Você está na página 1de 11

SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ


PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
CAMPUS UNIVERSITÁRIO DE BRAGANÇA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGUAGENS E SABERES NA AMAZÔNIA-PPLSA

GISELLE DA SILVA SILVA

TRABALHO E INFÂNCIAS EM CONTEXTOS DIFERENTES DA


AMAZÔNIA BRAGANTINA

Linha de Pesquisa: Educação, Linguagens e Culturas na Amazônia


Eixo: Currículo e formação de professores nas territorialidades amazônicas

Orientadora: Profa. Dra. Ana Paula Vieira e Souza

BRAGANÇA-PA
2019
GISELLE DA SILVA SILVA

TRABALHO E INFÂNCIAS EM CONTEXTOS DIFERENTES DA


AMAZÔNIA BRAGANTINA

Projeto de Dissertação de Mestrado


apresentado ao Programa de Pós-
Graduação em Linguagens e Saberes na
Amazônia. Linha de Pesquisa Educação,
Linguagens e Culturas na Amazônia na
Universidade Federal do Pará, Campus
Universitário de Bragança.

Orientadora: Profa. Dra. Ana Paula Vieira


e Souza
BRAGANÇA-PA
2019
1 INTRODUÇÃO
O projeto de pesquisa tem como objeto de estudo trabalho e infâncias em contextos
diferentes na Amazônia bragantina. A pesquisa acontecerá na escola urbano-costeira com
crianças sobre seu entendimento sobre trabalho e infâncias.
A criança e a infância estão presentes na sociedade. Corsaro (2011) ressalta que a
infância é um período em que a criança está na sociedade, e a infância se constrói e reconstrói
suas vivências em vários ambientes, como: escola, em casa, igreja, no lazer, no contato com
pessoas, na transmissão de culturas e experiências.
A relação da criança com o trabalho constitui-se para o autor “[...] como elemento
criador da vida humana, num dever e num direito. Um dever a ser aprendido, socializado
desde a infância. [...]” (FRIGOTTO, 2001, p.74), tendo em vista as relações de trabalho com a
função de humanizar e emancipar, ou de maneira penosa que é a exploração do trabalho
infantil. Para Pistrak (2000) a exploração do trabalho infantil é um trabalho geralmente nocivo
à saúde, não é agradável, cansativo e pesado para as crianças.
Estudos sobre o trabalho infantil, por exemplo, o de Souza (2014) têm mostrado que as
crianças são obrigadas a trabalharem para o próprio sustento, geralmente, são crianças que
moram em bairros periféricos, sem condições mínimas de saneamento básico, saúde,
educação. Observamos que as crianças são obrigadas a trabalhar para ajudar seus pais
financeiramente, e, consequentemente, elas não exercem plenamente os seus direitos, quanto
ao lazer, à saúde e à educação.
As motivações pelas quais escolhemos essa temática têm dois motivos: um pelo
exercício da profissão e outro como experiência pessoal. O motivo pelo exercício da profissão
é por atuarmos como professora nos anos iniciais da educação básica e termos contato com
muitas crianças da cidade, em comunidades do campo e costeira, exercendo diversos tipos de
trabalho como: atendimento em pequenos comércios, venda de bombons, chopp, pastel,
coxinha, bolo, frutas, venda de peixe, caranguejo, siri, camarão entre outros. Situações de
trabalhos que nos causam muitas inquietações.
A outra motivação é pessoal: quando eu era criança morávamos na zona rural do
município de Tracuateua-PA, meus familiares dependiam do trabalho na agricultura e na
pesca para sua subsistência; morava com minha avó e sobrevivíamos da sua aposentadoria,
próximo de casa morava um tio que tinha uma filha, estudávamos no turno da manhã e após
as aulas meu tio pedia a minha avó para eu ir ajuda-lo no trabalho da agricultura, lá eu exercia
diferentes atividades como: fazer farinha (desde ir a roça buscar a mandioca até o processo
final da farinha), capinar, apanhar feijão, dentre outras, muitas vezes chagava em casa muito
cansada. Mesmo sendo criança, me perguntava: o porquê que meu tio não levava sua filha
também para ajudá-lo no trabalho. Essas indagações ficaram por bastante tempo em minha
cabeça e chegavam até me causar uma certa revolta, mas no decorrer do tempo minhas
respostas vieram e hoje entendo que essas experiências com o trabalho na agricultura que tive
na infância era trabalho infantil, disfarçado de ajuda no trabalho do adulto.
Ainda, na contemporaneidade o trabalho infantil é percebido como ajuda, as crianças
da classe trabalhadora têm que trabalhar, enquanto outras apenas dedicam o seu tempo para os
estudos. Essa situação de trabalho e escola na infância e também por atuar como profissional
da educação em comunidade costeira aguçaram o interesse em pesquisar sobre trabalho e
infâncias no contexto escolar urbano-costeira.
Na concepção de Pistrak (2000) o trabalho como fundamento da escola deve ser visto
como organização na vida da criança, diferentemente do trabalho infantil, que para Souza
(2014) causa sofrimento às crianças.
Essa pesquisa é relevante ao Programa de Pós-Graduação em Linguagens e Saberes na
Amazônia, especificamente a Linha de Pesquisa Educação, Linguagens e Culturas na
Amazônia, por considerar a percepção das crianças sobre trabalho e infância em diferentes
contexto escolar urbano-costeira e também ao Grupo de Estudos e Pesquisa em Trabalho e
Educação, que tem estudado a educação escolar, o trabalho infantil e o princípio educativo
como formação humana.
Partindo da compreensão do trabalho como necessário a vida humana, organizador das
relações sociais, a pesquisa busca saber qual a percepção de crianças de Escolas urbano-
costeira sobre trabalho e infâncias. As questões norteadoras buscam investigar como o
trabalho e infâncias no contexto do urbano-costeira é percebido pelos pais/responsáveis e
professores.
A hipótese da pesquisa é que a relação entre o trabalho e infâncias nos diferentes
contextos escolares urbano-costeiros não são atividades de auto-organização necessárias para
a vida de crianças, ou seja, não se mostra como princípio educativo, pode revelar-se como
exploração do trabalho infantil.

Objetivos
Geral
Analisar o discurso de crianças de Escolas do campo-costeiro e urbano sobre trabalho
e infâncias.

Específicos
Identificar a concepção de trabalho e infâncias para pais/responsáveis e professores de
crianças das Escolas do contexto campo-costeiro e urbano;
Verificar a concepção trabalho e infâncias para as crianças de Escolas do campo-
costeiro e urbano;

2 APORTE TEÓRICO
2.1 TRABALHO COMO CATEGORIA FUNDANTE DA VIDA HUMANA.
O trabalho possui dois sentidos, um está relacionado à condição necessária, à
sobrevivência na sociedade capitalista, em que do ser humano é visto como alguém que não
possui função social, como nos diz Marx (1988, p. 31): “[...] valor da força de trabalho, como
qualquer outra mercadoria”. Já o outro sentido de trabalho, o mesmo autor também nos
mostra que “[...] a força de trabalho não existe senão como disposição do indivíduo e, em
consequência, supõe a existência deste. [...]”. Percebemos que o trabalho deixa de ser
alienante quando o homem exerce sua liberdade e cidadania usufruindo do seu trabalho
melhores condições de vida.
O trabalho na sociedade capitalista traz sentido alienante quando “[...] deixa de ser
algo natural do trabalhador e torna-se obrigação, portanto no trabalho alienado, o ser humano
“não se afirma no trabalho, mas nega-se a si mesmo [...]” (SOUZA, LIMA E RODRIGUES,
2014, p. 3). Neste sentido, o trabalho é visto como mera troca de produto e capital entre
empregador e trabalhador, excluindo desses trabalhadores o direito de viver, de experimentar
da sua cultura, identidades, sonhos, entre outros, como nos mostra o autor: “[...] o ser humano
enquanto ser da natureza necessita elaborar a natureza, transformá-la, pelo trabalho, em bens
úteis para satisfazer as suas necessidades vitais, biológicas, sociais e culturais. É também um
direito que pode recriar, reproduzir permanentemente sua existência humana. [...]”
(FRIGOTTO 2001, p.74).
O trabalho na sociedade capitalista tem o sentido da venda e compra da força do
trabalho do homem, da mulher, do mesmo modo o trabalho infantil, que submete as crianças
pelo uso de sua força, muitas são forçadas precocemente a se inserir no mercado do trabalho
por conta das situações precárias em que vivem e que são impostas pela sociedade.
2.2 TRABALHO NA CONCEPÇÃO DE PISTRAK
Para Pistrak (2000) o trabalho é um elemento integrante da relação da escola com a
realidade atual, não trata do trabalho de forma mecânica, como exploração infantil, mas vê o
trabalho como parte da vida social das crianças.
A visão de crianças sobre o trabalho e infâncias está presente nas escolas urbano-
costeira. Essas ideias são refletidas especificamente quando indagamos sobre os sentidos que
elas atribuem ao trabalho e infâncias.
A DESENVOLVER

2.3 CRIANÇAS
A criança passa por um período de crescimento que vai do nascimento até aos doze
anos de idade incompletos. Conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), no Art.
2º: Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade
incompletos [...]. Nesta fase, a criança através da interação com outras pessoas e de acordo
com o crescimento cronológico começa a criar suas ideologias, seus gostos, pensamentos e
procura seu lugar na sociedade.
A concepção de criança pela Sociologia da Infância é “[...] que as crianças são agentes
sociais, ativos e criativos, que produzem suas próprias e exclusivas culturas infantis, enquanto
simultaneamente, contribuem para a produção das sociedades adultas. [...]”, ou seja, a criança
produz interações estabelecidas no seu cotidiano, originando as culturas infantis (CORSARO,
2011, p. 15).
O lugar que a infância ocupa na sociedade capitalista é “[...] socialmente construído
em que as crianças vivem suas vidas [...]”, mas são “como classes sociais e grupos de idade”.
Nesse sentido, as crianças são seres pertencentes à sociedade, movimentam as culturas e são
produtoras de culturas infantis. O autor diz que “para as próprias crianças, a infância é um
período temporário”. Todavia, “para a sociedade, a infância é uma forma estrutural
permanente ou categoria que nunca desaparece, embora seus membros mudem continuamente
e sua natureza e concepção variem historicamente” (CORSARO, 2011, P.15-16). É uma fase
transitória ou fase geracional (SARMENTO, 2009).
Na sociedade atual, as crianças e suas infâncias vêm sofrendo grandes abusos tanto no
que se refere aos direitos quanto às culturas infantis, pois ao adentrar ao trabalho
precocemente perdem a fase da infância e renegam suas culturas infantis.
Na infância o trabalho praticado por muitas crianças numa perspectiva capitalista visa
à perda dos direitos que a criança possui. Marx (1988, p. 90) ressalta que “[...] o trabalho
forçado em proveito do capital substitui os brinquedos da infância e mesmo o trabalho livre,
que o operário fazia com sua família no círculo doméstico e nos limites de uma moralidade
sã”. O trabalho infantil no capitalismo é uma forma de exploração de crianças.
Pesquisa mostra que muitas crianças são exploradas pela força do seu trabalho e não
usufruem dos direitos e deveres que adquiriram por meio das políticas públicas educacionais.
Contudo, o trabalho exercido na infância não pode ser visto somente como exploração, mas
como ideia de trabalho como princípio educativo, com a função de humanizar e emancipar
por meio da transmissão de saberes, como é o caso das crianças que trabalham não como algo
obrigatório, mas algo significativo para sua vida.
Na concepção de trabalho como princípio educativo “se afirma o caráter formativo do
trabalho e da educação como ação humanizadora por meio do desenvolvimento de todas as
potencialidades do ser humano [...]” (CIAVATTA, 2009, p.1). Esta concepção de trabalho
numa perspectiva infantil aguça o desenvolvimento das crianças e mostra a relação o sentido
do trabalho no contexto escolar muitas vezes negado pela escola em que estudam.
É necessário salientarmos que o conceito de trabalho como princípio educativo difere
do trabalho infantil, que maltrata as crianças e impede que elas usufruam dos seus direitos.
Para os autores o trabalho como princípio educativo se constitui como uma “atividade
teórico/prática do conhecimento que desenvolve a autonomia das crianças que permita educar
e formar as pessoas para atuarem na vida, na sociedade e no trabalho, de forma crítica”
(SOUZA, ARAÚJO E RODRIGUES, 2014, p.9)
Consideramos, então, o trabalho como princípio educativo não é aquele que explora as
crianças nem pode ser usado como recurso didático ou metodológico pelas escolas urbano-
costeiras, mas é um princípio que considera a moral e a civilidade dos seres humanos como
participantes e transformadores da sociedade.

3 PROCEDIMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICO DA PESQUISA


A pesquisa é de cunho qualitativo pela matriz teórica do materialismo histórico
dialético.
A pesquisa de campo empírico será realizada em duas escolas da rede municipal de
Bragança e uma escola da rede municipal de Augusto Corrêa, a escolha por escolas de
espaços diferentes contextos, foi pela necessidade de que em ambos os municípios existem
crianças atuando no trabalho, tanto em escolas urbana, campo e costeiro.
A DESENVOLVER

3.2 Caracterização das Escolas


As escolas do município de Bragança, uma fica um bairro periférico da cidade
chamado Vila Sinhá, conhecido pelos moradores da cidade como um bairro violento. A
escolha por essa escola desse bairro é que já fizemos algumas ações na escola e também
outras pesquisas. Neste contexto escolar há relatos que algumas crianças que são estudantes
exercem algum tipo de trabalho.
A outra escola pertente ao município de Augusto Correa que fica há 18km de distância
da cidade de Bragança. No referido município, a grande maioria das escolas ficam no campo e
na região costeira e por atuarmos como professora dos anos iniciais numa comunidade
costeira chamada Perimirim e fica a 9km da cidade de Augusto Correa-PA.
A comunidade do Perimirim é banhada pelo oceano Atlântico com belíssimas
paisagens naturais e culturais. Sua economia é baseada na pesca de peixes e mariscos, possui
duas escolas em que funciona a educação infantil, o ensino fundamental (1º ao 9º), possui um
posto de saúde, igreja católica e evangélica.
A escola funciona no turno da manhã e tarde e tende as crianças, adolescestes e jovens
de outras comunidades vizinha. As crianças moradoras da Comunidade do Perimirim atendida
pela escola também exercem algum tipo de trabalho relacionado a pesca e ou outras
atividades.
A DESENVOLVER (colocar os mapas)

3.3 Sujeitos da Pesquisa


São crianças matriculadas no Ensino Fundamental Anos Iniciais, moradoras da
Comunidade, entre 9 e 11 anos, respectivamente os pais ou responsáveis e professores das
Turma em elas estudam.

3.4 Instrumentos para a coleta dos dados


A observação, a roda de conversa.
3.5 Etapas da pesquisa
A DESENVOLVER
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL, Estatuto da Criança e do Adolescente. Disponível em:

CIAVATTA, Maria Franco. Trabalho como princípio educativo na sociedade


contemporânea. Dicionário da FIOCRUZ, São Paulo, 2009. Disponível em:
http://www.sites.epsjv.fiocruz.br/dicionario/verbetes/trapriedu.html

CORSARO, William A. Sociologia da infância. Tradução Lia Gabrielle Regius reis; revisão
técnica: Maria Letícia B. P. Nascimento. – Porto Alegre: 2ª edição. Artmed, 2011.

FRIGOTTO, Gaudêncio. Educação e Trabalho: bases para debater a Educação


Profissional Emancipadora. PERSPECTIVA, Florianópolis, v.19, n.1, p.71-87, jan./jun.
2001. Disponível em: https://www.feis.unesp.br/Home/DSAA/DSAA/ProjetoGQT-
SCM/documentos/educacao/04_frigotto.pdf

MARX, Karl. O capital.

SARMENTO, 2009

PISTRAK, M. M. Fundamentos da escola do trabalho. Tradução Daniel Aarão Reis Filho.


6ª Ed. Expressão Popular. São Paulo, 2000

SOUZA, Ana Paula Vieira e. ARAÚJO, Ronaldo Marcos de Lima. RODRIGUES, Doriedson
do Socorro. Trabalho na sua dupla dimensão. Artigo publicado no Evento do Grupo These,
Rio de Janeiro, novembro de 2014. (VER)

SOUZA, Ana Paula Vieira. Trabalho Infantil: uma análise do discurso de crianças e de
adolescentes da Amazônia paraense em condição de trabalho. Tese de Doutorado do
PPGEd\UFPA, 2014.