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ESCOLA SECUNDÁRIA DE VERGÍLIO FERREIRA

FILOSOFIA 10º ano


Valores e valoração - a questão dos critérios valorativos

TXT 1 - O que são valores?


"O que são valores? Dizemos que os valores não existem por si mesmos:
necessitam de um depositário sobre o qual descansam. Aparecem-nos, portanto,
como meras qualidades desses depositários: beleza de um quadro, elegância de um
vestido, utilidade de uma ferramenta. Se observarmos o vestido, o quadro ou a
ferramenta, veremos que a qualidade valorativa é distinta das outras qualidades.
Nos objetos mencionados há algumas qualidades que parecem essenciais para
a própria existência dos objetos, por exemplo, a extensão: Mas o valor não confere
nem agrega ser, pois a pedra existia plenamente antes de ser talhada, antes de se
transformar num bem.
Enquanto as qualidades primárias não se podem eliminar dos objetos, bastam
uns golpes de martelo para terminar com a utilidade de um instrumento ou a beleza
de uma estátua. Antes de incorporar-se no respetivo portador ou depositário, os
valores são meras «possibilidades», isto é, não têm existência real, mas virtual.
Ver-se-á melhor a diferença se se comparar a beleza que é um valor, com a
ideia de beleza, que é um objeto ideal. Captamos a beleza primordialmente por via
emocional, enquanto a ideia de beleza apreende-se por via intelectual.
Com o fim de distinguir os valores dos objetos ideais, afirma-se que estes são
enquanto os valores não são, mas valem.
Uma caraterística fundamental dos valores é a polaridade. Enquanto as coisas
são o que são, os valores apresentam-se desdobrados num valor positivo e o
correspondente valor negativo. Assim, a beleza opõe-se à fealdade, o mal ao bem. A
polaridade implica a ruptura com a indiferença. Não há obra de arte que seja neutra,
nem pessoa que se mantenha indiferente a escutar uma sinfonia, ler um poema ou
ver um quadro.
Aliás, os valores estão ordenados hierarquicamente, isto é, há valores
inferiores e superiores. É mais fácil afirmar a existência de uma ordem hierárquica
do que indicar qual é essa ordem e quais são os critérios para a estabelecer.
Muitos são os axiólogos que têm enunciado uma tábua de valores,
pretendendo que essa seja a «Tábua», mas a crítica mostra rapidamente os erros de
tais tábuas e dos critérios usados na sua elaboração.

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O homem individualmente, bem como as comunidades e os grupos culturais
concretos, manejam sempre uma tábua de valores. É certo que tais tábuas não são
fixas, mas flutuantes, e nem sempre coerentes; porém, é indubitável que o nosso
comportamento frente ao próximo, aos seus atos, às suas criações estéticas (...) é
julgá-los e preferi-los de acordo com uma tábua de valores. Submeter essas tábuas
de valores, que obscuramente influem na nossa conduta e nas nossas preferências, a
um exame crítico, é a tarefa a que o homem moderno não pode renunciar." (Frondizi,
Qué son los valores?, México, Fondo de Cultura Económica, 1º capítulo)

Questões
1. Esclarece o sentido da afirmação: os valores não existem por si mesmos:
necessitam de um depositário sobre o qual descansam.
2. Explica em que consiste a polaridade dos valores.
3. Que se entende por tábuas de valores?
4. Esclarece a razão pela qual as tábuas de valores nunca são fixas.
5. Explica a sua importância para a ação humana?

§§§ - §§§

TXT 2 - Qual a natureza dos valores?


"As propriedades reais que sustentam o valor, e sem as quais este não
existiria, são valiosas somente em potência. Para passar a ato e transformar-se em
propriedades valiosas efetivas, é indispensável que o objeto esteja em relação com o
homem social, com os seus interesses e com as suas necessidades. Desta maneira, o
que vale somente em potência adquire um valor efetivo.
Sendo assim, concluimos que o valor não é propriedade dos objetos em si, mas
propriedade adquirida graças à sua relação com o Homem como ser social. Mas, por
sua vez, os objetos podem ter valor somente quando dotados realmente de certas
propriedades objetivas.
A conceção da natureza do valor, que esboçamos, permite-nos enfrentar duas
posições unilaterais ─ o sujetivismo e o objetivismo axiológicos ─ e tentar superar as
suas dificuldades.
Se as coisas não são valiosas em si, porque valem? Valem porque eu ─ como
sujeito empírico, individual, as desejo e, nesse caso, seria o meu desejo, a minha
necessidade ou o meu interesse o que confere às coisas o valor? Se assim fosse, o
valor seria puramente subjetivo. Tal é a tese do subjetivismo axiológico, que

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também poderíamos considerar como psicologismo axiológico porque reduz o valor de
uma coisa a um estado psíquico subjetivo, a uma vivência pessoal. De acordo com
esta posição, o valor é subjetivo porque para existir necessita da existência de
determinadas reações psíquicas do sujeito individual, com as quais se identifica. Não
desejamos o objeto porque vale, isto e, porque satisfaz uma nossa necessidade, mas
vale porque desejamos ou necessitamos. Em poucas palavras, o que desejo ou
necessito, ou também o que me agrada e de que gosto, é o que vale; por sua vez, o
que prefiro, de acordo com estas vivências pessoais, é o melhor. É esta,
precisamente, a tese que o objetivismo axiológico rejeita, afirmando, pelo contrário,
que há objetos valiosos em si (isto é, independentemente do sujeito).
O objetivismo axiológico tem antecedentes tão longínquos como a doutrina
metafísica de Platão." ( A. S. Vasquez, Ética, Rio de Janeiro, Zahar Editores, pp. 121-
125)

Questões
1. Explicita a conceção subjetivista do valor exposta no texto.
2. Expõe a objeção que o ojetivismo coloca em relação ao subjetivismo, depois de
definires sumariamente em que consiste o objetivismo axiológico.

§§§ - §§§

TXT 3 - Quais são os valores contemporâneos?


"No passado os Homens tinham certezas religiosas e morais. Toda a vida
individual e social estava organizada em redor dessas crenças sagradas. Os seus
símbolos de pedra, os monumentos religiosos, sobreviveram aos milénios. Tal como
as estátuas dos deuses, os livros de inspiração divina. A grande mudança teve lugar
com a Recvolução Industrial. Então, a pouco e pouco, a banca, a bolsa, o arranha-
céus de escritórios substituíram a catedral. Paralelamente à crise do sacro, difunde-
se a recusa do conceito de pecado e, eventualmente, do conceito de culpa. As
grandes revoluções contemporâneas, a libertação sexual, o feminismo, fizeram
desaparecer muitas crenças e muitas normas consideradas imutáveis. Já não existem
tábuas da lei absolutas e imutáveis, e muitos pensam, depois de Nietzsche, que os
conceitos de bem e de mal se estão a desvanecer, tal como a ideia de demónio e de
tentação.

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Muitos pensadores laicos constatam que o pensamento progressista triunfa
hoje, mas como que despojado de valores. Ensina a não ser fanático, a ser tolerante,
racional, mas ao fazê-lo, aceita um pouco de tudo, o consumismo, a superficialidade
da moda, o vazio da televisão. Não consegue, sobretudo, fazer despertar nos
indivíduos uma chama que vá além do mero bem-estar, um ideal que supere o
horizonte de uma melhor distribuição dos rendimentos. Não cria metas, não suscita
crenças. Não sabe fornecer critérios do bem e do mal, do justo e do injusto. Desta
forma, tudo se reduz à opinião e à conveniência pessoais. Isto é o que os filósofos, os
sociólogos e os observadores críticos continuam a dizer do nosso mundo. E não
restam dúvidas que, em boa medida, as suas observações têm fundamento. Mas, em
nosso entender, não tomam em consideração os valores positivos do mundo moderno,
a sua moralidade específica. Partamos da observação de alguns factos. A nossa
sociedade tem muitos valores reconhecidos, partilhados, não discutidos. Considera
negativamente a violência em todas as suas formas. A nossa sociedade eliminou as
formas mais brutais de abuso. Eliminou o duelo, as vinganças privadas. Hoje, a pouco
e pouco, está a eliminar os focos de guerra. Combateu a doença e as dores físicas e
mentais. Defendeu as crianças, os velhos, os doentes, protegendo-os com uma rede
de direitos. Combate os preconceitos raciais, as discriminações étnicas. É certo que
estas coisas ainda existem, mas são condenadas e combatidas como nunca o foram no
passado. A nossa sociedade favoreceu a ciência, o conhecimento objetivo, difundiu a
instrução, procurou estabelecer a equidade social, nivelando as diferenças mais
agudas. Tornou-nos mais compreensivos das necessidades dos outros, mais
civilizados, mais amáveis. Fez com que nos tornássemos mais conscientes em relação
à natureza, à vida animal, ao nosso próprio planeta. Também não é verdade que não
sintamos o dever. Sentimos como drama e dever a pobreza do Terceiro Mundo.
Sabemos que é nosso dever acabar com a miséria, com a fome, com os desgastes
provocados pelas doenças. Sabemos que é nosso dever dirigir o progresso técnico
para um equilíbrio ecológico que garanta a vida às gerações futuras. Não nos
sentimos, de facto, para além do bem e do mal. Talvez sejamos hipócritas, mas
damo-nos conta que os desastres sociais e naturais são o produto do nosso egoísmo
individual e coletivo." (F. Alberoni e S. Veca, O altruísmo e a moral, Lisboa,
Bertrand, pp. 11-14)

Questões
1. Identifica, a partir do texto, alguns dos valores dominantes na sociedade atual,
pós-moderna.

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2. Consideras que se poderão acrescentar outros? Quais? Justifica.
3. Entendes que a sociedade atual está despojada de valores? Fundamenta a tua
resposta.

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TXT 4 - O que é uma «crise de valores»?


"Por meio da expressão «crise de valores» lamentamos por exemplo, a
confusão de valores, em lugar da honestidade no trabalho, a procura do dinheiro a
qualquer preço torna-se o ideal de vida ou o valor supremo, basta o exemplo das
vedetas dos estádios ou dos estúdios de televisão, confundimos a astúcia e o
desembaraço com a virtude essencial das relações humanas. Mas podemos também
lamentar o desabar de valores como a honestidade, o gosto pelo trabalho bem feito,
a fidelidade no amor, o sentido do dever, isto é, já não a substituição de um valor
falso por um outro considerado verdadeiro, mas o desaparecimento, o aluimento ou a
desvalorização das referências últimas: rimo-nos do homem honesto, fazemos troça
da fidelidade conjugal, chamamos idiotas aos que não praticam atos fraudulentos.
Com Alan Bloom, podemos mesmo chegar ao ponto de afirmar que «já não somos
capazes de falar com a menor convicção do bem e do mal».
Estes excessos mostram aliás que a inquietação está nos espíritos, e sobretudo
no dos denunciadores, já que eles próprios não imaginam que, ao especular sobre
uma confusão real do termo valor, não fazem senão agravar a confusão e a famosa
«crise» ao considerá-la como adquirida." ( Paul Valadier, A anarquia dos valores,
Lisboa, Inst. Piaget, p. 18)

Questões
1. Avalia criticamente a opinião do autor sobre os novos valores.

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