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Universidade Estácio de Sá - Rafael da Silva Ribeiro

BAUMAN, Zygmunt. Ensaios sobre o conceito de cultura. Rio de Janeiro: Zahar, 2012. 328 p.

A obra Ensaios sobre o conceito de cultura, Fatores necessários para explicar a noção
escrita por Bauman se tornou célebre por hierárquica de cultura:
versar sobre a liquidez da era moderna em
1) herdada ou adquirida, a cultura é parte
vários domínios, com o uso de conceitos
do ser humano: partilha com a
como amor líquido, sociedade líquida. Na
personalidade a qualidade de ser essência
referida obra, composta originalmente por
definidora e característica existencial.
três capítulos, Bauman revisa o percurso
Todavia, a cultura, apesar de suas
do termo cultura nas ciências sociais, em
peculiaridades, é uma propriedade,
uma complexa jornada que percorre desde
consequentemente, pode ser adquirida,
a filosofia grega antiga até o pós-
dissipada, manipulada, transformada,
estruturalismo.
moldada e adaptada;
O primeiro capítulo trata da cultura como
2) a qualidade de um ser humano pode ser
conceito e enfatiza a notoriedade de sua
moldada, adaptada, mas também
inflexível ambiguidade e explana que, em
abandonada como uma terra inculta
função de circunstancias históricas, o
(lembrar da metáfora de Plutarco que nos
termo cultura foi incorporado a três
ensina que o solo só dará bons frutos se for
universos distintos: conceito hierárquico,
cuidado por um agricultor capaz o
conceito diferencial e conceito genérico.
suficiente de selecionar apenas as
Bauman introduz o conceito hierárquico de melhores sementes);
cultura, cuja origem remete à Grécia e à
3) A noção hierárquica de cultura é
Roma antigas, citando o senso comum na
impregnada de valor, a expressão só
sociedade que concerne a distinção entre
assume uma posição tendenciosa na
pessoas cultas (refinadas, educadas) e
discussão a respeito das soluções culturais.
incultas – ELES X NÓS.
Nesta circunstância, o conceito só faz
sentido se vier como cultura no singular.
Do ponto de vista hierárquico, há uma avaliação do papel desempenhado pela
natureza ideal do ser humano e “a cultura” noção hierárquica em uma sociedade
significa justamente o esforço para atingir repleta de conflitos depende do estrutura
esse ideal, para alinhar o processo de vida de referência que for selecionada. Afinal,
concreto com o potencial mais sublime da os conflitos concernentes a noção
vocação humana. Bauman analisa que o hierárquica de cultura também pode
ideal cultura-natureza dos antigos gregos transmitir a insatisfação dos grupos mais
não se subdividia nos domínios que marginalizados. Porém, modernamente, o
atualmente estamos acostumados: o conceito hierárquico não está mais
moralmente bom era ao mesmo tempo relacionado ao antigo conceito de belo e
belo esteticamente e mais próximo da bom, tanto que o intelecto e o dinheiro
verdade da natureza. A unidade podem levar a mobilidade social
preordenada da realização expressava-se ascendente e, para Bauman, a cultura em
no discutido conceito belo e bom, tratado sua noção hierárquica foi reinventada em
por todos os pensadores do período benefício dos eruditos e intelectuais.
clássico. A segunda parte do conceito é um
A cultura como conceito diferencial é um
adjetivo que corresponde grosseiramente
termo aplicado com o intuito de explicar
às palavras admirar e louvar.
diferenças visíveis entre comunidades de
Quanto a questionalidade inata da noção pessoas, em uso que situa tal conceito
hierárquica de cultura em geral, e em entre conceitos residuais. Este conceito
particular do conceito belo e bom, desenvolve a ideia de que a cultura é a
Bauman enfatiza que Gellner analisou o principal responsável pelos diferentes
fenômeno da bobilidade (bobilility) que, do caminhos de povos dotados do ponto de
ponto de vista sociológico, significa um vista genético e confrontados por um
artifício através do qual a classe conjunto semelhante de oportunidades
privilegiada adquire parte do prestígio de econômicas.
certas virtudes respeitadas nessa
O terceiro e último conceito de cultura
sociedade em questão, sem a
abordado por Bauman no primeiro capítulo
inconveniência de ter de praticá-las. Há
é o conceito genérico. Enquanto a noção
uma correspondência íntima entre o
hierárquica de cultura evidencia a antítese
conceito de ideal cultural do tipo
entre formas de cultura refinadas e
bobilidade e o raciocínio inerente à lógica
grosseiras (assim como a ponte
estruturalmente determinada dos
educacional entre elas) e a noção
processos vivos, entretanto, ressalta que a
diferencial de cultura é simultaneamente
um produto e um pivô da preocupação
com as oposições entre os diferentes
modos de vida dos vários grupos humanos,
a noção genérica é formulada ao redor da
dualidade mundo humano-mundo natural.
O conceito genérico está relacionado com
as fronteiras do homem e do humano, pois
concerne aos atributos que unem a espécie
humana ao distingui-la de tudo o mais.

O que se procura não é uma unidade


biológica, pré- cultural, mas o alicerce
teórico da relativa autonomia e
peculiaridade da esfera cultural. A noção
genérica atribui a própria cultura a
qualidade de característica universal de
todos os seres humanos e apenas destes,
sendo uma das diferenças entre humanos e
animais: a cultura, mais do que um
agrupamento de normas e costumes, é
uma abordagem específica e humana do
teatro da vida, aprofundada na habilidade
específica da mente humana. Outros
proponentes do conceito genérico de
cultura estão mais próximos da abordagem
tradicional do denominador comum,
apesar de estarem situadas no contexto da
passagem histórica do mundo animal para
o humano.
cultura e de estrutura social, os dois
conceitos sempre que se apresentam como
O segundo capítulo do livro trata da
antônimos, são racionalizações da natureza
Cultura como ESTRUTURA. Logo, enfatiza-
dual, constante e comumente vivenciada
se que estrutura é um estado de desordem
pela condição da humanidade.
e pode ser definida como um agrupamento
de regras de transformações de (e entre) Bauman conclui que a estrutura buscada
um conjunto de elementos inter- pela compreensão estruturalista da cultura
relacionados - acordos. Assim que as é o conjunto das regras selecionadas
transformações originadoras de eventos historicamente pelos seres humanos, que
definidas em um espaço de eventos governam a um só tempo a atividade
possíveis são submetidas a regras, o mental e prática do indivíduo como ser
quadro de ocorrências concretas é um epistêmico, com um conjunto de
subconjunto limitado do universo de possibilidades que essa atividade pode
possibilidades total. operar. Quando o referido conjunto de
regras se condensa nas estruturas sociais,
O autor compreende a estrutura como o
ele parece ao indivíduo uma necessidade
ordenamento das interrelações dentro de
metafísica semelhante a lei; graças à sua
uma sociedade; a ausência dessa estrutura
inesgotável capacidade de organização, é
equivale à desordem e impossibilita uma
vivenciado pelo mesmo indivíduo como sua
dinâmica sociocultural com os homens. Por
liberdade criativa, embora seletiva. Ambos
isso, costuma-se dizer que somente os
os elementos da experiência humana
humanos são capazes de se organizarem
fundamental (sua existência/ essência,
em torno da cultura, para a cultura, na
suas modalidades objetiva/subjetiva)
cultura. O papel desempenhado pela noção
crescem, em última instância, a partir da
de estrutura na lógica da ciência moderna
mesma raiz; e por isso é importante
revive vários debates essenciais
rastrear sua ancestralidade.
relacionados à natureza da cognição e dos
conhecimentos.

Bauman ainda acreditava que a abordagem


estrutural da práxis humana proporciona
uma nova oportunidade de solução
satisfatória para o paradigma da estrutura
social-cultural. Aliás, apesar das diferenças
entre numerosas definições possíveis de
como a realidade existe por meio de
múltiplas interações individuais. Bauman
O terceiro capítulo de Bauman aborda a
defende que o conceito de cultura,
cultura como prática com finalidade de
quaisquer que sejam suas elaborações
desenvolver a tese de que a controvérsia
específicas, pertence à família dos termos
sobre cultura-estrutura social pertence à
que representam a prática humana. O
família dos temas da experiência básica da
conceito de cultura, portanto, transcende o
natureza dual da condição humana. Depois
dado ingênuo/ imediato da experiência
de mais uma análise das ideias básicas
privada – a natureza inclusiva e
relativas aos diversos usos do termo
autossustentável da subjetividade. O nível
cultura ou afins, Bauman entende que,
de sofisticação a que ele eleva a
apesar do termo cultura aparentar
autopercepção da condição humana é
pertencer a uma família de conceitos
retirado do solo plano da ingenuidade de
oriundos da parte interna da experiência
senso comum (representatividade social)
universal da dualidade do mundo, se difere
pela diferença quantitativa entre indivíduo
dos seus parentes na tentativa de
e comunidade humana.
transcender a oposição entre o subjetivo e
o objetivo. Assim, Bauman inicia a abordagem acerca
da relação entre cultura e natureza
Fosse como fosse definida ou descrita, o
dialogando com a teoria de Lévi-Strauss
âmbito cultural invariavelmente se
(destaca ao longo do estudo da busca da
acomoda entre os dois polos da
universalidade entre todas as formas de
experiência básica: ao mesmo tempo em
cultura, seu estudo antropológico, a
que é o sustentáculo objetivo da
proibição do incesto porque constitui o
experiência subjetivamente significativa e a
ponto de encontro mais evidente entre
apropriação subjetiva de um planeta, da
natureza e cultura – regras sociais
outra forma é simplesmente
universais onde todo ser humano pode
desumanamente esquisito.
estar envolvido), trata do nojo e do tabu
A cultura age no ponto de encontro do social relativos aos produtos das
humano com o mundo que ele apreende necessidades fisiológicas humanas e chega
ser real. Logo, o conceito de cultura é a na fronteira entre “nós” e “aqueles”, a qual
subjetividade objetificada. É um esforço pode impulsionar forte sentimento de
para compreender o modo como uma ação xenofobia ou preconceito contra os
individual é capaz de possuir uma validade marginalizados quando trata o outro com
que ultrapassa o caráter individualista e ojeriza. Movimento último, bastante
utilizado atualmente por governos de Bauman enxerga a cultura como a inimiga
extrema-direita. da alienação (através da cultura, o humano
se encontra em um estado de revolta
Neste caso, o outro, objeto de ataques
constante e não à toa, todos os estados
sutis ou não, é enxergado como viscoso,
totalitaristas atacam primeiramente a
termo muito utilizado durante a parte final
cultura), pois a cultura liberta e
do livro para se referir a ambiguidade
proporciona que sejam abertas as portas
seletiva e manipulada, que pode ser
para uma multiplicidade de realidades no
enxergada no estranho ou mesmo em
despertar de vontades e desejos proibidos.
outras temporalidades, conhecido como
Assim, à medida em que a práxis humana
bárbaros. A representação social é
retém sua natureza de revolta
precedida pela prática. A relação entre
incontrolável as profecias de um mundo
ambas fornece um projeto que propicia
sem significado podem ser desvalorizadas.
uma pesquisa rica e descobertas
significativas. Após quase três décadas, Baumam retorna
à sua obra e escreve uma introdução na
Ao longo do livro, podemos perceber que a
qual analisa e atualiza o livro com uma
reorganização de numerosas descobertas
melhor compreensão acerca das
adquiridas sob outras estruturas analíticas,
transformações constantes da cultura e da
necessita do estabelecimento de um novo
sociedade, além de trazer ao público
projeto, que ultrapassa o volume do
temáticas não pensadas naquele momento
estudo em comento. Bauman trata de
como o próprio multiculturalismo. Quanto
cultura e sociologia, avaliando
às atualizações destacamos que a cultura
extensamente as formas como a última
agora é compreendida como agente de
estudou o campo cultural ao longo de sua
ordem e instrumento de desordem. A
jornada científica e chega ao entendimento
contradição da cultura pode ser repensada
de que a cultura é singularmente humana,
com o entendimento que a que serve para
pois apenas os seres humanos podem
a preservação de um padrão também
reivindicar um significado que lhe é mais
enfraquece seu poder, pois a cultura se
profundo. As normais e ideais oferecem a
retroalimenta na medida em que o impulso
única perspectiva a partir da qual essa
de modificar, alterar e substituir o padrão
condição é vista como a realidade humana
se perpetua (2012, p.18).
e adquire dimensões humanas. Apenas
então a sociologia poderá entrar em Não apenas falou sobre o multiculturalismo
contato direto com a prática humana. como adaptou sua visão de cultura à sua
teoria que versa sobre a liquidez da
modernidade no livro A Cultura no Mundo estadunidense ‘O ódio que você semeia’
Líquido, 2011, cujo tratamento da cultura que além de questionar o poder de classes,
em consonância com assuntos mais a disputa racial e de gênero, situa o
concernentes a sociedade de consumo telespectador na luta contra o poder do
funde-se ao fenômeno da globalização. Estado, da ‘máquina opressora’ e o silêncio
social adormecido por esta mesma cultura
Bauman compreende que a cultura foi
que se retroalimenta em críticas e
transformada de estimulante em
questionamentos por meios de vários
tranquilizante: a perda de posição da
produtos culturais. Destaco que este
cultura foi resultado de uma série de
questionamento não ocorre apenas no
processos que transformaram a
cinema, mas é nele que seu alcance é
modernidade de sua fase sólida para a
maior já que também se alimenta de uma
líquida e assim a cultura passou a servir à
máquina de divulgação que outros
manutenção do equilíbrio do sistema, ao
produtos culturais não conseguem
statusquo e a reprodução monótona da
alcançar.
sociedade (2013, p.12). Ou seja, a visão de
Bauman sobre cultura passou a se tornar Hoje existem territórios como a internet
bastante pessimista em oposição ao final que proporcionam que manifestações
otimista de Culture as praxis. Todavia, culturais fora do circuito midiático. Se
apesar da menor tendência à revolta do estamos em um meio acadêmico, apenas
mundo atual, a cultura ainda pode servir com um estudo sociológico mais
sim para uma abertura que impulsione aprofundado dos fenômenos culturais em
mudanças. Reflexo disso é que as lutas seu aspecto de revolta poderia nos
plurais e multifacetadas podem ser proporcionar uma maior noção do impacto
enxergadas na sociedade moderna em que eles podem produzir, pois, entre vários
músicas, livros e até no audiovisual (veja na aspectos a serem considerados, Bauman,
prática os debates acirrados para de acordo com sua obra, estava certo ao
minimizar com o machismo e a violência dissertar como a sociedade de consumo
institucionalizada contra às mulheres), tranquiliza a cultura ao transformá- la em
assim como também alguns produto a ser consumida. Exemplo disso
questionamentos da luta de classe, por são as roupas punk que originalmente
exemplo. foram concebidas com o intuito de
protesto e hoje são frequentemente
Nesse âmbito podemos citar o filme
utilizadas apenas como meras roupas
brasileiro ‘Que horas ela volta’, o coreano
“descoladas”. Ou a constante renovação
‘Parasita’, o polonês ‘Milagre na cela7’, o
semântica do termo reciclar no universo da que o aspecto monetário também possa
moda. ter impacto dentro de tal noção.

Cultura é status e é a partir dele que a Durante toda a obra analisada nesta
sociedade se divide entre eles e nós e resenha, percebemos as preocupações de
assim, estabelece normas a serem Bauman com o mero formalismo
cumpridas. É a partir do estudo dos três acadêmico, embora dele se aproprie.
conceitos elaborados no primeiro capítulo Percebemos nos exemplos em que ele
do livro, que destacamos o conceito relacionou cultura e natureza para criticar
hierárquico ainda presente em nossa a xenofobia e mesmo o preconceito que as
sociedade. elites costumam ter contra as classes
marginalizadas ou de suas culturas
Hoje, podemos citar com assertividade que
distintas – requintadas ou não. Todavia,
as paradas de sucesso na música, no
apesar da obra examinar diversos
conceito de cultura instaurado no livro,
conceitos de cultura, o autor deixa claro
estão do lado menos refinado na definição
que o termo cultura jamais se esgota nele
de cultura. Enquanto a tropicália ou ópera,
mesmo. Trata-se de um termo tão
são gêneros mais considerados mais
complexo e multifacetado que o
requintados. Trata-se, portanto, de um
aprofundamento, a atualização e a
retrato da aplicação da intelectualidade na
compreensão – de várias questões
noção hierárquica modernamente, mesmo
necessitam de constantes revisitações.

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