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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

UNIVERSIDADE FEDERAL DE RORAIMA


PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS GRADUAÇÃO
III ENCONTRO REGIONAL NORTE DE HISTÓRIA DA MÍDIA

1
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DE RORAIMA
PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS GRADUAÇÃO
III ENCONTRO REGIONAL NORTE DE HISTÓRIA DA MÍDIA

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Vice-Reitor e Pró-Reitor de extensão:Dr. Reginaldo Gomes de Oliveira
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EXPEDIENTE

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Lannne Prata e Mauricio Elias Zouein Dra Maria Berenice Machado – UFRGS.
Msc. Mauricio Elias Zouein – UFRR
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Projeto Gráfico e Diagramação:
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Lannne Prata e Mauricio Elias Zouein

Organização dos Anais: Conselho Editorial:


Luís Munaro e Mauricio Zouein Dr. Luís Francisco Munaro – UFRR
Dra Maria Berenice Machado – UFRGS.
Organização do Evento: Msc. Mauricio Elias Zouein – UFRR
Luís Munaro, Mauricio Zouein, Vilso Dra. Netília Seixas – UFPA
Santi, Sonia Padilha, Carla Monteiro

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ÍNDICE

GT HISTÓRIA DA MÍDIA DIGITAL

Execução sumária de presidiários nos jornais


Folha de Boa Vista e Folha Web (2005-2014).....................................................................06
Tipiti Notícias: Webjornal Feito a
Partir de Tuites de Jornalistas e Estudantes de Roraima......................................................20
Caso Pesseghini: O perfil de um psicopata segundo o Portal G1........................................31
A Abordagem da Comunicação
Contemporânea no Filme a Rede Social .............................................................................44
O uso da Mídia Televisiva por Grupos e Instituições Religiosas no Brasil:
Uma análise da atuação da IURD na Rede Record..............................................................56
Análise das Características do Jornalismo Online apresentadas pelo
Portal jornalístico Folhaweb................................................................................................68
O Portal Macuxi e a História do Webjornalismo..................................................................83

GT MÍDIA E HISTORIOGRAFIA

Estado Democrático de Direito e a Mídia sob a


Perspectiva da Pluralidade das Fontes................................................................................101
Anúncios e propaganda no jornal
“Estrella do Amazonas” (1854-1859).................................................................................114
Etnoperiodismo: Estudos históricos sobre grupos étnicos,
comunidades imigrantes e minorias sociais no Brasil através da Imprensa.......................129
Resistência e Jornal Pessoal: Da Ditadura Militar à
Democracia na Amazônia– Resistir é preciso......................................................142
A articulação de jornais e espaços públicos na Ilustração Inglesa (1700-1820)................159
Ora, sim; ora,não! O diploma de Jornalismo em várias
fases do processo de profissionalização da atividade jornalística no Brasil.......................174
O Jornalismo em Território Indígena: Breves
Considerações sobre a presença da mídia na festa da
homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol........................................................190

GT HISTÓRIA DO JORNALISMO

O percurso da mídia impressa no Pará: uma viagem até Cametá do século XIX..............204
Sequestro do ônibus 174 e a mudança de padrões na transmissão
de grandes coberturas.........................................................................................................218

3
A Polamazônia e o discurso desenvolvimentista durante o Regime Militar......................229

Jornal do Rio Branco (1916-1919): O projeto beneditino de Civilização


na vila de Boa Vista do Rio Branco....................................................................................240
A Editoria de Meio Ambiente em Jornais Impressos de Roraima:
Uma breve Análise Histórica..............................................................................................257
O Ethos de cada um: limites e associações entre a Ética Profissional
de Jornalistas e Corporativa de Empresas de Comunicação............................................271
Curso de Comunicação da UFRR as dificuldades
Para a formação do Jornalista.............................................................................................285

GT HISTÓRIA DA MÍDIA AUDIOVISUAL

Theodor Kock-Grünberg e George Huebner na Amazônia:


Pioneiros no fotojornalismo e a semiótica enquanto método de análise............................302
Linguagem na Amazônia:
Incursões no Registro Cinematográfico do alemão Koch-Grünberg.................................315
(I)margem da história: A ideia de Amazônia nos signos euclidianos.................................329
Façanhas Políticas de Roraima em Quadrinhos (HQ)........................................................342
Fotografia na Amazônia: Testemunho do tempo, do passado de alguns,
da memória de um povo e da identidade de uma Nação...................................................361
Conceitos e questões éticas do documentário:
Análise das asserções da produção tocantinense “Kitnet o filme”.....................................387
Rastreando notícias, Buscando faces:
Fotografia e imprensa em Manaus.....................................................................................401
Linguagem visual:
Prolegômenos de um diálogo entre Fotojornalismo e Patrimônio cultural........................416

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Execução sumária de presidiários nos jornais Folha de Boa Vista e Folha
Web (2005-2014)

Aldenor da Silva PIMENTEL1

Resumo: Este trabalho tem por objetivo analisar a cobertura promovida, de 2005 a 2014,
pelos jornais Folha de Boa Vista e Folha Web, impresso e on-line, respectivamente, sobre
execuções sumárias de presidiários. Foi realizada a análise performática de 52 textos
jornalísticos (notícias, editoriais e notas de coluna social), sobre 14 casos de execuções
sumárias ocorridas em unidades prisionais de Boa Vista, capital de Roraima. Para dar
embasamento teórico à investigação, foram utilizadas as contribuições de autores ligados à
hipótese do newsmaking. Como resultado, foi demonstrado que houve momentos em que a
cobertura analisada divulgou predominantemente a versão da gestão do sistema prisional e
da polícia civil e em outros são apresentadas versões divergentes.

Palavras-chave: História do jornalismo; Jornalismo criminal; Execução sumária;


Presidiários.

Este trabalho tem por objetivo analisar a cobertura promovida, de 2005 a 2014,
pelos jornais Folha de Boa Vista e Folha Web sobre execuções sumárias de presidiários.
Ambos os jornais, impresso e on-line, respectivamente, compõem o mesmo grupo de
comunicação, que compreende ainda uma rádio e uma editora. O periódico on-line
disponibiliza também no suporte digital notícias publicadas pela versão impressa. Portanto,
a grande maioria dos textos da amostra desta pesquisa foi publicada simultaneamente nos
dois periódicos. Foi realizada a análise performática de 52 textos jornalísticos, entre
notícias, editoriais e notas de coluna social, sobre 14 casos de execuções sumárias
ocorridas em unidades prisionais de Boa Vista, capital de Roraima.
O levantamento desses casos vem sendo feito por este pesquisador desde a
graduação, em razão da temática de investigação de seus trabalhos acadêmicos. As notícias
foram encontradas por meio de pesquisa, em sites de busca na internet e do próprio sistema
de busca do jornal Folha Web, por palavras e expressões como encontrado morto, preso
morto, detento morto e presidiário morto e pelo nome completo de presos que eram

1
Mestrando em Comunicação pela UFGO, com mestrado sanduíche pela Unisinos. Graduado em
Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo, pela UFRR, especialista em Comunicação, Assessoria de
Comunicação e Novas Tecnologias, pela Facinter, e especialista em Docência no Ensino Superior, pelas
Faculdades de Educação Montenegro, email: aldenor_pimentel@yahoo.com.br.

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executados sumariamente, de conhecimento deste pesquisador. Os jornais estudados foram
escolhidos por serem os mais antigos em atividade no Estado de Roraima, em seus
respectivos suportes (impresso e on-line).
Optou-se, como se vê, por casos múltiplos, a exemplo de Braga (2010), em Análise
performativa. Cem casos de pesquisa empírica, em que o autor estuda a estrutura singular
de cada caso, mas também, características do conjunto, para a obtenção de inferências
transversais.
Como embasamento teórico, utilizamos a hipótese do newsmaking, que se orienta
para a produção e os produtores da notícia, ao estudar a influência da rotina
(constrangimentos organizacionais, condições orçamentárias, distribuição da rede
noticiosa, etc.) na representação dos acontecimentos. A produção noticiosa é pensada como
rotina industrial e a notícia é vista como resultado dos diversos fatores envolvidos no
processo, isto é, a ação pessoal, social, ideológica, cultural, do meio físico, histórica
(SOUZA, 1999).
Por isso, a técnica adotada foi a análise performativa, que tem como característica
“estudar sistematicamente as relações que o objeto constrói e entretém com seu contexto,
assim como as ações realizadas pelo texto ou pelo produto midiático nas dimensões
explicitamente definidas pelo problema de pesquisa que esteja em construção” (BRAGA,
2010, p. 409).
Segundo Braga (2010, p. 410), na análise performativa de produtos midiáticos
procura-se “percepções sobre o produto como elemento ativo em uma circulação
interacional”, a partir de observações do que “o produto faz através do que ‘diz’ ou
‘mostra’”. A referida técnica foi escolhida por propiciar o tratamento da produção
jornalística como resultado de decisões profissionais.
A amostra está organizada da seguinte forma: são dez casos investigados pela
operação Bastilha, desencadeada pela Polícia Federal, em novembro de 2008, que
objetivou desmantelar uma quadrilha que comandava o crime organizado dentro do sistema
prisional de Roraima (inclusive promovendo execuções sumárias de detentos, ocorridas
entre 2006 e 2008). Para se fazer uma análise comparativa, foram selecionados ainda
outros quatro casos, sendo um anterior aos investigados pela operação policial e três
posteriores a ela.

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Os casos analisados são de mortes oficialmente consideradas execuções sumárias,
segundo, ao menos, uma das fontes públicas ouvidas pelos periódicos da presente amostra.
Na maioria dos casos, os responsáveis pela execução tentaram forjar o crime como
suicídio. Há homicídios inclusive ocorridos no mesmo dia, na mesma unidade prisional,
em que se tentou forjar duplo suicídio.

1. Momentos de cobertura x Comportamento editorial


Esta pesquisa identificou quatro momentos na cobertura pelos jornais Folha de Boa
Vista e Folha Web sobre execuções sumária de presidiários, dentro do recorte temporal
analisado. Cada momento corresponde a um comportamento editorial dos referidos
periódicos na cobertura dos casos.
Na primeira fase, a postura editorial, de forma predominante, reproduz a versão da
administração do sistema prisional e da Polícia Civil. Na segunda fase, a cobertura é
incrementada com a aparição de instituições que trazem versões contraditórias em relação
às fontes predominantes na fase anterior.
Na terceira, marcada pelo desencadeamento da Operação Bastilha, os jornais
atualizam os casos já noticiados com a divulgação da versão oficial que vem substituir a
precedente, a partir das investigações policiais. Na quarta e última fase detectada na
amostra, há a consolidação de práticas dos momentos anteriores e o ressurgimento de
outras que pareciam até então superadas.
Destaca-se que essas fases não são estanques. Elas se atravessam, ocorrendo, por
vezes, simultaneamente. Há ocasiões em que elementos de uma ainda perduram até a fase
seguinte, enquanto elementos predominantes em fases posteriores aparecem pontualmente
em uma anterior.

1.1 A imprensa refém do sistema


Na primeira fase, os jornais em análise, de forma predominante, reproduzem como
fato a versão da administração do sistema prisional e da Polícia Civil. Há matérias em que
essas fontes são as únicas a quem é dada a voz. Segundo Traquina (2001), para analisar a
confiabilidade da informação e considerando que as fontes são pessoas com interesses, os
jornalistas utilizam critérios para avaliar as fontes de informação: a) a autoridade (status

8
ocupado dentro de uma hierarquia); b) a produtividade (capacidade de fornecer com
frequência informações novas e relevantes); c) e a credibilidade (capacidade de fornecer
informações confiáveis).
Raros nas notícias são os elementos que contradizem a versão oficial. O exemplo
abaixo é um deles: No lead da matéria Macuxi é encontrado morto dentro da cela,
referente ao primeiro caso objeto da operação Bastilha, que seria desencadeada dois anos
depois, é apresentada a versão oficial seguida da versão da família do executado: “Macuxi
morreu por enforcamento e a versão dada pela direção do presídio é de que ele cometeu
suicídio, mas a família contesta e acusa que ele foi assassinado.” (SOUSA, 2006, p. 1)
Entretanto, ao longo dessa mesma notícia, é desenvolvida somente a versão oficial,
como no trecho “disse o diretor, acrescentando que a ala 08 onde ele estava é considerada
uma das mais tranqüilas do presídio” (SOUSA, 2006, p. 1). Em nenhum outro ponto do
texto, volta-se a citar a versão da família. Essa postura do periódico é consolidada em seu
editorial, do dia 5 de dezembro de 2006, coluna que leva o nome de Parabólica. O texto
assume a versão de suicídio, como pode ser notado a seguir: “Macuxi – assassino do
capitão Castro Mendes, e de uma adolescente de 17 anos – suicidou-se recentemente na
Cadeia Pública.” (PARABÓLICA, 2006, p. 1)
Destaca-se que a postura do jornal se dá duas semanas após a execução, tempo
insuficiente para a conclusão das investigações policiais e do processo administrativo
disciplinar. O próprio periódico declarou o caso “encerrado” em uma nota de outro
editorial, em 15 de novembro de 2007:

ENCERRADO. Um ano depois, está encerrado o caso do comerciante


José Barnabé Filho, o “Macuxi”, encontrado enforcado em uma cela na
Cadeia Pública de Boa Vista, em novembro do ano passado. Ele foi o
autor do assassinato do capitão da Polícia Militar, Castro Mendes. Uma
sindicância aberta à época concluiu que não houve facilitação ou
envolvimento de agentes carcerário[s] na morte de Macuxi.
(PARABÓLICA, 2007, p. 1)

Acresce-se que a postura editorial de assumir como verdade, sem questionamentos,


a versão do sistema prisional de que se tratou de suicídio é antecedida pela matéria do
próprio periódico, de 3 de julho de 2006, intitulada SISTEMA PENITENCIÁRIO - MPE
entra com ação contra o Estado, em que são citados, em trecho da ação civil pública, casos

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de execuções sumárias de detentos em Boa Vista: “A superlotação [...] facilita a prática de
crimes como os ocorridos com Marinaldo Mota Lira, encontrado morto enforcado na cela
em 04.05.2004 e o guianense Roberto Júnior Pereira Xavier, degolado com uma faca por
outros detentos em 18.07.2005” (SISTEMA, 2006, p. 1). Ou seja, o jornal dispunha de
elementos históricos para contrapor a versão oficial e não o fez.
Nessa fase, o suicídio é a primeira hipótese. Somente em dois casos analisados, o
homicídio não é apresentado como possibilidade segunda; em um deles há um presidiário
que assume a autoria da execução. A seguir, um exemplo em que o suicídio é a versão
principal: “O caso será investigado pela Delegacia-Geral de Homicídios e, conforme o
delegado Glauber Lorenzini, inicialmente a suspeita é que a vítima cometeu suicídio. No
entanto, não está descartada a hipótese de um homicídio.” (PRESO, 2007, p. 1)
Como mencionado, nessa fase, versões contraditórias à fala oficial são minoradas.
Observa-se, por exemplo, que os dizeres dos familiares são mediados por instituições
estatais, como pode ser notado em “comentou [o Defensor], enfatizando que o pai desse
rapaz procurou a DPE [Defensoria Pública do Estado] e disse que o filho estava correndo
risco de morte em razão da fuga” (MORTES, 2008, p. 1) e “Nas investigações, segundo o
delegado, [...] Apenas uma irmã de um preso, que não foi morto, disse que o irmão teria
falado sobre esse pacto [para nenhum preso fugir]” (MORTES, 2008, p. 1). Ambas as
citações pertencem à notícia MORTES NA PA - Defensor ameaça pedir intervenção
federal, veiculada em 22 de janeiro de 2008.
Além disso, nesta fase, é possível perceber na construção da narrativa dos casos
analisados elementos que justificam ou atenuam a execução sumária de presos. Isso pode
ser percebido quando a notícia se refere ao presidiário morto por um adjetivo
substantivado, como o estuprador ou o homicida. Ressalva-se que essa denominação é
empregada mesmo em casos em que o detento ainda é réu, ou seja, não foi sentenciado e,
portanto, é legalmente considerado inocente.2
Também se percebe um processo de justificação ou atenuação da execução
extralegal, ainda que não deliberadamente, quando se dá ênfase nos antecedentes do

2
O princípio constitucional da presunção da inocência diz que “ninguém será considerado culpado até o
trânsito em julgado de sentença penal condenatória” (BRASIL, 2006, p. 19), ou seja, até que finde a
possibilidade de recurso judicial, o réu deve ser considerado inocente. BRASIL. Constituição (1988).
Constituição: República Federativa do Brasil, promulgada em 5 de outubro de 1988. Lex: Brasília: Senado
Federal, 1988.

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executado, inclusive com destaque para a violência do crime que ele teria cometido, como
neste exemplo: “VÍTIMA – [O Executado] Roberto estava preso acusado de matar três
pessoas no bairro Operário naquele mesmo ano, crime que ficou conhecido como ‘chacina
do Operário’, onde foram assassinados brutalmente com golpes de facas o pai e seus dois
filhos.” (PRESIDIÁRIO, 2007, p. 1, grifo nosso)
Nesta fase, quando se levanta a possibilidade de as mortes retratadas terem sido
homicídio, as (possíveis) execuções sumárias são delineadas como práticas de uma pessoa
isolada ou pequenos grupos provisórios que, desorganizados, surgem espontaneamente
com fim específico de executar extra legalmente um ou mais detentos e se desfazem após o
crime. Em um dos casos, ainda que se, segundo o jornal, o diretor da Cadeia Pública de
Boa Vista, tenha dito não poder afirma que não houve participação de outros detentos,
além dos dois que confessaram terem degolado um interno da unidade, a mesma notícia
atribui ao diretor a seguinte informação: “a barbárie foi responsabilidade de dois outros
presos e não teve aval do restante da população carcerária, que permanece querendo paz no
sistema prisional.” (CORREIA, 2005, p. 10). Abaixo, outros dois exemplos:

Nas investigações, segundo o delegado, não foi relatado por nenhum dos
presos a existência de uma “lei do silêncio” dentro dos presídios, nem
mesmo de um suposto pacto entre eles para ninguém fugir, sob pena de
quando voltarem a sentença ser severa: a pena de morte. [...]
Alegando não existirem relatos dos presos sobre essas possíveis regras
nos presídios, entre as linhas de investigação adotadas pela Polícia Civil
estão a cobrança de dívidas e casos de desafeto. (MORTES, 2008, p. 2,
itálico nosso)
A superlotação contribui para acerto de contas entre desafetos, assim
como facilita a prática de crimes como os ocorridos com Marinaldo Mota
Lira, encontrado morto enforcado na cela em 04.05.2004 e o guianense
Roberto Júnior Pereira Xavier, degolado com uma faca por outros
detentos em 18.07.2005Roraima” [...], afirma a ação [civil pública].
(SISTEMA, 2006, p. 1, itálico nosso)

1.2 A intervenção republicana


A segunda fase é marcada pela entrada em cena de outros poderes além do
Executivo. Poderia ser apontada como o divisor de águas do momento anterior para este a
já citada notícia MORTES NA PA - Defensor ameaça pedir intervenção federal.

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No prazo de um ano, o defensor público Stélio Dener disse que na Cadeia
Pública e Penitenciária Agrícola do Monte Cristo foram cerca de dez
mortes, na maioria tendo como vítimas presos que fugiram do sistema ou
acusados de assassinatos, mas o Estado até agora não tomou providências
para evitar novas ocorrências. Pelo menos três casos de mortes duplas nas
celas foram registrados de março do ano passado até agora. (MORTES,
2008, p. 1)

Na matéria, como se percebe, a Defensoria Pública é a voz principal. Também são


ouvidos o Judiciário, a Secretaria de Justiça e Cidadania, responsável pelo sistema
penitenciário, e a Polícia Civil, que comanda a investigação referente à morte dos presos.
A partir desse momento, outro personagem ganha a cena. A família do executado,
que até então aparecia em segundo plano, agora tem destaque. Cerca de uma semana
depois da matéria citada acima, outra tem como voz principal o genitor de um detento
morto, com o título Pai denuncia que filho foi embriagado na Penitenciária antes de
morrer.
Aponta-se que não é coincidência esse crescimento dos parentes do executado na
cobertura jornalística após a aparição de vozes institucionais que contradizem a versão
oficial. Acredita-se que instituições como a Defensoria Pública transferiram sua
credibilidade aos familiares dos executados, ao corroborarem a versão destes junto à
imprensa, inclusive sendo mediadores entre jornal e parentes dos presos assassinados. “Ele
[o pai de um dos presos encontrados mortos] participou do programa acompanhado do
defensor público Stélio Dener, que vinha acompanha[n]do o caso antes das mortes na PA.
Maurício disse que processar o Estado e pedir indenização pela morte do filho” (PAI, 28
jan. 2008, p. 1). Outra instituição que contradiz o Executivo nesta fase é o Ministério
Público:

Dos casos registrados, incluindo o do dia 21, [o promotor de Justiça]


Teles comentou que duas ou três mortes podem ter sido suicídio, mas
ainda assim serão apuradas. Nos casos de morte em dupla, tanto os
promotores como delegados não trabalham com a hipótese de suicídio.
Uma característica comum nesses registros é a fuga como precedente.
(RL, 2008, p. 1)

Na matéria, o promotor acusa ainda pelas mortes a demora do Judiciário em julgar


uma ação civil pública contra o Estado e também “o descaso da sociedade quando se trata
de presos”.
12
1.3 Forças federais em ação
Esta fase é inaugurada pelo desencadeamento da operação Bastilha, da Polícia
Federal, em novembro de 2008. Aqueles que eram as principais fontes na fase anterior,
responsáveis pelos processos administrativos disciplinares que investigavam a possível
“omissão” de funcionários nas mortes, agora são acusados de serem líderes da quadrilha
que determinava a execução sumária dos presos.

Segundo a Folha apurou, o major da Polícia Militar Sydney Santos, ex-


diretor do Departamento do Sistema Penitenciário seria a cabeça da
organização. O cabo PM Raimundo Carvalho, ex-chefe do Serviço de
Vigilância Interna da Penitenciária, seria seu braço direito. Os crimes
seriam executados pelos detentos presos, que também são suspeitos de
liderar a quadrilha. (GOMES; TRAJANO, 2008, p. 1)

Em janeiro de 2009, outra operação, agora da Polícia Civil, denominada São


Leonardo de Noblat, foi desencadeada e cumpriu mandados de prisão de detentos. Essa
operação consolidou as investigações iniciadas pela Polícia Federal. A formulação a seguir,
presente na matéria que noticiou a operação daquela instituição policial, é digna de
atenção:

Embora a população já tivesse essa convicção, pelo menos nove dos 11


presos que apareceram mortos dentro da Penitenciária Agrícola de Monte
Cristo, a maioria deles pendurados por cordas entre os anos de
2007 e 2008 supostamente por suicídios, na verdade foram assassinados.
(SOUSA, 2009, p. 1)

Ao publicar a convicção da população contrária à versão oficial sobre as mortes nos


presídios, é interessante perceber o que o jornal deixa de dizer: qual a convicção dele
próprio em relação a essas mortes? Estaria ele incluso nessa população de convictos, na
condição de “representante da opinião pública”?
A resposta a essas perguntas não fica clara nesse texto noticioso, mas em uma
matéria publicada dois meses antes é possível perceber que o jornal se coloca como agente
que antecipou a versão que só depois se confirmaria “verdadeira”: “Na época da morte de
Careca, Nara Pantoja, sua irmã, disse à Folha que não acreditava na versão oficial de que
seu irmão tinha se matado.” (GOMES; TRAJANO, 2008, p. 1) Ressalva-se que, como já
acentuado, os periódicos em análise, na fase anterior, apresentavam o suicídio como
13
hipótese principal, e o homicídio, como possibilidade marginal.
É interessante perceber que na nota da coluna social abaixo o texto traça um
paralelo entre um caso recente e uma morte “nas mesmas circunstâncias” que, na época da
publicação da referida coluna, já havia sido elucidada pela Polícia Federal como
homicídio. Entretanto, a nota não dá essa informação. Fica apenas na sugestão,
demonstrando que o jornal ainda se sentia desconfortável em assumir a versão de
homicídio, que à época já se tornara oficial.

No Presídio
* A morte de um estuprador apenas 24 horas após ter dado entrada no
presídio causou o maior alvoroço, pelo fato de o criminoso estar sozinho
na sela no momento em que morreu enforcado com o cordão de um
calção amarrado às grades da prisão.
* De acordo com a administração do presídio, já foi constatado que se
trata mesmo de suicídio. O recente episódio é exatamente idêntico ao
caso do homicida José Barnabé da Silva (Macuxi), que morreu na cadeia
tempos atrás nas mesmas circunstâncias (RODRIGUES, S., 2009, p. 2).

Mais interessante ainda é saber que a edição do Jornal em que foi publicada essa
nota é a mesma em que consta a notícia Denunciadas 34 pessoas por morte de presos
(TRAJANO, 2009), sobre a já citada operação São Leonardo de Noblat. Entretanto
também não é feita qualquer referência a essa operação policial.
Nesta fase, as histórias são revisadas, atualizadas como homicídio, diferente do que
havia sido publicado anteriormente pelos jornais. Apesar disso, os periódicos em nenhum
momento fazem um mea culpa. Não há qualquer referência ao fato de os jornais em análise
terem publicado e, inclusive assumido como verdade, a versão oficial anterior e agora
divulgarem outra como verdadeira, sendo que esta contradiz aquela.

[...] no dia 30 do mesmo mês, foi à vez do preso Mário Gomes Feitosa,
apelidado de Velhinho, que foi espancado até à morte; no dia 26 de
novembro ainda de 2007, o preso Sebastião de Almeida Lourenço, foi
induzido e instigado a se enforcar com uma camisa, único caso
confirmado de suicídio, porém obrigado (SOUSA, 2009, p. 2).

Outro destaque a se fazer é de que nessa fase as execuções deixam de ser


apresentadas como possível ação entre indivíduos ou promovida por pequenos grupos
formados espontaneamente para figurar como ações organizadas de uma quadrilha

14
criminosa. “[Um dos livros de anotações] pertence à Cawboy e foi apreendido na casa da
mulher dele, onde descreve toda a estrutura da organização e segundo o delegado
possibilitará que muitos outros crimes, não somente de homicídios sejam esclarecidos.”
(SOUSA, 2009, p. 2)

1.4. Outra vez a mesma história


Esta fase é uma compilação das anteriores. De um lado, vê-se como positiva a
consolidação de práticas no noticiário como a crítica ao Estado na sua responsabilidade de
gerir o sistema prisional, o levantamento estatístico de mortes suspeitas em presídios em
período determinado e a abertura para vozes contraditórias, como o MPE, familiares, o
Judiciário, a OAB e um pesquisador (sociólogo).
De outro lado, práticas que pareciam superadas ressurgem nessa fase. São elas a
construção da narrativa de modo a justificar ou atenuar a execução sumária, mostrar a
execução como uma prática de uma pessoa isoladamente e apontar, sem contraposição, o
suicídio como primeira hipótese.
Como estratégia do jornal que acaba por justificar ou atenuar a execução extralegal,
em que pode ser apontado um apoio implícito ao homicídio, observa-se o destaque na
repercussão junto à população do crime atribuído ao preso morto, em detrimento da própria
execução.

O crime de grande repercussão cometido pelo pedreiro chocou a


população e também os presos da PA, para onde Honorato foi levado.
Os detentos são contra estupradores de crianças e mulheres, e as leis
internas adotadas pela população carcerária são severas. Esta é a
segunda morte de estuprador, somente este ano, registrada dentro do
mesmo presídio.
Em depoimento prestado por Robson Orelha durante o flagrante de
homicídio realizado no Plantão Central I, uma hora após o crime, muito
friamente ele foi enfático ao dizer que matou pela revolta diante do brutal
crime cometido por Honorato. (MELLER, 2011, p. 1, itálico nosso)

Além disso, o exemplo acima faz referência a “leis internas da população carcerária”,
sem questionar explicitamente que a adoção dessas “leis” são, na verdade, uma ilegalidade.
Aliado a isso, pode-se perceber a construção da execução sumária como um fim inevitável
para quem comete crimes como estupro de criança, em uma postura de banalização e

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normalização da execução sumária, como se observa abaixo:

“[O preso] Já sabia que iriam matá-lo dentro do presídio, e antes de eu


sair, ele se despediu, como se soubesse que nunca mais iria vê-lo vivo”,
disse. A esposa também falou que desde o momento em que foi
informada da morte sabia que ele não tinha se suicidado, e sim sido
assassinado. “Os presos não perdoam os estupradores. Infelizmente, esse
foi o fim do meu marido”. (MELLER, 2011, p. 2)

Os exemplos abaixo, referentes a três casos diferentes, demonstram que uma prática
que parecia superada na fase anterior volta como procedimento recorrente dos periódicos
em análise: enquadrar o homicídio como ação isolada de uma pessoa ou um pequeno
grupo, sem menção a uma organização criminosa.
“Como o detento confessou o crime, alegando que o praticou sozinho, a delegada
Francilene disse que o procedimento vai ser relatado e encaminhado à Justiça.” (POLÍCIA,
2011, p. 1)

Ele confessou detalhes de como tudo aconteceu. Disse que, logo após a
transferência de Honorato da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM),
onde o flagrante foi realizado um dia após o estupro, Orelha - que é tido
como um homem muito violento e sem escrúpulos - adotou pessoalmente
“medidas de punição” contra o estuprador. (MELLER, 2011, p. 1)
Detentos que estavam no local do crime disseram que ele teria sido
espancado durante toda a tarde, até que durante a noite o homicídio foi
consumado. Segundo a Polícia Militar, o preso Ednaldo Fonseca da Silva,
19, confessou ter dado o “golpe de misericórdia” no homem ao enforcá-
lo. (LIMA, 2011, p. 1)

Também nessa fase, volta-se ao suicídio como primeira hipótese, nos casos em que
não há autoria assumida, como nos dois exemplos abaixo.

A Folha apurou que na “tranca” onde Honorato ficou no isolamento, na


noite de terça para quarta-feira, agentes carcerários monitoraram a Ala 8
para evitar que qualquer incidente ocorresse. “Tudo indica que os
próprios presos disponibilizaram a corda para que Honorato cometesse o
suicídio”, declarou a fonte da Penitenciária.
A mesma fonte da Folha disse que os presos não admitem crimes de
estupro contra mulheres e criança. “A lei na PA é bruta e os presos não
aceitam isso. Então, eles entram na mente do estuprador [pressão
psicológico] e ele mesmo comete o suicídio, que é melhor para ele”,
explicou ao lembrar que estuprador não imagina o inferno dentro da PA.
“Os presos não toleram” (TARGINO, 2011, p. 1).

16
“O pintor foi encontrado enforcado e a polícia trabalha até o momento com a
hipótese de suicídio.” (RODRIGUES, T., 2013, p. 1)
Reconhece-se, nesta fase, a publicação também, ainda que ínfima, de material
jornalístico com foco em políticas públicas. A notícia Reativada ala de presos por crimes
sexuais, entretanto, é a única da amostra que se enquadra nesse perfil, uma exceção que
confirma a regra. Em todos os outros textos analisados o foco é criminal.

Considerações finais
Este trabalho analisou a cobertura dos jornais Folha de Boa Vista e Folha Web, de
2005 a 2014, sobre execuções sumárias de presidiários. A investigação identificou quatro
fases que correspondem cada uma a um comportamento editorial dos periódicos na
cobertura dos casos, seja a reprodução da versão oficial, da administração do sistema
prisional e da polícia civil, a apresentação de vozes contraditórias ou a revisão das histórias
já publicadas.
É preciso destacar que não se trata de uma história linear e evolutiva, que parte de
uma realidade negativa até um momento em que os problemas dos momentos anteriores
deixam de existir. Nessa travessia, há avanços e retrocessos. Diferentes características e
comportamentos editoriais, por vezes contraditórios, convivem simultaneamente.
Algo que fica evidente em toda a cobertura é que há pouco espaço para o
jornalismo investigativo. É predominante nas notícias em estudo as instituições oficiais
como fonte de informação, ainda que seja para contradizer uma a versão da outra. Tal
constatação indica que os jornais analisados estão presos ao critério autoridade para
analisar a confiabilidade da informação fornecida, o que acaba por proporcionar uma
cobertura um tanto quanto limitada do tema em questão.
O embasamento teórico, hipótese do newsmaking, e a técnica adotados, análise
performativa, ajudaram a perceber as características apontadas na cobertura jornalística
analisada como resultado de decisões profissionais, e não como produto de técnicas
objetivas. Desse modo, acreditamos que a forma como as notícias foram apresentadas não
são as únicas possíveis, mas foram a escolhida pelos periódicos analisados dentre tantas
outras.

17
Referências
BRAGA, José Luiz.Análise performativa. Cem casos de pesquisa empírica. In: ______.; LOPES,
Maria Immacolata Vassalo de; MARTINO, Luiz Cláudio (Orgs.). Pesquisa empírica em
Comunicação.São Paulo: Paulus/Compós, 2010. p. 403-423.

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2006. Disponível em: <http://www.folhabv.com.br/noticia.php?id=11000>. Acesso em: 22 fev.
2014.

CORREIA, Cyneida. Diretor diz que não há risco de rebelião na Cadeia Pública. Folha de Boa
Vista, Boa Vista, a. 21, n. 4556, p. 10, 20 jul. 2005. Cidade.

GOMES, Loide; TRAJANO, Andrezza. Quadrilha é suspeita de matar 9 detentos. Folha Web, Boa
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LIMA, Yana. Mais um estuprador é encontrado morto na penitenciária agrícola. Folha Web, Boa
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MELLER, Daniela. Preso assume morte de estuprador na PA. Folha Web, Boa Vista, p. 1-3, 8 jul.
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2014.

MORTES na PA - defensor ameaça pedir intervenção federal. Folha Web, Boa Vista, p. 1-3, 22 jan.
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21 fev. 2014.

PAI denuncia que filho foi embriagado na Penitenciária antes de morrer. Folha Web, Boa Vista, p.
1-2, 28 jan. 2008. Disponível em: <http://www.folhabv.com.br/noticia.php?id=34773>. Acesso em:
21 fev. 2014.

PARABÓLICA. Folha Web, Boa Vista, p. 1, 5 de dezembro de 2006. Disponível em:


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______. Folha Web, Boa Vista, p. 1, 15 de novembro de 2007. Disponível em:


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POLÍCIA Civil autua detento por matar na PA, pedreiro que confessou estupro. Folha Web, Boa
Vista, p. 1, 7 jul. 2011. Disponível em: <http://www.folhabv.com.br/noticia.php?id=112019>.
Acesso em: 21 fev. 2014.

PRESIDIÁRIO que decapitou colega na Cadeia vai ser julgado hoje. Folha Web, Boa Vista, p. 1,
28 abr. 2007. Disponível em: <http://www.folhabv.com.br/noticia.php?id=22811>. Acesso em: 22
fev. 2014.

PRESO é encontrado enforcado na PA. Folha Web, Boa Vista, p. 1, 28 nov. 2007. Disponível em:
<http://www.folhabv.com.br/noticia.php?id=32357#>. Acesso em: 21 fev. 2014.

18
RL. MPE investigará mortes na Penitenciária. Folha Web, Boa Vista, p. 1, 26 jan. 2008.
Disponível em: <http://www.folhabv.com.br/noticia.php?id=34734>. Acesso em: 21 fev. 2014.

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______. Polícia Civil deflagra operação e prende assassinos. Folha Web, Boa Vista, p. 1-3, 29 jan.
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SOUZA, Jorge Pedro. As notícias e os seus efeitos. As “teorias” do jornalismo e dos efeitos
sociais dos media jornalísticos. Universidade Fernando Pessoa, 1999. Disponível em:
http://www.bocc.ubi.pt/_esp/autor.php?codautor=13. Acesso em: 24 maio 2012.

TARGINO, Vaneza. Pedreiro que estuprou garota de 8 anos é encontrado enforcado. Folha Web,
Boa Vista, p. 1-2, 7 jul. 2011. Disponível em:
<http://www.folhabv.com.br/noticia.php?id=111982>. Acesso em: 21 fev. 2014.

TRAJANO, Andrezza. Denunciadas 34 pessoas por morte de presos. Folha Web, Boa Vista, p. 1-2,
27 fev. 2009. Disponível em: <http://www.folhabv.com.br/Imprimir_noticia.php?id=56780>.
Acesso em: 21 fev. 2014.

TRAQUINA, Nelson. O estudo do jornalismo no século XX. São Leopoldo, RS: Unisinos, 2001.

19
Tipiti Notícias: Web Jornal feito a Partir de Tuites de Jornalistas e
estudantes de Roraima

Cyneida Menezes CORREIA3


Paulo Felipe MEDEIROS4

RESUMO:
No mundo digital, não apenas profissionais de comunicação, mas qualquer pessoa pode
compartilhar uma informação, construir uma noticia ou adaptá-la a sua realidade.
Este produto foca nas práticas do jornalismo. Considerando a circulação jornalística no
Twitter, como resultado da observação do que é produzido e vinculado pela rede social e
com dados obtidos em uma analise com jornalistas e estudantes de comunicação de Boa
Vista – Roraima. Por fim, se produz um jornal de twittes em uma plataforma de
observatórios que pode ser utilizada por estudantes para a prática da produção jornalística e
cientifica com conteúdo que circula nos jornais online e são recirculados A plataforma
deve servir para que os estudantes possam aprender a usar a rede social de forma correta
para divulgar informação.

PALAVRAS-CHAVE: Webjornalismo; Twitter; Roraima; Tipiti Notícias

Este trabalho busca compreender como se dá a influência do twitter no jornalismo.


A abrangência é feita na avaliação de como os jornalistas estão utilizando o Twitter, no
processo de produção das notícias, a partir da criação de um jornal feito com twittes
abordando o assunto Roraima. O tema foi escolhido a partir da observação sobre o
crescimento do número de jornalistas e estudantes de comunicação usuários do Twitter em
Boa Vista Roraima. A pesquisa em questão tem sua relevância científica, por contribuir
com um material teórico sobre Twitter, possibilitando que novos acadêmicos disponham de
maior quantidade de informação sobre o assunto.
A partir de analise do que foi twittado feita em uma amostra de 150 jornalistas e
estudantes da área de Comunicação Social, e uma seleção bibliográfica sobre mídias
digitais, foi produzido esse trabalho e este produto aqui apresentado, oferecendo novas
oportunidades de se avaliar o que é divulgado e retransmitido.
Para ilustrar tais conceitos, utiliza-se como bibliografia básica os autores:

3
Aluna do 6º. Semestre do Curso de Comunicação Social-Habilitação Jornalismo, email: Cyneida@gmail.com.
4
Estudante do 6º. Semestre do Curso Comunicação Social-Habilitação Jornalismo, email: pfgmedeiros@gmail.com

20
Silva, (2009) e Zago (2008) que dizem que cada vez mais tem crescido a utilização
do Twitter para finalidades voltadas ao jornalismo, como na cobertura de acontecimentos
ou eventos ou na divulgação de últimas notícias. Outro teórico utilizado será Recuero
(2009) que sistematiza três relações possíveis entre jornalismo e redes sociais: as redes
sociais podem atuar como fontes produtoras de informação, como filtros de informação, ou
ainda como espaços de reverberação dessas informações.
“Ao repassar informações que foram publicadas por veículos, os atores estão dando
credibilidade ao veículo e tomando parte dessa credibilidade para si, pelo espalhamento da
informação” (RECUERO, 2009, p. 48). O papel do jornalista passa a ser o de selecionar
quais as informações receberão destaque. Filtragem passa a ser mais importante que a
mediação (PRIMO & TRÄSEL, 2006).
As redes sociais exerceriam, assim, caráter complementar ao jornalismo “não tendo
o mesmo comprometimento que estes para com a credibilidade da informação, mas
auxiliando a mobilizar pessoas, a construir discussões, e até mesmo, a apontar diversidades
de pontos de vista a respeito de um mesmo assunto” (RECUERO, 2009b, p. 50).
Nem tudo o que está no Twitter é jornalismo. “Nesse sentido, o Twitter se torna
parte de um ambiente de sistema de mídia no qual os usuários recebem um fluxo de
informação tanto da mídia de referência quanto uns dos outros” (HERMIDA, 2010,
online).
Essa rede social também permite informar que há vários outros usos possíveis para
o Twitter, como para fazer a cobertura ao vivo de um evento, para notícias, para
comunicação entre integrantes de um grupo de trabalho, etc. [...]. Um uso importante
possível para o Twitter é estabelecer diálogos coletivos de modo assíncrono (SANTOS
apud LEMOS, 2008, p.7).
Assim como notícias em primeira mão são agora mais “primeiras” do que nunca, os
negócios podem se armar com o imediatismo do twitter para inovar e construir
relacionamentos como nunca. (COMM, p. 22, 2009)

1. Objetivo
Constituir e consolidar um jornal alternativo virtual de twittes capaz de representar
o que é noticiado por acadêmicos de comunicação e jornalistas, dando-lhes espaço para se

21
manifestar e discutir questões de relevância social, sem deixar de lado as tendências de
comunicação visual e editorial. Pretende-se informar atualidades para que jornalistas e
estudantes escolham temas de repercussão para o estado, tornando-se assim
disseminadores de informações plurais e criticas.
A preocupação primordial é diagnosticar um fenômeno que vem ocorrendo na
prática do jornalismo, que é o sistema de microblog Twitter servindo como pauta, fonte e
até mesmo de espaço de reverberação de informação, num processo de encadeamento
midiático. Este projeto tentará descrever o fenômeno através de casos estudados, além de
interpretá-los dentro do atual contexto da ‘sociedade da informação’ ao qual estamos
inseridos.

2. Justificativa
A Justificativa para este trabalho é que vários estudos mostram que a atuação de
atores sociais no Twitter, podem auxiliá-los a mobilizar a informação jornalística em
proveito próprio. No caso, a publicação de determinadas informações podem estar
diretamente relacionadas com interesses diversos inclusive fazer com que os estudantes de
jornalismo possam estar mais antenados com o mundo.
Neste sentido, as redes sociais, enquanto circuladoras de informações, são capazes
gerar mobilizações e conversações que podem ser de interesse jornalístico na medida em
que essas discussões refletem anseios dos próprios grupos sociais. As redes sociais podem,
muitas vezes, agendar notícias e influenciar a pauta dos veículos jornalísticos.
Justifica-se também a escolha do tema pela ausência de trabalhos que mostrem
como as redes sociais podem coletar e republicar as informações obtidas através de
veículos na própria rede. Por ser o tema de grande relevância social que tem um conteúdo
muito extenso, procura-se traduzir em poucas linhas alguns.
Um dos valores que pode ser observado a partir desta perspectiva é a publicação
das informações nas redes sociais na Internet e seu impacto individual. Zago (2008)
observou que o uso do Twitter para disseminar conteúdos jornalísticos, demonstram que a
republicação de informações na ferramenta tem um caráter informativo relevante. Firmino
(2009) faz observações semelhantes, igualmente focando o papel dos microblogs no
jornalismo.

22
A informação que vincula no twitter foi feita para convergir com o web jornal
Tipiti, uma publicação em formato de jornal virtual, com vários temas e que pode ser
acessado pela internet. O avanço é que, optou-se por disponibilizar um jornal capaz de
trazer organizar por temas o conteúdo jornalístico divulgado na rede twitter levando o
leitor a conhecer não apenas os sites geradores da informação, mas também os usuários
que a retransmitiram e seus comentários sobre o assunto.
As grandes justificativas para a criação do Tipiti Noticias são: a) a necessidade de
um jornal virtual que especificamente segmentado para jornalistas e estudantes de
comunicação interagirem com seguidores e poderem trabalhar a informação de maneira
mais ampla, b) o fortalecimento da comunicação regional c) a necessidade da convergência
entre o site twitter e o jornal Tipiti Notícias.
Essas justificativas se encontram fundamentadas na necessidade do jornalismo estar
atento aos diferentes públicos, seus comportamentos, maneiras de consumir, de pensar e de
agir na prática, para que assim possam compreender a relação dos meios de comunicação
em geral e as estratégias de produção de conteúdo.
Pensou-se na produção de um jornal com foco nas expectativas do público para o
qual se produz, tendo em vista as diversas segmentações da sociedade, dentre as quais
estão os estudantes de comunicação.

3. O jornalismo na web
Antes da invenção do World Wide Web (WWW ou Web), a rede já era utilizada
para a divulgação de informações, porém os serviços oferecidos eram direcionados para
públicos muito específicos e funcionavam através da distribuição de e-mails, de boletins
disponibilizados através do Gopher ou de recursos semelhantes. A Internet passa a ser
empregada, de forma expressiva, para atender finalidades jornalísticas, a partir de sua
utilização comercial, que se dá com o desenvolvimento da Web no início dos anos 90.
Ao longo desta década de história do jornalismo na Web, é possível identificar três
fases distintas. Num primeiro momento, ao qual chama-se de transpositivo, os produtos
oferecidos, em sua maioria, eram reproduções de partes dos grandes jornais impressos, que
passavam a ocupar um espaço na Internet. Com o aperfeiçoamento e desenvolvimento da
estrutura técnica da Internet, pode-se identificar uma segunda fase – a da metáfora -

23
quando, mesmo ‘atrelado’ ao modelo do jornal impresso, os produtos começam a
apresentar experiências na tentativa de explorar as caraterísticas oferecidas pela rede.
O cenário começa a modificar-se com o surgimento de iniciativas tanto
empresariais quanto editoriais destinadas exclusivamente para a Internet. São sites
jornalísticos que extrapolam a idéia de uma simples versão para a Web de um jornal
impresso e passam a explorar de forma melhor as potencialidades oferecidas pela rede.
Tem-se, então, o webjornalismo. Este terceiro, e atual, momento também corresponde a um
estágio mais avançado de toda uma estrutura técnica relativa às redes telemáticas e aos
microcomputadores pessoais, permitindo a transmissão mais rápida de sons e imagens.
Para descrever o momento atual, a seguir são apresentadas as características do
wejornalismo.

3.1 O Jornalismo On-Line No Brasil


O jornalismo praticado na Internet é muito atual, e as primeiras iniciativas no Brasil
datam da década de 90. Considerando que as mudanças tecnológicas contemporâneas
acontecem em ritmo cada vez mais acelerado, a internet trouxe mais transformações que
meio século de existência da televisão. Com os navegadores da www, que renovaram a
interface gráfica da internet e facilitaram o seu acesso ao usuário, foi possível
disponibilizar na rede produtos on-line, inclusive os jornais digitais. (QUADROS, 2002, p.
02)
O jornalismo online contribuiu para modificar a linguagem do webjornalismo no
Brasil mas até hoje existem controvérsias em relação à definição de qual foi o primeiro
jornal a disponibilizar conteúdo na rede mundial.
Alguns creditam o feito ao “Jornal do Brasil” e outros ao “O Estado de São Paulo”.
Ricardo Torquato (2005, p. 26) e Luís Pereira (2002, p. 07) apontam o periódico carioca
como pioneiro, enquanto Cláudia Quadros (2002, p. 11) destaca as experiências realizadas
pela “Agência Estado”, com o “NetEstado”, que foram anteriores ao lançamento do “JB
On Line”. Já o GJOL (Grupo de Pesquisa em Jornalismo On-Line), afirma que as primeiras
iniciativas de veiculação de notícias pela Internet aconteceram com o “Jornal do
Commercio” de Pernambuco, que utilizava recursos de sistema de inserção de arquivos no
formato de menu, administrado pela “empresa municipal de informática do Recife”, em

24
1994 (MACHADO; PALÁCIOS, 1997, p. 18)

O Grupo Estado, dono do jornal “O Estado de São Paulo”, foi o primeiro


a realizar testes de implantação de notícias no mundo virtual: No Brasil, a
utilização da Internet pelas organizações jornalísticas resulta numa etapa
preliminar de algumas iniciativas isoladas como as do Grupo Estado de S.
Paulo [...]. A preocupação do conglomerado em acompanhar os próximos
passos do intrincado mundo digital fez com que o Estado aderisse ao
projeto Notícias do Futuro do Massachussetts Institute of Technology-
MIT [...]. (MACHADO; PALÁCIOS, 1997, p. 05).

Em maio de 1995, o “Jornal do Brasil” produziu uma versão resumida das notícias
do formato impresso. Pouco tempo depois, os nacionais “Folha de São Paulo” e “O Globo”
também passaram a produzir versões digitalizadas. Nesse momento, é possível notar que as
redações dos veículos ainda não demonstravam preocupação com a adaptação da
linguagem para a nova mídia e muito menos exploravam as incipientes ferramentas de
navegação da web. [...]é importante destacar que as primeiras gerações de páginas na web
reproduziam conteúdos e design das versões impressas, aproveitando os dados
armazenados nos computadores da redação tradicional. (QUADROS, 2002, p. 05).
No intervalo de tempo que se sucedeu entre os primeiros jornais on-line e um
segundo momento intermediário, em que se começou a planejar modelos criativos de
informação jornalística digital e não apenas digitalizada, outro fenômeno arrasaria as
concepções pré- estabelecidas sobre o webjornalismo até então: o surgimento dos portais,
que forneciam notícias curtas e instantâneas.
Para Pollyana Ferrari, os primeiros jornais a se aventurarem na Internet foram
justamente os vinculados a grandes conglomerados comunicacionais do país. Essas
empresas brasileiras participaram e investiram na criação dos chamados portais de
informação, entre os anos de 1999 e 2000.

O conceito de portal surgiu nos EUA a partir do desenvolvimento dos


sites de busca, que ofereciam serviços de chat, e-mail, comércio
eletrônico, canais de entretenimento e notícias. Empresas tradicionais
como as Organizações Globo, o grupo Estado (detentor do jornal O
Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde), o Grupo Folha (do jornal Folha de
S. Paulo) e a Editora Abril se mantêm como os maiores conglomerados
de mídia do país, tanto em audiência quanto em receita com publicidade.
Foram eles que deram os primeiros passos na Internet brasileira, [...].
(FERRARI, 2006, p. 27).

25
Foi assim que nasceu o primeiro jornal exclusivamente digital, no ano de 2002,
com o “Último Segundo”, do portal IG, que pretendia oferecer uma informação nova a
cada minuto. E para cumprir com esse objetivo, dispunha de uma pequena redação própria,
embora quase todo o conteúdo fosse proveniente do serviço de agências de notícias. Antes
disso, porém, uma das revistas semanais mais vendidas do país, a “Veja”, cria sua versão
on-line. A atualização do conteúdo era feita com a mesma periodicidade com que a revista
seguia para as bancas: semanalmente. Isso corrobora a idéia de que os veículos impressos
ainda “não sabiam” como administrar suas publicações eletrônicas, deixando de explorar
especificidades como instantaneidade, usabilidade, navegabilidade e hipertextualidade,
características que serão analisadas no próximo capítulo.

3.2 Características do jornalismo na Web


Ao estudar as características do jornalismo desenvolvido para a Web, Bardoel e
Deuze (2000), apontam quatro elementos: interatividade, customização de conteúdo,
hipertextualidade e multimidialidade. Palacios (1999), com a mesma preocupação,
estabelece cinco características: multimidialidade/convergência, interatividade,
hipertextualidade, personalização e memória.
As características, que serão brevemente apresentadas, refletem as potencialidades
oferecidas pela Internet ao jornalismo desenvolvido para a Web. Tais possibilidades não se
traduzem necessariamente em aspectos efetivamente explorados pelos sites jornalísticos,
quer por razões técnicas, de conveniência, adequação à natureza do produto oferecido ou
ainda por questões de aceitação do mercado consumidor.
Interatividade - Bardoel e Deuze (2000) consideram que a notícia online possui a
capacidade de fazer com que o leitor/usuário sinta-se parte do processo. Isto pode
acontecer de diversas maneiras, entre elas, pela troca de e-mails entre leitores e jornalistas;
através da disponibilização da opinião dos leitores, como é feito em sites que abrigam
fóruns de discussões; através de chats com jornalistas. Porém, os autores não contemplam
a perspectiva da interatividade no âmbito da própria notícia, ou seja, a navegação pelo
hipertexto que, conforme Machado (1997), constitui também uma situação interativa.
Customização do conteúdo/Personalização - Também denominada de
personalização ou individualização, consiste na existência de produtos jornalísticos

26
configurados de acordo com os interesses individuais do usuário. Há sites noticiosos, entre
eles o da CNN, que permite a pré-seleção dos assuntos de interesse, assim quando o site é
acessado, este já é carregado na máquina do usuário atendendo à demanda solicitada.
Hipertextualidade - Esta característica, apontada como específica da natureza do
jornalismo online, traz a possibilidade de interconectar textos através de links. Bardoel e
Deuze (2000) chamam a atenção para a possibilidade de, a partir do texto noticioso,
apontar para outros textos como originais de relises, outros sites relacionados ao assunto,
material de arquivo dos jornais, textos que possam levantar os ‘prós’ e os ‘contras’ do
assunto em questão, entre outros.
Multimidialidade/Convergência - No contexto do webjornalismo, multimidialidade,
trata-se da convergência dos formatos das mídias tradicionais (imagem, texto e som) na
narração do fato jornalístico.
Memória - Palacios (1999) aponta para o fato do acúmulo das informações ser mais
viável técnica e economicamente do que em outras mídias. Sendo assim, o volume de
informação diretamente disponível ao usuário é consideravelmente maior no
webjornalismo, seja com relação ao tamanho da notícia ou à disponibilização imediata de
informações anteriores. Desta forma surge a possibilidade de acessar com maior facilidade
material antigo.
Para finalizar, a última das características a ser abordada, e talvez a mais complexa
delas, é a hipertextualidade. Para fins deste texto, a característica multimidialidade será
considerada como uma característica integrante da hipertextualidade. No webjornal, as
notícias são disponibilizadas numa proposição multi-linear, através de células informativas
(Salaverría, 2001) conectadas por links. Tais células podem ser constituídas de textos, sons
ou imagens.
A multimidialidade em si não é a novidade no webjornal; a inovação fica por conta
do formato de organização e apresentação da informação, que é o formato hipertextual.
Uma discussão que existe (Armentia, 2001; Salaverría, 2001) é se o formato de
pirâmide invertida, largamente utilizado para o jornalismo impresso, seria ou não o mais
adequado para as narrativas hipertextuais.

27
4. Métodos e técnicas utilizados

4. 1 Pré-produção
Compreende as ações de planejamento, pesquisas de público e processos
jornalísticos que antecedem a produção de conteúdo para o jornal propriamente ditos.
Nessa fase, também são avaliados os conteúdos enviados pelos estudantes e jornalistas que
podem contribuir com produções multimídias (vídeos, textos, fotos e áudios) para o jornal.

4.2 Manutenção
Está ligada aos novos processos de produção de conteúdo para jornal online a partir
de twitter. Tais processos incluem os procedimentos diários de redação, apuração e
checagem de informações, edição de texto, diagramação de infográficos, revisão, postagem
no site, divulgação de conteúdo nas redes sociais e atualização de informações – sempre
que possível – em tempo real.
Para reforçar a ideia defendida do novo produto, uma pesquisa, de caráter
qualitativo, foi realizada com estudantes e profissionais, graduados em jornalismo de
Roraima. O pré-requisito era que todos os entrevistados fossem atuantes na área
jornalística, além de serem usuários do Twitter, que possuíssem uma assiduidade mínima
de pelo menos um acesso ao mês.
A amostra foi aleatória, com participação de indivíduos do sexo masculino e
feminino, feita por livre escolha dos pesquisadores. Os twittes e noticias foram
selecionadas de maneira livre, sem limitação de tempo.
A pesquisa seguiu a modalidade bibliográfica. Entende-se por pesquisa
bibliográfica, segundo Ander-Egg: “um procedimento reflexivo sistemático, controlado e
crítico, que permite descobrir novos fatos ou dados, relações ou leis, em qualquer campo
de conhecimento”.
A metodologia utilizada será o método dedutivo-indutivo por se tratar de uma
observação do twitter e de um levantamento das posições de estudiosos acerca do tema. O
método utilizado por este projeto de pesquisa será qualitativo, pois terá o ambiente, no caso
a rede social Twitter, como fonte direta de dados e o pesquisador como caráter
fundamental. Por isso a escolha dessa metodologia, que se baseia na descrição dos fatos e

28
na indução e interpretação.

5. Descrição do produto ou processo


O jornal online de twittes que será apresentado neste trabalho foi feito de forma
laboratorial, e pode ser acessado por meio do endereço http://paper.li/cyneida/1364393818.
Em formato de jornal virtual, com visual, que privilegia uma aparência dinâmica, passou a
tomar forma com atualizações mais constantes assim que os alunos passaram a entender a
dinâmica do projeto. Hoje, ele pode ser acessado tanto pelo endereço repassado, como
pode ser montado de forma individual por qualquer pessoas a partir da plataforma Papel
Observatórios no endereço http://paper.li/ A importância da segmentação no
webjornalismo, a relação do estudante de comunicação e do jornalista com a internet e as
propostas ideológicas e editoriais que diferenciam o o jornal virtual de tuites dos demais
veículos do gênero, são algumas das principais reflexões propostas.
A reflexão sobre o tema aponta para uma possível potencialização da etapa de
circulação jornalística a partir da possibilidade de estudantes de comunicação se
apropriarem do conteúdo que circula nos jornais online e o fazerem recircular no twitter
por meio de um jornal de twittes selecionados a partir de temas previamente escolhidos. O
objetivo principal é esclarecer e apontar qual é a influência que a mídia social exerce
indiretamente ou diretamente na produção de conteúdo jornalístico.

6. Considerações finais
Buscou-se observar, em caráter exploratório, como ocorre a circulação jornalística,
a partir da perspectiva dos estudantes e jornalistas no Twitter para a mídia online de
referência, e da mídia online de referência para o Twitter.. Como decorrência desse tipo de
apropriação da ferramenta, entende-se que o Twitter poderia operar uma espécie de
potencialização (PALÁCIOS, 2003) da circulação jornalística na Internet. Não seria,
entretanto, uma mera continuidade, na medida em que esse novo meio, com suas
características próprias, traz especificidades para a produção, a distribuição e o consumo de
notícias.
As informações disseminadas no Twitter geram repercussão e isso está cada vez
mais presente na atividade jornalística roraimense, independentemente do suporte

29
midiático no qual o conteúdo foi veiculado. É possível observar, entre os estudantes e
jornalistas de Roraima, uma tendência global de aproveitamento das novas mídias no
auxílio do trabalho jornalístico que reflete, mais especificamente, nas redes sociais, que se
multiplicam em uma velocidade fantástica, criando ambientes de trocas de conteúdos,
informações e outros dados de forma virtual.

Referências Bibliográficas
AMARAL, A.; RECUERO, R.; MONTARDO, S. (Org.). Blogs.com: estudos sobre blogs
e comunicação. São Paulo: Momento Editorial, 2009.

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa : DIFEL, Rio de Janeiro : Bertrand


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1,no.15,2001.

LOPES, Sônia Aguiar. A teia invisível; informação e contra-informação nas redes de


ONGs e movimentos sociais. Rio de Janeiro, 1997. Tese (Doutorado em Ci. da Inf.) -
IBICT/CNPq - ECO/UFRJ. Orient.: Gilda M. Braga, Ma. Nélida G. de Gómez

RECUERO, R. Redes Sociais na Internet. Porto Alegre: Ed. Sulina, 2009. 191 p. (no
prelo)

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Capital Social no Twitter. In: Anais do XIX Encontro da Compós, PUC/MG, junho de
2009. Disponível em: <
http://www.compos.org.br/data/trabalhos_arquivo_coirKgAeuz0ws.pdf>. Acesso em
25/02/2013

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São Paulo: Momento Editorial, 2009.

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ZAGO, G.O Twitter como Suporte para Produção e Difusão de Conteúdos


Jornalísticos. In: 6º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo. São Bernardo do
Campo, SP, Brasil: SBPJor, 2008.

30
Caso Pesseghini: O perfil de um psicopata segundo o Portal G1

Deborah Negreiros e NASCIMENTO5

RESUMO: Esta análise busca compreender as perspectivas elaboradas pelo canal de


notícias G1, vinculado às Organizações Globo, quanto ao caso que ficou conhecido no
Brasil como “Pesseghini”. As razões para este estudo de cariz exploratório se baseiam nas
supostas influências das emissões noticiosas dos grandes portais e canais televisivos, sua
repercussão em escala nacional e, por fim, a abordagem equivocada e tendenciosa
elaborada nas matérias a respeito do universo dos jogos eletrônicos. Dessa forma, será
possível concluir que, a despeito da influência exercida pelo Portal de Notícias, o intenso
trânsito de comentários e interpretações de usuários na internet permite a elaboração de um
universo muito diversificado de panoramas e argumentos a respeito dos eventos relatados.

PALAVRAS-CHAVE: Webjornalismo; Portal G1; Games; Informação jornalística;


Hipertexto.

Este estudo tem como intuito abordar as várias imagens, panoramas e argumentos
criados e difundidos pela Rede Globo durante o frenesi público intitulado “Caso
Pesseghini”. O caso, que se alastrou rapidamente por todo o país, envolvia uma criança de
13 anos e sua família (pais, avó e tia-avó), todos encontrados mortos na própria residência,
em 5 de agosto de 2013. Através da análise aprofundada das linguagens e edições
utilizadas pela Rede Globo ao construir o perfil do jovem Marcelo Eduardo Bovo
Pesseghini, tanto na televisão quanto no seu sítio oficial, pretende-se compreender a forma
como o veículo de comunicação em questão deliberadamente dramatizou o perfil do
acusado e como reproduziu essa imagem dramatizada diante da população.
Evidentemente, tal estudo não pode gerar resultados matemáticos: o que se
pretende é utilizar instrumentos da psicologia e análise de conteúdo para perceber como a
televisão manipula constantemente o perfil de indivíduos públicos para aumentar a
dramaticidade dos relatos produzidos.
Para chegar a estes resultados, entendemos ser necessário abordar, ainda que de
forma breve, a história da RGTV (Rede Globo de Televisão) enquanto veículo de
comunicação privilegiado, observando o seu histórico de posturas sociais, culturais e

5
Graduanda em Comunicação Social/ Jornalismo pela Universidade Federal de Roraima.
deborahnegreirosnascimento@hotmail.com

31
políticas diante da sociedade brasileira. Desse modo, compreender seu papel social na hora
de transmitir informações sobre casos específicos que envolvem comoção pública e podem
ser utilizados para fins políticos ou, então, meramente monetários.
Este material será elencado em torno da esquematização do caso Pesseghini – data,
acontecimentos, descobertas, teorias, conspirações, solução –, para melhor compreender o
personagem principal neste artigo, o adolescente Marcelo Bovo Pesseghini; ainda, através
da análise da mecânica e história do jogo de que Marcelo era fã – Assassin's Creed, para
entender até que ponto o jogo poderia ter motivado um surto de violência real. Faremos
isto utilizando estudos que abordem a influência dos jogos no estilo de vida dos
indivíduos.
A abordagem da RGTV, segundo a qual as atitudes intempestivas do adolescente
Pesseghini foram provocadas pelos jogos violentos não parece muito completa, devendo
haver, pelo menos, uma construção de argumentos mais elaborada e mesmo científica,
através, em primeiro lugar, da conceituação daquilo que se intitula psicopata. Da mesma
forma, possibilitaria ao espectador mudar a visão equivocada sobre os transtornos mentais
e como eles são provocados.
O estudo será conduzido através de referenciais bibliográficos voltados para a
história da Rede Globo, seu papel e sua influência na sociedade brasileira. Assim, entender
sua capacidade de convencimento e seu papel enquanto lugar de trânsito de ideologias,
sobretudo através de elementos da Teoria Crítica (ADORNO e HORKHEIMER, 1985). O
mesmo se fará quanto aos estudos sobre psicopatia. Isso implica em observar de forma
detalhada os recursos retóricos e textuais utilizados pela Rede Globo durante a abordagem
do caso, seja na televisão ou online.
A partir, enfim, da revisão de materiais dispostos no site G1 e matérias ali
publicadas, além de vasta análise sobre estudos de psicopatia e influência dos games na
vida de indivíduos, buscamos compreender a maneira como a RGTV abordou e percebeu a
personalidade de Pesseghini, buscando, através da construção maniqueísta de um bem que
se debruça contra o mal, dramatizar a questão que poderia gerar uma ilustração mais
adequada.

32
1. Rede Globo e a formação do G1

Roberto Pisani Marinho era o filho mais velho de Irineu Marinho Coelho de Barros,
dono de dois dos mais importantes jornais no país. O mais importante deles, O Globo, foi
fundando em 1925. Quando Irineu Coelho faleceu, Roberto Marinho assumiu a chefia e
direção do jornal mencionado, sendo também o redator, com apenas 26 anos. Amorim et.
al. (2005, p. 11) cita que no período em que trabalhou na redação da TV Rede Globo (1984
– 1996), Roberto Marinho era tido como o “melhor repórter” e tinha total autonomia sobre
os conteúdos publicados, especialmente com relação à política. Ele também menciona que
outros funcionários além de Marinho tinham a mesma influência “que uma barata” naquela
redação.
No entanto, desde 2001 a circulação de jornais impressos começou a entrar em
queda. Um exemplo, além do O Globo, seria a reconhecida Folha de São Paulo, que nos
anos de 1995, vendia aos domingos 1.417.876 de exemplares. Nos anos de 2010, este
número foi reduzido para menos que a metade – 386.197 de cópias.Utilizando-nos das
observações de Lima (2004), é possível perceber que o principal motivo desta diminuição
de vendas está no nascimento da Nova Mídia. Se a Velha Mídia abrangia os meios de
comunicações clássicos – cinema, rádio, televisão, imprensa -, a Nova inclui todos os
aparelhos tecnológicos de última geração, como computadores, satélites de transmissão
direta de TV e telefones inteligentes.
A disponibilização on-line do conteúdo anteriormente acessível somente por meio de
compra de um papel relativamente grande e de cuidadoso manuseio permitiu ao
indivíduo/audiência a escolha do meio de comunicação que mais tem a ver com suas
condições sociais e econômicas. Além disso, as mesmas matérias são resumidas ou
adaptadas para os veículos de comunicação como rádio e televisão, o que nos permite dizer
que esta última acaba ganhando um papel fundamental de divulgação do conteúdo do
impresso.
Concomitantemente, os antigos veículos de comunicação buscaram adaptações à
Nova Mídia, se adequando aos padrões atuais de jornalismo e entretenimento. Assim
sendo, o G1, site de notícias pertencente às Organizações Globo,6 expõe que7

6
Empresas jornalísticas, comandadas por quase oito décadas pelo filho de Irineu Marinho, Roberto. Ele

33
Com a consolidação da Era Digital, em que o indivíduo isolado tem
facilmente acesso a uma audiência potencialmente ampla para divulgar o
que quer que seja, nota-se certa confusão entre o que é ou não jornalismo,
quem é ou não jornalista, como se deve ou não proceder quando se tem
em mente produzir informação de qualidade. A Era Digital é
absolutamente bem-vinda, e, mais ainda, essa multidão de indivíduos
(isolados ou mesmo em grupo) que utiliza a internet para se comunicar e
se expressar livremente. Ao mesmo tempo, porém, ela obriga a que todas
as empresas que se dedicam a fazer jornalismo expressem de maneira
formal os princípios que seguem cotidianamente. O objetivo é não
somente diferenciar-se, mas facilitar o julgamento do público sobre o
trabalho dos veículos, permitindo, de forma transparente, que qualquer
um verifique se a prática é condizente com a crença.

Observando seus compromissos e seus ideais jornalísticos diante do público,8 bem


como sua história e papel na sociedade brasileira, julgamos apropriado analisar a
abordagem feita pela rede de notícias G1 a respeito de um dos casos mais criminais
intrigantes, por assim dizer, do Brasil, ocorrido em agosto de 2013, que ficou conhecido
como “Caso Pesseghini”. Isso em virtude, inclusive e sobretudo, pela disponibilidade de
material documental mais facilmente acionável.

2. Caso Pesseghini de acordo com o G1


No dia 5 de agosto de 2013, o Portal G1 noticiava que um casal de policiais militares
(PMs), o filho (na matéria, tendo a idade de 12 anos) e mais dois parentes (até então, não
identificados) foram encontrados mortos onde residiam – Vila Brasilândia, zona norte de
São Paulo (SP). O texto, postado às 19h17, afirmava que até aquele horário, não haviam

criou, mais tarde, a Rede Globo de Televisão, que até hoje prevalece como sendo o maior veículo de
comunicação do Brasil. No entanto, isto se fez de maneira controversa. Mello (1994, p. 26) transcreve as
palavras do Ministro da Justiça do período entre 1974 a 1979, Armando Falcão: “A Globo tinha uma posição
de apoio aos governos revolucionários, porque o doutor Roberto Marinho apoiou a revolução de março de
1964 desde antes de ela eclodir. Ele foi revolucionário de primeira hora. E continuou, portanto, a apoiar os
governos da revolução”. O desenvolvimento Rede Globo de Televisão se fez com um acordo com o grupo
Time-Life, o que apesar de ir contra as leis brasileiras ao que tange a introdução de empresas internacionais
de comunicação no país na época, trouxe benefícios que deixaram Roberto Marinho com um poder decisivo
na mídia naqueles anos (Mello, 1994, p. 27-28).
7
Disponível em <g1.globo.com/principios-editoriais-das-organizacoes-globo.html>.
8
Na Seção II, Tópico 2, na subdivisão “e”, destaca-se: “Todo veículo jornalístico tem uma responsabilidade
social. Se é verdade que nenhum jornalista tem o condão de, certeiramente, escolher que informações são
'boas' ou 'más', é legítima a preocupação com os efeitos maléficos que uma informação possa causar à
sociedade. (...) A regra de ouro é divulgar tudo, na suposição de que a sociedade é adulta e tem o direito de
ser informada. A crença de que os veículos jornalísticos, ao não fazerem restrições a temas, estimulam
comportamentos desviantes é apenas isso: uma crença”.

34
informações sobre o que motivara a chacina.
Aliado às informações, exibiu-se um vídeo do SPTV 2ª Edição, no qual o jornalista
Carlos Alberto Tramontina afirmava que os dois parentes eram “a sogra e prima [sic]”. O
Globocop (helicóptero da emissora Globo) registrava imagens da “área toda cercada. A
gente vê as luzes dos carros da polícia, em grande quantidade [sic] na região”, afirmava
Tramontina. O texto, por sua vez, dizia: “Dois corpos foram baleados na cabeça e uma
arma estava embaixo do corpo do menino. Vizinhos ouviram tiros no fim da manhã,
horário que a polícia acredita que aconteceram as mortes. A rua está interditada para o
trabalho dos policiais e da perícia” (G1, 5 de ago, 2013.)
Entre os 841 comentários feitos a respeito da matéria, percebeu-se uma suspeita geral
por parte dos leitores de que se tratava de um crime cometido por bandidos. A maioria dos
julgamentos populares afirmava, de maneira vulgar, que esses possíveis culpados deveriam
morrer e/ou pagar caro pelo que fizeram. Também percebiam a ação como sendo
imperdoável, por se tratar de um crime contra pessoas do bem – policiais militares. Entre
as afirmações, uma delas contrariava as demais perspectivas, de uma pessoa identificada
como Solange Carvalho, no indagando que “pode ter sido um deles mesmo, que surtou
[sic] ou por briga em família [sic] exterminou todos e depois se matou”.
Observa-se que esta notícia expõe somente o factual, sem especulações nem juízos
de valor, o que felizmente entra em desacordo com a ideia de Preti (1996, p. 11). Segundo
o autor,por vezes a linguagem utilizada para abordar temas como a violência acaba por
transformar o próprio veículo em mensagem. No entanto, o mesmo não se pode dizer sobre
as próximas notícias ligadas ao caso, expostas no canal noticioso aqui em análise.
A matéria do dia seguinte (6) sugeria que Marcelo Pesseghini – filho dos PMs,9 aqui
já com 13 anos – utilizava a foto de um personagem do jogo Assassin's Creed10 como foto
de perfil em uma rede social. O título sensacionalista – “Suspeito de matar pais PMs usa
foto de game assassino [sic] no Facebook”– seguido de um texto11 pouco preocupado em

9
No decorrer da análise, percebe-se que esta caracterização - “casal de PMs”, “pais PMs”, “PMs” - foi
massivamente utilizada pelo canal de informações, afirmando um ideal social recorrente: policiais estão à
favor da sociedade, protegendo-a; logo, matar pessoas que exercem esse trabalho coloca o autor do crime
como sendo o “mal”, e as vítimas, como sendo o “bem”.
10
Tanto a foto de perfil do jovem quanto as imagens mostradas nos vídeos expostos no site comprovam que a
versão do jogo é a segunda – Assassin's Creed II, com classificação para maiores de 18 anos no Brasil e na
Europa.
11
“O adolescente Marcelo Pesseghini, de 13 anos (…), usava a imagem de um assassino de videogame no

35
descrever a mecânica do jogo, bem como os benefícios de produtos como este para pessoas
de diversas idades,12 acabou por trazer à tona uma discussão mal construída e ignorada
pela mídia: a real influência de jogos na vida de seus consumidores.
Ora, os 4.364 comentários13 sobre a matéria em questão são divergentes e, ao mesmo
tempo, demonstram pensamentos completamente opostos quanto à influência desses
materiais na vida de jovens como Pesseghini. As pessoas se dividem entre as que repudiam
jogos cada vez que veem notícias nesse tom, como escreveu a leitora Madalena Paula:
“espero que tomem as devidas providencias [sic] e proíbam [sic] que fazem os filhos
matarem os pais [sic] coisa absurda aos olhos de Deus [sic]”-, e nas que repudiam
acusações desse nível – de que jogos violentos tornam seus consumidores violentos.
Estas últimas se mostram um pouco mais esclarecidas, sem recorrer a crenças, e sim
a experiências próprias e possíveis leituras,14 uma vez que nunca cometeram crimes e nem
tampouco sentiram vontade de fazer por conta dos jogos que consomem. Um desses
indivíduos, assinando como Gabriel Goes, escreveu:

Nossa. Realmente o fato é triste. Eu jogo Hitman: Absolution, nem por


isso, [sic] mato por dinheiro. Eu jogo Call Of Duty, e não sou um soldado.
Eu jogo Sonic, nem por isso sou um ouriço azul. Eu jogo Mario, nem por
isso sou um encanador. Desde que a pessoa tenha um [sic] mente fraca,

seu perfil do Facebook há um mês. O suspeito havia trocado sua foto de perfil no dia 5 de julho, passando a
utilizar a imagem de um matador do game. Esta foi a última atualização de Marcelo na rede social.
'Assassin’s Creed' é um jogo que mostra a visão de Desmond Miles, um barman que volta no tempo na pele
de seus ancestrais. Com isso, encarna o matador Altair e se envolve na guerra entre assassinos e templários ao
longo de diversos eventos históricos como as Cruzadas, o Renascimento, a Revolução Americana e, no
último jogo, a disputa entre piratas durante a conquista da América. Como membro da ordem de assassinos,
Miles tem a missão de dizimar a Ordem dos Templários, que iniciou uma das Cruzadas a Jerusalém”,
descreve o texto, assinado por Kleber Tomaz. Observa-se que a verdadeira missão do personagem não é
dizimar, e sim proteger uma Maçã Dourada, que tem conhecimentos dos quais os templários não podem se
apropriar, uma vez que se o fizerem, a utilizarão para o mal.
12
Savi et. al (2008), descreve que jogos educacionais têm como benefícios a motivação (por estimularem os
seus consumidores a persistirem nos desafios), a facilitação no aprendizado (os autores citam que áreas como
ciências exatas são as mais trabalhadas), o desenvolvimento em atividades cognitivas (por permitirem, a
elaboração de estratégias), o aprendizado por descobertas (o que estimula a coragem do indivíduo), as
experiências de novas identidades (um exemplo seria que, quando simulam a vida profissional de um
engenheiro, o consumidor toma para si possíveis situações que passaria na realidade), a socialização (os
atuais jogos, como Resident Evil 6, permitem que o usuário se conecte com outros jogadores através da
internet na vida real, para agirem em equipe), a coordenação motora, e por fim, o comportamento expert
(conhecem bem assuntos que cercam seus jogos).
13
Até o dia 16 de março de 2014.
14
Para Tambosi (2005, p. 31) “o que diferencia a crença como elemento constitutivo de 'crença, verdade e
justificação (CVJ)' é que ela deverá ser necessariamente verdadeira, ao passo que crenças religiosas ou
ideológicas podem dispensar tal requisito”. No entanto, para o autor, o conhecimento em si, não se forma
somente com a crença verdadeira - só existe com a união da CVJ, simultaneamente.

36
ele pode ser influenciada [sic] por LIVROS, NOVELAS, SÉRIES,
PERSONALIDADES 'FAMOSAS', e etc. Jogos não influenciam, nunca
influenciaram, e nunca vão influenciar pessoas com mente forte. Pessoas
decididas, que sabem o que querem, não são influenciáveis por nada nem
ninguém.

O repúdio também veio por parte da própria criadora do jogo em observação. A


Ubisoft, desenvolvedora responsável por Assassin's Creed, teve sua nota publicada pelo G1
no dia 8 de agosto de 2013 (três dias após o crime). A matéria, intitulada “Criadora de
game repudia ligação de jogo com morte de família de PMs”, destacou as palavras
expostas no Facebook da própria empresa:

Em nenhum estudo até agora realizado há consenso sobre a associação


entre a violência e obras de ficção, incluindo livros, séries de televisão,
filmes e jogos. É uma falácia associar um objeto de entretenimento de
milhões de pessoas, todos os dias, em todo o mundo, com ações
individuais e que ainda estão sendo esclarecidas. Em resposta aos pedidos
de posicionamento da Ubisoft sobre o caso da família Pesseghini, trata-se
de uma tragédia e nossos pensamentos e orações vão para a família e os
amigos das vítimas. Nessa hora de consternação de toda a sociedade, é
natural a busca por respostas (Ubisoft, 8 de ago. 2013, via Facebook)

No entanto, apesar de divulgar a nota, o G1 reafirmou a mesma abordagem a


respeito do jogo, como elaborada por Kleber Tomaz no dia 6 do mesmo mês. Em todas as
ocasiões, destacou a utilização da imagem do protagonista do game como sendo o perfil na
rede social de Marcelo, sem jamais procurar especialista algum a respeito de crimes dessa
proporção para possivelmente oferecer outra proposta de cariz psicológico.
Nas matérias dos dias seguintes feitas pelo G1, observa-se a constante menção ao
jogo, independentemente do título ou foco do texto. De todas as formas, o canal de notícias
transmitiu ignorância a respeito do funcionamento do jogo,15 fazendo com que muitos, que
ainda creem firmemente na veracidade das mensagens jornalísticas criassem maiores
preconceitos a respeito do universo pouco acessível e explorado dos jogos eletrônicos.16
Anteriormente, porém, a própria emissora havia desmentido a ideia de que outro autor de

15
Aqui, nos utilizamos da palavra no sentido de não querer conhecer, não buscar conhecer.
16
Para se ter ideia dos altos custos do mercado de jogos e consoles no Brasil, a marca Sony anunciou, em 17
de novembro, o preço do Playstation 4, sua plataforma da chamada nova geração, ao lado de outras como
XBOX One e Nintendo Wii U, por R$4mil no país. O mesmo produto nos Estados Unidos, custa o
equivalente a R$867.

37
um crime bárbaro - Cho Seung-Hui, que matou 33 pessoas na Virgínia Tech – teria matado
por ser fã de outro jogo – Counter Strike.
Mesmo no final das investigações, o portal G1 citou, de maneira breve, que
Marcelo Pesseghini jogava Assassin's Creed, sem dar ênfase, contudo, ao fato de que
anteriormente o jovem havia tentado “dar uma flechada” na sua avó,17 tampouco que
amigo do pai de Marcelo declarou que o filho ameaçou a sua mãe.18 Foram apenas
divulgadas, sem destaques nem detalhes. O jornal Estadão também apresentou esta última
notícia, acrescentando que

de acordo com o PM [amigo do pai do garoto], Marcelo tinha uma


espingarda de pressão e gostava de atirar em animais, como cães e
passarinhos. Vizinhos teriam reclamado para a mãe do estudante, que
chamou o garoto para conversar. A testemunha disse à polícia que Andréia
[mãe de Marcelo] avisou que ele deveria parar de acertar em bichos e
explicou que só poderia usar a arma contra um alvo em casa.

São fatos como este que, se fossem unidos à análise de psiquiatras e psicólogos
especializados em transtorno de personalidade antissocial ou psicopatas, e mais tarde
divulgados para a massa, criariam a possibilidade de construir um tipo mais sólido de
pensamento. São casos como esse que Barbosa Silva (2008) tenta esclarecer em seu livro
Mentes Perigosas – O psicopata mora ao lado.19A autora menciona casos de crianças que
cometeram atos de violência e que foram tomados com maior perplexidade por parte da
sociedade, uma vez que seres humanos têm dificuldade em acreditar que estes jovens,
associados à inocência, seriam capazes de cometer crimes tão brutais (2008, p. 139).
No decorrer de seu livro, ela esclarece ainda que psicopatas sejam incapazes de ter
sentimentos pelas outras pessoas, pensando somente em si mesmos e utilizando outrem
como objetos para alcançar suas metas. No final do capítulo sobre jovens portadores da
doença,20 a autora desmente o senso comum, afirmando que:

17
Em 22 de agosto: “Filho de PM teria dito a amigo que tentou dar flechada em avó”.
18
Em 30 de agosto: “Amigo de pai de Marcelo Pesseghini diz que jovem teria ameaçado a mãe
19
Capítulo 9: Menores Perigosos Demais (p.137). Ela introduz o capítulo com a seguinte frase: “É
estarrecedor observar que crianças que deveriam estar brincando [sic] ou folheando livros nas escolas
trafiquem drogas, empunhem armas e apertem gatilhos sem qualquer vestígio de piedade” (p.136).
20
“A gente costuma chamar pessoas assim de monstros, gênios malignos ou coisa que o valha. Mas, para a
Organização Mundial da Saúde (OMS), eles têm uma doença, ou melhor, deficiência. O nome mais
conhecido é psicopatia, mas também se usam os termos sociopatia e transtorno de personalidade antissocial”
(Narloch, 2006/2012, p.152).

38
é fundamental destacar que a redução da maioridade penal pouco vem
contribuir para a diminuição da violência ocasionada por jovens
perigosos, que são maus na essência. Ao meu ver [sic], devemos avaliar a
personalidade do infrator, a sua capacidade de entendimento dos seus
atos, seus sentimentos e a gravidade do crime cometido. Isso levaria a se
considerar cada caso com sua justa individualização, tornando possível
distinguir, de forma eficaz, os jovens que precisam e poder ser
reeducados daqueles que são refratários a qualquer tipo de medida
socioeducacional. Estes últimos, irrefreáveis e incompatíveis com o
convívio social, devem ser rigorosamente punidos como adultos. Caso
contrário, só iremos amargar [sic] cada vez mais a infeliz certeza de que
eles não vão parar nunca (SILVA, 2008, p. 147).

Mesmo Guido Palomba, reconhecido psiquiatra forense brasileiro –atuou no caso


Ritchtofen, ocorrido em 2002 – associou o crime cometido por Marcelo Eduardo Bovo
Pesseghini, como sendo vinculado a uma síndrome chamada “Dom Quixote”, na qual o
jovem, que dois anos antes teria sofrido uma lesão cerebral em consequência de falta de
oxigênio, confundiu realidade com ficção e quis ser um assassino de aluguel. Para tal,
precisaria eliminar obstáculos de seu caminho – no caso, os familiares. Teria cometido o
suicídio porque chegou à escola e não conseguiu aprovação de seus amigos quando relatou
o caso. É preciso destacar a principal frase, do ponto de vista deste estudo, que consta no
laudo assinado pelo psiquiatra: “Ele criou um grupo imaginário de assassinos de aluguel e
passou a usar um capuz, tudo isso inspirado no personagem de um videogame violento ”.
Se o único especialista chamado para explicar a personalidade de Pesseghini se pôs
a favor da ideia de influência negativa dos jogos, é possível supor que o debate sobre
games na vida de jovens teria um desfecho unilateral na apreciação do público. No entanto,
os 1.192 comentários feitos sobre a matéria em questão demonstram a reprovação por parte
do público com relação ao caráter unívoco da matéria. Alguns creem apenas que ele matou
por conta de sua lesão cerebral, que acabou por mudar sua personalidade; outros, apostam
apenas na “maldade” do garoto; poucos indivíduos insistem que a culpa foi do jogo; e por
fim, outros simplesmente não acreditam que um garoto de 13 anos seria capaz de cometer
tal ato.

39
Considerações finais

Foi possível perceber, nesse breve percurso de análise, que mesmo que as
informações veiculadas pela mídia componham, ainda que inconscientemente, um esforço
unilateral de persuasão, as formas de recepção e consumo de notícias são muito variadas.
Trata-se de um tipo de leitura e feedback impossível de ser feita no primeiro canal de
Roberto Marinho, o jornal O Globo, da mesma forma como passou a acontecer na
televisão.
O conteúdo digital, inevitavelmente vinculado aos comentários e à apreciação
direta do público, transforma-se de forma muito mais constante e assume mais elementos
cognitivos que permitem pensar mais amplamente uma determinada situação. Se, portanto,
num primeiro momento, a notícia veiculada teve uma apreciação unívoca (apenas uma
leitora sugeriu que o crime teria sido cometido pela própria criança), nas últimas matérias
vinculadas ao caso pode-se perceber um número muito maior de avaliações e panoramas
críticos, muitas vezes independentes do conteúdo sugerido pela matéria. Esta última, bem
mais econômica do que na televisão ou no impresso, parecia incorporar a ideia de que um
desfecho não poderia ser definitivo e logo uma nova matéria viria a lume permitindo ao
leitor lançar uma luz mais direta para o caso.
Isso só assegura, como tem sido afirmado, que o conteúdo do jornalismo digital
oferece mais caminhos e vias de exploração para o leitor e que, justamente esse poder do
hipertexto tem garantido uma migração sucessiva de consumidores culturais para as
plataformas digitais. No caso estudado, ainda que brevemente, pôde-se perceber, através do
feedback dos usuários, que eles crescentemente eram capazes de cotejar explicações mais
amplas a respeito do acontecido, muitas vezes baseados mais num trânsito horizontal de
interpretações do que no conteúdo e interpretação direcionados pela matéria.

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como-familia-pesseghini-foi-assassinada.html>. Acesso em 10 de mar. 2014.

G1. Laudo aponta doença mental e compara filho de PMs a Dom Quixote. Disponível
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filho-de-pms-dom-quixote.html>. Acesso em 9 de mar. 2014.

41
G1. Suspeito de matar pais PMs usa foto de game assassino no Facebook. Disponível
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game-de-assassino-no-facebook.html>. Acesso em 9 de mar. 2014.

G1. A pedido da polícia, psiquiatra forense vai traçar perfil de Marcelo Pesseghini.
Disponível em: <g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/08/policia-ouvira-colegas-de-filho-
de-pms-sobre-grupo-baseado-em-game.html>. Acesso em 9 de mar. 2014.

G1. Amigos de Marcelo Pesseghini não teriam revelado tudo que sabem. Disponível
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teriam-revelado-tudo-o-que-sabem.html>. Acesso em 9 de mar. 2014.

G1. Laudos apontam Marcelo Pesseghini como assassino da família e


suicida.Disponível em: <g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2013/09/laudos-apontam-
marcelo-pesseghini-como-assassino-da-familia-e-suicida.html>. Acesso em 9 de mar.
2014.

G1. Amigo de pai de Marcelo Pesseghini diz que jovem teria ameaçado a
mãe.Disponível em: <g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2013/08/amigo-de-pai-de-
marcelo-pesseghini-diz-que-jovem-teria-ameacado-mae.html>.

G1. Laudos apontam que filhos de PMs matou a família, diz delegado-geral.
Disponível em: <g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/09/laudos-apontam-que-filho-de-
pms-matou-familia-diz-delegado-geral.html>. Acesso em 9 de mar. 2014.

G1. Fantástico entra em casas onde família Pesseghini foi assassinada. Disponível em:
<g1.globo.com/fantastico/noticia/2013/08/fantastico-entra-em-casas-onde-familia-
pesseghini-foi-assassinada.html>. Acesso em 10 de mar. 2014.

G1. Garoto matou a família em 10 minutos, diz advogado da OAB sobre chacina.
Disponível em: <g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/08/garoto-matou-familia-em-10-
minutos-diz-advogado-da-oab-sobre-chacina.html>. Acesso em 10 de mar. 2014.

G1. Colega de escola de Marcelo Pesseghini presta depoimento importante. Disponível


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pesseghini-presta-depoimento-importante/2759362/>. Acesso em 10 de mar. 2014.

G1. Tio mostra carta que filho suspeito de matar família fez para o pai em
2012.Disponível em: <g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/08/tio-mostra-carta-que-filho-
suspeito-de-matar-familia-fez-para-o-pai-em-2012.html>. Acesso em 10 de mar. 2014.

G1. Filho de PM teria dito a amigo que tentou dar flechada em avó. Disponível em:
<g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/08/filho-de-pm-teria-dito-amigo-que-tentou-dar-
flechada-em-avo.html>. Acesso em 10 de mar. 2014.

42
G1. Criadora de game repudia ligação com morte de família de PMs.Disponível em:
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G1. Criador de jogo 'Assassin's Creed' lamenta tragédia com fã do game.Disponível


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43
A Abordagem da Comunicação Contemporânea no Filme a Rede Social

Francisco Guimarães COSTA JÚNIOR21

RESUMO:
Neste artigo, tratou-se do filme A Rede Social (2010), de David Fincher, e de como ele
estuda as relações sociais contemporâneas através de seu enredo e das ferramentas
cinematográficas bem empregadas. Para que possamos identificar essa mensagem, é
preciso interpretar as cenas e formular hipóteses sobre as idéias do filme. Primeiramente,
mostrou-se o resumo do filme para que o leitor se familiarizasse com o enredo. Depois, o
filme foi decomposto, após a análise de algumas cenas que provocam o espectador com o
uso da linguagem cinematográfica para fortalecer a narrativa e a transmissão da
mensagem. O uso integrado da edição de imagens, dos personagens e da trilha sonora dá
poder suplementar ao filme para analisar as relações sociais contemporâneas.

Palavras-chave: Comunicação digital; cinema; Internet; redes sociais.

As relações interpessoais foram profundamente abaladas pela Internet. Na


sociedade atual, as redes sociais, que deveriam ser campo virtual de convergência de laços
sociais, acabam sendo utilizadas mais para autopromoção da imagem pessoal do que para a
real comunicação humana. São justamente esses aspectos que são denunciados pelo filme
A Rede Social, dirigido pelo cineasta David Fincher e lançado nos cinemas em 2010. O
enredo, sobre a criação da rede social Facebook por Mark Zuckerberg, não é o único fator
usado para transmitir a mensagem. Os próprios recursos cinematográficos
(enquadramentos, trilha sonora, roteiro) complementam a história para criticar a
comunicação contemporânea.
Como um meio de comunicação, o cinema tem uma grande poder de abordagem.
Uma música de fundo, por exemplo, pode dizer muito sobre uma cena romântica ou
aterrorizante. Ou uma troca de tomada na câmera, que não pode ser arbitrária ou carente de
significado. Os itens que compõem um filme podem ser identificados e analisados. Para
isso, é preciso decompor o filme para que entendamos seus significados e como eles estão

21
Acadêmico do 4° Semestre do curso de Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo da
Universidade Federal de Roraima (UFRR). E-mail: jr.guimaraes@yahoo.com.br

44
interligados.
O motivo deste artigo é a necessidade de captar a simbologia contida nos filmes
através da obra A Rede Social,que usa a metalinguagem para criticar as relações sociais
contemporâneas. O objetivo é analisá-lo para perceber essa crítica, bem como
contextualizar com a realidade. Para isso, é preciso familiarizar o leitor com o enredo
através do resumo do filme A Rede Social, relacionar personagens do filme com os atores
da sociedade atual e analisar como as técnicas cinematográficas complementam a emissão
da mensagem.
Trata-se de um trabalho interpretativo, mas também de uma pesquisa
bibliográfica, de caráter dissertativo, abordagem qualitativa. Primeiramente, para realizá-
lo, foi necessário assistir ao filme A Rede Social quatro vezes consecutivas. Na primeira
vez, o filme foi visto no modo convencional, em áudio original, legendado em português,
sem pausas ou intervenções; na segunda, com áudio e legendas dos comentários do diretor
David Fincher; da terceira, comentada pelo roteirista Aaron Sorkins e o elenco; e na última,
com áudio e legendas em português, com pausas nos momentos em que foi necessário
anotar diálogos importantes para o estudo. Assim, foi possível a desconstrução, com
separação dos elementos técnicos do filme e análise destas, para posterior reconstrução e
análise geral. Complementando o trabalho, foram pesquisados capítulos de livros sobre
temas relacionados a cinema, comunicação e das redes sociais, além de consultas a
trabalhos científicos publicados em sites especializados.Os comentários dos envolvidos,
somados aos documentários que estão no segundo disco da edição dupla do DVD A Rede
Social, foram importantes para corroborar com aspectos da análise.
Mais do que entretenimento, o filme analisado é um estudo das relações humanas
e suas transformações com o “mundo digital”. Seus elementos dizem muito sobre o enredo
em si e a ligação entre elas é fundamental para realizar o estudo. Será mostrado como
linguagem cinematográfica reforça o enredo para denunciar a falência das relações
interpessoais e faz o filme revelar contradições e ambigüidades sobre a comunicação
humana. É por obras como esta que reafirmamos o cinema como importante instrumento
de denúncia social.

45
1. O Cinema

Os filmes são grandes meios de comunicação. Mais do que apenas entreter, o


cinema constitui um veículo eficaz para a transmissão de uma mensagem. Os elementos
cinematográficos podem estar conectados de tal forma que podem intensificar a emoção da
cena.
A edição de imagens, por exemplo, tem um efeito poderoso na narrativa de um
filme. Conforme Turner (1993), a habilidade na edição exige timing nos cortes, em que um
corte num momento de relativa estase pode retardar a narrativa e revelar ambigüidades. O
uso de eventos paralelos em uma só cena pode revelar mais que uma passagem de tomada.
Pode trazer um grande significado, o que exigirá do espectador um bom senso
interpretativo.

A complexidade da produção cinematográfica torna essencial a


interpretação, a leitura ativa de um filme. Inevitavelmente precisamos
examinar minuciosamente o quadro, formar hipóteses sobre a evolução
da narrativa, especular sobre seus possíveis significados, tentar obter
algum domínio sobre o filme à medida que ele se desenvolve. O processo
ativo da interpretação é essencial para a análise do cinema e para o prazer
que ele proporciona (TURNER, 1993).

A trilha sonora é outro complemento para a força narrativa de um filme. A música


de fundo pode situar o espectador sobre a condição emocional dos personagens ou a
importância de uma cena específica. A escolha da música-tema é primordial para fornecer
uma identidade sonora ao filme, tornando-o único.
O que vemos (e ouvimos) em tela também pode fomentar o ato de repensar a
realidade. Anacleto (2007) diz que o cinema pode refletir o que podemos e o que queremos
ser. Sendo assim, o poder interpretativo e analítico pode ser aplicado ao filme a ser
estudado.

2. A abordagem do filme a Rede Social


O filme começa quando Mark Zuckerberg (interpretado pelo ator Jesse
Eisemberg) está conversando com sua namorada Erica Albright (a atriz Rooney Mara). O
casal fala sobre o futuro da carreira de ambos. Ele, que estuda em Harvard, discrimina-a

46
por ela ir à Universidade de Boston, supostamente inferior àquela. Ofendida, ela termina o
namoro com ele.
Em seguida, ele volta pra Casa Kirkland, local onde mora na universidade, liga
seu computador e, via Internet, ofende a ex-namorada. Como retaliação, ele tem a idéia de
hackear o sistema de Harvard e baixar as fotos de todas as alunas da universidade. Quando
o amigo Eduardo Saverin (Andrew Garfield) chega à casa, Mark pede para que ele dê um
algoritmo que tornasse possível a intenção de Mark: criar um site chamado facemash,
usando esse algoritmo para montar um sistema de classificação em que, entre duas alunas
quaisquer, o usuário votasse na sua preferida. A façanha atraiu 22 mil usuários, fazendo
cair toda a rede de Harvard.
Alem de ter sido advertido pela direção da universidade por causa disso, Mark é
chamado por três alunos: Divya Narendra (Max Minghella) e os irmãos gêmeos Tyler e
Cameron Winklevoss (interpretados pelo ator Armie Hammer). Interessados na capacidade
de programação de Mark, os três o convidam a participar do site TheHarvardConnection,
pelo qual os alunos da universidade conheceriam os perfis de outros alunos, e ele aceita.
Então, sem comunicar Narendra e os Winklevoss, ele chama o amigo Eduardo para,
ambos, criarem um novo site de relacionamentos em que as pessoas postariam suas
próprias fotos, editariam seus perfis e procurassem amigos. Começa a criação do
TheFacebook.
Os idealizadores do TheHarvardConnection descobrem e tentam processar
Zuckerberg, ao passo que existem cada vez mais pessoas conectadas ao site. O sucesso do
TheFacebook é descoberto por Sean Parker (Justin Timberlake), criador do primeiro
dispositivo a baixar músicas online: o Napster. Interessado em participar do progresso do
site, Parker procura os sócios Mark e Eduardo. Sua primeira contribuição foi sugerir a
retirada do “The” do título, deixando apenas “Facebook”. Em outro encontro, Parker
mostra que sua intenção era difundir a rede social para além do campus universitário.
Seguindo o conselho do novo colega, Mark leva a empresa para a Palo Alto,
Califórnia, enquanto Eduardo procura por novos investidores. Os amigos entram em
conflito sobre os planos do site e, para chamar a atenção de Mark, Eduardo congela a conta
da empresa e volta à Nova Iorque. Lá, recebe uma ligação de Mark sobre o dinheiro de um
investidor conseguido por Parker. Voltando à Califórnia, assina alguns acordos com os

47
investidores. Ao descobrir suas ações foram diluídas pelos acordos, Eduardo decide
processar Mark.
O criador do Facebook enfrenta dois processos: de Tyler Winclevoss, Cameron
Winclevoss e Divya Narendra, por apropriação de propriedade intelectual; e de seu ex-
amigo, Eduardo Saverin, por diluição nas ações da empresa e omissão de crédito na criação
da rede social. Aconselhado pela advogada Marylin Delpy (Rashida Jones), Mark faz um
acordo com todos os envolvidos. O filme termina com Zuckerberg sentado na mesa,
sozinho, conectado à Internet pelo seu computador.

2.2 Análise das cenas

2.2.1 O Início e o Fim (ou vice-versa)


O objetivo deste tópico é mostrar o paradoxo entre a cena inicial e a final e o que
podemos aproveitar dessa cena a fins filosóficos e sociológicos.
Na introdução, após terminar o namoro com Mark, Erica diz: “Vamos ser
amigos”. Imediatamente, ele responde: “Amigos, não quero”. Ela replica: “Fui educada.
Não vou ser sua amiga”. Já na cena final, Mark está sozinho em uma sala com seu
notebook. Conectado ao Facebook, ele descobre que Erica, sua ex-namorada, também
criou um perfil na rede social. Ele envia um convite virtual a ela, clicando no ícone
“Adicionar aos amigos”. Enquanto o filme encerra, ele fixa o olhar na página dela,
atualizando-a.
A princípio, percebemos na primeira cena que a reação de Zuckerberg poderia ser
de qualquer pessoa que seja rejeitada: a de recusar uma provável amizade. Contudo, ao
relacionarmos esse evento com a cena final, revelamos um aspecto do protagonista que
pode representar, de modo alegórico, como a sociedade contemporânea se comporta em
relação às discrepâncias entre relacionamentos reais e virtuais. Apesar da ironia de Erica
(já que, de fato, ela não desejava a amizade proposta por ela própria), é a resposta de Mark
Zuckerberg que importa.
Na segunda cena, ao clicar no ícone “Adicionar aos amigos” na página do
Facebook de Erica, Mark está, virtualmente, propondo uma amizade. No mundo real, a
atitude equivaleria a uma conversa com uma frase do tipo “Vamos ser amigos” ou “Quer

48
ser meu amigo?”. Bem parecida com a falsa proposta de Erica no início do filme, então
rejeitada por Mark. Ou seja, os papeis se invertem. Mas, com o fim da metragem, nunca
conhecemos a resposta de Erica.
É importante notar como as intenções de Mark se diferenciam do início para o
fim. Antes, no mundo real, ele não queria ser amigo de Erica; depois, no mundo virtual,
procurou a amizade dela. De um modo especifico, conclui-se que, pelo menos em relação à
ex-namorada, ele se sente socialmente mais à vontade no mundo virtual do que no real.
Podemos comparar essa conclusão com um aspecto contraditório da sociedade
contemporânea: a sobreposição da virtualidade sobre a realidade nas atuais relações
sociais.
Há duas décadas, Baudrillard (1997, p.149) já denunciava ferozmente a euforia e
o encantamento messiânico pelo virtual, em que a felicidade é simulada, pois existe por
não ter razão para existir.

A virtualidade aproxima-se da felicidade somente por eliminar sub-


repticiamente a referência às coisas. Dá tudo, mas sutilmente. Ao mesmo
tempo, tudo esconde. O sujeito realiza-se perfeitamente aí, mas quando
está perfeitamente realizado, torna-se, de modo automático, objeto;
instala-se o pânico (BAUDRILLARD, 1997, p. 149)

As redes sociais também têm pontos positivos. Segundo Recuero (2009, p. 90), a
mudança dos sistemas sociais não é, necessariamente, negativa. A mediação por
computador gerou outras formas de estabelecimentos sociais. No caso em particular do
casal, abriu-se um espaço para que o relacionamento de ambos mudasse. Contudo, não
houve resposta de Erica Albright.

2.2.2 O desvio do real para o virtual


No segundo ato, ao chegar em casa após o fim do namoro, a primeira atitude de
Mark Zuckerberg é ligar seu computador para narrar sua frustração em seu blog – o
Zuckonit. Através dele, Mark difama Erica Albright com adjetivos pejorativos.
Mais adiante, quando o Facebook já é um sucesso na universidade, os ex-
namorados se reencontram por acaso em um restaurante. Ao conversarem sobre o
Zuckonit, Erica também se mostra revoltada:

49
Erica – “Mas escreveu sobre isso. Como se seus pensamentos ‘geniais’
devessem ser compartilhados. A Internet não é escrita a lápis. É
permanente e publicou que eu era uma idiota, zoou do meu sobrenome,
do tamanho do meu sutiã e ‘classificou gostosas’”.

O desabafo de Zuckerberg no blog se assemelha a uma pessoa escrevendo em seu


respectivo diário, como se o computador fosse o melhor amigo. Sendo assim, ele acaba
escrevendo “pensamentos”, algo que talvez não dissesse com palavras faladas.
Contemporaneamente, esse é o modo como as redes sociais são consideradas na prática.
A cena em que Dyvia descobre a existência do Facebook também é interessante.
Ele está assistindo a uma peça musical, enquanto uma moça está com seu notebook
acessando a rede social, sem se importar com o evento no qual está presente. Seu foco é a
Internet, é o seu “eu” virtual. A moça ganha destaque na cena. Das três pessoas exibidas na
tomada, apenas ela está usando o computador. É difícil se deparar com momentos reais
assim, em que, mesmo em um ambiente com grande contingente, a pessoa prefira estar
focada no computador?

2.2.3 Uma Condição Social


A cena em que Mark constrói o site facemash mostra bem o poder da edição e do
paralelismo de imagens como instrumento de crítica à juventude do século XXI. Há dois
eventos ocorrendo paralelamente na cena:

1) Mark se conecta à Internet e, sob o olhar curioso de seus colegas, cria um


site chamado facemash;
2) Um grupo de jovens vai a uma festa noturna em uma das casas de
Harvard.

No evento 1, ele se diverte hackeando os sistemas de todas as casas da


universidade para fazer o download das fotos das alunas. Seu intuito é criar um site para
comparar a beleza das alunas, no qual o usuário acessa e escolhe a universitária preferida.
No evento 2, os homens e mulheres estão em um ônibus rumo a uma festa noturna. A festa
é regada a bebidas, jogos e dança. Enfim, um evento comum.
Enquanto em um evento a pessoa se diverte em casa, apenas usando o

50
computador, no outro as pessoas se divertem no modo convencional, saindo para festas,
popularmente conhecido por balada. Na conexão desses dois eventos, mostrados
paralelamente na mesma cena, podemos interpretar como uma metáfora da contradição de
comportamentos sociais. Ou seja, na sociedade, muitos permanecem se entretendo com as
baladas e alguns outros se contentam com a Internet.
O uso da trilha sonora eletrônica (que pode simbolizar “diversão”), sem alterações
de volume durante a alternância de ambientes, indica que não há alterações de sentimento
de euforia. Passar horas na Internet, para uma pessoa que está online, é equivalente a uma
pessoa comum dançando na balada. Com a existência dessa equivalência, então o mundo
exterior se torna desnecessário e o vício, inevitável.

2.2.4 Cartaz Humano


Na cena em que Zuckerberg terá a idéia de construir o “Status de relacionamento”
no Facebook, Dustin tem o seguinte diálogo com Mark, sobre uma garota com a qual
aquele queria flertar.

Dustin: – “Ela tem namorado? Já viu ela com alguém? E se não, sabe se
ela procura alguém?”.
Mark: – “Dustin... quem anda com um cartaz dizendo se...”

A resposta de Mark é interrompida por seu próprio insight. Sua resposta a Dustin
fê-lo perceber o que deveria ser acrescentado na construção de sua rede social, que seria o
campo do status supracitado. Ele se levanta rapidamente e sai correndo do local, deixando
o colega sem uma resposta sobre a garota. Sua saída repentina para casa tinha como
objetivo se conectar ao seu site para enriquecê-lo com a idéia recém-formada.
O campo “Status de relacionamento” do Facebook serve para indicar se o usuário
tem um relacionamento. Atualmente, as opções são: solteiro, casado, em um
relacionamento sério, noivo, viúvo, em um relacionamento enrolado, em um
relacionamento aberto. O campo “Interessado em” indica em que tipo de pessoa está
interessado., tendo como opções homens, mulheres e homens e mulheres. O usuário pode
optar por não deixar esses campos visíveis ao público.
O que chama a atenção no diálogo é o uso do termo cartaz para designar
pejorativamente o status de uma pessoa. Associando a resposta de Zuckerberg (incluindo o
51
uso da palavra cartaz) e a idéia de criar os campos “Status de relacionamento” e
“Interessado em”, concluímos que esses tópicos fazem parte da propaganda pessoal do
usuário. Enfim, fazem parte de seu próprio “cartaz”.
Se o cartaz criado pelo sujeito real torna o sujeito virtual um produto teremos dois
sujeitos muito diferentes. O real está na frente do monitor, cujas reais intenções e
expressões são desconhecidas por outros usuários online. O virtual é um personagem, uma
idealização imaginada pelo sujeito real, e é ele que está na linha de frente da página
pessoal da rede social e, consequentemente, do estabelecimento de um vínculo
comunicativo.
O problema é que nem sempre às características do sujeito virtual correspondem
às do sujeito real. Isso porque a imaginação é algo relativo e muito particular. Geralmente,
a auto-definição é exagerada se comparada ao ponto de vista de outrem. Sibilia (2008. p. 8)
afirma que a atmosfera contemporânea estimula a hipertrofiado eu até o paroxismo, que
enaltece e premia o desejo de “ser diferente”e “querer sempre mais”. A valorização desses
ícones criados faz com que estas prevaleçam no campo virtual. No impedimento de
conhecer a pessoa no campo real, que está do outro lado do monitor, o usuário acolhe o
personagem do outro como se fosse a representação fidedigna do sujeito real.
Recuero (2009, p. 109-110) afirma que “um dos pontos-chave da construção de
redes sociais é, justamente, o fato de que os sistemas que as suportam permitem um maior
controle das impressões que são emitidas e dadas, auxiliando na construção da reputação”.
Essa liberdade de jogo de informações mostra o quão eficiente é a Internet na construção
do eu-virtual através desse tipo de propaganda – ou “cartaz”, como diria Mark Zuckerberg.
Já Baudrillard (1997, p. 149) não acredita nesse controle, ao contrário. Para ele,
essa possibilidade de dissimulação, do desaparecimento de si próprio no espaço impalpável
do virtual, faz com que o próprio usuário não se localize mais. É bem provável que, desse
modo, o internauta prefira que seu alter-ego responda por ele, por nem mais se reconhecer
enquanto sujeito real.

2.2.5 A música-tema
Existem três cenas cujos respectivos backgrounds são pontuados pela mesma
música: “Hand covers bruise”, uma das obras instrumentais criadas pela dupla de

52
compositores Trent Reznor e Atticus Ross.

 Cena 1: durante os créditos iniciais, quando Mark vai caminhando até a


Casa Kirkland após o término do namoro com Érica.
 Cena 2: no tribunal, quando Mark vê a chuva através da janela, enquanto o
advogado de Narendra e os irmãos Winklevoss tenta um diálogo com o
mesmo.
 Cena 3: no tribunal, quando Eduardo diz o valor de diluição de suas ações
na empresa Facebook e todos miram Mark.

“Hand covers bruise” é uma trilha tocada em piano, com dois conjuntos de seis
notas que se repetem. Segundo os compositores, como é mostrada no documentário do
segundo disco do DVD do filme, ela foi criada para momentos melancólicos.
Surpreenderam-se quando descobriram que a música foi escolhida pelo diretor David
Fincher para ser o tema do filme.

Gostei dessa música pois... Achei a melodia dela incrível. E pareceu


ousada e melancólica, trágica, importante de certa forma. Mas, para ser
sincero, não sabia o quão sombrio ou isolado David [Fincher] queria que
ficasse o filme. Pois ver uma edição com música temporária, deu um ar
totalmente diverso para o filme. Ficou mais casual, ruidosa, com faixa de
rock e guitarra na cena de abertura dos créditos. Pareceu: ‘Bom é um
filme de faculdade com uns jovens fazendo coisas, e se aproveitando um
do outro’. Mas com nosso trabalho, mostrou que algo estava acontecendo
abaixo desta superfície, e há uma tensão e vulnerabilidade que acho que
mudou todo o clima do filme (Trent Reznor in: FINCHER, 2010).

Além disso, há uma característica peculiar no uso dessa faixa: seu volume diminui
no decorrer das cenas pontuadas. Ou seja, se na primeira vez em que a ouvimos ela está em
volume normal, na segunda ela está menos audível. Na terceira, o volume está mais baixo.
O diretor David Fincher também explica isso no documentário.

Foi quando comecei a falar com [os editores] Ren Klyce, Angus Wall e
Kirk Baxter e começamos a dizer: ‘Pode ser três partes... Podemos
conectar esta primeira afronta, do que ele pode se tornar neste momento
de discórdia e podemos conectar com o depoimento. E então toca na
traição de Eduardo quando Eduardo descobre que suas ações foram
liquidadas. (...) E acabamos ouvindo todos esses pianos diversos, e
decidimos que o primeiro seria o mais íntimo, um piano simples, mas
completo. Então acho que foi um piano de armário gravado bem e perto.

53
E na próxima vez em que ouvimos, é gravado um pouco mais distante. É
quase como uma memória de quem ele era no início. E ao chegar no
final, é tão distante, como se o próprio piano fosse gravado... É quase
como se tivesse desaparecido quem ele era. E foi algo bem emotivo. Você
ouve e fica na memória. E na segunda vez que escuta, há uma leve
mudança. E na terceira vez, é quase como uma memória de infância
(FINCHER, 2010).

2.3 A Rede Social como representação do real


Mais do que a história sobre a criação do Facebook, o filme é um retrato da
geração contemporânea. É, portanto, uma cruel representação da realidade atual, da
desertificação voluntária e contraditória do real, em que as relações sociais “presenciais”
estão perdendo espaço para as virtuais, em um período em que tanto se busca amigos.
Os próprios personagens simbolizam esses problemas. Mark Zuckerberg é um
indivíduo pacato, que possui apenas um amigo (no caso, Eduardo Saverin) e é indiferente a
outras pessoas senão ele próprio. Contudo, ironicamente, criou a maior rede de
relacionamentos da atualidade. Essa ambigüidade é parte da denúncia à hipocrisia.
A relação entre Mark Zuckerberg e Eduardo Saverin também demonstra essa
contradição das relações sociais. No início, eles são amigos; criam o facemash em uma
noite e, posteriormente, o Facebook em alguns meses; têm a amizade abalada, pela entrada
de Sean Parker na empresa, e encerrada, pelo destino das ações da empresa. Em outras
palavras, a amizade decresce ao longo do filme, enquanto a rede social cresce cada vez
mais. Justamente quando a empresa atinge um milhão de usuários (ou um milhão de
pessoas procurando amigos), Mark perde seu único amigo. Era a euforia do sucesso de seu
mundo virtual contrastando com o fracasso no seu mundo real.

Considerações finais
O filme A Rede Social mostrou, através de suas cenas e de como elas foram
compostas, uma análise das relações sociais contemporâneas. A denúncia não é tão clara,
pois exige uma interpretação ativa do espectador. Contudo, uma vez decifrada a
mensagem, o intérprete dá uma importância maior não apenas ao filme, mas ao poder do
cinema como meio de comunicação. Alem disso, a denúncia é urgente, pois trata de como
as redes sociais influenciam no novo comportamento social das pessoas.
A comunicação humana mudou muito com as novas formas de relações sociais

54
pela Internet. Teve muitos avanços graças à tecnologia, mas precisa ser aprimorada. Ela
não é apenas uma forma de interação atribuída a uma ação individual, mas também uma
forma de auto-renovação de sistemas sociais. Portanto, não basta que a tecnologia se
expresse por si só. O sucesso das relações sociais contemporâneas depende do conjunto de
pessoas, não do indivíduo. As redes sociais são um grande instrumento comunicativo, mas
a renovação das relações humanas é sempre necessária.

Referências
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pedagógica no auxílio à docência. Ponta Grossa. 2007. Congresso Internacional de
Administração. Disponível em
<http://www.isepeguaratuba.com.br/inc/pdf/isepe_guaratuba_artigo004.pdf>. Acesso em
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BAUDRILLARD, J. Tela total: mito-ironias da era do virtual e da imagem. Porto Alegre. Sulina.
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FINCHER, D. The Social Network. Filme. EUA. Columbia. 2010.

PENAFRIA, M. Análise de filmes – conceitos e metodologia(s). VI Congresso SOPCOM. Beira


Interior. 2009.

PEREIRA, L. R. A Abordagem Didática do Uso do Cinema em Sala de Aula. UDESC.


Disponível em <http://www.revistas.udesc.br/index.php/EnsinoMedio/article/viewFile/2342/1763>.
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SIBILIA, P. O show do eu: a intimidade como espetáculo. 2008. Disponível em


<http://www2.ediouro.com.br/200812/oshowdoeu/downloads/trecho_oshowdoeu.pdf>. Acesso que
em 16/08/2013.

STOCKINGER, G. Caminhos da comunicação contemporânea. Curitiba. 2004. Disponível em


<http://www.compos.org.br/seer/index.php/e-compos/article/viewFile/4/5>. Acesso em 16 de
agosto de 2013.

TURNER, G. O cinema como prática social. São Paulo. Summus. 1993.

55
O uso da mídia televisiva por grupos e instituições religiosas no Brasil:
uma análise da atuação da IURD na rede Record

Jackson de Souza FÉLIX22

Resumo:
O crescimento desenfreado de novas mídias tem levado o indivíduo a acomodar-se aos
novos modos de relacionamentos, quer seja interpessoal, quer seja espiritual, possibilitando
a manutenção de um relacionamento mais próximo diante de sua divindade, como é o caso
de várias emissoras cristãs surgidas ao longo dos últimos anos no Brasil. A mais famosa
delas é a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), criada há 36 anos e que ao longo
desse tempo tem utilizados os meios de comunicação como forma de conquistar cada vez
mais fiéis para sua igreja, pregando a Teologia da Prosperidade. Este artigo busca analisar
o programa Fala que eu te escuto veiculado na Rede Record, apontando os atos
persuasivos e estratégias político-econômicos utilizadas pelos pastores eletrônicos e
membros da Igreja, expondo como a IURD utiliza os meios de comunicação para o
acúmulo de capital, além de entender a instituição religiosa iurdiana como uma grande
empresa.

Palavras-chaves: Televisão; IURD; Rede Record; Programa Fala que eu te escuto.

Desde que compreendemos o real sentido de globalização, o mundo tem vivido um


amplo processo de informação e inovação tecnológica. O surgimento da prensa de
Guntenberg, que provocou a Revolução da Imprensa com a publicação do primeiro livro
impresso, a Bíblia, possibilitou e ajudou a enfraquecer o monopólio religioso controlado
pela Igreja Católica. O fracionamento do monopólio religioso foi o “boom”, ou seja, o
pontapé inicial para que as denominações pagãs e as demais denominações ganhassem
força.
Graças ao Protestantismo de Lutero e à tradução da bíblia para outros idiomas
nasceu a denominação que hoje conhecemos como “evangelismo”. Uma das principais
características do evangelismo do século XX é a apropriação dos meios de comunicação,
primeiramente no rádio, com concessões gratuitas cedidas pelo governo, e posteriormente
na televisão por meio de cultos eletrônicos, sobretudo na sociedade norte-americana.
Não muito diferente do televangelismo norte-americano, no Brasil foi inserida a
programação religiosa nas rádios e emissoras de TV, tendo em vista que muitos dos
22
Acadêmico do Curso de Comunicação Social/ Jornalismo na Universidade Federal de Roraima (UFRR). E-mail:
jackson_s.felix@hotmail.com.

56
protestantes que se instalaram no Brasil vieram de outros países como missionários e já
tinham conhecimento acerca dos cultos eletrônicos e a da difusão do evangelismo pelos
meios de comunicação.
A Igreja Universal do Reino de Deus, da qual falaremos mais à frente, em seus
primeiros anos de fundação já possuía o seu próprio programa na rádio intitulado
“Despertar da Fé”, pela Rádio Metropolitana do Rio de Janeiro com duração de 15
minutos e conquistando posteriormente programas veiculados na extinta TV Tupi. Isso fez
com que a IURD acompanhasse toda a informação e evolução tecnológica de várias áreas.
O fato é que a Rede Record não é totalmente voltada para a programação religiosa.
Durante todo o dia são transmitidos apenas dois programas dessa modalidade. Um deles
em horário bem incomum, durante a madrugada, que acontece todos os dias da semana.
Os programas, em geral, são jornalísticos e de entretenimento. Já está mais do que
provado que o caráter comercial/empresarial de Edir Macedo, dono da Rede Record,
transcende o espiritual, mostrando que a religião se tornou um subproduto da busca pelo
dinheiro. Cabe explorar, no espaço deste artigo, quais os instrumentos e estratégias são
utilizados para o alcance deste fim, sobretudo através de leitura bibliográfica relativa à
expansão do conglomerado midiático iurdiano, e sua interpretação à luz de conceitos
presentes na Comunicação Social.

1. O Neopentecostalismo como base ideológica


Para maior entendimento da temática deste artigo, é necessário que se tenha
conhecimento acerca do neopentecostalismo, que na sua forma mais branda corresponde a
terceira vertente do pentecostalismo.
Como lembra Mariano (1996), o pentecostalismo de origem norte-americana
chegou ao Brasil por volta do início do século XX e rapidamente ganhou espaço no
território nacional, fazendo com que surgissem cada vez mais igrejas. A heterogeneidade
do pentecostalismo possibilitou a complexidade dessa denominação fazendo com ela fosse
divida em três linhas diferentes, para que fosse mais bem compreendida historicamente e
melhor estudada.
A primeira linha tomada é chamada de pentecostalismo clássico, que compreende
o período entre 1910 e 1950, com a chegada da denominação ao país e a fundação da

57
Congregação Cristã no Brasil (SP) e da Assembleia de Deus (PA). Ela é caracterizada
como pura, pregando o anticatolicismo, dando ênfase ao dom de línguas, além do
sectarismo radical e o ascetismo de rejeição do mundo. Seguindo essas características
ideológicas, a Congregação Cristã no Brasil se mantém firme a elas. Por outro lado, a
Assembleia de Deus mantém um posicionamento mais flexível às ideologias, adequando-
se às mudanças que ocorrem no movimento pentecostal (MARIANO, 1996, p. 25).
A segunda linha pode ser chamada de pentecostalismo neoclássico,
Deuteropentecostalismo,Pentecostalismo Pós-Clássico ou, simplesmente,Segunda Onda
do Pentecostalismo,que teve início da década de 50 com a chegada dos missionários
Harold Williams e Jesus Hermirio Vasquez Ramos a São Paulo. Lá eles criaram a Cruzada
Nacional de Evangelização baseados na crença de cura divina, difundindo (evangelizando)
seus ideais através do rádio, o que possibilitou o crescimento do pentecostalismo por todo
território brasileiro. Além de tudo, fundaram a Igreja do Evangelho Quadrangular
(MARIANO, 1996, p. 25).
A terceira e última vertente surgida é o neopentecostalismo, na metade da década
70, fortalecida nas décadas seguintes. Foi nesse contexto que surgiu a Igreja Universal do
Reino do Deus (1977) fundada essencialmente por um pregador brasileiro e que representa
hoje uma das principais igrejas neopentecostais. Além disso, constituem uma posição
menos dogmatizada do mundo, são filiados a partidos políticos e fazem forte uso da mídia
eletrônica. Ela se caracteriza principalmente por pregar e difundir a Teologia da
Prosperidade, defendendo que o cristão está destinado a ser próspero em todos os aspectos
terrenos de sua vida, seja na saúde, nos bens materiais, nos empreendimentos etc. dando
ênfase o adágio franciscano “é dando que se recebe”:

A Teologia da Prosperidade consta entre as principais mudanças


doutrinárias e axiológicas ocorridas no chamado neopentecostalismo,
vertente pentecostal encabeçada pela controversa Igreja Universal do
Reino de Deus. Defendendo que os cristãos, enquanto sócios de Deus ou
financiadores da obra divina, estão destinados a ser prósperos, saudáveis,
felizes e vitoriosos em todos os seus empreendimentos, esta teologia,
oriunda dos EUA, derruba por terra o velho ascetismo pentecostal,
prejudica a imagem pública deste grupo religioso e concorre para pôr em
xeque a tese que vê afinidades entre o pentecostalismo e o "espírito do
capitalismo" (MARIANO, 1996, p.24)

58
Ao mesmo tempo essa vertente enfatiza a guerra espiritual contra o Diabo, luta
espiritual que se refere à necessidade do fiel neopentecostal resistir a outras religiões,
sobretudo as de matriz africana (MARIANO, 1996, p. 26).

2. A criação e ascensão do império de Macedo


A sigla IURD pode ser um pouco desconhecida pela massa, mas ao se referir à
Igreja Universal do Reino de Deus fica fácil discernir o seu significado, já que é o maior e
principal grupo neopentescostal do Brasil, contando com mais de cinco mil templos,
aproximadamente 1,8 milhões de fiéis e quase 10 mil pastores segundos dados do IBGE
2010.
A história da IURD teve início em nove de julho de 1977, quando o então pastor
Edir Macedo abriu as portas do que seria a quinta maior instituição religiosa do Brasil,
realizando pequenas reuniões. Edir contou com a ajuda de seu cunhado Romildo Ribeiro
Soares que conheceu durante o final da década de 60 na Igreja Pentecostal de Nova Vida.
Juntos decidiram abandonar a Nova Vida e criar a própria igreja, primeiramente
denominada “A Cruzada do Caminho Eterno” e posteriormente chamada de “Casa da
Bênção”.
De acordo com Macedo, essa denominação seria para atrair as pessoas que não
eram de nenhuma igreja de cunho protestante. Romildo possuía um modo de pensar
diferente ao de Macedo e três anos depois, já na década de 80, Edir e Romildo decidiram
seguir caminhos diferentes em virtude dos conflitos de princípios. Enquanto Macedo
almejava a expansão da Igreja nos Estados Unidos, Soares visava à expansão em território
nacional, ao mesmo tempo contratando pastores de outras denominações.
Essa atitude tomada por Soares foi totalmente repudiada por Macedo, pois seu
intuito era criar uma denominação sem se misturar com as igrejas pentecostais tradicionais.
Como meio de resolução para esse impasse, ambos realizaram uma assembleia excepcional
composta por 15 pastores, na qual Edir saiu vencedor com 12 votos a favor e 3 contra. A
partir disso, Soares resolveu desligar-se da igreja e fundar a sua própria, a Igreja
Internacional da Graça de Deus.
A partir daí a IURD cresceu de forma extraordinária. Logo nos primeiros oito anos
de sua fundação, a instituição contava com 195 templos em 14 estados brasileiros e no

59
Distrito Federal e dois anos depois ela teria 356 templos em 18 unidades federativas. Em
1989, ano da negociação da compra da Rede Record, a igreja passou a ter 571 templos.
No início, a igreja se concentrou nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, São
Paulo e Salvador, mais tarde se expandindo para as demais capitais brasileiras e ocupando
todo o território brasileiro na década de 90, aumentando o número de 269 mil para 2,1
milhões de fiéis no Brasil. Não contente com a expansão pelo território nacional, a
instituição alcançou o número de 80 nações em 2002, conquistando pessoas entre as
camadas mais abastardas e menos escolarizadas da população. Atualmente a IURD conta
com mais de cinco mil templos em todo o país, nos mais diversos lugares, seja em galpões,
presídios, cidades ribeirinhas e até mesmo aeroportos.
Segundo dados do censo brasileiro de 2010 realizado pelo IBGE, a denominação
IURD possui cerca de 1,8 milhões de adeptos, embora vários pastores contestem o censo,
dizendo que os dados são levantados de forma deficiente e incompleta, não realizando
entrevistas nos locais em que realmente se encontra a massa de fiéis da Igreja Universal,
como em favelas e na periferia.

3. A midiatização iurdiana e suas relações de poder


Como característica própria do neopentecostalismo, o uso da mídia eletrônica pela
IURD é um instrumento essencial na relação empresarial desta instituição. Pare ter-se
ideia, a IURD possui uma grande rede de comunicação que conta com editoras,
23
gravadoras, rádios, jornais, revistas, sites e emissoras e TV. O império empresarial de
Edir Macedo24 através do rádio e da televisão constitui o mais poderoso meio empregado
pela Igreja Universal, pois atrai rapidamente um grande número ouvintes e telespectadores
de diferentes localidades geográficas. Segundo Mariano (1999, p. 75) “a mídia faz com que
as barreiras geográficas, sociais e ideológicas sejam rompidas e os ‘produtos’ iurdianos
sejam colocados para um público necessitado, que lhe paga pelo preço pedido, porque se
trata de alcançar a felicidade, o bem-estar físico e o espiritual”.
Durante os anos 80, período de redemocratização brasileira, a IURD cresceu de

23
Cezar Lazzari Junior, Julio (Jeniro de 2012). A relação da comunicação integrada com o crescimento da
igreja universal do reino de deus. Disponível em: http://www.webcitation.org/6AeuGdzrB
24
Quem é o dono da Rede Record. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br. Acesso em:10
out. 2013. Arquivado do original

60
forma ininterrupta através da compra de rádios e televisões, a introdução de alguns líderes
na política partidária, a abertura de templos em outros países, mas esse crescimento
culminou com a compra da até então decadente Rede Record de Rádio e Televisão, em
1989 (FERRARI, 2007, p.177).
Atualmente a Rede Record é a segunda maior rede de TV do Brasil em audiência e
faturamento. Logo depois de ter se consolidado no campo religioso à estruturação
econômico-empresarial, a IURD sentiu a necessidade de usar o recurso lucrativo midiático
e a sua representação no âmbito político passou a ser entendida como estratégia, ao mesmo
tempo em que buscou estabelecer relações em vários campos que lhe garantiam a
sustentação do poder enquanto instituição religiosa. Por isso os meios de comunicação
eram mais do que necessários, não somente para difundir a teologia da prosperidade, mas
também para velar algo que ferisse a imagem da instituição ou de seus representantes.
Na mídia impressa a IURD conta com a Folha Universal, o jornal Correio do Povo,
de Porto Alegre, o jornal Hoje em dia, de Minas Gerais, o Visão de Fé, voltado para os
auxiliares do bispo, o jornal Força Jovem, voltado para o público adolescente, a Folinha
IURD, para o público infantil. Além de periódicos há revistas, como é o caso da Plenitude,
que é a revista oficial da igreja, responsável pelo marketing e divulgação das atividades da
instituição além de abordar temas variados, sendo usada na evangelização dos indivíduos,
quer seja nas ruas, em hospitais e presídios. Há também as revistas Obreiro de Fé e Mão
Amiga e Educador. Além de periódicos e revistas a IURD possui a sua própria editora, a
Unipro.
Segundo Faccio (2006) em seu artigo, O Império Midiático da Igreja Universal do
Reino de Deus: reflexõe e análises das estratégias de comunicação da IURD. a a
instituição possui uma rede nacional de rádios conhecida como Rede Aleluia cobrindo
cerca de 75% de todo o Brasil consolitando-a como um fenômeno de comunicação de
massa. Além do rádio, a o império iurdiano conta com a TV Univesal transmitida pela
Internet. Possui também a Line Records gravadora, o portal Arca Universal na Internet, a
Uni Line produtora de vídeos, o Banco de Empreendimentos Metropolitano, Unimetro
Emprendimentos, Cremo Empreedimentos, New tour (agência de viagens), Unitec
(construtora), Uni corretora, Investholding Limited, Ediminas, além de outras empresas
fora do Brasil.

61
Funcionar com empresa lucrativa, este é o lema do bispo primaz para
competir e ser bem-sucedido num mercado altamente concorrencial como é
o atual mercado religioso brasileiro. Por isso a dedicação, profissionalismo
e o aumento de produtividade (…arrecadação, …congregações…
dizimistas… trabalho dos pastores)… os ‘improdutivos’… são
sumariamente dispensados. (MARIANO, 1999, p.64).

Apoiado em uma ótima assessoria jurídica e financeira, o bispo Edir Macedo soube
beneficiar as igrejas e entidades filantrópicas. Embora a IURD não tenha burlado o
legislação de forma suficientemente desvelada, pois várias denúncias e acusações foram
feitas contra a instituição, entre elas sonegação de impostos, evasão de divisas e usurpação
de legislação brasileira em relação às instituições religiosas, existe toda uma proteção
jurídica do seu lado empresarial através da fachada eclesial (FERRARI, 2007, p. 178):

Para isso, amparava-se na Constituição brasileira, que concede a imunidade


tributária às igrejas por exercerem atividades sem fins lucrativos, tais como
assistência religiosa social. No caso da Universal, a Receita avaliou que
devia cobrar Imposto de Renda, uma vez que boa parte do dinheiro por ela
arrecadado era desviada de suas finalidades essenciais, sem pagar
impostos, para remunerar seus dirigentes, comprar emissoras de rádios e
TV, empresas, casas, apartamentos, carro (MARIANO, 1999, p. 88).

4. Polêmica interna velada: o discurso por trás do “Fala que eu te escuto”


Logo depois que a Rede Record foi comprada pelo bispo Edir Macedo, foi criado o
programa “Fala que eu te escuto” em meados da década de 90. Depois de ter estudado as
estratégias televisivas durante o período em que passou nos Estados Unidos. Sendo um dos
programas mais promissores da IURD e que está no ar até hoje. O programa é exibido
diariamente à 1h 15 da madrugada pela mesma emissora. Sua finalidade é promover o
debate público de assuntos variados, expondo temas que estimulam a opinião pública.
Inicialmente, o programa expunha temas essencialmente religiosos, mas mudou
com o tempo de acordo com as demandas sociais. Anteriormente, o discurso utilizado pelo
programa assemelhava-se ao discurso utilizado nos templos iurdianos, hoje esse discurso
está presente no carisma estratégico e na boa articulação dos apresentadores, que se
afastam da interpretação ortodoxa dos temas tratados.

62
A escolha do tema é feita com bastante minúcia e extremamente orientada para que
não se fuja da ideologia da igreja. Seria mais correto dizer que ele é manipulado, devendo
obedecer às regras institucionais. Assim, a discussão que eles dizem oferecer na verdade
não existe, pois, além disso, pouco se dá atenção ao que o telespectador fala por telefone
ou Skype, o que é mascarado pela exacerbada simpatia dos apresentadores nos diálogos.
(RODRIGUES; DANTAS, 2012, p. 6)
Na última década o programa foi reformulado, sofrendo algumas mudanças na sua
estrutura, adequando sua programação para um público mais amplo. A modificação feita
para se adequar às necessidades do novo público não impediu que ele continuasse seguindo
o seu caráter religioso, pois a estratégia principal da IURD era de compor e direcionar um
programa para a massa, o que financeiramente geraria mais lucros à emissora.
Muitos questionamentos são feitos acerca do horário que o programa é transmitido,
mas ele pode ser respondido de acordo com a lógica de mercado. Por exemplo, faria
sentido colocar um programa religioso de baixa audiência no horário nobre televisivo
competindo com grandes telejornais ou telenovelas de audiências elevadíssimas? É óbvio
que não, pois isso iria desfavorecer não apenas o programa como também a emissora com
a queda dos lucros. Apesar de ser um programa de rede nacional, as lógicas de mercado
não se aplicam a todas as regiões do Brasil, sendo esse outro fator para o horário
alternativo do programa. Como é o caso dos grandes centros urbanos, em que os indivíduos
estendem seu horário de “descanso” e se afugentam nos programas de televisão ou internet.
Apoiado em um discurso psicológico e técnica persuasiva, a linguagem simbólica
do programa é passada através de bispos e pastores com um forte poder de persuasão, o
que leva a crer que estes foram especialmente treinados para agir de tal maneira,
carismática, provocando certa empatia no telespectador e levando-o a buscar na igreja
apoio para suprir suas carências humanas, dificuldades na vida financeira e pessoal. O
sucesso do “Fala que eu te escuto” não reside apenas no fato do discurso persuasivo do
apresentador, mas principalmente no número de telespectadores que não fazem parte do
grupo de fiéis da IURD.
Analisando o programa por meio de roteiro do programa “Fala que eu te escuto”,
dos 30 de abril de 2007 e primeiro de maio de 2007, pode-se perceber que estes estavam
voltados para atender àquelas pessoas em condições de vulnerabilidade social ou

63
emocional acomodados à rotina. Dentre elas se podem destacar donas de casa, mulheres
que sofreram alguma agressão e até mesmo adolescentes. Assim como pessoas
endividadas, que estão passando por problemas financeiros. A figura masculina se faz
presente eventualmente como forma de pormenorizar a figura feminina.

O discurso do Fala Que Eu Te Escuto não possui marcas de proselitismo,


tampouco se trata da doutrina. O que interessa para eles é angariar
públicos e mostrar a maleabilidade e modernidade da Igreja Universal,
capaz de atender aos diversos públicos, independente de classe, religião,
idade ou grau de escolaridade. O que o telespectador talvez não perceba é
que por trás disso há uma grande organização que trabalha para fins
mercadológicos e visa acima de tudo manter e aumentar sua audiência.
Para tanto, esta sabe da importância de se moldar aos novos formatos da
modernidade (RODRIGUES, DANTAS, 2012, p. 2).

Desse modo, o programa nos prova que o processo de midiatização da sociedade,


mais especificamente da religião, tem ultrapassado e conquistado cada vez mais espaço nos
meios de comunicação, fundamentando a criação de um novo campo social e assim
estabelecendo novas maneiras de agir e viver a religiosidade. Permitindo-nos vivenciar e
fazer a religião sob novas práticas, suportes e ambientes (AIRES; SOARES, 2011, p.2).
Analisando o minidocumentário produzido pela autora Sônia Lúcia Nunes Pinto em
seu trabalho de conclusão de curso, que trata justamente da relação mídia-religião,
podemos observar que o programa possui um discurso bem direcionado e amplo. As
palavras proferidas pelo telepastor atingem profundamente o seu receptor. O uso do
pronome de tratamento “você” aproxima cada vez mais o emissor do seu receptor. Dessa
maneira o ele usa uma espécie de discurso incisivo, apontando os problemas do dia-a-dia
de qualquer pessoa, quer seja com problema financeiro ou amoroso.
Em condições precárias e de vulnerabilidade emocional, o telespectador sente como
se aquele discurso estivesse sendo emitido diretamente para ele e com isso ele é atraído a
frequentar a Igreja Universal.
Esse é justamente o objetivo dos cultos eletrônicos, atrair cada vez mais futuros
dizimistas, pessoas que deem o dízimo para a remissão de seus pecados e que sejam
retribuídos com bens materiais e prosperidade. Como exemplo, podemos citar um caso
fictício em que seu “Joaquim” que está com todas as suas contas atrasadas, divorciado,
doente e desempregado, basta que ele vá ao culto da IURD e faça a sua “contribuição” para

64
que os seus problemas sejam resolvidos e a tribulação vá embora, ou seja, o templo de
seria de orações a Deus é também o lugar que ostenta riquezas e se torna um comércio.
Logo, os meios de difusão ideológica e os métodos de dominação aliados ao bom
orador resultam no sucesso que é hoje programa “Fala Que Eu Te Escuto” da Rede Record.
O culto e eletrônico é apenas uma extensão da igreja e um meio de legitimar seu poder na
mídia, mas quem realmente atua no processo de alienação são os templos iurdianos, que
exploram os seus fiéis a “doarem” o dízimo à igreja, tendo como pretexto o adágio
franciscano, quando na verdade se trata de um venda de indulgências velada.

Considerações Finais
Ao longo deste artigo pode-se perceber o quão forte é a relação entre mídia e
religião e que a partir do contexto pós-moderno, os grupos e instituições religiosas
transformaram a religião em comércio ativo aliado à lógica capitalista. O
neopentecostalismo a partir da teologia da prosperidade, ajudou a compreender um pouco
da ideologia utilizada pela IURD, que remete ao âmbito empresarial e enriquecimento
próprio da igreja, utilizando seu poder midiático, político e financeiro para burlar as leis
que comprometem a imagem da instituição.
Pensando muito além do conteúdo televisivo o império iurdiano têm investido cada
vez nas mídias sociais como Facebook, Twitter, Skype, e-mail e telefonemas. A
convergência midiática e o conteúdo híbrido acabam aproximando ainda mais o
telespectador do programa, fazendo com que ele não se atente ao discurso capitalista
pregado pela instituição. A maneira incisiva como a IURD age no processo de aquisição
de fieis, age quase da mesma maneira como a teoria da agulha hipodérmica. Um processo
verticalizado de dominação em que os indivíduos são apenas telespectadores passivos sem
discernimento algum para filtrar o conteúdo que se assiste.
Mas no caso da IURD, a programação televisiva na rede aberta, que compreende
não somente a Rede Record, mas também outras emissoras em horários totalmente atípicos
acabam se direcionando a camadas especificas da sociedade, principalmente das grandes
cidades. Trabalhadores de baixa renda, que trabalham durante todo o dia e chegam em casa
somente pela madrugada. É mais ou menos esse tipo de perfil que os programas iurdianos
costumam atingir.

65
Logo, percebemos que toda a jogada de dominação exercida pela IURD está
embasada em três pilares, o comunicacional, que envolve a mídias pela qual ela propaga
sua ideologia e se firma enquanto instituição, além das teorias comunicacionais que nos
ajuda a entender o método persuasivo utilizado por ela. O capitalista, que compreende não
somente a Teologia da prosperidade, mas também os produtos meramente comerciais e
sem nem um vínculo com a casa de Deus, e por fim o behaviorista, que envolve as pessoas
condicionadas pelo ideal iurdiano, que assumem um comportamento diferente a partir do
momento em que aderem à ideologia pregada pela IURD.

Referências Bibliográficas
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FERRARI, Odêmio Antonio. Bispo S/A – A Igreja Universal do Reino de Deus. São
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2013.

WOLF, Mario. Teorias da comunicação. Lisboa. Ed. Presença, 2010.

66
Análise das características do jornalismo online apresentadas pelo Portal
jornalístico Folha web

Emmily Dayanna dos Santos MELO25


Valéria Oliveira dos SANTOS26

Resumo
Este artigo consiste numa análise sobre as características do jornalismo online
desenvolvidas na FolhaWeb, pertencente ao Grupo Folha de Comunicação, do estado de
Roraima. Para isso, utilizamos as seis características apresentadas por Palácios (2002):
multimidialidade/convergência, interatividade, hipertextualidade, customização do
conteúdo/personalização, memória e instantaneidade/atualização contínua, com o objetivo
de verificar se o site estudado apresenta estas particularidades. Buscando perceber em que
estágio histórico de desenvolvimento se encontra o FolhaWeb. Com a pesquisa foi possível
notar várias lacunas na utilização de formatos do jornalismo online.

Palavras-Chave: Jornalismo Online; Jornalismo Digital; FolhaWeb; Webjornalismo;


Comunicação.

Em seus estudos sobre webjornalismo, Jakob Nielsen sugere que (apud Ferrari,
2006, 63), “a coisa mais importante nesse tipo de pesquisa é descobrir as três razões
principais porque os usuários vão ao seu site e deixar essas coisas extremamente rápidas e
fáceis de serem feitas”. O acesso universal à informação, a instantaneidade, a
interatividade, o fator tempo e o multimídia, numa era de convergência, afetaram as
mudanças que o jornalismo viveu e continua a viver nos últimos tempos.
Diante de um ambiente virtual ilimitado, o jornalismo online possibilita a produção
de maior quantidade de informação e convergência dos formatos. Trata-se de um estágio
histórico do jornalismo cujas conseqüências são ainda imprevistas e as empresas
jornalísticas apenas recentemente começaram a explorar de forma mais plena. Esta
pesquisa, nesse sentido, pretende estudar as características do jornalismo online
desenvolvidas no site FolhaWeb, conforme as características sugeridas por Palácios (2002,
p. 3), buscando perceber o seu grau de interação com os recursos disponíveis no
Ciberespaço.

25
Acadêmica do Curso de Comunicação Social da UFRR, e-mail: emmilymelo@gmail.com;
26
Acadêmica do curso de Comunicação Social da UFRR, e-mail:valeoliveira_@hotmail.com;

67
1. Jornalismo na Web
Em 1990, após várias tentativas e estudos, a Internet teve seu salto de inovação
tecnológica, melhorando o envio e recebimento de dados. Foi criada a grande rede mundial
de computadores: a WWW (world wide web) que organizava o teor dos sítios na internet
por informação.
A produção de notícias na web, por meio do WWW, fez com que a produção
jornalística online aumentasse. Com a WWW foi possível criar um formato padronizado de
endereços, “além de textos, informações na Web também podem ser gráficos, sons,
fotografias, imagens de vídeo, etc., o que faz da Web um dos mais versáteis meios de
comunicação já inventados pelo homem” (TAMIS, 1997, p. 16).
A técnica de publicar notícias no Ciberespaço iniciou no jornal The New York
Times, nos Estados Unidos. Conforme relata a autora Moherdaui (2007, p. 23), na época a
transposição da produção jornalística para a Internet estava resumida aos serviços de
notícias específicos para um segmento de público, oferecidos por provedores como a
America Online (AOL). Com isso, Moherdaui, fala ainda do jornalismo online, iniciado
pelo The New York Times:

O primeiro grande Jornal que ofereceu serviços online foi o The New
York Times (http://www.nytimes.com), em meados dos anos 1970, com
seu New York Times Information Bank. O jornal passou a disponibilizar
resumos e textos completos de artigos atuais e artigos de sua edições
diárias passados a assinantes que possuíam pequenos computadores
(MOHERDAUI, 2007, p. 23).

Assim, a versão impressa do jornal americano era toda repassada para a web. Mas,
foi apenas em maio de 1993, que o primeiro jornal completamente online entrava no ar.
Viana (2008, p. 02) cita que a história do jornalismo online propriamente dito começa em
maio de 1993, ano em que o jornal americano The San Jose Mercury News, colocou no ar a
sua versão com conteúdo online, por meio da rede America On Line.
No Brasil, segundo Pinho (2003, p. 114), a primeira iniciativa partiu do grupo O
Estado de São Paulo, que, em fevereiro de 1995, colocou a Agência Estado na rede
mundial. No entanto, de acordo com Moherdaui (2007, p. 25), o primeiro jornal brasileiro
a fazer uma cobertura completa no espaço virtual foi o Jornal do Brasil em 28 de maio de
1995.

68
Segundo o atual editor-chefe do JB On-line, Roberto Ferreira, a idéia de
produzir um jornal digital surgiu a partir do momento em que a internet,
como nova mídia, foi se popularizando entre os brasileiros. Os
internautas queriam explorar cada vez mais a rede na procura de novos
serviços. 'Os jornais sentiram que não poderiam ficar de fora da
tecnologia, para não correrem o risco de serem atropelados', explicou
Roberto (LIMA, 2007, p. 08).

Depois do Jornal do Brasil, outros veículos brasileiros também começaram a inovar


no conteúdo online. Veículos de comunicação como Folha de São Paulo, O Globo, O
Estado de São Paulo, jornal Zero Hora, entre outros, também inauguraram conteúdo
informativo na Internet. A partir daí, o número de sites de notícias e revistas eletrônicas
cresceram pelo Brasil.

2.1 Webjornalismo em Roraima


Em Roraima, o jornalismo na Internet teve início em dezembro de 1997. Conforme
relata Bezerra (2009, p. 34), o primeiro site de jornalismo local foi o BV Roraima,
idealizado e mantido pelo tecnólogo de informação Franco Soares. O sítio surgiu com a
proposta de realizar coberturas esportivas. Noticiava também informações de outras
editorias. O BV Roraima saiu do ar uma década depois.
Segundo o Guia de Mídia, responsável por divulgar a lista dos sites jornalísticos de
jornais brasileiros e internacionais, o estado de Roraima possui 18 webjornais, duas
agências de notícias (Agência Roraimense de Notícias e Diário Oficial de Roraima) e três
provedores de internet (BV Roraima, UZE e Rádio Roraima).
De acordo com Veras (2012, p. 36) o Grupo Folha de Boa Vista disponibilizou sua
versão na Internet no ano de 1998:

Em 1998, o jornal disponibilizou a sua primeira edição na internet,


através do <www.folhabv.com.br>, mas foi somente em 31 de outubro de
2005, com o lançamento de uma nova versão online da FolhaWeb - mais
arrojada e com atualizações contínuas, que ficou consolidado o Grupo
Folha. [...] Além disso, foi o primeiro a disponibilizar conteúdo impresso
na Web, além de ser o único a produzir, mesmo que timidamente,
conteúdos exclusivos para o site.

Em 2002, surge outro jornal online em Roraima, o site de notícias BV News.


Segundo Bezerra (2009, p. 37), o conteúdo publicado era referente a reportagens sobre

69
esportes e cultura. A atualização do site era feita semanalmente, período considerado
grande para um veículo de comunicação existente apenas na Internet.
Em 2004, foi lançado o Roraima em Foco, em Boa Vista. O Roraima em Foco,
destaca Bezerra (2009, p.40), surgiu com a denominação de Trincheira, uma alusão a uma
coluna que o jornalista e editor, Gilvan Costa, escrevia no extinto jornal Correio de
Roraima:

O Roraima em Foco não tem linha editorial específica, pois trata todos os
assuntos pertinentes aos fatos que aconteçam no Estado e também, em
nível regional e nacional, sempre observando a importância disso no
contexto local. Desde o começo, o site vem procurando informar sobre
tudo que acontece em Roraima, seja na área de esporte, cultura, política,
social, cotidiano (COSTA 2009, apud BEZERRA, 2009, p. 40).

Após o surgimento do Roraima em Foco, foi lançado também o site Roraima Hoje.
Veras (2012, p. 36) lembra que o jornal Roraima Hoje foi fundado em 2006.
Primeiramente, ele foi disponibilizado na versão online e, meses depois, precisamente no
dia 6 de dezembro do mesmo ano, na versão impressa.
O site Roraima Hoje trabalha com as editorias de Cidade, Política, Esporte, Cultura
e Social. No ano seguinte, em 2007, foi a vez do site Jornal do Rádio. O projeto, conforme
Bezerra (2009, p. 41), foi idealizado pelo radialista Waldenir Bentes e a jornalista Eudiene
Martins. São publicados neste site todo tipo de notícia referente ao Estado.
Em 2009, surge o Boa Vista Agora, que teve a finalidade de ser um espaço na
Internet aberto para a hospedagem de fluxo de opiniões e notícias sobre variados temas de
interesse coletivo, reunindo material informativo, próprio ou de outras fontes27.
Outros sites disponíveis em Roraima são: Fonte Brasil, Jota 7, Roraima Notícias,
Tribos de Roraima, Portal Macuxi e por último, o G1 Roraima.

3. Histórico da Folha Web


Desde 2006 o jornal Folha de Boa Vista disponibiliza sua produção jornalística na
Web, por meio do endereço eletrônico <folhabv.com.br>. A implantação do webjornal

27
Informações retiradas do site Boa Vista Agora. Disponível em
<http://www.boavistaagora.com/index.php?option=com_content&view=article&id=46&Itemid=79>. Acesso
em 20 de novembro de 2013.

70
ocorreu em decorrência da exigência do mercado, conforme explicou o editor da
FolhaWeb, Jessé Souza, no artigo, Conheça a história e a trajetória da Folha de Boa Vista.

O objetivo é produzir jornalismo on-line, com atualizações a cada meia hora,


proporcionando “furos” jornalísticos enquanto a equipe do jornal impresso ainda
trabalha a notícia para publicá-la no dia seguinte, com mais detalhes. O
compromisso da equipe Web é o mesmo norteado pelo Grupo Folha, sem
esquecer de conjugar a instantaneidade da notícia on-line com princípios éticos
de pluralidade, independência e senso crítico. (Disponível em
<http://www.folhabv.com.br/noticia.php?id=118142> Acesso em 20 de nov.
2013)

A equipe do jornal para a Web começou a ser montada em 2009. Desde 2012 ela é
composta por seis profissionais, sendo um editor chefe, três repórteres, um webdesigner e
um responsável pela atualização do site. Destes, tanto o editor como um repórter também
produzem conteúdos para a versão impressa, já os demais são exclusivos para o meio
digital.
O site apresenta duas versões à escolha do internauta: uma transposição das
principais notícias do jornal impresso e a versão online, com conteúdos adicionais
(entrevistas virtuais, notícias nacionais, internacionais, especiais e de última hora).

3.1 Estrutura da Folhaweb


Na página inicial do site FolhaWeb( ver Figura 1) o internauta encontra logo no
canto superior esquerdo a identidade do site e no direito a ferramenta de busca. Na lateral
esquerda é possível encontrar a barra menus com os botões de navegação para os ‘Links e
Serviços’ e ‘Colunas’.Até a metade do site o internauta consegue visualizar slides com
chamadas para três matérias ilustradas com fotos.
Ao contrário dos demais sites de notícias, como Folha de S. Paulo e Estadão, onde
a manchete principal fica do lado esquerdo da página, na FolhaWeb a manchete é do lado
direito, seguida de três sub-manchetes.
Na parte inferior do site, ficam localizadas do lado esquerdo as matérias especiais e
no direito os destaques. Ainda na parte superior, estão localizadas as últimas notícias
publicadas.

71
Figura 1 – Página inicial do site FolhaWeb

Fonte:FolhaWeb. Disponível em <http://www.folhabv.com.br/>

4. Características do Jornalismo Online


Palácios (1999, p. 2), em seu estudo sobre modelos do jornalismo digital, estabelece
que o jornalismo desenvolvido na web é composto por seis características:
Multimidialidade/Convergência, Interatividade, Hipertextualidade, Personalização,
Memória e Instantaneidade.
Sobre as particularidades, Palácios (2002, p. 02), acrescenta ainda que tais
potenciais são utilizados, em maior ou menor escala, e de forma diferente, nos sites

72
jornalísticos da Web.
A possibilidade de reunir todas as mídias em um só suporte é chamada
Multimidialidade/Convergência. A aproximação dos formatos, conforme Palácios (2002, p.
3):

Refere-se à convergência dos formatos das mídias tradicionais (imagem,


texto e som) na narração do fato jornalístico. A convergência torna-se
possível em função do processo de digitalização da informação e sua
posterior circulação e/ou disponibilização em múltiplas plataformas e
suportes, numa situação de agregação e complementaridade.

Outra característica importante no webjornalismo é a interatividade. Nesta, o


internauta tem a possibilidade de participar do processo jornalístico. Pode-se dizer,
segundo estudo feito por Guedes (2007, p. 20), que a interatividade é uma das
características que mais revolucionou o campo das comunicações na Rede.
A maneira como a interatividade ocorre pode ser de diversas maneiras. Palácios
(2002, p. 03) exemplifica que pode ser por meio da troca de e-mails entre leitores e
jornalistas, através da disponibilização da opinião de leitores, como é feito em sites que
abrigam fóruns de discussões, através de chats com jornalistas, etc. [...] A interatividade
ocorre também, no âmbito da própria notícia, durante a navegação.
Na hipertextualidade, os textos na web são interconectados por meio de links, que
auxiliam na potencialização da informação para o usuário/leitor. O hipertexto cria a
possibilidade da leitura não linear. As hiperligações, segundo Guedes (2007, p. 18)
representam pequenas partes de conteúdo que são conectadas de acordo com o interesse de
cada usuário, que os acessa através de links.
A personalização está diretamente relacionada com a possibilidade de obter
informações de acordo com os interesses específicos de cada leitor/usuário, conforme
estudo de Mielniczuk (2003, p. 27). Desta forma, a personalização do conteúdo online
permite que o usuário configure cada opção conforme os interesses individuais.
Sobre a característica, Palacios (2002, p. 04) exemplifica que há sites noticiosos
que permitem a pré-seleção dos assuntos, bem como a sua hierarquização e escolha de
formato de apresentação visual (diagramação). Assim, quando o site é acessado, a página
de abertura é carregada na máquina do usuário atendendo a padrões previamente

73
estabelecidos, de sua preferência.
Com isso, por meio da personalização de conteúdo, o leitor se aproxima mais do
emissor e tende a acompanhar o conteúdo. A personalização aproxima e conquista a
visibilidade do público.
Na web, o acúmulo de notícias é muito maior, o que possibilita um acesso mais
fácil às notícias e ao conteúdo publicado anteriormente. Esta característica é definida por
Palácios (2002, p. 4) como memória sendo, segundo ele, um recurso prático e mais
econômico.
Desta forma, a memória pode ser recuperada tanto pelo produtor da informação,
quanto pelo usuário. Sem as limitações anteriores de tempo e espaço, o jornalismo tem a
sua primeira forma de memória múltipla, instantânea e cumulativa.
Por meio da memória há a disponibilização imensurável do material noticioso
produzido pela web, que diferente de outras mídias, não necessita muitos recursos, se não a
própria rede de Internet.
Outra particularidade, que embora exista no rádio e na televisão, ganha novas
dimensões na web é a instantaneidade. A capacidade de transmitir um fato em tempo real é
abordada por Palácios (2002, p. 04), como a rapidez do acesso, combinada com a
facilidade de produção e de disponibilização, propiciadas pela digitalização da informação
e pelas tecnologias telemáticas, permite uma extrema agilidade de atualização do material
nos jornais da Web.
Por meio da atualização contínua das informações, e o acréscimo das notícias, o
webjornalismo torna a cobertura na Internet mais ágil, se comparada ao outros meio de
comunicação. “[...] isso possibilita o acompanhamento contínuo em torno do
desenvolvimento dos assuntos jornalísticos de maior interesse [...]” (PALÁCIOS, 2002, p.
04).
Assim, todas as características e recursos apresentados acima sintetizam a produção
da notícia no webjornalismo. A distribuição das notícias com tais ferramentas ampliam as
possibilidades de se transmitir uma informação e aumentam as chances de atingir maiores
públicos.

74
5. Análise da homepage

Na homepage da FolhaWeb são apresentados ao internauta apenas alguns recursos


de multimidialidade/convergência: chamadas com links para as matérias, imagens, textos e
áudio. Não há o uso de vídeos nem infográficos.

Figura 2 – Links para o acesso às matérias da página inicial

Fonte: FolhaWeb. Disponível em <http://www.folhabv.com.br/>

A interatividade no site é feita por meio de comentários nas matérias e dos botões
de navegação, onde o internauta tem a possibilidade escolher entre as principais colunas do
jornal, acessar a versão do jornal impresso e serviços. Há ainda, no final da página, a opção
onde o usuário pode entrar em contato com o jornal. Não há o recurso para a criação de e-
mail.

75
Figura 3 – Internautas podem fazer comentários nas matérias

Fonte: FolhaWeb. Disponível em <http://www.folhabv.com.br/>

76
A hipertextualidade da FolhaWeb é percebida apenas na página inicial do site. Nas
matérias não há o recurso do uso de hirpelinks nos textos, que ficam estáticos ao leitor.
Não há a interconexão entre as matérias, há apenas, em alguns casos, o uso de imagens
ilustrativas. Na maioria dos textos o internauta não encontra vídeos ou sons que
complementam a informação.

Figura 4 – As matérias da FolhaWeb não possuem hiperlinks

Fonte: FolhaWeb. Disponível em <http://www.folhabv.com.br/>

Não é possível customizar ou personalizar o conteúdo disponibilizado na


Folhaweb. Não há opções que permitem ao internauta mudar itens dispostos no site. Com
relação memória, o site disponibiliza todas as matérias publicadas. No entanto não há o
acesso ao acervo do jornal com relação ao conteúdo impresso.

77
Figura 5 – Acervo das matérias publicadas no site

Fonte: FolhaWeb. Disponível em <http://www.folhabv.com.br/>

78
Quanto à instantaneidade, na página inicial há um espaço com o ícone “Últimas
Notícias”. Nele, o internauta/leitor pode visualizar as últimas notícias publicadas no site e
clicar no link Lista Completa, para ter acesso a todo o conteúdo publicado no portal de
notícias. O site mantém um ritmo de publicação e atualização contínua do conteúdo, apesar
desta atualização não seguir um padrão do conteúdo. Que pode ser local, nacional ou até
mesmo internacional.

Figura 6 – Últimas Notícias do site FolhaWeb

Fonte: FolhaWeb. Disponível em <http://www.folhabv.com.br/> Acesso em 17 de fev. de 2013.

Considerações finais
A partir do estudo de Palácios (2002, p.3), sobre as características do jornalismo na
web, foi possível observar que o site FolhaWeb pouco utiliza os recursos inerentes ao
jornalismo online. No que diz respeito à multimidialidade/convergência, o portal não
apresenta todas as funções que a ferramenta oferece. Além disso, a convergência é pouco
explorada. Neste site, a interatividade é limitada, ficando restrita apenas a possibilidade do
internauta comentar nas matérias publicadas e navegar pelo conteúdo disposto na página
inicial.
Quanto à hipertextualidade, no que diz respeito ao conteúdo das matérias, não há. O
site utiliza apenas o link de navegação, por meio do botão da home, onde o internauta pode
voltar a página inicial independe de qual local do site ele esteja navegando.
O internauta não tem a possibilidade de navegar no conteúdo das matérias. Esta
ferramenta é limitada apenas à página inicial. Por meio da pesquisa, foi possível observar
que o usuário não tem a liberdade de personalizar o conteúdo, a exemplo do ocorre em
webjornais como o Estadão, onde o internauta/leitor pode escolher o noticiário destinado
79
somente às notícias de São Paulo ou o conteúdo que abrange todo o país.
O site oferece apenas um padrão de seleção da notícia. Entretanto, o sítio dispõe de
um acervo onde contém todas as notícias publicadas no meio online e a atualização das
matérias é contínua, com um intervalo de trinta minutos a uma hora para publicação do
conteúdo.
Diante disso, podemos considerar que apesar do jornal FolhaWeb ter uma proposta
de jornalismo online, ele possui muitas limitações no que se refere as especificidades do
jornalismo na web. O site já caminha rumo à exploração dos recursos oferecidos pela rede,
no entanto precisa ultrapassar barreiras e buscar a autossuficiência para as adequações
deste novo meio.

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massa: o jornalismo on-line em Roraima. Universidade Federal de Roraima, Boa Vista,
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de dez. de 2013.

81
O portal Macuxi e a História do Webjornalismo

Lucienny Pereira SANTOS28


Vilso Junior SANTI29

Resumo: O jornalismo, hoje, marca sua presença na Internet através de sites de notícias
com produção exclusiva para a web e redes sociais e uma infinidade de outros recursos
como blogs e microblogs. Partindo desse contexto de inovações tecnológicas na área da
comunicação e percebendo a ampliação desse cenário, em razão da velocidade no fluxo de
informações, observamos a falta de referencial específico sobre essa nova realidade no
Estado de Roraima. A partir daí, surgiu à necessidade de se obter análises das produções
jornalísticas que estão acessíveis na Internet. Como a web é um meio muito amplo para se
trabalhar, delimitamos para essa pesquisa analisar o site Portal Macuxi. Além do resgate da
história e da observação descritiva do site em questão, buscamos em pesquisas
bibliográficas obras sobre o assunto abordado e realizamos entrevistas semiestruturadas
para fundamentarmos as discussões. Como resultado, formatamos diversas sugestões de
melhoria para que o site volte a recuperar seu público, o qual se afastou por conta da falta
de comprometimento para com o leitor nas atualizações, principalmente de suas colunas e
blogs.

Palavras-Chave:História do webjornalismo; Jornalismo online; Portal Macuxi.

Este trabalho surgiu a partir de uma análise primeira realizada em diversos sites de
notícias locais, depois que retornamos aos estudos no curso de Comunicação Social, com
habilitação em Jornalismo, na Universidade Federal de Roraima (UFRR). A escolha do
tema deu-se a partir da percepção das novas tendências na Comunicação e no Jornalismo,
pois há mais de dez anos iniciamos o primeiro semestre na UFRR, e no Campus,
acompanhamos a evolução do Jornalismo, da Internet e do Jornalismo na internet.
Quando os principais jornais do país começaram a publicar seus conteúdos na
grande rede, popularizaram-se as especulações sobre o futuro dos impressos e as novas
possibilidades de comunicação mediada por computador. Hoje o que se vê é o
desenvolvimento do webjornalismo, publicado em plataformas hipermidiáticas que vêm se
aperfeiçoando a cada dia.
O jornalismo para a web surgiu a partir de uma necessidade de adaptação da

28
Graduada em Comunicação social/ Jornalismo pela Universidade Federal de Roraima (UFRR),
lucyn.santos@hotmail.com
29
Professor Doutor do Curso de Comunicação Social/ Jornalismo na Universidade Federal de Roraima
(UFRR), vjrsanti@gmail.com

82
comunicação moderna e após vários anos de teste, aperfeiçoamento, erros e acertos. A
breve história do webjornalismo tem sua origem numa fase que prepara as redações para a
passagem do impresso para a web. Desde esse momento, de forma contínua, o jornalismo
vem passando por mudanças que, na fase atual, dão indicativos quanto à consolidação de
suas características próprias.
Como trabalhar com o webjornalismo é algo muito amplo, afunilamos nossa
pesquisa para os sites jornalísticos, mais precisamente, os Portais de Notícias. Ainda assim,
o portal nos traz um imenso leque de opções. Há, nele, muitos links e hiperlinks. Então
delimitamos para esse estudo trabalhar com a Home-Page do Portal Macuxi. Recortamos
para observação, realizada entre os dias 03 e 09 de novembro de 2013, sua Página Inicial.
Escolhemos este site de notícias diante de uma gama de 21 websites que tem base
no Estado do Roraima, por ele ser um Portal em que as notícias são criadas exclusivamente
para a web. O Portal Macuxi não possui outra plataforma de divulgação de conteúdo.
Para a delimitação do tema, levamos em consideração três importantes
ingredientes no momento da formulação da pesquisa: relevância, viabilidade e utilidade. O
trabalho é relevante, útil e viável, por ser realizado em um site de notícias do próprio
Estado; por não haver registros de outros tipos de pesquisa referentes a este assunto em
Roraima; e, por ele ser o marco inicial para futuras pesquisas na área.
O objetivo geral do estudo é analisar o Portal Macuxi e verificar de que forma ele
produz, publica e atualiza suas matérias. Os objetivos específicos são: conhecer o Portal
Macuxi, regatar a sua história e apresentá-lo em todas suas seções; estudar de que forma as
características do webjornalismo são incorporadas pelo jornal; averiguar quais são os
critérios que definem a escolha das manchetes (notícias principais publicadas no slideshow
da página inicial do Portal); apurar quais as editorias que possuem maior destaque em suas
manchetes; e, fazer uma análise crítica sobre os critérios de atualização do Portal.
Na pesquisa nosso método de trabalho foi resultante de um somatório de técnicas
que agregou estudo de caso, estudo exploratório, consulta bibliográfica e entrevista. Em
um primeiro momento buscamos diferentes tipos de obras que abordassem o assunto
pesquisado em livros e artigos e em seguida fizemos a triagem de todo material
pesquisado. Para aplicabilidade do levantamento de dados, utilizamos entrevistas
semiestruturadas. E, finalmente, escolhemos aleatoriamente o recorte de uma semana da

83
página inicial do Portal, a fim de analisar a produção, publicação e atualização das notícias,
que, unidos aos dados bibliográficos e entrevistas, nos ajudaram a obter uma interpretação
minuciosa do site em estudo.

1. A internet e o Webjornalismo
Apesar de ter se passado mais de uma década que o Jornalismo conheceu a
internet, e já existirem inúmeros estudos sobre o tema, ainda não há registros seguros nem
um consenso em relação às terminologias usadas quando falamos do jornalismo praticado
na internet, para a internet ou com o auxílio da internet. Existem registros de autores que
utilizam a expressão “jornalismo online”, “jornalismo digital”, “jornalismo eletrônico”,
“jornalismo multimídia” e “ciberjornalismo”, conforme explica Mielniczuk (2003, p. 22).
De acordo com Canavilhas (2001), para designar as nomenclaturas no jornalismo, basta
seguir uma lógica,

[...] de certa forma, o conceito de jornalismo encontra-se relacionado com o


suporte técnico e com o meio que permite a difusão das notícias. Daí
derivam conceitos como jornalismo impresso, telejornalismo e
radiojornalismo”. É, pois, com naturalidade que se introduz agora o
conceito de webjornalismo e não de jornalismo online (Murad, 1999, apud
CANAVILHAS, 2001, p. 2).

Já Santi (2009, p. 5) em “O processo de apuração no webjornalismo de quarta


geração”, explica com mais detalhes o que Canavilhas (2001) definiu:

O autor aponta que para designar o jornalismo desenvolvido para a


televisão, utilizamos “telejornalismo”; o jornalismo desenvolvido para o
rádio “radiojornalismo”; e também chamamos de “jornalismo impresso”
àquele que é feito para os jornais impressos em papel. É dessa forma,
portanto, que podemos usar “webjornalismo”para falar o jornalismo feito
para a Web.

Portanto, a terminologia webjornalismo será o termo/conceito utilizado neste


trabalho, pois o termo traz consigo a ideia de que podemos explorar todas as
potencialidades que a internet oferece, apresentando um produto completamente novo: a
webnotícia.
Como muitas tecnologias a internet surgiu por acaso no final na década de 1970 nos
Estados Unidos. No Brasil ela só começou a operar comercialmente em 1995. Ao longo

84
desse mesmo ano, a internet brasileira cresceu, tanto em número de provedores quanto de
usuários e de serviços prestados. Um crescimento natural do mercado, que modificou o
jornalismo brasileiro. Afinal, a internet apresenta-se para o jornalista como uma ferramenta
que une o som do Rádio, os vídeos da TV e as informações do Impresso em um só lugar.
Nascia, assim, o Webjornalismo de Primeira Geração30.
Nesta fase, conforme Mielniczuk (2003, p. 32):

Os produtos oferecidos eram reproduções de partes dos grandes jornais


impressos. [...] o que era chamado então de „jornal online’, na Web, não
passava da transposição de uma ou duas das principais matérias de algumas
editorias. Esse material era atualizado a cada 24 horas, de acordo com o
fechamento das edições do impresso. A rotina de produção de notícias é
totalmente atrelada ao modelo estabelecido nos jornais impressos.

A internet brasileira consolidou-se apenas em 1997. A partir daí o conteúdo em


língua portuguesa tornou-se significativo e empresas, bancos, universidades e até o
governo fizeram questão de entrar nesse novo mundo midiático. Em 1998, uma pesquisa
realizada pela Folha de São Paulo e pelo Datafolha, estimava que o número de internautas
brasileiros aproximava-se de dois milhões de pessoas.
Nesta época, o Webjornalismo encontrava-se em fase de mudança, iniciando sua
Segunda Geração, onde os links começaram a ser explorados pelos jornalistas, uma mostra
do avanço do antigo modelo do jornal impresso, segundo explica Mielniczuk (2003, p. 34):

Ao mesmo tempo em que se ancoram no modelo do jornal impresso, as


publicações para a Web começam a explorar as potencialidades do novo
ambiente, tais como links com chamadas para notícias de fatos que
acontecem no período entre as edições; o e-mail passa a ser utilizado como
uma possibilidade de comunicação entre jornalista e leitor ou entre os
leitores, através de fóruns de debates e a elaboração das notícias passa a
explorar os recursos oferecidos pelo hipertexto.

A chegada dos portais de notícias (a partir de 1999 com a criação do Globo.com),


com produções jornalísticas especialmente desenvolvidas para a web, anunciava também a
chegada do Webjornalismo de Terceira Geração. Esse terceiro estágio é marcado por uma
produção jornalística especificamente criada para a web. Nessa fase há o enriquecimento
da narrativa jornalística, sobretudo pelo uso de recursos multimídia e de interatividade,

30
Classificação do Webjornalismoconforme os autores Pavlik (2001), Silva Jr, (2002), Palacios (2002), e
Mielniczuk (2001).

85
dentre outros.Mielniczuk (2003, p. 36) confirma esse conceito ao falar que:

Nesse estágio, entre outras possibilidades, os produtos jornalísticos


apresentam recursos em multimídia, como sons e animações, que
enriquecem a narrativa jornalística; oferecem recursos de interatividade,
como chats com a participação de personalidades públicas, enquetes,
fóruns de discussões; disponibilizam opções para a configuração do
produto de acordo com interesses pessoais de cada leitor/usuário;
apresentam a utilização do hipertexto não apenas como um recurso de
organização das informações da edição, mas também começam a empregá-
lo na narrativa de fatos.

Bardoel e Deuze (2001) e Palacios (2002) conceituam que o webjornalismo em


sua terceira geração, deve atender a algumas características básicas: a Multimidialidade31,
a Interatividade32, a Hipertextualidade33, a Personalização34, a Memória35e a
Atualização Contínua36.
Na linha evolutiva das pesquisas aplicadas ao webjornalismo, para alguns autores
há, ainda, o Webjornalismo de Quarta Geração, referindo-se ao impacto do uso das bases
de dados na narrativa webjornalística. Para Machado (2004, p. 3), a quarta geração
organiza as informações em bancos de dados complexos, que são empregados no
jornalismo e que permitem a recuperação rápida de informações, “os dados armazenados
em Bancos de Dados complexos são tudo menos uma simples coleção de itens”.Santi
31
Trata da “[...] convergência dos formatos das mídias tradicionais (imagem, texto e som) na narração do fato
jornalístico. A convergência torna-se possível em função do processo de digitalização da informação e sua
posterior circulação e/ou disponibilização em múltiplas plataformas e suportes, numa situação de agregação e
complementaridade (PALACIOS, 2003, p. 3)”.
32
Trata da “[...] a capacidade de fazer com que o leitor/usuário sinta-se mais diretamente parte do processo
jornalístico. Isto pode acontecer de diversas maneiras: pela troca de e-mails entre leitores e jornalistas,
através da disponibilização da opinião dos leitores, como é feito em sites que abrigam fóruns de discussões,
através de chats com jornalistas, etc. (BARDOEL e DEUZE , 2001, p. 5)”.
33
“Esta se relaciona com as propriedades de hipermídia de forma combinada, permutacional e interativa de
multimídia, em que textos, sons e imagens (estáticas e em movimento) estão ligados entre si por elos
probabilísticos e móveis, que podem ser configurados pelos receptores de diferentes maneiras (MACHADO,
2004, p. 4)”.
34
“Está diretamente relacionada à Interatividade, sendo resultado da relação entre leitor e notícia/conteúdo.
As escolhas do leitor são o primeiro passo para o acesso a todos os conteúdos disponibilizados no webjornal.
Portanto, a Personalização está próxima da dissertação, uma vez que o usuário tem condições de fazer e/ou
modificar o processo, ou ainda construir de acordo com sua mediação (ZUIN e CORREIA, 2008, p. 13)”.
35
Conforme PALACIOS e RIBAS (2007, p. 49) a Memória permite que o usuário acesse qualquer conteúdo
a qualquer hora e estabeleça seu próprio fluxo de leitura, criando uma relação particular com a
temporalidade. Esse acúmulo de informações é mais viável técnica e economicamente na web do que em
qualquer outra mídia.
36
“[...] aos poucos, a periodicidade de atualização começou a crescer. Passou a ser comum que os sites
jornalísticos, mesmo mantendo uma determinada periodicidade de atualização, passassem a oferecer uma
“janela” em funcionamento contínuo, com as últimas notícias, geralmente através de um serviço de agência
(PALACIOS e RIBAS, 2007, p. 51)”.

86
(2009, p. 7) explica que:

O Webjornalismo de quarta geração (4G) vai se utilizar de banco de dados


que, devido à tecnologia internet, junto com as linguagens de programação
muito dinâmicas, passaram a gerar páginas que somente existem devido às
solicitações do usuário ao navegá-las; e/ou telas que podem apresentar
áreas de informações flexíveis em estruturas que possibilitam a co-relação
de dados e de campos informativos.

É interessante ressaltar que as mencionadas gerações do webjornalismo não são


excludentes, mas é possível localizar marcas distintas convivendo num mesmo produto.

2. O Webjornalismo em Roraima
Nessa esteira surgiram os primeiros sites de notícias do Estado de Roraima. Criado
em agosto de 2002, o pioneiro BV News nasceu a partir da ideia de dois jovens roraimenses
que queriam oferecer uma nova forma de comunicação para o público local. Munidos de
um computador, algumas ideias e muita vontade de trabalhar, o webdesign Michael da
Silva Siqueira e o jornalista Raustman Gondim decidiram colocar a ideia de um website
local em prática.
Após este, muitos outros foram criados e hoje, existem 21 websites jornalísticos em
Roraima (ver Tabela 1), porém apenas 13 estão em funcionamento, um está em
manutenção e sete deixaram de existir por diversos motivos. Não há registros de análises
sobre nenhum deles.

Tabela 1: Lista dos sites de notícias em Roraima, com seus respectivos endereços na web.
JORNAL ENDEREÇO NA WEB SITUAÇÃO ATUAL
1 - Boa Vista Agora www.boavistaagora.com Em funcionamento
2 - Boa Vista Já www.boavistaja.com Em funcionamento
3 - Boa Vista Notícias www.boavistanoticias.com.br Fora do ar
4 - Brasil Norte www.brasilnorte.com.br Em manutenção
5 - BV News www.bvnews.com.br Em funcionamento
6 - Fato Real www.fatoreal.com.br Em funcionamento
7 - Folha de Roraima www.folharoraima.com.br Em funcionamento
8 - Fonte Brasil www.fontebrasil.com.br Em funcionamento
9 - Guia Roraima www.guiaroraima.com.br Fora do ar
10 - Jornal do Rádio www.jornaldoradio.com Fora do ar
11 - Jornal Sul de Roraima www.sulderoraima.com Fora do ar
12 - Jota 7 www.jota7.com Em funcionamento
13 - Mucajaí www.mucajai.com Fora do ar

87
14 - Política com Pimenta www.politicacompimenta.com Em funcionamento
15 – Portal Macuxi www.macuxi.com Em funcionamento
16 - Portal Roraima 20 www.roraima20.com Fora do ar
17 - Roraima Brasil www.roraima-brasil.com Fora do ar
18 - Roraima em Foco www.roraimaemfoco.com Em funcionamento
19 - Roraima Hoje www.roraimahoje.com Em funcionamento
20 - Roraima Notícias www.roraimanoticias.com.br Em funcionamento
21 - Tribos de Roraima www.tribosderoraima.com.br Em funcionamento
Fonte: Elaboração própria.

3. O Portal Macuxi
O Portal de Notícias, que brotou na segunda geração e se solidificou na terceira
fase do webjornalismo, é um site que centraliza características específicas como apresentar
na Página Inicial chamadas para conteúdos diferentes de várias origens, dispostos em
vários editoriais. A Página Inicial do Portal contém, portanto, informações gerais e
especializadas, serviços de e-mail, canais de chat e relacionamento, shoppings virtuais,
mecanismos de busca na web, entre outros, cuja intenção é ser a porta principal de acesso a
orientar a navegação do usuário pela web.
Para Camargo e Becker (1999), o objetivo desse tipo de site é claro: direcionar os
passos do internauta para tentar mantê-lo o maior tempo possível no portal. Fidalgo (2001,
p.32) fala que a informação na internet está cada vez mais concentrada nos Portais, pois
eles “funcionam como ponto de chegada, organização e distribuição de informação”.
No que se diz respeito ao webjornalismo, os Mega Portais abriram caminho para o
surgimento de outra modalidade: os Portais Locais, como o Portal Macuxi. Eles se
concentram na oferta de serviços e conteúdo direcionados a uma localidade ou região
específica, a um nicho/seguimento específico, como por exemplo, um Estado ou um
Município.
Os portais locais/regionais são uma nova e recente categoria do webjornalismo,
porque cumprem a função de informar segundo os critérios de proximidade, veiculando a
informação em harmonia com as características primeiras do webjornalismo que foram
citadas no referencial teórico deste trabalho.
Apenas em 1999, os Portais Locais começaram a ser difundidos no Brasil. Os
conteúdos locais, neles, estruturam-se segundo a importância, o significado, a afinidade e o
interesse que possam despertar no público. São elementos que, no jornalismo constituem o
valor-notícia proximidade, pois notícias sobre acontecimentos, pessoas e interesses mais

88
próximos ao leitor terão um maior significado para ele.
No texto “Os Portais Regionais como um formato para o Jornalismo Digital”,
Suzana Barbosa (2001, p. 11) afirma que os portais regionais, como o Portal Macuxi, “são
uma forma de presença digital adotada por empresas informativas de atuação regional”. A
autora destaca que os portais regionais são como um modelo de assimilação da tecnologia
conforme uma lógica de articulação local-global, que privilegia os conteúdos locais,
reforçando a relação entre a comunidade e o conteúdo.
Buscando dar vazão esses conteúdos locais é que um grupo de amigos
comunicadores, formado por Andrielly Lima, Bárbara Carvalho, Johann Barbosa, Luiz
Valério, Ramon Barboza, Rodrigo Baraúna e Saulo Oliveira, sentiu a necessidade de
produzir algo novo no jornalismo de Roraima. Juntos, decidiram montar um website com
um diferencial: cada um dos sete integrantes, além ser responsável pela atualização de uma
editoria, deveria assinar uma coluna no Portal.
No entanto, somente três jornalistas que fizeram parte da criação do site,
continuam o seu trabalho no Portal Macuxi: Andrielly Lima atualizava as editorias de
Mundo e de Geral. Hoje ela é a responsável por toda a alimentação e atualização do site,
além de manter em dia sua coluna Circulando; Bárbara Carvalho assina a coluna Viva
Bem, continua acompanhando as estatísticas do Portal e respondendo os e-mails dos
leitores. No início ela também era a responsável pelas editorias de Cultura e de Tecnologia;
e Rodrigo Baraúna, que é o responsável pelo blog Sobe o Som, e atualiza as contas do site
nas redes sociais.
No momento a equipe conta com mais integrantes: a produtora cultural, poeta e
atriz Carolina Uchôa, que assina o blog EspalhaFato; a jornalista Jéssica Ferri, que
mantém o blog Literando; o pesquisador e professor de Relações Internacionais Eloi
Martins Senhoras, que é responsável por uma equipe que atualiza a coluna Análise
Internacional; Fábbio Halliwell, bacharel em Administração de Empresas, que empresta
seu nome a nova coluna social do site; Lanne Prata, publicitária e fotógrafa, que também
possui uma coluna com o seu próprio nome, sobre a arte de fotografar; o economista
Rubens Leal, que assina a coluna Mercado S.A.; a publicitária e designer Lidiane Santos,
que é responsável pela coluna ReDecore; e, a advogada Juliana Quintella autora da coluna
Seu Direito.

89
Segundo Carvalho (2013)37, no dia em que Roraima completou 24 anos, 05 de
outubro de 2012, o grupo “presenteou” o Estado com um novo site de notícias, o Portal
Macuxi. Seu nome é em homenagem a uma das etnias indígenas existentes no Estado e as
cores predominantes (amarelo, verde e vermelho) representam as cores da bandeira de
Roraima.
O Portal Macuxi é um site que não é focado apenas em notícias do Estado. Na
Página Inicial o internauta pode encontrar as principais notícias do dia, atualizadas em
tempo real, ou seja, no momento em que acontecem. O leitor não tem acesso apenas às
notícias locais, mas também, nacionais e internacionais, sobre os mais diversos assuntos,
como esportes, economia, política, cultura, polícia, entretenimento, além de entrevistas e
colunas dos jornalistas locais.
Carvalho (2013) explica que “há um dinamismo muito grande, pois o jornal
online, como o próprio nome sugere, é uma coisa mais dinâmica e mais curta, é para o
leitor acessar num espaço de tempo curto, além do mais, pode ser acessado até pelo
celular”.
De acordo com Carvalho (2013), o Portal conta com mecanismos simples de
navegação para que o internauta possa visualizar facilmente todas as seções do site. O
público-alvo do Macuxi é bastante diversificado, atendendo a todos os sexos e idades. A
interatividade é a palavra chave do Portal. O internauta pode entrar em contato com a
equipe responsável pelo site, deixar sugestões, críticas ou elogios, participar de enquetes e
ainda compartilhar assuntos do seu interesse a partir do perfil no Twittere da página do
Facebook. Os leitores também podem acessar as notícias através das redes sociais.
Como o site conta com segmentos variados, cada profissional fica responsável
pela atualização de seu blog ou coluna, não havendo restrição para os assuntos abordados.
De acordo com Lima (2013)38, para o Portal se tornar mais dinamizado, “ficou combinado
apenas que cada coluna fosse atualizada em dias da semana diferentes, para que nossos
leitores tivessem uma novidade no site a cada dia”. As pessoas que fazem parte dessa
equipe não são remuneradas, o lucro depende da venda do espaço do blog ou coluna. O
valor de cada propaganda varia, pois é definido de acordo com o tamanho do anúncio e do
tempo de permanência na página.
37
Jornalista Bárbara Carvalho em entrevista cedida à autora no dia 10 nov 2013.
38
Jornalista Andrielly Lima em entrevista cedida à autora no dia 10 nov 2013.

90
Na primeira página do Portal, os usuários podem ter acesso visual à barra
horizontal do menu principal, logo abaixo da logomarca da empresa e de um anúncio. Os
links nos levam à PÁGINA INICIAL, EDITORIAIS39,BLOGS E COLUNAS40,
ENTRETENIMENTO41,CONTATO42e ANUNCIE43. No final da barra de menus, há um
espaço em que leitor poderá fazer uma pesquisa de assuntos dentro do próprio site, um
mecanismo muito utilizado nos grandes jornais e bem procurado entre os internautas
quando estão à procura de notícias remotas.
A página inicial do Portal Macuxi traz um slideshow, com as três manchetes do
dia revezando entre si. A foto principal de cada manchete traz consigo seu título destacado
em uma caixa de texto com fundo de cor vermelha e letras brancas. Ao lado do slide show
das manchetes, há o link /TEMPO. Logo abaixo da previsão do tempo, há links para o
Portal Macuxi nas redes sociais mais populares da internet (Twitter e Facebook), opções
para receber as atualizações de notícias por RSS e via e-mail, e por fim um atalho para
adicionar a página como “Favoritos” do seu navegador.Baraúna (2013)44 explica que o
grande diferencial do Portal Macuxi é conseguir alcançar os leitores através de um
ambiente virtual em que eles estão acostumados a acessar diariamente, que é a sua própria
conta nas redes sociais.
Abaixo das manchetes, encontram-se as notícias que foram destaques de algumas
editorias. E no lado direito, podemos observar um box intitulado /PLANTÃO, onde são
publicadas as últimas notícias. São notas recentes dos acontecimentos, ou seja, “furos” de
reportagem que independem da editoria e são publicados e organizados na ordem
cronológica.
A página inicial do Portal Macuxi também conta com o box/FRASES, que traz
alguma frase de impacto que circula pela internet, alguma citação de autores ou de famosos
que normalmente repercutem com bastante ênfase na sociedade e /ENQUETE, onde o
39
O trabalho em redações jornalísticas é geralmente dividido em editorias temáticas, agrupando os assuntos
mais comuns no noticiário. No Portal Macuxi as /EDITORIAS estão divididas em: /CULTURA,
/ESPORTES, /GERAL, /MUNDO, /POLÍCIA, /POLÍTICA e /TECNOLOGIA.
40
São divididos entre três blogs e sete colunas. Sendo /ESPALHAFATO, /LITERANDO e /SOBE O SOM
blogs; e /ANÁLISE INTERNACIONAL, /CIRCULANDO, /FÁBBIO HALLIWELL, /LANNE PRATA,
/MERCADO S.A., /REDECORE, /SEU DIREITO e /VIVA BEM colunas.
41
Engloba /AGENDA, /CURIOSIDADES, /CINEMA, /HORÓSCOPO e /RECEITAS.
42
Onde o internauta pode entrar em contato com a equipe do site Portal Macuxi.
43
Onde internauta tem a possibilidade de entrar em contato com a equipe comercial do site, caso se interesse
divulgar de sua empresa ou produto.
44
Jornalista Rodrigo Baraúna em entrevista cedida à autora no dia 10 nov de 2013.

91
internauta pode interagir com o site opinando sobre determinado assunto que está em
discussão no momento.
Há ainda espaço para os destaques de algumas das editorias, que podem variar de
acordo com a importância das notícias do dia e as chamadas das matérias dos blogs. A
/GERAL possui um lugar específico e fixo na página. Assim como o resumo das
principais /NOVELAS, as dicas de /RECEITAS, a /AGENDA CULTURAL e o que está
passando no /CINEMA naquela semana.
Um detalhe que podemos observar na Página Inicial do Portal Macuxi, é que o
leitor pode cadastrar, de forma simples e rápida, um e-mail para receber as notícias no
momento em que o site é alimentado. É um recurso bastante procurado por pessoas que
trabalham em empresas que não permitem o acesso em alguns sites e é de suma
importância para o posicionamento do webjornal no mercado, pois esse cadastro traz a
identidade do leitor. Essa facilidade também é usada dentro das estratégias de marketing do
site.
Apesar de estar ainda começando no webjornalismo roraimense, o site possui
números expressivos. De acordo com Carvalho (2013) são em média 1.100 acessos diários
e o Portal Macuxi é visto em 83 países entre Brasil, Estados Unidos, Venezuela, Portugal,
Rússia, Alemanha, França e Guiana. Cada visitante navega, em média, por 9,3 páginas e
gasta 13,04 minutos no site.

4. Análise crítica e operacional


No Portal Macuxi uma das finalidades do projeto gráfico da página inicial de um
jornal é atrair e manter a atenção do internauta, tornando a experiência de leitura das
notícias fácil e agradável. A primeira página do jornal funciona como um convite à leitura e
o local onde está posicionado o slideshow é considerado o espaço de maior importância do
site. Mas com tantos acontecimentos como escolher as manchetes?
Conforme Lima (2013) as manchetes são escolhidas a partir do critério é a
proximidade: “o Macuxi é um portal do Estado feito para o Estado de Roraima. Nosso
nome já diz quem somos e de onde somos, então, queremos deixar o leitor bem à vontade e
familiarizado”.
Ao analisarmos a Página Inicial do Macuxi, pudemos observar que há uma

92
repetição das manchetes, mas não foi encontrada nenhuma periodicidade, rotina ou sistema
que explicasse tal fato. Concluindo-se que isto aconteceu de forma equivocada e
aleatória.No dia posterior às datas de publicação das manchetes realizamos uma visita ao
site e as manchetes do dia anterior foram todas encontradas na editoria de GERAL.
Na semana de análise, 3 a 9 de novembro de 2013 (domingo a sábado), todas as
manchetes publicadas no slideshow foram inseridas na editoria GERAL, mesmo havendo
editorias específicas para a notícia, previstas na estrutura do portal. Todas, porém, utilizam
o critério de proximidade como credencial que as tornou manchete na Página Inicial do
site.
Em relação à Multimidialidade, o Portal Macuxi explora apenas algumas
ferramentas que a web oferece. Na semana de análise não foram encontrados vídeos,
animações ou simulações nas manchetes e na página inicial (apenas texto e fotos).
Quanto à Interatividade, o Portal em estudo abre as portas através do link
/CONTATO, que nada mais é que uma troca de e-mails entre leitores e jornalistas, a
/ENQUETE e a barra de comentários no fim de cada matéria ou coluna.
Não foi encontrado nenhum fator que configure a Hipertextualidade no Portal
Macuxi. Como as escolhas do leitor são o primeiro passo para o acesso a todos os
conteúdos disponibilizados no webjornal através dos hiperlinks nos hipertextos, foi
verificado que o Portal Macuxi também não possui a característica da Personalização.
Sobre a Memória, foi verificado que usuário pode acessar qualquer conteúdo a
qualquer hora a partir de uma pesquisa feita na página inicial através do campo /BUSCA.
Isso permite que o internauta leia uma notícia factual ou remota utilizando apenas palavras
chaves dos assuntos de seu interesse.
Por fim, a característica que é fator determinante no conceito de webjornalismo: a
Atualização Contínua. Na página inicial do Portal Macuxi, podemos verificar essa
característica no box/PLANTÃO, que é atualizado conforme as notícias chegam para a
equipe jornalística.

93
Considerações finais
O Portal Macuxi é um site dinâmico, convidativo e abrangente, que traz uma
abordagem diferenciada dos sites de notícias, pois dá prioridade aos assuntos locais.
Porém, como podemos verificar com a pesquisa que ele possui apenas algumas
características que o encaixam dentro do Webjornalismo de Terceira Geração (onde
normalmente estão inseridos os Portais de Notícias).
O Portal Macuxi cumpre o seu papel de portal local, através do critério de
proximidade, mas possui menos de 50% das características inerentes a terceira geração do
jornalismo para web. Em relação à:
- Multimidialidade: o Portal Macuxi não explora todas as ferramentas que a web
pode oferecer ao publicar suas matérias. Então sugerimos que a equipe do site
inclua em suas matérias vídeos sobre o assunto abordado, mapas, gráficos e gifs
para o melhor aproveitamento das ferramentas oferecidas pela web e proporcionar
algo novo para o leitor.
- Interatividade: o Portal utiliza diversos recursos como o contato do leitor através
de e-mails, enquetes e comentários. Sobre esse item, ressaltamos apenas a
importância de manter esse contato com o internauta ativo e facilitado, pois
observamos que durante a semana de análise da página inicial, a enquete ficou
estagnada e sem possibilidade de votação.
- Hipertextualidade: essa característica ainda não foi empregada no site, portanto
aconselhamos o uso de hiperlinks para que leitor possa ter a oportunidade de
navegar entre os textos do site construindo seu próprio roteiro de matérias.
- Personalização: como não foi encontrada essa característica no Portal Macuxi,
sugerimos que seja adicionado ao cadastro de e-mail, um item novo onde o leitor
possa escolher quais as atualizações das editorias, colunas e blogs que ele deseja
receber via e-mail. Pode-se criar também um campo de cadastro para fazer o login
na página tornando-a mais pessoal, pois o internauta poderá ter a opção de
personalizar sua página inicial com as notícias das editorias que mais lhe interessa.
- Memória: o site de notícias estudado possui seu próprio sistema de busca na
página, muito importante e bastante procurado por leitores que precisam rever/reler
determinada notícia ou assunto.

94
- Atualização Contínua: o Portal Macuxi preenche esse quesito através do seu
/PLANTÃO atualizado constantemente na página inicial. Foi observado, no
entanto, que as atualizações são muito próximas e que depois há um lapso temporal
(à noite o Portal para completamente). Ele só volta a ser atualizado na manhã do dia
seguinte. Nossa proposta é que se procure um mecanismo que lance as notícias de
forma automática, evitando assim um prejuízo para o leitor.
Em relação às peculiaridades descritas no artigo “Uma estratégia para portais
verticais locais”, de Outing (1999), o Portal Macuxi não cumpre todas as características
exigidas para ser classificado como um Portal de Notícias local. Perante essa realidade,
pudemos constatar que apenas 36% das características peculiares aos portais estão
presentes no Macuxi, o que coloca em evidência um grande questionamento: afinal, o
Portal Macuxi é ou não um Portal de Notícias?
O Portal Macuxi ainda não possui uma sede física, portanto não possui equipes de
reportagem e/ou redação. De acordo com Lima (2013) todo o material publicado nas
editorias é originário de releases ou reproduzido dos Mega Portais, ficando apenas os blogs
e as colunas personalizadas e assinadas pelos seus respectivos responsáveis como os
lugares de produção original de conteúdo.
Como apenas um jornalista é responsável pela atualização do site, o ponto negativo
dessa situação é a falta de periodicidade de disponibilização de informações no site. Assim
que foi lançado o Macuxi era atualizado a cada três horas, mas, atualmente, apenas um ano
depois, ele passou a ser atualizado somente três vezes ao dia.
Isso refletiu diretamente no seu público que diminuiu drasticamente. Essa perda foi
constada pela própria equipe do Portal ao acompanhar a audiência semanalmente. A falta
de comprometimento com os leitores levou o Portal Macuxi do ranking de mais acessado
ao menos acessado em poucos dias. Isso apenas reforça o quão importante são as
características de Interatividade e Atualização Contínua no webjornalismo e o quanto a
web é imediatista e volátil.
Esses deslizes passam ao leitor uma ideia de abandono e desorganização quanto à
atualização do site, isso pode contribuir para o desinteresse e a evasão, pois o leitor que
acessa uma informação desatualizada, raramente acessa outro conteúdo e até mesmo pode
não voltar a fazer um novo acesso ao site.

95
Outra sugestão que trazemos aqui é a inclusão de indicadores de data e horário de
atualização, um calendário diário fixado horizontalmente abaixo do menu principal, na
Página Inicial do Portal Macuxi. Isso poderia facilitar a navegação do leitor permitindo que
ele fique mais tempo conectado ao portal.
A pesquisa aponta, desse modo, que o Portal Macuxi possui 50% das características
necessárias para estar incluso na Terceira Geração do Webjornalismo– conforme Pavlik
(2001), Mielniczuk (2003); Bardoel e Deuze (2001) e Palacios (2002) – e apenas 36% das
características peculiares dos Portais de Notícia – segundo os postulados de Outing (1999).
Levando em conta a estrutura, o modo de operação, a produção e a frequência de
atualização, o Macuxi ainda não cumpre totalmente seu papel de Portal. Cumpre melhor o
papel de reprodutor de releases já que não possui equipes que se dediquem a produção
específica de conteúdo jornalístico próprio. Acompanhando as manchetes da semana
escolhida para análise, pudemos perceber que todas as notícias são assinadas como Da
Redação, o que indica claramente que o release recebido por e-mail doi reproduzido na
íntegra no site.
A partir das análises estrutural-descritiva e operacional-crítica pudemos verificar
que a maior audiência do Portal Macuxi concentra-se nos BLOGS e nas COLUNAS – seu
único conteúdo original, moderno e inédito. Sugerimos então aos mantenedores do Portal
que invistam na produção de conteúdo jornalístico próprio; e que, potencializem a
utilização de ferramentas que já trouxeram resultado positivo para site.
No entanto é inegável que o Portal Macuxi traz colunas informativas com uma
visão local e regionalizada. Sua abordagem cotidiana se alinha a vivida no eixo Norte-
Roraima, revelando o estilo de vida e a diversidade cultural do Brasil do “lado de cima da
linha do Equador”.
Verificamos também que o Portal Macuxi está em fase de testes para utilizar
novos recursos e poder aproveitar melhor e de maneira mais integral todas as ferramentas
que a web proporciona, como por exemplo, jogos online, músicas e um layout novo, mais
dinâmico e convidativo. Conforme levantamento, a intenção dos seus produtores é lançar a
nova cara do site no seu aniversário de dois anos, em 05 de outubro de 2014.
Nesse sentido frisamos que as proposições apresentadas aqui não se pretendem
definitivas ou absolutas e visam trazer melhorias para o site que é único no Estado.

96
Objetivam, sobretudo, contribuir para a ampliação do debate em torno dos sites de notícias,
principalmente, os portais de notícias locais.

Referências
BARBOSA, Suzana. Jornalismo online: dos sites noticiosos aos portais locais. Artigo
apresentado no XXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom.
Campo Grande, 2001. Disponível em <http://www.bocc.ubi.pt/pag/barbosa-suzana-
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professionals and professionalism. In: Australian Journalism Review, S. L., 2001, v. 2, n.
23, pp. 91-103. Artigo disponível em <http://hdl.handle.net/2022/3201>. Acesso em: 02
nov 2013.

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Acesso em: 03 nov 2013.

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da notícia na escrita hipertextual. 2003. 246p. Tese. (Doutorado em Comunicação e
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estudo-do-formato-da-noticia-na-escrita-hipertextual>. Acesso em: 03 nov 2013.

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o%20Correia.pdf>. Acesso em: 02 nov 2013.

98
99
Estado Democrático de Direito e a Mídia sob a perspectiva da
pluralidade das fontes45

André Lucas Demétrio de ALMEIDA46

RESUMO: O trabalho a seguir desenvolve uma análise de como os meios de comunicação


atuam enquanto instância (criadora e criatura) da realidade social, dos interesses políticos e
econômicos. Busca-se abordar as intersecções entre mídia e democracia no Brasil sob o
ponto de vista da multiplicidade de sujeitos comunicadores como condição para um
satisfatório desenvolvimento da democracia representativa e, sobretudo, da democracia
direta, participativa. Desenvolvendo os avanços da literatura que se ocupa da relação da
mídia com a democracia e propondo caminhos de atuação para a alteração do contexto
atual, o texto analisa as influências da mídia no cotidiano dos cidadãos, as consequências
de sua atuação para a democracia representativa. As necessidades de alteração do
paradigma de concessão pública reforçam-se numa sociedade plural como a brasileira,
frente a isso se propõe perspectivas de mudanças políticas, legislativas e educacionais para
que seja legitimada a pluralidade de fontes de comunicação. Assim, um Estado
Democrático de Direito pode se desenvolver e cumprir com suas promessas construtivas de
novas realidades sociais.

Palavras-chave: Mídia alternativa; Comunicação; Estado Democrático de Direito.

Há uma ligação forte entre a qualidade de um regime democrático e sistemas


formativos e informativos de opinião. Quando se exige uma mídia comprometida com
valores democráticos, voltados a interesses coletivos e de transformação social, isso tem a
ver com a necessidade de eleições bem justificadas quanto à qualidade das informações e,
sobretudo, com um incentivo à democracia direta e participativa, tão necessária e urgente
no contexto brasileiro. Enfim, providências devem ser tomadas no sentido de fazer da
mídia uma aliada do Estado Democrático de Direito. Para isso, a lógica dos meios de
comunicação deve ser readequada para que atenda ao interesse público.

45
Trabalho destinado ao Grupo de Trabalho Mídia alternativa do 3º Encontro Regional Norte dos
Pesquisadores de História da Mídia.
46
Graduando em DireitoUniversidade Federal do Pará

100
1. A tensão latente entre mídia e democracia
A comunicação social importa na difusão de informações perante a comunidade
relativas às possibilidades participativas de um Estado democrático, de outra forma a
realidade passada por meios de comunicação de massa pode cumprir papel
ideologicamente comprometido com valores individualistas, de mercado e de dominação
política e cultural. Tomando maior destaque, a mercantilização dos espaços midiáticos,
com a prevalência da propaganda, da exposição de produtos e serviços para a venda
constitui uma grave ameaça e efetivamente prejudica a democracia e a soberania dos
Estados visto que as ações das empresas de comunicação ficam dependentes dos interesses
mercadológicos - internos e externos - interesse esse quase totalizante que minimiza sua
potencialidade para promover informação e atua aliada à cidadania local (RÍOS, 2013, p.
333):

Da mesma forma que os mercados são passíveis de ser plenamente


dominados por um ou mais atores, os meios de comunicação parecem
mostrar uma predisposição peculiar para o monopólio ou oligopólio.
Basta observar como estão se estruturando e crescendo as transnacionais
da mídia no mundo e particularmente na América Latina. Essa realidade é
tal que, para continuarem reivindicando legitimamente o poder associado
com a liberdade de expressão e o domínio de seus canais, essas
transnacionais devem contribuir para que os cidadãos adquiram um rol de
“informação” política e cultural com base no qual possam se envolver,
individual ou coletivamente, em um processo que lhes permita uma
informação verídica e clara em relação ao mundo. Nesse sentido, os
meios de comunicação consistem em um recurso público. Se o imperativo
comercial orienta os meios de comunicação para o controle monopolista,
ou quase monopolista, e traz como consequência um rol mais restrito de
informações e opiniões disponíveis, no qual o conhecimento é cada vez
menos um bem comum e, pelo contrário, assume uma posição
privilegiada, poder-se-ia concluir que esses meios são contrários às
expectativas democráticas que têm como premissa a liberdade de
expressão (RÍOS, 2012, p. 326).

A questão fundamental está em se equilibrar as forças entre interesse privado e


interesse público, entre globalização das informações influenciadas pelo mercado e a
soberania e culturas nacionais, mas também formas de se repreender o uso dos meios de
comunicação exclusiva ou demasiadamente em favor de interesses econômicos e
mercadológicos sem, contudo, ferir o direito à propriedade privada. Para tanto, isso só será
possível se estiver como fiel da balança a função social dos meios de comunicação, a qual

101
deve direcionar-se por princípios democráticos e de cidadania, devendo essas duas ser
prioritárias em relação ao capital (RÍOS, 2012, p. 342).
"A igualdade de acesso, como um aspecto da igualdade cidadã, deve ser
considerada um objetivo quando se examina e se propõe qualquer mecanismo regulatório"
(RÍOS, 2012, p.344). Daí que o interesse que se põe numa sociedade democrática em se
regular a atividade dos meios de comunicação não significa querer acabar com a expressão
dos empresários na mídia ou, o que seria mais grave, implantar a censura e suprimir a
liberdade de expressão midiática e de imprensa. Pelo contrário, o que se pretende é atender
a necessidades democráticas fundamentais para a comunidade, dar poder aos cidadãos para
que estejam aptos a escolher da melhor maneira possível não apenas seus representantes
políticos como também as próprias políticas públicas e sociais que interferem diretamente
em suas vidas. Para isso é fundamental que se ampliem as formas de difusão das
informações através das mais variadas fontes de comunicação social.
O acesso à mídia, ou seja, aos meios de informação e comunicação, é fundamental
para uma democracia, na medida em que pode favorecer o debate político e facilitar
mobilizações sociais em prol de mudanças, bem como estabelecer pautas de debates
públicos sobre determinados problemas sociais da realidade brasileira.
Manter a mídia nas mãos de poucos resulta em menos grau de liberdade dos
cidadãos que se mantêm alheios às situações que se põem na realidade, assim, mantendo-se
a situação inalterada (GUARESCHI, 2007, p. 17).
A mídia, considerada como quarto poder necessita de uma legitimação democrática
que resta incompleta quando da positivação de leis e normas constitucionais no
ordenamento jurídico brasileiro.As concessões públicas da mídia no Brasil são legalmente
protegidas sob a pretensão de prestarem serviços de interesse público, mas, que, de fato,
foram colonizadas por interesses elitistas e se mantêm de acordo com interesses
mercadológicos alheios, portanto, à efetiva potencialidade política que a mídia pode ter.
Para tal, Guareschi (2007) propõe mecanismos democráticos de permanente
fiscalização e monitoramento da mídia pela comunidade, pelos diversos setores da
sociedade civil além da expansão das possibilidades de informação e comunicação por
meios comunitários de rádio e televisão (p. 19).
Há que se perguntar o quanto de censura existe numa democracia, na qual subsiste,

102
garantida constitucionalmente, uma apropriação da mídia por pequenos grupos de
interesses políticos e econômicos. E em que grau essa apropriação é influenciada por
valores de mercado e de dominação cultural no contexto da globalização (GUARESCHI,
2007, p. 20-21).
Os canais de televisão se mantêm como propriedades particulares, agindo em prol
de interesses próprios, quase que indiferentes à sua função social. Com isso, propagam
valores e crenças ao mesmo tempo em que manuseiam a informação e as transmitem sob a
forma de verdades fáticas. As informações invadem as mentes crianças, jovens e adultos
eivadas de valores nem sempre benéficos à população (GUARESCHI, 2007, p. 23).
A partir de então, um dos problemas que surgem do predomínio dos interesses
econômicos sobre as necessidades públicas é uma quase incontrolável manipulação dos
fatos com prejuízos sérios ao valor da verdade como fundamental para uma democracia.
Deve-se ter em conta que a comunicação é um instrumento de interesse público que tem a
função de manter os cidadãos informados e permanentemente inclinados ao debate público
dos problemas sociais que se põem (GUARESCHI, 2007, p. 24).
Consoante Neumann (2013) a liberdade política possui três faces, pressupõe, pois,
as liberdades: jurídica, cognitiva e volitiva. A primeira relaciona-se ao Estado de Direito no
qual cada cidadão possui determinadas liberdades e deveres vinculados a situações
jurídicas, podendo conduzir-se dos modos não vedados juridicamente. A terceira é a esfera
de ação do indivíduo enquanto efetivamente agindo, na esfera política se expressa, por
exemplo, na discussão e deliberação participativas na arena pública. Precisamente, é o
segundo domínio da liberdade política que é fortemente influenciado pela mídia, a
liberdade cognitiva corresponde às faculdades de raciocínio, da elaboração de argumentos
lógicos, do desenvolvimento dos planos mentais a serem desenvolvidos externamente
durante o exercício da liberdade volitiva. Percebe-se pois, que a variedade nos pontos de
vista expostos pela mídia está no cerne da elaboração dos enunciados que justificam e dão
base sólida tanto a faculdade política do voto quanto da participação direta nas discussões
públicas. A cognição é permanentemente informada pelas informações comunicadas no
meio, no contexto social em que se enquadra, não há muitas dúvidas quanto a isso.

2. A crise representativa e a necessidade de descentralização

103
A crise das democracias representativas é apontada por grande número de autores
que se dedicam ao estudo do assunto, os cidadãos não se sentem representados pelos
eleitos. Fica evidente a crise da representação política com os números que expressam os
níveis de abstenção nas eleições ao redor do mundo a partir da segunda metade do século
passado. O desenvolvimento tecnológico promoveu maior contato dos eleitores com seus
representantes por meio da mídia que constrói poderosas propagandas de marketing em
favor da promoção carismática dos políticos, tanto que alguns autores chegam a
caracterizar a democracia atual pela delegação de poder aos políticos com vertente
carismática construída midiaticamente (MIGUEL, 2003, p. 123-126).
A falta de confiança nas instituições representativas nas democracias
contemporâneas não advém da alienação ou da herança de valores autoritários. É, na
verdade, a constatação de que as instituições existentes não permitem um grau satisfatório
de representação e a capacidade de decisão dos cidadãos é muito reduzida ou nula,
fazendo-se com isso que a democracia não se realize enquanto valor, justamente por causa
da insuficiência da efetivação da democracia como conjunto de instrumentos
procedimentais decisórios (MIGUEL, 2003, p.126).
A poliarquia consiste numa pluralidade de núcleos decisórios de minorias. Tais
decisões vinculam os governos quando da tomada de decisões políticas que influirão na
vida delas (MIGUEL, p.127). Mais ou menos poliárquica, então, é a proposta de mídia que
se constrói aqui, como proposta adequada a um Estado Democrático de Direito, com
diferentes pólos de comunicação adequados aos variados contextos sociais, ou seja, a
pluralidade das instâncias sociais não pode depender de poucas fontes midiáticas e as
comunicações precisam ser plúri mas no sentido de se favorecer o debate político das
comunidades de acordo com suas necessidades.
Interesses no sentido de diminuir o grau de decisão do povo no Estado é que
fizeram o regime democrático convergir para a representação, deixando, com isso, o poder
decisório nas mãos de pequenas elites. Afasta-se, nesse sentido a ideia de que uma
democracia representativa justifica-se pela quantidade populacional que a inviabilizaria.
Muitas vezes, a representação perde-se de acordo com interesses políticos pessoais do
representante em busca de maior estabilidade política para si mesmo. Além disso, o
desenvolvimento dos partidos políticas vem agravar esse problema quando na

104
representação devem-se conformar a vontade do representado e a ideologia do partido,
estando a última, frequentemente, como prioritária em relação à primeira (MIGUEL, 2003,
p. 130).
Tomando-se a eleição como inegavelmente importante numa democracia
representativa, deve-se considerar, também, a importância da informação na formação das
consciências dos eleitores. A escolha esclarecida, ao máximo, pelas instâncias
comunicativas resulta no desenvolvimento de uma agenda de debates públicos mais ou
menos adequada à realidade da comunidade política. É preciso considerar que a formação
da agenda pública não tem origem exclusiva na mão dos parlamentares eleitos, depende
enormemente das pressões exercidas por grupos externos ao parlamento, bem como pelos
conflitos entre grupos de interesse para a priorização de determinadas pautas de discussão
e a secundarização (e até eliminação) de outras (MIGUEL, 2003, p. 131).
Eis um dos problemas fundamentais: quando a mídia revela ser um grupo de
interesses, seja para aumentar seu poder, seja para mantê-lo, seja para silenciar as
reivindicações de outros grupos. E este controle midiático dos assuntos é exercido com um
notável poder simbólico, a mídia cria a realidade, diz o que está ou não ocorrendo pelo
simples fato de expor, ou não, nos meios de comunicação determinadas situações
(GUARESCHI, 2006). Por isso, os que assumem maior possibilidade de interferência na
criação e modificação das agendas de debate público são os meios de comunicação de
massa, assim:

Não é difícil perceber que a pauta de questões relevantes, postas para a


deliberação pública, deve ser em grande parte condicionada pela
visibilidade de cada questão nos meios de comunicação. Dito de outra
maneira, a mídia possui a capacidade de formular as preocupações
públicas. Os grupos de interesses e mesmo os representantes eleitos, na
medida em que desejam introduzir determinadas questões na agenda
pública, têm de sensibilizar os meios de comunicação. (...) É aqui que
podemos incluir os meios de comunicação de massa. Nas sociedades
contemporâneas, eles detêm o quase-monopólio da difusão de
informações, de discursos e de representações simbólicas do mundo
social; são a fonte, direta ou indireta, da esmagadora maioria das
informações de que os cidadãos dispõem para compreenderem o mundo
social em que vivem. Na medida em que o debate público não se limita a
fóruns formais como o parlamento, mas deve alcançar o conjunto da
sociedade, é evidente que a mídia passa a desempenhar uma função-
chave (MIGUEL, 2003, p. 132).

105
Miguel (2003) afirma, com base na teoria habermasiana, que mais do que
acessório, o papel da mídia em uma democracia representativa tem papel fundamental para
a formação de opinião por meio das informações. São os meios de comunicação de massa
que podem manejar os debates públicos. Constata-se a ineficiência das instâncias
parlamentares, enquanto poderes instituídos, frente às possibilidades que se mostram dos
poderes originários de discussão e direção das pautas e deliberações políticas através do
discurso (p. 132).
A mídia concentrada em poucos grupos não atende adequadamente aos princípios
participativos do Estado Democrático de Direito brasileiro, pois representa um sério
entrave para o conhecimento dos cidadãos da realidade social que a eles dizem respeito,
primeiro porque não se prioriza o papel da mídia enquanto fonte de debates políticos e
instancia de informação cidadã para a tomada de iniciativas de participação política,
segundo porque a mídia trabalha no sentido de manter as pessoas desinformadas dos
mecanismos de participação democrática, bem como dos debates que questionam o regime
de concessões dos meios de comunicação para poucos grupos estando esses com interesses
marcados e provados pela prevalência dos interesses econômicos sobre os sociais e
democráticos.
Vale ressaltar que no Estado Democrático de Direito, conforme Morais e Streck
(2000): “A atuação do Estado passa a ter um conteúdo de transformação do status quo, a
lei aparecendo como um instrumento de transformação por incorporar um papel simbólico
prospectivo de manutenção do espaço vital da humanidade” (p. 95). O conteúdo
substantivo desse Estado é a sua capacidade de favorecer os indivíduos e grupos sociais a
participarem democraticamente da transformação da realidade compartilhada
coletivamente por todos os membros da comunidade política.
Em contraste com os valores prevalecentes no Estado Liberal de Direito
(liberdade e igualdade formal) e no Estado Social de Direito (igualdade material), típicos
de seus contextos e que buscavam conformar a realidade buscando a aceitação dos
cidadãos de sua condição como fora construída, o valor prevalecente no Democrático é a
solidariedade dos cidadãos entre si, na busca de resolver democraticamente os problemas
sociais que afetam, direta ou indiretamente, toda a coletividade, estando materialmente
comprometido com um regime democrático de transformação das realidades danosas ao

106
convívio social (MORAIS; STRECK, 2000, p.85-96).
Ao se aceitar a realidade de um Estado Democrático de Direito percebe-se a sua
incompatibilidade com o estado da mídia com se encontra atualmente. Inadequado não por
ser monopolizado ou oligopolizado materialmente, visto que a concessão dos meios de
comunicação distribui-se entre mais de um ponto entre os particulares e também o Estado
possui meios para difusão de informações, mas por ser monopolizado (ou oligopolizado)
ideologicamente visto que os meios de comunicação compartilham interesses e visões de
mundo entre si, sendo esses, não raro, prejudiciais à sociedade e à democracia (RÍOS,
2012).

3. A situação atual da Mídia quanto à Política


A política é contemporaneamente encarada pela mídia como administração e
controle do Estado, estando tomada por informações sobre o cotidiano dos parlamentos, as
viagens e eventos da qual participam os governadores e várias colunas de crítica das ações
e alianças partidárias, dos investimentos e projetos de governo, das ações e negligências de
secretarias municipais, estaduais e federais (MELO, 2008, p. 91-92).
No âmbito dos conteúdos das seções políticas da mídia, a preocupação central é a
de informar com relativa isenção os fatos políticos que se passavam, não mais é a de emitir
opinião nem buscar convencer os leitores das possibilidades de ação política-participativa,
como ocorria em épocas anteriores (MELO, 2008, p. 92).
Contudo, esse papel de convencimento dos leitores e espectadores passou da mídia
clássica (televisão e jornais) para os novos meios de comunicação, em que recebe destaque
a internet e a telefonia móvel, como bem notado, exerce papel importante ainda que,
muitas vezes, questionável, a manifestação das informações recheadas por opiniões
políticas diversas representa pressão às forças políticas instituídas por meio dos debates por
elas promovidos (SEABRA apud. MELO, 2008, p. 92).
Aqui merece destaque o avanço promovido pela decisão do Supremo Tribunal
Federal (STF) que determinou a não obrigatoriedade do diploma de curso superior em
jornalismo para o exercício regular da profissão, como trabalhado pela Corte
Interamericana de Direitos Humanos:

107
La libertad de expresión es una piedra angular en la existencia misma de
una sociedad democrática. Es indispensable para la formación de la
opinión pública. Es también conditio sine qua non para que los partidos
políticos, los sindicatos, las sociedades científicas y culturales, y en
general, quienes deseen influir sobre la colectividad puedan
desarrollarse plenamente. Es, en fin, condición para que la comunidad, a
la hora de ejercer sus opciones, esté suficientemente informada. Por
ende, es posible afirmar que una sociedad que no está bien informada no
es plenamente libre (Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário
n. 511.961 de 2009).

O papel do Poder Judiciário em sociedades democráticas é o de garantir direitos


fundamentais, resolvendo controvérsias e adequando os atos constituídos aos preceitos
previstos constitucionalmente. No caso do diploma de jornalista, a exigência que pretendia
manter certa qualidade e preparo técnico de jornalistas acabava por se demais rigorosa, a
ponto de violar seriamente o direito fundamental à comunicação e à liberdade de
expressão, o núcleo fundamentador do direito de manifestação seria reduzido à
consequência da posse de um diploma que, de fato, não é necessário para um bom
exercício profissional. A decisão tornou-se fundamental por possibilitar a livre expressão
dos sujeitos independentemente de pré-requisitos, como um diploma. Mais importante
ainda porque os já mal distribuídos recursos para comunicação social, manter-se-iam ainda
mais no caso de jornalistas que não poderiam exercer a profissão em virtude de uma
exigência inidônea frente aos fins que se pretendiam, mais uma vez mostrou-se a Suprema
Corte como extremamente garantista e com uma concepção substantiva dos direitos
fundamentais.

3.1 Influências sobre a vida pública


Conforme Kang (2012), deve-se considerar que o amplo acesso às informações
políticas relativas aos governantes e aos representantes não garante o desenvolvimento de
uma democracia representativa. Pelo contrário, enfraquece-a, pois tende a afastar os
cidadãos do palco de discussões políticas fazendo-os crer que basta estarem fixados em
frente a uma tela de televisão que estarão fiscalizando e analisando o andamento do
mandato político do representante no qual votou. “Os parlamentos estão ficando
despovoados ao mesmo tempo em que os teatros” (p. 68), pontua precisamente o autor.
É claro, essa política mediada, acompanhada ao longe, não é suficiente, pois o

108
desenvolvimento de um regime democrático ocorre quando do necessário engajamento dos
cidadãos na vida pública, discutindo problemas e formando cidadãos efetivamente atuantes
sobre suas próprias vidas. Abrir mão dessa participação e render-se à mídia é arriscado por
causa, inclusive, da possibilidade de manipulação das imagens de poder que são por ela
transmitidos (KANG, 2012, p. 69).

4. PROPOSTAS DE AÇÃO
4.1 A importância da Constituição
Enquanto documento político fundamental, a Constituição carrega consigo os
valores de dada comunidade política, no sentido de dar força e hierarquia de caráter
jurídico controlando e direcionando os atos tanto dos particulares quanto de cada uma das
funções estatais. Informada por um núcleo de princípios fundamentais, todas as normas
constitucionais guiam tanto a criação de leis quanto a adequação destas com a Lei Maior,
assim, ainda quanto a suas funções:

Qualquer Constituição democrática é passível de ser analisada sob três


perspectivas no que diz respeito à questão da comunicação e da
informação cidadã. A primeira e mais óbvia é que ela pode ser vista como
um mapa do poder, pois permite identificar as diferentes estruturas do
Estado, e, nesse sentido, cumpre uma função descritiva. Mas há também
uma segunda perspectiva: a parte normativa, já que, além de identificar os
distintos poderes, a Constituição estabelece os limites ao exercício de
cada um deles, especificando os assuntos que o Executivo e o Legislativo
devem cumprir e indicando os procedimentos que devem ser seguidos
para a sua própria revisão ou para a modificação das leis. Além do seu
papel descritivo e normativo, a Constituição é, sob uma terceira
perspectiva, geradora de valores, como os familiares, os comunitários e
os democráticos, uma vez que, com base na tradição e na interpretação
jurisprudencial, é preciso de um marco valorativo que em linhas gerais
oriente um tipo de sociedade" (RÍOS, 2012, p.346).

Dispõe o §1º, da Constituição (1988): “Nenhuma lei conterá dispositivo que possa
constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de
comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV”. Acontece que
existem obstáculos simbólicos causados pela concentração dos meios que conseguem
atingir, dominar e influenciar diretamente uma gama maior da sociedade, pelo próprio
desenvolvimento tecnológico conseguem alcançar um maior raio de abrangência das

109
comunicações. Resta, então, que, apesar de estar regulada constitucionalmente, a mídia
como se conforma atualmente não possibilita o desenvolvimento de potencialidades
democráticas, não se conformando, portanto, ao regime trazido pela Constituição de 1988.

4.2. Formação de sujeitos comunicadores


Emerge, também, a importância das escolas no preparo de comunicadores sociais.
Incentivar mecanismos de coleta, preparo e difusão de informações em meios como jornais
e rádios escolares para discussão de variados assuntos, com plena participação e
protagonismo dos estudantes. Preparar, dessa forma, as pessoas para a crítica da
comunicação, relativizar a manchete de determinado jornal, comparando-o ao outro,
questionar sobre a efetiva realidade em comparação com o que nos é passado pela televisão
e os demais meios de comunicação do cotidiano (GUARESCHI, 2001).
O papel das escolas, assim, constitui-se como instituição formativa de sujeitos
ativos na comunicação na sociedade, o direito à comunicação não se exaure quando do
recebimento da comunicação, mas, sobretudo quando podemos exercitá-la ativamente,
expressando nossas ideias e formas de pensar. “Temos o direito a uma comunicação ativa e
não passiva. Temos o direito de sermos sujeitos e não apenas objetos da comunicação”
(GUARESCHI, 2001, p. 157).
Com todas essas etapas é que se pode falar de direito à comunicação, de expor
suas ideias, suas visões de mundo, de atuar como sujeito ativo de comunicação. O
incentivo ao direito de comunicação, desde a formação escolar está na base de uma
sociedade plural e democrática. Buscando-se em outras fontes, as fontes de comunicação
alternativa, cultivadas e qualificadas desde cedo, possibilita-se uma maior gama de
informações e visões dos problemas que existem, quebrando a visão dominante, voltada a
interesses obscuros (GUARESCHI, 2001, 157-160).

4.3 Meios legislativos de desconcentração


Ao poder legislativo cabe nova regulamentação no sentido de se desconcentrar o
regime de concessões públicas (MIGUEL, 2003, p. 134). É preciso, no entanto, não ser
ingênuo para acreditar que os legisladores procederão dessa forma, considere-se que os
lobbies da mídia estão bem representados nas instâncias político-representativas, além do

110
que não se pode desconsiderar que a desconcentração pode não interessar politicamente
(fala-se aqui das imagens políticas como são passadas pela mídia no atual contexto) a
determinados partidos políticos e políticos profissionais.
Com essas ressalvas, faz-se necessária a ação proativa de instituições da sociedade
civil comprometidas com o regime democrático e com o direito humanos à comunicação,
em prol da propositura de iniciativa popular de lei conforme o inciso III do artigo 14 da
Constituição (1988) e uma consequente pressão popular para aprovação de nova
regulamentação que não apenas desconcentre a mídia, como também viabilize
juridicamente os incentivos para a formação de núcleos comunitários de comunicação,
adequados a cada particularidade social, complementando-se esse instrumento com os
conselhos de participação popular regional, vinculando-se as deliberações dos cidadãos
diretamente envolvidos às decisões tomadas e ações promovidas pelo Estado.

Considerações finais
Reunindo seu entendimento sobre a Ética Aristotélica, ensinamentos bíblicos,
mitologia nórdica e sua sincera vontade contar uma boa história, J.R. R. Tolkien criou um
clássico para todos aqueles que procuram se aventurar em uma terra que fascina pelos seus
personagens, prende o leitor pelas descrições de belas paisagens e emociona pelo
prevalecimento do Bem sobre o Mal. “O Senhor dos Anéis” é uma obra que ficará para a
posteridade como o grande marco da literatura que juntou recursos literários
extraordinários como profundos ensinamentos morais que não se limitam somente para
aqueles que acreditam que de fato há uma recompensa no fim de tudo. Mas possui grande
valor também para todos que procuram enfrentar da melhor maneira possível essa jornada
chamada vida.

Referências
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil:
promulgada em 5 de outubro de 1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaoCompilado.htm>.

BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário n. 511.961 de 2009.


Disponível em: Disponível em
<http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=605643> Acesso
em: 14 mar. 2014.

111
GUARESCHI, Pedrinho Arcides. Mídia e cidadania. Conexão - Comunicação e Cultura,
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disponível em <http://www.scielo.br/pdf/nec/n93/n93a06.pdf>.

MELO, José Marques de. Jornalismo Político: Democracia, Cidadania, Anomia. Trad.
Flávio Marques Prol. Revista FAMECOS, Porto Alegre, nº 35, abril de 2008,
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ampliada da representação política. Rev. bras. Ci. Soc. [online]. 2003, vol.18, n.51, pp.
123-140. Acesso em 02 março 2014. Disponível em
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MORAIS, José Luiz Bolzan de; STRECK, Lenio Luiz.Ciência política e teoria geral do
estado. Porto Alegre, Livraria do Advogado, 2000, p. 83-92.

NEUMANN, Franz. O conceito de liberdade política. Cadernos de Filosofia Alemã:


Crítica e Modernidade, n. 22, pp. 107-154, 2013.

RÍOS, Aníbal Sierralta. A revolução tecnológica dos meios de comunicação e os desafios


do direito e da democracia. Meritum. Belo Horizonte, v. 7, n. 1, p. 09-14, jan./jun. 2012.

112
Anúncios e propaganda no Jornal “Estrella do Amazonas” (1854-1859)47

Fábio Rodrigo Severiano GUELBER48

RESUMO: O referido artigo busca investigar através dos anúncios presentes no jornal
Estrella do Amazonas, representações da sociedade amazonense no período inicial da
criação de sua província e o inicio da imprensa amazonense no período de 1854 a 1859. A
relevância de analisar o jornal “Estrella do Amazonas” está no fato de ser o primeiro jornal
da província de grande circulação, sendo esta também recém-criada, em 1850.
Compreendendo o desenvolvimento da imprensa amazonense com o desenvolvimento da
cidade de Manaus. Analisar a importância de utilizar as fontes hemerograficas, sobretudo à
parte relacionada aos anúncios, desvendar os hábitos dos cidadãos, no seu cotidiano,
explorar as propagandas como fontes para compreender os objetos de desejos, as
necessidades e trocas entre a população local.

PALAVRAS-CHAVE: Propaganda; Imprensa; Império; Amazonas.

A cidade e o jornal
A criação do jornal Estrella do Amazonas está atrelada ao surgimento da Província
do Amazonas. O jornal surgiu com o nome de “Cinco de Setembro”, pois, visava
exclusivamente à comemoração da elevação da categoria da Província do Amazonas, no
qual a lei 592, de 5 de setembro de 1850 separava, a antiga comarca do Alto Amazonas da
Província do Grão-Pará. Em 1854, houve a mudança de nome do jornal de cinco de
setembro para o Estrella do Amazonas.
A recém-criada Província segundo Arthur Reis continha aproximadamente 29.798
indivíduos, e um “insignificante o contingente africano”, o que não condizia com a grande
frequência dos anúncios de escravos fugidos, que serão analisados no capitulo seguinte. A
província, até a proclamação da República, teve a gerencia de trinta presidentes e dezesseis
vice-presidentes, que estiveram em exercício vinte e oito vezes, todos descritos pelo autor:

Inaugurada a Província, os homens que vieram tomar-lhe a direção


receberam um encargo pesado, porque era preciso criar tudo, num meio

47
Trabalho apresentado no Grupo Temático Publicidade e propaganda e Relações Públicas, que integra o 3º
Encontro Regional Norte de História da Mídia, realizado na Universidade Federal de Roraima, nos dias 10 e
11 de abril de 2014.
48
Mestrando no Programa de Pós Graduação em História pela Universidade Federal do Amazonas (PPGH-
UFAM). E-mail: fabioguelber@hotmail.com

113
onde se obtinham com dificuldade as coisas mais comezinhas noutras
partes (REIS, p. 196).

Apesar de o Amazonas ter sido elevado à categoria de província em setembro de


1850, a instalação de fato só ocorreu em 1 de janeiro de 1852, quando chegou a cidade seu
primeiro presidente, João Baptista de Figueiredo Tenreiro Aranha. Com ele a imprensa se
fez importante e necessária na região, convidou Manoel da Silva Ramos, tipógrafo, natural
do Pará, para se estabelecer em Manaus, responsável pelo jornal de 1852 a 1857, mudança
ocorrida em 1857 a 1865. Em que o diretor foi seu irmão Francisco José da Silva Ramos.Já
com o nome de Estrella do Amazonas teve aumento do seu formato em 1864, com áreas
políticas desenvolvidas as seções comerciais e de noticias ampliadas, foi publicado até 30
de junho de 1865.
O jornal trazia na sua primeira página, o brasão das Armas do Império entre seu
nome, seu formato era de 18 x 26 cm, tendo quatro paginas e duas colunas em um caderno,
o local de publicação era a Rua Fortaleza e a Rua Manaus (figura 1).

.
Figura 1: Frontispício– Jornal Estrella do Amazonas
Fonte: Setor de microfilmagens (Laboratório de História da Imprensa no Amazonas, 2013).

O jornal se tornou realidade, principalmente para justificar e dar legitimidade para


a recém-criada província, por isso seu conteúdo era quase que exclusivamente político,
com os editais do governo, os discursos do presidente de província e noticias do império e
os avisos, tema central do artigo.

A imprensa, até 1870, interessando-se quase que unicamente pelos


assuntos partidários ou pelos problemas econômicos e materiais da
Província, não oferecia feição agradável. Os jornais eram pesadões,
escritos em linguagem violenta, deixando de parte o noticiário local.”
Sofrendo melhoria a partir de 1870 (REIS, 1998).

A economia da região estava baseada no extrativismo vegetal, produtos como a


mandioca, o tabaco e o algodão. Devido à falta de investimentos na região e sua cultura

114
indígena de subsistência não havia um maior desenvolvimento das lavouras. A mão de obra
era quase que exclusiva de indígena. Tornando as atividades manufatureiras, no ligadas ao
extrativismo dos produtos retirados da floresta. Outra dificuldade já citada era a falta de
mão de obra especializada, para os mais variados tipos de trabalho na cidade.

Em 1853 as atividades mencionadas além da extração dos produtos


vegetais são a pescaria e a salga do peixe, a fabricação da manteiga de
peixe boi e dos ovos de tartaruga e a tecelagem de redes de algodão de
palha e de fibras diversas palmeiras. Em 1855 foi considerada a existência
de uma fabrica de chapéus com serias dificuldade de funcionamento por
falta de operários (ibid, p. 4).

No comércio, setor recorrente nos avisos, o maior problema era devido às


distâncias, com as quais a cidade se encontra em isolamento até os dias de hoje com os
grandes centros econômicos do país, por via terrestre. Todos os produtos tinham saída
pelos portos paraenses, dificultando a negociação direta de produtores e exportadores. A
sua ligação com o resto do país e o mundo se dava através do Pará.

Sem ligação direta com os mercados externos, em função do seu


isolamento, da grande extensão territorial, das grandes distâncias e as
dificuldades de comunicação. A vinculação da região do Rio Negro com a
atividade exportadora se fez, portanto através do Pará (LIMA, 1978).

A população na Barra do Rio Negro era de maioria indígena, sendo seus jornais
publicados para uma minoria branca. Outro agravante para a introdução nos jornais na
região do jornal era o domínio da língua portuguesa, com uma população indígena de
tradição oral, os periódicos não tiveram grande impacto na realidade desses povos.

Em 1852 a população branca de Manaus, capital da recém criada


Província do Amazonas, mantinha percentuais ainda mais baixos.
Enquanto a população total era estimada em 8.500 habitantes, os
moradores brancos somavam apenas 900 almas( ou 10,5% do total),
contra 2.500 mamelucos, 4.080 índios, 640 mestiços e 380 escravos
negros (PINHEIRO, 2001).

Maria Luiza Ugarte Pinheiro analisa o florescimento do periodismo no Amazonas,


estando ligado a um conjunto amplo de fatores, indo desde uma conjuntura econômica em
expansão até a lenta ampliação dos espaços da cultura letrada no interior da sociedade
local.

115
Ao analisar o surgimento e a dinâmica da imprensa no Amazonas,
perceber não só as limitações estruturais, mas também as estratégias
empreendidas pela cultura letrada para se impor dentro desse contexto
cultural adverso. (...) como a utilização de novas linguagens- humor, a
charge e a caricatura- no interior do periodismo pode se constituir em
mecanismo que expressam não só tensões, mas também mediações com o
universo oral local (Ibid. p. 55).

Com isso os estudos da sociedade através dos anúncios como fonte, se torna uma
forma de reconstruir a história de uma cidade, dos seus conflitos, interesses e grupos
sociais. A imprensa assume um papel importante principalmente os jornais oficiais, como o
caso do Estrella do Amazonas, mas mesmo esses periódicos acabam por no seu interior
deixar lacunas e contradições, que em nosso caso é a coluna Avisos às quais acabam
denunciando seus reais interesses que na maioria das vezes eram os mesmos interesses do
governo. Implantar uma sociedade civilizada, que encontrava no modelo europeu seu
reflexo.

Nessa época, em fins da década de 50, a região possuía ainda uma


economia com pouco destaque e com aspectos urbanos ainda acanhados.
Isso não impedia que a incipiente população local não sentisse a
necessidade de se sintonizar com o que ocorria de moderno na corte e nos
outros centros urbanos considerados mais importantes, como Paris. Dessa
forma, é interessante notar que, mesmo que havendo somente um esboço,
existia a preocupação, pelo menos de uma parte da população, sobre a
necessidade de se identificar com esse modelo de lazeres, de vida e
convenções sociais provenientes da Europa (VILLANOVA, 2008, p. 49).

A importância da propaganda
Analisando os anúncios e propagandas, compreendemos as transformações urbanas
que a cidade sofreu como anúncios de venda e aluguel de imóveis em bairros que antes não
existia, a herança indígena presente nas construções anunciadas como casa com telhas de
palha e feitas de madeira, identificamos as mudanças sociais da elite como a busca por
produtos estrangeiros sempre a anunciados nos armazéns da cidade, que não poupavam
esforços para informar a origem estrangeira dos produtos, propagandas de aulas
particulares de francês, a fuga de escravos apresentando uma sociedade escravocrata como
no resto do Brasil, os reclames apresentam uma sociedade em transformação.

116
A mensagem veiculada pela propaganda e publicidade passou a
conformar a mentalidade do período, tarefa estimulante numa sociedade
em transformação, na qual pululavam valores, na sua maioria alienígenas,
em competição sistemática com o momento de recuperação e valorização
de nossas origens (MARTINS, 2001).

A historiografia a cerca dos anúncios de jornais como fontes de pesquisa, ainda


são relativamente tímidas, encontramos o artigo de Denise Sant’Anna sobre a Propaganda
e História: antigos problemas, novas questões, em que a autora informa sobre a utilização e
receios da utilização desse tipo de fonte. Apresentando as dificuldades metodológicas de se
lidar com esse tipo de fonte e suas vantagens.

A propaganda como fonte de estudo ainda suscita duvidas metodológicas


importantes, referentes, por exemplo, à analise das ilustrações, varias
vezes acompanham os anúncios, à compreensão do texto escrito, ora
longo, ora extremamente breve, e à relação entre texto e imagem. Há,
ainda, o desafio de estudar os clichês e as palavras de ordem repetitivas,
tão frequentes em propaganda, e que podem dar a errônea impressão de
que sua produção se situaria fora da história (SANT’ANNA, 2007).

Estudar a propaganda requer a um estudo mais amplo, não só a analise do discurso,


mas a necessidade de compreender, a história dos meios de comunicação, da imprensa e
semióticas dos avisos. Sant’Anna informa que ao estudarmos os anúncios temos que
analisar questões para deles “Somente desse modo escaparíamos à tentação de dar conta de
todo um período histórico ou de todos os significados contidos num mesmo anúncio ou
numa mesma serie de anúncios (IBid. p. 94)”. As perguntas que surgem referidas as fontes
com o objeto de estudo e inúmeras relações entre elas, devem ser analisadas ao longo do
estudo da fonte.
Heloisa de Faria Cruz em A Cidade do Reclame: propaganda e periodismo em São
Paulo (1890 – 1915) Analisa o papel da publicidade no processo de formação do publico
leitor.A autora informa a importância de pesquisar essa fonte “a historicidade das relações
entre propaganda e vida social apresenta-se como um campo aberto à indagação e à
pesquisa” (CRUZ, 1996, p. 81), levando a compreender o leque aberto de compreender a
sociedade pelos anúncios. A autora compreende a importância “de que o lugar da imprensa
na reestruturação da esfera pública burguesa e sobre o papel da publicidade no processo de

117
formação dos públicos e na popularização do periodismo e da cultura letrada”.
Assim com o aumento da popularidade dos jornais e de como eles vão ganhando
espaços na historiografia. Tornando a propaganda um campo vasto de estudos e
interpretações tendo várias funções sócias, e maneiras de compreender um determinado
espaço e tempo, como Bahia descreve.

O anúncio é uma das mais antigas formas de comunicação social. Ele


antecede a própria organização do comércio e tem suas origens nas
primeiras manifestações conscientes do home para persuadir o vizinho
(BAHIA, p. 283).

Os reclames
Os anúncios analisados no referido trabalhos, foram coletados no arquivo digital do
LHIA - Laboratório de História da Imprensa no Amazonas, estando microfilmados e
digitalizados. Os jornais Estrella do Amazonas, que estão nestes arquivos vão de janeiro de
1854 a dezembro de 1859. Respectivamente do número 73 ao 421. Segundo Juarez Bahia,
os anúncios, antes de 1915 ainda era simples e diretos, as gráficas ainda não possuíam
maquinários que possibilitassem uma maior complexidade dos reclames.

Entretanto, as técnicas de publicidade, como são desenvolvidas


modernamente pelas agências especializadas, só depois de 1915
começam a ser praticadas. Predominaram ainda por longo tempo os
recursos primários e diretos do anúncio classificado ou da comunicação
formal, que desprezava a valorização da mensagem, como na informação
oficial ou na pura e simples transmissão de um aviso (Ibid. p. 168).

Os anúncios do Estrella do Amazonas em sua maioria são de estruturas simples,


poucas linhas, os chamados “tijolos”, quadrados e sem muita expressão, porém existem
reclames maiores e com desenhos.

Até então, na imprensa diária, na forma de classificados, quase pregões-


vende-se, procura-se, oferece-se- que na maioria das vezes, consistiam
em pequenas notas e/ou declarações de pessoas “de autoridade”
discorrendo sobre as qualidades de produto, a variedade do sortimento de
alguma casa comercial, as vantagens de um serviço prestado e as
características de um objeto perdido; ou ainda como “tijolo”comerciais
arrumados sem menor cuidado na ultima contra-capa, a propaganda
pouco evoluía (CRUZ, 1996, p. 85).

118
Quem era o público anunciante da cidade de Manaus? Podemos identificar a partir
dos principais prestadores de serviços na época como sendo os anunciantes, mesmo com
um número pequeno de comerciantes os anúncios eram frequentes. Ao longo da analise dos
reclames identificamos esses poucos estabelecimentos comerciais.

Uma ideia das limitadas dimensões da economia amazonense neste


momento inicial, basta lembrar que , em 1864, dos 69 estabelecimentos
comerciais localizados na capital da Província (Manaus), nada menos que
55 eram compostos de pequenas casas comerciais varejistas.” Pg 66 os
restantes era 1 botica, 1 escritório comercial, 1 hospedaria, 2 alfaiatarias,
2 açougues, 3 lojas de sapateiros e 4 padarias (PINHEIRO, 2001, p. 66).

A respeito da educação, um dos grandes problemas da região devido à oralidade e a


pouca fluência da língua portuguesa, devido aos idiomas indígenas. Deparamo-nos em
anúncios de aulas particulares e as oferecidas no seminário público, onde o português não é
oferecido em aulas, mas o francês, geografia e história. Aulas de música aparecem com
dias e horários. O que comprova o descompromisso com o ensino na região.

A pequena elite letrada existente em Manaus vinha de outras províncias, e


chegavam à região com uma educação estruturada, como era o caso dos
governadores. Os que aqui nasciam realizavam a instrução fora da
província do Amazonas, já que a composição básica da escola pública era
deficiente, fazendo com que famílias não poupassem esforços para levar
seus filhos, até fora do país, visando à realização dos estudos. Por
conseguinte, o ensino particular e pago estava restrito a uma pequena
população. Os anúncios sobre aulas de línguas estrangeiras e instrução já
eram observados nos periódicos locais em fins da década de 60
(VILLANOVA, 2008, p. 76).

Reclames que fazem a distinção de gênero como do professor José Pedro


Paraguassú que ensina francês e português para meninos a 3$000 reis e sua “Senhora”
ensina português falado e escrito, Doutrina Chritã e costura a 2$000 mensais. Assim, como
os produtos destinados a homens e mulheres como na loja de Miguel Maria de Assumpçaõ
Lopes, tem para vender chapéus pretos para homem da ultima moda, cortes de chalin para
vestidos de senhora, analisando os anúncios dos jornais.
Outro anuncio que aparece frequentemente são os avisos de saída e chegada de
navios a capital, vindo geralmente de Belém. Barcos que traziam muito dos produtos
comercializados nos jornais. Frequentemente apareciam imagens nesses anúncios de
pequenos barcos a vapor, ao lado direito da propaganda.

119
Os secos e molhados que eram os produtos como cal, sal, manteiga, bolacha
inglesa, açúcar, os artigos secos e molhados, a farinha que vinha do Pará,vendida a bons
preços na Costa & Cª eram oferecidos em armazéns (Estrella do Amazonas. Manaus, 18 de
jul. 1854). Os anunciantes informavam as trocas de nomes e donos das empresas
anunciantes, como ocorreu com a Costa & Cª que em dois anos informa que se chamaria
de Antonio Joaquim Costa & Irmão, seus produtos continuaram no ramo de armarinhos e
estivas em geral.
A maioria dos anúncios apresentava o preço dos produtos, o que permitia deduzir
o poder de comprar das camadas mais abastadas, como o aviso do número 133 da loja do
legitimo barateiro Antônio Joaquim da Costa & Irmão, há para vender as seguintes
mercadorias, a dinheiro à vista, chegados ultimamente no vapor Tabatinga, pelos módicos
preços seguintes: riscadinhos encarnados de quase uma vara de lavoro a 320 réis o côvado,
ditos de cores a 280 réis, ditos a crimeia a 240 réis, ganga azul a 200 réis, riscados
americanos para calça ou camisa a 240 réis o côvado, cortes de cassa larga a 3$000, dril de
linho pardo muito superior a (340 réis o côvado, riscadinhos franceses de bom gosto para
camisas a 240 réis, ditos de outros gostos a 220 réis, lenços de cor para pescoço ou
algibeira a 400 rés e a 320, dril de lista para calças a 400 réis o côvado, ditos de algodão e
linho a 640 réis o côvado, chita fina a 240 réis o côvado, e outras muitas fazendas e
miudezas que se vendem muito barato, e a vista faz fé.O que podemos constar a chegada
de navios vindo de outra região que não do Pará, com produtos variados.
Lojas de produtos importados não poupavam referências à exclusividade dos seus
produtos, como na loja do barateiro Miguel Maria d'Assumpção Lopes, na Rua de Manaus,
tem para vender um completo sortimento de molhados, á saber; manteiga inglesa, 1200 a
libra; boião de doce de Lisboa de todas as qualidades e outros muitos objetos, que se
venderão por pouco dinheiro. Na mesma loja em anúncio de agosto do mesmo ano, relata a
venda de chapéus vindo do Chile e franceses para homens de vários preços. Alguns
informavam a marca, para destacar a qualidade superior, a carne seca de Obidos, o cal de
Sarnamby,vendido na Loja de Leonardo Ferreira Marques, no mesmo reclame anunciava a
compra de escravos de 18 a 30 anos de idade. Sendo esse anunciante o reclame que mais
se repetiu um total de 7 vezes, foi o da loja de Leonardo Ferreira Marques, bastante longo
com uma media de 40 linhas por anuncio, em que o destaque estavam em anunciar os

120
produtos que acabaram de chegar da França, como uma grande variedade de louças em
porcelanas, chapéus de pelo de seda para homens e de sol para mulheres, tecidos
diferenciados como Sarja de seda, cetim, pano de chitas, linho e algodão. Apresentando
uma sociedade que se espelhava nas sociedades europeias.
O próprio jornal antes do anuncio em julho de 1856, faz um comentário sobre o
grande numero de embarcações e achegada de produtos ao comercio da cidade.

O nosso commercio vai parecendo animar-se. Durante a quinzena tem


estado o nosso porto coberto de embarcações, que de todos os pontos da
província vem trazer a capital os productos naturaes ou manufacturados,
que devem alimentar as permutações ela nossa praça, permittindo-nos
uma exportação vantajosa.A respeito do commercio muito teríamos a
dizer se não temêssemos fátigar o leitor. E nos guardamos para o fazer em
um artigo especial. E por hoje bastado palestra. Faço as minhas despedida
a familia por estes quinze dias, desejando a todos muita ventura (Estrella
do Amazonas. Manaus, 3 de julho de 1856).

Em muitos anúncios de compra e venda, não eram identificados os vendedores,


sendo postado que era para o interessado se dirigir a tipografia, que seriam informados
sobre os relativos compradores e vendedores. Como compra de montaria, armação de loja
envidraçada, uma montaria possante, banheira, embarcações. No número 157 há a seguinte
publicação: N'esta Typographia-se dirá quem vende uma rede de lancear peixe-boi, grande
e nova. No número 161 há venda de uma banheira, compra de uma montaria.
As fugas de escravos aparecem recorrentemente, muitos trazem o nome e os
donos, a descrição física dos negros fugidos, como baixo e gordo, espigado e alto, a costa
marcada por ter sido castigado, no numero 131 de 1856 o escravo do Alferes Miguel
Gabriel Baptista, morador no lago grande de Villa Franca, havia fugido o seu escravo
Fidelis de 19 anos, baixo, grosso do corpo, dentes podres, sem que tenha falta d'algum na
frente; fala pouco, anda vagaroso; tem as nádegas surradas, e na perna esquerda, para a
parte de dentro e 3 dedos á cima do tornozelo, uma picada de arraia cicatrizada, é mulato.
Uma descrição detalhada dos cativos fugitivos.
Alguns o ato da fuga são bem descritos como ocorre no número 128, que
descreve a fuga da escrava Joaquina que pertencia a Antonio Jose Lopes Braga,escrava de
18 anos, altura regular, gorda e bem parecida, e é muito falladeir, teria fugido as 8 horas da
noite do dia 21, teria fugido com um vestido de chita rosa e camisa de riscadinho rosa
também. O relato “desconfia” que a escrava teria sido seduzida por um índio de nome José
121
Maria, o qual teria fugido da Escuna do Sr. França, o dono da escrava era o Luiz Antonia
Lopes Braga morador na Rua dos Mercadores,afirmava que gratificava e protestava contra
quem ajuda-se na fuga da cativa. O que comprovava a pratica de escravidão na região

No entanto, essas mudanças se processavam em nosso país, e


especificamente em Manaus, de maneira aparente, vistas nas roupas, nos
modos de portar, nos espetáculos teatrais. Embora houvesse modificações
na estrutura econômica e social, prevalecia ainda uma grande distância de
um ideal civilizador e modernizador diante da realidade local. Isso
persistia na escravidão do negro, na exploração do indígena e na estrutura
da sociedade, que era hierarquizada, violenta e desigual (VILLANOVA,
2008, p. 65).

Era comum a repetição de avisos, porém esses raramente passavam de três jornais
repetidos, a casos, porém, que superam essa marca, e ao longo eles também eram
modificados, no número 157, a loja do legitimo Barateiro no reclame já avisava “tem para
vender alem dos objetos já anunciados”, dando uma continuidade aos anúncios anteriores.
Há lugares na cidade que se destacam nos anúncios como o largo da Imperatriz, a
onde ficava o hotel da Confluência que oferecia refeições a qualquer hora do dia e na casa,
os fregueses podem contratar para terem comida na sua caza, hotel também tem seu lado
caridoso e aos domingos e dias santos serve chá da noite às 7 horas grátis. A padaria que
ficava na mesma região, informava que tinham pão fresco, bolos e biscoitos todos os dias,
e que recebiam qualquer encomenda dentro e fora da Capital. Na Rua do Oriente a loja de
Miguel Maria de Assumpção Lopes vende charutos a caixa e a unidade, como também o
pirarucu. Na Rua Brasileira a loja de Mendonça, Leão & Cia. Apresenta um dos primeiros
anúncios do jornal com um bordão em que aparece a imagem de uma mão apontando para
a frase BOM E BARATO.O reclame ainda é bem estruturado com a separação dos produtos
conforme seu publico alvo, como os livros e materiais escolares destinadas aos JOVENS
ESTUDANTES, livros de variadas matérias. Ele pulava uma linha e continuava PARA O
BOM TOM pulando outra linha descrevia que continha óleos para perfumes, banha,
pomadas, boa massa e superior manteiga de vaca. O bordão surge novamente no número
154 com as mesmas mãos apontando para o enunciado Mais barato que nunca, na bem
conhecida loja do legitimo barateiro ha á venda os seguintes objetos chegado ultimamente
na Barca Rio Negro, a saber. Outro lugar de vendas de livros é o bazar Amazoniense que
publicava em meio de outra mercadoria os manuais enciclopédicos métodos facílimos para

122
as escolas do ensino primário, cartilhas de Sarmento e Pimente (Estrella do Amazonas.
Manaus, 25 de junho de 1856).
Os estilos de moradia aparecem nos anúncios do período. Apresenta-nos como as
moradias estão ligadas a cultura indígena. Como o que ocorre em novembro de 1854, de
uma casa a venda coberta de palhas, e quarto de telhas, com bastante acomodações para
uma família. Como o anúncio de venda de casas e sítios nos Tarumans. No número 125 de
novembro de 1855 é anunciada uma casa velha cuberta de palha, com frente para rua da
Lua, canto e frente para o Igarapé. No mesmo jornal a respeito da venda de casas um
anuncio que chama a atenção é o de Anna Joaquina da Silva que informa que sabendo que
seu marido Flauzino Jose de Trintade pretende vender uma casa que eles possuem no lugar
da Boa Vista, previne que ninguém contracte a compra da dita caza pois que nella não
concorda a annunciante. No número 192 é posta a venda uma casa de palha na Rua
Mánaos.

As cidades coloniais, mesmo durante o império, em especial aquelas que


estavam longe da grande produção dos produtos exportadores (e Manaus
se incluía nesse contexto), possuíam características predominantemente
rurais. A maioria dos núcleos urbanos, de acordo com os viajantes, ou
segundo sua visão, possuía um aspecto descuidado, sendo imprecisa a
separação entre as zonas rurais e urbanas. Era corriqueiro animais
pastando pelas ruas, abastecimento de água feito pelos rios ou igarapés,
ruelas sem iluminação, construções feitas de taipa e palha
(VILLANOVA, p. 43).

No número 168 encontramos a venda de um sitio denominado ouvidor, com


árvores frutíferas e com posse de um quarto de léguas de frente com uma pequena casinha
de vivenda a margem direita do Rio-Negro, muito próximo a está cidade, os interessados
deveriam comparecer a tipografia para saber com quem tratar. Não era muito comum
anúncio sobre alugueis, porém, eles existiram como do número 198 Aluga-se um quarto de
casa na travessa da Olaria desta cidade e os interessados teriam que ir à tipografia saber
quem era o anunciante.
A venda de remédios já aparecia nos aviso, não foram constantes nos periódicos
analisados. Um interessante foi o Balsamo Homogeneo-Simpatico de Pedro Garbazza(
cirurgião italiano) produto aprovado em Roma, Milão, Rio de Janeiro e outros, curava
feridas de todos os gêneros, ulcera, escorbuto, sarna, erysipelas, reumatismo, inchações,

123
fraquezas nas articulações, queimaduras, fistulas, lombrigas, não exceptuando a tênia ou
solitaria, mordedura e picadas de qualquer animal o mais venenoso que seja,
irregularidade da falta de menstruação, etc. tudo isso na casa de Jeronimo Costa.
Remédios milagrosos, assim como o Xarope de Saúde do Chimico Arrantt O interessante
que o anuncio era feito pelo próprio fabricante o que indicava isso era que ele apresentava
os lugares de venda como as lojas de Francisco Antônio Monteiro Tapajós, Praça da
Imperatriz; e na do Legítimo Barateiro, Travessa do Oriente (Estrella do Amazonas.
Manaus, 21 de janeiro de 1857).
Podemos observar que a venda de bebidas na cidade, já era uma questão
consolidada, varias mercearias. As bebidas alcoólicas eram encontradas com facilidades
nos anúncios pesquisados, como na loja do Francisco Mendonça & Compª em que os
preços acompanhavam as mercadorias: a cachaça 12$000, o vinho tinto e branco a 2$000,
garrafas de licor a 8$000 (Estrella do Amazonas. Manaus, 15 de março de 1856), cabe
investigar o preço de a cachaça ser superior as outras, que pode estar ligado ao trabalho
extrativista, pois a pinga era um produto valorizado. No Bazar Amazoniense anunciava
bebidas de superior qualidades como o champagne, absinto considerada a bebida dos
artistas do final do século XIX, conhaque e outras muitas miudezas ultimamente recebidos
pela Barca Rio Negro (Estrella do Amazonas. Manaus, 28 de maio de 1856), na mesma
anunciava a venda de charutos. Na loja do barateiro Miguel Maria d'Assumpçao Lopes, na
Rua de Manaus, cerveja preta e branca; marca índia (Estrella do Amazonas. Manaus, 25 de
julho de 1856). Produtos consumidos por uma elite local, tendo em vista seus preços e
especificidades.
A sorte também era anunciada no jornal de julho de 1855 a loja do legitimo
barateiro vendia bilhetes de loterias de N. S. de Nazareth. Um aviso era feito por Joaquim
José da Silva Pingarilho que declarava ter perdido o Bilhete n.° 70 da Loteria de S.
Sebastião, por este motivo preveniu ao Sr. Tesoureiro da dita irmandade, para que no caso
de ser premiado o dito bilhete não entregue a outrem, o que lhe couber em sorte, visto que
ele é o seu verdadeiro dono, Manaus 21 de Janeiro de 1857.
As imagens não eram muito comuns nos reclames e eram bem rudimentares, no
número 141, encontramos três imagens a de uma embarcação, sobre a venda de uma
igarité, e imagens de dois escravos fugindo, sendo o primeiro um desenho de um escravo

124
fugindo descalço, usando camisa e calcas, com uma trouxa de roupas amarrada em uma
vara sobre os ombros. A partir desse número a quantidade de anúncios com imagens, teve
um significativo aumentou e continuou nos jornais, o jornal 142 apresenta três figuras, o
desenho de um prédio sobre o alugue da rocinha do aterro, a imagem de um veleiro para a
venda de uma “cobertinha” e a imagem que geralmente aparecia nas noticias de fugas de
escravos, de um escravo fugindo descalço, com calça e camiseta e sua trouxa de roupas,
porém, esse aumento não foi constante, sendo mais adiante alguns jornais não apresentam
imagens. Essas imagens se repetem em outros anúncios de produtos semelhantes, como no
número 145 em que a imagem do prédio é usada para vender um sitio. O interessante
dessas imagens, que elas apresentam produtos mais requintados dos que os propriamente
descritos nos avisos.
Objetos de trabalho como martelos para carpinteiros, ditos e colheres para pedreiros
eram anunciados e ferragens no bazar Amazoniense49. Interessante, pois mão de obra na
região era escassa. Segundo Otoni Mesquita o quadro de operários da província era
composto por um mestre de obras, oito pedreiros, três carpinteiros, dois oleiros, dois
aprendizes de ferreiro e quarenta trabalhadores sem ofícios. O anúncio era feito para esses
oito pedreiros e eles sabiam ler?Os anunciantes muitas vezes eram os próprios assinantes
do jornal, visto que no cabeçalho do jornal informava que os assinantes tinham direito a
vinte linhas.

Considerações Finais
Essa análise dos anúncios publicados no Estrella do Amazonas, abrem as portas
para compreensão do período e da sociedade, por intermédio dos seus produtos e serviços
oferecidos no inicio da província e em seu primeiro jornal.
O artigo abre espaço para que novos argumentos sobre a imprensa, buscando a
analise de diferentes pontos de vista, como a propaganda. Compreendendo que a várias
formas de se trabalhar com os periódicos na região norte, tendo em vista a carência de
trabalhos, que falem e utilizem os periódicos, o jornal Estrella do Amazonas tem muito a
ser analisado, tendo em vista que o trabalho analisou somente umas de suas seções.

49
Estrella do Amazonas. Manaus, 28 de junho de 1856.

125
Deixando de fora um vasto material, há necessidade de um maior aprofundamento sobre o
período Provincial no Amazonas.
O trabalho não se da por encerrado, pois ficaram muitas lacunas a serem
preenchidas, como uma melhor analise das imagens contidas nas propagandas as notas e
mensagens que vinham antes dos avisos, algumas eram poesias, outro mensagens de
anedotas, quais eram a relações dessas mensagens com a população e a reação deles com
elas. Ficando para estudos posteriores.

Bibliografia:
BAHIA, Juarez. Jornal, História e Técnica, história da imprensa brasileira. São Paulo:
Ática, 1990.

BARBOSA, Marialva. História Cultural da Imprensa: Brasil, 1800-1900. Rio de


Janeiro: Mauad X, 2010.

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126
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SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. Propaganda e História: antigos problemas, novas


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cidade de Manaus (1859-1900). Dissertação de Mestrado em História. Manaus.
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ZICMAN, Renée Barata. História Através da Imprensa: algumas considerações


metodológicas. Projeto História, nº 4. São Paulo: Educ, 1985, p. 89 –102.

127
Etnoperiodismo: estudos históricos sobre grupos étnicos, comunidades
imigrantes e minorias sociais no Brasil através da imprensa

Prof. Dr. Geraldo Sá Peixoto Pinheiro (CITCEM-UP/Portugal)50

RESUMO: Esta comunicação tem por objetivo construir um painel sobre a evolução dos
estudos históricos sobre grupos étnicos, minorias sociais e comunidades imigrantes no
Brasil. Destacando os trabalhos pioneiros de Roger Bastide e Gilberto Freyre, a primazia
de antropólogos e sociólogos com a problemática, até chegar ao momento em que esse tipo
de abordagem passa a conquistar espaços mais abrangentes entre os historiadores.

PALAVRAS-CHAVE: Historiografia; Etnoperiodismo; Imprensa.

Para efeito desta comunicação, e como advertência preliminar, uso o conceito de


etnoperiodismo como um termo aberto e provisório para designar um campo de estudos,
historiográfico ou não, que prioriza as análises sobre grupos étnicos, minorias sociais e
comunidades imigrantes através da imprensa, com perspectivas, instrumentais teóricos e
metodológicos advindos das modernas reflexões sobre etnicidade e/ou identidades étnicas,
culturais e nacionais. Visto por esse ângulo, e se considerarmos alguns trabalhos de
Gilberto Freyre, Virgínea Leone Bicudo e Roger Bastide, sua historicidade remonta à
década de 1940, mesmo que entre os historiadores brasileiros não deixa de ser uma
experiência recente, vivendo uma fase um tanto embrionária e circunscrita em pequenos
universos acadêmicos de muito pouca visibilidade e articulação até mesmo no âmbito do
expressivo campo disciplinar da História da Imprensa que passou a experimentar um
considerável avanço temático e teórico-metodológico a partir de meados da década de
1990.

50
Professor aposentado do Departamento de História da Universidade Federal do Amazonas e Pesquisador
do Centro de Investigação Transdisciplinar, Cultura, Espaço e Memória da Universidade do Porto, Portugal.
Trabalho destinado a participação no Grupo de Trabalho 5: Historiografia, sob coordenação da Profa. Dra.
Carla Monteiro.

128
Uma das primeiras abordagens por nós identificada foi realizada em 1947, quando a
socióloga Virgínia Bicudo publica um trabalho interessante sobre as atitudes raciais de
negros e mulatos na cidade de São Paulo, utilizando como fonte privilegiada de suas
análises o jornal “A Voz da Raça”, editado por um importante segmento de
afrodescendentes daquela cidade51. Mas será somente através das pesquisas do sociólogo
Roger Bastide que o tema adquire concretude e sistematicidade, sobretudo a partir de seu
estudo clássico sobre “A imprensa negra no Estado de S. Paulo”, publicado originalmente,
em 195152.
Não obstante a acolhida positiva que o trabalho de Bastide mereceu junto ao
pequeno e seleto grupo de sociólogos da Universidade de São Paulo que se constituiu em
sua volta, notadamente Florestan Fernandes e Maria Isaura Pereira de Queiroz que usaram
largamente a chamada imprensa negra como uma das principais fontes de suas
investigações, ele permaneceu insulado nos limites dessas abordagens53. Nem mesmo a
reedição que mereceu posteriormente, em 1973, foi capaz de alcançar os historiadores que
a partir de meados da década de 1970 começaram a trabalhar com materiais de imprensa
em larga escala, incorporando procedimentos metodológicos modernos e novas reflexões
sobre os jornais enquanto fonte exemplar para renovação do fazer história. Até hoje,
Bastide permanece desconhecido ou ignorado pelos historiadores da imprensa, incluindo
entre eles os que estão a direcionar os seus trabalhos de investigação para o atual campo do
etnoperiodismo, ou para a historicidade das relações entre História Cultural e imprensa.54
Perda lamentável, uma vez que Bastide, já naquela época, havia avançado muito e de
forma pioneira sobre alguns procedimentos metodológicos, hoje caros aos historiadores, de
forma bastante inovadora, inclusive incorporando reflexões também originais sobre a

51
BICUDO, Virgínea Leone. “Atitudes Raciais de Pretos e Mulatos em S. Paulo”. In Sociologia, São Paulo,
IX, 3, 1947.
52
BASTIDE, Roger. “A Imprensa Negra do estado de São Paulo”. Universidade de São Paulo, Faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras. Boletim CXXI, Sociologia, nº 2. Estudos Afro-Brasileiros, 2ª série, 1951.
53
Vale destacar aqui as investigações de Florestan Fernandes sobre a história do aparecimento dos jornais em
A Integração do Negro na Sociedade de Classe (1965) e de Maria Isaura Pereira de Queiroz sobre o
aparecimento da Frente Negra Brasileira e o cunho reivindicatório dos jornais da imprensa negra em
Coletividades Negras (1977). Apud. FERRARA, Miriam Nicolau. A Imprensa Negra paulista (1915-1963),
São Paulo, FFCH/USP, 1986 (Antropologia, 13).
54
Sobre as múltiplas dimensões da vasta obra de Roger Bastide “pontuando as convergências entre seu
pensamento e o de diferentes autores brasileiros pertencentes a diferentes matrizes de reflexão”, confira:
PEIXOTO, Fernanda Arêas. Diálogos Brasileiros: uma análise da obra de Roger Bastide, São Paulo, Editora
da Universidade de São Paulo, 2000.

129
natureza dos jornais enquanto fonte de análise e/ou objeto de estudo.
Na verdade, os procedimentos que Bastide usou transcenderam o seu próprio tempo
e, se aproximado dos entendimentos que existem, hoje, no âmbito do moderno campo
disciplinar da História da Imprensa ou até mesmo da História Cultural através da imprensa,
eles guardam a sua contemporaneidade e perfeita aplicabilidade. Prova desse caráter
precursor e instigante de Roger Bastide, é que para ele, diferentemente dos historiadores da
sua época, os jornais passavam a ser concebidos como expressão das representações, dos
sentimentos, das atitudes e das necessidades coletivas de um determinado grupo social ou
classe de indivíduos e, como tal, deveriam ser entendidos como fonte privilegiada nos
estudos de suas mentalidades coletivas. Foi ancorado por essa perspectiva que o sociólogo
francês se confrontou com os jornais da imprensa afro-descendente de São Paulo para,
através de uma análise criteriosa dessas fontes, “procurar a psicologia afro-brasileira”, um
dos temas cruciais de suas investigações no Brasil. Surpreendente, também, é que nesse
seu “artigo programa”, a perspectiva diacrônica é valorizada, quando divide com rigor a
“história da imprensa negra em três períodos”, que desenvolve de forma interessante,
mesmo que declare não ser seu objetivo oferecer um quadro histórico aprofundado dessa
mesma imprensa. Não menos interessante é a tipologia que desenvolve dessa mesma
imprensa, construída com profunda e invulgar acuidade, tornando-se bastante atual,
inclusive para os historiadores que hoje lidam com a problemática da imprensa étnica, de
imigrantes ou de minorias sociais:

Em primeiro lugar, raramente é uma imprensa de informação: o negro


letrado lê o jornal dos brancos; é uma imprensa que só trata de questões
raciais e sociais, que só se interessa pela divulgação dos fatos relativos à
classe da gente de cor. (...) Esses jornais procuram primeiramente agrupar
os homens de cor, dar-lhes o senso de solidariedade, encaminhá-los,
educá-los a lutar conta o complexo de inferioridade, superestimando os
valores negros, fazendo a apologia dos grandes atletas, músicos, estrelas
de cinema de cor. É, pois, um órgão de educação. Em segundo lugar, é
um órgão de protesto: e isso é verdade tanto na América do Sul como na
América do Norte; o preconceito de cor pode tomar formas larvadas, nem
por isso deixa de existir e mesmo que não exista, o negro crê senti-lo;
terá, pois, que se insurgir e o jornal lhe servirá para fazer ouvir seu
protesto. Outro caráter comum a toda a imprensa afro-americana é a
importância dada à vida social, às festas, aos bailes, às recepções, aos
nascimentos, casamentos e mortes,. Sem dúvida esse não é um dos
característicos próprios da raça negra; basta ler os pequenos jornais dos
brancos do interior para se perceber que é também um dos característicos

130
do que se poderia chamar de imprensa ‘provincial’. Mas, em ambos os
casos, a mesma exigência sociológica se exprime: a de mostrar seu status
social e sua honorabilidade. O fato de ser recebido em clube, de assistir
tal recepção é um critério que o localiza na ‘boa sociedade’ do lugar. O
negro deseja também provar ao branco que tem sua honorabilidade, que
tem sua vida mundana, que conhece as regras da polidez, em resumo, que
não é um selvagem, como querem muitos. E na imprensa de cor a
importância desta seção é ainda maior porque é justamente controlada
pela classe média ou classe elevada55.

Outra importante contribuição pioneira que merece igualmente destaque é o estudo


clássico que Gilberto Freyre realizou: “O Escravo nos Anúncios de Jornais Brasileiros do
Século XIX”56. Mesmo que se trate de obra originalmente publicada como livro em 1961,
sua trajetória enquanto tema remonta, segundo o próprio autor, a meados da década de
1930, quando, a partir de uma conferência proferida em 1934 sobre a questão, escreve um
ligeiro ensaio que publicou um ano depois, em 193557.
Diferentemente de Bastide, com pontos de vistas diversos e até mesmo conflitantes,
quer pela seleção e entendimento dos suportes analisados, quer pela perspectiva assumida
em relação aos aspectos metodológicos, Freyre pensa os jornais de maneira tradicional e
muito próximo dos historiadores da sua época que em suas buscas obsessivas por critérios
de verdade e objetividade, entenderam esses suportes como espaço da pura subjetividade,
carregados por linguagem imprecisa, inexata e sem a necessária idoneidade, inadequados,
pois, para sustentarem uma investigação cientificamente conduzida. Mesmo assim, para
conferir ao seu estudo o necessário valor científico, Freyre opera um curioso procedimento
com o objetivo de contornar a falta de confiabilidade e credibilidade dos jornais quando
usados em pesquisas históricas acuradas. Sua estratégia é simples, ou seja, procura amputar
do conjunto destas fontes a parte “podre de verdade”, invariavelmente representada por
todo o conteúdo editorialístico e prioriza, com exclusividade, a parte “sadia” representada
tão somente pelos anúncios contidos nos jornais, base vital para um novo campo de
conhecimento que chamou de “anunciologia”. Em outras palavras, Freyre entendia os

55
Cf. BASTIDE, Roger. “A Imprensa Negra do Estado de São Paulo”. In Estudos Afro-Brasileiros, São
Paulo, Editora Perspectiva, 1973.
56
FREYRE, Gilberto. O Escravo nos Anúncios de Jornais Brasileiros do Século XIX. São Paulo, Companhia
Editora Nacional, 1979.
57
Idem, p. LIX.

131
anúncios dos jornais como o único espaço desses suportes digno de análise e
suficientemente capaz de expressar fidedignamente verdades objetivas.

A análise de anúncios de jornais relativos a escravos veio trazer preciosa


contribuição para o esclarecimento de parte tão obscura da história desse
aspecto das relações do Brasil com a África negra. (...) veio permitir
chegar-se a importantes conclusões ou interpretações de caráter
antropológico quer psicossomático, quer de todo cultural, à base das
descrições oferecidas das figuras, falas e gestos de negros – ou mestiços –
à venda e, sobretudo, fugidos... Revela particularidades essenciais da
presença africana no Brasil. Abre perspectivas inesperadas. Sugere novas
abordagens de assuntos que se ligam à própria atualidade antropossocial e
cultural brasileira. Oferece base ou apoios para interpretações em
profundidade que vão além das já empreendidas58.

Na complementaridade desta sua perspectiva, Freyre faz uma instigante defesa do


conteúdo objetivo dos anúncios, tratando-os como expressão de evidências puras e
cristalinas da realidade. Em suas palavras: “A linguagem dos anúncios de negros fugidos,
esta é franca, exata, e às vezes crua. Linguagem de fotografia de gabinete policial de
identificação: minuciosa e até brutal nas minúcias. Sem retoque nem panos mornos”. E sua
explicação para tal é concisa: “quem tinha seu escravo fugido e queria encontrá-lo
precisava dar traços e sinais exatos”59.
Porém, fica claro que na analise “dessas retóricas diversas, em anúncios relativos a
escravos”, que Freyre não os tomou homogeneamente e, muito menos, se lançou sobre eles
de forma ingênua e acriticamente. Na verdade, questionou-os em seus fundamentos
epistemológicos e estabeleceu critérios e procedimentos metodológicos, dentre os quais, o
de evitar deliberadamente os chamados “anúncios de leilões”, ou de “trocas e vendas de
escravos” por onde poderiam fluir mentiras sutis ou até mesmo velhacarias. Daí o seu
alerta quanto ao modo de proceder com tais evidências:

Naturalmente é um material a ser usado com a maior das cautelas. Não


que os anúncios de venda de escravos deformem os fatos mais que as
notícias e os artigos de fundo. Suas mentiras são, porém, mais sutis. Por
precaução, raramente me utilizei dos anúncios de vendas ou leilões de
escravos60.

58
Cf. p. XIV-XV
59
Idem. p. 26.
60
Idem. p. 18.

132
Ao fim e ao cabo, as abordagens de Bastide e Freyre aqui ressaltadas enquanto
experiências pioneiras importantes para o enfrentamento de questões que põem em
destaque as relações entre imprensa e etnicidade, foram provavelmente muito mais
desconhecidas do que ignoradas pela maioria dos historiadores brasileiros, em especial
aqueles que se lançaram em busca de um novo estatuto para as fontes periodísticas. A rigor,
até final da década de 1980, a problemática sobre a relação entre imprensa e etnicidade
ainda continuava fora do campo de estudos dos historiadores. Do pouco que foi produzido
nesse sentido, não passaram de tímidos empreendimentos e de estudos ligados muito mais
ao campo disciplinar da Antropologia e das Ciências Sociais do que propriamente na área
da História, a exemplo dos trabalhos de Miriam Nicolau Ferrara, Sonia Maria Giacomini e
Lilia Moritz Schwarcz. A primeira, Miriam Nicolau Ferrara, ao trabalhar com temática
sobre a imprensa negra em São Paulo, no período entre 1915 e 1963, produziu um
interessante estudo sobre o universo ideológico do negro paulista, percebendo alguns
traços marcantes das suas esperanças de vida e do seu comportamento, além de organizar
um esboço para uma eventual história dos jornais negros editados em São Paulo, seguindo
periodização muito parecida com a proposta por Roger Bastide61. Dois anos mais tarde, em
1988, Sonia Maria Giacomini utilizou fontes periodísticas do século XIX então disponíveis
na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro para promover com bastante sucesso uma
interessante releitura sobre a identidade das escravas negras no Brasil. 62 Mas, se por um
lado, os trabalhos de Ferrara e Giacomini tiveram pouca repercussão, será com a
divulgação das investigações de Schwarcz, também antropóloga, que o “etnoperiodismo”
assumirá real significação através do uso que fez da imprensa cotidiana paulista, com o
objetivo de saber sobre “as várias visões com que se falou sobre a condição negra”, ou “os
modos como os brancos falaram sobre os negros”, visando com isto “a recuperação e o
entendimento da dinâmica que se estabelece, de construção e manipulação de
representações sobre o negro cativo ou liberto, quando se intensificaram as rebeliões
negras, no período final do processo abolicionista, e toma volume a própria campanha
abolicionista”63. Esse seu livro intitulado “Retrato em Branco e Negro: Jornais, escravos e

61
FERRARA, Miriam Nicolau. A Imprensa Negra Paulista (1915-1963). São Paulo, FFLCH/USP, 1986.
62
GIACOMINI, Sonia Maria. Mulher e Escrava: Uma introdução histórica ao estudo da mulher negra no
Brasil. Petrópolis, Vozes, 1988.
63
Cf. SCHWARCZ, Lilia Moritz. Retrato em Branco e Preto: Jornais, escravos e cidadãos em São Paulo no
final do século XIX. São Paulo, edição Circulo do Livro, 1987, p. 14/15.

133
cidadãos em São Paulo no final do século XIX”, originalmente apresentado como
dissertação de mestrado no Departamento de Antropologia da Unicamp e publicado em
1987, mereceu significativo acolhimento na academia, inclusive entre historiadores e um
público mais vasto. Evidentemente que se trata de um trabalho que do ponto-de-vista
teórico e metodológico integra influências multidisciplinares explícitas, em especial as
oriundas da Lingüística, da “Nova História” e da “Nova Antropologia”. De sorte que, os
jornais por ela utilizados são pensados de maneira muito próxima dos historiadores
brasileiros do pós-1970, razão pela qual deixa explícito que sua “postura diante dos jornais
será de apreendê-los não enquanto ‘expressão verdadeira’ de uma época, ou como veículo
imparcial de ‘transmissão de informações’, mas antes como uma das maneiras como
segmentos localizados e relevantes da sociedade produziam, refletiam e representavam
percepções e valores da época”.64 Em sua conclusão, o realce das fontes periodisticas,
amplia sobremaneira os limites da “imprensa negra” propostos por Bastide e alcança a
imprensa periódica como um todo.

É justamente nesse sentido que os jornais, que nesse momento se


constituem enquanto órgãos estáveis e fixos, cumprirão um papel
relevante. Ou seja, os grandes periódicos da época (e em especial A
Província de São Paulo) vão passar não só a veicular normas e valores
considerados “civilizados”, como buscarão constituir-se e representar-se
a si próprios como os legítimos locais da criação e reprodução das novas
idéias da época.
Veicula-se, portanto, nos discursos científicos e teóricos, através dos
periódicos, uma imagem de ordem e controle social que parecia não se
coadunar com a realidade percebida por esses segmentos, que por um
lado partilhavam das idéias dos jornais, e por outro observavam o
contexto da época com certa apreensão. Assim, o outro lado da moeda
que refletia brancos “orgulhosos e cientes” de seus avanços era aquele
que demarcava a desigualdade e expunha, com grande temor, o nosso
futuro racial e nacional65.

Deve-se ressaltar que na viragem do século passado e início do presente, outros


importantes trabalhos estão sendo realizados por antropólogos com fontes periodísticas,
como, por exemplo, a dissertação de mestrado defendida por Maria José Alfaro Freire,
intitulada “Payakã e os índios na imprensa brasileira durante a ECO-92”, “na qual analisou

64
Idem, p. 16
65
Idem, p. 246.

134
o material produzido pela imprensa brasileira sobre ‘o caso Payakã’, mostrando as
estratégias através das quais o discurso jornalístico, toma o caso para colocar em questão
as políticas interétnicas e os direitos indígenas no país”66.
Afora estes poucos exemplos conhecidos por parte da iniciativa de antropólogos, só
será na década de 1990 que os historiadores vão abraçar a questão das identidades étnicas,
culturais e nacionais através da imprensa de forma definitiva e irreversível. Dois bons
exemplos são as investigações de Liana Maria Reis ao analisar a atuação dos escravos
durante o processo abolicionista através de artigos de jornais diários de São Paulo67 e de
Liane Muller em “Considerações sobre a trajetória de um jornal negro: O Exemplo, criado
em Porto Alegre, no ano de 1892”68. Mesmo que escape um enquadramento
etnoperiodístico rígido, Tania Regina de Luca merece referência através da sua análise
sobre A Revista do Brasil, um periódico de ampla circulação no Brasil, que se presta para
discutir a questão nacional e da nacionalidade brasileira sobre diferentes prismas69. No
mesmo sentido trabalhou Ariel Feldman ao analisar as relações entre a formação do Estado
e a construção da identidade nacional durante o período regencial, através do jornal O
Carapuceiro, publicado na cidade do Recife entre 1832 2 1842, de explícita tendência
antilusitana e contra os ideais restauradores70. Mais recentemente, em 2008, Mozart
Linhares da Silva avançou com uma comunicação apresentada no XIII Encontro de
História da ANPUH-Rio, com o título: “Imagens, Estereotipias e Sujeitos-Falhos:
Afrodescendentes e Identidade Étnica na Imprensa Escrita no Vale do Rio Pardo (1970-
2000)”.
Pelo lado dos estudos históricos através da imprensa de imigrantes o quadro é bem
mais expressivo e os historiadores passam a tirar melhor proveito dessa nova problemática,
abordando-os de forma excepcionalmente vigorosa e inovadora, com problemáticas

66
Mestrado em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Museu
Nacional-UFRJ, 2001.
67
REIS, Liana Maria. Escravos e Abolicionistas na imprensa mineira (1850-1888). Belo Horizonte, UFMG,
1993. (Dissertação de mestrado).
68
MULLER, Liane. Considerações sobre a trajetória de um jornal negro: O Exemplo, criado em Porto
Alegre, no ano de 1892. Comunicação apresentada no XX Simpósio Nacional de História, Florianópolis,
ANPUH, de 25 a 30.07.1999.
69
DE LUCA, Tania Regina. A Revista do Brasil: um diagnóstico para a (N)ação. São Paulo, Fundação da
Editora da UNESP, 1999.
70
FELDMAN, Ariel. “A Construção do Estado e da Nação no Brasil: identidades políticas e imprensa
periódica no período regencial (1831-1840). In Revista Aulas – Dossiê Identidades Nacionais. São Paulo,
Unicamp, nº 2, outubro/novembro, 2006.

135
diversificadas e aprimoramentos teórico-metodológicos instigantes. No conjunto dessa
produção, vale destaque para os trabalhos de Marina Consolmagno sobre o jornal Fanfulla,
órgão da colônia italiana em São Paulo, editado em 1893, em língua italiana e onde a
autora analisa quem o jornal beneficiava e em que sentido influenciava o seu público,
demonstrando também a atuação do Fanfulla no sentido de fortalecer uma visão
homogênea da colônia italiana (colletivitá) baseada nos princípios da coesão e conciliação
entre as classes, além de estudar as posturas defendidas, em relação ao processo de
unificação italiana e a vida política brasileira.71 Outro bom exemplo no campo da
etnicidade através da imprensa, é o importante trabalho de Giralda Seyferth sobre a
mobilidade social de uma colônia alemã nos setores econômicos e políticos e um conjunto
de problemáticas associadas a sentimentos de etnicidade72.
No campo dos estudos históricos sobre imigração portuguesa que usaram a
imprensa como fonte prioritária ou exclusiva, as investigações são muito poucas quando
comparada com a expressividade da presença portuguesa no Brasil e com o avultado
número de jornais e outros periódicos editados por portugueses no Brasil desde meados do
século XX.73 Mesmo assim, já começam a aparecer importantes trabalhos nesse campo
particular de análise, como os de Maria Manuela Ramos de Souza e Silva, que “estuda a
saga dos imigrantes portugueses introduzidos no Brasil e destinados principalmente à
agricultura, pela pena contundente do editor do jornal português Gazeta Lusitana,
publicado na Corte em finais do século XIX. Nesta obra, a autora analisa também as
tensões e conflitos gerados no calor dos enfrentamentos: recusas, concessões e
solidariedades, além das práticas sociais que mediatizam as relações entre nacionais e
portugueses. Para além disso, reconstitui as várias frações do olhar do jornal sobre a
sociedade portuguesa e brasileira de seu tempo, escancarando suas mazelas e contradições,
cujos aspectos mais visíveis são a corrupção, o mandonismo, a exploração desenfreada do
trabalho humano, a vadiagem, a criminalidade e prostituição74.

71
CONSOLMAGNO, Marina. Fanfulla: perfil de um jornal de colônia (1893-1915), São Paulo, USP, 1993.
(Dissertação de mestrado)
72
SEYFERTH, Giralda. “Etnicidade, política e ascensão social: um exemplo teuto-brasileiro”. In Mana, Rio
de Janeiro, v.5 n. 2, out./1999.
73
SILVA. Maria Beatriz Nizza da. Documento para a História da Imigração Portuguesa no Brasil (1850
a 1938). Rio de Janeiro, Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras, 1992. Especialmente o
capítulo: “A Imprensa da Colônia”, p. 114-123.
74
SILVA, Maria Manuela Ramos de Souza e. Ambição e Horror a Farda ou a Saga dos Imigrantes

136
Outro importante trabalho que merece destaque é o de Joelson Bitran Trindade, no
qual faz uma análise do imigrante português através do olhar da chamada imprensa popular
da cidade de Santos, São Paulo75. Pelo viés da militância política de oposição ao
salazarismo organizada por portugueses exilados no Brasil, o trabalho de Douglas Mansur
da Silva, intitulado “A Ética da Resistência: os exilados anti-salazaristas do Portugal
Democrático (1956-1975)”, não deixa de ser um excelente e estimulante exemplo. Silva
examina, com precisão e acuidade, “a trajetória de sete imigrantes portugueses, cujas
histórias de vida são marcadas por migração política e exílio no Brasil”, através do jornal
Portugal Democrático, que na sua avaliação “constitui-se de pronto em uma imensa fonte
de dados a estudiosos do século XX português”76. A importância deste trabalho foi realçada
por Bella Feldman-Bianco, na apresentação que ofereceu à edição portuguesa, lançada em
Portugal com o título “A Oposição ao Estado Novo no Exílio Brasileiro (1956-1974)”, que
merece ser destacada por se tratar de instigante contribuição no campo do etnoperiodismo
na perspectiva dos antropólogos.

É certo que jornais fornecem preciosa documentação para


pesquisadores interessados em reconstruções históricas. Mas Douglas
Mansur da Silva, no decorrer da sua investigação, perspicazmente
percebeu que o Portugal Democrático, para além de fonte de
pesquisa, constituía o núcleo central de um movimento de oposição ao
Estado Novo e ao regime salazarista, deflagrado a partir da cidade de
São Paulo. Demonstra, assim, o papel crucial desempenhado pelos
media impressos como veículos de circulação de ideias e de formação
de redes políticas locais, nacionais e internacionais, no período
estudado. Dessa perspectiva, examina os editoriais, artigos, notícias e
charges publicados no jornal ao longo de quase vinte anos, com
particular atenção aos que retratam situações de embates e conflitos
através do tempo. Desvenda, destarte, os meandros, constrangimentos
e complexidades que moldaram a composição, estratégias e busca de
unidade desse núcleo – formado inicialmente por proletários e
intelectuais de orientações políticas várias (republicanos, liberais,
socialistas, comunistas) – e as diferentes etapas da sua persistente luta
contra a ditadura em Portugal. Descortina, enfim, uma etno-história
que expõe as relações dinâmicas entre o percurso desse núcleo e os

Portugueses no Brasil, segundo a Gazeta Luzitana (1883-1889). (Tese de doutoramento defendida no


Departamento de História da USP, 1991).
75
TRINDADE, Joelson Bitran. “Piedade Lusitana: sobre a Imprensa e o Poder”. In Revista Brasileira de
História, São Paulo, v 16 nº 31 e 32, 1996, p. 143/164.
76
Utilizamos o título inicial do projeto, posteriormente defendido como dissertação de mestrado na
UNICAMP. SILVA, Douglas Mansur da. Visões sobre Portugal – nação, diáspora e estratégias de
cidadania. São Paulo, UNICAMP, 1999.

137
múltiplos acontecimentos daquela efervescente época, discernindo
como rumos, incluindo as cisões e as diferentes fases do movimento,
foram impelidos seja por episódios luso-brasileiros – como, por
exemplo, os protagonizados por Humberto Delgado e Henrique
Galvão no Brasil, seja pelo impacto e influência da Revolução Cubana
sobre os movimentos de esquerda, ou, posteriormente, pela eclosão de
guerras coloniais em África e a política de direitos humanos nas
Nações Unidas. Ao delinear esses cenários mais amplos que
condicionaram a ação política e que culminaram na crescente
influência do Partido Comunista Português sobre o movimento anti-
salazarista, deixa-nos entrever a mobilização das esquerdas e
especialmente a dos comunistas durante a Guerra Fria77.

Na sequência dessas abordagens que priorizam a análise do imigrante português a


partir da sua própria imprensa, Flávia Miguel de Souza estudou o caso da revista
Convergência Lusíada, ligada ao Real Gabinete Português de Leitura, e organizada por um
pequeno grupo de portugueses letrados residentes na cidade do Rio de Janeiro que
fundaram o periódico enquanto estratégia mobilizadora no sentido de reconstruírem uma
imagem do imigrante português forjada por valores históricos e tradicionais portugueses
tidos como símbolos da civilização europeia no Brasil.78
Por fim, duas comunicações de Geraldo Mártires Coelho intituladas “Uma
Memória Tardia: propaganda e imigração portuguesa na iconografia republicana no Pará de
1910” e “Alegoria feminina e propaganda republicana no Pará de 1910”79, servem para
mais um exemplo de que as abordagens que estão a priorizar a imprensa produzida por
imigrantes portugueses residentes no Brasil, vêm conquistando espaços acadêmicos de real
significação, ampliando cada vez mais o processo de construção de novas representações
sobre a diáspora portuguesa na sociedade brasileira.

77
FELDMAN-BIANCO, Bella. “Apresentação”. In SILVA, Douglas Mansur da. A Oposição ao Estado Novo
no Exílio Brasileiro:1956-1974. Lisboa: ICS. Imprensa de Ciências Sociais, 2006. – (Estudos e
Investigações: 42), pp. 21/22. Ainda segundo Feldman-Bianco, depreende-se que: “Uma outra dissertação de
mestrado de autoria de Ubirajara Bernini Ramos, intitulada Portugal Democrático. Um jornal de resistência
ao salazarismo publicado no Brasil, defendida no Programa de Mestrado em História da PUC-SP em 2004,
focaliza o mesmo jornal, mas voltado mais a examinar como esse veículo tratou importantes episódios
durante o Estado Novo”.
78
SOUZA, Flávia Miguel de. Tradição, Civilização e Cultura: A Reconstrução da Imagem do Imigrante
Português no Brasil através de um Estudo da Revista Convergência Lusíada (1976-1998). Rio de Janeiro,
dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social do Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, novembro de 2002. Em 1999, a
autora apresentou comunicação no XX Simpósio Nacional de História, realizado em Florianópolis, com o
título: “A cultura portuguesa sob a perspectiva da revista Convergência Lusitana: 1976-1998”.
79
Comunicações apresentadas no âmbito do XX Simpósio Nacional de História, realizado em Florianópolis,
em 1999.

138
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139
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SOUZA, Flávia Miguel de. Tradição, Civilização e Cultura: A Reconstrução da


ImagemLusíada (1976-1998). Rio de Janeiro, UFRJ (Dissertação de Mestrado), 2002.

140
Resistência e Jornal Pessoal: Da ditadura militar à democracia na
Amazônia – Resistir é preciso

Célia Regina Trindade Chagas AMORIM


Milene Costa de SOUSA
Natália Cristina Rodrigues PEREIRA
Lanna Paula Ramos da SILVA

Resumo: Este artigo busca entender as transformações pelas quais as mídias


alternativas na Amazônia, Resistência e Jornal Pessoal, passaram no contexto histórico
da ditadura militar (1964-1985) e pós-ditadura. A primeira surgiu no regime ditatorial
em 1978; e a segunda no ano de 1987, época de democracia estabelecida no Brasil.
Essas publicações, que são mídias radicais, à luz dos estudos de John Downing (2002),
começaram no meio impresso e no contemporâneo ganharam as páginas da web. O
artigo, uma produção do Projeto Mídias Alternativas na Amazônia, estrutura-se em três
pontos fundamentais: uma breve contextualização da ditadura militar e da
redemocratização do Brasil e do cenário regional amazônico; os conceitos relacionados
às formas de comunicação de resistência do período investigado; e a análise dos dois
jornais.Os conceitos-chaves que ordenarão a presente reflexão são Mídia Radical
Alternativa, redes e esfera pública alternativa.

Palavras-chave: Mídias alternativas. Amazônia. Redes. Esfera pública alternativa.

A América Latina, a partir da segunda metade do século passado, foi assolada


por ditaduras militares –Argentina (1962 a 1983), Chile (1973 a 1990), Brasil (1964 a
1985) – sustentadas pelos Estados Unidos. O período era o da Guerra Fria que
apresentava de forma evidente dois inimigos políticos e ideológicos que disputavam a
hegemonia do mundo: Estados Unidos, sob a égide do capitalismo; e União Soviética,
de matriz socialista. No Brasil, a ditadura teve início com a tomada do poder pelas
forças armadas brasileiras, sob o pretexto de que a ação era necessária para o
mantimento dos processos democráticos contra a ameaça comunista que poderia se
instalar no país.
Os pesquisadores Petit e Cuéllar (2012, p.180) afirmam que apesar de ser
evidente a centralização das Forças Armadas na tomada do golpe de estado no Brasil a
partir de 1964, com o apoio ideológico dos Estados Unidos, não se pode deixar de
observar que a natureza da ditadura no país foi no âmbito civil-militar, já que contou
141
com apoio, proteção e subserviência de setores da sociedade civil como empresários e
grandes fazendeiros, políticos conservadores, uma parcela significativa da hierarquia da
Igreja Católica e dos meios de comunicação de massas.

Foram esses setores que alimentaram durante anos, sobretudo a partir


de 1961, a luta contra os reformistas-populistas e contra a crescente
influência na sociedade brasileira dos partidos e organizações de
esquerda, especialmente o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Tal
constatação se impõe sem desmerecer, nunca, o apoio ideológico,
econômico e militar do governo dos Estados Unidos aos golpistas
no contexto internacional da Guerra Fria e do impacto no
continente americano da Revolução Cubana e, portanto, da disputa
político-ideológica entre partidários do sistema capitalista e socialista no
mundo. (2012, p. 170).

Na Amazônia brasileira a adesão dos meios de comunicação de massa


tradicionais à ditadura civil-militar contou como moldura as sucessivas propagações em
suas páginas dos planos desenvolvimentistas para a região, à moda do “integrar para não
entregar”, mas também reforçavam em seus discursos verbal ou imagético os possíveis
perigos do “comunismo ou da ameaça vermelha”. Petit e Cuéllar, (2012) ao observarem a
imprensa do Estado do Pará, afirmam que

Tratava-se de matérias que "desqualificavam" o ideário marxista


como estratégia de embate ideológico que permeou a Guerra Fria. Os
artigos versavam sobre o "Perigo Vermelho", "Cubanização", "Avanço
Comunista" e outras expressões que instigavam os leitores a pensar
esse regime sócio-político- econômico como um inimigo a ser
combatido (Velarde, 2005; Sousa, 2011, Apud, Petit e Cuéllar (2012,
p.180-1).

Como os meios de comunicação de massa pautaram suas páginas pela agenda


dos militares, ora imprimindo os perigos do comunismo e outros temas correlatos, ora
ressaltando os planos de desenvolvimento para a Amazônia ou as conquistas alcançadas
com o "milagre econômico" brasileiro e com a vitória da seleção de futebol na Copa do
Mundo de 1970, outros veículos de comunicação tiveram que ser criados para garantir
informações de interesse público não ligadas ao regime militar.
E nesse período que há um “boom” de pequenos jornais alternativos no Brasil
que tinham, dentro da diversidade de cada projeto, um ponto em comum:

142
O que identificava toda a imprensa alternativa era a
contingência do combate político-ideológico à ditadura, na tradição de
lutas por mudanças estruturais e de crítica ortodoxa a um capitalismo
periférico e ao imperialismo, dos quais a ditadura era vista como
uma representação. (KUCINSKI, 2001, p.6).

É desta época os jornais alternativos O Pasquim (1969), Em Tempo (1977), O


Movimento (1975). Na Amazônia destacavam-se os jornais Varadouro (1977), do Acre;
Nanico (1979) e Resistência (1978), de Belém do Pará. Este último, objeto de análise do
presente artigo, ainda sobrevive na Amazônia, com página na internet.
Diversos acontecimentos levaram ao fim os 21 anos de ditadura civil-militar,
quando o Brasil pôde enfim se redemocratizar. Segundo o sociólogo Marco Aurélio
Nogueira (2007), essa redemocratização no país começou antes do fim do governo
militarista. Em um primeiro momento, o autor (2007, P.206) delimita o período a partir
do ano de 1975 (quando ocorreu a morte do jornalista Vladimir Herzog), ao ano de
1988, quando foi aprovada a nova constituição brasileira. Por outro lado, Nogueira
sugere que a redemocratização pode ter outros momentos que servem como pontos
iniciais: a realização de uma eleição direta em 1989; a estabilização econômica
realizada no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso em 1994; a eleição de
Lula em 2002 – vindo do movimento operário – para a Presidente da República.
Apesar da tentativa de demarcar em períodos o início da redemocratização no
Brasil, Nogueira admite que não há como definir uma data precisa para início do
processo, pois o fim de uma ditadura “(...) só se completa quando se co nsegue dar início à
edificação de um regime firmemente comprometido com a democracia, legitimado
socialmente e sustentado por uma cultura pública revigorada. (NOGUEIRA, 2006, p.
206).
Mas, à medida que o país avança - levando-se em consideração que o fim do
regime militar é recente - se pode visualizar mecanismos de fortalecimento
democráticos como o processo de eleições diretas e seu aperfeiçoamento no país, em
que cada cidadão pode escolher seus representantes políticos; a participação de cidadãos
ativos em movimentos sociais lutando por melhores condições de vida; o número

143
ascendente de atores sociais que utilizam canais de comunicação, como os populares e
alternativos, dentre outros.
Especificamente neste artigo, analisam-se dois meios de comunicação contra
hegemônicos, o Jornal Resistência (1978) e o Jornal Pessoal (1987), de conteúdo
crítico-emancipador, sobreviventes do período de ditadura militar e de redemocratização
pelo qual o Brasil passou a partir de 1985. Hoje, essas publicações podem ser
encontradas não só no formato impresso como também em páginas na internet e
continuam a denunciar e compartilhar informações omitidas da sociedade amazônica.
Este compartilhamento de informações por essas mídias alternativas se reveste
de uma grande importância na Amazônia. Primeiro porque a internet contribuiu para
que pessoas de todas as partes do planeta compartilhem e produzam conteúdos,
diminuindo as barreiras geográficas, que no caso específico da região são enormes. E
em segundo: o número de pessoas na Amazônia que têm acesso a computadores com
internet ainda é pequeno em relação às outras regiões do País. O Estado do Pará é um
exemplo de tal situação: em 2010, a Fundação Getúlio Vargas produziu o Mapa da
Inclusão Digital, um estudo que mostra que apenas 13,75% dos domicílios paraenses
possuem computadores com acesso à internet, enquanto São Paulo possui 48,22% de
seus domicílios com igual acesso.
O objeto de análise deste artigo se concentra nas formas que, enquanto mídias
alternativas, o Jornal Resistência e o Jornal Pessoal, assumiram no período da ditadura
militar até os dias atuais, estudando a maneira pela qual se apropriaram das tecnologias
disponíveis em cada contexto histórico para a manutenção de suas atividades de
resistência na região, desde o nascimento no meio impresso até a adaptação dos jornais
ao meio online e as redes de solidariedade que se formaram a partir dessa mudança.

Mídias alternativas, Redes, Esfera pública alternativa


A luta por direitos sagrados de cidadania ativados por atores sociais de
movimentos populares, tanto no período da ditadura quanto no pós-ditadura até os dias
atuais, mantém-se firme e se readequando às mudanças de contexto no campo político,
econômico, cultural, tecnológico e ideológico pelo qual o país atravessa.

144
É nesta perspectiva que se afirma que durante a ditadura civil-militar, a imprensa
alternativa, como era chamada no período, era um dos principais meios a serem
utilizados por grupos de esquerda, intelectuais, jornalistas e populares para combater o
regime. Os jornais eram vendidos nas cidades em bancas de revistas ou clandestinamente.
Outros eram distribuídos em pequenos vilarejos da floresta amazônica de forma
gratuita. Tinham como pauta a censura, a luta pela democracia do País, a denúncia contra
as violações do direito do homem.
Com a consolidação da democracia brasileira, os meios de comunicação
alternativos - alguns sobreviveram ao período ditatorial e pós ditadura, inseriram-se no
universo multimidiático em rede e passaram a pautar conteúdos mais diversificados, “de
enfoques críticos e contestadores; aos políticos e educativos e até os literários e
artísticos” (PERUZZO, 2008, p.13).
Os estudos do pesquisador John Downing (2002) são fundamentais para se
entender, de forma mais ampla, o caráter e abrangência desses meios de comunicação
contra hegemônicos na contemporaneidade. Downing (2002) chama de mídia radical
alternativa para as inúmeras formas de comunicação como o teatro de rua, a dança, o
grafite, a literatura, as rádios comunitárias, as pichações de autoria desconhecidas
encontradas em banheiros, as canções, os discursos orais e escritos no meio impresso,
dentre outras, que “expressam uma visão alternativa às políticas, prioridades e
perspectivas hegemônicas” (2002, p.22).
Segundo Downing, as mídias radicais são uma “resistência a múltiplas fontes de
opressão” (2002, p. 53) exercida por diferentes setores da sociedade. Muitas vezes surgem
em tempos de conflitos e tensões políticas como em períodos de ditaduras, guerras, ou
em sociedades nas quais a dominação cultural gera uma situação de opressão. Para
ele, essa mídia “expande o âmbito das informações, da reflexão e da troca a partir
dos limites hegemônicos, geralmente estreitos, do discurso da mídia convencional”
(2002, p. 81), destacando vozes por vezes ridicularizadas ou assuntos omitidos nos
grandes meios de comunicação.
Ao trabalhar o conceito de esfera pública alternativa, Downing utiliza o estudo
de Habermas e de outros pensadores posteriores, como os críticos marxistas Oskar Negt e
Alexander Kluge. Esses autores discordavam do pensamento de Habermas que

145
acreditava que a esfera pública havia desaparecido. Eles afirmavam a existência de uma
esfera pública proletária na contemporaneidade (2002, p. 63) como zonas alternativas
para o debate e a reflexão na sociedade.
A esfera pública alternativa vem se reconfigurando com os avanços
tecnológicos. De acordo com Castells (1999), a internet, a Rede das redes, aumentou o
poder de participação de grupos diversos na produção de informação, possibilitou um
maior fluxo de informações de longo alcance e em um menor espaço de tempo. A rede
porém, está longe de promover a igualdade social no campo eletrônico:

O processo da formação e difusão da internet e das redes de CMC a ela


ligadas nos últimos 25 anos moldou de forma definitiva a estrutura
do novo veículo de comunicação na arquitetura da rede, na cultura de
seus usuários e nos padrões reais de comunicação. A arquitetura da
rede é, e continuará sendo, aberta sob o ponto de vista tecnológico,
possibilitando amplo acesso público e limitando seriamente restrições
governamentais ou comerciais a esse acesso, embora a desigualdade
social se manifeste de maneira poderosa no domínio eletrônico.
(CASTELLS, 1999, p.441).

Entretanto, muitos grupos ou atores sociais viram na internet um espaço de


oportunidade para emitir informações e opiniões por meio dos processos de
comunicação alternativa, revolucionados pela comunicação mediada por computador
(CMC), ganhando novos formatos e feições (PERUZZO, 2008, p.14).
Dênis de Moraes (2007) compreende a internet como uma “arena de lutas e
conflitos pela hegemonia, vale dizer, de batalhas permanentes pela conquista do
consenso social e da liderança cultural-ideológica de uma classe ou bloco de classes
sobre as outras” (2007, p. 1). Isso significa dizer que as lutas que antes eram travadas
entre as classes sociais não desapareceram, ao contrário migraram também para o meio
virtual.
Para o autor, as mídias alternativas devem ter comprometimento com as
mudanças sociais e utilizar o espaço virtual de forma democrática. Tal prática é ainda
mais importante em países periféricos em que as desigualdades sociais são mais
visíveis, como no Brasil. Entretanto, Moraes adverte que as discussões podem ter início
na internet, exatamente pela diversidade de conteúdos e facilidade de contato entre
atores sociais que ela favorece, mas as soluções devem acontecer no mundo físico, onde

146
as transformações sociais podem de fato ocorrer. “Estou convencido de que é no
território físico, socialmente vivenciado, que se travam e se travarão as lutas decisivas
por uma outra comunicação e um outro mundo possíveis”. (MORAES, 2007, p. 17).

Jornal Resistência
Em 1977, ainda sob o manto da ditadura civil-militar, foi criada no Pará a
Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) com a finalidade de lutar
contra as violações aos direitos humanos ocorridas na Amazônia e a favor da anistia dos
presos políticos do país. Os estudos de Paulo Ferreira (2009, p. 01) indicam que a
entidade foi organizada por “lavradores, profissionais liberais, funcionários públicos,
estudantes, religiosos, operários da construção civil e gráficos” ligados ao Partido
Comunista do Brasil (PCdoB) (2009, p. 01) que se posicionavam contra o regime
imposto no país e na fronteira Norte do País. Para fortalecer a luta, a SDDH lançou, em
1978, o Jornal Resistência.

Figura 1: Fotos de algumas edições impressas do Jornal Resistência.

Fonte: Projeto Mídias Alternativas na Amazônia, 2014.

Com o lema “Resistir é preciso”, o objetivo do jornal à época, segundo a


professora da UFPA e colaboradora do alternativo, Rosaly Brito7, era alertar sobre as
pressões comandadas pelo governo militar na Amazônia, lutar contra os problemas
sociais que a região enfrentava devido à implantação de grandes projetos na região e
denunciar os constantes massacres de índios, colonos e posseiros que se posicionavam
contrários à utilização da Amazônia apenas de forma mercadológicas (BRITO, 2013, p.

147
5).
Enquanto a mídia convencional enfatizava ora as riquezas contidas na Serra dos
Carajás, no Sudeste do Pará; ora o projeto do governo brasileiro para a exploração
mineral, o Resistência se preocupava em expor as “lutas contra os latifundiários da
castanha, a chegada dos pecuaristas mineiros e paulistas, e os capixabas, do
extrativismo madeireiro” (FERREIRA, 2009, p. 6). Ao possuir uma linha editorial de
contra hegemonia na Amazônia, apoiando diversos movimentos sociais e políticos, a
equipe responsável pela publicação sofreu ameaças e atentados violentos durante o
regime militar.
Ferreira (2009) registra que a quinta edição do jornal continha depoimentos de
quatro ex-presidiários políticos que foram torturados por policiais no Ministério do
Exército. Por este motivo, antes que as edições fossem colocadas à venda, os jornais
foram apreendidos pela Polícia Federal. Diante de tanto arbitrariedade, distribuir o
jornal no estado Pará, nas cidades e em áreas de floresta, se tornou tarefa difícil de ser
exercida, e poucas bancas de revistas aceitavam vender o jornal.
Com a abertura política no país preparando o processo de redemocratização, o
Resistência enfrentou crises financeira e política. A financeira, típica da natureza
alternativa desses meios de comunicação, que não eram voltados para o mercado e
dependia do trabalho voluntário de jornalistas e outros atores sociais que
compartilhavam a ideologia do jornal; e no campo político, parte considerável dos
jornalistas eram ligados ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e acreditavam que a
proposta editorial do jornal deveria estar em sintonia com o que era pregado pelo
partido.
Todos esses fatores, acrescidos da brutal recessão econômica, que debilitava as
finanças da SDDH, mais os prejuízos causados pela censura, contribuíram para, junto com
as divergências ideológicas, encerrar a participação do Resistência, uma das mais
saudáveis experiências da imprensa alternativa no Norte do Brasil. (FERREIRA, 2009,
p. 16)
Depois de um longo tempo sem ser publicado, a SDDH resolveu retornar ações do
jornal aproveitando a rede mundial de computadores, a internet. Esta rede possibilita um

148
maior acesso público às informações, com menores restrições governamentais e
comerciais (Castells,1999). Hoje existe uma versão online do Resistência, em formato
PDF na internet. Foram criados também um blog, uma página no Facebook e um
perfil no Twitter. Esses redes sociais são atualizadas diariamente. O leitor que desejar
receber um resumo de notícias publicadas no blog no decorrer da semana pode mandar
um e-mail solicitando o “Boletim Resistência Online”, com links de notícias diversas.

Figura 2: Página do Jornal Resistência no Facebook.

Fonte: (https://www.facebook.com/resistenciaonline?fref=ts), 2014.

Figura 3: Imagens do Blog e do Twitter do Jornal Resistência

149
Guardadas as devidas proporções de contexto histórico e de atores sociais
envolvidos em cada projeto do Resistência impresso e do online, a cobertura da
Amazônia é central. Na pauta das mídias sociais do Resistência online há os
prejuízos ambientais que a região e as populações tradicionais sofrem com a construção
da usina de Belo Monte, a concentração fundiária e grilagem de terras na Amazônia.

Figura 4: Charge do Resistência on line sobre a usina de Belo Monte.

Fonte: (http://jornalresistenciaonline.blogspot.com.br/p/arquivo.html), 2014.

Há também registros pelas mídias sociais das opressões e torturas que a equipe
do jornal sofreu no período da ditadura civil-militar, a invasão da sede da SDDH por
policiais em 1984 e relembrada na edição do jornal Resistência de agosto de 2013; o
assassinato de Paulo Fonteles (primeiro presidente da SDDH) por pistoleiros em 1987 por
atuar como advogado de posseiros no violento Sul do Pará, dentre outros temas.
O Resistência continua na luta por uma história que ainda precisa ser revelada na
região e também instrumento de resistência contra as consequências deixadas pelo
mando da ditadura militar na região e planejamentos políticos posteriores.

150
Jornal pessoal
Em setembro de 1987, quando o Brasil estava trilhando os passos da
redemocratização, foi lançado pelo sociólogo e jornalista Lúcio Flávio Pinto a primeira
edição do Jornal Pessoal, que apresentou como matéria de capa o assassinato do ex-
deputado Paulo Fonteles. Nesta edição inaugural,o jornalista traça um roteiro do
esquema utilizado por poderosos fazendeiros da região amazônica para assassinar Fonteles,
até detalhes sobre os mandantes do assassinato, que continuaram impunes. Pela
natureza da situação e envolvimento no crime de pessoas influentes no Pará, jornais
como O Liberal, para o qual o jornalista trabalhava, não publicaram o material
jornalístico. A falta de apoio levou Lúcio Flávio Pinto a criar o Jornal Pessoal.

Figura 5: Imagem da primeira edição do Jornal Pessoal, de 1987.

Fonte: (http://chargesdojornalpessoal.blogspot.com.br/2012/06/primeira-edicao.html), 2014

Hoje com 27 anos de existência, o jornal é reconhecido como uma das mídias
alternativas mais antigas e influentes da Amazônia e do Brasil (AMORIM, 2008);
possui uma tiragem de 2 mil exemplares em Belém – capital do estado do Pará, região
Norte do Brasil – e em 2008 entrou na internet, sendo acessível a leitores de todas as
partes do mundo, por meio de sua versão digital na página oficial do jornal
(http://www.lucioflaviopinto.com.br). O website da University of Florida Digital
Collections (UFDC)8 disponibiliza uma boa parte da coleção do jornal.

151
O fato de o Jornal Pessoal não contar com nenhum tipo de publicidade,
possibilitou a Lúcio Flávio Pinto a independência necessária para escrever, denunciar e
cobrar posições do governo e da sociedade sobre os graves acontecimentos amazônicos,
rompendo as censuras impostas em período de democracia restabelecida.
Diferentemente da censura da ditadura civil-militar, na Amazônia predomina
uma “pressão velada” na qual o próprio sistema político e judiciário favorece grandes
proprietários de terra, empresários, e pessoas que ocupam cargos influentes na região.
Abusos políticos, corrupção, grilagem de terras terminam quase da mesma forma: em
impunidade. O caso Fonteles é um exemplo dos muitos registrados na região.Como não
se pode fechar jornais alternativos e tampouco fazer apreensões de edições como à
época da ditadura, a história do Jornal Pessoal se confunde com uma multiplicidade de
ações judiciais no Tribunal de Justiça do Pará (TJE-Pa) contra o jornalista Lúcio Flávio
Pinto: são 33 processos na justiça de Belém.
Pela relação de dependência entre os grandes veículos de comunicação com o
sistema político e econômico no Pará, uma boa parte dos acontecimentos é omitida pela
imprensa local e divulgada apenas em jornais alternativos como o Jornal Pessoal.
Atualmente, os dois jornais impressos mais vendidos em Belém, capital do Pará, são O
Liberal (1946) pertence às Organizações Rômulo Maiorana (ORM), e o Diário do Pará
(1982) da família de Jader Barbalho, que ocupou importantes cargos políticos no estado
nos últimos 40 anos.
A página oficial do Jornal Pessoal na internet disponibiliza reportagens no meio
impresso integralmente, com o acesso permitido após o cadastro do usuário no website.
A abertura das discussões sobre as questões regionais no meio digital tornou possível
uma maior democratização das notícias, ampliando a esfera pública, que antes era local.
A adesão do Jornal Pessoal e do Resistência ao mundo virtual permitiu também a
criação de redes de apoio aos jornais. O Jornal Pessoal se articula em rede com seus
leitores por meio de duas frentes: por meio do perfil do jornalista Lúcio Flávio Pinto no
Facebook, criado por leitores do jornal, que já atingiu mais de 5.300 curtidas; além do
compartilhamento de reportagens escritas pelo jornalista em diversos meios de
comunicação online.

152
Figura 6: Imagens da página online do Jornal Pessoal e da página do Facebook.

A segunda frente diz respeito à rede de colaboração ao jornalista criada como


forma de protegê-lo das injustiças político e jurídicas sofridas pelo jornalista ao longo
da existência do jornal. Como exemplo destaca-se a Rede Somos Todos Lúcio Flávio
Pinto que conta com o apoio de internautas (Amorim, 2013) que, por meio das mídias
sociais Facebook e Twitter, decidiram ajudar o jornalista contra possíveis condenações
na justiça. Uma delas diz respeito a condenação referente a uma reportagem publicada
no Jornal Pessoal, em que Lúcio Flávio Pinto cita Cecílio Almeida, então dono da
Construção C. R. Almeida, como um dos maiores grileiros de terra do país, chamando-o
de “pirata fundiário”.
O poder da rede permite a formação de laços que ultrapassam as barreiras
geográficas. As discussões, que antes ficavam restritas a pequenas áreas, hoje chegam
ao conhecimento de novas audiências, que podem intervir, questionar e até transformar
uma dada situação, criando as redes de que fala Castells (2002). O autor argumenta que a
internet favorece a criação na rede dos chamados laços fracos, que se mostram fontes
importantes de informações e apoios:
A internet favorece a expansão e intensidade dessas centenas de laços fracos que geram
uma camada fundamental de interação

social para as pessoas que vivem num mundo tecnologicamente


desenvolvido. São redes sociais interpessoais, em sua maioria baseadas
em laços fracos, diversificadíssimas e especializadíssimas, também
capazes de gerar reciprocidade e apoio por intermédio da dinâmica da
interação sustentada. (CASTELLS, 1999, p. 445).

153
A internet passou a ser estratégica para o Jornal Pessoal.Com o auxílio dessas
interações sociais que se formaram na rede, constituídas por leitores, jornalistas, atores e
movimentos sociais, organizações não-governamentais, e outros, Lúcio Flávio Pinto
conseguiu arrecadar o valor solicitado pela justiça brasileira – 25 mil reais – e pagou a
indenização à família do grileiro, já que Cecílio do Rego Almeida faleceu em março de
2008. Em decorrência de todos os obstáculos que o Jornal Pessoal enfrenta,
observa-se que o alternativo preserva o direito à informação na região, democratizando
assuntos de uma Amazônia que muitos ainda não conhecem.

Conclusão
Na Amazônia, as mídias alternativas têm um papel fundamental na luta pela
democratização da comunicação. Os jornais alternativos, impresso ou digital, expõem
uma resistência a toda forma de opressão na região, seja no campo político, econômico,
agrário e de comunicação.
Na atual configuração política, os meios de comunicação regionais fazem parte
de grandes empresas midiáticas, como é o caso do jornal O Liberal, pertencente às
Organizações Rômulo Maiorana, afiliada à Rede Globo de Televisão. Dependentes dessas
ligações com conglomerados nacionais e internacional, os meios de comunicação locais
ficam reféns do que pode ou não ser divulgado para não prejudicar a imagem e acordos
financeiros das organizações das quais são subordinadas.
É nesse contexto que sobrevivem as mídias alternativas na região. A migração
para a internet favoreceu a ação dessas formas de comunicação por se tratar de um meio
mais barato de produção e distribuição de informações. A esfera pública alternativa de
temáticas áridas da Amazônia (conflitos agrários, grilagem de terras, trabalho escravo) foi
ampliada consideravelmente.
Este fator tornar-se ainda mais relevante dada às dimensões da fronteira Norte
do País. O que antes circulava apenas na região passou ser compartilhado globalmente.
Apesar das dificuldades de acesso à internet na região, as mídias como Resistência e
Jornal Pessoal têm contribuído para alimentar a esfera pública alternativa de forma
planetária. Os problemas das populações locais e de movimentos sociais encontram um

154
lugar de exposição e debate nas páginas desses meios para forçar conquista, apoios e
soluções amazônicas.

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155
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Acesso em 25 de janeiro de 2014.

156
A articulação de jornais e espaços públicos na Ilustração Inglesa (1700-
1820)80

Luís Francisco Munaro81

Resumo: O Iluminismo, pensado a partir de sua vinculação com os espaços de


sociabilidade, sua dependência do trânsito, circulação a apresentação contínua da novidade
e da diferença, caracteriza uma transformação contínua na organização da cidade.
Habermas notou essa importância ao sugerir o papel dos cafés e salões para a formação de
um círculo de retroalimentação entre os escritos ilustrados e as conversações: as conversas
alimentavam a pauta periódica dos jornalistas, tanto quanto os jornais reforçavam
determinados círculos de conversação. James van Horn Melton trouxe nova luz ao estudo
desses espaços oferecendo um panorama mais completo relativo ao seu papel de abrigar
uma cultura da interação ou da conversação. Nosso interesse, no âmbito deste artigo, é
perceber como essas transformações de espaço abrigaram uma nova forma de cultura
escrita, ligada à regularidade e linearidade, a que se chama, hoje, jornalismo, intimamente
dependente do esforço interativo.

Palavras-chave: Iluminismo; Jornalismo; Ilustração britânica; Taverna; Modernidade.

As práticas e representações modernas não nasceram de forma súbita dos


escombros do Antigo Regime e nem concernem à realização de um futuro escatológico no
qual a Razão aparece como a madrinha dos mais altos valores humanos e sua possibilidade
suprema de realização. Ao contrário dessa visão teleológica que baliza o moderno entre
dois pontos fixos, a modernidade se realiza permanecendo vinculada a um discurso
tradicional em que o passado, longe de se tornar relíquia, resiste no bojo da política
crescente de racionalização e instrumentalização dos espaços levada a cabo pelos homens
do Iluminismo. Estudar a consolidação das práticas modernas é um esforço que diz
respeito à investigação dos espaços urbanos específicos que materializaram o ânimo
teórico presente no discurso das Luzes. Existem, supomos, bons ganhos compreensivos
quando optamos por vincular a discursividade característica do Iluminismo com a
materialidade dos espaços de socialização que demarcam novas formas de subjetivação e

80
Trabalho apresentado no GT Historiografia do III Encontro Regional Norte de História da Mídia.
81
Docente do Curso de Jornalismo na UFRR.

157
circulação de seres humanos, considerando, assim, que a abordagem compreensiva traz
implícita a possibilidade de, segundo Pierre Rosanvallon, “configurar genealogias de
possibilidades e impossibilidades que estruturam os horizontes dos atores” (2010, p. 48).
De fato, especular as possibilidades de diálogo e trânsito de atores considerados porta-
vozes das Luzes a partir dos espaços que freqüentara, é avançar no que diz respeito ao
esforço compreensivo da modernidade.
No que concerne à dificuldade de estudar o período de dispersão das Luzes, Lynda
Nead lança importantes questões em seus estudos sobre a cidade Vitoriana. Ao mesmo
tempo em que as práticas e discursos modernos investiam numa transformação radical do
espaço urbano, as crenças dos citadinos resistiam ao fluxo torrencial das mudanças. Esse
pano de fundo material que constitui a cidade se torna um agente das mudanças em curso,
nunca se mantendo inativo a elas, como se fosse o palco de um teatro (de forma que,
inclusive, “teatro das Luzes” não parece ser uma boa expressão). Ela não apenas ajuda a
estruturar as ações dos indivíduos como toma parte ativa nelas, ajudando a configurar
olhares, práticas, modos de vida e discursos (NEAD, 2000, p. 8).
A cidade, portanto, constitui um importante documento para a compreensão das
formas de viver e atua como um condicionante dessas mesmas expressões de vida. A
secularização da cidade faz parte das práticas modernas.Isso implica numa diferença
radical no olhar e no se relacionar com os outros e experimentar o mundo. Em seu estudo
Galáxia de Gutenberg (1972), Marshall McLuhan observava que novos condicionamentos
psíquicos surgiam com a iminência de novas práticas sociais, como aquela que diz respeito
à impressão e disseminação de material escrito. Jonathan Crary,ao estudar as formas de
olhar no século XIX, percebe que o confrontamento do indivíduo com a cidade em pleno
processo de modernização inclui transformações substantivas nas formas de enxergar o
mundo. Ou seja, há uma objetualização do mundo levada a cabo pelo observador cada vez
mais isento de relações subjetivas que, segundo a crença iluminista, poderia danificar a
apreensão do “mundo em si mesmo” (1990, pp. 10-1). Essa discussão de caráter mais
propriamente fenomenológico ajuda a dar uma dimensão das transformações substantivas
nos espectros de ações dos indivíduos, limitados como eram pelas mutações dos ambientes
vividos. É evidente que a transformação destes ambientes está ligada à emergência de
novas formas de discursividade e cultura política, aspectos importantes da historiografia.

158
Não obstante, o que nos importa sobretudo no espaço desse artigo são os meios que
disponibilizavam o trânsito desses discursos e seu espraiamento, lembrando que um
Voltaire sem papel escrito, sem teatro ou sem salões, não teria, senão no reino da
metafísica, se tornado Voltaire.
O Iluminismo foi alimentado por uma cultura de interação que tornou o intercâmbio
entre os indivíduos constante, a ponto de, muito pertinentemente, Lawrence Klein chamá-
lo de “Iluminismo como conversação” (KLEIN, 2001, p. 148). Tanto quanto os espaços,
importantes para a circulação desses indivíduos, era o material impresso que, nesse caso,
fazia parte de uma nova forma de olhar para o mundo.Como lembra Carla Hesse, “printing
and publishing were thus not only the most important cultural mechanisms for the spread
of Enlightenment ideas; printing and publishing were the embodiment of the
Enlightenment in action; the medium was the message - spreading light” (HESSE, 2004, p.
368). Observando a materialidade que encarna os discursos iluministas pretendemos lançar
questões sobre a vivência urbana, suas possibilidades e limitações dentro das práticas das
Luzes. Isto diz respeito a revitalizar o substrato que a cidade ofereceu para a grande
opulência e desenvolvimento de material escrito, subsidiando um surto de publicações
profissionais e opiniões profissionalizadas, que Habermas situa no limiar da formação de
uma opinião pública. Quem dá conta dessa nova tarefa urbana que consistia em
racionalizar o tempo e o espaço urbanos são os literatos que documentam a crescente
mercantilização do ofício do escritor, a perda dos altos valores culturais clássicos em
detrimento de uma escrita rápida e acessível ao maior número, o que é, indiscutivelmente,
característica do jornalismo enquanto uma prática organizadora dessa nova forma de
urbanidade.
Alexander Pope e Jonathan Swift, por exemplo, mencionam as transformações
literárias por que passa Londres junto com seus espaços. Os grandes literatos ingleses são
confrontados diariamente com um universo mental insalubre para a atividade intelectual.
Seus grandes esforços teriam sido vilipendiados em prol da mediocridade literária da
atividade jornalística. Uma multidão de escritores ressentidos e pobres, excluídos do
sistema de premiação literária, se concentrava na Grub-Street, rua tornada topônimo para
toda uma forma de vida literária na cidade (ROGERS, 1972, p. 13).

159
O Iluminismo, que aqui pretendemos apresentar em sua vinculação com os espaços
londrinos, em sua dependência do trânsito, circulação a apresentação contínua da novidade
e da diferença, caracteriza uma transformação contínua na organização da cidade
(GOODMAN, 2001, p. 130). Habermas notou essa importância ao sugerir o papel dos
cafés e salões para a formação de um círculo de retroalimentação entre escritos e
conversações: as conversas alimentavam a pauta periódica dos jornalistas, tanto quanto os
jornais reforçavam determinados círculos de conversação (2003, p. 59).James van Horn
Melton continua o estudo habermasiano desses espaços sugeridos como primeiramente
salões e cafés (2003) e amplia a gama de espaços, oferecendo um panorama mais completo
de seu papel de abrigar uma cultura da interação ou da conversação. Nosso interesse, no
âmbito deste artigo, é perceber como essas transformações de espaço abrigaram uma nova
forma de cultura escrita, ligada à regularidade e linearidade, a que se chama, hoje,
jornalismo, intimamente dependente do esforço interativo.

1. A imprensa na organização de Londres


Entender todo o fenômeno que transformou a vida social europeia – e não só da
Europa – a partir apenas do círculo de intelectuais ligados à Encyclopèdie diminui a
inteligibilidade da grande variedade de práticas e representações envolvidas na cultura das
Luzes. Alguns esforços de desconstrução do pensamento do século XVIII comprovam os
ganhos de não se investir apenas nos grandes escritos consagrados pelo público. Para tanto
é possível mencionar como Robert Darnton, por exemplo, descobriu nas canções populares
um rico material de estudos para se entender as transformações da vida e informação na
cidade iluminista (DARNTON, 2005). Ou, de outra forma, Pierre Rosanvallon, ainda que
tenha concentrado suas buscas históricas nos escritos considerados fundamentais para a
inteligibilidade do Iluminismo, considerou-os não como arcabouços fechados de ideias
consolidadas por práticas fechadas de negociação literária, mas sim como o substrato vivo
da fermentação de mudanças de toda uma época. Como ele fez, por exemplo, ao tratar o
liberalismo como uma cultura e modo de vida, um sistema operativo imbricado à vivência
cotidiana dos indivíduos, antes do que um conjunto de ideias enunciadas por philosophes
cercados por pilhas de livros (ROSANVALLON, 2002). São apenas exemplos de um olhar
mais amplo que torna o fenômeno iluminismo tanto mais difícil de capturar quanto

160
surpreendente de estudar.Isso implica considerar seriamente, em primeiro lugar, a limitação
da asserção de Ernest Cassirer que, na esteira de Peter Gay, afirma que “Enlightenment,
which is still usually treated as an ecletic mixture of the most diverse thought elements, is
in fact dominate by a few great fundamental ideas expressed with strict consistency in
exact arrangement” (CASSIRER, apud.WRIGHT, 2001, p. 88). A importante obra de
Ernest Cassirer parte assim do ponto de vista de que a experiência letrada concentrada em
torno da produção dos philosophes poderia caracterizar de forma ampla a experiência
social iluminista. Como lembra Roy Porter, a tendência em limitar a caracterização do
Iluminismo a grupos de indivíduos pensantes acabou impedindo a depuração de outras
experiências vinculadas ao mesmo movimento. Segundo o autor, essa visão estereotipada
do iluminismo teria limitado a concepção histórica e filosófica do movimento a uma
dispersão uniforme do pensamento transgressivo francês:

Enlightenment itself is still a black hole in English historiography.


Because, despite the recent advances in historiography which I have been
discussing, the Enlightenment in England has continued to suffer almost
total neglect. This is partly because general Enlightenment historians
such as Peter Gay insist on the essential unity of the Enlightenment,
which is then defined largely in terms of the French experience in the age
of Voltaire. The Enlightenment is thus seen as a systematic,
comprehensive, radical - even - revolutionary critique of the roots of the
ancien régime, spearheaded by a militant secularism whose motto was
écraser l'infâme. Clearly, eighteenth century England did not wage
battles such as these. But English elites - the equivalents of the
philosophes - did not need to. They lived in a state which, as the French
philosophes applauded, already embodied the Enlightenment in its
constitutionality, representative government, freedom of person, religion,
property and speech (PORTER, 1994, p. 253).

A peculiaridade do Early Enlightenment na Inglaterra, resultado direto da


Revolução Gloriosa e suas conseqüências políticas mais próximas, tornou os projetos de
liberdade típicos que se tornariam reivindicação dos philosophes franceses um símbolo da
própria constitucionalidade britânica. Essa constitucionalidade garantia a liberdade
individual e, portanto, a liberdade de reunião e trânsito de ideias, o que tornou várias das
reivindicações francesas inúteis na Grã-Bretanha e tornou possível a realização precoce de
uma esfera pública burguesa britânica. Retomar a noção habermasiana dessa esfera é
importante para caracterizar as noções aqui em jogo. A expressão tem sido repetida
continuamente e cada vez mais se perde em anacronismo (Cf. HABERMAS, 2003, p. 42).

161
A organização da esfera pública na Inglaterra caracterizou desde cedo o amadurecimento
de uma produção periódica regular, destinada às pessoas privadas. Isto é, como
explicitaremos adiante, destinados explicitamente à esfera doméstica em detrimento
daquela organizada, em última instância, em torno da corte (MELTON, 2001, p. 7). Essa
garantia constitucional tornou um imperativo da vida política a sua inserção criativa no
debate impresso, ainda que, durante um bom tempo, os jornais se desentrosaram de uma
entrada decidida no espaço público.
Alexander Pope dá testemunhos importantes sobre a energia do material escrito
periódico em Londres. Em 1729, ele descreve o surgimento de uma imprensa regular como
forma de deterioração da cultura escrita. O fato de ele verbalizar precocemente essa
denúncia comprova a importância do jornalismo na organização da vida diária em Londres:

Pope, no doubt because he lived at the beginning of a new era of popular


publishing and weekly journalism, took a firm stand against the upstairs
whom he saw invading the enclosed territory of literature. In the Dunciad
of 1729 it is partly the type that he is attacking: the pedantic scholar like
Hearne or Theobald; the weekly journalist like Roome and Concanen; the
party hack like Oldmixon; the popular writer like Mrs Centlivre, Mrs
Haywood, Ned Ward, or the author of Robinson Crusoe; the shameless
publisher like Edmund Curll (WATT, apud. ROGERS, p. 188).

Grub Street, mais do que uma rua, tornou-se um topônimo para a crescente ou
deteriorada atividade literária da cidade de Londres. Considerar os escritos que pululavam
na Grub Street implica ampliar o entendimento da esfera pública literária sugerida por
Habermas, na medida em que abarcava escritores incapazes de se inserir no debate
impresso racionalizado sobre formas possíveis de governo, quer dizer, simplesmente
disseminando intrigas contra o rei e seus ministros. De início, com Addison e Steele, o
jornal procura demarcar sua independência da esfera política, sugerindo um ambiente
doméstico independente. A formação da imprensa britânica no início do século XVIII é
marcada justamente pela tentativa de isenção dos jornais dos debates políticos, ao contrário
do que acontecerá na metade do século, com o surgimento dos jornais diários. A famosa
empreitada de Addison e Steele insinua um ambiente doméstico independente de qualquer
interferência política (PALLARES-BURKE, 1995). Também os “semanários morais”
contestavam, segundo Melton, o predomínio cultural da corte sobre os círculos de
conversação:

162
Demonstratively abstaining from politics, the moral weekly implicitly
distinguished the social from the political, the private from the public,
and thereby pointed toward modern notions of civil society as a sphere
autonomous from the state. In the context of the eighteenth century, the
moral weekly´s validation of sociability as an autonomous and non-
political arena implicitly contested the cultural dominion of the court. It is
no accident that in England, the moral weekly´s popularity came at a time
when the cultural influence of the royal court was rapidly dwindling
(MELTON, 2001, p. 97).

O envolvimento da imprensa com a vida política se tornará mais comum a partir de


1750 (HABERMAS, 2003, pp. 78-9). O lançamento do Morning Post em 1772 exemplifica
de forma clara como os jornalistas e editores jogavam com políticos e a importância de os
ministros terem gazetas favoráveis às suas ações. Ao mesmo tempo, esse jornal pode ser
considerado pontapé inicial para o desenvolvimento do jornalismo enquanto uma prática
profissional enraizada na urbanidade, isto é, como uma forma de escrita regular
concernente à organização do espaço público – quando, antes, Addison e Steele trataram de
organizar o ambiente doméstico e distingui-lo do público. Pope observa de forma negativa
o surgimento de uma esfera de jornalistas que passa a controlar a atividade escrita. Para
ele, subsistem basicamente duas formas de escritores:

There are two overlaid senses of ‘professional’ here. In the first place, we
have the regular, paid hack who depends wholly on fugitive writing for
his livelihood. Pope scorns such a man because his stake in literature is
inalienably commercial. If the hack does not deliver the goods, he will
not eat; consequently, he is bound to accept any commission, however
unworthy, and cannot conduct that free-ranging search of topics, themes
and styles which Renaissance theory demanded as a prelude to
worthwhile imaginative writing. His subject-matter and his manner of
treatment are generally preordained. Secondly, there is the other kind of
professional. The category described by Watt includes a number of
persons with vested interests in the escalation of vapid bookmaking. The
standard example of this type today would surely be the academic. In
Pope´s time, as Watt indicates, the world of literature was threatened by a
new breed of non-literary men. Pope had himself remarked on the
willing-ness of commentators on Homer to discuss anything rather than
the poetry as such. In men such as Bentley or Dr. Freind, he saw a similar
commitment to the world of letters without any vital engagement in the
human and moral qualities which books existed to proclaim. The new
‘professionals’, second sense, are therefore men with a positive vocation
– unlike the opportunistic hack. On the other hand, their cultural interests
are as it were contingent. They do not necessarily possess, and Pope
contends they generally will not possess, the deep personal attachment to

163
good writing which the true poet or true critic must nurture (1972, p.
189).

Aos jornais diários que passam a pulular em Londres é possível acrescentar as


grandes revistas doutrinais do começo do século 19, Edinburgh Review e Quarterly
Review, que ajudaram a dar contornos mais vivos e modernos para os partidos Thory e
Whig (COOPER-RICHET, 2006, p. 413). A produção periódica voltada para temáticas
políticas acompanha a formação de partidos com ideologias razoavelmente bem definidas e
cumpre um importante papel no delineamento do Estado Nacional Inglês. Para
exemplificar a importância da imprensa nesse processo, vale lembrar que foi a articulação
precoce dos setores monárquicos com alas mais progressistas da sociedade que garantiu a
permanência do rei enquanto uma figura com papel simbólico importante na Inglaterra
(HABERMAS, 2003, pp. 46-7). O fato de o rei ser um símbolo nacional garantidor da
unidade dos povos fez com que se tornasse um alvo privilegiado dos cartunistas e
caricaturistas que abundavam nos jornais. Contudo, tanto quanto era capaz de criar uma
imagem vigorosa do monarca, a imprensa era capaz de desmontá-lo. Cannadine
exemplifica, por exemplo, os lamentáveis episódios envolvendo o rei George III, que foi
um alvo constante dos ataques de cartunistas:

(...) embora as grandes cerimônias reais fossem completamente cobertas


tanto pelos jornais interioranos quanto pelos da metrópole, a imprensa
como um todo continuava hostil à monarquia. Nas primeiras décadas do
século XIX, as críticas feitas na imprensa londrina por Gillray,
Rowlandson e os Cruikshanks transformaram a monarquia ‘sem dúvida
no tema e no alvo mais comum dos caricaturistas’ (CANNADINE, 1997,
pp. 120-1).

Cumpre ressaltar, uma vez tendo criado relativa noção do papel da imprensa na
configuração de um espaço público na Inglaterra, a forma como o próprio discurso da
imprensa se desenrolava em determinados espaços de circulação, como é o caso das
tavernas da Grub-Street e da Cornhill, ou dos salões e cafés mencionados por Habermas
como princípio da esfera pública burguesa (2003, p. 45). A existência desses espaços é
fundamental para o surgimento de uma consciência pública ligada à discussão dos
problemas nacionais. Os espaços estão entranhados na cidade tanto quanto está o
jornalismo como literatura regular primeiramente derivada, segundo Habermas, dos

164
correios ordinários (2003, p. 29). Os critérios dessa nova forma de literatura estavam,
portanto, intimamente vinculados à troca epistolar permanente de informações. A
transformação da notícia em mercadoria vai ligá-la aos critérios de novidade da economia
capitalista. A velocidade dos escritos se acelera (MELTON, 2001, pp. 93-4), gerando, no
caso inglês, substrato material para aquela crítica típica de Pope e Swift ao conteúdo
dispersivo dos jornais.

2. Espaços de aglutinação de ideias e composição de identidades

Os espaços de socialização se multiplicavam em Londres na medida mesmo em que


aumentava a necessidade de transitar informações e se adensavam as relações comerciais
entre os indivíduos. Os mesmos papeis escritos que, na linguagem de Habermas,
caracterizavam a troca epistolar privada e forneceram, aos poucos, fundamentos para um
trânsito regular de informações da esfera pública, circulavam por estes novos ambientes e
forneciam temas e argumentos para uma classe ascendente de comerciantes (HABERMAS,
2003, p. 213). Os estrangeiros que, no século XVIII, buscaram a Londres das Luzes eram
tocados pelo clima cosmopolita da cidade, explícito numa infinidade de albergues limpos,
hoteis e ruas iluminadas que abrigavam uma promissora vida noturna. 16000 lamparinas
iluminavam as ruas e permitiam a extensão das sociabilidades para além de negociações
pontuais realizadas à luz do dia. A vida noturna, com suas tavernas e teatros, tornava-se
assim um ingrediente à parte na sociabilidade de Londres. Todo o processo de reconstrução
por que passa a cidade é dessa forma observado pelo visitante austríaco Johann Archenholz
em meados do século 18:

The contrast betwixt that and the western parts of the metropolis is
astonishing; the houses there are almost new, and of an excellent
construction; the squares are magnificent, the streets are built in straight
lines, and perfectly well lighted: no city in Europe is better paved. If
London were equally well built, no place in the whole world would be
comparable to it (ARCHENHOLZ, apud PORTER, 1990, p. 39).

A estrutura da cidade é modificada na medida em que as relações sociais adquirem


um estágio mais complexificado, tanto quanto surgem ideias relativas à instrumentalização
do espaço urbano de forma a economizar espaços e deslocar as sociabilidades, antes
guardadas nos salões das grandiosas casas dos aristocratas, para espaços públicos

165
destinados exclusivamente para isso. O discurso iluminista se entrecruza assim com uma
práxis específica de transformação do mundo. A cidade adquire a coloração dessas novas
ideias e, na medida em que se tinge delas, ajuda a fazer transitar os discursos iluministas.
No que diz respeito a, especificamente Londres, o papel dos salões é relativamente
limitado em detrimento da procura maciça pelas coffeehouses (MELTON, 2001, p. 211).
Isso quer dizer que estrangeiros chegados na cidade poderiam encontrar facilmente formas
de socialização independentes dos círculos de conversação provincianos da corte (ELIAS,
2001, p. 66), quais sejam, aqueles vinculados a hierarquias formais dentro das quais o
indivíduo era avaliado mais pelas suas etiquetas ou vínculos hereditários. Assim, a vida
moderna é a vida de uma cidade que se abre abandonando, em grande parte, a avaliação
dos indivíduos pelas etiquetas apresentadas em espaços hierarquicamente organizados. A
vida moderna é a vida em constante trânsito, o que, do ponto de vista especificamente
urbano, quer dizer privilegiar o cosmopolitismo no qual está implícita a possibilidade
constante de receber o radicalmente novo, ainda que isso seja motivado, num primeiro
momento, pelas necessidades comerciais.
Algumas representações da vida cosmopolita de Londres estão presentes nos relatos
de portugueses que, em especial a partir de 1807, migraram para a Inglaterra para fugir das
perseguições napoleônicas e lá tentaram reorganizar os seus negócios. Em torno do club
por eles montado na taverna City of London eles estabeleceram sua defesa contra a
espoliação aristocrática clamando por reformas no sistema monárquico de Portugal. Os
retratos que os portugueses fizeram da cidade iluminada podem lembrar o de Hipólito da
Costa, ao elogiar as cercanias do Hyde-Park, localizada próxima ao New Inn, onde ele
residia (CB, Vol. VI, p. 579). Da mesma forma, em uma longa série de comentários
dirigidos ao interlocutor Orestes, Rocha Loureiro em 1811 traça um panorama similar da
cidade:idílio urbano governado pelo rei constitucional (O Portuguez, Vol. I, p. 196). Os
dois jornalistas portugueses deixam caros relatos sobre a organização das comunidades
emigradas em Londres e tornam explícita essa abertura da cidade para a diferença. Não é
difícil encontrar espaços onde se pode ir e conversar em outras línguas.
O historiador James van Horn Melton percorre os espaços que fomentaram o
trânsito de diálogos iluministas, constatando, como fez Loureiro, a inocuidade dos salões
na sociedade de Londres e o grande fluxo nas coffeehouses e tavernas. Se eles foram uma

166
referência na organização das sociabilidades do iluminismo francês, na Inglaterra, talvez
pelo menosprezo destinado à mulher pela sociedade inglesa, as mulheres tiveram menor
possibilidade de se misturar aos homens nos espaços de socialização. Uma mulher numa
taverna era considerada então prostituta. Melton define como mais importantes para o
trânsito de diálogos femininos os spas, através dos quais muitas mulheres chegaram a se
tornar praticantes regulares de literatura (2001, p. 212).
No que diz respeito à sociedade londrina como um todo, adquiriram maior
importância as tavernas e coffeehouses. As primeiras abrigavam lojas maçônicas e clubs de
negociantes. Se as tavernas, ainda no século 18, possuíam um apelo mais popular e mesmo
plebeu, as várias leis contra bebedeira pública e a fiscalização policial tornaram-nas um
lugar mais propício para o diálogo calmo e, porque não dizer, iluminista. As tavernas se
tornaram assim lugares propícios para o trânsito de tendências e identidades, i.e, onde se
haveria de, forçosamente, confrontar com a diferença.

English taverns were a place where disparate publics intersected and


sometimes interacted. Originating as a predominantly plebeian sphere of
sociability, taverns were a central part of the emerging party system, the
expanding realm of popular politics, and the burgeoning associational life
of Hanoverian England. As a meeting ground for political elites and local
constituencies, as well as an organizational matrix for clubs, societies,
and extraparliamentary politics, taverns attracted a relatively broad
spectrum of English society (MELTON, 2001, p. 235).

Várias associações de espanhóis e portugueses que se estabeleceram em Londres a


partir de 1807 buscaram na taverna espaços regulares de meetings, no caso português a
taverna City of London, ou no espanhol a Crown and Anchor (MUNARO, 2013). As
tavernas poderiam se tornar um espaço de subjetivação incorporado à identidade dos
frequentadores – tanto quanto a Grub-Street era lembrada pela subliteratura, por exemplo.
Mitigando a presença excessiva do álcool nas tavernas, houve preponderância do café, que,
argumenta Melton, aparece como a legítima bebida do iluminismo. Graças às produções
coloniais de França e Inglaterra, estes países não possuíam problemas em oferecer café em
abundância. Segundo o mesmo autor, há uma íntima relação entre esses espaços de
animação intelectual e as bebidas neles consumidas, como se pode depreender do
verdadeiro protagonismo das coffeehouses no Iluminismo inglês.

167
As coffeehouses tornaram-se assim ambientes de nítida motivação intelectual. Os
proprietários dispunham não apenas vastas mesas para o acomodamento de vários
visitantes ao mesmo tempo, como também livros e periódicos contendo novidades. Quer
dizer, um café era um local no qual qualquer um podia ir para adquirir as notícias mais
quentes. James Melton ajuda a esclarecer essa conexão:

By 1729 the connection between coffeehouses and journalism had


become so self-evident that London coffeehouse owners petitioned
Parliament for a monopoly on the publication of newspapers. Parliament
rejected their plan to replace existing newspapers with a ‘Coffee-house
Gazette’, but the incident does illustrate how closely the worlds of
journalism and the coffeehouse were interwined (MELTON, 2001, p.
245).

A relação entre a leitura de jornais e as coffeehouses era assim bastante estreita e


vai além, como já notou Habermas, da mera disponibilidade de jornais nos coffeehouses, já
que os jornalistas se alimentavam ativamente dos diálogos nutridos nestes espaços. Por
outro lado, a conversação ativava as pautas jornalísticas na memória do leitor,
hierarquizando os temas a partir do substrato que forneciam para a interação. Este
promissor ambiente intelectual é responsável pela frutificação do jornalismo em sua forma
moderna, ocasião em que assume, para usar a fórmula de Habermas, o papel de “esfera
pública literária” (2003, p. 141).
Outro espaço urbano cuja menção é merecida é a loja maçônica, que poderia ou não
ser situada numa taverna. Este espaço, além de fornecer novidades pela freqüente
circulação de indivíduos, ajudava o visitante a se integrar na vida urbana local. Várias lojas
de portugueses e espanhóis foram criadas na Inglaterra e serviram de espaço de resistência
durante as invasões napoleônicas (MUNARO, 2013). No século 18 as lojas maçônicas já
forneciam aos indivíduos um espaço acolhedor baseado numa hierarquia distinta daquela
vivida pelos indivíduos no mundo profano.

The geographical mobility of merchants does much to explain


freemasonry´s appeal to this stratum, in Great Britain as well as on the
continent. Lodges gave merchants a social and communicative network
that provided valuable support during their extensive travels. For the
merchant traveling far from home, the familiarity and camaraderie he
found in a lodge helped to ease the loneliness and isolation he otherwise
felt as a stranger. No matter what town he visited, he could usually expect
a warm reception from his fellow masons. Through his masonic contacts

168
he often received food, lodging, or even credit in the event of a mishap
(MELTON, 2001, p. 255).

Evidencia-se, assim, uma grande mobilidade social tornada possível através de um


número cada vez maior de espaços de acesso público ou, então, espaços que ignoravam as
etiquetas cortesãs na hora de aceitar integrantes. As novas discursividades que acalentam a
retórica das Luzes produzem efeitos orgânicos e pragmaticamente orientados na estrutura
da cidade, que ora passa a tornar possível a circulação de indivíduos com fluidez similar à
da palavra escrita nas folhas de papel impressas. Tanto quanto a correspondência epistolar
privada transmuta-se em correios direcionados para públicos cada vez mais amplos, os
espaços domésticos fechados que alimentavam a funcionalidade da etiqueta aristocrática
deixam de ter um papel ativo na sociedade liberal organizada em torno da cidade.

Conclusão
A cidade iluminada materializa as práticas e representações da cultura iluminista.
Ela diz respeito a uma abertura constante ao novo em que a identidade transita
continuamente à mercê do cosmopolitismo intrínseco das práticas secularizadas.
Percebemos como esse olhar inclui as formas de vivência e subjetivação de espaços
específicos, que só poderiam existir a partir de uma práxis específica vinculada ao
iluminismo, isto é, à busca pela liberdade de manifestação de pensamento. A existência
desses locais nos quais se entrecruzava uma diversidade cada vez maior de informações
facilitou o desenvolvimento de práticas de escrita regular. Práticas que, por sua vez,
alimentavam o próprio trânsito de indivíduos ansiosos por obter as novidades mais
quentes. Ao mesmo tempo em que a conversa alimentava os ouvidos atentos do jornalista,
este atuava como um intermediário, deixando escritas informações e até mesmo boatos e
intrigas de interesse público.
A precocidade do envolvimento do Estado inglês com a esfera pública, na forma
inclusive de patrocínio de jornais, gerou uma situação bem menos tensa do que aquela
percebida na França. Os lordes, acostumados com a presença desconcertante dos jornais,
trataram de aumentar impostos, impor obstáculos e, por fim, patrocinar jornais rivais para
divulgar as suas ações e fazer sua defesa pública. A solidez da esfera pública em Londres
está ligada assim à solidez de sua esfera pública literária, patente num jornalismo cujas
primeiras formas de profissionalização já datam do início do século 18.

169
Bibliografia
CANNADINE, David. “Contexto, Execução e Significado do Ritual: a Monarquia
Britânica e a ‘Invenção da Tradição’, c. 1820 a 1977. IN: HOBSBAWM, Eric. A invenção
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170
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171
Ora, sim; ora, não! O diploma de Jornalismo em várias fases do
processo de profissionalização da atividade jornalística no Brasil

Robson DIAS82

Resumo: a discussão explora os atributos que conferem os limites desse grupo


profissional, levando em conta o processo de profissionalização do Jornalismo no Brasil
(1), a instituição do diploma como credencial ao mercado de trabalho (2) e o fim da
obrigatoriedade do diploma para exercício da atividade (3). O objetivo é o de refletir
sobre a construção do (des)valor do diploma até mesmo para os próprios jornalistas.
Trataremos dos limites do campo profissional sem o anseio de encerrar uma discussão
sobre a obrigatoriedade (ou não) do diploma para exercício da profissão, mas sobre sua
representatividade dentro e fora do campo jornalístico, enquadrando o Jornalismo
como uma profissão forte ou fraca, na classificação de Freidson (Sociologia das
Profissões).

Palavras-chave: Jornalista, Trabalho, Diploma, Profissão.

Processo de profissionalização do Jornalismo no Brasil


A estruturação do jornalismo como profissão está ligada ao pressuposto de
Objetividade, no que tange à adesão ao paradigma de Jornalismo Informativo e
distanciamento do Jornalismo Opinativo, além da regulamentação da atividade
profissional que fechou o mercado de trabalho apenas para os jornalistas oriundos da
formação universitária, ou seja, os portadores de diploma.

O Decreto-Lei 972/196983 criou a profissão de jornalista e regulamentou


seuexercício. A legislação produziu a classificação de dois gêneros de jornalistas: os

82
Doutor em Comunicação, formado pela Universidade de Brasília (Programa de Pós-Graduação da
Faculdade de Comunicação, PPGFAC/UnB) a partir do vínculo com os seguintes projetos de pesquisa
credenciados no CNPQ: A ideia do pós-Jornalismo (2010-2013), O Jornalismo como Teoria
Democrática (2006-2010) e Como o Terceiro Setor pauta a mídia (2003-2006). Atualmente, é professor
titular do mestrado Stricto Sensu em Comunicação da Universidade Católica de Brasília
(PPGSSCOM/UCB): r.ucbprofessor@gmail.com .
A revisão teórica e problematização apresentadas, neste artigo, serviram de base para o enfrentamento do
trabalho empírico da pesquisa de mestrado A influência do prêmio Jornalista Amigo da Criança sobre o
profissional de jornalismo: um estudo de caso, trabalho feito sob a orientação da Profª Drª Dione Oliveira
Moura (presidente SPBJor: gestão 2011-2013). O autor recebeu bolsa do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ).
83
O Decreto-Lei 972/1969 criou a profissão de jornalista, durante a ditadura militar. Foi alterado pela Lei
6.612/78.

172
que tinham formação pela prática cotidiana e atuavam no jornal com conhecimento
prático (1); e os que vinham de uma formação universitária (2).
Os jornalistas da prática cotidiana receberam uma licença para continuar a
atuar (portadores de registro provisionado). Já os oriundos da formação universitária
receberam o registro de Jornalista Profissional (portadores de diploma). Esses dois
grupos de jornalistas atuavam num mercado em transição. A mudança do paradigma do
Jornalismo Opinativo para o do Jornalismo Informativo. Franzoi (2003) afirma sobre a
transição de paradigmas que

(No Brasil) as profissões regulamentadas, a posse do diploma era


suficiente. Para as não regulamentadas, era necessária a comprovação
na prática da competência, ou seja, tratava-se por um lado de um
mercado fechado e por outro de um mercado competitivo (FRANZOI,
2003, p. 35).

O processo de profissionalização da atividade jornalística no Brasil não se


consolidou mesmo depois de quase 40 anos de fechamento do mercado com a
obrigatoriedade do diploma (1969-2009).. Muitos jornalistas do interior do país
recebem registros provisionados para exercício da atividade até hoje, pois não dispõem
de condições para cursar faculdades para a formalização do registro profissional. Assim,
muitos jornalistas no país trabalham com registros provisórios que, na verdade, ocultam
uma condição permanente.
A flexibilidade quanto a quem pode ou não praticar a atividade jornalística,
principalmente em relação ao acesso pelo registro provisionado, confere certa liberdade
dos membros do campo (jornalistas e empregadores) de reivindicarem um mercado de
trabalho, ora fechado, ora aberto. Para Senra (1997, p.14), a profissão de jornalista
“padece de uma ambiguidade, por assim dizer, histórica”.
Abramo (1997) vincula o processo de profissionalização da atividade
jornalística à complexidade do mundo contemporâneo:

O jornalismo foi se transformando de uma atividade geral para uma


profissão específica com o aumento da complexidade do mundo
moderno. Para o exercício do jornalismo, exige-se uma formação
especializada que permita que o profissional busque, organize, estruture
e hierarquize as informações, além de explicá-las, analisá-las,

173
interpretá-las e apresentá-las, utilizando-se de meios impressos,
auditivos e visuais (ABRAMO, 1997. p.296-298).

A questão profissional em Jornalismo é polêmica e passível de críticas. Paccola


(2003, p. 80) entende que o profissionalismo é mais uma marca do jornalista dos
tempos atuais que abandona progressivamente o ideal de mudar o mundo para
tornar-se um profissional.

Moretzsohn (2001) avalia o discurso do profissionalismo como um


argumento aceito quase que de maneira inquestionável: “quem
é profissional é responsável, equilibrado, justo, competente (...
ninguém pergunta competente para quê?)”. A autora traz à tona a
questão de que o grande marco dessa nova realidade seria a
descaracterização dos confrontos entre jornalistas e patrões. Os
empresários apreciam essa mudança, que preserva a mística da missão,
daquela tiram proveito para manter e até aumentar seus lucros, de modo
que a cobrança do profissionalismo não é acompanhada pela
remuneração salarial que seria correspondente.84

O diploma é de jornalista, mas o posto de trabalho ... de Relações Públicas


No Brasil, há a peculiaridade de os jornalistas terem assumido postos de
trabalho da área de Relações Públicas, evocando o discurso do profissionalismo.
Durante a Ditadura Militar (1964-1979), a atividade jornalística no país foi cerceada em
sua expressão e em limites profissionais. Neste período, a comunicação organizacional
tornou-se mais importante na esfera estatal do que as atividades de imprensa e mídia.
Muitos jornalistas foram demitidos de empresas jornalísticas e encontraram
postos de trabalho em organizações não-jornalísticas, nas assessorias de imprensa.
Duarte (2002) recupera que

84
MORETZSOHN, Sylvia. “Profissionalismo” e “Objetividade”: o jornalismo na contramão da política.
UFF. 2001. Disponível em http://bocc.ubi.pt/pag/moretzsohn-sylvia-profissionalismo-jornalismo.pdf.
Acessado em 12-12-2011.Antes dos anos 60, o jornalista era romântico, não tinha hora para sair do jornal,
depois ia para o bar e chegava em casa de madrugada. Aí, veio o regime militar, e com ele a censura e a
profissionalização. Os militares incentivaram a modernização da imprensa, facilitaram a compra de
equipamentos, a construção dos grandes prédios. Ao mesmo tempo, em que censuravam e prendiam
jornalistas. Neste momento, há uma mudança no perfil do jornalista, que se profissionaliza – se eu disser
isso os mais velhos não vão gostar, porque vão dizer que eles também eram profissionais. Também muda o
perfil do jovem que entra no jornalismo, nos anos 60 e 70. Ele não pode mais atuar na editoria de política,
que está cerceada (idem).

174
O interesse da imprensa por pautas relacionadas à economia, cultura e
negócios aumentou provavelmente mais pela perda de importância dos
assuntos políticos e, particularmente pela censura impostos pelo Regime
Militar (DUARTE, 2002. p.84).

O espaço noticioso na imprensa foi tomado por material distribuído pelas


assessorias de imprensa (releases, publieditoriais, matérias pagas). Também era comum
a publicação de passatempos e receitas de culinária no lugar de matérias jornalísticas
censuradas pelo governo. DUARTE (2002) resgata o relacionamento entre os meios de
comunicação e governo antes e durante a Ditadura Militar:
Para Duarte (2002), durante a Ditadura Militar, houve uma distorção na oferta
de informação que afetou a operacionalidade da atividade jornalística e do mercado
noticioso, especialmente no interior, onde os veículos de comunicação até hoje possuem
grande dependência da publicidade oficial governamental. Nessa fase de valorização da
atividade de Relações Públicas e desvalorização do Jornalismo (dentro do preceito de
Liberdade de Imprensa) ocorreu a ida de jornalistas, egressos das redações, para as
assessorias de imprensa.
Duarte (2002) afirma que os jornalistas iam trabalhar como RPs nas
assessorias de imprensa valendo-se da identidade profissional de jornalista, pois havia a
necessidade da comunicação organizacional se desenvolver quase como uma “agência
de notícias”:

O objetivo inicial, entretanto, era reunir jornalista para distribuir


material para jornais do interior, como uma agência de notícias, mas os
veículos não tinham recursos. Éramos jornalistas, não sabíamos atuar
na área comercial (DUARTE, 2002, p.84).

Com o fim da Ditadura Militar (1985), a Liberdade de Imprensa retornou


como preceito da sociedade brasileira. Os jornalistas tomaram a iniciativa de limpar o
noticiário midiático das notícias corporativas vindas das assessorias. Duarte (2002)
considera como fatores de retorno dos jornalistas a seus postos de trabalho nos jornais:
o ressurgimento da democracia, o movimento sindical, a Liberdade de Imprensa, os
novos padrões de competitividade no mercado e o prenúncio de maior exigência quanto
aos direitos sociais e dos consumidores. Para o autor, as empresas e as instituições
necessitaram de uma nova forma de comunicação com a sociedade e seus diversos

175
segmentos. O Jornalismo foi identificado como o grande instrumento, o caminho mais
curto para agir sobre a agenda pública, informar e obter uma imagem positiva.

Sobre esta questão, na análise de BUENO (1995),A comunicação deixa


de ser „perfumaria‟ [naquele período de redemocratização ou fim do
Governo Militar] ganhando as entranhas da administração pública e
privada e extrapola os limites dos tradicionais „jornaizinhos‟ internos
para assumir o status de um complexo poderoso, intrinsecamente
vinculado à chamada estratégia negocial (BUENO, 1995. p. 9).

A reviravolta fez com que os jornalistas retornassem aos seus postos de


trabalho nas redações, mas também expandissem oportunamente seus domínios
profissionais. Em suma, a categoria jornalística, oprimida durante a Ditadura Militar,
resgatou a finalidade pública da atividade e recuperou postos de trabalho e a função
num ambiente democrático.
Para Duarte (2002), houve uma caracterização peculiar da profissionalização
do jornalismo durante o período pós-ditadura:

A peculiaridade, no Brasil, é que assessoria de imprensa não é tratada


como relações públicas. Ainda que o jornalista deixe um jornal para
atuar em assessoria de imprensa, estabeleceu-se que sua atividade
permaneça sendo considerada jornalismo – subsidiário ou ao nível de
fonte (DUARTE, 2002, p.86).

O Jornalismo se tornou um complexo poderoso com a absorção de domínios


profissionais das Assessorias de Imprensa (AIs), tradicionalmente pertencentes à área de
Relações Públicas. A identidade profissional do jornalista brasileiro passou a contar
com a figura do Jornalismo Corporativo. Um fato inédito na história do próprio
Jornalismo não conhecido sequer pelos arquétipos vindos da Europa e dos Estados
Unidos. Para Kucinski (1986 apud 2002),

Hoje você vai cobrir um departamento do governo, alguma empresa, e


tem lá o jornalista para receber você. Formou-se uma promiscuidade
que levou a um mascaramento da função do jornalista (KUCINSKI,
1986, p. 17).

176
O processo de profissionalização do Jornalismo, depois da Ditadura Militar,
leva a uma discussão não só do que é ser profissional e não-profissional (1), mas do
limite de onde se emprega a força de trabalho: num ambiente jornalístico ou não-
jornalístico (2). As assessorias de imprensa passaram a ser domínio também dos
jornalistas devido à transparência que as organizações passaram a ter a com a abertura
de mercado nos anos 90 e a política neoliberal. Sant‟anna (2007) pontua que, no Brasil,
as assessorias de imprensa notabilizaram-se pelo ideal de dar transparência às entidades
assessoradas e o quadro legal conseguiu separar Publicidade de Relações Públicas, estes
dois de Assessoria de Imprensa. Nos demais países, não há muita diferença do perfil
desses profissionais, e a ação de algumas empresas estrangeiras que chegaram
recentemente ao Brasil mostra que o parâmetro delas consiste no que popularmente é
chamado de "marqueteiro" e tende a “contaminar” o modelo brasileiro de Jornalismo
Corporativo.85
Na maior parte dos países,86 a Assessoria de Imprensa (AI) é domínio exclusivo
dos profissionais de Relações Públicas. Fayard (2002) critica essa peculiaridade da
profissão de jornalista no Brasil e seus domínios

É inimaginável no modelo europeu um jornalista atuar como


divulgador, porque a carta (similar ao nosso registro profissional) é
dada a pessoas vinculadas a órgãos de imprensa e, por isso, não podem
atuar em atividades relacionadas às relações públicas em (DUARTE,
2002. p. 86).

A flexibilidade em relação aos domínios da atividade jornalística, no Brasil,


influencia diretamente a estruturação da carreira e o processo de profissionalização.

85
SANT‟ANNA, Francisco. Mídia das fontes: o difusor do Jornalismo Corporativo. Disponível em
http://bocc.ubi.pt/pag/santanna-francisco-midia-fontes.pdf. Acessado em 12-12-2011
86
Em Portugal, o jornalista que vai trabalhar em uma organização não-jornalística é obrigado a afastar-se
do sindicato e, portanto, perde o direito de exercer a profissão. O que leva a crer que “a origem do
profissional e o uso de técnicas jornalísticas não implicam que a assessoria de imprensa seja Jornalismo,
uma profissão essencialmente crítica e independente caracterizada pela atuação em veículos de
comunicação autônomos” (DUARTE, 2002, p.86)superficialmente, nos complexos mecanismos de apoio
a clientes que pagam para ter uma boa imagem perante a opinião pública. Esse mesmo número de
profissionais, segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), ocupa cargos em redações de rádio,
TV, revistas, jornais e internet, considerando seus dados de 2004, quanto havia cerca de 40 mil profissionais
atuantes no país (MARQUES, 2001).

177
A profissionalização do jornalismo no Brasil também está intimamente ligada
ao fator de emprego e desemprego. O trabalho do jornalista como assessor de imprensa,
durante a Ditadura Militar, era meramente empregatício de caráter provisório.
Entretanto, passou a ser encarado como pertencente ao domínio profissional, de forma
permanente. Destaca-se que a aglutinação da Assessoria de Imprensa ao rol de fazeres
jornalísticos, no Brasil, está ligada ao cotidiano e não à formação profissional. Tanto
que as grades curriculares não têm grande ênfase nas atividades de AI mesmo sendo
estas responsáveis pelo emprego de boa parte da categoria. Na avaliação de Marques
(2007),

Como a maioria das escolas de Jornalismo ainda não maculou seus


currículos com cadeiras de assessoria de imprensa, a grande maioria dos
20 mil jornalistas que atuam em assessorias, universidades ou como
frilas não estão tecnicamente habilitados, já que do ponto de vista legal
essa habilitação não existe, para trabalhar em assessoria de imprensa.
Esses profissionais, que já pagaram altas mensalidades para conseguir o
diploma e contribuem religiosamente com os sindicatos de jornalistas
para serem considerados como tais, viram alvos fáceis de editoras
que lançam obras produzidas para introduzi-los.

Duarte (2002, p. 85) destaca o depoimento do jornalista Antônio Alberto


Prado que considera sobre a classe jornalística: “nós, jornalistas, muitas vezes vemos
nossa profissão como uma espécie de religião. Como para um padre, também para nós é
muito difícil deixar a batina. No entanto, eu descobri que a enorme bagagem que os
repórteres reúnem estava repleta de ferramentas fundamentais, desejadas, apreciadas e
melhor pagas nas indústrias e em outras empresas não-jornalísticas”.

Diploma Universitário
Desde o Decreto-lei 972/1969, o diploma universitário tornou-se exigência
para atuação profissional na área do jornalismo. A profissão de jornalista foi criada, no
Brasil, por meio desse marco regulatório. Entretanto, já existia compilação de direitos
trabalhistas que contemplava a atividade jornalística, desde 1943, na Consolidação das
Leis Trabalhistas, CLT.
A CLT definiu o jornalista como trabalhador intelectual que tem função de buscar
informações e redigir notícias e artigos. O Decreto-lei 972/1969 deu status

178
profissional ao jornalista e instituiu nos parâmetros legais a divisão do trabalho: editor,
repórter, revisor, ilustrador, desenhista, fotógrafo, arquivista. O Governo Militar
submeteu o exercício da atividade ao registro no Ministério do Trabalho e o controle de
exercício da profissão era feito pela emissão de carteiras portadoras do status de
“provisionado” e “profissional” (SALVIANO, 2006. p. 18).
Nos anos 60, existia a necessidade política de controlar a atividade jornalística e a
preocupação econômica de gerenciar as instituições de comunicação em um sentido mais
empresarial. Havia os seguintes posicionamentos: os provisionados repudiavam a ideia
de acesso à carreira pela via exclusiva do diploma e os empresários reivindicam cada
vez mais os jornalistas profissionais, por terem perspectiva da notícia como
produto (referencial de Objetividade).
Nos anos 70, os próprios empresários que haviam reivindicado os jornalistas
profissionais passaram a substituí-los por estagiários. Foi quando o Decreto
nº83.284/1979 alterou alguns artigos do marco regulatório de 1969. As entidades
de classe dos jornalistas formularam mudanças na legislação com o intuito de coibir a
exploração da mão-de-obra estudantil nas empresas pela via do estágio universitário. A
partir dessa época, o contexto passou a ser outro. A grande oferta de cursos de
graduação na área e os 10 anos de regulamentação em lei contribuíram para a
quantidade de jornalistas profissionais ser maior que a de provisionados naquele período
(Idem).
Entretanto, os posicionamentos no campo do Jornalismo se inverteram. Os
jornalistas que repudiavam o profissionalismo passaram a defendê-lo em vista das
proteções legais instituídas e a força sindical que a classe ganhou nos anos 70. E os
empresários que promoveram o profissionalismo passaram a atacá-lo, pois não
conseguiam ter mais tanta autonomia sobre o trabalho dos jornalistas em vista do
amparo legal.87

87
“O jornalista novato começava como pombo-correio (office-boy , para outros) e, com os ensinamentos,
com o contato com os repórteres mais experientes, ia aprendendo as técnicas. Nas décadas de 1960 e
1970, a formação de jornalistas era feita, principalmente, dentro das redações. O diploma não era
indispensável. Mas não era só a pessoa novata que ia para a redação, também pessoas de nível cultural
mais elevado. A formação do jornalista dentro das redações terminou no Brasil com outro ato autoritário: o
golpe militar de 1964. Mas as empresas só começam a se preocupar em dar fim à obrigatoriedade do
diploma profissional após o enfraquecimento do golpe militar. Por que acontece isto? Censura? Luta para
pagar menos salário?” (PENA, 2006. p.41)(que responderiam por eles), e de onde mais grassam erros
jornalísticos – tais como reportagens sem a objetividade necessária, ou seja, sem ouvir o outro lado,

179
Segundo Abramo (1991, p. 110), na ausência da obrigatoriedade d o diploma, o
único definidor de quem é o jornalista é o patrão. Esse é o objetivo final. Se o patrão
define quem é o empregado, define também qual é a composição social, política,
cultural do sindicato a que pertence. Acaba definindo também quem deve ser a liderança
sindical dos seus próprios empregados.
Sobre a questão, Salviano (2006, p. 30) entende que a defesa do diploma não é por
corporativismo, mas uma tentativa de se evitar irregularidades. O autor não acha que
a obrigatoriedade do diploma deva ser discutida com base no princípio
constitucional da Liberdade de Expressão, retirando a credencial de autonomia do
campo. Para o autor,

Existe um pouco de preconceito quando se debate a questão, pois se


perguntarmos a quem quer que seja sobre a possibilidade de se trabalhar
como engenheiro, dentista ou médico sem diploma de ensino superior,
todos respondem que não; agora, na questão do jornalista, na qual
a graduação ensinará técnicas de redação, ética redacional, entre
outras matérias essenciais ao desempenho da profissão, há divisão
nas respostas, principalmente em cidade que têm diversos jornais,
sem jornalistas formados em suas redações

A problemática em torno do diploma está diretamente relacionada à realidade


brasileira, principalmente do interior. Os jornalistas provisionados não são apenas
figuras dos anos 60 e 70, do processo de transição profissional. Trata-se de um tipo de
jornalista com inserção permanente no mercado de trabalho, devido à ausência de
escolas de habilitação na área e de oferta da mão-de-obra. De acordo com o Decreto
83.284/1979, a admissão de provisionado é permitida nos municípios onde não exista
curso de jornalismo reconhecido na forma da lei e comprovadamente, não haja
jornalista domiciliado, associado do sindicato representativo da categoria profissional,
disponível para contratação.88

e/ou notícias inverídicas, pois aqueles que se dizem jornalistas não forma checar a realidade dos fatos, entre
outros aspectos (idem).
88
Artigo 16 do Decreto 83.284, de 13 de março de 1979.Há uns cinquenta anos não estavam na moda
escolas de jornalismo. Aprendia- se nas redações, nas oficinas, no botequim do outro lado da rua, nas
noitadas de sexta-feira. O jornal todo era uma fábrica que formava e informava sem equívocos e gerava
opinião num ambiente de participação no qual a moral era conservada em seu lugar.
Não haviam sido instituídas as reuniões de pauta, mas às cinco da tarde, sem convocação oficial, todo
mundo fazia uma pausa para descansar das tensões do dia e confluía num lugar qualquer da redação para

180
O fato é que pessoas sem formação universitária são admitidas até hoje como
jornalistas, o que contribui para a perpetuação do processo de profissionalização, sem o
alcance de consolidação. Desta forma, o argumento de que não é necessário ter o
diploma para exercer a profissão torna-se sempre válido, pois mesmo nos 40 anos de
vigência da obrigatoriedade do diploma (1969-2009), houve um extrato realmente de
jornalistas diplomados. Os provisionados sempre foram admitidos, de forma
permanente, mas se estabelecendo como permanente. Existem provisionados com
registro provisório há 30/40 anos. Sobre este tema, Martins (2007) entende que

A questão do diploma para a prática do jornalismo acabou engendrando


radicalismos de todos os lados. A corporação dos próprios jornalistas,
embora no estrito cumprimento da lei, em vez de conquistar o direito de
regular e regulamentar legalmente as exceções ao diploma, preferiu
encastelar-se no clássico argumento da impermeabilidade de outras
profissões a incursões externas. Exemplo típico e histórico: advogado
podia ser jornalista, mas jornalista não podia ser advogado. Em lugar de
atuar para a reformulação da lei, no que ela perdeu em
legitimidade, lutou por fazê-la cláusula pétrea (MARTINS, 2011).

O escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez já foi jornalista e, certa vez,


discorreu sobre a vocação e a capacitação necessária para exercer a atividade
jornalística. Na análise de Márquez (2007),

Quer dizer: as empresas empenharam-se a fundo na concorrência


feroz da modernização material e deixaram para depois a formação de
sua infantaria e os mecanismos de participação que no passado
fortaleciam o espírito profissional. As redações são laboratórios
assépticos para navegantes solitários, onde parece mais fácil comunicar-
se com os fenômenos siderais do que com o coração dos leitores. A
desumanização é galopante (...) (MÁRQUEZ, 2011).

tomar café. Era uma tertúlia vaberta em que se discutiam a quente os temas de cada seção e se davam
os toques finais na edição do dia seguinte. Os que não aprendiam naquelas cátedras ambulantes e
apaixonadas de vinte e quatro horas diárias, ou os que se aborreciam de tanto falar da mesma coisa, era
porque queriam ou acreditavam ser jornalistas, mas na realidade não o eram. (...)A prática da profissão, ela
própria, impunha a necessidade de se formar uma base cultural, e o ambiente de trabalho se encarregava
de incentivar essa formação. A leitura era um vício profissional. Os autodidatas costumam ser ávidos e
rápidos, e os daquele tempo o fomos de sobra para seguir abrindo caminho na vida para a melhor profissão
do mundo - como nós a chamávamos. (...)No caso específico do jornalismo parece que, além disso, a
profissão não conseguiu evoluir com a mesma velocidade que seus instrumentos e os jornalistas
se extraviaram no labirinto de uma tecnologia disparada sem controle em direção ao futuro.

181
A obrigatoriedade do diploma polemiza não só a questão da formação universitária
em jornalismo, mas os critérios utilizados na definição do que é ser jornalista no Brasil e,
também, na existência de uma identidade profissional.

Fim da obrigatoriedade do diploma (que nunca foi tão obrigatório assim)


O Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a exigência de diploma para o
exercício da profissão de jornalista no dia 17 de junho de 2009, depois de 40 anos de
regulamentação da profissão. A questão era a recepção do Decreto-Lei 972/69, editado
durante a Ditadura Militar, e a sua legalidade perante a Constituição de 1988. Dois
meses antes desse episódio, a Lei de Imprensa também foi derrubada evocando os
mesmos argumentos de: não-receptividade pela Constituição.
Quando o STF decidiu pelo fim da obrigatoriedade do diploma, os jornalistas e
sindicatos de classe imediatamente se sentiram diminuídos e prejudicados pela decisão.
A reação destes foi a de entender o resultado do julgamento como uma ofensiva. Isso
deu espaço ao início de uma guerra metafórica, na qual, os jornalistas circunstanciaram
a queda da obrigatoriedade justificando-a apenas pela decisão do STF, o evento final de
um processo que judicialmente já corria há 8 anos. Logo após a decisão judicial, no
noticiário de todo o país, sociedades de pesquisa, entidades patronais e de classe, não
ouve sequer a menção ao fato de que o fim da obrigatoriedade do diploma seja resultado
da própria validação que o campo profissional nunca deu ao diploma, pois em 40 anos
de exigência, ele não foi tão obrigatório assim.
Os conflitos internos ao campo mostram certo desentendimento entre os próprios
integrantes do grupo social. Tal fato, pode não ocorrer em relação a outros campos
(como é o caso dos advogados, médicos, engenheiros, arquitetos etc.). Contudo, um
campo vê o outro. No caso específico do jornalismo, Bourdieu (1998) ressalta que

O mundo do Jornalismo é um microcosmo que tem leis próprias


e que é definido por sua posição no mundo global e pelas atrações e
repulsões que sofre da parte dos outros microcosmos. Dizer que ele
é autônomo, que tem sua própria lei, significa dizer que o que nele
se passa não pode ser compreendido de maneira direta a partir de
fatores externos (BOURDIEU, 1997, p.55).

182
A representação da identidade do jornalista não existe só dentro do campo
profissional do Jornalismo. Até porque as referências internas (internalidade) ao grupo
são exteriorizadas (exterioridade) para a sociedade e outros grupos. A representação
social do que é o jornalista só existe no ambiente social se for validada e reconhecida pelo
outro. Logo, será que apenas o STF achou que não era necessária a obrigatoriedade do
diploma de jornalista ou os próprios jornalistas não exteriorizaram esse tipo de
representação para a sociedade e outros campos (como o da magistratura, o do direito
constitucional, no caso do STF)?
Segundo Oliveira (2005, p. 18), essas representações circulam não apenas no
campo profissional, mas também no universo social mais amplo, no qual os jornalistas
estão inseridos. No entanto, o contato com esse sistema simbólico é reforçado a partir
do processo de socialização dos sujeitos no campo jornalístico (que tem início, via de
regra, nos cursos universitários) marcando o indivíduo ao fornecer-lhe uma identidade
sociocultural.

Lopes (2007, p. 29) acredita que muito do que a sociedade percebe da identidade
jornalística está relacionado ao reconhecimento do tipo de atividade que os jornalistas
exercem. Quando vemos um âncora na televisão, ou um repórter com seu gravador diante
de um entrevistado, ou um amontoado de fotógrafos ao redor de um político, supomos
que ali estão indivíduos pertencentes ao grupo dos jornalistas. Seus modos de trabalhar
são fontes de reconhecimento por parte das outras pessoas, o que caracteriza, portanto,
uma delimitação da abrangência de ação de um grupo a partir de julgamentos externos.
Para a autora, internamente, o “savior faire” também organiza fronteiras do grupo
profissional. Quando os agentes reúnem-se em torno das práticas típicas do Jornalismo,
estão, assim, partilhando o Habitus, ou seja, realizando suas ações (individuais ou
coletivas) dentro de variadas relações de poder e de estruturas organizantes do espaço que
ocupam. O fazer diário da profissão engloba mais que as atividades a serem realizadas
cotidianamente, abrangendo também os diversos contextos atrelados a esse fazer.
Podemos dizer que, pelo discurso jornalístico (cujo formato, regras e gêneros
também são fruto de ordenamentos e rearranjos), os jornalistas negociam seu poder, sua
credibilidade, sua aceitação e a abrangência de sua atuação no espaço social.

183
Desta forma, ressalta-se que a representação da identidade do jornalista (com ou
sem diploma) não existe só dentro do campo. A representação só existe no ambiente
social se for validada e reconhecida pelo outro. Essas representações circulam não
apenas no campo profissional, mas também no universo social mais amplo no qual os
jornalistas estão inseridos. Por isso, não se pode colocar os ministros do STF como
algozes do Jornalismo, nem mesmo os sindicatos patronais etc. Estes só são atores, dentro
de um processo de referencialização, exterior ao campo profissional de Jornalismo, que
compartilham da representação do próprio campo jornalístico de que o diploma não
necessite ser obrigatório.
Quando a FENAJ diz que vai fazer uma campanha de conscientização do valor do
jornalista diplomado entre os jornalistas, nas entrelinhas, está reconhecendo que os
próprios jornalistas não acham que esse tipo de jornalista tenha importância e nem as
questões concernentes a ele (formação humanística, teoria). Até porque uma campanha de
valorização visa exatamente quem desvaloriza (e não quem já valoriza). E esse
desmerecimento, figura dentro das categorias de interioridade e exterioridade que
cristalizam representações simbólicas na sociedade e nos grupos. Como os jornalistas
não valorizam o diploma como único meio de acesso à profissão, a sociedade comunga
deste mesmo entendimento.

Conclusão

O artigo não tem a ambição de resolver tensões inerentes ao processo de


profissionalização do Jornalismo, tais como:

 jornalistas profissionais x provisionados;


 redações x assessorias de imprensa; e
 sindicatos patronais x sindicatos de classe.

Buscamos apenas resgatar alguns contrastes para evidenciar que muitos


elementos no Jornalismo tiram de seu escopo o status de profissão forte, para muito
além do fechamento do mercado profissional via obrigatoriedade de diploma:

 formação técnica x formação humanística;

184
 prática versus teoria;
 interesse público versus privado; e
 informação x opinião.

O intuito com os contrastes foi também o de evidenciar a fragilidade da


profissão, pois segundo os de Freidson (1997) que elaborou na Sociologia das
Profissões um tipo ideal de estruturação das profissões ditas “fortes”, estipula como
requisitos:

1) A aplicação de um corpo especializado de conhecimento na prática


da atividade, dentro do mercado de trabalho formal, para o sustento dos
praticante, requerendo familiaridade com conceitos abstratos e teorias,
o que lhe confere certo status
2) Os integrantes do campo profissional devem possuir jurisdição sobre
o corpo do conhecimento necessário a sua prática e sobre a
organização da forma particular de divisão do trabalho que a atividade
possui.
3) Os integrantes devem possuir mecanismos de proteção dos
praticantes no mercado de trabalho, através da concessão de
credenciais que afirmem a sua competência para exercer tarefas
4) A profissão deve ter programas de treinamento, ou cursos, que têm
lugar fora do mercado de trabalho, em faculdade associadas a
universidades. Seus currículos são estabelecidos e controlados
pelos membros da profissão (FREIDSON, 1995. p..23).

Em analogia à tipologia de profissão forte de Freidson (1997), passando pelo


nosso tema em apreço, podemos identificar que, no contexto brasileiro, toda a questão
da profissionalização do Jornalismo e a polêmica do diploma resvala no ponto 3 (Os
integrantes devem possuir mecanismos de proteção dos praticantes no mercado de
trabalho, através da concessão de credenciais que afirmem a sua competência para
exercer tarefas) e no ponto 4 (A profissão deve ter programas de treinamento, ou
cursos, que têm lugar fora do mercado de trabalho, em faculdade associadas a
universidades. Seus currículos são estabelecidos e controlados pelos membros da
profissão). E com um seríssimo agravante: o Jornalismo, como profissão, não
conseguiu jamais fechar realmente o acesso ao mercado de trabalho mediante diploma,
nem mesmo fazer das escolas e cursos acadêmicos o único centro de formação de
jornalistas. O ensino prático e os cursos corporativos (como o curso Abril de
Jornalismo) são exemplos disso.

185
Referências Bibliográficas
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BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro. Jorge Zahar. 1997, p.55
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Decreto-lei nº 972/69 (dispõe sobre o exercício da profissão de jornalista)

, Lei 6.612/78 (altera o Decreto-lei 972/69)

, Decreto 083.284/79 (dá nova regulamentação ao Decreto-lei 972/69, em decorrência


das alterações introduzidas pela Lei nº 6.612/78. Todos sobre a profissão de jornalista)

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em http://bocc.ubi.pt/pag/santanna-francisco-midia-fontes.pdf. Acesso em 12-12-2011
186
O jornalismo em território indígena: breves considerações sobre a
presença da mídia na festa da homologação da Terra Indígena Raposa
Serra do Sol89

Vângela Maria Isidoro de MORAIS


Antonia Costa da SILVA
Sandra Maria de Moraes GOMES90

Resumo: O presente trabalho analisa alguns aspectos de interesse jornalístico, suscitados a


partir da presença de vários meios de comunicação durante a cobertura da comemoração da
homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol (TIRSS), em Roraima. Intitulada festa
dos “Netos de Makunaimî91”, a celebração desse reconhecimento territorial levou um
grande número de pessoas, autoridades e repórteres à comunidade indígena Maturuca, a
350 km da capital do Estado, Boa Vista, um ano após a decisão do Supremo Tribunal
Federal (STF) em favor da homologação contínua dessas terras. Mais do que a dimensão
tecnológica em observar a diversidade de veículos de comunicação na distante terra
indígena, o aparato de uma cobertura local, nacional e internacional leva-nos a pensar na
dimensão de sentidos construídos nesse contato entre profissionais da imprensa e
lideranças indígenas. As tensões estabelecidas no momento da autorização e formas de uso
das imagens da festa é um exemplo dos sentidos negociados entre jornalistas e os
representantes das comunidades indígenas. A perspectiva da análise está centrada em
respostas oferecidas pelos jornalistas em um breve questionário que inspira a reflexão
sobre questões de fundo da prática jornalística.

Palavras-chave: cobertura jornalística; indígenas; terra; homologação.

Esta análise restrita a alguns aspectos da cobertura jornalística dispensada no dia da


festa da homologação da TIRSS, em Roraima, volta-se para a construção da história da
mídia dos nossos dias. Por isso mesmo, a reflexão que aqui se apresenta traz as marcas de
um tempo recente, submetida às intempéries de uma tentativa de apreensão em movimento,
em elaboração. Por outro lado, o debruçar-se sobre acontecimentos como esse é uma
oportunidade singular para dinamizar o tempo, para buscar dimensões que não se limitam
89
Trabalho destinado ao GT Historia do Jornalismo.
90
Professoras do Curso de Jornalismo da UFRR.
91
Makunaimî, expressão em língua nativa para designar a principal referência mitológica dos Macuxi. O sol
era apaixonado pela lua, mas quis o destino que eles nunca se encontrassem. Enquanto a lua nascia no
horizonte o sol se punha. O tempo passou, e a natureza decidiu então tornar este encontro possível através de
um eclipse. Deste encontro nasceu Macunaíma, índio guerreiro, herói da tribo macuxi que teve como berço o
imponente Monte Roraima.

187
ao presente dos fatos, promovendo inevitavelmente o que a antropóloga Paula Montero
(2006, p. 15-16) assinala: “[...] os que trabalham com o presente precisam decompor as
evidências etnográficas de modo a perceber as várias ‘camadas históricas’ depositadas na
superfície enganosamente plana que se oferece ao olhar do observador direto”.
A primeira camada a destacar forja-se na escalada de duas interrogantes: Por que o
ato administrativo e jurídico da homologação da TIRSS tornou-se motivo de festa e por
que esta comemoração mobilizou diferentes meios de comunicação dentro e fora do
Brasil?
A homologação da TIRSS no ano de 2005, pelo então presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, deu-se após três décadas de disputas acirradas entre os índios e não-índios da
região, foi uma das ações políticas mais significativas para o Estado de Roraima naquele
ano. A determinação da saída dos não-índios da TIRSS foi o prenúncio de mudanças em
alguns setores da sociedade local, com a determinação do remanejamento de famílias que
residiam na área,além da resistência de maior repercussão dos rizicultores que se
utilizavam de parte da terra indígena para a sua produção. Um marco do desagravo do
poder político local foi a atitude do então governador, Ottomar de Souza Pinto, (PTB), ao
decretar luto oficial de sete dias devido ao reconhecimento da TIRSS.
O governo de Roraima com o apoio dos rizicultores, entrou com uma ação contra a
União para tentar tornar nulos os efeitos da portaria nº 543 do Ministério da Justiça, que
culminou com a assinatura do decreto presidencial homologando a TIRSS em área
contínua.
Entre petições de ações encaminhadas para Brasília e depois de várias tentativas da
Fundação Nacional do Índio, Funai, para retiradas de arrozeiros e não-índios da região, no
mês de agosto de 2008, o Supremo Tribunal Federal, STF, mandou suspender as operações
e anunciou que decidiria a questão.
Com o intuito de evitar possíveis confrontos e garantir a segurança no Estado, o
Governo Federal enviou uma força-tarefa com o nome Upatakon que significa “nossa
terra”, na língua Macuxi. Esta força-tarefa reunia centenas de policiais federais e
rodoviários federais, além de contar com a participação da Aeronáutica e do Exército
Brasileiro.
Enfim, nos dias 18 e 19 de março de 2009, o STF anuncia, definitivamente, a

188
sentença favorável à homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol em área
contínua. Dos 11(onze) votos, 10(dez) foram favoráveis e 01(um) contra.
A área indígena da Raposa Serra do Sol92 localiza-se na fronteira com a Guiana e a
Venezuela, a noroeste de Roraima, e possui uma área de 1,67 milhão de hectares onde
vivem aproximadamente 19 mil índios de cinco etnias: Macuxi, Wapichana, Ingarikó,
Taurepangue e Patamona.
Conforme lembra Morais (2013, p.32), além da cronologia,os sentidos se
reelaboram por interesses divergentes. “Parafraseando o relator do processo sobre a
demarcação no STF, ministro Carlos Ayres Brito, em torno da temática da TIRSS, há uma
“toada de intermináveis dissensos”93.
Os argumentos contrários à homologação contínua se basearam em dois pólos de
entendimento: o de que a destinação das terras de forma contínua impediria o
desenvolvimento do Estado, por retirar áreas produtivas; e o de que a homologação desta
terra, situada em área de fronteira (com a Venezuela e a Guiana), colocaria em risco a
soberania do país diante da cobiça de outras potências mundiais e da ameaça de
internacionalização da Amazônia.
Os argumentos em favor basearam-se na garantia constitucional do direito de posse
permanente e exclusiva de suas terras pelos povos indígenas, na sobrevivência de culturas
milenares e na preservação do meio ambiente.
Os índios, organizados ou não em associações representativas, assumiram posturas
divergentes. As duas mais importantes organizações, o Conselho Indígena de Roraima
(CIR) e a Sociedade de Defesa dos Índios Unidos do Norte de Roraima (Sodiurr)
preservam diferenças de concepção sobre o uso da terra. O CIR, oriundo desse processo de
aproximação com a Igreja Católica, defendeu a homologação contínua. A Sodiur, um
movimento que mantém uma maior aproximação com os programas do governo estadual,
defendeu a homologação em “ilhas”, espaços fragmentados que permitiriam a convivência
com populações não indígenas.
Esse contexto de embates e resistências torna a celebração da homologação

92
No Brasil, a TIRSS é uma das maiores áreas destinadas a usufruto exclusivo dos indígenas. Em Roraima,
essas áreas correspondem a 46,37% das terras do estado.
93
A íntegra do voto do relator consta nos arquivos virtuais do site do Superior Tribunal Federal. Disponível
em: <http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/pet3388CB.pdf>. Acesso em: 15 ago. de
2011.

189
contínua digna de nota. Tem-se aqui uma nova e importante camada histórica a destacar.
Silva (2009), em sua dissertação de mestrado,lembra que nas lutas pelo direito à terra, a
Raposa Serra do Sol chamou a atenção do Brasil e do mundo. Principalmente após a
decisão em área contínua. Na época, O Conselho Indigenista Missionário, Cimi Norte I,
reconheceu que esse foi um dos passos mais significativos para assegurar o futuro desses
povos. Diante disso, a festa das comunidades indígenas desperta, por suas características
históricas, alto interesse dos meios de comunicação.
O Conselho Indígena de Roraima (CIR) decidiu realizar a festa em comemoração a
homologação em área contínua no dia do índio, em 19 de abril de 2010, cinco anos após a
assinatura da homologação. Como dito, embora o decreto tenha sido assinado em 15 de
abril de 2005, a festa não se realizou na época, devido aos conflitos gerados na região.
A própria natureza sócio-cultural da festa, insinua um processo comunicacional, a
colocar em suspenso o cotidiano e a atividade produtiva, e a preencher esse espaço de
ludicidade, agradecimento e alegria, em distintas formas de apresentação, por meio de
músicas, cantos, danças, oralidades, comidas e bebidas, evocando tradições, mitos, crenças
religiosas e heroísmos.
Pode-se dizer que a festa das diferentes etnias indígenas em Maturuca94 produziu
uma grande mensagem coletiva para a qual se voltou parte significativa da mídia. Essa
linha de interpretação apóia-se no que José Marques de Melo95 convoca como elementos
que destacam a força fomentadora dos meios de comunicação diante das festas em três
fluxos convergentes:
a) A festa enquanto ativadora das relações humanas, produzindo comunhão grupal
ou comunitária em torno de motivações socialmente relevantes. Trata-se de um fluxo
de comunicação interpessoal.
b) A festa enquanto mobilizadora das relações entre os grupos primários e a
coletividade, através das mediações tecnológicas propiciadas pelas indústrias midiáticas,
em espaços geograficamente delimitados - locais, regionais, nacionais. Trata-se de um
fluxo de comunicação massiva.

94
A comunidade Maturuca é considerada o principal centro das ações políticas desencadeadas em defesa dos
territórios indígenas no estado. Parte das lideranças fundadoras do CIR origina-se desta maloca ou aldeia.
95
MELO, José Marques de. As festas populares como processos comunicacionais: roteiro para seu inventário,
no Brasil, no limiar do século XXI. Disponível em:
http://www2.metodista.br/unesco/PCLA/revista11/projetos%2011-1.htm. Acesso em 05 de março de 2014.

190
c) A festa enquanto articuladora de relações institucionais, desencadeando
iniciativas de entidades enraizadas comunitariamente e antenadas coletivamente, que
decidem o que celebrar, em que circunstâncias, com que parceiros. Trata-se de um fluxo
de intermediação comunicativa, produzindo a interação das comunicações interpessoais e
massivas.
É importante dizer que todos os aspectos que construíram a história de organização
e luta dos indígenas da região nos últimos trinta anos constituem a memória da festa dos
“Filhos de Makunaimî”.
A festa mobilizou um grande número de convidados, notadamente dentre os que
apoiaram a causa indígena. Naquele dia, Maturuca tornou-se a upata96de todos os povos
indígenas, a casa de todas as etnias. As residências e terreiros dispostos em semicírculo em
torno do pátio central foram ocupadas por pessoas, bagagens, redes, barracas e
equipamentos. As setenta e duas famílias Makuxi que ali residem se misturaram aos
diferentes rostos, expressões e idiomas.
Com a festa, a aldeia obteve o fornecimento de energia feito a motor. A água,
descida das serras, chega encanada às casas, graças a um projeto liderado pelo tuxaua e
financiado por uma organização estrangeira. A comunidade possui um telefone público,
que deixa de funcionar a cada temporal que se abate sobre a região. Situada na região das
serras, de acesso por estradas precárias, Maturuca inibe o isolamento apenas por meio do
“orelhão” e do equipamento radioamador disponível no posto de saúde, que se interliga à
unidade da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) em Boa Vista. Estas são as
únicas formas de comunicação entre a aldeia e o seu exterior.
Na arquitetura do lugar se destacam um templo novo da igreja católica,
especialmente erguido pela comunidade para celebrar a conquista da terra, e, na praça
central, dois grandes malocões (estruturas artesanais, uma com dez e outra com 14 metros
de altura, sustentadas em grandes esteios de madeira, com cobertura de palhas de buriti,
sem paredes e de chão cimentado) que, ao abrigarem preferencialmente festas, reuniões e
assembleias desta e de outras comunidades indígenas da região, constituem-se como um
dos mais importantes espaços políticos da aldeia. Um malocão é denominado de

96
Termo utilizado por alguns Makuxi, falantes de sua língua, para designar a própria aldeia, isto é, a aldeia de
nascimento e a aldeia em que residem, o que pode ser traduzido por meu lugar, minha casa ou mesmo lar.
(SANTILLI, 2007, p. 29)

191
“Demarcação” e o outro, o maior, é conhecido por “Homologação”.
Foi nestes malocões e em torno deles que os cinco dias de festa transcorreram, com
destaque para a presença de convidados ilustres, como o presidente da república, Luis
Inácio Lula da Silva e sua comitiva.
De acordo com informações do CIR, órgão responsável pela coordenação do
evento, inclusive e especialmente, a parte jornalística -, havia 30 jornalistas cadastrados
para a cobertura do evento. Destes eram imprensa nacional -10, imprensa local, 7 e 13 da
imprensa internacional. Além disso, nem todos os presentes faziam parte de órgãos de
imprensa, havendo registros de produtores independentes de documentários e filmes.

1.1 Critérios da notícia e o incidente nas relações entre mídia e assessoria


É sabido que a notícia, embora de difícil definição, é a matéria-prima do
jornalismo. A publicação dos fatos é que tem o poder de visibilidade. E todos dependem
deste produto, a notícia, para emitir valores, opiniões, definir planos de ação,
investimentos, projetos de governo.
É particularmente evidente que o que sabemos sobre numerosos assuntos de
interesse público depende enormemente do que nos dizem os veículos de comunicação.
Somos sempre influenciados pelo jornalismo, e incapazes de evitar esse fenômeno”,
(William L. Rivers e Wilbur Schramm, apud Mário Erbolato p. 51).
A informação da atualidade reflete a realidade que nos cerca, num processo através
do qual surge a opinião pública, explica Angel Benito (apud Erbolato p. 51). E o serviço de
informação é essencial para o homem e para o tecido social que compõem o grupamento
humano, numa busca constante por informação.
Portanto, é incontestável que este tema é notícia, não apenas para o Estado de
Roraima. O assunto também gera interesse por parte de segmentos diversos em todo o
mundo, sobretudo ligados às questões indígenas. Entre Organizações não Governamentais,
organizações ligadas aos direitos indígenas, cientistas, cineastas e, claro, jornalistas, todos
têm interesse no tema.
Critérios elementares para definir a importância de uma notícia podem ser listados
respeitando, de acordo com Mário Erbolato: a originalidade, a proximidade e marco
geográfico; a importância; expectativa; o interesse ou impacto, especificando que quanto

192
mais pessoas possam ter sua vida afetada pela notícia, mais importante ela é; apelo, ou
seja, quanto maior a curiosidade que uma notícia possa despertar, mais peso ela tem; além
de empatia e proximidade. Este é o fato que se pretende destacar, pois quanto maior a
proximidade geográfica entre o fator gerador da notícia e o leitor, mais importante ela se
torna. (2003, p. 60 a 65).
Dessa forma, destaca-se uma questão que gerou polêmica por parte da imprensa,
sobretudo dos órgãos locais de comunicação: a exigência da organização indígena(CIR) de
cessão de direito de imagens do evento, que seriam cedidas por apenas seis meses e
deveriam ser copiadas e entregues à coordenação de comunicação. Essa atitude foi vista
por alguns jornalistas dos meios de comunicação do Estado, inscritos para a cobertura da
festa, como uma forma de censura e controle, havendo quem se recusasse a dar
continuidade ao trabalho. A medida foi revertida pelo gabinete da Presidência da
República, pouco antes do início do auge da festa, na manhã do dia 19 de abril.
Em relação à postura tomada pela organização do evento, no que indica as tensões
entre jornalistas e assessores de imprensa, consideramos o que Eugenio Bucci lembra que o
código de Ética de Jornalismo, em sua nova versão, aprovada em Congresso da categoria
em 2008, estabelece no artigo 4, que: “ O compromisso fundamental do jornalista é com a
verdade no relato dos fatos, deve pautar seu trabalho na precisa apuração dos
acontecimentos e na sua correta divulgação”97. Ele ainda faz um questionamento se esse
princípio normativo tem validade também para os assessores de impressa e diz que a
resposta é duvidosa, parece ser negativa, de acordo com o próprio código e destaca a
evidência dessa ambigüidade que aparece, também no artigo 4, inciso I, onde diz que o
jornalista deve:
[...] ressalvadas as especificidades da assessoria de imprensa, ouvir
sempre, antes da divulgação dos fatos, o maior número de pessoas e
instituições envolvidas em uma cobertura jornalística, principalmente
aquelas que são objeto de acusações não suficientemente demonstradas
ou verificadas.

Em contrapartida, Chaparro defende como avanço a experiência brasileira de


profissionais da imprensa atuando como fontes, em assessoria de imprensa, sendo

97
Artigo O que é ser jornalista?, Disponível em www.observatoriodaimprensa.com.br. Acesso em 03 de jun
de 2010

193
reconhecidos como jornalistas. Essa discussão, para o autor, remete ao fato de que o
jornalista é um educador, organizando as relações entre jornalistas assessores de imprensa
e jornalistas das redações. Para ele, atuando em campos diferentes, “mas em função de um
objetivo maior, comum, o da confiabilidade da informação, da análise e da elucidação
jornalística”98.
Para defender e preservar a confiabilidade do jornalismo – como processo e
linguagem – é preciso que os próprios jornalistas se comportem como tal, qualquer que
seja o lugar ou a instância em que atuem. Quem está nas redações, que não se limite à
reprodução do que as fontes dizem e fazem, mas que, sem a destruição dos discursos
particulares, faça aflorar os conflitos que interessam à construção da democracia. Quem
atua nas fontes, que assuma o seu papel e a sua responsabilidade de interface honesta e
criativa entre quem produz os fatos e quem os deve relatar e comentar para a sociedade.

1.2 A pesquisa com os jornalistas


Foram aplicados onze (11) questionários durante a festa dos “Filhos de
Makunaimî”, por ocasião da cerimônia oficial, com a presença do Presidente da República,
Luiz Inácio Lula da Silva. A distribuição dos questionários foi feita de forma aleatória para
os jornalistas integrantes da cobertura. Com doze perguntas, as questões foram de múltipla
escolha, sendo oito (8) fechadas e quatro (4) com espaço para comentários. Os
questionários não foram identificados.
Como as questões de mediação e de contato entre os profissionais da imprensa
oferecem um nível de complexidade maior, sobre o qual um questionário dificilmente
poderia dar respostas mais profundas, optou-se por extrair deste instrumento metodológico
apenas algumas inscrições que ajudassem a traduzir, pelo trabalho técnico, o lugar do
jornalismo nesse tecido social.
De acordo com as respostas obtidas, preferiu-se abordar neste artigo as questões
pertinentes à cobertura do evento. Assim, os questionários identificaram que a televisão foi
o veículo mais presente, com seis (6) repórteres, seguido de rádio e impresso, com três (3)
jornalistas cada um, sendo que revista e internet tiveram apenas dois (2) jornalistas de cada

98
Blog “O Xis da Questão”, de Manuel Chaparro. Disponível em
http://www.sinprorp.org.br/Clipping/2005/296.htm. Acesso em 08 de jul. 2010.

194
veículo, respectivamente. Apenas um questionário registra a cobertura para duas mídias:
rádio e impresso.
A maioria dos jornalistas respondeu não conhecer até então a comunidade
Maturuca, local onde foi realizada a festa. Apenas quatro (4) já conheciam o local, contra
sete (7) que disseram não conhecer. Isso cria uma expectativa acerca do ambiente e das
condições disponíveis para trabalhar, tais como infra-estrutura para produção e envio de
dados, por exemplo.
Quanto a um dos princípios básicos da cobertura jornalística, que refere-se a pauta,
seis (6) responderam não ter sido pautados pelo veículo. Apenas cinco (5), responderam
que foram pautados. Na pergunta seguinte, oito (8) responderam não ter mudado a pauta
recebida, um (1) respondeu ter mudado e dois (2) não responderam.
A pesquisa também determinou quais as fontes são utilizadas pelos jornalistas para
obter informações sobre a Raposa Serra do Sol. Foram dadas cinco opções: três (3)
responderam que se informam através da imprensa internacional; seis (6) através da
imprensa nacional; três (3) pela imprensa de Roraima e sete (7) pelo site do CIR. Cinco (5)
responderam Outros. Seis (6) marcaram mais de uma alternativa.
Em relação às exigências da coordenação de comunicação sobre as imagens
produzidas durante a festa, quatro (4) se disseram satisfeitos com a medida; três (3)
responderam estar Nem satisfeito nem insatisfeito; e 2 Insatisfeito e Muito insatisfeito.
Cada um com uma resposta em cada questão. Estas respostas parecem contraditórias, já
que se referem ao cerceamento de utilização do material produzido.
Para explicar tal fato, é pertinente relatar que no início da festa ocorreu um fator
determinante: Durante a manhã do dia 19 de abril, quando da aplicação do questionário, a
exigência de restrição de uso das imagens foi revista. Sua utilização foi liberada, após
determinação do gabinete da Presidência da República. Embora os repórteres tenham ido
ao evento após assinar o termo de compromisso de restrição de uso, havia claramente um
conflito nessa decisão.
Avalia-se que as respostas, que registram uma contradição, traduzem esse
momento. De acordo com o CIR, a decisão de restrição de uso das imagens partiu das
lideranças de algumas comunidades ligadas à região onde foi realizada a festa, a região das
serras. A coordenação do evento foi dividida entre diferentes grupos, responsáveis por cada

195
etapa da festa, como por exemplo, a comunicação.
De acordo com entrevista concedida após o evento, o assessor de imprensa do CIR,
Jessé de Souza, relata que a cobertura não alcançou a amplitude esperada, detendo-se mais
na repercussão local e institucional, sobretudo pelo gabinete da Presidência da República.
Quanto aos documentários e filmes, a repercussão só será feita posteriormente, uma vez
que, esse tipo de registro requer mais tempo para ser editado e divulgado. O CIR destaca a
ampla cobertura dada pela imprensa local. E reconhece a importância da Assessoria Oficial
da Presidência da República que transmitiu a festa.

Considerações Finais
As festividades tiveram como característica mais forte a expressão cultural das
etnias presentes, contemplados pela riqueza cultural dos povos indígenas de Roraima,
numa reafirmação dos seus valores culturais. Comemorar através dos cantos e danças
tradicionais, como por exemplo, a dança do parixara99. Um rito alegre, simbolizando a
expressão de um momento histórico, festejando a reconquista da terra que para eles
significa a revalorização da cultura e retorno da dinâmica social tradicional dos povos100.
Retomar uma área como a Raposa Serra do Sol, significa a certeza da volta da terra-
mãe, de acordo com suas crenças. A festa foi uma expressão de revalorização de costumes,
línguas, crenças, danças e tradições que faz ressurgir a auto-estima, o sentir-se gente. A
homologação da Raposa Serra do Sol reforçou esse processo.
Dessa forma, as lideranças indígenas hoje priorizam nas comunidades a cultura dos
antepassados, que estava caindo no esquecimento. Atualmente se percebe uma valorização
cada vez maior do trabalho dos pajés, das músicas e festas, das pinturas e do artesanato. No
dia-a-dia e nas festas, consome-se a bebida tradicional, o caxiri101.
A hibridação das culturas trouxe para o meio dos povos indígenas o forró, dança
trazida pelos nordestinos, a maioria dos migrantes do Estado. Os indígenas já assimilaram
o estilo musical, formando suas próprias bandas musicais, como a banda “macuxi na cuia”,
que inclusive apresentou-se no evento. As letras são voltadas para relatos indígenas,

99
Dança tradicional do povo macuxi, uma das maiores etnias do Estado, geralmente realizada em solenidades
festivas, com a presença de convidados, que são chamados a participar da dança.
100
NBR (TV oficial do Governo Federal), ao vivo, via satélite
101
Bebida fermentada tradicional, feita de mandioca.

196
tratando do cotidiano e da luta dos povos. Isso demonstra que a batalha pela sobrevivência
da sua cultura está ativada
Todavia, se compreende que essa questão envolve fatores étnicos, culturais, sociais
e antropológicos, temas amplos e complexos, que vão além dos objetivos deste trabalho. O
fato é que o CIR ocupa hoje um espaço político importante na representatividade dos
direitos e interesses dos povos indígenas diante da sociedade local, nacional e
internacional. Os principais resultados da organização foram a libertação das comunidades
indígenas da opressão dos fazendeiros, a afirmação das identidades culturais dos diferentes
povos e a reconquista territorial.
Além do registro da festa pela diversidade de meios de comunicação presentes,faz-
se notar que a realidade da imprensa roraimense nem sempre reporta os povos indígenas
como protagonistas de sua história. Há relatos de preconceito e controle por parte de
grupos políticos que detém os maiores meios de Comunicação,
Porém, os meios de comunicação em Roraima estão se diversificando, e nos
últimos dez anos, ampliou-se o número de canais de rádio, jornais impressos e,
timidamente, veículos on-line. O jornalismo em Roraima está em desenvolvimento, ainda
com forte teor institucional, numa economia onde o governo estadual é a maior fonte de
renda.
Há um número maior de rádios e televisões, estas últimas com uma programação
local bastante diversificada, distribuída sobretudo entre o jornalismo. Nos veículos
impressos, muitas notícias ganham projeção nacional, como o “Escândalo dos
Gafanhotos”, em 2004; o escândalo da pedofilia em 2008 e, mais repetidamente, as
questões indígenas, prioritariamente em relação às reservas indígenas. O caso da Raposa
Serra do Sol é o que ultimamente, recebeu maior destaque. Há muito ainda a percorrer,
para desenvolver um jornalismo independente e mais crítico, com linguagem objetiva e
maior análise e interpretação dos fatos.
No que se refere a relevância e ao interesse, estes podem ser considerados como os
atributos de definição do jornalismo. Só é notícia o relato que projeta, desperta ou responde
a interesses. Esse atributo de definição pode alcançar maior ou menor intensidade,
dependendo da existência, em maior ou menor grau, de atributos de relevância no conteúdo
(CHAPARRO,1994 p. 119).

197
Esse conceito pode servir como base para o relato do assessor de imprensa do CIR,
quando reclama da pouca divulgação dada à festa de homologação, embora tenha se
declarado satisfeito com a cobertura local. As exigências feitas pela coordenação do evento
aos veículos de comunicação tiveram a conotação de censura, e vão de encontro aos
preceitos do jornalismo, da liberdade de informação. Essa atitude, embora tendo sido
tomada por uma parte da coordenação do evento, como foi apurado nesta pesquisa, coloca
os profissionais de imprensa em posição de não merecedores de confiança, de não poderem
exercer seu papel profissional com isenção.
De resto, esta é uma queixa feita pelas próprias comunidades ao se referir a
parcialidade dos veículos de comunicação locais ao tratar das questões indígenas. A queixa
é que estes veiculam a visão institucional do governo estadual e empresários, em
detrimento dos valores étnicos, uma visão que nega o direito à terra como valor
fundamental da cultura dos povos indígenas.
Aqui, pretende-se levantar, como questionamento, os motivos para este
comportamento, transformado em ciclo vicioso, onde a resistência dos indígenas ampara-se
na história de escravidão e exploração, que formam um elo da questão. Por outro lado, o
discurso desenvolvimentista de utilização das terras para pecuária e agronegócio,
defendido pelo governo estadual, empresários, fazendeiros e alguns veículos de
comunicação de Roraima, que colocam a causa indígena como a responsável pelo processo
de estagnação econômica.
Com a homologação das terras indígenas abre-se uma nova possibilidade de
diálogo, num longo e difícil processo. Porém, entende-se que o avanço só pode ser
alcançado a partir da mudança de comportamento entre os dois discursos, onde os limites e
interesses de cada parte sejam respeitados.

Referências bibliográficas:
BUCCI, Eugênio. Artigo: O que é ser jornalista?Disponível em
www.observatoriodaimprensa.com.br. Acesso em 03 de jun de 2010.

CHAPARRO, Manuel Carlos. Pragmática do Jornalismo. Buscas práticas para uma


teoria da ação jornalística. São Paulo: Editora Summus, 1994.

_______. “O Xis da Questão”. Disponível em


http://www.sinprorp.org.br/Clipping/2005/296.htm. Acesso em 08 de jul. 2010.

198
ERBOLATO, Mário L. Técnicas de Codificação em jornalismo, redação, captação e
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HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Tradução: Tomaz Tadeu da


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MATA, Raimundo Possidônio C. e TADA Cecília (Orgs): Amazônia, Desafios e


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MELO, José Marques de. As festas populares como processos comunicacionais: roteiro
para seu inventário, no Brasil, no limiar do século XXI. Disponível em:
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MONTERO, Paula (Org.). Deus na aldeia: missionários, índios e mediação cultural. São
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MORAIS, Vângela M. I de. Filhos de Deus e netos de Makunaima. Apropriações do


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UNESP, 2001

SILVA. Antonia Costa, Dissertação de Mestrado em Educação: Educação Indígena


Makuxi pelas Ondas da Fm Monte Roraima (2003-2008). Manaus: UFAM, 2009Jornal
Vira Volta. Movimento Nós Existimos. Edição janeiro 2009

WARREN, Carl N. Gêneros periodísticos informativos. Barcelona: A.T.E, 1979 p. 487.

199
200
O percurso da mídia impressa no Pará: uma viagem até Cametá do
século XIX102

Jessé Andrade Santa BRÍGIDA103


Lorena Saraiva da SILVA104
Thaís Christina Coelho SIQUEIRA105
Netília Silva dos Anjos SEIXAS106

Resumo:A imprensa paraense, assim como a de outros estados do país, é repleta de


lacunas em sua história. O artigo integra pesquisa maior que busca contribuir para estudos
nacionais no campo da história da mídia. Para tanto, visa analisar os jornais do interior do
Pará em prosseguimento aos estudos que são realizados sobre a imprensa da capital. O
ponto inicial desta pesquisa é a cidade de Cametá (PA), que abrigou o primeiro jornal fora
da capital paraense e o jornal de maior duração que não circulou na cidade de Belém, no
século XIX. Cametá ainda se destaca por ser a cidade, depois de Belém, que mais
apresenta acervo disponível para consulta na Biblioteca Pública Arthur Vianna, em Belém.
A proposta é identificar os passos percorridos pela imprensa na cidade de Cametá no
século XIX, para entender como a palavra impressa se desenvolveu no interior do Pará e
quais os caminhos que tomou na sua consolidação no cenário Amazônico. Este artigo
integra as pesquisas do projeto “A trajetória da imprensa no Pará”, apoiado pelo Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e desenvolvido na
Faculdade de Comunicação e no Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e
Amazônia da Universidade Federal do Pará.

Palavras-chave: Jornalismo; História da Imprensa; Pará; Cametá; Século XIX.

O presente artigo integra os estudos realizados no âmbito do projeto de pesquisa "A


trajetória da imprensa no Pará" (SEIXAS, 2012), desenvolvido na Faculdade de
Comunicação Social e no Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia
da Universidade Federal do Pará.107 O projeto visa pesquisar a imprensa paraense,
buscando preencher lacunas ainda existentes em relação aos 191 anos de seu percurso, e se

102
Trabalho apresentado no GT de Jornalismo, integrante do 3º Encontro Regional Norte de Pesquisadores da
História da Mídia, 2014.
103
Bolsista PIBIC-UFPA do projeto “A trajetória da imprensa no Pará”.
104
Colaboradora do projeto.
105
Bolsista PIBIC-UFPA do projeto.
106
Coordenadora do projeto.
107
O projeto “A trajetória da imprensa no Pará” é apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq), Edital Universal 2012.

201
somar aos estudos sobre a história da mídia no Brasil.
Na perspectiva de estudar e analisar os passos dessa imprensa, o projeto busca
entender como se deu o desenvolvimento dos periódicos nos municípios do interior do
Estado do Pará. No levantamento dos dados, foi usada a ficha de análise desenvolvida pela
Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia (ALCAR), com a finalidade
de identificar o formato gráfico e de conteúdo dos jornais, bem como de sistematizar os
dados.
Neste estudo, foram utilizados os dados colhidos em relação à cidade de Cametá
(PA), que possui o jornal mais antigo - Teo-Teo (1840) - do interior do Estado disponível
para consulta, assim como o jornal mais duradouro - O Commercial (1882-1901) -, com 19
anos de publicação, com início no século XIX. A escolha da cidade se justifica também
pela disponibilidade de outros periódicos à consulta no acervo da Biblioteca Pública Arthur
Vianna, em Belém (PA). Este artigo é o ponto inicial da pesquisa, que ainda conta com
dados de outras cidades do interior.

Percursos da imprensa no Brasil


As discussões a respeito dos impressos brasileiros iniciam no questionamento sobre
qual foi o primeiro jornal a existir no Brasil, se a Gazeta do Rio de Janeiro, cujo primeiro
exemplar circulou em 10 de setembro de 1808, ou o Correio Braziliense, editado por
Hipólito José da Costa em junho do mesmo ano, mas na cidade de Londres, portanto,
muito distante de terras brasileiras. Também permeiam os estudos sobre a imprensa escrita
no Brasil as questões econômicas, políticas e sociais, as quais são apontadas como as
causas do atraso da circulação de jornais no país, sobretudo em comparação a outras
colônias da América Espanhola (BARBOSA, 2010).
Para Morel (2008),nem o atraso, a censura ou o oficialismo sustentam uma
explicação para a dificuldade de instalação da imprensa na época. De acordo com o autor,
era grande o alcance dessa imprensa, seja ela combativa ou oficial.

(...) o surgimento da imprensa periódica no Brasil não se deu num vazio


cultural, mas em uma densa trama de relações e formas de transmissão já
existentes, na qual a imprensa se inseria. Ou seja, o periodismo pretendia,
também, marcar e ordenar uma cena pública que passava por
transformações nas relações de poder que diziam respeito a amplos

202
setores da hierarquia da sociedade, em suas dimensões políticas e sociais.
A circulação de palavras - faladas, manuscritas ou impressas - não se
fechava em fronteiras sociais e perpassava amplos setores da sociedade
que se tornaria brasileira, não ficava estanque em um círculo de letrados,
embora estes, também tocados por contradições e diferenças, detivessem
o poder de produção e leitura direta da imprensa (MOREL, 2008, p. 25).

De acordo com o autor (2008), o padrão que a Gazeta seguia era semelhante ao das
gazetas europeias do Antigo Regime, caracterizadas por “circular na esfera do estado
absolutista, campo de disputas simbólicas e não de referências monolíticas” (MOREL,
2008, p.30-31).
É importante recordar que alguns estudiosos, como Marialva Barbosa (2010),
enxergam os documentos redigidos antes do primeiro jornal brasileiro como práticas
jornalísticas, os quais continham informações reais a respeito da colônia portuguesa na
América. No entanto, como explica Barbosa (2010),

(...) só existe imprensa, no sentido estrito do termo, a partir do momento


em que a transmissão de informações regular se torna pública, ou seja,
acessível ao público em geral. Até então as novidades ou opiniões
publicadas, sem qualquer regularidade, não eram transformadas em
notícias. Existe troca de informações, mas não existe imprensa. Só há
imprensa quando a ideia do público como espécie de abstração-concreta
se torna o desejo dominante das publicações. Não importa que tipo de
público: se os próprios jornalistas, se os poderosos do reino, se os
comerciantes e os militares de altas patentes. Há jornalismo quando há
publicização no sentido mais amplo do termo (BARBOSA, 2010, p. 20).

Nesse sentido, a autora (2010) vai caracterizar a Gazeta do Rio de Janeiro como
periódico oficial, uma vez que inaugurou a impressão no país, passando a imprensa a
alcançar um público maior. No entanto, o conteúdo dessas publicações era limitado pelos
interesses do Estado, pois tinha sua manutenção ligada aos privilégios da Impressão Régia.
Mesmo assim, a Gazeta já noticiava assuntos do cotidiano fluminense e de interesse da
população. O modelo de jornalismo desse periódico iria inspirar grande parte dos jornais
que dominaram o Brasil no século XIX (COELHO, 2008).
Já o Correio Braziliense era um jornal clandestino que trazia questionamentos e
fazia críticas ao sistema colonial, sofrendo, por esse motivo, restrições e perseguições do
governo português. Barbosa (2010) define esse o marco do que ainda hoje se pode
perceber no jornalismo brasileiro: a oposição entre a imprensa oficial do Estado e o

203
jornalismo combativo ao poder público.

Os primórdios da imprensa no Pará


Em 1822, a Gazeta do Rio de Janeiro deixou de circular. Nesse mesmo ano, surgiu
no cenário paraense o primeiro jornal impresso que se tem notícia no Norte do Brasil,
fundado por Filippe Alberto Patroni Martins Maciel Parente. O periódico O Paraense vem
à luz da sociedade de Belém no dia 22 de maio daquele ano,colocando, assim, o Estado
entre os primeiros do Brasil a conhecer a imprensa (SEIXAS, 2011). Coelho (2008)
enumera jornais como o Astro da Lusitânia (1820-1823), Mnemosine Constitucional
(1820-1821), O Indagador Constitucional (1821), O Português Constitucional (1820-
1821) e os Diários das Cortes como periódicos portugueses que inspiraram Filippe Patroni
na elaboração de O Paraense, pois várias deles circularam em Belém antes do surgimento
da imprensa no Pará.108

O futuro criador de O Paraense possuía uma visão de mundo


contingenciada pelos valores eleitos pelo liberalismo como inerentes ao
homem civil e seus direitos naturais, daí o porquê de o projeto intelectual,
mas também a estratégia política de Filippe Patroni no Pará tenham sido
reflexivos da sua condição de sujeito de um tempo de rupturas
(COELHO, 2008, p. 29).

Nascido no Pará, Filippe Patroni era um jovem estudante de Direito em Coimbra,


Portugal. Em 1820, deixou Portugal após alguns anos de estudo e chegou a Belém trazendo
ideias e discursos espelhados no movimento vintista, entre elas, a liberdade de imprensa
(COELHO, 1993). Já em abril do ano seguinte o Pará foi elevado à condição de Província
de Portugal, situação que facilitaria a implantação do projeto de criar o jornal O Paraense.
O jornal surge em um período de grande movimentação política. Coelho (2008)
reitera que o aparecimento do periódico marcou a vida pública da época e impactou
diretamente diversos segmentos da sociedade. De acordo com o pesquisador, várias
correspondências eram enviadas do Pará para Lisboa informando desses impactos.
Segundo o autor (2008), “de uma maneira geral, esses documentos vão relacionar a ação da
imprensa à ideia de anarquia, inclusive por parte da população escrava, assim como atrelá-

108
Também chamados de “folhas”, esses jornais eram publicações portuguesas que foram levadas para
Belém, enquanto que O Paraense, desde o seu primeiro exemplar, foi produzido e publicado no Pará.

204
la ao espírito de dissidência que avançava no Rio de Janeiro (...)” (COELHO, 2008, p. 35).
O Brasil iria declarar Independência de Portugal no dia 7 de setembro de 1822, mas
a adesão do Pará só ocorreria em 11 de agosto de 1823, sendo escolhida a data de 15 de
agosto como o dia oficial da adesão (SALLES, 1992). Salles (1992) afirma que, após esse
fato, “o Pará se integraria ao Brasil pela adesão à Independência, mas conservaria
inalterado o status quo colonial”.
Em meio a problemas de conjuntura social, política e econômica, vários levantes
surgiram em diversas partes do país, como a Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul; a
Balaiada, no Maranhão; e a Cabanagem, no Pará (SALLES, 1992).
Marcada por ser o único movimento do período que chegou ao poder, a Cabanagem
teve início em 1835, com a invasão de Belém pelos cabanos. Diz Salles:

A Cabanagem exprimiu realmente luta de classes num ambiente que


primou durante muito tempo em manter rígidas, tensas e antagônicas as
situações de classes. As insinuações para o desvio deste enfoque são
inúmeras, porém, ponderáveis, desde mesmo os seus começos. Ele se
torna claro na medida em que aprofundamos a análise do movimento e do
contexto que abrangeu (SALLES, 1992, p. 140-141).

Figueiredo (2008) enumera outros jornais, como o Correio Official Paraense


(1834-1835), de Bernardo Lobo de Sousa e redigido pelo cônego Gaspar de Siqueira
Queirós, e o Sentinella Maranhense na Guarita do Pará (1834), sob responsabilidade de
Camilo José Moreira Jacareacanga e redigido pelo maranhense Vicente Ferreira Lavor
Papagaio, como importantes jornais do período de resistência cabana.
Já a partir da década de 1870, a ampliação da imprensa alterou significativamente o
cenário e o processo de circulação dos jornais na capital, o que contribuiu para a
disseminação de vários novos títulos, os quais, segundo Figueiredo (2008), alcançaram a
marca de 300 periódicos.
Belém teve 845 jornais impressos no século XIX, configurando-se, assim, como
principal produtor de jornais no norte (BIBLIOTECA PÚBLICA DO PARÁ, 1985). No
interior do Pará, a produção de periódicos foi intensa, com jornais que duraram 19 anos ou
que tiveram correspondência com outros municípios do Estado, constituindo redes de
comunicação. Como mostra o Quadro 1, no Pará houve uma intensa produção de jornais
em quase todos os municípios.

205
Quadro 1 – Cidades do interior do Pará e respectiva produção de jornais no século XIX .

Cidades do interior do Pará Número de jornais publicados


nas cidades
Abaetetuba 32
Afuá 2
Alenquer 7
Altamira 1
Baião 7
Barcarena 2
Benevides 2
Bragança 20
Breves 3
Cachoeira do Arari 1
Cametá 53
Capanema 1
Castanhal 8
Chaves 1
Conceição do Araguaia 1
Curralinho 1
Curuça 1
Gurupá 2
Icoaraci 3
Igarapé-Açu 3
Igarapé-Miri 3
Irituia 1
Itaituba 1
Marabá 2
Maracanã 5
Marapanim 2
Mocajuba 3
Monte Alegre 9
Mosqueiro 3
Muaná 12
Óbidos 3
Ourém 1
Peixe-Boi 1
Ponta de Pedras 3
Portel 3
Porto de Moz 1
Santa Izabel do Pará 5
Santarém 33
Santarém Novo 1
São Caetano de Odivelas 3
São Domingos de Boa Vista 1
São Felix do Xingu 1
São Miguel do Guamá 1
Soure 3
Tucuruí 1
Vigia 35
Viseu 1
Fonte: Biblioteca Pública Arthur Vianna.

206
O acervo da Biblioteca Pública Arthur Vianna contém poucos exemplares dos
jornais que circularam nos municípios do interior do Pará. Dos exemplares existentes há
poucas edições, algumas danificadas ou ilegíveis.

A cidade de Cametá
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (s.d), Cametá é o mais
tradicional e antigo município “dos baixos rios do Tocantins”, sendo a segunda localidade
a ser fundada no Estado do Pará.

Em 1617, o Frei Cristóvão de São José subiu o Rio Tocantins, a mando de


Jerônimo de Albuquerque [governador do Maranhão e Grão-Pará] para
reconhecimento e catequese dos índios Camutá. Após árduo trabalho de
catequização, Frei Cristóvão fez nascer a povoação dos Camutás às
margens do Tocantins, em 1620, estabelecendo, dessa forma, os
princípios da colonização dos Camutá. Em 24 de dezembro de 1635,
Feliciano Coelho de Carvalho ancorou sua caravela na primeira porção de
terra forme da margem esquerda do Tocantins. Encontrou a tribo dos
Camutás já pacificada pelo Frei Cristóvão de São José e fundou a Vila
Viçosa de Santa Cruz do Camutá, a primeira cidade no baixo Rio
Tocantins. Mais de três séculos e meio depois, Cametá é um dos portos
mais importantes do Pará (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA
E ESTATÍSTICA, s.d., não paginado).

Somente no ano de 1848, conforme a Lei Provincial nº 145, de 24 de outubro de


1848, a vila foi elevada à condição de cidade com o nome de Cametá, cujo significado é
explicado pelo IBGE (s.d):

Que a palavra Cametá é de origem tupi dúvidas não há, diferem, portanto,
algumas interpretações. Por isso, cumpre-se arrolar algumas delas:
segundo Jorge Hurley, deriva de caá – mato, floresta e mutá ou mutã –
espécie de degrau ou “palanque” instalado em galhos de árvore feitos
pelos índios para esperar a caça ou para morar. Para Carlos Roque, o
significado literal de Cametá é “degrau do mato”, abonado inclusive por
Victor Tamer, pois derivaria de Camutá. Luiz Tubiriçá trata o vocábulo
como derivado de caá + mytá – choupana suspensa em árvore para espera
de caça. No Dicionário Toponímico da Microrregião do Camutá
acrescentamos ao significado de Jorge Hurley, o hábito dos índios
Camutás de construírem suas habitações tão altas quanto as árvores, ou
quem sabe até nas copas destas. (INSTITUTO BRASILEIRO DE
GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, s.d., p.1).

207
Em 1986, a cidade tornou-se Patrimônio Histórico Nacional, segundo a Lei nº 7537,
de 16 de setembro de 1986 (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E
ESTATÍSTICA, s.d.). Atualmente, a Secretaria de Estado de Transportes do Governo do
Estado do Pará (s.d) informa que Cametá pertence à Mesorregião do Nordeste do Pará e à
Microrregião de Cametá e que a distância rodoviária entre a cidade e a capital Belém é de
212,80 km.

O percurso dos jornais impressos em Cametá no século XIX


Do total de 33 jornais publicados na cidade de Cametá no século XIX, apenas sete
fazem parte do acervo da Biblioteca Pública Arthur Vianna e estão disponíveis para
consulta em microfilme. O primeiro jornal e, assim, o mais antigo dos jornais do interior
do Pará, é o Teo-Teo,de Cametá. Apesar de aparecer no Catálogo Jornais Paraoaras
(BIBLIOTECA PÚBLICA DO PARÁ, 1985) como sendo um jornal de Belém, o Teo-Teo é
proveniente de Cametá. Em razão da disponibilidade, foram analisadas as edições do
período de quatro de julho a 27 de outubro de 1848. O jornal tinha quatro páginas, com
exceção da edição de número 39, do dia 27 de outubro de 1848, que trazia seis páginas.
Não apresentava caderno ou suplemento.
O Teo-Teo (1840) era jornal semanal, impresso na cidade de Cametá, na Typografia
de Santarém e Filho, localizada na Rua do Espírito Santo, n. 16 e tinha como epígrafe:
“Não tenhas muza medo delles. Vai batendo de rijo fogo nelles”, de autoria de J.A Macedo.
Não foram encontrados dados que indicassem o local de venda ou distribuição. A venda
avulsa e os valores de assinatura não foram apontados em nenhuma das edições analisadas,
mas o jornal aceitava assinaturas. É interessante salientar que o jornal não possuía
publicidades.
O jornal tinha como principais seções Pará, Aviso, Correspondência e Editoria. Não
tinha colunas, apenas as seções se repetiam em todas as edições analisadas. A seção
Correspondência publicava cartas, porém não eram assinadas nem deixavam transparecer
os locais de onde eram endereçadas.
As notícias, na sua maioria, eram de cunho político, mostrando mais a visão do
editor do jornal em relação às políticas públicas que eram aplicadas à cidade. Essas
notícias não tinham manchetes. O periódico não editava nenhuma espécie de chamada e as

208
matérias que iniciavam o jornal eram longas e se estendiam às paginas seguintes.
Na questão gráfica, o jornal não editava fotografias, apenas desenhos. Por exemplo,
o desenho do mascote do jornal, o pássaro teo-teo, vinha sempre no alto da primeira
página. As duas colunas que formavam o jornal eram divididas por uma linha de espessura
fina, assim como o cabeçalho inicial com o nome do jornal, a data. O número da edição era
separado do corpo do texto também por uma linha.
Outro jornal da cidade de Cametá foi O Incentivo (1851). Há apenas uma edição
disponível, com 36 páginas, do dia 01 de fevereiro de 1851. Não são informados o local de
impressão e as dimensões do jornal nem foram observados cadernos ou suplementos. Os
locais de distribuição, os valores de venda avulsa ou assinatura também não foram
encontrados. Assim como o Teo-Teo, O Incentivo não tinha publicidades e não indicava
apoio de nenhuma instituição ou órgão.
O periódico tinha como principais seções Literatura, Variedades, Poesia, Enigma,
Chronologia, Bibliographia e Epigramma. A tipologia dos textos é, em sua maioria, de
cunho literário. Não havia publicação de cartas. Ilustrações também não foram
encontradas. Os textos eram longos e se estendiam para o interior do jornal. No topo da
primeira página, o periódico se declarava como sendo "Recreativo e de Instrução". Apesar
de ser de cunho literário, o jornal publicou na edição analisada histórias sobre civilizações
antigas da América Latina, de antes da colonização. Os dados apresentados na matéria em
questão eram baseados em estudos feitos pelo religioso "Padre Ribas".
O Jasmin (1873) também foi publicado na cidade de Cametá. Constam no Setor de
Microfilmagem da Biblioteca Pública Arthur Vianna as edições do período de 26 de janeiro
de 1873 a 13 de fevereiro de 1876. O jornal era composto por quatro páginas, com a
ilustração da flor de jasmim na primeira página. Não foram informadas as dimensões do
periódico. Em relação à localização e impressão do jornal, podemos observar que foi
impresso, primeiramente, na Typographia do Conservador, no Largo das Mercez. Depois,
na Typographia De Cancela & Filhos, ainda no Largo das Mercez, no bairro da Cana, em
Cametá.
No que diz respeito à periodicidade do jornal, era semanal, publicado aos
domingos. Consta apenas uma publicidade no período analisado, no dia 09 de fevereiro de
1873. No início, o valor de assinatura para os assinantes da cidade era de 320 réis o mês, já

209
para os de fora de Cametá, o valor era de 360 réis. O Jasmin não informa o local de
distribuição ou venda.
As seções mais frequentes encontradas foram O Jasmin, A pedido, Variedades,
Annuncios e Noticiario. O jornal tinha um padrão editorial com textos mais voltados aos
"bons costumes" e a moral. O jornal, então, colocava-se como uma folha religiosa,
noticiosa e crítica, que parou de circular por um tempo não determinado, mas que na
edição analisada fica claro ser uma segunda etapa do jornal.

Depois de uma tam grande e prolongada ausencia, meu caros leitores, eis
outra vez o nosso jovial, amavel e jocundo jornalzinho, ‘O Jasmin’
gosando de suas perrrogativas de estima e sympatia geral. Raiou pois o
dia 26 e com elle suavissimo perfume por todos aquelles que nos fasem a
houra aprecial-o. O Jasmin é como sabes o symbolo da inocencia e da
puresa, por isso o nosso jornalito sendo orgulhoso e querendo ser sem
reserva um verdadeiro e Candido Jasmin vos aparecera sempre
perfumado de bellas narrações, poesias e anedotas juviaes e agradaveis.’
(O JASMIN, 26/01/1873, n1, p. 1).

No ano de 1882, surgiu na cidade O Commercial (1882 - 1901), pertencente ao


órgão Republicano de Tocantins. Foi o mais longo que a cidade conheceu no século XIX:
durou cerca de 19 anos, porém apresenta muitas faltas no acervo disponível, o que
dificultou o trabalho de análise do padrão editorial e do conteúdo. No início, a tipografia
era localizada à Rua Formosa, n. 8, Cametá. Ao longo das edições, esse endereço se
modificou; no ano 17 do periódico, o endereço não aparece mais. O jornal apresenta
publicidade, porém não indica valores cobrados, nem para a assinatura nem para venda
avulsa.
As principais seções que perpassaram os 19 anos de duração do jornal são O
Commercial, Gazetinha, Zig-Zag, Expediente, Commercio, A pedido, Annuncios, Editaes e
Communicado. Os textos, em sua maioria, falavam do cotidiano da cidade, principalmente
no que tange a economia. Também era comum encontrar folhetins e textos de cunho mais
literário. Diferente dos jornais supracitados, O Commercial não apresentava ilustrações, era
mais simples, sem logo e sem epígrafe.
Devido às faltas, as informações sobre o jornal são precárias, apenas se sabe que no
ano de 1887 o periódico teve como editor-chefe Agapito Lopes Paes e no ano de 1900, um
colaborador principal chamado Joaquim de Campos Malcher.

210
Continuando no percurso da mídia impressa em Cametá, há o jornal A Reacção
(1886-1891?), analisado no período de 01 de março de 1891 a 27 de dezembro de 1891.
Era um jornal pequeno, com dimensões de 34,5 x 44, 5 cm, quatro páginas, impresso à Rua
Formosa, na própria cidade de Cametá. O primeiro número foi no dia 12 de dezembro de
1886, com uma periodicidade semanal.
A assinatura trimestral era no valor de $3.000 réis. Ainda publicava publicidade e
não declarava ligação com nenhum grupo ou classe. A maioria dos textos era de cunho
político e voltava-se mais para as notícias que envolviam a cidade. Tinha como slogan
"Ordem e Progresso". Suas principais seções eram A Recção, Secção política, Noticiario,
Solicitados, Commercial e Annuncios. O que se pode perceber é que o comércio da cidade
foi se fortalecendo e a publicidade foi se fazendo mais presente no decorrer da publicação.
Ainda há mais dois jornais disponíveis do final do século XIX, que apontam para
um movimento mais cultural e industrial pelo qual a cidade parece ter passado. São eles O
Artista (1891) e O Industrial (1895).
O Artista surgiu no cenário cametaense no ano de 1891, no dia sete de julho, e
deixou de circular seis meses depois, em 19 de dezembro. Há apenas duas edições no
acervo da Biblioteca Pública Arthur Vianna: as dos dias 2 de junho e 28 de setembro de
1891. O jornal tinha quatro páginas, com três colunas, cada uma.
Era vendido avulso no valor de 120 réis e as assinaturas mensais custavam 500 réis.
Circulava semanalmente com os assuntos tanto da cidade de Cametá, quanto das notícias
de Belém. Também eram publicados folhetins e textos mais literários. Havia publicidades
ao final do jornal, mais especificamente na seção Annuncios, além de mais duas outras
seções, O Artista e Noticias. Do ponto de vista gráfico, o jornal não apresentava nenhum
desenho ou imagem. O proprietário do jornal se chamava Izidoro C. D’Assumpção.
Por último, O Industrial é outro jornal da cidade de Cametá disponível para
consulta em microfilmagem. Com as dimensões de 47 x 33 cm, o periódico apresentava
quatro páginas e era vendido avulso no valor de 400 réis, com assinatura semestral de seis
mil réis. A data exata do primeiro número do jornal não é conhecida, porém, sabe-se a
partir do Catálogo do Jornais Paraoras (1895) que passou a circular no ano de 1895, sendo
publicado até o dia sete de julho de 1907.
A redação e a oficina do jornal eram localizadas na Rua 15 de novembro e tinham

211
como proprietário Joaquim T. P. Malcher. O jornal possuía circulação semanal. Em suas
páginas, as notícias, na maioria, eram sobre política e vinham dispostas nas seções O
industrial, Perolas, Expediente, Telegrama, Editaes, Assinantes, Acre, Zig Zag e Folhetim.
A epígrafe “Jure suo qui utittur menini injuriam facit” não apresentava autor e vinha
sempre na primeira página do jornal. Era simples e não apresentava desenhos ou imagens
de nenhuma espécie, sóbrio e dividido em duas colunas, separadas por linhas não muito
espessas.
Os jornais da cidade de Cametá consultados eram, em sua maioria, de cunho
político ou literário, trazendo sempre como pauta principal a própria cidade, seus contextos
sociais e pensamentos que evocavam a necessidade de avanço e urbanização. A partir das
observações ao longo da pesquisa, percebeu-se um caráter mais local, mas isso não excluiu
notícias da capital Belém ou mesmo do restante do Estado ou do Brasil.
Encontramos nos jornais também estudos sobre povos indígenas e sobre a cultura
latino-americana pré-colonização, pesquisas realizadas por padres jesuítas e que foram
publicadas nas folhas no jornal. Para mais próximo do final do século, os jornais
publicavam mais notícias de outros países, textos sobre o movimento feminino pelo qual a
Europa passava naquele momento, incluindo o direito de voto das mulheres. Com essas
notícias, deixava transparecer que, no final do século XIX, Cametá começava a receber
mais notícias do exterior.

Considerações finais
Das cidades paraenses, Cametá dispõe do maior número de títulos em acervo e se
constitui no local que abrigou o jornal mais antigo e o mais longo do interior do Pará no
século XIX. Com relação aos jornais cametaenses analisados, percebe-se que alguns no
início os jornais eram mais voltados a questão política, um pertenciam a partidos políticos,
sendo utilizados como órgãos oficiais para expressar as ideias dos partidos, dividir
informações entre os membros e relatar os acontecimentos da cidade. Já no final do século
os jornais voltam-se mais para a questão literária, sendo assim eles a maioria dos
disponíveis no acervo da Biblioteca Pública do Pará.
Mesmo diante das dificuldades da ausência de algumas edições no acervo, foi
possível desenhar um percurso da mídia impressa da cidade de Cametá no século XIX,

212
onde muitos jornais surgiram e desapareceram ao longo desse período histórico. Esses
jornais mostram o cotidiano e as discussões em volta de diversos assuntos da cidade.
Os dados que compõem esta pesquisa foram retirados de um banco de informações
maior, que conta com periódicos de outros municípios do interior do Pará, e que ainda
aguarda publicação. Este artigo, assim, socializa os primeiros resultados da pesquisa em
uma cidade mais afastada da capital paraense.

Referências
BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa: Brasil, 1800-1900. Rio de Janeiro:
Mauad X, 2010.

BIBLIOTECA PÚBLICA DO PARÁ. Jornais Paraoaras: catálogo. Belém: Secretaria de


Estado de Cultura, Desportos e Turismo, 1985.

COELHO, Geraldo Mártires. O surgimento da imprensa no Pará. In: Revista Pará Zero
Zero: imprensa, idéias e poder. Publicação bissemanal da Editora Resistência, Ano II, nº 5,
ago./set. 2008, p. 22–39.

_____. Anarquistas, demagogos e dissidentes: a imprensa liberal no Pará de 1822.


Belém: CEJUP, 1993.

FIGUEIREDO, Aldrin Moura de. Uma história impressa: os jornais paraenses, 1822-1922
(primeira parte). ZYG360.com. Publicação trimestral da Fundação de Telecomunicações
do Pará. P. 36-38, Ano I, nº 4, nov. 2008.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Cametá. Disponível em:


<http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/dtbs/para/cameta.pdf>. Acesso: 22 mar. 2014,
[s.d].

_____. Cidades: Cametá. Disponível em:


<http://www.cidades.ibge.gov.br/painel/historico.php?lang=&codmun=150210&search=pa
ra|cameta|infograficos:-historico>. Acesso em: 22 mar. 2014, [s.d.].

INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, SOCIAL E AMBIENTAL DO


PARÁ. Estatística Municipal de Cametá. Disponível em:
< http://iah.iec.pa.gov.br/iah/fulltext/georeferenciamento/cameta.pdf>. Acesso em: 22 mar.
2014, 2011.

MOREL, Marco. Os primeiros passos da palavra impressa. In: MARTINS, Ana Luiza;
LUCA, Tania Regina de (Orgs.). História da imprensa no Brasil. São Paulo: Contexto,
2008, p. 23–44.

SALLES, Vicente. Memorial da Cabanagem. Belém: CEJUP, 1992.

213
SECRETARIA DE ESTADO DE TRANSPORTES DO GOVERNO DO ESTADO DO
PARÁ. Disponível em: <http://www.setran.pa.gov.br/distancias.php>. Acesso em: 22 mar.
2014, [s.d.].

SEIXAS, Netília Silva dos Anjos. A trajetória da imprensa no Pará. Projeto de pesquisa CNPq,
Edital MCT/CNPq N º 14/2012 - Universal - Faixa A. Belém: UFPA, 2012.

_____. Jornais Paraoaras: percurso da mídia impressa em Belém no século XIX. Projeto de
pesquisa CNPq Edital MCT/CNPq/ MEC/CAPES N.º 02/2010 (concluído). Belém: UFPA,
2010.

_____. Panorama da imprensa em Belém: os jornais de 1822 a 1860. In: FILHO, Otacílio
Amaral; LIMA, Regina Lúcia Alves de; MALCHER, Maria Ataíde; SEIXAS, Netilia Silva dos
Anjos (orgs.). Comunicação midiatizada na e da Amazônia. Belém: FADESP, 2011, p.225-
248.

214
Sequestro do ônibus 174 e a mudança de padrões na transmissão de
grandes coberturas109

Lorena Saraiva DA SILVA


Luiz Gustavo Dias FERREIRA
Thaís Christina Coelho SIQUEIRA
Luciana Miranda COSTA

Resumo: Neste artigo, procuramos realizar um estudo de caso do sequestro do ônibus 174
para discutir a presença da mídia e a influência desta instituição no desfecho de casos de
grande alcance e repercussão, mas também procuramos dimensionar a influência que os
próprios acontecimentos têm sobre o processo de construção do fazer jornalístico e dos
modos de transmissão. Os critérios de noticiabilidade, interesse público, as características
das grandes coberturas ao vivo e as definições de micro e macroacontecimento são alguns
dos conceitos discutidos no decorrer da análise para auxiliar a compreensão.

Palavras-chave: Jornalismo; Documentário; Notícia; Sequestro; Ônibus 174.

12 de junho de 2000. Uma tarde tranquila de segunda-feira no Rio de Janeiro. Até


que, por volta de duas e meia da tarde, um ônibus da linha 174 foi tomado por um
sequestrador, no bairro Jardim Botânico, um dos mais nobres e importantes da capital
fluminense. O nome dele era Sandro Barbosa do Nascimento.
Na ocasião, dez pessoas foram feitas reféns. O sequestro durou aproximadamente
quatro horas, invadiu a noite e terminou tragicamente, com as mortes da refém Geísa
Firmo Gonçalves e do criminoso. Este caso se tornou um dos mais emblemáticos do
telejornalismo brasileiro nos últimos anos.
A cobertura televisiva do fato foi marcante por diversos aspectos, como aquele
que o cineasta José Padilha apresentou no documentário Ônibus 174, de 2002. No filme,
Padilha parte do sequestro para contar a história de Sandro, seus dramas e traumas
familiares, o massacre da Candelária110, ao qual sobreviveu, dentre outras nuances.

109
Trabalho apresentado no GT de Jornalismo, integrante do 3º Encontro Regional Norte de Pesquisadores da
História da Mídia, 2014.
110
Na madrugada do dia 23 de julho de 1993, seis menores de idade e dois maiores, moradores de rua que
dormiam no entorno da Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro, foram executados por policiais militares.
Cinco pessoas foram indiciadas pelo massacre, sendo três julgadas, porém estão em liberdade atualmente. O
militar considerado como o principal responsável, Marcus Vinícius Emmanuel Borges, recebeu indulto da

215
No documentário, o papel da imprensa, em especial da televisão, é exposto como
fundamental para o próprio andamento do crime, durante as longas e angustiantes horas de
duração. Neste artigo, serão discutidos, a partir dos conceitos de estrutura da notícia, de
Nilson Lage (2011), narração do fato, de Muniz Sodré (2009), e interesse público e
interesse do público, de Alexandre Carvalho (et al.2010), como a imprensa interferiu no
decorrer do sequestro, a ação da polícia do Rio de Janeiro e o próprio posicionamento de
Sandro perante as câmeras.

A estrutura da notícia
Um dos principais conceitos do jornalismo é a notícia, definida por Bistane &
Bacellar (2010) como assuntos importantes à medida que despertam o interesse de um
grande número de pessoas e que geram algum tipo de impacto ou que afetam a vida da
população.
A notícia também agrega outros conceitos importantes para a área como apuração,
objetividade, interesse público e credibilidade. No meio de comunicação televisa, a
mensagem é reforçada pela utilização das imagens, como afirmam as autoras:

Imagens também dão credibilidade e força à notícia, sobretudo às


denúncias. Ler que Waldomiro Diniz, ex-subchefe da Casa Civil, exigiu
propina quando era diretor da Loterj, no Rio de Janeiro, tem um peso. Vê-
lo e ouvi-lo estipulando o quanto eu queria receber causou muito mais
impacto. (BISTANE & BACELLAR, 2010, p.41-42).

O chamado furo de reportagem também faz parte do cotidiano jornalístico, sendo


desejado diariamente por todo veículo na disputa de divulgar em primeira mão
determinada informação. Entretanto, é preciso realizar uma apuração minuciosa antes de
disponibilizar informações primeiro que a concorrência:

Divulgar uma informação exclusiva antes da concorrência dá prestígio a


um veículo de comunicação. Demonstra agilidade e competência, mas a
credibilidade vem da precisão da notícia (...). É importante saber que
divulga melhor uma notícia quem a apura direito, e não quem informa

Justiça e foi liberado após 18 anos de prisão, mas o Ministério Público do Rio de Janeiro recorreu da sentença
e o indulto foi suspenso, passando a ser declarado como foragido. Marcos Aurélio Dias Alcântara e Nelson
Oliveira dos Santos Cunha foram condenados a mais de 200 anos, mas também foram indultados e hoje estão
soltos.

216
primeiro. De que adianta oferecer em primeira mão uma informação
equivocada e ter que desmentir depois? (BISTANE & BACELLAR,
2010, p. 82-83).

Silva (2004) compreende noticiabilidade como todo e qualquer fator com


potencialidades capazes de atuar no processo de construção da notícia, que inclui desde o
julgamento do jornalista, a cultura da categoria, a relação com as fontes até as
circunstâncias históricas. Silva (2004) ainda a divide em três eixos: origem do fato,
tratamentos dos fatos e visão dos fatos.
O primeiro eixo apresenta a seleção inicial dos fatos e considera os atributos
típicos de uma notícia, que podem ser reconhecidos por profissionais da área. No segundo
já é abordado o tratamento dos fatos considerando fatores como a qualidade do material
jornalístico apurado, prazo para o fechamento, formato do produto, infraestrutura, entre
outros. Já no último eixo são apresentados os conceitos de objetividade, imparcialidade e
veracidade, essenciais para a construção da notícia e atuam concomitantemente a assuntos
abordados no primeiro e no segundo eixo. Wolf (1999) também conceitua noticiabilidade
como um processo que engloba várias características cotidianas do jornalismo:

A noticiabilidade é constituída pelo conjunto de requisitos que se exigem


dos acontecimentos - do ponto de vista da estrutura do trabalho nos
órgãos de informação e do ponto de vista do profissionalismo dos
jornalistas - para adquirirem a existência pública de notícias. Tudo o que
não corresponde a esses requisitos é «excluído», por não ser adequado às
rotinas produtivas e aos cânones da cultura profissional. Não adquirindo o
estatuto de notícia, permanece simplesmente um acontecimento que se
perde entre a «matéria-prima» que o órgão de informação não consegue
transformar e que, por conseguinte, não irá fazer parte dos conhecimentos
do mundo adquiridos pelo público através das comunicações de massa.
(WOLF,1999, p.83).

Outros conceitos importantes no processo de produção da notícia são os valores-


notícia, que são as características próprias do fato como a origem, o acontecimento isolado,
as características intrínsecas na informação. Entretanto, os valores-notícia não atuam
isolados, eles são utilizados juntamente com os fatores de formato do produto, linha
editorial, qualidade da imagem e público-alvo.
Para Wolf (1999), de modo geral, os valores-notícia são um componente do
processo de noticiabilidade e são usados para responder a perguntas do tipo: quais

217
acontecimentos são considerados suficientemente interessantes e relevantes para se
tornarem notícias?
O autor ainda esclarece que o critério de importância é identificado no momento
da seleção das notícias, porém, é utilizado em todo o processo, mas de forma e relevância
diferenciadas. E complementa afirmando que os valores-notícia são regras práticas que
englobam um conjunto de conhecimentos profissionais, que de modo implícito e
frequentemente explícito, expõem os procedimentos operacionais das redações.
Após os conceitos apresentados podemos considerar o sequestro do ônibus 174
como uma notícia, pois se trata de um fato relevante e de interesse público para a
sociedade, já que envolvia pessoas da comunidade e era algo “fora do comum”.

Grandes coberturas ao vivo


Podemos entender por grande cobertura um trabalho jornalístico caracterizado
pela duração maior do que o comum e pela relevância social do acontecimento, que pode
ser previsto, como Copa do Mundo e Olimpíadas, ou inusitado, como catástrofes naturais,
acidentes e sequestros de ônibus. Para Carvalho (2010):

Algumas notícias mexem com a rotina das pessoas, mudam os hábitos da


população e se tornam o principal assunto de quem as assiste. Em geral,
são histórias cercadas de tragédias e dramas pessoais (...). E é essa
mistura de notícia, audiência e crime que se transformam em grandes
lições do jornalismo: quando erramos o tom (CARVALHO et al., 2010, p.
119).

Ainda de acordo com o autor, é importante que as emissoras de televisão e os


jornalistas tenham cautela na divulgação e exibição dessas informações, pois a exposição
na mídia pode gerar proporções maiores que a própria situação. Carvalho (2010)analisa o
caso da jovem Eloá Cristina111, que foi mantida refém por quase 100 horas em casa pelo
ex-namorado Lindemberg Alves, na cidade de Santo André - SP, em 2008. As principais
emissoras de TV do país acompanharam todos os passos do sequestro in loco, com

111
O sequestro de Eloá durou teve reviravoltas e a presença ininterrupta da imprensa no local, sempre com
entradas ao vivo durante a programação. O desfecho do sequestro, no dia 13 de outubro de 2008, foi
mostrado em tempo real pela TV Globo, e resultou na morte da refém, alvejada por dois tiros de seu
sequestrador, Lindemberg Alves, ex-namorado da vítima.

218
plantões ao vivo durante a programação e entrevistas com o sequestrador112.
Nas grandes coberturas, há dois determinantes temporais importantes: o primeiro
corresponde à duração da abordagem do tema pela mídia, sua repercussão e
desdobramentos; o segundo refere-se à transmissão ao vivo de um acontecimento e o
tempo de exibição. O sequestro do ônibus 174 foi transmitido por mais de quatro horas, de
maneira ininterrupta, no canal por assinatura Globo News. Segundo Carvalho (2010):

Não há fórmulas que definam o momento certo de entrar ou sair do caso.


O que há são princípios que devem ser construídos de forma coletiva em
uma redação, tendo como horizonte sempre o interesse público. Não é
possível dar as costas para a notícia, mas é imprescindível tratá-la com
dignidade, fugir do sensacionalismo barato (...). O público não é uma
massa uniforme e há telespectadores que querem mais que isso
(CARVALHO et al., 2010, p. 125).

Outro ponto importante a ser considerado é o cuidado que a mídia deve ter, em
transmissões ao vivo, no que tange à validade dos conteúdos, evitando que o calor dos
acontecimentos e a necessidade do jornalismo contemporâneo em estar sempre à frente e
dar o chamado “furo”, provoquem desvios de intenção ou mesmo erros de informação.

Interesse público e a construção da notícia


O princípio básico da notícia leva em consideração o que é de interesse público.
De acordo com Lage (2011), vários problemas envolvendo a ética decorrem da forma de
divulgação de certas informações, que pode dar um novo sentido ao que de fato ocorreu.
O autor exemplifica com os casos de investigações policiais, cujas informações
devem ser mantidas em segredo ou na questão de processos financeiros que podem tornar
vulneráveis as instituições. Segundo Lage (2011), nesses e em outros casos semelhantes, a
divulgação de informações pode ser considerada fora dos padrões da ética jornalística, mas
é preciso observar o limite dessa postura. Para o autor,

Deve-se considerar que a informação pública não é apenas uma questão


dos jornalistas, mas também de suas fontes, particularmente as
institucionais. (...). Aconselha-se aos jornalistas – tanto repórteres
policiais quanto cronistas políticos e analistas econômicos – o ceticismo
quanto ao valor ético de decisões institucionais, ainda quando cobertas de

112
No dia 18 de outubro de 2010, a apresentadora Sônia Abrão entrevistou Lindemberg Alves por telefone,
em seu programa “A Tarde É Sua”, da RedeTV!

219
legalidade (LAGE, 2011, p. 99-101).

Lage (2011) explica que, em geral, os veículos de notícia possuem padrões de


noticiabilidade, como a não divulgação de suicídios para evitar que as pessoas imitem essa
ação, nem roubos ardilosos, entre outras ações ilícitas. Mas, segundo o autor, “levado às
últimas (mas necessárias) consequências, tal critério impediria a divulgação de todas as
notícias negativas, construindo na imprensa um mundo maravilhoso, de comportamentos
corretos e éticos – só que, lamentavelmente, imaginário” (LAGE, 2011, p. 101).
O autor afirma que o conceito de notícia pode ser substituído pela expressão
“informação jornalística”, e que é composto não apenas na estruturação dos dados que são
mais convenientes, mas principalmente pela exposição do maior número de dados
possíveis, de modo que a narrativa seja abrangente e mais compreensível. Lage (2011)
explica que, nesse aspecto, a informação jornalística difere da notícia, pois ela está ligada a
rompimento ou mudança dos fatos normais e deve ser mais rápida, sintética e fragmentária.
Para Lage, “quanto maior o interesse jornalístico, maior a abrangência do público
a que a informação se possa destinar” (LAGE, 2011, p. 113). O autor ainda caracteriza a
notícia como uma narrativa que contém ineditismo, intensidade, atualidade, proximidade e
identificação. Trata-se de uma disfunção de algum sistema, independente das intenções dos
jornalistas em tratar o assunto. É divulgada com diferentes graus de profundidade, é breve,
pouco durável e ligada à emergência do fato.
Já a informação corresponde a um assunto determinado ou não por um fato
gerador de interesse e decorre da intenção do jornalista em noticiar. É mais extensa, densa
e completa. Requer pesquisa ainda mais aprofundada e uma filtragem de informação
menos exigente.
Carvalho (et al., 2010) explica que é necessário tomar cuidado em pautar em um
telejornal, por exemplo, somente o que é de interesse do público. Para o autor,

O bom telejornal é aquele que responde, sim, às expectativas do


telespectador, mas que também possibilita que ele levante novos
questionamentos, perceba que há outras formas de ver a notícia em
questão. Ou seja, não podemos estar desconectados daquilo que importa
ao público, mas devemos nos perguntar sempre se o assunto que interessa
ao público é de interesse público (CARVALHO et al., 2010, p. 19).

O autor destaca a busca incessante pelo factual como a principal responsável por

220
fazer com que os jornalistas deixem de publicar questões que são notícia em potencial –
como a crise do sistema aéreo brasileiro, por exemplo – para dar atenção somente ao que já
está acontecendo – como a queda do voo 3054 da TAM, em julho de 2007, ao lado do
Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Essa superficialidade dos fatos é criticada pelo
autor, que defende que os jornalistas precisam se preparar mais para o mercado, estar
melhor informados e dispostos a aprender constantemente.
A questão da superficialidade e o factual podem ser percebidos dentro das
transmissões sobre a história de Sandro Nascimento. Em contrapartida, o documentário de
José Padilha busca alcançar uma visão mais completa da situação, trazendo inúmeras
informações sobre a vida do jovem, o massacre da Candelária, a morte da mãe, os amigos
que fez durante a vida, entre outras informações.

A mídia no caso
A cobertura in loco do sequestro do ônibus 174 mobilizou um grande número de
jornalistas de diferentes veículos ao bairro Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Dezenas de
profissionais de rádios, jornais impressos, portais de notícias e emissoras de TV
acompanharam o crime, o comportamento de Sandro Nascimento, a apreensão dos reféns,
a curiosidade das pessoas aglomeradas em volta e a atuação da Polícia Militar e do
Batalhão de Operações Especiais (BOPE) do Rio de Janeiro.
Flageul (2000) diz que o acontecimento responde a alguns critérios, como
acidentalidade, improbabilidade, unicidade e singularidade (FLAGEUL, 2000, apud.
MUNIZSODRÉ, 2009, p. 33). Muniz-Sodré acrescenta que “mesmo que ocorra na esfera
do possível, o acontecimento guardaria um momento e uma parte excessivos frente àquilo
que o condiciona” (MUNIZSODRÉ, 2009, p. 36).
A duração do evento e a intensa cobertura da mídia pode caracterizar o sequestro
de junho de 2000 como um macroacontecimento, dentro da definição de Muniz Sodré
(2009):

Há (...) grandes e pequenos acontecimentos, hierarquizados em razão de


sua previsibilidade dentro de um sistema determinado.
Macroacontecimentos, por exemplo, são o assassinato do Presidente John
Kennedy, a destruição por terroristas das torres gêmeas em Nova York, o
tsunami no sul da Ásia, etc. Já o assassinato de um cidadão comum por

221
terroristas, um terremoto de pequenas proporções, etc. são
microacontecimentos. (MUNIZ SODRÉ, 2009, p. 34).

Durante as quatro horas do desenrolar do sequestro, Sandro Nascimento oscilou


entre momentos de bastante furor e descontrole e espasmos de tranquilidade, e em várias
oportunidades interagiu com as câmeras que registravam o fato. A imprevisibilidade de um
acontecimento como esse teve um impacto na transmissão ao vivo. O site Memória Globo,
acervo multimídia de todos os produtos da TV Globo ao longo de quase cinco décadas, fala
sobre a cobertura da emissora:

Enquanto a Globo News ficou no ar, sem interrupções, ao vivo, com


imagens dramáticas do episódio, a Globo manteve sua programação
normal, inserindo flashes em seus intervalos comerciais. Por receio de
que o sequestro terminasse com um desfecho violento (o que de fato
ocorreu), a empresa preferiu não deixar a transmissão ao vivo ininterrupta
na TV aberta, para evitar que o público fosse surpreendido por imagens
impactantes (MEMÓRIA GLOBO, 2004, p. 327).

A presença da TV Globo perante o desenrolar incerto do sequestro foi um


exemplo de como a mídia no local influenciou, de certa forma, a atuação da polícia,
considerada desastrosa pela própria imprensa logo após o fato. Muitas críticas foram
destinadas contra a Polícia Militar e o Batalhão de Operações Especiais (BOPE) do Rio de
Janeiro, considerados despreparados técnica e taticamente. As câmeras registraram as
falhas no sistema de segurança do Estado, desde faltas básicas como a inexistência de
rádios de comunicação, a erros estratégicos como o desfecho trágico do sequestro, com a
morte de Geísa, a refém, alvejada por um policial, e de Sandro, asfixiado por cinco homens
da PM do Rio no camburão.
Mais do que isso, a presença da mídia, no início renegada por Sandro, se tornou a
sua janela de sobrevivência, de uma visibilidade que nunca teve. Nas palavras do
antropólogo Luiz Eduardo Soares no documentário, Sandro “redefiniu, de alguma maneira,
o relato social. O relato que dava a ele sempre a posição subalterna, de repente, é
convertido numa narrativa em que ele é o protagonista”.
O sequestro do ônibus 174 foi um marco para as políticas federais de segurança.
Uma semana após o incidente, o Governo Federal criou um Plano Nacional para
reestruturar a segurança pública em todo o país. Além disso, foi um momento de transição

222
também para o próprio posicionamento da mídia em casos semelhantes. A TV Globo, que
decidiu não transmitir de maneira ininterrupta o sequestro, mudou de opinião. O então
diretor da Central Globo de Jornalismo, Evandro Carlos de Andrade, explica a decisão da
emissora:

Nós tivemos dúvida em relação à TV aberta, uma vez que havia o receio
de o sequestrador estourar a cabeça de uma das reféns e nós mostrarmos a
cena. Entendemos, depois, que nossa decisão de não dar continuidade à
cobertura foi um erro. O que nós devíamos ter feito (...) era alertar
permanentemente o público, os pais, as famílias, para o risco de
mostrarmos uma cena muito chocante. Cabe às famílias tomarem
medidas de cautela. Nós achamos que devemos transmitir os
acontecimentos. E, se fosse hoje, levaríamos ao ar também na TV aberta,
porque é um fato que causa expectativa. E, se nós temos acesso, o público
também deve ter. Caso contrário, estaremos censurando a informação.
(ANDRADE, in MEMÓRIA GLOBO, 2004, p. 327).

Desde então, a emissora começou a abrir a programação para situações com um


grau de imprevisibilidade similar ao caso do ônibus 174, como no sequestro do
apresentador Sílvio Santos em sua casa, em São Paulo, no dia 30 de agosto de 2001, os
atentados terroristas contra o World Trade Center, em 11 de setembro do mesmo ano, e o
sequestro da jovem Eloá Cristina, em Santo André-SP, no mês de outubro de 2008.
Podemos perceber que a presença dos veículos de comunicação no “front” do
Jardim Botânico naquele 12 de junho de 2000 provocou alterações em várias esferas: desde
a apropriação cênica e sociológica de Sandro do alcance das imagens, passando pela
reflexão sobre as condições da polícia no Rio de Janeiro e em todo o Brasil, chegando até a
mudar o ponto de vista da maior emissora de televisão do país, em relação a
acontecimentos como o sequestro.

Conclusão
Com base nos argumentos propostos, podemos inferir que as grandes coberturas
possuem uma dinâmica diferente das transmissões comuns, sendo essenciais para a
divulgação de notícias cujo interesse ultrapassa o local, o restrito.
Contudo, o processo de transmissão dos fatos é composto por critérios básicos do
jornalismo que não podem ser negligenciados pela imprensa no momento de uma grande
cobertura, ou seja, a pressa em divulgar determinado acontecimento não deve prejudicar o
223
processo de apuração, por exemplo, e nem o próprio desenrolar do caso, principalmente
quando estiverem em questão vidas humanas.
O caso do sequestro do ônibus 174 é considerado neste trabalho como notícia,
dentro dos critérios estabelecidos e discutidos por Bistane & Bacellar (2010), por se tratar
de uma situação que despertou o interesse nacional e teve certo impacto na vida de muitas
pessoas, sobretudo na sociedade carioca.
Mesmo sendo considerado um acontecimento inusitado, na definição de Carvalho
(et al., 2010), o sequestro do ônibus 174 também pode ser caracterizado como um
macroacontecimento no sentido de ser algo até de certa forma previsível, com base na
história de vida de Sandro Nascimento, e nas questões sociais implícitas no fatos. Essas
questões sociais, destacadas amplamente no documentário de José Padilha, tornam o caso
do sequestro – ou qualquer outro atentado que jovens como Sandro podem direcionar à
população devido às condições de vida e falta de orientação - o que o autor chama de
“notícias em potencial”.Desta forma, acreditamos que o caso do sequestro se enquadra
também nesse conceito.
Como afirma Lage (2011), a escolha das notícias a serem divulgadas pela
imprensa deve considerar as consequências dessa transmissão – como na questão de
suicídios que não são divulgados para que essa prática não seja incentivada, aspecto que
reforça a influência da mídia no caráter psicológico do indivíduo. Todavia, o autor reitera
que se a imprensa se limitar a noticiar apenas notícias positivas, poderá ser criado um
mundo perfeito onde nada de ruim acontece, portanto, um mundo falso. Nesse sentido, o
caso do sequestro é considerado nesse trabalho como uma notícia que deveria ser – como
foi – amplamente divulgada, para que a população nacional tomasse conhecimento dos
fatos explícitos e implícitos da situação, mesmo que muitos fatos implícitos não tenham
sido realçados inicialmente com tanta intensidade como o foi a imagem de Sandro como o
grande vilão da história.
Finalmente, tomamos como base o caso do sequestro para ressaltar a mudança de
padrões de transmissão de uma das maiores emissoras do país, devido a relevância e
alcance do acontecimento. O sequestro dividiu opiniões, revelou falhas na segurança
policial de uma grande metrópole, trouxe à tona questões de cunho psicossocial que afetam
os jovens não só dessa cidade, mas de todo o país, e determinou a mudança de postura de

224
jornalistas, assim como também mostrou a influência da mídia no desfecho de
acontecimentos de grande e pequeno alcance.

Referências
ANDRADE, Evandro Carlos de. A notícia ao vivo. In. MEMÓRIA GLOBO. Jornal
Nacional: a notícia faz história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.

BISTANE, Luciana; BACELLAR, Luciane. Jornalismo de Tv. São Paulo: Contexto,


2010.

CARVALHO, Alexandre... [et al]. Reportagem na TV: como fazer, como produzir, como
editar. São Paulo: Contexto, 2010.

LAGE, Nilson. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Rio de


Janeiro: Record, 2011.

MEMÓRIA GLOBO. Sequestro do ônibus 174. Disponível em:


<http://memoriaglobo.globo.com/programas/jornalismo/coberturas/sequestro-do-onibus-
174/cobertura-ao-vivo.htm>. Acesso em: 17 out. 2013.

__________. Jornal Nacional: a notícia faz história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
2004.

ÔNIBUS 174. Direção: José Padilha. Zazen Produções. Rio de Janeiro – RJ, 2002. 150
min. Son, Color, Formato: 16 mm.

SILVA, Gislene. Para pensar critérios de noticiabilidade. Artigo apresentado no II


Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, da Sociedade Brasileira de
Pesquisadores em Jornalismo – SBPJor. Bahia, 2004.

SODRÉ, Muniz. A narração do fato: notas para uma teoria do acontecimento. Petrópolis:
Vozes, 2009.

WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação. Lisboa: Editorial Presença, 1999.

225
A Polamazônia e o discurso desenvolvimentista durante o Regime Militar

Marineide da Silva Ribeiro113


Luís Balkar Sá Peixoto Pinheiro114

Resumo: O trabalho consiste numa análise sobre a Polamazônia e o discurso de


desenvolvimento econômico no período do regime militar. Trata-se de uma fase que
vinculava propaganda de desenvolvimento econômico sadio, a partir de planos econômicos
que visavam integrar todo o território Nacional, baseados no ideal de “vazio demográfico”,
“ocupariam” a região através de correntes migratórias, e desta forma fortalecer as
fronteiras. O discurso binário sobre a Amazônia gerou muitos conflitos entre empresários e
indígenas, camponeses e recentes migrantes que atuaram muitas vezes de forma efetiva
como sujeitos históricos, se impondo frente aos projetos de grandes envergaduras como
construções de rodovias, hidrelétricas dentre outros. Assim, as tensões que foram geradas em
meio a todos esses projetos principalmente pela disputa de terras, reafirmam a presença das
pessoas comuns no processo histórico como atores essenciais nas mudanças sociais.

Palavra -chaves: Ditadura militar, Desenvolvimento, Amazônia e Migração

Esta análise tem como intenção compreender o discurso de desenvolvimento


econômico lançado sobre a região amazônica pós-1964, quando a Amazônia se vinculava ao
Projeto de Integração Nacional. Assim, podemos dizer que a região abrilhantava os olhos
dos empresários que enviavam as grandes empresas capitalistas na ânsia de explorar
recursos naturais e mão-de-obra barata, vínculos feitos entre o governo e capital. Entretanto,
não foram fáceis as instalações dos grandes projetos: percebemos que os moradores não
foram inertes às mudanças impostas pelo ambicioso plano econômico, eles resistiram se
articularam dentro de organização consciente pela tomada de território.

O discurso desenvolvimentista
As décadas de 1960/70 foram profundamente marcadas por grandes mudanças
históricas no cenário brasileiro: tempos de golpe militar, repressão, movimentos feminista,

113
Mestranda em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM-Manaus) e Bolsista Capes
(CNPq). Email: neidemsr@ig.com.br
114
Doutor em História Social pela Pontificia Universidade Católica de São Paulo, Professor associado da
Universidade Federal do Amazonas e Bolsista Produtividade do Conselho do Desenvolvimento Cientifico
Nacional (CNPq).

226
instaurações de Atos Institucionais, governo autoritário, “defesa” do Estado Nacional,
política de Integração Nacional entre outros que poderíamos aqui citar. O Estado brasileiro
vivenciava os altos índices do crescimento econômico a partir do famoso “MILAGRE
ECONÔMICO” (HABERT,1994:7).Sobreposto no pós-golpe militar de 1964, o governo
criou medidas para região Amazônica no propósito de bloquear uma possível invasão de
ordem varsoviana. Pois em meio ao cenário da Guerra Fria, ou os países aliavam-se aos
Estados Unidos que adotava o capitalismo ou à URSS que seguia com o comunismo. “Este
dualismo era alimentado pelas duas partes para tirar proveito, no caso do Brasil a
obrigação era ser em prol do capitalismo norte – americano”(COMÉRCIO, Manaus, 23 de
outubro de 2006,Ed. Comemorativa:90)
A grande atração do capital para a Amazônia ocorreu a partir da Polamazônia - uma
proposta governamental com objetivo de inserir quinze “pólos de desenvolvimentos”, cada
um desses pólos centralizavam atividades especializadas,essa corrida para o capital alterou
os números populacionais para a região norte.Na década de 1960 a população era de
aproximadamente 1,9 milhão, e em 1980 eram quase 6 milhões, atraindo expressivas
levas de migratórias. A maioria desses migrantes trabalhavam lavrando a terra e tinham
saído de diversos lugares do país, como a exemplo do sertão nordestino, tendo sido forte
impacto que modificou a vida de quem morava e de quem chegava na região
(BRASIL,1997:62 ) Nesse bojo foi aplicado o plano de ação econômica -PAEG – com
início para os anos de 1964-1966.O plano teria que ser conveniente com a economia de
mercado. Assim traçou uma política para submeter os condicionantes de intervenção a um
aumento acelerado da economia. Para tanto, o plano em vigor objetivou o decréscimo da
inflação, a partir daí o PAEG era responsável de “desenvolver um sistema econômico sadio”
Assim, o PAEG foi caracterizado como política de desenvolvimento para a
Amazônia, exercendo uma nova função, a de intervenção e ampliação de órgãos federais que
estimulassem e prestassem total exclusividade às novas estratégias norteadas à região
amazônica.
Diante das exigências supracitadas, destacamos o início da chamada Operação
Amazônica em 01 de Fevereiro de 1966, na cidade de Macapá, onde vários governadores e
ministros se fizeram presente na solenidade “a fim de apoiar o fortalecimento” econômico
para a região. O então presidente Marechal Castelo Branco também esteve presente,

227
afirmava no seu discurso as preocupações do seu governo com a expansão econômica para o
espaço amazônico:

[...] Dai esta colocado no primeiro plano das preocupações do governo o


fortalecimento econômico da região, a sua ocupação nacional, o
fortalecimento das suas áreas de fronteiras e integração do espaço
Amazônico no todo nacional. Com esse propósito, estudou-se completa
reformulação da política nacional até agora seguida e que devera ser
mudada de acordo com a as experiências dolorosamente acumuladas. [..]
(FERREIRA,1994:79)

O discurso de desenvolvimento econômico para a região tinha aparentemente boas


intenções, imbuído de estratégias envolventes, seduzindo muitos migrantes que ouviram nas
rádios, nos jornais ou mesmo ouviam falar, que na Amazônia o governo distribuía terras,
casas entre outros benefícios. Mas o discurso além de ser uma fala proferida para o público,
uma exposição didática de um determinado assunto, traz consigo uma ‘’ inquietação diante
dessa existência transitória destinada a se apagar sem dúvida, mas segundo uma duração
que não nos pertence inquietação de sentir sob essa atividade todavia cotidiana e cinzenta,
poderes e perigos que mal se imagina [...](FOUCAULT, 1996:8)”. O discurso tem sua
essência perigosa, é verossímil, carrega consigo a vontade de verdade, que segundo Foucault
é uma vontade desejada, é uma vontade de possuir o desejo e o poder. O verdadeiro discurso
é o que se liberta do desejo e do poder, contraria a vontade de verdade, e não a reconhece
(Ibidem, FOUCAULT, 1996:20 ).
A Política de Valorização da Amazônia sinaliza uma antiga “preocupação” com uma
nova roupagem. Ela nos faz rememorar o passado dos antigos e legítimos habitantes da
floresta que viveram experiências dolorosas na chegada dos colonizadores/exploradores,
passado esse rastreado de desgraças e genocídios, mas também resistências e lutas.
Com a chegada do estranho-estrangeiros, empresários foram atraídos e convidados
para a região norte, através das propagandas dos governos federais e estaduais com o
propósito de construir rodovias, hidrelétricas e planos de colonização, causando perdas
irreparáveis e irreversíveis ao meio ambiente. Todas essas providências anteriores foram
tomadas no objetivo de explorar as riquezas naturais, e conseqüentemente fizeram com que
a estrutura e o modo de vida das populações locais mais uma vez fossem alterados
drasticamente (MARTINS, 1989:16).

228
A região norte foi visualizada como povoação letárgica e onerosa para os cofres
públicos. Assim,a principal ação governamental foi estimular os imigrantes de potencial
econômico a investirem em empreendimentos nos setores de mineração e agropecuários.A
implantação das grandes empresas iriam colaborar para o crescimento socioeconômico da
região.
Por este edital, a Companhia de Recursos Minerais -CPRM, Sociedade de
Economia mista vinculada ao Ministério das Minas e Energia de acordo
com a autorização dada pela pelo Art°.6, parágrafo 2°, do Decreto-Lei n°
764 de 15 de agosto de 1969 e pelo Art° 7, parágrafo 2° de seus
Estatutos, oferece, em licitação pública, os direitos em resultados das
pesquisas realizadas em 10 áreas de 1.000 hectares [...].As referidas
pesquisas revelam importantes depósitos de Caulim, sendo a reserva total,
conforme o Relatório de Pesquisa aprovado pelo Departamento Nacional
da Produção Mineral de 566.819.314 toneladas de reserva [...]. A área
onde se localizam as jazidas goza de incentivos fiscais e facilidades de
capacitação relacionados com a Superintendência do Desenvolvimento da
Amazônia - SUDAM[...].Outros incentivos fiscais possíveis são:Isenção
do Imposto de Importação e do Imposto de Produtos Industrializados
(IPI) para os bens de capital[...] Poderão participar da licitação do objeto
deste Edital, empresas ou grupos de empresas que tencionem associar-se
sem qualquer delas esteja registradas como empresa de Mineração [...]
(DIARIO OFICIAL DA UNIÃO, 30 de setembro de 1974:3677)

No entanto, não estava nas ações do governo o modo de vida das populações pré-
existentes, ou mesmo o que foi planejado não condizia com a realidade local. A partir desse
momento iniciam-se os conflitos entre os grandes empresários, camponeses e indígenas pela
115
disputa da terra. É evidente que, as representações acerca da terra diferem entre esses
grupos. Para os empresários, a terra tem sentido econômico de exploração, já para os
indígenas além da subsistência ela tem sentido espiritual, e para os camponeses está
direcionada ao plantio e cultivo.
Quando os projetos foram engendrados no seio da região amazônica, cerceou-se o
direito de viver bem entre nativos e camponeses. Foi como se os amazônidas não tivessem
sensibilidade humana. O menosprezo da autoridade brasileira para com essas populações foi
nítido, sendo como se elas nãos tivessem condições de equacionar seus problemas sociais,
econômicos, culturais e políticos, as suas ações como sujeitos históricos foram
invisibilizadas. Assim, seus costumes e modo de vidas não foram reconhecidos, ignorados

115
“As representações apresentam múltiplas configurações, e pode-se dizer que o mundo é construído de
forma contraditória e variada, pelos diferentes grupos do social.”( Pesavento, 2003:41 )

229
condenados a partir da visão eurocêntrica .

Não se trata de introduzir nada na vida dessas populações, mas de tirar-


lhes o que tem de vital para sua sobrevivência, não só econômica: terras e
territórios, meios e condições de existência material e política . É como se
elas não existissem, ou existindo, não tivessem direito ao reconhecimento
de sua humanidade (MARTINS,1989:16)

A percepção sobre a invisibilidade dos povos amazônicos em relação ao


crescimento do capital, fez parecer que esses homens e essas mulheres não tivessem, não
fizessem e não construíssem a sua própria história, quando muitas vezes novas fontes
historiográficas nos denunciam que os homens e mulheres amazônicos se impuseram de
forma efetiva no combate a exploração e apropriação da terra pelo capitalismo
(Ibidem,MARTINS,1989:18). Não parece ser diferente da análise feita por Edward
Thompson sobre A Economia Moral inglesa no século VXIII, onde enfatiza os motins de
fome na Inglaterra, aborda a falta de resgate dos agentes sociais classificados como pessoas
comuns, que não eram vistos como atores participantes no cerne das transformações sociais
antecessoras à Revolução Francesa.As pesquisas historiográficas do período supracitado
eram orientadas sob uma visão espasmódica da cultura popular, que não concebia pessoas
comuns atuando como agentes históricos, e de forma que se elas surgissem esporadicamente
em cena, eram em momentos corriqueiros de profunda perturbação social, quando sinalizada
a presença dessas pessoas comuns, essas aparições eram irreprimíveis que conscientes ou
auto-ativadas: não iam além de incitações econômicas.
Thompson crítica os estudos superficiais que alguns historiadores fizeram
concernente a cultura popular, ele enfatiza os motins de fome que ocorrem nesse período,
se opõem a visão espasmódica, diz ser possível identificar na maioria das ações populares do
século XVIII, noção legitimadora . Por noção de legitimação, assim ele elucidou a trajetória
dos homens e mulheres da multidão acreditavam e defendiam direitos e costumes de suas
tradições.; e que geralmente eram apoiados pelo consenso comunitário. [...] (THOMPSON,
1998:150-150),
Envolvidos nesse imaginário116 acerca da região é que o governo e as empresas
puderam avançar no processo de desenvolvimento capitalista e devastador. Um dos

116
“entende-se por imaginário ” um sistema de ideias e imagensde representação coletiva que os homens, em
todas as épocas , construíram para si , dando sentido ao mundo (PESAVENTO:2003.p.43)

230
primeiros passos foi a colonização dos lugares e o assentamento de muitas famílias. Não é
de hoje que o país adota esse tipo de processo objetivando solucionar problemas de cunho
socioeconômico em vários lugares do país. Assim, transferem de um lugar para o outro
milhares de famílias mas não solucionam as problemáticas advindas com os migrantes. Em
1970 cria-se o INCRA- para controlar e fomentar a distribuição de terras, o órgão foi uma
promessa de reforma agrária sob o controle do Estado Nacional.

A colonização como forma planejada de proceder à ocupação de uma área


é um processo que vem sendo adotado no Brasil há pelo menos dois
séculos, respondendo a objetivos econômico-sociais e/ ou políticos-
militares, e operando em áreas estratégicas.
É sob a égide do Incra, criado em 1970 com a finalidade de promover,
executar e controlar a reforma agrária, que se monta todo um esquema de
colonização em larga escala para a maior porção do espaço nacional, a
Amazônia . Na verdade, trata-se de distribuir a terra sim, mas sob o
controle do estado, estimulando, orientando e/ ou prevenindo os
movimentos espontâneos da população. A colonização é uma estratégia
que retira o controle da terra dos governos estaduais para o governo
central; é entendida como capaz de solucionar conflitos sócias,
absorvendo produtores sem terra, povoar a fronteira inclusive em locais
estratégicos e ao mesmo tempo criar bacias de mão-de-obra locais
(BECKER,1998:31-32 )

Guiados pelo entusiasmo de desenvolvimento, um dos vários incentivos amparados


pela lei foi o incentivo fiscal, consolidando as metas para a valorização da região.Essas leis
firmavam o processo de “integração nacional” para com as demais regiões brasileiras.
Observemos algumas leis que foram elaboradas para consolidar tais propostas:

Lei nº 5.173 de 27.10.1976: extinguiu a SPVEA, criou a superintendência


do desenvolvimento da Amazônia – SUDAM e dispôs sobre o plano de
valorização econômica da Amazônia.
Lei nº 5.172 de 27.10.1966: dispôs sobre a transformação do BCA em
banco da Amazônia S.A – BASA;
Lei de nº 5.174 de 27.10.1966, dispôs sobre a concessão de incentivo
fiscais em favor da região amazônica, consolidando-o e criando novos
incentivos, isenções e deduções tributarias e outras providencias
correlatas;
Decreto – Lei nº 288. De 28.02.67, e Decretado – Lei de nº 340, de
22.12.1967: alteram as disposições da Lei de nº 3.173, de 06.06.1957, e
regularam a reorganização da Zona Franca de Manaus, como uma área de
livre comercio e de incentivos fiscais especiais;
Decreto- Lei nº 291, de 28.02.1967: constituiu e delimitou a área da
Amazônia Ocidental e estabeleceu incentivos para a Faixa de Fronteiras.

231
(Apud,OLIVIERA,1998:36)

A Operação Amazônica efetivou as ações militares baseadas nas leis e decretos


vigentes. As forças militares ocuparam a região com fins de integração à economia nacional,
resguardando a terra e fortalecendo as fronteiras. Por trás de todas essas “preocupações”, o
Estado afirmava sua soberania na Amazônia, através do possível sucesso econômico que
camuflava o processo ditatorial, uma forma de ideologia, irmanada no pensamento
nacionalista, no intuito de percorrer todo território nacional. A ocupação regional estava
firmada nas bases das alianças que marcaram a nova fase do sistema capitalista no Brasil,
ficando registrada “no toque de clarim da “ Operação Amazônia”.

Governo e homem de empresa do Brasil, reunidos na Amazônia sob a


inspiração de Deus e norteados pelo firme propósito de preservar a
unidade nacional como patrimônio, que receberam indiviso, conscientes
da necessidade de promover o crescimento econômico acelerado da
Região, como processo indispensável, para atingir esse objetivo
valorização do homem que a habita. (OLIVEIRA,1998:34)

A ocupação demográfica foi a saída encontrada para justificar o arsenal de projetos


voltados para explorações minerais, posse de terras, mão-de-obra barata e desapropriação
dos antigos moradores, todas essas ações oportunizaram a ideologia de “desenvolvimento
sadio”, se assim fosse concentrada e polarizada, a ocupação de fronteiras ficavam a cargo de
expressivas levas migratórias.
O emblemático ‘’Integrar para não Entregar”, foi uma falácia para quem realmente
habitou a fronteira, contraditória ao discurso de prosperidade e mudança na qualidade de
vida, quando INTEGRAR significava da abertura ao capital internacional,ambicioso e
devastador por onde tem passado, que em troca das explorações traria suas grandes empresas
para “alavancar” e disseminar o processo capitalista na região,assim como também
solidificar uma espécie de colônia de exploração abastada de uma numerosa mão-de-obra
barata e desqualificada, logo suas despesas seriam abatidas pela metade, até mesmo a
localidade de instalação das grande fábricas e multinacionais as quais mantinham ligações
estreitas e livre acesso com a fronteira brasileira, ou seja, não ENTREGAR para quem?, nós
os amazônidas?

232
Estava, portanto, inserida na lógica do endividamento externo, o
“desenvolvimento” da região Amazônica sob signo militar da geopolítica
da Escola Superior da Guerra.
Definida a estratégia, começou a ação. “Estava “deflagrada “Operação
Amazônica”, substanciada na ideologia que serviu de lema ao projeto
Rondon” Integrar parar não entregar”. Na realidade na lógica de ideologia
da Escola Superior de Guerra estava inscrita a passagem dos tempos das
“fronteiras geográficas” para os da “fronteira ideológicas”, “era
necessário entregar aos americanos para não entregar aos comunistas”
(sic). Desta forma integrar significava abrir os caminhos, criar condições
para que fosse possível a exploração dos recursos naturais para os
grandes monopólios multinacionais, ao que tudo indica que este lema
aparentemente inscrito, e por muita gente interpretado como produto da
ideologia geopolítica das “ fronteiras geográficas” [...] deve ser
interpretado como produto da ideologia das “fronteiras ideológicas”. O
Estado brasileiro criou toda a sorte de políticas para implementar a
internacionalização da economia brasileira. (OLIVEIRA,1998:31-32)

As multinacionais estadunidenses já estavam atuando sem reservas e quase que sem


limites.Os principais interesses vinculados a “operação Amazônica” foram externados na
primeira “Reunião de Investidores da Amazônia”, ocorrida num “cruzeiro” a Bordo do
Navio Rosa da Fonseca, passaram nove dias fazendo o reconhecimento das área a serem
exploradas, nesta viagem os empresários do Centro-Sul, estavam entusiasmados, firmaram o
compromisso junto a ação militar, de exploração numa terra tão virgem quanto rica.

[...] a opinião geral dos participantes da viagem, quando se chegou a


Belém, era a de que se tinha conseguido o milagre de redescobrir a
Amazônia para as lideranças empresariais brasileiras, que despertavam,
assim, não apenas para um dever de ocupação, mas, também para
oportunidades novas de bons negócios numa terra tão virgem quanto rica.
(Ibidem,OLIVEIRA,1998;32)

As populações indígenas e camponesas mostraram o seu poder de articulação e


consciência coletiva em prol de seus interesses, confrontando as empresas por vários
momentos, de forma que conseguiram ameaçar, paralisar e desestruturar os trabalhos das
construções na medida em que são implantados os grandes projetos econômicos. Porém,
alguns cientistas sociais vivem um dilema que tem privilegiado a área econômica e/ou
tecnológica nas pesquisas acerca dos indígenas e camponeses, aceitando, de forma natural e
irremediável suas mudanças e o desaparecimento desses grupos. Numa análise reversa, esses
grupos são vistos numa tentativa de sobrevivência e resistência, articulam-se como sujeitos
do processo social e histórico (Ibidem, MARTINS, 1989:17), para manter vivas suas raízes,
233
modos de vida e o direito de pleitear a terra.
Os conflitos sociais na Amazônia nasce no cerne de eventos históricos autoritários
como o da Ditadura militar, que de uma forma violenta contactou e fragmentou uma
variedade de grupos étnicos que viviam na Amazônia:“pelo menos 34 tribos indígena foram
atraídas e conectadas na Amazônia. A partir de 1965, entre tribos até então desconhecidas e
facções arredias de grupos já conhecidos, sem contar tribos fragmentadas em grupos
dispersos.”(MARTINS,1996:35 )Uma das leis que serviu de escudo para os grande
fazendeiros donos de fábricas foi a tutela117 imposta para cercear a liberdade de ir e vir
(voltar para casa, adentrar as matas, caça, pescar, praticar rituais entres outros costumes).
Quando impõe limites no território, é mais o encarceramento do que uma proteção, típico de
quem incomoda o outro. Essa foi a solução mais cômoda encontrada pelo Estado autoritário
para repudiar os antigos habitantes da região.
O território que foi limitado para os indígenas, parece ser mais uma negociata
ambiciosa entre militares e oligarquias paras possuir a maioria das terras “[..] essa solução
e essa tentativa resultaram do pacto entre o capital e a propriedade da terra, promovidos
pelos próprios militares, conseqüência da associação entre militares e oligarquias
”(MARTINS,1989:23) para coibir os índios que não se intimidaram ao ver o capital avançar,
revestindo-se de coragem, lutaram dando muitas vezes suas próprias vida, como aconteceu
com embargo da BR 174 que liga o estado do Amazonas ao estado de Roraima, pelos
Waimiris e Atroaris, na região do rio Alalaú, os dois grupos travaram uma luta com os
trabalhadores da empresa licitada a executar a abertura da estrada, o resultado desses
conflitos foi a morte de muitos indígenas e muitos brancos (A CRÍTICA, 14 de setembro de
1970). O certo é que os nativos se opuseram como sujeitos do processo histórico e não como
objetos. Tanto foi que o Jornal a Crítica circulou a seguinte notícia:

A BR 174, que ligará Manaus a Boa vista, poderá ter seu traçado alterado
para desviar-se da região habitada pelos índios Waimiris e Atroaris que,
em novembro de 1968, liquidaram com a expedição do padre João
Calleri, encarregado de pacificar os indígenas, para possibilitar o
prosseguimento das obras da rodovia. Se aprovado, o novo traçado que
está sendo estudado pelo engenheiro Wenceslau Minsk do DNER, apesar
de aumentar o trajeto em cerca de duzentos quilômetros, solucionará
possíveis choques com os indígenas e apresentará outras vantagens sem

117
Tutela- lei criada para proteção do território indígena

234
que a rodovia custe mais caro(À CRITICA, 14 de setembro de 1970)

Os conflitos pela terra não se deram somente entre os empresários e indígenas, mas
também entre os camponeses, moradores de muito tempo, ou migrantes recentes Todos eles
foram apanhados e desrespeitados pelos gananciosos donos de terras: perto de seiscentos
camponeses foram assassinados em exaustivos conflitos entre os anos de 1964 e 1985.118 O
que podemos entender desse processo histórico acerca da região amazônica e suas
conseqüências é que os planos só conseguiram provocar a desarmonia na região. A
intencionalidade governamental de fazer grandes construções, perpassando em todo
território nacional por meio da transamazônica, assentou mais de cem mil famílias, tendo
como intenção a colonização, assim mediante a abertura das rodovias é que se provocou o
movimento migratório em vasta escala (OLIVEIRA,1998:65)
As conseqüências drásticas refletiram no abandono de milhares de famílias ao
longo das entradas do Pará ao Acre, de Rondônia a Roraima, aquelas promessas de
esperança e prosperidade, o sonho de quem chegava acabara como um pesadelo. As falsas
propagandas acarretaram uma série problemas sociais que até hoje refletem na região. É
visível que a violenta migração ocorrida nos decênios de 1970 e 1980 foi mais uma
tentativa de minimizar as tensões pelo país a fora e esconder as disparidades sociais. Assim,
a Valorização da Amazônia não foi além de interesses e alianças particulares entre ações do
governo militar e empresários na ânsia de explorar não só as riquezas naturais, mas também
as pessoas comuns que em meio a todas as represálias dificuldades não baixaram a guarda,
agiram em muitos momentos como sujeitos do processo históricos, a fim de afirmar e
legitimar suas ações na luta de terra.

Referências
BECKER, Berta, Amazônia, São Paulo: Àtica, 1998.

BRASIL,Decreto-Lei n° 764 de 15 de agosto de 1969, oferece em licitação pública, os


direitos em resultados de pesquisa realizadas em 10 áreas de 1.000 hectares.Diário Oficial.
30 de set.1974.Sessão 1,pt.2,p.3677-78.Disponível em:
http://www.jusbrasil.com.br/diarios/3225564/pg-13-secao-2-diario-oficial-da-uniao-dou-
de-30-09-1974/pdfView. Acesso em 25 de mar.2014

118
de 1964-1985, quase 600 camponeses foram assassinados em conflitos na região amazônica, ver no artigo
de José de Souza Martins (1996:25-70)

235
BRASIL, Marilia de Carvalho,Os fluxos migratórios na região Norte na décadas de 70 e
80: uma analise explorativa. Disponível em
http://www.fundaj.gov.br/geral/texto%20online/amazonia/brasil.pdf Acessado em:05 de
maio de 2013 FOUCAULT,Michel, A ordem do discurso aula inaugural no Collègue de
France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 3ª Ed. Loyola,São Paulo, 1996.

HABERT, Nadine. A década de 70: O apogeu e a crise da ditadura militar brasileira. 2ª ed.
São Paulo:.Editora Ática,1994.

OLIVEIRA, José Aldemir. A Igreja Arma sua tenda na Amazônia. Manaus:Valer,2000.

JORNAL À CRÍTICA, 14 de abril de 1970.

JORNAL À CRÍTICA, 14 de setembro de 1970.

JORNAL DO COMÉRCIO, 23 de outubro de 2006, Edição comemorativa em


homenagem aos 337° anos da cidade de Manaus.

MARTINS, José de Souza. A Chegada do Estranho. In: Jean Hébette, (org.) O CERCO
ESTÁ SE FECHANDO,BelémVozes, 1989.

_______________________ O tempo da fronteira.Retorno à controvérsia sobre o tempo


histórico da frente de expansão e da frente pioneira.Tempo Social;Ver.Sociol, USP.S.Paulo,
1996.

OLIVEIRA, Arivaldo Umbelino de. INTEGRAR PARA NÃO ENTREGAR; políticas


públicas e Amazônia. Campinas, São Paulo:Papirus,1998.

PESAVENTO,Sandra Jatahy,.História e História Cultural.Belo


Horizonte:Autentica,2003.

Revista da ACA. apud. Ferreira, Sylvio Mário Puga. A dinâmica da economia


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THOMPSON, Edward Palmer.Costumes em Comum:estudos sobre cultura tradicional,


São Paulo:editora,1998.

236
Jornal do Rio Branco (1916-1919): O projeto beneditino de civilização na
vila de Boa Vista do Rio Branco

Luís Francisco Munaro119


Maurício Elias Zouein120

Este artigo propõe, antes de perceber as consequências historiográficas da


publicação do Jornal do Rio Branco, investigar os objetivos e desdobramentos políticos
que uma tipografia exerceu na vila de Boa Vista do Rio Branco por meio da construção de
um pano de fundo histórico. Revela-se nisso a proposta de que a cultura letrada transmitida
por meio do jornalismo exercia um papel importante no fornecimento de uma consciência
e identidade vinculadas aos sentidos de organização e civilidade (ANDERSON, 1989). O
jornal, nesse sentido, exprimia o sentimento e a vontade da população local de ingressarem
na grande nação que, na alvorada do século XX, estava sendo forjada. A República e suas
promessas revelavam planos grandiosos de urbanidade da qual os amazônicos negociavam
sua participação, seja através do seu ingresso na cultura letrada ou através da promessa de
aderir a costumes urbanos e civilizados, adequados a uma nação que buscava se libertar do
estigma do atraso.
Esta proposta de estudo, noutras palavras, é investigar os desdobramentos da
inserção da cultura letrada em Boa Vista a partir de duas janelas de leitura: na primeira, nos
fixamos às relações de poder religioso e político na vila de Boa Vista do Rio Branco
durante as duas primeiras décadas do séc.XX; na segunda parte, proporcionamos ao leitor
uma reflexão sobre o impacto das buscas civilizatórias na produção do Jornal do Rio
Branco, no bojo do qual reside uma preocupação sempre constante com a inclusão de Boa
Vista na civilização brasileira.
A construção da identidade na Amazônia foi atravessada, durante o período
republicano, por ambiguidades que resultaram na incompatibilidade da paisagem regional
com a identidade nacional. Esse, aliás, tornou-se o grande problema do século XX: a
maioria dos grandes projetos nacionais de integração foram incapazes de penetrar as

119
Professor do Curso de Jornalismo da UFRR.
120
Professor do Curso de Jornalismo da UFRR.

237
fronteiras instáveis ou nem sequer imagináveis da Amazônia. Alguns desses equívocos são
retratados, de forma emblemática, pelas produções artísticas de Hahneman
Bacelar121(1948-1971). Suas pinturas retratam a subserviência de uma Amazônia vista
como celeiro, raiz de um povo cuja miscigenação apagou os traços autóctones de expressão
e manifestação histórica (Apud. SOUZA, 1977). O historiador Márcio Souza acrescenta
que o processo de construção de uma civilidade branca resultou no apagamento gradativo
da identidade do amazônico: num primeiro momento, diante da metrópole portuguesa, na
encarnação das atividades missionárias e expedições militares; num segundo, diante do
discurso nacional que, a tudo vinculando, incorporou em sua estrutura povos de atrações e
fisionomias bastante diversificadas.Para entendermos esse fracionamento da identidade, a
História do papel escrito possui valor fundamental.
No percurso de criar uma nação e dar corpo a um conjunto de histórias, a Amazônia
foi cuidadosamente pintada e repintada, segundo pressões pragmáticas exercidas muitas
vezes “de cima para baixo”. Parte desse problema da construção da história amazônica se
dá em virtude de uma relação precária com a própria concepção de história, incapaz de
perceber as tensões implícitas em discursos que mencionam a mansidão, resiliência ou
mesmo a preguiça do índio. Essas pressões que soterraram a identidade amazônica tiveram
como principais eixos as atividades missionárias e militares.
É curiosa, nesse sentido, a sensação transmitida pelo colonizador Aguirre122 que,
retratado por Werner Herzog (1942-), distribui significados para o mato indistinto, na
esperança de fundar um novo reino tropical. Ocupar a terra erma era fundar e situar
espaços, criar sentidos específicos, por meios tão diversificados quanto operações
cartográficas e abertura de picadas123. Paralelo ao grande drama amazônico que se
desenrolou nas margens do Amazonas, uma grande variedade de narrativas são deixadas
em segundo plano. São os dramas dos sertões...
A ocupação de Boa Vista124 exprime um destes dramas. Vinculada ao crescimento

121
Pintor amazonense que cometeu suicídio na cidade de Belém no dia 22 de Fevereiro de 1971.
122
Aguirre foi conhecido por El Loco e tornou-se célebre por sua última expedição que desceu o Rio
Amazonas a procura do El dorado.
123
Pequenos caminhos abertos em mata fechada por meio de facões e enxadas.
124
Em 1858 o comandante do Forte São Joaquim era Inácio Lopes de Magalhães que possuía uma fazenda de
nome Boa Vista às margens do rio Branco, onde, no dia 9 de novembro, desse mesmo ano, a freguesia de
Nossa Senhora do Carmo situada na foz do rio Catrimani é transferida conforme a lei n o 92. Em meado do
séc. XIX o forte São Joaquim entra em declínio e apenas o povoamento de N. S a do Carmo já com o nome de

238
de Manaus, a cidade foi oficializada durante o ciclo da borracha, sendo responsável por
fornecer produtos agropecuários para os pólos produtores do ouro branco. Essa ocupação
revelou, numa escala menor, os próprios conflitos que implicavam a chegada da civilização
nas regiões remotas da selva amazônica. A capital de Roraima na época denominada vila
de Boa Vista do Rio Branco permaneceu durante muito tempo um experimento
agropecuário, clamando às autoridades situadas em Manaus pelo contato mais frequente
com a civilidade.
Em janeiro de 1907, D. Miguel Kruse enviou ao Cardeal Merry Del Von, secretário
de Estado do Papa Pio X, um relatório em que descrevia as condições precárias do trabalho
missionário no vale do Rio Branco. D. Miguel afirmava, na ocasião, que [...] “tribos”
inteiras já teriam caído, presas dos "missionários da heresia", como preferia dirigir-se aos
pastores anglicanos que se estabeleceram na fronteira do Brasil com a Guiana Inglesa a
partir da segunda metade do século XIX (VIEIRA, 2007, p.89). A organização jurídica das
prelazias foi determinada em 1903 garantindo sua autonomia frente às dioceses. Nesse
mesmo ano, o Bispo do Amazonas propôs aos monges Beneditinos, recém chegados da
Alemanha para os mosteiros brasileiros, que evangelizassem os povos indígenas no Vale do
Rio Branco. Somente a partir de 15 de agosto de 1907, com o decreto pontifício E
Brasiliana e Reipublica e dioecesibus aconteceu a primeira divisão eclesiástica no
Amazonas com a criação da prelazia do Rio Branco.
A Paróquia de Nossa Senhora do Carmo foi entregue aos beneditinos pelo padre
Manuel Furtado em 1909 (Fotografia 01) onde encontraram as tensões políticas,
econômicas e culturais orquestradas por meio do poder, da posse da terra e do gado. Os
principais beneditinos foram D. Acário Demynk, D. Adalberto Kaufmelh, D. Beda
Goppert, D. Boaventura Barbier e o Bispo prelado do Rio Branco D. Gerardo van Caloen,
que em 1916 passou a ser o editor do Jornal do Rio Branco. Os padres recém-chegados
puseram-se a trabalhar em prol de uma grande reforma na pequena capela (Fotografia 02),
que durou por volta de quatro anos até seu término em 1913. Foi nesse momento que a
Matriz de Nossa Senhora do Carmo começou a ganhar seu contorno em estilo germânico.

Boa Vista continua a existir. O Município de Boa Vista é criado com o decreto 49 em 9 de julho de 1890. O
então governador do Amazonas, Algusto Ximeno de Ville Roy, promove a freguesia de Nossa Senhora do
Carmo à vila de Boa Vista do Rio Branco tendo como primeiro prefeito o senhor João Capistrano da Silva,
isso em 25 de julho de 1890.

239
Fotografia 01 – A matriz de Nossa Senhora do Carmo,a princípio, foi uma pequena capela
construída por padres franciscanos em 1892. Fonte: Acervo pessoal, prof. Maurício Zouein.

Fotografia 02 –“As obras da egreja Matriz de Boa Vista continúam paradas até hoje pela
absoluta falta de officiaes. Já estão preparados os madeiramentos e aas telhas para o edifício” (Jornal
do Rio Branco’ nº 3 de janeiro e fevereiro de 1917). Fonte: Acervo pessoal prof. Maurício Zouein.

240
Em 1904, o governador do Amazonas, Constantino Nery (1859-1924), o fotógrafo
Georg Hüebner, juntos com o engenheiro militar Alfredo Ernesto Jacques Ourique (1848-
1932) subiram o Rio Branco, a bordo do Vapor Mararyr125e documentaram a vida
ribeirinha e a criação de gado bovino nas grandes fazendas nacionais no Rio Branco, “São
Marcos” e “São Bento”, origem da maior parte da carne que abastecia Manaus. A vila de
Boa Vista do Rio Branco estava situada...

(...) na margem occidental, foi fundada ha, mais ou menos, trinta annos,
quando para o ponto em que Ella está se transferiu a pequena povoação
de S. Joaquim que demorava á sombra das baterias do forte do mesmo
nome. É cabeça da Comarca do Rio Branco, Capital do Municipio, e
mantem, com regular frequencia, duas escolas primarias para os dous
sexos.Além dessas, ha duas outras escolas no Alto Rio Branco, uma na
Capella e outra no Igarapé Grande do Uraricoera.Do seu commodo porto,
cortado pela natureza em curva regular no barranco da margem, sobe-se
por suave ladeira até o chapadão, em pleno campo, onde está construida a
villa.Seu conjuncto apresenta perspectivas em geral encantadoras e, de
alguns pontos de vista, realmente bellas.Possue boas casas, algumas de
alvenaria e uma capella edificada singellamente, mas com relativa
elegancia.Pode-se considerar Boa Vista como o centro mais importante de
todo o movimento commercial, industrial e agrícola do Alto Rio Branco
(OURIQUE, 1906, p.13)

Doze anos depois, por volta de 1916 ou 1917, a vila de Boa Vista contava com 164
casas e por volta de 1200 habitantes. Contudo, os esforços civilizatórios de guiar esse
pequeno grupo, afastando-o do concubinato com as índias, das práticas espíritas e religiões
apócrifas, e da manutenção da civilidade branca e cristã, levou à criação também de um
pequeno jornal que só recentemente veio ao lume historiográfico. Trata-se do Jornal do
126
Rio Branco: Órgão mensal dos interesses dos moradores do Rio Branco (Imagem fac-
similar 01), de propriedade da Prelazia do Rio Branco e Dias Medeiros e Cia, que surgiu e
circulou entre os anos de 1916 a 1919. Impresso na oficina tipográfica São Bonifácio na
Vila de Boa Vista, em posse dos missionários beneditinos. O jornal possuía quatro páginas
divididas entre as colunas fixas “Parte Editorial”, assinada pelo bispo Gerardo Caloen;

125
“Tomemos a lancha a vapor de pequeno calado como meio de conducção, por ser o mais empregado
naquelle rio, visto poder augmentar facilmente sua capacidade de transporte, pelo additamento de batelões
apropriados a essa navegação, além de outras vantagens. De ordinario a lancha navega com um só batelão
amarrado ao costado, lateralmente, levando tambem uma ou mais montarias a reboque” (OURIQUE 1906,
p.9)
126
Ascópias microfilmadas do Jornal do Rio Branco (1916 a 1919) encontram-se no Centro de Documentação
e Apoio a Pesquisa – CENDAP na Universidade Federal do Amazonas. Para esse trabalho utilizaremos o
cervo digital(do ano de 1917) disponível no Núcleo de Pesquisa Semiótica da Amazônia.

241
“Parte Diocesana”, com reflexões sobre o espiritismo e divulgando os nomes das pessoas
que contribuíram com esmolas para a Matriz; “Parte Variada”, com decretos municipais e
audiências públicas e, por fim, as colunas de informações nacionais e internacionais
“Várias Notícias do Brasil” e “Várias Notícias do Estrangeiro”.
Afinal de contas, como uma vila tão distante e pouco habitada conseguiu uma
tipografia para conduzir a impressão de um periódico? Cabe a nós, pesquisadores nas áreas
de Comunicação e História, a difícil tarefa de responder a tal pergunta. O que se sabe é que
a necessidade de incorporar elementos arredios à civilização, produzindo uma identidade
uniforme e letrada vinculada à consciência nacional é vista como extremamente necessária
pelas autoridades locais. O jornal, nesse sentido, funciona como um espaço de
sociabilidade que permite a troca de experiências, a organização do espaço urbano, seja por
meio do anúncio de propriedades, realizações de festas ou bailes em determinadas
localidades.

1. Organização política de Boa Vista: a Maçonaria e a Igreja


O esforço acadêmico recente tornou a história de Roraima mais compreensível para
os seus moradores. Este esforço vincula o crescimento urbano de Boa Vista à atividade
agropecuária, fundamento econômico da região na virada dos séculos XIX e XX. Essa
atividade era então dependente da existência de um mercado crescente no Amazonas que,
sobretudo a partir do ciclo da borracha, tornou-se atrativo para migrantes nordestinos.
Com a lei 132 de 29 de julho de 1865, as terras a partir das corredeiras do Rio
Branco até o Norte, passaram a pertencer à freguesia de Nossa Senhora do Carmo,
vinculada à província do Amazonas, município de Moura. No relato de Henri Coudreau,
durante sua viagem em 1887 pelo rio Branco, "a população de Boa Vista compõe-se de
brancos, mamelucos e índios. Esses últimos prestam serviços domésticos e trabalham para
os brancos". Foi somente a partir da seca nordestina que a população passou a assumir
mais elementos étnicos, pois...

(...) o fluxo migratório chegou a alcançar o rio Branco. Inicialmente vieram


grupos originários do Maranhão e, sucessivamente, famílias inteiras de todo o
Nordeste brasileiro (...) A relação dos índios com os brancos foi de evidente
submissão. Os índios foram obrigados a aprender o português e a trabalhar em
troca de comida, roupa e ferramenta, muitas vezes em situação de escravidão
(FERRI, 1990 p. 22).

242
Em meados do século XIX, o forte São Joaquim entrou em declínio e apenas o
povoamento de Nossa Senhora do Carmo, já com o nome de Boa Vista, continuou a existir.
Com a República Brasileira instituída, o Município de Boa Vista foi criado com o decreto
49 em 9 de julho de 1890. O governador do Amazonas na ocasião, Algusto Ximeno de
Ville Roy, promoveu a freguesia de Nossa Senhora do Carmo à condição de vila de Boa
Vista do Rio Branco, tendo como primeiro prefeito o senhor João Capistrano da Silva em
25 de julho de 1890. Um ano mais tarde, a Constituição favorecia a ocupação fundiária no
Vale do Rio Branco.
A inexistência de vias terrestres e a limitação da navegação no Rio Branco
dificultaram de integração da vila de Boa Vista ao restante do Estado. Como lembra Barros
(1995), “subordinada ao Estado do Amazonas até o ano de 1943, Boa Vista não detinha a
função de sede de decisões políticas. Era somente um apêndice, uma ponta de ocupação. A
povoação era uma malha com três ruas paralelas à margem do Rio Branco” (Apud
VERAS, 2009, p. 57). Essa povoação teve como principal origem a dispersão de migrantes
nordestinos em busca de melhores condições de vida (NETO, 2011, s/p), seduzidos pelos
discursos inerentes ao ciclo da borracha – na ocasião, a atividade agropecuária em Boa
Vista pode ser vista como um desdobramento do ouro branco – e, num segundo momento,
pela própria crise da extração da borracha. As formas de ocupação do vale do Rio branco,
entre elas a grilagem das terras estatais, favoreceu o enriquecimento das famílias
proprietárias dos grandes rebanhos bovinos. Tais fatos preocupavam os missionários
beneditinos, podendo ser percebidos nas seguintes recomendações de D. Gerardo van
Caloen:

O primeiro interesse dos monges deve ser o cuidado espiritual dos


cristãos da diocese, através das visitas às fazendas e lugares habitados.
Devem fundar um colégio para os filhos dos fazendeiros e ter mansidão e
paciência para ganhar os corações de todos. Devem também manter boas
relações com o Sr. Bento Brasil, autoridades e fazendeiros (VANTHUY,
2000, p.79).

O desejo de “manter boas relações” com a oligarquia local foi dissipado logo na
chegada dos beneditinos à vila de Boa Vista. A tensão vivida pelos monges em relação à
ocupação da terra e à propriedade do gado bovino teve início em 1906, quando D. Gerardo

243
solicitou ao governo brasileiro a área da fazenda São Bento 127 para a organização da
missão beneditina128. Porém, em 1909, ao chegarem à vila de Boa Vista os monges
sentiram...

(...) na pele que o elo de todos os entraves e questões no rio Branco é o


gado e a fazenda. Primeiro quando solicitaram os bens (gado) da fazenda
da paróquia, da qual era procurador aquele que d. Gerardo recomendava
de ter boas relações, Bento Brasil, o mesmo não quer devolver, pois terra
não havia. Em busca do lugar chamado S. Bento, que havia sido
requisitado ao governo federal para o mosteiro e primeiro núcleo missão,
descobriram que estava retalhado por usurpação e apropriação de vários
fazendeiros. D. Gerardo aconselha-os a não brigarem com ninguém, pois
desde maio estava a espera do parecer do inspetor de Manaus, para que o
ministro assinasse o pedido. Os fazendeiros não aceitam muito esta idéia
de padres fundarem missão no meio de índios. Aqui está o raiz das
futuras perseguições (VANTHUY, 2000, p.80)

Antes de descrevermos os desdobramentos deste conflito é importante colocar o


leitor a par do sentimento pouco harmônico existente entre a igreja católica e os maçons na
região. Entre 1861 e 1890, a igreja na Amazônia era composta por apenas uma única
diocese estabelecida no Pará. Nesse período, D. Antônio de Macedo Costa era, no interior
do clero, aquele que incentivava a independência da igreja frente ao Estado e opositor
ferrenho da Maçonaria. D. Macedo interditou duas entidades religiosas no Pará por
abrigarem maçons. Dom Pedro II, ele mesmo maçom, solicitou que a interdição fosse
anulada, mas D. Macedo manteve sua posição e, em virtude disso, foi sentenciado em 1874
a 4 anos de trabalhos forçados.
Com a desanexação da prelazia do Rio Branco da diocese do Amazonas,o
patrimônio da Capela de Nª. Sª. do Carmo na Vila de Boa Vista passou a ser gerenciado
pelos beneditinos. Um desses patrimônios foi a Fazenda de São Bento, entregue ao vigário
da prelazia do Rio Branco no dia 19 de maio de 1909, durante ato solene na Matriz de
Manaus com a presença do Coronel Bento Brasil, até então administrador da Fazenda.
Outro fator que contribuiu para a tensão vivida pelos missionários estava ligado à

127
Em meados do séc. XVIII a Coroa Portuguesa, fundou três fazendas Reais no Vale do Rio Branco, são
elas: A fazenda do Rei com o nome de Fazenda de São Bento, entre o rio Uraricoera e o Rio Branco. A
segunda foi criada as proximidades do Forte São Joaquim com o nome de São José. A terceira conhecida por
Fazenda São Marcos foi fixada entre o rio Uraricoera e o Tacutu.
128
“A administração desta fazenda passou ao vigário geral; da Prelazia, quando no dia 19 de maio de 1909 lhe
foi entregue o governo da dita Prelazia pela autoridade diocesana do Amazonas. O ato da entrega realizou—
se na matriz de Manaós e em presença do proprietário Snr. Bento Brasil, procurador da fazenda”.

244
fundação, em 1909, da loja maçônica “Paz e Progresso do Rio Branco” com 48 membros
pertencentes ao ciclo das amizades do Coronel Bento Brasil129 (CIRINO, 2009, p. 61).
De acordo com D. Achaire Demuynck a autoridade da loja maçônica na vila de Boa
Vista era duvidosa, pois...

(...) fora instituída por um aprendiz de 30 grau e não tinha relação com a
Grande Ordem do Amazonas. Os beneditinos concluíram, então, que a
criação da loja tivera o propósito de neutralizar as atividades da missão.
Diante das circunstâncias, eles decidiram mudar para Fazenda Calunga e
ir à Vila apenas para o exercício das atividades pastorais e reservaram o
restante do tempo para realizar viagens apostólicas nas áreas indígenas
(CIRINO, 2009, p. 61).

A situação tensa entre os beneditinos ficaria pior quando, no dia 20 de novembro,


após a celebração da missa na Capela de Boa Vista por parte do R.P.D. Alberto, um senhor
mencionando ser padrinho de uma criança veio-lhe pedir o batizado. Até então, as
perguntas de praxe tinham sido prontamente respondidas: se o homem era casado, religioso
etc. Quando, contudo, o senhor disse que ser maçom, D. Adalberto interrompeu as
perguntas e explicou que a igreja proibia os padres de aceitarem padrinhos maçons. O
senhor respondeu rudemente ao padre. Esse senhor era Adolfo Brasil, filho do Coronel
Bento Brasil. A partir daí a peleja estava pronta, opondo de um lado o poder religioso e de
outro o político.
No que concerne aos aspectos sociais e urbanos, a configuração do povoado de Boa
Vista, segundo o eclesiástico Joaquim Gondim, apesar da sua limitação populacional ainda
subsistia de forma estável, possuindo até disponibilidade de energia elétrica:

Não é grande o movimento comercial e industrial da localidade, mas está


de acordo com as necessidades da população, que é de seiscentas e vinte e
uma almas, segundo o último recenseamento. Boa Vista conta com
quatorze mercearias, um botequim, uma pharmácia, duas oficinas de
ferreiro, uma carpintaria e funilaria, uma barbearia e o importante
estabelecimento “canto da fortuna”, do Senhor João Secundino Lopes,
que explora, conjuntamente, o comércio de fazendas, miudezas e estivas,
além da indústria da panificação e do fabrico de sabão, servindo-se no
preparo de seus produtos, de machinismos especiais. O seu

129
Para maiores informações a respeito das divergências entre os beneditinos e a oligarquia do Rio Branco
ver: “Archiasbadia Nullins de Nossa Senhora do Monserrate do Rio de Janeiro.Relatório da perseguição dos
Missionários e chonicado Rio Branco.Novembro de 1909 até abril de 1910”.

245
estabelecimento, o único que possui bombeamento d’água, achava-se
provido de instalações elétricas (1922, Apud VERAS, 2009, p. 70).

As estimativas feitas por visitantes podem variar, nunca ultrapassando a margem de


1500 habitantes. Entre estes estão portugueses, brasileiros, mestiços, índios e negros
vindos da Guiana Inglesa (Apud VERAS, 2009, p. 71). As casas eram simples, de pau-a-
pique, construídas através dos recursos então mais fáceis de encontrar na região e até hoje
comuns em algumas das ruas da cidade. Segundo D. Pedro Eggerath, em 1920 a cidade se
organizava às margens do Rio Boa Vista, ao redor da Igreja de Nossa Senhora do Carmo,
que constituía então o centro da cidade, ajudando a demonstrar o poder exercido pelo clero
local:

O aspecto das casas, construídas em parte de pedra e cal, cobertas de


telhas e dispostas ao longo de ruas largas, é difícil de descrever, muito
embora esteja a sede deste enorme município representado apenas por
200 edificações, entre casas e barracas, distantes umas das outras, o que
explica a razão das muitas ruas e o fato de parecer Boa Vista, de longe,
muito maior do que realmente é. A sua população que se pode estimar em
1300 habitantes, compõe-se na sua maioria de famílias de fazendeiros do
Rio Branco. Perto do lugar de desembarque, vê-se em uma das praças a
Igreja de N. S. do Carmo, de construção antiga e, até sendo concertada
dignamente. O edifício da municipalidade fica logo em frente ao porto; é
de feitio simples, mas sólido. As demais edificações são em sua maioria
casas de famílias, afora alguns negócios e barracas (Apud VERAS, 2009,
p. 72).

O contexto de formação e dispersão do povoado, portanto, está ligado a alguns


fatores principais ainda na década de 1920: o fornecimento de gado vivo para o mercado
de Manaus (NETO, 2011, p. 8), a extração de minérios ao norte de Boa Vista e a crise da
borracha. Um primeiro impulso mais substantivo aconteceria apenas a partir do final de
1930, concentrado na Tríplice Fronteira entre Brasil, Guiana e Venezuela (NETO, 2011, p.
12). Por outro lado, as tensões religiosas e políticas, vinculadas às heresias que
preocupavam as autoridades eclesiásticas.

2. O que foi o Jornal do Rio Branco?


A assinatura do Jornal do Rio Branco acontecia na Casa Sempre-Serve pertencente
ao cidadão Mizael Guerreiro. A Igreja, que funcionava como núcleo da cidade, também
orientava o caráter da publicação, buscando assimilar os vários habitantes da localidade,
246
evitando, por exemplo, as práticas consideradas abusivas (inclusive aquelas relacionadas
ao espiritismo e à mancebia). A organização do poder local girava em torno dos caciques
que monopolizavam a oferta de terras, acabando por reproduzir o sistema de poder da
República Velha e sua política de disputa das migalhas do poder central (VIEIRA, 2003, p.
8). Tratava-se, portanto, de uma sociedade fundamentalmente agrária, fator que só
começou a ser revertido a partir das iniciativas de urbanização da década de 40. Presume-
se também que, em virtude do poder financeiro, também esse era o público principal do
jornal local entre 1916 e 1919.

Imagem fac-similar 01 - Medindo 30cm por 40cm o Jornal do Rio Branco era dividido em
quatro colunas. Fonte: Acervo do Núcleo de Pesquisa Semiótica da Amazônia

247
O jornal e sua proposta civilizadora implicavam colocar os habitantes de Boa Vista
em conexão uns com os outros e, mais importante, com o país que o Governo Republicano
estava criando. Isso dizia respeito a ter em mente alguns requisitos civilizatórios capazes
de organizar toda a atividade do tipógrafo: a busca pela inserção harmônica e racional da
religião católica no cotidiano boa-vistense, a organização social baseada na urbanidade, a
moralização e desenvolvimento de costumes sociáveis e monogâmicos, o estabelecimento
de conexão de identidade com o resto do país e o desenvolvimento de políticas
educacionais de maior alcance.
O jornal possuía quatro páginas, cada uma delas com quatro colunas. Segundo o
redator, a tipografia era proveniente da Itália, motivo pelo qual não tinha disponível o sinal
gráfico “til” (Janeiro-fevereiro de 1917, p. 1). O redator define-se ainda como um jornalista
cujo propósito é integrar o Rio Branco ao resto do país sob o signo da religião católica já
que, além de jornalista, também é um bispo (Junho de 1917, p. 1). Para ele, o dever de
jornalista é ser porta-voz da opinião pública, convertendo o seu conhecimento em suporte
para o desenvolvimento da comunidade como um todo. Ele define o seu papel pedagógico,
por exemplo, alertando a população para a necessidade de ferver a água:

É nosso estrito dever de jornalista preocupado do bem geral deste povo,


de insistir novamente sobre esta recomendação tão séria do sábio clínico,
que aliás, o ‘Jornal’ tinha feito já aos seus leitores. Pedimos, pois,
encarecidamente, a todo o povo do Rio Branco, de nunca mais beber água
que não tenha sido fervida (Janeiro de 1917, p. 3, grifos nossos).

Ao contrário do modelo jornalístico que se desenvolveria mais tarde em torno dos


padrões de escrita objetivos, o papel do jornalista ainda é visto como um comprometimento
patriótico e religioso com a comunidade que está sendo construída, vinculando-a aos
modelos de cidades em torno de um poder centralizado. Sendo O Jornal do Rio Branco o
único periódico a circular na região e proveniente da única tipografia no Extremo Norte do
país, o jornalista não precisa ser imparcial: ele deve se envolver diretamente com o bem
estar do Rio Branco, abrindo o espaço para as iniciativas evangelísticas e antimaçônicas.
Apesar dos conflitos nítidos na instalação dos beneditinos no povoado, o jornal
mantém distanciamento quanto a tocar diretamente nos temas da Maçonaria. Não é segredo
que a doutrina kardecista/espírita estava entranhada de alusões aos princípios de deísmo ou
desrespeito ao clero, implícitos na “Ordem Universal” da Maçonaria (RIMMÔN, 2013). A

248
forma possível dos beneditinos atacarem os influentes indivíduos maçons foi sugerindo a
observância estrita da religião correta, baseada nos princípios do sólido catolicismo
orientado pelo Vaticano.
O jornal traz, desta forma, em todas as suas edições uma “parte diocesana”, voltada
para o ensinamento da doutrina. Essa preocupação não deve assombrar o leitor, dada a
grande presença de elementos sincréticos provenientes da cultura negra e indígena, ainda
hoje uma característica da região e, sobretudo, elementos maçônicos, considerados, como
já se observou, uma das principais heresias no contexto da fundação de Boa Vista. Dada a
imagem arranhada dos padres na vila, percebidos não incomumente como gananciosos e
exploradores, a tipografia tinha também o objetivo de refazer sua reputação, reforçando os
vínculos do boavistense com as iniciativas beneditinas de organização social:

os padres não são estes inimigos do povo, malfeitores e gananciosos,


como muitos aqui no Rio Branco, pervertidos por más feituras, e sem o
acreditarem eles mesmos, o dizem publicamente; 2º que a representação
do Prelado do Rio Branco, feita em 1909, era bem fundada a tal ponto que
foi atendida pela dita Assembleia, e que escapamos assim, no Rio Branco,
a mil misérias e dificuldades administrativas, a não falar nos erros do
Correio (Abril/Maio de 1917, p. 3).

Nesse sentido, o jornalista e bispo admite ser seu dever, em primeiro lugar, o
serviço prestado à religião católica e, num segundo, o amor devotado à pátria. Assim, suas
atividades exigem bastante preparo intelectual na hora de evitar o risco de contágios com a
Maçonaria e espiritismo: “Somos patriotas assim como somos católicos. Nosso dever é
amar a Pátria, sustentá-la, defender sua honra, como amamos e defendemos a Santa Igreja
Católica nossa mãe” (Junho de 1917, p. 1). Os costumes sincréticos, desviados da conduta
orientada pela civilidade, eram vistos como perigosos para a construção da cidade. Não
apenas os costumes estariam se desviando do catolicismo quanto os diversos elementos
sincréticos presentes na região estariam impossibilitando a formação de famílias católicas
ou elementos leitores de classe média. O bispo, assim, fazia o alerta:

Qual será o fim de uma geração que amanhã virá a ser a população de
uma cidade, desde que seus pais sejam homens corruptos, homens sem
escrúpulos, homens sem moral e que não procuram aprender com os mais
moralizados o bom caminho da moral? (março de 1917, p. 4).

249
Evidentemente, educar-se a partir dos padrões morais católicos e urbanos implicava
num esforço sistemático de alfabetização por parte das autoridades. De nada adiantaria o
bispo esforçar-se para inserir “doutrinas corretas” no cotidiano da população se esta nem
sequer estava apta para a leitura. Dada a negligência das autoridades com relação a esses
benefícios letrados, o bispo previa a formação de várias gerações de “idiotas úteis”, ou
“analfabetos perfeitos”:

Nunca se falou tanto no analfabetismo e na necessidade de combatê-lo


pelo ensino público, como nos nossos tempos. Nunca, porém, foi tão
negligenciado o ensino público, no nosso Rio Branco como agora. E é de
prever, que, se as coisas não mudarem, ou se o ensino particular não
chegar a substituir o ensino público, teremos em breve aqui uma geração
de analfabetos perfeitos, o que não constitui título de glória (Abril/Maio
de 1917, p. 1).

Enfim, o prospecto lançado neste primeiro ano de jornalismo em Boa Vista não é
nada vantajoso para os nativos segundo o jornal: a influência maçônica e espírita, o
analfabetismo, o candomblé, a mancebia com as índias, a bebedeira, enfim, a falta de
costumes familiares que levava o bispo a lamentar a distância de Roraima com relação à
autoridade central. Nas poucas vezes, nesse sentido, em que o governador do Estado Pedro
Bacellar fez menção em aparecer, foi saudado como se fosse uma substância regeneradora,
pronta a, com sua presença politicamente poderosa, ajudar a colocar a vila nos eixos:

De diversas pessoas que falaram com o Exmo. Dr. Pedro Bacellar,


Governador do Estado do Amazonas, soubemos que S. Ex. mostrou
grande interesse para com nossa região do Rio Branco, e pretende até nos
visitar brevemente, talvez já no mês de junho que vem. Nenhuma notícia
podia nos ser mais agradável. Pois, além do nosso prazer e da honra que
todos teremos em conhecer a primeira autoridade do Estado, e de entrar
em relações pessoais com ele, podemos estar certos de que, uma vez
conhecendo a situação desta terra, ele não deixará de empregar seus
esforços para melhorar as condições de vida no Rio Branco. Seja bem-
vindo o Exmo. Sr. Governador (março de 1917, p. 3, grifos nossos).

Enfim, a distância política dos centros de poder decisório é percebida como um dos
principais problemas para a civilização no sertão. As utopias construídas pelo bispo são
sempre narrativas vinculadas aos projetos de construção de autoestradas, portos e ferrovias,
únicos instrumentos capazes de fazer a nação republicana penetrar em Roraima. Dirigindo-

250
se ainda ao governador Bacellar, o bispo escreve:

S. Excelência parece que tem a intuição de que o levantamento do Rio


Branco será o caminho mais seguro para chegar ao levantamento do
Estado inteiro; pois o Rio Branco, há dois séculos que se escreve isto, é
destinado a ser o celeiro do Amazonas, e o Amazonas há de ser o celeiro
do mundo, como disse o grande sábio Humboldt (Abril/Maio de 1917, p.
4).

Considerações finais
Durante o período colonial, a região amazônica foi disputada por missionários,
percebidos, num contexto de barbárie indígena, como politicamente importantes para
integrar a selva ao reino português. Antes dos projetos de ocupação econômica do século
XX, foram eles os principais atores brancos a intercambiar e manter relações cativas com
os indígenas. Em Boa Vista, os projetos de ocupação que se deslocam da fortaleza de São
Joaquim para a recém fundada vila de Boa Vista carregam essa herança missionária mas se
debatem, contudo, com a “negligência salutar” dos coronéis que foram se instalando na
região na condição de posseiros.
Dispostos a transformar esse histórico de negligência, no início do século XX, os
missionários chegados à região deram início a uma série de propostas de moralização e
urbanização da vila, buscando conectar Boa Vista à administração central e garantindo
ordenação na ocupação e exploração econômica da região. Um de seus principais projetos,
embutidos na proposta missionária, é a alfabetização. Não é segredo que as missões
indígenas abriram, no Brasil inteiro, um vasto espaço para a construção de relações
duradouras entre índios e brancos, ainda que sob a forma de aculturação.
Da mesma forma que, ainda no século XVI, o Padre José de Anchieta compilava
um livro catequético na linguagem nheengatu, os missionários beneditinos em Boa Vista
levaram consigo uma tipografia italiana, através da qual imaginavam alcançar os quatro
cantos dos sertões do extremo Norte brasileiro. Se os primeiros contatos entre os
beneditinos e os coronéis foram pouco amistosos, dada a indisposição dos missionários
diante das práticas maçônicas, espíritas e outras formas de conduta consideradas desviadas,
o processo de levar uma civilidade católica pode ter se concentrado, como aconteceu a
partir de 1916, em iniciativas mais sistemáticas na direção da educação pública. Mesmo,
contudo, tendo fundado um periódico para esclarecimento, doutrinação e orientação prática

251
da vida coletiva, os missionários se debateram com o intenso analfabetismo e negligência
das autoridades centrais com relação à educação. Dessa forma, o bispo responsável pelo
Jornal do Rio Branco lamentava:

Bem longe vivemos aqui do coração de nossa Pátria! Brasileiros somos,


porém, brasileiros sinceros, apesar de desprezados, ciosos pelo
soerguimento do Brasil, consolados, quando aparece algum sinal de
regeneração e de levantamento para esta nação da qual somos parte
(Abril/Maio de 1917, p. 1).

Bibliografia
ANDERSON, Benedict. Nação e consciência nacional. São Paulo: Ática, 1989.

BARBOSA, Reinaldo Imbrósio. Ocupação Humana em Roraima. Do histórico colonial


ao início do assentamento dirigido. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldii. Belém,
1993.

BONATTO, Fabio. 2002. http://www.viconsaga.com.br/lageop/teses/fabio%20bonatto.pdf

Jornal do Rio Branco, Boa Vista, 1917.

CIRINO, Carlos Alberto Marinho. A “boa nova” na língua Indígena: contornos da


evangelização dos Wapichana no século XX. Boa Vista: Editora da UFRR, 2008.

FERRI, Patrícia. Achados ou perdidos a imigração indígena em Boa Vista.Goiânia:


1990.

LUCKMANN, Donato. História e geografia do Município de Boa Vista. Série: Roraima


Através dos Municípios. Vol. 1. Apoio: Prefeitura Municipal de Boa Vista, FECEC, 1989.

NETO, Manuel Aires da Silva. Migração de nordestinos para o vale do Rio Branco
(RR) entre 1890 e 1930. Monografia apresentada na UFRR, 2011.

OURIQUE, Jacques. O Valle do Rio Branco: estado do Amazonas. Manaus: G. Huebner


& Amaral, 1906.

RIMMÔN, Sérgio. “Allan Kardec e a Maçonaria”. 2013. Disponível em:


http://www.blumenews.com.br/site/index.php/colunas/colunas/item/8185-allan-kardec-e-a-
maconaria (Acesso em Março de 2014).

SOUZA, Marcio. Expressão Amazonense. São Paulo: Alfa-Omega, 1978.

VANTHUY NETO, Raimundo. Dirigir almas e servir ao jeito de muitos: A missão dos
Beneditinos junto aos povos indígenas de Roraima – 1909/1948, São Paulo, 2000. 257 f.

252
Dissertação (Mestrado em TeologiaDogmática). Pontifícia Faculdade de Teologia de
Nossa Senhora da Assunção, São Paulo,2000.

VERAS, Antonio Tolrino. A produção do espaço urbano de Boa Vista – Roraima. Tese
apresentada na USP, 2009.

VIEIRA, Jaci Guilherme. Missionários, fazendeiros e índios em Roraima: a disputa pela


terra. Boa Vista: Editora UFRR, 2007.

253
A editoria de Meio Ambiente em Jornais impressos de Roraima: uma
breve análise histórica

Otacílio Gabriel Trajano MONTEIRO130


Sonyellen Fonseca FERREIRA131

Resumo: O desenvolvimento econômico causou uma busca desenfreada por recursos


naturais, acarretando assim em danos, às vezes, irreversíveis à natureza. A ausência de
políticas públicas eficientes, a ganância dos empresários e a acomodação dos cidadãos são
as razões de tantas agressões. Nesta medida, perceber mais miudamente as ligações do
homem com seu meio natural é fundamental. O papel do jornalista é crucial nesse sentido.
Ele é o termômetro que percebe as alterações decorrentes da exploração inadequada do
meio ambiente, na medida em que, teoricamente, está atento às mudanças mais sensíveis
na vida das pessoas. Como essa sensibilidade é inadequada ao ritmo de trabalho industrial
a que os jornalistas são costumeiramente submetidos, muitas mudanças no ecossistema
social e ambiental acabam passando em branco ou recebem uma cobertura inadequada.
Repensar a cobertura do meio ambiente jornalístico é repensar também aquilo que Sylvia
Moretzschon (2007) chamou de “suspensão do cotidiano”. A capacidade de refletir com
integridade as mudanças é também a capacidade de se deslumbrar continuamente diante do
novo, escapando às rotinas profissionais.

Palavras-chave: Jornalismo, editorias, meio ambiente, jornalismo em Roraima.

1. Contextualização histórica das editorias jornalísticas


Antes da invenção da escrita e da criação da imprensa, a notícia (assim como a
História) era propagada na sociedade de vizinhança, por meio do relato oral. Após
Gutenberg, deixou de ser narrada pelas pessoas e sua comunicabilidade (transmissão e
difusão) ficou a cargo dos jornais e dos demais meios de comunicação (BAHIA, 1990).
A especialização do trabalho foi promovida pelo processo de industrialização. Nas
fábricas, no início da Revolução Industrial, a divisão do trabalho foi criada para facilitar e
aumentar a produção. Cada operário ficava responsável por uma tarefa. “O maior
aprimoramento das forças produtivas do trabalho, e a maior parte da habilidade, destreza e
bom senso com os quais o trabalho é em toda parte dirigido ou executado, parecem ter sido
resultados da divisão do trabalho” (SMITH, 1985, p 41).
130
Graduado em Comunicação Social – UFRR/ RR otaciliogabriel@hotmail.com
131
Mestranda em Letras - PPGL-UFRR/ RR sony.ferseck@gmail.com

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Comprovado o êxito da experiência, a ideia foi transferida para o mercado de
trabalho. “A divisão do trabalho, na medida em que pode ser introduzida, gera, em cada
ofício, um aumento proporcional das forças produtivas do trabalho. A diferenciação das
ocupações e empregos parece haver-se efetuado em decorrência dessa vantagem” (SMITH,
1985, p 42). A sugestão de Adam Smith foi estendida a todas as empresas, inclusive as de
comunicação. Nas redações, o trabalho também começou a ser distribuído entre os
funcionários.

A especialização do trabalho jornalístico é uma consequência lógica da


divisão do trabalho nos veículos de comunicação. A exemplo do que
ocorreu na produção industrial, os veículos de comunicação
departamentalizaram as redações nos anos 1960 com a criação de
editorias especializadas, encarregadas da cobertura jornalística de
atividades ou setores específicos (LUSTOSA, 1996, p 109).

A departamentalização das funções promoveu uma reorganização dentro dos


meios de comunicação. Os jornais deram início à separação do conteúdo jornalístico por
temáticas (ou seja, por editorias). As modificações no visual dos jornais trouxeram
benefícios ao leitor, que passou a encontrar rapidamente as matérias que lhe interessam; e
aos editores, que puderam esquematizar o processo de estruturação dos jornais.
A invenção de editorias começou a ser observada nos anos 60. No Brasil, a década
é marcada pelo regime militar. E esse período político está diretamente relacionado com o
nascimento dos espaços segmentados. Com o poder de governar o país nas mãos, os
militares suspenderam a democracia. Os jornais foram obrigados a excluir praticamente
todas as informações sobre questões político-partidárias e de temas relacionados com os
conflitos sociais. As greves, por exemplo, não eram divulgadas.
Apesar da censura da imprensa, os jornais continuavam circulando e precisavam
de material para ser publicado. Com isso, os assuntos econômicos começaram a ganhar
espaço nos jornais. Assim:

Durante o regime militar, com o esvaziamento da esfera política, os


jornalistas, mais do que nunca, foram obrigados a trabalhar com assuntos
especializados, principalmente econômicos. Os tecnocratas falavam
difícil, citando sempre uma ou mais expressões em inglês, em cada cinco
palavras que pronunciavam. O jornalista passou a se especializar ainda
mais, a fim de traduzir a linguagem dos tecnocratas e, com isso, ampliou-

255
se o espaço destinado aos assuntos econômicos (LUSTOSA, 1996, p 111-
112).

Com o fim da ditadura militar, os jornais passaram a ter espaços próprios para
tratar de assuntos especiais, com discurso ou codificação específicos (LUSTOSA, 1996).
Segundo Erbolato (2008), as editorias podem ser permanentes ou transitórias. Ele
cita exemplos de permanentes: Esportes, Interior, Ecologia, Transportes, Educação,
Polícia, Artes, Política, Suplementos, Minérios e Saúde. As transitórias aparecem quando
um assunto é atual e importante, como: Meningite, Inundações, Geada, Seca, Contratos de
Risco, Itaipu, Presidente da República no Exterior ou Reforma Constitucional.
Mesmo que o mercado de hoje exija a multifuncionalidade do jornalista, a
especialização do profissional é avaliada por muitos estudiosos como importante para a
qualificação do material jornalístico produzido pelos jornais. Um deles é Clóvis Rossi.
Para o autor, “a qualidade da informação seria muito maior se os assuntos pudessem ser
tratados por um jornalista com razoável background deles” (ROSSI, 2000, p 70). O
jornalismo ambiental pode ser considerado uma das muitas especializações do trabalho
jornalístico. Conforme o jornalista Roberto Villar, em artigo publicado no site agirazul:

A reportagem de meio ambiente tem que ser "vendida" como qualquer


outra matéria. Deve ser novidade e de interesse público. A linguagem tem
que ser simples. Deve procurar contextualizar o homem dentro da
natureza, e sempre apresentar os problemas com as soluções
ambientalmente sustentáveis.

Entre as suas atribuições específicas estão: produzir informações que permitam ao


público obter com clareza, precisão e objetividade, um retrato não fragmentado sobre as
questões ambientais. “Deve ainda informar sobre as opções existentes de desenvolvimento
sustentável, promovendo o acesso da população a uma melhor qualidade de vida sem
causar prejuízos ao meio ambiente” (LUFT, 2005, p 53). Para o professor Wilson da Costa
Bueno:

Podemos conceituar o Jornalismo Ambiental como o processo de


captação, produção, edição e circulação de informações (conhecimentos,
saberes, resultados de pesquisas, etc.) comprometidas com a temática
ambiental e que se destinam a um público leigo, não especializado. O
Jornalismo Ambiental desempenha inúmeras funções, mas é possível

256
ressaltar de imediato três delas: 1) a função informativa; 2) a função
pedagógica e 3) a função política (BUENO, 2007, p 34-35).

Contudo, atividade jornalística, principalmente a concernente ao meio ambiente,


suscita discussões a respeito de suas funções. O jornalismo atual desenvolveu uma
característica peculiar: a pressa na confecção da notícia. Pautas sobre meio ambiente
exigem conhecimento multidisciplinar e o jornalista perde menos tempo na produção das
reportagens quando conhece o assunto abordado.

Diante da complexidade do tema ambiental, é essencial que se forme


profissionais, no caso da mídia, jornalistas especializados, garantindo a
produção de matérias mais qualificadas e completas, pois são
informações em demasia, produzidas em um curto espaço de tempo, as
quais dificilmente alguém que não esteja ligado à área terá condições de
acompanhar (BARBOUR, 2003, p 51).

Percebendo, sobretudo, como o meio ambiente não se insere na velocidade da


notícia diária, podemos concluir que seu evoluir é lento e sua abordagem calma e modesta.
Isto porque os jornalistas geralmente carecem de embasamento para tratar de temas que
exigem maior grau de especialização. Por conta disso, a imprensa não tem agido com
eficiência na conscientização (educação) da sociedade e a informação não chega aos
cidadãos que, de forma indireta, têm contribuído para a manutenção do cenário ambiental
mundial atual. Segundo o jornalista ambiental Roberto Villar e o professor Wilson da Costa
Bueno, a imprensa brasileira dificilmente trata dos problemas ambientais com
profundidade. As exceções são fruto de um esforço pessoal e isolado. O meio ambiente só
é manchete ou ganha espaço e tempo no jornalismo diário quando acontecem desastres, ou
quando os assuntos repercutem no exterior.

2. O jornalismo ambiental em Roraima


Roraima pertence à região norte do Brasil, que detém a maior parte da Floresta
Amazônica e possui uma das mais ricas faunas e floras. O Estado apresenta uma superfície
de 230.104 km², recortado por uma grande rede fluvial integrante da Bacia Amazônica,
destacando-se o Rio Branco, com 640 km de extensão, afluente do Rio Negro
(DOMINGUES, 2005, p 64). Entretanto, em toda sua extensão territorial o estado conta
atualmente com três empresas de jornalismo impresso: Folha de Boa Vista, Roraima Hoje
257
e Jornal de Roraima, que monopolizam a atenção do público leitor. Este último entrou em
circulação no ano de 2013, sendo assim, as considerações elaboradas neste artigo acerca da
editoria de meio ambiente dirigem-se aos jornais mais antigos no estado analisando a
produção dos jornais no período de 2011 e 2012.
O primeiro dos jornais analisados, Folha de Boa Vista, possui 29 anos de
existência. Segundo dados oficiais da empresa, disponíveis em matérias da versão on-line
do jornal:

A Folha foi a primeira tentativa em Roraima de um jornal estruturado,


que obedeceu ao estilo dos grandes jornais, com uma linha de produção
que começa na captação da notícia e termina na distribuição dos
exemplares impressos. Foi também o primeiro jornal-empresa do Estado,
visto que em sua estrutura foram introduzidos departamentos até então
inexistentes em outros periódicos locais, como Administração, Finanças,
Redação Gráfica (SILVA e VIEIRA, 2010. Apud PIMENTEL, 1996, p.
27).

Situado na Rua Lobo D'almada, nº 21, bairro São Francisco, o jornal foi fundado
pelos jornalistas Fernando Estrela, Cosete Spíndola, Sônia Tarcitano e Cícero Cruz Pessoa.
Sua primeira edição foi veiculada em 21 de outubro de 1983. Devido à falta de estrutura
física adequada e experiência da equipe, circulava apenas uma vez na semana com um
único caderno, sendo impresso fora de Roraima, que ainda era Território Federal.
O segundo jornal analisado é o Roraima Hoje, que tem sua sede localizada na
Alameda dos Girassóis, nº 77, bairro Pricumã. Sua história é recente: tem apenas seis anos
de existência, fundado em 07 de dezembro de 2006. De propriedade do empresário Flávio
Rabello, inicialmente tinha tiragem de 800 exemplares. Uma parte era distribuída
gratuitamente e a outra comercializada. A estratégia objetivava tornar o veículo conhecido
entre os consumidores e anunciantes.
E se tornou conhecido. O público, de imediato, associava o jornal ao
sensacionalismo da editoria de Polícia. As primeiras edições tratavam as notícias policiais
com muito bom (mau) humor. Às vezes, o tom bem humorado chegava a chocar os
leitores. Trocadilhos e linguagem popular eram as principais características. Por isso, o
veículo alcança principalmente as camadas C e D.

258
Sobre os resultados da apreciação de ambos os periódicos, pode-se, de forma
geral, sugerir um resultado similar ao observado por Luís Fernando Angerami, em sua obra
“Meio Ambiente e Meios de Comunicação” (1996). Nela, o autor investiga como a
imprensa brasileira cobriu a Conferência Mundial do Meio Ambiente de 1992, a Rio 92:

O que se observou é que, de maneira geral, as matérias publicadas no


período pesquisado privilegiaram, basicamente, um determinado enfoque
político-econômico da problemática ambiental, reduzindo a dimensão
multidisciplinar da questão por praticamente ignorar os seus elementos
sociais e científicos. (RAMOS, 1996, p 153).

Em particular no jornal Folha de Boa Vista ficou evidente o posicionamento


contrário do veículo em relação a uma abordagem ampla e participante das temáticas
ambientais.
Temas indígenas não são muito frequentes, apesar da forte herança indígena da
população local. O tema “Homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol” foi
destaque no período pesquisado; contudo, relativamente a notícias que se referiam às
insatisfações dos “desintrusados” (não-índios retirados da Terra Indígena Raposa Serra do
Sol). Estes reclamavam do “calote” que levaram do Governo Federal que ainda não tinha
resolvido o problema das indenizações. Essas matérias eram veiculadas principalmente na
editoria de Política.
O tema estava presente no dia 01 de junho e em outras edições do Roraima Hoje,
como na de Sábado/Domingo, 04 e 05 de junho de 2011: “Violência no campo: Quartiero
culpa política ambiental pela situação. Chamou de programa neocolonial impedindo o
Brasil a se desenvolver, ter soberania e ser grande potência” (Política, p. 3). A questão
ambiental quase sofreu a distorção pretendida pelos produtores de arroz retirados da
Reserva. Tais notícias só evidenciam a predominância de alguns setores da sociedade que
têm acesso privilegiado aos meios de comunicação tendo, consequentemente, mais
condições de manifestar seus interesses por meio da imprensa e, assim, influir na formação
de opinião (RAMOS, 1996, p 148).
Eles alegavam que a demarcação das terras só favorecia um dos lados dos
envolvidos e que o Governo Federal estava despreocupado com os moradores de Roraima.
O argumento várias vezes fornecido era de que as demarcações destinavam boa parte do

259
território do estado para as reservas e que por isso sobravam poucas terras para o
desenvolvimento da agroindústria no estado.
As demarcações de terras em áreas indígenas estão sempre cercadas de polêmica e
as discussões estão presentes em todo o país, como contextualiza Gonçalves (2001):

A apropriação desigual das terras é um dos fatores mais importantes


responsáveis por grande parte dos conflitos sociais que ocorrem no país e
está na origem da desigualdade de poder político, econômico e de
prestígio na sociedade brasileira como um todo. A Amazônia não foge a
esta regra constitutiva de nossa formação social. O que causa estranheza é
que os conflitos pela terra sejam graves numa região sempre apresentada
como de vasta disponibilidade de terras e caracterizada como de
densidade demográfica baixa. No entanto, com toda certeza, há muita
terra para pouquíssimos latifundiários. (GONÇALVES, 2001, p 50).

Em estudo sobre o poder de influência dos jornais locais na formação da opinião


pública em Roraima, Silva e Vieira (2010) concluíram que “a homologação da Área
Indígena Raposa Serra do Sol, em área contínua, sempre sofreu constantes ataques por
parte da imprensa, em particular, do Jornal Folha de Boa Vista, que era determinantemente
contra a sua homologação, inclusive destinando espaço a artigos de opinião e promovendo
seminários” (SILVA, VIEIRA, 2012, p 156-157). Conduta abominada por qualquer
defensor da ética, como o autor Alberto Dines:

Repórteres não incorporaram ainda ao seu comportamento a atitude de


ouvir os dois lados de uma questão no mesmo dia, na mesma matéria.
Dirigentes ou proprietários de jornais, com exceções é claro, nem sempre
se libertaram da onipotência, seja institucionalizando as “listas negras”
(assuntos e pessoas que não podem aparecer no jornal), seja abraçando
interesses, sem adotar qualquer isenção diante de causas e pessoas
(DINES, 1986, p 62).

A estratégia de desvirtuar a realidade também foi tentada pelos madeireiros. Em


15 de junho de 2012, na seção Cidade do jornal Folha de Boa Vista, matéria informava que
madeireiras continuavam bloqueadas e sem funcionar, e os trabalhadores do setor
reivindicavam soluções (Folha, p. 11).
Uma operação intitulada “Salmo 96:12” investigou crimes ambientais cometidos
pelas madeireiras. Na verdade, o escândalo referia-se ao esquema de corrupção envolvendo
esses crimes. Vários setores públicos participavam de uma rede de corrupção que liberava
licença ambiental para madeireiros desmatarem à vontade em áreas proibidas. As fontes, os
260
próprios empresários, quiseram tirar os crimes ambientais dos holofotes e criar uma
situação na qual a operação em benefício do meio ambiente fosse vista como prejudicial ao
desenvolvimento de Roraima. Consequentemente abafaram o debate. Uma recomendação
básica dos manuais de ética no jornalismo foi posta de lado pelos repórteres: a checagem
minuciosa das informações oferecidas pelas fontes, como explica Rossi (1980):

Para compor uma reportagem, o jornalista vale-se, fundamentalmente, de


fontes de informação, conhecedoras do tema, mas também nele
interessadas (direta ou indiretamente, política ou economicamente, em
busca de prestígio, vingança ou qualquer outro motivo). Extrair dessas
fontes informações que as prejudiquem é, evidentemente, muito difícil, se
não impossível. Cabe, então, ao repórter, pesar cada informação passada
pelas fontes, confrontá-las com outras, oriundas de outros informantes,
avaliá-la em função de seus próprios conhecimentos ou informações
anteriores sobre o tema – e, assim, compor o seu próprio quadro (ROSSI,
1980, p 50-51).

O atraso econômico também foi motivo para os empresários do Estado se


posicionarem contra a preocupação com o meio ambiente quando começaram as
especulações sobre a votação do Novo Código Florestal Brasileiro. De novo, o argumento
foi de que as novas regras diminuíam muito a quantidade de terra liberada para a produção
econômica. Em nenhuma destas situações os jornais se posicionaram a favor do debate,
propondo que o leitor tirasse suas próprias conclusões, depois de esgotados os argumentos
de ambos os lados, respeitando a multidisciplinaridade inerente ao jornalismo ambiental.
Pode-se assim argüir, com Ramos, que,

Nesse contexto (mau uso da ecologia) se encaixam discursos que


afirmam que a defesa do meio ambiente vem sendo usada pelos países
ricos como uma estratégia para “inibir o crescimento nacional”, quer
como instrumento de uma “orquestração internacional” cuja finalidade é
impedir a utilização dos nossos recursos naturais, quer como instrumento
de protecionismo para dificultar o nosso o livre acesso ao comércio
internacional (RAMOS, 1996, p 154).

É relevante constatar a presença significativa de matérias defendendo o ponto de


vista de que, apesar dos problemas ambientais que vivemos, a relação homem/natureza
deve ser mantida nas mesmas bases para não ameaçar o desenvolvimento da humanidade e
a continuidade do que se credita como progresso. Esse discurso encontra amparo na
argumentação de que o ambientalismo estaria promovendo uma suposta

261
“supervalorização” da natureza, num processo no qual o ser humano seria excluído da
natureza e não teria mais os mesmos “direitos” sobre ela. Em decorrência, essa postura
reforça “a crença de que o homem domina plenamente a natureza, dificultando, assim, a
conscientização dos problemas ambientais no conjunto da sociedade, bem como os efeitos
e consequências das intervenções humanas no meio ambiente” (RAMOS, 1996, p 155).
No que concerne à “Semana do Meio Ambiente”, as matérias relativas aos
primeiros dias do mês eram diárias. O assunto ainda gerou matérias até o final do mês. Mas
estas versavam sobre os trabalhos desenvolvidos nas escolas como, por exemplo, a edição
do dia 25 de junho de 2012 da Folha de Boa Vista. A página 10 trazia a manchete: “Agenda
21 movimenta escola no fim de semana”. E o subtítulo: A Agenda 21 brasileira é um
instrumento de planejamento participativo para o desenvolvimento sustentável do país.
A data é muito utilizada. Principalmente na primeira semana do mês, a “Semana
do Meio Ambiente” é a “cartola” mais empregada. Durante essa semana todas as atividades
relacionadas ao meio ambiente são divulgadas. A agenda do poder público é a principal
fonte. Praticamente todos os dias, durante a “Semana do Meio Ambiente”, sai uma notícia
sobre um evento organizado pela prefeitura de Boa Vista ou pelo governo do Estado de
Roraima. Particularmente sobre a programação estadual, descobriu-se que ela se estende
por mais uma semana. Matéria publicada no jornal Folha de Boa Vista do dia 03 de junho
de 2011, por exemplo, informa sobre a “Quinzena Ambiental” que naquele ano terminaria
no dia 10 de junho.
O texto esbarra na estrutura básica adotada pelos jornais locais quando a pauta
refere-se a eventos: limita-se a passar informações sobre programação, objetivos dos
projetos, presença de autoridades, etc. Exemplos consistem em: Folha de Boa Vista, dia 21
de junho de 2012, editoria de Cidade, página 10: “Muro ecológico é inaugurado e alunos
premiados” e “Ulysses Guimarães: Alunos desenvolvem ação de meio ambiente na praia
do Cambará”. Fica assim evidente, nas análises de conteúdo dos jornais, que os eventos da
Semana (ou Quinzena) do Meio Ambiente são tratados com esse enfoque meramente
informativo. A fórmula é a mesma adotada para todas as seções: quais são os parceiros
organizadores, quais os objetivos, qual a programação, etc. Pode-se mencionar, para auferir
estas conclusões, as edições de Sábado e Domingo 04 e 05 de junho de 2011, Folha de Boa

262
Vista, Editoria Cidade”, sob a manchete: “Instituições fazem ações em favor do meio
ambiente”. A estrutura da matéria é assim composta:

O Ministério Público Federal em Roraima (MPF-RR) promove de 05 a 11


de junho a 2º Semana do Meio Ambiente da Procuradoria da República
em Roraima. O evento conta com a parceria do Instituto Chico Mendes
(ICMBio), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa),
Estação Ecológica Ilha de Maracá (Esec Maracá) e Universidade Federal
de Roraima (UFRR). O objetivo é sensibilizar as pessoas quanto à
importância do engajamento social nas ações de preservação do meio
ambiente (p. 11).

A matéria segue com a divulgação da programação, procedimento para efetuar as


inscrições e conta o tema da edição. Os setores cobertos regularmente pela imprensa são,
quase exclusivamente, organismos oficiais, organismos do aparelho de Estado – e não
organismos da comunidade em si (ROSSI, 2000, p 18-19). Em se tratando de jornalismo
ambiental, isso se evidencia na impressa local. O material jornalístico institucional deveria
funcionar na prática como fortifica a teoria: uma sugestão de pauta. No “kit”, que inclui
texto e fotos, enviado às redações, estão informações prévias que apenas apresentam a
notícia. Apesar de constituírem-se em matérias “prontas”, os releases geralmente
mencionam episódios futuros. Ou seja, fornecem os dados que ajudarão o repórter a
entender o fato que ainda irá acontecer a fim de facilitar a produção da reportagem.
O tema lixo é o mais esporádico. Ele aparece nas denúncias dos leitores. Na
maioria das vezes por causa de ruas e avenidas sujas. Mas é comum também ler sobre a
falta da coleta de lixo e terrenos abandonados cheios de entulhos. Neste sentido, os dois
jornais conseguiram atuar como prestadores de serviço, divulgando a agenda do programa
Operação Cidade Limpa. Por outro lado, fracassaram com relação à educação ambiental.
Conforme destacou a revista UFRR Notícias de março de 2010, “A população é
responsável por 90% da poluição e destruição dos igarapés, rios e lagos, jogando lixo e
criando esgotos clandestinos”.
A ausência de aprofundamento do tema é preocupante porque o lixo é um dos
mais graves problemas enfrentados pelas cidades brasileiras como expõe Reinaldo Canto
em seu blog cantodasustentabilidade.blogspot.com.br:

263
São poucos os municípios que encaram esse problema com a urgência e
relevância que o assunto faz por merecer. A maioria das cidades
permanece distante dessa discussão.
De acordo com o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, divulgado
pela Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos
Especiais (Abrelpe), a quantidade de resíduos sólidos gerados no Brasil
em 2011 totalizou 61,9 milhões de toneladas, 1,8% a mais do que no ano
anterior. Do total coletado, 42% do lixo acabaram em local inadequado.
Em 2011, foram coletados 55,5 milhões de toneladas de resíduos sólidos.
Sendo que 42% desses resíduos foram parar em locais inadequados como
lixões e aterros controlados. E, ainda pior, cerca de 10% de tudo o que é
gerado acaba tendo destino ainda pior em terrenos baldios, córregos,
lagos e praças.

Dentre os aspectos positivos observados, está a editoração esporádica da rubrica


Meio Ambiente no “Caderno B” do jornal Folha de Boa Vista, por pelo menos quatro
vezes: 03 de junho de 2011, 10 de junho de 2011, 17 de junho de 2011, 24 de junho de
2011. Em todas as vezes que o jornal apresentou mais qualidade nos textos, como
interpretação e aprofundamento foram nestas quatro edições especiais.

Considerações finais
As temáticas ambientais não são abordadas de forma aprofundada pelos veículos
de comunicação analisados por este trabalho. Há uma deficiência na produção jornalística
dos dois jornais. E os critérios de noticiabilidade são parecidos, repetindo, de forma
redundante, muitas das pautas.
Durante o mês de junho, dos anos 2011 e 2012 dos jornais Folha de Boa Vista e
Roraima Hoje, os assuntos são muito similares: programação da semana do meio ambiente,
denúncias referentes ao lixo e a abundância de chuvas. Nos dois anos foram muito
presentes os três tópicos. Em junho de 2012, dois outros tópicos entram para a lista, a
conferência sobre meio ambiente, a Rio+20 e a votação do Novo Código Florestal.
A programação da semana do meio ambiente ficou por conta do trabalho das
assessorias de imprensa da prefeitura de Boa Vista e do governo do Estado de Roraima.
Ambas são responsáveis por divulgar os projetos dessas instituições. E neste período do
ano são desenvolvidas as principais atividades de educação ambiental.
Com a pesquisa realizada nos dois jornais, verificou-se que a ausência de um
jornalismo efetivamente fiscalizador e preocupado com a temática ambiental tem origens
bem peculiares em Roraima. A especialização do jornalista resta, nesse

264
sentido,extremamente necessária. A sugestão é recomendada por um dos pioneiros nos
estudos sobre jornalismo ambiental no Brasil, o professor Wilson da Costa Bueno.
A editorialização gera um corpo de preocupações explícitas relativamente a
determinados temas. No caso dos dois jornais citados, comprovou-se uma multiplicação
das pautas ambientais, bem como o engrossamento da percepção acerca do meio ambiente,
nas edições de junho de 2011, do Folha de Boa Vista, quando o jornal trouxe em seu
Caderno B a rubrica Meio Ambiente.
Em quatro edições do mês, dias 03, 10, 17 e 24, o periódico apresentou textos
mais bem produzidos e aprofundados. O que evidencia que o espaço fixo dedicado às
temáticas ambientais influencia diretamente na qualidade do material jornalístico
produzido pela imprensa local.
Os temas abordados nessas edições não incluíram nenhuma denúncia ou
reportagem investigativa, apesar disso, valorizou-se a educação ambiental. Isso,
considerando que as matérias trouxeram a programação da semana do meio ambiente, a
preocupação com a reciclagem e exaltação de uma paisagem natural local, a Estação
Ecológica de Maracá.
Assim como em muitos lugares do país, Roraima possui uma imprensa atrelada a
grupos empresariais que utilizam seus veículos de comunicação para transmitir seus ideais
e vetar os que vão contra seus interesses. Os donos dos dois jornais estudados estão
diretamente vinculados aos principais atores envolvidos com as temáticas ambientais no
estado. O que impede o engajamento dos diários na cobertura crítica e independente das
questões ambientais.
Mas, ao mesmo tempo, a educação ambiental, exercitada pelo Folha de Boa Vista,
como foi percebida, não prejudica os interesses das empresas jornalísticas. O que
demonstra que esses jornais podem, efetivamente, contribuir para um progresso na
cobertura das temáticas ambientais, mesmo que limitados a um trabalho de educação. O
leitor carece de informação sobre desperdício de água potável, queimadas em perímetro
urbano, poluição de ruas e igarapés, despejo de lixo eletrônico, etc.
O jornalismo brasileiro se consolidou como um meio informativo que prioriza o
alheamento na transmissão da notícia. Elementos essenciais ao bom exercício da profissão
como a investigação e a interpretação foram postos de lado em função do comodismo

265
proporcionado pelo hábito de informar sem comprometer-se, adquirido em decorrência da
mudança da direção dos jornais que passou de jornalistas para empresários.

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<http://www.agricoma.com.br/agricoma/artigos/jornalismo_ambiental/artigo7.php> Acesso
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Tradução: Luiz João Baraúna. 2.ed. São Paulo: Nova Cultural,1985.

267
O Ethos de cada um: limites e associações entre a ética profissional de
jornalistas e corporativa de empresas de Comunicação

Robson DIAS132

Resumo: A ética profissional trata da dimensão do dever-ser. No artigo, consideraremos


dois referenciais éticos: o Ethos do Jornalista; e o Ethos do Jornalismo e discutiremos a
relação dialética entre as possibilidades da ética e as limitações da prática tanto do
profissional (a responsabilidade social, o compromisso com a verdade, a pluralidade de
opiniões, a função de informar a sociedade, trabalho em prol do interesse público, a
Liberdade de Imprensa e a autonomia do jornalista), quanto das organizações jornalísticas
(critérios de Objetividade, a neutralidade, imparcialidade, além do ideal de obtenção da
informação em primeira mão).

Palavras-chave: Ética, Ethos, Jornalista, Jornalismo, Organização

No artigo, não temos interesse em trabalhar a significação filosófica das


diferentes abordagens e conceituações sobre ética, mas fazer uma compilação das
representações sociais da eticidade relativas à profissão e ao mercado de Jornalismo.
Tomamos como referencial o pensamento de Kant relativo à Deontologia, postulante de
um ethos do dever ser. Até porque entendemos os juízos de valor do jornalista
contextualizados num mundo pós-moderno, marcado pela fragmentação do indivíduo,
crise da verdade na ciência (com a decadência do empirismo) e ascensão do
construtivismo. Estes aspectos são tomados como estruturais e objeto de estudo
histórico como formação do campo profissional.

132
Doutor em Comunicação, formado pela Universidade de Brasília (Programa de Pós-Graduação da
Faculdade de Comunicação, PPGFAC/UnB) a partir do vínculo com os seguintes projetos de pesquisa
credenciados no CNPQ: A ideia do pós-Jornalismo (2010-2013), O Jornalismo como Teoria
Democrática (2006-2010) e Como o Terceiro Setor pauta a mídia (2003-2006). Atualmente, é professor
titular do mestrado Stricto Sensu em Comunicação da Universidade Católica de Brasília
(PPGSSCOM/UCB): r.ucbprofessor@gmail.com .
A revisão teórica e problematização apresentadas, neste artigo, serviram de base para o enfrentamento do
trabalho empírico da pesquisa de mestrado A influência do prêmio Jornalista Amigo da Criança sobre o
profissional de jornalismo: um estudo de caso, trabalho feito sob a orientação da Profª Drª Dione Oliveira
Moura (presidente SPBJor: gestão 2011-2013). O autor recebeu bolsa do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ).

268
O jornalista e o referencial teórico da Ética
Os estudos sobre ética são inúmeros. Alguns modelos que fazem o panorama das
diferentes concepções sobre o tema são:

1. A Ética Grega – a virtude não obrigatória, exigindo requisitos e


apresentando-se de forma distinta em relação a certos papéis sociais,
achando-se dissociada do saber. O Mito da Caverna representa a idéia
do bem. Alcançar o bem indica atingir o mais alto nível de sabedoria
2. A Ética da Salvação – elaborada durante a Idade Média, assim
denominada por ter interpretado a ética Grega de ângulo teológico,
dando precedência à vida eterna. Para Aristóteles o fim da moral é a
ação dos homens. Para São Tomás de Aquino o fim do homem não se
encontra na relação com o homem, mas na pessoa, no sentido de uma
natureza espiritual
3. A Ética Social – elaborada nas nações protestantes, na época
Moderna, com o propósito de fixar critérios para a incorporação de
princípios morais à sociedade, já que a moralidade básica é entendida
como sendo individual e dizendo respeito a uma relação com o
Criador que não admite mediações.
4. A Ética do Dever – formulado por Kant, que circunscreve o
problema ético ao da fundamentação da moral, preconizando uma
solução racional, sem recurso à divindade. Separação entre moral e
religião. Imperativo categórico: age como se a tua ação se possa
transformar numa lei universal. O homem é um fim em si mesmo e
não pode ser usado como meio.
5. A Ética Eclética – propõe-se a conciliar o racionalismo kantiano
com a simultânea admissão de inclinações morais nos homens, adotada
pelos neotomistas [adeptos da filosofia de São Tomás de Aquino]
6. A Ética dos Fins Absolutos – “os fins justificam os meios”, que
sem abdicar dos pressupostos cientificistas que a fazem renascer na
época moderna, veio a ser encampada pelos marxistas [adeptos da
luta armada]
7. A Ética de Responsabilidade – proposta por Max Weber, que
pretende fazer renascer a tradição kantiana, no que respeita à
eliminação da dependência à religião reelaborando-a para abandonar
os vínculos porventura tivesse estabelecido com a suposição de uma
sociedade racional (SILVA, 2003, p. 10)

Silveira (1993) considera que o fato do espaço público passar a ser agenciado por
uma lógica de mercado é efeito do referencial de Objetividade e dos valores profissionais,
oriundos da cultura organizacional, que circundam o campo do jornalismo. Para
a autora, a ética, aplicada ao campo jornalístico, é contextualizada da seguinte forma:

Na mudança do paradigma mecanicista para o novo paradigma


holístico, sistêmico ou orgânico, a ética jornalística precisa mudar

269
também passando a se basear na consciência social e não no
deslize ou outras formas de sensacionalismo durante o processo de
seleção e edição das notícias. A nova ética passa pela responsabilidade
no sentido weberiano do termo, ao qual veículos de comunicação
resistem baseados no argumento de que a ética da responsabilidade no
jornalismo implicaria num risco de autocensura, uma vez que caberia
ao veículo decidir sobre o que é bom ou mal para a opinião pública.
Quando a imprensa coloca todo o seu trabalho em termos de mercado
está “marketizando” o espaço público e substituindo o seu produto por
imagens. Não é mais a notícia que chega às bancas, é a “notícia-
verdade”, que usa a objetividade e suas derivações para sustentar essa
imagem. Com a ética do marketing, os resultados de mercado ganham
o patamar de signo, quando deveriam ser considerados um valor
(SILVEIRA, 1993, p. 162-163).

Existem implicações éticas peculiares a cada tipo de juízo valorativo, seja de


ordem pessoal ou coletiva. Silva (2003) as distingue utilizando o seguinte referencial:

Nem sempre as orientações difundidas no meio de uma corporação


encontram apoio nas convicções individuais. A Ética da Convicção,
portanto, volta-se mais para o indivíduo, enquanto que a Ética da
Responsabilidade diz mais respeito às coletividades. A primeira está
relacionada aos deveres (deontologia = tratados dos deveres); a
segunda, aos fins (SILVA, 2003, p.12).

Desde a universidade, a formação de jornalistas tem forte foco na deontologia.


Considerando cursos com currículos humanísticos. Muitas vezes, currículos tecnicistas
contribuem para a socialização, desde a faculdade, com a ética oriunda da prática
jornalística no mercado noticioso.
O conflito ético no campo do Jornalismo geralmente reflete a distância entre teoria
e prática; universidade e mercado. O referencial deontológico, de implicação pessoal,
comungado pela cultura profissional, muitas vezes fica no plano teórico e não é aplicado
na prática. Com a influência de valores egressos da realidade cotidiana, subsidiários do
mercado de trabalho e da socialização de princípios em dada cultura organizacional,
fazem com que os profissionais tenham certa dificuldade nas tomadas de decisão. Para
Fittipaldi (1998),

Nas redações, o que vemos em geral é que os jornalistas vagam entre


um ideal de objetividade e isenção e seu oposto - a interpretação do
fato - o que em si também significa tomada de partido, compromisso

270
fechado com a verdade. Diante de um acontecimento, porém, o
profissional da imprensa pode processar o fato de duas formas: de
maneira redutora e ideológica (ou como se o que ele escreve fosse uma
verdade absoluta ou interpretando à sua maneira os fatos) ou, ao
contrário, de forma intensiva, aberta, dinâmica.
É claramente a segunda atitude a que, ética e ontologicamente, nos
parece coerente com a ética como a entendemos. Através dela, o
jornalista reconhece que, ao lidar com um acontecimento, mergulha na
verdade intensiva, muitas vezes, paradoxal ou mesmo contraditória,
em que a atuação do jornalismo é sempre um recorte possível, nunca
totalmente objetivo, cientificista, como pretendem os clássicos da
objetividade (FITTIPALDI, 1998, p.128).

Andrade (2004) diagnosticou as condições nas quais são ministradas as disciplinas


de ética em cursos de graduação no sudeste do país. Na amostra do estudo, o curso de
Jornalismo estava incluso. A autora investigou a dimensão do ethos regulativo (dever ser),
além do punitivo (no caso das profissões que têm conselhos) da realidade profissional. O
objetivo foi o de verificar a distância entre a teoria e a prática. A autora concluiu que
existe hipervalorização do ensino de ética na graduação como sendo a única solução
para os problemas éticos do cotidiano profissional. E que o ensino da disciplina produz
efeito, mas parece não ter o alcance esperado fora dos domínios da universidade. Ainda
para a autora,

Podemos citar muitos assuntos que estão ligados à ética, como:


liberdade, valores, limites, respeito, responsabilidade, honestidade,
mau, bem, felicidade, hedonismo e muitos outros. Com a pesquisa
observou-se que o discernimento para todas as questões acima não
depende apenas da educação escolar – mesmo porque, muitos relatos
nos mostram que o setor educativo está desprovido deste tipo de
ensinamento – mas depende muito mais da família, da origem, dos
costumes e hábitos desta.
É preciso salientar que o ensino, na maioria das vezes, tem boas
intenções e vem surtindo resultados positivos, porém, o que se
pretende nesta argumentação é deixar registrada a esperança de uma
maior colaboração de cursos e escolas em prol da reflexão sobre
Ética Profissional (ANDRADE, 2004, p. 116;119).

Karam (2007) discorda dessa perspectiva defendida por Andrade (2004). Em se


tratando de formação ética para o jornalista, o autor postula que o "ideal", para quem
propõe um conhecimento tão enciclopédico quanto atualizado seria, para uma "boa"
formação jornalística, que o currículo tenha 400 disciplinas, distribuídas em 27.700 horas-
271
aula, o que equivaleria “a 40 anos em bancos escolares”. O aluno, portanto, ingressaria
“aos 18 anos e se formaria aos 58 anos, pronto para a aposentadoria”, com
um amplo conhecimento sem possibilidade de
aplicação.133

Dever ser como dimensão ontológica


Os discursos deontológicos dominantes sobre o dever ser jornalístico estão
sedimentados por um conjunto de valores referenciais da profissão, tais como: o caráter de
responsabilidade social, a busca da verdade e a missão de esclarecer à sociedade
sobre os fatos que têm relevância pública. Tais elementos da dimensão da ética
jornalística têm influência sobre a representação social e identitária do jornalista.
Oliveira (2007, p. 01) considera que o jornalista seria uma espécie de
representante da sociedade, da voz popular, defensor dos valores democráticos e do
direito social à informação. Para a autora, os jornalistas como

Herdeiros de postulados iluministas, levam crer que o profissional da


imprensa, ao fazer uso de critérios objetivos, seria capaz de revelar
cotidianamente a verdade dos fatos, sem a prevalência de interesses
de qualquer ordem, que não os do próprio público.

OLIVEIRA (2007) declara que, em decorrência disso (posicionamento como


porta-voz da sociedade), pode-se considerar que os jornalistas constroem seu discurso
identitário estabelecendo um sentido de vinculação com a profissão a partir do
compromisso com um nobre mandato, uma missão social. De certa forma, essa visão
idealizada confere ganhos simbólicos aos agentes dessa atividade e legitima o lugar
diferenciador dos profissionais da imprensa no conjunto social. E, nesse sentido, os
jornalistas vivem e continuam a reivindicar o status de um trabalho que seria dono de uma
aura particular, “não como os outros”.
O jornalista considera que seu referencial ético é o mesmo do cidadão. Para
Abramo (1997), o jornalista não tem ética própria. O que o autor considera até “um mito”.

133
KARAM, Francisco. Formação e Ética Jornalística. Disponível em www.jornalismo.ufsc.br/. Acesso
em 05-12-2011. Sem registro de data de produção do artigo.Assim, por meio da mediação dos jornalistas, a
imprensa refletiria a realidade imediata, cobrindo os acontecimentos dotados de relevância social (idem).

272
A ética do jornalista seria a ética do cidadão. Ainda para o autor, o que é ruim para o
cidadão é ruim para o jornalista.134
Oliveira (2007, p. 3) afirma que o fato de vincular a ética profissional à ética
cidadã coloca a atividade jornalística como um ato desinteressado de sua natureza
econômica e interessado na função social da profissão, cujo compromisso com o interesse
público lhe atribuiria uma espécie de nobre mandato. A autora conclui que

Os códigos de ética, manuais de redação e livros sobre jornalismo, que


reiteram os valores idealizados da profissão, atuam, em muitos
momentos, como operadores de sentido na transfiguração do caráter
econômico da atividade jornalística. Nesse contexto, o jornalismo é
exaltado não como um bem econômico (o que não é dito), mas como um
bem simbólico (o que é dito), no qual o profissional é reconhecido e
tem recompensas simbólicas, entre elas, ter uma função social nobre na
sociedade, ser o representante da verdade, mediador do interesse
público, etc, e todo o status decorrente dessas imagens.

Muitos valores legitimados no campo profissional jornalístico, a partir de


postulados, princípios deontológicos, e discursos idealizados, contribuem para um
processo de mitificação da atividade. Oliveira (2007, p. 11) acha que esses princípios
deontológicos e discursos idealizados, como valores, estão recheados de ambigüidades e
incongruências, as quais só reforçam sua fragilidade. Para a autora, ao não interrogar e
reproduzir discursivamente as incongruências legitimadas pelos princípios dominantes
do ideário jornalístico, os agentes sociais desse campo só fazem eximir-se da reflexão
moral necessária para que se possa agir de outra forma, encontrar soluções para o
jornalismo que hoje é praticado. E essa postura acaba reduzindo as discussões sobre a
prática profissional em propostas de boas intenções.

Códigos Deontológicos - norte do Ethos do Jornalista


No fim do século XVIII, os movimentos libertários na França e nos Estados
Unidos, além da Revolução Industrial, provocaram uma reviravolta na relação entre a
imprensa, censura e interesse público. Três fatores foram muito importantes quanto às
mudanças: os avanços tecnológicos passaram a permitir a produção em larga escala de

134
ABRAMO, Cláudio. Observadores de Carteirinha. Acesso em 05-12-2011. Disponível em
www.observatóriodaimprensa.com.br.

273
jornais e publicações (1), a Liberdade de Expressão (2) e a Liberdade de Imprensa (3).
Nos EUA, a partir de 1840 até o início do século XX, o aperfeiçoamento das técnicas de
impressão, o acirramento da concorrência entre empresas, além do descompromisso
ideológico com causas sociais, culminou em um processo de sensacionalização do
conteúdo do noticiário. O estilo de jornal (ao qual se convencionou chamar de popular)
era caracterizado pela falta de veracidade nos relatos e irresponsabilidade social. Sobre
esta questão, Nogueira (2001) afirma que o clima de “vale tudo” teve um saldo que se
costuma considerar positivo: o surgimento dos códigos de ética da área de Jornalismo.
Temendo que os limites fossem impostos pelo Estado (com caráter restritivo), os
empresários do setor decidiram estipular eles próprios suas regras de conduta. Para a
autora, é curioso notar que essa normatização de princípios foi muito mais movida pela
força das circunstâncias do que por uma demanda espontânea (ibidem).
O primeiro código foi intitulado Cânones do Jornalismo. A partir da edição do
documento, foram criadas as bases para a noção de Objetividade, a ser desenvolvida
posteriormente. Sobre tal fato, Nogueira (2001, p. 74) considera que, em grande parte,
essa noção de codificação ética decorreu da estratégia dos empresários de transformar o
jornal em produto vendável, despindo-o de conteúdos ideológicos (a aparência de
completa neutralidade garante o status de porta-voz do interesse público), que se queria (e
se quer até hoje) atribuir à imprensa.
No Brasil, os Códigos de Ética começaram a ser editados pelas organizações
jornalísticas e pelos próprios jornalistas (como categoria profissional). O primeiro Código
de Ética dos Jornalistas data de 1949, como resultado do II Congresso Nacional de
Jornalistas. O texto sofreu alterações em outros congressos da categoria realizados em
1968, 1986 e 2007. Para Nogueira (2001, p. 75), a codificação deontológica em
jornalismo melhorou as condições de trabalho na área (perspectiva dos jornalistas) e a
gestão do mercado noticioso (perspectiva dos empresários de comunicação). A autora
afirma que os membros do campo jornalístico assumiram o compromisso com a
veracidade dos fatos e com a responsabilidade dos relatos, tendo em vista a importância
da informação na vida em sociedade.
Nogueira (2001, p. 81) declara que existe “uma verdadeira edição” de códigos sem
implicação prática. A crítica da autora é a de que

274
De um lado, segue-se à risca recomendações que interessam
imediatamente às empresas e não custam muito esforço. Entre elas, as
óbvias: lutar pela liberdade de imprensa, defender a livre iniciativa e
garantir a autonomia econômica dos veículos. De outro, relega-se
pontos que, aparentemente, são incompatíveis com a lógica
predominante, que é a de mercado. Os jornalistas, por sua vez,
invocam a deontologia para, por exemplo, resguardar o sigilo das
fontes, mas ignoram-na completamente quando convém a seus
interesses próprios (NOGUEIRA, 2001, p. 81-82).

Nogueira (2001, p. 81) constata certa dependência dos jornalistas em relação


às empresas de comunicação na demarcação de território ético junto ao público. Para a
autora, a excessiva preocupação com o vínculo empregatício gera descompromisso
ético, perceptível, por exemplo, na “naturalização de condutas contrárias ao que
postulam os documentos de princípios elaborado pelas próprias categorias”. Nesse
aspecto, a autora afirma que

Um dos reflexos deste estado de coisas [cumprimento de tarefas anti-


éticas para assegurar o emprego] é a criação de um círculo
vicioso: com medo de perder a autonomia sobre suas ações, veículos
e profissionais elaboram regras morais; forçados pelas características
do mercado, abrem mão desses preceitos; exageram na dose e sofrem
ameaça de censura; então, reassumem formalmente compromissos
éticos que, muitas vezes, não estão dispostos a cumprir.
Por outro lado, a história da filosofia nos mostra que as questões éticas
e os dilemas morais não são privilégios da sociedade
contemporânea. Desde tempos remotos, a busca da felicidade e o
dever. Em diferentes contextos históricos – alguns tão complexos
quanto o nosso – filósofos, com Kant, desenvolveram teorias
voltadas exatamente par essa questão. Mas, de forma alguma, o assunto
foi dado por encerrado (NOGUEIRA, 2001, p. 82).

Fittipaldi (1998, p. 153) acredita que escrever novos princípios para os códigos de
ética não inibe transgressões. A codificação formal fornece apenas um horizonte ideal
no campo ético. Além do que, as transformações éticas não podem se resumir à punição
dos que transgridem códigos (“há muito mais em jogo”). Para a autora, a passagem ao
ético, que é muito mais que o reconhecimento das normas, é ao mesmo tempo cultural,
política e ontológica.

275
Cotidiano profissional - emergência do Ethos do Jornalismo
Oliveira (1996, p.73) afirma que a questão ética está relacionada com a
competência, o apuro profissional e o espírito da independência individual do jornalista
que não ocorre sem levar em conta a aceitação da “regra do jogo”, isto é, da produção
da notícia como resultado de atividades realizadas dentro de uma estrutura hierárquica
profissional e de uma empresa jornalística. Para o autor, embora o jornalista preste um
serviço público, a atividade jornalística não deixa de ser vinculada a empreendimentos
comerciais que impõem aos profissionais parâmetros para sua atuação.
Consideramos que os princípios deontológicos (Ethos do Jornalista) podem entrar
em conflito com exigências empresariais e interesses corporativos (Ethos do Jornalismo).
Nesse aspecto, Martino (2007) postula que ter uma atitude ética ou não é uma decisão
baseada na vontade do jornalista, mas no contexto em que isso for possível.135
Consideramos o referencial ético obtido pelo jornalista no processo de
formação universitária perde espaço para valores de ordem prática da cultura
organizacional, devido a um processo natural de socialização do profissional na
instituição. Silveira (1992, p. 163-164) considera “efeito de contaminação” da ética da
formação universitária pelos valores corporativos da empresa de comunicação da seguinte
forma:

O jornalista, ator individual que enfrenta dilemas morais no cotidiano


de seu trabalho, sofre com a razão monológica das empresas
jornalísticas, contextos sociais estruturados, que tiram de suas mãos
a escolha e a concepção final sobre as notícias publicadas. Mas, ao
jornalista não cabe se acomodar numa posição de simples componente
da máquina de produção, isento de toda responsabilidade dentro
da empresa e diante da sociedade.
A física quântica abriu dois caminhos para os cientistas: o que leva a
Buda e o que leva à bomba, enfatizando que os cientistas são
responsáveis por suas pesquisas, não só no campo intelectual, como no
moral. Quando se abandonou a divisão cartesiana, caiu com ela a
descrição objetiva da natureza e a ciência isenta de valores. Portanto, os
valores do cientista “contaminam” seu trabalho. A mesma regra pode
ser aplicada ao jornalismo, embora ainda escondido sob a venda de
técnicas cartesianas, que consolidam éticas pouco democráticas (Idem).

135
MARTINO, Luis Mauro Sá. A ética como estratégia no campo jornalístico. XXX Congresso Brasileiro
de Ciências da Comunicação – Santos – 29 de agosto a 2 de setembro de 2007. Disponível em
www.intercom.org.br. Acesso em 12-12-2011.

276
Silveira (1992) afirma que exista um cartesianismo ético que opere no
cotidiano das redações. Para a autora, apesar da formação humanística balizada pela
ética deontológica, os jornalistas profissionais não fazem uso apenas desse referencial
na rotina de trabalho. O conflito ético, segundo a autora, se estabelece do seguinte
modo:

A partir de tudo isso constrói-se uma ética iluminista, sempre


atualizável pelo processo comunicativo e voltada para todos. Mas, esse
legado iluminista na imprensa brasileira é parcial e insípido porque o
jornalista tem sua razão tutelada por um poder tão obscurantista como a
religião. As práticas autoritárias do jornalismo, expressas em conceitos
como ao objetividade e suas derivações, quer limitar o jornalista
enquanto sujeito que exerce um trabalho que envolve aprendizado,
reflexão e ação moral. É uma tentativa de alijá-lo de um projeto ético
de humanização de significados, levando-as à práxis reducionista, que
vê o mundo a partir do ângulo de procedimentos técnicos. É uma ética
cientifista que exclui o subjetivo, o emocional e as paixões eu que são
as responsáveis pela vivificação do mundo moral (SILVEIRA, 1992, p.
165-166).

As transgressões éticas no campo do jornalismo são muitas. Para Silveira


(1992), os procedimentos antiéticos mais comuns:

1) Assessoria Pirata – trata-se de um jornalista que atua na redação como um


assessor dos interesses de seu outro emprego. Por exemplo, trabalha numa
editora e escreve sobre livros no jornal.
2) Campanha – o veículo usa de seu poder de persuasão para convencer um
administrador público ou empresário a endossar um projeto comercial.
3) Chantagem – similar ao anterior, só que o argumento é um dossiê
negativo que possui contra o administrador ou empresário e que ameaça
publicar.
4) Emprego público – o jornalista completa o salário trabalhando num órgão
público, o que compromete sua independência.
5) Mordomias – concessão de viagens, almoços, ingresso
grátis etc.
6) Presentes – também chamados de “jabás”, vão de simples (geralmente
aceitos) até valiosos (que podem causar constrangimentos a quem recebe).
7) Plantação de notícias – o jornalista recebe da fonte para publicar
determinada matéria.
8) Publicidade oficial – aumenta na mesma proporção que a cobertura de
determinada administração pública (SILVEIRA, 1992, p. 94-95).

277
SILVEIRA (1992, p. 90) acredita que os jornalistas estão vinculados mais ao Ethos
que emerge da prática num ambiente organizacional do que ao deontológico. Para a autora,
o entendimento se faz durante o processo, pois os jornalistas acreditam que os juízos de
valor acontecem no exercício da profissão, na dimensão prática. E não nos bancos
escolares, na dimensão teórica.
Silveira (1992) fez uma compilação das falas sobre ética de jornalistas renomados,
tais como: Danton Jobim, Barbosa Lima Sobrinho, Carlos Lacerda, Cláudio Abramo e
Alberto Dines. Nessa amostra de jornalistas ícones, a autora quis evidenciar a falta de um
referencial comum do que é ética. Não houve o intuito de sugerir que esses profissionais
não soubessem o que é ética. Longe disso. O foco era o de dimensionar a disparidade, em
suas falas, do que é ética.
Danton Jobim (1992) considera que a ética no jornalismo é definida pela vinculação
do jornalista à verdade (sua patroa): “o que se pode pedir do jornalista é que não use de
má-fé com seu público, induzindo-o a erro em matéria de fato, seja pela falsificação
das notícias, seja pela sua omissão” (SILVEIRA, 1992, p. 90).
Barbosa Lima Sobrinho (1992) alerta para o conhecimento integral do papel social
do jornalista (sua finalidade maior). E ironiza quanto à regulação dos preceitos
deontológicos: “no dia em que o jornalista tiver a noção completa de sua responsabilidade e
de sua atuação social, provavelmente se sujeitará a normas escrupulosas de ética”
(Idem).
Carlos Lacerda (1992) ataca o sensacionalismo e reivindica o interesse público:
“aqui não é apenas a tecla do sensacionalismo que estamos ferindo, mas a da
irresponsabilidade na imprensa. Há jornalistas, que nunca conseguiram compreender a
responsabilidade de sua função – e cuidam que o jornal que têm nas mãos se fez par a
impingir ao público os seus amigos e denegrir, aos olhos desse mesmo público, por todos
os modos, em todos os terrenos, sob todas as formas, os seus desafetos” (Idem).
Cláudio Abramo (1992) evoca a cidadania, em vista da natureza pública e
finalidade social da atividade: “não existe uma ética específica do jornalista: sua ética é a
mesma do cidadão. Onde entra a ética? O que o jornalista não deve fazer que o cidadão
comum não deva fazer? O cidadão não pode trair a palavra dada, não pode abusar da
confiança do outro, não pode mentir” (Idem).

278
E Alberto Dines (1992) defende a preparação profissional, pois gera convicção e
ética no trabalho: “no jornalismo a ética faz parte da técnica. O chefe de Reportagem
exige que se ouçam os dois lados, mas só o treinamento na escola, sem as pressões
cotidianas, permite que a regra torne-se convicção. É conhecido o caso de um famoso
editor de revista que escrevia a declaração de alguém famoso e depois mandava o repórter
extrair do entrevistado aquela frase. Textos nota dez, ética nota zero” (Ibidem).
A disparidade de referenciais éticos pode afetar a noção de limite e aplicação dos
princípios deontológicos. Hernandes (2005) inclusive condiciona o Ethos do Jornalismo
como resultante da soma de concepções do Ethos do Jornalista. Para o autor, o ethos
de uma mídia aparece como conseqüência de uma intrincada relação com outros sujeitos
que também têm um ethos.136
Martino (2007, p. 3) postula que um princípio ético só tem valor quando tende a
um máximo de aplicações. Para o autor, um ethos orientado exclusivamente de acordo
com as circunstâncias imediatas é contraditório em si, exceto se este ethos for
compreendido como o único princípio universal, agir de acordo com os interesses do
momento. Em sua análise, é possível ser médico e militante de um partido sem que as
paixões políticas interfiram no momento de operar alguém. Da mesma maneira, o alfaiate
evangélico cose tão bem quanto seu correlato umbandista.
Em vista deste mosaico ético, Martino (2007, p. 10) declara que

Tanto o “peão de redação” quanto o “editor-todo-poderoso” são


elementos de um mesmo campo, regido pelos mesmos critérios,
diferenciando-se por uma apropriação momentânea desigual do capital
simbólico referente ao cargo e necessário para a formação de redes
de relações e capitalização de contatos da mesma maneira, mas em um
nível diferente de qualquer foca.
As condições do vínculo duplo no jornalismo armam-se em virtude de
sua própria existência. Não é à toa a preocupação constante com os
elementos éticos dentro do jornalismo: eles não existem como
categoria específica, mas reproduzem-se diretamente, quase como
uma cópia, dos parâmetros sociais (Idem).

Martino (2007) acredita que a conduta aprovada como ética em um


determinado cenário apresenta-se à apreensão sincrônica como a resultante de uma série

136
HERNANDES, Nilton. Jornais e Ethos: como a marca vira um “ser” que discursa.
EstudosLingüísticos XXXIV, p. 780-785, 2005. [ 780 / 785 ]

279
de interesses específicos voltados para um equilíbrio de interesses comuns. Para o autor, o
princípio da ação garante uma possível igualdade de condições nas práticas cotidianas,
pois a normatização de um preceito ético é a objetivação dessa igualdade, ressaltada a
cada momento pelas denúncias de quebra ou de interesse.
Martino (2007) considera que os valores éticos da empresa jornalística não são
arranhados pela sintonia com o mercado, mas os do jornalista sim. Para o autor, dessa
relação resulta a ética do jornalista como contraponto à instituição, quando evidenciado na
convicção de princípios deontológicos; do contrário, o jornalista tende a explicar a adesão
à ética da empresa jornalística utilizando-se de argumentos baseados na prática
profissional, contextualizada pela realidade de mercado.
Karam (2004. p. 129) trabalha a especificidade ética do jornalismo na
universalidade humana, além do que chama de retórica e cinismo ético em discursos
empresariais jornalísticos. O autor postula que a lógica ética no jornalismo opera da
seguinte forma: quando se afirma a validade universal de determinados valores, por uma
retórica convincente que não corresponde a uma prática social, surgem dois perigos
imediatos: o discurso tornar-se prática social dominante e reforçar os comportamentos
narcísicos e cínicos em geral e, ao mesmo tempo, cimentar a apropriação particular dos
valores consagrados como patrimônio da humanidade. Certamente, o discurso empresarial
jornalístico, ao tornar códigos “trapos de papel”, ao privatizar o uso da esfera pública
e de conceitos correspondentes, contribui par ao que o cinismo avance.

Conclusão
Desenvolvemos, neste artigo, breve discussão sobre princípios éticos da atividade,
em caráter compilativo. Tomamos a opção de abordar elementos enquadrando-
os no que chamamos de Ethos do Jornalista e Ethos do Jornalismo, apenas para
familiarizar o leitor com a distinção entre preceitos e práticas de decoro (dever ser),
inerentes ao campo do Jornalismo, e que muitas vezes são confundidas. O intuito do
artigo não era o de trabalhar com novas idéias, teorizar algo. Mas o de refletir sobre a
questão deontológica levando o leitor á assimilação deste contraste entre valores éticos do
profissional e das empresas jornalísticas.

280
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281
Curso de Comunicação da UFRR: as Dificuldades para a formação do
Jornalista137

Cyneida Menezes CORREIA138


Paulo Felipe MEDEIROS139
Thaila Alexandra ROSAS140

Resumo Este trabalho fez uma análise do Curso de Comunicação Social, dificuldades e
avanços, principalmente no que se refere à evasão de alunos. Pretende-se analisar a
formação do profissional do curso a partir da realidade encontrada no Estado, objetivando
analisar se as diretrizes constantes no Plano Político Pedagógico (PPP) da UFRR estão
sendo cumpridas e quais as dificuldades que o curso de Comunicação Social enfrenta para
a formação do jornalista, avaliando ainda os índices de desistência do curso. Como
objetivo específico analisa-se se o referido curso atende as necessidades dos egressos.
Utiliza-se como questionamento inicial quais os problemas que efetivamente contribuem
para a desistência dos alunos do curso de Comunicação Social. Conclui-se que apesar de
algumas diretrizes constantes no PPP do curso estarem sendo cumpridas, ainda se tem
muito a melhorar.

Palavras-chave: Curso de Comunicação Social; Evasão de Alunos; UFRR

Formalmente, o funcionamento dos cursos de Jornalismo no Brasil foi autorizado


em 1943, por decreto do presidente Getúlio Vargas. Apesar dos 64 anos de consolidação,
ainda não se atingiu a excelência da formação acadêmica, condição difícil de ser alcançada
pela maioria dos cursos de comunicação, em especial, nesse caso, pelo curso da
Universidade Federal de Roraima (UFRR).
Segundo o Plano Político Pedagógico (PPP-2006), baseado na Lei de Diretrizes e
Bases (LDB nº 9.394/96), o Curso de Comunicação Social da UFRR tem por missão
formar profissionais que atuem no mercado de trabalho providos de instrumentos teóricos e

137
Trabalho inscrito no III Encontro Regional de História da Mídia, GT de Jornalismo.
138
Acadêmica do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Roraima. Cyneida@gmail.com
139
Acadêmico do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Roraima.
pfgmedeiros@gmail.com
140
Acadêmica do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Roraima.
Thaila.alexandra@gmail.com

282
práticos que lhe deem subsídios para a compreensão, análise e interpretação dos fatos em
nível local, nacional e internacional, de forma ética e qualificada.
Nesse trabalho, tem-se como objetivo analisar a formação do profissional do Curso
a partir da realidade encontrada no estado, verificando se as diretrizes do PPP estão sendo
cumpridas e quais as dificuldades que o curso enfrenta para a formação do jornalista,
avaliando ainda os seus índices de desistência. Verifica-se como objetivo específico
verificar se o referido curso atende as necessidades das exigências legais, particularmente
referentes à legislação da profissão de jornalista.
Utiliza-se como questionamento inicial quais os problemas que efetivamente
contribuem para a desistência dos alunos do Curso de Comunicação, levantando como
hipótese se os estudantes abandonam a universidade devido à falta de condições
estruturais; se a falta de investimentos pode servir de obstáculo à boa formação do
profissional de jornalismo e se a formação do profissional do Curso a partir da realidade
encontrada no Estado influencia nos índices de abandono.
Por esse aspecto, justifica-se este estudo pela necessidade de se fazer uma análise
das dificuldades para a formação do jornalista e do que pode ser feito para que o ensino de
comunicação social melhore de qualidade na Universidade Federal de Roraima.A partir das
conclusões, serão delineados os aspectos concernentes ao tema, sempre tendo em conta a
relevância social do trabalho jornalístico. Pretende-se ainda utilizar este trabalho como
subsídio para o desenvolvimento de novos estudos e pesquisas nesta área de conhecimento

1. Roraima e o contexto de criação da UFRR


A UFRR foi criada pela Lei nº 7.364, de 12 de setembro de 1985, e instituída
através do Decreto nº 98.127, de 08 de setembro de 1989. Com a missão de oferecer à
Região Norte um ensino de qualidade que atenda as demandas de formação profissional de
nível superior, a UFRR está inserida na realidade local, dentro de uma visão global que
venha permitir atuar no moderno cenário competitivo no Brasil e no mundo.
Analisando a existência da Universidade Federal de Roraima no espaço geopolítico
regional, o Plano Político Pedagógico do Curso de Comunicação Social (PPP, 2006),
explica o importante papel que a formação de nível superior desenvolve em um Estado que
soma hoje 23 anos de criação. Roraima, antes Território, passa à condição de Estado da

283
Federação pela Constituição de 1988, herdando carências e necessidades de
desenvolvimento, onde a presença da Universidade constitui um fator de peso para o
debate e o atendimento dos interesses da região.
O jornal há mais tempo em circulação é de 1983 (Folha de Boa Vista); a primeira
emissora de TV chegou em 1970; e a emissora de rádio pioneira é a Difusora de Roraima
(AM), que transmite desde 1957.
A UFRR e o curso de Comunicação Social nascem, portanto, com os traços e a
fisionomia de Roraima - o Estado amazônico no extremo Norte do Brasil, tornando
impossível desconsiderar a necessidade de entrelaçamento entre os elementos formadores
da região (a variedade de ecossistemas, a forte presença da população indígena e suas
etnias, a rede hidrográfica, a mineração, as fronteiras, as altas taxas migratórias, dentre
outros) e as ações no campo científico, tecnológico e da Comunicação.

1.1 A implantação da Universidade Federal de Roraima


Almeida (2007) explica que a UFRR foi implantada em 1989, quatro anos após ter
sido autorizada pela Lei nº 7.364/85, sendo a primeira Instituição Federal de Ensino
Superior a instalar-se em Roraima e considerada uma das mais novas do País com apenas
22 anos de existência.
A Instituição conta com três campi: Paricarana, Cauamé e Murupu. Possui 43
cursos de graduação nas mais diversas áreas do conhecimento, além do Colégio de
Aplicação (CAp) e a Escola Agrotécnica (EAgro). Na pós-graduação, oferece 10 cursos de
mestrado: Agronomia, Física, Química, Recursos Naturais, Letras, Geologia,
Desenvolvimento Regional da Amazônia, Ciências da Saúde, Sociedade e Fronteiras,
Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional, e um Doutorado pela Rede Bio
Norte.
Tem atualmente núcleos e unidades de pesquisa, como: Núcleo de Práticas Jurídicas
(NPJ) Núcleo Amazônico de Pesquisas em Relações Internacionais (NAPRI), Núcleo de
Recursos Naturais (NUREN); Biofábrica; Núcleo Histórico Socioambiental (NUHSA);
Núcleo de Estudos Comparados da Amazônia e do Caribe (NECAR); Núcleo de Estudos
Semióticos da Amazônia (NUPS); Núcleo de Estudos de Línguas Estrangeiras (NUCELE);
Núcleo de Pesquisas Energéticas (NUPENERG), Núcleo de Pesquisas Eleitorais e Políticas

284
da Amazônia (NUPEPA), Núcleo de Estudos do Empreendedorismo, Inovação e
Desenvolvimento Sustentável (NEEDS) e Núcleo Observa RR.
Conta ainda com o Instituto Insikiran de Formação Indígena, responsável por um
dos projetos mais inovadores do País: a formação intercultural para professores indígenas.
Para promover ações afirmativas e discussões sobre inclusão, foi criado o Núcleo Construir
de Acessibilidade.A UFRR oferece ainda programas de bolsas nas áreas de ensino
(Monitoria, Mobilidade Acadêmica e Educação Tutorial - PET), de pesquisa (PIBIC,
PIBIC Jr., PICI) e extensão (Conexões de Saberes,trabalho, alimentação, transporte
urbano). Segundo o mesmo Almeida:

Os programas e projetos de extensão da UFRR estão presentes em 100%


dos municípios de Roraima e seus professores tem mais de 1.500
publicações em jornais e revistas especializados, tanto nacionais quanto
internacionais. As duas bibliotecas (Paricarana e Cauamé), somam mais
de 45 mil livros, além da biblioteca virtual com 30 bases de dados
nacionais e estrangeiros. Implantou a Editora e livraria da UFRR, que em
poucos anos de existência já publicou e comercializou mais de 40 obras
de autores locais. Atualmente a UFRR conta com 456 professores e 284
técnicos servidores.(ALMEIDA, 2007)

1.2 A Implantação do Curso de Comunicação Social


Numa breve caracterização do curso de Comunicação Social da Universidade
Federal de Roraima (UFRR), destaca-se como marco referencial o cruzamento de
jovialidades entre o curso, a instituição de ensino e o Estado que o abriga. O Curso de
Bacharelado em Comunicação Social foi criado pela resolução 025/91 - CUNI, em 26 de
novembro de 91 e tem prazo mínimo de 03 anos e máximo de 06 anos para ser concluído.
A oferta é de 35 vagas por ano para seleção no vestibular. Atualmente, o curso tem 31
alunos matriculados no semestre 2014.1.
Nas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Jornalismo escritas pelo
MEC (2009), afirma-se que é impossível desprezar a força dos meios de comunicação na
evolução humana, onde a mídia ocupa lugar central na construção da sociabilidade.

E sendo a universidade o espaço destinado ao conhecimento, ao


aperfeiçoamento democrático e a construção da cidadania, cabe ao curso
de Comunicação Social, dentro deste contexto, a tarefa de auxiliar no
desenvolvimento da região, entendendo o jornalismo como um conjunto

285
de técnicas especiais e como um campo estratégico de produção de
sentidos(MEC, 2009).

Almeida (2007) afirma que o objetivo geral do Curso é formar bacharéis para
atuação no ensino fundamental, médio e superior, bem como produzir profissionais que
possam atuar em suas áreas de conhecimento com domínio de técnicas básicas. O currículo
de ensino de graduação está assentado no tripé ensino, pesquisa e extensão, enquanto
principio pedagógico, para construir novos processos de relação como o conhecimento.
A coordenação funciona a partir do trabalho de dois funcionários, o Coordenador e
a Secretária, que dividem os horários de atuação. Almeida (2007) especifica ainda que o
sistema tecnológico utilizado pelo curso de Comunicação Social é retrógado e não é
totalmente adequado para o curso se desenvolver com decência e agilidade na tecnologia
avançada de hoje. O autor esclarece que o curso tem apenas um núcleo de pesquisa:
Núcleo de Pesquisas Semióticas da Amazônia, criado durante alterações no Projeto
Político Pedagógico (dezembro/2003), já implantado e responsável por parte significativa
dos programas de extensão desenvolvidos no âmbito da Universidade.
A situação descrita pelo autor foi confirmada pelos autores, que a partir de
informações fornecidas na coordenação do Curso de Comunicação descobriram que o
Curso conta com cinco laboratórios: Um de Planejamento Gráfico com 40 computadores ,
sendo que apenas 15 estão sendo usados por falta de cadeiras adequadas aos alunos; um de
Webjornalismo, com 36 computadores sendo 12 disponíveis aos estudantes; um de Rádio
Jornalismo, utilizado como sala de aula, por não ter equipamento necessário nem técnicos
para operacionalizarem as máquinas; Os laboratórios de Radiojornalismo II e
Telejornalismo foram construídos pela administração da UFRR mas não foram repassados
ao Curso de Comunicação.
Almeida (2007) explica ainda que o primeiro Projeto Político-Pedagógico (PPP) do
curso de Comunicação Social (habilitação Jornalismo) da Universidade Federal de
Roraima é de 1991, e somente em 2003 uma comissão foi nomeada para reformular o PPP,
que foi implantado em 2006 e é válido até hoje. Há um novo PPP, produzido no ano
passado (2013), que não foi implantado em virtude de trâmites burocráticos e ainda não
tem data para implantação. Este projeto entrou em vigor a partir do primeiro semestre de
2004 e sua introdução define como missão:

286
Formar profissionais que atuem no mercado de trabalho providos de
instrumentos teóricos e práticos que lhe deem subsídios para
compreensão, análise e interpretação dos fatos em nível local, nacional e
internacional; de forma ética e qualificada. (2003, p. 9)

Na organização do novo Projeto Pedagógico (PPP, 2013)o Curso atenderá a cinco


eixos de formação, distribuídos em 2.580 horas de aulas presenciais; 160 horas de
atividades complementares; 120 horas de Trabalho de Conclusão de Curso e 200 horas de
Estágio Supervisionado. O curso terá duração mínima de oito e máxima de 12 semestres.
Mas a principal mudança seria a implantação do Curso noturno, e para que isso
ocorra sem ter de reduzir a carga horária de pelo menos duas disciplinas, a oferta de
disciplinas deverá ser estendida para as quartas-feiras e sábados. Esse novo PPP deve ser
implantado até 2015.
Ao longo de 20 anos de funcionamento o curso apresenta como principais ações:A
semana dos alunos de comunicação, projetos interdisciplinares com temáticas
sociais,jornal-laboratório, apoio à participação de docentes e discentes em eventos
científicos,programas radiofônicos semanais, entre outros.
Quanto à infraestrutura, o curso dispõe de um laboratório de redação e editoração,
com computadores conectados em rede; um laboratório de radiojornalismo em desuso
atualmente; laboratório de fotografia analógica (máquinas analógicas e máquinas digitais);
e um Núcleo de Rádio e TV Universitária (afiliada TVE), também pouco utilizado pelos
acadêmicos, inclusive a emissora de TV está vinculada diretamente a reitoria e não ao
núcleo de comunicação e a emissora de rádio está lacrada pelo Departamento Nacional de
Telecomunicações (Dentel), desde 1997.
O acervo bibliográfico é composto de pouco mais de 650 livros, 8 folhetos, 14
referencias,3 teses e dissertações, 1 DVD, e 37 periódicos impressos e 346 eletrônicos. “O
desafio mais urgente é destinar ações que assegurem melhorias quantitativas e qualitativas,
com a aquisição e atualização do acervo bibliográfico” (PPP, 2006, p. 64).

1.3 Alunos e Mercado de Trabalho - mudanças na caminhada


Segundo informações da Coordenação do Curso de Comunicação (entrevista com o
atual coordenador Vilso Santi), com 31 alunos regularmente matriculados no semestre

287
141
2014.1 (em desenvolvimento) , o Curso de Comunicação Social da UFRR procura
conviver com as marcas da sua gênese, pontuadas, principalmente, pelas dificuldades com
que foram dados os primeiros passos para a sua implantação142.
Segundo a pesquisa acadêmica mais recente realizada sobre o assunto 143, o trabalho
de levantamento histórico do Curso confronta-se com a ausência de dados e arquivos
organizados sobre o tema, o que pode ser mais um elemento de ressonância das
dificuldades iniciais. O levantamento atual do número de egressos do curso 144 leva a
pensar, dentre outras questões, o impacto e as possíveis alterações no mercado de trabalho.
Observa-se que aos poucos as redações dos diferentes meios de comunicação
passam a considerar como um dos critérios para a contratação dos profissionais de
imprensa, a formação universitária. Alterações lentas, mas visíveis. Uma espécie de
reconhecimento gradativo da competência técnica dos egressos e a percepção democrática
da necessidade de um espaço livre para produção de informação.
Na área de Comunicação, Roraima dispõe, na atualidade, de oito canais de
televisão, sete emissoras de rádio – sendo três AM e quatro FM, além de uma rádio
comunitária e dois jornais impressos. Abre-se paralelamente a esse cenário, o mercado das
assessorias de imprensa, viabilizado, principalmente, pelas instituições públicas nas esferas
federal, estadual e municipal.
E não é só o mercado que tende a mudar. As alterações de perfis são sentidas,
sobremaneira, na composição do corpo discente do curso de Comunicação Social. Dados
comparativos entre os estudantes da primeira turma (1991.1) e os da turma do segundo
semestre de 2007 (perfil socioeconômico realizado pela CPV no vestibular 2007),
demonstram, dentre outros aspectos, mudanças que evidenciam o ingresso de alunos cada
vez mais jovens (75% deles têm até 22 anos); a predominância de alunos solteiros; e a
dependência do apoio financeiro dos pais.
No início da década de 90, a implantação da UFRR possibilitou o ingresso de centenas de
pessoas que há muito tempo haviam concluído o segundo grau e, por falta de oportunidade, não

141
Fonte: Departamento de Registro Acadêmico/ DERCA-UFRR;
142
Até 1992, o curso de Comunicação Social tinha um único professor para ministrar e coordenar as
atividades administrativas e didáticas, a professora Maria Goretti Leite de Lima.
143
Objeto de monografia de Selmar Levino, intitulada O curso de Comunicação Social: uma fisionomia que
se revela lentamente, UFRR/DCS, 2002 : 51.
144
Desde a primeira turma em 1994, o curso de Comunicação Social da UFRR graduou 303 profissionais na
área de Jornalismo.

288
tinham o curso superior. ‘Esse fato ajuda a explicar porque os alunos da primeira turma do curso de
Comunicação Social tinham mais idade, predominavam os casados e levavam mais tempo para ter
acesso ao ensino superior’ (LEVINO, 2002: 92)
Segundo a pesquisa, feita em 2001, 77.8% dos que ingressam no curso não exercem
nenhum tipo de trabalho ou estágio na área de comunicação. Contudo, 61.1% dos alunos
da turma mais recente pesquisada afirmam ter grande interesse em atuar na área de
Jornalismo e desejam adquirir uma boa formação teórico-prática.

1.4 O Corpo Docente e a síntese das últimas conquistas


O DERCA/UFRR informou ainda que quanto aos recursos humanos disponíveis
para o atendimento da atividade docente, o Curso tem hoje um quadro formado por
quatorze professores efetivos, em regime de dedicação exclusiva, e um professor substituto
com contrato de 40 horas. O Projeto Político Pedagógico (2006) que busca a melhoria e o
desenvolvimento do curso de Comunicação Social, afirma em seu texto que o Curso deve
promover a qualidade no ensino de graduação, o que está justamente vinculado à
capacitação dos professores.
O plano identifica prioridades para a titulação dos professores desde 2005, numa
perspectiva de que - pela formação de uma massa crítica de excelência - o Curso possa
consequentemente dar uma melhor resposta à sociedade, desempenhando em plenitude o
seu papel formativo e crítico. O Curso de Comunicação Social da UFRR possui sete
professores com doutorado, três finalizando o doutoramento em 2015, três mestres e um
especialista. (dados de 2014).
Quanto ao corpo docente, a Tabela 1 mostra a sua composição, titulação,situação
funcional e regime de trabalho. Vale observar que todos os professores efetivos têm regime
de trabalho de 40 horas com dedicação exclusiva e os professores substitutos tem regime
de 20 horas e/ou 40 horas.

TABELA 1: CORPO DOCENTE: TITULAÇÃO, SITUAÇÃO.


Titulação Situação
Especialistas Mestres Doutorandos Doutores Efetivo Substituto
2 3 3 7 14 1
Fonte: Departamento de Comunicação Social – UFRR (2014)

289
2. Procedimentos metodológicos

Para analisar de forma correta o tema, avaliou-se material didático do Curso como o
PPP (Plano Político Pedagógico) e buscou-se informações no núcleo responsável,
utilizando para isso uma pesquisa do tipo quantitativa, avaliando a quantidade de alunos
que abandonam o curso e a quantidade de alunos que se formam em comunicação neste
período estudado. A parte qualitativa foi feita com entrevistas com alunos, ex-alunos e
professores do Curso além de levantamento de dados. A pesquisa de informações do
referido curso foi feita na única fonte possível,qual seja, o arquivo do Departamento de
Comunicação Social. O Curso não dispõe de uma biblioteca específica, na instituição há
apenas uma Biblioteca Central que atende todos os cursos da UFRR e que não recebe este
tipo de documento.
O que parecia, à primeira vista, viável e sem muitos obstáculos, acessar
informações sobre o curso de jornalismo em Roraima, revelou-se tarefa nada fácil, devido
ao fato de tanto a Coordenação de Comunicação quanto o DERCA não terem informações
completas e organizadas sobre o referido curso superior. Assim, mapear e reunir todo o
conhecimento de forma completa constituiu-se uma missão impossível, apesar do Curso já
funcionar desde 1991. Porém, a falta de uma pesquisa completa sobre o abandono do curso
nos impossibilitou analisar a totalidade de anos como previsto inicialmente. Apesar disso,
analisou-se os dados do curso até 2014, utilizando-se dados disponíveis no registro do
Departamento de Comunicação Social da IFES, apenas parte dos dados dos egressos e
concluintes.
Apesar de toda a problemática envolvendo este tipo de estudo, assumiu-se como
parte da metodologia de pesquisa que todas as informações encontradas fariam parte do
levantamento. Para atingir o objetivo de desenvolver a parte teórica que subsidiou o
trabalho, um esforço significativo foi empregado no levantamento bibliográfico, pois “toda
pesquisa deve basear-se em uma teoria” (MARCONI e LAKATOS, 2002, p. 17).

290
3. Análise dos dados

3.1 Entrevistas com professores sobre a situação do curso de Comunicação


Nessa pesquisa feita em 2011 com dados atualizados em 2014, conversou-se com
vários professores a respeito da situação do Curso de Comunicação, abordando questões
como evasão escolar, estrutura do curso, formação e atuação de discentes. Alguns trechos
foram separados e constam como importantes para o desenvolvimento e entendimento
desse artigo.
O atual coordenador do Curso de Comunicação Social, professor Vilso Santi,
explicou que a evasão de alunos é muito alta se comparada a outros lugares onde trabalhou.

Na minha primeira turma, um terço dos alunos evadiu. Acredito que entre
as causas, o perfil do aluno que ingressa e o fato dele fazer vestibular em
novembro e entrar em agosto do ano seguinte, os problemas estruturais e
questões relacionadas ao quadro de pessoal. Precisamos convencer o
aluno a passar mais tempo dentro da universidade, precisamos de
laboratórios abertos em tempo integral e falta um projeto de Curso
comum pelo qual valha a pena lutar e isso é um complicador imenso. Mas
vamos tentar melhorar nossa estruturação e a partir daí termos melhores
condições de manter o estudante na Instituição (SANTI, 2014)

A ex-coordenadora pró-tempore do curso de comunicação social em 2011,


professora Sandra Gomes, quando questionada sobre o que leva o aluno a desistir do curso,
afirmou que não existem fatores objetivos e o Curso vem crescendo nas últimas duas
décadas.

Nesse decorrer do curso nós já tivemos turmas aqui, pessoas bem mais
velhas que já trabalhavam no mercado e vinham apenas fechar sua
formação, sua qualificação na academia, que é o que se deseja de todo
jornalista, essa formação acadêmica, que amplia o seu conhecimento
acerca de todas as ciências que são necessárias para um bom
desenvolvimento do trabalho do jornalista, do comunicador. Tivemos
turmas também em que os alunos haviam passados em concursos e então
optavam em fazer o curso apenas como uma progressão funcional e não
tinham como meta desenvolver as atividades jornalísticas. E ultimamente
temos visto um diferencial, são alunos mais jovens e que optam
realmente pela carreira de jornalista. Então temos passado por toda essa
mudança (GOMES, 2011).

291
A ex-coordenadora esclareceu que, em relação à desistência dos alunos do curso,
acredita que ela ocorra principalmente por motivos como a falta de vocação, o ritmo das
disciplinas, sobretudo em relação à parte prática, pois o curso de comunicação cobra
dedicação quase em tempo integral do aluno e tem um tratamento diferenciado para as
atividades práticas. Outro ponto destacado pela Coordenação foi em relação à questão do
funcionamento nos dois horários, pois para alguns alunos é difícil conciliar as atividades
acadêmicas com os exercícios profissionais, o que deve ser resolvido após a aprovação do
novo Plano Pedagógico, que tornará o Curso noturno.

A instituição tem uma política de priorizar a qualificação do professor,


então nessa priorizar a qualificação do professor, o curso de comunicação
busca não deixar o aluno sem aquela disciplina. Então sempre tem um
professor que vai ministrar a disciplina, a gente procura não deixar
nenhuma disciplina sem ser ministrada naquele semestre, e com isso os
professores substitutos tem um papel, tem desempenhado um papel
fundamental, mesmo porque os professores substitutos veem do mercado.
Eles hoje são nosso ponto de ligação maior com o mercado de trabalho.
Essa política no curso também veem mudando com essa política de
qualificação do quadro docente, que veem se especializando, cada
professor veem se especializando num área e traz isso pra sala de aula,
consequentemente um olhar sobre cada área do jornalismo, tem que ser
aprofundados porque tem crescido. O ponto agora que vai ser mais
enfatizado é a pesquisa científica, é esse olhar mais aprofundado e com
maior porte teórico, (GOMES, 2011).

O Professor Maurício Zouein, Coordenador do Núcleo de Semiótica foi um dos que


se formaram pelo Curso de Comunicação da UFRR em 2001 e no mesmo ano ingressou na
instituição na condição de professor substituto. Quando questionado sobre quais as
dificuldades do aluno se manter interessado no Curso, o professor respondeu que acredita
no aperfeiçoamento da técnica e no interesse pela própria profissão, à medida que o aluno
conhece o jornalismo mais a fundo.

É difícil para o aluno, porque aluno não está no mercado e tem muita
gente que quando entra no mercado, já entra por estar “fechado”. A
universidade tem que dar ferramentas, mas eu acho que o interesse do
aluno não deve ser na universidade e sim na profissão. Eu não conheço os
alunos que desistem, eu só dou aula para aqueles que persistem. Para
mim o investimento tem que ser humano e monetário. Humano porque
nós temos que ter maior apoio no sentido de nos qualificarmos melhor
(ZOUEIN, 2011).

292
A Professora Maria Goretti Leite de Lima, em entrevista concedida em Outubro de
2011 explicou que ela começou a trabalhar quando o Curso de comunicação social iniciou
em Roraima, ajudando a criação do primeiro Curso, juntamente com outros professores de
diversas áreas, como Economia, Filosofia, História, Letras. Ela conta que o Curso de
Comunicação começou com muitas dificuldades e que hoje ela tem preocupação com a
evasão escolar e com os motivos que levam o aluno a desistir do curso.

O primeiro ponto que eu acho que esta fazendo o aluno a desistir é a falta
de esclarecimento com relação à exigência o diploma de jornalista. Era
necessário fazer uma pesquisa, pegar todos esses alunos que desistiram
visitá-los e saber com mais profundidade por que esse aluno desistiu. Eu
digo aos calouros que não desista, pois o seu sonho precisa ser
completado. Eu tinha um sonho, eu tinha um sonho muito grande, de
fazer minha graduação, de fazer meu mestrado, de fazer meu doutorado,
eu tive muita luta, eu tive muita batalha, eu fui muito mal entendida e mal
compreendida, mas eu não desisti, eu fui até o fim (LIMA, 2011).

Para o Professor Avery Veríssimo, que é docente efetivo do Curso de Comunicação,


as dificuldades para manter o aluno interessado no Curso são diversas. Segundo o docente,
faltam investimentos na graduação:

O curso ser diurno, ter disciplinas (modelo curricular) que não condizem
com o jornalismo, a queda do diploma e o mercado que aproveita apenas
estagiários e poucos graduados, ganhando salários baixos, são algumas
das causas que podemos citar para a evasão dos estudantes do curso. Mas
a infraestrutura melhorou. No entanto, ainda não temos internet confiável
e acesso às redes sociais. Estamos tentando melhorar (VERÍSSIMO,
2014)

Após solicitação do DERCA\UFRR (Departamento de Registros Acadêmicos),


recebeu-se várias informações pertinentes aos alunos do Curso de Comunicação. No
primeiro momento em que a pesquisa foi feita em 2011, todos os dados diziam respeito
apenas a partir do ano de 2004, quando os números foram digitalizados, o que inviabilizou
a pesquisa completa sobre os 20 anos do Curso como um todo. Descobriu-se que nem o
DERCA, nem o departamento de Comunicação da UFRR tinham dados referentes aos anos
anteriores do Curso de Comunicação de forma a serem pesquisados devido à troca de
sistema de informática. Na atualização dos dados, feita em 2014, este problema foi
contornado de forma parcial e conseguiu-se todas as informações necessárias mais atuais

293
para o andamento da pesquisa.
Constatou que desde a criação até 2014, 843 alunos entraram no Curso de
Comunicação Social, dos quais 303 se formaram e 279 ainda estão cursando. Observou-se
ainda que após a queda da exigência do diploma em 2009, o numero de concluintes caiu de
forma impressionante retomando seu ritmo a partir de 2012. Segundo o DERCA/UFRR, os
alunos que entraram e não abandonaram o curso e nem se formaram são exatamente os
alunos com situação regular no curso.

TABELA 2 - RELAÇÃO DOS FORMADOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL


ANO 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
FORMADOS 25 17 20 16 5 27 1 7 10 12
Fonte: Departamento de Registro Acadêmico- DERCA/ UFRR (2014)

Outro dado interessante refere-se à evasão de alunos. Apesar de notadamente se


observar que pelo menos metade dos estudantes do Curso de Comunicação desistem antes
do término da faculdade, observa-se que oficialmente o índice de evasão é muito pequeno.
Isso ocorre pelo fato de alunos desistirem, mas nunca oficializarem sua situação junto ao
DERCA/UFRR. Portanto, oficialmente, apenas 39 estudantes se evadiram do curso de
Comunicação. Segundo tabela fornecida pela coordenação do Curso de Comunicação
Social, feita em 2013, houve 39 transferências, 217 abandonos, 16 cancelamentos, 3 saídas
a pedido e 6 mudanças de curso, um total de 281 evadidos. Um numero maior que o total
fornecido pelo DERCA de evadidos do Curso.

TABELA 3 - DEMONSTRATIVO DE EVASÃO NO CURSO


ANO 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
EVADIDOS 13 11 10 5 0 0 0 0 0 1
Fonte: Departamento de Registro Acadêmico- DERCA/ UFRR (2014)

Observa-se na próxima tabela que o índice de evasão era bastante alto até o ano de
2007, mas, repentinamente, nos últimos quatro anos, os alunos pararam de se evadir
oficialmente do Curso de Comunicação Social. O DERCA/UFRR não tem informações
sobre esses estudantes, já que oficialmente eles continuam matriculados.

294
TABELA 4 - COMPARATIVO ENTRE FORMAÇÃO E EVASÃO

ANO 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
FORMADOS/
55% 70% 50% 30% 0 0 0 0 0 1
EVADIDOS
Fonte: Departamento de Registro Acadêmico- DERCA/ UFRR (outubro / 2011)

Conclusão
Este trabalho fez uma análise do curso de Comunicação Social, dificuldades e
avanços, principalmente no que diz respeito à evasão de alunos. Observou-se que, apesar
dos avanços estruturais dos últimos três anos,o Curso de Comunicação Social da
Universidade Federal de Roraima ainda deixa muito a desejar, devido à falta de condições
estruturais da UFRR. Os estudantes, de modo geral, não têm muitas vezes a oportunidade
do envolvimento em um processo de aperfeiçoamento e adequação a rotinas de produção
vinculadas à prática do Jornalismo, devido à falta de condições estruturais na instituição de
ensino superior.
Isso deve ser modificado com a aprovação do novo PPP (2013) que segue as
orientação das diretrizes curriculares nacionais do curso de jornalismo, em seu artigo 12,
que afirma: “O Estágio Curricular Supervisionado é componente obrigatório do currículo,
tendo como objetivo consolidar práticas de desempenho profissional”.
Segundo o novo PPP, as atividades de estágio supervisionado são obrigatórias e
realizadas nos “períodos finais do Curso”. O curso de jornalismo da Universidade Federal
de Roraima determina que este seja desenvolvido no 6º ou 7º semestres, proporcionado ao
aluno um maior entrosamento com as práticas apreendidas nas disciplinas e laboratórios do
curso, de modo que não prejudique o desenvolvimento do Trabalho de Conclusão de
Curso.
São consideradas modalidades de estágio, atividades exercidas em
”instituições públicas, privadas ou de terceiro setor, ou na própria
instituição de ensino, em veículos autônomos ou assessorias
profissionais”, e devem ser acompanhadas por um jornalista profissional.
Estas atividades devem ser rigorosamente compatíveis com as
habilidades práticas e profissionais do campo jornalístico de redação,
planejamento, editoração e assessoria. O Estágio Supervisionado deve ser
realizado num total de 200 horas, desconsiderando atividades
complementares, de disciplinas e laboratórios do curso, e legitimando

295
práticas de acompanhamento de cobertura, edição, revisão, planejamento
e assessoria jornalística. O estagiário deve cumprir a carga horária total
em uma única empresa ou instituição (PPP, 2013, p. 13).

No caso da Universidade Federal de Roraima, faltam laboratórios específicos de


rádio e TV, uma sede própria para o curso, convênios com empresas para estágios dos
estudantes e profissionais qualificados para o ensino superior. Conclui-se que apesar das
Diretrizes constantes no Plano Político Pedagógico do Curso estarem sendo em grande
parte cumpridas, ainda se tem muito a melhorar. Em relação à analise dos índices de
desistência do Curso, não foi possível fazer um trabalho como se desejava, visto que não
existem informações pertinentes a todo o período de 20 anos do curso e os dados existentes
não refletem a realidade que se observa em sala de aula.
Dos 843 alunos que entraram no Curso desde a criação, 303 se formaram e 279
ainda estão cursando, ou seja, 261 alunos desistiram , abandonaram, foram transferidos,
mudaram de curso, evadiram-se de uma forma ou de outra do curso. Esse índice se
aproxima de 37%, um número considerado alto, destacando como razões a falta de
investimentos, o curso ser diurno, ter modelo curricular não condizente com o jornalismo,
a queda do diploma, o mercado de trabalho, a qualificação do quadro docente e o perfil do
aluno que ingressa que muitas vezes não ter certeza do que quer. Pretende-se ainda utilizar
este trabalho como subsídio para o desenvolvimento de novos estudos e pesquisas nesta
área de conhecimento.

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Científica em Jornalismo na UFRR (1991-2006). Trabalho apresentado ao GT de
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Cyneida Correia. UFRR, Boa Vista, 2011.

297
298
Theodor Kock-Grünberg e George Huebner na Amazônia: pioneiros no
fotojornalismoe a semiótica enquanto método de análise145

Berto Batalha Machado CARVALHO146


Maurício Elias ZOUEIN147

Resumo: Este artigo é resultado de pesquisas na Universidade Federal de Roraima junto


ao Núcleo de Pesquisa Semiótica da Amazônia, onde buscamos demonstrar a relação do
pesquisador Theodor Koch-Grünberg com o fotógrafo George Huebner e os fatos que
levaram a inserção de dez fotografias no jornal alemão Berliner Illustrirte Zeitung. Sendo
esse acontecimento marcante para a história do fotojornalismo na Amazônia. Tanto por
divulgar a cultura amazônica na Europa como sendo o início da utilização da fotografia
produzida em Roraima no jornalismo internacional. Durante o estudo destas imagens, que
são símbolos representativos, foi utilizada a semiótica peirciana como método, trazendo
uma abordagem sobre a história deste estudo e sua contribuição para a análisedo
conhecimento imagético.

Palavras-chave: Amazônia, Fotojornalismo, Fotografia alemã, Semiótica, Roraima

História da Semiótica: o estudo dos signos


A busca para a compreensão da mente humana requer analises.O estudo das
linguagens do cotidiano está relacionado à semiótica, que se trata da ciência que estuda
signos. Estes símbolos estão presentes no pensamento de cada ser humano, durante o ciclo
vital.Como representações observadas, sentidas e caracterizadas por cada indivíduo.
Esta teoria, denominando-a assim, existe há aproximadamente dois mil e
quinhentos anos - desde a Grécia e Roma Antiga. Sua origem vem do termo grego-romano
semeion (signo).Platão148foi pioneiro na busca para entendimento do signo. Em sua
pesquisa, reflete a respeito da interpretação das coisas de um ponto de vista de cada

145
GT3 – Audiovisual
146
Graduando do curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo da Universidade Federal de
Roraima (UFRR). Aluno pesquisador do Núcleo de Pesquisa Semiótica na Amazônia (NUPS/UFRR). E-
mail: bertobatalha@gmail.com
147
Orientador do trabalho. Professor efetivo do Curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo
da Universidade Federal de Roraima (UFRR). Coordenador no Núcleo de Pesquisa Semiótica da Amazônia
(NUPS/UFRR). Líder do Grupo de Pesquisa em Linguagem, Cultura e Tecnologia (LCT/NUPS/UFRR). E-
mail: mauriciozouein@gmail.com
148
Platão nasceu em Atenas (427 – 347 a.C.). Foi um filósofo e matemático do período clássico da Grécia
Antiga, autor de diversos diálogos filosóficos e fundador da Academia em Atenas, a primeira instituição de
educação superior do mundo ocidental

299
interpretador, assim, ele encontra ou cria os processos significativos, tratando alguns
aspectos dos signos, dividindo-os num modelo triádico:

Platão tratou vários aspectos da teoria dos signos; definiu signo verbal,
significação e contribuiu com ideias críticas para a teoria da escritura.
O modelo platônico do signo tem uma estrutura triádica, na qual é
possível distinguir os três componentes do signo:
 o nome (ónoma, nómos)
 a noção ou ideia (eidos, lógos, dianóema)
 a coisa (prágma, ousía) à qual o signo se refere (NOTH, 2003).

Platão buscou por meio de investigações saber a relação entre os três componentes
do signo: nome, ideias e as coisas. Diante de tal pesquisa, sua duvida baseava-seno
processo,se era natural ou dependia de questões sociais. Assim, definiu

1) signos verbais, naturais, assim como convencionais são só


representações incompletas da verdadeira natureza das coisas;
2) o estudo das palavras não revela nada sobre a verdadeira natureza das
coisas porque a esfera das ideias é independente das representações na
forma de palavras; e
3) cognições concebidas por meio de signos são apreensões indiretas e,
por este motivo, inferiores à cognições diretas (NOTH, 2003).

Por este caminho, podemos ter noção do que realmente signo é. Como definiu
Platão, no primeiro contato, os signos são representações de algo. No segundo momento é
a palavra de cada indivíduo, o que essa representação significa para cada um, não para
todos, por isso ele afirma que “não revela nada sobre a verdadeira natureza das coisas”. No
terceiro momento, mostra as ideias como interpretações do indivíduo, por isso, menos
importantes do que realmente é.
Seguindo a mesma linha de pesquisa, o modelo de signo de Aristóteles149 é triádico,
assim como o de Platão, porém, traça uma diferenciação entre o que chama de signo
incerto e signo certo, onde um resulta no outro, como uma ideia ou conhecimento que a
partir daí origina uma conclusão.

Em geral, definiu o signo como uma relação de implicação: se (q) implica

149
Aristóteles (384-322 a.C.). Foi um filósofogrego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande. Seus
escritos abrangem diversos assuntos, como a física, a metafísica, as leis da poesia e do drama, a música, a
lógica, a retórica, o governo, a ética, a biologia e a zoologia.

300
em (p), (q) atua como signo de (p). Na Primeira Analítica (II, 70a, 7-9),
explica tal definição:
Pois aquilo que procede ou segue o ser ou o desenvolvimento duma coisa
é um signo do ser ou do desenvolvimento dessa coisa.
Além disso, Aristóteles descreveu o signo como uma premissa que
conduz a uma conclusão:
O signo [...] quer ser uma proposição bem certa ou necessária ou
também corresponde a uma opinião(NOTH, 2003).

Os Estóicos150 possuíam como base de sua teoria um modelo triádico do signo,


assim como Aristóteles e Platão. Eles dividiram o signo em três partes, criando outras
noções para a teoria, colaborando epistemologicamente para seu desenvolvimento.
Segundo Noth, assim o símbolo repartido:

1) semaínon, que é o significante, a entidade percebida como signo;


2) semainómenon, ou lékton, que corresponde a significação ou
significado; e
3) tygchánon, o evento ou objeto a qual o signo se refere (NOTH, 2003).

Para eles, semaínon (signo) e tygchánon (objeto) são conceitos materiais, que
vemos e podemos tocar ou nos aproximar. Já o semainómenon (significado) é uma ideia,
uma conclusão daquilo que se observa, que se analisa, algo não-corporal (imaterial).
Por um caminho diferente, mas com características parecidas, os Epicuristas151
procuravam desenvolver um modelo diádico do signo, indo contra o modelo
triádicosignico dos Estóicos, para tal teoria, eles sugeriram o estudo do signo haver apenas
dois elementos: o semaínon(significante) e o tygchánon (objeto).
Desta maneira, os epicuristas não acreditavam na necessidade de uma carga de
experiências já existentes na mente humana para se chegar há uma conclusão, pensavam
que o ser age e obtém conhecimento, sem relacionar o conhecimento anterior deste para
com o objeto.

Considerando esse aspecto do processo semiótico, o modelo estóico do


signo contém, em verdade, uma terceira dimensão semelhante aos

150
Os estoicos(300 a.C. – 200 d.C.),preocupavam-se com a relação activa entre o determinismo cósmico e a
liberdade humana, e com a crença de que é virtuoso manter uma vontade (denominada prohairesis) que esteja
de acordo com a natureza.
151
Epicuristas (ca. 300).Epicurismo é o sistema filosófico ensinado por Epicuro de Samos, filósofoateniense
do século IV a.C., e seguído depois por outros filósofos, chamados epicuristas.

301
modelos triádicos do signo. Essa ideia de uma imagem mental
antecipando uma cognição atual, aliás, está bem de acordo com as teorias
modernas da ciência cognitiva, ao passo que a base materialista da teoria
epicurista parece hoje uma mera curiosidade da história da epistemologia
(NOTH, 2003).

Aurélio Agostinho:152 foi com o trabalho dele que a teoria semiótica antiga atingiu
seu auge. Agostinho concordava com as teorias dos epicuristas, porém, para definir signo,
partiu dos conceitos estóicos, dando ênfase ao conhecimento e experiências encontradas na
mente humana (interferência mental) como resultado do processo da semiose.

Método semiótico
No projeto científico, é necessário delimitar o objeto para dar o primeiro passo. A
pesquisa deste artigo propõe a análise da imagem digitalizada do jornal alemão Berliner
Illustrirte Zeitung de 1924. Para, a partir dos registros fotográficos do pesquisador alemão
Theodor Koch-Grünberg, que estão inseridos no jornal, compreender sua importância
etnográfica e documental, suas representações e significados.
Por isso, a linha de pesquisa é baseada em obras que conceituam a semiótica
peirciana, pois, a semiótica é a ciência que estuda os tipos de linguagens ou signos, assim,
qualquer tema é passível de interpretação. A imagem é um signo. Neste caso, foi utilizada a
linguagem visual (imagem digitalizada - iconografia) para saber de que modo os signos das
iconologias do jornal podem representar algo que está fora delas (a mensagem visual).
O conceito semiótico parte do princípio da representação: algo, alguém ou alguma
coisa -> que representa algo, alguém ou alguma coisa -> para algo, alguém ou alguma
coisa. Por este caminho, esse pensamento, deve-se levar em consideração que cada
indivíduo terá uma leitura diferente da imagem, de acordo com sua carga de conhecimento
anterior à interpretação do objeto.
Não se pode deixar de lado a imagem e sua importância documental. A utilização
da imagem para o desenvolvimento e distribuição da informação, é um método que o ser
humano adotou como forma de interação e relação simbólica com os demais indivíduos da
sociedade.Cada fotografia representa o espaço e tempo de um determinado fato/cena ou
acontecimento. Por isso, precisa ser analisada para que se extraia seu verdadeiro sentido,
152
Aurélio Agostinho (354 – 430). Foi um bispo, escritor, teólogo, filósofo e é um Padre latino e Doutor da
Igreja Católica.

302
não só como iconologia, mas também seus aspectos iconográficos (processos técnicos,
químicos,equipamentos, etc.).
É por meio da linguagem escrita que os trabalhos científicos são desenvolvidos.
Alguns objetos de pesquisa não se apresentam escritos, como por exemplo, a
fotografia.Porém, deve ser elaborado um texto para mostrar o caminho percorrido ou
análise de qualquer objeto para ser considerado científico.
A semiótica não procura relatar à realidade diretamente, mas sim, representá-la. Faz
isso por meio do signo ou do texto - a partir do momento que são criadas as problemáticas
e em seguida as hipóteses, para obter respostas.
Vale destacar a maneira que a imagem digital do Jornal Berliner Illustrirte Zeitung é
analisada neste artigo. Primeiramente é necessária a leitura visual da imagem, os
sentimentos que passados por ela.Depois a interpretação desta (com base no conhecimento
adquirido por meio de leituras sobre o tema envolvido e/ou experiências que sirvam como
base teórica).Logo após, transformá-la em conceitos, em seguida, descrevê-la através de
signos linguísticos verbais.Obtendo, assim, uma conclusão. Além disso, é necessário
diferenciar percepções,refiro-me ao modo de interpretação, pessoais e coletivas, para dar
um conceito relevante à sociedade. Considerando que o método semiótico não busca
conclusões gerais.
Há então, a possibilidade exploratória da pesquisa numa dimensão interdisciplinar,
buscando ideias e aberto para opiniões de outras áreas. A teoria do falibilismo, de Charles
Peirce, sugere a probabilidade de todo conhecimento está sujeito ao erro. De acordo com
esse pensamento, deixo a pesquisa aberta para críticas e colaborações, sejam elas positivas
ou negativas.
Para direcionar a pesquisa, foram analisados os aspectos técnicos – não verbais
(detalhes; enquadramento; perspectiva dos planos; a composição da imagem; utilização da
luz, cores e sombra; algum elemento a ser destacado; ângulo da câmera; equipamento;
etc.). E aspectos verbais, que são os valores significativos da imagem relacionados ao
propósito e conteúdo da mesma.
O método usado neste trabalho promove o diálogo entre paradigmas distantes,
aproxima o fotojornalismo do início do século XX publicado na Alemanha com a
importância científica de analisar e provar que a mesma imagem fotojornalística é a

303
primeira produzida em Roraima.

George Huebner e Theodor Koch-Grünberg: utilização pioneira do


fotojornalismo em Roraima
Quando George Huebner chega definitivamente à Manaus, capital do Estado do
Amazonas, em 1897, conhecer ao grande número de estrangeiros que ali vivia ou que
estavam de passagem - pesquisadores, viajantes, etc. Pessoas ao redor do mundo vinham
para Amazônia, pois neste período, Manaus vivia o auge do comércio da borracha, atraindo
empresas, principalmente de fora do país.

Em 1897, quando Huebner se estabeleceu em Manaus, ele encontrou um


diversificado e coeso grupo germânico que incluía, entre outros,
imigrantes, viajantes, aventureiros e empregados de empresas
estrangeiras. Em seus escritos publicados após as viagens ao Peru e ao
Norte do Brasil, fez inúmeras referências aos alemães com os quais se
relacionou (VALENTIN, 2009).

Estas empresas eram responsáveis pela atividade extratora do látex da seringueira -


matéria prima utilizada para fabricação da borracha.Além disso, agiam na construção do
processo de comercialização do produto.Junto a estas empresas nacionais e internacionais,
uma considerável quantidade de trabalhadores estrangeiros emigrou para o Brasil.
Dentre tantos estrangeiros e conterrâneos que ali encontrara, George Huebner
conheceu Theodor Koch-Grünberg, pesquisador estudioso nascido na cidade de Grünberg,
na Alemanha, em 1872. Seu amplo conhecimento em áreas diversas possibilitou a
concretização da pesquisa de campo como o norte para suas expedições na Amazônia.

Theodor Koch nasceu no dia 9 de abril de 1872 em berço protestante na


pequena cidade de Grünberg, região de Hesse, onde seu pai era pastor.
Sua formação inicial foi como filólogo, historiador e geógrafo, o que lhe
permitiu prestar exames para o magistério. Ele sempre gostou de índios e
brincava com os amigos nos campos e florestas em volta de sua cidade
natal (VALENTIN, 2008).

Koch-Grünberg, em sua adolescência interessava-se por povos indígenas,


naturalmente possuía vontade de conhecê-los.Desta maneira, desenvolveu métodos para
possibilitar a exploração da Amazônia brasileira.Também obteve informações necessárias

304
para dar seguimento a sua linha de pesquisa, por isso é privilegiado -houve cientistas
professores para apoiá-lo, ajudando-o na conquista de espaço, conhecimento,pois no local
onde vivia a pesquisa etnográfica estava surgindo.

O trabalho de pesquisa investigativa realizado por Theodor Koch-


Grünberg com povos indígenas no Brasil é representativo da escola de
Etnologia, que se firmava na Alemanha já nas últimas décadas do século
XIX e que teve no médico Adolf Bastian (1826-1905) um dos seus
principais incentivadores (GALUCIO, 2009).

Esta experiência escolhida e vivida por Koch-Grünberg fez com que seja
reconhecido até os dias atuais como um grande pesquisador de campo. Durante suas
expedições à Amazônia produziu um amplo trabalho científico. Seu principal interesse era
a diversidade cultural, as características dos povos nativos da região – seu objetivo era
documentar as línguas indígenas antes da extinção destas, logo, registrou como anotações a
tradução de algumas palavras do vocabulário específico de cada tribo.
Seu amplo conhecimento sobre os índios habitantes da floresta Amazônica tornou-
se concreto ao longo de três viagens organizadas por ele. Porém, antes de abordá-las, é
importante destacar que Koch-Grünberg havia feito sua primeira viagem ao Brasil em
1898, como fotógrafo e pesquisador – acompanhando Hermann Meyer, que já fazia sua
segunda expedição ao continente sul-americano. Este evento, provavelmente tenha o
empolgado ainda mais para aprofundar sabedoria a partir de um objeto que permita usar a
pesquisa etnográfica como fundamentação para seu trabalho.

Seu sonho de conhecer índios de verdade se concretizou quando, em


1898, ele participou como fotógrafo e pesquisador da segunda expedição
de Hermann Meyer ao Xingu. Em 1901, de volta à Alemanha, ele
abandonou o trabalho como professor e se apresentou como voluntário no
Museu Etnográfico de Berlim. Em 1902, foi contratado como pesquisador
assistente trabalhando sob a tutela do pesquisador Karl vonden Steinen.
Nesse mesmo ano, ele obteve seu doutoramento na Universidade de
Würzburg e, no ano seguinte, foi patrocinado pelo Museu de Berlim para
empreender sua primeira viagem de pesquisa ao Brasil (VALENTIN,
2008).

Após voltar à Alemanha, abandonara seu posto de professore apresentou-se como


voluntário no Museu Etnográfico de Berlim, por este caminho Koch inicia o planejamento
de sua primeira viagem independente, que acabara sendo patrocinada pelo próprio museu.
305
Sendo assim, fez oficialmente sua expedição ao norte do Brasil, de 1903 a 1905, ao
término desta,concluiu um livro,que traduzido para o português intitula-se “Tipos
indígenas da região amazônica, a partir de fotografias próprias realizadas durante suas
viagens ao Brasil”.

Em contraponto, o atlas tipológico do antropólogo Theodor Koch-


Grünberg,“IndianertypenausdemAmazonasgebietnacheigenenAufnahmen
währendseinerReise in Brasilien” é um livro em grande formato,
contendo 141 fotogravuras de alta qualidade reproduzidas de fotografias
realizadas por ele durante sua expedição de 1903-1905 ao alto Rio Negro
(VALENTIN, 2009).

Foi durante esta primeira viagem que Koch-Grünberg conhece seu conterrâneo em
terras brasileiras, George Huebner- dono do estúdio fotográfico denominado Photographia
Allemã -cujo método seguia um pensamento parecido: a pesquisa de campo.Tornado a
troca de informações saudável e prazerosa.
Por morar em Manaus há alguns anos,e de fato,ter o conhecimento de como as
coisas funcionam no Amazonas, Huebner fora como um informante, atualizador da
situação no Estado e organizador das viagens de Koch. Além de amigo, era companheiro
de pesquisa, dando auxílio com fotografias e ideias.

Huebner e Koch-Grünberg construíram amizade fraterna e sólida parceria


de trabalho. O fotógrafo auxiliava Koch-Grünberg a organizar suas
expedições e o assessorava em aspectos técnicos da fotografia,
fornecendo-lhe materiais e processando imagens em seu laboratório.
Huebner coletou, também, diversos apontamentos lingüísticos que foram
utilizados por Koch-Grünberg em suas pesquisas (VALENTIN, 2007).

A partir daí, ao longo de aproximadamente vinte anos mantiveram relação


profissional, principalmente por meio de correspondências, envio de imagens e de objetos
etnográficos,provavelmente em função de suas respectivas pesquisas. Pois, além de
estudiosos, ambos captavam fotos durante as explorações, acarretando ainda mais
informação às anotações que documentavam - parte deste material pode ser encontrado em
seus respectivos álbuns e livros publicados.

A maior parte da produção e da informação a respeito de George Huebner


é conhecida através das cartas que foram enviadas por ele de Manaus e de
306
outras cidades - entre as quais Dresden, Belém e Rio de Janeiro - para
Theodor Koch-Grünberg. Anexadas a essas cartas, George enviava
fotografias, recortes de jornais, transcrições de vocabulários indígenas,
amostras de plantas e até objetos etnográficos (VALENTIN, 2008).

Koch-Grünberg volta à Alemanha e continua seu trabalho de pesquisador,


analisando suas anotações e descobertas. Sua próxima ida ao Brasil fora em 1911, desta,é
importante destacar os três acompanhantes indígenas de etnias distintas que levara consigo:
Taurepáng, Arekuna e Mayongóng. Esta iniciativa demonstrara seu conhecimento empírico
rebuscado das viagens anteriores ao continente sul americano, uma vez que sabia o quão
eles poderiam ajudar.

Em 1911, ele fez sua terceira viagem ao Brasil, patrocinada pelo Instituo
Baessler de Berlim, dessa vez à região dos rios Branco e Orinoco, na
fronteira com a Venezuela. Koch-Grünberg levou consigo apenas um
auxiliar alemão, Hermann Schmidt, e três acompanhantes indígenas:
Taurepáng, Arekuna e Mayongóng (VALENTIN, 2008).

Esses caboclos eram quem o ajudavam na locomoção (por conhecerem a região, os


caminhos a serem percorridos) e também com as traduções do vocabulário das tribos ali
encontradas, afinal, tinham contato com o não índio e com o índio, neste caso, puderam
mediar à comunicação para a melhoria no desenvolvimento do projeto. Não é a toa que
foram as pesquisas realizadas durante esta viagem que originaram a sua mais conceituada
obra.

Dessa viagem, foi publicada “Do Roraima ao Orinoco” em cinco volumes


no período de 1916 a 1928. É considerada obra de referência e de grande
importância para a etnografia dos povos de língua Karib (hoje conhecida
por Pemon) e a etnologia do norte amazônico (VALENTIN, 2008).

Koch-Grünberg permaneceu navegando pelos rios amazônicos até 1913. Após o


término de sua exploração volta a sua terra natal, onde permanece por cerca de onze anos,
trabalhando em suas pesquisas, buscando a publicação destas. Em 1924, decide voltar ao
Brasil, dessa vez nunca mais voltara a seu país, o alemão morre em Vista Alegre, no atual
estado de Roraima, após contrair malária durante espera de Hamilton Rice, para o que seria
sua próxima peripécia.

307
Em 1924, porém, perdeu seu posto no Museu que àquela época passava
por problemas financeiros. Ele se juntou, então, à expedição do
americano Alexander Hamilton Rice que iria percorrer a região do
Orinoco. Poucos meses depois, faleceu (VALENTIN, 2008).

Para realização da pesquisa etnográfica, Koch-Grünberg produziu uma quantidade


considerável de fotografia sem suas explorações na Amazônia brasileira, arquivando o
maior número de informações possíveis. Retratara em suas obras momentos da excursão
com sua equipe, convivência com os indígenas, e ao mesmo tempo as belezas na
floresta,além das características de cada povo que encontrara habitando a região. Portanto,
possibilitou o uso das informações colhidas como históricas para toda sociedade mundial,
um seminário do século XX para o futuro.

A fotografia etnográfica pode estar inserida em trabalhos científicos,


exposições ou diversos tipos de publicação. Pode ser caracterizada como
objeto de estudo, pesquisa ou como mera ilustração. Esse tipo de trabalho
contribui para que haja um resgate de informações relacionadas aos
diferentes tipos de etnias (BONI, MORESCHI, 2007).

O uso da fotografia estava ramificando-se pelos cantos do mundo, a foto passara a


fazer parte da sociedade. Por meio da câmera pessoas puderam guardar a imagem como
uma lembrança do que acontecera no instante da produção, num determinado espaço e
tempo. Portanto,ao percebê-la, o ser humano rebusca na memória histórias do que se
passara naquele momento.
A população que obtivera acesso empolgava-se com algo tão real, pois, até então,
apenas as pinturas faziam parte do cotidiano. A utilização da fotografia também ganhara
vigor em trabalhos antropológicos, em relação à iconologia da imagem, onde, as
informações contidas podem determinar fatos históricos por meio documental (exemplo:
fotos, anotações, cartas).
Por este lado, permitiu a expansão das informações sobre diversidade cultural entre
as sociedades existentes no planeta - passaram a ser conhecidas por mostrar as diferenças
dos povos. Por fazer aproximação com a realidade, naquela época, o meio fotográfico
causou fascínio, chamando atenção dos pesquisadores (antropólogos, sociólogos, etc.).

308
No final do século XIX, quando avanços tecnológicos possibilitaram a
captação de fotografias de maneira mais econômica, mais rápida e com
melhores resultados, houve um incremento significativo na produção e
circulação de imagens. Nesse amplo repertório, as fotografias
“antropológicas” tiveram papel importante (VALENTIN, 2008).

Seguindo a linha de raciocínio anterior, Koch-Grünberg deu fruto às imagens que


aqui são analisadas. As fotografias foram publicadas no jornal alemão Berliner Illustrirte
Zeitung de 06/07/1924, portanto, são as primeiras produzidas em Roraima utilizadas como
fotojornalismo. Estas, por sua vez, podem transmitir informações do que se passara
naquele referente espaço e tempo, além da visão do fotógrafo sobre os povos nativos da
região.
Naquela época o estilo de fotografar em perfil (ou seja, o fotografado de frente para
a câmera) era utilizado principalmente para fonte da pesquisa etnográfica, como maneira
de documentar, neste caso, as diferenças culturais entre cada povo. Assim, seria viável para
os pesquisadores da época identificar os indígenas de tribos diferentes, percebendo a
roupagem e as características físicas de cada um.

A fotografia jornalística mostra, revela, expõe, denuncia, opina. Dá


informação e ajuda a credibilizar a informação textual. Pode ser usada em
vários suportes, desde os jornais e revistas, às exposições e aos boletins
de empresa (SOUSA, 2002).

O jornal é impresso, entretanto, essa pesquisa baseia-se por meio de uma


iconografia digitalizada do mesmo, este possui dez fotografias produzidas por Koch-
Grünberg mostrando o perfil dos indígenas e o cotidiano de quem vivera com o mesmo
durante expedição feita a Caracaraí, no rio Uraricoera.
Há também a imagem de um mapa, que tivera a função de ilustrar o caminho
percorrido pelo pesquisador. A matéria ou o texto do jornal possui o seguinte título: Das
Geheimnis der Orinokoquellen (tradução própria: As fontes secretas do Orinoco).
A iconologia desse material apresenta, inclusive, como notícia, as dificuldades
encontradas pelo grupo durante a expedição feita em 1911. Percebe-se o uso da mão-de-
obra indígena na travessia dos obstáculos no rio, mostrando as características daquele povo
até então desconhecidas.

309
Fonte:http://www.berliner-zeitung.de/archiv/das-ethnologische-museum-in-berlin-dahlem-zeigt-in-iner-
usstellung-ueber-deutsche-brasilienforscher-seltene-sammlungsstuecke-abenteurer-im-dienst-der-
issenschaft,10810590,9995876.html

Durante nossa pesquisa não encontramos registro de imagens produzidas em


Roraima e utilizadas como fotojornalismo anteriores a 1920. Levando em consideração que
George Huebener e Koch-Grünberg foram os primeiros a produzirem fotografias em
Roraima. Podemos afirmar com alguma segurança que as imagens do Jornal
BerlinerIllustrirteZeitung de 06/07/1924 são as primeiras fotografias de Roraima utilizadas
como fotojornalismo em um jornal estrangeiro.

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Rio de Janeiro: UFRJ, 2009. Tese (doutorado em História), Programa de Pós-graduação em
História Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2009.

311
Linguagem na Amazônia: incursões no registro cinematográfico do
alemão Koch-Grünberg153

Clarisse Martins dos SANTOS154


Maurício Elias ZOUEIN155

Resumo: Este trabalho apresenta os resultados iniciais da análise do filme Aus dem Leben
der Taulipang in Guayana (1911), de Theodor Koch- Grünberg, produzido com intenção
etnográfica junto aos nativos da região do extremo norte do Brasil. A partir das proposições
de Lúcia Santaella em relação às matrizes da linguagem e do pensamento, pretendeu-se
identificar, no trabalho do pesquisador alemão, indícios que justificam sua classificação
como uma peça audiovisual que a um só tempo articula a linguagem verbal, visual e,
apesar do caráter mudo da obra, a linguagem sonora. A reflexão proposta enquadra as
questões na temática do cinema primitivo, etnológico e serve delas como pretexto para
esclarecer os elementos cinematográficos presentes no filme.

Palavras-chave: audiovisual, linguagem, linguagem cinematográfica, etnografia

A Linguagem
O ser humano é social por natureza e sua faculdade da linguagem é uma das
características que diferencia dos animais. Através dela se organiza o mundo, construindo
sentido para o que faz e aprende. Dondis afirma que

A linguagem ocupou uma posição única no aprendizado humano. Tem


funcionado como meio de armazenar e transmitir informações, veículo
para intercâmbio de ideias e meio para que a mente humana seja capaz de
conceituar. (DONDIS, 2007, p.14)

Dessa forma a mesma pode ser definida como meio para a realização da
comunicação. Sendo assim, ela é todo e qualquer meio sistematizado que usamos para
comunicar, transmitir, receber e repassar ideias, informações e conhecimentos. A partir
dessa comunicação, que desse meio de linguagem se forma a cultura.

153
Trabalho submetido ao GT Audiovisual no 3º Encontro Regional Norte de História da Mídia- Boa vista,
RR.
154
Graduanda em Licenciatura em Artes Visuais na Universidade Federal de Roraima.
155
Orientador do trabalho. Professor doutorando efetivo do Curso de Comunicação Social com habilitação em
Jornalismo da Universidade Federal de Roraima (UFRR).

312
Considerando-se que todo fenômeno de cultura só funciona culturalmente
porque é também um fenômeno de comunicação, e considerando-se que
esses fenômenos só comunicam porque se estruturam como linguagem,
pode-se concluir que todo e qualquer fato cultural, toda e qualquer
atividade prática social constituem-se como práticas significantes, isto é,
práticas de produção de linguagens e de sentido (SANTAELLA, p.2).

Com a chegada das novas tecnologias e o avanço científico, verificamos que são
múltiplas as formas e os recursos de interação disponibilizados no século XXI. Por meio
delas construímos novos modos de ver, de estar, de se expressar e de agir no mundo a
nossa volta.Esses meios surgiram para a difusão da comunicação propiciando a
hibridização das linguagens.Apesar das inúmeras misturas e formas de linguagem
(literatura, música, teatro, desenho, escultura, arquitetura etc.) que existem, Santaella
postula que há apenas três matrizes de linguagem e pensamento a partir das quais se
originam todos os tipos de linguagens e processos sígnicos que os seres humanos, ao longo
de toda sua história, foram capazes de produzir.Ela relaciona-as de forma indissociável
com o pensamento, pois os signos estão intrinsecamente ligados a ele, sendo
imprescindíveis para que este ocorra.
As três matrizes são, a matriz sonora, a visual e a verbal. A primeira decorre do
sentido da audição, a segunda da visão e a terceira da capacidade de verbalização própria
do ser humano. Vale ressaltar que a matriz sonora não quer necessariamente significar que
a linguagem tem de estar manifesta com o som, assim como a matriz visual não deve estar
associada só à imagem e podemos dizer o mesmo para a matriz verbal, que não
necessariamente significa uma linguagem desponta em palavras.
Ela ainda propõe uma espécie de categorização dos hibridismos, que ocorre através
dos cruzamentos das matrizes, dividindo as linguagens híbridas em verbal-visual, verbal-
sonoro, visual-sonoro, visual-verbal, sonoro-verbal, sonoro-visual e sonoro-verbal-
visual.Essa disposição parte de um grau mais simples de interconexão para chegar depois à
hibridização completa onde está inserido o cinema. Esse hibridismo, contudo, também está
presente em todas as outras linguagens, pois não há linguagens absolutamente “puras”,
para a autora todas as linguagens, uma vez corporificadas, são híbridas.

(...) cada linguagem existente nasce do cruzamento de algumas

313
submodalidades de uma mesma matriz ou do cruzamento entre
submodalidades de duas ou três matrizes. Quanto mais o cruzamento se
processarem dentro de uma mesma língua, mais híbrida ela será
(SANTAELLA, 2009, p.379).

Tomado esses conhecimentos, perguntamos em qual matriz se encaixa a linguagem


do filme de Koch Grünberg, nosso objeto de estudo?

A linguagem do cinema primitivo


A forma de comunicação que combina imagem e som é conhecida como
audiovisual. Pode-se dizer que sua origem se deu por duas criações do século XIX, o
fonógrafo criado por Thomas Edison, que já experimentava, mesmo sem êxito, a
integração entre imagens e sons, e o cinematógrafo criado pelos irmãos Lumière que
proporcionava o movimento da imagem, onde inúmeras fotografias eram postas em
sequência e movimentadas a certa velocidade que permitia a ilusão ótica das mesmas. A
origem do termo audiovisual surgiu quando, pela primeira vez, a imagem e o som
concentraram para um mesmo meio. Os primeiros filmes produzidos não possuíam som
sincronizado com a imagem, o único som emitido era o ruído do projetor. Alguns
proprietários das primeiras salas de cinema recrutavam músicos para encobrir esse ruído.
Portanto, nesse período do cinema mudo, as exibições eram frequentemente acompanhadas
por música, com instrumentos disponíveis no local, e muitas vezes sem relação alguma
com o que estava sendo apresentado. Porém algumas salas de projeção passaram a se
preocupar com certa adequação da música tocada aos conteúdos dos filmes, nesse
momento passa a serem selecionadas peças musicais específicas para os mesmos, tendo
assim uma seleção menos aleatória de repertório. Apesar dessa positiva tentativa de buscar
uma relação construtiva entre imagem e som, as personagens e suas ações ainda
prosseguiam mudas.
A sincronia entre o imagético e o sonoro foi sendo idealizada através de invenções e
a partir de 1926, a Warner Bros e uma empresa chamada Vitagraph desenvolvem o sistema
Vitaphone, equipamento que utilizava o som gravado em um toca-discos sincronizado com
o cinematógrafo.
Essa fase do cinema não falado (mudo) possuía características simples e estava
misturado a outras formas culturais na época em que apareceu então inicialmente o cinema

314
não possuía uma linguagem própria. Os filmes eram exibidos como curiosidade, nas feiras
e em intervalos de apresentações ao vivo em circos, nas casas de espetáculos de
variedades, nos quais se podia beber, comer e dançar, sendo assim uma atração entre outras
tantas oferecidas, mas nunca exclusiva.

Nesse período, por estar misturado a outras formas de cultura, como o


teatro, a lanterna mágica, o vaudevile e as atrações de feira, o cinema se
encontraria num estágio preliminar de linguagem. Os filmes teriam aos
poucos superado suas limitações iniciais e se transformado em arte ao
encontrar os princípios específicos de sua linguagem, ligados ao manejo
da montagem como elemento fundamental da narrativa. (COSTA, 2006).

Esse cinema de atração era considerado primitivo por haver característica


experimental de descobertas , era visto como apenas um conjunto de desajeitadas
tentativas e por ser carente de recursos, seus filmes eram composto por uma única tomada
e poucos eram integrados a uma cadeia narrativa.

Noel Burch, um dos pesquisadores presentes em Brighton, descreveu o


que considerava serem traços de um “modo de representação primitivo”
nesses filmes: composição frontal e não centralizada dos planos,
posicionamento da câmera distante da situação filmada, falta de
linearidade e personagens pouco desenvolvidos. Os planos abertos e
cheios de detalhes, povoados por muitas pessoas e várias ações
simultâneas, são a marca desse tipo de representação, em que a alteridade
em relação ao cinema que conhecemos é a característica mais forte.
(BURCH apud COSTA, 2006, p. 23-24).

Nos inícios práticos do cinema a estética será dividida em duas vertentes, o cinema
enquanto reprodução verossímil do real com os Lumière, originando o realismo
documentário, e o cinema ilusionista e fantasioso de Georges Méliès, realizado em estúdios
representaria a vertente ficcional do cinema.

(...) quando os irmãos Lumière fizeram aqueles primeiros filmes curtos,


os seus temas provieram, como era natural, do meio físico imediato. O
comboio, o bebé e o jardineiro com a sua mangueira. Mas como uma
rapidez quase obscena a nova invenção encontrou também guarida em
Georges Méliès, um mágico que viu no cinema a nova fonte de ilusão.
Para ele, monstros, planetas e viagens no espaço (TUDOR, p. 21-23).

O predomínio de filmes de caráter documental, geralmente com plano único,

315
ocorreu nos períodos 1894 a 1903, já a segunda fase, de 1903 até 1907, os de ficção
começam a ter diversos planos.

Esse período das atrações tem duas fases. A primeira vai de 1894 até
1903 e é caracterizada pelo predomínio de filmes de caráter documental,
as atualidades. A maioria dos filmes é de plano único. Inicialmente,
filmes e projetores são fabricados pela mesma empresa, mas na virada do
século aparecem os exibidores, que compram os equipamentos e filmes
dos produtores para explorar economicamente a exibição de filmes. Na
segunda fase, de 1903 até 1907, os filmes de ficção começaram a ter
múltiplos planos e superar em números as atualidades. São criadas
narrativas simples e há muita experimentação na estruturação de relações
causais e temporais entre planos (COSTA, 2006).

É a partir desse período de 1907 a 1913 que o cinema se organiza de forma


industrial, com a formação de grandes companhias produtoras e distribuidoras,
transformando-se na primeira mídia de massa da história.

A etnografia e o cinema
A etnografia é um método utilizado pela Antropologia, ciência que trata o Homem e
a Humanidade, composto de técnicas e procedimentos para coleta de dados de um grupo
social a ser estudado. Está associada a uma prática do trabalho de campo em que o
pesquisador participa ativamente no ambiente da pesquisa com a finalidade de entender o
modo de vida dos sujeitos que vivem e se relacionam nesse espaço.

O filme etnográfico ou o cinema etnográfico entendido no sentido mais


amplo abarca uma grande variedade de utilização da imagem animada
aplicada ao estudo do Homem na sua dimensão social e cultural. Inclui
frequentemente desde documentos improvisados (esboços, ensaios
fílmicos) até produtos de investigação acabados e de construção muito
elaborada. Os métodos do cinema etnográfico são muito variados e
associados a tradições teóricas diferenciadas como meios e
procedimentos utilizados. Assentam no entanto em alguns princípios
fundamentais: uma longa inserção no terreno ou meio estudado
frequentemente participante ou participada, uma atitude não directiva
fundada na confiança recíproca valorizando as falas das pessoas
envolvidas na pesquisa, uma preocupação descritiva baseada na
observação e escuta aprofundadas independentemente da explicação das
funções, estruturas, valores e significados do que descrevem, utilização
privilegiada da música e sonoridades locais na composição da banda
sonora (RIBEIRO, 2007).

316
O filme etnográfico surge em meados do século XIX, período marcado pela busca
da compreensão e assimilação do mundo pelos europeus,possuindo o mesmo percurso da
história do cinema, pois estabelecer qual foi o primeiro filme desse gênero é sempre
arbitrário.
Alguns estudiosos consideram como fundador do filme etnográfico o pesquisador
Félix-Louis Regnault, médico especializado em anatomia patológica, que filmou com um
cronofotógrafo uma mulher africana fabricando um pote de barro na exposição etnográfica
da África Ocidental.
Já o produtor francês de documentários etnográficos Jean Rouch, aponta o soviético
DzigaVertov e o americano Robert Flaherty como os verdadeiros precursores do filme
antropológico e do cinema documentário (COELHO, 2012). Flaherty em 1922 realizou o
documentário sobre o quotidiano de um esquimó, Nanookof de North. Por apresentar uma
abordagem diferente em relação à linguagem e ao método cinematográfico, este filme foi
inovador para época. Para a prática desse trabalho, ele teve uma longa experiência no local.
Instalou-se na baía de Hudson durante 15 meses e improvisou um laboratório para
tratamento do filme, criando um processo de cooperação entre o protagonista.

Durante as filmagens, Flaherty inaugura um procedimento que mais tarde


será resgatado por Jean Rouch como um dos pilares da chamada
“antropologia partilhada”. Todas as noites, após as filmagens, Flaherty
revelava os negativos num laboratório improvisado e os projetava para os
protagonistas do filme, que assistiam e opinavam sobre as cenas,
participando da construção do filme (COELHO, 2012).

Vertov, importante integrante da escola russa de cinema, vai começar sua carreira
nessa área em 1922, quando propõe editar cinejornais, chamando-os de Cinema-Verdade.
Formou uma prática cinematográfica nomeada como cinema observação e uma teoria da
montagem denominada como teoria dos intervalos que contrapunha qualquer forma de
ficção. Desenvolveu obras experimentais com o propósito de exercitar a montagem
cinematográfica como linguagem que evolutiva para a narrativa.
O seu filme The Man With a Movie Camera (1929), documentário etnográfico do
quotidiano de uma cidade, constitui como exemplo de suas ideias sobre cinema e do
processo de montagem.
A etnografia assumiu diversas formas e significados, variando segundo suas

317
relações com o contexto histórico e cultural e apesar das controvérsias e das diferentes
produções cinematográficas, os filmes etnográficos buscavam entender a sociedade na
totalidade das relações sociais e dos elementos que a constituem, tendo em comum à
observação do real.Assim, a etnografia passa ser um método de interpretação das culturas.

Koch-Grunberg na Amazônia
Theodor Koch-Grünberg foi um etnólogo alemão que nasceu no dia 9 de abril de
1872 na pequena cidade de Grünberg, região de Hesse. Foi também um experiente
fotógrafo e um dos pioneiros da cinematografia etnográfica. Em 1899, aos 27 anos,
acompanhou a segunda viagem de Hermann Meyer ao Xingu. De volta à Alemanha, ele
abandonou o trabalho como professor e passou a trabalhar como voluntário no Museu
Etnográfico de Berlim. Enquanto funcionário do museu berlinense planejou e realizou sua
primeira expedição ao norte da Amazônia. A segunda exposição foi realizada dois anos
depois ao longo da qual percorreu os cursos dos principais afluentes do rio Negro e do
Japurá, colecionando uma infinidade de dados etnográficos, geográficos e linguísticos.

Durante dois anos ele percorreu o alto rio Negro, com o objetivo de
coletar peças etnográficas, pesquisar os vocabulários de diversas etnias e,
principalmente, explorar uma região até então desconhecida. O principal
resultado dessa expedição foi a publicação de diversos artigos em revistas
científicas e das obras “Começos da arte na selva” (1905); “Petroglifos
sul-americanos” (1907), “Dois anos entre os indígenas: viagens ao
noroeste do Brasil (1903-1905)” (1909,1921). (VALENTIN, 2008).

Sua terceira visita ao Brasil, de 1911 a 1913, patrocinada pelo Instituto Baessler de
Berlim, foi na região entre as bacias do Rio Branco, no atual estado de Roraima. Nessa
expedição ele elaborou o primeiro filme gravado sobre índios brasileiros, na aldeia
Taurepang Koimélemong (Rio Surumu). Titulado Aus dem Leben der Taulipang in
Guayana (Da vida dos Taurepang na Guiana), o filme possui oito minutos e dezoito
segundos e narra algumas atividades executadas pela tribo como o preparo de milho e da
mandioca, a tecelagem de algodão, brincadeiras e o ritual Parisherá.

Além das descrições lançadas nos 14 cadernos de diários, da coleta de


objetos etnográficos, ele produziu novamente um grande número de
fotografias, alguns preciosos minutos de filmes cinematográficos e

318
gravou ainda fonogramas com vocabulários e cantos. Dessa viagem, foi
publicada “Do Roraima ao Orinoco” em cinco volumes no período de
1916 a 1928. (VALENTIN, 2008).

Em 1915 ele é chamado para administrar o Museu Linden, em Stuttgart, porém no


início dos anos 1920 o Museu é obrigado a fechar as portas por falta de recursos. Nesse
momento que Koch Grünberg decide aceitar o convite de Hamilton Rice, médico, geógrafo
e explorador, para participar de uma exposição às fontes do rio Orinoco, durante qual
falece em decorrência de uma febre viral.

A linguagem cinematográfica Aus dem Leben der Taulipang in Guayana


O objeto de estudo do presente trabalho é o filme etnográfico elaborado pelo
alemão Koch- Grünberg. Produzido em sua terceira expedição no período em que o cinema
estava em transição, quando os filmes começam a utilizar convenções narrativas
especificamente cinematográficas, na tentativa de construir enredos autoexplicativos.
O cinema se tornou linguagem graças a uma escrita própria que se encarnou em
cada realizador sob a forma de um estilo, tornando se assim, num meio de comunicação, de
informação.

Mas o que distingue o cinema de todos os outros meios de expressão


culturais é o poder excepcional que lhe advém do facto de a sua
linguagem funcionar a partir da reprodução fotográfica da realidade. Com
efeito, com ele, são os próprios seres e as próprias coisas que aparecem e
falam, dirigem-se aos sentidos e falam à imaginação: a uma primeira
abordagem parece que qualquer representação (o significante) coincide
de forma exacta e unívoca com a informação conceptual que veicula (o
significado) (MARTIN, 2005).

Dessa forma a representação acaba por ser mediatizada, pois sendo uma linguagem
que age com as imagens dos objetos e não com o objeto em si, as representações do mundo
tornam-se elementos de um discurso.
É nesse período que surge os planos de uma câmera, que pode ser definido como
um recorte de uma imagem. Seu tamanho é determinado pela distância entre a câmera, o
objeto e pela duração focal da cena utilizada. Tendo como finalidade a clareza da narrativa,
o plano será a escolha de uma determinada imagem, dentro de um determinado tempo. É
uma tomada de vista não interrompida, ou seja, é uma ação filmada em contínuo dentro de
319
um determinado quadro.Criada ainda quando o cinema era mudo, a linguagem de planos e
movimentos tem o importante papel de desenvolver uma narrativa visual compreensível a
todos.Por isso podemos dizer que nos filmes mudos, o significante é a imagem e não a
construção fonética. A imagem fotográfica será o determinante do sentido. É possível,
apesar das limitações tecnológicas, encontrar no filme de Koch Grünberg a utilização dos
planos.
O filme de Koch é uma sucessão de sete quadros, entrecortados por letreiros que
apresentam o título do quadro seguinte, o eixo de filmagem é frontal e perpendicular ao
cenário, correspondendo ao ponto de vista do espectador.
A partir daí e, conforme a teoria de Santaella, podemos classificar o filme como
uma linguagem visual-verbal, pois antes de cada fotograma, há uma descrição em alemão
sobre o próximo fotograma.
Porém ao seguirmos a definição de Lúcia Santaella, logo somos levados à reflexão
quando ela aborda sobre o som implícito e imagético do filme. Por se tratar de imagens em
movimento, mesmo quando não acompanhado de trilha sonora ou de qualquer tipo de som,
o cinema, conforme a autora, já traz a lógica da sonoridade dentro de si, na sintaxe das
durações de seus planos, nos seus cortes, nos ritmos que impõe às sequências. Então,
mesmo quando mudo, o cinema já traz implícitas as características do sonoro. Por isso o
cinema, está colocado na hibridização que Santaella chama de verbo-visuais-sonoras.
Podemos verificar isso, ao analisarmos o fotograma dança de Parixara, a linguagem
deixa de ser apenas visual-verbal e passa a ser verbo-visual-sonora.

Quando tem caráter narrativo, mesmo sem fala, a dança também se


caracteriza como uma linguagem verbo-visual-sonora. É duplamente
sonora, quando está acompanhada por som, o que é muito mais comum.
Continua sonora, entretanto, mesmo sem som. (SANTAELLA, p.386)

A narrativa cinematográfica vai lidar com a composição entre o movimento da


ação, com a seleção e registro desta dentro dos planos, produzindo uma forma, um
movimento interno nesses enquadramentos, que quando prontos trazem consigo um ritmo
determinado pelo andamento da ação, pontuados pelas mudanças de ponto de vista de um
plano a outro.

320
Por se tratar de imagens em movimento, mesmo quando não
acompanhado de trilha sonora ou de qualquer tipo de som, o cinema já
traz a lógica da sonoridade dentro de si, na sintaxe das durações de seus
planos, nos seus cortes, nos ritmos que impõe às sequências. Se for
narrativo, o que, na imensa maioria das vezes, ele é, mesmo quando
mudo, o cinema já traz também implícitas as características do verbal.
(SANTAELLA, p.386)

Grande plano geral (GPG)


Plano abrangente, tendo como função situar o espectador a referência geográfica,
ou seja, em que lugar a cena se desenvolve.

Imagem 01-Grande plano geral

Plano geral (PG)


Geralmente é utilizado no início de uma sequência com a finalidade de passar
referência do ambiente em que ocorre o ato.

321
Imagem 2- Plano Geral

Plano geral aberto (PGA)


Esse plano é utilizado para mostrar cenas localizadas em exteriores ou interiores
amplos, mostrando de uma só vez o ambiente de ação.

Imagem 3-Plano geral aberto

322
Plano geral fechado (PGF)
Utilizado para mostrar a ação do ator em relação ao espaço cênico.

Imagem 4- Plano geral fechado

Plano inteiro (PI)


A personagem é enquadrada da cabeça aos pés, deixando um pequeno espaço acima
da cabeça e abaixo dos pés.

Imagem 5- Plano inteiro

323
Plano de conjunto aberto
Enquadra dois ou mais atores, que também possuem o mesmo papel dramático.

Imagem 6- Plano de conjunto aberto

Considerações Finais
A partir do que foi investigado até aqui, pode-se considerar que no filme de Koch
Grünberg, há indícios que justificam sua classificação como uma peça audiovisual que a
um só tempo articula a linguagem verbal, visual e, apesar do caráter mudo da obra, a
linguagem sonora.Em seu trabalho, o pesquisador busca superar as limitações da câmera
fixa para adequar sua produção ao que se vinha fazendo no cinema em termos de
linguagem e usa os quadros com textos para garantir certa coerência narrativa.
Além disso, podemos reconhecer o trabalho do pesquisador como uma elaboração
antropológica, e sua importância enquanto documento histórico que desponta nuanças
simbólicas da comunidade representada. O filme se presta, assim, a ser um excelente
instrumento heurístico, por meio do qual há possibilidades de conhecer a sociedade e sua
cultura.

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TUDOR, Andrew. Teoria do cinema. Tradução de Dulce Salvato de Meneses. Edição 70.

VALETIN, Andreas. George Huebner e Theodor Koch-Grünberg: Diálogos na


Amazônia, 1905-1924. Porto Seguro, Bahia, Brasil, 2008. 26p.

325
(I)margem da história: A ideia de Amazônia nos signos euclidianos156

Emily Monteiro COSTA 157


Maurício ZOUEIN158

Resumo: Propomo-nos, neste trabalho, a realizar o cotejo entre a entrevista de Euclides da


Cunha ao Jornal do Commercio, de 1906, e os argumentos que estão contidos logo nas
primeiras páginas da obra "À margem da historia” de 1909. “Aqui, se quiser; agora se lhe
convier”, disse Euclides da Cunha ao repórter desejoso de entrevistar o autor do já célebre
“Os sertões”. O inquiridor teve apenas sete intervenções, pois o articulado homem das
letras contou, precisamente, o que viveu na selva durante parte do Ciclo da Borracha
(1850-1913) que reuniu europeus, nordestinos e índios em uma mesma missão de explorar
o ouro branco das seringueiras no Amazonas, Pará e Acre. Ao realizar esse cotejo,
percebemos a dinâmica e a forma incisiva dos signos euclidianos na ideia de Amazônia
frente ao imaginário social no Brasil do inicio do Séc. XX. Inseridos na cultura visual, os
leitores se veem entre a interpretação e a representação das palavras no afã da construção
da imagem da Amazônia.

Palavras-chaves: Amazônia, Euclides da Cunha, Jornalismo, Literatura, Semiótica.

Euclides da Cunha na Amazônia


Euclides da Cunha, escritor, engenheiro e jornalista, produziu, dentre outras, duas
grandes obras literárias, “Os Sertões” e “À marjem da historia”. Livros que tratam de
assuntos diversos, mas que possuem semelhança nos copiosos valores refletidos pelo fato
de que, mesmo decorrido um século após as publicações, ambos reverberam como
documentos de salvaguarda da história nacional, e, concomitantemente, disseminadores de
conhecimentos científicos.
A obra “Os Sertões”, publicada no alvorecer do século XX, foi fruto do trabalho
profissional de Euclides. Pois foi a serviço do jornal “O Estado de São Paulo” que foi

156
Trabalho apresentado ao GT Audiovisual coordenador pelo Professor MSc. Maurício Elias Zouein do 3º
Encontro Regional Norte da História da Imprensa.
157
Acadêmica do 4° Semestre do curso de Comunicação Social com habilitação em jornalismo da
Universidade Federal de Roraima (UFRR). Aluna pesquisadora do Núcleo de Pesquisa Semiótica na
Amazônia (NUPS/UFRR). E-mail: emilymonteirocosta@gmail.com
158
Orientador do trabalho. Professor efetivo do Curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo
da Universidade Federal de Roraima (UFRR). Coordenador no Núcleo de Pesquisa Semiótica da Amazônia
(NUPS/UFRR). Líder do Grupo de Pesquisa em Linguagem, Cultura e Tecnologia (LCT/NUPS/UFRR). E-
mail: mauriciozouein@gmail.com

326
enviado como correspondente para a Bahia. Lá, Euclides deveria cobrir os eventos
desencadeados durante a Revolta de Canudos, um movimento de teor social organizado
por Antônio Conselheiro.
Quando retorna ao Rio de Janeiro, Euclides compila os textos que escreveu e reúne-
os de maneira segmentada e com subtítulos de acordo com o assunto do qual se tratava. O
resultado foi um compêndio fragmentado em três partes que descrevem desde o cenário
físico do sertão, aos jagunços e às expedições que o governo liderou na busca pela tomada
do poder das mãos dos revoltosos.
Alguns anos após sua incursão pela Bahia durante a guerra de Canudos, Euclides da
Cunha, ao contrário de muitos escritores da época, que produziam obras sobre o Brasil e
em seguida se lançavam a viagens pelas cidades europeias, mostrava-se desejoso por
conhecer seu próprio país, aventurar-se por terras desconhecidas e conhecer as mais
diferentes culturas nacionais. Foi então que a misteriosa selva amazônica, tão explorada e
definida nos escritos de Humboldt (1769- 1859) Emilio Goeldi (1859-1917), Alfred Russel
Wallace (1823-1913), Henry Bates (1825-1892), John Mawe (1764-1829), e tantos outros
que se aventuraram a conhecer e discorrer sobre a paradisíaca região, despertou-lhe o
interesse.
Pouco depois, Euclides, devido às amizades e contatos profissionais, conquista o
posto de chefe da equipe brasileira da “Comissão Mista Brasileiro-Peruana de
Reconhecimento do Alto Purus”159sendo nomeado pelo ministro das relações exteriores,
José Maria da Silva Paranhos Júnior (1845-1912),o prestigiado Barão do Rio Branco.
O objetivo da missão, a serviço do Itamaraty, era o de reconhecer o território alto
Purus, isto porque tal área começava a ser requerida pelo Peru. De imediato, o governo
brasileiro, que há pouco tempo havia assinado o Tratado de Petrópolis, achou por bem
proteger-se de outro conflito territorial que devastaria ainda mais a economia do país.
É em dezembro de 1904 que a excursão científica, a serviço do Itamaraty, inicia-se.
Curioso, enfastiado, impressionado, assim Euclides se autodescreve durante todos os doze
meses de viagem: “A impressão dominante que tive, e talvez correspondente a uma
verdade positiva, é esta: o homem, ali, é ainda um intruso impertinente. Chegou sem ser

159
A Comissão mista brasileiro-peruana foi uma equipe encarregada de reconhecer o território do Alto Purus,
que devido à localização fronteiriça, começava a ser disputado por Brasil e Peru.

327
esperado nem querido – quando a natureza ainda estava arrumando o seu mais vasto e
luxuoso salão” (CUNHA, 2006, p. 17)
Intrépido desbravador, penetra numa Amazônia onde o homem, apesar das incansáveis
tentativas de dominação da natureza pura e selvagem, é infimamente pequeno e frágil.
Euclides, talvez pelo ofício de jornalista, vê com absoluta clareza a parcela minúscula que
o homem representa em meio ao inferno verde, apresenta um retrato da Amazônia
distanciado de conceitos fantasiosos e justamente por isso, um documento que flerta do
começo ao fim com o cientificismo:

As páginas escritas por Euclides da Cunha sobre o homem e a sociedade


na Amazônia não encontram paralelo na literatura brasileira. No tom
reivindicante. Na revolta do espírito. No calor da acusação. Na
fidelidade do retrato. Na agudeza da interpretação. Na originalidade e na
força do estilo...(TOCANTIS, apud BRAGA, 2002, p. 74).

O escritor acaba por testemunhar com os próprios olhos o avanço do progresso,e


suas conseqüentes mazelas, presencia o sofrimento contínuo dos migrantes nordestinos, os
soldados da borracha, além de vivenciar as tentativas sucessivas de civilização do índio da
Amazônia brasileira.

À marjem da Historia
Alguns anos após o retorno da selva, Euclides publica no livro “À marjem da
historia”, as amadurecidas ponderações desenvolvidas sob a ótica peculiar e crítica de um
observador letrado, conhecedor e divulgador de ciência.
Dividido em quatro grandes partes, a obra “À marjem da história” tem, assim como
“Os sertões” agrupamentos por temas. No primeiro trecho, denominado, “Terra sem
história”, Euclides disserta desde as primeiras impressões que teve no contato com a selva
a minuciosos aspectos frutos de suas detalhadas análises. Interessante é verificar que
grande parte do dito por Euclides nas primeiras páginas está contido em muitas de suas
cartas. Uma demonstração de que sua escrita era trabalhada ao longo do tempo, numa
busca constante pelo aperfeiçoamento.

Na Amazônia, Euclides da Cunha encontra um outro Brasil que ele fixa


em palavras e imagens, como se fosse um escultor, um pintor, a quem

328
não faltasse o generoso solidarismo social. Um novo Brasil em que a
mestiçagem étnica afirma a presença do homem e sua verteria sobre o
meio (...) Ele não vê o mestiço amazônico como descrevera o nordestino
dos Sertões baiano, com incapacidade biológica fatal. Ao contrário,
proclama as virtudes físicas e morais daqueles “caboclos rijos do Purus,
que não são efeitos do meio, surgem a despeito do meio (TOCANTINS
apud BRAGA, 2002, p. 75)

É nesse primeiro segmento que o autor inclui um dos mais aclamados textos do
livro. O conto “Judas-Asvero" no qual se narra a história da malhação de Judas, realizada
em meio aos barracões dos seringais. É nesse texto que, em pleno uso da linguagem
literária, Euclides disserta sobre o homem renegado às paragens mais distantes e isoladas,
o escravo de si mesmo que se auto flagela “da ambição maldita que o levou à terra; e
desafronta-se da fraqueza moral que lhe parte os ímpetos da rebeldia, recalcando-o cada
vez mais no plano inferior da vida decaída onde a credulidade infantil o jungiu, escravo à
gleba empatanada dos traficantes, que o iludiram (CUNHA, 2006, p. 70)
Na segunda parte da obra, intitulada “Vários estudos”, tal como o próprio nome já
explicita, o autor conta sobre diversos aspectos físicos da Amazônia do princípio do século
passado. No terceiro capitulo, Euclides disserta sobre o tema “Da independência à
República” e relata fatos ligados à Amazônia, a terra sem história que era alvo de
constantes investidas civilizatórias.
Na quarta e última fração do livro, chega o trecho talvez mais complexo de toda a
obra. Intitulado “Estrelas indecifráveis”. O segmento é dedicado a uma extensa redação
sobre a o astro que guiou os três reis magos junto a Jesus. Para o pesquisador Luiz
Fernando Valente, o texto contido no capítulo é um retrato da escrita que unia ciência à
literatura (VALENTE, 2009).
O meio e o homem são contemplados detalhadamente, mas a temática “O conflito”
jamais chegou a ser escrita. Isso porque Euclides foi assassinado em 15 de agosto de 1909
pelo militar Dilermando de Assis (GALVÃO, 2010). Um mês após a morte de Euclides, o
livro que estava sendo editado em Portugal pela editora do Porto foi publicado (GALOTTI,
2006). Mas a ideia de Euclides era produzir um livro que, tal qual o célebre “Os sertões”,
vingasse a realidade dos seringueiros.

Pretendia sintetizar suas impressões da Amazônia em Um paraíso


perdido, título que evocaria o poeta inglês John Milton, de Paradise lost.

329
Seria, em suas palavras, o seu "segundo livro vingador" (idem, ibidem,
p. 306). Queria integrar, como em Os sertões, uma ampla interpretação
histórico-cultural ao clamor por justiça social e pela modernização do
país. Sua morte repentina em 1909, em tiroteio com o amante de sua
mulher, Ana, interrompeu a redação do livro. (Ventura, 1998).

O desejo de Euclides não se tornou realidade. Ao invés disso, o que temos é uma
obra que, apesar de não ter obtido o prestígio de seu livro mais famoso, constitui-se um
marco na literatura produzida sobre a Amazônia. Um retrato que mistura definições
complexas, extenuantes e profundas a apontamentos pessoais, incompletos e etnocêntricos.
Djalma Batista, escritor, médico, membro da academia amazonense de letras e figura
constante na memória do povo nortista, definiu o livro euclidiano como uma espécie de
ápice dentre centenas de obras até então escritas sobre a Amazônia: “Os reveladores da
Amazônia – seus intérpretes contam-se por dezenas. Dentre todos, sobressai pelo seu porte
majestático um nome que ocupa a primeira plana nas letras nacionais: Euclides da Cunha”
(BATISTA, 1938 apud BRAGA, 2002, p. 70).
A representação da obra de Euclides por Djama não é unitária dentre a de outros
críticos sobre a produção de Euclides na Amazônia. Muito ao contrário disto, ela enfileira-
se ao lado de muitas outras.

A Amazônia era sempre representada com a mais falsa e ridícula


expressão, numa caricatura grotesca que, sobre ser imperfeita, não
mostrava os traços reveladores da sua inconfundível fisionomia
geográfica. Veio, por fim, o inimitável autor de À margem da História e,
procurando fugir ao engano das aparências, deu-nos da grande terra,
idéia tão concisa, que nos produziu o efeito de uma perturbadora
revelação. Pareceu-nos estar ilustrando uma região que desconhecíamos
completamente. (LADISLAU apud BRAGA, 2002, p. 70).

Explicitada a importância da obra literária, faz se necessário recorrer à entrevista


que Euclides da Cunha concedeu ao Jornal do Commercio em 1906. É mister ressaltar que
grande parte do que o escritor dissertou sobre a Amazônia ficou ofuscado pelo brilho de
outras obras, entretanto, “Os ensaios amazônicos são a face menos conhecida de sua obra.
Encontram-se dispersos em artigos e entrevistas de jornal, em crônicas e prefácios, em sua
correspondência” (VENTURA, 1998, p. 133).

330
A entrevista concedida ao Jornal do Commercio
Inaugurado em 1º de outubro de 1827, o Jornal do Commercio é o mais antigo
jornal em circulação de toda a América latina (JORNAL DO COMMERCIO: quase dois
séculos de história, 2014). À época da primeira edição, o jornal era dirigido por Pierre
Plancher. A proposta do jornal sempre foi auxiliar e manter bem informada a população
em geral e ajudar em especial os ditos executivos e homens de negócios em seus
momentos de tomada de decisões.

O Jornal do Commercio surgiu tendo como foco a economia, com base


nas publicações Preços Correntes, Notícias Marítimas e Movimento de
Importação e Exportação editadas por Plancher desde sua chegada ao
Rio. Em pouco tempo, transformou-se em folha política e comercial, em
um momento em que a situação do País, que vivia então os primeiros
anos após a Independência, era inquietante. Pedro I, pressionado pelos
portugueses, ia fazendo concessões que poderiam prejudicar os
brasileiros e o Jornal do Commercio, assim, entrou em campo para
defender os interesses nacionais, uma característica que preservou ao
longo de sua história. (JORNAL DO COMMERCIO: quase dois séculos
de história, 2014).

A edição do dia 14 de janeiro de 1906, poucos dias pouco depois de Euclides ter
encerrado a missão de reconhecimento do alto Purus e voltado ao Rio de Janeiro, tinha
logo na página dois estampado “Na Amazônia” (fig.01). O jornal anunciava a conversa que
um repórter, que em nenhum momento da entrevista tem o nome citado, teria tido com o
recém- chegado das terras distantes.
A longa entrevista é precedida pela história que culminou na conversa entre
repórter e entrevistado. Conforme o jornal, Euclides foi interpelado pelo jornalista que
solicitou uma audiência com o viajante. Euclides aceitou de imediato e foi a um lugar mais
calmo juntamente com o repórter.
A primeira pergunta da entrevista foi "Qual sua impressão geral do Amazonas?".
Para a qual Euclides responde "Não creia numa impressão geral acerca do Amazonas. Ao
revés da admiração ou do entusiasmo, o que nos sobressalteia geralmente, no desembocar
do Dédalo florido do Tapajaru, aberto em cheio para o grande rio, é antes um
desapontamento" (CUNHA, Euclides. Na Amazônia, Rio de Janeiro, p. 2, 14 jan. 1906).
Ora, não é o mesmo começo da obra "À margem da história?". No livro, o texto se
inicia com "Ao revés da admiração ou do entusiasmo, o que nos sobressalteia geralmente,

331
diante do Amazonas, no desembocar do dédalo florido do Tajapuru, aberto em cheio para o
grande rio, é antes um desapontamento" (CUNHA, 2002, p. 17).
O trecho é o primeiro de muitos idênticos. As semelhanças não se restringem a
igualdades nas palavras, pontos, vírgulas, parágrafos, que são todos idênticos. Parece que
da entrevista para o livro, houve pequenas alterações nas partes em que Euclides responde
a perguntas, tal como no trecho acima no qual houve uma alteração mínima na ordem da
afirmação do escritor.
Não convém reproduzir ambos os textos neste trabalho, mas é possível afirmar que
em média, 70% da entrevista está contida no livro e isso logo nas primeiras páginas.
As principais diferenças entre os textos estão na última parte da entrevista. Nesse
trecho bastante polêmico para a época, Euclides conta sobre a possibilidade de um conflito
armado entre seringueiros, seringalistas e peruanos invasores. No livro, não há menção a
essa parte. Logo, não seria esse o conflito reservado para o fim do livro que Euclides
jamais chegou a escrever?
Em 21 de janeiro 1906, Olavo Bilac comentando sobre um artigo de Euclides, fala
da falta de reverberações que um magnífico artigo teve. Ele complementa:

Há nesse artigo – que é um grito de alarma, e um aviso generoso dado


aos poderes públicos por uma alma reta e digna,- revelações que
horrorizam. Os homens, que se engajam para trabalhar nos seringais, são
escravos, verdadeiros escravos, tão dignos de compaixão como os que
outrora eram comprados e vendidos para trabalhar nas fazendas[...]
(BILAC apud GARCIA, 20013, p. 14)

O grito ao qual Bilac se refere diz respeito aos alertas que Euclides dá quando conta
a situação dos nordestinos, os homens que trabalham para escravizar-se, que já chegam
endividados à selva, que mal ganham o suficiente para se manterem de pé e buscar por
borracha.

332
Figura 01. Edição do dia 14 de janeiro do Jornal do Commercio com a entrevista de Euclides
reproduzida na íntegra. Fonte: Jornal do Commercio.

Toda a entrevista publicada no Jornal do Commercio foi reproduzida na íntegra


pelo jornal amazonense “Correio do Norte” entre os dias 4, 5, 6, 7, 8 e 9 de maio. Nem um

333
trecho foi cortado, e decerto a entrevista deve ter causado bastante desconforto entre os
seringalistas pois Euclides encerra-a dizendo:

Pois bem, o máximo das pretensões peruanas – e o meu parecer todo


individual – será traduzido geometricamente pela linha que interferir o
Purus na latitude média de ambos, 9°, 20’. É o máximo, insisto.
Conversei longamente com os nossos rudes patrícios daqueles rincões; e
sei que se insurgirão até mesmo contra nós – se aquiecermos num outro
parecer mais desfavorável que o deste juízo elementar, de Salomão. [...]
Imaginai aqueles 20000 “rifleiros”desencadeados em franca rebeldia -
intangíveis no embaralhado dos igarapés e na penumbra das matas...
Talvez, por sua vez, a exemplo dos “Boers”, eles possam espantar o
mundo”. (CUNHA, 1906, p. 2)

Colocada a força que as palavras ditas ao jornal possuem, é de se espantar que não
tenha havido nem uma espécie de censura ao contado pelo escritor. Outro fator no mínimo
curioso relativo à entrevista está na participação do repórter sem nome. Nas sete vezes em
que este desconhecido jornalista intervém, pouco, ou quase nada, interfere no curso da
conversa. Em dado momento chega a questionar se Euclides escreveria um livro com a tese
que desenvolveu durante a viagem. A essa pergunta, o escritor diz “Que farei, se m’o
permitir a engenharia errante e torturada”. Em tréplica o repórter aduz com “Mas que lhe
permitiu executar o recente encargo que lhe deram”.
O diálogo em muito lembra os dilemas pessoais que Euclides vivia. Engenheiro,
jornalista, escritor, diplomata, Euclides viva em conflito quanto às ocupações preferidas e
às quais era obrigado a exercer. Em diversas cartas escritas ao longo da vida, ele menciona
como sua engenharia errante o apartava da vida que sonhava levar. “Acho-me empregado
como engenheiro ajudante nas obras públicas daqui (São Paulo); não tenho entretanto
desejo de ser por muito tempo empregado público; aproveitarei a primeira oportunidade
que tiver para exercer a minha profissão” (CUNHA apud COSTA, 2013). E continua
“Continuo abraçado à minha engenharia e nas horas vagas – como a vida é difícil e é
preciso repartir a atividade, escrevo no Estado que não quer aceitar a minha colaboração
gratuitamente (CUNHA apud COSTA, 2013).
Grande conhecedor dos dilemas de Euclides, o repórter o questiona com
intervenções mínimas. Não extrai nenhuma informação que já não houvesse sido pensada
ou descrita em cartas. Além disso, vale ressaltar que na época não havia gravadores para

334
facilitar o ofício de entrevistador. Portanto, teria o repórter anotado tudo com tanta
perfeição que o próprio Euclides optou por reproduzir tamanha parte do texto no seu livro?

Euclides e o Jornal do Commercio


Na época da publicação do texto, o diretor do jornal era José Carlos Rodrigues.
Curioso é lembrar que Euclides da Cunha e José Carlos Rodrigues, muito além de
colaboradores, eram amigos. A amizade nasceu em 1888 quando o ainda jovem militar
fazia o curso de Estado-maior e Engenharia Militar da Escola Militar. Euclides, à época
republicano ferrenho, cometeu um ato de indisciplina contra um superior monarquista.
Quando, em 1909, Euclides faleceu, o cortejo fúnebre passou por alguns lugares do
Rio de janeiro, dentre esses, a sede do jornal do commercio.

O cortejo seguiu até a porta do Jornal do Commercio, antes de demandar


do Aeroporto Santos Dumont, para homenagear o jornal que defendera o
ato de rebeldia em 1888 e do qual se tornara colaborador, a convite de
José Carlos Rodrigues. (VENÂNCIO, 2001)

Durante toda a vida, Euclides colaborou regularmente com o jornal. Após a visita
ao arraial de Canudos e algum tempo antes da publicação de “Os sertões”, o escritor
publicou diversos textos sobre a experiência adquirida como correspondente.
Já após a viagem à Amazônia, a entrevista foi uma das principais colaborações do ano de
1906, mas em 1907 Euclides publicou diversos trechos de livros nas páginas do jornal do
commercio.

Retomou, em 1907, os assuntos latino-americanos com uma série de


artigos no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, reunidos no
livro Peru versus Bolívia, que logo foi traduzido para a língua espanhola.
Criticava as pretensões do Peru, que reivindicava parte da região do
Acre, incorporada ao território brasileiro e boliviano, e tomava partido
da Bolívia (VENTURA, 1998, p. 137).

Posto isso, o vínculo entre Euclides e o jornal ficam pulsantes. Mas muito além
disso, é bem sabido que Euclides, desde que chegou à Amazônia, preparava-se para
publicar em jornais as suas impressões acerca das solitárias paragens. Prova disso é a carta
enviada ao amigo, José Veríssimo, datada de 13 de janeiro de 1905, na qual o escritor, após

335
contar acerca das primeiras impressões que a selva lhe causou, diz que “Mais tarde, e
talvez pela imprensa, direi a minha impressão integral” (BRAGA, 2002, p. 134).

A ideia de Amazônia nos signos euclidianos


Quando falamos em imagem geralmente a coisificamos. Transformamos a ideia em
algo que podemos ver e até segurar, como é o caso da fotografia. Porém, a imagem pode
ser considerada com um processo de consumo das ideias que povoam uma determinada
região. Nesse caso quando o leitor deste texto é levado a pensar em Amazônia a imagem
mental é construída por toda uma história anterior a ele. Para os amazônidas, ou para
aqueles que são de outras regiões, mas residem na Amazônia, essa construção mental é
influenciada por elementos que compõem o cenário cotidiano.
Contudo nosso trabalho possui em seu recorte temporal, as primeiras décadas do
sec. XX mais precisamente 1909. O leitor do livro “À marjem da historia”, seja no Brasil
ou em Portugal, onde o livro foi editado, fazia parte de uma elite cultural com poder
econômico e status social. O leitor do jornal estava em um patamar econômico diferente,
todavia o requisito básico era ser alfabetizado, pois o jornal poderia ser lido a qualquer
momento.
Ao dividirmos as classes consumidoras dos signos propostos por Euclides da Cunha
para descrever a Amazônia naquele momento histórico, consideramos o nível de
interpretação desses signos. A capacidade intelectual unida ao tempo de vida e
experiências empíricas dos leitores determinaram a construção da ideia de Amazônia que
experimentava a riqueza proporcionada pela comercialização da borracha e o projeto de
civilização proposto pela recém-criada República brasileira.
A Amazônia euclidiana era povoada por mestiços que buscavam na selva a
esperança de uma vida melhor. Euclides encontrou a usurpação do ideal paradisíaco. A
derrubada das árvores e a ostentação dos palácios. Erigidos aos moldes europeus os
casarões, teatros e palácios em Manaus e Belém evidenciaram a desvalorização da cultura
local para exibir o desejo de ser “civilizado”.
Ao leitor do livro foi apresentado um lugar onde o encontro das culturas foi
proporcionado ao som dos rios e igarapés, iluminado por filetes de luz que se esforçavam
para penetrar a densa mata que ocultava a esperança daqueles que buscavam o ouro

336
branco. O projeto civilizador brasileiro se impunha com mais vigor a Amazônia euclidiana.
Era um lugar que inebriava os viajantes com os signos do paraíso há muito proclamado por
várias seitas e religiões, mas que exalava o odor da terra molhada pelo suor do trabalhador
que teimava em desconstruir a imagem que o ideal civilizador insistia em impor.
Para o leitor do jornal, a Amazônia ainda dispunha daquele mistério que poderia ser
desvendado, talvez pelo livro de Euclides. Mas as parcas informações contidas em apenas
uma página do jornal já confirmavam, em certo aspecto, a imagem de um lugar ainda a ser
explorado.
Se estamos inseridos em uma cultura visual e a imagem da Amazônia proposta por
Euclides reflete a esperança do letrado em descrever o lugar, representar o momento e dar
significado à vida daqueles ele lá encontrou, acreditamos que os signos euclidianos não
foram de todo desvelados, interpretados.
Muitos questionamentos surgem. E os principais dentre esses dizem respeito à
autoria e ao grande significado da publicação. Tendo em vista o plano de Euclides de
publicar um livro semelhante ao "Os Sertões", dividido nas três partes e contemplando o
meio, o homem e o conflito, não teria sido o fim da entrevista, a parte que justamente trata
da luta entre seringueiros, seringalistas e peruanos, o terceiro segmento planejado para a
obra "Á margem da história"?
Outra pergunta tão importante quanto à primeira, está relacionada à autoria da
entrevista publicada. Sabendo da amizade de Euclides com o diretor do veículo, e sua
constante colaboração com o jornal, a extensão da entrevista, a semelhança com o livro, a
perfeição na escrita, típica do letrado escritor, as perguntas que em muito lembram os
próprios questionamentos de Euclides, surge a dúvida: não teria sido o próprio Euclides o
autor da entrevista?
As hipóteses carecem de pesquisas cada vez mais aprofundadas, especializadas, e
por isso, este trabalho não pode fechar-se em si mesmo e, apesar de ter sido capaz de
proporcionar os questionamentos, não é capaz de solucioná-los.

Referências bibliográficas
ARRUDA, Maria Olivia Garcia Ribeiro de Arruda. Uma entrevista de Euclides sobre a
Amazônia. In: Cultura Euclidiana. São José do Rio Pardo, 2013, p. 14-20.

BRAGA, Robério. Euclides da Cunha no Amazonas. Manaus: Editora Valer, 2002.

337
COSTA, Nicola. Euclides da Cunha: autorretrato de um caboclo humanista e
idealista. 2013. Texto inédito.

CUNHA, Euclides da. À margem da história. São Paulo: Martin Claret, 2002.

CUNHA, Euclides. Na Amazônia. Jornal do Commmercio, Rio de Janeiro, 14, janeiro ,


1906, p. 2.

GALVÃO, Walnice Nogueira. Euclides da Cunha: Militante da República. São Paulo:


Expressão Popular, 2010.

GONDIM, Neide. A invenção da Amazônia. 2ª Ed. Manaus: Editora Valer, 2007.

VENTURA, Roberto.Visões do deserto: selva e sertão em Euclides da Cunha. In:


história, Ciências, Saúde Manguinhos. Vol. V (suplemento), 133-147 julho 1998.
Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-
59701998000400008&script=sci_arttext>. Acessado em 26 de janeiro de 2014.

VENÂNCIO, Alberto Filho. Ciclo Comemorativo do Centenário da Publicação de Os


Sertões. 2001. Disponível em
<http://www.euclidesdacunha.org.br/abl_minisites/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?UserActive
Template=euclidesdacunha&infoid=142&sid=69>. Acessado em 30 de janeiro de 2014.

338
Façanhas políticas de Roraima em quadrinhos (HQ)

Michel Sales FEITOZA160

Resumo: Este projeto investiga o jornalismo em quadrinhos, compreendido como uma


manifestação particular que vincula uma prática jornalística tradicional a uma forma de
expressão artística. Concentrando-se no caráter jornalístico busca-se ampliar a
compreensão das características formais desse estilo de reportagem, propondo-se ao final
do trabalho,construir um livro HQ sobre a política de Roraima, especificando as grandes
façanhas ocorridas após a mudança do território para Estado. Analisam-se seis matérias
publicadas no jornal Folha de Boa Vista. Para chegar às conclusões apresentadas utilizou-
se a análise do discurso como pressuposto teórico e metodológico. A pesquisa bibliográfica
inicial sobre as narrativas de histórias em quadrinhos selecionou obras de autores como Joe
Sacco, e a parte exploratória, de natureza quantitativa, foi por pesquisa realizada no centro
de documentação do jornal Folha de Boa Vista. A justificativa de se desenvolver este
trabalho é verificar se os quadrinhos aproximam o leitor da notícia. Conclui-se que o
jornalismo em quadrinhos ainda carece de representatividade de mercado e maior
observação nas Universidades com incentivo a pesquisas.

Palavras Chave: Jornalismo - Política - Reportagem em Quadrinhos

As histórias em quadrinhos (doravante HQs) são uma mídia tradicionalmente


associada a fantasia, já que suas primeiras histórias são baseadas em temas como o culto ao
herói, a ficção científica, a aventura e o humor.
Neste trabalho, analisam-se seis matérias publicadas no jornal Folha de Boa Vista
que repercutiram nacionalmente envolvendo políticos de Roraima, sendo avaliadas as<