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“O Eneagrama pode ser usado em diversos ramos do conhecimento...

A ideia é combater com mais eficiência os vícios (da personalidade)


correspondentes e melhorar o desempenho emotivo e profissional”

Revista Isto É

“Com o Eneagrama, profissionais e gestores podem reconhecer


habilidades e desenvolver competências em si próprios e nos
colaboradores”

Coluna “Recursos Humanos”, Caderno “Boa Chance”


do jornal O Globo

“Clareza mental e capacidade didática são qualidades raras no mundo


atual. Tive o privilégio de realmente aprender sobre o Eneagrama com
o Khristian Paterhan em workshops e cursos, utilizando seu
conhecimento e orientação firme para melhorar o trabalho em equipe e
o relacionamento médico-paciente”

Dra. Emilia Serra


Diretora Médica do Instituto Alpha de Saúde Integral

“O Eneagrama é um instrumento poderoso de gestão empresarial e


autoconhecimento. Destaco o profundo conhecimento e habilidade do
autor na condução de treinamentos, palestras e coaching de
executivos. Os resultados são evidentes e rápidos. Tenho a certeza
que este livro de agradável leitura será para o leitor um instrumento de
reflexão e melhor entendimento das pessoas de sua convivência”

Dr. Linomar Barros Deroldo


CEO Autovias, Centrovias, Intervias, Vianorte
– Arteris S. A. SP – Brasil

“Sou testemunha das mudanças positivas que o Eneagrama


transmitido por Paterhan produz nas pessoas, agregando qualidade de
vida e possibilitando que os indivíduos se tornem mais produtivos e
pró-ativos”

Dr. Georges Barrenne


Vice Presidente do Sistema FIRJAN – Federação
das Indústrias do Rio de Janeiro
Copyright © 1998, by Khristian Paterhan Condes

Todos os direitos desta edição reservados à Khristian Paterhan Condes


É proibida a duplicação ou reprodução desta obra, ou de partes da
mesma, sob quaisquer meios, sem autorização expressa de Khristian
Paterhan Condes

Saiba mais sobre o Sistema Eneagrama 360°©,


o Teste TSE360°© e os Treinamentos corporativos
ministrados por Khristian Paterhan Condes
acessando www.escolaeneagrama.com.br
Khristian Paterhan Condes nasceu em 1955, em Viña del Mar, Chile

e reside no Brasil desde 1989 ano no qual iniciou a divulgação do

Eneagrama tendo publicado desde então três livros sobre a filosofia

relacionada a este extraordinário sistema de autoconhecimento e

desenvolvimento humano. É autor do Sistema Eneagrama 360°© e do

Teste TSE360°© aplicados com sucesso em treinamentos e ações de


Assessment em empresas nacionais e multinacionais. Qualificado e

experiente, Paterhan é membro fundador e foi presidente da IEA no

Brasil e reconhecido como Enneagram Accredited Teacher e

Profissional Member da International Enneagram Association – IEA

(USA). Atualmente realiza aplicações do Eneagrama nas áreas de

psicoterapia, mentoring e coaching, além de ministrar periodicamente

cursos, treinamentos e palestras sobre esta instigante tipologia.


Agradecimentos

Agradeço a todos aqueles que colaboraram na


construção
deste livro com seus depoimentos e vivências.
Eles são a base desta obra e sem essa participação
não valeria a pena tê-lo escrito.
Sumário

Capa

Folha de rosto

Créditos

Sobre o autor

Agradecimentos

Como ler, aplicar e tirar maior proveito deste livro

Introdução ao Eneagrama O legado de Georges


Ivanovich Gurdjieff

Parte I - Centro Físico ou Motor (Traços 8, 9 e 1)


O Traço 8 : O eu que confronta
O Traço 9 : O eu que espera
O Traço 1 : O eu que ordena

Parte II - Centro Emocional (Traços 2, 3 e 4)


O Traço 2 : O eu que ama
O Traço 3 : O eu que compete
O Traço 4 : O eu que idealiza

Parte III - Centro Intelectual (Traços 5, 6 e 7)


O Traço 5 : O eu que pensa
O Traço 6 : O eu que imagina
O Traço 7 : O eu que projeta

Palavras Finais - O Eneagrama positivo e a


possível evolução humana

Referências Bibliográficas
Como ler, aplicar e tirar
maior proveito deste livro

Antes de ensinar como utilizar melhor este livro


devo advertir que, para compreender realmente o
Eneagrama, não basta ler um ou vários livros sobre
o assunto. É fundamental participar de um ou vários
workshops vivenciais, compartilhar e trocar
experiências com pessoas que possuam o mesmo
Traço Principal (Tipo), ouvir o que pessoas com
outros Tipos/Traços Principais dizem a respeito de si
mesmas.
Sem vivência é impossível sentir e compreender
toda a força e sabedoria que esta ferramenta possui.
Se você está lendo sobre o assunto pela primeira
vez, aconselho ler este livro da seguinte maneira:

1. Adquira o Teste Simplificado disponível no site da


Escola de Eneagrama clicando neste link:
http://escolaeneagrama.com.br/servicos/teste-
basico-do-eneagrama-by-khristian-paterhan/23//

O resultado do Teste permitirá que você tenha


uma visão inicial e básica do seu Tipo de
Personalidade Eneagramático Principal que será
aquele com maior número de respostas afirmativas.
Quanto mais você for sincero(a) e honesto (a) nas
suas respostas, mais serão as probabilidades de
identificar rapidamente seu Traço ou Tipo de
Personalidade Principal. Lembre-se de que dessa
atitude depende que o Eneagrama se transforme em
um “aliado” da sua evolução e crescimento pessoal
e profissional.

2. Leia neste livro as descrições, depoimentos e


orientações relacionadas ao Tipo de Personalidade
Eneagramático identificado. Caso tenha dúvidas
entre dois Tipos, leia as descrições de ambos.

É muito provável que após a leitura desses Tipos


escolhidos, você terá mais certeza sobre qual é o seu
Traço ou Tipo Principal. Reflita sobre seu Tipo e
decida o que, em seu caso, você deveria começar a
trabalhar e observar para aprimorar sua
personalidade.
Os Tipos de Personalidade Eneagramáticos estão
agrupados de acordo com o Centro ao qual
pertencem, ou seja: os Tipos 8, 9 e 1 (Grupo de
Seres Humanos cuja vida psíquica está relacionada
com o Centro do Movimento ou Centro Físico); os
Tipos 2, 3 e 4 (Grupo de Seres Humanos cuja vida
psíquica esta relacionada com o Centro Emo​cional)
e os Tipos 5, 6 e 7 (Grupo de Seres Humanos cuja
vida psíquica está relacionada com o Centro
Intelectual).

3. Leia os Tipos que acompanham seu Tipo


Principal-chamados de “asas”, “braços” ou
“companheiros eneagramáticos”. Por exemplo, se
você é um Tipo 3, leia as características dos Tipos
2 e 4 e veja como elas o influenciam. Se você é um
Tipo 5, leia os Tipos 4 e 6 e assim por diante.

4. Leia as características dos Tipos relacionados com


seus movimentos imediatos no Eneagrama. Por
exemplo, se você é Tipo 5, o “movimento a favor
da seta” é para Ponto 7 e o movimento contra a
seta é para Ponto 8 do Eneagrama. Leia e reflita
nestes Tipos Eneagramáticos e tente observar
como se dá em você a influência deles, tanto
positiva como negativamente.

5. Estude todos os Tipos. Lembre-se que no seu


mundo interior estão todos os Nove “eus”
eneagramáticos e que você deve conhecer cada um
deles profundamente para torna-lhos seus aliados.
Verifique que aspectos negativos dos outros Tipos
se dão em você e quais aspectos positivos você
deveria imitar e /ou fortalecer.

6. Inicie a Observação e Lembrança de si mesmo.

Lembre-se de que você não é a máscara


(personalidade) e que pode aprimorar-se,
aperfeiçoar-se e ser cada dia melhor como ser
humano.

7. Comece a pôr em prática o Eneagrama. Participe


de nossos treinamentos, seminários e workshops
vivenciais sobre este assunto. Pouco a pouco, com
a prática você poderá identificar os Tipos
Eneagramáticos de seus clientes, colegas de
trabalho, amigos e parentes. Sua capacidade de
comunicação interpessoal vai melhorar porque
você será capaz de compreender como os “outros”
interpretam a realidade. Aprenda a tratar cada
Tipo segundo suas características tipológicas,
despertando e estimulando o melhor de cada um e
de cada situação.

8. Aprenda em nossos workshops e treinamentos


como aplicar o Eneagrama nos seus negócios e/ou
relacionamentos profissionais, praticando o
melhor modo de se relacionar e negociar com cada
tipo, analisando quais os aspectos positivos e
negativos de cada um e gerando uma comunicação
mais produtiva. Lembre-se de que cada Tipo
Eneagramático observa o mundo de um ângulo
diferente. Aprenda a perceber quais as motivações
de cada Tipo. Argumente de acordo com essas
motivações e melhore seus relacionamentos
pessoais, profissionais e comerciais.

Se você é empresário e deseja fazer um


treinamento específico com os seus colaboradores,
leia o Portfólio e depoimentos de clientes disponível
no site: www.escolaeneagrama.com.br/view/home/

FAÇA UM UPGRADE E CONHEÇA O SISTEMA


ENEAGRAMA 360º®

Se você quiser, poderá ainda contratar o teste


Completo de Eneagrama-TSE 360º® cujo resultado
lhe permitirá conhecer sua personalidade como um
todo, considerando cada um dos seus 9 Traços e
sub-modalidades. Ao fazer o teste Completo de
Eneagrama-TSE 360º® você poderá combinar
sessões online de análises com Khristian Paterhan
via Skype.

Mais informações em:


http://www.escolaeneagrama.com.br/servicos/sess-o-
de-orienta-o-com-khristian-paterhan/24/
Introdução ao Eneagrama
O legado de Georges Ivanovich Gurdjieff
(o homem que trouxe o Eneagrama para o
Ocidente)

Esta introdução foi escrita para aqueles que


desejam aprofundar nas origens filosóficas do
Eneagrama. Caso você deseje, leia após ter feito o
Teste Simplificado e/ou terminado a leitura do seu
Tipo de Personalidade.
Hoje em dia podemos afirmar que Georges
Ivanovich Gurdjieff (1872-1949), criador do sistema
de desenvolvimento humano conhecido
internacionalmente como Quarto Caminho, foi um
dos mais notáveis transpessoalistas modernos. Sua
obra que, como alguém acertadamente escreveu,
somente por ignorância é colocada nas prateleiras
das chamadas “obras esotéricas” (as quais ele
sempre desprezou, advertindo sobre seus perigos e
extravagâncias), se mostra, a cada ano que passa,
mais atual e exata. Os livros que ele escreveu
guardam, para quem os estuda, reflete e pratica,
preciosos tesouros, frutos de uma das sínteses mais
valiosas do conhecimento psicofilosófico do Oriente
e do Ocidente. Não vou fazer aqui um resumo da
sua biografia, nem escrever sobre o que já está
escrito em centenas de livros e comentários, alguns
dos quais traduzidos para o português e que cito na
bibliografia.
O legado de G. I. Gurdjieff é hoje um dos mais
importantes, especialmente neste momento em que a
humanidade precisa dar um “salto quântico” no seu
desenvolvimento como espécie.
Foi ele quem trouxe ao conhecimento do Ocidente,
há mais de 80 anos, a existência do Eneagrama,
milenar símbolo-síntese criado por sábios de uma
época esquecida na qual as ciências exatas e a
“psicologia da possível evolução humana”, como a
chamava Piotr Demianovich Ouspensky, um de seus
mais notáveis discípulos, estavam ligadas.
Quem deseje conhecer e praticar a filosofia de vida
ensinada por Gurdjieff e contida no Eneagrama,
pode estabelecer contato com a Escola de
Eneagrama “Khristian Paterhan C.”, e/ou pesquisar
sobre outros grupos de trabalho de Quarto Caminho
no Brasil e no mundo.
Gurdjieff foi um profundo conhecedor das
psicofilosofias e tradições antigas, e teve acesso, por
meio de uma misteriosa ordem secreta chamada
Sarmung, aos “fragmentos de um ensinamento
desconhecido” (P. D. Ouspensky), cujas origens se
perdem na noite dos tempos e se ligam com a
extraordinária cultura sumério-babilônica, hoje
reconhecida pelos historiadores como uma das mais
avançadas da Antiguidade em termos culturais e
científicos. Atualmente seus ensinamentos deveriam
ser tratados com “espírito científico”, já que
estamos em condições culturais de completar e
compreender – para benefício da nossa espécie e
graças aos níveis que temos atingido nos campos das
ciências humanas e exatas – esse “quebra-cabeça”
do conhecimento humano, do qual ele nos deixou
tantos e valiosos “fragmentos”.
Com efeito, Gurdjieff afirmava que existiu, num
remoto passado, um “Grande Conhecimento”, do
qual faziam parte todas as ciências, artes e filosofias
e de cuja existência pouco ficou registrado na
história escrita da humanidade. O Eneagrama,
segundo ele, fazia parte desse “Grande
Conhecimento” que unificava todas as coisas.
Com o intuito de promover maiores níveis de
consciência entre os seres humanos e tendo como
objetivo incentivar “a unidade de todas as coisas”,
Gurdjieff fundou na França, em 1922, o Instituto
para o Desenvolvimento Harmonioso do Ser
Humano, mediante o qual atualizou parte desses
antigos ensinamentos.
Sua obra atraiu importantes personagens de todas
as áreas do conhecimento humano, muitos dos quais
inspirados pelos ensinamentos que revelou de uma
forma incomum, os incorporaram às suas áreas de
atuação profissional com excelentes e notáveis
resultados.
Seu trabalho foi pioneiro no sentido de demonstrar
objetivamente que existem níveis de consciência
passíveis de serem desenvolvidos mediante práticas
exatas. Muitos anos antes que se falasse sobre temas
como “ecologia”, “psicossomática”, “relatividade”,
“inteligência emocional”, “holismo”, “psicologia
transpessoal” e outros assuntos que hoje se abordam
cada vez com mais facilidade e objetividade, graças
aos avanços das ciências, Gurdjieff já os tratava
com uma profundidade que se mostra cada vez mais
exata e completa.
Tive o privilégio de conhecer sua proposta e o
Eneagrama na década de 80, no meu país, Chile, por
meio de pessoas muito especiais que desejam
permanecer no anonimato.
Desde então, nunca parei de pesquisar, trabalhar e
difundir o legado deste homem notável e faço isso
como ele ensinou, para pagar parte da minha
“divida com a existência”.
Foi justamente com o objetivo de divulgar e dar
um enfoque mais abrangente das ideias de Gurdjieff
e da sua relação com outras linhas filosóficas do
Oriente Antigo,[1] que fundei em 1986 o Instituto
para el Desarrollo Humano Integral, IDHI®, no
Chile. Seis anos depois (1992) refundei-o aqui no
Brasil, com o apoio de amigos muito especiais,
alunos e discípulos. As atividades do IDHI® foram
encerradas no ano 2005, para dar inicio a uma nova
fase de trabalhos a través da atual Escola de
Eneagrama “Khristian Paterhan”
www.escolaeneagrama.com.br e da minha empresa
a “Upgrade Nine-Consultoria e Treinamento de
Pessoal Ltda.”, “instrumentos” através dos quais
possibilito o trabalho de desenvolvimento humano,
tanto pessoal quanto profissional, de todos aqueles
que almejam o autoconhecimento e a realização
integral como seres humanos.
Devo advertir que o Eneagrama não está atrelado
a qualquer “tradição mística” nem é “propriedade”
de qualquer escola ou instituição conhecida na
atualidade. Sua natureza em termos de exatidão e
objetividade é única, e já se tem realizado estudos,
teses e pesquisas empíricas, algumas das quais
disponíveis na internet.
Nas últimas décadas, o trabalho de Gurdjieff
sofreu ataques de setores interessados em provocar o
“esquecimento” da sua obra, assim como em
diminuir sua importância especialmente no que se
refere aos seus conhecimentos sobre o Eneagrama.
Não me parece estranho que se tenha combatido
tanto o “sistema” de Gurdjieff nem que se tenham
feito tantos esforços para desacreditá-lo, porque
estas são as maneiras mais comuns de se tratar os
grandes mestres e gênios.
Esses mesmos setores não podem evitar que os
ensinamentos de Gurdjieff se tornem cada vez mais
conhecidos e aplicados em diversos campos da
atividade humana e no mundo todo. Um desses
setores tentou – e ainda tenta – provar que Gurdjieff
não teria ensinado as aplicações psicológicas do
Eneagrama. Porém, uma análise fria e serena da sua
obra pode demonstrar que ele não somente conhecia
suas aplicações psicológicas profundamente, como
também as utilizava para explicar outros fenômenos
universais com total mestria, como o demonstra nos
seu livro Relatos de Belzebu a seu neto, obra já
traduzida para o português. Demonstrarei isto nesta
introdução ao tema.
É importante advertir também que ninguém pode
se atribuir a “invenção” do Eneagrama como
ferramenta de desenvolvimento humano. Do mesmo
modo que dizemos que Pitágoras “criou” “seu”
famoso teorema e ficamos muito tranquilos sem
perceber que estamos demonstrando uma tremenda
ignorância, já que ele não criou esse teorema,
apenas o “herdou” de pessoas que sabiam e o
tinham conservado (dados sobre esse teorema
existem na China muito antes de Pitágoras existir),
assim também acontece com o Eneagrama cujos
verdadeiros criadores são desconhecidos,
calculando-se que exista, segundo o pesquisador J.
G. Bennet,[2] há uns 4. 500 anos ou mais.
Pela mesma razão, é importante cuidar para que
este “patrimônio” científico-cultural da humanidade
não seja “propriedade intelectual” de ninguém e sim
um meio de desenvolvimento e unificação das
ciências, artes e filosofias.

Sobre a importante contribuição e atualização do


Eneagrama,
realizadas por Oscar Ichazo e Claudio Naranjo

Não posso deixar de mencionar aqui a


importância da atualização e sistematização do
Eneagrama feita pelo sábio boliviano, Dr. Oscar
Ichazo, e, especialmente as realizadas pelo
internacionalmente prestigiado psiquiatra e escritor
chileno, Dr. Claudio Naranjo, cuja contribuição e
descrições dos Nove Eneatipos foi fundamental para
que eu pudesse reconhecer os mesmos nos textos de
Gurdjieff.
No Congresso de Eneagrama realizado em 2010
em Fortaleza e organizado pela International
Enneagram Association - IEA do Brasil, no qual
Naranjo recebeu uma merecida homenagem e
reconhecimento público pela sua contribuição e obra
com relação ao Eneagrama, tive a oportunidade de
conversar com ele sobre minha defesa e argumentos
de que Gurdjieff conhecia sim a “tipologia
eneagramática”, fato que demonstrarei na
continuação desta introdução. Aceitando meus
argumentos, Claudio me disse: “Porém, você não
haveria descoberto isso sem a ajuda das minhas
definições (dos Nove Tipos)”.
É isto é verdade! Foi a partir do seu notável
trabalho e das descobertas de Ichazo, no inicio dos
anos 70, no meu país, Chile, que muitos outros
pesquisadores e estudiosos do comportamento
humano, eu incluído, iniciaríamos importantes e
valiosos estudos sobre o tema Eneagrama, um tema
que está longe de ser esgotado quando se
compreende que este símbolo milenar supera os
limites de uma simples tipologia psicológica. Alguns
desses estudos, trabalhos e obras já estão traduzidos
para o português e são citados na bibliografia
complementar.

Algo sobre o valor objetivo de certos símbolos e as


origens
do Eneagrama, segundo G. I. Gurdjieff

Gostaria, antes de começar, transcrever aqui


algumas palavras de P. D. Ouspensky com as quais
me identifico plenamente e que foram ditas por ele
no início de uma série de palestras sobre o sistema
do Quarto Caminho, as quais ficaram reunidas num
volume que leva o mesmo título.

Ele declarou:

“Antes de começar a explicar-lhes de um modo


geral sobre o que trata este sistema, e de falar sobre
nossos métodos, quero gravar particularmente nas
suas mentes que as ideias e princípios mais
importantes do sistema não me pertencem. Isto é o
que os faz valiosos, porque, se me pertencessem,
seriam como todas as outras teorias inventadas
pelas mentes correntes: somente dariam uma visão
subjetiva das coisas.”

Espero que o leitor, a partir de agora, lembre


constantemente este importante esclarecimento.
No Capítulo XIV do livro Fragmentos de um
ensinamento desconhecido, Ouspensky nos revela,
baseado em sua notável memória e em notas
tomadas durante encontros com Gurdjieff, as
milenares origens do Eneagrama. Vou tentar
sintetizar ao máximo o texto, citando apenas o
necessário para o objetivo desta obra.
Primeiramente, Ouspensky nos lembra que
Gurdjieff costumava falar de uma antiga “Ciência
Objetiva” que não se baseava nos dados e
experiências produtos de “estados subjetivos de
consciência” e que teria existido na terra há
milhares de anos, fruto da experiência de seres
altamente evoluídos.[3] Esta “Ciência Objetiva”
teria como uma de suas idéias centrais “a unidade
de todas as coisas, a unidade na diversidade”. Os
sábios que compreenderam a importância e
profundidade destas ideias perceberam que a
transmissão e conservação das descobertas feitas
graças a esta “Ciência Objetiva” implicavam um
grande esforço de síntese para conseguir preservá-las
e transmiti-las às gerações futuras. Pensaram, então,
num meio exato para atingir este importante
objetivo. Descobrir esse meio deu, com certeza,
muito trabalho a estes sábios, porque na “ciência
objetiva, inclusive a ideia de unidade, só pertence à
consciência objetiva”, nível no qual a realidade é
observada tal qual ela é e que, obviamente, não é
um estado habitual entre nós.
Com efeito, Gurdjieff ensinava que esta nossa
incapacidade de observar a realidade tal qual ela é
se devia ao fato de que grande parte da nossa
existência, ou quase toda ela, vivemos num estado
de “sono e sonho” ou “estado de consciência
subjetiva” no qual é impossível “observar” e muito
menos “sentir” a realidade tal qual ela é. Por esta
razão, é extremamente difícil perceber essa “unidade
de todas as coisas”, quando se está habituado a
acreditar num “mundo fragmentado” e dividido em
“milhões de fenômenos separados e sem ligação”,
ainda que intelectualmente até “entendamos” que
“algo” unifica tudo. Sabemos que, com efeito, o
fato de não compreendermos esta unidade intrínseca
de todas as coisas, é uma das principais causas da
perigosa situação que temos provocado no equilíbrio
ecológico do planeta, a razão dos ódios raciais, das
injustiças sociais, dos conflitos e separatismos
religiosos e políticos e de tantos outros nefastos
efeitos produtos do que Buda chamou, “sentimento
de separatividade” que afeta a psique humana.
Cientes destas nossas limitações, estes sábios
decidiram que o único meio de transmitir seus
conhecimentos objetivos era utilizando, entre outros
recursos, símbolos especiais, os quais conteriam,
graças a uma síntese matemático-psicológica exata,
os principais dados dessa “Ciência Objetiva”. Ou
seja, eles poderiam ser resgatados no futuro por
aqueles que trabalhassem profunda e seriamente
para conhecerem a si mesmos além das suas
subjetivas e limitadas personalidades. Esta previsão
foi acertada e, por esta razão, novamente o
Eneagrama foi atualizado conservando sua
extraordinária exatidão matemática, cuja origem
exata continua sendo ainda um mistério.
Os símbolos aos quais se referia Gurdjieff,
“continham os diagramas das leis fundamentais do
universo e transmitiam não só a própria ciência,
mas mostravam igualmente o caminho para chegar a
ela. O estudo dos símbolos, da sua estrutura e
significação, era parte muito importante dessa
necessária preparação sem a qual não é possível
receber a ciência objetiva, e era uma prova do
porque uma compreensão literal ou formal dos
símbolos se opõe à aquisição de qualquer
conhecimento ulterior.
Os símbolos eram divididos em fundamentais e
secundários; os primeiros compreendiam os
princípios dos diferentes ramos da ciência; os
segundos exprimiam a natureza essencial dos
fenômenos em sua relação com a unidade.”
Entre as leis fundamentais sintetizadas nesses
símbolos que “exprimiam a natureza essencial dos
fenômenos em sua relação com a unidade”, duas são
de fundamental importância para compreender os
ensinamentos de Gurdjieff: a “Lei de Três” e a “Lei
de Sete”, conhecida também como “Lei de Oitava”
por sua relação com a escala musical e sua
sequência dó, ré, mí, fá, sol, lá, si, dó que guarda
dentro de si as relações matemáticas, associadas ao
som correspondente a cada nota musical.
“As leis fundamentais das tríades e das oitavas
penetram todas as coisas e devem ser estudadas
simultaneamente no homem e no universo”, ensina
Gurdjieff.
Porém, devido ao fato de existir num nível de
consciência subjetiva, o homem precisa primeiro
iniciar o estudo dessas duas leis em si mesmo, para
depois compreender suas manifestações universais:

“Mas o homem é, para si mesmo, um objeto de


estudo e de ciência mais próximo e mais acessível
que o mundo dos fenômenos que lhe são exteriores.
Por conseguinte, esforçando-se por atingir o
conhecimento do universo, o homem deverá
começar por estudar em si mesmo as leis
fundamentais do universo.”

Por outro lado, o conhecimento dos símbolos e das


leis fundamentais que eles guardam não pode ser
apenas “teórico”, já que, nesse nível, os símbolos
ainda estão sujeitos a interpretações errôneas devido
à nossa forte subjetividade e ao nosso ainda baixo
nível de consciência. Daí que, para compreendê-los
profundamente, deve-se atingir um nível no qual as
considerações subjetivas que provocam discussões e
contradições sejam superadas completamente, o que
exige um profundo conhecimento de si mesmo,
único modo de compreender as leis fundamentais do
universo, ou seja: “(...) a verdadeira compreensão
dos símbolos não pode prestar-se a discussões”.
Para quem pretende atingir esse nível de
compreensão, Gurdjieff adverte:

“(...) se alguém imagina poder seguir o caminho


do conhecimento de si, guiado por uma ciência
exata de todos os detalhes, ou se espera adquirir tal
ciência antes de se ter dado o trabalho de assimilar
as diretrizes que recebeu, no que concerne a seu
próprio trabalho, engana-se; deve compreender,
antes de tudo, que nunca chegará à ciência (objetiva)
antes de ter feito os esforços necessários e que
somente seu trabalho sobre si mesmo permitirá
atingir o que busca. Ninguém lhe poderá dar o que
ele ainda não possui; nunca ninguém poderá fazer
por ele o trabalho que ele deveria fazer por si
mesmo. Tudo o que outro pode fazer por ele é
estimulá-lo a trabalhar e, desse ponto de vista, o
símbolo compreendido como deve ser, desempenha o
papel de um estimulante em relação à nossa ciência
(objetiva)”.

A advertência de Gurdjieff mostra-se claramente


necessária, já que, nos nossos dias e apesar de todos
os nossos avanços e conhecimentos “teóricos”,
ainda não compreendemos a importância de “leis
básicas” como a de “causa e efeito”, por exemplo,
pois, se as compreendêssemos, primeiro em relação
a nós mesmos e, em seguida, em relação à natureza
da qual somos parte, concluiríamos, sem ter que
discutir e sem “subjetividades” de nenhuma espécie,
que uma série de erros simplesmente não poderia ser
cometida sob nenhum aspecto, se as aplicássemos
“objetivamente”. Porém, a maioria não tem
consciência de que muitos “efeitos” indesejáveis e
negativos só existem porque não somos conscientes
dos nossos atos, ou seja, não “compreendemos” o
que essa lei de “causa e efeito” implica, ainda que
sejamos capazes de “decorá-la” quando passamos
pelo colégio. Também vemos que essa falta de
“compreensão” acontece inclusive em relação a
signos simples, que são meios de expressar certos
dados menos profundos que os contidos nos
símbolos, porém, não menos importantes na prática.
Assim, por exemplo, um sujeito pode “aprender”,
por meio do Regulamento do Trânsito, que um
cartaz ou painel de fundo amarelo com a figura em
cor preta de uma criança que carrega livros
significa: “atenção-diminua-a-velocidade-do-seu-
carro-porque-você-está-passando-por-um-local-
próximo-a-uma-escola-e-crianças-menos-
responsáveis-que-você-que-é-adulto-estão-por-perto,
etc., etc.” Porém, o fato de este sujeito “aprender” a
“interpretar” esse “sinal de trânsito”,
internacionalmente aceito, não implica
necessariamente que compreendeu a necessidade de
obedecê-lo, e pode vir a atropelar uma ou várias
crianças que, “acidentalmente”, estejam perto da
dita escola no dia em que ele não respeite esse
“signo”. O “estímulo” para a compreensão foi
dado, porém não foi “vivenciado” pelo sujeito que o
recebeu.
Voltemos ao assunto dos símbolos e das chamadas
“leis fundamentais”. Gurdjieff afirma, em outra
parte do Capítulo XIV da citada obra de
Ouspensky, que: “a lei de oitava conecta todos os
processos do universo e, para aquele que conhece as
oitavas de transição e as leis de sua estrutura (ou
seja, a Lei de Três e a Lei de Sete), surge a
possibilidade de um conhecimento exato de cada
coisa ou de cada fenômeno em sua natureza
essencial, bem como de todas as suas relações com
as outras coisas e com os outros fenômenos”.
Então nos revela que, “para unir, para integrar
todos os conhecimentos relativos à lei da estrutura
da oitava, existe um símbolo que toma a forma de
um círculo cuja circunferência se divide em nove
partes iguais, mediante pontos ligados entre si,
numa certa ordem, por nove linhas”. Ou seja, o
Eneagrama.
Os sábios que deram origem a este símbolo-síntese
não pertenciam, ensina Gurdjieff, a nenhuma das
linhas de conhecimento “tradicional” conhecidas na
atualidade: nem hebraica, nem egípcia, nem
iraniana, nem hindu, nem qualquer outra conhecida.
A despeito de respeitáveis tradições desejarem ser os
“pais da criança”, como se diz aqui no Brasil, este
símbolo “não poderia ser encontrado em nenhum de
seus livros”, e, embora se atribua o Eneagrama aos
respeitáveis místicos sufis e suas tradições orais, por
exemplo, Gurdjieff sustenta que este símbolo “não é
objeto de uma tradição oral”.
Quando discute as origens do Eneagrama Gurdjieff
ensina:

“O ensinamento, cuja teoria expomos aqui, é


completamente autônomo, independente de todos os
outros caminhos e, até hoje [ou seja, até a data em
que Gurdjieff o revelou aos seus discípulos], tinha
permanecido inteiramente desconhecido. Como
outros ensinamentos, utiliza o método simbólico e
um de seus símbolos principais é a figura que
mencionamos, isto é, o círculo dividido em nove
partes.”

Observe que Gurdjieff está se referindo a um


sistema de conhecimento a que ele teve acesso e no
qual o Eneagrama é um, somente um, dos símbolos
principais, o que significa que nesse sistema existem,
ou existiam, mais símbolos, alguns dos quais
Gurdjieff revelou indiretamente por meio das suas
exatas “Danças Conscientes”, que você pode
apreciar no filme baseado em sua obra
autobiográfica “Encontros com homens notáveis”
dirigido por Peter Brook .
A descrição que Gurdjieff faz do Eneagrama nesse
mesmo capítulo é a seguinte:

“Este símbolo toma a seguinte forma:

Figura 1

O Círculo está dividido em nove partes iguais. A


figura construída sobre seis desses pontos tem por
eixo de simetria o diâmetro que desce do ponto
superior. Esse ponto é o vértice de um triângulo
equilátero construído sobre aqueles pontos, dentre
os nove, que estão situados fora da primeira figura.”

Ampliando suas explicações matemáticas sobre


este símbolo, Gurdjieff diz:

“As leis da unidade refletem-se em todos os


fenômenos. O sistema decimal foi construído sobre
as mesmas leis. Se tomarmos uma unidade como
uma nota que contém em si mesma uma oitava
inteira, devemos dividir essa unidade em sete partes
desiguais correspondentes às sete notas dessa oitava.
Mas, na representação gráfica, a desigualdade de
partes não é levada em consideração e, para a
construção do diagrama, toma-se primeiro um
sétimo, depois dois sétimos, depois três, quatro,
cinco, seis e sete sétimos. Se calcularmos as partes
decimais, obteremos:

1/7 = 0,142857...
2/7 = 0,285714...
3/7 = 0,428571...
4/7 = 0,571428...
5/7 = 0,714285...
6/7 = 0,857142...
7/7 = 0,999999... = 1

Você pode observar que, com exceção da última


dízima periódica, em todas as restantes “encontram-
se presentes os mesmos seis algarismos, que trocam
de lugar segundo uma sequência definida; de tal
modo que, quando se conhece o primeiro algarismo
do período, torna-se possível reconstruir o período
inteiro”. Você também observou que nesses períodos
“os números 3, 6 e 9 não estão incluídos (...)
[porque eles] formam o triângulo separado – a
trindade livre do símbolo”.
Se você leitor prestou atenção à sequência definida
segundo a qual os algarismos trocam seus lugares,
está em condições de compreender o “movimento”
que este símbolo representa, e que se conhece como
“movimento eneagramático externo” e se expressa
por “setas” que indicam a direção desse
“movimento” contínuo: 1 4 2 8 5 7 1 , e assim
por diante:

Figura 2
Aqui o triângulo equilátero é considerado como
uma “unidade” e os 6 “pontos” (1, 4, 2, 8, 5 e 7)
lembram a “Lei de Sete” ou “Lei de Oitava” (6 + 1
= 7).
Os números 3, 6 e 9 ficam nos vértices do
triângulo e seu “movimento”, conhecido como
“interno”, é: 9 - 6 - 3 - 9 - 6 - 3, etc. e são indicados
com as “setas” correspondentes:

Figura 3
Estas indicações preliminares serão importantes
quando considerarmos os Tipos Eneagramáticos e
seus movimentos psicológicos contra e/ou a favor da
seta de acordo com seu “Traço ou Defeito
Principal”.
Ouspensky deixou registrado também que
“Gurdjieff voltou ao Eneagrama em múltiplas
ocasiões”.
Numa dessas ocasiões revelou que: “(...) é
necessário compreender que o Eneagrama é um
símbolo universal. Qualquer ciência tem seu lugar
no Eneagrama e pode ser interpretada graças a ele.
E, sob este aspecto, é possível dizer que um homem
só conhece realmente, isto é, só compreende aquilo
que é capaz de situar no Eneagrama. O que não é
capaz de situar no Eneagrama, não compreende.
(....) Se um homem isolado no deserto traçasse o
Eneagrama na areia, nele poderia ler as leis eternas
do universo. E cada vez aprenderia alguma coisa
nova, alguma coisa que ignorava até então.”
E mais: “(...) O Eneagrama é o movimento
perpétuo, é esse perpetuum mobile que os homens
buscaram desde a mais remota antiguidade, sempre
em vão. E não é difícil compreender por que não
podiam encontrá-lo. Buscavam fora de si o que
estava dentro deles (...) A compreensão desse
símbolo e a capacidade de utilizá-lo dão ao homem
um poder muito grande (...).”
Gurdjieff também diz: “(...) A ciência do
Eneagrama foi mantida secreta durante muito
tempo e, se agora, de certo modo, está sendo
tornada acessível a todos, é apenas sob uma forma
incompleta e teórica, praticamente inutilizável para
quem não tenha sido instruído nessa ciência por um
homem que a possua. Para ser compreendido, o
Eneagrama deve ser pensado como em movimento,
como se movendo. Um Eneagrama fixo é um
símbolo morto; o símbolo vivo está em
movimento.”
Um dos “movimentos” do Eneagrama tem relação
com os aspectos dinâmico-psicológicos que
diferenciam os seres humanos uns dos outros como
já foi mostrado. É sobre esse “movimento” que
tratamos neste livro à luz dos ensinamentos de
Gurdjieff.

A aplicação psicológica do Eneagrama


nos ensinamentos de Gurdjieff

OS TRÊS CENTROS BÁSICOS: Como profundo


conhecedor do Eneagrama, G. I. Gurdjieff baseou
todo o seu método de desenvolvimento humano na
aplicação deste símbolo milenar e nas leis das quais
ele é a síntese: a “Lei de Sete” e a “Lei de Três”.
Baseado na “Lei de Três” presente no Eneagrama,
ele dividia o ser humano, para facilitar o estudo e a
compreensão de si mesmo, em três níveis ou
“centros” básicos: Centro Intelectual, Centro
Emocional e Centro Motor. Como lembra
Ouspensky, “tentava inicialmente ensinar-nos a
distinguir essas funções, a encontrar exemplos e
assim por diante”.
No Eneagrama esses “centros” têm a seguinte
localização:

Figura 4

Você pode observar como, para cada Centro,


existe uma manifestação eneagramática “tripla” e
um correspondente vértice do triângulo central. Os
números associados ao Centro Motor são: 8, 9 e 1;
os associados ao Centro Emocional são 2, 3 e 4; e,
finalmente, os associados ao Centro Intelectual são
5, 6 e 7.
A localização dos Centros como se vê no gráfico
não é aleatória. Obedece a uma ordem exata,
revelada por Gurdjieff a seus alunos e que foi
preservada por Ouspensky no Capítulo IX da obra
citada. Não tratarei deste tema aqui por sua
complexidade e porque só costumo falar sobre ele
com quem já tem um certo tempo de prática com o
Eneagrama.

Figura 5

Relação dos Três Centros com nossa Bilateralidade


Cerebral
e os Três Cérebros

Antes de continuar, vou apresentar aqui uma nova


visão do Eneagrama, que chamo de “O Eneagrama
Invertido”. Ao contrário do que geralmente se
divulga, descobri que no Eneagrama devemos
observar o ser humano ao contrário (Figura 5): ou
seja, no Centro Físico ou do Movimento (Pontos
8,9,1), localizamos o sistema digestivo, o reprodutor
e pernas; no Centro Intelectual o lado esquerdo do
corpo até o umbigo, abarcando os órgãos desse lado
do corpo e o braço e mão esquerda (Pontos 6 e 7); e
no Centro Emocional o lado direito do corpo até o
umbigo, os órgãos desse lado do corpo e braço e
mão direita (2,3). Por último, nos Pontos 4 e 5
devemos imaginar a cabeça, o cérebro, suas partes e
hemisférios cerebrais: no Ponto 5 o Hemisfério
Cerebral Esquerdo (HCI) e no Ponto 4 o Hemisfério
Cerebral Direito (HCD).
De acordo com o princípio de bilateralidade
cerebral o Hemisfério Cerebral Esquerdo rege o lado
direito do ser humano (Centro Emocional) e o
Hemisfério Cerebral Direito rege o lado esquerdo do
ser humano (Centro Intelectual). Daí a importância
do desenvolvimento harmonioso dos três Centros, já
que, uma das questões mais descuidadas na
educação é a do desenvolvimento das faculdades do
Hemisfério Cerebral Direito, relacionado com o
Centro Emocional no Eneagrama, e, uma
supervalorização do desenvolvimento das faculdades
relacionadas ao Hemisfério Cerebral Esquerdo,
ligado ao Centro Intelectual no Eneagrama, e, um
descuido quase total com o desenvolvimento do
Centro Físico ou do Movimento relacionado, em
parte, aos nossos instintos. Gurdjieff dava extrema
importância ao desenvolvimento equilibrado de
todos os Centros como única maneira de formar um
ser humano mais harmonioso, já que, segundo ele
somos seres TRICEREBRAIS ou de Três Cérebros.
Estes são:

1. O Reptiliano: relacionado com o Centro Físico da


AÇÃO e ATIVIDADE e com os Pontos 8, 9 e 1 do
Eneagrama Invertido.

Este Centro está conectado principalmente com o


Cerebelo, camada do nosso cérebro que temos em
comum com os répteis e mamíferos e que é
responsável por nossas manifestações instintivas
tais como a sobrevivência (Ponto 9 do Eneagrama)
, com a reprodução, a luta e com nossa
necessidade de poder e de hierarquias (Ponto 8 do
Eneagrama) e com hábitos, condicionamentos e
rotinas (Ponto1).

2. O Límbico: relacionado com o Centro Emocional


e com os nossos sentimentos e aos Pontos 2, 3 e 4
do Eneagrama Invertido. Esta camada do cérebro
presente também nos mamíferos, inclui o Tálamo
e Hipotálamo e se relaciona ao controle do
comportamento e do sistema nervoso autônomo.

3. O Neocórtex: relacionado ao Centro Intelectual e


aos Pontos 5, 6, 7 do Eneagrama Invertido. Esta
camada do cérebro que compartilhamos com os
mamíferos superiores é considerada
subjetivamente a mais “evoluída” e esta
relacionada com nossa capacidade de raciocinar
(Ponto 5 do Eneagrama Invertido), com a
chamada “linguagem simbólica” (Ponto 6 do
Eneagrama Invertido) e com a linguagem
conceitual e verbal. Como possui neurônios
altamente especializados que possibilitam ao ser
humano a realização de múltiplas tarefas
simultâneas (Ponto 7 do Eneagrama), este terceiro
cérebro é chamado de “centro da inteligência” ou
“cérebro inteligente”.

Todos possuímos estes Três Cérebros ou Centros,


porém, um deles é predominante em nossas vidas e
atividades. Por esta razão, a divisão básica do ser
humano em Três Centros é muito importante no
estudo do Eneagrama. Compreendendo-a, é possível
apreender uma segunda divisão de Gurdjieff, maior,
mas pouco conhecida, cujo profundo valor sequer se
suspeita, tendo a maioria se limitado a repetir o que
Ouspensky escreveu a respeito. Refiro-me aos Três
Grupos de Seres Humanos Básicos e aos Quatro
Grupos de Seres Humanos que correspondem a
níveis superiores de evolução consciente. Note-se
que novamente estão presentes aqui as Leis de Três e
de Sete. Vejamos.

Os Três Grupos de Seres Humanos Básicos e os


Quatro Grupos
Superiores de Seres Humanos, segundo G. I.
Gurdjieff

Gurdjieff ensinava que existem Três Grupos de


Seres Humanos Básicos, os dos “Homens número
Um”; “Homens número Dois” e “Homens número
Três”, que não devemos confundir com os números
dos Tipos 1,2, 3 Eneagramáticos e seus Traços
Principais.
Para ele os Grupos de Seres Humanos “Um, Dois
e Três constituem a humanidade mecânica; na qual
os seres humanos permanecem no nível em que
nasceram”. Só poderiam ascender a um nível
superior de consciência mediante um trabalho
perseverante de autoconhecimento que objetivasse a
evolução individual, por meio das escolas
conectadas com o que Gurdjieff chamava “Círculo
Consciente da Humanidade”.
Os seres humanos do Grupo número Um
correspondem no “Eneagrama dos Traços
Principais” aos Tipos 8, 9 e 1 e, segundo Gurdjieff,
teriam o “centro de gravidade de sua vida psíquica
no Centro Motor”. Seriam os homens “do corpo
físico, em quem as funções do instinto e do
movimento predominam sobre as do sentimento e
do pensar”. Estes aprendem por imitação, por
memorização e por repetição. (Reptiliano)
Os seres humanos do Grupo número Dois
correspondem no “Eneagrama dos Traços
Principais” aos Tipos 2, 3 e 4 e, segundo Gurdjieff,
seriam aqueles nos quais o “centro de gravidade de
sua vida psíquica está no Centro Emocional, e, [o
ser humano] em quem as funções emocionais
predominam sobre as outras é [o ser humano] do
sentimento, [o ser humano] emocional”. Aprendem
somente o que lhes “agrada”, o que “gostam”.
Quando sadios procuram tudo o que lhes “agrada”;
quando “doentios” são atraídos para o que os
“desagrada”. (Límbico)
Os seres humanos do Grupo número Três
correspondem no “Eneagrama dos Traços
Principais” aos Tipos 5, 6 e 7 e, segundo Gurdjieff,
é o tipo de ser humano “cujo centro de gravidade da
sua vida psíquica está no Centro Intelectual, noutros
termos, é [o ser humano] em quem as funções
intelectuais predominam sobre as funções
emocionais, instintivas e motoras; é o [ser humano]
racional, que tem uma teoria para tudo o que faz,
que parte sempre de considerações mentais [...] O
saber [dos seres humanos Três] é um saber fundado
num pensar subjetivamente lógico, em palavras,
numa compreensão literal [...]”. (Neocortex)
Naturalmente, para cada aspecto predominante,
existem outros dois, só que com menor poder de
influência e desenvolvimento. Para “visualizar” esta
divisão da humanidade, fiz o seguinte gráfico:

Figura 6
Além destes Três Grupos de Seres Humanos
Básicos, Gurdjieff definia um grupo de Seres
Humanos Intermediários (ou seja, que estão
iniciando um processo de evolução consciente) e três
Grupos de Seres Humanos Superiores, produtos de
uma evolução deliberada, consciente e gradual, fruto
de um conhecimento exato relacionado com o
desenvolvimento objetivo de novos níveis de
consciência e nos quais os Três Centros estão em
equilíbrio, permitindo, a partir do quinto nível
evolutivo, a manifestação plena do que ele chamava
de “Centros Superiores”, que existem só
potencialmente nas primeiras três categorias
“mecânicas”, e com alguns sinais básicos de
manifestação na quarta categoria.
O ser humano do Grupo número Quatro Gurdjieff
o definia como aquele que, tendo nascido nos
Grupos Psicológicos Um, Dois ou Três, conhece um
sistema de trabalho interno, que lhe permite
desenvolver nele “um centro de gravidade
permanente feito de suas ideias, de sua apreciação
do trabalho (interno) e de sua relação com a escola
(na qual aprende a realizar esse trabalho de
autoconhecimento). Além disso, seus centros
psíquicos já começaram a se equilibrar; nele, um
centro não pode mais ter preponderância sobre os
outros, como é o caso das três primeiras
categorias”. Gurdjieff completa dizendo que este
tipo de ser humano, diferentemente dos que
pertencem aos três primeiros Grupos, “já começa a
se conhecer, começa a saber para onde vai”.
Sobre os seres humanos das categorias Cinco, Seis
e Sete (repito, não confundir com os Tipos 5, 6 e 7
do Eneagrama), Gurdjieff se refere apenas ao tipo de
saber que desenvolvem com as seguintes palavras
citadas por Ouspensky:
“O saber do homem [do Grupo] número Cinco é
um saber total e indivisível [...]. Possui um Eu
indivisível e todo o seu conhecimento pertence a esse
Eu. Não pode mais ter um ‘eu’ que saiba alguma
coisa sem que outro ‘eu’ esteja informado disso. O
que ele sabe, sabe com a totalidade de seu ser. Seu
saber está mais próximo do saber objetivo [lembra o
que já revelamos sobre o conhecimento objetivo
anteriormente?] do que pode estar o do homem
número Quatro.O saber do homem [do Grupo]
número Seis representa a integralidade do saber
acessível ao homem; mais ainda pode ser perdido. O
saber do homem [do Grupo] número Sete é bem
dele e não lhe pode mais ser tirado; é o saber
objetivo e totalmente prático (ou seja, vivencial, não
teórico) de Tudo.”
Em seguida e para reflexão dos conhecedores do
Quarto Caminho e interessados no
autoconhecimento e na evolução “espiritual” da
humanidade, deixo um insight que tive em relação a
estes ensinamentos e que resumi no seguinte
“Eneagrama da evolução possível do homem” da
minha autoria, para cuja confecção apliquei o
Princípio Hermético de Correspondência, a Lei de
Três e a Lei de Sete.[4]

Figura 7
A importância do estudo prático e vivencial do
Eneagrama
para o autoconhecimento

É fácil observar no gráfico anterior (Figura 7)


como são importantes o estudo e o conhecimento de
si mesmo por meio do Eneagrama, já que,
teoricamente, nos podem conduzir a níveis de
desenvolvimento muito elevados.
Iniciar um processo de autoconhecimento implica,
primeiramente, perceber e aceitar que vivemos
sujeitos a um nível de consciência subjetivo e
“mecânico” e que fazemos parte de um desses três
grupos psicológicos básicos de seres humanos
ensinados por Gurdjieff. Em segundo lugar devemos
compreender que o único meio para nos livrarmos
dessa “mecanicidade” passa necessariamente por um
processo de aprimoramento que não pode ser
improvisado e que deverá incluir o desenvolvimento
harmonioso dos Três Centros (Físico, Emocional e
Intelectual). Enquanto não soubermos o que implica
tudo isso, não será possível compreender por que é
fundamental o Eneagrama para iniciar este processo
objetivamente.
Muitas pessoas iniciam seus primeiros esforços em
busca do autodomínio e do autoconhecimento
estimuladas pela expectativa dos sonhados
benefícios espirituais, materiais e individuais que
isso lhes poderá proporcionar. Porém, as diversas
razões pelas quais uma pessoa deseja ter maior
domínio e conhecimento de si mesma podem
claramente ser diferenciadas e definidas quando
sabemos a qual dos grupos principais ela pertence
como ser humano. É fácil comprovar que existem
motivações básicas bem diferentes. Pessoas do
Grupo Um (Centro Motor) talvez desejem obter
maior poder pessoal, maior controle das situações e
dos demais, maior domínio de si mesmas,
objetivando “resultados materiais”. Pessoas do
Grupo Dois (Centro Emocional) querem lidar e
interagir melhor com as pessoas em termos
emocionais, querem aprender a controlar suas
emoções e as das outras pessoas, querem ampliar
suas possibilidades de servir aos outros com sucesso
já que isto as satisfaz e realiza. Por último, pessoas
do Grupo Três (Centro Intelectual) querem saber
quais são as causas e as leis que governam seus
mundos internos, querem conhecer as causas pelas
quais os fenômenos acontecem, querem ter os
conhecimentos que lhes permitam compreender a
vida e a si mesmas, ou seja, talvez queiram apenas
“saber”. Naturalmente, em todas elas, algo das
motivações que influenciam com maior força os
outros dois grupos aos quais não pertencem, está
presente, ainda que em menor grau. A razão é que
em todos os três Grupos é possível perceber um
desenvolvimento psicológico unilateral, pelo qual
um dos Centros se tornou mais “sensível” que os
outros aos “estímulos externos” e “interpreta” a
realidade a partir de “necessidades” e “motivações”
diferentes.
O que dificulta o estudo prático de si mesmo é o
fato de as pessoas não se darem conta do que
implica ser parte de uma humanidade mecânica ou
que vive num baixo nível de consciência.
Em primeiro lugar, no nível de consciência
habitual ou subjetivo, o ser humano não é realmente
“livre”. Gurdjieff ensina que nesse nível o ser
humano não faz, tudo simplesmente lhe acontece. É
muito difícil compreender e aceitar esta afirmação
porque todos achamos que “fazemos” e que somos
“livres”. Só que, falando em termos estritos,
nenhum ser humano nos três Grupos (Físico,
Emocional e/ou Mental) poderia considerar que suas
condutas, modos de agir e/ou reagir perante a
existência são “conscientemente” escolhidos ou
mesmo originais, já que todos os que integram esses
grupos agem e reagem pelas mesmas causas básicas.
Esta é uma das verdades mais provocantes que o
Eneagrama nos permite “descobrir”.
O único meio de que dispomos para nos livrarmos
dessa “mecanicidade” é conhecer como ela se
manifesta em cada um de nós, ou seja, quais são
essas características mecânicas e previsíveis que
acompanham essa nossa determinada e “mecânica”
manifestação pessoal. É aqui que o Eneagrama dos
Traços ou Tipos Principais se torna valioso, porque
por meio dele conseguiremos saber:

1. Qual é o Grupo (Um, Dois ou Três) ao qual


pertenço como ser humano no nível “mecânico”.

2. Qual é o Traço ou Defeito Principal (são três para


cada grupo), no qual devo concentrar meus
esforços de observação, lembrança e autocontrole
para superá-lo e conseguir efetivamente o real
conhecimento de mim mesmo.

3. Qual o trabalho específico, relacionado com meu


grupo e Traço Principal, que me ajudará a
aprimorar meu autoconhecimento e autodomínio,
e, a partir daí, ter a possibilidade de passar para o
4º Tipo de seres humanos.

Vamos, então, conhecer o Eneagrama dos Traços


ou Tipos e suas três causas principais.

O Eneagrama dos Nove Traços (Tipos) principais


segundo Gurdjieff

Gurdjieff costumava usar uma linguagem muito


exata para transmitir seus conhecimentos, de tal
maneira que seus conceitos podem ser muito bem
identificados e diferenciados por alguém que estude
e reflita sobre sua obra com atenção. Isso me
permitiu realizar a análise eneagramática dos
mesmos e definir explicitamente o Eneagrama dos
Traços Principais implícitos nas obras de Gurdjieff e
Ouspensky. Baseado nesta experiência e
comparando essas observações com os estudos e
descobertas eneagramáticos feitas por Ichazo e
Naranjo, segundo foram revelados, pesquisados e
comentados nas obras do próprio Naranjo, e de
autores como Don Richard Risso, Helen Palmer,
David Daniels e outros pesquisadores do tema,
pude, ao longo do tempo, concluir que,
eneagramaticamente falando, os Três Problemas
Fundamentais e Nucleares que segundo Gurdjieff
impedem o autoconhecimento e a realização
humana são:

1. O Esquecimento de Si Mesmo
2. A Consideração Interna
3. A Identificação
Destes três problemas principais, que podemos e
devemos associar aos Três Grupos Humanos
Básicos, surgem os seguintes Traços Principais:

Do Primeiro Grupo: associado ao Esquecimento de


Si Mesmo, questão nuclear que afeta os seres
humanos Tipos 8, 9 e 1, cujo centro de gravidade
psicológico está localizado no Centro Motor ou do
Movimento, surgem:

a) Os seres humanos que se caracterizam por um


constante estado de luta e defesa contra tudo o
que parece estar contra eles, revoltados,
sempre acham que alguma “injustiça” está
sendo cometida contra eles, ou seja, os Tipos
8.

b) Os seres humanos proteladores e esquecidos de


si mesmos que se caracterizam por sofrer do
que Gurdjieff chamava de a “doença do
amanhã”, ou seja, os Tipos 9.

c) Os seres humanos que se caracterizam por


uma forte inclinação a separar as coisas em
“boas” e “más”, “corretas” e “incorretas”,
“certas” e “erradas”, ao que Gurdjieff
denominava a “Moral Externa” ou “moral
subjetiva”, ou seja, os Tipos 1.

Figura 8

Grupo Um dos seres humanos / Centro Motor ou


do Movimento / Tipos 8, 9 e 1.

Questão Nuclear: Esquecimento de Si Mesmo /


Traços ou Defeitos Principais:

A “revolta” (8) A “Doença do amanhã” (9) e a


“Moral Externa ou subjetiva” (1).
Do Segundo Grupo: Da Identificação, questão
nuclear que afeta os seres humanos Tipos 2, 3 e 4 e
cujo centro de gravidade psicológico está localizado
no Centro Emocional, surgem:

a) Os seres humanos que se caracterizam por


acreditar que não consideram os outros o
suficiente, que não dão o suficiente de si e que
se tornam escravos dos outros quando amam,
ou seja, os Tipos 2. Identificados com as
emoções alheias.

b) Os seres humanos que se caracterizam por


suas “exigências”, ou seja, que exigem
admiração, estima e consideração constante
dos outros para que se sintam agradados e
felizes, ou seja, os Tipos 3. Identificados com
a “imagem” necessária para obter a
consideração alheia.

c) Os seres humanos que sofrem “tolamente”,


aqueles para os quais o “sofrimento
inconsciente” se tornou uma escravidão, ou
seja, os Tipos 4. Identificados com seus
próprios “sofrimentos”.
Figura 9

Grupo Dois dos seres humanos / Centro Emocional


/ Tipos 2, 3 e 4.

Questão Nuclear: Identificação / Traços ou Defeitos


Principais: “Amor escravo” (2).

A “Exigência” de atenção (3) e o “Sofrimento tolo”


(4).

Do Terceiro Grupo: Da Consideração Interna,


questão nuclear que afeta os seres humanos Tipos 5,
6 e 7 e cujo centro de gravidade psicológico está
localizado no Centro Intelectual, surgem:

a) Os seres humanos que só vivem “pelo


mental”, que aprendem sem compreender, ou
seja, os Tipos 5.

b) Os seres humanos que estão sob o controle do


“medo” e/ ou que “deixam de ver e ouvir o
que realmente acontece”, ou seja, os Tipos 6.

c) Os seres humanos que têm a ilusão de serem


“livres”, que acham que possuem “vontade
própria” para “escolher, dirigir e organizar
livremente suas vidas”, que se acham
“notáveis”, “originais”, ou seja, os Tipos 7.

Figura 10
Grupo Três dos seres humanos / Centro Intelectual
/ Tipos 5, 6 e 7.

Questão Nuclear: Consideração Interna / Traços ou


Defeitos Principais: “Viver no mental (5).

O “Medo” (6) e a “Falsa liberdade” (7).

Definições de Gurdjieff consideradas para o estudo


dos Traços (defeitos) Principais

Definição dos três problemas nucleares:


Esquecimento de Si Mesmo, Identificação e
Consideração Interna e sua relação com os Tipos
Eneagramáticos:
Gurdjieff permanentemente chamava a atenção
dos seus alunos para os três problemas nucleares.
Para ele, era fundamental que todos conseguissem
observá-los em si mesmos, como um meio para
alcançar a consciência de si. Sendo “nucleares”,
afetam todos os Tipos Eneagramáticos, porém
aquele relacionado com o grupo ao qual você
pertence, deve ser considerado com maior atenção.
Sendo meu interesse principal destacar a obra e os
ensinamentos deste mestre, cito as principais
definições que ele deixou destes três problemas
nucleares:

SOBRE O ESQUECIMENTO DE SI MESMO:

Gurdjieff dizia: “... o homem se esquece de si


mesmo sem cessar. Sua impotência em lembrar-se de
si é um dos traços mais característicos de seu ser e a
verdadeira causa de todo o seu comportamento...”
Também podemos ler: “Vocês se esquecem sempre
de si mesmos, vocês nunca se lembram de si
mesmos. Vocês não sentem a si mesmos; vocês não
são conscientes de si mesmos. Em vocês, isso
observa, ou então isso fala, isso pensa, isso ri; vocês
não sentem: sou eu quem observa, eu observo, eu
noto, eu vejo. Tudo se observa sozinho, se vê
sozinho... Para chegar a observar verdadeiramente, é
necessário, antes de tudo, lembrar-se de si mesmo.”
Embora sirva para todos, por se tratar de um
ponto nuclear que afeta todos os Tipos e se
manifesta em todos os Defeitos ou Traços
Principais, esta recomendação se reveste de especial
importância para os Tipos 8, 9 e 1, os quais deverão
considerá-la especialmente. Por quê? Porque, por
exemplo, quando Tipos 8 se fixam demais na
conquista do externo, “esquecem” do valor de seus
mundos internos; quando Tipos 9 deixam de se
importar com suas necessidades e protelam aquelas
ações que os beneficiam pessoalmente, estão
demonstrando o “esquecimento” de si mesmos, e
quando Tipos 1 se preocupam demais com as
“formalidades” e com a “ordem”, “esquecem” de
considerar as coisas sob outros ângulos e, também,
“esquecem” que existem várias maneiras de realizar
os mesmos objetivos.
P. D. Ouspensky escreve a respeito o seguinte:
“Dizia que um fato de prodigiosa importância
escapara à psicologia ocidental, ou seja: que não nos
lembramos de nós mesmos, que vivemos, agimos e
raciocinamos dentro de um sono profundo, dentro
de um sono que nada tem de metafórico, mas é
absolutamente real; e, no entanto, que podemos nos
lembrar de nós mesmos, se fizermos esforços
suficientes; que podemos despertar.”
A lembrança de si mesmo é a chave que nos
permite compreender que não somos nossas
“máscaras” (personalidades), que elas não são o ser
real e que é possível observar nosso “traço ou
defeito principal” compreendendo que podemos
chegar a transmutá-lo em seu oposto “virtuoso”.

SOBRE A IDENTIFICAÇÃO:

Gurdjieff dizia que “... uma das características


fundamentais da atitude do homem para consigo
mesmo e para com os que o rodeiam [é] sua
constante identificação com tudo o que prende sua
atenção, seus pensamentos ou seus desejos e sua
imaginação. A Identificação é um traço tão comum
que, na tarefa da observação de si, é difícil separá-la
do resto. O homem está sempre em estado de
identificação; apenas muda o objeto de sua
identificação”.
Assim como acontece com o Esquecimento de Si
Mesmo, a Identificação, como aspecto “nuclear”
(Ponto 3 do Eneagrama), afeta todos nós e, como
diz Gurdjieff, quando iniciamos a observação de nós
mesmos, é difícil separá-la do resto, porém ela afeta
com maior força os Tipos 2, 3 e 4, os quais deverão
trabalhar sobre este aspecto com mais atenção.
Exemplos: a) a “Identificação” leva Tipos 2 a
ficarem “escravos” daquilo e/ou daqueles que amam
transformando-os em “seres para”, o que, num
momento determinado, pode angustiá-los; b) leva
Tipos 3 a ficarem “escravos” dos “bons
desempenhos”, dos “triunfos”, da “imagem de
sucesso”, o que lhes provoca a perda do “contato”
com seus sentimentos e necessidades mais
profundos; finalmente, a “Identificação” com
vivências passadas ou com desejos ou esperanças
futuras leva Tipos 4 a serem “escravos” das
lembranças ou dos desejos e, portanto, a não
estarem emocionalmente felizes no momento
“presente”, nem perceber o que esse “presente” tem
de bom.
Gurdjieff sustenta que o único modo de superar a
identificação é aprendendo a desidentificar-se, já
que somente desta maneira se poderá conseguir a
“lembrança de si”: “... para aprender a não se
identificar, o homem deve, antes de tudo, não se
identificar consigo mesmo, não chamar a si mesmo
de ‘eu’, sempre e em todas as coisas. Deve lembrar-
se de que existem dois nele, que há ele mesmo, isto
é, um ‘eu’ (o verdadeiro ser, o observador) e o outro
(a máscara, o falso eu), com quem deve lutar e a
quem deve vencer se quiser alcançar alguma coisa.
Enquanto um homem se identifica ou é suscetível de
identificar-se, é escravo de tudo o que lhe pode
acontecer. A liberdade significa antes de tudo:
libertar-se da identificação”.

SOBRE A CONSIDERAÇÃO INTERNA:

Considerar tem sua origem no latim considerare e,


segundo os dicionários, significa entre outras coisas:
atender a, atentar para; pensar em; meditar,
ponderar, examinar, imaginar, conceber, julgar,
refletir em alguma coisa. Todos estes sentidos
“intelectuais” devem ser relacionados na definição
que Gurdjieff faz da “consideração interna”, ou
seja, um pensar, refletir, examinar, imaginar,
somente voltado ao sujeito que considera e relaciona
tudo apenas com suas “necessidades”. Não existe
um pensar “considerando o que está fora” do
sujeito, ou seja, considerando as pessoas, as
situações, as necessidades, os sentimentos e estados
de ânimo dessas pessoas, desses outros. A
consideração interior é como um muro que nos
separa da realidade tal qual ela é. A consideração
interna não nos permite agir de acordo com as
mudanças, as nuances, apenas podemos enxergar
nossas “ideias”, nossas “opiniões”, nossos “medos”.
Na consideração interior também existe uma
“projeção” ao exterior daquilo que eu sinto, penso
ou acho de uma situação dada. Na filosofia Vedanta
Advaita, se diz que um dos poderes de “Maia” é
fazer as coisas aparecerem como elas não são e se
conta, como exemplo, a história de um sujeito que
vem caminhando à noite por uma estrada escura.
Está ventando muito, então, de repente, ele vê uma
serpente se movendo alguns metros adiante e se
arma com um pau para se defender do provável
ataque. Fica tenso, perde muita energia pelo seu
grande temor de ser mordido pela serpente. Avança
com cuidado. A serpente parece estar muito agitada.
Porém quando chega perto da serpente e está
totalmente esgotado de tanto temor, tremendo e
suando, percebe que ela não existe, que era um
galho que, movido pelo vento e devido à noite
escura, parecia uma serpente. Isto é a consideração
interna: uma incapacidade de ver, sentir e pensar
nas coisas apenas tal qual elas são. Gurdjieff ensina
a respeito que:
“Temos duas vidas, uma interior e outra exterior;
por conseguinte, temos duas espécies de
consideração. Nós ‘consideramos’ constantemente.”
Então, ele dá um exemplo: “Uma pessoa me olha.
Interiormente, sinto antipatia por ela (...)
exteriormente sou cortês. Sou forçado a ser cortês,
pois preciso dela. Isso é consideração exterior.
Agora ela diz que sou um imbecil. Isso me enfurece.
O fato de estar enfurecido é um resultado, mas o
que isso provoca em mim é proveniente da
consideração interior.”
A consideração interior, por ser um dos pontos
nucleares (Ponto 6), também é algo que devemos
aprender a controlar, porque afeta todos os Tipos
Eneagramáticos. Porém os Tipos 5, 6 e 7 deverão
prestar maior atenção a esta questão. Por exemplo,
Tipos 5 tendem a se isolar porque lhes é difícil
“comunicar-se”, “interagir” e “inter-relacionar-se”
com os demais, por estarem sempre “considerando
internamente”, ou seja, pensando que algumas
pessoas são “muito superficiais”, que outras
“podem comprometê-lo”, outras podem ter
“intenções ocultas” e assim por diante, o que os leva
a criar barreiras entre eles e os outros. Os Tipos 6
“consideram internamente” a partir de seus
temores, de seus medos, imaginam situações
perigosas ou difíceis de resolver e vivem essas
suposições como se fossem reais. Já os Tipos 7
vivem “planejando” coisas no “plano mental”, às
vezes totalmente “fora da realidade”, o que os pode
levar a cometer certas irresponsabilidades que
acabam afetando outros. Tudo isto porque apenas
“consideram internamente” e não percebem que
seus atos, que julgam “importantes”, podem afetar
negativamente os outros. Gurdjieff afirma que esta
“consideração interna” é produto de uma educação
que só se preocupa com o desenvolvimento do
Centro Intelectual. Ele diz que “não educamos nada
além de nosso intelecto” e que o caminho para a
consideração externa é o desenvolvimento correto
do Centro Emocional, o qual compara com um
“cavalo” que só aprendeu duas palavras “direita” e
“esquerda”, ou seja, “simpático/odioso,
agradável/desagradável”, etc. Um de seus conselhos
era: “Devemos parar de reagir interiormente. Se
alguém for grosseiro conosco (por exemplo), não
devemos reagir internamente.” E acrescenta algo
que, com certeza, Tipos 5, 6 e 7 apreciam demais:
“Aquele que conseguir isso será mais livre.” Porém
nos adverte que “isso é muito difícil.”
Para Gurdjieff conseguir considerar tudo
“externamente sempre e internamente nunca” era
tão importante que um dos aforismos inscritos no
toldo do Study House, no Prieuré (França), dizia
assim:
“O melhor meio de ser feliz nessa vida é poder
considerar externamente sempre – internamente
nunca.”

Para além dos Nove Traços ou Tipos Principais.


A questão dos “eus”. O Eneagrama e o nosso
mundo interno

Após transcrever os exatos “retratos” psicológicos


que Gurdjieff fazia dos tipos humanos, gostaria de
compartilhar com você uma outra questão. Muitos
me perguntam: Por que é que Gurdjieff não definiu
um Eneagrama dos Traços Principais
explicitamente? Porque falava deles de um modo
geral, de maneira que todos tinham que observar em
si mesmos o modo pelo qual esses Traços/Tipos
Principais se manifestavam, tendo que hierarquizá-
los com respeito ao que, em cada caso particular,
era o “principal”. Preferia, em algumas ocasiões, ele
mesmo mostrar (e às vezes de forma bastante rude)
qual era o Traço Principal de alguns de seus
discípulos para que eles aprimorassem a observação
e lembrança de si.
Gurdjieff gostava de “pisar nos calos favoritos das
pessoas”, ou seja, “provocar” a identificação do
Traço/Tipo Principal de uma maneira que as pessoas
se sentissem “chocadas” ao se aperceber de suas
condutas mecânicas. Como observa muito
corretamente Claudio Naranjo “(...) Gurdjieff
explorou sua injunção ao insight e sua magistral
confrontação (enquanto que) Ichazo trabalhou com
o diagnóstico (...)”.
Logicamente, como Tipo 8 que Gurdjieff era, seu
jeito “agressivo” de confrontar as pessoas com seus
Traços (Tipos) Principais era para ele o mais
adequado e, com certeza, conseguia “despertar” a
atenção de seus alunos para a necessidade de
enxergá-los sem “nenhuma piedade”.
Penso também que quando ele ensina sobre os
diversos “eus” que podem atuar na vida psíquica de
um sujeito, ele se referia, de algum modo, ao fato de
que todos temos, em maior ou menor grau, algo de
todos os “Traços” e suas combinações, sendo que,
um deles, é o mais “forte” e característico. Seus
ensinamentos sobre os diversos “eus” presentes no
mundo interno são um alerta para nossa falta de
“unidade” interior. Citado por Ouspensky,
Gurdjieff diz a respeito:
“O homem não tem ‘Eu’ individual. Em seu lugar
há centenas e milhares de pequenos ‘eus’ separados,
que, na maior parte das vezes, se ignoram, não
mantêm nenhuma relação entre si ou, ao contrário,
são hostis uns aos outros, exclusivos e
incompatíveis. A cada minuto, a cada momento, o
homem diz ou pensa ‘Eu’. E a cada vez seu ‘eu’ é
diferente [...] O homem é uma pluralidade. O seu
nome é legião”.[5]
Visto deste ângulo, o Traço ou Tipo Principal
seria, entre todos os “eus” que habitam nosso
mundo interior, o “eu falso” mais forte, aquele que
comanda a “máscara” /personne. Assim, por
exemplo, um sujeito Tipo 8, que tem como Traço
Principal seu caráter agressivo/luxurioso, ou melhor,
que se excede em tudo o que faz, também teria os
outros 8 “eus” eneagramáticos e todos os “eus”
resultantes das “triplas” combinações. Isso significa
que, no mesmo sujeito agressivo, podemos achar
todas as restantes características eneagramáticas
“negativas” e “positivas”. Algumas serão
relativamente fortes, outras se manifestarão de
maneira mais “fraca”, algumas fortalecerão o Traço
Principal, outras o tornarão mais equilibrado.
Algumas serão aliadas desse sujeito, outras agirão
como “inimigos” internos. O que quero dizer é que,
analisando o modo como Gurdjieff falava dos três
problemas nucleares e o modo como descrevia os
aspectos negativos das pessoas em relação aos seus
diversos “eus”, cheguei à conclusão de que para ele
o mais importante é que a gente perceba que todos
os “traços negativos” estão presentes em nós sempre
e que não devemos considerar apenas o “principal”
como o alvo do nosso trabalho de observação e
lembrança interior.
No meu entendimento, este é o ponto mais valioso
da técnica de Gurdjieff, porque nos lembra que o
Eneagrama também está completo e em movimento
constante nos nossos mundos internos; que o
esquecimento de si mesmo e os três traços
decorrentes de sua manifestação afetam todos nós;
que a identificação está sempre presente em nossos
atos e relacionamentos, que vivemos considerando
internamente sempre e que todos os “traços” ligados
a estes “núcleos” expressam a perda de contato com
o Ser, com o “Eu real”, com aquilo que poderíamos
chamar, de acordo com as antigas tradições, o
“observador silencioso”, a “testemunha”, a única
capaz de ser verdadeiramente consciente porque é a
consciência. Ao mesmo tempo, considerando o
assunto deste modo, cada um de nós tem mais um
elemento para a análise de si mesmo: quais os
aspectos que além do Traço Principal devemos
conquistar em nós mesmos, que Tipos
Eneagramáticos podem servir como exemplo do que
devemos ou não fazer, o que é que podemos
aprender com esses “outros eus” que fazem parte
dos nossos mapas eneagramáticos? Por acaso temos
um “eu” que sofre “tolamente”?
Temos um “eu” que não sabe amar? Temos um
“eu” protelador? Um “eu” vaidoso? Um “eu”
moralista? Um “eu” medroso? Ao mesmo tempo, e
sabendo que para cada Traço ou Defeito Principal
existe uma Virtude, um Poder em potencial que
podemos desenvolver e atualizar, devemos concluir
necessariamente que a conquista da Virtude por trás
dos nossos Traços Principais nos permitirá
desenvolver positivamente o potencial de todos os
demais “eus” dos nossos mapas eneagramáticos.
Ainda mais, talvez, atualmente alguns desses “eus”
sejam já os nossos “aliados” psicológicos e só
devemos nos tornar conscientes de suas “presenças”.
A questão dos “eus” na psicofilosofia de Gurdjieff é
fundamental, já que, a grande conquista interior
passa necessariamente pelo controle, transmutação
(ou até a “morte” de alguns deles) e governo de
todos os pequenos “eus” por um único “Eu”,
permanente, reflexivo e consciente. Isto é o que
torna “indivíduo” (sem divisões interiores) aquele
que conquista a “máscara” ou personalidade.
Enquanto o Traço Principal não for conquistado, o
comando da “personalidade” ficará a cargo de um
“falso eu” e de todos os que a ele estão atrelados. Só
o profundo conhecimento de si mesmo poderá
devolver o comando da personalidade ao
“verdadeiro Eu”. Não vou me estender mais aqui
sobre este assunto, que trato com mais profundidade
na minha obra Iniciação e autoconhecimento.
Enfim, o modo gurdjieffiano de mostrar o
Eneagrama dos Traços Principais apontava, na
minha opinião, na direção da descoberta de todos os
nossos “problemas internos”, de todos os 9 “eus” e
seus “subtipos”, com o objetivo de que o
conhecimento de si mesmo fosse “completo”, ou
seja, que nossos Eneagramas internos se tornassem
conhecidos para nós mesmos. Então, conhecer o
Traço Principal é importante, não apenas como uma
classificação, não apenas para repetir como
“papagaio” “sou 4”, “sou 7” ou “sou 3 com asa 2”,
como ouço por aí de pessoas para as quais o
Eneagrama se tornou mais uma “armadilha” que só
aumenta seu grau de “sono”. Quando nos tornamos
conscientes de nosso Traço Principal e conscientes
dos demais “eus” que habitam nosso complexo e
labiríntico mundo interior, quando podemos ser
conscientes dos “eus” que, sem ser os principais,
também influenciam no “esquecimento de si
mesmo”, na “identificação” e na “consideração
interna”, aí então é que o Eneagrama se torna
verdadeiramente valioso e supera os limites de uma
mera “tipologia psicológica”. Desta forma se torna
também uma ferramenta para que possamos lidar
melhor com nossas “realidades” pessoais e
individuais. Torna-se útil como instrumento de
apoio no profissional e em nossos necessários e
cotidianos relacionamentos.
Graças à minha experiência no estudo e prática
destes conhecimentos, a cada dia, torna-se cada vez
mais fácil para mim perceber o Traço Prin-cipal nas
pessoas e observo o quanto isso é valioso para,
usando a “consideração externa”, compreendê-las
melhor e obter delas o que realmente quero. Pessoas
que não conhecem o seu próprio Traço Principal e
que não o reconhecem em outras pessoas, só
conseguem resultados em seus rela-cionamentos e
trabalhos por mero “acidente”, ou porque com o
tempo ficam mais sensíveis às diferenças humanas
devido às suas experiências e vivências. Gurdjieff
reconhece que ele próprio se tornou com o tempo
um especialista em descobrir o Traço Principal nas
pessoas com as quais se relacionava, não somente
com objetivos “espirituais” mas também com
objetivos muito “concretos”. Em sua última obra, A
vida é real somente quando “Eu Sou” cujo título já
é uma grande lição a ser compreendida, Gurdjieff
revela como isso se tornou para ele uma tarefa
constante:
“(...) qualquer um que eu conhecesse, por
negócios, comércio ou qualquer outro motivo, fosse
velho ou novo conhecido, e qualquer que fosse sua
posição social, eu teria que descobrir imediatamente
seu ‘calo mais sensível’ e ‘pressioná-lo’,
preferivelmente com dureza.”
Este deve ser o seu “espírito” ao se preparar para
conhecer seu Traço Principal por meio desta obra,
ou para, já conhecendo seu Traço Principal,
aprimorar sua experiência por razões pessoais ou
profissionais. Reconheça seu Traço Principal com
sinceridade e descubra o seu próprio Eneagrama
interior, no qual, todos os “traços” estão presentes.
Conhecendo dessa forma seu “microcosmo”, você
poderá conhecer todos os “microcosmos” que o
rodeiam e, finalmente, quando alcançar a total
consciência de si mesmo, o “macrocosmo” poderá
ser conhecido tal qual ele é, uma expressão
maravilhosa dos milhares de “rostos” daquilo que
chamamos “DEUS”. Agora sim vamos ver como
Gurdjieff “retrata” cada um dos nove Traços ou
Defeitos Principais:

DEFINIÇÕES DOS NOVE TRAÇOS OU DEFEITOS


PRINCIPAIS
SEGUNDO GURDJIEFF

Após analisar detidamente os Traços ou Defeitos


Principais definidos por Gurdjieff e confrontá-los
com os que outros pesquisadores do Eneagrama
destacam, baseados nas descobertas de Ichazo,
consegui isolar todas as definições com as quais ele
os “retratava” tão magistralmente. Novamente os
livros Fragmentos de um ensinamento desconhecido
e Gurdjieff fala a seus alunos foram fundamentais
para realizar essa pesquisa. Vejamos por Grupos.

TRAÇOS PRINCIPAIS DOS TIPOS 8, 9 E 1 (CENTRO DO


MOVIMENTO
QUESTÃO NUCLEAR: ESQUECIMENTO DE SI MESMOS)
Tipos 8: “Existem diversas espécies de
consideração. Na maior parte dos casos, o homem
se identifica com o que os outros pensam dele, com
a maneira com a qual o tratam, com sua atitude
para com ele [...] pensa sempre que as pessoas não o
apreciam o suficiente [...] Tudo isso o aborrece, o
preocupa, o torna desconfiado; desperdiça em
conjecturas ou em suposições enorme quantidade de
energia; desenvolve nele, assim, uma atitude
desconfiada e hostil para com os outros. Como
olharam para ele, o que pensam dele, o que
disseram dele, tudo isso assume a seus olhos enorme
importância. E considera não só as pessoas, mas a
sociedade e as condições históricas. Tudo o que
desagrada a tal homem lhe parece injusto, ilegítimo,
falso e ilógico. E o ponto de partida de seu
julgamento é sempre que as coisas podem e devem
ser modificadas. A ‘injustiça’ é uma dessas palavras
que servem frequentemente de máscara a [este tipo
de] ‘consideração’ [interna].”
Tipos 9: “[...] Sem auxílio exterior, um homem
nunca pode se ver. Por que é assim? Lembrem-se.
Dissemos que a observação de si conduz à
constatação de que o homem se esquece de si mesmo
sem cessar. Sua impotência em lembrar-se de si é
um dos traços mais característicos de seu ser e a
verdadeira causa de todo o seu comportamento.
Essa impotência manifesta-se de mil maneiras. Não
se lembra de suas decisões, não se lembra da palavra
que deu a si mesmo, não se lembra do que disse ou
sentiu há um mês, uma semana ou um dia ou apenas
uma hora. Começa um trabalho e logo esquece por
que o empreendeu, e é no trabalho sobre si que esse
fenômeno se produz com especial frequência.”

Tipos 1: “Outro exemplo, talvez pior ainda, é o do


homem que considera que na sua opinião, ‘deveria’
fazer algo, quando na realidade, não tem que fazer
absolutamente nada. ‘Dever’ e ‘Não dever’ é um
problema difícil; em outras palavras, é difícil
compreender quando um homem realmente ‘deve’ e
quando ‘não deve’ (fazer algo).”

TRAÇOS PRINCIPAIS DOS TIPOS 2, 3 E 4 (CENTRO


EMOCIONAL
QUESTÃO NUCLEAR: IDENTIFICAÇÃO)

Tipos 2: “Há duas espécies de amor. Um é o amor


escravo. O outro deve ser adquirido pelo trabalho
sobre si. O primeiro não tem valor algum; só o
segundo, o amor que é fruto de um trabalho interno,
tem valor. É o amor de que todas as religiões falam.
Se você amar, quando ‘isso’ [a máscara] ama, esse
amor não depende de você e não haverá nenhum
mérito nisso. É o que chamamos ‘amor de escravo’.
Você ama até mesmo quando não deveria amar. As
circunstâncias fazem-no amar mecanicamente [...]”

Tipos 3: “Sugiro que cada um faça a si mesmo a


pergunta ‘Quem sou eu?’ Estou certo de que 95% de
vocês ficarão perturbados... Isso prova que um
homem viveu toda a sua vida sem se fazer essa
pergunta e considera perfeitamente normal que ele
seja ‘algo’, e até mesmo algo muito precioso, algo
que jamais pôs em dúvida. Ao mesmo tempo, é
incapaz de explicar a outra pessoa o que esse algo é,
incapaz de dar a menor ideia desse algo, porque ele
próprio não o sabe. E se não sabe, não será
simplesmente porque esse algo não existe, mas
apenas se supõe existir? Não é estranho que fechem
os olhos, com tão tola complacência, ao que
realmente são, e passem a vida na agradável
convicção de que representam algo precioso?
Esquecem de ver o vazio insuportável por trás da
soberba fachada criada por seu autoengano e não se
dão conta de que essa fachada só tem um valor
puramente convencional.”
Ouspensky lembra que alguém perguntou: “O que
é que não compreendemos?” E Gurdjieff respondeu:
“Estão de tal modo habituados a mentir, tanto a si
mesmos como aos outros, que não encontram nem
palavras nem pensamentos, quando querem dizer a
verdade. Dizer a verdade sobre si mesmo é muito
difícil. Antes de dizê-la, deve-se conhecê-la. Ora,
não sabem nem mesmo em que ela consiste [...].”

Tipos 4: “Qual o papel do sofrimento no


desenvolvimento de si?” Ele respondeu: “Existem
duas classes de sofrimento: consciente e
inconsciente. Somente um tolo sofre
inconscientemente. Na vida existem dois rios, duas
direções. No primeiro rio, a lei é somente para o
rio, não para as gotas d’água. Nós somos as gotas.
Num momento uma gota está na superfície, num
outro momento está no fundo. O sofrimento
depende da sua posição. No primeiro rio, o
sofrimento é completamente inútil, porque é
acidental e inconsciente. Paralelo a esse rio tem um
outro. Neste outro rio existe outra classe de
sofrimento. A gota do primeiro rio tem a
possibilidade de passar ao segundo. ‘Hoje’ a gota
sofre porque ‘ontem’ não sofreu o suficiente. Aqui
opera a Lei de Retribuição. A gota também pode
sofrer por antecipação, tarde ou cedo tudo se paga.
Para o Cosmo o tempo não existe. O sofrimento
pode ser voluntário e somente o sofrimento
voluntário tem valor. A gente pode sofrer
simplesmente porque se sente infeliz. Ou pode sofrer
por ‘ontem’ para preparar-se para o ‘amanhã’.
Repito: somente o sofrimento voluntário tem
valor.”

TRAÇOS PRINCIPAIS DOS TIPOS 5, 6 E 7 (CENTRO


INTELECTUAL
QUESTÃO NUCLEAR: CONSIDERAÇÃO INTERNA)

Tipos 5: “É impossível lembrar-se de si mesmo. E


não podemos nos lembrar, porque queremos viver
unicamente pelo mental... Talvez vocês se lembrem
do que dissemos do homem: nós o comparamos a
uma atrelagem com um amo [o Ser], um cocheiro
[Centro Intelectual], um cavalo [Centro Emocional]
e uma carruagem [Centro do Movimento]. Não
podemos nem falar do amo pois ele não está
presente; de modo que só podemos falar do
cocheiro. Nosso mental é o cocheiro... Todos os
interesses que temos em relação à mudança, à
transformação de nós mesmos pertencem apenas ao
cocheiro, quer dizer, são unicamente de ordem
mental... A transformação não se obtém pelo
mental; se for pelo mental, não tem nenhuma
utilidade. Por essa razão devemos ensinar, e
aprender, não por meio do mental, mas do
sentimento e do corpo... Naqueles que estão aqui se
levantou acidentalmente um desejo de chegar a algo,
de mudar alguma coisa. Mas apenas no mental. E
nada mudou ainda neles. Não passa de uma ideia
que têm na cabeça e cada um permanece o que era.
Mesmo aquele que trabalhasse mentalmente durante
dez anos, que estudasse dia e noite, que se lembrasse
mentalmente e lutasse, mesmo esse não realizaria
nada útil ou real, porque mentalmente nada há para
mudar. O que deve mudar é a disposição do cavalo.
O desejo deve estar no cavalo e a capacidade na
carruagem. Mas como já dissemos, a dificuldade é
que, devido à má educação moderna, a falta de
relação entre nosso corpo (carruagem), nosso
sentimento (cavalo) e nosso mental (cocheiro) não
foi reconhecida desde a infância, e a maioria das
pessoas está tão deformada que não há mais
linguagem comum entre uma parte e outra...”

Tipos 6: “O homem, às vezes, se perde em


pensamentos obsessivos, que voltam e tornam a
voltar em relação ao mesmo objeto, às mesmas
coisas desagradáveis que imagina, e que não apenas
não ocorrerão, mas, de fato, não podem ocorrer.
Esses pressentimentos de aborrecimentos, doença,
perdas, situações embaraçosas se apoderam muitas
vezes de um homem a tal ponto, que assumem a
forma de sonhos despertos. As pessoas deixam de
ver e ouvir o que realmente acontece, e, se alguém
conseguir provar a elas, num caso preciso, que seus
pressentimentos e medos são infundados, elas
chegam a sentir certa decepção, como se tivessem
sido frustradas de uma perspectiva agradável...
O medo inconsciente é um aspecto muito
característico do sono...
As pessoas não suspeitam até que ponto estão em
poder do medo. Esse medo não é fácil de definir. Na
maioria dos casos, é o medo de situações
embaraçosas, o medo do que o outro pode pensar.
Às vezes o medo se torna quase uma obsessão
maníaca.

Tipos 7: “O homem, bem no seu íntimo, ‘exige’


que todo mundo o tome por alguém notável, a quem
todos deveriam constantemente testemunhar
respeito, estima e admiração por sua inteligência,
por sua beleza, sua habilidade, seu humor, sua
presença de espírito, sua originalidade e todas as
suas outras qualidades. Essas ‘exigências’, por sua
vez, baseiam-se na noção completamente fantasiosa
que as pessoas têm de si mesmas, o que acontece
com muita frequência, mesmo com pessoas de
aparência muito modesta [...].”

ENEAGRAMA DOS TRAÇOS OU DEFEITOS PRINCIPAIS DE


ACORDO
COM OS NOVE “RETRATOS PSICOLÓGICOS” DE
GURDJIEFF

Figura 11
Parte I
- Centro Físico ou Motor (Traços 8, 9 e 1)
Centro Físico ou Motor
Traços 8, 9 e 1
O Traço 8
: O eu que confronta

O eu
que confronta

“Existem diversas espécies de consideração. Na


maioria dos casos, o homem se identifica com o que
os outros pensam dele, com a maneira como o
tratam, com sua atitude para com ele [...] pensa
sempre que as pessoas não o apreciam o suficiente
[...] Tudo isso o aborrece, o preocupa, o torna
desconfiado; desperdiça em conjecturas ou em
suposições enorme quantidade de energia;
desenvolve nele, assim, uma atitude desconfiada e
hostil para com os outros. Como olharam para ele, o
que pensam dele, o que disseram dele, tudo isso
assume, a seus olhos, enorme importância.”

“E considera não só as pessoas, mas a sociedade e


as condições históricas. Tudo o que desagrada a tal
homem lhe parece injusto, ilegítimo, falso e ilógico. E
o ponto de partida de seu julgamento é sempre que
as coisas podem e devem ser modificadas. A
‘injustiça’ é uma dessas palavras que servem
frequentemente de máscara a [este tipo de]
consideração [interna].”

Os dois parágrafos acima, citados por P. D.


Ouspensky
em Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido,
são de G. I. Gurdjieff
Então? Vamos nos conhecer melhor ou não?

Como diria G. I. Gurdjieff (um Tipo 8 “acordado”


que foi, segundo o polêmico mestre Osho, “um dos
Budas da nossa época”): “Lembre-se de que você
veio aqui, porque compreendeu a necessidade de
lutar contra si mesmo e unicamente contra si
mesmo. Agradeça, portanto, a quem lhe proporcione
a ocasião para isso.” Na verdade, este aforismo –
um dos vários que estavam inscritos no toldo do
“Study House”, no Prieuré (França), local onde
Gurdjieff trabalhou com seus discípulos – abriga o
grande mistério a ser conhecido por todos os seres
humanos, mais especialmente pelos Tipos 8
“assumidos”. Espero que, tendo chegado até aqui,
agradeçam a oportunidade que eu lhes ofereço de
“lutar unicamente contra si mesmos” a partir de
agora, já que há tanto tempo se dedicam a lutar
contra o mundo, contra seus “inimigos” e até contra
o “tempo” e o “clima”!

O Poder: a grande fascinação


dos “Guerreiros” do Eneagrama
Quando realizamos nosso workshop sobre o
Eneagrama para o Projeto Simplesmente
Copacabana, no Rio de Janeiro, contamos com a
participação de uma jornalista que editava um
jornal de bairro. Escrevendo sobre seu Tipo, sob o
título Por que 8, ela destacou:
“O poder me fascina. Vim a descobri-lo na
caminhada da vida. A vida me empurrou para o
resgate. No resgate descobri a força, o poder. Na
medida em que avançava vim percebendo a minha
verdadeira vocação: a liderança. As causas
consideradas por mim justas e verdadeiras, as
abraço com muita determinação. É por demais
sedutor para mim tocar um projeto em que possa ter
o controle da situação. Dar oportunidade a outras
pessoas me entusiasma e gosto da troca, desde que
tenha o rumo das coisas. Guerreio sabendo o que
quero, mas também quando não quero,
simplesmente não faço. Entretanto, sinto uma
enorme falta da inocência, da poesia, do frágil.
Camuflo isso tudo em ações concretas.”
Este breve depoimento revela o que todo Tipo 8
sente – “O poder me fascina”, e finaliza com o que
para todos eles é uma tremenda verdade: a
necessidade da simplicidade e da inocência, às quais
vou me referir no final deste capítulo.
No Brasil, temos um excelente exemplo histórico
de um Tipo 8 para quem este depoimento também
foi verdadeiro. Ele foi um dos mais conhecidos e
polêmicos políticos deste pais, considerado
aguerrido e destemido, dedicou sua vida, a seu
modo, a lutar pelas causas que considerou justas.
Refiro-me ao falecido Senador Antônio Carlos
Magalhães ou “ACM”.
Lembro quando o Senador ACM, contrariado com
a famosa intervenção no Banco Econômico, deu uma
das tantas amostras do seu Tipo Eneagramático. A
revista Veja do dia 23 de agosto de 1995 registrou
uma das frases mais fortes ouvidas por um
Presidente do Banco Central deste país:
“Você é um moleque, f. da p! Vou passar por cima
de você! Quem é você para fechar um banco na
Bahia? Lá as coisas não são assim.”
Por ser o senador amante declarado da Bahia, essa
terra maravilhosa, e devoto fiel do Senhor do
Bonfim, sua voz irada naquela ocasião, era a voz
irada de todos os baianos que, há mais de 40 anos
viam neste homem um grande líder. Essas atitudes
públicas do senador refletiam seu tipo. Diante delas,
qualquer Tipo 8 pode-se ver como em um espelho.
O jornalista Marcos Sá Corrêa, no livro Política e
Paixão, Editora Revan, define exatamente a
tipologia deste polêmico e carismático homem
público:
“ACM (era) conhecido pela agressividade que,
sendo nele aparentemente natural, (era) também um
estilo cuidadosamente treinado. Como diz neste
livro, está convencido de dever a ela – mais do que a
outros atributos, seu grande trunfo político – o fato
de ser reconhecido como um assunto
jornalisticamente interessante.”

Todo Tipo 8 pode ser definido a partir dessa


“agressividade” e de muitos Tipos 8 que detêm
algum poder se pode dizer exatamente o que aparece
numa das orelhas do citado livro: “Ninguém fica
indiferente a Antônio Carlos Magalhães, [ele] é um
dos que mais acumularam inimigos. Afeto ou
desafeto, admiração ou hostilidade, variadas são as
atitudes que as pessoas assumem diante dele, mas
ninguém o ignora.”

Como e porque Tipos 8 brigam


desde cedo com “o mundo todo”

Numa das suas brilhantes tiras publicadas no


Jornal do Brasil sob o título de “As Cobras”, o
genial Luís Fernando Veríssimo (criador de muitos
personagens, entre eles o Analista de Bagé, um
analista muito 8, diga-se de passagem) nos resume
esse estado de desconfiança e agressividade pronto a
se manifestar em todos os “representantes” deste
Tipo Eneagramático. Duas cobras falam com uma
terceira: “Todo mundo não está contra você desde
que você nasceu, Pepe.” Ao que esta responde: “Ah,
é? Então por que o obstetra já me recebeu com um
tapa?”
Citei o texto desta tira porque ele combina com o
depoimento em que Augusta, uma de nossas alunas,
lembra o “momento provável” em que surgiu sua
“máscara”:
“(...) É como se eu já tivesse nascido 8, e não me
formado com o passar do tempo (...) Meu
nascimento foi muito difícil e como todo 8 acha que
deve brigar por tudo, eu briguei para nascer.
A hora do meu nascimento já havia passado e não
nasci de parto normal; pela demora eu ‘não devia
ter nascido’, pois além da demora eu estava com o
pescoço enrolado no cordão umbilical, nasci talvez
de teimosa ou por ser um 8 que nunca se dá por
derrotado (...)”
Magno, outro participante dos nossos workshops
revelou:
“Muito cedo, se me lembro bem aos cinco anos de
idade, essa ‘máscara’ já se manifestava em mim, em
como eu ‘mandava’ nas minhas irmãs ou como eu
não aceitava ordens de meus pais (...) A minha
sensação é que eu sempre fui assim, já nasci com
essas características.”
Em primeiro lugar, os Tipos 8 em sua maioria
lembram-se de uma infância em que tinham que se
impor (ou se impunham) ao meio por alguma razão.
Tinham que lutar para serem respeitados. Tinham
que “proteger-se” dos outros. Às vezes, enfrentaram
ambientes agressivos, que os obrigaram a assumir
responsabilidades muito cedo porque seus pais, por
razões financeiras ou porque achavam correto, lhes
exigiam de um modo ditatorial e imperativo que
“aprendessem” a ser “fortes” desde crianças. Outros
perceberam a fraqueza de um ou de ambos os pais, e
decidiram não ser tão fracos quanto eles. O mesmo
aluno lembra: “Meu pai sempre foi um intelectual e
tentou, por todos os caminhos, me mostrar as coisas
certas por intermédio da palavra, pois as poucas
vezes que ele quis me obrigar a fazer qualquer coisa
eu, como uma ‘boa mula’, me neguei. Achava que
aquele ‘papo’ era uma fraqueza de meu pai, que ele
deveria ser mais duro comigo, acredito que foi aí
que minha máscara se consolidou. Minha mãe já
não tinha tanta paciência assim e com ela não se
brincava, mas eu sempre achava um jeito de deixá-la
bem brava (...)”
Existem Tipos 8 que falam de uma infância difícil,
em que foram vítimas de “injustiças”, de que se
vingavam de um ou outro modo. Ainda em relação a
isto, outra aluna Tipo 8 nos contou:
“Na infância, lembro de uma injustiça entre tantas
outras. Esta ocorreu na escola por volta dos 7/8
anos. Uma colega, vizinha da mesma mesa circular
(...) pegou seu lápis e tentou furar o meu braço (...)
quando reclamei com a professora, esta me castigou.
Eu não entendi nada! (...) Na família, antes dos sete
anos, lembro-me de ter sido acusada de ter feito o
que não fiz, acabando por me conformar (...) e ia
pro castigo, é claro!”
Seu modo de se vingar era simples:
“Lembro que pegava dinheiro escondido de minha
mãe pra comprar balas, sem pensar em culpa de
fazer algo errado (...)”
Outros pertencem a famílias poderosas em que se
sentiram sozinhos e/ou obrigados a “tomar
iniciativas” para não serem considerados inferiores
aos demais e onde ouviam constantemente frases
como estas: “nunca se deve confiar nas pessoas”,
“temos que proteger o que conseguimos e você deve
preparar-se para isso”, ou “você apenas cumpre com
os seus deveres, não está fazendo nada demais”. A
necessidade de se mostrarem fortes e capazes os faz
desenvolver o que comumente chama-se “força de
vontade”. A necessidade de perceber os riscos e
possíveis perigos que aparentemente devem
enfrentar sozinhos, desde cedo, os leva a desconfiar
dos outros e a confiar demais nas suas próprias
“forças”.
Isto provoca neles uma constante atitude de alerta,
um constante estado interior que se poderia traduzir
como “estar pronto para a luta”. Por isso decidem
ser fortes, autoconfiantes, sem medo de nada,
inclusive os que consideram ter tido infâncias
felizes. A este respeito, vale a pena refletir sobre este
depoimento:
“Tive uma infância feliz, mas muito competitiva,
os jogos eram para ser ganhos (...) Cada jogo novo
ou pessoa nova era uma ‘nova barreira para se
conquistar’. Briguei muito desde cedo, ao ponto de
que quando começava eu não conseguia mais parar.
Mas, apesar do ‘gênio’, brinquei muito e na rua,
com muitos amigos que logicamente eu conquistei, o
que não significa que os tenha cativado.”
Para estar protegido do mundo,
é necessário controlar tudo

Os Tipos 8 sentem que devem criar e conquistar


um extenso território pessoal, do qual sejam os
CONTROLADORES e donos absolutos. Precisam saber
tudo com antecedência, conhecer de que maneira
podem ter certeza de estar no comando de toda e
qualquer situação, seja esta pessoal e/ou
profissional. Neste depoimento, no qual a palavra
controle é repetida sete vezes (as itálicas são
minhas), uma de nossas alunas reconhece o quanto
essa necessidade a esgota:
“(...) preciso exercer o controle em tudo o que me
cerca. Seja nas questões do trabalho, seja nas
questões pessoais. A falta do meu controle em
qualquer situação me deixa muito enraivecida.
Preciso controlar tudo e apesar de já ter percebido,
mesmo antes de estudar o Eneagrama, o quanto isso
me faz mal, no sentido de gastar muita energia nessa
incumbência de ter tudo sob o meu controle, ainda
me é muito difícil suportar a falta de controle (...)
No trabalho, posso perceber com clareza quando as
coisas estão fora do meu controle e como isso me
incomoda, principalmente quando não estou bem
informada. A falta de informação me deixa fora das
coisas. É assim que me sinto. Na vida pessoal eu
percebo isso quando me é difícil suportar as
frustrações, ou seja, quando as coisas não
acontecem do jeito que eu determino de forma que
eu possa controlar.”
Os outros devem reconhecer e respeitar o
“controle” e o “poder” dos Tipos 8, garantindo-lhes
“obediência”, porque, de outro modo, poderão ser
“punidos”. Um aluno escreve a respeito:
“[O Tipo 8] se impõe com muita facilidade se as
coisas não estão indo como deveriam ser, ele não
pode perder o controle da situação e, se necessário,
usa o ‘chicote’, mas não com a intenção de ferir e
sim de ensinar uma lição.”
Esse território está protegido sempre por uma
espécie de cerca protetora contra os perigos,
injustiças e inimigos que vêm e/ou que poderiam vir
do mundo. Eles aperfeiçoam esse controle
aprendendo, estudando, sabendo como, precavendo-
se de todo e qualquer ataque exterior, num claro
movimento ao Ponto 5 do Eneagrama. Os mais
inteligentes e capazes se aperfeiçoam
constantemente, e possuem uma tremenda
capacidade de manipular dados e informações que,
tanto confirmem suas ideias e posições, quanto
colaborem para aumentar o seu senso de poder,
controle e segurança. Paula, uma aluna, que é
médica, escreve a respeito que:
“O controle das situações é o que o 8 tanto quer
ter (...) e tanto assim que desde criança me vi às
voltas com os livros e nunca porque alguém me
mandasse, mas porque sentia necessidade de
conhecer tudo, para que nada me pegasse
desprevenida. Até os idiomas que aprendi eram uma
forma de controle da situação, de não permitir que
alguém falasse algo de mim, que eu não
compreendesse, não dominasse...”

Lealdade e proteção:
algo valioso que se pode cobrar

Os Tipos 8 decidem quais pessoas serão da sua


confiança, quais as pessoas que poderiam estar sob
sua tutela e quais pessoas terão “direito” à sua
permanente “proteção”, numa clara influência do
Ponto 9 Eneagramático e do movimento contra seta
ao Ponto 2. Fazem isto apenas para aumentar o
“controle”. É como se, desse modo, fossem criando
e assegurando uma “rede” de poder e influência ao
estilo dos chefões mafiosos dos anos 30.
Em outro trecho de seu depoimento, uma das
alunas citadas revela:
“(...) até me lembro de minha mãe dizendo, em
tom jocoso, que eu era ‘a protetora dos fracos e
oprimidos’ (...) Esta mania de proteger as pessoas da
família e os amigos também é algo muito presente
em mim, desde a infância. Uma necessidade de fazer
tudo ao meu alcance, para deixá-los tranquilos e de
bem com a vida.”
Porém, quando se sentem traídos, quando sentem
que essa “lealdade e proteção” não são recíprocas,
os Tipos 8 reagem com fúria, e quem falhou pode
estar certo que haverá uma punição. A mesma aluna
acrescenta:
“Adoro meus amigos e sou amiga até o fim, mas
se por acaso alguém fizer algo que me magoe,
provavelmente não terá chances de fazê-lo outra vez.
Pois a partir deste dia esta pessoa morreu para mim
e ainda que viva ao meu lado não me diz mais nada.
E ela saberá disto não só por palavras, mas por
atitudes (...)”
Com outro aluno 8, a coisa não muda muito:
“Procuro ser leal às pessoas, quem não corresponder
está em maus lençóis.”

Conquistando novos territórios... Sem limites


O que Tipos 8 desejam é conseguir o mais e o
maior possível de tudo...sem limites. Precisam
assegurar o poder e garanti-lo no tempo. Os Tipos 8
decidem que esse imenso território desejado nunca
poderá ter limites e sabem que não vão parar de
conquistar novos territórios e ainda que nunca
nenhuma dessas conquistas será tida como a última.
Ao invés do “castelo mental” no qual Tipos 5
desejam refugiar-se, e ao invés do “território
limitado da sua própria ordem” que Tipos 1 tentam
preservar, os Tipos 8 decidem que o único modo de
enfrentar o mundo é criando uma ilimitada zona de
poder pessoal, na qual eles se sintam com o controle
absoluto e permanente. Sentem, instintivamente, que
nunca deverão parar de estender-se e crescer.
Descrevendo esse estado de permanente ambição
num momento de total entusiasmo com respeito ao
fato de sentir-se “maior que o mundo”, um dos
nossos alunos escreveu:
“Minha máscara não me dá limites, posso ocupar
qualquer espaço que eu quiser.”
Qualquer Tipo 8 poderia dizer o mesmo, e nesta
frase o Traço Principal manifesta toda a sua
potência.
O traço principal:
o excesso e a luxúria aumentam a agressividade

Para uma síntese do exposto até aqui, diríamos


que em tudo o que Tipos 8 fazem, querem e dizem,
existe excesso ou se procura o excesso: excesso de
brigas, excesso de controle, necessidade excessiva de
informação e dados, excesso de cobrança, ambição
excessiva de um “espaço” ilimitado a se conquistar.
O excesso é o “grande calo” dos Tipos 8. Eles
querem tudo em demasia. O Dicionário Aurélio
define o excesso como “aquilo que excede ou
ultrapassa o permitido, o legal, o normal” e atrela a
palavra à violência: cometer excessos é uma forma
de violência, de agressão, contra si mesmo e contra
os outros. O excesso implica um descontentamento
permanente para este Tipo Eneagramático, existe
uma possibilidade muito grande (tinha que ser
muito grande, não é ?) de nunca sentir-se satisfeito.
Portanto, possui uma capacidade para frustrar-se
com mais facilidade que os outros Tipos
Eneagramáticos, excetuando-se os Tipos 4. Assim
como Tipos 4 acham que a felicidade parece fugir
deles a cada instante e sofrem pelo que falta no
presente, os Tipos 8 jamais se sentem satisfeitos
com o que possuem no “presente” efetivamente.
Sempre querem algo mais. Os Tipos 4 sofrem pelo
que falta. Os Tipos 8 ficam com raiva pelo que
querem a mais. Os Tipos 4 sentem que o que se
perdeu no passado é melhor do que o que se tem no
presente. Os Tipos 8 não se importam com o que
obtiveram no passado, mas com o que obterão no
futuro. Quando essas ânsias de ter mais são
frustradas por uma ou outra razão, eles sofrem e
novamente acham que “a vida” está sendo injusta
com eles. Não conseguem ficar agradecidos pelo que
possuem e desfrutam agora. Eles sempre querem
mais, mais e mais. Esse querer mais tem a ver com
coisas sensoriais, tangíveis, concretas, não do tipo
de coisas que os 4 procuram. Assim como o
“espaço” deve ser ilimitado, as coisas que ocupam
esse espaço devem ser muitas e devem trazer o
máximo de prazer e bem-estar. Portanto, sempre
pode haver coisas melhores, carros melhores,
comidas melhores, ganhos maiores, festas
grandiosas, equipamentos de som mais possantes,
computadores mais completos, técnicas mais
modernas, informações mais completas, prazeres
mais interessantes, gozos mais extravagantes. De
tudo deve haver algo mais, algo que supere o atual!
Quando procurei o significado da palavra luxúria
no Dicionário Aurélio, achei o brasileirismo “cheio
de luxo”. É muito interessante e com certeza G. I.
Gurdjieff teria gostado de citá-lo em alguma de suas
obras quando fala sobre a psique humana. Como
este é o capítulo que retrata os eneagramáticos “8”
ou “80”, e deve ser bem incrementado e impiedoso
(afinal, excesso é excesso!), vale a pena conferir o
que significa: “Cheio de luxo: Bras. Fam. e pop.
Diz-se do indivíduo implicante,(...) exigente,
luxento (...prepare-se agora!) cheio de merda” (...!?)
tudo isso entre outras coisas não menos “cheias”.
Não fique zangado comigo. É o prestigiado Aurélio
“o culpado e injusto”, tá?
Por outra parte, o excesso sempre foi e sempre
será atrelado ao “pecado capital” da luxúria, que
significa, segundo o mesmo Aurélio, “incontinência,
lascívia, sensualidade e dissolução”.
Porém, o maior excesso dos Tipos 8 é o excesso de
consideração interna, de achar que “todos estão
contra ele”, que todos conspiram ou poderiam
conspirar contra ele. Que devem enfrentar grandes
desafios, graaandes problemas, graaaandes
injustiças. É para enfrentar todos esses graaandes
perigos, que Tipos 8 decidem ter de tudo o
máaaximo! Aqui começa a luxúria: como tudo o
ameaça, eles devem ter sempre muito de tudo: muito
dinheiro, muito poder, muita segurança, muitos
amigos, muito, muito de tudo. Logicamente, esta
atitude os fixa na sua agressividade, os cristaliza nos
seus excessos e então nada parece contentá-los. Este
é um dos aspectos da “máscara” que os Tipos 8
deverão observar em si mesmos para não se
tornarem seus escravos.

Raiva e ação instintiva

Sendo esta “máscara” parte do trio 8/9/1, no qual


a influência maior provém do Centro do
Movimento, temos que concordar em que as reações
instintivas, viscerais e/ou “centradas na barriga”,
são mais poderosas que as relacionadas aos Centros
Emocional e Intelectual. O movimento até o Ponto 5
(intelecto) se realiza ora como uma reação de
“segurança”, ora como um apoio para obter o que
se deseja. O movimento ao Ponto 2 (emocional) tem
a ver com uma “relação de conveniência”, com o
que se pode “cobrar dos outros” pelo que se lhes dá.
Então, temos que tanto os atos luxuriosos como os
excessos revelam uma grande falta de raciocínio e
reflexão. Lembra o depoimento no qual um dos
alunos escreveu que “achava que aquele ‘papo’ (do
seu pai ‘muito intelectual’) era uma fraqueza...”?
Quando se quer mais, quando se procura mais,
quando se ultrapassam os limites, é quase
impossível parar para “emocionar-se” ou para
“pensar no que é realmente necessário”. Muitos 8
admitem que atuam “por instinto”, que não querem
“parar para pensar”, que “pensar” não é
importante, “o que importa é fazer, já, depressa,
agora”! Isto, os Tipos 8 percebem quando ficam
com raiva, por exemplo, e “explodem” sem pensar
nas consequências. A respeito, vejamos este
depoimento:

“Percebo que tinha receio de me tornar uma


pessoa racional e por isso não usava muito a razão.
Hoje percebo que dá para ser mais mental sem
perder as emoções, isso tem me ajudado muito. Mas
ainda tenho algumas situações, que se repetem
muito, (nas quais) a raiva visceral toma conta
totalmente. Eu sinto isso fisicamente, parece que um
furacão toma conta de mim. Se eu não deixar sair, a
sensação é que vou explodir e aí eu explodo.”

Uma aluna, Clara, se refere a este mesmo aspecto


da seguinte maneira:
“A vida é uma luta constante, só me aparecem
desafios, só me meto em coisas complicadas, mas no
fundo, até que gosto. Tenho dificuldades de aceitar
opiniões contrárias às minhas. Estou sempre numa
posição de autodefesa, dificilmente me sinto
culpada. Numa discussão, gosto que a minha
opinião prevaleça (...) Esta ‘coisa’ é tão forte e
incontrolável que se eu não puder dizer o que sinto,
parece que vou explodir por dentro (...) Às vezes eu
estou tranquila, o monstro adormecido, e logo vem
alguém atiçar este monstro e lá vou eu explodindo,
dizendo desaforos e às vezes até humilhando, ou
tocando com o dedo na ferida dos outros.”

O problema é que, após estas explosões, os Tipos


8 percebem os desastres provocados; então, a
maioria deles concordará que o seguinte depoimento
é totalmente verdadeiro:

“(...) Se por acaso a raiva que sinto é injusta por


não haver culpa na pessoa de quem estou sentindo a
raiva, eu vou a ela e peço desculpas.”

Só que a raiva já se expressou.


A energia gasta nessas explosões pode ser
desastrosa para o equilíbrio psicofísico dos Tipos 8
e eles deveriam prestar mais atenção aos momentos
nos quais esse processo “explosivo” se manifesta,
até conseguirem compreender como é destrutivo.
Vale a pena registrar aqui um dos conselhos que
Gurdjieff deu, certa feita, a alguns de seus
discípulos, citado no livro Gurdjieff fala a seus
alunos:

“Gastamos sempre mais energia do que a


necessária, utilizando músculos que não precisamos,
deixando os nossos pensamentos darem voltas e
reagindo demais com os nossos sentimentos.
Relaxem os músculos; só utilizem os que são
necessários, mantenham os seus pensamentos em
reserva e só expressem os seus sentimentos quando
quiserem. Não se deixem afetar pelas aparências;
elas são por si mesmas inofensivas. Nós é que
aceitamos ser feridos.”

A influência negativa dos parceiros eneagramáticos


7 e 9:
gula e indolência. O problema da “insensibilidade”

Devemos lembrar que os companheiros


eneagramáticos desta oitava máscara são a gula e a
indolência. Já vimos que a gula não permite o gozo
verdadeiro. A gula leva o Tipo 8 a uma busca
frenética, contínua e sem descanso, de poder e
autosatisfação; e a indolência o leva a não saber e
nem querer saber, nem perceber e nem poder
perceber, quando é o momento de parar e descansar.
A palavra “indolência”, uma das que se usam para
caracterizar os Tipos 9, além de significar “apatia”
e “negligência”, significa também INSENSIBILIDADE. E
este é um dos aspectos mais negativos que não
podem deixar de ser vigiados por aqueles que
desejam obter autocontrole. Esta insensibilidade
provoca, entre outras coisas, a incapacidade de
aceitar, confiar e respeitar as pessoas. A luxúria e o
excesso estão diretamente ligados a ela. No caso dos
Tipos 8 com forte influência do Ponto 7
eneagramático, há um “hedonismo” egoísta que
acaba por não se importar com os demais nem com
suas necessidades. O “movimento” da seta ao Ponto
5 desta manifestação negativa produz uma mistura
muito ruim de “hedonismo insensível e egoísta”, ou,
como se diz vulgarmente: “primeiro eu, segundo eu,
terceiro eu e o resto que se f.!” Devo lembrar aqui
que uma das características “negativas” dos Tipos 8
mais desequilibrados destacadas por Naranjo, Riso e
Palmer é a forte tendência à “sociopatia” e ao
“sadomasoquismo”.
Para alguns Tipos 8 menos equilibrados, as
pessoas são apenas meios, espécies de instrumentos
para obter o que desejam. Quando obtêm o que
desejam as abandonam sem nenhuma consideração.

Insensibilidade e poder

Na medida em que alguns Tipos 8 conseguem


obter mais poder e conseguem consolidar suas
conquistas e territórios, passam a correr um maior
risco de ficarem insensíveis às necessidades das
pessoas que os rodeiam e ainda a não se importarem
com os meios usados para aumentar e/ou consolidar
esse poder. Então, pode acontecer (e acontece com
frequência), que, a partir desse instante, o fim
justificará os meios. É notável observar esta relação
entre insensibilidade e poder, especialmente em
tempos de guerra ou ditadura (nada mais 8 que uma
guerra ou uma ditadura, certo?), quando os excessos
e insensibilidades são lugar-comum. Sobre isso,
transcrevo, para reflexão, um trecho da obra The
Psychoanalytic Theory of Neurosis (Teoria
Psicanalítica da neurose) de Otto Fenichel:
“O poder como um meio para combater os
sentimentos de culpa é facilmente compreensível;
quanto mais poder possui uma pessoa, menos
necessidade tem de justificar seus atos. O aumento
da autoestima implica uma diminuição nos
sentimentos de culpabilidade. Assim como a
‘identificação com o agressor’ é de uma grande
ajuda para combater a angústia, os sentimentos de
culpa também podem ser refutados mediante a
‘identificação com o perseguidor’ enfatizando o
ponto: ‘Somente eu decido o que é bom e o que é
mau.’ Entretanto, talvez este processo fracasse pelo
fato de que o superego é, efetivamente, parte da
nossa própria personalidade. Portanto, a luta contra
os sentimentos de culpa por meio do poder pode
iniciar um círculo vicioso, precisando a aquisição de
mais e mais poder e ainda a execução de mais e
mais crimes pelos sentimentos de culpabilidade para
afirmar o poder. Então, os crimes podem ser
cometidos num intento de demonstrar a si mesmo
que a gente os pode cometer sem ser castigado, ou
seja, num intento de reprimir os sentimentos.”
O mesmo acontece nesta outra situação, que acho
que atualmente os governantes devem observar com
a maior atenção.
Insensibilidade e violência: uma reflexão necessária

A sociedade está promovendo, na atualidade, o


surgimento de muitos Tipos 8 entre aqueles seres
humanos que nascem e vivem na extrema pobreza.
Não devemos estranhar que cada vez mais crianças e
adolescentes pobres neste país, e em outros lugares
do mundo, decidam colaborar com o tráfico de
drogas e usar armas pesadas, desenvolvendo desde
cedo uma tremenda agressividade. Suas carências os
tornam antis-sociais e, se as autoridades não
realizam as modificações desse quadro social, muito
logo teremos que lamentar os atos desses Tipos 8,
nos quais se desenvolvem as piores características
deste Traço Principal, como a frieza e falta de
piedade, a desconsideração das necessidades alheias,
a procura violenta e luxuriosa por prazeres de que se
sentem merecedores e que lhes são negados pela
“sociedade injusta” em que vivem, a total ausência
de princípios e a incapacidade de relacionar-se
positivamente com os demais, pois veem e sentem
ao seu redor todos os dias que a violência, a
agressão e a luta parecem ser “normais” e
“necessárias” para a “sobrevivência”. Algo que não
se está considerando com profundidade devida é o
fato de esses jovens miseráveis e marginalizados
serem levados a derrotar todos os limites, normas e
regulamentos, impostos por uma sociedade moderna
para a manutenção da sua ordem e equilíbrio. Os
seres humanos que vivem em condições miseráveis
passam a não sentir o que crianças e jovens que
vivem de maneiras mais apropriadas conhecem e
percebem sobre existência. O mundo que elas
observam acaba desta maneira “distorcido”. Como
exemplo, posso citar o resultado de uma pesquisa
que revelou que nenhuma das crianças e
adolescentes recluídos na FEBEM jamais ouviu falar
da palavra “solidariedade”. Desconheciam-na seu
valioso significado. As consequências dessa visão
“distorcida” da vida, logicamente, são perigosas.
Está na hora de agir para evitar aquilo que alguns
antigos livros sagrados anunciaram: uma época
(com certeza a nossa) em que os adultos teriam
medo das crianças. Esta reflexão se aplica também
aos países em permanente estado de guerra,
sustentando ódios milenares; aos que ainda
preconizam e promovem os ódios raciais, e,
finalmente, aos responsáveis pela violência
permanente exibida e comentada a toda hora em
diversos programas de televisão, tanto infantis
quanto para adultos, nos quais a agressividade não
só é denunciada ou “noticiada”, como também é,
paradoxalmente, erguida e louvada como a única
maneira de “sobreviver” e “enfrentar” este mundo,
criando e promovendo personagens que só sabem
usar a violência e a força bruta para alcançar seus
objetivos, quaisquer que sejam eles.

Iniciando o processo de mudanças positivas

Os Tipos 7, 3 e 8 são, quando equilibrados, são os


mais ativos e os mais empreendedores dos Tipos
Eneagramáticos. Por razões diferentes, é claro. Os
Tipos 7 desejam aventurar-se, criar, experimentar e
descobrir novas alternativas para alcançar a
felicidade e sentir que o sofrimento pode ser banido
tanto por eles, quanto pelos demais. Os Tipos 3
desejam realizar obras que possam trazer bem-estar
aos outros e gerar atividades e progressos em troca
de admiração e prestígio. Já os Tipos 8 são grandes
realizadores, capazes de iniciar processos de
mudanças muito positivos, pelo fato de serem
sensíveis a tudo o que apresenta “falhas” e/ou que
está “ultrapassado”. Sabem liderar e provocar
positivamente as pessoas, direcionando-as com
confiança até os objetivos que desejam atingir. São
pessoas com um senso de justiça muito apurado e
querem que todos se beneficiem com os sucessos que
eles venham a obter.

O Tipo 8 e o tipo “intuitivo extrovertido” de Jung

Quando Jung descreve as características negativas


e positivas do tipo “intuitivo extrovertido” consegue
realizar o que acho um dos melhores retratos
psicológicos dos Tipos 8. Ele escreve entre outras
coisas que:
“O intuitivo (extrovertido)... possui um apurado
olfato para tudo que é novo e em desenvolvimento.
Já que está sempre procurando novas possibilidades,
as condições estáveis o sufocam... Nem a razão nem
o sentimento podem restringi-lo ou atemorizá-lo
para que se afaste de uma nova possibilidade (...) O
respeito pelo bem-estar dos outros é fraco. O bem-
estar psíquico deles conta tão pouco como o
próprio. Também, tem pouca consideração pelas
convicções e estilo de vida alheios (...).
Já que se ocupa de coisas externas e de indagar
suas possibilidades, facilmente se dedica a profissões
em que possa explorar ao máximo estas
capacidades. Muitos magnatas dos negócios,
empresários, especuladores, corretores da Bolsa,
políticos, etc, correspondem a este tipo.
(...) este tipo é extraordinariamente importante
tanto econômica como culturalmente. (...) quando
sua atitude não é demasiado egocêntrica, ele pode
brindar um serviço excepcional como iniciador e
promotor de novas empresas. (...) Já que é capaz,
quando se orienta mais às pessoas que a coisas, de
fazer um diagnóstico intuitivo de suas capacidades e
potencialidades, ele também pode “fabricar”
homens. (...) Quanto mais forte sua intuição mais se
funde seu ego com todas as possibilidades que
visualiza. (...) da vida, a sua visão a apresenta em
forma convincente e com um fogo dramático, a
personifica (...)”

Concordo. Quando os Tipos 8 dirigem suas


capacidades empreendedoras não visando apenas
seus interesses pessoais e materiais, podem
beneficiar a todos que os rodeiam. Por isso é muito
importante que os processos de observação de si se
iniciem a partir destas reflexões: como estou usando
meu poder?; de que maneira meus atos serão
benéficos para os demais?; quais destas metas
ultrapassam minhas ambições pessoais e poderiam
ser meios de realização coletiva/grupal/familiar?
Outros Tipos 8 deveriam perceber quando
transformam uma concorrência sadia numa luta
desapiedada e destrutiva para conseguir seus
objetivos. Deveriam aprender a distinguir a
diferença entre possessividade e confiança nos seus
relacionamentos pessoais. Deveriam aprender a
observar os momentos nos quais polarizam as
situações, as pessoas, os acontecimentos, dividindo
o mundo em dois bandos inimigos e irreconciliáveis.
Este é um dos aspectos que deveriam aprender a
superar. A observação da maneira em que a palavra
“agressividade” é atrelada ao ato. Distinguir entre
“força” e “agressividade”, e perceber que uma não
implica, necessariamente, a outra. Refletir sobre o
valioso que se “possui” neste momento presente,
sensibilizar-se a outras necessidades, como afeto e
obrigação, tão valiosas para quem quer viver em
harmonia e equilíbrio. Aprender a observar quando
se está com dificuldades de aceitar os próprios erros,
quando discute por discutir, quando bota a culpa de
seus problemas, erros e/ou fracassos em pessoas,
situações e/ou questões externas sem perceber sua
própria culpa.
Para os Tipos 8, aprender a “controlar a si
mesmo” é o mais importante. Essa será, sem dúvida,
sua principal luta, da qual ele pode sair vencedor se
quiser realmente atingir o “autodomínio”. Tenho
escrito sobre este Tipo com certa dureza, até
porque, acostumados e programados a sentir tudo
intensa e excessivamente, nos é difícil iniciar os
processos de transformação positiva sem uma
grande “pro​vocação”.

Desenvolvimento positivo das influências 7 e 9

Tipos 8 podem aprender muito de seus parceiros


eneagramáticos mais imediatos. Do Ponto 7, podem
obter uma maior força para realizar planos
benéficos para todos e não apenas para si mesmos.
Já do Ponto 9, o positivo a ser desenvolvido é a
capacidade de “estar relaxado”, que os tipos 9 mais
sadios possuem sem que por isso esqueçam suas
necessidades. Valorizar a liberdade que os 7 sadios
tanto apreciam e reservar momentos apenas para
curti-la, sem compromissos nem controles. Dos
Tipos 9 mais equilibrados aprender a capacidade de
conciliação, de fazer acordos pacíficos, de não
provocar os outros para ver quais serão suas
reações. Destes Tipos devem aprender também a
tremenda capacidade de aceitar a todos igualmente,
sem censuras, sem críticas e sem provocação de
qualquer espécie. A análise destes parceiros
eneagramáticos pode ser de grande proveito no seu
processo de observação e crescimento pessoal e
profissional.

Observando os movimentos a favor e contra a seta


(do 8 ao 5 e do 8 ao 2)

Os Tipos 8 devem observar quando o movimento


ao Ponto 5 é negativo, por exemplo: para isolar-se
dos outros, para preparar uma vingança, para
interpretar “negativamente” os dados e informações
recebidos do mundo exterior, quando fica
imaginando prováveis conspirações contra ele,
quando acha que estão sendo mobilizadas “forças
ocultas” para destruí-lo, tirar seu “poder” e/ou
evitar ou diminuir o seu controle das situações,
quando acha que conhece as intenções dos outros,
quando discorre o modo de fugir das regras e das
normas, inclusive criando as próprias de acordo com
a conveniência. De positivo, Tipos 8 deveriam
alcançar um equilíbrio entre reflexão e instinto, ou
seja, treinar-se para planejar antes de executar,
pensar antes de agir, sem perder nem acabar com
suas capacidades “instintivas”. Dar-se tempo para
ficar positivamente em contato com seus mundos
internos, meditando, em silêncio e sem nenhuma
apreensão, nem expectativas, apenas sentindo o
vasto espaço interior. Refletir sobre as prováveis
consequências de seus atos e de como podem afetar
aos demais. Aprender a não desconfiar e a ficar mais
aberto ao desconhecido, sem preconceitos nem
julgamentos antecipados. Não supor nada de
ninguém. Dar sem visar um retorno. Perceber
quando está sendo utilitarista e egoísta demais.
O movimento contra a seta até o Ponto 2, quando
negativo, reforça a ideia de que os outros devem dar
algo em troca de sua amizade e/ou proteção. Torna
os Tipos 8 mais exigentes e controladores. Provoca a
impressão de que “os outros” não estão fazendo
tudo o que deveriam por ele e por seus interesses.
Quando positivo, o movimento até o Ponto 2
ajuda os Tipos 8 a se tornarem mais receptivos,
ficando menos agressivos e muito mais meigos e
amorosos. Ao mesmo tempo, podem aprender a ser
menos orgulhosos e menos egoístas, realizando
coisas pelos outros sem esperar retorno, sem
cobranças, sem exigências. A compreensão de que o
poder não está apenas nas posses, e nas conquistas,
levará os Tipos 8 a conhecer o valor da humildade e
lhes inspirará para serem mais agradecidos pelo que
conquistaram até esse instante. Muitas vezes, os
Tipos 8 se negam a deixar fluir seus sentimentos e
ficam indiferentes às pessoas mais próximas e
queridas, quase esquecendo-as. O movimento ao
Ponto 2, quando positivo e deliberadamente
vivenciado, rompe esse gelo emocional e permite a
manifestação de carinho, amor e amizade. Graças a
esse movimento deliberado, os Tipos 8 voltam a
valorizar vivências simples, desprovidas dos
excessos e luxúrias nos quais às vezes mergulham,
não desejando apenas obter prazer sensual e/ou
sexual e sim considerando e percebendo as
necessidades “emocionais” de seus parceiros (as)
e/ou amigos (as).
A virtude da humildade, relacionada com o Ponto
2, fará com que consigam apreciar mais o que
conseguem diminuindo os excessos e substituindo a
luxúria pelo que os antigos cristãos e budistas
chamaram de “contentamento”, ou seja, a
capacidade de ficar satisfeitos e felizes apenas
porque existir já é uma grande dádiva.

Redescobrindo a simplicidade e a leveza da


inocência:
a virtude que conduz ao poder verdadeiro
Nossa aluna Heida tentou explicar porque achava
necessária sua “Máscara 8”: “Às vezes penso que é
necessária para a sobrevivência do animal que mora
em mim. (...) Reconheço sua utilidade para
conseguir me colocar em qualquer situação. Ano
passado, senti alegria e tristeza de saber que ‘8’ era
a minha ‘máscara’ (...) fiquei realçando qualidades e
defeitos por meio do comportamento, como se a
conscientização do fato fosse uma afirmação para a
máscara e daí veio o comportamento questionando:
‘Vai querer me destruir?’ (...) Parece infantil a
questão, porém passei à fase de sentir tristeza
devido às (minhas) sombras (...) Fiquei mais atenta
e passei a trabalhar o controle dos defeitos com
mais vontade (...)”
No final do seu depoimento ela escreveu o mais
importante para os possuidores desta máscara
compreenderem: “Bom, espero ter conhecido o
caminho que me leve a viver mais leve!”
Eureca! Tipos 8 devem conseguir “viver mais
leve”. O primeiro passo é deixarem de ser
agressivos. Mas como? Simples! Voltando a confiar
nas pessoas e no poderoso fluir da existência. Isso
lhes permitirá abandonar suas armaduras e perceber
que nem sempre devem ir “armados” para realizar
e/ou relacionar-se com pessoas e/ou projetos. Tudo
bem, o mundo é hostil, é uma selva na qual cada um
deve lutar pelos seus próprios interesses e essas são
as regras do jogo que garantem a sobrevivência e a
conquista do poder. Mas será que é assim mesmo?
Sempre? Não existirão outras formas de alcançar
esse poder tão desejado? E será que é isso mesmo o
que dá contentamento?
Observe o seguinte: O “programa” que formou a
máscara diz que você está sozinho (a) contra o
mundo, que ninguém vai se preocupar com você,
que ninguém vai mover um só alfinete para
colaborar nos seus projetos e objetivos e que, se isso
chega a acontecer, não é por amor, não é gratuito,
mas implicará necessariamente uma espécie de
“contrato”, um “compromisso” que terá que aceitar
se deseja atingi-los. Ou seu “programa” diz que
você pode fazer e obter o que quiser sozinho (a), por
que você é autossuficiente, forte e capaz de lutar
contra tudo e todos e que nada se interporá entre
você e suas metas? Em qualquer dos casos, perceba
quanta falta de “inocência” e reflita uns instantes
em como isso o esgota. Para Tipos 8, parece não
existirem outros caminhos, senão aqueles tortuosos,
difíceis e cheios de perigos e inimigos a serem
enfrentados. Eis sua falta de inocência. Porque entre
os significados que esta palavra esconde, existe um
que tem a ver com essa nova atitude interior na qual
Tipos 8 se tornam SIMPLES. “Simplicidade” é um dos
significados da “INOCÊNCIA”. Na simplicidade, os
Tipos 8 podem descobrir que também existem
caminhos suaves, em que se encontram pessoas
amigas, em que não se precisa lutar o tempo todo,
em que se pode ficar aberto, em que não se precisa
“pressionar” nem provocar. Na simplicidade existe
a falta de preconceito, tudo fica mais leve e se
descobrem “jeitos” de se fazer mais sutis, porém
não menos efetivos. A simplicidade no gesto e na
palavra diminui e esgota a agressividade. A
inocência permite que a vida se mostre mais leve.
Não se precisa “controlar” tudo e todos sempre,
porque “a inocência confia”. Pode-se confiar, não
existem riscos sempre, e nem sempre existem
“armadilhas”. A simplicidade da inocência implica
estar “contente”: é sentir-se satisfeito. Na satisfação
não existe excesso, nem pode haver luxúria porque
“contentar-se” também significa “tranquilizar-se” e
“limitar-se”.
Tudo bem, acho que está bom por enquanto, não?
Finalizo, então, com uma passagem do Tao Te King,
de Lao Tse:

“Podes abarcar a Unidade


sem abandonar o Tao?
Podes dominar tua força vital
e chegar a ser como uma criança?

Podes purificar tua contemplação oculta e


chegar à perfeição?
Podes amar aos homens e governar o Reino
sem perder tua paz interior?
Podes, enquanto se abrem e fecham as Portas do
Céu,
manter-te em calma?
Podes penetrar tudo com tua clareza
e potência interior,
renunciando ao conhecimento?

Gerar e não possuir.


Produzir e não conservar.
Dirigir e não dominar.
Nisto consiste o Mistério da Vida.

Quem assim o entende


compreende o Caminho oculto.”
O Traço 9
: O eu que espera

O eu
que espera

“(...) Sem auxílio exterior um homem nunca pode


se ver.
Por que é assim? Lembrem-se. Dissemos que a
observação de si conduz à constatação de que o
homem se esquece de si mesmo sem cessar. Sua
impotência em lembrar-se de si é um dos traços
mais característicos de seu ser e a verdadeira causa
de todo o seu comportamento. Essa impotência
manifesta-se de mil maneiras. Não se lembra de suas
decisões, não se lembra da palavra que deu a si
mesmo, não se lembra do que disse ou sentiu há um
mês, uma semana ou um dia ou apenas uma hora.
Começa um trabalho e logo esquece porque o
empreendeu, e é no trabalho sobre si que esse
fenômeno se produz com especial frequência (...)”
G. I. Gurdjieff

“Aquele que tiver se libertado da ‘doença do


amanhã’ terá uma chance de obter o que veio
procurar aqui.”
Aforismo de G. I. Gurdjieff

“A outro (Gurdjieff) disse que seu traço (principal)


era que ele não existia de modo algum.
– Compreenda – disse Gurdjieff – eu não o vejo.
Isto não quer dizer que você seja sempre assim.
Mas, quando é como agora, não existe de modo
algum.”
Gurdjieff citado por Ouspensky em
Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido
Antes de iniciar esta análise, permita-me lembrar
um Tipo 9 maravilhoso, obrigado!

Acho que todos vocês, meus queridos 9, vão


concordar comigo: Tom Jobim foi o melhor dos
Tipos 9 que nasceu neste belo país! Quando vim
viver neste paraíso terreno e comecei a ver Tom
Jobim na TV, “ao vivo”, cantando desse jeito tão
amigo, tão íntimo, simplesmente, me tornei mais
um dos seus milhões de fãs! Gravei uma de suas
últimas entrevistas-reportagens-ecológicas,
realizadas pela TV Bandeirantes, em que ele falava
da Mata Atlântica, dos pássaros, da natureza que
tanto amava. Ouvir seus papos descontraídos na TV
era muito agradável. Quando soube da sua morte,
foi como se perdesse um amigo muito querido. Com
certeza, esse foi o sentimento de milhões de
brasileiros e estrangeiros que o amavam por sua
simplicidade e bonomia.
Atrevo-me a dizer que Tom Jobim se enquadra,
perfeitamente, na descrição do Tipo 9 “sadio” que
Riso faz em seu Tipos de Personalidad - El
Eneagrama para descubrirse a si mismo: “(...)
indivíduo dono de si mesmo (...) autônomo e
realizado: equânime e satisfeito. Profundamente
receptivo e pouco coibido, emocionalmente estável e
pacífico. Otimista, apaziguador, apoiador dos
demais, paciente, bonachão, modesto, uma pessoa
genuinamente agradável.”
Pode-se perceber facilmente todas essas
características em Tom Jobim na longa entrevista
que deu ao jornalista Walter da Silva, numa manhã
ensolarada de novembro de 1994 na sua casa do
Jardim Botânico no Rio. A longa entrevista (“48
laudas, 67.258 caracteres”, segundo o repórter) foi
publicada numa “edição histórica” da revista Qualis
e dela pincei algumas respostas que confirmam o
Tipo Eneagramático “sadio” mencionado. Vejamos
o que o excelente jornalista escreveu sobre este
popular brasileiro:
“Ele não era uma pessoa que se entrevistasse, mas
sim alguém com quem se poderia ficar ali
conversando ao sabor de seus pensamentos de
multidirecionalidade (...)”; “(...) pude notar seus
gestos largos e vagarosamente generosos (...) as
mãos eloquentes mantendo os braços sempre abertos
reforçavam o calor da hospitalidade dos agradáveis
momentos que passei em sua companhia. Um
anfitrião nobre. Um gentleman absoluto (...) Nos
momentos de análise rigorosa e aguda, ele nos
surpreende com seu humor sutil, certeiro e maroto”.
O repórter ainda lembra que “ao nos despedirmos,
Tom (...) gritou pra mim da copa onde almoçava
com a família (...): ‘Walter, não se esqueça de
colocar na tua matéria que tudo isso é trabalho!
Não se esqueça!’” Na entrevista, publicada ipsis
litteris pela revista, Tom revela uma das
características do Tipo 9 descrita por Helen Palmer
como “entrar e sair de conversas pensando em
várias coisas de uma só vez” . Numa parte ele
lembra: “Eu recebi muita carta do exterior de gente
que ia se suicidar e que disse ‘olha, eu não vou me
suicidar porque escutei essa música sua e acho que a
vida vale a pena’”(...). numa outra diz: “A minha
música é pra levar o cidadão a Deus.” Num trecho
longo, reclama da imprensa e dos críticos: “Você vê
esse troço aqui, veja o peso deste troço, não tem
nada. (...) Primeiro, sabe o que acontece? Música é
um negócio que já é difícil de você falar (...) E
depois o cara acaba falando mal do próprio
compositor, diz que ele é isso, que ele é aquilo,
aponta defeitos físicos (...) E dizer que isso é crítica
musical (...) inclusive não conhecem música, né?” E
por aí vai! Depois fala com carinho da sua irmã e
revela que foi por ela que seu nome virou Tom: “A
minha irmã não sabia dizer Antonio Carlos, então
ela me chamava de ‘tom, tom’.” Depois das criticas
à imprensa, reclama das construções no Rio: “O que
se fez com uma cidade linda como o Rio (...) uma
cidade feita por Deus (...) aí nós vamos encher isso
de espigões (...) cobrem ainda mais o perfil tão
bonito, né?, do Rio de Janeiro.”
Quando o jornalista pergunta sobre o tema
ecologia ele diz: “Olha, quando eu comecei as
minhas atitudes ecológicas, eu não sabia que elas
eram ecológicas.” Depois fala dos animais, dos
pássaros e das suas experiências no estrangeiro. Aí o
jornalista lhe pergunta: “E quanto às suas atividades
no exterior?” E ele responde como um bom 9: “Eu
não estou muito preocupado com isso. Não.” Após
falar numa série de nomes internacionais famosos
que estavam interessados em gravar músicas dele e
junto com ele, diz: “Em suma, o mundo tá cheio de
coisas. Agora, por exemplo, sair do Brasil pra fazer
a América e tal, como... Ah, isso não dá.” Será que
um Tipo 3 ou 7 teria perdido essas oportunidades de
ir “pra fazer a América e tal”? Claro que não! Mas
um 9 pode, mais ainda quando está realizado. Outro
aspecto do seu Tipo aparece quando fala sobre as
perdas das suas composições. O jornalista lhe
pergunta: “Você, que compôs mais de 400
músicas...” Ele não o deixa terminar e responde:
“Dizem, dizem... Pelo menos umas cem se
perderam. Que eu saiba, aí no arquivo talvez só
tenham umas trezentas. Você vai perdendo no avião,
vai perdendo...”
Outra de 9 no Tom é esta. Quando responde à
pergunta: “Falando sobre a bossa nova, um assunto
inevitável, o que é que você guarda desse período?”,
responde: “Ah, sei lá. É tanta coisa. Eu acho que é
tudo isso aí que você disse (rindo). Mas de porre a
gente não se lembra de quase nada, né, tá tudo meio
apagado (...)” Após falar da bossa nova, volta a
falar da imprensa, do seu amigo João Gilberto a
quem acha “bastante” introvertido. Então, o
jornalista aproveita o “gancho” e lhe pergunta:
“Você é uma pessoa extrovertida, né?” e ele
responde: “Talvez, por força das circunstâncias.
Porque quando era garoto, eu gostava de subir numa
árvore e ficar quieto lá em cima. Gostava de subir
no telhado... Tinha um pouco um caráter
meditativo. E hoje em dia, naturalmente, tudo isso
foi bagunçado (...) hoje em dia inclusive tá difícil
trabalhar porque é entrevista o tempo todo, né?”
Quando o jornalista comenta que “você já produziu
muita coisa e escreveu a história da música popular
brasileira...”, Tom o interrompe novamente e diz:
“Exato, eu acho que já posso parar, né?” Logo a
pergunta inevitável: “O que você espera da tua vida
e qual o teu plano para o futuro?” Sua resposta é:
“Descansar, comprar uma bengala, uns óculos
novos (rindo) pra poder ver as moças de uma
distância oficial.” Falando sobre sua absoluta falta
de ambição e demonstrando seu desinteresse pela
fama e o sucesso que já possuía diz: “(...) o que
move é que tem essas músicas bonitas, né, que
foram feitas e foram movidas pelo amor. Ninguém
pensou em dinheiro e nada disso (...) eu achei que
isso não ia sair de Ipanema, achei que isso ia chegar
em Copacabana.” O jornalista, então, lhe pergunta:
“Vocês não tinham pretensão de ‘vamos atingir São
Paulo e as outras capitais?’” E ele responde como
todo Tipo 9 faria: “Não, nada disso. ‘Vamos atingir
São Paulo’, essa conversa já me dá uma preguiça.
‘Vamos fazer os Estados Unidos’, ‘made in
America’, ‘to make America’, isso me dá um
cansaço invencível. Eu nunca teria ido aos Estados
Unidos se o Itamaraty não tivesse me obrigado (...).
E eu nunca teria tentado ir à América, uma coisa
dificílima. Sair daqui depois de grande, sem falar
inglês, tentar a vida, tentar o quê? Ser o quê?
Sapateiro, pianista... As profissões são poucas,
ditador, carteiro, soldado... O sábio declarou ao
jornal que ainda falta muito para o mundo adquirir
um nível razoável de cultura. Até lá felizmente
estarei morto. Aí vai ter muita fumaça e tudo, né?
De que adianta você pagar milhões de imposto e
morar numa cidade que você não pode respirar?”
Assim era o saudoso Tom Jobim, e, quando ele
declara que “nunca teria ido aos Estados Unidos se
o Itamaraty não tivesse me obrigado”, ele
demonstra uma das características do Tipo 9 que,
quando não superada pode provocar graves
problemas aos que se identificam com este Traço
Eneagramático. Quer saber por quê? Então, vamos
começar a análise deste Tipo 9 antes que a gente
esqueça :

A “Doença do Amanhã” ou “Preguiça”

Relembremos uma das três citações de Gurdjieff


com as quais iniciei este capítulo:
“Aquele que tiver se libertado da ‘doença do
amanhã’ terá uma chance de obter o que veio
procurar aqui.”
Quando Gurdjieff fala de uma “doença do
amanhã” e de nossa incapacidade de “ir até o fim”
em tudo o que queremos fazer, está se referindo,
com certeza, aos “efeitos negativos” da nona
máscara eneagramática e a destaca veementemente
como algo a ser vencido, porque, esta “doença do
amanhã” é considerada “falta grave”, tanto que
ganhou o status de um dos “Sete Pecados Capitais”.
Seu nome mais comum: preguiça.
Devemos lembrar que a Preguiça está localizada
no vértice superior do triângulo equilátero do
Eneagrama, e como a Mentira e o Medo, é uma das
principais causas de todos os demais Tipos já
analisados. Quando alguém nos diz que alguma
coisa foi adiada, postergada, protelada, esquecida,
etc. sabemos que provavelmente esta coisa não
estava pronta, não foi concluída porque alguém
“esqueceu” de terminá-la, não foi considerada como
algo “importante a realizar”. Todos nós sofremos
desta “doença do amanhã”, só que os Tipos 9 a
sofrem “principalmente”. Repetidas vezes e sobre
diversas ações, projetos, tarefas e necessidades, em
qualquer nível, ouvimos dizer “amanhã vou
continuar”, “amanhã farei”, “amanhã sim,
começarei a...” O problema é que essa “protelação”
pode voltar a ocorrer “amanhã”. Por isso a
“observação” deste “efeito” do Traço Principal é
muito valiosa não só para os Tipos 9, mas para
todos nós.
Mas no caso dos Tipos 9, o problema não é
somente esse e sim um mais profundo que completa
e motiva este “Traço Principal.”

Tipos 9 são preguiçosos? Não. Pelo menos não


como se entende
esta palavra habitualmente

Como veremos no decorrer desta análise, o


problema não é que os Tipos 9 sejam “preguiçosos”,
no sentido de “não fazer nada”. Eles até fazem
muitas coisas e, às vezes, ao mesmo tempo. Então,
por que em todos os textos sobre Eneagrama se faz
tanta questão de destacar este fato? Vejamos.
Para Helen Palmer o “pecado mortal da preguiça é
atribuído a Noves, porque seus hábitos se destinam
a drenar energia e atenção para fora daquilo que
lhes é essencial na vida”. Já para Don Richard Riso,
a passividade dos Tipos 9 é uma “ironia” já que
“devem fazer algo para não fazer nada”.
Coincidindo com Gurdjieff, Riso conclui que os
possuidores desta máscara “se tornam passivos, a
vida começa a acontecer-lhes”. Claudio Naranjo tem
uma visão ainda mais profunda sobre o assunto,
quando diz que a intenção original da palavra
preguiça está no termo latino anterior “accidia” o
qual apontava para um problema muito mais
“complexo”: “Psicologicamente, accidia se
manifesta como uma perda de interioridade, uma
recusa em ver e uma resistência à mudança.”
Na minha visão, os Tipos 9 não são preguiçosos
no sentido de não fazerem nada, são Preguiçosos em
relação a si mesmos. O que significa isto? Simples:
que tudo o que tem a ver com eles, com suas
necessidades, com seus reais problemas, com seus
“negócios”, com seus projetos, enfim, eles
esquecem, adiam, protelam, “deixam pra lá”. O que
é essencial nas suas vidas, o que deveriam realmente
fazer, o que lhes impede de ver qual a sua
“realidade” e o que lhes impede de ver e sentir que
coisas, atitudes, práticas e hábitos deveriam mudar
em suas vidas, eles “não lembram” graças a um
truque com que se autoenganam: eles estão
“ocupados”. Sim. Eles fazem muitas coisas ao
mesmo tempo, falam muito, resolvem os problemas
dos outros, dedicam-se a questões “simples”, enfim
se evadem de si mesmos e até se esgotam nessas
ações para poder dizer aos outros: “Trabalhei muito
hoje e é por isso que não tive tempo para me
preocupar com estes outros assuntos que sei são
importantes para mim, mas...”
Ao refletir sobre como “atuou” num determinado
momento de sua vida apenas “levado” pelas
circunstâncias, ou seja, ele não “fez”, apenas
“aconteceu” que teve que “fazer algo para não fazer
nada”, um dos nossos alunos nos mostra esta
manifestação do Traço Principal: “O Tipo 9
pertence ao triângulo mais próximo da essência e,
olhando retrospectivamente, posso perceber o
movimento automático pelos vértices, tanto na
minha vida profissional como no meu casamento. A
preguiça, talvez o pior dos vícios capitais, é
socialmente estigmatizada, em especial, nos estratos
sociais mais favorecidos, no qual me incluo, ao
receber uma educação preciosa. Existe uma pressão
social para a pessoa ir à luta e fazer a vida. No meu
caso, essa pressão coincidiu com uma paixão que me
levou ao casamento e portanto à necessidade de
trabalhar, ganhar dinheiro, etc. e tal. Esses dois
fatores talvez sejam universais para levar o Tipo 9 a
sair da inércia e ‘pegar o carro’. Como o Tipo 9 não
tem um querer próprio (ou custa a descobri-lo), o
que fiz foi tornar-me um executivo de empresa onde
eu podia seguir a reboque de um empresário que, ao
menos externamente, sabia o que queria. Assim,
comecei a desempenhar o papel de executivo,
vestindo a máscara número 3 do autoengano.
Adaptei-me muito bem a esse papel na medida em
que ele me dava uma ‘identidade’ que não possuía.
No papel era ‘mais realista que o rei’ e embora
nunca chegasse cedo ao escritório – certamente um
sinal da ‘Preguiça’ a me dizer que aquele papel nada
tinha a ver comigo – era capaz de passar dois ou três
dias diretos sem dormir, trabalhando, se as
circunstâncias assim o exigiam, não tirar férias,
tudo em prol da chamada ‘honra da firma’ (...) Na
medida em que minha identidade estava
inteiramente amalgamada com um papel, eu não
podia me relacionar com tranquilidade, de igual
para igual com as pessoas que ocupavam outros
papéis. As pessoas eram superiores ou inferiores (...)
Isto me fazia falhar sempre que tinha uma
negociação a fazer com um ‘superior’ (...) se não
contasse com o apoio de algum companheiro, me
acovardava e era malsucedido ou simplesmente
postergava ou depreciava a entrevista (...) Em
seguida, a pressão social e do cônjuge me faziam
retornar ao desempenho do papel (...)”
Simplesmente, ele não existia para si mesmo, para
suas necessidades, enfim, tudo era porque tinha se
casado, porque tinha que trabalhar e ganhar
dinheiro, porque deve ser um executivo bom,
porque, tudo era apenas um “papel” que
demonstrava um forte “movimento negativo contra
a seta ao Ponto 3 do Eneagrama. É disto que se trata
o “Traço Principal”.

Esquecimento de si mesmo:
eis a causa do traço principal!

Os Tipos 9, simplesmente, sofrem do


Esquecimento de Si Mesmos, ou seja, esquecimento
de que somos seres capazes de atuar
conscientemente, no presente, no aqui e agora.
Sabemos que a própria definição clássica de
“consciência”, segundo Pradines, é cum-scire, ou
“possessão de si mesmo”. Para compreender o
tremendo valor psicofilosófico que isto encerra,
observe que só quando uma pessoa “lembra de si
mesma” atinge o nível de “possessão de si” que
Gurdjieff definia como “consciência de si”. Esta
“consciência de si” é atividade consciente, ato
consciente, ação consciente, e portanto um
verdadeiro fazer, já que, como ele ensinava, no
estado de “consciência habitual” nenhum ser
humano “faz” realmente. Nesse nível, tudo apenas
nos acontece. Para o Tipo 9, estas questões
sintetizadas aqui são de grande importância, tendo
em vista que seu Traço Principal, a preguiça,
implica um contínuo estado de “Esquecimento de Si
Mesmo”. Gurdjieff dizia que “para fazer é preciso
ser”. Logo, o “Esquecido de Si Mesmo” é como se
não existisse. Então, objetivamente, ele não faz,
apenas tudo lhe acontece. Por isso Gurdjieff revela a
seu aluno que, naquele momento, “ele não existia de
modo algum”.

Dispersão: deixando de lado o mais importante


(o que é mais importante mesmo?)

A maioria dos Tipos 9 percebe com facilidade esse


Esquecimento de Si Mesmo, e o sente como algo a
ser trabalhado. Descrevem-no com expressões do
tipo: “fico como uma barata tonta”, “atuação
dispersa”, “acabo me perdendo”, “dificuldade de
me ver”. A dispersão, no fundo, é um modo de fugir
do principal, do que realmente deve ser feito, do que
tem a ver com eles mesmos, e provoca muita tensão
quando se tem consciência dela.
Alice, uma de nossas alunas Tipo 9, escreve:
“Fujo muito dos meus propósitos, me disperso
com a maior facilidade, faço uma porção de coisas
ao mesmo tempo e acabo me perdendo.”
Outra de nossas alunas assim expôs a questão:
“O que mais dificulta a caminhada de um 9, pelo
menos no meu caso, é a atuação dispersa, a
incapacidade de se concentrar por muito tempo
numa direção, distraindo-se com mil interesses, sem
concluir a maior parte deles. Por conta desta
dispersão posso fazer muitas leituras, ver filmes
interessantes, peças de teatro fantásticas, fazer
cursos de diferentes coisas, vibrar com tudo isto e,
tão logo os deixo de lado, já os esqueci por
completo, sendo incapaz de lembrar mesmo o tema
central de um filme interessante (...) Com esta
mesma facilidade esqueço meu trabalho de auto-
observação e lembrança (...) Esse desligamento, essa
dispersão da atenção e esquecimento criam-me
situações embaraçosas (...) e não raro esqueço a
razão principal de uma ação para fazer algo
diferente (...)”
Um aluno Tipo 9 declara:
“Me identifico com o número 9 por contrariar o
dito popular: ‘não deixe para amanhã o que pode
fazer hoje’. Na maior parte das vezes, vejo-me
protelando os meus afazeres ou dispersando-me
neles, deixando de lado o mais importante e
partindo para aqueles de menos valor ou mais fáceis
de executar (...)”
Neste outro depoimento, a percepção de que “O
Esquecimento de Si” equivale ao esquecimento do
que é importante para o Tipo 9 fica bastante clara:
“(...) A questão da procrastinação é uma questão
séria, uma dificuldade imensa de realizar coisas,
projetos. Dificuldade de priorizar o que seria mais
importante fazer primeiro. Dificuldade de discernir
se tal coisa é importante ou não para mim (...)
Tendência a absorver muito as responsabilidades,
responsabilidades que poderiam, às vezes, ser
divididas com outras pessoas para as quais certos
assuntos ou projetos também são importantes (...)
Dificuldade de me ver, de ter um contorno de mim
(...) muita dificuldade de saber o que é importante
pra mim!”
A dificuldade de priorizar o que seria mais
importante pode ser traduzida mais objetivamente
como: “o que seria mais importante fazer primeiro
para mim”. Os Tipos 9 devem compreender
profundamente que esta é a chave para a conquista
do Traço Principal.

A dificuldade de estar presente


(ou como Cronos, o tempo, devora seus filhos)

Os Tipos 9 tanto admitem ter grandes dificuldades


para enxergar suas próprias necessidades e valorizar
seus projetos de vida pessoais como, em
consequência do “Esquecimento de Si Mesmos”,
sofrem ao perceber que o “tempo passa voando” e
não conseguem ou têm muitas dificuldades para
concretizar qualquer coisa. É como se não
conseguissem perceber a passagem do tempo. Os
dias passam e as coisas vão sendo adiadas e/ou
esquecidas. Os meses passam. Os anos passam.
Muitos Tipos 9 admitem que esse passar do tempo
parece algo muito difícil de perceber. Por esta razão,
eles vivem situações muito “engraçadas” nas quais
fica muito clara essa tremenda dificuldade de
considerar e estar no presente.
Em um engraçado e incrível depoimento, um aluno
nos revela esta difi​culdade:
“Certa manhã, por volta das 9 horas, me dirigi à
padaria com o objetivo de comprar pão e leite.
Entretanto, antes de lá chegar, encontrei-me com um
amigo que (...) disse: ‘Vamos dar um pulinho
rapidinho ali na casa de um colega e daqui a, no
máximo 30 minutos, estaremos de volta (...)’
O cara entrou por algumas ruas de Niterói nas
quais tinha passado e, de repente, depois de uns 10
minutos, entramos numa residência onde se
encontravam várias pessoas comendo e bebendo e
me serviram, imediatamente, uma cachacinha.
Papo vai, papo vem, quando dei por mim, já
estava na casa do sogro desse amigo, participando
de uma caranguejada... Conclusão: Só consegui
telefonar para casa por volta das 2 horas da manhã
do dia seguinte!”.
A impossibilidade de ter contato com o momento
presente é outra consequência do Esquecimento de
Si Mesmo. O mais grave desta perda de contato com
o presente é que, de alguma maneira, Tipos 9
começam, literalmente, a serem devorados pelo
tempo. Neste sentido, sempre lembro aos
participantes de nossos workshops que vale a pena
lembrar o mito de Cronos, que costumava “devorar
seus filhos”. Neste mito existe uma clara
advertência sobre a necessidade de estarmos
“conscientes e alertas” no “presente” para evitar
que Cronos (o tempo) nos devore, ou seja, de nos
conscientizarmos de que precisamos agir agora e
não amanhã.
Em função desta perda da noção de presente, os
Tipos 9 deixam de fazer muitas coisas importantes e
chegam até a “esquecer” as razões pelas quais
realizam determinadas ações. Às vezes precisam
inclusive que alguém lhes lembre o objetivo desses
esforços. Por isso se sentem mais seguros agindo sob
o comando de alguém, já que desta maneira não
correm o risco de perder o rumo de suas ações. Nos
depoimentos abaixo fica claro como essa
incapacidade de estar no presente leva os Tipos 9 a
deixarem de “lembrar” quais os objetivos
relacionados às suas ações e decisões:
Uma aluna lembra:
“(...) quando fui ter minha terceira filha, fiquei na
casa de uma prima (ela foi para a casa de praia e eu
fiquei na sua residência com meus dois filhos e a
empregada). O neném nasceu. Tudo bem (...)

Já ia regressar à minha casa, malas prontas, tudo


em ordem (...) quando chegamos no elevador o meu
filho (o segundo) perguntou: ‘Mamãe, e o neném,
vai ficar?’ Eu tinha esquecido, ia embora, e ela lá no
berço!”
Outra aluna conta:
“Certa vez fui à cidade resolver um assunto e
encontrei o local fechado para almoço indicando no
aviso que reabriria às 14:00. Decidi ‘fazer hora’
para esperar e entrei numa livraria, folheei livros, li,
saí, tomei sorvete, voltei, olhei novos livros e por
fim olhei o relógio – 14:00. Pensei: ‘Está na hora’ e,
ato contínuo, tomei o ônibus para casa. Só então me
dei conta de que eu ‘fizera hora’ para esperar abrir o
lugar onde deveria resolver um assunto.”
Muitos Tipos 9, quando compreendem o que
significa ser “devorado por Cronos”, começam a
valorizar mais o que chamamos o “momento
presente”.

A questão do “território aberto” e “sem limites”


e suas consequências

Temos dito que os integrantes da tríade superior


do Eneagrama (Centro Físico e/ou do Movimento),
ou seja, os Tipos 8, 9 e 1 se relacionam de modos
diferentes com o que chamamos o “território”.
Vimos que os Tipos 1 os delimitam e ordenam e que
os Tipos 8 desejam sempre ampliá-los num
inevitável desejo de expansão à procura do poder.
Os Tipos 9, pelo contrário, não conseguem
delimitar seus territórios e não possuem muito
interesse em ampliá-los. Lembra Tom Jobim? Ele
não escreveu suas músicas para ganhar mercados e
muito menos tinha planos para conquistá-los. Isso
lhe provocava um “cansaço invencível”.
Os Tipos 9 não são “ambiciosos” e não possuem
nada do jeito que outros Tipos desejam possuir.
Carecem de apego a coisas materiais. Isto seria uma
virtude, se não exagerassem. Questões importantes
não são protegidas, coisas são perdidas, esquecidas,
abandonadas. Muitas vezes, abrem mão demais de
suas próprias necessidades e perdem facilmente o
controle das coisas. Ou seja, se os Tipos 8 exageram
ao controlar e fixar limites, os 9 quase não o fazem.
Se os Tipos 1 exageram na ordem, os 9 às vezes são
largados demais. A dificuldade de delimitar sua
própria ordem e de definir qual será o território
pessoal a ser conquistado e protegido, leva os Tipos
9 a viverem situações muitas vezes complicadas. Em
parte, por não saberem dizer “não” quando
necessário. Um dos nossos alunos Tipo 9 escreveu:
“Minha atitude básica de vida é me sentir bem na
medida em que vejo os outros bem. Nisto não meço
esforços para ajudá-los, mesmo que às vezes
prejudique a mim mesmo...”
Querendo evitar atritos, muitas vezes aceitam
qualquer coisa e concordam com situações que lhes
são totalmente prejudiciais.
Reconhecendo a falta de limites na sua relação
com as outras pessoas, uma aluna escreveu, em
terceira pessoa, que se achava:
“...disponível demais. Às vezes não sabe o que é
seu desejo, vai nas águas do outro. Difícil definir o
que é seu desejo e quando esse desejo é do parceiro
ou do filho, etc. (...) assediada por pessoas com
problemas (...) nossas qualidades [se refere a seus
pares eneagramáticos] acabam virando defeito por
excesso (...)”

A ideia de “evitar problemas” tem a ver com uma


redução das próprias necessidades e um abandono
do que teria que ser cobrado e/ou priorizado nos
seus relacionamentos pessoais e profissionais.
Psicologicamente, não ter “território” definido e
ficar “aberto” a todas as coisas, pessoas e situações,
é um modo de estar sempre em paz, de viver
tranquilo. Quando se determinam a realizar algo
“bem-feito”, não existe o desejo de obter benefícios
e com isso fazem o que tem que ser feito, para
ficarem livres novamente e evitarem atritos.
Os Tipos 9 com maior influência do Ponto 8
procuram atingir um estado de “não atrito”, não
gostam de problemas e ficam irados quando não os
resolvem, razão pela qual se esforçam ao máximo
na procura dos meios que lhe tragam as ansiadas
“paz e tranquilidade”. Aqueles com maior influência
do Ponto 1 querem ter a certeza de que conseguiram
uma ordem, um espaço próprio, no qual estará
garantida a “tranquilidade” que procuram
constantemente. Em ambos os casos, não se quer ter
um território exclusivo e sim um território livre de
problemas, razão pela qual sempre estará “aberto a
todos”.
Uma aluna para a qual o território tem a ver com
esse espaço pessoal no qual não existem
possibilidades de “atritos” e com forte influência do
Ponto 6 escreveu:
“Talvez pelo medo de ser mal interpretada me
isolo muito, com certeza, para não me aborrecer. O
que mais me fascina é a paz! Troco tudo, faço tudo
para estar em paz (...)”

A falta de “território” produz naturalmente a falta


de “limites”. Então, percebem que perdem de vista e
abrem mão de suas próprias necessidades. Quando
os Tipos 9 começam a perceber o quanto esta falta
de “território” e de “limites” lhes faz falta, ficam
irritados ao descobrirem como é difícil para eles
introduzi-los. Este depoimento de Julia deixa clara
esta questão:

“Foi muito claro e terrível observar (este)


comportamento. Sentir-me dominada por ele e só
depois perceber que aquilo me incomodava, que não
era justo e que em muitas outras ocasiões eu vivi
fazendo exatamente o mesmo, porque sou eu que
não defendo meu espaço, permito que os outros o
invadam e abusem do que é meu de direito e de fato
(...)”
Apesar de perceberem a necessidade de “botar
limites” e garantir seus “espaços”, os Tipos 9
protelam o mais que podem essas iniciativas que os
beneficiam grandemente. Talvez precisem
compreender que não significa ficar fechado demais,
que não significa ter que parar de ajudar os outros,
nem que devem renunciar a esse jeito amistoso e
amoroso de ser. Apenas significa estabelecer e ser
responsável pelo “território” individual, enxergando
a necessidade e a importância dele como um meio
de superar o Esquecimento de Si Mesmos. Isto
porque, quando cientes de seus limites e da
responsabilidade por seu “espaço” individual, os
Tipos 9 aprendem que dizer não, às vezes, é
necessário e que atender às suas próprias
necessidades é tão importante como satisfazer as
alheias.

Iniciando o processo de mudanças positivas.


Observando a raiva: a influência dos parceiros
Eneagramáticos 8 e 1
É interessante para os Tipos 9 perceber que existe
algo em comum entre seus parceiros eneagramáticos
8 e 1: a raiva, a ira. Enquanto os Tipos 8 explicitam
sua ira com rapidez e instintivamente com todos os
exageros que lhe são “normais”, e Tipos 1 evitam
manifestar sua raiva o quanto podem pelo fato de
considerá-la uma imperfeição e/ou a disfarçam por
meio de seus “regulamentos” e suas “exigências”, os
Tipos 9 “acumulam” a raiva. Apesar de evitarem a
raiva e preferirem superá-la, em determinadas
circunstâncias, eles vão ficando com raiva “aos
poucos”, na medida em que percebem os resultados
negativos de suas condutas “proteladoras”. Vão
ficando irritados porque percebem como o
Esquecimento de Si Mesmos os atrapalha. Percebem
como perdem oportunidades, como a preguiça os
afeta negativamente. Desta forma, reagem
iradamente quando atingem certos limites, ou
melhor, como já assinalei anteriormente, quando
percebem a necessidade desses “limites” e não
suportam mais os resultados de suas protelações,
atrasos e assuntos pendentes. Como não desejam ter
conflitos com a realidade, como não desejam perder
a paz e a tranquilidade, a raiva dos 9 se acumula, se
retém, até que se manifesta como uma necessidade
imperiosa de estabelecer esses limites, de concluir
processos, de atingir objetivos. É uma raiva
desesperada e, no fundo, autodirigida. Essa
agressividade, no seu aspecto negativo, os leva aos
exageros próprios do Ponto 8, correndo o risco de
perder o controle e de agir desesperadamente, sem
considerar os resultados dessas reações
“explosivas”. É uma raiva desencadeada após ter
suportado “todas as injustiças” cometidas contra
eles, especialmente pelas pessoas que “deveriam”
comportar-se como eles.
Já a influência negativa do Ponto 1 os leva a
isolar-se, a afastar-se do que provoca a ira,
negando-se a admitir que as causas de determinadas
situações foram provocadas por eles mesmos. É a
raiva que acusa os que abusam de sua boa vontade e
não se preocupam com suas necessidades como eles
se preocupam com as deles.
Continuemos com o depoimento de Julia, nossa
aluna Tipo 9. Ela nos descreve como e por que a
raiva pode ser manifestada:
“Eu havia combinado com um trabalhador para
que ele fosse à minha casa concluir uma tarefa para
a qual já fora pago, fazendo isto parte de um
trabalho maior que havíamos acertado, sendo que
enquanto trabalhava para mim eu o cedera a uma
amiga para que realizasse para ela uma tarefa.
Satisfeita com o trabalho dele, ela queria que ele
voltasse para fazer novo trabalho e assim quando ele
ligou para combinar o dia e a hora de ir à minha
casa e eu atendi ao telefone, minha amiga entrou na
linha pela extensão (pois eu estava na sua casa) e
forçando a conversa onde eu marcava o horário
cedo de manhã para que ele chegasse, ela interferia e
quase impôs que ele fosse primeiro à sua casa e
depois à minha. Eu, como de costume, enquanto
falava pensava que não tinha mesmo outro
compromisso e acabei concordando que ele
atendesse a ela antes, para logo em seguida morrer
de raiva porque percebia o velho jogo de ceder aos
outros achando que os interesses e prioridades deles
são mais importantes que os meus e que eu posso
ficar para depois. Estava louca de raiva dela porque
sei que aquele é seu comportamento habitual (...)
sempre defendendo seu espaço (...) enquanto sentia
mais raiva ainda de mim porque, enquanto fazia a
concessão, percebia um movimento mais interno
avisando que eu estava agindo errado. Era uma
raiva enorme por sentir-me invadida, enquanto me
vinham à mente muitas outras ocasiões em que,
diante de um direito líquido e certo meu, eu
permitira que alguém me roubasse algo. Parti para
ela com grande agressividade verbal dizendo-lhe que
ela não tinha direito de julgar o tempo dela mais
precioso do que o meu (pois o que ela queria era ter
certeza de ser atendida cedo para ficar livre depois)
principalmente quando ela sabia que eu tinha
urgência de terminar os trabalhos de minha casa.
Contive-me depois o quanto pude e analisando o
fato à luz dos meus direitos e de como minha amiga
costuma dirigir seus interesses sem levar ninguém
em consideração ou dar satisfações do que faz,
resolvi fazer o que ela certamente faria. Liguei de
volta para o trabalhador, desfiz o combinado
informando-o que fosse à minha casa primeiro.
Esforcei-me ao mesmo tempo para ver a situação do
ângulo de minha amiga, ou melhor, da maneira
como ela atua (...) preparei-me para não informar
nada a ela, não dar satisfação e fazer valer meus
interesses.
No dia combinado, o homem foi à minha casa e
ela, esperando e vendo a demora, telefonou para
mim para saber dele. Eu disse que ele estava
comigo, e embora tendo jurado que não daria
satisfações, não pude evitar o tom de raiva na voz
enquanto de alguma forma lhe dava uma satisfação
dizendo-lhe que ele estava a meu serviço, que eu o
chamara e que depois falaríamos sobre os motivos
do meu e do seu comportamento (...) embora eu
soubesse que isto seria uma conversa difícil e inútil
(...)
Senti-me novamente com raiva porque dar
explicações é também um comportamento mecânico
meu, mas desta vez fui capaz de ter um pouco de
compaixão de mim mesma porque, pelo menos, uma
coisa eu já havia feito: defendera meu espaço mesmo
que tardiamente.”
Achei muito importante transcrever este
depoimento quase na íntegra, porque descreve muito
bem o modo como a raiva retida faz com que os
Tipos 9 “explodam” de vez quando percebem o
quanto suas atitudes os prejudicam. A energia gasta
em todo o processo descrito pela nossa aluna foi
exagerada. De fato, demonstra apenas o fruto de sua
própria máscara. Uma parte da sua raiva é contra si
mesma, já que percebe como o fato de ficar
“aberta” demais lhe dá a impressão de ser
“invadida” pela sua amiga, na qual reconhece a
capacidade de cuidar de seus interesses pessoais
como ela não consegue fazer. Os Tipos 9 não podem
botar a culpa no mundo (influência negativa do
Ponto 8) por essas situações nem achar que são
“vítimas” de uma situação que eles mesmos
provocam. O modo negativo com que vemos a
influência do Ponto 1 neste depoimento, se dá no
momento em que nossa aluna decide “julgar” sua
amiga e propor-lhe uma conversa sobre o quanto era
errado seu comportamento. Ela chega a afirmar-se
satisfeita pelo fato de ter conseguido “defender” seu
“espaço” mesmo que “tardiamente”. Mas é
justamente nesta frase que a influência negativa de
ambas as “asas” (8 e 1) se tornam mais presentes
nas palavras “defender” (8) “meu espaço” (1),
revelando que todo esse problema faz parte de seu
Traço Principal resumido na palavra “tardiamente”.
Em todo caso, nossa aluna demonstra que está
fazendo os primeiros esforços para atingir um
melhor conhecimento de si mesma e sabemos que da
época do depoimento até hoje, seus esforços são
cada vez mais bem-sucedidos.
Em resumo, os Tipos 9 deveriam aprimorar a
Observação de Si Mesmos, evitando culpar os
outros pelos seus esquecimentos e erros, aprendendo
a respeitar mais a si mesmos e percebendo as suas
necessidades e prioridades.

O negativo dos movimentos aos Pontos 3 e 6:


reconhecendo o medo e a mentira

A mentira (movimento negativo ao 3): Os Tipos 9


costumam mentir a si mesmos em relação aos
esforços que dizem estar dispostos a realizar para
atingir seus objetivos. Este movimento contra a seta
ao Ponto 3 do triângulo eneagramático serve
negativamente para que justifiquem de todas as
maneiras o fato de “não terem tempo para” ou de
“estarem muito ocupados com muitas outras
coisas”, o que, aparentemente, lhes impediria de
fazer ou realizar o que seria mais necessário e
importante. Uma aluna reconhece:
“Detesto mentira, faço o possível para falar a
verdade, sou muito atenta quanto a isso. Mas para
mim minto com frequência, arrumando pretextos e
assim adiando mudanças no meu modo de agir.”

O movimento negativo ao Ponto 3 se dá, então, de


duas maneiras: mentindo a si mesmo e mentindo aos
outros que acham, ou podem achar, que realmente o
sujeito está muito ocupado e não tem tempo de
fazer qualquer outra coisa. Vimos também, num dos
depoimentos iniciais, que também mentem
assumindo “papéis” que não lhes interessam com o
objetivo de serem aceitos pelos demais e/ou de
satisfazer suas necessidades imediatas de ordem
financeira ou material.
No desempenho desses “papéis” realizados sem
verdadeiro interesse e apenas pela pressão exterior,
os Tipos 9 parecem dar-se muito bem, pois ninguém
percebe sua “falta de interesse”, porque,
paradoxalmente, se mostram receptivos e atentos.
Geralmente, quando os outros o conhecem
“externamente”, eles parecem pessoas serenas,
tranquilas e autocontroladas. Porém, por trás dessas
“virtudes” aparentes, ocultam uma grande falta de
interesse pelo que executam. A ideia é livrar-se logo
dessa tarefa para voltar a ficar em paz.

O Tipo 9 e o tipo de sensação introvertida de Jung

Acho que este é o momento oportuno para refletir


no tipo junguiano que se assemelha ao Tipo 9: o
chamado “tipo de sensação introvertida”. Na
descrição que Jung faz deste tipo em seu
Psychological types lemos o seguinte:

“Talvez (o sujeito) se destaque por sua calma e


passividade, ou pelo seu autocontrole (...) Esta
peculiaridade (...) na realidade se deve à sua falta de
relação com os objetos (...) Visto de fora, parece
como se o efeito do objeto não penetrasse em
absoluto dentro do sujeito (...) quando a influência
do objeto não irrompe completamente, é recebida
com uma neutralidade bem-intencionada,
mostrando pouca simpatia, porém, constantemente
tratando de acalmar-se e ajustar-se (...)”
Neste caso, a “mentira” do Ponto 3 está
relacionada com a necessidade dos Tipos 9 de
parecer externamente ativos. Muitas vezes
conseguem “enganar” os outros com essa aparente
disposição, a ponto de receberem elogios pelo seu
“espírito cooperativo”. A verdade se mostra quando
de repente não cumprem prazos, se ausentam sem
necessidade, deixam questões “feitas pela metade” e
declaram “esquecer” determinados compromissos, o
que resulta muito adequado já que todos estão mais
do que convencidos de que é isso mesmo que
acontece com eles. Quando se comportam desta
maneira, muitas vezes arriscam o trabalho de suas
equipes e/ou dos grupos dos quais participam. Daí
que o que Jung acrescenta na sua descrição dos tipos
de sensação introvertida também seja aplicável ao
Tipos 9 quando se movem até o Ponto 3
negativamente:
“(...) Assim, o tipo se transforma numa ameaça
para o seu ambiente, porque sua inocuidade total
não está como conjunto sob suspeita.”
Ou seja, ninguém suspeitaria que seu “espírito
cooperativo” poderia ser apenas uma “mentira” e o
abandono e esquecimento de seu papel ou do seu
trabalho, algo deliberado. Às vezes acontece que eles
assumem responsabilidades demais e não conseguem
honrá-las senão sob muita pressão. Os Tipos 9
correm o risco, por este mesmo motivo, de serem
exigidos ao extremo e cobrados constantemente, já
que, quando descobertos por pessoas mais fortes ou
controladoras sob cujo comando venham a se
encontrar, podem chegar a converter-se em suas
vítimas. Pelo fato de sentirem-se culpados, eles
podem aceitar essas pressões exageradas e injustas,
até porque consideram que esse será o único modo
de “aprender a fazer”. Daí que esta última parte da
descrição de Jung acerca do tipo de sensação
introvertida seja tão aplicável a alguns Tipos 9:
“Neste caso, (o tipo) se converte facilmente numa
vítima da agressividade e do domínio dos outros.
(...) permite ser objeto de abusos e logo se vinga nas
ocasiões mais impróprias com estupidez e
obstinação redobradas.”
Vale a pena refletir no depoimento em que uma
das nossas alunas já citadas explica os riscos de
relacionar-se de uma maneira “não verdadeira”: “É
difícil atuar no plano concreto quando entro em
relação com o mundo, com as pessoas (...)
estabeleço relacionamentos com base na ‘vontade’
de estar bem, em harmonia com as pessoas e parto
fazendo-lhes concessões, abraçando suas ideias,
reconhecendo seus valores pessoais, disposta a
agradar-lhes, abrindo mão dos meus interesses, até
porque, na maior parte das vezes, não os identifico
e, de súbito, me vejo desconsiderada por elas ou
seguindo suas ‘vontades’, sufocando minhas
opiniões apenas para não perder os contatos e me
sentir aceita.”
Quando isto acontece, os Tipos 9 se movem
negativamente ao Ponto 6: fazem por temor às
críticas, às cobranças. Realizam esforços desmedidos
e extenuantes, “trabalham sem parar”, apresentando
o típico movimento contra fóbico, característico dos
Tipos 6, e cujo núcleo negativo é o medo. É típico
que “trabalhem contra o tempo”, pressionados pela
“urgência” de terminar as coisas proteladas, o que
nem sempre garante um bom resultado.
Naturalmente, o ciclo se fecha quando extenuados
após o esforço de última hora, voltam como se pode
apreciar no gráfico, ao ponto de origem, ou seja, o
9.
Também se pode apreciar o aspecto negativo,
quando os Tipos 9 se dão conta de que devem fazer
algo há muito protelado e começam a imaginar as
conse​quências que isso pode acarretar (Ponto 6).
Então, fazem apenas pelo medo das consequências,
o que acarreta que suas ações não sejam autênticas
(Ponto 3) e sim um meio de escapar às reações não
desejadas que poderiam advir de seus
“esquecimentos”.

O medo (movimento ao 6): O medo dos Tipos 9


está relacionado com a constante preocupação de
manter-se fora de atritos e conflitos, conservando a
paz e a tranquilidade que tanto amam. No seguinte
depoimento, uma aluna Tipo 9 descreve seus medos
da seguinte maneira:
“Há muito repito ‘não gosto de varrer contra o
vento’. Nada melhor para caracterizar o Tipo 9. É
muito difícil, para mim, tomar decisões que podem
ser o estopim de um conflito. Se pressentir a
possibilidade de um conflito, trato logo de conciliar.
Antes do estudo do Eneagrama me vangloriava de
não sentir medo.
Achava-me corajosa por enfrentar situações
difíceis (...) Observando-me com atenção, descobri
esse movimento constante para o 6, todo esse meu
retraimento é medo! Medo de desagradar, medo de
não ser aceita, medo de me expor e, por que não, o
medo de me tirarem a tranquilidade! Adoro ficar
comigo mesma, onde vivo um mundo de paz!
Só agora entendo por que tenho tanta preocupação
em não incomodar ninguém, é o reflexo de que
também vou perturbar a paz de outrem (...)”
O “medo” do Ponto 6 se manifesta também
quando os Tipos 9 sentem que não podem seguir
adiando trabalhos, decisões, atos e projetos. Então,
iniciam uma desesperada tentativa de realizar e,
sabendo que estão “contra o tempo”, se esgotam
demais. Os Tipos 9 devem aprender a fixar datas e
prazos concretos para a realização de seus trabalhos
e projetos, discriminando quais são os mais
importantes e requerem uma maior atenção e
prioridade.

O positivo do movimento 9-6-3

Quando os Tipos 9 começam a compreender a


necessidade de atuar, quando param de protelar e
aprendem a se importar com suas necessidades,
passam a viver seus “movimentos dentro do
triângulo” positivamente. Lembremos que as
virtudes relacionadas com os Pontos 9-6-3 são
respectivamente: Amor (9), Fé (6) e Esperança (3)
ou Reta Ação, Coragem e Verdade. Na prática, isto
significa o seguinte: quando relacionado às próprias
necessidades, se reconhece a necessidade de agir
porque se compreendeu profundamente que protelar
é uma maneira de não amar-se a si mesmo. Logo,
surge a Fé que é “a certeza do que se espera e a
convicção do que não se vê”, como escreveu o
apóstolo Paulo. Esta “Fé” é consciente e se
manifesta em um trabalho deliberado em direção ao
objetivo, o que garante (Esperança) a realização do
mesmo, porque agora a ação é Correta e Verdadeira.

A influência positiva dos parceiros 8 e 1

Os Tipos 9 devem aprender do Ponto 8 do


Eneagrama a valorizar seus territórios e lutar por
seus objetivos e metas sem abandoná-los com falsos
argumentos. Já do Ponto 1, deveriam aprender a
“programar suas ações”, ordenar e priorizar suas
necessidades, criando hábitos que lhes permitam
discernir entre o que é mais necessário realizar
“agora” e o que pode ser “eliminado” ou
“postergado”, porque se decidiram a não mais
protelar o que realmente devem fazer. Sempre
recomendo aos Tipos 9 iniciar processos de
observação de si mesmos, por meio dos quais
consigam dar-se conta quando estão adormecidos
com respeito às suas necessidades reais e aos seus
objetivos. É importante criar rotinas que garantam a
realização de tudo o que foi postergado ou
“esquecido” durante meses ou anos.
Um dos alunos estrangeiros viveu durante mais de
15 anos no Brasil, sem o documento exigido pelo
conselho de sua profissão. Ele adiava
constantemente a realização desse trâmite, até
porque, em determinados momentos, não parecia
necessário tê-lo. Porém, a partir de certo momento,
essa carteira profissional começou a ser necessária.
Sua primeira tarefa pessoal foi tirar esse documento.
Era difícil porque requeria legalização de diploma,
reconhecimento de estudos, trâmites diversos e
prolongados. Tudo para um 9 desistir. Mas essa
tarefa não tinha como objetivo apenas obter essa
carteira, mas também que ele “lembrasse de si
mesmo” e não protelasse mais suas próprias
necessidades. Era uma maneira de “amar-se a si
mesmo” e de iniciar um processo no qual o
“Esquecimento de Si” começasse a ser superado.
Finalmente conseguiu, e, graças a esse “trabalho”
deliberado e consciente, ele já superou muitos dos
aspectos negativos da sua “máscara” e hoje se
destaca na sua área.
Muitos Tipos 9 têm dificuldade para lidar com
dinheiro, para fechar negócios, para obter benefícios
por intermédio das suas ações. Aqui é quando o
aspecto positivo da ambição dos Tipos 8 pode servir
como exemplo, assim como a capacidade de
estabelecer prioridades e organizar suas próprias
vidas do modo como o faria um equilibrado Tipo 1.

Lembrança de si mesmo:
aprendendo a amar a si mesmo

Se tivéssemos que resumir em poucas palavras o


que os Tipos 9 devem procurar, diríamos que é
amar a si mesmos tanto quanto são capazes de amar
aos seus próximos. Os Tipos 9 sabem dar amor às
pessoas, sabem cuidar dos problemas alheios, sabem
solucionar conflitos, estabelecer pontes entre as
pessoas e conciliar. Eles apenas devem realizar tudo
isto também por si mesmos. Devem considerar suas
necessidades reais priorizando ações que lhes sejam
produtivas. Quando isso acontece, começam a atuar
corretamente. A virtude da Reta Ação pode levar
todo Tipo 9 à realização pessoal e espiritual. Atuar é
um imperativo natural, atuar corretamente é um ato
de consciência.
O discernimento é essencial para compreender o
que é a Reta Ação e o Amor.
Quando você começa a se amar não poderá
abandonar-se, nem será mais capaz de protelar ou
de esquecer o que é importante e necessário para sua
realização integral. Amar implica lembrança. Ao
amar a si mesmo, positivamente falando, o
“Esquecimento de Si Mesmo diminui”. Você não
poderá sentir “preguiça” de fazer o que é necessário
para seu bem-estar e realização. Então, evitará as
questões insignificantes e secundárias, estabelecerá
rotinas adequadas de trabalho e aprenderá a
trabalhar em função de metas verdadeiras. Evitará
trabalhar sob pressão e será persistente na tarefa de
atingir seus objetivos reais.
Naturalmente, isso é Reta Ação. Aprenda a amar a
si mesmo e com certeza essa bonomia, essa
capacidade de ser amigo de todos será ainda maior e
mais positiva.
A Reta Ação é o remédio contra a “doença do
amanhã”. O “remédio” que Gurdjieff recomendava
contra esta “doença”, em palestras a seus alunos,
era o seguinte: “Lembre-se de si mesmo, sempre e
em toda parte.”
Os Tipos 9 deveriam começar a observar de
quantas maneiras “esquecem de si mesmos” e iniciar
um processo de “lembrança de si” que lhes
permitirá existir plenamente, em paz e tranquilidade
reais e não nesse estado de “narcotização” que
muitos deles vivem como “normal”, e no qual se
perdem de si mesmos, vivendo estados de falsa paz e
tranquilidade “fora da realidade”.
Logicamente, a Lembrança de si só é possível
mediante a Observação de si. Estes dois processos
descritos no início deste livro como os mais
importantes para a realização de si mesmo, são
difíceis de compreender num começo. Nos
treinamentos de Eneagrama que realizo as pessoas
são incentivadas a conseguir, pouco a pouco, a plena
vivência destes dois conceitos básicos, justamente
porque é difícil “lembrar de lembrar” sempre e em
toda parte.
Volto a repetir que, para os Tipos 9, é essencial
refletir sobre o tema da “lembrança de si”, em
relação a si mesmo, já que, então, compreenderá o
que deve ser “observado” no dia-a-dia e descobrirá
como escapar de sua inércia negativa.
Finalmente, e com o intuito de reforçar ainda mais
a necessidade desta “lem​bran​ça de si”, convido você
a refletir nas palavras de G. I. Gurdjieff citadas por
Ouspensky:
“Da mesma maneira, um homem pode orar: ‘Eu
quero lembrar de mim mesmo’. ‘LEMBRAR-ME’ – o
que significa ‘lembrar-se’? O homem deve pensar na
memória – quão pouco se lembra! Como esquece
com frequência o que decidiu, o que viu, o que sabe!
Toda a sua vida mudaria, se pudesse lembrar-se.
Todo o mal vem de seus esquecimentos. ‘Mim-
Mesmo’ – novamente volta-se para si. De qual ‘eu’
quer lembrar? Vale a pena lembrar-se de si mesmo
por inteiro? Como pode discernir aquilo de que quer
se lembrar?”
Espero que, a cada dia, a sua lembrança e a nossa
lembrança aumentem!
O Traço 1
: O eu que ordena

O eu
que ordena

“A moral pode ser objetiva ou subjetiva. A moral


objetiva é a mesma em toda a Terra; a moral
subjetiva é diferente em toda parte, e cada qual a
define a seu modo: o que é ‘bem’ para um é ‘mal’
para outro e vice-versa. A moralidade é pau de dois
bicos, podemos apontá-lo como quisermos...”

G. I. Gurdjieff

Gurdjieff diz: “Outro exemplo, talvez pior ainda, é o


do homem que considera que, em sua opinião,
‘deveria’ fazer algo, quando na realidade não tem que
fazer absolutamente nada. ‘Dever’ e ‘Não dever’ é
um problema difícil; em outras palavras, é difícil
compreender quando um homem realmente ‘deve’ e
quando ‘não deve’ (fazer algo) (...)”
Gurdjieff citado em Fragmentos de um ensinamento
desconhecido por P. D. Ouspensky
Ah, esses perfeitíssimos Tipos 1!

Lilian Witte Fibe, a impecável, séria e corretíssima


ex-apresentadora do Jornal da Globo, foi,
provavelmente, um dos melhores exemplos de Tipos
1 que identifiquei aqui no Brasil. Certa vez, li na
seção “Ponto de Vista”, da Revista Veja de 19/4 de
96 ou foi 97? (quando retirei esse artigo da revista
cortei acidentalmente o ângulo onde estava impresso
o ano, desculpem! Ninguém é perfeito!), um artigo
de sua autoria sob o título: “Profissionais da
autopromoção”, no qual ela denunciava a “falta de
ética” de alguns profissionais liberais e jornalistas
que pretendiam usar seu prestígio para aparecer nas
revistas e jornais promovendo seus nomes. A frase
destacada do seu ensaio foi: “Não estou aqui para
promover médicos ou cabeleireiros, não sou garota-
propaganda.” Em qualquer caso, espero que o fato
de citar somente a Lilian como exemplo de Tipo 1,
não venha a provocar ciúmes em outras “figuras
públicas” tão merecedoras como ela do título de o
mais bem-comportado e disciplinado brasileiro vivo.
Por esta razão, as seguintes análises desta máscara
serão feitas a partir de exemplares humanos, tão
disciplinados e isentos como Lilian, e que, como
bons Tipos 1, não têm nenhuma necessidade de
autopromover-se, reclamam o direito de preservar
suas privacidades e podem dizer como ela que: “Se
não quero, não vou mesmo falar sobre assuntos só
meus.” Ficou claro? Muito bem.
Então, talvez o modo mais perfeitamente
simpático para iniciar esta análise do Tipo 1, seja
compartilhar com você o seguinte caso.
Costumamos solicitar aos alunos e participantes dos
nossos workshops do Eneagrama, que escrevam suas
impressões sobre seus Tipos. Um deles, Tiago, nos
entregou seu trabalho per​feitamente ordenado e
impresso. Depois de admitir na introdução que ele
era um Tipo 1 e que sua fixação principal era o
perfeccionismo, ele escreveu o seguinte:
“O primeiro detalhe (perfeccionismo) já o estou
executando visto que toda boa redação tem uma
introdução, um meio e uma conclusão. Desta forma
vemos portanto que, para mim, todas as coisas
devem seguir normas e leis que as
compartimentalizem e definam em assuntos ou áreas
estanques.”
Todos rimos muito quando foi lida esta parte. Rir
é importante. Quero que neste trabalho de
observação que você fará de si mesmo, tenha sempre
em mente a necessidade de realizá-lo com alegria.
Os antigos sábios vedantinos costumavam exigir,
como uma das mais importantes virtudes do
discípulo que deseja conhecer a si mesmo, a alegria.
Eles baseavam este pedido no fato de que se alguém
procura atingir níveis superiores de consciência e
está disposto a caminhar em direção à iluminação,
não pode realizar esse maravilhoso trabalho com
sinais de seriedade e rigidez. No caminho à união
com o Ser, só se pode estar contente. Portanto, tente
não levar-se muito a sério nesta busca maravilhosa.
Aprendendo a rir de si mesmo, talvez você possa
compreender que o trabalho de conquistar a si
mesmo se tornará tão mais cheio de satisfações
quanto maior for o prazer com que o consiga
realizar. Não pense que para unir-se ao Espírito
você precisa ser tão sério e tão severo consigo
mesmo, que a alegria não tenha lugar no seu
Sendero. Espero que tenha compreendido a
mensagem Número 1! Agora, vamos começar a
“pisar nos seus calos”, como diria Gurdjieff.
Prepare-se!

O Tipo 1 e seu traço principal

Iniciaremos esta observação da Primeira Máscara


com um depoimento de outro aluno: “Sinto a minha
vida como uma busca incessante daquilo que julgo
perfeito. O meu modelo perfeito sempre pode ser
mais perfeito e isso me conduz a uma busca
permanente de mais e mais perfeição.” Existem
Tipos 1 que dizem que desde crianças foram
“perfeccionistas” e que esta maneira de manifestar-
se foi reafirmada pelo meio em que se
desenvolveram. Se este é o seu caso, o importante é
observar como esta tendência foi afirmada no tempo
e de que modo ela se tornou sua “máscara”. Por
outro lado, existem os Tipos 1 que declaram ter sido
“programados” para serem “perfeitos”. Neste caso,
o que deveria mudar nessa programação? Defina-se
você como um Tipo 1 essencial (ou seja, as
características do seu tipo, resumidas na palavra
“perfeccionismo”, são sentidas como “naturais” e
não provocadas) ou como um Tipo 1 “fabricado
pela programação” que lhe foi imposta quando
criança, é necessário que você tente observar essa
máscara diariamente a partir de agora. Para isto ser
realizado, você não precisa se criticar nem continuar
dando energia a esse seu “juiz interno” intransigente
e severo consigo mesmo e com os outros, porque
desta forma você não conseguirá compreender
aquilo que está além dos fechados muros de seu
aparentemente “correto-modo-certo de ver as
coisas”. Apenas lhe ajudaremos nesta observação de
si mesmo... Nossa ajuda não será perfeita, claro!
Porém será importante para suas próprias
descobertas futuras. Muito bem, vamos às primeiras
observações...

Como surgiu sua máscara?

Um jovem aluno descreveu o surgimento de sua


máscara desta forma: “Desde muito cedo me foi
incutido um senso de responsabilidade, no sentido
de que sempre deveria dar o exemplo para as
minhas irmãs por ser o mais velho. Venho de uma
família judaica e o fato de ter nascido homem e ser
o primogênito preencheu uma série de expectativas
familiares, que foram devidamente transferidas para
mim...”
Outro, após iniciar seu trabalho de observação da
sua Máscara 1 escreveu: “Curiosamente ao me
deparar com fotos da minha infância, notei que
sempre estava vestido de forma arrumada e bem-
comportada...”
Lembranças como estas são parte das experiências
da maioria dos Tipos 1. Talvez, no seu caso, tenham
sido as cobranças de ordem e bom comportamento
que começaram a dar forma a ela. Talvez seus pais
(ou um deles) tenham sido muito controladores.
Revisavam suas coisas, checavam se tudo estava
sendo feito adequadamente. Ser a boa menina ou o
bom menino bem-comportado era um imperativo.
Aparentemente, isso tinha certas compensações:
ficar em paz?, evitar atritos com o pai que, muitas
vezes, Tipos 1 lembram como severo ou autoritário
demais? Talvez. O certo é que este constante atrito e
cobrança externa provoca uma reação especial.
Muitos 1 se declaram INSEGUROS. “Qual será o
melhor modo de comportar-se?” Tipos 1 se referem
a este fato como sendo de vital importância em
algum momento de suas vidas. Por diferentes
caminhos, Tipos 1 precisam encontrar respostas que
lhes permitam saber sua posição no mundo. Muitos
deles revelam uma grande necessidade de obter um
“modelo adequado” para viver no mundo ou como
saber fazer a coisa certa. “Procurei sempre um
espelho para saber como agir, dificilmente agia de
uma forma espontânea e livre, sempre precisei de
um modelo externo”, escreveu um aluno. Uma
mulher Tipo 1 me confessou que sua maior
preocupação era perceber certa inabilidade para
enfrentar o mundo: “O que fazer? Será que está
certo?” O fato de serem cobrados e exigidos faz
com que Tipos 1 sintam uma forte insegurança na
infância e juventude: “Por me sentir inseguro, não
me expunha publicamente... Acho que a busca da
perfeição da minha máscara se originou com uma
obsessão por atingir o melhor de mim nas relações
humanas...” De alguma forma, as cobranças
contínuas geram nos Tipos 1 a necessidade urgente
de encontrar um “modelo” que lhes permita ter
certeza de que não serão mais cobrados... Assim
surge a própria ordem, ou melhor, “o próprio
território”, no qual Tipos 1 tentaram criar o melhor
e mais perfeito modo de lidar com a existência. Um
território reservado, “perfeito”, um modelo de
ordem do qual ele se transforma em zeloso protetor.
Um território próprio que lhe oferecerá a segurança
e a certeza de que tudo esta OK.

O próprio “território”

Sim, “território”. Escolhi esta palavra para fazê-lo


compreender alguns aspectos relacionados com os
Tipos 1, 9 e 8. Para cada um destes tipos que
formam a parte superior do Eneagrama, a palavra
“TERRITÓRIO” tem um significado diferente e
específico. No caso dos Tipos 1, o “território”
implica tudo o que tem a ver com sua ORDEM
PARTICULAR. Tipos 1 cuidam dessa ORDEM PRIVATIVA
com verdadeira paixão. Nessa ordem, tudo está
sempre sob controle, tudo está bem-feito e
ordenado. Essa ordem pode ser a casa para a mulher
1 ou o escritório do homem 1. Em ambos os casos,
as coisas serão encontradas nas gavetas certas,
outras estarão claramente classificadas com
etiquetas específicas e assim por diante. Tudo terá
seu lugar e deverá estar sempre nas melhores e mais
perfeitas condições. Desta forma, Tipos 1 sentirão
certa sensação de bem-estar e tranquilidade.
Mulheres e homens deste Tipo realizam e tentam
impor certos rituais nessa ordem privativa. O
escritório será regido por normas estritas, enquanto
no lar a limpeza e ordem rigorosa de todas as coisas
estarão garantidas graças às rígidas regras e rotinas
que todos deverão respeitar. Certo Tipo 1 confessou:
“... sou organizado, mas crio rituais precisos e
também rígidos. Se escrevo, por exemplo, num
determinado caderno sempre com uma caneta, fico
confuso se não a encontro ao escrever. Os rituais
que crio viram minha própria prisão...” Tipos 1 não
pretendem ampliar seus “territórios” como os Tipos
8, nem o abrem a todos sem qualquer regra, como
no caso dos bonachões e simpáticos 9. Pelo
contrário, o “território” dos 1 será limitado,
cercado, nas dimensões certas, regulamentado,
porque ele é o MUNDO ORDENADO E CRIADO para ter
certeza de que nele tudo será perfeito ou pelo menos
se tentará que sempre seja o mais perfeito possível.
Uma de nossas alunas Tipo 1 expressa esta questão
de um modo muito exato:
“Gosto de tudo bonito e perfeito e gostaria de
moldar o mundo com minhas mãos. Ele seria lindo e
perfeito. O fato de achar que todos deveriam ter
amor, correção e bondade é uma mania de
perfeição...” Outro aluno declara: “Lembro-me que
era sempre importante para mim ter uma concepção
do mundo pronta, formada, que só era abandonada,
com alguma dificuldade, quando subestimada e por
uma outra que fosse mais perfeita e que incluísse as
novas percepções adquiridas. Lembro-me de uma
especialmente, na qual considerava o mundo e todas
as pessoas boazinhas, eu então, era uma pessoa
ótima, e as pessoas que não eram boazinhas não
eram porque não podiam ver a verdadeira realidade
dos fatos... Quando compreendi, lá pelos 10 anos,
que a realidade que minha mãe me passava não era
a única, fiquei bastante perdido. Procurei... uma
forma de me comportar adequadamente ou um
outro modelo de visão do mundo...”
Quando o modelo é achado, ele é transformado na
ordem exemplar do Tipo 1. Fundamentalmente, a
criação da própria ordem baseada no “modelo”
adequado será o modo de demonstrar ao mundo
exterior que nessa ordem ninguém mais pode
intervir, nem mexer. Os outros são suspeitos de não
compreender essa ordem conseguida, dia a dia, com
o apoio de um implacável senso de autocrítica que
os números 1 possuem em dose ilimitada. Porém,
bem-aventurados os que forem considerados aptos e
preparados para compreender essa ordem fechada.
Eles, sim, terão o direito de serem recebidos pelos
números 1. Amigos serão aqueles que podem ser
parte dessa ORDEM, dessa elite capaz de ver “a
verdadeira realidade” desse “território” exclusivo,
criado não apenas no plano físico, mas também no
psicológico. Sim, o “território” dos números 1 não é
apenas físico. Ele se estende aos seus
relacionamentos, aos seus trabalhos, às suas
escolhas. Tudo deve estar de acordo com as regras e
normas que regem essa preciosa ordem particular.

Como Tipos 1 descobriram que o melhor modo de


evitar
as cobranças de perfeição era criar as próprias
lembranças
(só que mais perfeitas, claro!)

Quando os Tipos 1 sentiam que a sua ordem


entrava em conflito com a ordem externa (a família,
a sociedade, os outros em resumo) ou que as
cobranças vindas de fora eram invasivas demais, eles
decidiram mostrar que essa ordem particular, criada
dentro do seu “território”, não podia ser criticada...
Esse seria seu modo de lidar com a realidade... Pelo
menos é o que pareceu mais correto fazer, certo? A
criação de seu mundo foi iniciada desse modo... se
toda ordem é cobrada, controlada e sujeita a regras
e deveres a ser observados corretamente, o lógico é
criar a própria ordem... Uma ordem que será
observada e julgada de fora como uma “perfeita e
ordenada vida”, com “tudo no lugar certo”, uma
ordem que jamais se mostrará desordenada... uma
ordem perfeita da qual você conhece as regras, as
leis... Quem poderá cobrar perfeição e ordem a
você, agora? Ninguém, nunca mais... Você será um
constante e perseverante criador e mantenedor de
sua ordem exclusiva... Quando tudo está em ordem,
é necessário mantê-lo em ordem... A ordem deve ser
preservada, não existe tempo para coisas
desnecessárias... Constantemente se perguntará se
está tudo perfeito... sofrerá com seus erros e pensará
como não voltar a cometê-los. Então, nesse
momento o seu maior “inimigo interno” virá à tona.

O surgimento da raiva e do ressentimento

“O meu dia-a-dia é tenso, cheio de cobranças e


exigências”, declara uma aluna Tipo 1, e acrescenta:
“Para mim e para os outros. Acho que mais para
mim, porque sinto que não faço as coisas do jeito
que deveria ser. Me pego corrigindo ‘defeitos’ e
‘erros’ o tempo todo... sinto que tudo que faço não
está suficientemente bom e poderia ser melhor...
Quando bato os olhos nas coisas, o que sobressai
são os erros. Eu acho estranho e não entendo como
estas coisas me aborrecem tanto, mas não
incomodam nada às outras pessoas. Este sentimento
me frustra e me sinto insatisfeita, sempre buscando
algo melhor, que nunca acontece...” Quando o
“território” é criado física e psicologicamente, e a
ordem pessoal está consolidada, Tipos 1 não podem
evitar sentir que os limites que foram criados têm
uma face negativa. Torna-se evidente que esta
ordem e este “território” não podem ser deixados
nem abandonados, porque eles sentem que, se isso
acontecer, esse mundo corre o risco de desabar.
Então, aparece a sensação de perigo. Quando os
Tipos 1 sentem esta ameaça latente de destruição da
ordem, a raiva se manifesta. No caso dos Tipos 1
com influência 9, essa raiva estará internalizada e
no caso dos Tipos 1 com influência 2, a raiva
poderá ser manifesta de maneira muito explícita em
algumas ocasiões. O limite e a ameaça a esse limite
se tornam evidentes como aquilo que não os deixa
abandonarem sua máscara de perfeição em nenhum
momento. Já não precisa ser controlado de fora,
agora ele se transformou no seu próprio
controlador. Um controlador ameaçador que diz:
“Você criou estes limites, então vigie-os, você não
pode abandonar essa ordem por nenhum motivo, é a
sua responsabilidade!” Tudo o que ameace seus
esquemas, as maneiras de realizar suas ações, os
modos de realizar seus trabalhos, tudo o que
contrarie seus planos, propostas, objetivos (ainda
que tais ameaças sejam apenas modos diferentes e
positivos de ver as coisas), será enfrentado com
raiva. Essa raiva se manifestará como crítica, como
severidade, como teimosia, como rigidez. “A
Máscara 1 demonstra com muita nitidez a forma
rígida, esquematizada de me relacionar com a vida.
Quando me deparo com os percalços do caminho,
tão naturais e possíveis, fico irado!”, reconhece um
aluno. Tudo o que se oponha à ordem deverá ser
destruído com argumentos irônicos, com
demonstrações de suficiência que, logicamente,
deverão ser as mais perfeitas possíveis, porque não é
bom que as outras pessoas enxerguem a
precariedade de suas “perfeições”. O ressentimento
estará pronto para aparecer junto à raiva quando
não se atinge o esperado. Veja, em seguida, como
um dos nossos alunos descobre esta questão em si
mesmo:
“Me identifiquei com o Tipo 1 por meio das frases
chaves ‘tenho que’ e ‘você deveria’... Por dentro
estou sempre dizendo ‘Eu tenho que...’ e ‘Você
deveria’. Isso gera uma raiva contra mim mesmo
por não corresponder às exigências que me
autoimponho e contra os outros por não agirem
conforme o meu ‘código interno’. Essa raiva se
tornou um complicador maior já que sinto que
tentei desde pequeno ser perfeito...”
O severo acusador interno o sagaz cobrador e
vigilante dos limites, o astuto e impiedoso crítico
interno, estará sempre presente e será sempre
protegido pela RAIVA. Essa raiva terá sempre
justificativa. Então será fácil criticar ou
menosprezar os outros, será fácil apontar os erros
alheios, sim, você sabe como fazer isso de um
modo... perfeito, porque você sabe como fazer isto
com você! Por outro lado, a raiva e o ressentimento
são cúmplices quando se julga os outros segundo os
rígidos padrões internos. Vejamos isto no
depoimento de um pai Número 1 que decide dar
“uma lição” a uma de suas filhas:
“Entrei no quarto de minhas filhas e encontrei
muita desordem (brinquedos espalhados por todos
os cantos do quarto)... Exacerbou-se a raiva que
nutria há muito tempo em relação à filha mais nova
pelo seu desleixo e descaso com os estudos. Fui
tomado de grande ira. Juntei todos os seus ‘ídolos’
(brinquedos) e atirei-os ao lixo (não é admissível
que alguém que já possua certa compreensão possa
gastar seu tempo e seu amor com objetos
inanimados). A meu ver, a dedicação e o carinho
que minha filha menor dedicava àquelas
‘bugigangas’ eram altamente perniciosos, e eu não
podia, em nenhuma hipótese, permitir que aquilo
continuasse. Deveria ‘cortar’ essa tendência o mais
breve possível, e este era o momento ideal, já que
estava com raiva suficiente...”
Pois é: Tipos 1 estão sempre preocupados com a
“questão moral”, com o “modo certo” que tudo
deve ser feito. Eles se tornam muito críticos em
relação ao que hoje chama-se “politicamente
correto.” Lembro que, numa passagem de Gurdjieff
fala a seus alunos, um autêntico Tipo 1 perguntou
ao Sr. Gurdjieff: “Não haverá um código absoluto
de moralidade que deveria se impor de igual modo a
todos os homens?” Ele respondeu: “Sim. Quando
pudermos usar todas as forças que controlam os
centros, poderemos então ser ‘morais’. Mas, por
ora, enquanto usarmos uma só parte das nossas
funções, não poderemos ser ‘morais’. Atuamos
mecanicamente em tudo o que fazemos e as
máquinas não podem ser morais.”

O movimento em direção à angústia

Quando a procura da perfeição é considerada


inútil porque não se consegue fazer com que a
realidade seja o que você quer que ela seja, quando
não se pode atingir o perfeito, quando os outros não
compreendem sua ordem e a atrapalham ou a
negam, quando os outros não consideram os seus
esforços em direção ao “perfeito”, quando não se
recebe a compensação esperada, a raiva determina
um movimento para a angústia (Movimento a 4).
A angústia do Tipo 1 o deixa sem forças no
começo. Tudo parece sem sentido, porque o suposto
“único sentido” foi atropelado. Sobre este assunto,
uma aluna declara: “Se falho em alguma coisa, sofro
e me culpo, ou tento encontrar as razões disso fora
de mim...” Outra confirma o movimento a 4 com
estas palavras: “... Poucas vezes meu mundo foi
mexido (atenção para as palavras ‘meu mundo foi
mexido’) e meus ideais abalados. Quando isso
acontece... é uma tragédia: sofro, choro e penso no
passado ou me fixo no futuro...”. O movimento a 4
se confirma definitivamente nestas últimas palavras
(pensar no passado e fixar-se no futuro), que
lembram uma das razões principais do sofrimento
dos Tipos 4, como se verá na análise desta
“máscara” no momento oportuno. A “saída” do
PRESENTE no qual existia essa ordem, esse
“território” não abalado que agora sofre uma
espécie de “ameaça” exterior, tira o Tipo 1 de seu
plano de segurança, tira dele a certeza de que esse
mundo foi melhor antes de acontecer tal ou qual
coisa e voltará a ser melhor quando se volte a tê-lo
firme, seguro e sem possibilidades de ser mexido ou
abalado novamente... ou quando tudo mude
novamente. A angústia e a tristeza são o resultado
dessa sensação de perda da firmeza e solidez do
“território”. Perde-se o sentido que se pretende
obter com essa ordem tão “trabalhada”. Angústia e
depressão estão ligadas por laços fortíssimos. São,
como todos sabem, as causas básicas da “perda do
sentido da própria vida”. A questão crucial aqui é
que esta angústia atua como um stop, uma “parada
no caminho”, do qual os Tipos 1 sabem sair na
maior parte das vezes vitoriosos, graças às
influências 9 e 2 que lhe acompanham. Porém, é
uma angústia fortíssima provocada principalmente
pelo fato de não poder tornar realidade essa
“perfeita ordem” ou aquele “perfeito plano”, que
parece ser o único possível de ser aplicado ou
vivido, ou de não conseguir mantê-los. Certa aluna
com forte influência 2 “aprendeu” a evitar essa
angústia realizando algumas de suas “boas ações”
fora do “território” e da ordem criada. De esta
maneira evita angustiar-se porquanto não poderá
testemunhar os resultados ingratos daquilo que
considera uma de suas melhores virtudes: “ajudar os
outros” (influência do Ponto 2 Eneagramático).
Então ela diz: “Prefiro ajudar pessoas
desconhecidas, porque assim não haverá a menor
condição de receber uma ‘patada’, o que costuma
acontecer comigo.” O fator que provocaria a
angústia de não receber uma reação positiva das
pessoas ajudadas é simplesmente eliminado para que
não perturbe a ordem pessoal. A “boa ação”
beneficiará desconhecidos, que nunca terão a
oportunidade de se mostrar ingratos, simplesmente
porque nunca mais serão vistos. Mais adiante
veremos como esta atitude de agir “fora do
território” não é tomada somente quando se trata de
“boas ações”.

Rigidez interna/externa

O guardião da ordem interna sabe cercar os Tipos


1. Um dos resultados dessa mistura
“raiva/ressentimento/insegurança” será
naturalmente a RIGIDEZ. Alguns dos nossos alunos se
referem a esta rigidez dizendo que são incapazes de
RELAXAR. “Vi que o Tipo 1 sofre muito porque não
consegue relaxar...” escreveu uma aluna.
Coincidentemente uma outra mulher Tipo 1 afirma
ser este seu problema principal: “A personalidade
Tipo 1 não relaxa nunca... Eu tenho tentado sair
desta forma cristalizada e rígida, que tanto já me fez
sofrer...”
Outra afirmou que “... em vez de ir deixando o
fluxo natural da vida acontecer, quero dar uma
direção própria que acredito ser a verdadeira. O
contato com a realidade fica então rígido... manter
toda essa estrutura rígida dá um desgaste danado de
energia...” Não somente a rigidez psicológica
provocada pela constante autocrítica surgida da
raiva. Essa rigidez será somatizada: o corpo rígido...
a sensação de estar sendo observado por severos
críticos a cada momento não deixa os Tipos 1 à
vontade com seus corpos e com as sensações
naturais associadas à existência sensível. Através da
minha experiência nos treinamentos e workshops de
Eneagrama, tenho descoberto o quanto é difícil para
um Tipo 1 o ato de abraçar, dançar ou “soltar-se”
fisicamente durante dinâmicas de grupo e das
práticas ao ar livre... Os limites da ordem
autoimposta tornam rígido o CENTRO FÍSICO. Um
aluno reflete: “Ao receber cumprimentos, abraços e
elogios, sinto que fico sem jeito...” RAIVA E RIGIDEZ
são grandes meios de perda de energia que os Tipos
1 deverão superar mediante o autocontrole positivo
e não por meio da repressão. Leia mais a respeito no
Capítulo 5 do meu livro Iniciação e
Autoconhecimento.

A face oculta aparece


(logicamente, você tinha que dar um jeito para sair
dos limites
autoimpostos da maneira mais perfeita possível,
certo?)

Temos até o momento uma visão (sabemos que


ainda não é muito perfeita) de certos fatores
nucleares que se ligam entre si e que vão definindo
com mais precisão a Máscara 1: A criação da
própria ordem e do próprio “território” cujos
limites protegem o mundo quase perfeito que se
pretende manter em constante aperfeiçoamento
(expressão disfarçada da insegurança adquirida)
provocam o surgimento dos estados de
“raiva/ressentimento/rigidez”, como consequência
da percepção de que essa “perfeição” deve ser
mantida “porque deve ser mantida” e do fato de que
não pode ser abandonada sob o risco de ficar sem
“chão”. Então, como escapar dessa prisão? Quantas
necessidades começam a ser abafadas nela? Como
sair dessas regras e normas sem que ninguém
perceba? Como escapar das próprias limitações sem
que outros saibam que você não é tão perfeito (a)
assim? Como deixar de cobrar dos outros sem raiva,
sem ressentimento e sem angústia? Como permitir-
se determinadas vivências “proibidas”, “fora da
ordem”? É comum constatar nos nossos workshops
o fato de que muitos Tipos 1 têm que comportar-se
em relação a certas questões como se fossem os
protagonistas desses famosos romances que
mostram seres humanos de dupla personalidade.
Você sabe: Belle de Jour, De Bar em Bar, Dr. Jekill e
Mr. Hyde. Sim, sabemos que não é bem assim com
todos eles, porém o que não pode ser aceito como
parte da “ordem e do território” será vivido
disfarçadamente, será vivido por um outro “eu”,
que terá certas licenças, certas vantagens que Tipos
1 acham inconfessáveis. De fato, algumas são o
claro exemplo da pesada carga de repressão que
algumas dessas licenças carregam. Certa senhora,
que participou de um dos nossos workshops,
confessou o seguinte:
“Fui com um grupo fazer um trabalho terapêutico
por uma semana. Fiquei muito excitada com os
preparativos, principalmente porque o grupo era
novo e ninguém se conhecia. Lembro-me
perfeitamente da felicidade e da sensação de
liberdade que tive logo que o avião levantou voo. Eu
tinha ido me conhecer mais um pouco e poderia ser
qualquer pessoa, poderia ser eu mesma enfim, pois
ninguém faria comparações com situações
passadas... me sentia mais leve, bem curiosa e com a
crítica interna mais relaxada... Adoro conhecer
pessoas que vivam de forma bem diferente da
minha. Pesquiso como conseguem sobreviver de
forma tão fora dos meus padrões...” Outra revelou
algo que achava inconfessável: “Depois de meu
divórcio, não tive relacionamentos com outros
homens. Sentia, sim, falta... Porém, minha
insegurança não me deixava procurar um novo
parceiro. Admirava uma de minhas amigas que era
capaz de tomar a iniciativa com os homens... Então,
quando ela me acompanhava, eu me sentia com
vontade de querer ser como ela... era uma espécie de
representação, uma espécie de faz-de-conta.”
Esta é uma situação típica. Muitos Tipos 1 se
“arriscam” a viver certas experiências em lugares
onde ninguém os conheça ou de uma forma tão
secreta que ninguém possa inteirar-se. Às vezes é
aquele impecável doutor, muito sério e comportado,
que curtirá um tórrido romance bem longe de sua
cidade; outras, é aquela dedicada executiva
respeitável que quando viaja a outros países gosta de
sair de noite e imaginar que é uma mulher
“liberada”. Vejamos o depoimento de uma outra
aluna:
“Durante três anos tive uma vida dupla: vivi com
um homem mais velho, descasado, aposentado, sem
que minha família tivesse conhecimento do fato. Ao
apresentá-lo à minha família, sofri pressões: ‘é um
caça-dotes’... ‘não é um homem para você’... ‘como
pode deixar este homem tocar em você’. O meu
senso perfeccionista dizia que eles tinham razão,
entretanto eu o amava. Continuei o relacionamento
aparentemente às escondidas...ficamos nos vendo
apenas em feriados, férias e ausências forçadas...
Estávamos felizes porque tínhamos encontrado um
ponto onde podíamos ser cúmplices..” A
“duplicidade” de alguns Tipos 1 os leva a viver a
“repressão” como uma espécie de cerca que às vezes
precisam pular. Quando se negam estes movimentos
contra seta ao Ponto 7 do Eneagrama, amores são
perdidos, desejos sexuais são reprimidos, anseios
são abafados. As regras e normas autoimpostas não
podem ser negadas. Existe o compromisso e a
responsabilidade de manifestar-se de acordo com o
padrão escolhido. Então, o único caminho é viver
outros papéis, alguns dos quais “secretos” e/ou
“inconfessáveis” e “proibidos” (segundo eles), que
poderão ser abandonados quando se retorne ao
modelo de vida adequado e se viva dentro da ordem
pessoal. Não se percebe que, talvez, exista um
“termo médio” no qual apenas seja necessário ser
menos rígido consigo mesmo, tornando-se flexível e
procurando aceitar as próprias necessidades não
como fraquezas e sim como naturais e humanas. O
que leva a esta espécie de dicotomia nas experiências
relativas ao mundo externo tem sua origem em uma
outra existente no mundo interno dos Tipos 1.

A divisão interna

Do mesmo modo que se produz a necessidade de


experienciar “outras vivências” às escondidas, os
Tipos 1 passam a viver contradições nos seus
mundos internos. Certa vez uma de nossas alunas
escreveu o seguinte: “Qualquer falha, para mim,
tomava grandes proporções, sendo difícil de ser
perdoada, tanto as minhas falhas como as dos
outros, conduzindo à intolerância e à autopunição.
Esse comportamento, que indicava uma menina
comportada e eficiente, cordata, na realidade
encobria agressividade e espírito de competição.
Mas eu não podia brigar nem mostrar raiva...”
A divisão interna leva a exagerar a realidade e suas
manifestações. Esta atitude leva à autopunição e ao
sentimento de culpa por ter “um lado tão ruim e
imperfeito”. Assim, o mundo interno é dividido em
duas partes: o lado bom e o lado ruim. Muitas vezes
ambos os lados são regidos pela mesma tendência
perfeccionista. Cada papel deve ser sempre bem
“interpretado”. Sobre esta questão um jovem aluno
revelou o seguinte:
“Minha raiva se tornou um complicador a mais na
minha vida, pois sinto que tentei desde pequeno ser
perfeito em dois mundos opostos: o da sociedade
estabelecida e o mundo marginal. Por exemplo: ser
um bom aluno na escola e um hippie total fazendo
experiências com drogas... Essa divisão me levou ao
processo de narcotização, como uma tentativa de
fugir da realidade...”
O perfeito e o imperfeito são de tal maneira
separados que Tipos 1 não conseguem conciliá-los
nem dentro nem fora de si mesmos, o que lhes
provoca grandes lutas internas. Como resultado
destas lutas, o terrível juiz interno se torna mais
implacável, não apenas em relação a eles mesmos,
como também, lamentavelmente, com os outros.
Um de nossos alunos descreve com muita precisão
(só podia ser Tipo 1!) esta luta interna: “Minha ira
se dá no sentido de estar sempre criticando
negativamente e desqualificando qualquer um que
ameace o meu status quo, apesar de externamente
poder estar elogiando quem tomou tal atitude.
Então eu penso: ‘Esta pessoa está falando a verdade
mas daqui a pouco eu vou achar nela um defeito
maior do que o meu para desmoralizá-la perante
mim e os outros, o que a fará entender que ela não
deveria ter me criticado e isso a fará pedir desculpas
ou a ressaltar em mim um lado positivo que para
mim e para os demais terá o mesmo efeito...’”
Os extremos aparecem cada vez mais definidos,
distantes e aparentemente irreconciliáveis. O bem e
o mal, o bem-feito e o malfeito, o certo e o errado,
o justo e o injusto, sem meios-termos, sem nuances.
A raiva se apodera com maior autoridade. Se
expressa nas frases com as quais os Tipos 1
disfarçam suas rejeições. Se a vida está tão
polarizada é preciso manipulá-la adequadamente.
Assim surgem os argumentos para conseguir que os
outros reconheçam a “visão da perfeição” que o 1
sente possuir. Surgem as frases típicas, como “Você
deveria...”, por meio das quais muitas vezes a raiva
sentida (que porém não pode ser mostrada) é
disfarçada. O discurso se torna irônico, a
capacidade de manipular as pessoas “aperfeiçoa-se”.
A “dualidade” é ocultada atrás da “seriedade”, do
“bom comportamento” e “da moralidade”.
Números 1 se autodefinem como “pessoas sérias” e
“bem-comportadas”. Desta forma, como poderia
você suspeitar que esta pessoa séria às vezes “pula a
cerca” ou esteja pensando em como “dar o troco”
pelo que você fez a ela? Lembro-me de certa
telenovela onde aparecia um personagem cheio de
regras e normas na sua casa, autoritário com sua
esposa e filhos, extremamente preocupado com a
ordem e com sua imagem de gentleman. Fora de
casa, em segredo, aceitava como amante uma
mulher de baixo nível que o tinha sob total controle
e da qual aceitava tudo o que na sua vida familiar
era intolerável. Quando esse outro lado é
descoberto... tudo acaba para ele...(Não deixe isso
acontecer com você, no caso de se parecer com este
personagem!) É hora de mudar! Analise o conceito
de CONCILIAÇÃO no capítulo correspondente ao Tipo
9 e determine-se a construir uma ponte entre seus
aparentemente irreconciliáveis extremos.

Iniciando o processo de mudanças positivas

Uma aluna Tipo 1 escreveu: “Fiquei chocada


quando descobri que ser perfeccionista podia ser um
terrível defeito e não uma virtude... Desde então,
passei a observar a minha máscara e constatar que
isto muito atrapalhou e ainda atrapalha minha vida
em todos os sentidos.” Tudo bem. Sei que pode
estar sendo difícil esta observação da máscara.
Nunca é agradável observá-la, porém é necessário.
Lembre-se de que o propósito desta análise geral era
“pisar nos seus calos”. Espero que tenhamos
atingido nosso objetivo. Sim, eu sei que você não
precisa que outros mostrem seus problemas. Tipos 1
sabem que podem fazer isso de um modo “mais
perfeito” e sem ajuda. Porém, nosso propósito é
provocar a descoberta de si mesmo. Desta maneira
você poderá descobrir-se (literalmente quando você
tira a máscara você se descobre). Só assim poderá
perceber que esta máscara, na realidade, o está
limitando, porque você limitou a realidade a um
espaço tão reduzido que corre o risco de não poder
conhecer outros aspectos dessa ÚNICA REALIDADE de
milhares de faces e nuances e de milhares de
paradoxos. A “raiva/rigidez/ressentimento” se
encarregará de dar poder a essa visão limitada. O
mundo dos Tipos 1 é tão reduzido e
compartimentado que termina deixando muitas
coisas importantes de fora. Você pode ampliar esse
mundo. Nessa ordem autoimposta em que nada
parece ter alternativas ou nuances, falta a
compreensão de uma velha e sábia Lei Hermética
que você poderá lembrar cada vez que seus
caminhos, meios e esquemas de vida pareçam ser os
ÚNICOS POSSÍVEIS. Essa Lei diz:

“Todas as verdades são semiverdades; todos os


paradoxos são reconciliáveis.”

Uma de nossas alunas definiu esta procura de uma


visão mais ampla, serena, tolerante e abrangente da
realidade como um de seus principais esforços na
busca da conciliação interior: “O Tipo 1 deve
cultivar a tolerância, a esperança... não colocar
todas as coisas dentro de um formato. Deixar as
coisas e as pessoas serem como são, sem querer
mudar nada e ninguém. Tentar ver o outro lado da
questão – em todas as questões – e ter a certeza que
‘o frio pode ser quente’ num outro nível...”

Os principais movimentos a serem observados:


de 1 a 4 e de 1 a 7

O Movimento do mundo interno dos Tipos 1 no


Eneagrama é o resultado da divisão 1 : 7 =
0,1428571... Observe que nesta dízima periódica, os
números 1 e 4 estão juntos, assim como os números
7 e 1. Vamos analisar o primeiro movimento. De 1
a 4... RAIVA E INVEJA são vícios intimamente ligados
entre si. A raiva do Tipo 1 é gerada pelo fato de ele
não atingir a perfeição procurada. O Tipo 1 intui
essa perfeição e deseja alcançá-la. A inveja não
significa aqui apenas o anseio de possuir o que outro
possui porque o consideramos valioso. Devemos
analisar a inveja de uma forma mais profunda,
como um anseio de atingir o que se considera
“aparentemente melhor” e que ainda não temos,
apesar de sentir que o merecemos e pela certeza que
temos de que o desejado é realmente o melhor, o
mais perfeito e mais adequado para fazer parte da
nossa ordem particular. Quando não o conseguimos,
surge a RAIVA. O trabalho de auto-observação de si
permite ao Tipo 1 descobrir que a razão de sua raiva
está oculta por trás da sua busca de uma falsa
“perfeição”, um falso ideal que não lhe permite
relaxar. Isto leva o Tipo 1 a vivenciar os resultados
de seu movimento ao Ponto 4 do Eneagrama. A
perfeição não foi conseguida e a raiva se mistura à
tristeza e à angústia de não possuir o que se quer, de
não se viver de acordo com o ideal de perfeição
fixado, a uma espécie de desapontamento de não se
conseguir o que se quer obsessivamente e, portanto,
a uma sensação de infelicidade.
Com respeito ao que se chama “movimento contra
seta a 7”, existe nele algo da maior importância
para Tipos 1. Iniciamos este capítulo pedindo para
você realizar este trabalho de auto-observação com
alegria e o terminamos do mesmo modo. O Tipo 7
do Eneagrama (quando equilibrado) é considerado
possuidor de uma personalidade livre, espontânea,
que gosta de aventura, que sabe rir da vida e que
está disposto a mudar. Esses são seus aspectos
positivos. Quando o Tipo 1 se move contra a seta
negativamente (1 a 7), ele não somente pode viver
situações “proibidas” como já vimos anteriormente.
Também se comporta de maneira irônica com os
outros, ou seja, ele manifesta um dos piores
aspectos do Tipo 7. A ironia é um modo sorrateiro
de criticar e “rir dos coitados” que “não fazem as
coisas do modo certo”. É uma burlesca atitude que
esconde a raiva que não se pode ou não se quer
explicitar. Para o Tipo 1 a ironia funciona, então,
como uma arma sutil, como um modo disfarçado de
mostrar aos demais que só ele conhece o modo
perfeito, o plano perfeito, o jeito adequado. Quando
você “vai” negativamente de 1 a 7 no Eneagrama,
você sabe como tornar-se extremamente chato para
os outros, exatamente igual ao Tipo 7 quando deseja
“sacanear” seus semelhantes com suas sutis
brincadeiras. Você fará bem em ler as características
do Tipo 7 no momento oportuno.
Porém “tudo tem seu par de opostos”, embora
você às vezes negue esse fato. Por esta razão, você
“deveria” (gostou da palavra ?) aprender do 7 o
modo de ser menos limitado, mais solto, menos
rígido, mais aberto ao novo e diferente, mais
espontâneo e mais livre... Aprenda com o Tipo 7 a
mudar de planos e de astral... Seja mais
brincalhão... Se solta, poxa! Certo aluno Tipo 1 fez
a seguinte avaliação de si mesmo, quando percebeu
que estava se livrando de sua rigidez:
“Se fosse falar da minha mudança desde que iniciei
meus treinamentos de Eneagrama com Khristian,
diria que foi total, mas com os conhecimentos ‘já
retidos’ sei que foi apenas uma tremenda suavizada,
com ganhos enormes para o ‘bem viver’. Com maior
aceitação e consideração externa, harmonia
(percepção de fazer parte do Todo), fraternidade,
etc.”
Esperamos que você também consiga essa
“tremenda suavizada, com ganhos enormes para o
‘bem viver’.”

9 e 2: uma influência positiva ou negativa

Seus companheiros no Eneagrama são os Tipos 9 e


2. Estes influenciam você de diversos modos. Será
importante analisar as características destes Tipos
para você aperfeiçoar a observação de si mesmo e
do seu Traço Principal. Do Tipo 2, o 1 possui o
orgulho de sentir-se capaz de fazer as coisas corretas
e certas e que os demais saibam isso e o reconheçam
o deixa feliz e satisfeito. Do 9, uma certa tendência
à inércia, que muitos deles qualificam como
“necessidade de sentirem-se seguros e tranquilos” ou
de ter maior capacidade para aceitar as
“imperfeições alheias” e de ser mais tolerantes.
A maior ou menor influência destes companheiros
provoca essas nuances psicológicas, essas diferenças
que possibilitam a manifestação de três Subtipos 1
básicos. Para certos Tipos 1, o fato de sentir-se
seguros os leva a resistir às mudanças ou novas
experiências. Aqui, os aspectos “tranquilidade” e
“segurança” se relacionam com a tendência dos
Tipos 9 de rejeitar, evitar e fugir de tudo quanto
implique “esforços desnecessários” que tirem sua
“paz” ou que provoquem “aborrecimentos inúteis”.
Já a influência das características do Tipo 2 provoca
certas manifestações que fazem de alguns Tipos 1
atraentes, sedutores e com capacidade de liderança
proveniente da certeza de que somente eles podem
dar a solução certa para determinados problemas.
Diferentes dos Tipos 8, eles não querem liderar para
demonstrar poder, mas apenas porque se sentem
capazes de “estabelecer a ordem correta”, porque
sua participação se faz necessária, porque eles
sabem “botar ordem na casa”.
Tais características os tornam mais manipuladores
e assertivos que os Tipos 1 com maior influência 9.
Desta forma, convencer aos outros da “perfeição”
se torna mais fácil, dando um “toque” mais suave à
figura do Tipo 1 raivoso e intolerante. Isso não
significa que a raiva desaparece, apenas se dissimula
um pouco mais, caracterizando esse processo
psicológico que outros estudiosos do Eneagrama
denominam de “internalização da raiva”. Para os
Tipos 1 com forte influência do Ponto 2
Eneagramático, essa internalização da raiva poderá
ser mais ou menos bem-sucedida, segundo sua
capacidade pessoal de retenção e/ou repressão da
mesma. Segundo alguns dos mais conhecidos
estudiosos do Eneagrama (Naranjo/Riso), a questão
da “retenção” e/ou internalização da raiva está
muito relacionada com os processos que
determinam os chamados tipos “anais” e/ou “anais
retentivos” da psicanálise freudiana. Menciono este
fato para o caso de alguns psicanalistas virem a ler
esta obra. Estas são apenas algumas pistas para você
aprimorar a observação de si mesmo. Sua tarefa é
descobrir como estas influências são vividas
pessoalmente, tanto positiva como negativamente.

O Tipo 1 e o tipo de pensamento extrovertido de


Jung

Parece interessante a esta altura citar o livro


Psychological Types, de Carl Jung, para que você
possa refletir sobre a descrição junguiana do tipo
mais coincidente com a Máscara 1, o Tipo de
pensamento extrovertido:
“Este tipo de homem eleva a realidade objetiva, ou
uma fórmula intelectual objetivamente orientada, ao
(nível de) princípio governante não somente para si
mesmo, mas também para todo o seu ambiente. Por
meio desta fórmula mede-se o bem e o mal, e se
determina a beleza e a feiúra. Tudo o que concordar
com esta fórmula é correto, tudo o que a contrarie é
incorreto. (...) Assim como o tipo de pensamento
extrovertido se subordina à sua fórmula, para seu
próprio bem, todos os que o cercam devem obedecê-
la, pois qualquer um que se negar a obedecê-la está
equivocado – está se opondo à lei universal,
portanto, é irracional, imoral e sem consciência. Seu
código moral lhe proíbe tolerar exceções; seu ideal
deve realizar-se em toda circunstância (...) Os
‘deveria’ e os ‘tenho que’ cobram importância neste
programa. Se a fórmula for suficientemente ampla,
este tipo pode ter um papel muito útil na vida social
(...) Porém, quanto mais rígida for a fórmula, mais
(...) gostaria de introduzir a si mesmo e aos outros
num (mesmo) molde. Temos aqui os dois extremos
nos quais a maioria deste tipo se move...”
Então, como é que Tipos 1 podem iniciar um
processo de crescimento interior que os eleve acima
de seus rígidos padrões de conduta até um nível de
maior “plasticidade” psicológica? Vejamos.

O poder essencial por trás da máscara número 1


surge do cultivo da virtude da serenidade
(ou do ser na unidade)

Na versão para o Ocidente que Blavatsky fez do


milenar Livro dos Preceitos de Ouro tibetano, sob o
título de A Voz do Silêncio (traduzido para o
português primorosamente pelo poeta Fernando
Pessoa), lemos o que pode ser a “chave-mestra” que
conduzirá os Tipos 1 até esse nível de maior
“plasticidade” e ao conhecimento profundo de si
mesmos:

“Sê como o Oceano, que recebe todos os rios e


torrentes. A poderosa serenidade do mar permanece
inalterável, sem senti-los...”

Sim, será necessário cultivar a Serenidade... A


Serenidade poderia ser compreendida como “ser na
unidade”. Qual Unidade? Aquela Unidade que foi a
Primeira Manifestação do Todo. Uma Unidade que
Une Todas as Coisas, porque TODAS AS COISAS
TIVERAM NELA SUA ORIGEM: “No Princípio era o
Verbo... por Ele foram feitas Todas as Coisas.”
Tipos 1 “sentem” instintivamente essa Unidade
original, e sentem que quanto mais Ela se expresse
mais perfeito será tudo. Quanto menos
manifestação da Unidade, menos perfeição. O erro,
ou melhor, o “desvio” (uso a palavra desvio no seu
significado radical, ou seja, sair caminho)
psicológico principal é não enxergar as múltiplas
manifestações possíveis dessa “intuída” Unidade
arquetípica que subjaz potencialmente por trás de
todas as coisas e que é dinâmica em sua essência.
Nada é perfeito quando sujeito à manifestação
existencial, porém nada é absolutamente imperfeito
e tudo pode ser aperfeiçoado. O modelo pode ser
perfeito porém suas expressões podem não ser
perfeitas. Quanto mais “semelhante” ao modelo,
mais perfeita a obra. Somente não se pode esquecer
que, talvez, esse modelo seja também passível de
perfeição e, paradoxalmente, imperfeito no seu
nível. Quando não se consegue “descobrir” esta
perfeição eidética e dinâmica subjacente em todas as
coisas, quando não se pode sentir o potencial de
aperfeiçoamento e não se pode imaginar de quantas
maneiras esse potencial pode vir a se manifestar, o
Tipo 1 manifesta sua Raiva/Ressentimento/Rigidez.
O imperfeito é rejeitado. Acusa-se de “imperfeito”
àquilo que oculta essa Unidade/Perfeição que
instintivamente se deseja atingir. Não se percebe o
perfectível do imperfeito, nem se consegue perceber
sua relativa perfeição em certo nível. Por isso, a
raiva/ressentimento/rigidez se transforma em “ideia
fixa” de como fazer o certo, de que é o certo e em
inconformismo. Desta maneira, Tipos 1 se defendem
contra tudo o que ameaça suas “perfeições
definitivas e absolutas”. Este estado interno o
castiga com a rigidez e a cristalização psicológicas.
Não percebe que essa cristalização interna aprisiona
suas extraordinárias energias.

Tipos 1 declaram, com falsa certeza, que só existe


um caminho certo e nenhum mais, e quando não
conseguem impor este “único caminho certo”,
quando não conseguem realizá-lo, interna ou
externamente, a raiva, às vezes impedida de se
manifestar, se disfarça numa espécie de raiva justa,
ou como a descreve Claudio Naranjo numa “virtude
irada”, rótulo que segundo ele “tem a vantagem de
incluir tanto o aspecto emocional (raiva) quanto o
cognitivo (perfeccionista)”, ou seja, uma raiva
racionalizada, por não ter conseguido realizar da
única maneira que se acredita possível o
supostamente “perfeito”. Quando esta visão
unilateral da realidade se consolida, poderá
provocar o surgimento, em alguns deles, da
compulsão e obsessão que podem levá-los a
consequên-cias psicopatológicas mais sérias.
O que poderia ser a virtude de pressentir a
Unidade por trás da diversidade aparente, vira o
vício de achar que só existe uma única possibilidade
de perfeição para cada manifestação daquele 1
primordial. O Perfeito não será enxergado como um
processo dinâmico em constante movimento e capaz
de superar o que num determinado instante parecia
ser sua máxima expressão. O Tipo 1 transforma o
Perfeito num estado rígido, cristalizado, terminal,
que não pode ser diferente daquilo que ele
determinou como perfeito, daquilo que ele prejulga
como certo. Então, nesse estado de fixação e
obsessão interna, nessa incapacidade de perceber a
ilimitada Unidade e a dinâmica dessa perfeição-que-
sempre-se-aperfeiçoa, o Tipo 1 não pode ver além de
seu limitado “território”. Tudo o que seja perfeito
terá que estar sujeito às suas medidas, às suas
normas, às suas percepções do “certo” e do
“errado”. A ameaça permanente de ver o
“território” alterado pelo “imperfeito” que vem de
fora é exorcizada com a diária conservação de tudo
o que pode consolidar a segurança e ordem do “seu”
território. Pode existir SERENIDADE no Tipo 1 que
vive nesse mundo de falsas perfeições e de parciais
visões da Unidade? Pode estar em Unidade com o
Ser que está presente em Todas as Coisas?
Logicamente, não. E por isso ele se torna seu
próprio grande acusador, que reprime, que julga,
que ironiza, que manipula, que limita a si mesmo e
aos outros. Parece que deste modo sua visão parcial
da realidade, a minimização da Unidade à sua
aparentemente única maneira de enxergá-la presente
nas coisas, pode permanecer segura e inabalável,
porque foi “cercada”.
Quando o Tipo 1 se dá conta de que essa Unidade
da qual sua máscara é um fraco e limitado reflexo
está presente EM TODAS AS COISAS e não somente em
algumas, quando percebe que essa Unidade pode
assumir muitos rostos, quando o Perfeito se
compreende como uma dinâmica sem os limites de
seu “território”, quando o Perfeito pode ser
enxergado nos outros modos de expressão da
realidade, em outros modos e maneiras de ver,
fazer, sentir e viver, então a SERENIDADE, o “SER NA
UNIDADE” surge e começa a substituir a RAIVA da sua
rígida máscara. O mundo se amplia, as
possibilidades se multiplicam. Agora, tudo se torna
possível. Tudo se torna dinâmico, cheio de nuances
e possibilidades insuspeitáveis, para as quais o Tipo
1 está aberto, com a serena atitude do observador
imparcial que não precisa julgar, que não precisa
rejeitar ou acusar. Pouco a pouco, o Tipo 1 pode ser
capaz de descobrir o ÚNICO PERFEITO em todas as
múltiplas questões que se apresentam ante ele na
existência. Torna-se aberto, porque a serenidade o
transforma num ser receptivo. O conflito entre as
polaridades que pareciam irreconciliáveis diminui,
porque a serenidade produz o equilíbrio (7), a
equanimidade (4) e a humildade (2) necessários para
a grande reconciliação dos opostos. Esta
reconciliação é própria daqueles seres humanos que
aperfeiçoam a si mesmos por meio de um
equilibrado discernimento. Alexandra David-Néel,
no seu livro Initiations Lamaïques (Des Theories,
des pratiques, des homens), publicado em português
com o título de Iniciações Tibetanas, diz sobre as
chamadas doutrinas da Senda Mística: “... a
moralidade (do homem esclarecido) consiste na
escolha sagaz que (ele) é capaz de fazer entre o que é
bom e o que não é, segundo as circunstâncias. As
doutrinas da Senda Mística não admitem o Bem
nem o Mal em si mesmos. O grau de utilidade de
um ato marca seu lugar na escala de valores
morais...” O Juiz unilateral, injusto e intransigente,
se transforma no Juiz de visão ampla, sábio e justo
que vê além das aparências e que conhece o justo
meio de todas as coisas, quando sabe discernir entre
os opostos e aprende a reconciliá-los. Esta
reconciliação interior é fundamental para a
harmonia interna dos Tipos 1.
A Serenidade permite aos Tipos 1 ampliar suas
possibilidades de perfeição real. Torna-os capazes de
descobrir o “perfeito” nos planos e esquemas
alheios, nos modos com que as pessoas procuram
fazer as coisas de maneira certa. A sensação de estar
divididos internamente acaba. A raiva que não era
expressa pode agora manifestar-se adequadamente,
porque se descobre que era apenas uma energia mal
direcionada e que somente parecia mais terrível,
porque assim como as águas estagnadas que não
podem seguir o seu curso, fedem e não servem,
assim essa raiva era apenas a energia a ser
transmutada no rio poderoso da serenidade interior.
A serenidade transforma o crítico interno num Buda
sorridente. A serenidade mostra que já não é
necessário viver “no mundo certo” e no “mundo
errado” e que, pelo contrário, tudo pode ser vivido
além dos subjetivos limites do “bem” e do “mal”,
do “certo” e do “errado”. A serenidade conduz à
vivência plena da existência, sem que pareça ser
necessário agir deste ou daquele modo, ou segundo
este ou aquele esquema. Um viver sem tensão, sem
rigidez, sem emoções ou sentimentos retidos. A
serenidade é o resultado daquele estado psicológico
que G. I. Gurdjieff chamou de “moral interna” em
oposição à moral subjetiva que muda de acordo com
as épocas e os costumes. Um estado no qual “o lobo
e o cordeiro” que carregamos conosco se
reconciliam. Sobre isso, ele dizia o seguinte:

“Seria melhor que você esquecesse a moralidade.


Toda conversa sobre a moralidade seria, neste
momento, pura conversa fiada (...) A moralidade
interior, essa sim é a sua meta... Quanto à
moralidade exterior, é diferente em toda parte.
Devemos pautar nossa conduta pela dos outros, e
como se diz: ‘Para viver com os lobos, devemos
uivar com os lobos’. Isso é a moralidade exterior.
Para a moralidade interior, o homem deve ser
capaz de fazer, e, para isso, deve ter um Eu (...)”

Para encerrar esta parte, penso que será valioso


refletir nas palavras de Laura, uma de nossas alunas
Tipo 1 sobre seus esforços em direção à Serenidade:

“Acho que o movimento inicial que tive, na busca


da serenidade, originou-se no desejo de ‘não ser
perfeita como minha mãe’. Talvez porque aquilo
não era perfeição, mais parecia intolerância, rigidez,
angústia de viver.
Não tem sido fácil, pois fui bem ‘treinada’, e
qualquer desvio daquele caminho leva à sensação de
fracasso ou culpa. Eu era uma equilibrista andando
no arame, onde qualquer instabilidade poderia
provocar a queda. Era preciso muito controle para
chegar ao fim da linha. E quando isso era possível, a
sensação de vitória era menor que a tensão durante
o percurso. Por outro lado, gradativamente, fui
percebendo que a minha constante decepção devido
às falhas dos outros e a irritação quando meus
desejos eram contrariados, colocavam-me numa
posição de distanciamento das pessoas, pois eu
exigia o que não poderiam me dar, ao mesmo tempo
em que me afastava de mim mesma, enquanto
representava um personagem que me fora imposto.
A partir dessa compreensão, venho exercitando um
novo tipo de vida, em que procuro ser mais flexível
e espontânea e tento colocar emoção nos
relacionamentos, sem medo de encarar meus limites
e possibilidades, querendo chegar mais perto da
verdade.
Essa forma, que venho buscando cada vez mais,
baseia-se na aceitação das Leis Herméticas e no
caminho do autoconhecimento mediante a chamada
auto-observação. A compreensão de que é possível a
transformação contínua, ao mesmo tempo em que,
humildemente, aprendo que o ‘que deve ser feito já
está feito’, me permite mais serenidade na busca da
perfeição, presente no meu ‘Eu Superior’, e menos
‘perfeccionismo’, que é a máscara que me prende e
inibe a evolução.”
Parte II
- Centro Emocional (Traços 2, 3 e 4)
Centro Emocional
Traços 2, 3 e 4
O Traço 2
: O eu que ama

O eu
que ama

“Há duas espécies de amor. Uma é o amor


escravo. O outro deve ser adquirido pelo trabalho
sobre si. O primeiro não tem valor algum; só o
segundo, o amor que é fruto de um trabalho interno,
tem valor. É o amor de que todas as religiões falam.
Se você amar, quando isso (a personalidade,o ego)
ama, esse amor não depende de você e não haverá
nenhum mérito nisso. É o que chamamos ‘amor de
escravo’. Você ama até mesmo quando não deveria
amar. As circunstâncias fazem-no amar
mecanicamente...”

George Ivanovich Gurdjieff


Será que existem seres mais amorosos
e dadivosos que os Tipos 2?

Quando no inicio do meu trabalho com


Eneagrama no Brasil fui convidado como
entrevistado do programa de TV Talk Show, tive a
oportunidade de conhecer uma das mais cativantes
Tipo 2 deste pais: Patrícia de Sabrit. Ela, com sua
natural amorosidade e simpatia, conseguiu conduzir
a entrevista sobre o Eneagrama de maneira muito
afável e fluida, o que permitiu transformar um tema
difícil de “abreviar” numa agradável conversa. Essa
sua atitude constante me lembrou a definição que
Julia, uma distinta aluna Tipo 2 fez de si mesma
quando disse ser possuidora da capacidade de
“amaciar as pessoas”. Pode ser que os Tipos 2
“amaciantes” (também existem os menos
amaciantes), identifiquem nesta palavra o que faz
parte tão importante de suas personalidades: o
orgulho de serem capazes de conseguir de um modo
ou de outro, bem ou mal, o maior dos retornos
emocionais que eles e elas procuram: o amor e o
reconhecimento dos outros. Aqui no Brasil, as
figuras públicas que também possuem este Tipo
Eneagramático (com algumas diferenças de “asas”,
claro!) são as maravilhosas Ana Maria Braga e
Xuxa. Que mulheres amorosas! Que capacidade de
sedução! Ana Maria Braga consegue transmitir essa
amorosidade cada vez que entrevista seus
convidados no seu programa da Globo e eu tive o
privilegio de ser um deles (veja o link no nosso site
com a entrevista completa no You Tube). Claudio
Naranjo escreve que Tipos 2 são semelhantes aos
gatos, e ela é realmente uma gata amorosa e
comunicativa. E quem duvida do enorme e amoroso
coração da “rainha dos baixinhos”? Ela, que ama a
todos, e que se emo​ciona até as lágrimas perante
seus fãs. Ela que faz tantas coisas para encher os
outros de amor e alegria. Que na falta de
possibilidades de dar-se mais aos outros, revelou
numa entrevista que aproveita o tempo livre para
colecionar com carinho as centenas de lembranças
dos milhões de seguidores que a amam tanto!.
Poderíamos dizer que Xuxa e Ana Maria Braga são
na atualidade dois dos maiores “amaciantes”
públicos da TV Globo no Brasil e devemos
reconhecer que, de certo modo, precisamos muito
dessa qualidade nestes dias tão violentos.
Bom, estou iniciando a análise do Tipo 2 citando
exemplos simpáticos que todos reconhecem. O quê?
Sim, eu sei que você merecia estar citado (a) aqui,
mas assim como um Tipo 1 não precisa se levar tão
a sério, você, Tipo 2, não precisa exagerar sua
cobrança da atenção dos outros, especialmente de
mim que não o (a) conheço, poxa! Não fique triste
nem zangado (a), tá? Os Tipos 2 com forte
movimento para o agressivo Ponto 8 e com uma boa
influência do Ponto 1 do Eneagrama até que
poderão justificar essa raiva. Você é do tipo que
quando está zangado “encena” uma violência
histriônica que lembra os “expressivos” italianos
com suas justas vendetas? Ou você é daqueles Tipos
2 mais amorosos e dispostos a “aceitar tudo por
amor” devido a um forte movimento ao Ponto 4?
Qualquer que seja o modo como esta segunda
máscara se apresente em você, tentarei mostrar-lhe
(com muito amor, claro!) como seu Tipo deve ser
observado e o que nele deve ser aprimorado para
que todo esse amor e anseio de se dar aos outros
sejam cada vez mais verdadeiros e poderosos, sem
que você se esqueça de você... A propósito, estas
últimas palavras não foram escritas por acaso (até
porque você sabe que o acaso não existe...). Eu as
escolhi para me referir a um dos aspectos mais
cruciais que todo Tipo 2 precisa compreender:
entregar-se aos outros não deve significar perder-se
de si mesmo (a).
Observando a máscara 2:
a sutileza do orgulho

Observar a si mesmo é difícil. Já para os Tipos 2,


é difícil atingir um grau de auto-observação medido
e equilibrado. A tendência é confundir observação
com uma espécie de falsa humildade, maximizando
a autocrítica como um modo de provocar a
compaixão ou admiração dos outros. Nesta atitude,
os Tipos 2 reforçam a influência dos Tipos 1
(autocrítica e cobrança exagerada) e do movimento
contrário à seta, ou seja, ao Ponto 4 do Eneagrama
(uma necessidade de apoio e de compreensão para
seus sofrimentos e angústias nem sempre reais e,
quando reais, exagerados teatralmente). Por isso,
quero que sua autoanálise seja muito consciente
para que não caia nestes extremos, tão
frequentemente usados pelos Tipos 2 para atrair
atenção e amor. Os Tipos 2 adoram que lhes falem
frases tais como: “Não, você não é tão ruim assim,
não se castigue tanto!” Faz parte deles a capacidade
de sentir orgulho, seu “pecado capital”, até quando
conseguem ser reconhecidos como “tão humildes”, o
que eles certamente não são (poderia acrescentar
“em absoluto” só para alegrar a certos Tipos 2 que
gostam dos extremos). Com esta advertência,
iniciaremos o processo de auto-observação,
mediante alguns depoimentos que nos mostram
como surge a Máscara 2. Uma de nossas alunas,
Marta, descreveu o que pode ser um exemplo muito
apropriado da infância típica de alguns Tipos 2 com
estas palavras: “Eu sempre me senti uma criança
muito amada, desde que eu desse a cada adulto o
que ele queria receber...”
André, outro aluno, afirma: “Acho que bem cedo
aprendi que, agradando aos outros, eu recebia o que
mais queria: o amor das pessoas.”
A maioria dos Tipos 2 tem estas lembranças da
infância: agradar aos outros para receber amor. Para
alguns essa lembrança é positiva; para outros, nem
tanto. Existe algo de semelhante nas infâncias dos
Tipos 1, 2 e 3: a percepção de poder receber algo em
troca de algo que parece ser o mais valioso: em
troca de ordem e bom comportamento (Tipo 1), em
troca de carinho e amor (Tipo 2) ou em troca de
bons resultados (Tipos 3). A necessidade de amor e
carinho toma nos Tipos 2 muitas formas, porém
todas se resumem numa frase de tremendo conteúdo
psicológico e de extraordinárias consequências: a
necessidade de ser sempre para ou de agir sempre
para... e nunca ser ou agir para ou por si mesma (o).
Ou seja, a falta de equilíbrio entre dar e receber e a
falta de discernimento para saber quando dar, sem
querer bancar o onipotente doador (a). Vamos
analisar esta questão do ser para com maior
detenção.

A “identificação” e o traço principal:


ser para os outros como manifestação do orgulho

Os Tipos 2 são definidos pelos estudiosos do


Eneagrama como “os doadores ou aqueles que se
dão”. O verbo dar tem alguns significados muito
precisos na língua portuguesa, segundo o Dicionário
Brasileiro da Língua Portuguesa. Estes significados
ajudam a compreender o que se deseja expressar em
relação à máscara dos Tipos 2 e o desvio (“pecado
capital”) do qual são caracterizados, ou seja, o
orgulho. Vejamos alguns destes significados
escolhidos entre outros: dar: fazer doação de;
consagrar, conceder, sacrificar, obsequiar com,
mostrar, manifestar-se; entregar-se, render-se,
dedicar-se, exibir-se, prestar-se. Por que estes
significados batem tão fortemente para os Tipos 2
em relação ao orgulho? Com certeza, você já está se
dando conta que é pela simples razão dos Tipos 2
acharem que têm tudo para doar, consagrar,
conceder, sacrificar... etc., etc. Porém, por trás desta
aparente capacidade ilimitada de se dar, os Tipos 2
ocultam um terrível vazio e uma angustiante
carência interior. Quando eles se dão, eles se
transformam em seres para os outros, perdendo-se
de si mesmos, ou seja, se “identificam”.
Logicamente, Tipos 2 consideram que pelo fato de
eles se darem aos outros dessa maneira “tão total”,
eles teriam que ser reconhecidos e amados. O
orgulho nasce como resultado de uma “inflação do
ego”: “somos capazes de dar, portanto merecemos
ser amados!” Neste ponto, gostaríamos de
exemplificar este fato de “ser para os outros”, com
uma questão ainda não compreendida pelo
movimento feminista. Nos nossos trabalhos com o
Eneagrama, costumamos mencionar que a
característica de “ser para” dos Tipos 2 pode ser
claramente encontrada no modo como é formada
(ou melhor, “deformada”) a psique feminina. Talvez
seja esta uma das maiores causas pelas quais as
mulheres têm tantas dificuldades de conquistar o
respeito e a consideração adequados na chamada
sociedade machista. O fato é tão corriqueiro, tão
“normal” que pouquíssimas mulheres o percebem!
Esse fato é o seguinte: milhões de mulheres em todo
o mundo foram e estão sendo treinadas, ou melhor,
programadas desde a infância, a agirem em função
dos homens e sentirem-se orgulhosas quando
conseguem fazê-lo do “modo certo”. A mulher é
educada para ser para os homens. As revistas
femininas exibem em suas páginas, por meio de seus
artigos ou da publicidade, todos os meios e recursos
para fazer das mulheres esse “ser para” o homem.
Ao mesmo tempo em que as mulheres compreendem
a necessidade de galgar novos espaços dentro da
sociedade e lutam para obtê-los, ao mesmo tempo
em que se unem para verem reconhecidos os “seus
direitos”, elas continuam a receber o mesmo tipo de
programação psicossocial: elas devem ser bonitas,
atraentes, conquistadoras, conhecedoras de tudo o
que possa atrair os machos, devem usar lingerie
excitante, calcinhas sensuais, devem aprender como
não envelhecer e a cozinhar bem e cuidar do lar,
devem se transformar em conhecedoras profundas
dos anseios masculinos, etc. Você pode comprovar o
chamado feito às mulheres para “serem para”, nas
manchetes dessas revistas, nos apelos publicitários,
nos artigos, enfim: os chamarizes das revistas
chamadas femininas são um apelo para que a
mulher continue sendo um “ser para”... e ainda
sentirem-se orgulhosas por isso! Estamos chamando
a atenção para estes fatos que afetam o mundo
feminino, porque por trás desse fato todos os Tipos
2, homens e mulheres, podem começar a intuir o
que significa que eles e elas sejam de algum modo
apenas para os outros. Por trás de seus atos, de seus
anseios, de suas cobranças, a necessidade de “ser
para” os outros se torna aos poucos uma escravidão
e uma forma de esquecer o valor de si mesmos.
Marlene, uma aluna Tipo 2, expressou assim esta
questão crucial: “Sou do Tipo 2 porque sei que
sempre fiz tudo esperando a retribuição de carinho.
Preciso que as pessoas me amem e reconheçam meus
esforços em fazer algo por elas. Acho que sempre foi
assim...” Logicamente, “sempre foi assim”, desde o
momento em que o contato com a realidade se deve
à falsa percepção de que se existia apenas para
agradar, para se dar aos outros, sem se importar
com as próprias necessidades, anseios e sentimentos.
O “ser para” leva Tipos 2 a depender
emocionalmente dos outros. Bom, passemos a outro
assunto que nos ajudará a perceber outras faces do
orgulho.

O ser para os outros como “consideração interna”


A consideração interna dos Tipos 2 está marcada
por uma série de questões que os levam a exagerar a
necessidade de serem compreendidos e aceitos pelos
outros. As situações mais banais serão muitas vezes
a causa de fortíssimos momentos de consideração
interna. Magda é uma aluna que apresenta esta
exagerada necessidade de ser considerada pelos
outros da maneira adequada e a revela nesse
depoimento em que expressa como seu orgulho se
torna presente no dia-a-dia: “Cada vez que preciso
abrir ou fechar alguma porta (em público) para que
alguém entre ou saia (o que acontece muitas vezes
durante o dia), eu penso: ‘Eu não sou porteira!’”
Logicamente, ninguém vai pensar que ela seja uma
porteira. O que para os Tipos 9 seria um ato de
cortesia natural, ou para outros tipos seria apenas
uma gentileza própria de uma pessoa educada (abrir
ou fechar a porta para alguém), para alguns Tipos 2,
como a citada Magda, este ato se constitui num
modo de “perder a importância” diante dos outros.
Essa dependência é reforçada pelas características
dos seus companheiros no Eneagrama (Tipos 1 e
Tipos 3) e pelos pontos do Eneagrama para os quais
se movimentará a favor ou contra as setas (Pontos 4
e 8). Achando que agem do modo certo sempre
(influência do Ponto 1), os Tipos 2 exigem a
consideração dos outros. Os outros deveriam avaliá-
los positivamente (influência do Ponto 3). Quando
Tipos 2 não sentem a “retribuição” adequada aos
seus atos, então, segundo seus movimentos mais
fortes em direção contra ou a favor das setas (a 4 ou
8) eles ficam zangados e agressivos (movimento
negativo ao Ponto 8) ou ficam deprimidos, tristes e
angustiados por não serem compreendidos
(movimento negativo para o Ponto 4). Quando os
Tipos 2 conseguem captar o amor e a atenção
positiva dos outros recebendo a esperada
“retribuição” ou “reconhecimento” (influência do
Ponto 3), ficam “tão felizes” que alguns iniciam de
imediato novas ações para satisfazer mais ainda aos
que “valorizam” sua grande capacidade de dar e
amar.
Podemos perceber, assim, como o chamado Traço
Principal (o orgulho) possui nuances muitas vezes
sutis. Poderíamos dizer que esse orgulho “sabe” se
disfarçar ao ponto de, muitas vezes, não ser nem
percebido. Na ideia de poder dar-se aos outros,
existe um sentimento de onipotência que alguns
Tipos 2 definem como um “sentimento de poder”
ou, nas palavras de um deles: “a gente se sente
capaz de fazer qualquer coisa pelos demais”. Reflita
no seguinte depoimento: “Nada para mim parecia
impossível, tanto que às vezes cheguei a manipular
amizades, nessa tentativa de mostrar que os outros
são estreitos, incapazes e talvez um pouco covardes.
Amizades pessoais, geralmente femininas, têm sido
notoriamente influenciadas pelo meu Tipo 2 sem
limites, a ponto de eu ajudá-las a tomar decisões
difíceis, que sem mim não poderiam ter tomado, e
até aqui enquanto escrevo me deparo na teia de
aranha de minha personalidade que, novamente,
influencia meus pensamentos sobre meu poder de
manipulação...”
A consideração interna, não podemos esquecer, é
um outro modo de manifestar este orgulho, na
medida em que, “os outros”, são os que deveriam
saber como reagir, como tratá-los da maneira certa.
Outra coisa que devemos observar é que este
orgulho provoca uma forte necessidade emocional
de evitar qualquer rejeição, até porque alguns Tipos
2 acham que sabem o que as pessoas necessitam ou
esperam deles. Esta aparente certeza (um fruto sutil
do orgulho e da consideração interna) tem como
consequência o que está expresso nas seguintes
palavras de Inês, uma aluna Tipo 2:
“... o que fiz a vida inteira foi agir sempre de
acordo com o que as pessoas esperavam de mim
para não ser nunca rejeitada”.
Muitas vezes, Tipos 2 descobrem tarde o fato de
terem vivido apenas em função de outros,
esquecidos totalmente de si mesmos (veja a
semelhança com o Tipo 9) e com a sensação de ter
perdido muito tempo. Esta questão de precisar
satisfazer, agradar, e viver para os outros esconde
outra face dos Tipos 2 que lhe convidamos a
considerar reflexivamente.

Ah, esses importantes “outros”

O filósofo espanhol José Ortega y Gasset nos


lembra numa de suas obras como nos importamos
desnecessariamente com aquilo que chamamos “os
outros”. Sim, esse monstro de 1001 cabeças
chamado “os outros”, nos afeta demais, apesar de
não possuir existência real, porque o que existe, nos
lembra o filósofo espanhol, são “próximos”, pessoas
com as quais nos relacionamos direta ou
indiretamente, íntima ou coletivamente. Já para
Tipos 2, “os outros” não apenas existem como algo
real, mas muitas vezes são o referencial de suas
ações e sentimentos. Este fato leva a aumentar ainda
mais essa compulsão de “ser para os outros”, apesar
de alguns Tipos 2 saberem que estão se enganando e
enganando os outros devido a este sentimento. O
“ser para” se potencializa na constante consideração
interna e subjetiva em relação ao mundo externo. O
sentimento de que esse “ser para os outros” é
importante revela outra face do chamado “pecado
do orgulho” dos Tipos 2. Ao final, o que seria dos
outros sem eles? Reflita no seguinte depoimento que
revela até que ponto o “ser para os outros” marca o
modo de sentir a existência deste segundo Tipo do
Eneagrama:
“O ponto mais marcante da minha máscara é
quando sofro por ter medo de morrer porque não
quero fazer sofrer os meus por ser (para eles) uma
ótima mãe e ótima esposa.”

O “ser para” faz com que muitos Tipos 2 (e/ou


Tipos 1 e 3 nos quais a influência dos Tipos 2 se
torna marcante) tenham o sentimento de serem
criaturas especiais, sensíveis e capazes de dar-se sem
limites aos “outros”. Existe um sentimento de
orgulho por serem tão amorosos e dadivosos até o
ponto de acreditarem serem os únicos capazes de
compreender as necessidades alheias:
“Quando ajudo alguém, e gosto muito de fazê-lo,
é como se estivesse fazendo um grande feito, é como
se dissesse para mim mesmo: Viu?, sou capaz até de
ajudar qualquer pessoa, inclusive quem é inferior
socialmente. Até na pretensa humildade bate o
orgulho. Considero-me uma pessoa ótima, que sofre
com o sofrimento das pessoas, com muito amor e
carinho para dar, choro quando vejo crianças na
rua, mas sinto e ajo como se fosse a única pessoa no
mundo a agir dessa forma... É muito difícil admitir
e assumir tudo isso, principalmente quando se vive
em função dos outros, para agradar, para receber
atenção especial, e quando isso não ocorre é uma
grande frustração, pois gosto de ser considerada
importante e acho até que me amo...”
Walter um dos nossos alunos escreveu algo que
revela esta “sensibilidade” especial para a
importância do relacionamento com os outros:
“Acho que bem cedo aprendi que agradando aos
outros eu recebia o que mais queria: o amor das
pessoas. E assim foi que sempre evitei, de todas as
formas, machucar, ferir, desagradar as outras
pessoas. Parece que ao machucar alguém, eu me
machucava muito mais profundamente. Às vezes,
sentia que a ferida em mim tinha sido tão grande,
que, de alguma maneira, eu procurava o mais
imediatamente possível compensar aquele estrago.”
A necessidade de atuar/representar como um meio
de atrair a atenção dos “outros”

Nesta tentativa de sensibilizarem os outros, de


conseguirem ser amados e queridos, os Tipos 2
passam a ter certas capacidades especiais de chamar
a atenção. Eu as resumo na expressão atuar para.
Este atuar para é uma forma de sedução ou de
protesto, de “amolecer” ou de agredir os outros, de
conseguir com jeitinho que eles reconheçam, notem,
destaquem, amem, solicitem, sintam que estão
presentes. Esta característica é reforçada naqueles
com a forte influência “camaleônica” do Ponto 3 do
Eneagrama: Tipos 2 reconhecem frequentemente que
fazem de tudo para aparecer ou para “parecer
como”. Uma espécie de faz-de-conta psicológico. As
motivações podem ser diferentes, porém os meios
são em essência iguais. Alguns com forte movimento
ao Ponto 8 do Eneagrama encenam a “raiva”
quando não são amados ou notados do jeito que
gostariam. Alguns Tipos 2 relatam que são
“calculistas” em suas ações. Outros agem para
conseguir o que querem de qualquer jeito. Quer um
exemplo? Acompanhe este depoimento: “Sabia jogar
com os sentimentos e fazer várias armações para
conseguir o que eu queria. Sempre trabalhei numa
área que tinha tudo a ver com meu potencial de
doação. Acho que sabia que o que eu queria era ver
a pessoa reconhecendo o que eu tinha feito por ela e
aguardava ansiosa pelo retorno de carinho e
manifestação de amor. Na verdade, sempre
‘disfarcei’ o que eu realmente sentia...”

O Tipo 2 e o tipo de sentimento


extrovertido de Jung

Como os Tipos 2 correspondem ao “tipo de


sentimento extrovertido” da tipologia junguiana, é
interessante começar esta parte da análise
transcrevendo uma parte da descrição que Jung faz
dele em seu Psychological Types.
Explicando a ambivalência dos sentimentos deste
tipo, ele escreve: “Isto se manifesta (...) nas
demonstrações extravagantes de sentimento, na
conversa fácil, nas expressões fortes, etc., que soam
ocas: ‘A senhora protesta demais.’ Imediatamente se
evidencia (...) algum tipo de resistência (...) e a
gente começa a se perguntar se por acaso estas
demonstrações não resultarão (em algo) bastante
diferente. Então, pouco depois acontece. Basta uma
pequena alteração da situação para produzir, em
seguida, exatamente a declaração oposta sobre o
mesmo objeto.” Isto é evidente quando Tipos 2
atuam para conseguir atenção, para sentir que são
percebidos. Nestas ocasiões, vivem experiências
engraçadas ou tragicômicas. Mulheres Tipos 2
declaram que, em algumas ocasiões, atuando como
sedutoras vivem situações difíceis. Por exemplo,
provocam o interesse dos homens apenas para
conseguir certos objetivos ou para se certificar se, de
fato, conseguiram atrair a atenção deles, mas sem a
intenção de “namorar” ou de terem um “caso”.
Helena conta como descobriu esta atitude
ambivalente após analisar sua Máscara 2:
“Até pouco tempo eu não conseguia entender por
que os homens se sentiam tão atraídos por mim. Eu
sempre reclamava: ‘eu não fiz nada’! Hoje já
consigo divisar que inconscientemente e muitas
vezes conscientemente eu fiz questão de que eles se
sentissem atraídos por mim. A maneira de falar, o
modo de vestir, um olhar, só para provar que eu
podia conquistar qualquer um.”
Às vezes Tipos 2 contam que quando brigam com
seus parceiros (as) falam que “não querem vê-los
nunca mais”. Porém, se isso vier a acontecer vão
logo dizendo que “não era isso o que queriam de
verdade”.
Por outro lado, a necessidade de atuar está
atrelada à necessidade subjetiva de ter que parecer
de um modo ou de outro para satisfazer as supostas
expectativas alheias. Este sentimento subjetivo leva
os Tipos 2 a se sentir constantemente observados
pelos outros, avaliados e considerados nas mais
diversas situações. Uma aluna admitiu: “Sinto
insegurança em relação a outra pessoa, se gosta
realmente de mim, e quero sempre testar isto...”
Outra afirma: “...o que eu fiz a vida inteira foi agir
sempre de acordo com o que as pessoas esperavam
de mim para não ser nunca rejeitada.” Daí a
necessidade de atuar de acordo com essa
expectativa. Outros dois admitem que quando
chegam a algum lugar querem saber como estão
sendo recebidos, se notaram suas presenças, e
tentam agir de tal modo que se obtenha essa atenção
desejada. Miriam, que é do Tipo 2, reconhece: “No
dia-a-dia, sinto que me preocupa muito a opinião
dos outros ao meu respeito, principalmente na parte
pessoal.” A observação dela não difere muito da de
Enzo: “Quando chego aos lugares meu primeiro
movimento é sempre tentar perceber se estou sendo
olhado e avaliado. Tenho sempre que superar certo
temor de que a avaliação seja negativa, o que faço
me exibindo, falando alto, tentando mostrar
descontração e envolvimento...” A atuação na frente
dos outros deve ser impecável e nisso os Tipos 2 são
especialmente sensíveis para avaliar se o estão
conseguindo ou não. No depoimento de Nelson,
feito em “terceira pessoa” de acordo com certas
instruções, veremos como a necessidade de “atuar”
deste Tipo eneagramático, tem como raiz o “ser
para”:
“Este sujeito sente-se importante. Acha que suas
atitudes, sua conduta, seu jeito de ser podem servir
de modelo (influência Ponto 1 do Eneagrama). Acha
que há sempre alguém o observando, por isso tenta
fazer o melhor que pode para não decepcionar as
‘expectativas’. Este sujeito gosta de imaginar que
alguém está falando a seu respeito. Gosta de obter o
consentimento, a concordância, o apoio, o aplauso.
Embora pareça ser independente, autossuficiente e
seguro, depende desses ‘apoios’ para prosseguir.
Quando esses incentivos não vêm, ele mesmo os
fabrica...”

Tipos 2 percebem que estas atuações, estas


maneiras de se apresentar aos outros mais
adequadamente, se baseiam num profundo temor
que nutrem de “perdê-los”. Para evitar essas
possíveis perdas, atuar se faz extremamente
necessário, ao ponto de se ter que assumir diferentes
“máscaras” para os outros. Não é à toa que Ana,
uma aluna Tipo 2 escreveu: “...cada amigo conhece
uma parte de mim, mas ninguém me conhece por
inteiro... é o medo de mostrar aos outros o
inaceitável...”
Essa necessidade de atrair a atenção dos outros se
manifesta de diversos modos. O depoimento de
Jorge, servirá para que você reflita mais
profundamente sobre como essa necessidade pode
influir em diferentes momentos do cotidiano de um
Tipo 2:
“Quando não recebo a atenção que acho que
merecia receber, fico, ainda hoje, perturbado.
Internamente me sinto em convulsão.
No trabalho, percebo como ‘sem querer’ estou
perto do meu chefe, que, como todo mundo, deve
me achar muito prestativo, dadivoso, responsável,
eficiente e outras coisas mais. A necessidade de
impressionar positivamente o outro faz parte de um
condicionamento fortíssimo...
Na relação íntima a dois, isso se torna mais visível
na questão sexual: Como pode: eu aqui disponível e
ela ligada em outra coisa? Incapaz de verbalizar.
Quero que você venha ficar comigo, fico esperando
que ela se toque. Falta humildade (a virtude a ser
atingida pelos Tipos 2) para demonstrar com clareza
e naturalidade o que eu estou querendo. No fundo
nem é o sexo, mas atenção.
Me pego também, inconscientemente, numa
postura sedutora, tentando atrair a atenção do
outro. É a necessidade neurótica da atenção, da
apreciação do outro direcionada para mim...”
Esta constante preocupação de atrair a atenção dos
outros leva os Tipos 2, muitas vezes, a deixar em
segundo lugar suas próprias necessidades. Sendo que
se deve conservar uma atenção positiva sobre eles,
qualquer sentimento que possa provocar um término
dessa atenção é abafado ou ignorado. Considere esta
reflexão de mais uma de nossas alunas Tipo 2:
“Com esse jeito doce de ser demorei muito tempo
para botar para fora minha agressividade. Muitas
vezes em grupo omitia meu desejo porque queria
que os outros ficassem felizes...”
Outra aluna, Mariana, que realiza um dedicado
trabalho sobre si mesma, confessa como esta
necessidade de atrair a atenção dos outros constitui,
no seu caso particular, uma questão que determina o
êxito ou o fracasso subjetivos de suas atividades
profissionais: “Quando falo em coisa bem-sucedida,
cabe salientar que este conceito é idêntico a ‘os
outros me reconhecem’; uma atividade bem-
sucedida pode ser um evento destinado à venda de
obras, e mesmo que não venda nada, será bem-
sucedida, porque estava lotado de gente e eu era a
rainha da festa.”
Vimos, assim, como a importância extrema que
dão aos “outros” e a necessidade de obterem a
atenção dos outros são duas questões que podem
levar os Tipos 2 a deixarem num segundo plano
questões objetivamente importantes. Desabafar é
importante, vender as obras é importante. Ser
autêntico é importante. Quanto menor seja a
“quantidade” de consideração interna, maior será o
sentimento de que os outros são também nossos
próximos, portanto, merecedores também de tudo
quanto um Tipo 2 acha ser o único merecedor. Não
podemos nos apropriar da atenção dos outros, a
qualquer preço. Toda esta compreensão tem a ver
com a necessidade de se saber o que é a humildade e
o amor, duas palavras que não se limitam a
esconder o segredo da realização interna dos nossos
queridos portadores da segunda máscara: são a
chave de uma humanidade mais fraterna.

A sensação de perder a liberdade


Ao transformar sua existência numa forma de
atuação adequada diante dos outros, Tipos 2 passam
a ter a sensação de não ter liberdade. As pessoas
amadas podem se transformar em uma espécie de
“motivação” para “não viver livremente”. O que
acontece, simplesmente, é que essas contínuas
atuação e consideração internas presentes na
necessidade de serem “amados” pelos outros levam
os possuidores desta máscara ao cansaço. O “atuar”
pode produzir, às vezes, os resultados almejados,
porém ao mesmo tempo provoca o sentimento de ter
ficado preso, sem liberdade. Tipos 2 declaram não
suportar essas limitações, paradoxalmente
provocadas por eles mesmos. Então, alguns
preferem viver de um modo em que esse atuar
satisfatório para as suas necessidades de
reconhecimento e de sentir-se amados e queridos
não implique o fato de ficar prisioneiro do
“personagem” de turno. Faz-se necessário deixar
abertas algumas “saídas de emergência” nesse
“teatro” das experiências pessoais.
Neste caso, Tipos 2 têm algo de seus
companheiros eneagramáticos 1 e 3
respectivamente: vivem algumas experiências de
maneira oculta para não se comprometer com o
papel escolhido e mudam de atitude externa segundo
a ocasião. A justificativa para esta “saída de
emergência” é natural. Tipos 2 sabem que às vezes
se torna impossível viver apenas para os outros
como eles o fazem, sabem que isso lhes priva dessa
liberdade natural de que todos precisamos. A
inesgotável procura de influenciar e seduzir os
outros, como se esta contínua atitude de conquista
fosse um verdadeiro leitmotiv existencial, passa a
ser percebida como uma perda dos “espaços
individuais”. A constante ansiedade de sentir-se
requeridos e amados termina provocando tédio e
sensação de sufoco quando, conseguindo essa
“retribuição”, sentem-se estanques, prisioneiros e
“com falta de ar para respirar”. É que nesses
instantes, a verdade tenta aparecer para os Tipos 2
na forma de uma solicitação emergencial de suas
essências de serem apenas para eles e apenas eles
mesmos.
O depoimento de Zélia, outra aluna, permite uma
compreensão mais direta do momento em que os
Tipos 2 sentem necessidade de resgatar-se: “Na fase
inicial dos relacionamentos eu mergulho no outro. É
como se perdesse a minha identidade. No auge da
paixão eu começo a sentir um sufoco horrível e fico
querendo o meu espaço, para poder voltar a mim
mesma. É lógico que isto nunca é entendido pelo
outro, pois como aquela pessoa que se perdeu nele
que viveu a vida dele pode de repente querer ter vida
própria? A minha sensação é de que preciso do meu
espaço para poder viver a minha própria vida, fazer
as coisas de que eu gosto e não as de que ele gosta, e
principalmente, fazer sozinha, em um espaço
fisicamente só meu. São relações sempre muito
intensas, apaixonadas e com finais difíceis. Talvez
por esse motivo os relacionamentos triangulares
sempre me encantaram. Teve uma fase na minha
vida em que eu só me apaixonava por homem
casado. Para mim era ótimo, pois não invadia o meu
espaço, me permitia ter a minha vida com mais
amigos, e ao mesmo tempo quando estávamos
juntos tudo era maravilhoso. Dessa maneira só era
mostrado meu melhor lado, nunca nada chato ou
desagradável...”
Para Tipos 2 com forte movimento ao Ponto 8 do
Eneagrama, como é sem dúvida o caso apresentado,
a agressividade, será o meio pelo qual o espaço
perdido será cobrado. Muitos Tipos 2 admitem
manifestar suas “raivas” até teatralmente para
conseguir certos objetivos.
Por outra parte, a preocupação dos Tipos 2
“menos agressivos” e “amacientes” em mostrar-se,
atuar e parecer sempre “amorosos”, “agra-dáveis”,
“carinhosos” “serviçais”, “prestativos” e
“humildes”, os leva a aceitar “uma vida sofrida por
amor”. Para conseguir manter essa aparência
“amorosa” e seus “aconchegantes” temperamentos,
muitas vezes estes “Tipos 2 amacientes” abrem mão
não apenas dos seus espaços, como também das suas
próprias necessidades. Exemplos muito claros deste
tipo de atitude são “essas incompreendidas mães
que sacrificam suas vidas por seus lares, filhos e
maridos”. Como se pode notar, entre esses Tipos 2
encontram-se os que são verdadeiras vítimas de suas
“grandes capacidades de dar e ser para os outros”.
Alguns deles acusam um forte movimento negativo
contra a seta, ou seja, manifestam as características
mais fortes do Ponto 4 do Eneagrama, tornando-se
angustiados e dando a impressão de estarem vivendo
verdadeiras tragédias, impressão que se torna mais
um modo torto de chamar a atenção dos outros e
receber o carinho, o amor e o reconhecimento que
essa “triste vida” lhes nega.

Duas razões para uma mesma conduta

Devemos esclarecer que assim como existem Tipos


2 que tiveram infâncias felizes e se lembram de
como eram amados e “paparicados”, existem Tipos
2 para os quais esta máscara se formou em
ambientes mais difíceis. Nestes existe uma grande
queda ao Ponto 4 do Eneagrama ou uma forte
tendência à agressividade do Ponto 8. Vejamos mais
um depoimento: Quando precisou responder como
surgiu sua máscara, a aluna Ingrid revelou: “Teve
origem na minha infância, produto de um lar
bastante desarmônico, com um pai 8 que me criou
com grande rigor e impondo um estilo tirânico de
governar a casa. Para agradá-lo e chamar sua
atenção, fiz todas as tentativas, quase nunca
conseguia grandes resultados. O triunfo maior da
minha máscara (Tipo) foi na adolescência. Sempre
fui magra, porém, com os desajustes dessa etapa
vital, comecei a comer mais. Meu pai descobriu isto
e começou a festejar tais atitudes e assim me
converti num globo. Emagrecer para ficar bonita foi
um duro golpe que tive que acertar na imagem do
meu pai a quem parecia gostar muito da minha
gordura, grande inconveniente para o mundo gostar
de mim. Ao final, a ambição social do Tipo 2 me
seduziu e acabei me sacrificando por meu pai – a
quem, confesso, ofereci os melhores anos de minha
juventude – estudando uma chata (para mim)
carreira universitária e fazendo inúmeros sacrifícios
para que ele pudesse colocar, como ele dizia, meu
nome numa placa de bronze dizendo ‘Doutora
fulana de tal...’”
Existe uma grande diferença entre a experiência de
Ingrid e a de uma colega sua:
“Identifiquei minha máscara, porque, quando
criança, vivia preocupada em deixar meus pais bem.
Em época de festas ficava querendo inventar
presentes, fazer festas surpresas, etc. Quando eles se
desentendiam, não ficava tranquila enquanto eles
não voltavam a se harmonizar. Minha mãe sempre
falava que eu era doce. Adorava fazer coisas e ser
elo​giada...”
No primeiro caso, esse “ser para os outros”
encontra um ambiente hostil ao qual trata de
adaptar-se tentando sempre agradar ao pai. No
segundo caso, este agradar e “ser para os outros”
surge espontaneamente, sem que ninguém peça tal
conduta, num ambiente familiar aconchegante e
receptivo a esse amor e doação.
Faço esta análise para poder provocar uma melhor
compreensão do necessário trabalho de
aprimoramento que poderá levar os Tipos 2 a
conseguir o necessário equilíbrio entre “dar e
receber”.
Iniciando o processo de mudanças positivas

Depois de uma auto-observação objetiva e


equilibrada, muitos Tipos 2 percebem que a
mudança positiva de suas personalidades passa pela
necessária compreensão de que não são “o centro do
mundo” e, portanto, podem relaxar e ficar mais
autênticos. Outra aluna Tipo 2, com forte
movimento contra a seta ao Ponto 4, descreve esta
“descida do trono” da seguinte forma: “Descobrir
nossas máscaras e sentir que as transformamos no
centro de nossas atenções e que dedicamos grande
parte de nossa vida a cultivar aquilo que ‘não
somos’, criou uma sensação de ‘vazio’, pois, para
um ‘2’, ‘ser original e maior que o mundo’ é
natural. Só que com esta descoberta percebo que
não sou original, pois muitos Tipos 2 se declararam
tão ‘originais’ quanto eu. A sensação de ser a ‘maior
do que o mundo’ caiu pela mesma razão numa
classificação de Tipos. No fim não sobra nada,
todos esses anos cultivei mato e pensava que estava
criando rosas...”
Lembro aos Tipos 2 que neste depoimento mostra-
se algo dos sentimentos extremos dos possuidores
desta máscara. Portanto, existe algo de veemente
nele que precisa ser suavizado. O positivo nele é que
nossa aluna chega a sentir aquilo que G. I. Gurdjieff
chamava “o sentimento do próprio nada”, um
sentimento valioso que pode levar um Tipo 2 à
redenção e a um novo renascer no qual se
compreendam o amor e a humildade.

Movimentos de 2 a 8 e de 2 a 4:
aprimorando a observação de si mesmo

O Movimento do mundo interno dos Tipos 2 é o


resultado da divisão 2 : 7 = 0,2857142... Vamos
analisar o primeiro movimento. De 2 a 8, um
movimento “na direção da seta”... ORGULHO E
LUXÚRIA (excesso) quando negativo, HUMILDADE E
INOCÊNCIA quando positivo. Quando o movimento
de 2 a 8 aparece como negativo, Tipos 2 se tornam
“eternos insatisfeitos” porque eles “merecem muito
mais” como retribuição por tudo o que eles fazem
pelos outros. Outro sinal de negatividade é o fato de
querer transformar todos os que estão à sua volta
em dependentes, a “centralização de poder” típica
do Ponto 8 é justificada pelo “orgulho” de achar
que só eles podem fazer a coisa certa para e pelos
outros. Na sua descrição deste movimento no seu
aspecto negativo, muitos 2 parecem ser Tipos 8.
Uma discípula, muito querida por todos, porque
como uma boa representante deste Tipo dava amor
a todos e se doava com total entrega, merece ser
evocada pelo depoimento no qual descreve seu
movimento a 8: “Sou Tipo 2, com movimento forte
para o 8; às vezes penso que sou 8, por ser
empreendedora, otimista, a grande guerreira, mas
tenho um orgulho muito forte, vivo falando para
mim mesma que ninguém faz como eu, que posso
resolver tudo, que as pessoas dependem de mim...”
Alguns Tipos 2 reconhecem o negativo do
movimento a 8, porque percebem que se tornam
agressivos e controladores ou dizem que são capazes
de viver situações extremas a nível sexual ou
emocional.

O movimento positivo a 8, que implica a união


das virtudes da humildade e da inocência se revela
num estado interno e externo de harmonia. Quando
Tipos 2 alcançam esse “bom movimento” se tornam
menos controladores, não manipulam nem agridem,
sentem necessidade de trocas afetivas autênticas.
Inocência aqui deve ser entendida como o estado
infantil em que tudo apenas acontece, sem ser
provocado, ou seja, tudo é natural e flui
espontaneamente. Não existem “outras intenções”
por trás dos atos.

O segundo movimento (contrário à seta) de 2 a 4,


quando negativo implica a união de dois estados
internos que se reforçam: “Eu mereço tal ou qual
coisa, mas não consigo alcançá-la e fico triste com
pena de mim mesmo.” Todo Tipo 2 conhece como
se misturam “orgulho ferido e autocompaixão”.
Estes estados internos são sutis manifestações do
falso amor-próprio (orgulho como vício) e da ideia
de merecimento, de ter o direito a determinado bem,
ou seja, uma típica manifestação do Ponto 4 do
Eneagrama que esconde sorrateiramente uma forma
de inveja, porque quem mais merece tal ou qual
coisa do que eu? A autocompaixão, que para Tipos
2 se torna um modo indireto de exigir atenção dos
outros, é reforçada pelo orgulho que determina o
direito que se acredita ter em relação a quem se fez
a cobrança.
O movimento negativo contra a seta pode ainda
levar alguns Tipos 2 a estados de profundo
pessimismo e de abandono deliberado. Esse total
sofrimento pode ter outro objetivo singelo: que
todos possam dar-se conta do fato de seu sofrimento
ser “único” e o desejo de serem socorridos e
levantados, mesmo que às vezes seu orgulho
“dificulte” esse “resgate do fundo do poço”.
Uma espécie de “teatralização” da dor. Afinal,
quem poderia sofrer tanto quanto eles?
Note como é revelador este depoimento:
“Relaciono meu orgulho diretamente com minhas
decepções. Ao me decepcionar, me fechava e cortava
relações. Dificilmente falava sobre o assunto,
achava sempre que a pessoa tinha que perceber e me
procurar, pedir desculpas, etc...”

Centrando-se na equanimidade do Ponto 4

Quando o movimento ao Ponto 4 é positivo, Tipos


2 conseguem alicerçar a verdadeira humildade
graças à virtude da Equanimidade, ou seja, a
capacidade de se manterem centrados, satisfeitos,
sem cobranças. Não se espera tanto de fora. Ocorre
a sensação de que existe algo que não depende de
ninguém porque lhe pertence. Meu Mestre falava da
importância de possuir uma “âncora” interna, uma
espécie de poder por meio do qual sentimos nosso
real valor. Não precisamos que alguém de fora nos
dê valor; precisamos, sim, apenas compartilhá-lo
sem cobranças. A equanimidade é esse estado no
qual posso ser para os outros sem deixar de estar e
ser para mim mesmo, sem necessitar me perder de
mim mesmo. O estado no qual já não se precisa
pedir amor. Ele chega, porque apenas se deixa de
cobrá-lo.
O inesquecível Mestre Osho em Meditação: A arte
do êxtase diz a respeito:

“Se alguém pede amor, não obterá amor, porque o


simples fato de pedir torna-o pouco amorável,
torna-o antipático. No simples fato de pedir, faz-se
uma barreira. Ninguém pode amar-te se estiveres
pedindo amor. Ninguém pode amar-te! Só podes ser
amado quando não pedes amor. O simples fato de
‘não pedir’ torna-te belo, torna-te relaxado...”

1 e 3: influências positivas e negativas

Seus companheiros no Eneagrama são os Tipos 1 e


3. Suas influências reforçarão negativa ou
positivamente suas características de Tipo. Assim,
os Tipos 2 com maior influência do Ponto 1 poderão
observar uma tendência ao “perfeccionismo” na
exibição de si mesmos. Ninguém pode inteirar-se de
algo que rebaixe sua autoestima. Mostrar-se sempre
“arrumados”, “elegantes”, com tudo no lugar,
aparecer como os mais bonitos, os mais procurados,
os mais “chiques”, são alguns dos “sinais” da
influência do Ponto 1. Positivamente, o Ponto Um
pode fornecer aos Tipos 2 essa “serenidade” que os
torna menos “raivosos”, menos “cobradores”, mais
seguros de si mesmos e menos “orgulhosos”.
Do Ponto 3, os Tipos 2 deverão evitar a Vaidade e
a Mentira, características desse Ponto e que
reforçam o amor-próprio negativo. Quando a
influência negativa do Ponto 3 é mais forte, Tipos 2
tornam-se “falsos”, sabem como “seduzir” e
“iludir” os outros, sabem “provocar” e “manipular”
os sentimentos alheios para conseguir o que querem.
Tornam-se artistas que sabem desempenhar papéis
quando lhes convém. Confundem amor com
aceitação ou aprovação. O positivo do Ponto 3
influencia os Tipos 2 da Veracidade e Honestidade.
Quando isso acontece Tipos 2 são mais autênticos e
confiam mais em si mesmos, dispensam bajulação
para estar bem emocionalmente. Torna-se mais
valioso ser autênticos. A autoconfiança evita a
dependência negativa.
A humildade como a virtude que nos lembra
nossa real importância

Quando se fala em humildade, os Tipos 2 acham


que a compreendem. “Eles são tão humildes!” é
justamente o que esperam ouvir dos outros,
ironicamente para sentirem-se orgulhosos pelo fato
de terem provocado esses “amor” e
“reconhecimento” tão apreciados. Tipos 2 que
reparam na sua falsa humildade ou que percebem
como seu orgulho e amor-próprio sabem ocultar-se
para “os outros”, acabam por achar até engraçado
esse fato psicológico, o que é um bom sinal de que a
verdadeira humildade está por surgir: “O trabalho
de auto-observação, que já vinha fazendo há alguns
anos, se aprofundou e, agora, de uma maneira mais
divertida, muito menos dolorosa, pois já me havia
desenvolvido mais na arte de rir de mim mesmo.
Posso me desmascarar, agora, ainda com mais
facilidade, diante dos mais próximos. Inclusive neste
momento, pois sei que há dentro de mim a
suposição de que alguém, cuja atenção de alguma
maneira me interesse, venha a descobrir que este
relato é meu. E, logicamente, eu me orgulho até de
minha capacidade de me desmascarar. Rá, rá, rá...”
O que fundamentalmente não deixa os Tipos 2
serem realmente humildes se relaciona à palavra
“exagerar”. Sempre são “demais”. Humildes demais
ou orgulhosos demais. Entregues demais, egoístas
demais, doadores demais. Humildade é
simplesmente o contrário de ser exagerado!
Humildade é uma palavra que tem sua origem no
termo latino humus, que significa “terra”. Somos
humanos da terra! Nada mais. Simplesmente isso!
Não precisamos ser os melhores entre os humanos,
apenas sermos humanos, reconhecendo nossos
limites, nossas necessidades e fraquezas como
questões que nos fazem iguais uns aos outros.
Sentir-se parte da terra, produto do mesmo pó, leva
à compreensão da mensagem do mais importante
Tipo 2 da nossa história, Jesus Cristo: “Ama teu
próximo como a ti mesmo.”

Este mandamento só pode ser compreendido


quando somos humildes. Quando admitimos que
não gostamos ser manipulados, quando admitimos
que não gostamos de ser usados, quando admitimos
que não devemos ser dependentes demais, quando
admitimos que não nos agrada ser reféns de
sentimentos abafados, quando admitimos que não
nos agradam as pessoas falsas, quando admitimos
que não gostamos de alguém que nos usa, quando
admitimos que não queremos saber que alguém está
de nosso lado apenas porque deseja um resultado ou
visa um interesse que ignoramos, quando admitimos
que não gostaríamos de saber que alguém nos mente
ou engana, quando admitimos que não gostaríamos
de saber que alguém nos ajudou ou nos deu algo
esperando ter uma boa razão para nos cobrar algo
em troca, e assim por diante! “Ama teu próximo
COMO A TI MESMO.” Você se ama? Se a resposta é
não, então é difícil compreender a humildade.

Quando um Tipo 2 começa a amar a si mesmo


realmente, algo muda. Surge a humildade.
Descobre-se que não é preciso atuar ou fazer de
conta, que é bom ser autêntico, que se podem ter
amigos verdadeiros e amores que não sufocam, que
não é preciso parecer desamparado ou “carente”
para merecer a atenção dos outros. Descobre-se o
que Gurdjieff chamou de o verdadeiro amor-
próprio. Incrível, não? Do mesmo modo que o falso
amor-próprio precisa da constante “inflação do
ego” proveniente dos “outros”, ou seja, da
constante consideração interna para existir, o
verdadeiro amor-próprio precisa da constante
certeza de poder ser autêntico e de considerar os
“outros” como “próximos” com os quais se
participa de uma mesma existência. Jogando com as
palavras: somos Humanidade-Humus.
Sinto que a transcrição das palavras de Gurdjieff,
registradas em “Gurdjieff fala a seus alunos”,
servirá como um meio para iniciar a descoberta
desse amor-próprio que conduz à verdadeira
humildade e liberdade. Reflita sobre estas palavras,
pois escondem um grande tesouro para os Tipos 2 e
para todos os que procuram conhecer-se, além das
máscaras e tipos:

“Na realidade, a causa secreta de todas essas


reações reside no fato de que não somos donos de
nós mesmos e tampouco possuímos um verdadeiro
amor-próprio. O amor-próprio é uma grande coisa.
Se o amor-próprio, tal qual o consideramos
habitualmente, é uma coisa repreensível, o
verdadeiro amor-próprio, que infelizmente não
possuímos, é desejável e necessário.
O amor-próprio é o indício de uma alta opinião de
si mesmo. O fato de um homem ter esse amor-
próprio mostra o que ele é.
Como já dissemos, o amor-próprio é ‘um
representante do diabo’; é nosso pior inimigo, o
freio principal às nossas aspirações e realizações. O
amor-próprio é a principal arma do ‘representante
do inferno’.
Mas o amor-próprio é um atributo da alma.
Mediante o amor-próprio pode-se entrever o
espírito. O amor-próprio indica e prova que o
homem é uma parcela do ‘paraíso’. O amor-próprio
é Eu, e Eu é Deus. Por conseguinte, é desejável ter
um amor-próprio.
O amor-próprio é inferno, e o amor-próprio é
paraíso. Ambos têm o mesmo nome; exteriormente
são semelhantes, e no entanto, totalmente diferentes
e opostos em sua essência. Mas se olharmos
superficialmente, poderemos olhá-los durante toda a
nossa vida, sem nunca distingui-los um do outro. De
acordo com uma sentença muito antiga, ‘aquele que
tem amor-próprio está a meio caminho da
liberdade’. Entretanto, se tomamos aqueles que
estão aqui, cada um está com inflado amor-próprio.
E, apesar do fato de transbordarmos de amor-
próprio, não obtivemos ainda a menor nesga de
liberdade.

Nossa meta deve ser ter amor-próprio. Se tivermos


amor-próprio, só por isso estaremos livres de uma
porção de inimigos. Poderemos até nos tornar livres
daqueles inimigos principais – o Senhor Amor-
Próprio e a Senhora Vaidade.”

É preciso mais algum comentário? Acho que não,


certo?
O Traço 3
: O eu que compete

O eu
que compete

“Sugiro que cada um faça a si mesmo a pergunta


‘Quem sou eu?’ Estou certo de que 95% de vocês
ficarão perturbados... Isso prova que um homem
viveu toda a sua vida sem se fazer essa pergunta e
considera perfeitamente normal que ele seja ‘algo’, e
até mesmo algo muito precioso, algo que jamais pôs
em dúvida. Ao mesmo tempo, é incapaz de explicar
a outra pessoa o que esse algo é, incapaz de dar a
menor ideia desse algo, porque ele próprio não o
sabe. E se não sabe, não será simplesmente porque
esse algo não existe, mas apenas se supõe existir?
Não é estranho que fechem os olhos, com tão tola
complacência, ao que realmente são, e passem a
vida na agradável convicção de que representam algo
precioso? Esquecem de ver o vazio insuportável por
trás da soberba fachada criada por seu autoengano e
não se dão conta de que essa fachada só tem um
valor puramente convencional.”
G. I. Gurdjieff.

Em Fragmentos de um ensinamento desconhecido,


P. D. Ouspensky lembra que alguém perguntou: “O
que é que não compreendemos?” E Gurdjieff
respondeu: “Estão de tal modo habituados a mentir,
tanto a si mesmos como aos outros, que não
encontram nem palavras nem pensamentos, quando
querem dizer a verdade. Dizer a verdade sobre si
mesmo é muito difícil. Antes de dizê-la, deve-se
conhecê-la. Ora, Não sabem nem mesmo em que
ela consiste (...).”

“Para compreender a interdependência da verdade e


da mentira em sua vida, um homem deve chegar a
compreender sua mentira interior, as incessantes
mentiras que conta a si mesmo.”
G. I. Gurdjieff.
Aparentemente tudo está sempre bem
com você, não?

Na sua obra Relatos de Belzebu a seu neto,


Gurdjieff faz uma descrição muito engraçada dos
Estados Unidos (o país mais Tipo 3 do mundo),
destacando como, desde a infância, as crianças
norte-americanas são programadas para entrar nos
dollar business e que quando cada uma delas chega
à idade adulta, “o impulso dominante de sua febril
existência é a fúria de fazer dólares e o amor a esses
mesmos dólares”, e por isso “cada um deles se
ocupa sempre de ‘negócios de dólares’, e de vários
ao mesmo tempo”. Ele também nos lembra o
arraigado hábito dos norte-americanos de utilizar a
publicidade “com o fim de oferecer da parte deles,
em todo o planeta, uma imagem que em nada
corresponde à realidade”, razão pela qual se
transformaram, ao longo dos anos, “em seres tão
virtuosos na arte da publicidade”, que possuem o
poder de convencer-nos de que “uma mosca é um
elefante, e fazem isto tão frequentemente, que, nos
dias de hoje, se a gente encontra um verdadeiro
elefante americano, tem que ‘lembrar-se de si
mesmo com todo seu ser’ para não ter a impressão
de que é uma simples mosca”.
Quem puder refletir sobre as agudas observações
que Gurdjieff faz da idiossincrasia, dos hábitos e das
condutas aos norte-americanos, terá uma ideia do
que constitui o Traço Principal dos Tipos 3.

No Brasil, temos exemplos muito admirados desta


“máscara”. Uma delas é a “performática” atriz
Cláudia Raia. No seu primeiro número, a revista
Mais Vida publicou uma entrevista desta notável
artista cuja abertura destacava: Ela faz 500
abdominais por dia, não fuma, não bebe, está
amando, é budista e consumista. Por isso Cláudia
Arrasa! (Eu imagino que o Iluminado Buda deve ter
pulado de alegria no seu nirvânico estado, após
tomar conhecimento desta inédita combinação
budista-consumista da sua doutrina de renúncia!)
Após descrever todos os “sinais externos” do
sucesso da atriz e sua tremenda capacidade de
trabalho, o jornalista Marcos de Moura e Souza
escreve: Pode impressionar a nós, humanos comuns,
mas o que ela gosta mesmo é disso: agitação, muito
trabalho e várias atividades ao mesmo tempo.
Workaholic encarnada.
Quase no final do artigo outras “amostras” do
Tipo 3 da grande Cláudia: “...os olhos da atriz não
deixam de espiar as possibilidades de levar seu
trabalho para além das fronteiras... ‘Estamos
tentando ir a Portugal... os americanos (de novo os
americanos!) também já ficaram muito aguçados
com a proposta do show. Estamos estudando...’,
despista. Os business de Cláudia Raia na época
eram administrados pelo pessoal de sua empresa, a
Raia Produções Artísticas, que empregava cerca de
vinte pessoas sob o comando, é claro, dela própria.
‘Tenho uma veia empresarial muito forte’...”
Possuidora de uma forte influência do Ponto 2 do
Eneagrama ela atrai naturalmente as pessoas e
também o sucesso. Todos os brasileiros, com
certeza, esperam que essa sua performática vida de
artista nos brinde sempre com ótimos espetáculos.

Outro expoente feminino deste Tipo é Marília


Gabriela, jornalista e entrevistadora extraordinária.

Entre os homens Tipos 3 mais populares no Brasil,


temos o sempre bem-sucedido Sílvio Santos, dono
do SBT. Ele é o típico Tipo 3, empreendedor, alegre
e seguro de si mesmo, que dirige (quase) todos os
programas ao vivo do seu canal! Essa é que é
vontade de ser admirado! O ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso (equilibrado e com uma forte
influência do Ponto 4 Eneagramático, aspecto que
na sua juventude se refletia no seu interesse pela
poesia, como pude constatar numa reportagem da
revista Isto É) é outro Tipo 3 que vale a pena
analisar. João Dória, do programa Business do qual
participei como entrevistado, é outro bem-sucedido
Tipo 3 igual ao talk show que dirige. Por último, as
conhecidas Exame e VIP são as revistas mais Tipo 3
do Brasil.

Todos os Tipos 3 possuem uma mistura das


características observáveis nestes exemplos citados:
grande capacidade de trabalho, forte procura do
sucesso e de resultados, necessidades muito fortes de
comunicação e extroversão (característica que os
torna semelhantes aos Tipos 7 e 8), assim como um
notável espírito empreendedor. Então, qual é o
problema desta máscara? Por acaso não está tudo
bem? Qual é o “calo” no qual se faz necessário
“pisar” para que eles se deem conta da importância
de seus mundos internos e de seus próprios
sentimentos? Sentimentos? O quê?!... Está sentindo
algo? Acho que já pisei no seu calo, certo? Sim, o
grande problema dos Tipos 3 está muito dentro do
coração...
Observando a máscara 3: ou como o aparente
sucesso externo
produz a falta da felicidade interna

Sim, pode parecer muito forte, porém por trás


destas palavras se esconde a chave que permitirá a
qualquer Tipo 3 iniciar a observação de si mesmo.
Quando os possuidores desta máscara participam
dos nossos workshops sobre o Eneagrama, a gente
percebe quão ansiosos estão para conhecer-se, quão
ansiosos estão para ter uma experiência interior. A
falta de atenção aos seus mundos internos os leva a
procurar com ansiedade e paixão a resposta a todas
as suas “inquietudes espirituais”. Realmente,
querem saber mais sobre si, porque sentem que
dentro deles mesmos está o que suas atividades
externas nunca lhes proporcionarão. Durante o
transcurso dos workshops, percebem que gostariam
de ter mais tempo para si mesmos, que não são
capazes de se abrir emocionalmente com os entes
queridos, que não conseguem desfazer-se de seus
papéis de grandes desempenhadores nem quando
fazem o amor, e que compulsivamente cobram de
seus filhos o sucesso, por que: a) eles o conseguiram
e porque inconscientemente não desejam que seus
filhos provoquem comentários do tipo: “os filhos de
fulana (o) não são bem-sucedidos”; b) ou porque
acham que além do “sucesso” não existe outra razão
válida pela qual lutar nesta nossa breve existência.
Este temor não apenas tem a ver com o anseio
normal que todo pai e mãe têm, mas também
esconde uma egoísta necessidade de passar para os
outros a imagem de um outro sucesso: “os filhos
devem ter sucesso porque eu tive sucesso, devem ser
trabalhadores performáticos, estudantes destacados,
porque assim conseguirei fazer com que a imagem
que eu criei de mim mesmo tenha continuidade
neles”. Sempre lembro aos meus alunos o exemplo
do pai Tipo 3, que quando dá um presente ao seu
filho, o faz para “compensá-lo” por algum bom
desempenho ou sempre aproveita para cobrar-lhe
uma atitude ou lembrar-lhe o que dele se espera.
Existe o caso do pai que quando dá um carro de
presente para seu filho aproveita para dizer que “um
carro é uma ferramenta de trabalho indispensável
nos nossos dias” e que ele espera que o filho
compreenda “o valor desse presente”, “o difícil que
é obter as coisas”, etc., etc. Porém, em nenhum
momento conseguiu dizer para seu filho o que
estava sentindo, emocionalmente, e que a razão do
presente se resumiria apenas nesta simples mas
verdadeira frase: “Meu filho, eu te amo.” A
vaidade, o grande “pecado” desta máscara, provoca
nos Tipos 3 uma incapacidade para perceber o que
está por trás das aparências de suas vidas. Algo deve
ser alcançado sempre, algo deve ser conquistado,
não se pode parar por nenhum motivo, até porque
os outros se acostumaram a vê-los sempre ativos e
dispostos. Só que, às vezes, se dão conta de que esse
“algo” parece não estar “lá fora” e parece “fugir”
deles...

Esquecendo as necessidades emocionais e sentindo-


se superficial

Tudo o que se possa fazer “para fora”, para ser


admirado, implica o esquecimento de si mesmo, de
suas necessidades emocionais, de suas necessidades
de contato mais íntimo e autêntico com os outros e
até consigo mesmo. Este esquecimento faz parte do
movimento ao Ponto 9 do Eneagrama. Também é
típica deste Tipo Eneagramático a dificuldade para
meditar, para estar consigo mesmo, para entrar no
mundo interno. Certo Tipo 3 me revelava um dia
como havia sentido um verdadeiro desassossego e
incômodo para meditar durante apenas 20 minutos.
Muitos deles percebem que estão “representando um
papel” que, ainda que os outros achem bom, faz
com que sintam uma espécie de irrealidade ou falta
de sentido, que às vezes os deixa com a estranha
sensação de estar vivendo “superficialmente”.
Vaidade e mentira são os principais “desvios” a
serem observados pelos possuidores desta máscara.
Apenas um lembrete para você antes de continuar: a
questão de voltar a “ser e sentir verdadeiramente”
não deverá ser encarada do mesmo modo com que
você encara seus trabalhos, projetos ou negócios.
Não precisa ter sucesso imediato, tá? Mais ainda:
não precisa fazer esta observação de si para apontar
mais um triunfo em suas capacidades de realizar
coisas. Para voltar a ser e sentir você precisa ser
verdadeiro apenas consigo mesmo e para si
mesmo... Isto é muito importante. Pare de enganar-
se: esse algo pelo qual você tem feito tantos
esforços, está mais perto do que você imagina e
supera o valor de todos esses sinais externos de
sucesso que você procurou com tantos esforços,
tanta competência... e tanto esquecimento de si
mesmo e dos que você ama.

A “identificação” e o traço principal: “vaidade das


vaidades,
tudo é vaidade” (e a vaidade é mentirosa!)

Com certeza muitos Tipos 3 notarão que nos


seguintes depoimentos existe algo de comum com
suas próprias lembranças de infância. Um dos
nossos discípulos, Sérgio, lembra que: “eu era uma
criança que se destacava nos estudos. A família
cobrava meu desempenho e me elogiava pelos meus
resultados... buscava sempre as melhores notas,
porque queria ser reconhecido como o melhor
aluno. Era desinibido e por isso era comum ser um
dos escolhidos para participar das festas do colégio,
nas apresentações de atividades artísticas, etc.”
Coincidentemente, Stela, outra aluna, escreveu: “A
recordação que tenho de minha infância é, de um
modo geral, de uma época de grande felicidade. Em
que se fundamentava esta felicidade? A vida corria
muito harmoniosa, todas as minhas necessidades
básicas estavam atendidas, e eu tinha uma enorme
expectativa de que tudo seria sempre assim. O que
era necessário para que fosse sempre assim? Eu
deveria fazer tudo direito, como esperavam de mim,
estudando, sendo organizada, procurando ser a
melhor em tudo que fazia, visto que desde cedo
percebi que vivíamos num mundo em que pessoas
estão competindo o tempo todo e que, aquelas que
alcançavam sucesso, tinham o afeto, respeito e
admiração de todos.”
Após escrever sobre detalhes felizes da sua
infância, outra aluna revelou: “Meus pais nunca
sentaram comigo para estudar e mesmo assim
sempre fui uma boa aluna. Isso dava grande
satisfação ao meu pai, que sempre me presenteava,
me colocava no seu colo e me dava muito amor...”
Outros autores, baseados nas suas observações,
também concordam em destacar que a maior parte
dos Tipos 3 teve infâncias nas quais o bom
desempenho e os bons resultados obtidos eram o
meio pelo qual se conquistava o amor e/ou a
atenção positiva das pessoas. Por terem todos
influência do Ponto 2 do Eneagrama, essa percepção
de receber admiração e atenção “em troca de”, os
leva a estar sempre “fora de si mesmos”. A questão
de ser para os outros que destaca os Tipos 2 se torna
necessária também para este Tipo, só que com uma
grande diferença. Ser querido é sentir-se admirado,
transformando os relacionamentos em uma troca
quase comercial, “eu dou isto, então eu recebo
isto”. Quanto mais ações adequadas melhores
resultados, quanto melhor desempenho, mais
satisfação narcisista. Por outro lado, já que acham
que deveriam procurar sempre esses resultados,
essas reações positivas dos outros, eles decidem que
não podem parar. Será necessário continuar fazendo
essas coisas certas que produzem resultados bons e
admiráveis. A máscara começa a ser formada e
justificada pelo resto da vida.

Aprendendo a mentir e a mentir-se: afinal,


“é muito fácil enganar os adultos”

É indubitável que a gente cansa, ninguém é de


ferro, certo? Porém os Tipos 3 ficam tão
identificados com a necessidade de se mostrarem
sempre como os melhores exemplos de bom
desempenho que surge a necessidade de “se ocultar”
dos outros. Como fazer isto? Muito simples: eles
criam uma imagem, uma espécie de ilusão por
intermédio da qual parecerão sempre performáticos,
bem-sucedidos, prontos e dispostos, cheios de
trabalho e dinâmicos. Enfim, aprendem que podem
iludir os outros. Só que o preço dessa descoberta é
paradoxalmente mentir também para si mesmo e
mentir para si mesmo, como cantava Renato Russo
“é sempre a pior mentira”. O grave é que Tipos 3
terminam acreditando na imagem criada. Quando
surge essa percepção de que se pode enganar os
outros? Todos os Tipos 3 possuem uma versão
diferente, porém, escolhi uma muito profunda e
verdadeira.
Amanda, revela-nos: “Havia em mim uma enorme
curiosidade sobre o mundo dos adultos, ao mesmo
tempo em que eu intuía que não era muito difícil
agir dentro deste mundo, pois os adultos,
diferentemente das crianças, eram muito fáceis de
serem enganados.”
Que grande descoberta! Nos custa muito aprender
esta lição... Talvez por isso continuamos sendo
enganados por produtos que oferecem vantagens
inexistentes, bancos que ficam com o dinheiro de
seus clientes, médicos que são comerciantes,
advogados que são criminosos, professores que não
querem educar, políticos que não ligam para o bem
comum, companhias de telefones que não
funcionam, etc. Sim, é muito fácil enganar os
adultos. Quando Tipos 3 se cansam de parecer
performáticos, quando necessitam encontrar-se com
eles mesmos, quando seus mundos internos
reclamam atenção, quando é preciso parar eles se
perguntam: como é que eu posso parar, se todos
acham que nunca vou parar? Como vou fazer para
fugir desta absorvente atividade, se todos acham que
eu sou o super-homem ou a super-mulher? Simples,
pregando “pequenas mentiras que não farão mal a
ninguém”. Um exemplo simpático:
Um dos meus alunos, Tipo 3, Mário, contou que
durante muito tempo ele trabalhara “quase 24 horas
por dia” na clínica médica da qual era sócio-
fundador. Muitas vezes, saía de casa cedo e não
voltava até tarde da noite... Certa vez decidiu que
era necessário mudar esse ritmo... mas, como
mudar? Tinha passado sempre uma imagem de
superdesempenho... O que pensariam os outros se
ele começasse a sair antes do trabalho? Que fazer?
Simplesmente, decidiu “enganar” (no bom sentido)
os outros. Ele esperava que todo o mundo fosse
embora, enquanto isso, mostrava-se muito atarefado
porque ele tinha muito trabalho por realizar. Logo,
quando os demais já tinham terminado, ele ia
embora... Todos pensariam que ele continuava com
o mesmo ritmo, só que era mentira. Uma mentira
que visava conservar a imagem de homem eficiente,
trabalhador e incansável que ele tinha criado com
tanta paixão e da qual se envaidecia. Como muitos
Tipos 3 que acabam compreendendo essas
armadilhas psicológicas que não lhes permitem fugir
dessa atividade desenfreada, ele reconhece que hoje
se importa com seus sentimentos e necessidades,
sem culpar-se. Está trabalhando em si mesmo e dá-
se conta de que deixar espaço e tempo apenas para
meditar, viajar e curtir seus filhos e esposa é muito
valioso. Ele descobriu que pode usar 10% de seu
tempo para seu lazer e para estar com a família,
segundo ele, após ler alguns autores de livros de
autoajuda, dos quais Tipos 3 gostam muito!
Quando Tipos 3 começam a parar de mentir a si
mesmos, descobrem que as mudanças de vida só
implicam uma maior autenticidade a nível
emocional e que essa autenticidade pode fazer bem
aos outros, especialmente aos filhos. Eva, nossa
aluna, descreve assim esta descoberta: “O sucesso
profissional não se reflete no meu lado emocional.
Como mãe não sou pegajosa, sou rigorosa e
ditatorial. Com o trabalho que venho realizando
com Khristian Paterhan estou mudando. Começo a
tratá-los com mais amor, isto é, consigo verbalizar
frases como “mamãe te ama”. Mesmo não falando,
eu sempre adorei e adoro meus filhos.” Porém ela
mesma percebe hoje que o modo de expressar essa
“adoração” pelos filhos era incompleta. Como ela,
muitos pais Tipo 3 tentam justificar suas ausências
por falta de tempo e trabalho excessivo, mediante o
fornecimento de tudo o que parece valioso,
materialmente. Transformam amor em produtos
valiosos que são dados para que os filhos façam
tudo direito e para expressar deste modo o que não
podem dizer verbalmente. A mesma aluna nos
relatou que: “Para agradá-los compro roupas,
brinquedos, etc. Hoje percebo que estava
condicionando meus filhos a um jogo do tipo ‘se
você fizer isso, você recebe isso’. Hoje tento
conversar e não mais fazer essas trocas. Meu filho
mais velho ficou carente de amor e atenção. Pois
sempre cobrei isso ou aquilo, dentro dos padrões
que eu achava corretos. Falando para ele ‘estude
para amanhã ter seu carro, seu apartamento, etc.
Aproveite as oportunidades que mamãe lhe dá, olhe
quantos meninos gostariam de estudar, ter uma
cama quente, ter roupas, etc’.”
Concordamos que muitas coisas valiosas podem
ser compradas com o fruto dos nossos trabalhos e
esforços, porém as mais valiosas para o
desenvolvimento de uma psique equilibrada e sadia
não são encontradas nos grandes shoppings centers
de nossas cidades e sim nos nossos próprios
corações.

À procura da admiração e do reconhecimento


alheio:
“comprando” o amor dos outros

Os Tipos 3 mostram que uma das razões para


serem workaholic é a procura de admiração e
reconhecimento. Miguel, um aluno Tipo 3,
reconheceu: “A vaidade é manifestada em relação ao
trabalho. Busco sempre reconhecimento por aquilo
que faço. Tenho compulsão pelo trabalho. Tenho
que estar em atividade o tempo todo. Não tenho
moderação. Minha dedicação é excessiva,
procurando sempre a superação.” Esta procura de
reconhecimento e admiração é provocada na
infância, porque os Tipos 3 percebem que alcançar
resultados é garantir a atenção dos outros. Assim
como os Tipos 2 precisam sentir-se amados dando
amor aos outros, os Tipos 3 aprendem a comprar o
amor dos outros, fazendo tudo o que os outros
consideram valioso e importante. Outra aluna Tipo
3, Letícia, descreve esta questão numa profunda
reflexão sobre sua infância:
“De um modo geral as crianças são carentes do
amor dos adultos, dos pais em particular. Quando
eu tinha três anos de idade minha mãe decidiu que
eu ia para o colégio. É importante observar que
naquela ocasião, em 1941, as crianças só iam ao
colégio por volta dos sete ou oito anos. Depois de
três semanas de grandes protestos de minha parte –
chorava e gritava todos os dias – minha mãe se deu
por vencida e me comunicou que eu não iria mais ao
colégio, antes dos sete anos, como todas as outras
crianças. Nesse exato momento, não sei por que
tipo de inspiração, afirmei que agora quem quer ir
ao colégio sou eu... Fui objeto da admiração de
todos, deram-me um tambor para tocar em frente a
todas as demais crianças reunidas num pátio e, em
todos os lugares, eu ouvia grandes elogios à minha
forte personalidade.”
Sem dúvida a razão dessa “inspiração” repentina
foi o temor de perder o amor maternal. Enquanto
ser enviada ao colégio numa idade na qual se faz tão
importante o contato parental pode parecer uma
perda do amor materno, esta criança intui que essa
temida perda pode manifestar-se do mesmo modo
ou pior se ela não aceita o desafio de ir todos os
dias a esse mundo estranho fora do lar.
Assim, garante o amor que deseja receber da mãe
e, de repente, descobre que, por sua idade, todos a
admiram no colégio. Então tudo fica resolvido!
Agradar os outros fazendo o que eles acham valioso
não só garante o amor, como também produz
admiração e elogios. Essa atitude em relação ao
mundo adquire importância e se torna o leitmotiv
dos Tipos 3. Conquistar a admiração e os elogios
por bom desempenho será o modo de procurar esse
amor e carinho tão desejados. Só que essa procura
passa a ser cada vez mais dependente de questões
externas e assim os verdadeiros sentimentos
terminam abafados.
Quando os Tipos 3 participantes dos nossos
workshops descobrem estas coisas, se emocionam e
alguns até choram (ou tentam!). O modo de vida
moderno tem criado muitos Tipos 3. Muitas pessoas
vivem para demonstrar que são melhores que as
outras como um meio de conseguir indiretamente
esse amor e atenção que termina sendo confundido
com as manifestações de admiração e
reconhecimento. Concorrer, disputar, ser o melhor,
ganhar o prêmio, vencer, parecem ser os únicos
motivos válidos para existir. É muito difícil fugir
dessa competição constante, e como parece ser o
mais importante, tudo o mais termina sendo
secundário e parece que tudo pode ser comprado.
Num mundo em que namorar, ter amigos para bater
um papo, ter prazer sexual e satisfazer outras
necessidades próprias do animal-humano podem
também ser “negócios lucrativos”, compradas ou
adquiridas direta ou indiretamente mediante o
“disk-sexo”, “disk-namoro” ou até via Internet,
alguns Tipos 3 apenas nos demonstram que, quanto
mais esquecemos nossas necessidades internas e
quanto mais a dita “sociedade de consumo” nos
“programe” para que acreditemos na felicidade
proveniente do cartão de crédito “gold”, mais longe
ficaremos da linguagem do abraço sincero e
silencioso, da conversa amistosa, do papo familiar,
enfim, de tudo aquilo que nos torna humanos.
Lembro-me de um programa jornalístico de TV no
qual se comentava sobre o aumento da solidão nas
grandes cidades. Pessoas passam, atarefadas e
estressadas, rapidamente perto de nós dia-a-dia.
Pessoas que têm cada vez menos tempo para
relacionar-se e conhecer e amar umas às outras
nesses três níveis de amor que aqueles velhos
filósofos gregos chamavam: Eros, Ágape e Philos.
Ter amigos e pessoas queridas, ter a capacidade de
dar e receber amor, ter empatia e/ou simpatia pelos
próximos, são questões muito valiosas que nos
permitem encontrar o termo médio entre essa nossa
necessidade de ter e possuir e nossa necessidade de
ser e sentir.

Quanto mais vaidade mais narcisismo:


quanto mais narcisismo menos autenticidade
Os Tipos 3 perdem o contato com seu Eu Superior
(o ser real) na procura do sucesso e da admiração
alheia.
Quando isto acontece, o narcisismo leva-os a
manifestar-se “camaleonicamente”, como alguns
autores descrevem essa capacidade de “disfarçar-
se”, de “mudar” de acordo com as circunstâncias
para ser sempre admirado. Um Tipo 3, Antônio,
reconhece: “Quando tive que participar de um
encontro profissional em que era necessária minha
presença em vários eventos e seminários no mesmo
dia, eu era capaz de mudar de emoções e de
expressar-me em cada um desses eventos, de acordo
com o que o ambiente requeria. O importante era
mostrar às pessoas que eu estava por dentro de tudo
e procurava passar essa imagem de interesse e
entusiasmo ainda que dois desses eventos fossem
diametralmente opostos entre si...” Os Tipos 3
procuram ser vistos como pessoas legais,
trabalhadoras, ativas e positivas, e podem até atuar
(vemos esta necessidade de atuar para que liga Tipos
2 e 3 no Eneagrama) para provocar nos outros as
reações que consideram adequadas. Esta necessidade
vai se mostrar mais forte, especialmente naqueles
para os quais o Ponto 2 do Eneagrama exerce sua
maior influência. Para aqueles nos quais o Ponto 4
do Eneagrama é mais forte, esse narcisismo irá
acompanhado de certa excentricidade ou de uma
necessidade de mostrar-se bem-sucedidos porém,
muito originais e únicos, conhecedores de tudo o
que está na moda, de livros a restaurantes. O
executivo ou executiva padrão das grandes cidades,
que veste roupas de grife, é aceito entre os de sua
classe, dirige seu carro último modelo para alguma
“reunião importante”, enquanto fala sobre assuntos
importantes pelo telefone celular e lembra todas as
reuniões nas quais sua presença é necessária e
socialmente importante; ou aquele bem-sucedido
dono de botequim barato que, também, possui I-
phone para chamar os seus fornecedores, tem suas
unhas arrumadas pela manicure da esquina, deixa
seu carro novo em frente ao negócio e fala com seus
amigos sobre o tema “trabalho duro tem
compensações, portanto me imitem...”. O primeiro
viaja pelo mundo, visita lugares importantes, faz
aplicações financeiras, lê livros de temas da moda
ou relativos ao sucesso na sua profissão, etc. O
segundo já foi a Porto Seguro de avião e pagou em
prestações, tem conta em dois bancos, matriculou
seus filhos num colégio caro e está querendo
inaugurar um outro botequim dentro de alguns
meses.
Quando Tipos 3 temem perder estes símbolos de
sucesso, ficam estressados.
O fato de manter uma imagem de sucesso, de
quererem ser os únicos a estar “no topo”, de
precisar da admiração alheia, pode conduzi-los a
uma vida de exterioridades tão vazia que é muito
frequente encontrar entre eles esses estressados e
típicos candidatos ao “turismo espiritual”.
Desenganados após anos de vida artificial, eles se
tornam “seguidores” de terapeutas ou de “gurus”,
aos quais não hesitam em entregar parte de seus
ilusórios bens terrenais em troca da felicidade
interna e eterna, claro!. Uma das mais incríveis
amostras desta afirmação pode se confirmar no
extraordinário sucesso que sempre tiveram no
mundo certo tipo de seitas, as quais se tornam
“refúgio” dos milhares de Tipos 3 cansados da
“programação” do establishment. Reflita-se, nesta
parte, qual a razão psicológica do movimento hippie
e da forte influência do mestre indiano Rasjneesh
(hoje chamado Osho por seus discípulos) na
juventude americana e europeia que encontrou nas
suas propostas um meio de expressar emoções e
sensações reprimidas e abafadas por uma sociedade
tida como ilusória, fútil e falsa. No Brasil, certo
tipo de mercado esotérico procura preencher esse
vazio interior de diversas maneiras. Certa vez, no
jornal O Globo apareceu a foto de um vidente
famoso, que posava do lado de uma das
representantes da high society local. Embaixo, o
jornalista informava que este senhor é
extremamente requisitado pelas damas da sociedade
brasileira. Na TV, ele anunciava um serviço
telefônico, por meio do qual se prometiam
conselhos dos “melhores videntes” do Brasil.
Esclareço que não pretendo julgar este ou outro tipo
de atividades ditas “esotéricas”, mas provocar uma
reflexão: numa sociedade em que tudo pode ser
comprado, em que as pessoas vivem das aparências
e motivadas a esquecer o “Ser” em troca do “Ter”,
corre-se o risco de gerar humanos subdesenvolvidos,
fracos e pobres no que diz respeito a seus mundos
internos. Vivemos num mundo em que a pobreza
interior daqueles que externamente parecem ter
“tudo para ser felizes” é tão assustadora quanto a
pobreza objetiva dos favelados e miseráveis deste
país e do mundo. Realmente, o desenvolvimento
humano é urgente em nossos dias. Tomara que o
Brasil seja o arauto ante as nações desse necessário
equilíbrio entre o mundo interno e o mundo
externo, e não apenas uma cópia desse seu Tio
Patinhas bem-sucedido do Norte e que,
ultimamente, não anda bem das pernas, certo?
Aparências enganam...!

Sim, as aparências enganam, por isso o Tipo 3 gosta


delas!

Como sustenta Riso, em seu Tipos de


Personalidad, apesar de não existir correlação do
Tipo 3 com nenhum dos tipos junguianos, “existe
certa conveniência poética no fato de o Tipo 3 (cuja
personalidade é tão pouco fixa e mutável) não
corresponder a nenhum dos tipos junguianos. Sendo
o tipo de personalidade mais adaptável de todos, o
(Tipo 3) é tratado em vários dos tipos junguianos
sem ter uma categoria própria”.

O Tipo 3 e o caráter mercantil de Fromm

Neste caso, quem fez o “retrato psicológico” que


se correlaciona mais exatamente com este Tipo
Eneagramático na psicologia ocidental foi Erich
Fromm na sua obra To Have or To Be, quando
descreve o que ele chama de “caráter mercantil”.
“(...) ele se baseia no fato de nos sentirmos como
mercadorias, tendo não um ‘valor de uso’, mas
‘valor de troca’. O ser vivo torna-se uma
mercadoria no ‘mercado de personalidades’ (...)
Embora varie a proporção de perícia e qualidades
humanas, de um lado, e personalidade, de outro,
como requisitos para o êxito, o ‘fator personalidade’
sempre desempenha um papel decisivo. O sucesso
depende, em geral, de como as pessoas se vendam
bem no mercado, de como imponham sua
personalidade, e da qualidade da ‘embalagem’ com
que a envolvam: depende de serem ‘joviais’, ‘sadias’,
‘agressivas’, ‘honestas’, ‘ambiciosas’; além disso,
contam também a tradição do nome da família, os
clubes a que filiam-se e ao relacionamento com as
pessoas ‘certas’ (...) cada qual deve fornecer uma
espécie diferente de personalidade que, sejam quais
forem as suas diferenças, devem satisfazer uma
condição: ser procurada.”
Para mostrar sucesso, os Tipos 3 “enfeitam” suas
fachadas existenciais com todos os chamados
“signos de êxito” socialmente aceitos. Eles possuem
o carro do ano, a TV de plasma mais badalada, o
laptop mais completo, os acessórios mais valiosos.
Dependendo de suas diversas faixas
sócioeconômicas, os Tipos 3 se mostram
externamente bem-sucedidos segundo o que sua
classe social exige de alguém bem-sucedido. Um
exemplo quase caricatural desta questão de “parecer
bem-sucedido” apareceu num artigo que foi capa da
revista Veja Rio de abril de 1996. A capa mostrava
uma gravata feita de reais numa impecável camisa
branca sem cabeça e a matéria de capa era: “Meu
primeiro milhão”, com o subtítulo: “Angústias e
recompensas dos jovens que correm atrás da fortuna
no mercado financeiro”. A matéria, está recheada de
citações próprias de Tipos 3 e 8 (compare as sutis
diferenças entre estes dois Tipos Eneagramáticos):
“Se eu não performar sempre de forma ótima,
alguém vai fazer isso por mim”, “Quem é bom fica,
quem não é dança”, “Não estou jogando para me
divertir, mas para ser rico”, “Não sei se existe um
valor que me bastaria. Quanto mais se tem, mais se
quer”, “Poderia viajar quantas vezes quisesse para
fora do Brasil, mas não dá para ficar muito tempo
sem estar a par das flutuações do mercado”, “Se eu
chegar aos 30 anos com 1 milhão de dólares e tiver
sociedade no banco, direi que a primeira etapa foi
vencida”, “Quero crescer dentro do banco” e outras
pérolas do tipo. Na matéria, a repórter Mônica
Weinberg descreve (consciente ou
inconscientemente) esse mundo Tipo 3 em que
tantos pretendem apenas “crescer dentro do banco”
e ter “um milhão de dólares”. Entre os
entrevistados, a jornalista destaca um sujeito que,
segundo ela, é “bem-sucedido demais para quem
mal faz 30 anos, embora traga o rosto riscado por
rugas precoces”. Entre os sinais de sucesso dos
candidatos ao chamado “exclusivo mundo dos
melhores e bem-sucedidos” estão carros de 37 mil
dólares, férias em Nova York (!!) todos os anos (oh,
my God! como é que pode com todo esse
maravilhoso Brasil tão perto!), livros “educativos”
tais como O covil dos ladrões, história do
megainvestidor norte-americano Michael Milken,
punido por suas próprias espertezas no mercado
financeiro; e Barbarian at the gates, os bastidores de
uma operação entre três ex-sócios da Nabisco. O
quê? Gostou?... Não, não sei; no artigo não se
mencionam as editoras. Sobre gravatas, as mais
badaladas no momento são as francesas Hermès ou
a inglesa Tie Rack, claro! Bom, por aí vai essa
reportagem dos nossos novos dollars-men made in
Brazil.
Alguns Tipos 3 sentem bem cedo a importância da
boa imagem. Ter uma boa imagem e passar aos
outros boas impressões leva-os a rejeitar aqueles que
são, “cinzas” demais, “pouco espertos” ou “pouco
brilhantes”, ou “humildes demais”, especialmente se
essas pessoas têm algum tipo de relacionamento
com eles.
Falando sobre a influência de seus pais na sua
existência, Elza, uma aluna Tipo 3 reconhece este
fato: “De um modo geral, aceitei suas influências no
que elas me pareciam boas para alcançar na vida o
que eu julgava que me interessava. Assim, por
exemplo, a postura social de meu pai era de uma
humildade absurda. Apesar de ser um engenheiro de
muito sucesso no seu tempo e de ter acumulado bens
materiais bastante razoáveis, procedia socialmente
como se fosse uma pessoa subalterna, o que me fez
desenvolver uma postura completamente oposta à
sua – Típica da Máscara 3: sempre acreditei em
trabalhar minha própria imagem e desde a infância
adotei, ludicamente é claro, um lema, em latim,
Hostis Honori Invidia, que significa ‘a multidão
honra a quem inveja’. Já a postura social de minha
mãe me parecia perfeita, pois ela vivia como uma
princesa. Identificava nela, porém, uma certa
carência de raciocínio lógico que me obrigou a,
desde muito cedo, pensar sempre por mim mesma,
por não confiar muito... nas opções tanto de um,
quanto do outro.” É fácil observar neste depoimento
as preocupações de todo Tipo 3: como os outros são
importantes socialmente, como se deve trabalhar a
própria imagem para que os outros possam percebê-
las como importantes.
Não adianta apenas ter sucesso, é preciso
comportar-se como uma pessoa bem-sucedida
perante os outros, é necessário “parecer” exitoso,
inteligente e “socialite”. Também é necessário
“aparecer”, claro! Esta é a razão pela qual aqueles
Tipos 3 considerados socialmente vip, lutam
continuamente para manter-se no pódio dos
“vencedores sociais” e aparecer, por exemplo, na
revista Caras. Anseios que são compartilhados com
os Tipos 2 e 7. Obter uma fotografia junto a pessoas
bonitas e importantes faz parte de uma luta na qual
muitos Tipos 3 se destacam por suas incríveis
estratégias de autopromoção.

“Seja como eu, me imite e se dará bem”:


O Tipo 3 como falso “exemplo” de vida certa

Quando o narcisismo é tido como uma “virtude


social”, Tipos 3 se tornam “motivadores” dos
outros, encorajando-os a serem como eles. Esta
necessidade de encorajar, motivar e cobrar dos
outros atitudes e resultados vem acompanhada do
correspondente lembrete: “aprenda de mim, me
imite, esforce-se como eu”. Aqueles em que esta
tendência é “suave” produzem nos outros uma
acolhida calorosa e agradecida, são simpáticos e
participativos, ajudam os outros e gostam de fazer
coisas em benefício da comunidade. Assim eles
alimentam a própria imagem. Porém o que neles é
visto por alguns como positivamente “motivador” e
“exemplar”, para outros pode acabar se
transformando em cobranças difíceis de suportar.
Alguns Tipos 3 são extremamente controladores e
chegam a exagerar nas suas cobranças.
Parecem, com suas atitudes, estar sempre
lembrando aos outros: “se você não me imita, se
você não é um triunfador como eu, se você não
trabalha como eu, você é um fracassado, um
ninguém”. Pais Tipos 3, muito apegados à imagem
triunfante, podem ser extremamente controladores
com seus filhos, provocando o contrário como
reação.
Quando Tipos 3 triunfam, se tornam
extremamente “cobradores” para com aqueles que
estão perto deles, sejam estes seus sócios, amigos ou
parentes. Existe uma certa agressividade nesta
conduta, já que nessas cobranças está implícita a
ideia de que os “incapazes”, os “que se dão mal na
vida”, os que “não dão certo” (segundo o que eles
chamam de “capacidade”, “dar-se bem”, e “dar
certo”) são seres desprezíveis. Também, esta atitude
com respeito aos outros esconde um forte medo
(movimento negativo ao Ponto 6) de ter que viver
entre ou com pessoas que poderiam ter que
depender deles em troca de nada.

Procurando um “bode expiatório” para os fracassos

Caso, por razões externas ou por erros nos seus


negócios, um Tipo 3 inicie um processo de fracassos
e se dê mal, ou não tenha os resultados esperados, a
saída é culpar os outros, ou ao “estado
incompetente”, ou à “situação geral”, porque é
difícil ter que aceitar que a causa do fracasso pode
ser ele mesmo. Os Tipos 3 não querem ser
considerados fracassados. Tentam demonstrar que
não tiveram culpa ou não seriam responsáveis. A
necessidade de manter suas imagens de pessoas bem-
sucedidas os leva a não aceitar o fracasso, razão
pela qual se esforçam e muitos até conseguem
superar crises que, para outros Tipos
Eneagramáticos, seriam difíceis de transpor.
Assertivos e dinâmicos perante situações
complicadas, conseguem muitas vezes convencer os
outros de que eles não criaram essas situações. Entre
os Tipos 3 menos evoluídos, encontraremos aqueles
sujeitos que podem determinar friamente que “se eu
fracasso os outros deverão fracassar também”, desse
modo ninguém poderia chamá-los de fracassados já
que “todos estarão na mesma situação”.
Por esta rejeição ao “fracasso”, Tipos 3 se tornam
às vezes extremamente críticos com quem está por
perto, muitas vezes cometendo graves erros de
apreciação. Lembro-me neste instante de um certo
Tipo 3 que devido a algumas “quedas financeiras”
chegou a pensar que ter ingressado numa
determinada instituição poderia ser uma das causas
possíveis dessas perdas temporais! Ele depois
compreendeu que a coisa não era assim, mas
naquele momento sua afirmação provocou entre
seus colegas uma reação totalmente compreensível
de rejeição.
A razão é simples. O que num determinado
momento os Tipos 3 chamam “fracasso” é apenas o
fato de não estarem conseguindo tudo o que eles
desejam. A razão do fracasso temporal nunca é
devida ao resultado de suas ações, mais é causado
pelas circunstâncias do meio, pela empresa, a
terapia, a esposa, os sócios, etc. O narcisismo os
impede de enxergar as verdadeiras causas do
aparente “fracasso” que apenas deveria servir como
“feedback” para assim conseguir a Equanimidade e
a Humildade necessárias face à realidade ou
Verdade que se ocultam por trás das máscaras da
Inveja, do Orgulho e da Mentira, que são os três
pecados capitais que formam o corpo do Minotauro
que este Tipo Eneagramático deve enfrentar no
labirinto de seu mundo interno.

Conclusão necessária para não ter a mesma sorte de


Narciso

Namorar a si próprio não é negativo quando se


compreende a fundo o que já foi citado sobre o
conceito de amor-próprio definido por Gurdjieff no
capítulo relacionado ao Tipo 2. A dose certa de
amor-próprio e de autoestima é saudável e
motivadora. Porém maquiar demais o ego, produzir-
se além da conta, e depender apenas desses artifícios
para impactar os outros, pode levar os Tipos 3 a
ficar mais longe da própria verdade. É bom lembrar
que, de tanto namorar sua bela imagem refletida no
lago, Narciso acabou se afogando – as ninfas talvez
o tenham levado ao reino das águas e, não sabemos
se conseguiu ser feliz por lá – ou pelo menos
ninguém mais o encontrou. Assim surgiu o primeiro
trágico exemplo dessa patologia psicológica
chamada “narcisismo”. É interessante nesta parte
lembrar que, segundo Helen Palmer, quando se
relacionam os Tipos Eneagramáticos com as
patologias psicológicas do DSM americano
(Diagnostic and Statistical Manual III, Revised), o
Tipo 3 não se encaixa em nenhuma categoria
correspondente, esclarecendo-se que este é um “Tipo
identificado recentemente no pensamento
psicológico ocidental”. Curioso, não? Como poderia
ser considerado patologia psicológica por um teste
“made in USA” o fato de se possuir uma
personalidade Tipo A, ou workahólica, numa
sociedade que faz questão de considerar esse tipo
humano a melhor amostra da cultura americana?
Para Ives Leloup, um dos pioneiros da psicologia
transpessoal, este seria com certeza um excelente
exemplo de “normose”, ou seja, dessa doença
rasteira que afeta a milhões de pessoas no mundo
fazendo-as acreditar que a única opção para ser feliz
neste mundo são suas agitadas, ocupadas, rotineiras
e vazias vidas.
Só me lembrei desta questão agora, enquanto
pensava no triste destino de Narciso... olhando o
seu “reflexo” nas águas da mater-matéria, esqueceu
aquele que olhava através de seus olhos e que era
ele... verdadeiramente. Todos temos este
esquecimento e todos corremos o risco de
perdermos, de nós mesmos, como Narciso...

Iniciando o processo de mudanças positivas

Quando os Tipos 3 decidem trabalhar em si


mesmos, geralmente o fazem com o entusiasmo e o
empenho que colocam para realizar seus objetivos e
metas materiais. Porém a necessidade da máscara de
querer mostrar bom desempenho faz com que eles
esqueçam o verdadeiro alvo desse trabalho interior,
ou seja, olhar para dentro de si mesmos e sentir,
simplesmente aprender a sentir. Não é fácil para
eles, porque, acostumados a viver para o externo,
acostumados a mostrar-se bem-sucedidos em tudo,
os Tipos 3 fazem de qualquer trabalho interno uma
espécie de prova de capacidade ou de uma nova
oportunidade para mostrar-se como os melhores.
É comum ouvir deles que na terapia tal ou qual,
ou na análise, ou nas dinâmicas de grupo, eles
manifestam-se de acordo com as expectativas do
terapeuta, analista ou psicólogo ao qual estão
tentando abrir seus mundos internos sem conseguir
o resultado principal, ou seja, uma genuína
transformação. O efeito “camaleão” toma conta do
processo, como Elizabeth nos revela neste
depoimento:
“Quando fazia terapia eu conseguia me antecipar
às expectativas do psicólogo, aprendia e lia sobre as
técnicas psicológicas usadas por ele e me adiantava
ao que ele tinha para me falar. Eu me sentia até
mais capaz do que ele e logo abandonava essa
terapia, sem ter conseguido abrir meu mundo
interior. Em cada terapia eu me comportava dessa
maneira e parecia que sempre conseguia mostrar-me
como a melhor em cada uma delas, porém sentia
que ainda não conseguia superar meus obstáculos
interiores.”
É importante compreender que as mudanças
positivas a serem de​senvolvidas importam e são
valiosas apenas porque você precisa delas. Não
haverá mudanças positivas se você não ficar
entregue ao trabalho interior. Não existe nada que
você deva demonstrar para os outros além de
sentimentos autênticos. Você deverá aprender que
também vale pelo que é, e não apenas pelo que você
faz. Porém, para atingir este valioso resultado, é
necessário ser verdadeiro. Sim, verdadeiro, primeiro
com você mesmo e logo, como consequência
natural, verdadeiro para com os outros.

Os movimentos no triângulo equilátero: verdadeiro


sentir,
verdadeira ação, verdadeira esperança

Parece um resumo do Nobre Óctuplo Sendeiro


budista e, de certa maneira é. Para os Tipos 3, 9 e 6,
todo o movimento eneagramático se dá em relação a
esse Trino Ser que, apesar de ser “Três Pessoas”, é
“Um só Deus, não mais”. Sim, tudo acontece para
estes três Tipos no mundo interno e na sua relação
com o ser. Quando a máscara da mentira está
presente, os Tipos 3 agem esquecendo-se de si
mesmos, deixando de sentir, adiando o que é mais
importante. Esse é o “movimento” negativo ao
Ponto 9 do triângulo. Quando esse estado de
abandono de si mesmo se afirma no falso ouro dos
“ótimos resultados”, o medo de perder essas
fantasiosas fontes de segurança ilusória leva os
Tipos 3 a experimentar os aspectos negativos do
“movimento” ao ponto 6. Resultado: impossível
parar (volta ao Ponto 3), é necessário continuar a
correr atrás do sucesso, do triunfo, da carreira, do
posto elevado, do alto cargo. Ainda sentindo a
terrível sensação de estar esquecendo-se de si
mesmos (Tipo 9) e das necessidades internas
daqueles que compartilham suas vidas pessoais, os
Tipos 3 decidem comportar-se como se não tivessem
medo do vazio existencial, como se os desafios
externos fossem uma espécie de droga que os pode
manter sem sentir a dor de estar longe de si
mesmos. Neste aspecto há algo do chamado
contrafóbico dos Tipos 6. Observar esse movimento
interno nos seus aspectos negativos é fundamental
para o resgate do verdadeiro no Tipo 3. Observar
como a imagem que um Tipo 3 projeta de si mesmo
consegue (e isto é algo apavorante para aquele que
se dá conta a tempo) substituir o seu verdadeiro Eu.
Quando Tipos 3 decidem trabalhar em si mesmos
e lembrar-se de si mesmos, pequenas mudanças
tornam-se extremamente valiosas. Imaginemos um
Tipo 3 com uma sincera capacidade de observação
de si. Talvez perceba que não precisa adiar
determinadas ações ou vivências relacionadas com
ele ou seus seres queridos (movimento positivo ao
Ponto 9) até o momento em que esteja com “menos
trabalho” porque ele descobre que ter sempre algo
para fazer, ter sempre “muito tempo ocupado”, faz
parte de sua “mentira”, então aparece a “coragem”
verdadeira (movimento ao Ponto 6) para comportar-
se de um modo inédito, para atrever-se a sentir
determinadas experiências sem temor. A distinção
entre fazer por temor, ou seja, ir contra a seta
eneagramática, fazer porque se não fizer pode
perder algo, ser desconsiderado pelos outros ou
perder sua qualidade de “melhor entre os
melhores”, leva o Tipo 3 ao esquecimento de si
mesmo, de suas verdadeiras necessidades (Ponto 9)
e, finalmente, o melhor modo de não enxergar os
perigos dessa atitude extrema é tornando-se um
trabalhador compulsivo (volta ao Ponto 3). Não se
trata de ter que parar de trabalhar, nem de
abandonar tudo e sim conseguir um equilíbrio entre
trabalho e vida interior, entre sentimentos e
atividades. Este é o segredo da verdadeira ação,
dessa verdadeira vida que um Tipo 3 deve objetivar.
Ou seja, perceber, por exemplo, que trabalhar 8
horas de segunda a sexta pode ser tão bom e
produtivo como trabalhar 17 horas diárias e, ainda,
sábados e domingos, com a vantagem de que se
pode curtir um bate-papo com os filhos, uma noite
romântica com a pessoa amada ou simplesmente
sentir e somente sentir a vida. Isto é Equanimidade,
uma das virtudes vizinhas (Ponto 4), que Tipos 3
precisam viver. Aprender que não acontecerá nada
se decide equilibrar seu agitado ritmo de vida e que,
o máximo que pode acontecer é, talvez, evitar um
ou dois infartos (lembro que Tipos 3 e 8 estão
dentro do que se conhece como personalidades Tipo
A (ou seja aquele grupo de pessoas com sérias
tendências de sofrer doenças cardiovasculares) e ter
tempo livre para dedicar ao encontro com seu ser.
Falando de um outro modo, talvez mais motivador:
tente ser excelente em relação ao seu mundo interno
sentimentos, tanto como é excelente em termos
materiais e externos! Alcançar este equilíbrio entre o
mundo interno e o mundo externo passa por
compreender esses estados superiores do ser que
estão por trás da Verdade (3), da Ação (9) e da
Coragem (6) do triângulo eneagramático: Amor (9),
Fé (6) e Esperança (3). Sim. Ame honestamente a si
mesmo e aos que estão perto de você, tenha fé
naquela existência que é verdadeira e não aparente e
que o pode levar a compreender que tem muito
“Ouro de Tolos”, como cantava Raul Seixas, nessas
suas “conquistas”. É necessário um novo modo de
“fazer” mais consciente e equilibrado do ponto de
vista do Ser. Este é o segredo.
Como evitar o “vazio interior” e o que aprender
com os companheiros eneagramáticos 4 e 2?

Os Tipos 3 deverão estudar e analisar as


características de seus companheiros eneagramáticos
2 e 4.
Do aspecto negativo do Ponto 4 Tipos 3 recebem a
influência da Inveja, entendida como a procura
sofrida daquilo que ainda não conseguiram, daquilo
que aparentemente falta e que, iludidos, acham que
os fará felizes, no aqui e agora. Esta influência 4
produz em alguns Tipos 3 a sensação de
inconformismo com qualquer resultado obtido. É
como se sempre faltasse algo. Porém, essa falta de
“algo mais” não produz nele a luxúria do 8, não.
Ela esta ligada ao sentimento de ser merecedor de
algo especial e único. Então, a possibilidade de se
converter num “burro atrás da cenoura” se torna
muito real e Tipos 3 deverão observar em que
momento isto acontece. Por outro lado, a influência
do Ponto 2 provoca a ideia de “sou merecedor do
reconhecimento, porque eu faço o que outros não
são capazes de fazer tão bem-feito quanto eu”. Isto
é uma manifestação da ideia egoísta de “ser maior
que o mundo” descrita por Claudio Naranjo quando
analisa o Tipo 2 na sua obra.
O positivo da influência do Ponto 4 é que Tipos 3
preocupan-se com valores espirituais, procuram
dicas para viver melhor e valorizam o
autoconhecimento. Ou seja, manifestam uma
honesta necessidade de Equanimidade, de ficar
equidistantes entre o mundo interno e o mundo
externo. Esta procura tem dois tipos de expressão:
alguns Tipos 3 tentam justificá-la mediante o
constante aperfeiçoamento. Compram manuais de
como fazer isto ou aquilo, manuais sobre como ser
o melhor gerente, o melhor administrador, como ser
bom pai, etc. Manuais são irresistíveis para Tipos 3,
são uma forma de “narcotizar-se” (movimento a 9)
ou esquecer essa sensação de “vazio” e de falta.
Outros iniciam uma procura de si mesmos, por
intermédio de terapias, sistemas, métodos e livros de
autoconhecimento ou de autoajuda com o objetivo
de serem melhores “internamente”. O perigo é
quando fazem desta procura interior apenas algo
“para inglês ver”, uma outra maneira de mentir a si
mesmos, com o risco de continuar “vazios”.
Os Tipos 3 devem trabalhar para serem honestos
na procura do “Eu Real”, compreendendo que
mentir em relação a esta procura só prejudicará a
eles mesmos e nada mais que a si mesmos, ou que,
no final, equivale a uma tragédia espiritual, porque
o verdadeiro acaba por não ser mais sentido.
Aconselho aos Tipos 3 que estejam realizando
qualquer trabalho de aperfeiçoamento interior ou
que estejam participando de escolas, fraternidades
ou de grupos religiosos com o objetivo de “conhecer
a si mesmos”, a refletir no seguinte aforismo que
Gurdjieff nos deixou com um propósito exato:
“Lembre-se de que você veio aqui, porque você
compreendeu a necessidade de lutar contra si mesmo
- unicamente contra si mesmo. Agradeça, portanto,
a quem lhe proporcione a ocasião para isso.” Sim,
você deve lutar “unicamente contra si mesmo”,
contra sua mentira, contra sua falsa imagem, e não
adianta “parecer” para os outros como “o melhor
dos discípulos”. O problema é seu. Seja autêntico
porque é para você mesmo que você será autêntico.
Você não acha que vale a pena lutar contra si
mesmo para chegar a esse estado interior no qual
você se sentirá honesto e verdadeiro com você?
O positivo do Ponto 2 como influência é a
capacidade de demonstrar seus sentimentos e
emoções, especialmente quando o que se sente é
positivo e agradável. Essa atitude amorosa e
receptiva dos Tipos 2, quando oportuna é positiva,
valiosa e um exemplo a ser imitado pelo Tipo 3.
Quando Tipos 3 estão sentindo vontade de abraçar
ou de falar “bobagens” do tipo “eu te amo”, “estou
feliz de estar aqui!”, etc., eles talvez possam sentir
esses momentos de uma maneira mais autêntica, se
apenas “consideram externamente” percebendo que
para os outros essas manifestações podem ser muito
valiosas e importantes, tanto como ganhar aumentos
de salários ou de conseguir ganhos na bolsa. É
necessária a Humildade para reconhecer o que está
sentindo e para expressá-lo. Quando Tipos 3 não
conseguem mostrar seus verdadeiros sentimentos,
quando não se permitem parecer vulneráveis, eles
não conseguem ser humildes. Humildade, Verdade e
Equanimidade são poderosas virtudes. Tente
descobri-las em você!

“A VERDADE OS FARÁ LIVRES”: O DESAFIO


FINAL

Parece até título desses filmes em série, certo? É


bom rir, para poder relaxar e quebrar ou, pelo
menos, começar a quebrar algo daquilo que está
cristalizado no coração. Não tente se defender
agora, eu sei que você sente. Com frequência vejo os
Tipos 3 quase chorando. Alguns declaram que não
podem. Alguns se fazem de engraçados e tentam, em
tom de brincadeira, dizer coisas que não sabem
expressar emocionalmente. Às vezes são tão
desajeitados no momento de mostrar sentimentos ou
de querer agradar os outros que provocam o efeito
contrário. Lembro aqui como o ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso (FHC), Tipo 3, fazia
esforços para mostrar-se irritado ou contrariado
com relação a qualquer questão política que
precisava de uma “reação enérgica” durante o seu
governo. Simplesmente, ele até hoje não consegue!
Arnaldo Jabor, a quem admiro, expressou bem-
humorado, este aspecto da psique de FHC,
escrevendo no Segundo Caderno do jornal O Globo
de 30 de abril de 1996 uma espécie de chamado ao
despertar das emoções do ex-presidente sob o título:
“O Presidente deita no divã do psicanalista”. No
subtítulo, esta frase: “Sem reformar seu mundo
interior, FHC não conseguirá fazer as reformas do
Estado.” Após uma entusiasmada sessão de análise
que termina com uma terrível advertência profética
(“Do contrário, você vai ser o Gorbatchov latino e
vai dar o poder para algum bêbado louco!”), Jabor,
descreve o esperado e catártico resultado: “...o
presidente se ergueu do divã e gritou: – ‘Seus
idiotas... seus cascas de ferida, seus sujos,
mequetrefes, nefelibatas!’..., o doutor entusiasmado
grita: ‘– Isso, Fernando!...’ e o presidente totalmente
autêntico, emocionalmente falando, continua
desabafando: ‘– Eu... eu sou o presidente desta
joça... Meu povo! as reformas são as seguintes... Eu
sou o que manda, eu sou o pau na mesa, o chefe
desta pátria que nos pariu!’ O entusiasmo catártico
é grande e incontenível e o analista grita: ‘– Dá-lhe,
garoto!... isto é... presidente!’”
Achei simplesmente genial porque, é o que sempre
se cobrou de FHC! Realmente, ele deveria ter
seguido os conselhos de Jabor para aprender a
desabafar, reagir e defender seus triunfos quando
necessário e justo, já que, como escreveu J.R.Guzzo
na revista Veja do 1° de setembro de 2010, ainda
não se reconhece que foi seu governo quem
“finalmente encarou e venceu a inflação no Brasil”,
porque, segundo Guzzo, “o que não se perdoa ao
ex-presidente FHC é o seu sucesso.” Talvez para
FHC defender seus triunfos como Tipo 3, aqui no
Brasil, seja difícil por que como Guzzo adverte: “O
Brasil, por força de teimosa tradição, não convide
bem com o êxito; na celebre definição de Tom
Jobim, sucesso, por aqui, é ‘insulto pessoal’” Então,
Tipos 3 fiquem alertas, porque independentemente
de questões políticas, escrevo sobre este caso para
que vocês reflitam no fato de que muitas vezes, por
querer parecer agradáveis, comunicativos e
diplomáticos demais (influência da asa 2 e
movimento ao Ponto 9 do Eneagrama) vocês não
reagem e não demonstram suas verdadeiras
emoções, nem o que realmente sentem por medo de
perder a popularidade e a aceitação dos demais
(Ponto 6 contra seta). Aconselho a você, Tipo 3,
homem ou mulher, a expressar adequadamente seus
sentimentos. Porém, até conseguir essa expressão
adequada,você deve procurar a reconciliação e
reencontro com o seu mundo emocional. Não se
pode mudar de uma vez, apenas porque você como
bom Tipo 3 acha que pode tudo! Sim, vá devagar...
Platão lembra-nos no Mito da caverna que levar de
repente alguém para enfrentar o Sol da Verdade pela
primeira vez, pode causar grande dor e até cegueira.
Então não faça deste caminhar para o sol do seu
coração uma maratona performática...! Seja
Humilde (Ponto 2) e Equânime (ponto 4), para seu
próprio bem...
Há pouco tempo, estive com um dos mais antigos
alunos chilenos, um Tipo 3 muito especial. Tivemos
conversas eneagramáticas muito valiosas, com ele e
sua família. Sua filha conseguiu desabafar: “Eu teria
gostado que você estivesse mais tempo comigo, que
brincasse com a gente, que me tomasse no colo ou
que batesse um papo comigo, mas você estava
sempre muito ocupado, sempre com muito
trabalho!” Ele compreendeu e sentiu. Aos poucos,
ele percebe hoje que o que sua filha desejava não era
apenas um “bom-pai-provedor-de-tudo-o-que-faz-
falta”. Num trabalho familiar pedi para ele abraçar
a filha, para ele falar de seu amor por ela, para ele a
sentir... e foi muito bom para todos na família!
A virtude da Verdade pode ser atingida por meio
da vivência deliberada de determinadas situações
nas quais Tipos 3 costumam comportar-se como
camaleões.
A esposa Tipo 3 de um grande amigo conversou
comigo sobre certas questões, procurando
orientação. Ela é uma mulher do tipo que
chamamos “brilhante” e possui uma personalidade
que reúne as melhores qualidades dos Tipos 3. Por
isso, ela tinha ocupado durante anos um cargo de
importância numa instituição mundial de grande
prestígio. Numa de nossas sessões de coaching e
perto de deixar o cargo, ela me revelou seu grande
amor por essa instituição e como estava triste por
deixar esse cargo. Ela gostava de tudo o que
conseguia fazer pelos outros por meio dela e com o
apoio e o trabalho solidário de seus colegas. Eu
percebi que esse era um sentimento real e muito
precioso e sugeri que dissesse isso no seu discurso de
despedida. Ela, porem, não queria, já que, não se
atrevia a mostrar esse tipo de emoção aos outros
porque “não achava necessário nem importante”.
Deixei isso como um desafio e uma tarefa a ser
realizada. Se ela conseguisse se abrir e mostrar seus
sentimentos em relação a esse cargo e a essa
instituição, ela poderia dar-se conta de que as
pessoas receberiam essa revelação do seu mundo
interno com muito amor e alegria. Como poderia
não ser importante para todos seus colegas e
membros da sua comunidade saber que ela tinha
todos esses sentimentos preciosos em relação ao seu
trabalho?! Ela prometeu tentar... e assim o fez. Pela
primeira vez, ela conseguiu expressar aquilo que
Tipos 3 demoram demais para conseguir, (alguns
demoraram anos), ou seja, emocionar-se
verdadeiramente e expressar com autenticidade
todos os sentimentos positivos que tantas vezes não
foram reconhecidos. Ela foi muito aplaudida.

O desenvolvimento emocional é um dos aspectos


mais descuidados por nossos programas de educação
e, como Gurdjieff dizia, um dos mais importantes.
Ele advertia que o desenvolvimento humano não
pode nem deve ser unilateral e que precisamos que
todos os Centros - Intelectual, Emocional e Físico -
sejam aprimorados harmoniosamente.
Sem dúvida, a Teoria das Inteligências Múltiplas
do Dr. Howard Gardner teria para Gurdjieff um
grande valor prático e me atrevo a dizer que o
Quarto Caminho, sistema filosófico no qual se
fundamenta esta obra, tem muito a oferecer no
campo de um novo tipo de educação no qual o
conceito de inteligência supere os limites aos quais
continua sendo restrito. Hoje, graças a Daniel
Goleman, o conceito de “Inteligência Emocional”
foi definitivamente incorporado a nossa linguagem e
aos nossos limitados mapas mentais. Projetos como
o “SAT – Educação” promovido por Claudio
Naranjo, fundador da Escola SAT, estão focando
esta visão de uma educação integral e humanizada.
Realizá-los somente será possível com o apoio de
indivíduos lúcidos que se importem com a evolução
da nossa espécie.
O Eneagrama, cuja divulgação realizo há mais de
20 anos, é um dos conhecimentos que podem
auxiliar na educação integral das nossas crianças e
jovens e espero que pessoas como você,
desconhecido Tipo 3, empreendedor e bem-sucedido,
apóiem minha proposta de levar este conhecimento
a muitos outros seres humanos. Você pode!
O Traço 4
: O eu que idealiza

O eu
que idealiza

Alguém perguntou: “É preciso sofrer o tempo todo


para manter a consciência aberta?” Ele respondeu:
“Há muitas espécies de sofrimento. O sofrimento
também é um bastão de duas pontas. Uma leva ao
anjo; a outra, ao diabo. Temos que lembrar o
movimento do pêndulo: após um grande sofrimento
existe uma reação proporcionalmente grande. O
homem é uma máquina muito complexa. Ao lado de
cada ‘bom caminho’ há sempre um ‘mau caminho’
correspondente. Um caminha sempre ao lado do
outro. Onde existe pouco bem, existe pouco mal;
onde tem muito bem, tem também muito mal. O
mesmo acontece com o sofrimento; é fácil encontrar-
se no caminho equivocado. O sofrimento se
transforma em algo agradável. Alguém é golpeado
uma vez, e tem dor; a segunda vez tem menos dor,
na quinta vez já está desejando ser golpeado. Deve-
se estar em guarda, deve-se saber o que é
necessário a cada momento, porque a gente pode se
desviar do caminho e cair num fosso.”

G. I. Gurdjieff
Sobre a dificuldade de ser feliz

A jornalista Daniela Name escreveu para o jornal


O Globo o que, na minha opinião, é o melhor
retrato de um Tipo 4 que todos os brasileiros cultos,
sem dúvida, conhecem por meio da sua obra
literária. Como é muito comum que Tipos 4 sejam
muito cultos, decidi iniciar a breve análise da sua
máscara mediante o retrato jornalístico deste ilustre
lusitano. Você concordará comigo que o famoso
escritor português Mario de Sá-Carneiro, grande
amigo de Fernando Pessoa, foi um ser humano
muito especial e diferente. No artigo, a jornalista
nos lembra as características únicas deste poeta
extraordinário: “Moderno, marginal, decadente. Ao
se matar aos 26 anos, no quarto de um hotel barato
de Paris... ele reafirmou os adjetivos usados para
qualificá-lo. Era o dia 26 de abril de 1916 e os
médicos que analisaram o cadáver – que vestia um
smoking e estava deitado na cama – não tiveram
dificuldades para escrever o atestado de óbito...
Envenenamento... No suicídio mais anunciado da
história.”
Sim, foram ao todo mais de 202 cartas
depressivas, que podem ser lidas nas obras
completas deste escritor publicadas pela Editora
Nova Aguilar.
Dentre esses “anúncios da própria morte”, Daniela
Name destacava na ocasião uma carta e um
telegrama que retratam esse tipo de mundo interno
que somente os Tipos 4 podem compreender, como
já veremos ao longo deste capítulo. A carta citada,
escrita em Paris, datada de 3 de abril de 1916, diz:
“Adeus, meu querido Fernando Pessoa. É hoje
segunda-feira 3, que morro atirando-me debaixo do
Metrô (ou melhor, Nort-Sud) na estação de Pigalle.
Mandei-lhe ontem meu caderno de versos mas sem
selos. Peço-lhe, faça o possível por pagar a multa se
ele aí chegar. Caso contrário, não faz grande
diferença pois você tem todos os meus versos nas
minhas cartas. Vá comunicar ao meu avô a notícia
de minha morte – e vá também ter com minha Ama
na Praça dos Restauradores. Diga-lhe que me
lembro muito dela neste último momento e que lhe
mando um grande, grande beijo. Diga a meu avô
que também o abraço muito. Adeus. O seu pobre
Mário de Sá-Carneiro. P. S.: Envio-lhe como última
recordação a minha carta de estudante na Faculdade
de Direito de Paris – o bom tempo – com o meu
retrato. Um grande abraço. Adeus. O seu, seu
Mário.”
Você imaginou receber 202 cartas de um amigo
querido anunciando que vai se suicidar?! Sim, devia
ser difícil para Fernando Pessoa, com certeza. Sorte
de ele ser um Tipo 5!. Talvez esse fato lhe permitisse
compreender esses anúncios do seu amigo e também
talvez lhe permitisse estar preparado para receber as
notícias do adiamento do suicídio. Você pensa que
estou brincando? Não, prezado Tipo 4, é a verdade!
No caso citado pela jornalista, após receber este
“último adeus”, Fernando Pessoa recebe no outro
dia um telegrama em que se lê:
“Paris, 4 de abril de 1916. Sem efeito as minhas
cartas até nova ordem – as coisas não correm senão
cada vez pior. Mas houve um compasso de espera.
Até sábado. O seu Mário de Sá-Carneiro.”
O organizador da obra completa deste escritor, o
poeta Alexei Bueno – declara à jornalista que Sá-
Carneiro era “um poeta extraordinário, mas vivia
atormentado pela ideia da grande arte. Tinha uma
sensibilidade extrema, era quase histérico. E bebeu
estricnina porque não podia suportar a banalidade
do cotidiano”. Numa outra parte do artigo se lê:
“Exagerava na forma e no conteúdo de tudo o que
escrevia. Sua linguagem abundante não economizava
palavras nem imagens extravagantes. Levava uma
vida de dândi, e não encontrou dificuldades para
descrever com maestria holofotes sobre piscinas e a
rotina de milionárias americanas em Paris.” Num
outro parágrafo deste artigo, encontramos a
declaração do professor de literatura portuguesa da
Unicamp, Akira Osakabe, que revela um dos
aspectos mais interessantes deste notável escritor
relativo ao tema da multiplicidade do “eu”: “Ele
tinha plena consciência da falta de unidade do ‘eu’.
Mas, diferentemente de Fernando Pessoa, que criou
seus heterônimos, não achou uma saída estética para
o tema. Pessoa ameniza o conflito, Sá-Carneiro vive
o drama em si mesmo.” Sim, nesta breve e preciosa
descrição jornalística, se revela essa grande
dificuldade de viver e de ser feliz que caracteriza
todo Tipo 4. Uma dificuldade que às vezes é
superada quando os donos desta quarta máscara
conseguem alcançar a equanimidade, ou quando
abafam sua angústia existencial dedicando-se a
quixotescas causas, ou a colecionar preciosidades,
ou quando se dedicam a ajudar aos outros, ou ainda
quando influenciados pelo 3 Eneagramático,
dedicam-se, como escreve Helen Palmer, a combater
a depressão com hiperatividade contínua.
Lembrando outros exemplos

Destaquei em itálico o que são, neste poeta,


algumas das manifestações corriqueiras do Traço
Principal desta máscara: “vive o drama de si
mesmo”, “exagero na forma e no conteúdo”,
“imagens extravagantes”, “as coisas não correm
senão cada vez pior”. Sim, a questão básica neste
quarto Tipo Eneagramático é a perda constante do
chamado “sentido da vida”, uma das causas dessas
patologias psicológicas derivadas da depressão
exógena. Uma espécie de “dor de viver”, que muitas
vezes chega a ser “curtida”, um constante
“abandono” do presente que leva estes tipos a sentir
com força especial o significado dessa palavra que
eu, como estrangeiro, acho (viu? eu estou
“achando” também!) semanticamente maravilhosa e
rica em significados: “saudade”. Os Tipos 4
sofreram perdas às vezes muitos grandes, a
“saudade” neles é um sentimento fortíssimo. Para
sentir melhor esta máscara enquanto escrevo, ouço o
CD do conjunto Madredeus, no seu concerto
gravado ao vivo no Coliseu dos Recreios em Lisboa,
em abril de 1991. Realmente um belo concerto Tipo
4! E só ler as letras das canções. Pensei também há
pouco no quão fascinante deve ser para alguns Tipos
4 ler Jean-Paul Sartre e sentir que só ele podia
compreender e sentir a “náusea” da vida humana ou
de chegar à conclusão de que fomos todos como que
“abandonados” numa existência de características
trágicas e desesperadoras.
Porém acho que não foi Sartre o melhor exemplo
dessa representação psicofilosófica da tragédia da
vida humana que conhecemos como existencialismo,
até porque encontramos nela um chamado a vivê-la
e a sermos responsáveis. Quem seria mais pessimista
e cético que o filósofo romeno Emil Michel Cioran?
Logicamente, muitos Tipos 4 pensarão: “Eu, só que
acho que nem sequer devo falar a respeito, pois não
vale a pena!!” Bem, este filósofo também decidiu,
num momento determinado, parar de escrever
“convencido de que seria inútil externar suas
opiniões”. Em um breve artigo publicado pela
revista Veja achei alguns destes dados tão
interessantes do chamado arauto do pessimismo,
cujo primeiro livro, publicado quando tinha 22
anos, chamou-se No Cume do Desespero (!!).
Apesar de não terminar seus dias suicidando-se
(morreu aos 84 anos após uma vida “dedicada a
apontar a ausência de sentido na vida”), garantia
que, paradoxalmente, o que o consolava era o fato
de ter o poder de acabar com a própria vida quando
bem entendesse. A Veja cita uma declaração do
filósofo a respeito: “Sem a ideia do suicídio, já teria
me matado há algum tempo.” Na minha opinião, o
fato de ele ter sido simpatizante do nazismo
(estupidez da qual se arrependeria publicamente
anos depois), revelou apenas outras das
características deste Tipo Eneagramático. É comum
encontrar entre os Tipos 4 os “intelectuais
rebeldes”, os “contrários ao regime”, “os
esquerdistas teóricos”, os “intelectuais boêmios”, os
“livre-pensadores”, os “originais”. Cada época tem
os seus... Graças a Deus!
Só para deleite dos prováveis masoquistas Tipos 4
(estou apenas tentando fazer com que você também
ria de si mesmo, porque, se levar a sério demais
isso, corro o risco de ser apontado como o causador
de seu provável suicídio e eu sei que, mais de uma
vez, você pensou ou imaginou o abandono
antecipado deste mundo), cito aqui algumas das
frases que a Veja destacou como representativas da
“visão” da existência de Cioran, este incrível
representante da quarta espécie eneagramática. Veja
só que pérolas!: “O ceticismo derrama demasiado
tarde suas bênçãos sobre nós, sobre nossos rostos
deteriorados pelas convicções, sobre nossos rostos
de hienas com um ideal”; “Quem se mata por uma
mulherzinha vive uma experiência mais completa e
profunda do que o herói que altera a ordem do
mundo”; “Que auxílio pode oferecer a religião a um
crente decepcionado por Deus e pelo Diabo”; “A
música é o refúgio das almas feridas pela
felicidade”.

Descobrindo o traço principal através dessa inveja


que não parece inveja e sim tristeza
(porque talvez inveje o que apenas se perdeu!)

O saudoso mitólogo, professor e escritor Junito de


Souza Brandão (a quem tive a grata oportunidade de
conhecer pessoalmente) escreveu no seu Dicionário
mítico-etimológico sobre a Inveja: “Ftono é a inveja,
o ciúme, a mágoa provocada pela felicidade
merecida de outrem. Ftono é a personificação da
Inveja. Como a maioria dos ‘demônios’, cuja
personalidade está associada ao próprio nome,
Ftono não possui um mito próprio.” Não é incrível?
Ftono nem sequer possui um mito próprio!...
Interessante, não é? Afinal, por que é que o pecado
capital da inveja é associado aos Tipos 4? Muito
simples: esse modo de “errar o alvo” que chamamos
inveja, esconde sutilezas que explicam a psicologia
desta máscara eneagramática.
Na sua obra Dos Vícios, Artigo IV (Questão
LXXXIV, ponto dois) sobre “se devemos admitir
sete vícios capitais” ou não, o famoso “Dr.
Angélico” (Santo Tomás de Aquino) faz um
comentário que, na minha opinião, permitirá que
nos aproximemos com mais sucesso do estado de
espírito dos Tipos 4.
Ele diz que “a tristeza está incluída na preguiça e
na inveja” (o texto original completo diz:
“Enumerantur autem aliqua vitia ad quae pertinet
delectatio et tristitia: nam delectatio pertinet ad
gulam et luxuriam; tristitia vero, ad acediam et
invidiam”). Sim, a inveja dos Tipos 4 é provocada
por uma profunda tristeza que os leva a sentir a
falta da felicidade, a falta do que se acham
merecedores e que julgam que outros possuem. Os
Tipos 4 sentem uma constante falta de algo, algo
que deveria ser obtido ou que já se teve e se perdeu,
algo que poderia ser a causa da sua felicidade
futura, algo que nunca está presente e que parece
que outros atingem. Daí a tristeza e a melancolia
que nestes Tipos freqüentemente se encontra à flor
de pele. Uma contínua insatisfação no presente os
leva a viver no e do passado, ou no e do futuro. É
como se no presente não se tivesse o que poderia
fazê-los felizes, como se no presente não coubesse
sua utopia.

O maravilhoso Frans Krajcberg:


um exemplo da visão do mundo através da Quarta
Máscara

Vejamos um novo exemplo de Tipo 4 que descobri


no Brasil. Estou me referindo ao notável artista
plástico polonês naturalizado brasileiro, que vive
numa casa construída sobre um tronco de árvore
numa reserva florestal de 960.000m²; defensor da
floresta tropical brasileira, o homem que compra
troncos e restos de árvores das queimadas e que
contrata carretas para levá-los até Nova Viçosa, no
litoral Sul da Bahia, para criar belíssimas eco-
esculturas-denúncia com as quais defende a
Amazônia e a Mata Atlântica. O homem que numa
entrevista para um programa da TV Cultura contou
a uma maravilhada e emocionada jornalista, que
não fazia esculturas apenas para serem vendidas,
que ele gastava muito dinheiro para trazer os restos
de árvores queimados e até tinha sofrido atritos por
isso, que ele o fazia porque as árvores queimadas lhe
lembravam o sofrimento e os corpos dos judeus
mortos nos campos de concentração nazis, de que
foi testemunha ocular. Sim, este homem sensível e
único é Frans Krajcberg. É fácil sentir a tristeza
deste homem nas suas grandiosas obras de arte,
enormes espaços ocupados com restos das
queimadas transformados em esculturas
maravilhosas e melancólicas. A sua tristeza pela
destruição das florestas é consequência das
lembranças de suas próprias perdas. Ele tenta nos
acordar dizendo: “Vocês não sabem o que têm,
vocês não merecem tanta beleza.” Ele valoriza o que
os brasileiros têm e que absurdamente alguns
destroem. A inveja aqui se apresenta como uma
denúncia e um protesto: “Se eu fosse o dono desta
floresta, vocês não poderiam destruí-la.” O
sentimento da possível perda do 4 aparece nessa
insatisfação com o presente e com o mundo que a
gente descobre em Krajcberg. Como ser feliz num
planeta onde a “espécie inteligente” desmata e
queima essa preciosa manifestação da vida que são
as florestas? Aqui, o sentimento da falta de
compreensão dos outros, da falta de sensibilidade
diante da vida e da natureza, se transforma em um
motivador extraordinário. A inveja como
sentimento que exprime a sensação maçante de
falta: algo falta e deve ser obtido e, enquanto não
possa obtê-lo, como poderia ser feliz? Krajcberg
sintetiza com sua vida e sua obra essa inveja –
tristeza eneagramática, que o leva a fixar como
meta o anseio utópico de provocar uma reação
catártica ante essa constante destruição ecológica.
Ele foi testemunha de terríveis perdas e quer evitar
outra grande perda. Ele sabe por dolorosa
experiência e com total certeza que esse espírito
destrutivo acompanha desde sempre seus
semelhantes. Luta contra inimigos invencíveis, com
uma força que todo Tipo 4 manifesta diante dos
obstáculos que ele enfrenta quando procura aqueles
objetivos nos quais fundamenta sua futura
felicidade. Quanto mais incerteza do fruto, mais
sofrimento, mais sensação de falta, mais mensagens
do tipo: “Está vendo, eu não falei que ninguém
compreende!?”

A perda do paraíso

A inveja no Eneagrama é derivada de uma espécie


de insatisfação dolorosa que, para cada Tipo 4, tem
uma explicação diferente. No Eneagrama, perda e
inveja escondem a procura angustiante que todos
temos: a procura da felicidade que, para Aristóteles,
é a palavra chave para nosso mais íntimo anseio,
como constatamos no início da sua Metafísica. É a
perda dessa felicidade que está por trás desse
sentimento de falta, de carência da qual Platão nos
fala no seu precioso diálogo conhecido como O
Banquete. Uma falta que, quando sentida, nos leva à
procura dos nossos paraísos perdidos. Essa é a
motivação mais profunda do Ponto 4. Por acaso não
será invejado aquele que parecer ter reencontrado
um desses “paraísos”? Para Tipos 4 as perdas são
multiformes. Tão multiformes quanto nossos
próprios “paraísos perdidos”. Não será importante
lutar por recuperá-los? Não serão invejados aqueles
que aparentemente os reencontrarem?
Numa preciosa reportagem da Revista Ícaro da
VARIG, escrita por Frederico Morais, pude verificar
minhas suspeitas sobre o Tipo Eneagramático deste
artista. Sob o sugestivo título de “Krajcberg Escultor
de Florestas”, o autor nos permite conhecer algo do
seu mundo interno mediante suas impressões
pessoais quando seu primeiro encontro no ateliê que
ele instalara, a céu aberto, em Cata Branca, Minas
Gerais: “Revoltado e angustiado como um
personagem de Camus, lembrando fisicamente Van
Gogh, travava, naquele cenário, uma luta insólita
contra as convenções da pintura.” Sim, tipos 4
sentem-se e muitas vezes atuam como seres
especiais, originais, sempre revoltados pela
incapacidade dos outros de enxergar o realmente
valioso, o importante, que existiu no passado ou que
poderia existir no futuro. Essa fixação relacionada
com o sentir o que outros não percebem, leva
Krajcberg a justificar, por exemplo, sua não
participação no movimento neorrealista dizendo:
“Eu gostava da insolência dos artistas do Novo
Realismo, que lutavam contra o abstracionismo,
mas, na verdade, eu pertenço à minoria que cedo
percebeu a importância da natureza para o futuro
dos homens.”

A insatisfação com o presente

Para Tipos 4 será fácil compreender as ações de


Krajcberg. Eles sabem o porquê da insatisfação com
o presente, no qual nada é como deveria ser, e
sabem como é que essa insatisfação promove uma
sensação de falta ou de perda, que pode se tornar o
argumento para abandonar um projeto ou para ir
embora de uma cidade ou de um país. A felicidade
para Krajcberg parece estar no Brasil longe da
Europa na qual só viveu perdas e sofrimentos:
“soldado no front russo, ferido de guerra, toda a
família dizimada em campos de concentração
alemães na Colônia, onde nasceu, miséria e fome em
Paris” lembramos o autor do artigo na Ícaro. O
artista encontra no Brasil um desses paraísos
perdidos que Tipos 4 procuram e sonham: “No
Brasil, nasci uma segunda vez, tomei consciência de
ser homem e de participar da vida com minha
sensibilidade, meu trabalho e meu pensamento. Os
bosques da Europa não me emocionam e as
intolerâncias europeias continuam a me inquietar.”
Porém ele sempre sente que falta algo, até sente que
carece da capacidade de expressar a beleza deste
país no qual encontra uma natureza em que “tudo
lhe parecia tão lindo e surpreendente que muitas
vezes se viu chorando e dançando de alegria”: Como
expressar na minha obra toda esta emoção e esta
beleza?”.
Inevitavelmente, o passado virá a se impor à sua
alegria e à sua obra. O Traço Principal não poderá
ser evitado. Num determinado momento ele inicia a
defesa da natureza no Brasil. Sua defesa, como ele
afirmou num programa da TV Cultura, se alicerça
na lembrança do seu sofrimento na Europa. Esse
sofrimento acabou, porém é necessário lembrá-lo.
Como? O autor da reportagem na Ícaro responde:
“Sem abandonar Nova Viçosa, decide em 1978
aprofundar seu conhecimento da Amazônia
brasileira onde já esteve duas vezes. Nessa
expedição, é acompanhado pelo pintor Sepp
Baendereck e por Pier Restany, dela resultando,
além de muitas obras, o polêmico manifesto do Rio
Negro ou Manifesto do Naturalismo Integral. Nessa
ocasião Restany definiu o artista como ‘o arauto de
uma consciência ecológica nacional e
internacional...’” Sim, nosso artista “descobre” uma
nova razão para justificar sua constante tristeza, sua
sensação eneagramática de faltas e perdas:
“Doravante, em sua obra, a beleza está associada à
indignação. Krajcberg denuncia e protesta contra as
queimadas do Pantanal Mato-grossense, que ele
passa a visitar com frequência...”
É preciso denunciar. Como as antigas e trágicas
perdas da guerra, as queimadas são um crime contra
a humanidade, uma espécie de genocídio ecológico.
Deve-se lutar contra a falta de sensibilidade. O
futuro dos seres humanos está em risco. Como
provocar a sensibilização de todos? Por meio da
arte: “Suas obras são realizadas, desde então, com
troncos queimados e carvão. Cria imagens candentes
da destruição feita pelo homem, imagens de revolta.
Ele consegue sensibilizar a opinião pública nacional
e internacional: Sua obra recente transformou-se
assim em um manifesto visual...” Assim este notável
Tipo 4 nos leva a refletir sobre o valor da vida:
lembrando o passado e advertindo-nos sobre um
futuro trágico que devemos evitar. (Paradoxalmente,
sem considerar esse passado e esse provável futuro,
como poderíamos ser felizes no presente?) O
presente dessas florestas magníficas pode ser
perdido. Krajcberg nos abre o íntimo de seu Tipo
Eneagramático na frase com que Frederico Morais
finaliza sua matéria: “Não escrevo: não sou político.
Minha mensagem é trágica. Denuncio o crime, a
outra face de uma tecnologia sem controle. Não
faço esculturas, procuro formas para que ouçam o
meu grito. Sinto-me na madeira e na pedra. Esta
árvore queimada sou eu.” Sim, assim é a Quarta
Máscara Eneagramática e, sem dúvida, aquilo que
podemos ver e aprender, através dela, é, apenas
outra das extraordinárias faces da realidade. Os que
queimam florestas e desmatam com certeza
desconhecem o protesto artístico-ecológico deste
homem, ou simplesmente não se importam. Só
espíritos sensíveis e realmente sábios poderão julgar
seus esforços. Para Tipos 4, lutar por causas
perdidas faz parte desse jogo em que realizam
grandes esforços para alcançar difíceis metas,
sabendo que quando estiverem perto de alcançar
seus objetivos, deixarão de sentir o que sentiam num
primeiro instante. É como se quisessem manter essa
sensação de impossibilidade. Ao contrário dos Tipos
2, eles não desejam sentir o agora, e, ao contrário
dos Tipos 3, eles sentem até demais, que o que
sentem deve sempre ser algo por acontecer, algo por
vir, algo a resgatar, algo que ainda falta, algo que é
a causa de uma felicidade desconhecida, longínqua,
distante, e, por isso mesmo, sofridamente atraente.

Felicidade... Só de longe, só desejada

Com Krajcberg é possível comprovar o


afastamento dos Tipos 4 da felicidade quando
próxima ou achada. O anseio de expressar a beleza
da natureza, da mata, se transforma no temor de
perdê-la e essa sensação de nascer de novo nesta
terra abençoada também implicará a descoberta de
uma nova forma de dor e de sofrimento. O
paradoxo é que os Tipos 4 não se permitem sentir
felicidade mas se mantêm sempre distantes dela,
desejando-a desesperadamente, porém sempre se
afastando quando está pronta para ser obtida. No
fim, parece que têm medo da felicidade porque
tiveram grandes e inexplicáveis perdas. E, se todas
as coisas podem ser perdidas, se tudo é passageiro,
não será a felicidade algo que apenas devemos sentir
de longe? Esta consideração talvez leve os Tipos 4 a
sentir a melancolia como algo atraente, algo no qual
sentem o que outros não poderiam sentir porque
não são capazes de sentir esses “sentimentos
profundos”. Jorge Luis Borges, ilustre Tipo 4
argentino e mestre da literatura hispano-americana,
nos transmite esse estado de espírito que revela a
ameaça permanente da possível perda (lembremos
que sua maior perda foi a da visão: “eu que sempre
imaginei o paraíso como uma biblioteca...”,
exclama, quando confessa a dor de ser nomeado
diretor da Biblioteca de Buenos Aires no momento
em que sua cegueira se manifesta, impedindo-o de
desfrutar de todos aqueles livros) daquilo que existe
no presente mas que pode sumir a qualquer
momento, por meio de alguns dos seus versos, como
estes: “Si para todo hay término y hay tasa, y
última vez y nunca más y olvido, quién nos dirá de
quien en esta casa por última vez nos hemos
despedido?[6] Os Tipos 4 muitas vezes abandonam
trabalhos quando estão dando certo. Outros até
“sabotam” seus projetos. Nossa única aluna Tipo 4,
Vera, declara: “Muitas vezes sou inconstante,
vacilante, nos meus planos, projetos, que muitas
vezes ficam inacabados.” É como fugir
antecipadamente da perda iminente convertida
numa maneira de sabotar a própria felicidade. Só
assim se pode confirmar frente aos outros um estado
que não se deseja abandonar. Só quando admitirem
a perda que os leva a achar que nada os fará felizes
e a agirem como vítimas das injustiças da vida que
tudo lhes nega, os Tipo 4 conseguirão perceber as
possibilidades reais e concretas de alcançar a tão
invejada felicidade que lhes parece acessível aos
outros mas que eles não se permitem sentir. Sim, é
muito complexo. Como poderia ser simples? Não,
não fique pensando que “é tarde demais para
mudar” ou coisas do gênero. Ainda que você não
acredite, sei como você se sente. Apenas medite no
seguinte: talvez seja necessário compreender que
existe um tipo de “sofrimento inútil”, como ensina
Gurdjieff. Qual o significado de “sofrimento
inútil”?

A tristeza de não ser feliz no presente


(ou como se inicia às vezes o “sofrimento inútil”)

No livro A Lei de Cristo: Teologia Moral, o


redentorista B. Häring afirma que “a inveja é uma
perversão do nosso instinto de emulação. As
qualidades de outrem me agradam e eu gostaria de
também possuí-las! Isso é normal. Mas o invejoso
enche-se de tristeza pelo fato de descobrir boas
qualidades nos outros. Encara-as como obstáculo à
sua própria glória e ao seu próprio desejo de
excelência”.
Vamos examinar, no depoimento de Helio, como
esta “perversão do nosso instinto de emulação”
pode surgir. Quando criança, ele percebeu que seu
pai tinha uma preferência por seu único irmão. A
partir da ideia de falta e perda que permeia estes
Tipos, ele afirma que “esta foi uma de minhas
primeiras perdas emocionais” e que, apesar de ser o
filho preferido da mãe, “isso não compensou a clara
preferência de meu pai por meu irmão”.
Lembrei o bíblico caso da inveja de Caim por Abel
no Gênese, quando li o seguinte: “Meu irmão foi
um problema muito sério para mim. Para começar,
eu invejava sua beleza física: louro de olhos azuis,
ele atraía as meninas com muito mais facilidade do
que eu, que inclusive comecei a usar óculos aos nove
anos, e era chamado de quatro-olhos pelas outras
crianças. Sentir-me feio, em comparação a meu
irmão, e também pelo fato de usar óculos, foi uma
perda que trouxe inúmeros problemas à minha vida
afetiva. Meu irmão sempre teve uma inteligência
brilhante, e um desempenho escolar muito bom,
ficando sempre em primeiro lugar ou perto disso.
Além de invejar sua beleza física, eu também
invejava sua inteligência... O sentimento de
inferioridade que adquiri perante meu irmão
agravou-se pelo fato de que ele, mais velho e mais
forte, me dominava fisicamente em nossas lutas
corporais. Passei a cultivar um ódio violento por
ele, que fez com que eu o denunciasse a meus pais
quando fazia algo errado, só para vê-lo castigado.
Sentia por isso uma culpa enorme – e ele se afastou
de mim, para fazer suas diabruras longe de meus
olhos. Foi também uma perda afetiva... .”
Ao refletir sobre este depoimento, podemos sentir
o que significa a perversão do nosso instinto de
emulação. Na inveja eneagramática constata-se uma
insatisfação com o que se possui no presente, porque
o que se possui é simplesmente ignorado, ou seja,
não conseguimos ver o valor do que possuímos, o
valor daquilo que nos diferencia do nosso próximo.

O Tipo 4 e o tipo intuitivo introvertido de Jung


A descrição que Jung faz do tipo intuitivo
introvertido ajuda a compreender esse “estado de
espírito” que faz com que Tipos 4 se afastem do
“presente”, sem perceber o que poderia fazê-los
felizes “agora”:
“A intuição introvertida está dirigida para o objeto
interno (...) Embora sua intuição possa ser
estimulada pelos objetos externos, não se ocupa das
possibilidades externas, mas daquilo que o objeto
externo liberar dentro dele.
Desta maneira, a intuição introvertida percebe
todos os processos de fundo da consciência com
quase a mesma clareza que a sensação extrovertida
registra os objetos externos.”

O irmão do Helio parece ser mais feliz porque é o


preferido do pai, porque é mais belo, porque é mais
inteligente, porque é mais forte. O que produz a
inveja nos Tipos 4 é uma incapacidade de ver a si
mesmos e de enxergar o que possuem no presente,
porque, como talvez aconteceu no caso citado,
ninguém lhes mostra o quanto são valiosos ou
porque ninguém explica as razões das “perdas”.
Não pode existir autovalorização, autoestima ou
amor-próprio sadios, sem o apoio de alguém que
permita essas descobertas. A preferência do pai pelo
irmão o leva a perguntar-se: “por que será que não
sou como meu irmão?” Em sua mente começará a se
construir uma razão que se transformará em ódio:
“ele possui a preferência de meu pai porque ele é
belo, é forte, é mais inteligente.” Tudo isto acontece
porque ninguém lhe mostrou as vantagens da sua
personalidade. Quando não conseguimos olhar para
esses fatores que nos tornam diferentes dos outros e
que são valiosos pelo fato de serem únicos e
irrepetíveis, terminamos achando que não existem
razões para sermos felizes sendo como somos.
Então, falta algo que os outros parecem possuir.
Portanto, Tipos 4 não podem ser felizes no presente.
A tristeza se instala. O sentimento de falta e de
perda se alicerça e a máscara começa a consolidar-
se. Quando analisado, o depoimento nos mostra
outras questões eneagramáticas de importância:
Podemos constatar, por exemplo, um forte
movimento contra a seta ao Ponto 1 Eneagramático,
quando Helio nos revela: “Passei a cultivar um ódio
violento por ele [seu irmão], que fez com que eu o
denunciasse a meus pais quando fazia algo errado,
só para vê-lo castigado.” A raiva vingativa se faz
presente denunciando as imperfeições que ninguém
vê no irmão, uma típica atitude da Primeira
Máscara: Vejam, ele não é tão bom, não é perfeito,
acusa o irmão.
Diferentemente de Caim, nosso exemplo não
assassinou seu irmão, nem física nem
psicologicamente, tendo superado há muito esse
conflito – “felizmente resgatamos nossos
sentimentos fraternos anos mais tarde” –,
provocado por um dos erros mais comuns cometidos
pelos pais de todo o mundo: manifestar preferências
exageradas por um dos filhos ou por alguns filhos,
esquecendo que as necessidades de consideração e
amor são iguais para todos e que quando não são
levadas em conta, podem provocar profundas
feridas psicológicas que às vezes nunca cicatrizam,
provocando diversas reações negativas que
dificultam a existência harmoniosa desses seres
humanos. Vejamos qual foi a estratégia de Helio
para superar sua aparente inferioridade: A
percepção errada de que algo externo é a causa da
felicidade do irmão (ele não usa óculos, ele tem
cabelos louros e olhos azuis, ele é mais forte, etc.)
faz com que ele procure uma forma externa de
destacar-se perante os outros, para ser considerado e
admirado. A influência do Ponto 3 do Eneagrama e
o movimento ao Ponto 2 “colaboram” para essa
descoberta.
Se externamente não pode ser melhor que ele, deve
existir algum meio pelo qual ele consiga destacar-se.
Assim, Helio descobre o que o pode ajudar a ser
considerado pelos outros como valioso: “Destaquei-
me sobretudo pela habilidade na escrita. Os elogios
que recebi por minhas redações, no período escolar,
me tornaram escritor.” Tornar-se escritor tem sido
para ele até hoje uma fonte de satisfação e,
aperfeiçoado como trabalhador da palavra escrita,
reconhece que: “Desloquei-me para minha asa 3 e
fiz do meu trabalho uma grande fonte de felicidade
pessoal.”

Ao analisar comparativamente este caso com o


seguinte, podemos constatar que a inveja como
“perversão de nosso instinto de emulação” uma vez
mais será a causa do surgimento da Quarta
Máscara.
Numa parte do seu depoimento, Vera nossa aluna
Tipo 4 nos revelou:
“Sempre fui muito saudável. Meu pediatra dizia à
minha mãe que eu lhe dava prejuízo, pois
dificilmente adoecia. Mas convivi muito com
doenças. Meu irmão mais velho tinha uma doença
de pele muito forte, além de outras alergias, o que
nos obrigava a viajar frequentemente para cidades
com estâncias hidrominerais, fazer tratamentos com
águas termais, durante a infância. Acho que pode ter
sido esta a razão de me desenvolver como Tipo 4.
Devido à doença, meu irmão recebia atenção total
de toda a família, tios, tias e avó inclusive. Sempre
me dei muito bem com ele, mas apesar de ser a filha
favorita do meu pai, eu gostaria de ter recebido o
carinho, os cuidados e as atenções que ele recebia da
família. No início da adolescência uma prima mais
nova veio morar conosco e tive que dividir com ela
minha categoria de única princesa da casa. Sentia
inveja dela quando ganhava presentes e passeios
maravilhosos do pai dela, enquanto eu nem saía de
casa.”
Neste caso, a inveja é provocada pelas atenções
dadas ao irmão e à prima. Eles recebem atenções
que ela acha que não recebe. No primeiro caso, os
cuidados dos pais para com o irmão doente não lhe
permitiram receber atenções, cuidados e carinhos. A
chegada da prima, que também recebe atenções do
pai, não só aprofunda o sentimento de não receber o
que merece, porque terá que dividir até a “honra”
de ser a única “princesa da casa”, como consolidará
a ideia de carência. A falta de atenções (recebidas
pelo irmão) e a perda de atenções (com a chegada da
prima) fundamentam em nossa aluna sua máscara
eneagramática, provocada pelos erros paternos já
mencionados acima.

Quando sofrer se transforma na arte


de acabar com você

Vamos lembrar aqui da resposta de Gurdjieff


sobre o sofrimento citado no começo deste capítulo:
Alguém perguntou: “É preciso sofrer o tempo todo
para manter a consciência aberta?” Ele respondeu:
“Há muitas espécies de sofrimento. O sofrimento
também é um bastão de duas pontas. Uma leva ao
anjo; a outra, ao diabo. Temos que lembrar o
movimento do pêndulo: após um grande sofrimento
existe uma reação proporcionalmente grande. O
homem é uma máquina muito complexa. Ao lado de
cada ‘bom caminho’ há sempre um ‘mau caminho’
correspondente. Um caminha sempre ao lado do
outro. Onde existe pouco bem, existe pouco mal;
onde tem muito bem, tem também muito mal. O
mesmo acontece com o sofrimento; é fácil
encontrar-se no caminho equivocado. O sofrimento
se transforma em algo agradável. Alguém é
golpeado uma vez, e tem dor; a segunda vez tem
menos dor, na quinta vez já está desejando ser
golpeado. Deve-se estar em guarda, deve-se saber o
que é necessário a cada momento, porque a gente
pode se desviar do caminho e cair num fosso.”
Seria bom que você se detivesse um instante e
meditasse nestas palavras de Gurdjieff.
Especialmente se você corre o risco de “cair no
fosso” quando não se é capaz de enxergar o perigo
dos extremos desse bastão. Como já comentei
anteriormente no capítulo sobre o Tipo 6, nos
treinamentos avançados de Eneagrama, temos um
exercício em que utilizamos um bastão numa roda
de participantes em pé. O bastão é lançado do
centro da roda, sem prévio aviso, a qualquer um
deles. O exercício, que está baseado em antigas
técnicas de autocontrole psicofísico, tem regras
precisas: ninguém pode externar temor ao bastão,
nem com gritos nem com movimentos exagerados
de defesa, ninguém pode sair de seu lugar na roda. A
pessoa deve receber o bastão com a mão esquerda,
ou com a direita, tentando estar sereno e relaxado,
porém alerta e pronto. As pessoas aprendem muitas
coisas importantes com este simples exercício.
Percebem que às vezes imaginam perigos
inexistentes, percebem que todos os dias estão
recebendo diferentes “bastões da vida”, percebem
que podem se autocontrolar e relaxar até conseguir
intuir quando é que o bastão será lançado a um
deles, percebem que às vezes imaginam perigos
inexistentes e... também percebem como sofrem à
toa por tudo o que imaginariamente “projetam” no
bastão – agressão, medo, raiva, ameaça, etc. – do
que, o inocente bastão não tem nada. O bastão é
percebido apenas de acordo com o que cada um
deles projeta e/ou transfere a ele. Muitos descobrem
como vivem projetando e transferindo diariamente a
pessoas, situações e vivências, conflitos, angústias e
outros estados internos negativos, que apenas estão
neles próprios. Aos poucos essa compreensão os leva
a realizar mudanças positivas em relação às suas
vidas, permitindo-lhes um estado interno mais
relaxado e harmonioso, aprendendo a controlar suas
emoções negativas no dia-a-dia. Eu defino essa nova
atitude como o “aprender a conviver com o bastão
da existência”.
Enquanto o exercício se desenvolve, algumas
questões são lembradas. Uma delas é: “Aprenda a
não ficar muito tempo com o bastão no seu poder,
aprenda a se desfazer dele. Receba e solte. O mesmo
deverá ser feito com as experiências da vida. Não se
apegue. Aprenda a soltar o bastão qualquer que seja
a forma que ele tomar na sua existência.” Uma das
formas de apego mais difíceis de compreender é o
apego ao sofrimento. E os Tipos 4 são os mais
vulneráveis a este apego masoquista. Algumas vezes,
nem sequer se dão conta de como isso se repete em
suas vidas, tomando mil formas diferentes, sendo
algumas tão “razoáveis” que enganam durante anos
os seus hipnotizados sofredores, aprisionando-os
numa teatral “dor de existir”, sem permitir-lhes
compreender o quão inúteis são esses seus amados
“sofrimentos”. Vamos analisar como este
“sofrimento inconsciente e tolo” como o definia
Gurdjieff, consegue fazer vítimas entre nossos
incompreendidos e especiais Tipos 4. (Lembro aqui
que esta forma de sofrimento dito inconsciente é
comum a todas as máscaras.)
Uma aluna Tipo 4 que participou dos nossos
workshops declarou certa vez: “Às vezes, deitada,
gostava de imaginar que estava morta... Imaginava
quantas pessoas amigas se reuniriam ao meu redor e
observava quem estava presente e quem faltava... .”
Não é interessante? Neste caso podemos constatar
o que significa sofrimento inconsciente teatralizado.
Quando os Tipos 4 têm fantasias da própria morte
(de como seria seu suicídio, onde gostaria de morrer
e como gostaria de morrer, se por amor, etc.) eles
não conseguem perceber que estão perto do “fosso”
provocado pela polarização negativa no bastão do
sofrimento. Essa polarização vai se “cristalizando”
com tanta sutileza ao longo dos anos, que alguns
Tipos 4 até demoram a perceber que esse sofrimento
“tolo”, inicialmente “teatralizado”, vai degenerar
numa forma de viver e sentir erradas. Vejamos
como isso acontece neste depoimento: “Como forma
de chamar a atenção de meus pais, descobri o poder
do teatro do sofrimento: ficava amuado num canto,
silencioso, até que fossem cuidar da minha tristeza.
O jogo, claro, fazia mais sucesso com minha mãe,
mas funcionava. Desenvolvi um prazer masoquista
nesse teatro. E a máscara do sofrimento tornou-se
uma arma de controle da atenção e do
comportamento dos outros.”
Para cada Tipo Eneagramático existe um modo de
chamar a atenção dos outros. Este é o modo dos
Tipos 4: usar o poder do teatro do sofrimento.
Alguns Tipos 4 demoram muito a perceber o
controle que esse sofrimento passa a ter sobre suas
vidas. Às vezes eles o superam após um longo
processo marcado por experiências dolorosas como
no caso do Helio. Outros, como no caso seguinte,
perceberam essa “fixação” da máscara, graças à
descoberta do Eneagrama. Refiro-me a uma senhora
que, num dos nossos workshops, expressou por
escrito e de uma maneira brilhante, o impacto
sofrido ao descobrir sua “Máscara 4” com estas
palavras:
“...Desabei ao dar de cara com o Tipo 4. Foi tão
forte o impacto que não consegui conter a emoção
que extravasou-se em fortes lágrimas, que só com
muito esforço consegui reter para que minha
introspecção e a descoberta recente do porquê de
tantas coisas não se tornassem soluços dignos de
uma peça shakespeariana. Não, não estou jogando
asas para a mordaz ironia do 7... Eu sinto estar
pronta, convicta, passada e repassada por tantas
provas. Portanto, fazer teatro só se for como um
ator profissional ou amadorístico. No dia anterior...
Escrevi o seguinte: ‘aos amados amigos... . Uma
gotinha de esperança para adoçar esse cotidiano tão
cheio de surpresas que não podemos deixar que
empanem a beleza da vida’. Ora! Só o cotidiano do
número 4 pode ser tão cheio de surpresas amargas,
de perdas dolorosas, de traições inacreditáveis.”
Basta examinar esta parte do extenso depoimento
entregue por esta gentil mulher, para constatarmos
o que chamamos de “sofrimento inconsciente”. Suas
palavras veementes têm o objetivo inconsciente de
mostrar-se direta ou indiretamente como a pessoa
mais sofredora: “desabei ao dar de cara com o
número 4...”; ...”foi tão forte o impacto que não
consegui conter a emoção, etc.”... “passada e
repassada por tantas provas”. Inconscientemente ela
reconhece seu “teatro do sofrimento”, embora o
rejeite: “soluços dignos de uma peça
shakespeariana”, “fazer teatro só se for como ator
profissional ou amadorístico (este último
esclarecimento é simplesmente fantástico). O
confronto com a máscara provoca nela uma
necessidade de justificar seus sofrimentos
inconscientes da seguinte maneira:
“... Como posso evitar que o impacto com as
surpresas desagradáveis tornem minha vida um mar
de lágrimas?” Ela mesma pretende dar a resposta, a
qual, como sempre, de modo veemente, trágico e
exagerado com que alguns Tipos 4 permeiam todas
as suas ações e descobertas e que, logicamente, é
uma das causas dos seus sofrimentos inúteis:
“Preparando meu instrumento para refletir à luz,
aguçando meus sentidos para a obtenção do
autocontrole e a canalização consciente de minhas
forças, de minha vontade para objetivos
anteriormente priorizados como mais importantes a
serem realizados nesse ínfimo espaço-tempo de que
dispomos nessa etapa de vida... é termos o controle
sereno da vida... Em sincronia com a Magnificência
da Força Criadora do Cosmos, a qual devemos nos
render e aceitar os desígnios dos quais
desconhecemos as causas.”
Talvez você seja desses Tipos 4 que conseguem
perceber a tempo quais as falhas desse “jogo” do
“teatro do sofrimento”. Caso contrário, vale a pena
refletir sobre quais foram as “falhas” que nosso
aluno descobriu nessa atitude “masoquista” perante
a existência, e que hoje parece ter superado o
bastante para transformar-se num “exemplar” 4,
mais equânime:
“Na adolescência, transferi esse jogo (o teatro do
sofrimento) para o campo da relação amorosa.
Funcionava bem com algumas garotas
(especialmente, claro, as de Tipo 2). E tudo era
dinamizado com as poesias trágico-românticas que
eu escrevia. O jogo tinha duas falhas graves. A
primeira era esta: as garotas queriam namorados
alegres, de alto astral. Meu teatro do sofrimento às
vezes atingia tal carga dramática, que a relação
ficava pesada, desgastada, insustentável. Então eu
era abandonado ou trocado por outro, de alma mais
leve, de cabeça menos complicada. Isto criou em
mim o pânico de ser abandonado, e minha
insegurança tornou-se visível, fragilizando ainda
mais as relações e causando novos abandonos. Dos
14 aos 17 anos, passei perigosamente à borda do
abismo do suicídio. Cheguei mesmo a fazer o teatro
do suicídio, como ameaça, como arma de controle.
A outra falha do jogo era o sofrimento maior que
ele me causava. Como eu me achava pouco atraente
fisicamente, criava personagens sedutores para as
garotas. Fazia o tipo poeta, muito original... Fazer
um personagem me punha em pânico. Eu estava
convicto de que não seria, nunca, amado pelo ser
que eu realmente era. Precisava, portanto, vestir
uma máscara. Mas, e se fosse descoberto? Até
quando o personagem seria sustentável? Não era
inevitável que eu fosse abandonado mais cedo ou
mais tarde, quando fosse flagrado em minha
insegurança, meu sentimento de inferioridade, em
minha incapacidade de ser eu mesmo? Como
personagem, eu estava fora da relação, não era eu
mesmo. Qualquer felicidade seria teatral, externa,
não verdadeira, não alojada no fundo de meu
coração.”
Esta questão de “fazer um personagem” é muito
interessante. A influência do Ponto 3 Eneagramático
é flagrante nesta atitude de “parecer outro” que
aparentemente é mais bem-sucedido ou mais
aceitável pelos outros. Por outro lado, esconde uma
clara manifestação da inveja.
Às vezes essa tentativa de parecer uma outra
pessoa, de mostrar-se diferente, é considerada como
uma forma de “renegar” a si mesmo. Isto é o que
podemos comprovar no depoimento da nossa
brilhante aluna: “Ter renegado minhas raízes
cristãs, ter reprimido de forma tão formal meu
modo de ter, ser e sentir, ter tentado extirpar o crer
profundo por um saber com suas bases no intelecto
e na razão, mesmo que tentando dar voltas pela
sensibilidade...”. Num outro trecho indaga: “por
que essa enorme atração por máscaras pela vida
afora? Em minha poesia há tantos tipos, tantas
máscaras que uma pintora chegou a pintar inúmeros
quadros baseados nos meus poemas...” e se descobre
justamente num desses quadros em que “o Pierrô
tirou a máscara e a Colombina continuou seu jogo
mascarada”. Ela descreve assim sua descoberta:
“Um dia, refletindo sobre a beleza do quadro, fiquei
chocada ao certificar-me de que aquela Colombina
era eu. Então enumerei todas as máscaras usadas no
decorrer da vida e fiquei atônita ao constatar como,
nos poemas, lá estavam descritos certinhos os papéis
assumidos. Percorreu-me um frio pela coluna!
Afinal, quem era eu?”
Esse viver assumindo outros papéis, renegando a si
mesma, criando um “personagem”, botando uma
máscara, além de ser em si uma causa de
sofrimento, vai gerar outras reações negativas. É um
sofrimento que pode chegar a ser somatizado. Nossa
aluna percebe que essa repressão do seu modo de
ter, ser e sentir “... Levou-me a um estado
emocional tal que comecei a somatizar minha dor
pela pele, pelo pâncreas e depois pelo coração...”
Uma reação semelhante vai acontecer com nosso
aluno: “Aos 17 anos passei a sofrer de uma
enxaqueca miserável, que não me abandonava e me
provocava insônia e a sensação de estar
enlouquecendo... Meu pai me levou ao médico e
ficou evidente que eu precisava de ajuda, de um
tratamento terapêutico. Precisei tomar calmantes
pesados para conseguir dormir.”
É necessário assinalar aqui que a somatização do
sofrimento inconsciente manifesta-se em todos os
Tipos Eneagramáticos, sendo que, para Tipos 4 e
Tipos 6, essa somatização pode ser muito mais
severa e/ou desastrosa, razão pela qual estes tipos e
os tipos ligados diretamente pelo movimento da seta
eneagramática (Tipos 1 e 2 para o caso do Ponto 4 e
Tipos 9 e 3 para os casos ligados ao Ponto 6),
devem tentar realizar um trabalho mais profundo a
respeito.
Espero que você, querido (a) leitor (a), Tipo 4 ou
não, reflita nas suas próprias formas inúteis de
sofrimento e tome as medidas necessárias para que
não dominem de tal maneira sua existência a ponto
de convertê-lo (a) numa vítima de si mesmo (a).

Iniciando o processo de mudanças positivas, a


observação
dos companheiros eneagramáticos 3 e 5

Você descobrirá muitas “dicas” sobre seu mundo


interno, observando as influências dos Pontos 3 e 5
do Eneagrama. Os aspectos positivos do Ponto 3,
tais como a capacidade de trabalho, de encontrar
satisfação nas suas conquistas ao mesmo tempo em
que luta por atingir metas e objetivos, podem ajudá-
lo a não abandonar seus projetos antes de concluí-
los. Os Tipos 4 estão num ponto do Eneagrama no
qual é preciso aprender a finalizar projetos, evitando
os desvios, ainda que pareçam existir muitas razões
para abandoná-los. Peço para que você reflita e
aprenda a contrariar sua máscara quando sinta esse
impulso de não chegar até o fim nos seus projetos,
ou quando justifique racionalizando o porquê de
determinados desvios nas ações realizadas ao longo
de sua existência. Do Ponto 3 aprenda também os
perigos de mentir-se em relação à aparente
impossibilidade de ser feliz. Aprenda do 3 a curtir
seu presente e agradeça e valorize o que possui hoje.
Aprenda a viver mais presente e no presente,
permitindo-se ser feliz e parando de sofrer
inutilmente. Seja mais extrovertido e curta suas
conquistas pessoais.
Do Ponto 5, os Tipos 4 possuem a capacidade de
pensar, raciocinar profundamente e o gosto de estar
sozinhos. (Krajcberg gosta disso e até construiu sua
casa no topo de uma árvore na Bahia. Algo que
qualquer Tipo 5 adoraria, certamente). Os Tipos 4
são pessoas inteligentes, capazes de observações e
pensamentos originais e interessantes. Gostam de
estar sozinhos, como reconhece nossa aluna neste
depoimento: “... Me sinto em paz, serena e
tranquila quando me interiorizo. Quando estou só
comigo mesma, estou com uma sensação interna
muito boa e agradável. Quando estou estressada
busco, quando posso, ficar comigo mesma, e me
equilibro emocionalmente.” Do Ponto 5, procure
evitar que essa capacidade de raciocinar não se
transforme em capacidade de racionalizar
negativamente suas perdas e faltas. Tente reconhecer
como nossa aluna que “algumas vezes, quando sou
tomada por um sentimento negativo, ficar só
aumenta ainda mais a dor, porque procuro
racionalizar o sentimento e muitas vezes isto leva-
me a um estado depressivo”. Então, fique de olho...
Do Ponto 5, Tipos 4 deveriam aprender a refletir e
sentir menos emocionalmente. O problema aqui é
não “saber sentir”. Sente-se com exagero. Daí a
necessidade de ser equânime. Os aspectos negativos
da influência do Ponto 5 que deverão ser evitados
são, entre outros, a tendência a criticar ou
desmerecer os outros, a tendência a afastar-se das
pessoas, lembrando que “solidão” não é
“isolamento”, a tendência a um pensar negativo em
relação ao presente e a tendência à autocrítica
destrutiva.

Percebendo o negativo e o positivo


dos movimentos aos pontos 2 e 1

O movimento da seta para o Ponto 2 provoca nos


Tipos 4 importantes reações. Quando negativo, esse
movimento os transforma numa espécie de sofredor
orgulhoso. Sofrer passa a ser um destaque da
personalidade. Por outro lado, COLABORA na
teatralização dos seus sofrimentos com objetivo de
atrair a atenção dos demais. Não exagere suas
possíveis carências. Não pretenda, como os Tipos 2,
ajudar os outros ilimitadamente. É positiva sua
sensibilidade pelos sofrimentos dos outros, mas
aprenda a “desidentificar-se” quando necessário.
Evite manipular os outros e tente não depender
demais do “ombro amigo”. O positivo do
movimento ao 2 se produz quando os Tipos 4
aprendem a estar com os pés no chão graças ao
cultivo da humildade egoica. Não “inflacione” seu
ego, a ponto de achar que você é único, original e
tão diferente dos outros que até dá a impressão de
não ser deste mundo. No movimento contra a seta
ao Ponto 1, você descobrirá como seu anseio por
uma felicidade futura ou por voltar a viver uma
felicidade perdida evolui associado à ideia de uma
“perfeição” (o trabalho perfeito, a atividade
perfeita, o local perfeito, etc.) que não existe na
realidade. Este movimento negativo contra a seta
está presente numa parte do depoimento da nossa
aluna. Reflita no que ela percebe desta “busca”
idealizada do que poderia ser a situação perfeita:
“Quando enfim estava estagiando e com a
possibilidade de pós-graduação no Museu Nacional
do Rio de Janeiro, resolvi abandonar tudo em troca
de um sonho maior: viver no campo... Até hoje a
minha indecisão me impede de promover
realizações...”
Lembre-se, não admita o sabotador interno.
Decida parar de sofrer inutilmente a partir de agora.
Aprenda a observar como a insatisfação com o
presente provoca uma raiva interna que aumenta a
dor de viver. Aprenda a ser menos crítico em relação
à sua realidade e na sua percepção das pessoas que
se relacionam com você direta ou indiretamente.
Esta atitude positiva pode salvá-lo da armadilha de
querer descobrir “a quinta pata do gato”, que na
verdade... não existe! O positivo do movimento ao
Ponto 1, é que ele permite a você poder cultivar a
Serenidade. Não seja rígido com você a ponto de
essa rigidez ofuscar sua visão de outros ângulos da
realidade. Cultivando a Serenidade, você aprende a
relaxar e sentir o que possui para ser feliz no
presente, porque relaxado você fica mais ciente da
existência real. Serenidade e Equanimidade se
complementam.
Ao referir-se ao positivo que este conhecimento
trouxe à sua existência, nosso aluno 4 termina seu
depoimento lembrando que precisa “trabalhar os
demais planos do ser (principalmente o físico), para
vivenciar o Eneagrama numa plenitude maior, mais
humana, mais enriquecedora, mais próxima da
nossa verdadeira essência”.
Na verdade, os Tipos 4 ganham em consciência de
si quando trabalham o Centro do Movimento. A
razão é simples: O Centro Físico está sempre no
momento presente. Manifestar-se cons​cientemente
mediante ele facilita o Trabalho. Hermeticamente,
isto se explica graças à Lei de Correspondência: se é
assim externamente (presença por intermédio do
Centro do Movimento), assim será internamente
(presença do observador no momento presente).

Trabalhando para conseguir ser equânime

Já dissemos que Tipos 4 são pessoas de percepção


e sensibilidade extraordinárias. Aliás, isso é fácil de
constatar nos exemplos e depoimentos citados neste
capítulo. O fato de serem sensíveis ao sofrimento,
faz deles pessoas muito fraternas e compreensivas,
capazes de ajudar a outras pessoas. Existem certos
aspectos que fazem de Tipos 4 e 8 semelhantes na
procura da justiça. Por meio de meios diferentes,
ambos os Tipos sentem-se chamados a combater
injustiças.

A prática da Equanimidade, virtude a ser


descoberta e praticada pelos Tipos 4, pode fazer
dessa sensibilidade ao seu sofrimento e ao dos
outros uma poderosa ferramenta de crescimento e
progresso pessoal e coletivo. Podemos definir a
Equanimidade como a capacidade de ficar no meio
em relação aos extremos do sofrimento. É essa
capacidade de achar o que Buda chamou “o
Caminho do Meio”, que fica a igual distância dos
extremos do nosso famoso bastão.
Se o sofrimento inconsciente é uma tolice, o
sofrimento consciente é um poder nas mãos
daqueles que aprendem a usá-lo.
Os meus alunos aprendem, por meio de práticas
precisas, essa diferença, e chegam a utilizar o
sofrimento consciente como um instrumento
gerador de benefícios deliberadamente objetivados.

Quando alguém que possui esta Máscara


Eneagramática descobre suas formas de
“masoquismo”, está perto da Equanimidade, porque
esse “dar-se conta” é o primeiro passo para se tentar
mudanças efetivas. Para isso se precisa considerar
externamente e não achar que o “nosso sofrimento é
único e inigualável”. O nosso aluno descobriu que a
somatização do seu sofrimento foi um processo que
lhe permitiu melhorar interna e externamente, aos
poucos, como ele mesmo des​creve:
“Como eu sabia que meu pai não tinha dinheiro
para o tratamento, mas que se sacrificaria por mim,
tomei a decisão de fingir que estava bom. Joguei o
vidro de calmantes pela janela e até hoje, 29 anos
depois, nunca mais coloquei em minha boca algo
semelhante. Pela primeira vez em minha vida, decidi
não mais apoiar-me em fantasias, nem em gozos
teatrais masoquistas, nem em qualquer muleta
externa. Resolvi caminhar pelas próprias pernas,
usando minhas próprias forças, enfrentando sozinho
meus próprios fantasmas. Creio que foi minha
primeira grande atitude saudável perante a
existência, a primeira grande conquista de
autonomia. E comecei a melhorar.”

Na continuação do depoimento pude constatar


como ele conseguiu ultrapassar momentos que, para
outros “românticos trágicos”, teriam sido difíceis
ou impossíveis de superar. As influências positivas
dos Pontos 3 e 2 foram fundamentais. Veja a
continuação, como isso aconteceu:
Após ter superado uma “séria inclinação ao
suicídio” devida ao rompimento com uma garota
por quem era apaixonado, ele decide “explodir com
tudo”, ou seja, destruir seu passado de sofrimento e
reiniciar sua vida longe de sua terra natal (está
lembrando Krajcberg abandonando a Europa?... Pois
é... Também Sá-Carneiro, enfim, como a felicidade
parece nunca estar aqui...):
“Abandonei meu curso de Psicologia no meio do
segundo ano... E junto com uma amiga recente,
mudei-me com a cara e a coragem para o Rio de
Janeiro. Nesta cidade, fui mais feliz.... Passei a
representar cada vez menos, embora não na
velocidade desejável. Devo confessar que as perdas
amorosas me aprisionaram muito tempo no
passado, num limbo de sofrimento, não em um
paraíso perdido, mas numa mescla de dor e vazio
aparentemente insuperáveis, que só o tempo poderia
curar – e esse tempo de cura demorava muito a
chegar, pois o vício do sofrimento estava enraizado
em meu coração.”

Superando “o vício do sofrimento”

A última parte do depoimento deste aluno me fez


lembrar a resposta que o sábio Sileno[7] deu ao
poderoso Rei Midas, após um duro interrogatório
com o qual o lendário rei “o obrigou a transmitir-
lhe importantes ensinamentos”, revelando-lhe com
desdém que o mais conveniente para ele, como parte
da espécie humana, e portanto, conveniente a todos
nós humanos era, simplesmente, morrer: “O melhor
de tudo é para ti inteiramente inalcançável: não ter
nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o
melhor para ti é logo morrer.” Com certeza, para
alguns Tipos 4 tão sensíveis ao sofrimento e tão
trágicos quanto os gregos da época de Eurípedes,
essa dura resposta teria sido um bom motivo para
afundar de vez no “vício do sofrimento” e ainda
seria uma boa razão até para justificar o suicídio.
Porém, nosso aluno teria questionado ao velho e
sábio Sátiro.
A descoberta do sofrimento como um vício,[8] um
vício que ele reconhece ter superado após anos de
grandes lutas internas, “auxiliado... pelos choques
dados pela vida e pelos toques que recebi das
pessoas mais próximas”, foi o que finalmente o
conduziu após os 30, e já cansado de tanto
sofrimento inútil, à descoberta dos primeiros frutos
da equanimidade: “... Consegui finalmente
contrariar minha máscara e abrir espaço para a
entrada da felicidade em meu coração!” Sim, não
importa quanto tempo você demore para
compreender que o sofrimento inconsciente é um
VÍCIO, um vício que faz com que os Tipos 4
percebam, como nossa aluna, que essa atitude tão
trágica perante a existência não é boa por que:
“Sempre insatisfeita. Os ideais nunca eram
atingidos! A realidade era sempre castradora e
esmagadora se não cruel e ameaçadora!”
Então, mudar de atitude é fundamental para
conseguir vivenciar a virtude da equanimidade. Não
se deixe influenciar demais pelo “velho Sátiro”
Sileno que nos lembra o trágico da nossa existência.
É verdade que o sofrimento existe, porém não é
verdade que a felicidade não possa existir nas nossas
vidas. Sofrimento e felicidade são apenas o natural
movimento do pêndulo existencial. Ficar à mesma
distância dos extremos desse movimento é o segredo
oculto nesse Arcano Maior do Tarô chamado por
Aleister Crownley, “A Arte”, sim, a arte de viver
neste Templo da vida cujo chão está formado de
quantidades iguais de quadrados pretos e brancos,
conformando um harmonioso e belo Mosaico pelo
qual devemos aprender a caminhar equânimes,
aplicando o Princípio Hermético da Polaridade.

Aplique o conselho de Gurdjieff

Assim como no início deste capítulo citei uma


resposta de Gurdjieff em relação ao tema do
sofrimento, acho oportuno citar outra ao final.
Espero que você reflita sobre ela e se lembre dela a
cada dia. Quando alguém perguntou a Gurdjieff:
“qual o papel do sofrimento no
autodesenvolvimento?”, ele respondeu: “Existem
duas classes de sofrimento: consciente e
inconsciente. Somente um tolo sofre
inconscientemente. Na vida existem dois rios, duas
direções. No primeiro rio, a lei é somente para o
rio, não para as gotas d’água. Nós somos as gotas.
Num momento uma gota está na superfície, num
outro momento está no fundo. O sofrimento
depende da sua posição. No primeiro rio, o
sofrimento é completamente inútil, porque ele é
acidental e inconsciente. Paralelo a esse rio tem um
outro. Neste outro rio existe outra classe de
sofrimento. A gota do primeiro rio tem a
possibilidade de passar ao segundo. Hoje a gota
sofre porque ontem não sofreu o suficiente. Aqui
opera a Lei de Retribuição. A gota também pode
sofrer por antecipação. Cedo ou tarde tudo se paga.
Para o Cosmo o tempo não existe.
O sofrimento pode ser voluntário e somente o
sofrimento voluntário tem valor. A gente pode sofrer
simplesmente, porque se sente infeliz. Ou pode
sofrer por ontem para preparar-se para o amanhã.
Repito, somente o sofrimento voluntário tem
valor.” Boa reflexão!
Parte III
- Centro Intelectual (Traços 5, 6 e 7)
Centro Intelectual
Traços 5, 6 e 7
O Traço 5
: O eu que pensa

O eu
que pensa

Gurdjieff ensinava que “é impossível lembrar-se de


si mesmo. E não podemos nos lembrar, porque
queremos viver unicamente pelo mental... Talvez
vocês se lembrem do que dissemos do homem: nós
o comparamos a uma atrelagem com um amo (o
Ser), um cocheiro (Centro Intelectual), um cavalo
(Centro Emocional) e uma carruagem (Centro do
Movimento). Não podemos nem falar do amo, pois
ele não está presente; de modo que só podemos
falar do cocheiro. Nosso mental é o cocheiro...
Todos os interesses que temos em relação à
mudança e à transformação de nós mesmos
pertencem apenas ao cocheiro, quer dizer, são
unicamente de ordem mental... A transformação não
se obtém pelo mental; se for pelo mental, não tem
nenhuma utilidade. Por essa razão devemos ensinar,
e aprender, não por meio do mental, mas do
sentimento e do corpo... Naqueles que estão aqui,
aconteceu acidentalmente um desejo de chegar a
algo, de mudar alguma coisa. Mas apenas no
mental. E nada mudou ainda neles. Não passa de
uma ideia que têm na cabeça e cada um permanece
o que era. Mesmo aquele que trabalhasse
mentalmente durante dez anos, que estudasse dia e
noite, que se lembrasse mentalmente e lutasse,
mesmo esse não realizaria nada útil ou real, porque
mentalmente nada há para mudar. O que deve mudar
é a disposição do cavalo. O desejo deve estar no
cavalo e a capacidade na carruagem. Mas como já
dissemos, a dificuldade é que, devido à má educação
moderna, a falta de relação entre nosso corpo
(carruagem), nosso sentimento (cavalo) e nosso
mental (cocheiro) não foi reconhecida desde a
infância, e a maioria das pessoas está tão deformada
que não há mais linguagem comum entre uma parte
e outra...”
Certa feita, falando sobre a necessidade do
desenvolvimento harmonioso dos três centros no ser
humano (Físico, Emocional e Intelectual), Gurdjieff
disse: “Em cada um de vocês, uma das máquinas
internas que os constituem está mais desenvolvida
do que as outras. Não há nenhuma conexão entre
elas. Só se pode chamar homem sem aspas aquele
em quem as três máquinas estão igualmente
desenvolvidas. Um desenvolvimento unilateral só
pode ser prejudicial. Um homem pode possuir certo
saber, pode saber tudo que deve fazer... esse saber é
inútil e pode até se revelar perigoso. Cada um de
vocês é deformado...”
Não, por favor, não quero invadir sua privacidade
com esta
análise... O quê?..., Claro! Ora bolas! Tenho certeza
de que você
tem que raciocinar sobre esta interessante tipologia
antes
de emitir qualquer opinião...!

Quando visitei Petrópolis (RJ) pela primeira vez,


tive a oportunidade de conhecer os “fragmentos
externos” da vida e obra daquele que, na minha
opinião, foi o mais importante Tipo 5 brasileiro.
Conheci sua “racional” casa, na qual até os degraus
da escada que permitem chegar ao ninho desta
brilhante “águia” foram pensados. Como é que as
pessoas não percebem que não vale a pena construir
degraus completos numa escada já que pisamos em
um de cada vez, ora com o pé direito, ora com o
esquerdo? Pensou na economia de material? Bom,
talvez em alguns casos as escadas tenham que
continuar sendo do tipo que conhecemos. Porém,
você concordará comigo que esta ideia bem que
poderia ser considerada. Os governos e as
empreiteiras poupariam recursos e a gente pouparia
grana, certo? E que dizer do uso racional do espaço
que você percebe nessa casa...? E o chuveiro a álcool
(dizem que é muito mais econômico que o elétrico
ou a gás!)? E a mesa que de noite serve como cama?
Porém, o mais notável é o local que escolheu para
mandar construir essa sua casa. Uma encosta
íngreme, na qual ninguém pensaria em construir...
(eu sei, você talvez pensasse, sim...) Com certeza, ele
comprou barato esses metros quadrados de terra,
justamente, pelo inadequado que deve ter parecido a
qualquer um construir ali qualquer coisa! Mas ele
fez. Eu nem sei se ele está gostando que turistas
como eu invadam sua casa. Enfim. Ele fez por onde
merecer essa nossa curiosidade, certo?... Sim, você
acertou: estou me referindo ao genial inventor de
fama internacional Alberto Santos Dumont. Um
Tipo 5 que, como Leonardo da Vinci (outro 5
notável), encontrou no exercício da razão e da
inteligência criativas um meio (para eles o mais
importante) de comunicar-se com seus próximos. De
outra maneira, teria sido muito difícil, com certeza.
Amante das alturas, Santos Dumont tinha nessa casa
até um observatório... Gostava de ficar horas
olhando as estrelas... sozinho. Sua vida foi especial.
Quando seu pai, um homem rico, o estimula a
conhecer o mundo e a aperfeiçoar seus
conhecimentos, deixando claro que pode fazê-lo
porque sua fortuna lhe possibilitará fazer o que
quiser sem preocupações materiais, Santos Dumont
inicia uma vida de descobertas maravilhosas e úteis
para todos, num claro e produtivo movimento ao
melhor do Ponto 7 Eneagramático. Poderia ter
dilapidado sua fortuna nos prazeres de um dolce far
niente como um bon vivant na tentadora França da
época... Porém, ele tinha um destino e seus frutos
geniais nos fazem refletir sobre o que Gurdjieff
chamava de nossa “dívida com a existência”. Sua
vida emocional foi complicada, tinha, como todo 5,
dificuldades para relacionar-se. Uma das mulheres
que conheceu e com a qual manteve o que
poderíamos chamar de “um romance”, foi uma
chilena com a qual parece ter podido conciliar essa
necessidade de solidão-liberdade com a discrição
que muitos Tipos 5 procuram.
Nossos vizinhos americanos “mestres”, segundo
Gurdjieff, “na arte de converter moscas em
elefantes”, deram um jeito para que este brasileiro
ilustre perdesse os créditos como “Pai da Aviação
Mundial” para os famosos irmãos Wright. (Em
viagem ao Brasil, em 1997, o presidente do EUA,
Bill Clinton, reconheceu a primazia de Santos
Dumont.) Como latino-americano, me enche de
orgulho sua existência, até porque, quando estudei
história no segundo grau, ninguém me falou de
Santos Dumont no Chile... Mas agora que a
América Latina está se unindo mais graças ao
Mercosul, é valioso que todos saibamos como nestas
terras têm nascido “elefantes de verdade” e não
“apenas moscas” (este é o meu 8 fazendo
comentários!). Quando li em algumas enciclopédias
sobre este grande homem, percebi um outro aspecto
de seu traço principal: ele numerava seus balões –
balão número 1, 2, 3, etc., até o 14-bis! Você não
deve estranhar, claro. Porém eu, como “velho”
analista de tipos humanos, vejo nesse fato outra
manifestação típica dos donos desta quinta máscara.
Só Tipos 5 conseguiriam botar número em inventos
que outros Tipos Eneagramáticos batizariam com
nomes da amada, da mitologia, ou até da mãe! Os
balões não se chamam “Vento do Norte” ou
“Carlota I” e sim Dumont 1, 2, 3... até 14-bis! Sim,
eu sei que você concorda com essa nomenclatura
científica e racional... a razão é simples: você é
Cinco! O suicídio deste inventor extraordinário (até
o relógio de pulso foi ideia dele) confirmou minha
suspeita em relação à forte influência do Ponto 4
que se pode advertir na sua vida e nos textos por ele
escritos.
Ele nunca pensou que seu invento fosse um dia ser
usado de maneiras incrivelmente destrutivas, ainda
que não descartasse seu uso bélico. Também jamais
pensou que alguns de seus compatriotas o
esqueceriam em vida e lhe negariam até a
construção de um Museu da Aeronáutica no Rio de
Janeiro. Ele aos poucos se desiludiu com os
homens...!
O movimento ao Ponto 7 é outro dos “detalhes”
eneagramáticos notáveis neste homem. Sempre
planejando novas aventuras... Na França, ele se
comportava como um bom 7 faria. Veremos que
essa conduta é típica em Tipos 5. Compare este tipo
de movimento “sem censura” ao comentado no caso
de Tipos 1, “fugindo” da sua “ordem” para relaxar.
Sair do seu castelo é um chamado à aventura, um
chamado a ser livre de todas as censuras. Em Paris,
ele será capaz de reunir-se às pessoas com o objetivo
de mostrar seus inventos e máquinas, realizará
demonstrações públicas, será até o dono de um
carro vermelho! Um exagero, claro! Mas Tipos 5
quando têm possibilidades ou necessidades de ir até
o Ponto 7 (ou contra a seta do 8), fazem cada coisa
extravagante! Amava voar, amava a liberdade dos
céus nos quais com certeza achava-se à vontade,
observando do alto seus semelhantes... altos
pensamentos... voos da águia livre que ele era...
voos que lhe permitiam isolar-se nas alturas como
um novo Ícaro redimido e triunfante... Por outro
lado, esta maneira de manifestar-se externamente
confirma que ele é o que Don Richard Riso qualifica
como Tipo 5 “sadio”, um “visionário”, um “gênio”,
um “inovador”. Quando a águia se refugia no seu
ninho localizado num ponto íngreme da protegida e
imperialmente isolada Petrópolis, talvez ele já fosse
um daqueles Tipos 5 que não tinha mais fé nos seus
irmãos da espécie. Suas clarividentes visões do
futuro o fazem semelhante somente a um Julio
Verne. Escreveu dois livros, um dos quais tem o
título de O que vi e o que veremos (aliás, um título
tão próprio de Tipos 5, no sentido de refletir esse
constante estado de observação do mundo e dos
demais que os caracteriza), em que “vê” o futuro da
aviação como meio de transporte de massas e
mercadorias. Enfim. Gostei muito de “descobrir”
este brasileiro tão único e admirável.

Consideração interna e o traço principal:


a tendência ao isolamento (ou da sutileza da
avareza)

Quando ministramos o workshop do Eneagrama


para mais de 70 voluntários do projeto
Simplesmente Copacabana, no ano de 1996, sob o
patrocínio da Prefeitura do Rio de Janeiro e do
Banco Real, tivemos a oportunidade de conhecer
pessoas muito especiais. Uma delas, Tipo 5, nos
entregou, a pedido nosso, seu depoimento de como
tinha descoberto sua máscara eneagramática.
Destaco este depoimento porque esta pessoa é um
homem da chamada “terceira idade” que, com o
passar dos anos, conseguiu uma profunda
compreensão de si mesmo. Ele é um homem ativo,
inteligente, estudioso, que durante todas as ocasiões
em que pudemos observá-lo, mostrava-se sempre
profundamente interessado por todos os
conhecimentos que nós, e outros instrutores
convidados, transmitimos para esse grupo de
pessoas interessadas em trabalhar por uma
cidadania mais ativa e pela revitalização da
maravilhosa “Princesinha do Mar”. O depoimento
completo – quando digo completo, quero insinuar
algo que revelarei daqui a pouco – é este:
“Descobri meu enquadramento neste tipo
justamente por uma tendência ao isolamento,
desenvolvida a partir da incompreensão alheia ao
meu projeto de vida, daí resultando o
ensimesmamento que favoreceu minha apreensão de
conhecimentos julgados importantes ou oportunos
àquele projeto. Para estudar inglês, numa
adolescência pobre, dispus-me a copiar, a mão, todo
um livro, utilizando o verso de papel já servido.
Como natural consequência, escolhi a via
autodidática que me permitia total discrição sobre o
que, e como saber. Isso me deu uma confortadora
sensação de realização pessoal que, de certo modo,
veio me reconciliar com o mundo e nele atuar, com
relativo sucesso, à base dos conhecimentos
adquiridos, compensando a falta de uma tradição
perseguida e prezada pelos demais.”
Sublinhei algumas partes deste depoimento por sua
importância para a análise eneagramática:
“tendência ao isolamento”, “incompreensão alheia”,
“ensimesmamento”, ”discrição sobre o que, e como
saber”, “reconciliar com o mundo e nele atuar”.
Sim, nestas palavras temos as chaves para conhecer
um pouco deste Tipo Eneagramático. Sem dúvida,
qualquer Tipo 5 poderia construir uma definição
quase completa sobre si mesmo usando apenas elas.
Talvez, dissesse, por exemplo: “Costumo ser uma
pessoa capaz de um constante ensimesmamento, em
razão da incompreensão alheia ao meu modo de
enxergar a realidade e as pessoas. Devido a este
fato, tenho tendência ao isolamento. Porém, acho
que esta capacidade de isolar-me me permite
aprender e saber tudo aquilo que preciso para ser
independente dos demais – objetivo pelo qual
sempre luto com total discrição. Desta forma, eu
mesmo decido sobre o que e como saber. Sei que
devo reconciliar-me com o mundo. Penso que por
meio de meus conhecimentos consigo atuar nele com
certo sucesso. Ainda assim tento manter-me
afastado dos demais, preservando minha
privacidade.”
O depoimento de nosso querido Tipo 5 – no caso,
bastante “redimido” como costumam falar os
especialistas cristãos desta tipologia – é breve,
porém retrata quase todos os possuidores desta
máscara: eles sempre são breves, precisos, mentais,
alguns quase frios (outros eu diria que parecem
“congelados” emocionalmente). Nesse “jeito breve
de ser”, nessa “precisão” e “frieza”, no modo de
falarem de si mesmos por escrito revela-se o pecado
ou Traço Principal deste tipo: a avareza. Uma
avareza que possui expressões internas e externas,
provocadas pelo medo nuclear (Ponto 6 do
Eneagrama) que afeta a este e aos outros Pontos
Eneagramáticos relacionados aos chamados “Tipos
do Centro Intelectual”. Foi interessante comprovar
com os Tipos 5 como essa avareza é reforçada
naqueles com influência do Ponto Nuclear 6. Os
Subtipos 5 com essa influência se descrevem por
meio de listas – numeradas ou não – com curtas
frases nas quais eles resumem ou sintetizam o que
consideram “a única coisa importante para
comunicar” de cada um deles. Somente aqueles com
maior influência do Ponto 4 conseguem escrever
mais sobre si mesmos, sem recorrer a essa listagem.
Os primeiros só conseguem dizer algo mais sobre si
mesmos após um pedido expresso de nossa parte.
Dados intelectuais considerados importantes são
colocados em alguns desses trabalhos escritos, até
utilizando símbolos ou abreviaturas, talvez para que
somente “os que sabem” tenham acesso ao
significado secreto que essas abreviaturas e símbolos
escondem. Sim, em geral, os depoimentos dos Tipos
5 são a expressão do Traço Principal que eles
deverão vencer em diferentes níveis de manifestação.
Era isto o que há pouco prometia insinuar. Tipos 5
são mais discretos e mais reservados nos seus
depoimentos quanto mais forte a influência nuclear
do Ponto 6. Quando, pelo contrário, é o Ponto 4 o
de maior influência, seus depoimentos são mais
generosos, porém nunca tão veementes no
emocional quanto seus românticos e trágicos
vizinhos.
Talvez o depoimento mais relevante a respeito
dessa avareza intrínseca foi o daquele ex-membro da
escola, que escreveu (mais uma vez o depoimento se
transcreve com​pleto):
“Um Nº 5, faria um detalhado e minucioso
relatório. Eu já fiz muito isso. Agora cansei. Prefiro
falar pessoalmente para o grupo e contribuir com
comunicação viva, orgânica. Não é preguiça, é
consciência de prioridades. É melhor trocar energias
que fazê-las girar em círculos dentro de si mesmo.
Prefiro falar, dançar e cantar; escrever só quando
indispensável. E assim se deu o suicídio do 5.”
Sei que alguns especialistas em análise
eneagramática ficariam pensando o mesmo que eu,
ou seja, como se confirma o Tipo de 5 deste sujeito
nesse breve depoimento... e que notável a influência
do Ponto 4! O tempo veio comprovar que esse
aparente suicídio do 5 nunca se realizou. Só para
manter meu propósito de que podemos rir de nós
mesmos, vou contar-lhes como aconteceu a
ressurreição da máscara deste seu semelhante. Um
dia, conversava com ele sobre a possibilidade de
instruir a mais pessoas (ele é terapeuta corporal),
com certos movimentos conscientes que ele tinha
aprendido num workshop recente. Sua resposta,
lacônica, foi mais ou menos a seguinte: “Acho que
não vou fazer isso... o ouro é muito pouco para
compartilhar com tantos” (estas últimas palavras
foram ditas por Gurdjieff referindo-se ao valor do
conhecimento que ele ministrava e nosso 5 achou
oportuno citá-las naquele momento). Foi incrível! O
Nº 5 tinha sobrevivido ao “suicídio” e com grandes
argumentos ainda por cima!
Bom, estou tentando fazer com que você não se
leve muito a sério nesta análise e por isso contei este
caso que me pareceu tão engraçado.
A sutileza do pecado da avareza faz com que
alguns Tipos 5 fiquem surpresos quando é
mencionado este pecado capital da quinta máscara.
É difícil para eles admiti-lo. Outros compreendem a
profundidade desse aspecto imediatamente e reagem
com uma certa felicidade por terem descoberto a
razão de sua incapacidade para se relacionar com os
outros. Alguns decidem que devem aprimorar-se a
nível emocional e admitem a dificuldade de
expressar seus sentimentos. Alguns riem de si
mesmos quando descobrem como a avareza se
manifesta nessa incrível capacidade de escapar dos
outros, de ficar invisíveis num local com muita
gente como um meio de poupar-se de pessoas que
falam só abobrinhas.
Como surge o traço principal?

O surgimento da avareza eneagramática se dá, às


vezes, por uma percepção, desde muito cedo, de
falta de privacidade, ou por perdas (veja a influência
do Ponto 4) inexplicáveis que geram temor e
sensação de perigo. Para outros, essa característica
ou Traço Principal surge como resultado de uma
percepção fortíssima de “parecer diferente dos
outros” em razão de certas vivências infantis
marcantes. Como acontece com todas as máscaras, a
infância é o ponto crucial na construção da futura
persona.
Este depoimento de Carla, nos ajudará a
compreender esta questão. Sob o título de “Caso de
uma Nº 5”, ela escreve:

“...eu tinha mais ou menos quatro anos de idade e


a minha irmã era mais velha do que eu um ano e
pouco. Éramos companheiras de brincadeiras
durante o dia todo. Meus pais trabalhavam fora, e
este era mais um motivo para sermos unidas. Então
a minha mãe resolve mandar a minha irmã para
outra cidade, relativamente distante. Eu não tinha
capacidade para entender o que havia acontecido.
Eu só sentia que a mamãe havia ‘dado a minha
irmã’ e a dor desta perda era muito grande. Mais
tarde vim a entender que ela tinha ido para a casa
de uma tia solteirona, de maior poder aquisitivo, e
assim deixaria os meus pais mais folgados
financeiramente. Lembro-me desta época sentindo
muita saudade de minha irmã. Os dias eram longos.
Eu não tinha mais com quem brincar. Existem cenas
na minha memória de grande tristeza e solidão.
Ficou um vazio com a partida dela.
Então acho que daí nasce todo o comportamento
do 5, em querer evitar sofrer novamente a dor de
uma separação. Evito me envolver com as pessoas,
para não correr o risco de sofrer novamente.
Este comportamento durou a minha vida toda
praticamente, até ter começado a minha busca
interna, aonde venho tomando consciência desta e
de outras coisas. Inclusive quando mais tarde a
minha irmã voltou, eu já não queria mais me chegar
até ela.
Existe comigo uma forte asa 6 pois naquela época
cresceu um enorme medo, já que eu não sabia o que
poderia acontecer comigo, tipo assim: ‘será que a
mamãe vai me deixar hoje na próxima esquina? ou
será amanhã’.”
Outra aluna revela como a intromissão dos
adultos vai provocando essa necessidade de ocultar-
se e poupar-se que vai gerando sua máscara desde
muito cedo:
“Filha do meio, única menina de uma família de
três filhos... Morávamos numa casa vizinha ao sítio
da minha avó... Vovó era uma pessoa de
personalidade muito forte. Meio autoritária e
dominadora. Ajudava bastante meus pais... E se
sentia no direito de interferir nas suas vidas. Junto
com os meus avós moravam três tias-avós
solteironas. Cada uma escolheu um dos netos como
predileto. Eu, por ser a menina, era a mais vigiada...
Isso sempre me incomodou muito... O excesso de
zelo só fez crescer quando comecei a ficar mocinha.
Sempre fui uma menina tranquila e geralmente
obediente. A rebeldia só surgiu depois do primeiro
namorado mais sério. Houve brigas por não
cumprimento de horários ou por mentirinhas para
conseguir escapar nos fins de semana. E, finalmente,
com ajuda dos meus irmãos, aos 16 anos consegui
ganhar a liberdade. Mas meus pais nunca
suportaram e sempre reprovaram meu namoro...
Acho que eles tinham razão em muita coisa. Mas
sou teimosa. Odeio cobranças e ser pressionada.”
Mais adiante, nossa aluna lembra que durante a
infância “e para complicar, tinha um irmão mais
velho repressor. Encarregado (coitado) de proteger a
irmã. E o fazia, à sua maneira”.
Essa tremenda intromissão na sua vida provocou
essa forma de avareza que chamamos poupar-se dos
outros, afastar-se, isolar-se. Uma reação que ela
explica assim:
“Cedo conheci a solidão e o sentimento de
abandono. E comecei a buscar o prazer que essa
situação me oferecia. Lembro que no casarão existia
um porão e eu gostava de me esconder e ouvir as
minhas tias loucas atrás de mim. ‘Onde está a
menina? Onde ela se meteu? Será que...?’ Achava
graça em presenciar a minha ausência. No colégio
era tímida e introvertida. Sempre me senti um peixe
fora d’água. Piorou, quando aos 11 anos fui morar
com os meus pais em... Fui a última a sair do sítio.
Depois da mudança para a cidade, ainda fiquei
quatro anos morando com meus avós.”
Será graças a um forte movimento ao Ponto 7 que
ela conseguirá fugir da intromissão e repressão,
brincando com os meninos quando pequena
(“sempre era muito mais interessante do que brincar
de boneca”), jogando vôlei, namorando “o menino
mais popular da escola”, vivenciando experiências
radicais e mostrando-se “rebelde”. Uma maneira
“pensada” de conseguir “fugir da pressão” e que,
como veremos mais adiante, provoca nos Tipos 5 a
necessidade de viver situações e aventuras em
segredo, “confidencialmente”, como acontece com
Tipos 1.
O Traço Principal está baseado numa reação ao
que é tirado pelos outros, uma reação ao temor de
perder algo. Portanto, Tipos 5 evitarão ser
cobrados, procurarão um porão onde se esconder.
Essa excessiva cobrança leva a uma procura de
defesa do que se possui. Compartilhar se torna
difícil porque pode implicar perdas. Quando nossa
aluna brinca com meninos, ela consegue não ser
cobrada como menina. É um modo sutil de sumir
para seus repressores, porque, brincando com os
meninos, eles pensarão que não há perigo para ela,
porquanto estará com seus dois irmãos, um dos
quais é o “encarregado” dela. Ela não poderá
brincar de boneca porque será observada, será
cobrada como menina. Ela não será totalmente
aceita pelos meninos. Ela, então, está sozinha. Sua
solidão e sentimento de abandono provocam uma
necessidade de pensar: “que prazer poderá existir
nesta minha solidão”? O primeiro virá, ao
comprovar que “achava graça em presenciar minha
ausência”. A “avareza” como reação à excessiva
cobrança e intromissão. O Traço Principal iniciará a
consolidação da quinta máscara: “É prazeroso estar
sozinho e observar os outros de longe.” Para nossa
aluna aceitar essas situações, compreender seus pais,
justificá-los, será um processo lento, fruto de um
intenso trabalho interior. Novamente, aqui é
importante que os pais que leem este livro reflitam
nas seguintes palavras com as quais nossa aluna
termina:
“Me lembro com saudade de um tempo (acho que
até os cinco anos) que sentia mais alegria e amor
pela vida e pelas pessoas. Sem desconfianças,
espontânea e autêntica. Como é bom amar por amar
e viver sem se esconder. Anseio desesperadamente
por esse resgate. Sinto ser possível. A Escola de
Eneagrama e principalmente a minha grande
vontade, têm me dado bastante esperança.”
Quem não lembra do Sr. Scrooge do famoso
“Conto de Natal”, de Charles Dickens? Ele é um
Tipo 5 tão triste na sua avareza! Serão os
“espíritos” dos natais do passado, presente e futuro
e o amor que surge nele por uma criança que o
libertarão da sua solidão e da sua avareza. Sim, para
Tipos 5 serão necessários fortes choques para
destruir o muro que foi construído por eles para
ocultar-se do mundo. O trabalho grupal permite
este processo de abertura e você está convidado a
participar nele. Para alguns dos Tipos 5 que
trabalham no aprimoramento e conhecimento de si
mesmo, esta é uma das razões pelas quais
participam de nossos treinamentos, como reconhece
esta aluna no depoimento:
“Existe em mim um desejo intenso de querer
mudar, de me livrar desses limites e poder viver
intensamente. É uma das razões pelas quais
continuo na ‘Escola de Eneagrama’.”
Temos certeza de que você refletirá a respeito de
como a avareza vai se manifestar em você e sabemos
que o Eneagrama se transformará num grande
aliado na procura do autoconhecimento. Vamos
analisar em seguida outras das manifestações
próprias desta Quinta Máscara: as incríveis formas
do apego, as manifestações do medo e os
“argumentos” para justificá-los.

O medo e as racionalizações (percebendo a


dificuldade
dos relacionamentos): como compartilhar meus
sentimentos?
Como me relacionar com os outros sem riscos?

Em geral, Tipos 5 admitem ter dificuldades para se


relacionar com os outros. Admitem ter
desconfiança, afirmam que é difícil para eles
compartilhar, emocionalmente falando. Essa
desconfiança e essa dificuldade para compartilhar
são expressões do Traço Principal associado à
avareza e à origem dela no medo nuclear do Ponto 6
Eneagramático e, portanto, vale a pena refletir nas
experiências que nossos associados descobrem
graças à observação de si mesmos em relação a estes
aspectos e aos que estão ligados de uma ou outra
maneira. Essas observações serão importantes para
você, na medida em que poderão proporcionar-lhe
certos insigths que podem libertá-lo ou provocar um
dar-se conta de como a mentalização da realidade e
dos relacionamentos pode deixá-lo fora dela e como
esse ficar de fora irá ser racionalizado como
aparentemente necessário, mais conveniente, uma
confirmação da necessidade de isolar-se e até um
argumento para justificar para si mesmo quão
agradável é ficar sozinho.
Vamos acompanhar esta questão mediante alguns
depoimentos.

Desconfiança demais!

Um aluno, Leonardo, descreve os pontos negativos


que consegue observar como expressões de seu traço
principal da seguinte forma:
“A desconfiança em demasia prejudica os
relacionamentos. – O intelectual (refere-se ao
Centro Intelectual) controla as emoções, tirando a
naturalidade. – Dificuldade de dar e receber, de
compartilhar. – As pessoas são constantemente
testadas e após passarem por um crivo continuam
sendo testadas. Se houver decepção não tem perdão.
– Dificuldade de compartilhar o espaço. – Por ser
extremamente responsável e intolerante com os
outros e até consigo mesmo....”
O medo que influencia os Tipos 5 e 7, a partir do
Ponto 6, é racionalizado. Mediante uma reação
mental à realidade Tipos 5 decidem isolar-se, Tipos
7 decidem afastar-se, enquanto os 6 decidem não
confiar e esperar sempre o pior. É uma reação
mental, porque não conseguem externalizar o que
sentem, não sabem como fazê-lo, nem foram
incentivados a isso. Durante a infância os adultos
não explicaram seus atos e aparentemente não
queriam saber o que é que esses atos provocavam
nos seus filhos. Portanto eles deverão encontrar
também sozinhos as respostas. O medo levará os
Tipos 5 a refletir mais ou menos assim: Se é difícil
manter a privacidade, se as pessoas parecem querer
invadir o meu espaço, se não é possível confiar nos
outros, essa realidade ameaçadora deverá ser
compreendida, estudada, analisada, porque desta
maneira vou me proteger. Só o que eu conhecer e
dominar mentalmente será confiável, e, para
conhecer, é necessário estar sozinho também. Então
não se deve nem confiar nem depender dos outros.
As razões para estas “reações”, como observamos
nos depoimentos deste capítulo, podem ser várias:
intromissão exagerada dos adultos durante a
infância, percepção dos outros como ameaçadores
ou capazes de realizar ações inexplicáveis, como no
caso da aluna que lembra a dor de ver “sumir” a sua
irmã e imaginar que ela também pode ser
abandonada porque os pais não explicam o que
aconteceu oportunamente, e finalmente o que é pior,
achar que essa possibilidade de perda pode se repetir
e decidir que, por essa “razão”, nunca mais deverá
se envolver em demasia com alguém para não sofrer
se esse alguém some. O que provoca medo será
pensado até que esse estar sozinho seja
racionalizado como um “raro prazer”. É o momento
de pensar um pouco mais no processo de
racionalização. Sabemos que, psicologicamente
falando, a racionalização é uma expressão do
autoengano. Vale a pena lembrar que Gurdjieff se
refere ao processo de enganar ou mentir a si mesmo
como um dos principais fatores do Esquecimento de
Si. G. Allport define a racionalização assim: “A
razão adequa os impulsos e crenças ao mundo da
realidade, pelo contrário, ao invés, a racionalização
adequa a concepção da realidade aos impulsos e
crenças do indivíduo. O raciocínio descobre as
causas reais dos nossos atos, a racionalização
encontra boas razões para justificá-los.”

Somatizando o medo:
o desgaste do centro do movimento

No depoimento abaixo veremos como o medo e a


racionalização podem provocar reações
psicossomáticas negativas. Nossa aluna Tipo 5 com
forte influência dos Pontos 6 e 4 do Eneagrama, nos
revela o modo como seus medos passam a
expressar-se fisicamente (veremos esta tendência nos
Tipos 6) e o modo como este medo é um obstáculo
aos seus anseios de compartilhar (neste caso
divertir-se e dançar) com os demais:
“Eu me considero um (Tipo) 5 principalmente pela
necessidade de isolar-me. Hoje sei que o isolamento
não era uma opção desejada, mas uma necessidade
surgida de um medo insuportável de me expor ou de
me relacionar com o mundo.
Desde criança e durante uma boa parte de minha
vida sofri humilhações e injustiças (sociais). E
inconscientemente comecei a me calar e a me afastar
das pessoas vendo-as sempre como se
repentinamente elas pudessem me agredir de algum
modo. Tentava fazer tudo perfeito para não receber
críticas, fui autodidata para não ter que perguntar
ao professor e assim sempre caminhei para a
autossuficiência, para não ter que depender de
ninguém.
Não tinha amigos. Sentia-me rejeitada. Descobri
que as pessoas se aproximavam de mim somente
porque precisavam das coisas que eu fazia bem, mas
nunca me convidavam. Tornei-me uma observadora
da natureza humana para aprender como me
comportar em grupo e me aproximar das pessoas.
A solidão começou a incomodar muito e as fugas
da realidade se tornaram cada vez mais frequentes e
sofridas.
Embora eu desejasse ser mais extrovertida e me
divertir como as outras pessoas da minha idade, eu
acabava desmaiando nas festas que ia.
Certa vez, fui a um baile com algumas colegas e
em vez de tentar aprender a dançar como sempre
quis, não suportei aquele sentimento (que até hoje
não sei identificar muito bem) e me retirei do salão.
Como não podia voltar só para casa, passei a noite
toda no banheiro do clube, de onde saía de vez em
quando para que as colegas me vissem. Foi um
horror.
Nas festas que eu não podia deixar de ir,
normalmente saía sem ser notada ou então
inventava uma desculpa para sair pouco depois.
Fiquei perita em inventar justificativas para me
ausentar das festas. Mas como se não bastassem,
comecei a desmaiar em público. Aprendi a
reconhecer os sintomas e a me esconder no
banheiro.
Uma vez fui a uma festa e depois de uns vinte
minutos lá, percebi que ia desmaiar, saí
disfarçadamente, e sem ser notada voltei para o
carro onde desmaiei e voltei a mim várias vezes
seguidas. Assim que melhorei, voltei à casa, fui ao
toalete e retoquei a maquiagem. Encontrei uma sala
vazia, onde uma senhora assistia à televisão e fiquei
ali por um tempo e, na primeira oportunidade,
inventei uma desculpa mirabolante para me retirar.”
Num outro depoimento, outro de nossos alunos
Tipo 5, além de reconhecer sua “tendência ao
isolamento” e de sentir-se “frequentemente
desligado das pessoas e sem nenhum interesse pelos
seus semelhantes, mesmos os mais próximos”, relata
como o fato de ter que relacionar-se com os outros
em razão de seu trabalho lhe provocou, em algumas
ocasiões, o que define como “um profundo
desgaste”:
“Embora perceba, em mim, uma resistência para
estabelecer relações com pessoas, quando consigo
vencer esta tendência e estabelecer contato me sinto
renovado. Há alguns anos atrás cada vez que eu
trabalhava coordenando grupos, ministrando cursos,
etc., sofria um profundo desgaste e muitas vezes
adoecia após o término do trabalho.”

Talvez “sumir do mapa” seja o mais correto

No seguinte depoimento, veremos como esta


dificuldade de se relacionar com os outros pode ser
racionalizada até o ponto de achar que, afastar-se
dos demais ou evitá-los, pode ser uma “atuação
correta”:
“Assim que cheguei ao Rio, há uns oito anos,
dividia meu apartamento com um colega de serviço,
provavelmente um 7. No dia de meu aniversário, ele
e outros colegas de serviço planejaram uma festa
surpresa para mim. Logo percebi a movimentação
da véspera e desconfiei de algo no ar. Fiquei
desesperado ao imaginar: ‘uma festa para mim!... é
muita exposição, existem pessoas que não gostaria
de encontrar, além de enfrentar uma situação
inesperada, não havia me preparado com
antecedência para isso, como agir, o que falar!’
Então, no dia da festa, fugi para bem longe, ‘sumi
do mapa’. Passei meu aniversário longe, assisti a
filmes que gostaria de ver e tentei esquecer o que se
passava, de alguma forma consegui me distrair,
porém ainda continuava ansioso, o que iriam pensar
de mim? Havia pessoas que eu gostava e não queria
magoá-las, então resolvi voltar. Já era bem tarde da
noite e ao chegar percebi que a festa ainda não havia
terminado. Que situação!! Não sabia o que fazer,
fiquei indignado por não ter sido cancelada a festa
sem a presença da principal figura: eu, o
aniversariante. Fui tomado de um sentimento de
ridículo, vergonha, em suma, ‘a baixa autoestima’
apareceu e me levou ‘pro fundo do poço’.
Após esperar que o último convidado saísse, entrei
no apartamento e me tranquei no meu quarto.
Analisei tudo e na época ainda ‘pintou’ um certo
convencimento de que havia atuado corretamente,
fazendo o que gostaria de fazer.”
Temos aqui uma prova contundente da definição
de racionalização enunciada por Allport.

A tristeza de não poder sentir para não sofrer


a tristeza de sentir

A percepção de não ser capaz de estabelecer


relações e de não poder “chegar até os outros”, ou
não poder “alcançar os outros”, pode se tornar uma
causa de profunda tristeza:
“Sinto muita solidão e sei também que é porque
me isolo, e não consigo alcançar os outros. Isto me
entristece, gostaria de ser diferente. Mas acho difícil
chegar até os outros. Por isto tenho poucos amigos.
Observo demais as pessoas e crio um espaço vazio
para mantê-las a distância. Não me envolvo, não
sinto. Tenho medo de sentir, me envolver e depois
sentir a dor de uma decepção.
Observo para obter confiança, pois necessito de
segurança. Esta confiança cresce muito lentamente.
Para que este espaço vazio diminua, é preciso que a
pessoa tenha requisitos para poder passar pela
portinha estreita das minhas exigências. Fico
observando mais ou menos desconfiado. Estou
sempre sondando para ver se descubro alguma coisa.
Nesta hora me sinto capaz de desvendar estes
mistérios, mas na maioria das vezes não acredito na
minha capacidade, não tenho confiança em mim
mesma. Se me decepciono, me afasto e não quero
mais ter contato, é como se algo ficasse irreversível.
Não quero sentir a dor da decepção novamente.”

Uma boa desculpa: “antes só do que mal-


acompanhado”

Quando alguns Tipos 5 decidem que só terão


poucos amigos uma nova racionalização virá à tona:
“Antes só do que mal-acompanhado.” Vamos
considerar o depoimento de uma aluna 5 a respeito:
“...Antes só do que mal-acompanhado. Gosto de ter
meu espaço próprio, minha privacidade, onde estou
bem comigo mesma e recebo os poucos amigos
íntimos, aqueles com os quais posso me abrir, me
mostrar, porque já ganharam minha confiança
(passaram no teste). A pior coisa que pode acontecer
é uma grande decepção com um amigo; como
confiar novamente?”
O perigo lógico desta racionalização é provocar
uma limitação na visão dos relacionamentos. Não
só não elimina a possibilidade de ser decepcionada
(o), como também limita suas possibilidades de
conhecer pessoas que, sem terem passado no teste,
poderiam oferecer momentos agradáveis e
descobertas preciosas, sem necessidade de terem
sido catalogados como confiáveis.

Mentalizando a existência: pensando e supondo


demais;
julgando-se demais; as armadilhas que separam os
Tipos 5
da realidade

A dificuldade de relacionar-se com os outros


frequentemente se reflete na dificuldade de
relacionar-se consigo mesmo. Alguns Tipos 5
declaram que precisam ter clareza de seus
sentimentos, que é necessário pensar o que se passa
neles quando expostos a confrontos ou escolhas. O
medo de errar ou de estar se manifestando
equivocadamente é um motivo de grande atrito
interno. O autojulgamento é forte e se manifesta
como uma espécie de questionamento que deverá ter
respostas adequadas: Por que fiz aquilo?, por que
realizar isto?, o que é que aconteceu exatamente
hoje?, que devo dizer?, como agirei nessa festa?,
qual o melhor comportamento nessa inevitável
reunião? É preciso respostas. Antecipadas,
certamente.

O Tipo 5 e o tipo de pensamento introvertido de


Jung

Logicamente, Tipos 5 se correspondem com o tipo


de pensamento introvertido de Jung, e na descrição
que faz deste tipo, temos que ter em conta o
conceito nuclear de “consideração interna” (Ponto 6
do Eneagrama) de Gurdjieff para compreendê-la em
toda a sua extensão. Jung escreve:
“O pensamento introvertido está
fundamentalmente orientado pelo fator subjetivo
(...) Não conduz de uma experiência concreta de
volta ao objeto, mas sempre ao conteúdo subjetivo.
Os fatos externos não são o objetivo e a origem do
pensamento, ainda que com frequência ao
introvertido lhe agradaria fazer com que seu
pensamento parecesse assim. (O pensamento)
começa com o sujeito e conduz de volta ao sujeito
(...) Os fatos são reunidos como evidência de uma
teoria, jamais pelo seu próprio valor.”
No seu depoimento um dos alunos já citados nos
revela, em curtas frases, este estado de constante
julgamento, suposição e autocrítica interna e como
o fato de enfrentar uma situação imprevista lhe
provoca um forte movimento contra a seta ao Ponto
8:
“Muitas vezes, quando alguém me propõe fazer
alguma coisa tenho necessidade de pensar sobre a
proposta antes de decidir, em algumas situações me
irrito com a indecisão... Frequentemente fico em
estado de confusão e tomo as decisões erradas.
Tenho a sensação de que algo atua dentro de mim e
me perturba mental e emocionalmente. Gostaria de
me limpar internamente, isto é, ter clareza de meus
sentimentos e pensamentos, mesmo quando eles não
são agradáveis.”
O fato de ter que “explicar” e “mentalizar” tudo o
que se passa é uma das causas deste constante
autojulgamento e autocrítica. São o medo e a
racionalização tomando conta do mundo interno.
Uma aluna nos revela:
“Desejo sempre saber de antemão o que está por
acontecer, gosto da previsibilidade, gosto de me
organizar para cursos, saber quem irá a tal reunião,
ensaiar mentalmente qual a resposta a ser dada em
caso de uma pergunta constrangedora.”
Há também os que concluem que: “Às vezes, por
insegurança, tenho a necessidade de saber o que
pode acontecer (fazer uma elaboração mental de
tudo) para planejar o que fazer ou falar. Mas as
coisas nunca acontecem como a gente pensa.”
Para alguns Tipos 5, o conhecimento do
Eneagrama permite compreender a razão destes
processos mentais negativos. Ao analisar seu tipo,
Noêmia descobre como a influência do Ponto 6 gera
nela dois processos indesejáveis:
“...imagino com maior frequência o que de ruim
poderá acontecer e dedico pouca atenção e
imaginação às coisas boas que porventura pudessem
ocorrer... temor de situações na qual não exista uma
linha preestabelecida de comportamento; temor da
hostilidade, deslealdade. Esse medo talvez me leve à
hesitação na tomada de decisões e a ter grande
dificuldade em fazer, tornar real alguma coisa. O
pensamento substitui a ação, talvez pelo medo de
errar. Junto com o medo vem a ansiedade, a
angústia, a aflição do que poderá ocorrer. Por isso
adoto a prudência, me previno, sondo o ambiente,
estou sempre com um pé atrás.”
Como muito bem o resumem duas alunas: “O
intelectual controla as emoções, tirando a
naturalidade”, ao mesmo tempo em que a percepção
clara de estar se ocultando “atrás de atitudes
preparadas” acusa internamente que “falta a
espontaneidade”. Em parte do seu depoimento outra
aluna confessa: “Quero estar sempre prevenida,
preparada, e essa necessidade me faz querer
descobrir o que se encontra por baixo de uma
gentileza, de um sorriso ou de uma atenção especial.
Enfim, estou constantemente analisando,
observando e imaginando muita coisa. Quando
tenho algum evento, dias antes planejo tudo, com
tanto detalhe que fico cansada...” Quando a
mentalização constante da realidade e a suposição
nos separam da existência real, das experiências,
então, a realidade, a existência, os momentos e
relacionamentos correm o risco de parecer
“difíceis”, “perigosos”, “medíocres”, etc. perante
aquilo que foi mentalizado e suposto.
Esta atitude interna reforça a ideia de que é
necessário tomar cuidado com os outros e que é
justo desconfiar. Deve-se observar mais que viver.
Até conhecer a si mesmo pode se transformar numa
nova desculpa para ficar “acima” dos outros e do
“medíocre” (lembro aqui a ideia de H. Palmer de
identificar o ego dos Tipos 5 como numa espécie de
castelo no topo do qual e por meio de pequenas
janelas observa ao redor e se esconde dos outros).
Vejamos mais este depoimento (Tipo 5 com
influência do Ponto 4): “Quero aprender um pouco
de tudo, adquirir conhecimentos, para sentir-me
aprimorada, buscar algo elevado na vida, não me
limitando a um cotidiano medíocre. Além do mais,
sou bastante observadora, e sei que a sabedoria
maior está em conhecer a si mesmo e perceber o que
está além das palavras e dos atos. Às vezes, isso me
distancia das pessoas, como se eu me colocasse
numa posição superior, de forma preconceituosa,
sem dar chance que o outro mostre seu verdadeiro
valor. Crítica, julgo saber o que é melhor para mim
e para os outros. Quando permito a aproximação,
percebo o quanto fui parcial no meu julgamento, de
caráter puramente intelectual. É a dificuldade de
mostrar os sentimentos e emoções o que, na
verdade, me isola...”

A perigosa invasão:
um exemplo de mentalização negativa

As racionalizações tomam variadas formas. O


termo “invadir”, quando se refere ao ato de
“respeitar a privacidade dos outros”, revela de
maneira flagrante o estado emocional que provoca a
chegada de alguém não esperado, o encontro
indesejado, a conversa que não se quer. A mesma
aluna diz em outra parte de seu depoimento:
“Também não costumo invadir os outros, respeito
seus limites assim como quero ser respeitada.” Uma
outra aluna (Tipo 5 com influência do Ponto 4)
lembra no seu depoimento o seguinte:
“Não vejo com frequência os meus amigos e
parentes, apesar de serem pessoas muito queridas.
Aos 15 anos, durante uma crise existencial, no auge
do sofrimento adolescente, escrevi e nunca esqueci:
Os meus olhos são portas fechadas
De um imenso casarão
Que logo se armam
Contra uma possível invasão.
Mais bandeira do que isso, impossível. Sou, ou
não sou um 5?”

A palavra invasão é resultado da suposição de que


todo encontro com os outros é comprometedor,
agressivo e perigoso; pode acarretar compromisso
futuro e término não desejado da segurança que a
privacidade outorga. Mentalmente aquelas
“invasões” vividas na infância “gatilham” a
sensação da possível perda devida ao compartilhar
inesperado ou da obrigatoriedade de compartilhar
algo que não se deseja compartilhar. Ante esta
possível invasão, Tipos 5 reclamam assim:
“Não gosto de me comprometer com os outros
pois isso gera uma obrigação que vai perturbar
minha paz” ou “não gosto que haja problemas à
minha volta”. Para um dos nossos alunos, essa
possibilidade de ter que viver relacionamentos não
desejados implicava uma sensação de opressão.

Escrever é melhor que falar o que sinto:


outro exemplo

Quando Tipos 5 têm que enfrentar situações


imprevistas, sentem-se desorientados. A razão é
simples: o fato de não ter tempo para pensar no
assunto, para calcular seus possíveis resultados, para
responder de acordo ao que consideram necessário,
ou seja, não ter tido a possibilidade de mentalizar,
de se preparar, etc. lhes provoca uma reação de
tremenda vulnerabilidade: o risco de ser “invadido”,
de ser surpreendido, comprometido, obrigado, é
maior. Um dos alunos já citados confessa que
“muitas vezes, quando me propõem fazer alguma
coisa, tenho necessidade de pensar sobre a proposta
antes de decidir, em algumas ocasiões me irrito com
a indecisão”, depois repete: “fico irritado em
algumas situações em que me cobram uma decisão”,
acrescentando que “procuro me prevenir para não
ter problemas....”
Conheci um Tipo 5 que enquanto discutia
qualquer assunto comigo jamais conseguia externar
o que estava sentindo. Após alguns dias, eu
encontrava na minha caixa postal uma carta em que
ele fazia uma extensa análise do problema, deixando
claro, inclusive, que aspectos da nossa discussão ele
gostara ou não. Muitas vezes, nessas cartas, ele
desabafava como nunca fizera cara a cara, e eu
compreendia sua atitude. No próximo encontro eu,
propositadamente, não falava sobre essa carta, nem
ele, logicamente.
A necessidade de pensar a realidade é
significativamente mais importante que resolver
questões reais. Se o assunto pode ser resolvido
mentalmente, é como se não existisse necessidade da
experiência real. Escrever se torna, então, uma
espécie de “realidade virtual” na qual até conflitos
podem ser de algum modo resolvidos, como se
depreende do depoimento:
“De outra feita, a dona da creche onde minha filha
ficava criou uma questão comigo. Fracassei em
todas as tentativas de diálogo. Fui tremendamente
humilhada. Levei o caso para a Justiça e ganhei a
causa. Durante todo o processo não mostrei
nenhuma reação emocional. Mas depois de resolvida
a questão, escrevi várias cartas para ela (que jamais
enviei). Sempre que a lembrança do caso me trazia
muita raiva, eu escrevia cartas para ela e quando
tudo passou eu as joguei fora. Frequentemente
procedo dessa forma.”
Vamos ficar por aqui com as análises dos
desdobramentos do Traço Principal. Há muito mais,
claro, mas acho necessário que você (epa! quase
escrevo “que você pense”) se atreva a viver e sentir
essa imprevisibilidade da existência... Tá legal,
concordo com você: às vezes é bom planejar, mas,
só às vezes.

Iniciando o processo de mudanças positivas;


observando
o negativo dos Pontos 4 e 6: que influências!

Os Pontos 4 e 6 deverão ser observados com


máxima atenção. Quando negativa, a influência do
Ponto 4 leva Tipos 5 a estados de tremenda
“mágoa”, que se expressam em uma espécie de
denúncia constante, doentia e veemente das
injustiças, erros e falta de consideração para com ele
e que justificam seu distanciamento, isolamento e
solidão. Não apenas os outros não parecem
compreendê-lo, como também se cria uma série de
pseudorrazões (racionalizações) para demonstrar a
si mesmo que não é ele o culpado pelo isolamento e
sim os outros. Já o Ponto 6, com sua influência,
permite projeções tão perigosas que parece que nada
do que existe é confiável. É como se, dentro de você,
dois seres diferentes falassem constantemente: “Você
nunca será compreendido pelos outros, devido à sua
especial visão da realidade (4), então fique sempre
com um pé atrás, você pode estar em perigo sem
saber onde ele se oculta (6).” Um dos exemplos mais
marcantes da influência negativa dos pontos 4 e 6
que já analisei foi: certa vez, um tipo 5, “quase
paranoico”, quis atingir uma instituição da qual
fora expulso por diversas e justas razões. Para isto,
enviou um panfleto calunioso e muito extenso em
nome de uma outra instituição internacional a
membros da organização da qual fora afastado com
o objetivo de desmoralizá-la perante seus líderes e
diretores. Este sujeito, em cuja “presença geral”,
como diria Gurdjieff, se tinham cristalizado os
piores aspectos do seu Traço Principal, revelava
nesta carta uma influência do Ponto 4
Eneagramático, por meio de frases com as quais
tentava demonstrar que não fora expulso e sim que
decidira retirar-se voluntariamente em razão de
pretensas “contradições”, de cunho “intelectual”,
claro, disfarçando com diversos argumentos sua
tremenda mágoa e desejo de vingança (movimento
contra a seta ao Ponto 8 do Eneagrama) por ter sido
afastado. Por outro lado, sua imaginação
descontrolada (veja as características do Tipo 6) o
levava a denunciar supostas “razões ocultas” (ele
fazia isto em forma de perguntas que se iniciavam
com a frase “qual será a razão oculta de...” isto ou
aquilo) para diversas situações irreais que ele achava
que devia “questionar”, como um modo de
fortalecer suas críticas e provocar dúvidas nos
integrantes da instituição ora atacada, em relação à
idoneidade dos seus trabalhos. Somando à sua
tremenda paranoia uma manifestação tipicamente
contrafóbica (novamente uma clara expressão do
Ponto 6, núcleo do “Medo” no Eneagrama), tentou
ocultar o seu tremendo temor às possíveis e justas
reações, botando embaixo da sua assinatura uma
frase de efeito com a qual pretendia chamar a
atenção sobre sua imaginária “coragem”. Por se
sentir “protegido” (aqui temos um exemplo prático
dessa falsa ideia de segurança que alguns Tipos 6
sentem quando são partes de um grupo ou
organização que lhes agrada) pela organização que
dizia representar, além de questionar a autoridade
da instituição que lhe solicitara uma “renúncia
voluntária” para não prejudicá-lo publicamente em
relação ao seus trabalhos, decidiu desautorizar e
criticar maldosamente seus líderes e diretores.
Logicamente, após ser denunciada a sua conduta à
instituição por ele invocada, o desafortunado autor
dessa carta foi desautorizado totalmente além de
ter-lhe sido solicitado que se desculpasse
publicamente com a organização atacada, o que, até
hoje, claro, nunca fez.
Este caso mostra com muita crueza o que pode
acontecer com um Tipo 5 quando “atacado” pelos
aspectos mais sombrios de seus parceiros
eneagramáticos.
É importante observar como eles podem acabar
aumentando seu “isolamento” da realidade tal qual
ela é. Tente observar quando essas influências se
tornam fatores de isolamento ou afastamento dos
outros que no final são ou deveriam ser seus
próximos. Não deixe que os perigos imaginários lhe
provoquem a incapaci​dade de ver claramente todo o
bem que, com certeza, está a seu redor.
Aproveite as influências positivas
dos Pontos 4 e 6

Quando positiva, a influência do Ponto 4


(Equanimidade) permite uma aceitação da realidade
como algo “presente e concreto”, ou seja, uma
percepção de que entre essa “presença” da realidade
e você não pode existir algo mais: o que está
acontecendo é real naquele instante e você deve estar
ali e não no mundo mental que você tanto defende.
Esse estar presente lhe dá a oportunidade ímpar de
se abrir ao que está acontecendo, de não se poupar
da experiência desse instante precioso no qual o
passado e o futuro começam. Não pode se fechar
diante desse “contato”. Ele se torna uma tremenda
oportunidade de existir. Nesse instante não tem
nada por acontecer.
A coragem de sentir esse momento tal qual ele é,
será o aspecto positivo da influência do Ponto 6.
A imaginação negativa é detida. A suposição é
detida. A ousadia e a coragem de viver o inesperado
implícito ou explícito nesse “presente” acontecem.
Você aceita o imprevisto e simplesmente está ali,
vivenciando-o fora do castelo. Sugiro a leitura dos
Tipos 4 e 6 para você aprofundar sua análise
pessoal.

Observando os movimentos do 5 ao 7 e do 5 ao 8

O que permite uma observação mais apurada do


quinto Traço Principal e suas “armadilhas” é a
consideração dos movimentos do Ponto 5 para o 7
(a favor da seta) e para o 8 (contra a seta). No
movimento para o 7, o desejo de ser livre e de não
depender encontra seu “reforço”. Também, quando
sair do isolamento se torna uma necessidade
imperiosa, o Ponto 7 influencia com sua parcela de
gula. A saída é exagerada, sem limites e nela tudo
pode acontecer sem restrições, sendo que essas
escapadas, às vezes, são planejadas em todos os seus
detalhes. O positivo deste movimento ao 7 se dá
quando, compreendido o desapego, Tipos 5
conseguem sentir “equilíbrio” entre mundo interno
e externo, quando conseguem ser espontâneos,
autênticos e curtem a vida relaxadamente. No
movimento contra a seta ao 8, duas questões
deverão ser observadas. A primeira é a hostilidade
para consigo mesmo (acusar-se internamente) e a
desconfiança e sensação de perigo que provocam
determinadas pessoas e eventos. Essa desconfiança
não é apenas “medo de”; é também um preparar-se
para um possível ataque ou desapontamento vindo
do exterior. A agressividade e a luxúria do 8 se
apresentam aqui como a procura de todas as defesas
imagináveis que possam ser colocadas entre a
realidade e o “meu mundo”; é preciso estar
preparado. É o estado de sentir o isolamento como
proteção contra os eventuais “perigos” e “inimigos”
externos.
No positivo, o movimento contra a seta do 8
resulta na capacidade de sentir e vivenciar
momentos e experiências de uma forma
“instintiva”, ficando sem defesas mentais, sentindo
o “sabor da vida” sem prejulgamentos nem
preconceitos. O movimento para o 8 também é uma
forma de contrariar, positivamente falando, a
excessiva teorização, o que diminui esse
planejamento minucioso que muitas vezes impede a
ação real (Influência do movimento do 7). Peço para
você ler os Tipos 7 e 8, a fim de conhecer detalhes
da dinâmica do seu mundo interno em relação a este
ponto.

Contatando a realidade tal qual ela é


O processo de mudanças positivas inicia quando o
contato com a realidade é total. Não se pede para
parar de pensar, nem para se deter os processos
intelectuais. O que se pede é que consiga sentir. O
conhecimento real é o conhecimento fruto de sentir
a vida a realidade “tal qual como ela é”, segundo
dizia meu Mestre. É necessário aprender a
linguagem “natural” do corpo, do sentimento, do
instinto e dar-se conta que essa é uma linguagem
que, quando intelectualizada demais, não se pode
compreender. Como diz Gurdjieff, o risco é ter
apenas “informação”, que se tornará inútil com o
passar do tempo, porque não foi transformada em
“vivência” ou nunca esteve “ligada” a uma vivência.
O “saber real” incorpora todos os aspectos
incluídos no ato de conhecer, aspectos que muitas
vezes não poderão ser mensurados, calculados ou
previstos. Existe um conhecimento que supera o
conhecimento intelectual, não porque o elimine ou
porque esteja acima ou “antes” do ato de conhecer,
mas porque integra e conhece as outras formas e
linguagens do processo de aprendizado. Nossos
centros são três e não apenas um, somos criaturas
tricerebrais e, sendo assim, não podemos apenas
intelectualizar a vida. Osho ensinava: “A vida não é
apenas racional. Pelo contrário, a maior parte da
vida é irracional. A razão é apenas uma pequena
ilha iluminada no vasto, escuro e misterioso mar da
irracionalidade.” O grande desafio para você é
iniciar um contato “sem interferências mentais”
com a vida, as pessoas, os momentos e as
experiências. Experimente chegar a um encontro
sem se preparar e observe o que acontece. Deixe que
os momentos aconteçam, sinta o sabor do
imprevisto e perceba que nem sempre o imprevisto
será algo ruim ou indesejado. Tente curtir situações
“não pensadas”. Observe-se nelas sem julgar-se, sem
querer ter controle. Vá a uma festa, internamente
livre, e dance e sinta o gosto do movimento.
Terapias corporais, trabalhos grupais e dinâmicas
que impliquem a autodescoberta por meio de
sensações, movimentos, danças e exteriorização de
emoções e sentimentos poderão ajudar a resgatar
esse contato real com a vida. Talvez nada demais
possa acontecer ou tudo pode acontecer. Isso não
importa. O que importa é que você “vive” aquele
instante e não apenas o “pensa”. Não existe
julgamento, nem plano, nem perigo. Atreve?... Pô!
Já começou a pensar de novo! (Estou brincando.)
Quando se consegue viver dessa maneira, é possível
caminhar em direção ao que Gurdjieff chama de “a
razão da compreensão”. Com palavras não
conseguirá passar a você tudo o que isto significa
para mim, até porque isso não é importante...
Apenas saia um dia sem planos do seu castelo e, por
exemplo, tente sentir um abraço, mergulhe nele e
não se importe como o está fazendo, nem pense o
que acontecerá depois. Reparou? Este conselho
também não serve, porque foi pensado. Talvez a
chave para o desenvolvimento harmonioso dos
Tipos 5 esteja na virtude a ser resgatada...

O desapego: a virtude de ficar entregue

A esta altura, você talvez consiga “sentir” quanto


esconde esta palavra após a breve análise do Traço
Principal e algumas de suas manifestações.
Desapego implica, em primeiro lugar, “desprender-
se” dessas defesas e preconceitos que o levam a
sentir o contato com os outros como ameaçador.
Desapego é parar de pensar que algo pode ser
perdido, que algo pode ser tirado de você. Desapego
implica abrir-se sem temores, disposto (a) a viver a
realidade tal qual ela é. Desapego é perceber que
você nega a você vivências e satisfações que
poderiam ser uma porta para sentir a vida real.
Desapego é compreender que solidão não é
isolamento, que compartilhar não é deixar de ter,
que abrir-se não é ficar nu ou vulnerável e sim
receptivo e acolhedor. Desapego não é sofrer
quando chega o momento de dar, é descobrir que
não precisa dar demais, para contrariar qualquer
das formas em que se manifesta sua avareza. As
virtudes que acompanham o desapego são a coragem
(Ponto 6) e a Equanimidade (Ponto 4).
Sim, para abrir-se e desapegar-se, é preciso
coragem. Não supor demais, não acautelar-se
demais, não criar inimigos imaginários. Desapegar-
se não deve ser um exagero, a Equanimidade precisa
ser compreendida. Nada de exageros. Nem muito
aberto, nem muito fechado, nem muito generoso,
nem muito pé-atrás, etc. No desapego não existe
temor de perder, nem algo a proteger. O desapego é
uma espécie de certeza de que o que se possui
verdadeiramente nunca se perde, sempre está aqui e
quando compartilhado aumenta, não diminui. No
desapego nada se espera. Não existe qualquer coisa
a ser esperada. O desapego é a compreensão de que
muito da vida apenas acontece e que nem tudo pode
ser controlado. Desapego é uma das virtudes
principais na doutrina budista. Seu sinônimo cristão
chama-se contentamento. Não vou me estender
nisto e peço para você refletir. O importante aqui é
compreender que superar a avareza em qualquer de
suas expressões não implica uma violenta expressão
contrária, nem num ir e vir nos extremos de dar ou
reter. No seguinte depoimento, está explícita a
forma errada de interpretar o desapego a nível
material:
“Às vezes entrego, em minutos, tudo que consegui
com sacrifício durante meses. Em outras ocasiões
me conduzo de uma maneira mesquinha, recusando-
me a dispensar pequenas coisas, como se o fato de
as dar me transformasse em um miserável
paupérrimo. Esta atitude me provoca uma profunda
vergonha. Acho que é para não sentir esta vergonha
que entrego, em outro momento, tudo com a maior
facilidade, parece que tenho pressa em me livrar da
possibilidade de sentir vergonha.”
Com muita frequência Tipos 5 se comportam de
maneira semelhante no plano sentimental. Fechados
demais, sentem-se incapazes de qualquer contato e
se culpam por não conseguir se abrir com alguém,
então, vão ao extremo e vivem experiências
“radicais” (movimento ao Ponto 7), apenas para
sentir que são capazes de viver determinadas
experiências. Nada disso é desapego. No desapego
não existe angústia, nem temor, nem sentimento de
culpa. O desapego é a renúncia a mentalizar a
existência e a decisão de vivê-la plenamente.

Uma reflexão necessária: a diferença entre


conhecimento
vivo e conhecimento morto

Viver plenamente a existência significa obter o


privilégio de conhecer um tipo de sabedoria e de
conhecimento que não se esgotam jamais. Quando
renunciamos ao “conhecimento morto”, à mera
“intelectualização” da realidade, não renunciamos
ao saber. Pelo contrário, nos transformamos em
seres capazes de “revitalizar” o saber. Nos Relatos
de Belzebu a seu neto, livro de Gurdjieff (ainda não
traduzido ao português), o sábio personagem
principal ensina a seu neto Jassin a diferença entre o
“conhecimento morto” (“saber comum”, sem
compreensão verdadeira ou apenas intelectual, sem
vivências reais) e o “conhecimento vivo” (o “saber
real”, fruto da compreensão e da vivência graças ao
trabalho conjunto de sensação-emoção e
pensamento), com as seguintes palavras:
“Agora, então, meu filho, para que compreenda
melhor aquilo que estou lhe falando no momento,
considero necessário lhe dizer, mais uma vez, de
uma forma mais precisa, a diferença (...) entre o
‘saber’ e a ‘compreensão’(...) A ‘razão da
compreensão’, razão consciente própria de todos os
seres tricerebrais (de três centros; como o ser
humano) que povoam os demais planetas do nosso
Megalocosmos, a qual possuíam os seres terrestres
de épocas passadas, é algo que se funde com a
presença geral (...) toda informação percebida por
essa razão transforma-se para sempre em parte
indivisível deles mesmos.
Quaisquer que sejam as mudanças de um ser e os
resultados que geram a contemplação “eseral” (do
ser, com o ser e para o ser) do conjunto das
informações anteriormente percebidas por essa
mesma razão, sempre formarão parte da sua
essência.
Porém, a ‘razão do saber’, habitual na maioria dos
teus favoritos (os seres humanos) contemporâneos,
toda nova impressão que ela percebe, e todo
resultado intencional ou simplesmente automático
das impressões anteriores, não fazem parte do ser
senão apenas de maneira temporal; não podem
aparecer neles senão em certas circunstâncias e
ainda, sob a condição daquelas informações nas
quais se alicerçam, serem ‘refrescadas’ e ‘repetidas’,
vez por outra, pois na falta desta condição, essas
impressões anteriores se ‘evaporam’ para sempre da
presença destes seres tricerebrais.” Belzebu agrega
mais na frente:
“... Eis aqui a razão pela qual, na presença dos
seres tricerebrais que tão-somente possuem a ‘razão
do saber’, tudo quanto acabam de aprender
deposita-se e fica para sempre num estado de
simples informação, da qual eles não tomam cons​-
ciência alguma com o seu ser. Por isso, todos os
novos dados percebidos e fixados neles desta
maneira não contêm nenhum valor com respeito ao
aproveitamento que eles poderiam tirar (desses
dados) para sua existência futura...”

Finalmente não esqueça a lição que esconde


a historinha do geógrafo no Pequeno Príncipe
de Saint-Exupéry

Quando “fechados” em nossos pensamentos,


perdemos contato com a existência real e a
interpretamos segundo nossas paixões, temores e
defesas “mentais” (e, no pior dos casos,
“paranoicas”), corremos o risco de acabar igual ao
geógrafo do Pequeno Príncipe, o qual explicava que
ele fazia seus mapas apenas segundo os relatos que
os viajantes lhe traziam, sem nunca constatar in
loco se eles eram verdadeiros ou falsos. O
principezinho olhando o belo planeta do geógrafo
lhe faz perguntas sobre o oceano, as montanhas, rios
e cidades que existem nele, porém o teórico
geógrafo responde a todas elas dizendo: “Como hei
de saber?” O pequeno príncipe lhe diz, surpreso:
“Mas o senhor é geógrafo!” A desculpa do geógrafo
é: “É claro, (...) mas não sou explorador (...) O
geógrafo é muito importante para estar passeando.
Não deixa um instante a escrivaninha (...).”
Compreende a mensagem? Deixe “sua escrivaninha”
do Centro Intelectual e torne-se um “explorador”,
até porque, como, paradoxalmente, o reconhece o
próprio geógrafo dessa bela e sabia historinha: “Há
uma falta absoluta de exploradores.”
O Traço 6
: O eu que imagina

O eu
que imagina

O mestre Gurdjieff diz: “O homem, às vezes, se


perde em pensamentos obsessivos, que voltam e
tornam a voltar em relação ao mesmo objeto, às
mesmas coisas desagradáveis que imagina, e que
não apenas não ocorrerão, mas, de fato não podem
ocorrer.
Esses pressentimentos de aborrecimentos, doença,
perdas, situações embaraçosas, se apoderam muitas
vezes de um homem a tal ponto que assumem a
forma de sonhos despertos. As pessoas deixam de
ver e ouvir o que realmente acontece, e, se alguém
conseguir provar a elas, num caso preciso, que seus
pressentimentos e medos são infundados, elas
chegam a sentir certa decepção, como se tivessem
sido frustradas de uma perspectiva agradável (...)
O medo inconsciente é um aspecto muito
característico do sono (...)
As pessoas não suspeitam até que ponto estão em
poder do medo. Esse medo não é fácil de definir. Na
maioria dos casos, é o medo de situações
embaraçosas, o medo do que o outro pode pensar.
Às vezes o medo se torna quase uma obsessão
maníaca.”
Medo: o traço principal, ou como uma espada pode
virar
uma bengala branca, segundo Woody Allen

O consagrado diretor de cinema Woody Allen é,


sem dúvida, um grande exemplo de um típico Tipo
6! Woody Allen é genial na forma de expresar seus
medos!
No livro Pequeno tratado das grandes virtudes, o
professor de filosofia francês André Comte-
Sponville, no capítulo sobre o humor, lembra
algumas frases deste grande diretor do cinema
americano, que revelam com clareza seu Traço
Principal, o medo, confessado de modos engraçados:
“Sempre trago uma espada comigo para me
defender. Em caso de ataque, aperto o seu punho e
ela se transforma em bengala branca. Então vêm me
socorrer!!!” ou “Embora eu não tenha medo da
morte, prefiro estar longe quando ela acontecer.” ou
ainda: “A única coisa que lamento é não ser outra
pessoa.” Esta última frase poderia resumir o
depoimento de uma das minhas alunas Tipo 6, com
o qual iniciaremos a análise deste Tipo
Eneagramático:
“Medo... um medo visceral, profundo, deprimente,
covarde, babaca! Como eu gostaria de não tê-lo.
Como eu admiro os corajosos! E como eu tenho,
durante toda a minha vida, desprezado os covardes.
Até perceber que eu também tenho sido um deles.
(Esta percepção ocorreu agora, com o estudo do
Eneagrama.) Isso gera um problema de auto-estima
– não quero me desprezar por isto, mas quero me
curar. Medo de ser feliz – medo de ser infeliz; medo
de me expor – medo de me isolar; medo de ir –
medo de ficar; medo do sucesso – medo do fracasso;
medo da convivência – medo da solidão; medo do
desconhecido – medo de sentir medo. Medo...
medo... medo... Chega! Não quero mais!!! Exemplo:
Adoro viajar, mas viajei muito pouco na vida... por
medo e preguiça (movimento ao 9). Nunca havia
saído do Brasil. Eu tinha muita vontade de ir a
Portugal e à França, conhecer o restante da minha
família, mas dizia: ‘Só quando construírem uma
ponte entre a América do Sul e a Europa para eu ir
de carro’. Tinha pavor de avião. Eu dizia também
que só iria entrar em um avião se me dopassem
antes e, mesmo assim, não poderia acordar durante
a viagem (teria que ser uma dose alta). E isto me
impedia de concretizar um sonho lindo. Eu até
evitava pensar nisso para não sofrer com meus
limites enormes. E acabara negando para todos e até
para mim mesma que queria ir. No ano passado,
quando me decidi, fiquei muito tensa, não dormi
nada na noite anterior à viagem, mas fui (com meus
pais) peguei quatro aviões e... Eureca!!!: não doeu,
não morri, nada de mal aconteceu. Muito pelo
contrário, adorei a viagem e noto que, depois disso,
melhorei em relação aos medos. Mas ainda há
muito a trabalhar. Puxa... era tão simples! Por que
eu não fui das outras duas vezes que meus pais
haviam ido?! Quanto tempo perdido! Quanta
bobagem! Quero mudar. Então, vou começar por
me expor...!”
Quando a aluna escreve esta frase final, está se
referindo ao fato de que vai revelar seu nome (o que
faz) como uma maneira de contrariar sua
personalidade, mas com esse ato confirma seu Tipo,
já que o trabalho de descrever como se manifestava
sua Máscara tinha como requisito ser anônimo.
Engraçado, não? Sim, porém profundo, como
veremos agora:

Ambivalência: extrema covardia ou extrema ousadia


(no fim ainda o medo... será que não é melhor jogar
frescobol?!)

Por meio da imaginação, o intelecto dos Tipos 6


lhes adverte sobre possíveis perigos, reais ou
imaginários, que poderiam sofrer repentinamente.
Então, ou eles se protegem desses perigos evitando o
contato com a realidade (Influência do Ponto 5,
sentimentos de insegurança e inferioridade) ou os
enfrentam com a urgência cega de quem pula
apavorado da janela do sétimo andar (se imaginou
um outro andar mais alto, tudo bem, é só um modo
de expressão) de um prédio em chamas, sem esperar
que a lona esteja pronta (reações contrafóbicas,
irracionais ou histéricas). Acho que o seguinte caso
reflete bem essa ambivalência com que a realidade é
enfrentada por um Tipo 6. Certa vez, li um desses
interessantes e bem-humorados artigos do conhecido
escritor e jornalista Millôr Fernandes no qual
lembrava as “paradas” que topou como opositor da
ditadura militar, mesmo sem pegar em armas como
os mais radicais fizeram. Na parte final, ele escreve:
“... Trinta por cento de correção monetária pelas
paradas que topei. Hay gobierno? Soy contra. No
hay gobierno? Soy contra también. Mas em armas
eu não peguei não. Nem sei onde é que fica o
gatilho de um revólver. Meu negócio é acabar com
as forças armadas. Vou apoiar outra força armada?
Mas na hora do pega pra capá, garotos, eu não dei
no pé não. Tão lembrados? Estão nada. Ninguém
lembra porra nenhuma. Eu sou daqueles que não
foram embora. Bom, não estou criticando os que se
mandaram. Medo é medo – quem tem orifício anal
sabe disso. (Longa pausa.) Mas teve gente que se
mandou muito cedo.”
Com certeza, a lembrança das vezes em que este
provável Tipo 6 (com forte movimento ao Ponto 9)
sentiu seu “orifício anal” reagir diante do medo,
deve provocar nele algumas “longas pausas”. Para
Tipos 6, os atos contrafóbicos – aqueles nos quais
foram obrigados a atuar com aparente coragem
apesar de seus medos – quando lembrados, devem
provocar as mesmas “longas pausas” que
provocaram no nosso “valente” Millôr, que, para
não deixar dúvidas sobre sua tendência à paz
(movimento contra a seta ao 9) escreveu, consciente
ou inconscientemente, naquele mesmo dia na sua
página, que ele é “um dos inventores do frescobol –
o único esporte com espírito esportivo. Até hoje
ninguém inventou ganhadores, nesse jogo”, portanto
ninguém fica com medo de perder, certo?
As “longas pausas”, sentidas pelas “mensagens”
do “orifício anal” do jornalista, lembram a típica
ambivalência com que Tipos 6 enfrentam a
realidade, ambivalência que os leva a temer tudo,
como nos mostrou nossa aluna no depoimento:
“Medo de ser feliz; medo de ser infeliz. Medo de me
expor; medo de me isolar, medo de ir; medo de ficar,
etc.” Enfim, medo do medo, que pode levar a
atitudes e condutas extremas, para se expor ou para
não se expor, ou, como confessa o nosso jornalista,
para ser “contra”, em qualquer caso. Millôr, como
todo Tipo 6 “democrático”, não gosta de
autoritarismo e apesar de nunca ter pegado em
arma, “ousa” advertir que “meu negócio é acabar
com as forças armadas” . Ele revela que, “naqueles
dias”, correu grandes riscos, e pede “correção
monetária” por tudo o que topou na época. Porém
esses riscos ele sabe que não foram “inteligentes”,
nem foram assumidos por valentia. Ele não é
“valente”, ele não quer ser nem perdedor, nem
ganhador, ou seja, ele apenas quer jogar uma
partida de frescobol contra um “time da pesada”, ao
qual deverá convencer de que ele não quer
ganhadores nem perdedores, apenas “acabar com as
Forças Armadas” (!?).
Sem dúvida, foram muitas “longas pausas”!

Os filhos do casal ambivalência-medo: indecisão,


atitudes
flutuantes, inconstância, rejeição ao conflito,
emoções opostas, etc.
(Que família!) O Tipo 6 e o tipo de sentimento
introvertido
de Jung

Tudo bem, vamos transcrever aqui os comentários


sobre a ambivalência do psicólogo norte-americano
T. Millon, publicados na obra Disorders of
personality (Desordens da personalidade, 244): “A
ambivalência dos passivos-agressivos se intromete
constantemente na sua vida cotidiana, resultando
em indecisão, atitudes flutuantes, condutas e
emoções opostas e um generalizado devaneio e
inconstância. Não podem decidir se aderem aos
desejos dos demais como um meio de obter conforto
e segurança, ou se dirigirem a eles mesmos para
estes ganhos, se são obedientemente dependentes dos
demais ou insolentemente resistentes e
independentes deles, se tomar a iniciativa de
governar seu mundo ou ficar ociosamente sentados
por ali, esperando passivamente a liderança de
outros; vacilam, então, do mesmo modo que o asno
proverbial, movimentando-se primeiro numa
direção e logo numa outra, sem decidir jamais qual
‘fardo’ de palha é melhor.”
Em razão do medo nuclear e desta ambivalência,
Tipos 6 procuram, como nosso Millôr, não ter
conflitos. (“Em volta de mim, amados amigos,
ninguém ganha ou perde. Vive”.) Não ter que
decidir, não ter que escolher, ou, numa atitude
insolente atrever-se (custe o que custar e aceitando
todas as “longas pausas”) a declarar que quer
“acabar com as forças armadas”.
O Tipo 6 corresponde ao tipo junguiano de
sentimento introvertido. Talvez pela ambivalência
que caracteriza este tipo, Jung teve dificuldades,
como ele mesmo reconhece, para descrevê-lo
“intelectualmente”: “É extremamente difícil
oferecer uma relação intelectual do processo do
sentimento introvertido (...) embora a peculiar
natureza desta classe de sentimento seja muito
perceptível quando a gente se dá conta (...)” Nos
nossos workshops do Eneagrama, os Tipos 6 às
vezes descrevem este “processo” como “uma
dificuldade de expor” o que acontece nos seus
“mundos internos”, que inclui a dificuldade de
definir quais são os sentimentos relativos a esses
momentos. Concordo com Jung, só quando a gente
“observa” esse estado “natural” nos Tipos 6, é que é
possível compreendê-lo em sua intensidade.
A ambivalência, reconhecida por nossos alunos
Tipo 6, produz diversas consequê​ncias. Em parte do
seu depoimento, Jane, uma de nossas alunas,
confessa: “Detesto brigas e desarmonia. Não quero
saber de problemas. Só quero é ser feliz! Acho que
busco a felicidade absoluta! Evito o atrito ao
máximo, mas se não tiver jeito eu entro na briga.
Tenho medo de minha agressividade. Acho que sou
capaz de matar num momento de muita raiva.”
Logicamente, o medo do que sua raiva pode gerar a
faz acrescentar logo em seguida que tem
“dificuldade de expressar raiva”. Outra aluna
reconhece: “não gosto de competições e sempre me
retiro de ambientes ou cursos ou qualquer atividade
onde haja disputa. Não gosto de lutar”. Outra
escreve: “O medo de perder as pessoas me leva a
evitar qualquer tipo de conflito; a não aceitar cargos
de chefia, onde haveria possibilidade de algum
rompimento ou desavença.” Mais adiante repete que
sua “incapacidade de conviver com o conflito” é
uma “característica forte”, e acrescenta: “Às vezes a
tensão é tanta, que acabo tomando decisões (que
aparecem como atos corajosos). Isto me faz sair da
confusão e fazer alguma coisa. Embora estes
aprendizados sejam sempre muitos sofridos (pois me
tiram da famosa zona de conforto onde tudo é
conhecido e organizado) sinto que faço alguns
progressos assim.”
O fato de ter que tomar decisões se torna
estressante, como confessa Sílvio, um dos nossos
alunos 6: “Não gosto de decidir, o que acarreta
dificuldades de iniciar e terminar qualquer coisa.
Sendo que, no final, acabo realizando o que for
necessário geralmente de modo bem mais
satisfatório do que imaginava, mas com muito
desgaste.” Ele continua confirmando esse estado de
ambivalência e revelando que: “Há uma
particularidade no meu comportamento, aquilo de
que tenho medo é justamente o que procuro fazer,
mas também com um enorme desgaste. Sinto-me
dependente porque preciso da aprovação dos outros,
para não me sentir rejeitado. Ajusto-me ao mundo
(pessoas e situações) para me sentir em segurança.”
No depoimento de outra aluna Tipo 6 podemos
apreciar como esta luta interior entre fazer ou não
fazer, decidir ou não decidir, provoca o que muitos
donos desta máscara chamam a “dificuldade de
concretizar” (um típico movimento ao Ponto 9):
“Sempre demoro a concretizar algo, pois fico
imaginando as possíveis consequên​cias, as melhores
maneiras de fazer, qual deveria ser a maneira
correta, etc. A partir daí surgem as dúvidas e o
desânimo. Começo a protelar e invento desculpas
para não fazer as coisas, adiando o máximo
possível. Quando este estado de apatia começa a me
incomodar, passo a me movimentar fazendo muitas
coisas, preenchendo meu tempo com várias
atividades.
A compra de minha casa vem se desenrolando
desta maneira. Quando decidi comprá-la, fiquei
animada, fiz planos e comecei a procurar nos
jornais. Então começaram as dúvidas: será que as
pessoas são de confiança? E assim, fico somente
selecionando anúncios, sem ir ver as casas, até que
paro de procurar, inventando desculpas como falta
de tempo ou simplesmente de ânimo para agir
(movimento para o 9). Passam-se alguns dias ou
semanas e começo achar que algo precisa ser feito,
que estou muito parada e que devo começar a agir.
Recomeço a procurar então com mais confiança,
com mais empenho e disposição, vendo várias casas
durante a semana, durante o mês (movimento para
o 3). Voltam as dúvidas e então nada me agrada:
quando a casa é boa, o local é ruim; se me agradam
o local e a casa, desisto porque tem pessoas
morando e poderia haver problemas para desocupá-
la; me deixo levar por opiniões de outras pessoas
(volta para o 6). Estas etapas se repetem várias vezes
até que eu consiga realizar o que pretendo.”
A esta altura, você deve estar pensando: “Incrível,
achava que somente eu era assim!” A descoberta do
Traço Principal é muito chocante sempre, mas
conhecer sua origem levará você a profundas
reflexões que facilitarão qualquer trabalho, presente
ou futuro, sobre si mesmo, mediante o qual você
possa obter os benefícios da fé e da coragem
verdadeiras.

Como surgiu o traço principal


(Ou quando o que acontece não é o esperado)

A que chamamos medo? Habitualmente o medo é


a palavra que define uma série de “estados
emocionais alterados” provocados por uma ameaça,
real ou imaginária; pela percepção de um perigo,
real ou imaginário ou pela iminente ou súbita
possibilidade de enfrentar uma situação que
associamos, objetiva ou subjetivamente, por
aprendizado ou por termos tido uma dolorosa
experiência, com situações desagradáveis, odiosas,
repulsivas, perigosas, desconhecidas ou conhecidas,
situações estas que nos fazem perder – temporal ou
constantemente – nosso senso de segurança, bem-
estar, conforto e/ou prazer, confiança e/ou
tranquilidade.
Nos depoimentos de Tipos 6, a lembrança dos
primeiros medos e do modo como estes alterariam o
relacionamento com a realidade é frequente e, às
vezes, forte. Neles temos palavras-chave que
ajudarão você, como Tipo 6, a ter elementos de
observação que lhe permitam, aos poucos, primeiro
individualmente e logo mediante terapias ou
trabalhos grupais superar seus medos em virtude da
constatação dos pontos comuns que lhe indicam
como eles possuem origens similares. Algumas
palavras-chave são: crítica(s), ameaça(s), autoritari
(a-o-ismo), decepção, repreensão, in​se​gur (ança, o,
a) sever (a-as-o-os-idade), castig (ar-o)

Novamente peço aos pais e responsáveis pela


educação das crianças e adolescentes que leiam esta
obra para refletir profundamente sobre como surge
esta sexta máscara e seu traço principal. Uma aluna
nos revela a respeito o seguinte:
“Lembro das críticas por parte de meus pais,
sempre observando minhas falhas, especialmente
meu pai, que não podia admitir uma filha mais forte
e corajosa que ele. Meu pai é um homem muito
autoritário e perde o controle facilmente. Quando
criança ele me decepcionou muito.Minha
insegurança partiu desta primeira grande decepção.”
Crianças Tipo 6 percebem que não se pode confiar
nos adultos porque acontecem situações inesperadas
e decepcionantes que as fazem sofrer e temer
represálias imprevistas e dolorosas. Certa aluna
conta:
“Como na minha infância eu tinha muito medo
que meus pais me batessem, minha irmã soube se
aproveitar bem dessa situação. Qualquer
traquinagem ingênua que eu aprontasse, ela
ameaçava contar para minha mãe, a não ser que eu
fizesse algo para ela, como, por exemplo, servir-lhe
água quando estivesse com sede, avisando-me,
porém, que nem pediria, apenas emitiria um som
para eu saber que ela estava com sede.
Eu e minhas amigas do prédio em que morava,
adorávamos ir de andar em andar apertando a
campainha de apartamentos e depois esconder-nos.
Um dia, estava no elevador com minha irmã, e um
rapaz encarou-me e disse: ‘Se eu te pegar mais uma
vez tocando a campainha da minha casa, vou te
botar nua no elevador!’ Fiquei morta de medo e essa
foi mais uma das chantagens da minha irmã. Mas o
que me marcou foi quando um dia, na praia, um
velho me bulinou (graças a Deus saí correndo).
Fiquei muito chocada e com medo que meus pais
soubessem, e mais uma vez minha irmã, durante um
bom tempo, ameaçou-me se eu não a obedecesse. Eu
tinha medo até do que não era culpada.”

Errar por medo do erro ou


“por que estão me castigando?”

Esta última afirmação (“eu tinha medo até do que


não era culpada”) é muito importante. Tipos 6
temem o “deslize”, como afirma Claudio Naranjo,
portanto, se caracterizam por suas contínuas
apreensões. Em razão da ambivalência que os
caracteriza, ao mesmo tempo em que rejeitam o
autoritarismo, se sentem menos inseguros quando
conhecem as “regras do jogo”, quando podem
confiar numa autoridade ou quando se coletivizam.
Desta forma as possibilidades de “deslize”
diminuem, ainda que se sintam apreensivos e
temerosos de não poder “cumprir” essas “normas”
e/ou “regras do jogo” sempre. A razão pela qual
Tipos 6 sentem-se melhor quando estão trabalhando
em grupos, quando fazem parte de um “nós”, de um
coletivo, está alicerçada em parte nesta procura de
não cometer erros. Se os erros são cometidos “no
departamento, onde nós trabalhamos”, então o risco
de sofrer o castigo fica “repartido” e, portanto,
menos doloroso, “seremos mais numerosos para nos
defendermos das possíveis injustiças”. A necessidade
de segurança é muito importante. Logicamente, esta
atitude leva os Tipos 6 a ter medo até de “errar por
medo do erro”, ou como diz um aluno: “tenho
pavor de errar, principalmente com o próximo.
Mostro meu erro antes que o outro perceba e
fale...” Uma outra causa deste temor ao deslize está
no fato de que para muitos Tipos 6 as causas dos
castigos e repreensões nunca ficaram claras durante
a infância. Como o castigo é um ato imprevisto,
inesperado, sem razão, o medo passa a ser
constante. Assim, Tipos 6 perdem a confiança nas
pessoas e nas situações cotidianas.
Um aluno lembra:
“A partir dos 5 anos, fui criado por uma tia (irmã
de meu pai). Até então, tive uma mãe muito severa e
um pai muito ausente. Após os cinco anos, também
com uma criação muito severa, só que aí já não era
somente minha mãe, mas as tias, a avó e todos os
outros me repreendendo e me castigando. Eu não
sabia de onde nem quando viriam os castigos e/ ou
repreensões. Tive desde cedo que me virar sozinho,
inclusive para me defender de todas estas ameaças
externas. Nunca sabia em quem e quando confiar.”
Naturalmente, essa perda de confiança resulta
numa atitude de rejeição ao controle ou obrigação
real ou imaginária que um Tipo 6 possa sentir na
atitude de outras pessoas. Novamente, o Traço
Principal será consequência das primeiras
experiências, como nos revela este depoimento:
“Hoje, depois de começar a entender o significado
de cada máscara, começo também a entender os
meus medos. Eles vêm da minha infância e
principalmente da adolescência, que foi terrível. Por
isso mesmo, até hoje não aceito quando alguém
determina o que vou ou não, posso ou não fazer.
Não aceito ser controlada ou obrigada a fazer coisa
alguma. Esses medos e rejeições ainda hoje estão
muito presentes em mim.”
Outra grave consequência das experiências injustas
vividas na infância e na adolescência é que muitos
Tipos 6 se tornam “problemáticos, rebeldes e
contestadores”, numa clara reação psicológica que
no fundo quer dizer: “Fui injustamente castigado,
então, agora, farei algo realmente ruim!” Um dos
alunos já citados declara que, ainda percebendo que
criava um “círculo vicioso”, ele provocava
propositadamente situações para ser punido: “Já que
eu havia sido punido injustamente, então me
rebelava criando situações piores do que as que
motivaram as punições.”
A sensação de abandono, de não ser tratado com
justiça, de enfrentar um mundo cheio de imprevistos
desagradáveis e críticas e punições injustas faz com
que este Tipo Eneagramático adquira a convicção de
que não se pode confiar em ninguém: “Sinto uma
grande desconfiança de outras pessoas e ambientes...
Sou bastante desconfiada (advogado do diabo) e
sempre me toca aquela dúvida cruel: Será que posso
confiar dessa vez ou será que vou quebrar a cara
novamente?” Os Tipos 6 decidem que só existe uma
pessoa na qual se pode confiar, ainda que com
medo: eles próprios. Só que uma ajuda invisível e
poderosa é sempre bem-vinda.

O mundo oculto: motivo de rejeição e de atração


(uma reflexão no Brasil “afro-brasileiro”)

A imaginação negativa a que Gurdjieff se refere no


texto transcrito no início deste capítulo provoca nos
Tipos 6 uma outra manifestação ambivalente. Desta
vez, com o que vulgarmente chamamos de “mundo
oculto”, “invisível”, “esotérico”, o mundo das
“magias” de todas as cores. As questões ditas
“esotéricas” atraem e assustam este Tipo. Por um
lado, como sempre acontecem “coisas inesperadas”,
alguns Tipos 6 tentam “estar preparados”,
“protegidos”, gostam de “talismãs” e de
“proteções” diversas. O inexplicável precisa ser
explicado; o oculto, desvendado e controlado. Eles
imaginam que a causa das situações e/ou vivências
inesperadas e negativas possam ser “forças
desconhecidas”, “causas desconhecidas”, “razões
ocultas” que devem ser exorcizadas. Esta questão é
muito interessante, especialmente no Brasil, onde os
cultos afro-brasileiros, inicialmente exclusivos dos
negros escravos e hoje praticados por negros e
brancos que procuram neles força e proteção
invisíveis. Peço licença para fazer aqui uma breve
reflexão sobre este assunto.
Ninguém ignora que os escravos viviam num
ambiente autoritário e controlador, em que o
castigo inesperado, a humilhação e a tortura eram o
“pão de cada dia”. O domínio dos brancos não
podia ser contestado diretamente, mas talvez fosse
neutralizável de outra forma... Os brancos possuíam
as armas e o poder visíveis. E o poder invisível e
mágico era a única ajuda e defesa possível, além da
difícil alternativa da fuga. Os negros se protegiam, e
se protegem ainda, com a ajuda poderosa de seus
Orixás, do mesmo modo que há milhares de anos
seres humanos de diferentes raças procuram nas
suas religiões e cultos um meio de enfrentar os
perigos do invisível, contando com a ajuda do além.
Por trás da defesa enfática de seus cultos, tradições e
cultura, os negros que vivem em países como o
Brasil e os EUA contestam o “sistema estabelecido”
como reação ao apartheid sorrateiro e disfarçado
que sofrem há gerações. Eles têm sido agredidos,
mortos e perseguidos sempre. São a expressão
coletiva da psique dos Tipos 6: o medo e a
ambivalência são as características de seus modos de
vida. Como os Tipos 6, os negros decidiram atuar
contrafobicamente em todos os planos. Por trás das
manifestações atrevidamente contrafóbicas e
chocantes, por trás das expressões do “orgulho de
ser negro”, eles se protegem de uma sociedade que
se diz culturalmente não racista, mas que ainda o
nega na prática. São eles os “suspeitos” que a
polícia prefere, os discriminados nos trabalhos, os
que sobrevivem majoritariamente nas favelas.
Exatamente como um Tipo 6, a grande maioria dos
negros sente medo do inesperado, do castigo injusto,
da violência sem razão que mata muitos de seus
filhos inocentes. Daí a ambivalência e desconfiança
que sentem dos brancos. O sucesso inicial da revista
Raça foi uma prova dessa procura de segurança
característica de Tipos 6, que só se encontra com e
entre “aqueles que são iguais a nós”. Uma espécie de
discriminação ao contrario. Enfim, aqui a gente tem
“muito pano pra manga”, certo? Fiz esta reflexão a
título de observador estrangeiro e com o desejo de
chamar a atenção sobre uma questão ainda não
resolvida totalmente para os filhos que nascem neste
“berço esplêndido”.
Voltando ao assunto. Num país de sincretismos
como o Brasil, onde todo mundo ouve desde a
infância palavras tais como “mãe-de-santo”,
“terreiro”, “candomblé” ou “macumba”, e onde a
maioria, alguma vez, procurou ajuda para “fechar o
corpo” ou para “abrir seus caminhos”, Tipos 6
devem sentir que seus medos e seus modos de se
proteger dos “inimigos invisíveis”, dos “olhos
grandes” e das “forças negativas”, não são tão
anormais assim.
O medo leva Tipos 6 a não somente querer saber
“o futuro” por meio do Tarô, ou de visitas a
“clarividentes” como também a preocupar-se
demais com “cargas negativas”, “magia negra” e
questões afins. Numa parte do seu depoimento
outra aluna nos revela:
“Também sinto uma grande desconfiança de
outras pessoas e ambientes, principalmente em
relação a absorver as cargas negativas. Tive muitos
problemas sérios, até físicos, por absorver cargas
negativas de lugares como hospitais, etc., e acho que
fiquei um tanto paranoica! Também sofri muito por
causa de inveja, magia negra, etc., e fico preocupada
com isso para que não me atinja mais.”
Os Tipos 6 devem procurar libertar-se desta classe
de dependência paranoica e temores neuróticos e
irracionais, por meio do trabalho sobre si mesmos,
recuperando a autoconfiança e desenvolvendo um
maior controle imaginativo. Já em termos raciais,
negros e brancos (além de outras cores) deveríamos
fazer o mesmo, certo?

Movimento aos Pontos 3 e 9: descobrindo


os modos de fugir e os modos errados de fazer.
Iniciando o processo de mudanças positivas

O movimento eneagramático do Tipo 6 é via em


direção do 6 ao 3, do 3 ao 9 e do 9 ao 6 novamente.
Refletindo sobre este movimento, você poderá
aprimorar a observação de si mesmo e descobrir
quando é que atua sem medo e quando atua por
medo, quando consegue fazer adequadamente e
quando o faz motivado apenas por sua máscara.
Descobrirá também quando atinge um estado de
segurança autêntico e quando está apenas “fugindo”
ou “ocultando-se” da aparente realidade.
Essa observação deverá estar acompanhada da
reflexão nos aspectos negativos e positivos de cada
ponto. Assim, o aspecto negativo do movimento do
3 é a mentira, o fazer de conta que não tem medo,
agir contrafobicamente. O aspecto negativo do
movimento ao Ponto 9 é a tendência a adiar
decisões e/ou ações, aquilo que G. I. Gurdjieff
chamou de “a doença do amanhã” (“amanhã eu
faço, amanhã me preocupo, amanhã começo de
verdade, amanhã...”, você sabe). Tente observar
seus movimentos contrafóbicos, os momentos de
falsa coragem. O positivo desse movimento
eneagramático está na possibilidade de realizar
qualquer coisa sem temor e confiante em relação ao
resultado. (Movimento da Coragem e da Fé, a
Verdade do Ponto 3.) Quando Tipos 6 agem deste
modo equilibrado, conseguem um verdadeiro
descanso no Ponto 9 do Eneagrama. O aspecto
positivo do movimento ao Ponto 9 (contra a seta) se
relaciona com a capacidade de evitar o ato
contrafóbico, que permitirá uma ação reflexiva e
verdadeiramente corajosa (Do Ponto 9 ao 3), o que
finalmente lhes permite sentir um estado de
“segurança” real. Controle sua imaginação.
Pergunte-se: por que estou imaginando esta situação
desta maneira?, não poderia ser diferente? Ao se
mover negativamente ao 9, procure perceber as
imagens negativas que provocam a necessidade de
protelar ações ou decisões, muitas delas valiosas
para o seu crescimento e progresso.

Observando seus parceiros eneagramáticos 5 e 7

Os Tipos 6 aprenderão muito por meio da análise


das Máscaras 5 e 7 do Eneagrama. Tanto com o que
devem evitar quanto com o que devem adotar desses
seus “parceiros”. A influência negativa do Ponto 5
reforça a ideia de perigo e desconfiança que
situações ou pessoas podem provocar. Nestes casos,
os Tipos 6 recuam ou se afastam sem querer
experienciar o que, naturalmente, reforça seus
medos e os afasta da realidade. A influência
negativa do Ponto 7 se manifesta fundamentalmente
nas atitudes ambivalentes e na incapacidade de
concluir planos e/ou projetos. O mais positivo da
influência do Ponto 5 é aprender a desenvolver a
capacidade de reflexão e raciocínio como um modo
de atingir o necessário controle imaginativo.
Aprender a perceber o absurdo e irracional de
determinadas imagens mentais e treinar a mente
para modificar essas imagens, apagá-las ou refletir
nas alternativas positivas. O mais positivo do Ponto
7 é a capacidade de vivenciar novas experiências,
viver e planejar situações prazerosas, sem julgar
e/ou temer que algo esteja errado. Desfrutar do
corpo e ficar mais aberto ao momento presente,
curtindo o que está acontecendo de positivo sem se
“projetar” ao futuro negativamente.

Imaginação consciente:
percebendo as “78 faces” da realidade

Gurdjieff afirmava: “O medo pode ser o órgão de


uma futura clarividência...” Fantástico, não é?
Nossa maior conquista como seres humanos é
desenvolver as potencialidades psicofísicas que estão
adormecidas em nós. A imaginação, potencialmente,
pode transformar-se num dos aliados mais
poderosos do ser humano. Com certeza você ouviu
falar das técnicas de “imaginação criativa”, de
“visualização positiva”, “criação mental”, PNL, etc.
Essas técnicas estão alicerçadas na constatação de
um fato simples, porém, maravilhoso: com
disciplina imaginativa, a gente pode modificar
positivamente os acontecimentos existenciais.
Quando o medo nos controla, acontece o inverso.
Nossa imaginação fornece as imagens que afirmam
nossos medos, fobias e temores. Nesse momento,
não conseguimos VER CLARAMENTE. Mais ainda: não
conseguimos “VER” na “tela mental” mais que uma
ou duas faces possíveis da realidade. Os antigos
mestres herméticos ensinavam que a Verdade tem
“78 faces” e que, quando a gente percebe apenas
uma ou duas dessas faces, é necessário lembrar que
ainda existem 77 ou 76 por conhecer. Esta
afirmação de que a realidade ou a Verdade tem 78
faces é simbólica, claro! O que aprendemos dela é
que sempre podemos imaginar mais de uma
possibilidade para qualquer questão. Quando um ser
humano inicia um processo de consciência
imaginativa tem possibilidades de desenvolver uma
“visão interior” mais ampla. É como se, em vez de
perceber apenas 25 graus da realidade, ele
começasse a perceber 40, 60, 90, 180 graus... até
360! Comece a controlar sua imaginação.
Quando uma cena mental aparecer para iniciar
e/ou reforçar seu medo, observe-a e mude-a por
outra diferente e positiva! A imaginação é uma de
suas capacidades cerebrais mais valiosas.
Ela deve estar ao seu serviço. Por isso, não deixe
que ela comande sua vida!

Conquistando a virtude da coragem


e desenvolvendo uma “fé consciente”

As Virtudes a serem conquistadas pelos Tipos 6


são muito especiais. A “Coragem” implica
literalmente um “agir com o coração”, ou seja, um
agir a partir de um Centro Emocional equilibrado
(Ponto 3) e livre do temor (desidentificação ou
desapego das imagens negativas fixadas pela ideia de
uma ameaça sempre latente), o que permite essa
visão clara da realidade, limpa de todas as
ameaçadoras e irreais imagens internas.
Naturalmente, isto conduz a uma ação relaxada no
plano físico. De acordo com Helen Palmer: “A
coragem depende da capacidade corporal de agir
adequadamente a partir de um estado não pensante
da mente.” Realizar é melhor que apenas imaginar
realizar ou temer realizar. Devemos lembrar
novamente que será o controle imaginativo que
permitirá “agir com o coração” e não com a cabeça.
Quando nos atrevemos a agir sem temor, podemos
descobrir que muitos “tigres são de papel”. Os
Tipos 6 podem conquistar uma tremenda capacidade
de ver além das aparências, desenvolvendo sua
natural intuição, se começarem a confrontar seus
medos com a realidade. Quando a realidade é
confrontada fisicamente, temos a possibilidade de
voltar a ter segurança nas nossas capacidades e nos
nossos atos. Aprenda a confiar e conhecer melhor
seu Centro Físico. Como já falei na análise de outras
máscaras, durante os treinamentos avançados de
Eneagrama, temos uma prática ao ar livre em que as
pessoas ficam em pé formando um círculo e seus
movimentos são deliberadamente limitados assim
como suas reações emocionais. Ou seja, não podem
sair do seu lugar, nem gritar ou pular fora do
círculo. No centro, o instrutor está com um bastão
de madeira de um metro de comprimento (mais ou
menos) e adverte que o bastão será lançado a
qualquer um e a qualquer momento, sem prévio
aviso. De início as pessoas ficam ansiosas,
temerosas de serem atingidas pelo bastão, até que,
aos poucos, começam a perceber que não é “tão
perigoso assim” e como é fácil receber o
“ameaçador” bastão, sem tensão e sem medo. Logo,
numa dinâmica de grupo, é muito engraçado ouvir
que as pessoas imaginaram muitas coisas em relação
a essa prática milenar. Umas comentam que
achavam que seriam golpeadas na cabeça, outras
que o bastão poderia atingir um olho, outras que
sentiam que quase não podiam mover-se. Enfim, o
medo os paralisa de início e lhes impede a realização
de movimentos com os quais seus Centros Físicos
possam pegar o bastão sem que este lhes provoque
nenhum dano. Eles percebem que o que temiam era
apenas “imaginário”. Logo pede-se que eles
aprendam a agir cotidianamente de acordo com o
que compreendem e percebem nessa prática
psicofísica. Os resultados são excelentes.
Entre os Quatro Verbos chamados “Mágicos”
(Ousar, Querer, Saber e Calar), sobre os quais
escrevi no meu primeiro livro, os que devem ser
mais vivenciados pelos Tipos 6 são os verbos
“Ousar e Querer”. Ambos implicam ações concretas
e ambos estão relacionados com profundos
sentimentos e não apenas com pensamentos. A
autoconfiança só pode ser gerada a partir de
“contatos” efetivos com a realidade e não apenas
com atos contrafóbicos. Os atos contrafóbicos
surgem do Centro Intelectual e paralisam o “sentir”,
paralisam as emoções como se quisesse “ignorar” o
que vai acontecer após sua irreflexiva execução.
Não é ousadia, não é querer e sim seu oposto: o ato
contrafóbico. Isto é fácil de comprovar quando
pessoas que sofrem de fobias conseguem ser curadas
mediante metódicos e pacientes processos de
sensibilização e conscientização, por meio dos quais
passam a perceber que aquilo que temem,
simplesmente, não é real e não acontece.

O valor da fé consciente

Em relação ao desenvolvimento do que Gurdjieff


chamava de “Fé consciente”, primeiro é importante
ter presente quais são os dois tipos de “fé” negativa
que todos nós temos que aprender a reconhecer e
superar, especialmente se o Traço Principal é o 6.
Gurdjieff lembra esta questão importante com o
seguinte aforismo que só comentarei em parte, dada
a sua profundidade e importância:
“A Fé da consciência é liberdade, a fé do
sentimento é fraqueza, a fé do corpo é estupidez”.
Quando você “se atreve” a fazer algo ou a
enfrentar uma situação contrafobicamente,
poderíamos dizer que está agindo emocionalmente
alterado (a). Nesses instantes, sua “fé” está
fundamentada na sua fraqueza (“a fé do sentimento
é fraqueza”) e sua reação corporal não vai estar
guiada pela lucidez que acompanha qualquer ato
consciente (“a fé do corpo é estupidez”). Você ficou
preso mentalmente à “certeza” de que o ruim
imaginado com respeito a esse ato ou a essa situação
“x” poderia realmente acontecer, porém, como não
tem outra saída,” mobiliza” inconscientemente seu
“Centro do Movimento” e executa ou enfrenta a
situação “sem consciência de si”. O resultado pode
ser bom ou ruim, positivo ou negativo, porém você
não se importa com isso naquele momento. Esta
forma de reagir contrafóbica é a que é realmente
perigosa e não a situação ou o ato em si mesmo.
Quando você conse​gue agir com verdadeira Fé, você
se liberta dos limites que seus medos lhe impõem.
Sua consciência fica livre, acima da sua “máscara”.
Então seus Centro Emocional e Físico se comportam
de acordo com o que realmente “sabem” fazer, com
plena capacidade. Helen Palmer cita na sua obra
sobre o Eneagrama o seguinte depoimento de uma
mulher Tipo 6, que demonstra o que estou tentando
expli​car-lhe:
“Frequentei a City University em Manhattan e
usava o metrô para ir às aulas. Nunca me
preocupava com as viagens de dia quando havia
multidões, e eu podia ler meus textos todo o trajeto
desde a estação da Rua Delancey. Quando eu tinha
aula à noite e tinha de esperar sozinha na
plataforma, eu ficava muitas vezes apreensiva, e
combinei com meu namorado de me encontrar na
Delancey e a gente andar juntos até minha casa.
Uma noite, um louco entrou no vagão. Ele fazia
caretas e cerrava os punhos e começou a dizer
palavrões andando pelo corredor. Havia pouca gente
no metrô, e ninguém tinha coragem de olhar o rosto
do louco.
De repente, ele descobriu alguém no assento atrás
de mim, apontou, praguejou e veio em nossa
direção, e então eu me vi bloqueando sua passagem.
Meu corpo tinha se erguido, e eu ouvia minha voz
falando com o sujeito sem saber o que eu devia
dizer. Ainda não consigo me lembrar do que eu
disse, mas sei que, ao ver uma arma na mão dele,
não tive medo algum.
Eu parecia estar repetindo os movimentos de algo
que já tinha acontecido antes. Não me surpreendi
quando vi dois braços pegando-o pelas costas numa
chave de cabeça nem quando arranquei a arma da
mão dele quando ele apontou o meu rosto. Quando
encontrei meu namorado na Delancey, eu estava tão
impassível que ele teve dificuldade em acreditar que
minha história fosse verdadeira.” Não é incrível este
depoimento? Simplesmente, “a Fé da consciência é
liberdade”! Veja como de novo é importante o
controle da “imaginação” para que essa Fé
consciente seja conhecida por você: “A fé é a certeza
do que se espera, a convicção do que não se vê.”,
segundo a brilhante definição do Apóstolo Paulo na
sua carta aos Hebreus. Aprenda a ter certezas
positivas e compreenda que aquilo que ainda não
aconteceu, que ainda “poderia acontecer” ou
“acontecerá” depende, em grande parte, da sua total
consciência do momento presente, porque é no
presente que criamos o futuro e é nele que fazemos
nossas escolhas.
O Traço 7
: O eu que projeta

O eu
que projeta

“Liberdade é seriedade. Não essa seriedade de


sobrancelhas franzidas, lábios fechados, gestos
cuidadosamente medidos e palavras filtradas entre os
dentes, mas a seriedade que significa determinação e
persistência na busca, intensidade e constância, de
modo que, mesmo nos momentos de repouso, o
homem prossegue com sua tarefa principal. Façam a
si mesmos a pergunta: São livres? Muitos serão
tentados a responder que sim, se estiverem num
estado de relativa segurança material, sem
preocupação com o amanhã e se não dependerem
de ninguém para sua subsistência ou para a escolha
de suas condições de vida. Mas a liberdade está aí?
É somente uma questão de condições externas?”
“O homem, bem no seu íntimo, ‘exige’ que todo
mundo o tome por alguém notável, a quem todos
deveriam constantemente testemunhar respeito,
estima e admiração pela sua inteligência, pela sua
beleza, sua habilidade, seu humor, sua presença de
espírito, sua originalidade e todas as suas outras
qualidades. Essas ‘exigências’, por sua vez,
baseiam-se na noção completamente fantasiosa que
as pessoas têm de si mesmas, o que acontece com
muita frequência, mesmo com pessoas de aparência
muito modesta...” Os dois parágrafos acima reúnem
palavras de Gurdjieff, anotadas por seus discípulos.
A alegre, maravilhosa e original turma dos Tipos7!
(Faltou dizer algo mais?)

Sem dúvida é um grande problema escolher só um


exemplo brasileiro do Tipo 7. O próprio Brasil é um
precioso país Tipo 7 e, tirando os aspectos sociais
negativos que necessitam ser mudados, deve
continuar sendo esse paraíso que é, para o bem e
alegria de todos os brasileiros e de toda a
humanidade! É verdade que o fato de ser um País
Tipo 7 provocou certa vez o desabafo atribuído ao
líder francês Charles De Gaulle, que teria
sentenciado que o Brasil era um país “pouco sério”,
mas, pensando bem e sem querer provocar um atrito
diplomático internacional, prefiro a Liberdade, a
Igualdade e a Fraternidade à moda brasileira . Tudo
bem, dizia que era um grande problema escolher
exemplos de Tipos 7 brasileiros, não porque faltem
e sim porque não quero que alguém não citado fique
achando que não o considerei, que não sei da
importância da sua figura (nossa! Quanta puxação
de saco!) etc., etc.
Mas como não tem jeito, tomei uma decisão e vou
destacar, então, dois exemplos públicos, muito
queridos nesta terra. Refiro-me a Jô Soares e Miguel
Falabella ou Miguel Falabella e Jô Soares, esse nosso
David Letterman em versão fat. A ordem dos fatores
não altera o produto, certo? Primeiro, nosso
“gordo”. Quem vai pra cama sem ele? Comandando
na TV.Globo um dos programas mais populares da
TV brasileira, Jô Soares, genial, comediante,
poliglota, escritor de sucesso, é um clássico Tipo 7
com poderosa influência do Ponto 8 do Eneagrama.
Ele possui essa capacidade de nos descontrair com
suas entrevistas inteligentes, piadas e brincadeiras
das quais a maior parte dos seus convidados não
consegue fugir, não apenas porque ele é um
humorista, mas porque esse é um dos aspectos
marcantes e positivos desta Máscara Eneagramática:
a vida para Tipos 7 é uma constante procura de
alegria e prazer. Destaquei dele o fato da forte
influência do Ponto 8 Eneagramático, porque Jô
Soares não hesita quando se trata de defender causas
nobres e populares, nem quando acha que deve falar
algumas verdades que doem até para alguns dos seus
convidados. Quanto ao ator, diretor teatral,
apresentador, escritor, etc. etc. etc. Miguel
Falabella, é fácil para qualquer conhecedor
profundo do Eneagrama perceber que é o Tipo 7 que
decidiu transformar sua vida numa eterna
brincadeira que lhe rende bons lucros. Numa
reportagem da revista “Veja” titulada “Rico faz rir
à toa”, do jornalista Alfredo Ribeiro, Falabella
declarou: “Brincando de ser estrela, de trabalhar
muito, eu me transformei num fenômeno de
público”; e numa outra entrevista dada para a
revista Caras, ele afirma se sentir sempre como uma
criança para a qual o trabalho é, em síntese, um
agrado, um gosto mediante o qual consegue realizar-
se e ser feliz. E que o digam seus amigos!
Na reportagem de Veja, a atriz Maria Padilha
declara: “Nem ele sabe quando está fazendo um
número ou falando sério. (...) Ele descobriu como
ganhar dinheiro com as peças que aplicava nos
amigos”, lembrando o dia em que teve que invadir o
apartamento do ator para salvá-lo do “suicídio”:
(...)” deitado, caixas de Lexotam por todo lado,
babava pelo canto da boca (...) Saí de lá à beira de
um ataque de nervos, com o Miguel às
gargalhadas.” Tudo não passava de uma
“brincadeirinha”. Com certeza, você também deve
ter muitas anedotas semelhantes para contar, certo?
Sem dúvida, o mundo seria sério demais sem a
participação dos falantes, inquietos, joviais,
multifacetados, inteligentes e sempre criativos Tipos
7! (Gostou?)
Para os que gostam de música, dois exemplos de
Tipos 7 inesquecíveis: Mozart, que revolucionou sua
época com seu estilo inimitável e com seu polêmico
modo de se comportar numa época cheia de normas
e limites, e John Lennon, que nos deixou essa
maravilhosa canção Imagine, cuja letra perfeita é
capaz de expressar numa bela síntese poética o
anseio e a esperança que todos temos de viver num
planeta melhor, sem fronteiras e sem religiões.
Ambos viveram existências marcadas pelos atos
extravagantes e contra a corrente de seus tempos.
Como esquecer o alegre Darcy Ribeiro? Ele dizia:
“Viver é muito bom, eu não quero morrer!” Sua
frase mais “7” foi: “Fracassei em tudo o que tentei
na vida. Tentei alfabetizar crianças, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei uma
universidade séria, não consegui. Mas meus
fracassos são minhas vitórias. Detestaria estar no
lugar de quem venceu.” Numa reportagem de Paulo
Moreira Leite publicada na Veja se lê a seguinte
descrição do Darcy Ribeiro: “Tinha a erudição
eclética do autodidata e passou os últimos anos
dando entrevistas com a freqüência de uma estrela
de rock, exibindo sua inteligência elétrica, chutando
adoidado, dando palpite sobre todo, e, se lhe
perguntassem, contando detalhes de suas
preferências sexuais (...) exuberante, tropicalista,
apaixonado, malandro, contraditório, sem
compromisso com a razão, o método e o rigor (...)
separado (...) construiu uma fulgurante coleção de
namoradas (...)” Um homem incrível, não é
verdade?
É fácil encontrar Tipos 7 dispostos a criar e
realizar projetos e negócios diferentes, não
convencionais ou inovadores. Eles sempre têm
algum bom programa. É fácil achá-los entre as
pessoas que viajam pelo planeta à procura de
aventuras, no mundo dos criativos publicitários, do
cinema, dos compositores de vanguarda, da
comédia, dos grandes entrevistadores, da
arquitetura, nos empreendimentos que poucos se
atreveriam a sonhar e muito menos realizar.
Maravilhoso, simplesmente, maravilhoso! Como se
sente após conhecer alguns dos membros da sua
tribo? Na verdade, seriam muitos os destaques.
Tipos 7 são únicos! Legal, não é?
Num de nossos primeiros e mais bem sucedidos
workshops de Eneagrama realizados aqui no Brasil
em 1996, no Hotel Le Meridien, no Rio de Janeiro,
com a participação de quase 400 pessoas, o
encontro dos Tipos 7 foi maravilhoso, fantástico!
Márcio Galvão, um criativo Tipo 7 assumido, com
quem participei do Projeto Simplesmente
Copacabana junto a Liane Marcondes da Dialog,
liderou a alegria contagiante desse grupo tão
especial! Literalmente, fizeram a festa! O único
inconveniente é que desde que dirijo workshops são
sempre poucos os Tipos 7 participantes (Tudo bem,
Tipos 7, eu sei que é uma chatice encerrar-se num
fim de semana para estudar e vivenciar o
Eneagrama, especialmente aqui neste belo pais!) e
menos ainda os que entregam seus depoimentos
escritos e completos. Por isso tive que escolher
somente três deles para utilizar neste capítulo.
Enfim, os Tipos 7 são, simplesmente, admiráveis!
Porque, para ser diferente neste mundo, é preciso
não ter medo. É preciso ser ousado! Acima de todas
as coisas, os Tipos 7 são ousados e corajosos! Está
gostando do modo de iniciar a análise da sua
máscara? Gostou do “banho no seu ego”? Está se
sentindo à vontade? Acho que peguei você! Não
percebe que já comecei a “pisar no seu calo”?

Negando o medo como uma maneira


de sentir liberdade

Devemos lembrar que os Tipos 7 fazem parte da


tríade centrada no mental do Eneagrama (o que
Gurdjieff chamou Centro Intelectual) e que no
Medo nuclear que comanda essa tríade se esconde a
chave para compreendê-los. Poder-se-ia dizer que os
Tipos 5, 6 e 7 percebem mentalmente as ameaças da
existência e “imaginam” como deverão enfrentá-la:
os Tipos 5, então, as enfrentarão a partir de uma
“construção mental de segurança”, uma espécie de
mundo próprio, no qual o raciocínio e o
conhecimento adquirido serão os grandes aliados.
Para os Tipos 5, na máxima “Saber é Poder” está a
resposta que exorcizará seus medos enquanto a
procura do isolamento social se transformará no
meio prático que consolidará a estrutura de
segurança criada ao seu redor. Já os Tipos 6
decidiram que seus medos devem ser enfrentados
mediante um constante estado de alerta interior, um
estado de prevenção que os leva a imaginar quais
são esses perigos, onde se ocultam e,
conseqüentemente, a valorizar e procurar a união
com pessoas de confiança, os amigos, os grupos,
com os quais se sentirão mais seguros e confiantes.
No caso dos Tipos 7, o medo simplesmente deverá
ser ignorado e/ou enfrentado vivendo-se sempre de
uma maneira otimista, descobrindo o “lado bom das
coisas”, e “planejando” de que maneira garantir um
constante “prazer em tudo o que se faz”. Um dos
nossos alunos reconhece que: Pareço não ter medos,
ou eles estão tão ocultos que não dá para perceber
(...) Em algum momento, quando crianças, os Tipos
7 decidiram que enfrentariam o medo de perder a
felicidade, que todas as causas que provocavam a
perda da alegria tinham que ser destruídas e que
nenhuma delas os privaria de serem felizes para
sempre. Tudo se pode fazer, tudo se pode
solucionar, tudo se pode viver, tudo é válido para
atingir o ponto de segurança. Portanto, todos os
limites, regras e normas são percebidos como as
causas que provocam a perda do prazer, da alegria e
da liberdade. Estes limites deverão ser enfrentados,
porque por trás de cada um deles se escondem
punições, castigos, proibições e implicam
submissão, obediência, e aceitação muitas vezes do
que vai contra nossos anseios de felicidade. Em
algum momento, então, os Tipos 7 decidem não ter
mais medos e ficar acima daquilo que os provoca ou
fora do seu alcance. Não é que se livrem deles. Pelo
contrário, o medo nuclear da tríade 5-6-7 será
ignorado, abafado, afastado, evitado. Como
conseguem fugir do medo? Como ficam acima dele
ou longe do que o provoca? Simples: Nunca ser
como os adultos, nunca deixar de brincar, nunca
deixar de sonhar, nunca submeter-se a nada. Só se
lembrarão os melhores momentos da vida, os outros
serão literalmente “apagados”. Esta decisão tem
suas vantagens e desvantagens, como veremos em
seguida.

A decisão de ser um “puer aeternus”


(ou como se livrar do medo e ser feliz sempre)

Quando Tipos 7 decidem inconscientemente não


ter medo (inconscientemente porque é uma
“decisão” tomada em algum momento da infância,
quando a personalidade estava sendo formada),
percebem intuitivamente que o caminho é nunca se
comportar como adultos, nem aceitar o mundo dos
adultos. O mundo dos adultos é distante, talvez
esteja cheio de perigos, obrigações, deveres,
proibições, regulamentos e outras barreiras entre
eles e o prazer. Talvez seja um mundo demasiado
“sério”. O mundo das crianças é “leve”, é vida
“tranqüila” é “jogo e lazer” e, portanto, sendo e
sentindo como criança se pode ser sempre “livre” e
“feliz”. Crianças são as únicas que podem transpor
as barreiras sem serem cobradas por isso, nem
punidas. Poderíamos dizer que Tipos 7 são capazes
de compreender, de um modo pleno, o ensinamento
do Mestre Jesus Cristo, que diz que “o Reino dos
Céus é das criancinhas”. Será a procura do
“paraíso” na Terra o que vai motivar a existência
deste Tipo. O Mestre Osho, um Tipo 7 iluminado,
com sua filosofia da contínua “celebração”,
simbolizou, na nossa época, essa procura. Na sua
vida e obra, concretizada após muita perseguição,
na Osho Multiversity de Poona, Índia, se pode
apreciar até hoje a influência desse seu “sonho” de
um mundo em que o prazer, a alegria e o bem-estar
podem estar sempre presentes.
Para a maioria dos Tipos 7 a infância é lembrada
com alegria. Essa capacidade de somente guardar as
melhores lembranças da vida faz parte desta
Máscara Eneagramática e acompanhará seus
possuidores até o final dos seus dias, como muito
bem o expressa Félix, um de nossos alunos:
“Guardo as melhores lembranças de minha
infância, juventude e idade madura e agora, com 62
anos, busco na vida espiritual um caminho seguro
que me levará à auto-realização. Sou otimista.”
Um outro aluno lembra:
“Durante o período de 4 a 10 anos, a minha
infância foi tranqüila, feliz, ao lado dos meus pais e
mais 3 irmãos. Meu pai seguia a filosofia de Allan
Kardec, o que fazia com que agisse sempre com
tranqüilidade, sem agressividade física ou verbal.
Não me recordo de ter sido agredido por ele, dele
guardando uma imagem de um ser especial que
zelou por toda a minha infância, com um amor de
um nível bastante superior. (...) Minha mãe era
muito exigente na nossa educação, estimulando
sempre a busca pela qualidade de vida tanto
material como espiritual. Ambos foram os
responsáveis por uma infância, sem atropelos, sem
violência, nos fornecendo a estrutura adequada ao
desenvolvimento.”
Por outro lado, a decisão “inconsciente” de ser
internamente uma “eterna criança”, pode estar
também associada, em certos casos, a privações
vividas na infância e, em outros, ao fato de que,
quando crianças, muitos Tipos 7 reclamam de não
ter tido muito amor dos pais ou de terem sido
ignorados emocio​nalmente ou tratados por eles da
maneira que poderíamos chamar “aceitável”. Não
que não tenham sido “bons pais” no sentido geral e
subjetivo que damos a essas duas palavras, e sim
que certos prazeres infantis derivados do contato
com os pais não foram satisfatórios. Sobre este
assunto, reflitamos no depoimento em que Hilária,
uma das minhas alunas, lembra que aspectos da sua
infância deram origem à sua Máscara 7:
“Aos dois anos de idade, mais ou menos, nasceu o
meu irmão. Creio que fui deixada um pouco só,
devido aos afazeres de minha mãe. Nesta época
morávamos afastados de outros familiares. Lembro-
me que criei amigos imaginários. As lembranças que
tenho da infância são agradáveis, porém eu não
decidia nada, aceitava sempre. Também não pedia
para meus desejos serem realizados. Embora
algumas vezes brincasse em grupos, me sentia
sempre só. Lembro-me de momentos felizes, estava
só e brincando com argila, ou em um pomar
comendo frutas. Não sei bem, mas é possível que
meus pais não conversassem muito comigo.
Meu lar não era dos mais tranqüilos, havia
algumas divergências entre meus pais. Mas sempre
me senti amada, embora esse amor fosse sem
aconchego, no sentido de brincadeiras, de abraços, e
de beijos, etc. Lembro-me do grande prazer que
sentia em contato com a natureza, nesses momentos
vejo-me sempre só. Foram esses os aspectos que
deram origem à minha máscara.”
Destaquei as frases em que nossa aluna menciona
a sensação de solidão, porque nelas está implícito o
medo que deverá ser superado, no caso dela,
“criando amigos imaginários” para garantir sua
alegria. Este aspecto do uso positivo (em alguns
casos até positivo demais) da imaginação é
extremamente importante para a “vida feliz” que
Tipos 7 almejam obter. A imaginação se torna o
meio pelo qual eles “planejarão” o modo de obter o
prazer em tudo e de qualquer jeito.

Hedonismo ou como os Tipos 7 decidem


não sofrer nunca (se possível)

A palavra “hedonismo”, que na antigüidade estava


relacionada apenas a um sistema filosófico que
declarava que a obtenção do prazer era o objetivo
mais importante da existência, se transformou, em
nossa época, num sinônimo daquelas pessoas que
tentam obter “prazer” a qualquer custo e sempre.
Semanticamente, a palavra “hedonismo” ficou
ligada a palavras como “excesso”, “permissividade”
e “luxúria”. No Brasil, poderíamos dizer que a
famosa e popular “Lei de Gerson”, ou seja, a
atitude que leva um sujeito a querer tirar vantagem
de tudo, está muito ligada à atitude “hedonista”
típica: quanto mais vantagens eu possa tirar de
todas as situações, maiores serão as garantias de
obter sempre “meu” prazer. Esta atitude faz parte
da Máscara 7. Como escreve Claudio Naranjo
referindo-se a este aspecto: “(...) Em alguns casos,
podemos nos referir a uma ‘adequação cósmica’, na
qual o contentamento do indivíduo é apoiado por
uma visão do mundo na qual não existe bem ou
mal, culpa, imposições, deveres ou a necessidade de
fazer esforço – basta aproveitar.”
Existe no Tipo 7 uma rejeição ao sofrimento, que
cristaliza ainda mais essa atitude hedonista. Se algo
não pode ser obtido, não importa, não se deve sofrer
por isso. Em outra parte do seu depoimento, Hilária
nos mostra este aspecto de sua máscara:
“Adoro explorar territórios novos. Gostaria de
poder voar ou de colocar uma mochila nas costas e
sair viajando pelo mundo. Tenho um espírito
aventureiro. Concretizar esses e outros desejos é
difícil. Sofrer, nunca: há sempre algo bom a se tirar
das coisas difíceis. Adio o sofrimento ao máximo,
porque espero o melhor.”
Os Tipos 7 mostram esta tendência hedonista
quando adultos, procurando preencher suas vidas
com o máximo de prazeres. Numa parte do seu
depoimento, nosso aluno Tipo 7 descreve assim esta
tendência: “(...) Também planejo fazer programas
que eliminem o tédio e intensifiquem os prazeres da
vida (...).” Esta necessidade de “intensificar os
prazeres da vida”, de estar sempre feliz, de ter
sempre mais “brinquedos de adultos”, de preencher
todos os instantes com uma hiperatividade, é uma
maneira de fugir do medo (Ponto 6) e uma clara
influência do Ponto 8 do Eneagrama no que se refere
à luxúria, entendida aqui como a ilimitada procura
de prazer. Nessa procura pelo prazer, os Tipos 7 às
vezes exageram tanto que até utilizam a trapaça
para conseguir o que desejam. O medo da perda do
prazer e a procura do máximo de prazer provocarão
a consolidação da paixão do Traço Principal: A
Gula.

Observando o traço principal: a gula e suas


conseqüências
o Tipo 7 e o tipo de sensação extrovertida de Jung

Os Tipos 7 desejam obter prazer em tudo o que


fazem, de todas suas experiências e vivências. É esta
procura a que explica a “Gula e Intemperança”.
Jung nos ajuda a compreender mais profundamente
estas características dos Tipos 7 quando descreve na
sua tipologia os tipos que ele chama de sensação
extrovertida com estas palavras:
“Como a sensação está fundamentalmente
condicionada pelo objeto, aqueles objetos que
estimulem as sensações mais intensas serão decisivos
para a psicologia do indivíduo. O resultado é um
forte vínculo sensual com o objeto... (...) O único
critério de seu valor (do objeto) é a intensidade da
sensação produzida pelas suas qualidades
objetivas...
Nenhum outro tipo humano pode se igualar em
realismo ao tipo de sensação extrovertida. (...) O
que experimenta serve (...) como um guia para
sensações novas (...) A sensação é uma expressão
concreta da vida (...) simplesmente a vida real vivida
ao máximo. Todo seu objetivo é o gozo concreto e
sua moralidade se orienta de acordo com isto.”

A Gula é definida no Dicionário Brasileiro da


Língua Portuguesa como “excesso na comida;
glutonaria, gosto exagerado das boas iguarias;
gulodice”. É interessante notar que a palavra
“gulodice”, além de significar gula e guloseima, tem
também o sentido figurativo de “desejo veemente”.
Também acho interessante destacar a palavra
“gulosar” que significa, por sua vez, “comer
gulodices; comer pouco de várias coisas; de bicar na
comida, escolhendo o melhor”. Quero que você
tenha em conta estes significados para a análise que
realizarei a continuação.
A chave da atitude do Tipo 7 na vida esta
resumida numa das estrofes do hino em latim da
Universidade Católica de Valparaíso, Chile.
Traduzida ao portu​guês essa frase disse:
“Alegremo-nos (portanto) enquanto somos jovens,
porque a velhice é um estorvo e a juventude é
fecunda; e, no final, todos transformaremo-nos no
pó da terra.”
Este é o leitmotiv da eterna criança, do eterno
Peter Pan que se esconde no mundo interior de cada
Tipo 7: conseguir ser feliz ao máximo nesta
existência, negar-se à velhice, curtir, desfrutar e
alegrar-se sempre. Portanto, a procura do prazer, da
liberdade e da felicidade é compulsiva e constante. A
gula dos Tipos 7 é pelas experiências prazerosas,
pelos projetos que lhes tragam alegria, pelos
trabalhos que lhes proporcionem a oportunidade de
criar, desde que não impliquem demasiado
envolvimento. Nosso já citado aluno reconhece:
“Sou um pouco narcisista mas muito Peter Pan. Isso
herdei de meu pai. Busco a felicidade participando
de muitas atividades na ânsia de obter gratificação
sentimental e manter um alto astral. Às vezes me
comprometo além de minha capacidade, o que leva
a desistir facilmente de algumas destas atividades;
outras vezes, substituo certas atividades por outras
novas (que possam ser mais promissoras).”
Como diz mais francamente um Tipo 7 amigo
meu: “Após um tempo abandono certos trabalhos e
projetos porque perdem a graça.” Aqui é onde se
esconde o problema: tudo pode “perder a graça”,
então é necessário viver “gulosando”, ou seja, fazer
de tudo um pouco, fazer e provar “mil coisas ao
mesmo tempo”, escolher entre todas as coisas as
mais prazerosas, as melhores. O resto deve ser
adiado, abandonado, deixado de lado, porque
“perdeu a graça”, porque “cansei”, porque “ficou
difícil demais”, etc. Aparece assim, quase que
sutilmente, uma certa irresponsabilidade com
respeito às próprias ações. Para evitar a punição, a
crítica e os atritos, os Tipos 7 tentarão transformar
esses abandonos, essas irresponsabilidades, esse
“deixar de lado”, em situações sem importância,
nada demais: Vamos celebrar que não é nada sério!
Freqüentemente, a gula não lhes permite finalizar,
concluir, “ir fundo”, nem nos trabalhos nem nos
relacionamentos. Existe uma certa superficialidade,
um trato por cima, já que, se vão mais fundo,
podem correr o risco de “perder a liberdade”, de ter
que lidar com problemas, com “a parte chata do
assunto”. Pregar peças nos outros, “passar a perna”
de um jeito simpático, não levar nada a sério,
parecerá até sem importância para os que rodeiam
os Tipos 7 mais harmônicos. Seus atos serão até
interpretados como “brincadeiras”, a forma com a
qual ele se transformará muitas vezes no lendário
“vendedor de gato por lebre”, que no final convence
a seu ingênuo comprador de que gato é tão bom ou
melhor que a própria lebre. Sendo assim, qual é o
problema? De alguma maneira, eles nos lembram o
astuto Hermes, que roubou as vacas de Apolo
apenas para ser conduzido ao Olimpo e solicitar a
seu pai, Zeus, que o admitisse lá como um deus. O
mito conta que Zeus até gostou do jeito sem-
vergonha do filho e lhe concedeu o que queria.
Conta a lenda que para roubar as vacas de seu meio
irmão sem deixar rastro, Hermes botou suas
sandálias ao contrário para que suas pegadas
confundissem ainda mais o sábio Apolo. Apolo
sempre caiu em todas as peças que Hermes lhe
pregou, e dessa forma Hermes sempre obteve tudo o
que queria. Com certeza, vocês, Tipos 7 que estão
lendo esta parte do livro vão ter um súbito desejo de
conhecer um pouco mais este astuto Hermes. Até o
Mestre Jesus Cristo pregou que devíamos ser
“astutos como serpentes e humildes como pombas”,
só que não se deve exagerar e nem sempre é bom
ultrapassar certos limites. Os Tipos 7 desejam
sentir-se sempre livres para realizar e conseguir o
que querem de qualquer jeito. Por esta razão,
freqüentemente confundem liberdade com
libertinagem, com não compromisso, com “direito a
abandonar” sem dar explicações válidas. Há algo de
semelhante entre a gula e a libertinagem. A
capacidade de obter o prazer e de sentir-se livre e
com direito a todo o prazer não é negativa. O
negativo da situação tem a ver com a procura
“desnorteada” do prazer, com o “desespero” e com
a angústia de querer preencher o que Naranjo
chama de “vazio ôntico” deste Tipo Eneagramático.
Ele nunca consegue e, nessa busca desesperada do
prazer, desconhece a possibilidade de “saborear” até
o final uma única vivência porque sempre está
querendo “desfrutar” uma outra. O resultado desta
gula eneagramática é a intemperança.

Uma mistura perigosa: gula e intemperança

Pelo fato de querer sentir, viver, fazer “de tudo um


pouco”, sem limites, sem escolher, sem ficar preso a
nada e com a pressa que caracteriza a gula, alguns
Tipos 7 perdem a capacidade de concluir coisas
importantes, perdem a capacidade de “amadurecer”,
de viver certas situações até o final porque
“perderam a graça”. Deixam de ver a profundidade
de certos eventos e ignoram os limites. Todos
sabemos que, muitas vezes, comer de tudo, beliscar,
pode provocar graves problemas digestivos. Com
nossas experiências pode acontecer o mesmo. Alguns
Tipos 7 terminam “enjoados” quando não se
permitem a possibilidade de controlar a “gula” e o
“hedonismo”. A gula e o hedonismo oferecem
apenas uma visão parcial e unilateral da existência.
Isto equivale a dizer que os Tipos 7 não equilibrados
se arriscam a viver num mundo ilusório. O grande
risco é achar que desta forma poderão ser mais
felizes. Do mesmo modo que os Tipos 4 só
enxergam o sofrimento que existe nas suas vidas e
ficam presos a ele, os Tipos 7 podem ficar presos à
“gula”, rejeitando o sofrimento e a dor que fazem
parte da existência. Do mesmo modo que os Tipos 4
precisam compreender o que é “sofrimento
consciente”, os Tipos 7 devem descobrir que esse
tipo de sofrimento pode também ser importante
para se atingir a verdadeira felicidade. No livro
Kierkegaard’s, Philosophy, (A filosofia de
Kierkegaard), de John Douglas Mullen, encontramos
algo sobre isso. Acho que os Tipos 7 deveriam
examinar com cuidado este comentário filosófico:
“Não é muito difícil observar por que a vida do
hedonismo diverso é insatisfatória (...) O tédio, seu
inimigo final, é inevitável (...) Uma vida dedicada à
coleção de experiências agradáveis ou ‘interessantes’
é uma vida vazia. Não é uma vida do espírito, mas
uma na qual o espírito some na multidão de
diversões. Ao pensar nisto, todos sabemos que
aqueles que estão em condições de desfrutar as
doces diversões da vida, não estão em melhor
posição, de modo algum, com respeito àqueles que
não estão nessa situação. Sabemos que aqueles que
têm ficado entregues a uma vida de auto-indulgência
freqüentemente se vêem atormentados pelo vazio,
pela solidão, pelo ódio a si mesmos, pela nostalgia,
e, apesar disso, não estão dispostos a mudar. Mas,
ainda que saibamos tudo isto, seríamos incapazes de
renunciar, de deixar passar a oportunidade de viver
uma vida assim. Por quê? Porque ficamos convictos
de que seríamos judiciosos no uso do prazer.
Praticaríamos a moderação (...) Uma vida de
diversões superficiais tem grande atrativo, tal como
um tabuleiro de doces para uma criança. Neste
último caso, sabemos que é porque a criança não é
séria com respeito a seus hábitos de alimentação. O
mesmo ocorre conosco (...) Ficar entregue à
indulgência é dizer: ‘Tudo o que eu sou é um
potencial para o prazer. Quanto mais prazer exista,
maior eu sou.’ Com certeza, ninguém pode levar isto
a sério, e é por essa razão que uma vida assim está
alicerçada no auto-engano.”
Poderíamos dizer que os Tipos 7 podem beber do
vinho da vida sem medida e terminar tão bêbados
que a alegria inicial pode se transformar numa
ressaca daquelas! Deve-se beber do vinho da
existência com moderação. Passar dos limites e
correr muitos riscos é ficar aberto aos “acidentes”
que bêbados costumam sofrer com freqüência.
A aluna já citada reconhece sua “gula” em relação
às suas atividades e os problemas: “Procuro
trabalhar muito, até mesmo me sobrecarregando.
Pela ‘gula’, julgo ser capaz de realizar tarefas além
das minhas forças. O ‘fazer’ excessivo leva-me
muitas vezes a uma situação de conflito, fico muitas
vezes sem discernir o que realmente é o mais
importante no momento. Isto tem relação com uma
dificuldade de priorizar os assuntos, as realizações,
enfim os afazeres (...) Tenho pressa, porque
necessito desempenhar muitos papéis e muitas
funções (...) Tenho sempre o que fazer, devido a
muitos interesses. Por isso há sempre afazeres
pendentes, a nível concreto e abstrato. O tempo e o
espaço são problemáticos para mim. A questão dos
limites é difícil; quando me dedico a algo, esqueço
assuntos também relevantes.”
Alguns Tipos 7 percebem os riscos da gula e da
intemperança bastante cedo, o que lhes permite
transformar-se em bons gourmets, ou seja,
desfrutam o melhor da vida e “bebem dos seus
melhores vinhos” com a moderação e o refinamento
que lhes permitem obter sucesso, prazer e alegria
verdadeiras. Outros menos conscientes são
literalmente destruídos pela “gula” e a intemperança
que se manifestam em suas experiências
profissionais e/ou pessoais.
Os Tipos 7 deveriam refletir num velho
ensinamento hermético que recomenda a nós, seres
humanos, sermos conhecedores profundos da “Arte
de Viver”. O Arcano Maior da Temperança no Tarô
de Aleister Crowley esconde justamente esse antigo
segredo que conseguimos conhecer quando emoções
e pensamentos estão em equilibrada relação e
descobrimos a preciosa Pedra Filosofal oculta no
nosso mundo interior. Tanto a gula quanto sua
companheira eneagramática, a “luxúria”, nos
vencem porque, como diz o ditado popular, “os
olhos são maiores que o estômago”. Então, veja
como este seu Traço Principal se manifesta em você
e comece a observação de si que lhe trará a
possibilidade de alcançar as Virtudes da Temperança
e do Equilíbrio, nas quais se fundamentam sua
verdadeira liberdade e seu contentamento pleno.

A projeção para o futuro:


os riscos do “sonhar acordado”

Na vida dos Tipos 7, a imaginação joga um papel


tão importante quanto para os Tipos 5 e 6 do
Eneagrama. Porém ela se manifesta como um
refúgio e/ou meio pelo qual o mundo é idealizado. É
enxergado como se tudo estivesse ao seu favor
sempre. Só que, como todos os mundos imaginários,
eles não resistem sempre aos confrontos com a
realidade. Novamente temos aqui o risco de uma
imaginação não controlada, de uma imaginação que,
em vez de ser uma aliada, ou seja, uma capacidade
disponível, se transforma em um meio pelo qual a
realidade não é enxergada como realmente é. A
imaginação, para os Tipos 7, é uma maneira de
fugir da realidade para mundos idealizados. Pelo
menos, para este Tipo Eneagramático, a imaginação
não cria pesadelos, como acontece com os Tipos 5 e
6. Peço para que você leia o que escrevi sobre este
fato no final dos comentários ao Tipo 6. O aluno já
citado anteriormente declara em relação a este
respeito que:
“Na infância, devido às imposições assustadoras
da vida, me refugiava na imaginação.”

E nossa aluna celebra: “A minha imaginação


sempre mostra o lado melhor dos acontecimentos”,
mas reconhece: “Planejar me dá grande prazer,
executar nem sempre consigo.”
A percepção do que nosso aluno chama de
“imposições assustadoras da vida” tem vários
significados e diversos níveis na vida deste Tipo
Eneagramático. A maioria dos Tipos 7 acha que a
imaginação é um refúgio e um meio para fazer
planos de como atuar, de como realizar um projeto,
uma viagem, uma aventura. Isto os torna
reconhecidamente “sonhadores”. De alguma
maneira, eles desejam ser felizes a qualquer custo e,
quando seus sonhos não se realizam, a influência do
Ponto 8 e o movimento ao Ponto 1 do Eneagrama
colaboram para deixá-los com muita raiva. Do
mesmo modo que uma criança quando não consegue
os brinquedos dos seus sonhos fica zangada e cheia
de considerações internas, os tipos 7 não aceitam
facilmente o fato de não verem realizados seus
desejos. O planejar atribuído a eles tem um certo ar
de soberba. As coisas devem acontecer como eles
desejam, como eles planejaram. Nossa aluna
reconhece que nem sempre “imaginar o lado melhor
dos acontecimentos” é certo:
“Este otimismo é positivo em alguns fatos da
minha vida e profundamente negativo em outros,
assim como a inexistência do medo.”
Nos casos de Tipos 7 mais desequilibrados, esta
atitude de “sonhar acordados” sem considerar todos
os aspectos de uma determinada situação,
desconhecendo os riscos, os leva a uma total falta de
autocontrole nos seus atos. Ficam sem limites e
“fora da realidade”. Conheço um Tipo 7 que, com
suas atitudes, quase acaba com o equilíbrio
financeiro de toda a família. Após pedir
desesperadamente que alguns seus parentes e amigos
solucionassem os problemas dele, este 7 voltou a
cometer os mesmos erros mais uma vez. Sua atitude
é simples demais e desconsidera a “seriedade” de
seus atos: “Não adianta me julgar. Eu sei que o que
fiz está errado. E daí? Agora já não adianta pensar
nisso.”

Iniciando o processo de mudanças positivas


observando os movimentos a favor e contra a seta
do 7 ao 1
e do 7 ao 5

O movimento ao Ponto 1 do Eneagrama exige que


os Tipos 7 alcancem o melhor de si mesmos.
Quando positivo, este movimento ajuda a que
alcancem o máximo de satisfação naquilo que fazem
graças à certeza de estar bem-feito. Também, tem a
ver com a cobrança que muitos deles fazem a si
mesmos em relação ao que pretendem alcançar. Às
vezes implica um certo sentimento de culpa pelo
fato de não poder atingir esse ponto de “perfeição”
que poderia trazer a sonhada felicidade plena. Para
alguns Tipos 7, “ir ao 1” é desistir de projetos ou de
planos por acharem que estão incompletos, que falta
algo para sua execução. Isto pode ser negativo em
algumas ocasiões.
O estado de autocrítica é muito forte quando eles
se direcionam até o Ponto 1 do Eneagrama e está
explícito, e muito bem descrito, por um dos nossos
mais jovens alunos Tipo 7 no depoimento que, com
certeza, servirá a todos os que estão empenhados no
autoconhecimento, já que mostra esse instante
especial no qual se descobrem as “limitações” às
quais se está sujeito e se percebe como é difícil
atingir uma verdadeira liberdade. No fundo, este
jovem aluno está iniciando o caminho do
autoconhecimento, e ele sabe que isso é o mais
importante:
“Para quem estuda o Eneagrama, o fato de
conhecer a personalidade pode ser uma vantagem, já
que podemos indicar e perceber quando estamos
agindo de forma automática, ignorando nossas
verdadeiras necessidades e na maioria das vezes nos
causando problemas.
Mas para mim também gera outras emoções:
Raiva por eu perceber minhas limitações, medo por
achar que nunca poderei superá-las e desespero
porque começo a perceber que nem meus
pensamentos são realmente meus, e sim o fruto de
minha personalidade, ‘asas’ e ‘movimentos’; me
tornando um verdadeiro robô.
No meu caso específico, como sou 7, o primeiro
movimento que vai para o ‘1’ é muito forte e
determinante no processo.
Quando eu tenho um projeto ou uma meta, o que
é fácil devido à minha capacidade de planejamento,
eu ‘naturalmente’ me detenho, achando que ainda
não estou preparado, ou que as coisas ainda não são
perfeitas (...) acabo adiando ou desistindo; como
isto é uma constante gera muita raiva por nunca
considerar satisfatórias as circunstâncias e por me
sentir incapaz ou muitas vezes julgar os outros
incapazes.
Este movimento ao Ponto 1 é muito forte em mim,
porém, por conhecer isto, tenho conseguido
‘contrariar a máscara’, tentando desempenhar a
virtude do movimento ao 1, que é a Serenidade.
Saber que mesmo as coisas não estando perfeitas
podem ser realizadas. Curiosamente, depois de cada
etapa ‘vencida’ eu me sinto leve, como se tivesse
vencido um demônio interno, um fantasma, eu me
sinto capaz (...)”
Acho desnecessário mais comentários a respeito,
concorda? Observe como se dá em você o
movimento ao Ponto 1 e leia o capítulo referente a
essa “Máscara” Eneagramática, para maior
compreensão.

Observe quando o Movimento ao Ponto 1 aumenta


seu narcisismo
e excesso de autoconfiança

Um dos aspectos “negativos” do movimento ao


Ponto 1, se dá quando você se considera “o melhor”
de todos. Nessa atitude, você não somente julga os
outros como inferiores, como acredita piamente que
é “superior” a todos. Esta atitude pode provocar
uma natural rejeição por parte dos seus amigos,
colegas e parentes, os quais sentirão desagrado e/ou
tristeza perante essa sua incapacidade de ficar num
mesmo nível. Quando os Tipos 7 se fixam na idéia
de se sentir “superiores” e “melhores”, achando que
são os únicos a entender as coisas, tendem a
desprezar os que estão perto deles sem conseguir
apreciar as suas virtudes e capacidades, valorizando
apenas seus erros e fraquezas.

A necessidade de sentir-se “livre” e seus aspectos


positivos e negativos

Em relação ao movimento para o Ponto 5 do


Eneagrama, muitos Tipos 7 encontram nele um
positivo reforço à idéia de serem “livres”. Quando
negativo, implica uma espécie de afastamento das
pessoas e/ou idéias que signifiquem “compromisso”
ou que pareçam implicar uma perda de liberdade.
Também confirma a idéia narcisística de que só eles
sabem como conseguir determinadas coisas, o que
lhes impede de “ficarem abertos” aos dados do
mundo externo, que poderiam beneficiá-los. A aluna
citada diz a respeito:
“Gosto da solidão, ficar só para realizar as coisas
das quais gosto. Enfim, creio que me é mais
interessante comunicar-me do que relacionar-me.”
Também fica muito claro o movimento ao 5
quando Tipos 7 declaram como Hilária:
“Relação só admito com pessoas com as quais me
sintonizo a nível espiritual e intelectual.”
É importante notar que ela mesma admite no
início do seu trabalho que: “Quando iniciei o estudo
do Eneagrama, ainda bem no início, pensei ser o ego
número 5”, o que muitos Tipos 7 também
reconhecem como algo interessante quando iniciam
a análise e observação de si mesmos.
De positivo do movimento contra a seta ao Ponto
5, os Tipos 7 devem aprender a interiorizar-se. Este
interiorizar-se nada tem a ver com isolar-se ou ficar
sozinho ou afastado dos demais. Tem a ver só
consigo mesmo. Mediante a interiorização ou da
atitude reflexiva que o filósofo espanhol José Ortega
y Gasset chamava de ensimismamento, os Tipos 7
podem conseguir “DESIDENTIFICAR-SE” das
múltiplas escolhas que o atraem e não o deixam
“fixar-se” no que é mais importante em
determinados momentos. Desta maneira, podem
conseguir ser mais seletivos, podem vencer a
tendência à evasão mental, controlando os “pulos de
macaco” com os quais seu Centro Intelectual vai de
um a outro assunto, sem conseguir concentrar-se
com firmeza naquelas questões mais importantes.
Veja as características do Tipo 5 no capítulo
correspondente e aprimore a observação de si
mesmo.

Seus parceiros 6 e 8 (pegue só o melhor deles!)

A análise detida destes seus parceiros


eneagramáticos lhe será de grande proveito. Do
Ponto 6, deve cultivar a virtude da Coragem,
especialmente no que diz respeito a assumir
compromissos até o fim e a não abandonar seus
projetos pela metade. Do Ponto 8, deve aproveitar a
firmeza com que esses Tipos decidem realizar seus
planos, dispostos a passar por todos os obstáculos.
Do Ponto 6, evite o medo que paralisa seus planos e
do 8, a incapacidade de ficar contente querendo
sempre mais e mais. Observe como as Virtudes do
Equilíbrio e da Temperança estão relacionadas à
descoberta do que são as virtudes dos seus parceiros
eneagramáticos: Alcançar a Fé (Virtude do Ponto 6
do Eneagrama) lhe permitirá ir a fundo em seus
projetos, e deixar de sentir-se inseguro em relação às
suas escolhas. Por sua vez, o controle da Luxúria
por meio do Contentamento que Tipos 8 atingem
após compreender que a maior conquista e o maior
poder só existem no fundo de nós mesmos, lhe
permitirá desfrutar mais plenamente das coisas, sem
essa sensação de vazio que tanto perturba a Tipos 7.
No fundo, trata-se de descobrir que podemos ter
tudo e perder de vista o Ser, ou que podemos ter o
justo sem deixar de senti-lo presente nas nossas
vidas.

Controlando o sentimento de “inferioridade”

Do Ponto 6, deve-se evitar o sentimento de


insegurança em relação a si mesmo. Alguns Tipos 7
tendem a sentir-se “inferiores” quando acham que
não estão conseguindo o que desejam e se
comparam aos que aparentemente são bem-
sucedidos. A partir desse instante, passam a
imaginar que suas vidas não estão certas, que são
um fracasso e que talvez não consigam o que
almejam. Num dos nossos workshops, um jovem
Tipo 7 nos revelou que ele sempre imaginara que
seria incapaz de conseguir qualquer coisa na sua
vida. Com forte influência negativa do Ponto 6, que
lhe provocava uma baixa auto-estima, imaginava
que nele o seu Traço Principal não tinha a menor
chance de ser superado, o que o fazia sentir-se
irresponsável e desorientado. Quando observou, nas
dinâmicas de grupo, que esta “idéia” de
“inferioridade” tinha sido vivida por outros Tipos 7
que agora eram pessoas bem-sucedidas e felizes,
compreendeu que ele tinha as mesmas possibilidades
o que o fez recuperar sua autoconfiança.

Os problemas com hierarquias e autoridades

Atente para a colocação de um dos nossos alunos


do Tipo 7 já citados aqui, e observe qual seria sua
atitude em relação ao mesmo assunto:
“Em mais de 30 anos de serviço nunca fui chefe e,
nas poucas vezes que substituí o chefe, não fugia da
responsabilidade, mas ficava muito feliz quando o
expe​diente se encerrava e levava meu serviço sem
problemas (...)”
Observe de que modo os Pontos 6 e 8 interferem,
aumentam ou diminuem suas “idéias”, temores e
preconceitos em relação às palavras “autoridade(s)”
e “hierarquia(s)”. Veja como estes conceitos o
afetam e/ou como as situações relacionadas com eles
lhe provocam tensão, medo, frustração, raiva, e/ou
rejeição. Por exemplo, observe quando rejeita
posições de comando ou chefia nas organizações
e/ou empresas nas quais trabalha. Veja como as
relaciona com as idéias de “liberdade” e
“responsabilidade” e procure refletir nas suas
reações e preconceitos relativos a elas. Aprenda a
crescer com esta observação no dia a dia.

Controlando a agressividade e a luxúria

Tipos 7 devem perceber quando se tornam


agressivos demais, ou seja, quando a influência
negativa do Ponto 8 se faz presente com a força de
um “rolo compressor”. Isso acontece com mais
intensidade, quando os Tipos 7 sentem que as
pessoas poderiam estar contra seus planos e desejos
pessoais e/ou quando debocham, menosprezam e
minimizam a importância e as conseqüências dos
fatos e situações que desejam controlar ou provocar,
reafirmando suas capacidades e mostrando-se
“fortes” e “decididos” além da conta. Veja os riscos
dessa atitude.
Também observe como “gula” e “luxúria” se
complementam não deixando que você se sinta
satisfeito com o que tem no momento e fazendo
com que perca a capacidade de “curtir” a vida como
ela é.

Conquistando a virtude do equilíbrio

Já tratei desta virtude quando me referia aos riscos


da “gula” e da “intempe​rança”.
O Equilíbrio que Tipos 7 devem conquistar está
atrelado ao conceito de “Discernimento”, ou seja:
permitir-se a escolha certa, reflexiva e consciente de
tudo e qualquer coisa. No Equilíbrio está implícita a
idéia de “saber pesar”, de saber qual o “fiel da
balança”, quais os “limites”. Aqui a palavra limite
não deve ser atrelada à idéia de perda da liberdade e
sim à idéia de “temperança”. No caso de Tipos 7, a
virtude do Equilíbrio tem a ver com as de
temperança e sobriedade.
É interessante notar que a palavra “equilíbrio”
tem também uma relação estreita com as palavras
“harmonia” e “igualdade”. Também é interessante
refletir que “equilíbrio” se define algumas vezes
como “capacidade de agüentar uma situação
difícil”. Portanto, não fuja das situações difíceis e
dolorosas, não as ignore. Elas fazem parte da
existência. Tente observar como a procura de prazer
sem medida o afasta da possibilidade de ir fundo em
seus relacionamentos e responsabilidades. Não
exagere sua importância. Fundamentalmente, o
equilíbrio se perde quando você “perde o controle”
de si mesmo e das suas escolhas e decisões. Todos
estes “conselhos” apontam ao mesmo ponto: nunca
exceder-se. O excesso está relacionado com a
tendência à luxúria do Ponto 8 e guarda relação com
a atitude agressiva que caracteriza este seu
“companheiro” eneagramático, que tanta influência
exerce em Tipos 7. O segredo do equilíbrio está
nessa frase bíblica que diz: “Tudo está permitido ao
homem embaixo do sol, mas nem tudo lhe é
conveniente.”
O desequilíbrio dos Tipos 7 se dá quando estes
exageram na “consideração interna” e em suas
fantasias, quando as doses de prazer almejadas são
mentalmente exageradas, gerando-se então um
círculo vicioso semelhante ao que a psicologia
moderna chama de Círculo da Insatisfação,
Frustração e Desmoralização, ou Círculo IFD. A
procura do máximo de prazer oferecido por todos os
estimulantes externos (situações, vivências, projetos,
opções variadas, etc.) é IDEALIZADA, o que gera uma
fuga ao reino da fantasia e dos sonhos, com o qual
todo o provável prazer futuro que virá como
produto dessas experiências, é inflacionado. As
expectativas aumentam ilimitadamente junto com as
possibilidades de achar insatisfatórios os resultados
e/ou frutos dessas experiências. Então, quando o
“contato” com a realidade demonstra que o fruto
dessas experiências não era tão “maravilhoso”
assim, sobrevém a FRUSTRAÇÃO. Esta provoca, às
vezes, a sensação de que talvez faltou algo e gera um
processo de DESMORALIZAÇÃO, de abatimento da
moral e de desapontamento/decepção, ou, o que eu
acho mais adequado neste caso, gera um processo de
desilusão no sentido de que a fantasia e o sonho não
se realizam, porque no fundo só podiam existir fora
da realidade.

Relacionando liberdade e responsabilidade


com o autoconhecimento

Os Tipos 7 sempre reclamam para si a liberdade e


a amam. “Eu sou livre” é uma de suas frases
prediletas. Quando se trata de sujeitos equilibrados,
este senso de liberdade é positivo. Eles produzem ao
seu redor uma atmosfera aberta, na qual tudo pode
ser expresso e tudo faz parte da harmonia que
atribuem a uma existência sem cercas nem
obstáculos de nenhuma espécie. Para eles, a vida é
um maravilhoso presente e, como expressão de
agradecimento, permitem que tudo se manifeste
plenamente e se surpreendem sempre com tudo o
que de positivo ela oferece. Sentem que a vida é
inesgotável e “dá para todos” sem achar que correm
o risco de perder sua parte dessa dádiva preciosa
que é a existência. Por esta razão, são entusiastas e
muito falantes, cheios de idéias e soluções
“criativas” para tudo. As pessoas se sentem atraídas
por esse jeito “generalista” que eles passam. Sabem
tudo, conhecem tudo. Praticam tudo. O conceito de
liberdade para eles está atrelado tanto ao fato de ter
muitas opções e muitas atividades sempre, quanto à
idéia de não ter “rótulos” nem limites. Vejamos
como nossa aluna nos explica isto:
“Tenho muitas atividades, estudo vários assuntos,
buscando sempre o novo. Não gosto de
compromissos porque podem atrapalhar as minhas
opções em algum momento. Quero ser livre. Gosto
de solidão, ficar só para realizar as coisas das quais
gosto. Enfim, creio que me é mais interessante
comunicar-me do que realmente relacionar-me.
Relação só admito com pessoas com as quais me
sintonizo, a nível espiritual e intelectual. Não aceito
com facilidade a rotina. (...) Tenho pressa, porque
necessito desempenhar muitos papéis e muitas
funções (...) A questão dos limites é difícil, quando
me dedico a algo, esqueço assuntos também
relevantes. Não gosto de combinar nada com
antecedência, só próximo à realização decido o que
fazer (...) Não admito que me rotulem, por
exemplo, quanto a ser religiosa ou mística, ou
racional ou emocional porque creio ser um pouco de
tudo (...)”
Porém quando se trata de Tipos 7 menos
equilibrados, este “amor pela liberdade” pode ficar
“torto” e até perigoso. Como já mencionei
anteriormente, pode provocar muitos problemas e, o
que é mais grave, uma séria distorção da relação
existente entre responsabilidade e liberdade. Como
lembra a raposa ao principezinho no conto de Saint-
Exupéry somos responsáveis pelo que cativamos o
que Tipos 7 tendem a esquecer quando centrados
demais em si mesmos. O narcisismo joga um papel
importante nesta distorção do significado da própria
liberdade. A liberdade é válida somente para eles,
não para os outros. Parece não implicar
responsabilidades. Com a mesma facilidade com que
as pessoas, situações, experiências e coisas são
desfrutadas, podem ser deixadas ou abandonadas. O
desfrutar da liberdade é um direito só deles. Existe
aqui um sutil movimento negativo ao Ponto 5 do
Eneagrama: a liberdade só é válida para mim e seu
gozo e benefícios serão só meus; os outros apenas
serão “utilizados” para eu atingir meus propósitos.
Por esta razão, alguns Tipos 7 se tornam odiados
pelos que cativaram porque, é claro, o fizeram
apenas com o objetivo de obter o melhor para eles e
só para eles. Alguns se tornam espertos na arte de
fugir de qualquer situação ou relacionamento que os
tenha entediado ou nos quais já não tenham mais
interesse.
Ao mesmo tempo e devido a ficarem objetivando
apenas seu próprio benefício, os Tipos 7 passam,
paradoxalmente, a serem escravos das
exterioridades que procuram sem discernimento e
sem limites, na ânsia de sentirem-se capazes de fazer
tudo e viver tudo. A capacidade de discernir, ou
seja, enxergar o que é mais útil ou o que é menos
útil, o que é mais conveniente e o que é menos
conveniente, etc. se perde. A liberdade, então,
também se perde. Este é o momento mais paradoxal
na vida de Tipos 7 desequilibrados.
Os excessos, então, tomam conta dos Tipos 7
quando estes decidem que ninguém nem nada pode
estar entre eles e os objetos de seus planos, desejos,
e vontades. Quando isto acontece, relacionamentos
são um estorvo, o trabalho é abandonado, o
matrimônio e os filhos parecem um empecilho. No
fundo, se tornam odiosamente egocêntricos e
passam a não enxergar as necessidades alheias.
Acontece, então, o risco de achar que as pessoas,
os trabalhos, o casamento e outros relacionamentos,
assim como os deveres que o viver em sociedade
impõe sejam tidos como “prisões”. Burlam a
autoridade, não respeitam as convenções, se tornam
“rebeldes sem causa”, e anarquizam os ambientes
nos quais atuam, passando por cima de normas e
regulamentos.Estas atitudes não só lhes pode
provocar graves problemas pessoais, como também
causar grandes prejuízos à(s) pessoa(s) com eles
relacionadas profissional ou familiarmente.
No começo deste capítulo, citei ensinamentos de
Gurdjieff sobre questões relacionadas com este Tipo
Eneagramático e seu Traço Principal. Em especial
sobre os conceitos de liberdade e os erros de uma
auto-imagem inflacionada. Gostaria que você
voltasse a ler essas citações agora.
Talvez seja necessário aprender que a renúncia à
nossa limitada vontade (às vezes inexistente, porque
chamamos de “minha vontade” apenas os nossos
desejos mais fortes), seja o caminho para conhecer a
verdadeira Vontade. Talvez isso signifique renunciar
ao que habitualmente chamamos de nossas
liberdades, para conhecer a Verdade que nos fará
realmente livres. Talvez seja esse o segredo para
“perdendo a vida, ganhar a Vida”, segundo alguns
textos sagrados. O anseio que muitos Tipos 7
declaram sentir pelo conhecimento de si mesmos,
quando acabam de discernir os “limites” e
“perigos” que a pseudo-liberdade e a pseudo-
vontade escondem, só poderá ser satisfeito quando
eles olhem além de seus espelhos narcisistas e
decidam dar o “grande pulo” em direção à fonte na
qual a Gula e o Desequilíbrio desaparecerão para
sempre: o Ser. Isso requer um ato Corajoso (Ponto
6) e, ao mesmo tempo, implica a decisão de confiar
e percorrer o mundo interior com segurança e
confiança absolutas (Ponto 8) nos sinais fiéis e
mapas fidedignos que nos deixaram aqueles que
conheceram a Liberdade Total do Ser. Como sei que
muitos Tipos 7 desejam iniciar o caminho do
autoconhecimento (ou estão trilhando algum para
consegui-lo), e ao mesmo tempo duvidam quando
chega o momento de decidir seguir um caminho
objetivo e não fantasioso que conduza até o Ser (ou
estão duvidando do seu “caminho” atualmente), vou
concluir esta parte solicitando a você que reflita
nestes conselhos que Gurdjieff deixou não somente
para Tipos 7, mas também para todos os que
procuram níveis superiores de consciência:
“A renúncia às suas próprias decisões, a submissão
à vontade de outro, podem apresentar dificuldades
insuperáveis para um homem, se não conseguiu dar-
se conta previamente de que assim não sacrifica nem
modifica realmente nada em sua vida, uma vez que,
durante toda a sua vida, esteve sujeito a alguma
vontade estranha e nunca tomou, verdadeiramente,
nenhuma decisão por si mesmo. Mas o homem não
é consciente disso. Considera que tem o direito de
escolher livremente. E é duro para ele renunciar a
essa ilusão de que ele próprio dirige e organiza sua
vida. No entanto, não existe trabalho possível sobre
si, enquanto as pessoas não se tiverem libertado
dessa ilusão.
O homem deve dar-se conta de que não existe;
deve dar-se conta de que nada pode perder, porque
nada tem a perder; deve dar-se conta de sua
nulidade no sentido amplo do termo.
Esse conhecimento de sua própria nulidade, e
somente ele, pode acabar com o medo de submeter-
se à vontade de outro. Por mais estranho que possa
parecer, esse medo é, de fato, um dos maiores
obstáculos que um homem encontra no seu
caminho. O homem tem medo de que o façam fazer
coisas contrárias a seus princípios, a suas
concepções, a suas idéias. Além disso, esse medo
produz imediatamente nele a ilusão de que
realmente tem princípios, concepções e convicções
que, na realidade, nunca teve e seria incapaz de ter
(...)
Freqüentemente o medo de submeter-se à vontade
de outro é tal, que nada pode superá-lo.
O homem não compreende que a subordinação à
vontade de outro ...é o único caminho que pode
conduzi-lo à aquisição de uma vontade própria.”
Palavras Finais
- O Eneagrama positivo e a possível evolução humana
O Eneagrama positivo
e a possível evolução humana
A importância da observação
e da lembrança de si

Gurdjieff ensinava que a evolução do ser humano


podia ser compreendida como “o desenvolvimento
nele de faculdades e poderes que nunca se
desenvolvem por si mesmos”. Ensinava que essas
faculdades e poderes podiam ser desenvolvidos
somente por meio de um constante trabalho sobre
nós mesmos, fundamentado em três processos
aparentemente simples, porém, difíceis de praticar:
A “Observação e Lembrança” de nós mesmos e a
prática da “Desidentificação (Não identificação) e
da Consideração externa”.
É fácil perceber que podemos realizar um processo
de auto-observação, porém não é fácil lembrar dessa
necessidade sempre e deliberadamente. Você pode
observar seu corpo ou Centro Físico? Claro que
pode. E graças a essa observação você até fica em
condições de dar-se conta, por exemplo, de que
precisa perder alguns quilos, ou que está
necessitando comer um pouco mais, ou que talvez
seja necessário começar a praticar alguns exercícios
porque está “perdendo a forma”; você pode cuidar
dele esteticamente e assim por diante. Você pode
observar seu Centro Físico, também, com a ajuda de
especialistas, médicos e terapeutas corporais, que
usarão conhecimentos, técnicas e tecnologias
avançadas para detectar alguma doença, fazer um
check-up geral. Tudo isto para garantir sua saúde,
ou para prevenir certas doenças, ou para corrigir
diversos problemas físicos, dos quais não menos de
50% afetam sua vida emocional e/ou intelectual,
segundo importantes estudos e pesquisas. Enfim,
você pode observar seu Centro Físico. Porém você
poderia esquecer aquilo que for observado, ou
esquecer a importância de uma “observação”
constante. Por exemplo: você “sabe” que deve ir ao
dentista, mas você pode adiar essa decisão até que a
dor ou o problema ultrapassem certos limites
toleráveis. Você não decide ir ao dentista, sua dor
“decide” quando você esquece. Se você esquece o
observado, então, não vai ao dentista, não inicia sua
dieta, não se lembra de praticar seus exercícios
corporais e /ou de fazer exames médicos periódicos
e necessários. A lembrança é necessária. Você pode
também observar seu Centro Emocional, certo? Às
vezes você diz: “eu não gostaria de ser tão
sentimental”, ou, “acho que fui muito duro com
meu filho”, ou, “gostaria de ser menos agressivo”.
Às vezes, você percebe que está atuando
emocionalmente de um modo inadequado, acha que
não consegue conter certas reações emocionais
“desagradáveis”, enfim, você acha que deveria fazer
algumas mudanças “emocionais” e que isso seria
muito bom. Especialistas de áreas alternativas,
psicólogos, analistas, orientadores, psicoterapeutas e
outros profissionais, podem ajudá-lo nessas
observações relativas ao seu “Centro Emocional”.
Práticas de autocontrole e auto-ajuda também são
valiosas. Porém, pelo fato de não se lembrar de si
mesmo, você “esquece” de praticar o que esses
especialistas e métodos lhe indicam e você volta a
ter todas essas reações “emocionais” desagradáveis
não conseguindo modificá-las. Emoções ruins que
perturbam você ou seus seres queridos, amigos ou
colegas, são difíceis de conquistar. Nós nos damos
conta de que é necessário mudar, porém, não
lembramos disso no momento certo. Finalmente,
você pode, às vezes, observar seu Centro Intelectual,
seus “estados mentais”, seus pensamentos, certo? Às
vezes você diz: “eu não gostaria de pensar essas
coisas”, ou, “por que imagino tantas besteiras?”, ou
diz, “gostaria de ter um pensamento mais positivo”,
“mudar alguns modos de pensar seria bom para
mim”, “gostaria de controlar minha mente” e assim
por diante. Novamente existem apoios externos que
podem lhe ajudar nessa procura do domínio mental:
métodos diversos de controle mental, técnicas de
desenvolvimento das suas faculdades de
concentração, memória, imaginação criativa,
meditação, etc. Mas você volta a pensar
negativamente, volta a ser controlado por sua
imaginação. Você esquece que pode modificar o que
tinha observado, por si mesmo, ou com a ajuda dos
profissionais e técnicas adequadas.
Tanto esquecer observar quanto esquecer o que
essas observações feitas no Centro Físico, Emocional
e Mental implicam em termos de mudanças ou
cuidados, levam a um forte esquecimento de si
mesmo, e sabemos que o esquecimento de si mesmo
é um dos fatores eneagramáticos nucleares,
correspondente ao Ponto 9 do triângulo eqüilátero,
o qual se relaciona justamente com o Centro Físico
ou Centro do Movimento, que é o único Centro
capaz de estar sempre “presente” e é somente no
presente que tudo aquilo que você quer e poderia
modificar está acontecendo. Mas você não lembra
de si mesmo, e lembrar-se de si mesmo tem a ver
com o desenvolvimento dos seus Centros Intelectual
e Emocional.
Você só pode lembrar aquilo que compreende e
ama. Aquilo que você não compreende, você
esquece, ou se torna um conhecimento morto, sem
efeitos na sua vida. Aquilo que você não ama não
tem importância real para você, passa sem deixar
rastro, é fácil de esquecer. A maioria das pessoas
“entende” que deve realizar mudanças em si
mesmas, mas poucas o “compreendem”. Vou dar
um exemplo do que estou afirmando: um indivíduo
fuma há muito tempo e ele começa um dia a
observar que isso lhe faz mal. Porém esquece e
continua fumando. Um dia lê um artigo sobre os
perigos do fumo. Ele concorda com os dados que
nesse artigo aparecem. Mas continua fumando. Ele é
uma pessoa inteligente, mas não consegue
compreender que “o cigarro é prejudicial a saúde”,
apesar de essa frase aparecer em cada maço de
cigarros que ele compra. Ele mente a si mesmo
(Ponto Nuclear 3 do Eneagrama) e diz que nada vai
acontecer, que isso são bobagens, e se “identifica”
com o cigarro dizendo coisas como: “o cigarro me
acalma”, “com o cigarro consigo pensar melhor”,
“nada como um cigarro para eliminar a tensão”,
“fumar é charmoso”, etc., ou seja, ele se auto-
engana, atribuindo ao cigarro “virtudes” que não
possui. Ele, na verdade, entende, mas não
compreende, porque esquece o valor de seu corpo e
não se ama. Seu intelecto sabe, mas ele não
consegue realizar o que de vez em quando lembra,
ou seja, “acho que deveria parar de fumar”.
Somente a “compreensão” poderá modificar esse
quadro, ou um repentino “choque” na sua saúde,
talvez o início de um câncer pulmonar. Então ele
não conseguirá “esquecer” que deve mudar, ele
valorizará seu corpo, ele se arrependerá de não ter
conseguido “amar a si mesmo”. Porém, às vezes, é
tarde demais para modificar os resultados de seus
esquecimentos. Compreender é o processo que
provoca as mudanças reais que fazem com que o
observado seja lembrado. Compreender não nos
permite mentir nem para nós mesmos nem para os
outros. Compreender é ter atingido a lembrança de
si mesmo, a consideração do que realmente acontece
e não do que “achamos” ou “imaginamos” ou
“supomos” (Ponto Nuclear 6 no Eneagrama).
Só é possível mudar e evoluir, quando aprendemos
e compreendemos o valor da observação e
lembrança de nós mesmos e quando aumenta nossa
capacidade de “considerar externamente sempre,
internamente nunca”. Sem lembrança não existe
observação e sem observação não existem
possibilidades de lembrança. Porém, para observar
“corretamente”, é necessário cultivar a
“consideração externa”, ou seja, ver as coisas sem
preconceitos, sem medos, sem prejulgamentos, sem
acomodá-las aos nossos “modos de ver as coisas”,
sem julgá-las apressadamente.
Quando conseguir “isolar” seu Traço
Eneagramático Principal, você terá que “observar”
como ele se manifesta na sua existência. Deverá se
lembrar de fazer isto todas as vezes que for possível,
deverá constatar como esse Traço Principal o leva a
“considerar” pessoas e eventos “internamente”, ou
seja, os modos como você julga, prejulga, decide,
reage, enfim, se manifestam automaticamente em
função desse seu Traço Principal. Se você descobre
que é um Tipo 9, você percebe que esquece suas
próprias necessidades, que não é capaz de fixar
prazos e datas para realizar seus planos, que você
“adormece”. Se você descobre que é um Tipo 8, verá
como sua “consideração interna” o leva a criar
inimigos que não existem, a supor que as pessoas
podem querer “atacá-lo” sempre, que sua
agressividade é a forma como se “esquece de si
mesmo”. Cada Tipo Eneagramático tem sua
maneira de “esquecer”, “considerar” e de se
“identificar” negativamente.
Quando sua capacidade de “observação” e
“lembrança de si” aumentem, você conseguirá
alcançar a capacidade de “considerar
externamente”, ou seja, poderá ver as coisas, as
pessoas e as situações como elas são e não como
você imagina que são. Somente deste modo as
mudanças positivas vão acontecer.
Este não é um processo rápido, contudo é
definitivo. É necessário apenas lembrar-se sempre e
em todo momento de si mesmo e da sua relação
com a existência. É deste modo que conseguiremos
vivenciar o Eneagrama Positivo por meio do qual é
possível a evolução a níveis de consciência
superiores.
A Lei Hermética de Polaridade explica o positivo
que existe por trás de cada Traço/ou Defeito
Principal. Ela diz:

“Tudo é duplo; tudo tem seu par de opostos;


os semelhantes e os antagônicos são o mesmo;
os opostos são idênticos em natureza, mas
diferentes em grau;
os extremos se tocam,
todas as verdades são semiverdades;
todos os paradoxos podem se reconciliar.”

Aplicando esta Lei ao Eneagrama dos Traços


Principais, descobrimos que, para cada um desses
aspectos negativos que devemos “modificar”
mediante a Observação, da Lembrança de Si e da
Consideração Externa, existe uma virtude, um poder
potencial que podemos desenvolver mediante um
trabalho deliberado e permanente de
autoconhecimento. Acerca destes poderes ou
virtudes, o leitor pode reler no final de cada análise
das “máscaras eneagramáticas” neste livro e refletir.
Conservei o nome das virtudes de acordo com as
pesquisas de O. Ichazo e como foram citadas na
obra da Dra. Helen Palmer e outros autores, o que
ajudará a entender os seguintes e valiosos
ensinamentos de Gurdjieff. Todos sabemos que os
Sete Pecados Capitais são: A Indolência ou Preguiça,
relacionada com o Traço Principal dos Tipos 9, a Ira
ou Raiva relacionada com o Traço Principal dos
Tipos 1; a Soberba, Orgulho ou Vaidade,
relacionada com o Traço Principal dos Tipos 2 e 3;
a Inveja, relacionada com o Traço Principal dos
Tipos 4, a Avareza, relacionada com o Traço
Principal dos Tipos 5; a Intemperança ou Gula,
relacionada com o Traço Principal dos Tipos 7; e a
Luxúria, relacionada com o Traço Principal dos
Tipos 8. O Medo, relacionado com o Traço
Principal dos Tipos 6, seria o resultado “mental” de
“culpabilidade” que produzem a manifestação e os
resultados dos Sete Pecados Capitais. Cada Traço
produz afastamento do Ser Verdadeiro, e portanto, a
“prática” de cada um deles provoca o “medo” de
perder o Ser, de ficar fora do “Superior”. Como diz
o apóstolo Paulo: “Porquanto todos pecamos e
estamos destituídos da glória de Deus.” Deus é o Ser
Real e recuperar sua “glória” tem a ver com a
necessária vivência do mandamento bíblico: “Ama a
Deus acima de todas as coisas e ao teu próximo
como a ti mesmo.” Somente quando amamos o Ser
acima de todas as coisas, é que podemos amar o Ser
em nós mesmos e o Ser presente em todos os nossos
próximos e em toda a existência.
O resultado dessa possível nova atitude consciente
será o surgimento dos Poderes ou Virtudes:
A Reta Ação (9); a Serenidade ou Paciência (1); a
Humildade, Veracidade e Honestidade (2 e 3); a
Equanimidade (4); o Desapego (5); o Equilíbrio ou
Temperança (7) e o Contentamento ou Inocência
(8). Logicamente, quem consegue desenvolver esses
poderes ou virtudes não pode ter mais medo. O Ser
pode ser sentido no coração, e, a partir desse
momento, será ele quem vai atuar mediante a
personalidade, promovendo a “Coragem”, virtude
atrelada ao Ponto 6 do Eneagrama e que significa
Agir desde e com o Coração, o qual é tido em todas
as Tradições Sagradas da humanidade como o
Templo do Ser.
Estas virtudes estão relacionadas, então, com o
Verdadeiro Amor (Reta Ação, Serenidade e
Inocência); com a Verdadeira Esperança
(Humildade, Veracidade e Equanimidade) e com a
verdadeira Fé (Desapego, Coragem e Equilíbrio).
Por acaso existem um Falso Amor, uma Falsa
Esperança e uma Falsa Fé?
Segundo Gurdjieff, sim. E todo o nosso trabalho
interior deve estar relacionado com a capacidade de
distinguir entre as expressões verdadeiras e falsas
daquilo que no Cristianismo é tido como as Virtudes
Principais (Amor, Fé e Esperança).
Para que você reflita sobre este assunto e faça as
relações correspondentes, transcrevo o que Gurdjieff
diz sobre isso nos Relatos de Belzebu a seu Neto, e
também num dos já citados Aforismos:

“A Fé (Ponto 6) da Consciência é Liberdade.


A fé do sentimento é fraqueza.
A fé do corpo é estupidez.
O Amor da Consciência (Ponto 9) provoca o
mesmo em resposta.
O amor do sentimento provoca o contrário.
O amor do corpo não depende senão do tipo e da
polaridade.
A Esperança (Ponto 3) da Consciência é Força.
A esperança do sentimento é servidão.
A esperança do corpo é doença.” (Gurdjieff, em
Relatos de Belzebu a seu neto)
“O Amor Consciente (9) provoca o mesmo em
resposta.
O amor emocional provoca o contrário.
O amor físico depende do tipo e da polaridade.
A Fé Consciente (6) é liberdade.
A fé emocional é escravidão.
A fé mecânica é estupidez.
A Esperança (3) Inquebrantável é força.
A esperança mesclada de dúvida é covardia.
A esperança mesclada de temor é fraqueza.”

(Aforismos 34,35 e 36 de Gurdjieff como


aparecem no livro “Gurdjieff fala com seus
alunos”.)

Lembrança de si mesmo
Gráfico das Virtudes e Poderes, pesquisados por Ichazo e outros, que
se escondem por trás de cada Traço ou Defeito Principal, destacando
os três que Gurdjieff ensinava como fundamentais: o Amor Consciente,
relacionado com a Lembrança de si mesmo, a Fé Consciente,
relacionada com a Consideração Externa, e a Esperança Consciente,
relacionada com a Desidentificação. De autoria de Khristian Paterhan-
1997

Qualquer que seja seu Traço ou Defeito Principal,


você perceberá que todos os seus demais defeitos se
ordenam de acordo com ele, manifestando-se com
maior ou menor força em relação a ele. Ao mesmo
tempo, isso significa que, quando iniciamos o
processo de autoconhecimento, trabalhando acima
do nosso particular Traço Principal, todos os demais
começam a ser superados, devido à dinâmica e à
inter-relação matemática existente no Eneagrama,
presente no movimento externo relacionado com a
dízima periódica 0,142857142857.... e com o
movimento no triângulo eqüilátero 9,6,3,9,6,3, 9...
Lembre que todos os Tipos e Traços estão
presentes em você e que a seqüência e o movimento
eneagramático começam a partir da sua posição no
Eneagrama, relacionada com seu Traço ou Defeito
Principal.

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Referências
Bibliográficas
Sobre as Leis ou Princípios Herméticos

PATERHAN, Khristian. Iniciação e autoconhecimento. São Paulo:


Madras, 2004.

Sobre o Quarto Caminho e os Ensinamentos de Gurdjieff

Gurdjieff, G.I. Gurdjieff fala a seus alunos. São Paulo: Pensamento,


1993.
____. Relatos de Belcebú a su nieto. Buenos Aires: Hachette, 1976.
____. La vida es real solo cuando “Yo Soy”. Málaga: Sirio, 1995.
Ouspensky, P. D. Fragmentos de um ensinamento desconhecido. São
Paulo: Pensamento, 1989.
____. El Cuarto Camino. Buenos Aires: Kier, 1987
Speeth, Kathleen Riordan. O trabalho de Gurdjieff. São Paulo: Cultrix,
1989.

Sobre o Eneagrama

Bennett, J.G. O Eneagrama. São Paulo: Pensamento, 1993.


Naranjo, Claudio. Os nove tipos de personalidade: um estudo do
caráter humano por meio do Eneagrama. Rio de Janeiro: Objetiva,
1997.
Palmer, Helen. O Eneagrama: compreendendo a si mesmo e aos
outros em sua vida. São Paulo: Paulinas, 1993.
____. O Eneagrama no amor e no trabalho. São Paulo: Paulinas,
Riso, Don Richard. Tipos de personalidad: el Eneagrama para
descubrirse a sí mismo. Santiago: Cuatro Vientos, 1994.
____. Comprendiendo el Eneagrama. Santiago: Cuatro Vientos, 1994.

Sobre a Tipologia Junguiana

Jung, Carl Gustav. Psychological Types. Princenton: 1971, Princenton


University Press.
Teste simplificado de Eneagrama

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Finalmente, lembre-se que para obter um real
benefício com o Eneagrama é importante participar
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Desde que tive a honra de ensinar o Eneagrama


aplicado aos negócios, na gestão de pessoas e nos
processos de coaching para algumas turmas do MBA
“Team Management” na Fundação Getulio Vargas,
e, graças ao apoio e inspiração de alguns destacados
alunos, muitos deles empresários, diretores e
executivos de empresas, venho realizando
treinamentos de Eneagrama e Coaching em diversas
e importantes empresas e instituições do Brasil e do
exterior.
Convido ao leitor para conferir depoimentos e
cases de sucesso nos seguintes links:

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Portfolio:
http://www.escolaeneagrama.com.br/public/portifol

E-mail de contato: escola.eneagrama@gmail.com

Facebook : Procure Escola Eneagrama


[1] As quais tive a oportunidade de aprender vivencialmente desde os
15 anos de idade Entre elas a Filosofia Vedanta Advaita, uma das
principais linhas filosóficas da India, o Budismo, sistema psicofilosófico
pelo qual Gurdjieff tinha uma especial simpatia, e o Hermetismo,
filosofia milenar de origem egípcia, especialmente difundida na Europa
durante a Idade Média e cujas origens estão relacionadas com as
lendas ancestrais de Thot-Hermes.
[2] J.G.Bennet foi um notável discípulo de Gurdjieff nos Estados
Unidos. Escreveu várias obras sobre o sistema filosófico conhecido
como “Quarto Caminho” e uma sobre o Eneagrama, publicada no
Brasil pela Editora Pensamento sob o título: O Eneagrama: um estudo
pormenorizado do Eneagrama usado por Gurdjieff.
[3] Inspirado nesses e outros dados e nos Relatos de Belzebu a seu neto
de Gurdjieff, escrevi uma obra de ficção que trata, dentre outras coisas,
da provável origem extra-terrestre do Eneagrama, que foi publicada
sob o título “Apocalipse 21: Uma Visão do Bem Que Está Por Vir”
(Quartet Editora).
[4] Sobre o “7 Princípios Herméticos” consultar minha obra Iniciação e
Autoconhecimento: Um Guia para o seu Despertar Espiritual.
[5] Do livro Fragmentos de um ensinamento desconhecido, de
Ouspensky.
[6] Verso que podemos traduzir mais ou menos assim: “Se para todas as
coisas existe fim e medida e última vez e esquecimento, quem nos
poderá dizer de quem nesta casa pela última vez nos despedimos?”
[7] O lendário “pai dos Sátiros” e “educador de Dioniso”, segundo nos
ensina o saudoso Prof. Junito Brandão no seu Dicionário mítico-
etimológico (Edit. Vozes). Sugiro a leitura do livro O nascimento da
tragédia no qual F. Nietzsche comenta esta lenda.
[8] Hoje a neurociência comprova o que Gurdjieff ensinava sobre o
“sofrimento tolo”: o cérebro se “vicia” (emotional adiction) em
emoções negativas ou positivas, agradáveis ou desagradáveis.