamento (por exemplo, Mt 21:42; Jo 5:39). De forma parcial, faz
referência também aos escritos nascentes do Novo Testamento
(veja Rm 16:26; 2 Pe 3:16). No singular, graphe geralmente é usada
para indicar passagens bíblicas individuais (por exemplo, Mc 12:10;
Lc 4:21).
O fato de uma passagem do evangelho segundo Lucas ser
considerada pertencente à Escritura indica que o Espírito Santo
dirigia a compilação dos escritos individuais para formar a Bíblia
com o mesmo cuidado com que inspirava os autores na redação
dos livros. O presente versículo, no entanto, não é a única prova de
serem os escritos do Novo Testamento divinamente igualados com
os do Antigo Testamento. Também o apóstolo Pedro reconhece a
autoridade divina das epístolas de seu amado irmão Paulo quando
as situa no mesmo nível das “outras escrituras” do Antigo
Testamento (2 Pe 3:16).
5:19 — Não aceites acusação contra o presbítero, senão com duas ou três
testemunhas.
O presbítero pode falhar no exercício de sua tarefa ou na vida
particular. O inimigo das almas visa especialmente os servos do
Senhor. Se consegue derrubá-los, o dano é maior do que seria com
os outros. Por esse motivo, as acusações contra um presbítero
devem ser tratadas com cuidado especial. Por isso Timóteo não
pode aceitar nenhuma acusação contra um presbítero sem o aval de
duas ou três testemunhas. O princípio das várias testemunhas já
constava da lei mosaica: “Uma só testemunha contra alguém não se
levantará por qualquer iniquidade, ou por qualquer pecado, seja qual
for o pecado que cometeu; pela boca de duas testemunhas, ou pela
boca de três testemunhas, se estabelecerá o fato” (Dt 19:15;
compare com Dt 17:6).
Quão facilmente pode ser pronunciada uma acusação por uma
única pessoa, por motivos pessoais ou carnais! Contudo, mesmo
após uma avaliação sincera, nenhuma pessoa é capaz de emitir
individualmente um juízo de fato objetivo. Por isso, somos intimados
pelo próprio Senhor a levar conosco um ou dois irmãos, não só
nesse caso, mas em todas as situações em que surjam problemas
entre os irmãos, que não possam ser resolvidos conforme a vontade
de Deus com uma conversa entre os envolvidos, “para que pela
boca de duas ou três testemunhas toda a palavra seja confirmada”
(Mt 18:16; compare 2 Co 13:1).
5:20 — Aos que pecarem, repreende-os na presença de todos, para que
também os outros tenham temor.
Os versículos 19 e 20 referem-se aos presbíteros acusados de
terem cometido pecado. Na época, por causa de sua nomeação
oficial, eles ocupavam uma posição especial na igreja. Por isso, não
se podia acusá-los ou aceitar levianamente qualquer acusação
contra eles. Mas se alguma acusação contra um presbítero fosse
confirmada por duas ou três testemunhas e justificada, se realmente
houve pecado, então esse irmão deveria ser repreendido ou punido
diante de todos. A palavra grega elencho tem os seguintes
significados: “convencer” (por exemplo, Mt 18:15; Jo 16:8; 1 Co
14:24; Tt 1:9); “expor” ou “comprometer” (Ef 5:13); “punir” (Lc 3:19;
Ef 5:11; 2 Tm 4:2); “repreender” (Tt 1:13).
Não é fácil responder se nesse versículo os “que pecaram” são
apenas os anciãos mencionados no versículo 17 e acusados no
versículo 19 ou qualquer membro da igreja local. Isso levanta
imediatamente outra questão: se os que pecam são anciãos, a
repreensão “na presença de todos” significa diante de toda a igreja
ou apenas dos demais anciãos? William Kelly prefere não limitar
esse versículo aos anciãos, mas aplicá-lo a todos membros de uma
igreja local. John Nelson Darby não apresenta em sua sinopse
nenhum comentário sobre o assunto. Em seus escritos, porém, por
duas vezes as suas observações apontam para uma aplicação
geral. Outros comentaristas, como Frederick William Grant e Henri
Rossier, dizem que o versículo faz referência apenas aos anciãos.
Vários argumentos depõem a favor da última explicação, porque
o assunto dos versículos de 17 a 21 é a posição dos anciãos. Seria
incomum se de repente fosse dada no versículo 20 uma instrução
geral. Da mesma forma, em 3:11 também não são todas as
mulheres, mas apenas as esposas dos diáconos. Nos versículos 17
e 18 são mencionados os presbíteros que governam bem; no
versículo 19, trata-se de acusações contra um ancião; no versículo
20, pela lógica, é descrito o curso de ação no caso de acusações
bem fundamentadas contra eles.
Além disso, se o versículo for aplicado de maneira geral, estará
em contradição com outras passagens da Escritura. Se um irmão ou
uma irmã cair em pecado, sem que com isso se manifeste uma
situação muito grave, o primeiro passo é sempre o ajuste pessoal
(Mt 18:15; Gl 6:1; Tg 5:19-20). Afinal de contas, as pessoas que
ocupam uma posição de liderança e que por isso precisam dar
exemplo têm uma responsabilidade especial, de acordo com a
Palavra de Deus. Quando um sacerdote ou um príncipe de Israel
caía em pecado, ele precisava oferecer um sacrifício maior que o de
alguém do povo (Lv 4:3,22,27).
Por fim, uma repreensão pública só pode se referir aos anciãos.
Essa forma séria de censura era bem apropriada ao grupo. Vemos
um exemplo disso em Gálatas 2:11, quando Paulo repreende a
Pedro publicamente. E, em 1 Pedro 5:1, este se identifica como
“também presbítero”, embora fosse mais que isso, a saber, um
apóstolo. Mas se ele não fosse repreendido diante de todos para
não prejudicar a sua reputação, Paulo poderia estar abrindo um
precedente para uma indiferença perigosa dos fiéis com relação a
esse pecado. Exatamente por se tratar de uma pessoa ilustre, o erro
se tornava mais sério e exigia uma condenação pública.
O mau exemplo de um líder pode induzir outros crentes ao mal.
De fato, foi o que aconteceu em Antioquia: “Os outros judeus
também dissimulavam com ele, de maneira que até Barnabé se
deixou levar pela sua dissimulação. Mas, quando vi que não
andavam bem e direitamente conforme a verdade do evangelho,
disse a Pedro na presença de todos...” (Gl 2:13-14). Agora Paulo
ordena a mesma coisa a Timóteo.
Outra dificuldade nesse versículo é saber se a expressão “na
presença de todos” quer dizer diante de todos os anciãos ou diante
de todos os fiéis. Os intérpretes que veem nos “que pecarem”
apenas os anciãos tendem a interpretar “todos” também como os
demais anciãos, de modo que o versículo significaria: “Os anciãos
que pecarem, repreende-os diante dos demais anciãos, para que
também estes tenham temor”. No entanto, uma repreensão diante
de um pequeno grupo poder dar a aparência de uma atividade
secreta, que por sua vez pode motivar a difamação. Mas se a
exposição do assunto e a repreensão do acusado acontecerem de
maneira séria e tranquila diante de toda a igreja, o impacto sobre
toda a congregação poderá gerar um profundo receio do pecado.
Após esse exame mais detalhado do versículo 20, à luz de toda
a Escritura, a redação que se segue descreve melhor o seu
significado: “Os anciãos que pecam, repreende-os diante de todos
os crentes, para que os outros também tenham temor”. Embora hoje
já talvez não haja anciãos ou presbíteros legitimamente instituídos
(veja o comentário de 3:1-7), esse princípio ainda é válido com
relação a irmãos que o Senhor usa de maneira especial no meio dos
crentes e que por isso têm uma responsabilidade especial. E pode
ser aplicado em outros casos também.
5:21 — Conjuro-te diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, e dos anjos
eleitos, que sem prevenção guardes estas coisas, nada fazendo por
parcialidade.
Esse versículo reforça de maneira vigorosa a importância das
admoestações precedentes. Embora aplicadas exclusivamente aos
anciãos de determinada época, a importância fundamental e o poder
moral dessas advertências continuam a ter valor para nós. E, nessa
questão, Paulo inclui três testemunhas: Deus, que está acima de
tudo; Cristo Jesus, o homem glorificado à direita de Deus, que é a
Cabeça da Igreja; os anjos eleitos (veja 6:13; 2 Tm 4:1).
Embora os anjos sejam criaturas, eles se distinguem por sua
santidade e sua glória. Na verdade, há também anjos que não
guardaram o seu principado e pecaram (veja Gn 6:2,4; 2 Pe 2:4; Jd
6) e que por isso desde agora sofrem castigo, enquanto Satanás e
“seus anjos” (Mt 25:41) ainda desfrutam certa liberdade (veja Jó 1:6;
Ef 2:2; 6:11-12; Ap 12:7-10). Em contraste com eles, são
mencionados aqui os “anjos eleitos”, que em outro lugar são
denominados “santos anjos” (Mc 8:38; Lc 9:26). Os anjos são
testemunhas dos grandes atos de poder e amor de Deus (veja Jó
38:4-7; Lc 2:9-14; 22:43; 24:4; Jo 20:12; At 1:10; Ef 3:10; 1 Pe 1:12).
Em vista de todas essas testemunhas, Paulo exorta Timóteo a
observar “estas coisas”. Na Casa de Deus, tudo acontece não
apenas diante dos olhos dos fiéis, mas também diante de Deus, de
Cristo Jesus e dos anjos eleitos, um fato muitas vezes esquecido.
Portanto, Timóteo não deve guiar-se por preconceitos contra alguém
nem pela preferência por algum partido, mas por juízo espiritual, e
deve portar-se com cautela e sabedoria, como convém a um bom
servo de Cristo.
Atitude pessoal (5:22-25)
5:22 — A ninguém imponhas precipitadamente as mãos, nem participes dos
pecados alheios; conserva-te a ti mesmo puro.
A partir do versículo 22, seguem-se instruções mais gerais, que
todavia mantêm certa conexão com o que foi dito anteriormente. As
admoestações, relacionadas entre si quanto ao seu sentido, são
complementadas por um pedido pessoal a Timóteo, no versículo 23.
Há muita divergência de opinião sobre o significado da
imposição de mãos no Novo Testamento. No judaísmo, esse ato
desempenhava um papel importante. Basta pensar na imposição
das mãos relacionada com diversos sacrifícios (Lv 1:4; 3:8; 4:4:
compare com Lv 16:21). O autor da epístola aos Hebreus chega a
mencionar uma “doutrina [...] da imposição das mãos” (Hb 6:2). No
Novo Testamento, encontramos três tipos de imposição de mãos:
O Senhor Jesus impôs as mãos várias vezes, para abençoar crianças e
curar doentes (Mt 19:15; Mc 6:5; 8:23; Lc 4:40; 13:13). Além de outros
sinais, Ele prometeu esse poder aos apóstolos, e todos esses sinais do
poder de Deus se cumpriram no período apostólico (Mc 16:18; At
9:12,17; compare com Hb 2:4). Nesse tipo de imposição de mãos, os
instrumentos de Deus possuíam ou recebiam autoridade dEle e
manifestavam dessa forma a Sua graça.
Em duas ocasiões, pessoas recém-convertidas receberam o Espírito
Santo por meio da imposição de mãos dos apóstolos (At 8:17; 19:6), e
uma vez um dom foi dado a um crente por meio desse ato (2 Tm 1:6).
Esses casos, no entanto, constituem exceções, nas quais Deus, com
determinada intenção, honrou os Seus apóstolos e usou-os como
canais de bênção. Em outros casos, porém, não foi assim que
aconteceu. Hoje não há mais apóstolos com tarefas e competências
especiais, como no início da igreja.
Os apóstolos impuseram as mãos aos diáconos eleitos pela igreja de
Jerusalém (At 6:6). Algo semelhante aconteceu com Paulo e Barnabé
(At 13:3). Timóteo também recebeu a imposição de mãos por parte dos
presbíteros (veja 4:14). Esse tipo de imposição de mãos expressava
comunhão e identificação.

Nenhuma passagem do Novo Testamento nos autoriza a


concluir que os dois primeiros tipos de imposição de mãos existem
ainda hoje. Já o terceiro tipo em geral expressava comunhão, como
também o gesto de estender a mão direita (Gl 2:9). Em nenhum
lugar, no entanto, é afirmado que a imposição de mãos serve para
confirmar ou proceder à ordenação oficial. Embora a imposição de
mãos seja mencionada na escolha dos diáconos em Atos 6, isso
não aconteceu na nomeação dos presbíteros. A imposição de mãos
que resultou para Timóteo em uma admoestação à vigilância não
foi, portanto, um ato oficial e não tem conexão direta com os
versículos anteriores.
Assim, se Timóteo quiser demonstrar dessa forma uma
comunhão profunda com algum crente, deve cuidar para não fazê-lo
de maneira precipitada. Porque, se ele não conhecer o caráter nem
o modo de vida desse crente, estará correndo o risco de se
identificar, por meio desse ato, com os pecados dele. Essas
palavras são uma indicação importante de que às vezes é fácil não
perceber que, aos olhos de Deus, o contato com o mal também
contamina. A comunhão com os pecadores ou mesmo a interação
com crentes que vivem em pecado pode tornar o salvo culpado
diante de Deus e dos Seus (1 Co 5:11; 2 Co 6:14-18; 2 Jo 10,11).
A frase “conserva-te a ti mesmo puro” ressalta, por um lado, a
importância da ideia anterior. Por outro lado, constitui uma renovada
exortação a Timóteo quanto ao cuidado de si mesmo (veja 4:16), a
fim de se preservar não apenas de atos pecaminosos, mas de
qualquer impureza espiritual e moral. A castidade é apenas um
aspecto da pureza interior que deve ornar todos os filhos de Deus,
mas em especial os ministros do Senhor (veja 4:12; 2 Co 7:1).
5:23 — Não bebas mais água só, mas usa de um pouco de vinho, por causa
do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades.
Esse versículo está conectado com a frase precedente —
“conserva-te a ti mesmo puro”. Ao que parece, Timóteo adquiriu o
hábito de se abster totalmente do vinho. Na época, nos países do
Mediterrâneo, o vinho era um alimento e um estimulante básico,
contra o abuso do qual a Palavra de Deus adverte com frequência.
Paulo sem dúvida conhecia o desejo de seu jovem companheiro de
luta, que era se manter puro e se abster de tudo que pudesse
excitá-lo ou mesmo satisfazer a carne.
Com essa abstenção, Timóteo queria evitar que os outros se
escandalizassem com o seu comportamento. Mas é possível que
ele também tendesse, por natureza ou por outros motivos, um
pouco para a ascese, e Paulo percebeu essa atitude um tanto
excêntrica de seu jovem colaborador. Com o que escreve no
versículo 23, ele tenta impedir que Timóteo prejudique a sua saúde
ao se abster de algo que lhe fazia bem. O cristão tem a liberdade de
comer e beber de tudo que Deus lhe oferece, desde que os motivos
sejam sinceros (veja 6:17; 1 Co 10:23,31).
A frase “bebas [...] água” é formada por uma única palavra no
grego (hydropoteo). Timóteo aqui não é aconselhado a não beber
água, e sim que não continue bebendo apenas água, em razão da
completa abstinência do vinho. No entanto, pela frase que se segue
— “mas usa um pouco de vinho” — podemos deduzir que o apóstolo
não está incentivando o consumo irrestrito de vinho, apenas
recomendando o uso moderado da bebida como algo salutar para o
estômago fraco de Timóteo, por causa do frequente desconforto que
sentia.
À parte disso, convém observar que Paulo não curou o seu
colaborador de sua fraqueza corporal, embora tenha mencionado
várias vezes os dons de curas em 1 Coríntios 12 e também os
possuísse (veja At 28:8-9). Mas a aplicação desse dom da graça
não era destinada aos crentes, apenas aos descrentes. Houve
outros colaboradores e amigos doentes que Paulo também não
curou.
5:24-25 — Os pecados de alguns homens são manifestos, precedendo o
juízo; e em alguns manifestam-se depois. Assim mesmo também as boas
obras são manifestas, e as que são de outra maneira não podem ocultar-se.
Depois da intercalação do versículo 23, que dá testemunho da
assistência do apóstolo Paulo a Timóteo, ele retoma a ideia iniciada
no versículo 22.
Os pecados de certas pessoas acontecem diante dos olhos de
todos. Podemos julgá-los de imediato, e eles já manifestam o juízo
que segue a eles. Em outros casos, porém, os pecados estão
escondidos sob um manto de decoro ou de piedade. Eles só serão
revelados mais tarde e, em qualquer caso, diante do trono de Deus.
Timóteo não deve participar desses pecados escondidos pela
precipitada imposição de mãos sobre alguém. Em vez disso, deve
manter-se puro. Esses pecados não eram reconhecidos à primeira
vista.
E o que vale para os pecados é aplicável também às “boas
obras” (no grego, erga kala; veja 2:10). Há boas obras que são
visíveis a todos. Evidentemente, não nos referimos aqui às obras
dos hipócritas, das quais o Senhor Jesus nos adverte com
insistência em Mateus 6:1-18, e sim ao fruto da nova vida, produzido
por Deus (veja Ef 2:10; Tg 2:14). Em outro lugar, o Senhor diz aos
Seus discípulos: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos
homens, para que vejam as vossas boas obras [no grego, erga kala]
e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5:16). Por meio de
tais obras, Deus é glorificado, não quem as pratica. Quando as boas
obras se manifestam, o homem se retrai.
No entanto, há também obras que são praticadas sem alarde e
permanecem invisíveis aos olhos do povo em geral. Mas Deus,
nosso Pai, vê todas essas obras ocultas. Ele tem conhecimento
delas agora, e um dia as revelará — se não nesta terra, então no
tribunal do Cristo (2 Co 5:10). Que encorajamento e que consolo
para muitas almas mal compreendidas, talvez até por outros
cristãos, que em humildade e em oculto viveram e realizaram muita
boa obra para o Senhor!
1 An Exposition of the First Epistle to Timothy.
2 Publicado por United Bible Societies. Quanto ao texto, é idêntico ao Novum Testamentum Graece, de
Nestle-Aland (27. ed.).
3 Op. cit.
CAPÍTULO 6
M
Escravos e senhores (6:1-2)
6:1 — Todos os servos que estão debaixo do jugo estimem a seus senhores
por dignos de toda a honra, para que o nome de Deus e a doutrina não sejam
blasfemados.
No capítulo 6, o apóstolo dedica-se à esfera mais ampla das
circunstâncias terrenas e da sociedade humana, na qual o cristão
está inserido e deve viver, para a honra de seu Senhor. Os primeiros
versículos contêm instruções aos escravos. De acordo com a
concepção greco-romana, os escravos não eram pessoas, e sim
objetos. Eram propriedade absoluta de seus senhores (no grego,
despotes — “soberano”, “mandante”) e não tinham nenhum direito.
Naturalmente, entre os escravos da época e os empregados de hoje
há muita diferença. Apesar disso, as instruções do apóstolo ainda
são importantes e aplicáveis ainda hoje, e feliz o empregado crente
que aceita e vive o que a Palavra de Deus ensina sobre o
comportamento dos servos diante de seus senhores!
O princípio divino da autoridade é válido para sempre. Os
escravos crentes talvez tivessem chegado a essa situação de
sujeição total por caminhos diferentes: pelo nascimento, como
prisioneiro de guerra ou por culpa própria. Mas deviam aceitar essa
condição como determinada pelo próprio Deus (veja Ef 6:5-8; Cl
3:22-24; Tt 2:9-10; 1 Pe 2:18-23). Não importava se os senhores
eram crentes ou não. Em qualquer um dos casos, deveriam estimá-
los como dignos de toda honra e reconhecê-los como seus
senhores, mesmo que não pudessem aprovar o estilo de vida ou as
ações deles.
Se o apóstolo aqui admoesta os escravos a honrar os seus
senhores, nem por isso devemos concluir que está justificando a
escravidão. O fato de o homem, criado à imagem de Deus, se
arvorar na condição de senhor e proprietário de outros seres
humanos é uma manifestação do pecado e uma consequência de
sua de sua natureza pecaminosa, resultante da Queda. Ao mesmo
tempo, para a parte subjugada é um claro sinal dos caminhos do
governo de Deus para com os homens caídos (veja Gn 9:26-27).
Nas leis que o povo de Israel recebeu de Deus, vemos que, por
Sua graça, a dura sorte desses homens devia ser aliviada. Ao servo
hebreu devia ser concedida a liberdade no sétimo ano de servidão
(Êx 21:2; Lv 25:39; Dt 15:12). No Novo Testamento, porém, não há
regras desse tipo para os senhores crentes nem para os escravos
crentes. De fato, o apóstolo Paulo esperava que Filemom libertasse
o seu escravo Onésimo, para que este pudesse ajudar o apóstolo
no ministério, mas na nova criação em Cristo já não existem essas
diferenças sociais. “Nisto não há judeu nem grego; não há servo
nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em
Cristo Jesus” (Gl 3:28; compare com 1 Co 12:13; Cl 3:11). Não é o
caso discutir as condições do mundo à nossa volta, que é inimigo de
Deus. Mudar essas condições também não é a tarefa do cristão,
como lemos em 1 Coríntios 7:20-24:
Cada um fique na vocação em que foi chamado. Foste chamado sendo
servo? Não te dê cuidado; e, se ainda podes ser livre, aproveita a ocasião.
Porque o que é chamado pelo Senhor, sendo servo, é liberto do Senhor; e da
mesma maneira também o que é chamado sendo livre, servo é de Cristo.
Fostes comprados por bom preço; não vos façais servos dos homens.
Irmãos, cada um fique diante de Deus no estado em que foi chamado.
Todo cristão deve deixar a sua luz iluminar a escuridão ao redor,
para que Deus possa conduzir outras pessoas à Sua luz
maravilhosa. Por isso, o apóstolo não convoca os escravos a uma
rebelião contra os patrões para obter a liberdade. Em vez disso, eles
devem estimar os donos como se estes fossem dignos de toda
honra. A motivação apresentada para isso é notável. Nela, a
escravidão não é considerada um caso legítimo, mas também não
se lamenta a condição dessas pessoas, quase sempre lastimável.
Essas questões são omitidas porque a motivação é “que o nome de
Deus e a doutrina não sejam blasfemados”.
Esses escravos já haviam dado testemunho de que serviam a
Deus e aceitaram a doutrina do Senhor. Depois disso, se não se
sujeitassem e fizessem o seu trabalho de forma negligente ou
fossem desobedientes aos seus senhores, que testemunho de Deus
estariam dando? Eles teriam desonrado ao Senhor Jesus, que
humilhou a Si mesmo “tomando a forma de servo” e “sendo
obediente até à morte” (Fp 2:7). Se o nome santo de Deus e a santa
doutrina do evangelho fossem blasfemados dessa maneira, os
descrentes teriam razão em dizer: “Que Deus é esse, que provoca
desordem? E que doutrina é essa, que tolera a revolução e a
violência?”.
Ainda hoje, o comportamento do crente no local de trabalho
pode ser um testemunho positivo ou negativo com relação ao
Senhor. A indiferença, o descuido, a indelicadeza e a falta de
sinceridade para com os superiores e os colegas dão origem à
blasfêmia contra o nome de nosso Deus e contra a sua doutrina.
Mas o cristão consciente de que não está servindo a homens, mas
ao Senhor Jesus Cristo, irá adornar a doutrina de nosso Deus
Salvador cumprindo o seu dever com zelo, amor ao próximo e
honestidade no seu local de trabalho (Tt 2:10).
6:2 — E os que têm senhores crentes não os desprezem, por serem irmãos;
antes os sirvam melhor, porque eles, que participam do benefício, são
crentes e amados. Isto ensina e exorta.
Quando um escravo tinha um senhor crente, em princípio, isso
não fazia diferença quanto à sua condição. Como vimos, quanto à
posição celestial do cristão todas as diferenças — nacionais,
sociais, religiosas e sexuais — foram eliminadas pela obra realizada
por Cristo na cruz. No Corpo de Cristo, a Igreja, essas diferenças já
não existem. Mas enquanto os cristãos se encontram na terra elas
perduram em seus relacionamentos terrenos, pois em parte foram
introduzidas pela ordem da criação e em parte pelo pecado original.
A inclinação natural da carne poderia levar o escravo crente a
pensar: “Como irmãos, somos iguais, portanto o meu senhor não
deve esperar de mim o mesmo respeito que o dos escravos
descrentes”. Isso seria uma atitude de desprezo para o seu senhor,
pois era justamente o que ele não deveria fazer, como verdadeiro
escravo de Cristo. Em vez disso, deveria servi-lo com mais zelo
ainda, “porque eles, que participam do benefício, são crentes [no
grego, pistos — a mesma palavra usada no início do versículo] e
amados”. Já a Vulgata (tradução latina). Lutero e mais recentemente
Carl Weizsäcker e a Bíblia de Elberfeld (traduções alemãs) veem no
benefício o serviço fiel dos escravos.
Para os escravos que tinham senhores crentes, o amor fraternal
e cordial era um incentivo adicional a um serviço obediente e
dedicado. Várias traduções recentes, no entanto, entendem que a
última parte do versículo sugere que são os senhores crentes que
devem se esforçar para fazer o bem. Essa tradução não deixa de
ser possível, mas no presente contexto é bem destoante. E a
validade geral de tal afirmação é insustentável, se considerarmos as
passagens de outras cartas, em que não só os escravos crentes,
mas também os senhores, são admoestados com severidade (Ef
6:9; Cl 4:1).
O fato de os escravos serem admoestados antes dos senhores
em Efésios 6:5-9, Colossenses 3:22—4:1 e aqui, como também
exclusivamente os escravos em Tito 2:9 e 1 Pedro 2:18, mostra que
a responsabilidade pelo comportamento correto começava a
fraquejar do lado dos subordinados. A frase adicional — “Isto ensina
e exorta” — ressalta o que foi acabou de ser dito, mas não encerra a
seção anterior nem serve de abertura para uma nova seção. Ela
está no meio de uma continuidade, que se dá nos versículos
seguintes.
Visão de lucro (6:3-10)
6:3-5 — Se alguém ensina alguma outra doutrina, e se não conforma com as
sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo
a piedade, é soberbo, e nada sabe, mas delira acerca de questões e
contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, blasfêmias, ruins
suspeitas, perversas contendas de homens corruptos de entendimento, e
privados da verdade, cuidando que a piedade seja causa de ganho; aparta-te
dos tais.
Com grande firmeza, o apóstolo condena então todo desvio da
doutrina que acaba de confirmar. Era repugnante para ele a ideia de
alguém prejudicar a relação entre escravos e senhores com
pretextos fantasiosos e confissões patéticas. Se alguém tentasse
demonstrar que o serviço escravo e a vida da fé pertencem a
esferas de vida diferentes, devia-se contrapor a ele o fato de que a
doutrina segundo a piedade se aplica na prática justamente às
circunstâncias familiares e sociais e às demais circunstâncias
terrenas em que o cristão possa se encontrar. Toda atitude
desrespeitosa ou revoltosa desonra a Deus, por isso não pode ser
tolerada.
Qualquer um que ensinasse outra coisa não era adepto das “sãs
palavras” (veja 1:10), designadas como palavras de nosso Senhor
Jesus Cristo. A doutrina do apóstolo Paulo não se diferenciava da
do Senhor Jesus como a encontramos nos Evangelhos. As palavras
(no grego, logos) não se referem aqui a certos ditos isolados, e sim
à expressão dos pensamentos de nosso Senhor Jesus Cristo. Ele
mesmo declarou que o Seu ensino na verdade não era dEle, mas
daquEle que o enviou, e que comunicara a palavra do Pai aos
discípulos (Jo 7:16; 17:14).
Nas palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, está contida a
verdade sobre os pensamentos divinos mais elevados, mas também
sobre as relações humanas mais simples. Na doutrina segundo a
piedade, Deus nos mostra que a nossa vida diante dEle deve ser
conforme os Seus pensamentos.
Assim, vemos, de um lado, as sãs palavras do nosso Senhor
Jesus Cristo e, de outro lado, arrogância, ignorância e delírios
acerca de “questões e contendas de palavras”. Aqui talvez já se
manifestem os primeiros indícios do gnosticismo (veja os
comentários de 4:3). A intenção de Satanás sempre foi obscurecer e
trocar a verdade divina pelos seus pensamentos destrutivos. A fonte
maligna de tais esforços, porém, não se trai apenas pela arrogância
e pelas contendas, mas também pelo fato óbvio de que se despreza
“a doutrina que é segundo a piedade”.
A arrogância anda de mãos dadas com conhecimento
pretensioso (1 Co 8:1), que na realidade é ignorância quanto aos
pensamentos e à Palavra de Deus. Tal ignorância ocorre quando o
intelecto humano passa a se ocupar de questões e contendas de
palavras, que não promovem a piedade, mas produzem ainda mais
obras da carne. Bem diferente é a situação em que a fé atua pelo
amor, pois então aparece o fruto do Espírito: “amor, gozo, paz,
longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança”
(Gl 5:22). O orgulho humano, porém, não tolera rivais. Por isso, as
“contendas de palavras” produzem “invejas”, e destas nascem as
“porfias”, que muitas vezes se expressam em “blasfêmias”, isto é,
insultos ou calúnias. As blasfêmias, por sua vez, estão associadas
às “ruins suspeitas” e às “perversas contendas”.
É um fato grave que a carne seja capaz de produzir tais coisas
na vida dos filhos de Deus. Aqui, no entanto, são características de
“homens corruptos de entendimento, e privados da verdade,
cuidando que a piedade seja causa de ganho”. Seu verdadeiro
motivo e objetivo, pois, é o ganho terreno. Para eles, a piedade é
um caminho para obtê-lo! Eles pensam no cristianismo apenas
como um meio de melhorar as condições de vida e alcançar
vantagens mundanas.
Vivemos hoje um período em que o cristianismo muitas vezes
serve a propósitos ideológicos e políticos. Pretensos movimentos de
libertação em países do Terceiro Mundo são financiados por igrejas,
armas são adquiridas em troca de alimentos e tudo isso acontece
em nome da caridade cristã! São claros exemplos da ideia de que a
piedade pode ser usada como meio de ganho, a visão de lucro que
já se evidenciava nos tempos do apóstolo Paulo.
6:6-7 — Mas é grande ganho a piedade com contentamento. Porque nada
trouxemos para este mundo, e manifesto é que nada podemos levar dele.
Havia no mundo grego uma orientação filosófica, a estoa, na
qual a palavra “modéstia” (no grego, autarkeia) tinha um papel
importante. Nela se expressava o desejo de que o homem estivesse
contente em todas as situações da vida e que, em virtude da própria
força de vontade, resistisse à influência das circunstâncias externas.
Mas com isso os estoicos se tornaram homens mais duros que
felizes. E, mesmo que tivessem alcançado esse objetivo na prática,
a que grande distância estariam, em seu aprumado contentamento,
de uma vida de verdadeira piedade em Cristo Jesus! Em 4:8 Paulo
já menciona essa piedade, que “para tudo é proveitosa, tendo a
promessa da vida presente e da que há de vir”.
A “piedade com contentamento” é um grande ganho, em
contraste com o ego-contentamento filosófico, que quer se dar bem
sem Deus e sem confiar nEle. A piedade com contentamento dá paz
à alma e a consciência de que Deus cuida dela. Em tempos de
abundância, há o perigo de o crente desejar viver na piedade, mas,
ao mesmo tempo, progredir neste mundo. Então o coração não
desfruta a bênção procedente da verdadeira piedade.
“Contentamento” é a satisfação com aquilo que Deus, o Pai, nos
dá. Paulo escreve em Filipenses 4:11-13: “Já aprendi a contentar-
me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter
abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou
instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter
abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas
em Cristo que me fortalece” (compare com Mt 6:31-34; Hb 13:5).
No versículo 7, achamos a razão para o contentamento, que
está ligado à verdadeira piedade: “Nada trouxemos para este
mundo, e manifesto é que nada podemos levar dele”. A concisão e a
aparente severidade dessa afirmação provavelmente levou a várias
adições ao texto dos manuscritos mais antigos. Alguns deles
introduzem a segunda parte do versículo com as palavras: “[é]
verdade” (D, Vulgata e outros); um número maior com as palavras:
“[é] manifesto” (- e D como correção posterior, K, L e P e muitos
manuscritos cursivos). No entanto, a variante de leitura mais antiga,
a ser averiguada, parece ser a que mencionada acima (segundo A,
F e G, vários manuscritos cursivos e traduções antigas; assim
também William Kelly).
Como ocorre várias vezes no Antigo Testamento (veja Jó 1:21;
Sl 49:17; Ec 5:15), somos lembrados aqui de que tudo que é terreno
é transitório e não pode ser levado conosco para a eternidade,
“porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são
eternas” (2 Co 4:18). Todo homem, inclusive aquele que não
conhece a Deus, sabe que não irá levar nada deste mundo. Por
isso, ele tenta desfrutar o máximo possível as coisas terrenas
perecíveis e as mundanas pecaminosas no curto espaço de tempo
entre o nascimento e a morte, em detrimento de sua alma.
Portanto, é vergonhoso quando o crente, que é abençoado
abundantemente em Cristo com bênçãos espirituais, age conforme
o povo deste mundo. Se ele conheceu de fato a grandeza do dom
de Deus em Cristo (veja Jo 4:10; Rm 8:32; 2 Co 9:15), então Cristo
se tornará mais e mais o conteúdo, o exemplo, o objetivo e a força
de sua vida. Assim, não será difícil para ele contentar-se com o que
tem em todas as circunstâncias da vida (Hb 13:5).
6:8 — Tendo, porém, sustento, e com que nos cobrirmos, estejamos com isso
contentes.
Deus já tinha dito ao seu povo terrestre, Israel, que Ele amava o
estrangeiro e lhe daria pão e roupa (Dt 10:18). Em Mateus 6:31-33,
no Sermão do Monte, Jesus diz aos Seus discípulos:
Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou
com que nos vestiremos? Porque todas estas coisas os gentios procuram.
Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas;
mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas
vos serão acrescentadas.
Portanto, Deus, nosso Pai, prometeu aos Seus o necessário
para viver. Os pratos mais refinados e as roupas mais caras não
estão incluídos. Exatamente em tempos de prosperidade externa
geral torna-se mais necessário que os cristãos se lembrem de que
são estranhos em uma terra estrangeira e vivem no meio de um
povo estranho.
6:9 — Mas os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em
muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na
perdição e ruína.
Em contraste com os fiéis, que confiam em seu Deus e Pai
quanto à sua subsistência e estão satisfeitos com o que Ele lhes dá,
o apóstolo aqui fala daqueles que “querem ser ricos”. Nisso, no
entanto, ele não diferencia crentes de incrédulos. Por um lado, o
versículo 9 retoma a ideia da cobiça do versículo 5 e a desenvolve.
Por outro lado, o contraste com a piedade (vv. 6-8) associada ao
contentamento é enfatizado. Os versículos 9 e 10 tratam do anseio
pelas riquezas terrenas e de suas consequências. Os versículos de
17 a 19 falam da riqueza em si e da responsabilidade dela
decorrente.
Sob a Antiga Aliança, Deus havia prometido bênçãos terrenas
ao seu povo terrestre. Por isso, a abundância material era
considerada entre o povo de Israel uma prova da bênção de Deus.
Mas na era da graça não se trata de obter coisas terrenas em
primeiro lugar, e sim coisas celestiais. A origem, a posição e o
objetivo da vida cristã é o céu, onde está o Cristo assentado à
direita de Deus. Assim, somos abençoados “com todas as bênçãos
espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Ef 1:3; 2:6). É para lá
que devemos dirigir o nosso olhar (Cl 3:1-4).
Como cristãos, somos administradores de tudo que Deus nos
confiou na terra. Um dia, Ele irá exigir a prestação de contas por
meio de Cristo (veja Mt 25:14-30; Lc 19:12-26). Isso vale tanto para
as bênçãos e os dons espirituais quanto para os bens materiais, o
tempo, a saúde e a inteligência (1 Co 4:1; 1 Pe 4:10). Na parábola
do mordomo infiel, o Senhor designa as coisas terrestres como o
“mínimo”, o “alheio” e as “riquezas injustas”. E, como objetivo
verdadeiro, apresenta-nos os “tabernáculos eternos”, o “muito”, as
riquezas “verdadeiras” e o que é nosso (Lc 16:9-12).
Portanto, o anseio pelas riquezas terrenas revela insatisfação
com a vocação cristã e falta de confiança em Deus e em sua
bondade e sabedoria. Mostra que esse crente não entendeu a sua
vocação e posição celestiais. Em vez de se ocupar das riquezas
eternas, que são manifestas no tesouro da Santa Escritura, ele
anseia por riquezas terrestres e luta por elas. Dessa maneira, erra o
objetivo estabelecido por Deus e se deixa arrastar pela cobiça. E,
para alcançar os próprios objetivos, ele rapidamente abandona o
caminho da honestidade.
Uma vez nesse caminho, a consciência endurece cada vez
mais. A tentação torna-se uma armadilha, da qual ele não consegue
mais se libertar. Depreciação de mercadorias na compra, aumento
de preço na venda, jogos de azar e especulações na bolsa são
apenas algumas das concupiscências loucas e prejudiciais que
submergem as pessoas na ruína e na perdição. Quanto mais tempo
alguém está nesse caminho, mais e maiores desejos surgem, cuja
satisfação o levará à ruína moral e material.
Os “homens” de que Paulo fala aqui não são os crentes, porque
as palavras “perdição” (no grego, olethros) e “ruína” (no grego,
apoleia) são usados no Novo Testamento tanto para a perdição
temporal (olethros: 1 Co 5:5; apoleia: Mt 26:8) quanto para a
perdição eterna (olethros: 1 Ts 5:3; 2 Ts 1:9; apoleia: Mt 7:13; Jo
17:12; Rm 9:22 etc.).
6:10 — Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e
nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos
com muitas dores.
A expressão “amor ao dinheiro” (no grego, philargyria) aparece
só aqui no Novo Testamento. Já a palavra “ganância” (no grego,
pleonexia), que indica algo mais grave ainda e é considerada
idolatria (Cl 3:5; Ef 5:5), ocorre dez vezes. O amor ao dinheiro é
uma forma de ganância, na qual a cobiça por posse material ocupa
o primeiro lugar no coração, que deveria pertencer a Deus. Não é
dito que o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males, e sim uma
das raízes. A falta do artigo no grego indica que não se trata da
única razão ou raiz. Em contrapartida, não há nenhum mal que não
possa provir dessa raiz, como indica o plural “de todos os males”,
quando traduzimos o texto grego literalmente.
Alguns dos que se encontravam na Casa de Deus estavam
concentrando todos os seus pensamentos e aspirações no amor ao
dinheiro, e assim se desviaram da fé. Eles se distanciaram dela e a
deixaram, para nunca mais voltar! Para eles, a fé não tinha sabor
nem exercia atração. Em vez de tesouros celestiais, queriam juntar
apenas riquezas terrenas e mundanas (veja Mt 6:19-21). “A fé” (com
o artigo) é aqui, como em muitas outras passagens, a verdade da fé
cristã.
Essas pessoas infligiram muitas dores a si mesmas. É possível
imaginar um resultado mais triste? Elas sonharam com a
prosperidade material, buscaram a riqueza, amaram o dinheiro e a
sua época e assim acabaram abandonando a confissão cristã, por
julgá-la obstrutiva e incompatível com as suas aspirações e com o
que alcançaram por meio delas. Abandonaram a senda abençoada
da fé e se enroscaram como uma ovelha perdida no mato espesso
do pecado deste mundo, onde foram traspassadas pelos espinhos,
que lhes causaram muitas dores — uma imagem da maldição do
pecado (Gn 3:18). Experiências amargas, laços familiares rompidos,
filhos descontrolados e esbanjadores, medo incessante de perder
tudo e mil outras dores lhes traspassam a alma como espinhos
venenosos. Depois disso, vem ainda a dor amarga da consciência
no fim da vida, quando a pessoa é obrigada a deixar tudo, porque
não pode levar para a eternidade nada daquilo que procurou aqui.
O homem de Deus (6:11-16)
6:11 — Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas, e segue a justiça, a
piedade, a fé, o amor, a paciência, a mansidão.
Com essa exortação Paulo lembra ao seu colaborador que este
não deve se sentir imune a essas tentações. As coisas
mencionadas nos versículos precedentes podem representar
também algum perigo para Timóteo — e, portanto, para nós
também. A exortação começa com um enfático “mas tu”, que ocorre
também três vezes na segunda carta (2 Tm 3:10,14; 4:5). Essa
expressão sempre estabelece um forte contraste com o que foi dito
anteriormente.
Timóteo é chamado “homem de Deus” aqui por Paulo. Essa
designação para um servo de Deus no Novo Testamento só ocorre
mais uma vez, em 2 Timóteo 3:17. Em 2 Pedro 1:21, os profetas do
Antigo Testamento são chamados assim. No próprio Antigo
Testamento, Moisés (Dt 33:1), Davi (2 Cr 8:14), Elias (1 Rs 17:18),
Eliseu (2 Rs 4:7) e mais seis homens (1 Sm 2:27; 1 Rs 12:22; 13:1;
20:28; 2 Cr 25:7; Jr 35:4) são chamados assim.
Um homem de Deus é alguém que foi enviado por Ele a algum
lugar do mundo com uma mensagem divina e cumpre dessa forma
uma missão profética. Nem todo crente é um homem de Deus, mas
só aquele que em todas as situações se dispõe a ser usado por Ele
e que está pronto para dar testemunho dEle até em tempos difíceis.
Um desses homens era Timóteo.
Agora é feito um apelo: “Foge destas coisas”, porque são
opostas à piedade. O expressivo verbo “fugir” também é usado pelo
apóstolo em outras passagens, a saber, sempre que um grande
perigo ameaça a vida espiritual (veja 1 Co 6:18; 10:14; 2 Tm 2:22).
Quando o Diabo busca o nosso lado mais fraco como área de
ataque para as suas tentações, só existe uma saída: fugir! Mas
quando Satanás se manifesta como adversário da fé que uma vez
foi entregue aos santos, aí compete resistir (Tg 4:7; 1 Pe 5:9)! Às
vezes, os filhos de Deus confundem essas duas táticas do Inimigo.
Então fogem quando deveriam resistir e resistem quando deveriam
fugir! Mas Timóteo não deve apenas fugir, e sim, como boa
testemunha do Senhor, esforçar-se para que Deus seja glorificado.
A palavra “seguir” (no grego, dioko) significa na realidade
“perseguir” e é assim traduzida em outras passagens (Fp 3:12,14;
Hb 12:14). Aqui não se trata de alcançar determinada posição ou
altura por esforço próprio, onde a pessoa pode descansar. Por essa
exortação, o homem de Deus é convocado a não descansar, a fim
de manifestar mais e mais as características mencionadas. Desse
modo, a natureza de Deus se expressa no homem e pode brilhar
neste mundo tenebroso. O exemplo perfeito disso é o próprio
Senhor Jesus, o verdadeiro “homem de Deus”. Mas Timóteo
também deve ser um exemplo para os crentes (veja 4:12), e estes
devem imitá-lo. Assim, todo cristão tem o dever de glorificar a Deus
(1 Co 6:20) em sua esfera de atuação, seja ela pequena ou grande,
bem visível ou de pouca aparência.
A primeira das seis características mencionadas é a “justiça”
(compare com 2 Tm 2:22). Não é a justiça pela fé no sentido
paulino, e sim a justiça prática na vida diária da fé. Em Efésios 6:14,
ela é a couraça da armadura espiritual de Deus. Consiste em que o
cristão neste mundo faça justiça à natureza e a vontade de Deus. A
justiça (ações e obras) dos santos formarão um dia o vestido da
Esposa do Cordeiro (Ap 19:8).
A “piedade” aparece aqui como palavra-chave pela oitava vez
na carta (veja o comentário de 2:2) e designa uma vida na
dependência prática de Deus e para honra dEle.
A “fé” está em contraste com a confiança naquilo que se vê e
com os recursos pessoais, dos quais também faz parte a riqueza
material.
O “amor” é a natureza de Deus e está derramado no coração de
todo crente. Ele pode agora amar com o amor divino, até mesmo
quando esse amor não é correspondido (compare com 1 Co 13).
A “paciência” é necessária para evitar o mal e suportar todo tipo
de provação.
Por último, Paulo menciona a “mansidão”. Os melhores
manuscritos (-A, F, G etc.) trazem uma palavra (no grego,
praypathia) que só aparece aqui no Novo Testamento e é mais
expressiva que a palavra costumeiramente usada para “mansidão”
(no grego, praytes; também usada aqui na maioria dos
manuscritos). O exemplo perfeito de mansidão é o Senhor Jesus (Mt
11:29). Nesse estado de espírito, temos condições de aceitar a
atuação de Deus sem dúvidas e sem oposição, e essa atitude irá se
manifestar também com relação ao próximo.
6:12 — Milita a boa milícia da fé, toma posse da vida eterna, para a qual
também foste chamado, tendo já feito boa confissão diante de muitas
testemunhas.
É impossível responder por Deus e por Seu Filho neste mundo
sem enfrentar a oposição do Inimigo. Ele tenta por todos os meios
impedir o crente de seguir e pôr em prática as virtudes mencionadas
no versículo 11. A “milícia” (ou “combate”) aqui não deve ser
entendida no sentido de guerra, como em 1:18. Essa palavra
designa em geral a luta na arena ou a competição na pista de
corrida. A palavra usada aqui e em 2 Timóteo 4:7 (no grego, agon)
aparece ainda em Filipenses 1:30, Colossenses 2:1, 1
Tessalonicenses 2:2 e Hebreus 12:1. Aqui se trata de travar uma
boa luta para conquistar um prêmio. No fim de sua vida, o apóstolo
Paulo pôde declarar que havia combatido esse bom combate e
guardado a fé.
A segunda exortação é esta: “Toma posse da vida eterna”. Nos
escritos do apóstolo Paulo, na verdade, o cristão é visto em sua
posição perfeita em Cristo por causa da fé em Sua completa obra
salvadora. No entanto, ele ainda espera pela perfeição, que terá na
glória. Cristo já é a nossa vida agora, porém ela está escondida com
Cristo em Deus (Cl 3:3-4). A alegria perfeita, que não sofre
perturbação, ainda está no futuro. Por isso, Paulo escreve aos
romanos: “Agora, libertados do pecado, e feitos servos de Deus,
tendes o vosso fruto para santificação, e por fim a vida eterna” (Rm
6:22).
De igual modo, nesse versículo a vida eterna é considerada um
alvo que está diante de nós, na glória. A forma temporal do verbo
“tomar [posse]” (imperativo aoristo) expressa um único ato,
enquanto os verbos “fugir”, “seguir” e “militar” indicam uma atividade
geral ou contínua (imperativo presente). A fé pode se apoderar
desse bem perfeito desde agora e alegrar-se com ele, pois a sua
posse está garantida.
Quer dizer então que o crente não possui a vida eterna no
presente? O apóstolo João nos traz algum esclarecimento sobre
esse aspecto da verdade. Ele nos considera pessoas que nasceram
de novo, isto é, nascidas da água e do Espírito ou ainda pessoas
que nasceram de Deus (Jo 1:12-13; 3:3,5). A nova vida que agora
possuímos é a vida eterna (Jo 3:16; 10:28; 17:3; 1 Jo 5:20). Essa
vida eterna, que só recebe quem crê no Filho de Deus, já existe
agora na comunhão com o Pai e com o Seu Filho, Jesus Cristo (1 Jo
1:1-4). É uma característica especial e um privilégio exclusivo da
família de Deus.
Timóteo então é lembrado de que também foi chamado por
Deus para essa vida eterna. Nesse chamado, estão expressos os
pensamentos de salvação soberanos e eternos de Deus para com
os homens (veja Rm 8:30; Gl 1:15). Esse chamado está ligado
também a coisas celestiais no Novo Testamento (Ef 1:18; Fp 3:14;
Cl 3:15; 1 Ts 2:12; Hb 3:1; 1 Pe 5:10), e é dessa forma que se
apresenta aqui. É o chamado de Deus, que na presente era é
dirigido aos homens que Ele elegeu antes da fundação do mundo.
Em seguida, Paulo confirma a “boa confissão” que Timóteo já
fez “diante de muitas testemunhas”, dessa forma correspondendo a
um princípio importante, “visto que com o coração se crê para a
justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação” (Rm 10:10).
Não nos é informado em que condições, quando ou diante de quem
Timóteo fez isso. Mas o apóstolo dificilmente incluiria incrédulos
entre as “muitas testemunhas”, de modo que talvez devamos pensar
em um grupo de cristãos capazes de dar bom testemunho acerca de
Timóteo (compare At 16:2).
6:13-14 — Mando-te diante de Deus, que todas as coisas vivifica, e de Cristo
Jesus, que diante de Pôncio Pilatos deu o testemunho de boa confissão, que
guardes este mandamento sem mácula e repreensão, até à aparição de
nosso Senhor Jesus Cristo [...]
Esses dois versículos remetem a 1:5 e a 1:18 e resumem o que
foi dito até aqui como que em um sentido de urgência. O verbo
“mandar” (no grego, parangello) tem também o significado de “dar
ordem de” e “inculcar”, e dar ordens também é tarefa de Timóteo
(veja 1:3; 4:11; 5:7; 6:17).
De modo semelhante, como em 5:21 e em 2 Timóteo 4:1, Paulo
apela aqui a Deus e a Cristo Jesus como testemunhas. Nisso
podemos ver como era importante para o apóstolo o
reconhecimento da autoridade determinada por Deus. Deus é a
Fonte e o Sustentador da vida, tanto da vida natural quanto da
espiritual. Isso deve encorajar Timóteo, porque mostra que ele está
nas mãos de Deus em todas as situações.
Diante de Pôncio Pilatos, Cristo Jesus deu “o testemunho de
boa confissão”. É claro que aqui não se está falando da mesma
confissão do versículo 12. Timóteo já fez a confissão de sua fé viva
no Senhor Jesus na presença de vários crentes, embora não
apenas diante deles. Foi um testemunho subjetivo acerca da
verdade e com respeito ao fato de que Timóteo aceitara essa
verdade pela fé. Já o testemunho do Senhor Jesus está relacionado
com fatos objetivos referentes à Sua pessoa e à Sua obra. Em
primeiro lugar, Ele testemunhou que era Rei (não apenas o “Rei dos
Judeus”). Em segundo lugar, afirmou que o Seu reino não era deste
mundo. Em terceiro lugar, declarou que viera ao mundo para dar
testemunho da verdade (Jo 18:33-37) Essa boa confissão do
Senhor foi feita diante de Pôncio Pilatos, o seu juiz terreno e inimigo
de Deus.
A “confissão” aqui não se relaciona tanto com as coisas eternas
ou celestiais, como o Reino de Deus, cujo Rei é Cristo — Paulo
volta a falar da manifestação futura do Reino no versículo 15.
Timóteo tem a obrigação de guardar o “mandamento [no grego,
entole]. Há mais coisas nesse mandamento que o que é dito nos
versículos 11 e 12, porque abrange todas as prescrições da carta.
Sim, tudo que é necessário a uma vida de verdadeira piedade. Em
1:5, Paulo escreve: “Ora, o fim do mandamento [no grego,
parangelia] é o amor de um coração puro, e de uma boa
consciência, e de uma fé não fingida”. O que Deus ordena aos
homens é sempre “santo, justo e bom” (Rm 7:12).
Isso valeu para a lei do Sinai tanto quanto vale para a lei de
Deus hoje. Deixar de cumpri-la significa manchá-la e desonrá-la
diante do mundo. Cumpri-la de forma conscienciosa, com um
coração puro e com uma fé não fingida, é o que quer dizer guardá-la
“sem mácula e repreensão”. Os dois adjetivos referem-se ao ato de
guardar o mandamento, não a Timóteo.
Paulo faz uma conexão entre o ato de guardar o mandamento
com a “aparição de nosso Senhor Jesus Cristo”. Isso é notável, mas
é fato que a responsabilidade do cristão na terra termina com a sua
morte ou com a vinda do Senhor para o arrebatamento dos santos.
Também em outras oportunidades, a Palavra de Deus relaciona o
que está sujeito à nossa responsabilidade com a aparição do
Senhor em glória (Fp 1:10; 1 Ts 3:13).
Essa “aparição” (no grego, epiphaneia; compare com 2 Ts 2:8; 2
Tm 4:1,8; Tt 2:13) ou “manifestação” (apokalypsis; compare com 1
Co 1:7; 2 Ts 1:7; 1 Pe 1:7.13) compõe o prelúdio do dia do Senhor,
quando Ele será reconhecido como Senhor por todos. A palavra
“chegada” (no grego, parousia) é uma expressão genérica e pode se
referir à vinda de Cristo para os Seus (1 Ts 4:15; 2 Ts 2:1), como
também à Sua aparição ou manifestação (Mt 24:3; 1 Ts 3:13; 2 Ts
2:8).
Na aparição do Senhor na terra, todos os “exércitos dos céus”
(Ap 19:14), compostos de “anjos” (Mt 25:31; 2 Ts 1:7) e “santos” (1
Ts 3:13, isto é, os crentes), o acompanharão e serão manifestados
com Ele em glória (Cl 3:4). Então o seu galardão, que lhes foi
conferido diante do tribunal de Cristo, será manifesto diante de todo
o mundo (2 Ts 1:10; 2 Tm 4:8). Depois da aniquilação dos exércitos
inimigos, o Anticristo e o chefe do Império Romano serão lançados
no lago de fogo (2 Ts 2:8; Ap 19:19-20), e Satanás será amarrado
por mil anos (Ap 20:1-3). Cristo julgará os povos, que então vivem
na terra e iniciará o Seu reinado de mil anos de paz (Mt 25:31; 2 Ts
1:8-9; Ap 20:4-6).
6:15-16 — [...] a qual a seu tempo mostrará o bem-aventurado, e único
poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores; aquele que tem, ele
só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens
viu nem pode ver, ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém.
A aparição de Cristo será um acontecimento poderoso. Todo
olho O verá como o homem glorificado que cumpre todos os
conselhos de Deus. A manifestação do Senhor Jesus Cristo
acontecerá no momento exato determinado por Deus. Sobre esse
dia, o profeta Zacarias afirma em seu livro: “Será um dia conhecido
do Senhor...” (Zc 14:7). A informação de quando será esse dia é
exclusiva de Deus (Mt 24:36; At 1:7). Por isso, toda especulação a
respeito dessa data deve ser rejeitada: “Irmãos, acerca dos tempos
e das estações, não necessitais de que se vos escreva; porque vós
mesmos sabeis muito bem que o dia do Senhor virá como o ladrão
de noite” (1 Ts 5:1-2).1 No tempo determinado por Ele, Deus
introduzirá outra vez o Seu Primogênito no Universo. Será um dia de
juízo para os Seus inimigos, mas um dia de alegria para aqueles
que aguardam o Messias.
Pensar sobre essa aparição maravilhosa de Cristo leva o
apóstolo a um sublime louvor a Deus e à sua grandeza e eterna
majestade. Dez vezes encontramos nos escritos do apóstolo Paulo
esse tipo de doxologia (Rm 1:25; 9:5; 11:33-36; 16:25-27; Gl 1:5; Ef
3:20-21; Fp 4:20; 1 Tm 1:17; 6:15-16; 2 Tm 4:18). Aqui, pela
utilização de nomes honoríficos para Deus, ele expressa
milagrosamente o que enche a sua alma e nos apresenta três
aspectos da grandeza gloriosa e adorável e da natureza de Deus.
Em primeiro lugar, Deus é “o bem-aventurado, e único poderoso
Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores”. Só em 1:11 e aqui
Deus é chamado “bem-aventurado”. Ele é o único que em Si mesmo
é infinitamente perfeito, intocado com relação a todos os
acontecimentos na criação e que encontra em Si mesmo a mais
perfeita suficiência. Nada pode perturbar a calma eterna, a paz
perfeita e a profunda bem-aventurança de Deus (compare com Jó
35:5-7).
Mas Ele é também o Governante soberano e intocável de tudo
que é visível e invisível, que a Sua mão forte formou. Ele sustenta a
criação inteira em Sua mão, domina sobre a vida e a morte e dirige
tudo conforme o Seu agrado e a Sua sabedoria (Sl 89:11-13). Sob o
Seu domínio universal estão também os governantes, muitas vezes
tão orgulhosos desta terra, mas acima deles está o único Detentor
do poder, que os põe e depõe, dirige-lhes o destino e os exalta e
humilha como quer (1 Cr 29:11-12). Esse Detentor de poder único e
bem-aventurado é o nosso Deus.
Que encorajamento para os crentes do passado e de hoje é o
pensamento de que Ele está acima dos governantes e dos
dominadores do mundo! Esse título também tinha um significado
especial nas circunstâncias em que Timóteo se encontrava. Que
consolo para os corações dos crentes era ter em mente o fato de
que pertenciam a esse Deus soberano e bem-aventurado! Que
poder do mundo poderia prejudicá-los ou roubar-lhes a alegria nEle?
Deus aqui é denominado também “Rei dos reis e Senhor dos
senhores”. Em Apocalipse 17:14 e 19:16 (com um pequena
variação), é o título do Senhor Jesus, que vem a confirmar a Sua
divindade.
Em segundo lugar, Deus é “aquele que tem, ele só, a
imortalidade”. Nenhuma criatura possui em si mesma a imortalidade,
pois esta é mais que uma vida sem fim: é uma condição inatacável
para a morte. Só Deus é eterno, sem começo e sem fim. Ele é o
“Deus eterno” (Rm 16:26) e o “Deus vivo” (Mt 16:16; 1 Ts 1:9; 1 Tm
3:15; 4:10; Hb 10:31). Os crentes, no entanto, serão revestidos de
imortalidade quando tiverem o corpo transformado, na vinda do
Senhor (1 Co 15:53-54).
Em terceiro lugar, Deus é aquele que “habita na luz inacessível;
a quem nenhum dos homens viu nem pode ver”. Em Sua essência
absoluta, Deus é inatingível e invisível às criaturas. Ele declarou a
Moisés: “Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum
verá a minha face, e viverá” (Êx 33:20). João escreve: “Deus nunca
foi visto por alguém” (Jo 1:18; 1 Jo 4:12). Paulo denomina-o “Deus
invisível” (Cl 1:15). Quando Deus se revela, Ele o faz
exclusivamente pelo Filho, que é o “anjo do Senhor” no Antigo
Testamento (Gn 16:7-11; Jz 6:11-14). Ele mesmo é o Senhor
(compare Is 6 com Jo 12:39-41). O Filho de Deus é a Palavra, o
Logos (Jo 1:1), e a imagem do Deus invisível, o resplendor de Sua
glória e a cópia de Sua essência desde a eternidade, não apenas a
partir de Sua encarnação (Cl 1:15; Hb 1:3).
Deus também é luz (1 Jo 1:5) e habita uma luz, na qual não há
escuridão alguma. Visto moralmente, o homem é escuridão e mora
na escuridão. Mas, pela fé na verdadeira luz, que ilumina este
mundo, ele mesmo se torna luz e vem para a luz (Ef 5:8; 1 Pe 2:9).
Mas a criatura jamais poderá penetrar a luz inacessível da essência
absoluta de Deus. No Filho, porém, vemos o brilho perfeito da glória
de Deus. “Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que
está no seio do Pai, esse o revelou” (Jo 1:18). Quem viu o Filho viu
o Pai.
É ao Filho, a imagem do Deus invisível, que os salvos
pertencentes à Sua Noiva verão “assim como é” (1 Jo 3:2). Na casa
do Pai, estarão reunidos com Ele e experimentarão a verdade das
palavras do Filho de Deus, que disse ao Pai: “Aqueles que me deste
quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que
vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da
fundação do mundo” (Jo 17:24).
O apóstolo agora dá honra e poder eterno ao Deus imortal e
invisível, que por meio do Filho se revelou às Suas criaturas.
Juntemo-nos ao louvor daquEle que é único digno de toda
adoração!
Riqueza (6:17-19)
6:17 — Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a
esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que abundantemente
nos dá todas as coisas para delas gozarmos [...]
No final da carta, Paulo volta a falar sobre a riqueza, agora de
outro ângulo. Aqui não se trata, como nos versículos de 9 a 11, de
pessoas que se esforçam para obter lucro, e sim dos que já são
ricos, especialmente aqueles que já se encontravam nessa condição
quando Deus os chamou. O apóstolo não os exorta a se desfazer de
suas riquezas, a entregá-las aos pobres ou a distribuir tudo.
Lembra-os, porém, da responsabilidade ligada à posse de riquezas,
bem como do perigo de se tornarem independentes de Deus, que
lhes confiou bens terrestres como administradores. Nessa tarefa,
requer-se deles “que cada um se ache fiel” (1 Co 4:2). Eles são ricos
em coisas passageiras, e o tempo passa muito rápido.
Paulo menciona apenas dois desses perigos relacionados com a
arrogância e a autoconfiança. Os outros constituem a propensão ao
luxo, ao conforto e ao hedonismo. A consequência da união com
coisas terrenas muitas vezes resulta em conexão com coisas
mundanas, porque “a concupiscência da carne, a concupiscência
dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo. E o
mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a
vontade de Deus permanece para sempre” (1 Jo 2:16-17). Nos
tempos atuais, de prosperidade em muitos países, essas
admoestações já não valem apenas para alguns, mas para quase
todos os crentes.
Em primeiro lugar, Timóteo deve ordenar aos ricos que “não
sejam altivos” com aqueles que ocupam uma posição inferior neste
mundo. Que exemplo é o Senhor Jesus nesse sentido, que se
humilhou de Sua infinita sublimidade até o lugar de Suas criaturas e
se rebaixou pelos pecadores perdidos! Em outra passagem, Paulo
escreve: “Não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às
humildes” (Rm 12:16). O homem natural tende a gabar-se das
coisas que possui neste mundo, seja riqueza, seja inteligência, e
desse modo se julga superior aos outros. Mas se estamos
conscientes do fato de que tudo nos foi confiado por Deus,
estaremos protegidos da tendência de nos enaltecer por essas
coisas.
Em segundo lugar, não é bom que os ricos “ponham a
esperança na incerteza das riquezas”, porque de um momento para
outro elas podem ser tiradas deles (compare com Sl 62:10; Pv 23:4-
5). Quantos dos que confiavam nas próprias riquezas e acreditavam
que tudo estava seguro de repente descobriram que haviam ficado
sem nada! Na terra, não existe segurança nenhuma.
Quão diferente são as coisa com Deus! Podemos confiar nEle
sem medo e sem hesitação. Ele dá a tudo todos para o Seu prazer.
Aqui Deus condena claramente o espírito da ascese, embora este
tenha uma aparência mais bela que a propensão ao luxo. No
entanto, a verdade é que são apenas duas formas opostas de
egoísmo, que não agradam a Deus.
Em 4:10, lemos que Deus é o sustentador de todos os homens,
especialmente dos fiéis. E aqui nos é apresentada a Sua bondade
para com os Seus filhos. Ele nos dá tudo para q o desfrutemos. E,
se Ele é o Doador, então merece toda a nossa gratidão por isso. A
alma obtém essa consciência quando depende verdadeiramente de
Deus. Nessa dependência, o cristão pode usufruir as dádivas de
Deus de todo o coração. Os primeiros cristãos faziam as suas
refeições “juntos com alegria e singeleza de coração” (At 2:46).
Essa simplicidade também protege o crente de todos os prazeres
que ele não possa desfrutar com sinceridade e verdadeira gratidão
ao seu Deus e Pai.
6:18-19 — [...] que façam bem, enriqueçam em boas obras, repartam de boa
mente, e sejam comunicáveis; que entesourem para si mesmos um bom
fundamento para o futuro, para que possam se apoderar da vida eterna.
Seguem-se agora algumas exortações práticas para os ricos —
mas não apenas para eles. As duas primeiras exortações, que de
início parecem bastante semelhantes, diferenciam-se pelo fato de
que na frase “que façam bem” encontra-se uma palavra que
significa “bom/ bem” (no grego, agathos) em seus efeitos sobre os
outros, enquanto as “boas [no grego, kalos] obras” são bonitas,
louváveis e nobres em si. Assim, a riqueza pode ser usada para
ajudar os necessitados e subsidiar obreiros na obra do Senhor.
Com isso, os ricos não ficarão mais pobres. Na verdade, em
certo sentido ficarão mais ricos, a saber, em boas obras. Dessa
forma, também irão acumular tesouros no céu para si. Deus, que
não aceita nada de presente, os abençoará ricamente por isso. “A
alma generosa prosperará e aquele que atende também será
atendido” (Pv 11:25). Os ricos também devem ser generosos e
comunicáveis, embora a ação precipitada nesse sentido também
não seja boa. Mas quando há uma necessidade real, confirmada por
informações confiáveis, na área particular, na igreja ou na obra do
Senhor, aí a hesitação ou a restrição se mostra inoportuna.
Paulo escreveu aos coríntios: “O que semeia pouco, pouco
também ceifará; e o que semeia em abundância, em abundância
ceifará” (2 Co 9:6). Se os ricos de nossos dias gerenciarem as suas
posses de acordo com os pensamentos de Deus e para honra, dEle,
nada perderão. Pelo contrário, estarão estabelecendo um bom
fundamento para o seu futuro, um tesouro infinitamente mais
precioso que todas as riquezas da terra. O Senhor Jesus encerra a
parábola do mordomo infiel com este conselho: “Granjeai amigos
com as riquezas da injustiça; para que, quando estas vos faltarem,
vos recebam eles nos tabernáculos eternos” (Lc 16:9). No Sermão
do Monte, diz: “Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a
ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas
ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem
consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque
onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”
(Mt 6:19-21).
Em vez de agarrar-se às riquezas terrenas, os ricos devem, pela
prática do bem, construir para si um bom fundamento para o futuro,
a fim de que possam ganhar a vida real, isto é, a vida eterna.
Timóteo recebe um incentivo semelhante no versículo 12. Paulo não
quer dizer aqui que a vida terrena seja apenas uma existência
simulada, mas que ela carrega consigo o germe da morte desde o
nascimento, como resultado do pecado, e por isso não resiste a
uma comparação com a vida eterna. Só esta merece realmente ser
chamada “vida”.
Conclusão (6:20-21)
6:20-21 — Ó Timóteo, guarda o depósito que te foi confiado, tendo horror aos
clamores vãos e profanos e às oposições da falsamente chamada ciência, a
qual professando-a alguns, se desviaram da fé. A graça seja contigo. Amém.
Com a exortação de que Timóteo “guarde o depósito” que lhe foi
confiado, Paulo encerra a sua carta. Em 2 Timóteo 1:14, ele chama
isso “o bom depósito”, uma referência à verdade confiada aos
crentes por Deus e que Timóteo ouviu de Paulo na presença de
muitas testemunhas. Segundo William Kelly, “o que se entende aqui
não é a alma, a salvação, o ministério ou o dom do Espírito Santo,
mas as informações completas e perfeitas sobre a natureza, os
caminhos, os relacionamentos e os conselhos de Deus. Elas foram
dadas unicamente por revelação e agora são asseguradas pela
inspiração”.2 Não apenas Timóteo, que tinha de cumprir uma tarefa
especial nesse particular, foi convocado a guardar esse precioso
tesouro: todos os crentes são exortados “a batalhar pela fé que uma
vez foi dada aos santos” (Jd 3).
De mãos dadas com a guarda da verdade de Deus, vai a
vigilância contra as heresias. Por isso, Timóteo é convidado a se
afastar dos “clamores vãos e profanos” e das “oposições da
falsamente chamada ciência”. Pela história eclesiástica, sabemos
que nos primeiros séculos do cristianismo havia uma heresia, o
gnosticismo, de vasta ramificação, especialmente no Oriente. Essa
palavra grega, que significa “ciência”, também é utilizada aqui. Nas
considerações sobre 4:1ss e 6:3-5, já aludimos a essa heresia, que
foi devastadora em épocas posteriores. A “falsamente chamada
ciência” de que Paulo fala não se refere ao sistema totalmente
desenvolvido que se manifestou algumas décadas mais tarde. Mas
aqui e na carta aos Colossenses talvez já se reconheçam os seus
princípios.
O gnosticismo tentava submeter Deus e sua revelação ao
intelecto humano. Assim, o homem se assentava no tribunal sobre
Deus e sua Palavra. Mas Deus chama essas doutrinas “clamores/
falatórios vãos e profanos” (compare com 2 Tm 2:16) e “oposições”
(ou contradições) e afirma que alguns, por professar esse caminho
errado, se desviaram da fé. A tradução literal seria: “com relação à
fé, erraram o alvo”. A fé aqui, como na maioria das vezes em que é
precedida pelo artigo definido, significa a totalidade dos bens da fé.
A carta termina com as palavras: “A graça seja contigo”. Ou,
como se lê na segunda carta e em vários bons manuscritos (A, F, G
e outros): “A graça seja convosco”. É mais provável que copistas
posteriores da carta endereçada a uma pessoa mudaram a palavra
original “convosco” para “contigo”, do que o contrário.
Timóteo e os crentes que estavam com ele em Éfeso sem
dúvida precisavam dessa graça. Também nós hoje ainda
precisamos dela todos os dias. Por isso, o apóstolo Paulo encerra
cada uma de suas cartas com um voto de graça.
Cada crente conhece por experiência própria a graça salvadora,
a graça protetora e a graça restauradora de Deus. Além disso, a
nossa vida deve ser preenchida e caracterizada por essa graça na
prática (compare com At 6:8; Cl 3:16; 4:6; 2 Tm 2:1; Hb 13:9; 2 Pe
3:18). Precisamos dessa graça e a receberemos até a próxima
vinda de nosso Senhor. De fato, após o último anúncio na Santa
Escritura seguem-se as palavras encorajadoras e reconfortantes: “A
graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós. Amém”
(Ap 22:21).
1 No Novo Testamento, a imagem do ladrão que vem de noite nunca se refere à vinda do Senhor aguardada
pelos crentes para o arrebatamento da Noiva, e sim à inesperada aparição ou manifestação de Cristo
combinada com o Juízo (Mt 24:43; 2 Ts 2:2; 2 Pe 3:10; Ap 3:3; 16:15).
2 An Exposition of the First Epistle to Timothy.
ANOTAÇÕES
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