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HISTÓRIA DA GRÉCIA ANTIGA – Apontamentos

Já na Ilíada e na Odisseia de Homero se faz referência às primeiras formas de


expressão política onde o povo – demos – intervém, reunido em assembleias. Nos
poemas de Hesíodo (fim do século VIII a. C. – início do século VII a. C.) refere-se a
existência de pequenos proprietários agrícolas, ao mesmo tempo que se constata
contactos comerciais tendo como base a produção de cerâmica (em Corinto, Atenas e
Rodes) e a troca de produtos daí derivados juntamente com o vinho e o azeite em
entrepostos comerciais situados no Egipto, nas margens do Mar Negro e a Ocidente, por
exemplo, na Península Ibérica.

A mobilização dos homens para a guerra, levará estes a reclamarem, também,


formas de discussão e participação política, intervindo cada vez mais na vida da cidade
e no estabelecimento de objectivos políticos. A vida política, contudo, era dominada por
grandes famílias aristocráticas. Aquela dinâmica entrará, pois, em conflito com o
conservadorismo político da aristocracia, do que resultam algumas crises sociais. As
tensões da vida política e social, a complexificação crescente das relações entre as
pessoas, seja na vida quotidiana, seja em torno das actividades económicas, exigirá o
estabelecimento de princípios e regras e a sua codificação, um esforço de normalizar e
pacificar a vida social e política. Surge, deste modo, um direito escrito, resultado da
obra de alguns legisladores cujo nome também acabará por ficar conhecido, como é o
caso de Licurgo [?] em Esparta e Drácon em Atenas. No entanto, o legislador mais
conhecido será Sólon (princípios do século VI a. C.) que estabelecerá critérios novos
para a participação política, criará um tribunal popular acessível a todos os cidadãos;
reformas que constituem um primeiro passo no caminho para a democracia, o que não
afastou completamente que surgissem, de vez em quando, soluções musculadas, onde o
poder, livre de qualquer fiscalização, era exercido por um tirano, que pela força e muitas
vezes contra os interesses das famílias aristocráticas, desenvolviam um programa de
reformas, obras públicas e modernização.

Esparta caracterizava-se pelas suas características aristocráticas dominantes,


governada por uma minoria (oligarquia) e cuja coesão se alicerçava nos objectivos
militares que dominavam a educação das suas crianças, desde cedo retiradas aos pais e
entregues a jovens mais velhos ou adultos que se encarregavam de os iniciar numa
cultura militar de disciplina rígida.

Ao invés, Atenas foi evoluindo para um regime democrático, a partir de


Clístenes que, após a queda dos tiranos, iniciou uma nova organização da cidade.
Assim, definiram-se e institucionalizaram-se espaços de participação e discussão onde
os cidadãos eleitos ou escolhidos enquanto representantes da sociedade ateniense iam
definindo a orientação política da governação. Havia, pois, um princípio de igualdade
(isonomia) orientando a vida política. Porém, havia limites ao exercício da igualdade, já
que estavam afastados da participação política os não-cidadãos, os escravos e as
mulheres.

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A democracia ateniense sofreu, porém, alguns perigos e ameaças,
nomeadamente, a revolta das cidades gregas da Ásia Menor, que originará a intervenção
dos exércitos persas na Grécia, guerra que terminará no ano de 490 a. C., com a célebre
vitória da Maratona, a 42 km de Atenas. Dez anos depois, novo conflito com os Persas,
chefiados pelo rei Xerxes, que enfrentou a esquadra de Atenas em Salamina. Uma série
de derrotas obrigará Xerxes a renunciar definitivamente a invadir a Grécia. Da vitória
grega resultou também o incremento do poderio naval e comercial de Atenas no Mar
Egeu, sendo o porto de Pireu o grande centro das actividades económicas.

A partir dos anos 450-430 a. C., sob a governação de Péricles, Atenas passa a ser
“o foco intelectual e artístico da Grécia” (Jean CARPENTIER e François LEBRUN
(dir.), História da Europa, Lisboa, Editorial Estampa, 2002, 3ª ed., p. 73). Ainda hoje é
possível admirar as belezas arquitectónicas desse período e que atestam o
desenvolvimento económico e cultural de Atenas. É também neste período que
assistimos ao nascimento do teatro trágico com Ésquilo, Sófocles e Eurípides, bem
como é no século V a. C. que são levadas a cena as comédias de Aristófanes. Os
filósofos atenienses, nomeadamente os sofistas, fundam as suas escolas onde se
encarregam da educação política dos jovens atenienses, futuros dirigentes políticos na
democracia de Atenas, onde são chamados a intervir nas assembleias e nos tribunais e
onde, portanto, serão fundamentais os dotes oratórios. Também a nível religioso se nota
o «século de Péricles», o século de oiro, com a edificação de templos e santuários,
patrocinando a realização regular de jogos e concursos, momentos de afirmação do
helenismo.

A rivalidade entre Atenas e Esparta conduzirá estas cidades a uma guerra que
resultará na derrota de Atenas em 401 a. C., mergulhando a cidade em profunda crise. É
nesta altura que ocorre o julgamento sumário com condenação à morte de Sócrates,
acusado de corromper a juventude e de adorar outros deuses, acontecimento que
assinala, de certo modo, o fim dessa época de grandes criações artísticas e culturais.

Durante o século IV a. C., surge nos Balcãs uma potência em ascensão: o reino
da Macedónia que, com Filipe II, inicia um período de expansão. Contra este perigo do
norte de pouco valerá a oposição do orador ateniense Demóstenes e dos seus discursos
patrióticos. Os Gregos serão derrotados em Queroneia no ano de 338 a. C., consumando
a perda de independência das cidades gregas.

O fim da Grécia

Os Gregos não tinham em muito boa conta os povos do Norte, que habitavam as
montanhas setentrionais da Grécia e a planície do actual Golfo da Salónica; por isso,
consideravam-nos bárbaros. Estes atribuíram o nome de Macedónia ao território que
habitavam. A partir do século VII a.C. constituíram um reino hereditário. A partir do
século V a.C. os reis macedónios iniciaram contactos e relações culturais e económicas

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com os povos do Sul, ao mesmo tempo que se envolviam nas intrigas e conflitos das
cidades-estado gregas.

Filipe II, que governou de 359 a 336 a.C., levou a Macedónia a assumir um
papel de líder do mundo grego, conquistando terrenos ao Norte até atingir a Tessália.
Perante esta situação, as cidades gregas uniram-se numa Liga para enfrentar o projecto
dominador de Filipe. Em 338 a.C., o exército das cidades gregas foi vencido em
Queroneia (Beócia). Filipe obrigou as cidades a estabelecer uma aliança com a
Macedónia, garantindo ao mesmo tempo a sua autonomia. Quando se preparava para,
com o apoio das cidades gregas [?], libertar as cidades gregas da Ásia Menor que se
encontravam sob o jugo persa, foi assassinado (336 a.C.).

Seu filho, Alexandre III, o Grande, (que governa de 336 a 323 a.C.) irá liderar a
campanha pan-helénica iniciada pelo seu pai. Na Primavera de 334 a.C., Alexandre e
quarenta mil soldados entra na Ásia Menor, chegando às cidades da costa asiática, que
as liberta do domínio persa. Alexandre, manterá a independência dessas cidades que
passarão a ter assento na Liga Helénica, mas assumirá o estatuto de «rei da Ásia».

Nessa qualidade se dirigirá, em documento oficial, no ano seguinte, ao rei persa


Dario III. Alexandre prosseguirá a sua campanha contra Dario e contra os persas,
penetrando nas planícies da Cilícia e enfrentando os Persas em Issos. Dario abandonará
o campo de batalha, entregando despojos imensos, bem como a sua família, a mãe e a
esposa. As posteriores ofertas de paz do rei persa serão recusadas por Alexandre.

Prosseguindo, Alexandre conquistou Tiro e chegou até ao Egipto, onde foi


recebido como libertador do domínio persa e lhe foi oferecido o título de faraó, o que
aceitou, assumindo essa protecção divina, um contributo importante para o êxito da sua
missão.

Foi na margem ocidental do delta do Nilo que Alexandre fundou a cidade de


Alexandria, em 331 a.C., que se tornará num importantíssimo porto e centro de
comércio, importância que se iria manter durante muitos séculos.

Retomando os combates contra os Persas, Alexandre voltaria a derrotar Dario;


este viria a ser assassinado pelos seus próprios soldados. A campanha contra os Persas
concluir-se-á em 327 a.C., autorizando o regresso à pátria das tropas gregas.

Alexandre Magno considerava-se agora o sucessor legítimo dos reis persas. A


esse título correspondia uma corte faustosa, o que irá provocar e acirrar
descontentamento entre as chefias militares e a nobreza. Ao mesmo tempo que levava a
cabo a sua campanha militar tinha que estar atento ao que se passava a ocidente,
nomeadamente em relação aos gregos. Ao objectivo final de fundir Macedónios e
Persas, corresponderá o incremento de casamentos entre soldados macedónios e
mulheres persas. Estas medidas também conduziram a novas desordens internas. No
entanto, Alexandre continuava as suas conquistas. Em plena preparação duma
campanha militar, no Verão de 323 a.C. foi vitimado mortalmente por uma doença.

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Apesar de ser conhecido, principalmente, pelos seus feitos militares, a política
de Alexandre também acabou por ter repercussões económicas e culturais. A sua
campanha militar foi responsável pela enorme divulgação da língua e cultura gregas,
fundaram-se novas cidades, intensificaram-se as trocas comerciais. Entre a tradição
grega e a tradição oriental deu-se um processo de enriquecimento mútuo, embora
assistamos à consagração da cultura helenística.

Após a morte de Alexandre iremos assistir a um período conturbado de lutas


internas pelo poder levadas a cabo, fundamentalmente, pelos generais de Alexandre. As
guerras de sucessão conduziram ao fraccionamento do império de Alexandre e à
constituição de três grandes monarquias: o Egipto, a Síria e a Macedónia, das quais a
mais homogénea é o Egipto e com aspirações hegemónicas.

As cidades gregas procuraram tirar partido destas contínuas lutas, estabelecendo


alianças entre s, formando ligas que uniam cidades (Liga Etólia, Liga Aqueia) e lutavam
contra a Macedónia ou entre si. Lutas constantes, guerras intestinas, dissolução dos
laços sociais, tudo isso conduziu ao desmoronamento e empobrecimento da Grécia.

O Mar Egeu é o centro do Mediterrâneo. O mar Egeu separa (e o que separa


também liga) a Europa da África, a área do Mediterrâneo ocidental da área do
Mediterrâneo oriental. O que hoje sabemos sobre os itinerários e as trocas comerciais e
culturais ligando o Ocidente ao Oriente, ocorrendo no Mar Egeu, devem-se às
investigações pioneiras levadas a cabo nos finais do século XIX (década de 70) pelo
alemão Heinrich Schliemann e pelo inglês Sir Arthur Evans. O primeiro descobriu um
período da história designado por época micénica, designação que nos remete para a
cidade do Peloponeso; o segundo desenvolveu as suas investigações à volta dum
período que ficaria designado por época minóica, designação derivada do nome de um
rei que figura na célebre lenda cretense, o rei Minos.

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