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[James Gleick] Caos

Matemática
Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS)
317 pag.

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JAMES GLEICK

A CRIAÇÃO DE UMA NOVA CIÊNCIA

16ª Edição

ELSEVIER ········i•·t
CAMPUS

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Do original:
Chaos - Making a New Science

Copyright © 1987 by James Gleick

© 1989, Elsevier Editora Ltda.

Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.61 O de 19/ 02/ 98.
Nenhuma parte deste livro, sem autorização prévia por escrito da editora,
poderá ser reproduzida ou transmitida sejam quais forem os meios empregados:
eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros .

Capa
Otávio Studart

Copidesque
Muito zelo e técnica foram empregados
Paulo Rosas
na edição desta obra.
No entanto, podem ocorrer erros
Editoração Eletrônico de digitação, impressão ou dúvida
JP Composição e Artes Gráficas Ltda . conceituai. Em qualquer das hipóteses,
solicitamos a comunicação à nossa
Revisão Gráfico Central de Atendimento, para que
Maria do Rosário possamos esclarecer ou encaminhar
Kátio Regina a questão. Nem a editora nem o autor
assumem qualquer responsabilidade
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Escritório São Paulo e-mail: info@elsevier.com.br
Rua Quintana, 753 I 8° andar site: www.campus.com.br
04596-011 Brooklin São Paulo SP
Tel. : (11) 5105-8555
ISBN 85-7001-594-1
(Edição original: 0-670-81178-5, Viking Penguim lnc. , Canadá)

CIP-Brasil. Catalogação-no-fonte.
Sindicato Nocional dos Editores de Livros, RJ

G469c Gleick, James


Caos: a criação de uma nova ciência / James Gleick;
tradução de Woltensir Dutra. - Rio de Janeiro: Elsevier, 1989.
- 16ª reimpressão

Tradução de: Choos - Moking o new science


Bibliografia
Índice
ISBN : 85 - 7001 -594-1

l . Comportamento caótico nos sistemas. 2. Ciência . 1. Título .

CDD - 500
89-04 33 CDU - 51

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Agradecimentos

M
UITOS cientistas orientaram-me, informaram-me e
instruíram-me generosamente. A contribuição de alguns
deles será evidente ao leitor, mas muitos outros, não ci-
tados no texto ou mencionados apenas de passagem, dividiram co-
migo uma parte não menor de seu tempo e de sua inteligência. Abri-
ram seus arquivos, sondaram sua memória, debateram entre eles
e sugeriram modos de refletir sobre a ciência que me eram indis-
pensáveis. Vários leram os originais. Ao pesquisar para Caos, preci-
sei da paciência e da sinceridade deles.
Quero expressar meus agradecimentos ao meu editor, Daniel
Frank, cuja imaginação, sensibilidade e integridade deram a este li-
vro mais do que posso dizer. Dependi de Michael Carlisle, meu agen-
te, pelo seu apoio extremamente hábil e entusiástico. No New York
Times, Peter Millones e Don Erickson ajudaram-me de maneira firn-
damental. Entre os que colaboraram nas ilustrações destas páginas
estão Heinz-Otto Peitgen, Peter Ri eh ter, James Yorke, Leo Kadanoff,
Philip Marcus, Benoit Mandelbrot,Jerry Gollub, Harry Swinney, Ar-
thur Winfree, ,Bruce Stewart, Fereydon Family, Irving Epstein, Martin
Glicksman, Scott Burns, James Crutchfield, John Milnor, Richard
Voss, Nancy Sterngold e Adolph Brotman. Sou grato também aos
meus pais, Beth e Donen Gleick, que não só me criaram bem, co-
mo corrigiram o livro.
Goethe escreveu: "Temos o direito de esperar de alguém que
se propõe a dar-nos a história de qualquer ciência, que nos infor-
me de como os fenômenos de que trata foram gradualmente conhe-
cidos, e o que foi imaginado, conjeturado, suposto ou pensado com
relação a eles." Isso é uma "empresa arriscada", continuou ele, "pois
nela o autor tacitamente anuncia, no início, que pretende colocar
algumas coisas sob a luz e deixar outras à sombra. O autor tem, não
obstante, há muito experimentado prazer com a execução de sua
tarefa ..."

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Créditos

Agradecemos a permissão para reproduzir trechos das seguintes obras pro-


tegidas por copyright:

"Ohio" e "The Moons of]upiter", de Facing Nature, de John Updike. Copyright©


1985 by John Updike. Por autorização de Alfred A. Knopf, Inc.

Tbe Cbaracterof Physical Lclw, de Richard Feynman. Copyright© 1957 The MIT
Press. Por autorização do editor, MIT Press.

"Thoughts During an Air Raid", de Selected Poems de Stephen Spender.


Copyright© 1964 by Stephen Spender. Por autorização da Random House, Inc.
Matbematical Modeling of Biologícal Systems, de Harvey J. Gol d . Copyright©
1977 John Wiley & Sons, Inc. Por autorização de John Wiley & Sons Inc.

"Connoisseur of Chaos", "The Solitude of Cataracts' ' e "Reality" is an activíty of


the Most August Imagination", de Tbe Palm at the End of the Mind: Selected Poems
anda Play de Wallace Stevens, organizado por Holly Stevens. Copyright© 1967
by Holly Stevens. Por autorização de Alfred A. Knopf, Inc.

Weatber Preâiction de L. F. Richardson. Reproduzido por autorização da Cam-


·bridge University Press.

"The Room", de Collected Poems de Conrad Aiken. Copyright© 1953, 1970 by


Conrad Aiken: renovado 1981 por Mary Aiken. Reproduzido por autorização da
Oxford University Press, Inc.

Tbe Structureof ScientijicRevolution, de Thomas Kuhn. Copyright© 1962, 1970,


by University of Chicago. Todos os direitos reservados. Por autorização de The
University of Chicago Press.
"Method in the Physical Sciences, de Collected Works de John von Neumann, vol.
6. Por autorização de Pergamon Books Ltd. Copyright© by Pergamon Books Ltd.
Créditos das ilustrações: p. IS-Edward N. Lorenz/Adolph E. Brotman; p.
23-Adolph E: Brotman; p. 24-Adolph E. Brotman; p. 25-James P. Crutch-
field/Adolph E. Brotman; p. 46-Irving R. Epstein; p. 47-H. Bruce Stewart e J . M.
Thompson . Nonlinear Dynamics and Cbaos (Chichester; Wiley, 1986); p.
60-Adolph E. Brotman; p. 66-James P. Crutchfield/Adolph E. Brotman; pp.
70, 71-James P. Crutchfield/Nancy Sterngold; p. 74-Robert May; p. 81-W.J. You-

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den; p. 88-Benoit Mandelbrot. The Fractal Geometry ofNature (New York: Free-
man, 1977); p. 91-Richard F. Voss; p. 94-Benoit Mandelbrot; p. 96- Benoit Man-
delbrot; p. 131-Jerry Gollub. Harry Swinney; pp. 137,i39-Adolph E. Brotman;
p. 141-Edward N. Lorenz; p. 144-JamesP. Crutchfield/Adolph E. Brotman; p.
149-Michel Hénon; p. 152-James P. Crutchfield; p. 174-H. Bruce Stewart,]. M.
Thompson/Nancy Sterngold; p. 187-Albert Libchaber; p. 195-Theodor Schwenk,
Sensitive Chaos, Copyright© 1965 by Rudolph Steiner Press, por autorização de
Schocken Books Inc.; p. 196-D'.Arcy Wentworth Thompson . On Growth and
Form (Cambridge: Cambridge University Press, 1961); p. 201-Predrag Cvitano-
vic/Adolph E. Brotman; p. 203-Albert Libchaber; p. 213-Heinz-Otto Peitgen, Pe-
ter H. Richter; p. 214-0tto Peitgen, Peter H. Richter. The Beauty ofFractais (Berlin:
Springer-Verlag, 1986); pp. 217,218-Benoit Mandelbrot; p. 227-James A. Yorke;
p. 230-Michael Barnsley; p. 244-Julio M. Ottino; p. 275-ArthurWinfree; pp.
283,284-James A. Yorke; pp. 285,286-Theodor Schwenk, Sensitive Chaos,
Copyright© 1965 by Rudolph Steiner Press, por autorização de Schocken Books
Inc.; p. 298-0scar Kapp, inserção Shoudon Liang; pp. 300,301-Martin Glicks-
man/Fereydoon Family, D.aniel Platt, Tamãs Vicsek

Créditos pelas inserções a cores das pp. 111 a 118. 111-Heinz-Otto Peitgen, atra-
tor de Lorenz, Benoit Mandelbrot, The Fractal Geometry of Nature (New York:
Freeman, 1977) curva de Koch, pp. 112 a 115-Heinz-Otto Peitgen, Peter H. Rich-
ter, The Beauty of Fractais (Berlin: Springer-Verlag, 1986) seqüência de Mandel-
brot; p. 116-Scott Burns, Harold E. Benzinger, Julian Palmore método de New-
ton; p. 117-Richard F. Voss aglomerado de filtragem; p. 118-National Aeronau-
tic and Space Administration CTupiter), Philip Marcus (simulação da mancha
vermelha) .
Crédito pelas ilustrações preto e branco das pp. 189 e 190 : John Milnor

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Sumário
PRÓIDGO ............................. .............................................. 01
Capítulo 1
O EFEIID BORBOLETA .... .... , ................... , ........... .. ................. 09

Edward Lorenz e seu tempo de brinquedo. O computador comporta-se mal. A previsão a


longo prazo está condenada. A ordem mascarada de aleacoriedade. Um mundo de não-
linearidade. '!Não percebemos do que se tratava."

g~b1lüÇÃo ..................................... ~ .................................. 31


Uma revolução no ato de ver. Relógios de pêndulo, bolas espaciais e balanços de brinquedo.
A invenção da ferradura. Solução de um mistério: a Grande Mancha Vermelha de Júpiter.

Capítulo 3
OS ALTOS E BAIXOS DA VIDA ................................................. 55

Modelos das populações animais. A ciência não-linear, "o estudo de animais não-elefantes."
Bifurcações em forquilha e um passeio pelo Spree. Um filme de caos e um apelo messiânico.

Capítulo 4
UMA GEOMETRIA DA NATUREZA .......... ... ..... ......................... 79

Uma descoberta sobre preços do algodão. O refugiado de Bourbaki. Erros de transmissão


e li corais recortados. Novas dimensões. Os monstros da geometria fractal. Abalos na esqui-
zosfera. Das nunes aos vasos sangüíneos. As latas de lixo da ciência. "Ver o mundo num grão
de areia."

Capítulo 5
ATRATORES ESTRANHOS .......... .. ............ ....... .. ....... ... .......... 123

Um problema para Deus. ilansições no laboratório. Cilindros rotativos e um ponto crucial.


A idéia de turbulência de David Ruelle. Loops no espaço de fase. Mil-folhas e salsicha. O
m:i.peamento de astrônomo. "Fogos de artifício ou galáxias."

Capítulo 6
UNIVERSALIDADE ............................................................... 156
Um novo começo em Los Alamos. O grupo de renormalização. Decodificando a cor. A as-
cenção da experimentação numérica. A descoberta de Mitchell Feigenbaum. Uma teoria uni-
versal. As cartas de rejeição. Reunião em Como. Nuvens e quadros.

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Capítulo 7
O EXPERIMENTADOR ....... ........ ... .................... .. ... ... ... .. ... ... . 185

Hélio numa caixinha. "Insólido ondear do sólido." Fluxo e forma na narureza. O delicado
uiunfo de Albert Llbchaber. A experimentação se une à teoria. De w.na dimensão para muitas.

Capítulo 8
IMAGENS DO CAOS ......... .... ..... ... ......... ..... ........ ......... ... .... ..208

O plano complexo. Surpresa no método de Newton. O conjunto·de Mandelbrot: brotos e


gavinhas. Arte e comércio enconuam-se com a ciência. Llmites da bacia fracral. O jogo do caos.

Capítulo 9 A

O CORPO COLETIVO DOS SISTEMAS DINAMICOS ..... ....... ... .... . 234

Santa Cruz e a década de 60. O computador análogo. Isso era ciência? "Uma visão de longo
alcance." Medindo a imprevisibilidade. A teoria da informação. Da microescala para a ma-
croescala. A torneira que pinga. Recursos audiovisuais. O fim de uma·era.

Capítulo 10
RITMOS INTERIORES .... .. ............ ...... ..... ......... .. .. ......... ... .... .264

Um mal-entendido quanto aos modelos. O corpo complexo. O coração dinâmico. Acertan-


do o relógio biológico. Arritmia faral. Embriões de galinhas e batidas anormais. Caos como
saúde.

Capítulo 11
CAOS E ALÉM DO CAOS .. ... .. ....... .. ... .... .... .. ... ... ....... .. .......... .291

Novas crenças, novas definições. A segunda Lei, os flocos de neve e o dado viciado. Oporru-
nidade e necessidade.

Capítulo 12
FONTES E INDICAÇÕES PARA LEITURA ..... ... ... ... ..... .. ....... ..... .307

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Prólogo

A
polícia da pequena cidade de Los Alamos, no estado
norte-americano de New Mexico, preocupou-se durante
um curto período, em 1974, com um homem que era
visto perambulando no escuro, noite após noite, a brasa vermelha
de seu cigarro flutuando pelas ruas secundárias. Ele andava duran-
te horas, sem destino, à luz das estrelas que cai forte através do ar
fino das mesas. A polícia não foi a única a ficar intrigada. No Labo-
ratório Nacional alguns fisicos sabiain que seu mais novo colega es-
tava fazendo experiências com dias de 26 horas, o que significava
que o período que passava acordado ia lentamente coincidindo e
deixando de coincidir com os horários deles. Isso era meio estra-
nho, até mesmo para a Divisão Teórica.
Nas três décadas decorridas desde que]. Robert Openheimer
escolheu aquela sobrenatural paisagem do New Mexico para o pro-
jeto da bomba atômica, o Laboratório Nacional de Los Alamos 1 se
.tinha estendido por uma grande área de platô desolado, levando con-
sigo aceleradores de partículas, gases laser, usinas químicas, milhares
de cientistas, administradores e técnicos, bem como uma das maio-
res concentrações mundiais de supercomputadores. Alguns cien-
tistas mais velhos lembravam-se das construções de madeira que
se ergueram rapidamente em meio às rochas na década de 40, mas
para a maioria do pessoal d e Los Alamos, jovens de ambos os sexos
em calças de veludo cotelê de estilo universitário e camisas de tra-
balho, os criadores originais da bomba eram apenas fantasmas. O
centro do pensamento em sua forma mais pura, em todo o labora-
tório, era a Divisão Teórica, conhecida como a Divisão-T, assim co-
mo a de computação era Divisão-e e a de armamentos, a Divisão-
X. Mais de cem físicos e matemáticos trabalhavam na Divisão-T, bem
pagos e livres das pressões acadêmicas de lecionar e escrever tra-
balhos para publicação. Esses cientistas conheciam de perto o bri-
lhantismo e a excentricidade. Era difícil provocar-lhes surpresas.

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Mas Mitchell Feigenbaum era um caso raro. Tinha somente um
artigo de sua autoria publicado e estava trabalhando em algo que
parecia não oferecer qualquer perspectiva. Possuía uma cabeleira
revolta que descia pelas costas, partindo da testa larga, ao estilo dos
bustos de compositores alemães. Tinha um olhar brusco e arden-
te. Quando falava, sempre depressa, tinha a tendência a deixar de
lado os artigos e pronomes, de um jeito que lembrava vagamente
o modo de falar dos que vinham da Europa central, embora tivesse
nascido em Brooklin. Quando trabalhava, faz.ia-o de maneira ob-
sessiva. Senão podia trabalhar, andava e pensava, de dia ou à noite,
de preferência à noite. O dia de 24 horas parecia demasiado limita-
dor. Não obstante, suas experiências na semiperiodicidade pessoal
terminaram quando ele achou que não agüentava mais acordar com
o sol poente,.como acontecia de tantos em tantos dias.
AÜs 29 anos, já se tornara um sábio entre sábios, consultor ad
hoc a quem os cientistas consultavam sobre problemas especialmen-
. te difíceis, quando conseguiam encontrá-lo. Uma noite ele chegou
no momento em que saía o diretor do laboratório, Harold Agnew,
um homem corpulento, um dos aprendizes originais de Openhei-
mer. Tinha sobrevoado Hiroshima no avião com instrumentos que
acompanhara o Enola Gay, fotografando o lançamento do primei-
ro produto do laboratório.
- Ouvi dizer que você é muito inteligente 2 -disse Agnew a
Feigenbaum.
- Se é tão inteligente assim, por que não soluciona a fusão a
laser?
Até mesmo os amigos de Feigenbaum se perguntavam se ele
iria, algum dia, produzir um trabalho original. Da mesma forma que
se mostrava pronto a fazer, de improviso, mágicas com questões que
lhe eram apresentadas, também não parecia interessado em dedi-
car as suas pesquisas a nenhum problema compensador. Estudava
a turbulência nos líquidos e gases. Estudava o tempo - será que
ele deslizava continuamente para frente, ou andava aos saltos co-
mo uma seqüência de quadros de um filme cósmico? Estudava a ca-
pacidade que tinha o olho de ver cores e formas constantes num
universo que os físicos sabiam ser um variado caleidoscópio quân-
tico. Estudava nuvens, observando-as.de janelinhas de aviões (até
que, em 1975, sua autorização para viagens científicas foi oficialmen-
te cancelada por excesso de uso) ou das trilhas para caminhadas que
· ficavam nas proximidades do laboratório.
Nas cidades montarihosas do Oeste, as nuvens não se parecem
com as névoas informes e baixas, fuliginosas, que enchem o ar do
Leste. Em lDs Afamos, a sotavento de uma caldeira vulcânica, as nu-
vens correm pelo céu em formações fortuitas, sim, mas também não-

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fo.rtuitas, permanecendo em espigões unifórmes ou em configura-
ções estriadas regulares, como a massa cinzenta do cérebro. Numa
tarde de tempestade, quando o céu lampeja e estremece com a ele-
tricidade que se cria, as nuvens se destacam a uma distância de 50
quilômetros, filtrando e refletindo a luz, até que todo o céu come-
ça a parecer um espetáculo encenado como uma sutil censura aos
físicos. As nuvens representavam úm aspecto da natureza negligen-
ciado pela física, um aspecto ao mesmo tempo nevoento e detalha-
do, estruturado e imprevisível. Feigenbaum estudava tais coisas, de
maneira discreta e improdutiva.
Para um físico, criar a fusão a laser era um problema válido;
descobrir a rotação, a cor e o sabor de pequenas partículas era um
problema válido; datar a origem do universo era um problema vá-
lido. Compreender as nuvens era problema para o meteorologista.
Como outros físicos, Feigenbaum usava um vocabulário de enten-
dido, muito aquém da realidade, para classificar tais problemas. Tal
coisa é óbvia, podia dizer ele, signfc~.do isso que um resultado
poderia ser compreendido por qualquer físico talentoso depois de
uma meditação e de cálculos adequados. Não é óbvia qualificava
um trabalho que era digno de respeito e de prêmios Nobel. Para os
problemas mais difíceis, que não cediam sem longas investigações
das entranhas do universo, os físicos reservavam palavras como pro-
fundo. Em 1974, embora poucos colegas soubessem disso, Feigen-
baum estava trabalhando num problema profundo: o caos.
Onde começa o caos, a ciência clássica pára. Desde que o mun-
do teve físicos que investigavam as leis da natureza, sofreu também
de um desconhecimento especial sobre a desordem na atmosfera,
sobre o mar turbulento, as variações das populações animais, as os-
cilações do coração e do cérebro. O lado irregular da natureza, o
lado descontínuo e incerto, têm sido enigmas para a ciência, ou pior:
monstruosidades.
Na década de 70, porém, alguns cientistas nos Estados Unidos
e na Europ;i começaram a encontrar um caminho em !Tieio a essa
desordem. Eram matemáticos, físicos, biólogos, químicos, todos
eles buscando ligação entre diferentes tipos de irregularidade. Os
fisiologistas descobriram uma surpreendente ordem no caos que
se desenvolve no coração humano, causa principal da morte súbi-
ta e inexplicada. Os ecologistas exploraram a ascensão e queda da
população das mariposas conhecidas como limântrias. Os econo-
mistas desenterraram velhas cotações da Bolsa e tentaram um no-
vo tipo de análise. As compreensões daí resultantes levaram direta-
mente ao mundo natural- às formas das nuvens, aos caminhos per-
corridos pelos relâmpagos, às interligações microscópicas dos va-
sos sangüíneos, às aglomerações estelares galácticas.

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Quando Mitchell Feigenbaum começou a refletir sobre o caos
em Los Alamos, era apenas um entre um punhado de cientistas dis-
persos, que em sua maioria não se conheciam. Um matemático em
Berkeley, Califórnia, tinha organizado um pequeno grupo dedica-
do à criação de um novo estudo dos "sistemas dinâmicos". Um bió-
logo que se ocupava de populações, na Universidade de Princeton,
estava em via de divulgar um apaixonado apelo a todos os cientis-
tas para que examinassem o comportamento aparentemente com-
plexo de alguns modelos simples. Um geômetra da IBM buscava uma
nova palavra para descrever uma família de formas - dentadas, ema-
ranhadas, estilhaçadas, enroscadas, fragmentadas - que conside-
rava como um princípio organizador na natureza. Um físico mate-
mático francês tinha acabado de fazer a ·c ontroversa afirmação de
que a turbulência dos fluidos poderia ter alguma relação com uma
bizarra e infinitamente complexa abstração que ele chamava de atra-
tor estranho.
Hoje, uma década depois, o caos se tornou uma abreviatura
para um movimento que cresce rapidamente e que está reformu-
lando a estrutura do sistema científico. Conferências e publicações
sobre o caos são numerosas. Os administradores de programas
governamentais 3 encarregados dos fundos de pesquisas para os
militares, a Central Intelligence Agency e o Departamento de Ener-
gia destinaram somas cada vez maiores às pesquisas do caos e cria-
ram órgãos especiais para tratar do financiamento. Em todas as gran-
des universidades e em todos os grandes centros de pesquisas pri-
vados, alguns teóricos relacionam-se primeiro com o caos, e só em
segundo lugar com as suas especialidades propriamente ditas. Em
Los Alamos, um Centro de Estudos Não-Lineares foi criado para
coordenar o trabalho sobre o caos e problemas correlatos; institui-
ções semelhantes surgiram nos campi universitários por todo o país.
O caos criou técnicas especiais de uso dos computadores e ti-
pos especiais de imagens gráficas, fotos que apreendem uma fan-
tástica e delicada estrutura subjacente à complexidade. A nova ciên-
cia gerou sua linguagem própria, um elegante jargão de fractais e
bifurcações, intermitências e periodicidades, difeomorfismo
folded-towel e mapas smooth noodle. São os novos elementos do
movient,~ tal como na física tradicional, quarks e gluons são os
novos elementos da matéria. Para alguns físicos, o caos é antes uma
ciência de processo do que de estado, 5 de vir-a-ser do que de ser.
Agora que a ciência está atenta, o caos parece estar por toda
parte. Uma coluna ascendente de fumaça de cigarro se decompõe
em anéis desordenados . Uma bandeira drapeja de um lado para ou-
tro ao vento. Uma torneira gotejante passa de um ritmo constante
para outro, aleatório. O caos surge no comportamento das condi-

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ções do tempo, no comportamento de um avião em vôo, no com-
portamento dos carros6 que se agrupam numa auto-estrada, no
comportamrnto do petróleo que flui em tubos subterrâneos. Qual-
quer que seja o meio, o comportamento obedece às mesmas leis
recém-descobertas. A percepção desse fato 7 começou a modificar
a maneira pela qual os executivos tomam decisões sobre seguros,
os astrônomos vêem o sistema solar, e os teóricos de política falam
sobre as tensões que provocam conflitos armados.

O caos rompe as fronteiras que separam as disciplinas cientí-


ficas. Por ser uma ciência da natureza global dos sistemas, reuniu
pensadores de campos que estavam muito separados. "Há 15 anos 8
a ciência se encaminhava para uma crise de especialização crescente'',
disse um funcionário da Marinha encarregado do financiamento
. científico a um auditório de matemáticos, biólogos, físicos e médi-
a
cos. "Dramaticamente, essa tendência para especialização foi re-
vertida em virtude do caos." O caos sus.cita problemas que desa-
fiam os modos de trabalho aceitos na ciência. Vale-se, e com muita
ênfase, do comportamento universal da complexidade. Os primei-
ros teóricos do caos, os cientistas que colocaram em andamento essa
disciplina, tinham certas sensibilidades em comum. Eram sensíveis
aos padrões, em especial os que surgiam em escalas diferentes, ao
mesmo tempo. Tinham um gosto pelo aleatório, pelo complexo, pe-
las extremidades recortadas e pelos saltos súbitos. Os que acredi-
tam no caos - e eles por vezes se intitulam crentes, ou conversos,
ou evangelistas - esp~culam sobre o determinismo e o livre-arbítrio,
sobre a evolução, sobre a natureza da inteligência consciente. Sen-
tem que estão fazendo recuar uma tendência na ciência, a do redu-
cionismo, a análise dos sistemas em termos de suas partes consti-
tutivas : quarks, cromossomos ou neurônios. Acreditam estar à pro-
cura do todo.
Os mais ardentes defensores da nova ciência chegam ao pon-
to de dizer que a ciência do século XX será lembrada apenas por
três coisas: 9 a relatividade, a mecânica quântica e o caos. O caos,
dizem eles, tornou-se a terceira grande revolução do século 10 nas
ciências físicas . Como as duas primeiras:revoluções, o caos modi-
fica muitos dos postulados da física de Newton. Como disse um fí-
sico: 11 "A relatividade eliminou a ilusão newtoniana sobre o espa-
ço e o tempo absolutos ; a teoria quântica eliminou o sonho newto-
niano de um processo controlável de mensuração; e o caos elimi-
na a fantasia laplaciana da previsibilidade determinista." A revolu-
ção do caos aplica-se ao universo que vemos e tocamos, aos obje-
tos em escala humana . A experiência cotidiana e os quadros reais
do mundo tornaram-se alvos legítimos de indagação. Por muito tem-

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po houve um sentimento, nem sempre expresso abertamente, de
que a física teórica se tinha afastado muito da intuição hu.m ana so-
bre o mundo. Se isso se revelará uma heresia proveitosa, ou apenas
uma heresia, ninguém sabe. Mas alguns dos que achavam que a fí-
sica talvez estivesse caminhando para um impasse vêem agora o caos
como uma saída.
O estudo do caos surgiu de uma área marginal dentro da pró-
pria física , cuja corrente principal vem sendo, durante a maior par-
te deste século, a física das partículas, que explora os blocos de cons-
trução da matéria a energias cada vez maiores, em escalas cada vez
menores, em tempos cada vez mais curtos. Da física das partículas
surgiram teorias sobre as forças fundamentais da natureza e sobre
a origem do universo. Não obstante, alguns físicos jovens ficaram
descontentes com a direção da mais prestigiosa das ciências. O pro-
gresso começava a parecer lento, a identificação de novas partícu-
las parecia inútil, o corpo da teoria, sobrecarregado. Com o adven-
to do caos, os cientistas mais jovens julgaram ver o início de uma
modificação para toda a física . O campo tinha sido dominado por
tempo suficiente, na opinião deles, pelas brilhantes abstrações das
partículas de alta energia e da mecânica quântica .
O cosmólogo Stephen Hawking, 12 que ocupa a cátedra de
Newton na Universidade de Cambridge, falou pela maioria dos fí-
sicos ao examinar o estado de sua ciência numa conferência de 1980,
intitulada "Está à Vista o Fim da Física Teórica?"
"Já conhecemos as leis da física que governam tudo o que ex-
perimentamos na vida cotidiana .. . Constitui um tributo para nos-
so avanço na física teórica o fato de serem hoje necessárias máqui-
nas enormes e grandes somas de dinheiro para a realização de ex-
periências cujos resultados não podemos prever."
Mas Hawking reconheceu que a compreensão das leis da na-
tureza em termos da física das partículas deixava sem resposta a ques-
tão de como aplicar tais leis a sistemas que não fossem dos mais sim-
ples. A previsibilidade é uma coisa numa câmara úmida de Wilson
onde duas partículas colidem ao final de uma corrida em volta de
um acelerador. É outra coisa totalmente diferente no mais simples
tubo com fluido em movimento, ou no clima da terra, ou no cére-
bro humano.
A física de Hawking, que conquista com eficiência Prêmios No-
bel e grandes verbas para experiências, tem sido chamada, com fre-
qüência, de revolução. Ele deu, por vezes, a impressão de estar quase
alcançando o Santo Graal da Ciência, a Grande Teoria Unificada,
ou a " teoria de tudo". A física tinha traçado o desenvolvimento da
energia e da matéria em tudo, exceto o primeiro pestanejar da his-
tória do universo. Mas terá sido a física de partículas do pós-guerra

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uma revolução? Ou terá sido um produto da estrutura criada por
Einstein, Bohr e os outros pais da relatividade e da mecânica quân-
tica? Certamente, as realizações da física, desde a bomba atômica
até o transistor, modificaram .a paisagem do século XX. Mas o âm-
bito da física das partículas parece ter-se estreitado. Duas gerações
passaram desde que o campo produziu uma nova idéia teórica que
mudou a maneira pela qual os não-especialistas compreendem o
mundo.
A física descrita por Hawking podia completar sua missão sem
responder a algumas das questões mais fundamentais sobre a na-
tureza. Como começa a vida? O que é a turbulência? Acima de tu-
do, num universo governado pela entropia, que leva inexoravelmen-
te à desordem cada vez maior, como surge a ordem? AÓmesmo tem-
po, os objetos da experiência cotidiana, como os sistemas fluidos
e mecânicos, passaram a parecer tão básicos e tão comuns que os
físicos tiveram a tendência natural de supor que eram bem com-
preendidos. E isso não acontecia.
Com o curso da revolução no caos, os melhores físicos se es-
tão voltando, sem constrangimento, para os fer:iômenos em escala
humana. Estudam não apenas as galáxias, mas as nuvens. Realizam
proveitosas pesquisas em computador não apenas com os Crays,
mas também com os Macintoshes. As mais importantes revistas pu-
blicam artigos sobre a estranha dinâmica de uma bola que repicà
sobre uma mesa, ao lado de artigos sobre a física quântica. Os sis-
temas mais simples criam, como hoje se acredita, os mais difíceis
problemas de previsibilidade. Não obstante, a ordem surge espon-
taneamente nesses sistemas - o caos e a ordem, juntos. Só um no-
vo tipo de ciência poderia começar a atravessar o grande abismo
entre o conhecimento daquilo que uma coisa faz - uma molécula
de água, uma célula de tecido cardíaco, um neurônio - e o que mi-
lhões delas fazem.
Observem dois fragmentos de espuma flutuando lado a lado,
ao pé de uma cascata. O que se pode supor sobre a proximidade
em que estavam no alto? Nada . No que conce·rne à física clássica,
Deus em pessoa poderia ter apanhado e misturado todas aquelas
moléculas de água. Tradicionalmente, quando os físicos viam re-
sultados complexos, buscavam causas complexas. Quando viam
uma relação aleatória entre o que acontece num sistema e o que dele
resulta, supunham que teriam de incluir a aleatoriedade em qual-
quer teoria realista, acrescentando artificialmente ruídos ou erros.
O estudo moderno do caos começou com a assustadora compreen-
são, na década de 60, de que equações matemátic;is muito simples
podiam servir de modelo para sistemas tão violentos, sob todos os
aspectos, quanto a queda d'água. Pequenas 'diferenças de insumo

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podiam transformar-se rapidamente em esmagadoras diferenças de
resultado - um fenômeno que recebeu o nome de "dependência
sensível das condições iniciais". Na previsão do tempo, por exem-
plo, isso se traduz no que é conhecido, em parte como pilhéria, co-
mo o Efeito Borboleta - a noção de que uma borboleta, agitando
o ar hoje em Pequim pode modificar no mês seguinte sistemas de
tempestades em Nova York.
Quando os investigadores do caos começaram a pensar na ge-
nealogia de sua nova ciência, encontraram muitas trilhas intelectuais
do passado. Uma, porém, se.destacava claramente. Para os jovens
físicos e matemáticos que lideravam a revolução, um dos pontos de
partida foi o Efeito Borboleta.

Notas
1 - Feigenbaum, Carruthers, Campbell , Farmer, Visscher, Kerr, Hasslacher, Jen.
2 - Feigenbaum, Carruthers.
3 - Bucha!, Shlesinger, Wisniewski.
4 - Yorke.
5 - F.K. Browand, "TheStructureoftheTurbulentMixingLayers",Physica, 180
(1986), p. 135.
6 - Cientistas japoneses examinaram o problema do tráfego com uma seriedade
especial, como por exemplo Toshimitsu Musha e Hideyo Higuchi, "The 1/f
Fluc tuation ofa Traffic Current o n an Expressway",japanesejournal of Ap-
plied Physics (1976), pp. 12 71-75 .
7 - Mandelbrot, Ramsey; Wisdom , Marcus; Alvin M. Saperstein, "Chaos -A Mo-
del for the Outbreak o f War'', Natu re, 309 (1984), pp. 303-5.
8 - Shlesinger.
9 - Shlesinger.
10 - Ford.
11 - Joseph Ford , " What Is Ch aos, That We Should Be Mindful of It '' ', pré-
publicação, Instituto de Tecnologia da Geórgia , p. 12 .
12 - John Boslough , Stepben Hall'king s Unit'erse (Cambridge, Cambridge Unver-
sity Press, 1980); ver também Robert Shaw, The Dripping Faucet as a Mudei
Chaotic System (Santa Cruz, Aerial , 1984), p. !.

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O Efeito
Borboleta
Os físicos acham que tudo o que temos de fazer é dizer:
estas são as condições, o que acontece em seguida?
- RICHARD P. FEYNMAN

O
sol castigava, percorrendo um céu que nunca tinha vis-
to nuvens. Os ventos varriam uma terra tão lisa quanto o
vidro. A noite não caía nunca, e o outono nunca dava lu-
gar ao inverno. Nunca chovia. As condições atmosféricas
simuladas 1 no novo computador eletrônico de Edward Lorenz va-
riavam de maneira lenta mas segura, atravessando um constante meio
de estação seca, como se o mundo se tivesse transformado em Ca-
melot, ou numa versão particularmente amena do sul da Califórnia.
Pela janela, Lorenz via o tempo que realmente fazia do lado de
fora, a cerração de princípio de manhã arrastando-se pelo campus
do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, ou as nuvens baixas
deslizando sobre os telhados, vindas do Atlântico. Cerração e nu-
vens nunca surgiam no modelo do seu computador. A máquina, um
Royal McBee, era uma floresta de fios e válvulas eletrônicas que ocu-
pava uma parte desajeitadamente grande do escritório de Lorenz,
fazia um barulho surpreendente e irritante, e enguiçava quase to-
das as semanas. Não tinha a velocidade nem a memória necessárias
a uma simulação realista da atmosfera e dos oceanos terrestres. Não
obstante, Lorenz criou um tempo atmosférico de brinquedo em 1960
que conseguiu fascinar seus colegas. A cada minuto a máquina mar-
cava a passagem de um dia, imprimindo uma série de números nu-
ma página. Quem soubesse lê-los, veria um vento predominante-
mente oeste passar ora para norte, ora para sul, e outra vez para norte.
Ciclones digitados giravam lentamente em volta de um globo idea-

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lizado. Quando a notícia se espalhou pelo departamento, os outros
meteorologistas passaram a se reunir em volta da máquina com alu-
nos de pós-graduação, fazendo apostas sobre como se apresenta-
ria, em seguida, o tempo atmosférico de Lorenz, onde, de alguma
forma, nada se repetia.
Lorenz gostava do tempo - 6 que não é condição necessária
a um pesquisador meteorológico. Gostava da sua instabilidade. Apre-
ciava as configurações que se formam e desaparecem na atmbsfe-
ra, famílias de redemoinhos e ciclones, obedecendo sempre a re-
gras matemáticas, porém nunca se repetindo. Quando olhava para
as nuvens, acreditava ver nelas certa estrutura. Outrora, ele tinha
receado que estudar a ciência das condições meteorológicas fosse
como mexer numa caiia de surpresas com uma chave de parafusos.
Agora, ficava imaginando se a ciência seria realmente capaz de des-
vendar a mágica. O tempo tinha um sabor que não se podia expressar
falando de médias. A temperatura máxima do dia em Cambridge,
Massachusetts, é em média 2 5 ° Cem junho. O número de dias chu-
vosos em Riad, na Arábia Saudita, é em média de 10 por ano. Isso
eram estatísticas. A essência estava na maneira pela qual as confi-
gurações atmosféricas se modificavam com o passar do tempo, e
era isso o que Lorenz conseguia captar com o Royal McBee.
Ele era o deus desse universo de máquina, livre para escolher
as leis da natureza que quisesse. Depois de certo número de tenta-
tivas e erros que nada tinham de divino, ele escolheu 12. Eram re-
gras numéricas 2 - equações que expressavam as relações entre
temperatura e pressão, entre pressão e velocidade do vento. Lorenz
compreendeu que estava colocando em prática as leis de Newton,
ferramentas adequadas para um deus mecânico que podia criar um
mundo e colocá-lo em funcionamento para a eternidade. Graças ao
determinismo da lei física, não seriam necessárias novas interven-
ções. Os que faziam tais modelos tinham como certo que, do pre-
sente para o futuro, as leis do movimento proporcionavam uma pon-
te de certeza matemática. Compreendendo as leis, compreendia-
se o universo. Era essa a filosofia por trás da criação de um modelo
de tempo atmosférico num computador.
Realmente, se os filósofos do século XVIII imaginassem o seu
criador como um não-intervencionista benigno, satisfeito em ficar
nos bastidores, poderiam ter imaginado alguém como Lorenz. Ele
era um meteorologista estranho. Tinha o rosto marcado de um fa-
zendeiro ianque, com olhos surpreendentes, brilhantes, que lhe da-
vam a aparência de estar rindo mesmo quando não estava. Raramente
falava de si, ou do seu trabalho, mas ouvia. Perdia-se, com freqüên-
cia, num reino de cálculos ou sonhos que era inacessível aos cole-
1
\

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gas. Seus amigos mais próximos achavam que Lorenz passava boa
parte do tempo num remoto espaço sideral.
Quando menino, fora um apaixonado do tempo, a ponto de
manter tabelas bastante exatas das temperaturas máxima e mínima
durante o dia, acusadas pelo termômetro do lado de fora da casa
dos pais, em West Hartford, Connecticut. Passava, porém, mais tem-
po dentro de casa, brincando com livros de problemas matemáti-
cos do que olhando o termômetro. Por vezes, resolvia os proble-
mas junto com o pai. Certa vez os dois depararam com um proble-
ma particularmente difícil que se revelou insolúvel. Isso era aceitá-
vel, disse-lhe o pai: sempre se pode resolver um problema provan-
do que não há solução. Lorenz gostou disso, como sempre gostava
da pureza da matemática,3 e quando se formou no Dartmouth Col-
lege, em 1938, achava que a matemática era a sua vocação. As cir-
cunstâncias interferiram, porém, sob a forma da Segunda Guerra
Mundial, que o levou a trabalhar como meteorologista para a Força
Aérea. Depois da guerra, Lorenz resolveu continuar na meteorolo-
gia, investigando-lhe a teoria, dando um pouco mais de destaque
à matemática. Adquiriu renome publicando trabalhos sobre proble-
mas ortodoxos, como a circulação geral da atmosfera. Enquanto isso,
continuava a pensar na previsão do tempo.
Para a maioria dos meteorologistas sérios, a previsão não che-
gava a ser uma ciência. Era uma coisa mais instintiva ou prática, fei-
ta por técnicos que precisavam de certa capacidade intuitiva para
ler o tempo do dia seguinte nos instrumentos e nas nuvens. Era uma
adivinhação. Em centros como o M.l .T., a meteorologia preferia os
problemas que tinham soluções. Lorenz compreende u melhor do
que ninguém a confusão que havia na previsão do tempo, da qual
tinha experiência direta, trabalhando para pilotos militares. Conti-
nuava, porém, interessado no problema - um interesse matemático.
Não só os meteorologistas desprezavam a previsão, como tam-
bém, na década de 60, praticamente todos os cientistas sérios des-
confiavam dos computadores. Aquelas calculadoras incrementadas
n ão pareciam instrumentos para a ciência teórica. Por isso, os mo-
delos meteorológicos numéricos eram uma espécie de problema
bastardo. Seu momento, porém, tinha chegado. A previsão do tempo
esperava há dois séculos por uma máquina que pudesse repetir mi-
lhares de cálculos, muitas vezes pela força bruta. Só um computa-
dor poderia explorar a promessa newtoniana de que o mundo se
desdobrava de maneira determinista, tão governado por leis quan-
to os píanetas, tão previsível quanto os eclipses e as marés. Teori-
camente, o computador permitia aos meteorologistas fazer aquilo
que os astrônomos vinham fazendo com lápis e régua de cálculo:
prever o futuro do universo a partir de suas condições iniciais, e as

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leis físicas que guiam a sua evolução. As equações que descreviam
o movimento do ar e da água eram tão bem conhecidas quanto as
que descreviam o movimento dos planetas. Os astrônomos não al-
cançaram a perfeição, e nunca a alcançarão, não num sistema solar
às voltas com as gravidades de nove planetas, dezenas de luas e mi-
lhares de asteróides, mas os cálculos dos movimentos planetários
eram tão precisos que as pessoas se esqueciam de que eram previ-
sões. Quando um astrônomo dizia: "O cometa Halley voltará por
aqui dentro de 76 anos'', isso parecia um fato, e não uma profecia ..
A previsão numérica determinista calculava rotas precisas para na-
ves espaciais e mísseis. Por que não para os ventos e as nuvens?
O tempo era muitíssimo mais complicado, mas era governa-
do pelas mesmas leis. Talvez um computador suficientemente po-
tente pudesse constituir-se na inteligência suprema imaginada por
Laplace, o filósofo matemático do século XVIII que, mais do que
ninguém, foi atacado pela febre newtoniana: "Essa inteligência", es-
creveu ele, "abarcaria4 na mesma fórmula os movimentos dos
maiores corpos do universo e os do menor átomo; para ela, nada
seria incerto, e o futuro, como o passado, estaria presente aos seus
olhos." Nestes dias da relatividade de Einstein e da indeterminação
de Heisenberg, Laplace chega quase a parecer ridículo em seu oti-
mismo, mas grande parte da ciência moderna vem perseguindo o
seu sonho. Implicitamente, a missão de muitos cientistas do sécu-
lo XX- biólogos, neurologistas, economistas - tem sido decom-
por o universo em seus átomos mais simples, que obedeçam a re-
gras científicas. Em todas essas ciências, uma espécie de determi-
nismo newtoniano tem influído. Os pais da computação moderna
tiveram sempre Laplace em mente, e a história do computador e a
história da previsão do tempo estiveram ligadas desde que John von
Neumanninventou suas primeiras máquinas no Instituto de Estu-
dos Avançados, em Princeton, Nova Jersey, na década de 50. Von
Neumann reconhecia que a criação de um modelo de previsão do
tempo podia ser a tarefa ideal do computador.
Havia sempre uma pequena ressalva, tão pequena que os cien-
tistas práticos em geral se esqueciam da sua presença ali, num can-
to de suas filosofias, como uma conta a ser paga. As mensurações
nunca podiam ser perfeitas. Os cientistas que marchavam sob a ban-
deira de Newton na realidade agitavam também uma outra bandei-
ra, que dizia algo mais ou menos assim: Dado um conhecimento
aproximado das condições iniciais de um sistema e um entendi-
mento da lei natural, pode-se calcular o comportamento aproxi-
mado desse sistema. Tal suposição estava no coração filosófico da
ciência. Como um teórico gostava de dizer aos seus alunos: ''A idéia
básica da ciência ocidental é que não temos de levar em conta a que-

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da de uma folha em algum planeta de outra galáxia quando estamos
tentando explicar o movimento de uma bola de bilhar numa mesa
de bilhar, na terra. Influências muito pequenas podem ser postas
de lado. Há uma convergência na maneira pela qual as coisas fun-
cionam, e influências arbitrariamente pequenas não crescem a ponto
de ter efeitos arbitrariamente grandes." 5 Classicamente, a crença na
aproximação e na convergência estava bem justificada. Funciona-
va. Um pequeno erro na fixação da posiÇão do cometa Halley em
1910 provocaria apenas um pequeno erro na previsão de sua che-
gada em 1986, e o erro continuaria sendo pequeno por milhões de
anos futuros . Os computadores baseiam-se na mesma suposição,
ao guiarem naves espaciais: um insumo aproximadamente exato dá
um resultado aproximadamente exato. As previsões econômicas
baseiam-se nessa suposição, embora seu sucesso seja menos eviden-
te. E o mesmo fizeram os pioneiros na previsão global do tempo.
Com o seu computador primitivo, Lorenz tinha reduzido o tem-
po atmosférico aos elementos essenciais. Não obstante, linha por
linha, os ventos e as temperaturas dos resultados impressos pelo seu
computador pareciam comportar-se de uma maneira terrena reco-
nhecível. Eles correspondiam à sua querida intuição sobre o tem-
po, sua sensação de que ele se repetia, revelando padrões conheci-
dos, a pressão aumentando e caindo, as correntes de ar oscilando
entre norte e sul. Descobriu que quando uma linha passava do alto
para baixo sem um salto, ocorreria em seguida um salto duplo, edis-
se: "É esse o tipo de regra que um meteorologista pode usar." 6 Mas
as repetições nunca eram perfeitamente iguais. Havia um padrão, com
alterações. Uma desordem ordenada. ·
Para tornar evidentes os padrões, Lorenz criou um tipo de grá-
fico primitivo. Em lugar de imprimir as séries habituais de dígitos,
fazia a máquina imprimir certo número de espaços em branco, se-
guidos da letra a . Tomava uma variável - talvez a direção da cor-
rente de ar. Gradualmente, os "as " deslizavam pelo rolo de papel,
oscilando de um lado para outro numa linha ondulada, formando
uma longa série de morros e vales que representavam a maneira pela
qual o vento oeste oscilaria para norte e sul, através do continente.
A ordem que havia nisso, os ciclos identificáveis repetindo-se sem
nunca ser precisamente iguais duas vezes, tinham um fascínio hip-
nótico. O sistema parecia estar revelando, lentamente, os seus se- .
gredos aos olhos do meteorologista.
Certo dia, no inverno de 1961, querendo examinar mais deta-
lhadamente uma seqüência, Lorenz tomou um atalho. Em lugar de
refazer toda a seqüência, começou pelo meio. Para dar à máquina
suas condições iniciais, digitou os números diretamente da impres-
são anterior. Depois deu uma volta pelo corredor, para fugir d o ba-

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rulho e tomar um café. Ao vo ltar, uma hora depois, viu algo inespe-
rado, algo que plantou a semente de uma nova ciência.

Essa nova seqüência deveria ter sido uma repetição exata da


anterior. l.Drenz tinha copiado os números na máquina, pessoalmen-
te. O programa não fora modificado. Não obstante, ao olhar para a
nova impressão, l.Drenz viu seu tempo divergindo tão rapidamen-
te do padrão da última seqüência que, em poucos meses, toda a se-
melhança desaparecera . Olhou para uma série de números, depois
novamente para a outra. Bem poderia ter escolhido, aleatoriamen-
te, tirando de um chapéu, duas condições meteorológicas. Seu pri-
meiro pensamento foi que uma válvula eletrônica tivesse queimado.
De repente, percebeu a verdade. 7 Não havia enguiço. O pro-
blema estava nos números que tinha digitado. Na memória do com-
putador, seis casas decimais estavam armazenadas: 0,506127. Na im-
pressão, para poupar espaço, apenas três apareciam: 0 ,506.1.Drenz
tinha colocado na máquina números mais curtos, arredondados,
supondo que a diferença - um para mil - não tinha importância.
Era uma suposição sensata. Se um satélite atmosférico pudes ~
se ler a temperatura dos mares com uma·variação de um para mil,
seus operadores podiam considerar-se felizes. O Royal McBee de
l.Drenz estava implementando o programa clássico. Usou um siste-
ma de equações puramente determinista. Dado um determinado
ponto de partida, as condições meteorológicas se desenvolveriam
exatamente da mesma maneira, a cada vez. Dado um ponto de par-
tida ligeiramente diferente, o tempo se desdobraria de uma manei-
ra ligeiramente diferente. Um pequeno erro numérico era como uma
pequena brisa passageira - sem dúvida as pequenas brisas desa-
pareciam ou se neutralizavam mutuamente antes que pudessem al-
terar aspectos importantes, em grande escala, do tempo. Mas, no
sistema específico de equações de .Lorenz, os pequenos erros
mostravam-s<'; catastróficos.8
Resolveu examinar mais atentamente a maneira pela qual duas
seqüências de tempo quase idênti.cas se distinguiam. Copiou uma
das linhas onduladas numa transparência e a colocou sobre a ou-
tra, para ver como divergiam . Primeiro, duas curvas ascendentes
equivaliam-se, detalhe por detalhe. Depois, uma linha começava a
ficar ligeiramente para trás. Quando as duas seqüências chegavam
à curva ascendente seguinte, elas estavam claramente defasadas. Na
terceira ou quarta curva ascendente, toda semelhança tinha
desaparecido.
Era apenas uma falha de um computador desajeitado. l.Drenz
poderia ter suposto que havia alguma coisa errada com aquela má-
quina, ou com aquele modelo - provavelmente devia ter suposto.

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I' li 1 1

COMO DOIS PADRÕES DE TEMPO DIVERGEM- Partindo quase domes-


mo ponto, Edward Lorenz viu seu computador de previsão do tempo produZir
padrões que se distanciavam_c ada vez mais, até que toda semelhanÇadesapa-
recesse. (Das saídas impressas de Lorenz, de 1961).

Não era como se ele tivesse misturado sódio com cloro e conseguido
ouro. Mas, com sua intuição matemática que os colegas só come-
çariam a compreender mais tarde, Lorenz teve um sobressalto: al-
guma coisa estava errada, do ponto de vista filosófico. As conseqüên-
cias práticas disso podiam ser tremendas. Embora suas equações
fossem paródias grosseiras das condições meteorológicas na terra,
t~nha a convicção de que encerravam a essência da atmosfera real.
Naquele primeiro dia,9 ele achou que a previsão do tempo a lon-
go prazo estava condenada.
"Certamente, de qualquer modo não vírihamos tendo muito
sucesso nisso, e agora tínhamos a desculpa", disse ele. 10 "Creío que
uma das razões pelas quais as pessoas achavam ser possível prever
o tempo com tanta antecedência é a existência de fenômenos físi-
cos reais para os quais se p odem fazer excelentes previsões, cómo
os eclipses (nos quais as dinâmicas do sol, da lua e da terra são ba~­
tante complicadas) e como as marés oceânicas. Nunca pensei nas
tábuas de marés como previsões- para mim, eram fatos consuma-
dos--; mas é claro que são previsões. As marés são na realidade tão
complicadas quanto a atmosfera. Ambas têm componentes perió-
dicos - pode-se -prever que o próximo verão será mais quente do
que este inverno. Com o tempo, porém, tomamos a atitude de que
já sabemos disso. Com as marés, o que nos interessa é a parte previ-
e
sível, a parte imprevisível é pequena, a menos que haja uma
tempestade.

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''.As pessoas comuns, vendo qlie podemos prever as marés com ·
alguns meses de antecedência, perguntam por que não podemos
fazer o mesmo com a atmosfera, trata-se apenas de uin sistema de
fluidos diferentes, as leis são quase igualmente complicadas. Mas
compreendi que qualquer sistema físico que se comportasse de ma-
neira não-periódica seria imprevisível."

As décadas de 50 e 60 foram anos de um otimismo pouco


realista 11 em relação à previsão do tempo. Jornais e revistas estavam
esperançosos com a ciência meteorológica, não apenas com apre-
visão, mas com a modificação e o controle do tempo. Duas tecno-
logias amadureciam ao mesmo tempo, o computador digital e o sa-
télite espacial. Um programa internacional estava sendo preparado
para a utilização de ambas, o Programa de Pesquisa da Atmosfera
Global. Tinha-se a idéia de que a sociedade humana iria libertar-se
da desordem meteorológica e dominá-la, em lugar de ser sua víti-
ma. Cúpulas geodésicas cobririam os milharais. Aviões pulveriza-
riam as nuvens. Os cientistas aprenderiam a fazer chover e a parar
a chuva. ·
O pai dessa idéia popular foi Von Neumann, que construiu seu
primeiro computador com a intenção precisa de, entre outras coi-
sas, controlar o tempo. Cercou-se de meteorologistas e fez, para a
comunidade dos físicos, em geral, emocionantes palestras sobre seus
planos. Tinha uma razão matemática específica para esse otimismo.
Reconhecia que um sistema dinâmico complicado podia ter pon-
tos de instabilidade - pontos críticos nos quais um pequeno em-
purrão pode ter grandes conseqüências, como acontece com uma
bola equilibrada no alto de um morro. Com o computador fun-
cionando, Von Neumann imaginava 12 que os cientistas calculariam
as equações do movimento dos fluidos para os dias seguintes. De-
pois, uma comissão central de meteorologistas enviaria aviões pa-
ra espalhar cortinas de fumaça ou pulverizar as nuvens, para levar
o tempo às condições desejadas. Von Neumann tinha, porém, es-
quecido a possibilidade de caos, com a instabilidade em todos os
pontos.
Na década de 80 uma enorme e cara burocracia 13 dedicava-se
à realização da missão de.Von Neumann, ou pelo menos à sua parte
relacionada com a previsão. Os mais importantes meteorologistas
americanos operavam num edifício simples, em formato de cubo,
numa pequena localidade de Maryland, perto da rodovia de con-
torno de Washington, com antenas de radar e .rádio no telhado. O
supercomputador que usavam era um modelo que só no espírito
fundamental se assemelhava ao de Lorenz. Enquanto o Royal McBee
era capaz de realizar 60 multiplicações por segundo, a velocidade

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de um Control Data Cyber 205 era medida em megaflops, milhões
de operações em pontos flutuantes por segundo. Enquanto Lorenz
se satisfazia com 12 equações, o modelo global moderno calculava
sistemas de 500. 000 equações. Esse modelo compreendia a maneira
pela qual a umidade aumentava ou diminuía o calor do ar quando
se condensava e evaporava. Os ventos digitais eram modelados por
cadeias de montanhas digitais. Torrentes de dados chegavam a ca-
da hora de todas as nações do globo, vindas de aviões, satélites e
navios. O Centro Meteorológico Nacional produzia as segundas me-
lhores previsões do mundo.
As primeiras vinham de Reading, na Inglaterra, uma pequena
cidade universitária a uma hora de Londres. O Centro Europeu de
Previsão do Tempo a Médio Prazo ocupava um modesto edifício à
sombra de árvores, do estilo geral das Nações Unidas, de uma ar-
quitetura de tijolos e vidros, decorado com doações vindas de muitas
terras. Tinha sido construído no auge do espírito de união européia
do Mercado Comum, quando a maioria das nações da Europa oci-
dental resolveram combinar seus talentos e recursos para a causa
da previsão do tempo. Os europeus atribuíam o seu sucesso à equipe
jovem e rotativa - não havia funcionários - e ao seu supercom-
putador Cray, que parecia estar sempre um modelo à frente do com-
putador americano correspondente.
A previsão do tempo foi o começo, mas estava longe de ser o
fim, da utilização dos computadores para forinular sistemas com-
plexos. As mesmas técnicas serviam a muitos tipos de cientistas fí-
sicos e cientistas sociais que alimentavam esperanças de fazer pre-
visões sobre tudo, desde os fluxos de fluidos em pequena escala,
de interesse dos projetistas de hélices, até os enormes fluxos finan-
ceiros, de interesse dos economistas. Realmente, nas décadas de 70
e 80 a previsão econômica pelo computador tinha uma semelhan-
ça real com a previsão de tempo global. Os modelos processavam
teias complicadas, e um tanto arbitrárias, de equações, que preten-
diam transformar as medições das condições iniciais - pressão at-
mosférica ou oferta de dinheiro - numa simulação de tendências
·futuras. Os programadores tinham esperanças de que os resultados
não fossem demasiado deformados pel4s muitas e inevitáveis sim-
plificações. Se um modelo fazia álguma coisa flagrantemente estra-
nha - inundasse o Saara ou triplicasse as taxas de juros - , os pro-
gramadores reviam as equações para colocar o resultado em har-
monia com as expectativas. Na prática, os modelos econométricos
revelavam-se desanimadoramente cegos sobre o futuro, mas mui-
ta gente que deveria ter mais senso agia como se acreditasse nos re-
sultados. Previsões de crescimento econômico ou de desemprego
eram apresentadas com uma precisão implícita de duas ou três ca-

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sas decimais. 14 Governos e instituições financeiras pagavam pores-
sas previsões e agiam de acordo com elas, talvez por necessidade
ou à falta de coisa melhor. Presumivelmente, sabiam que variáveis
como "otimismo do consumidor" não eram tão mensuráveis quanto
a "umidade" e que equações diferenciais perfeitas ainda não tinham
sido escritas para o movimento da política e da moda. Poucos, po-
rém, davam-se conta de como era frágil o próprio processo de criar
modelos de fluxos nos computadores, mesmo quando os dados
eram razoavelmente fidedignos e as leis eram puramente físicas, co-
mo na previsão do tempo.
A criação de modelos no computador tinha, na verdade, con-
seguido transformar a meteorologia, de uma arte, numa ciência. As
avaliações do Centro Europeu indicavam que o mundo tinha pou-
pado bÜhões de dólares anualmente com previsões que, estatisti-
camente, eram melhores do que nada. Mas, além de dois ou três dias,
as melhores previsões do mundo eram especulativas, e além de seis
ou sete, nada valiam.
A razão disso era o Efeito Borboleta. 15 Para pequenas condi-
ções meteorológicas - e para um meteorologista global, pequeno
pode significar tempestades e nevascas-, qualquer previsão per-
de o valor rapidamente. Os erros e as incertezas se multiplicam, for-
mando um efeito de cascata ascendente através de uma cadeia de
aspectos turbulentos, que vão dos demônios da poeira e tormen-
tas até redemoinhos continentais que só os satélites conseguem ver.
Os modernos modelos das condições meteorológicas operam
com uma rede de pontos da ordem de 96 km de distância, e mes-
mo assim, alguns dados.de partida têm de ser supostos, já que as
estações de terra e os satélites não podem ver tudo. Mas suponha-
mos que a terra 16 pudesse ser coberta com sensores colocados a 30
centímetros uns dos outros, elevando-se a intervalos de 30 centí-
metros até o alto da atmosfera. Suponhamos que cada sensor for-
neça leituras perfeitamente precisas de temperatura, pressão, umi-
dade e qualquer outra quantidade que o meteorologista possa de-
sejar. Exatamente ao meio-dia um computador infinitamente potente
recebe todos os dados e calcula o que acontecerá em cada ponto
às 12 :01, depois 12:02, depois 12:03 ...
Ainda assim, o computador não será capaz de prever se Prin-
ceton, em Nova Jersey, terá sol ou chuva dentro de um dia ou de
um mês. Ao meio-dia os espaços entre os sensores ocultarão osci-
lações que o computador não conhecerá, pequenos desvios da mé-
dia. Às 12:01 essas oscilações já terão criado pequenos erros a 30
centímetros de distância. Em pouco tempo os erros se terão multi-
plicado na escala de 10 x 30, e assim por diante, até o tamanho do
globo.

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Até mesmo para os meteorologistas experientes, tudo isso se
opõe à intuição. Um dos mais antigos amigos de Lorenz era Robert
White, também meteorologista do M. I .T., que mais tarde seria che-
fe do Departamento Oceânico e Atmosférico Nacional. Lorenz falou-
lhe do Efeito Borboleta e o que, na sua opinião, ele significava para
a previsão do tempo a longo prazo. White deu a resposta de Von Neu-
mann. "Que previsão, que nada'.', disse ele. 17 "Isso é o controle do
tempo." Sua idéia era que as pequenas modificações, perfeitamen-
te dentro da capacidade humana, podiam causar desejadas mudan-
ças em grande escala . .
Lorenz viu as coisas de maneira diferente. Sim, era possível mo-
dificar o tempo. Podia-se levá-lo a fazer alguma coisa diferente do
que ele faria, se não houvesse interferência. Mas, feito isso, não sa-
beríamos então o que teria acontecido. Seria como dar mais uma
baralhada num baralho já bem misturado. Sabemos que isso modi-
ficará a nossa sorte, mas não sabemos se para melhor, ou para pior.
A descoberta de Lorenz foi um acaso, mais um numa linha de
acasos que remonta a Arquimedes e sua tjna de banho. Lorenz não
era do tipo de sair gritando Eureka. O acaso feliz apenas o levou
ao ponto em que sempre estivera. Estava pronto para explorar as
conseqüências da sua descoberta, desenvolvendo o significado ·q ue
ela deveria ter para o entendimento, pela ciência, dos fluxos de to-
dos os tipos de fluidos.
Se tivesse ficado apenas no Efeito Borboleta, uma imagem da
previsibilidade substituída pelo simples acaso, Lorenz teria produ-
zido apenas uma notícia muito ruim. Mas ele viu algo mais do que
aleato.r iedade erri seu modelo do tempo. Percebeu nele uma bela
estrutura georriéiríca, a ordem mascarada de aleatoriedade. Era um
matemático vestido de meteorologista, afinal de contas, e começou
então a levar uma vida dupla. Escrevia trabalhos que eram pura me-
teorologia. Mas escrevia também trabalhos que eram pura matemá-
tica, com uma dose levemente enganosa de conversa meteorológi-
ca como prefácio. Os prefácios acabaram por desaparecer
totalmente.
Sua atenção voltou-se cada vez mais para a matemática de sis-
temas que nunca encontravam um regime estacionário, sistemas que
quase se repetiam, mas nunca exatamente. Todos sabiam que o tem-
po atmosférico era um desses sistemas_: aperiódico. A natureza pos-
sui muitos outros: populações animais que aumentam e diminuem
quase regularmente, epidemias que vão e vêm em tantalizantes es-
quemas quase regulares. Se o tempo chegasse alguma vez a um re-
gime exatamente como o atingido antes, em que todos os ventos
e nuvens fossem os mesmos, então presumivelmente ele se repeti-
ria para sempre e o problema da previsão se tornaria trivial.

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Lorenz viu que devia haver um elo 18 entre a recusa do tempo
em repetir-se e a incapacidade dos meteorologistas de prevê-lo -
um elo entre aperiodicidade e imprevisibilidade. Não era fácil en-
contrar equações simples que produzissem a aperiodicidade que
ele buscava. A princípio seu computador tendia a fechar-se em ci-
clos repetitivos. Lorenz, porém, tentou diferentes tipos de compli-
cações menores, e finalmente conseguiu, quando usou uma equa-
ção que variava a quantidade de calor de leste para oeste, corres-
pondendo a uma variação no mundo real entre a maneira pela qual
o sol aquece o litoral leste da América do Norte, por exemplo, e a
maneira pela qual aquece o oceano Atlântico. A repetição
desapareceu.
O Efeito Borboleta não era um acidente: era necessádo. Supo-
nhamos que as pequenas variações permanecessem pequenas, ra-
ciocinou ele, em lugar de se avolumarem pelo sistema. Então, quan-
do o tempo se aproximasse arbitrariamente de um regime pelo qual
já tinha passado antes, permaneceria arbitrariamente próximo dos
padrões seguintes. Para finalidades práticas, os ciclos seriam previ-
síveis - e acabariam perdendo o interesse. Para produzir o rico re-
pertório do tempo real da terra, a sua bela multiplicidade, dificil-
mente poderíamos desejar alguma coisa melhor do que um Efeito
Borboleta.
O Efeito Borboleta recebeu um nome técnico: dependência
sensível das condições iniciais. E a dependência sensível das con-
dições iniciais não era uma noção totalmente nova. Tinha lugar no
foldore :

"Por falta de um prego, perdeu-se a ferradura;


Por falta de uma ferradura, perdeu-se o cavalo;
Por falta do cavalo, perdeu-se o cavaleiro;
Por falta do cavaleiro, perdeu-se a batalha;
Por falta da batalha, perdeu-se o reino!' •19

Sabe-se muito bem, tanto na ciência como na vida, que uma


cadeia de acontecimentos pode ter um ponto de crise que aumen-
te pequenas mudanças. Mas o caos significava que tais pontos esta-
vam por toda parte. Eram generalizados. Em sistemas como o tem-
po, a dependência sensível das condições iniciais era conseqüên-
cia inevitável da maneira pela qual as pequenas escalas se combi-
navam com as grandes.
Seus colegas ficaram espantados por ter Lorenz imitado tanto
a aperiodicidade como a dependência sensível de condições ini-
ciais em sua versão de brincadeira do tempo : 12 equações, calcula-

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das repetida5 vezes com impiedosa eficiência mecânica. Como podia
essa riqueza, essa imprevisibilidade - esse caos - , surgir de um sis-
tema determinista simples?
Lorenz pôs de lado o tempo e procurou modos ainda mais sim-
ples de produzir ·e sse comportamento complexo. Encontrou
·um, num sistema de apenas três equações. Os termos significan-
do ísso que exP,ressavam relaçôes que não eram rigorosamente pro-
porcionais. As relações lineares podem ser estabelecidas com uma
linha reta num gráfico. As relações lineares são de compreensão fá-
cil: quanto mais, melhor. As equações lineares são resolvíveis, o que
as torna adequadas para os manµais. Os sistemas lineares têm uma
importante virtude modular: podem ser desmontados e novamente
montados - as peças se encaixam.
Os sistemas não-lineares não podem, em geral, ser soluciona-
dos e não podem ser somados uns aos outros. Em fluidos e em sis-
temàs mecânicos, os termos lineares tendem a ser os aspectos que
as pessoas querem deixai: de fora quando tentam compreendê-los
bem, de uma maneira simples. O atrito, por exemplo. Sem atrito,
uma equação linear simples expressa a quantidade de energia ne-
cessária para acelerar um disco de borracha do jogo de hóquei: Com
·o atrito, a relação se complica, porque a quantidade de energia se
modifica, dependendo da rapidez com que o disco já se está mo-
vendo. A não-linearidade significa que o ato de jogar o jogo modi-
fica, de certa maneira, as regras. Não se pode atribuir uma impor-
tância constante ao atrito, porque sua importância depende da ve-
loddáde. A velocidade, por sua vez, depende do atrito. Essa muta-
bilidade dependente torna difícil o cálculo da não-linearidade, mas
também cria tipos de comportamento de grande dqueza, que nun-
ca ocorrem em sistemas lineares. Na dinâmica dos fluidos, tudo se
resume a uma equação canônica, a equação de Navier-Stokes. É um
milagre de brçvidade, relacionando velocidade, pressão, densida-
de e viscosidade do fluido, mas é não-linear. Assim, a natureza des-
sas relações é, com freqüência, difícil de ser preeisada. Analisar o
comportamento de uma equação não-linear como a de Navier-
Stokes é como caminhar por um labirinto cujas paredes modificam
sua disposição a cada passo que damos. Como disse o próprio Von
Neumann: "O càráter da equação ( ... )varia simultaneamente em to-
dos os aspectos relevantes: tanto a ordem como o grau se modifi-
cam. Portanto, devemos esperar grandes dificuldades matemáti-
cas."2º O mundo seria diferente - e a ciência não precisaria de
caos - se a equação de Navier-Stokes não contivesse o demônio
da não-linearidade.
Um tipo específico de movimento dos fluidos inspirou as três
equações de Lorenz: a ascensão do gás ou líquido quente, conhe-

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cida como convecção. Na atmosfera, a convecção agita o ar aque-
cido pela terra banhada de sol, e ondas de convecção, tremeluzen-
tes, sobem como fantasmas acima do asfalto e dos radiadores quen-
tes. Lorenz tinha' a mesma satisfação em falar sobre a convecção nu-
ma xícara de café quente.21 Como dizia, este era àpenas um dos
inumeráveis processos hidrodinâmicos em nosso universo cujo
comportamento futuro gostaríamos de prever. Como calcular ara-
pidez com que uma xícara de café esfriará? Se o café estiver apenas
morno, seu calor se dissipará sem qualquer movimento hidrodinâ-
mico. O café permanece em regime constante. Mas, se estiver quente
·o bastante, uma rotação convectiva, ou propagadora, levara o café
quente do fundo da xícara para a superfície mais fria. Aconvecção
no café torna-se claramente visível quando um pouco de creme é
pingado na xícara. Os movimentos giratórios podem ser compli-
cados, mas a longo prazo o destino desse sistema é evidente. Co-
mo o calor se dissipa, e como o atrito retarda o fluido em agitação,
o movimento terá de parar, inevitavelmente. Lorenz disse secamente
a um grupo de cientistas: "Poderíamos ter problemas em prever a
temperatura do café com um minuto de antecedência, mas não te-
remos dificuldades em prevê-la com uma hora de antecedência." 22
As equações do movimento que governa uma xícara de café que es-
fria devem refletir o destino do sistema. Devem ser dissipantes. A
temperatura deve pender para a temperatura do ambiente, e a ve-
locidade, para zero.
Lorenz tornou uma série de equações 23 para a convecção e
reduziu-a ao essencial, eliminando tudo o que pudesse ser irrele-
vante, tornando-a de uma simplicidade pouco realista. Quase nada
do modelo original permaneceu, mas ele deixou a não-linearidade.
Para os físicos, as equações pareciam simples. Olhavam-nas - mui-
tos dentistas olharam, nos anos seguintes - e diziam: Eu posso
resolvê-las.
- "Sím", dizia Lürenz tranqüilamente. "Há uma tendênda a pen-
sar assim, ao vê-las. Há alguns termos não-lineares nelas, e parece
haver alguma maneira de contorná-los. Mas não há."
. O tipo mais simples de convecção mostrado nos manuais ocor-
re numa célula d.e fluido, uma caixa com um fundo liso que pode
ser aquecido e uma tampa lisa que pode ser resfriada. A diferença
de temperatura entre o fundo quente e a tampa fria controla o flu-
xo. Se a diferença é pequena, o sistema permanece estável. O calor
se movimenta para o alto pela condução, como acontece numa barra
de metal, sem superar a tendência natural do fluido a permanecer
em repouso. Além disso, o sistema é estável. Quaisquer movimen-
tos fortuitos que possam ocorrer quando, digamos, um aluno es-
. barra no aparelho tendem a desaparecer, voltando o sistema a um
regime estável.

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ROLAGEM DE UM FLUIDO. Quando um líquido ou gás é aquecido por bai-
xo, o fluido tende a organizar-se em rolos cilíndricos (esquerda). O fluido quente
sobe de um lado, perde calor e desce do outro lado -o processo de convecção.
Quando o calor aumenta (direita), ocorre uma instabilidade, e os rolos apre·
sentam uma ondulação que vai e vem ao longo dos cilindros. Em temperatu-
ras ainda mais elevadas, o fluxo se torna descontrolado e turbulento.

Aumente-se, porém, o calor, e um novo comportamento se ma-


nifesta. Quando esquenta, o fluido do fundo se expande. Ao se ex-
pandir, torna-se menos denso. Ao se tornar menos denso, torna-se
mais leve, o suficiente para superar o atrito, e sobe para a superfí-
cie. Numa caixa cuidadosamente projetada, desenvolve-se uma ro-
tação cilíndrica, com o fluido quente subindo de um lado e o flui-
do frio descendo do outro. Visto de lado, o movimento faz um cír-
culo contínuo. Fora do laboratório, também a natureza faz, com fre-
qüência, suas células de convecção. Quando o sol esquenta o chão
de um deserto, por exemplo, o ar que ondula pode provocar for-
. mas sombreadas nas nuvens, lá no alto, ou na areia, embaixo.
Aumente-se ainda mais o calor, e o comportamento se torna
mais complexo. Os movimentos ondulatórios começam a oscilar.
As equações simplificadas de Lorenz eram demasiado simples pa-
ra criar um modelo desse tipo de complexidade. Elas abstraíam ape-
nas um aspecto da convecção no mundo real: o movimento drcu-
la1 do fluido quente elevando-se como uma roda-gigante. As equa-
ções levavam em conta a velocidade desse movimento e a transfe-
rência de calor. Os processos físicos influenciavam-se mutuamen-
te. Quando qualquer porção de fluido quente subia num movimento
circular, entrava em contato com o fluido mais frio e com isso co-
meçava a perder calor. Se o círculo girava com rapidez suficiente,
a bola de fluido não tinha perdido todo o seu calor extra no mo-
mento em que chegava ao alto, e começava a descer novamente pelo
outro lado da câmara, de modo que começava a pressionar contra
o impulso dó .outro fluido quente que vinha atrás dela.

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.....

'
11111

A RODA D'ÁGUA LORENZIANA. O primeiro e famoso sistema caótico des -


coberto por Edward Lorenz corresponde exatamente a um aparelho mecâni-
co, uma rodad'água. Esse aparelho simples mostra-se capaz de um ·c ompor
tam.ento surpreendentemente complicado.
A rotação da roda d'água tem certas propriedades em comum com os ci-
lindros rotativos de fluido no processo de convecção. A roda d'água é como um
corte no cilindro. Ambos os sistemas são impulsionados constantemente -
pela água ou pelo calor - e ambos dispersam energia. O fluido perde calor, as
palhetas da roda perdem água. Em ambos os sistemas, o comportamento a lon-
go prazo depende da força da energia propulsora.
A água cai do alto, num eseoamento constante. Se o fluxo da água for len-
to, a palheta ou caçamba do alto não se encherá nunca o suficientepara supe-
rar o atrito, e a roda nunca começará a girar. (Da mesma forma, num fluido
se o calor for demasiado baixo para superar a viscosidade, não movimentará
o fluido.)
Se o fluxo for mais rápido, o peso da palheta superior coloca a roda err•
movimento (esquerda). Arodad'água pode estabilizar-se numa rotação que con
tinua em ritmo constante (centro).
Se, porém, o fluxo for mais rápido ainda (direita), a rotação pode torna.
se caótica, em virtude dos efeitos não-lineares embutidos no sistema. Quar
do as palhetas passam sob o jorro d'água, as propol'QÕes em que se enchem dt
pendem da velocidade de rotação. Se esta for rápida, as palhetas têm pouco ten ·
po para se encherem. (Da mesma forma, o fluido no rolo de convecção que gi
ra rapidamente tem pouco tempo para absorver calor.) E ainda, se a roda esta
girando depressa, as palhetas podem começar a subir do outro lado antes dt<
se esvaziarem. Conseqüentemente, palhetas pesadas do lado que sobe podem
provocar diminuição da velocidade e inverter o movimento.
De fato, Lorenz descobriu que em períodos prolongados a rotação deve
reverter-se muitas vezes, sem se estabilizar nunca num ritmo constante, e sem
repetir nunca um padrão previsível.

Embora o sistema de Lorenz não reproduzisse totalmente a con-


vecção, tinha análogos exatos em sistemas reais. Por exemplo, suas
equações descrevem com precisão um velho dínamo elétrico; pre
cursor dos modernos geradores, no qual a corrente flui através de
um disco que gira num campo magnético. Em certas condições, o
dínamo pode reverter a si mesmo. E, depois que as equações de Lo-
renz se tornaram mais conhecidas, a.lguns cientistas afirmaram que

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. . .. ·.
O ATRATOR DE LORENZ (acima). Essa imagem mágica, que se assemelha
à máscara.de uma coruja ou às asas de uma borboleta, tornou-se um emble"
ma para os primeiros investigadores do caos. Revelava a estrutura fina ocul-
ta dentro de um fluxo desordenado de dados. Tradicionalmente, os valores os-
cilantes de qualquer variável podiam ser vistos na chamada série temporal (ao
alto), Para mostrar as mudanças de relações entre três variáveis é necessária
uma técnica diferente. Em qualquer instante do tempo, as três variáveis fixam
·a localização de um ponto no.espaço tridimensional; quando o sistema se mo-
difica, o movimento do ponto representa as variações que se modificam conti-
nuamente.
Como o sistema nunca se repete exatamente, a trajetória nunca se cru-
za. Em lugar disso, faz loop circulares. O movimento do atrator é abstrato, mas
transmite o sabor do movimento do sistema real. Fbr exemplo, o cruzamento
de uma asa do atrator para a outra corresponde a uma inversão na direção da
rotação da roda d 'água ou do fluido em convecção.

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comportamento desse dínamo poderia oferecer uma explicação
para outro fenômeno singular de reversão: o campo magnético da
terra. Sabe-se que o "geodínamo" inverteu-se muitas vezes ao lon-
go da história da terra, em intervalos que parecem irregulares e inex-
plicáveis. Frente a essa irregularidade, em geral os teóricos procu-
ram explicações fora do sistema, propondo causas como choques
de meteoritos. 24 Mas talvez o geodínamo tenha seu próprio caos.
Outro sistema descrito com precisão pelas equações de Lorenz
é um certo tipo de roda d 'água,25 engenho mecânico análogo ao
círculo rotativo da convecção. No alto, a água cai constantemente em
recipientes pendurados na estrutura da roda. Cada recipiente vaza
constantemente por um pequeno buraco. Se a corrente d'água for
lenta, o recipiente do alto nunca se enche com rapidez bastante pa-
ra superar o atrito, mas se for mais rápida, o peso começa a girar a
roda. A rotação pode tornar-se contínua. Ou , se a correnteza for tão
rápida que os recipientes pesados oscilem durante todo o percur-
so para baixo e comecem a subir do outro lado, a roda pode dimi-
- nuir de velocidade, parar e inverter sua rotação, girando primeiro
num sentido, depois no outro.
A intuição do físico em relação a um sistema mecânico sim-
ples assim-:- sua intuição pré-caos - lhe diz que a longo prazo, se
a corrente d'água nunca variar, surgirá uma condição estática. Ou
a roda girará com firmeza, ou oscilará com regularidade numa e em
outra direção, girando primeiro numa, depois na outra, em inter -
valos constantes. Lorenz constatou o inverso.
Três equações, com três variáveis, descreviam totalmente o mo-
vimento desse sistema. 26 O computador de Lorenz imprimiu os va-
lores instáveis das três variáveis: 0-10-0; 4-12-0; 9-20-0 ; 16-36-2 ;
30-66-7; 54-115-24; 93-192-74. Os três números subiam e desciam
enquanto intervalos imaginários de tempo passavam, cinco inter-
valos, cem intervalos, mil.
Para formar um quadro dos dados, Lorenz usou cada grupo de
três números como coordenadas para especificar a localização de
um ponto no espaço tridimensional. Assim, a seqüência de núme-
ros produziu uma seqüência de pontos que traçavam uma linha con-
tínua, um registro do comportamento do sistema. Essa linha podia
levar a determinado lugar e parar, significando que o sistema se fi-
xara num regime constante, no qual as variáveis da velocidade e tem-
peratura já não mudavam . Ou podia formar ui:n loop, indo sempre
em círculo, significando isso que o sistema se fixara num padrão de
comportamento que se repetiria periodicamente.
O sistema de Lorenz não fez nenhuma das duas coisas. Em lu-
gar delas, o mapa mostrou uma espécie de complexidade infinita.
Ficava sempre dentro de certos limites, nunca saindo da página, mas

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também nunca se repetindo. Traçava uma forma estranha, caracte-
rística, uma espécie de espiral dupla em três dimensões, como uma
borboleta com as duas asas. A forma assinalava a desordem pura,
já que nenhum ponto ou padrão de pontos jamais se repetiu . Não
obstante, também assinalava um novo tipo de ordem.

Anos depois, os físicos tinham olhares brilhantes ao falar do


trabalho de Lorenz sobre essas equações - "aquela bela maravilha
de trabalho''.Já então falava-se dele como se fosse um pergaminho
antigo, guardando segredos da eternidade. Nos milhares de artigos
que constituíam a bibliografia técnica do caos, poucos eram mais
citados do que "Fluxo Determinista Não-periódico". Durante anos,
nenhum objeto isolado inspiraria mais ilustrações, até mesmo fil-
mes, do que a misteriosa curva traçada ao final , a dupla espiral que
se tornou conhecida como o atrator de Lorenz. Pela primeira vez,
as imagens de lDrenz mostravam o que ele queria dizer: "Isso é com-
plicado". Toda a riqueza do caos encontrava-se ali.
Na época, porém, poucos a conseguiam ver. 1.orenz descreveu-
ª a Willem Malkus, professor de rrl.atemática aplicada no M.I.T., um
cientista cavalheiresco com grande capacidade de apreciar o traba-
lho dos colegas. Malkus riu e disse: ''Ed, nós sabemos - sabemos mui-
to bem - que a convecção dos fluidos não se comporta assim." 27 A
complexidade seria certamente eliminada, disse Malkus, e o sistema
se fixaria em movimento constante, regular. _
" É claro que não percebemos do que se tratava", disse Malkus,
uma geração depois - anos depois de ter construído uma roda
d'água lorenziana real em seu laboratório no porão para mostrar aos
descrentes . "Ed não estava pensando absolutamente em termos de
nossa física. Pensava em termos de algum modelo genr~lizado ou
abstrato que evidenciava um comportamento que ele, intuitivamen-
te, sentia ser característico de alguns aspectos do mundo exterior.
Ele, porém, não nos podia dizer bem isso. Só depois do fato consu-
mado é que percebemos que devia ter essas opiniões."
Poucos leigos percebiam o quão departamentalizada a comu-
nidade científica se tinha tornado, um navio de guerra com ante-
paras para evitar vazamentos. Os biólogos tinham muito o que ler
sem procurar acompanhar a bibliografia da matemática - e até mes-
mo os biólogos moleculares tinham muito o que ler sem se preo-
cupar com a biologia populacional. Os fisicos tinham melhores ma-
neiras de empregar seu tempo do que folhear revistas de meteoro-
logia. Alguns matemáticos se teriam entusiasmado com a descoberta
de 1.orenz; em uma década, físicos, astrônomos e biólogos estavam
procurando alguma coisa semelhante a ela, e por vezes
redescobrindo-a sozinhos. Mas 1.orenz era um meteorologista, e nin-

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guém pensou em procurar o caos na página 130 do volume 20 do
journal of the Atmospheric Sciences. 28

Notas
1 - Lorenz, Malkus, Spiegel, Farmer. O Lorenz essencial é um tríptico de artigos
cuja peça central é "Deterministic Nonperiodic Flow '', ]ournal of the At-
mospheric Sciences, 20 (1963), pp. 130-41; ao lado dele estão "The Mechan-
ics ofVacillation",]ourna/ of the Atmospheric Sciences, 20 (1963 ), pp. 448-64,
e "The Problem of Deducing the Clima te from the Governing Equations ", Tel-
lus, 16 (1964), pp. 1-11 . Constituem um trabalho enganosamente elegante, que
continua a influenciar matemáticos e físicos, 20 anos depois. Algumas das re-
cordações pessoais de Lorenz sobre seu primeiro modelo de computador da
atmosfera encontram-se em "On the Preva!ence of Aperiodicity in Simple Sys-
tems", em Global Analysis, Mgrmela e]. Marsden, orgs. (Nova York, Springer-
Verlag, 1979), pp-53-75.
2 - Uma descrição contemporânea legível, escrita por Lorenz, do problema do
uso de equações para criar modelos da atmosfera é "Large-Scale Motions of
the Atmosphere: Circ.ulation'', emAdvances in Earth Science, P.M. Hurley, org.
(Cambridge, Mass., The M.I.T. Press, 1966), pp. 95-109. Uma análise mais an-
tiga, e influente, desse problema é L.F. Richardson, WeatherPrediction by Nu-
merical Process (Cambridge, Cambridge University Press, 1922).
3 - Lorenz. Ver também uma exposição das tendências conflitantes da matemá-
tica e meteorologia em seu pensamento, em "Irregularity: A Fundamental
Property of the Atmosphere", Crafoord Prize Lecture apresentada na Real Aca-
demia Sueca de Ciências, em Estocolmo, a 28 de setembro de 1983, em Tel-
lus, 36-A (1984), pp. 98-110.
4 - Pierre Simon de Laplace, A Philosophical Essay onProbabilities (Nova York,
Dover, 1951). ·
5 - Winfree.
6 -·Lorenz.
7 - "On the Prevalence'', p. 55 .
8 - De todos os físicos e matemáticos clássicos que se ocuparam dos sistemas di-
nâmicos, o que melhor compreendeu a possibilidade do caos foi Jules Henri
Poincaré. Ele observou em Ciência e Método : "Uma causa muito pequena,
que nos passa despercebida, determina um efeito considerável que não po-
demos deixar de ver, e entãà dizemos que o efeito é devido ao acaso. Se co-
nhecêssemos exatamente as leis da natureza e a situação do universo no mo-
mento inicial, poderíamos prever exatamente a situação desse mesmo universo
no momento seguinte. Contudo, mesmo que as leis naturais já não tivessem
segredos para nós, ainda assim poderíamos conhecer a situação aproxima-
damente. Se isso nos permitisse prever a situação seguinte com a mesma apro-
ximação, seria tudo o que precisaríamos, e diríamos que o fenômeno tinha
sido previsto, que é governado por leis. Mas nem sempre é assim; pode acon-
tecer que pequenas diferenças nas condições iniciais produzam diferenças
muito grandes nos fenômenos finais . Um pequeno erro nas primeiras produ-

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zirá um erro enorme nas últimas. A previsão torna-se impossível. .." A adver-
tência de Poincaré, feita na passagem do século, foi praticamente esquecida;
nos.Estados Unidos, o único matemático a seguir seriamente a observação de
Poincaré, nas décadas de 20 e 30, foi George D. Birkhoff, professor do jovem
Edward Lorenz no M.I.T., por um breve período.
9 - Lorenz; ver também "On the Prevalence", p. 56.
10 - Lorenz.
11 - Woods, Schneider; um amplo levantamento da opinião especializada na época
é "Weather Scientists Optimistic That New Findings are Near", The New York
Times, 9 de setembro de 1963, p. 1.
12 - Dyson.
13 - Bonner, Bengtsson, Woods, Leith.
14 - Peter B. Medawar, "Expectation and Prediction" emPlato 's Republic (Oxford,
Oxford University Press, 1982), pp. 301-4.
15 - Lorenz usou originalmente a imagem de uma gaivota; o nome mais duradou-
ro parece ter vindo de seu trabalho "Predictability: Does the Flap of a Butter-
fly's Wings in Brazil Set Off a Tornado in Texas? ", conferência na reunião anual
da Sociedade Americana para o Progresso da Ciência, em Washington, a 29
de dezembro de 1979.
16 - Yorke.
17 - Lorenz, White.
18 - "The Mechanics of Vacillation".
19 - George Herbert; citado neste contexto por Norbert Wiener, ''Nonlinear
Prediction and Dynamics", em Collected Works with Commentaries, P. Masani,
org. (Cambridge, Mass., The M.l.T. Press, 1981), 3:3 71. Wiener foi precursor
de Lorenzao perceber pelo menos a possibilidade de "auto-amplitude de pe-
quenos detalhes do mapa meteorológico''. Ele observou: " Um furacão é um
fenômeno extremamente locai, e detalhes aparentemente sem grande importância
podem determinar seu caminho exato."
20 - John von Neumann, "Recent Theories of Turbulence" (1949) em Collected
Works, A.H. Taub, org. (Oxford, Pergamon Press, 1963), 6:43 7.
21 - "The Predictability ofhydr.odynamic flow'', em Transactions of the New York
Academyof Sciences, II, 25:4 (1963), p. 409-32.
22 - lbid., p. 410.
23 - Essa série de sete equações para servir de modelo da convecção foi idealiza-
da por Barry Saltzman da Universidade de Yale, a quem Lorenz estava visitan-
do. Em geral as equações de Saltzman comportavam-se com periodicidade,
mas uma versão "recusou-se a fixar-se'', como disse Lorenz, que compreen-
deu·que durante esse comportamento caótico quatro das variáveis se estavam
aproximando de zero - e por isso podiam ser desprezadas. Barry Saltzman,
"Finite Amplitude Convection as an Initial Value Problem",joumal of the At-
mospheric. Sciences, 19 (1962), p. 329.
24 - Malkus; a visão que tem o caos dos campos magnéticos da terra ainda é aca-
loradamente debatida, com alguns cientistas procurando outras explicações,
externas, tais como golpes de enormes meteoritos. Uma exposição mais anti-
ga da idéia de que as inversões vêm do caos presente no sistema encontra-se
em K.A . Robbins, ''A moment equation description of magnetic reversais in

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the earth", Proceedings of the National Academy of Science, 73 (1976), pp.
4297-4301.
25 - Malkus.
26 - Esse modelo clássico, comumente chamado de sistema de Lorenz, é:
dx/dt = lO(y-x)
dy/dt = xz + 28x-y
dz/dt = xy - (8/3 )z.
Desde seu aparecimento em "Fluxo Determinista Não-periódico", o sistema
tem sido muito analisado; um abalizado volume técnico é Colin Sparrow, The
Loren.z Equations, Bifurcations, Chaos and Strange Attractors (Springer-
Verlag, 1982).
27 - Malkus, Lorenz.
28 - "Fluxo Determinista Não-periódico" foi citado cerca de uma vez por ano em
meados da década de 60 pela comunidade científica; duas décadas depois,
era citado mais de cem vezes por ano.

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Revolução
Decerto, todo o empenho é para nos colocarmos
Fbra do âmbito usual
Daquilo que chamam de estatística.
- STEPHEN SPENDER

O historiador da ciência Thomas S. Kuhn 1 descreve uma


perturbadora experiência realizada por uma dupla de psi-
cólogos na década de 40. Mostravam-se rapidamente aos
pacientes cartas de baralho, uma de cada vez, pedindo-lhes que as
identificassem. Havia, é claro, um estratagema. Algumas das cartas
eram anormais: por exemplo, havia um seis de espadas vermelho
ou uma dama de ouros preta.
Com a rapidez, os pacientes enganavam-se facilmente. Nada
podia ser mais simples. Eles não percebiam as anomalias. Quando
um seis de espadas vermelho lhes era mostrado, diziam "seis de co-
pas" ou "seis de espadas". Quando, porém, as cartas eram mostra-
das por mais tempo, os pacientes começavam a hesitar. Tornavam-
se conscientes de um problema, sem ter certeza de qual era. Um pa-
ciente podia dizer que alguma coisa lhe parecia estranha, como uma
margem vermelha em volta de um coração preto.
Por fim , quando o ritmo era ainda mais lento, a maioria dos
pacientes se dava conta do que acontecia. Viam as cartas erradas
e faziam a necessária transferência mental para não errar no jogo.
Nem todos, porém. Alguns experimentavam uma sensação de de-
sorientação que provocava um sofrimento verdadeiro. "Não con-
sigo identificar esse naipe, qualquer que seja'', disse um deles. ''Nem
sequer parecia uma carta de baralho, desta vez. Não sei agora de que
cor é, nem se é espadas ou copas. Não tenho nem mesmo a certeza
de como são as espadas. Meu Deus!" 2

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Ao terem visões breves e incertas do funcionamento da natu-
reza, 6s cientistas profissionais não são menos vulneráveis à angústia
e à confusão quando se vêem frente afrente com a incongruidade.
E a incongruidade, quando modifica a maneira como o dentista vê,
torna possíveis os avar:iços mais importantes. É o que diz Kuhn, e
o que mostra a história do caos.
As idéias de Kuhn sobre a maneira como os cientistas traba-
lham e as revoluções ocorrem provocou tanto hostilidade quanto
admiração, ao serem publicadas em 1962, e a controvérsia não se
encerrou nunca. Ele deu uma boa alfinetada na idéia tradicional de
que a ciência progride pela acumulação de conhecimento, somando-
se cada descoberta à anterior, e que as novas teorias surgem quan-
do novos fatos experimentais as exigem. Ele esvaziou o conceito
da ciência como um processo ordenado de fazer perguntas e en-
contrar as respostas. Enfatizou o contraste entre a maior parte da-
quilo que os cientistas fazem, trabalhando com problemas legíti-
mos, bem compreendidos, dentro de suas disciplinas, e o trabalho
excepcional, não-ortodoxo, que cria as revoluções. Não foi por acaso
que ele fez os cientistas se parecerem a raéionalistas nada perfeitos.
Na visão de Kuhn, a ciência normal consiste, em grande parte,
em operações de limpeza.3 Experimentalistas realizam versões mo-
dificadas de experiências feitas muitas vezes antes. 4 Os teóricos
acrescentam um tijolo aqui, refazem uma cornija ali, num muro de
teoria. Dificilmente poderia ser de outro modo. Se todos os cien-
tistas tivessem de começar do começo, questionando pressupos-
tos fundamentais, teriam dificuldades em atingir o nível de sofisti-
cação técnica necessario à realização de trabalho útil. Na época de
Benjamin Franklin, o punhado de cientistas que tentavam com-
preender a eletricidade podiam escolher os seus princípios iniciais
- na verdade, tinham de escolhê-los. 5 Um pesquisador podia jul-
gar a atração o mais importante efeito elétrico, considerando a ele-
tricidade uma espécie de "eflúvio" que emanava das substâncias.
Outro poderia vê-la como um fluido, transmitido por material con-
dutor. Esses cientistas podiam falar com os leigos quase que com
a mesma facilidade com que conversavam entre sim, porque ainda
rião tinham chegado à fase na qual podiam ter umaJinguagem espe-
cializada, comum, para os fenômenos que estudavam. Erri contraste,
um especialista do século XX na dinâmica dos fluidos dificilmente
pode pretender um avanço no conhecimento de seu campo sem
adotar primeiro uma terminologia e uma técnica matemática. Em
troca disso; ele estará, inconscientemente, abrindo mão de uma gran-
de margem de liberdade de questionar as bases de sua ciência.
De importância capital para as idéias de Kuhn é a visão da ciên-
cia normal como a soluç:fo de problemas, dos tipos de problemas

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que os estudantes aprendem da primeira vez que abrem seus ma-
nuais. Esses problemas definem um estilo consolidado de realiza-
ção que conduz a maioria dos cientistas em seus cursos superiores,
em sua tese e no preparo de artigos para revistas que constituem
a essência de suas carreiras acadêmicas. "Em condições normais,
o cientista pesquisador não é um inovador, mas um solucionador
de problemas, e os problemas nos quais se concentra são exatamente
aqueles que lhe parecem poder ser formulados e resolvidos den-
tro da tradição científica existente", escreveu Kuhn. 6
Mas há as revoluções. Uma nova ciência nasce de uma outra,.
que chegou a um ponto morto. Com freqüência, uma revolução tem
um caráter interdisciplinar - suas descobertas principais vêm, mui-
tas vezes, de pessoas que se aventuraram fora dos limites normais
de suas especialidades. Os problemas que preocupam esses teóri-
cos não são considerados linhas de investigação legítimas. Propostas
de teses são rejeitadas, e artigos não são publicados. Os próprios
teóricos não têm certeza de que identificariam a solução, se a en-
contrassem. Aceitam colocar em risco as suas carreiras. Uns pou-
cos livres-pensadores trabalham sozinhos, incapazes de explicar para
onde vão, receosos até mesmo de dizer aos colegas o que estão fa-
zendo - essa imagem romântica está no centro do esquema de
Kuhn, e tem ocorrido na vida real, repetidamente, na investigação
do caos.
Todo cientista que se voltou cedo para o caos tem uma histó-
ria de desestímulo, ou de hostilidade clara, para contar. Alunos de
pós-graduação foram advertidos de que suas carreiras podiam ser
prejudicadas se escrevessem teses sobre uma disciplina desconhe-
cida na qual seus orien.t adores não tinham especialização. Ao ou-
vir falar na nova matemática, um físico de partículas7 poderia co-
meçar a estudá-la por conta própria, julgando-a bela, ao mesmo tem-
po bela e difícil - mas sentiria que jamais poderia contar isso aos
seus colegas. Professores mais velhos achavam que estavam passan-
do por uma espécie de crise de meia-idade, apostando numa linha
de pesquisa que muitos colegas poderiam nãó compreender, ou da
qual se poderiam ressentir. Mas também sentiam uma animação in-
telectual que vem das coisas realmente novas. Até mesmo os leigos
sentiam isso, o.s que estavam interessados nisso. Para Freeman
Dyson, do Instituto de Estudos Avançados, a infonn,ação sobre o
caos foi "como um choque elétrico" na década de 70. Outros sen-
tiram que pela primeira vez em suas vidas profissionais estavam tes-
temunhando uma verdadeira mudança de paradigma, umà trans-
formação de uma maneira de pensar.
Os que perceberam o caos logo de início sofreram, sem saber
como colocar seus pensamentos e suas descobertas em forma pu-

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blicável. Seu trabalho situava-se entre disciplinas ..:__ por exemplo,
era demasiado abstrato para os físicos, porém, demasiado experi-
mental para os matemáticos. Para alguns, a dificuldade de comuni-
car as novas idéias e a feroz resistência dos círculos tradicionais mos-
. trou como era revolucionária à nova ciência. Idéias superficiais po-
dem ser assimiladas; idéias que exigem uma reorganização da ima-
gem que se faz do mundo provocam hostilidade. Um físico do Ins-
tituto de Tecnologia da Geórgia, Joseph Ford, começou citando Tols-
toi: "Eu sei que a maioria dos homens, inclusive os que se sentem
à vontade com problemas da maior complexidade, raramente po-
dem aceitar até mesmo a mais simples e óbvia verdade, se for de mol-
de a obrigá-los a admitir a falsidade de conclusões que tiveram gran-
de prazer em explicar aos colegas, que orgulhosamente ensinaram
a outros e que adotaram, ponto por ponto, como parte de suas pró-
prias vidas." 8
Muitos cientistas, que se mantinham na corrente p rincipal da
ciência, continuaram tendo apenas uma vaga idéia da ciência que
surgia. Alguns deles, em especial os especialistas na dinâmica de flui-
dos tradicional, ressentiram-se ativamente da inovação. A princípio,
as alegações feitas em favor do caos pareciam insensatas e nada cien-
tíficas. E o caos valia-se de uma matemática que parecia inconven-
cional e difícil.
Quando os especialistas em caos se generalizaram, alguns de-
partamentos de universidades não viram com bons olhos esses es-
tudiosos um tanto desencaminhados; outros, procuraram mais es-
pecialistas em caos. Algumas publicações criaram regras tácitas con-
tra artigos sobre o caos; outras passaram a publicar exclusivamen-
te trabalhos sobre ele. Os caoticistas ou caologistas (esses neologis-
mos eram ouvidos)9 começaram a surgir com desproporcional fre-
qüência nas listas anuais de bolsas e prêmios importantes. Em mea-
dos da década de 80 um processo de difusão acadêmica tinha leva-
do os especialistas em caos a posições de influência nas buroc.ra-
cias universitárias. Centros e institutos foram fundados para
especializar-se na "dinâmica não-linear" e nos "sistemas complexos".
O caos tornou-se não apenas teoria, mas também método; não
apenas um cânone de crenças, mas também uma maneira de fazer
ciência. O caos criou sua técnica própria de usar computadores, téc-
nica que não exige a enorme velocidade dos Crays e Cybers, mas
até favorece terminais modestos que permitem interação flexível.
Para os pesquisadores do caos, a matemática tornou-se uma ciên-
cia experimental, com o computador substituindo os laboratórios
cheios de tubos de ensaio e microscópios. Imagens gráficas são a
chave. "É masoquismo um matemático prescindir de imagens'', di-
ria um especialista em caos. '' Como podem eles ver a relação entre

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este e aquele movimento? Como podem desenvolver a intui-
ção?''10 Alguns realizam seu trabalho negando explicitamente que
seja uma revolução; outros, deliberadamente, usam a linguagem de
Kuhn, de mudanças de paradigmas para descrever as modificações
que testemunham.
Estilisticamente, os primeiros trabalhos de caos lembravam a
era de Benjamin Franklin, porque voltavam aos princípios básicos.
Como observa Kuhn, as ciências tradicionais têm como certo um
corpo de conhecimento que serve de ponto de partida comum pa-
ra as investigações. Para não aborrecer os colegas, os cientistas co-
meçam e terminam habitualmente os seus trabalhos com observa-
ções esotéricas. Em contraste, os artigos sobre o caos, a partir de
fins da década de 70, pareciam evangélicos, desde o preâmbulo até
a peroração. Declaravam novos credos e com freqüência termina-
vam com pedidos de ação. Estes resultados parecem-nos ao mes-
mo tempo entusiasmantes e altamente provocativos. 11 Uma ima-
gem teórica da transição para a turbulência está apenas come-
çando a surgir. O coração do caos é matematicamente acessí-
vel. 12 O caos pressagia agora o futuro como ninguém negará. 13
Mas, para aceitar o futuro, devemos renunciar a grande parte do
passado.
Novas esperanças, novos estilos e, o que é mais importante, uma
nova maneira de ver. As revoluções não ocorrem aos poucos. 14
Uma explicação da natureza substitui outra. Velhos problemas são
vistos sob uma luz nova e outros problemas são identificados pela
primeira vez. Ocorre algo semelhante à reformulação das ferramen-
tas de toda uma indústria para uma nova produção. Nas palavras de
Kuhn, "É antes como se a comunidade profissional tivesse sido su-
bitamente transportada para outro planeta, onde os objetos fami-
liares são vistos sob uma luz diferente e ao lado de outros,
não-familiares." 15

o camundongo de faboratório da nova ciência foi o pêndulo:


emblema da mecânica clássica, exemplo de ação forçada, epítome da
regularidade mecânica. Um peso oscila, livre, na ponta de uma haste.
O que poderia estar mais longe do descontrole da turbulência?
Quando Arquimedes teve a sua tina de banho e Newton a sua
maçã, segundo a lenda comum e suspeita, Galileu teve uma lâmpa-
da de igreja, que oscilava de um lado para outro, repetidamente, sem-
pre, enviando uma mensagem monótona para a sua consciência.16
Christian Huygens transformou a previsibilidade do pêndulo num
meio de contar o tempo, lançando a civilização ocidental por uma
estrada da qual não havia retorno. Foucault, no Panteão de Paris, usou
um pêndulo da altura de vinte andares para demonstrar a rotação

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da terra. Todos os re-lógios, mesmo os de pulso (até a era do quart-
zo vibratório), valiam-se de um pêndulo; de diferentes tamanhos
ou formas. (1\ oscilação do quartzo não é, quanto a isso, muito dife-
rente.) No espaço, livre de atrito, o movimento periódico vem das
órbitas dos corpos celestes, mas na terra praticamente todas as os-
cilações regulares vêm de algum primo do pêndulo. Circuitos ele-
trônicos básicos são descritos por equações exatamente iguais às
que descrevem o peso oscilante. As oscilações eletrônicas são mi-
lhares de vezes mais rápidas, mas a física é a mesma. No século XX,
porém, a mecânica clássica era um assunto estritamente para salas
de aula e projetos rotineiros de engenharia. Pêndulos enfeitavam
os museus de ciência, tornavam mais animadas as lojas de presen-
tes nos aeroportos, na forma de "bolas espaciais" rotativas, de plás-
tico. Nenhum físico pesquisador se preocupava com eles.
Não obstante, o pêndulo ainda encerrava surpresas. Tornou-
se uma pedra de toque, como havia sido para a revolução de Gali-
leu. Quando Aristóteles olhou para um pêndulo, 17 viu um peso
tentando cair em direção à terra, mas oscilando violentamente de
um lado para outro porque estava preso ao seu fio. Para o ouvido
moderno, isso parece tolice. Para alguém limitado pelos conceitos
clássicos de movimento, inércia e gravidade, é difícil apreciar a vi-
são do mundo, coerente consigo mesma, que estava encerrada na
compreensão aristotélica do pêndulo. O movimento fisico, para Aris-
tóteles, não era uma quantidade ou uma força, mas uma espéeie de
modificação, assim como o crescimento de uma pessoa é uma es-
pécie de modificação. O peso que cai está simplesmente buscando
o seu estado mais natural, aquele que atingirá se entregue a si mes-
mo. Nesse contexto, a opinião de Aristóteles tinha sentido. Por ou-
tro lado, quando Galileu olhava para um pêndulo, via uma regula-
ridade que podia ser medida. Sua explicação exigia uma compreen-
são revolucionária dos objetos em movimento. A vantagem de Ga-
lileu sobre os gregos antigos não eram os dados melhores. Pelo con-
trário, sua idéia de medir com precisão os movimentos do pêndu-
lo era reunir alguns amigos para contar as oscilações num período
de 24 horas - uma experiência que exigia muito trabalho. Galileu
via a regularidade porque já tinha uma teoria que a previa. Com-
preendia o que Aristóteles não podia compreender: que um obje-
to em movimento tende a manter esse movimento, que uina modi-
ficação de velocidade ou direção só podia ser explicada por algu-
ma força externa, como o atrito.
De fato, tão vigorosa era a sua teoria que ele via regularidade
onde esta não existia. Afirmou que um pêndulo de determinado
comprimento não só faz seus movimentos com absoluta precisão
de tempo, como também mantém esse tempo, qualquer que seja

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a extensão do ângulo de oscilação. um pêndulo de oscilação mais
ampla tem de percorrer maior distância, mas o faz com mais rapi-
dez. Em outras palavras, seu período permanece independente de
sua amplitude. "Se dois amigos se puserem a contar as oscilações,
um contando as mais amplas e outro as curtas, verão que podem
contar não apenas dezenas, mas até mesmo centenas, sem discor-
dar numa única, ou em parte de uma." 18 Galileu expôs sua idéia em
termos de experimentação, mas a teoria a tornou convincente -
a ponto de ser ainda ensinada como um evangelho na maioria dos
cursos de física das escolas secundárias. Mas está errada. A regula-
ridade vista por Galileu é apenas uma aproximação. A variação do
ângulo do movimento do peso do pêndulo cria uma leve não-
linearidade nas equações. Em baixas amplitudes de oscilação, o er-
ro é quase inexistente. Mas existe, e é mensurável até mesmo numa
experiência tão grosseira quanto a que Galileu descreve.
As pequenas não-linearidades eram facilmente ignoradas.
Quem realiza experiências aprende logo que vive num mundo im-
perfeito. Nos séculos decorridos desde Galileu e Newton, a busca
de regularidade na experimentação tem sido fundamental. Qual-
quer experimentalista procura quantidades que permaneçam está-
veis, ou quantidades que sejam zero. Mas isso significa não levar em
conta pequenas irregularidades que interferem numa imagem fixa.
Se um químico verifica que duas substâncias mantêm uma propor-
ção constante de 2,001 num dia, e 2,003 no dia seguinte, e 1,998
num terceiro dia, seria um tolo se não procurasse uma teoria para
explicar uma proporção perfeita de dois para um.
Para conseguir resultados fixos, Galileu teve também de colo-
car de lado as não-linearidades que conhecia: atrito e resistência do
ar. A resistência do ar é um problema conhecido nas experiências,
uma complicação que tinha de ser afastada para se chegar à essên-
cia da nova ciência da mecânica. Cai a pena tão depressa quanto a
pedra? Todas as experiências com objetos em queda dizem que não.
A história de Galileu jogar bolas do alto da torre de Pisa, como mi-
to, é uma história sobre a modificação das intuições com a inven-
ção de um mundo científico ideal, onde as regularidades podem
ser separadas da desordem da experiência.
Isolar os efeitos da gravidade sobre determinada massa dos efei-
tos da resistência do ar foi uma brilhante realização intelectual. Per-
mitiu a Galileu aproximar-se da essência da inércia e do momen-
tum. Ainda assim, no mundo real, os pêndulos acabam fazendo exa- ·
tamente o que o estranho paradigma de Aristóteles previa. Eles
param.
Ao lançar as bases para a modificação de paradigma seguinte,
os físicos começaram a enfrentar o que muitos acreditavam ser uma

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deficiência em seus conhecimentos dos sistemas simples, como o
pêndulo. Em nosso século, processos dispersivos como o atrito fo-
ram identificados, e os estudantes aprenderam a incluí-los nas equa-
ções. Aprenderam também que os sistemas não-lineares eram ha-
bitualmente insolúveis, o que era verdade, e que tendiam a consti-
tuir exceções - o que não era verdade. A mecânica clássica descrevia
o comportamento de classes inteiras de objetos móveis, pêndulos
e pêndulos duplos, molas espirais e hastes recurvadas, cordas to-
cadas com os dedos e cordas de arcos. A matemática aplicava-se aos
fluidos e aos sistemas elétricos. Mas quase ninguém, na era clássi-
ca, suspeitou o caos que podfa ser encontrado por trás dos siste-
mas dinâmicos, se a não-linearidade fosse levada em conta.
O físico não podia compreender realmente a turbulência ou
a complexidade, a não ser que compreendesse os pêndulos - e os
compreendesse de uma maneira que era impossível na primeira me-
tade do século XX . Quando o caos começou a unir o estudo de di-
ferentes sistemas, a dinâmica do pêndulo ampliou-se, passando a
cobrir altas tecnologias, que iam dos lasers às junções supercon-
dutoras Josephson. Algumas reações químicas exibiam um compor-
tamento semelhante ao pêndulo, como aconteeia com o pulsar do
coração. As inesperadas possibilidades estenderam-se, como escre-
veu um físico, à ''medicina fisiológica e psiquiátrica, à previsão eco-
nômica e talvez à evolução da sociedade". 19
Observemos um balanço de criança. O balanço acelera quan- .
do desce, desacelera quando sobe, perdendo em todo o trajeto um
pouco de velocidade em virtude do atrito. Recebe um impulso re-
gular - de algum mecanismo, digamos. Toda a nossa intuição nos
diz que, qualquer que seja o lugar por onde o balanço comece, to-
do o movimento acabará por chegar a um padrão regular, de um
lado para outro, com o balanço atingindo a mesma altura, a cada
vez. Isso pode acontecer. 20 Mas, por estranho que pareça, o movi-
mento também pode tornar-se incerto, primeiro alto, depois baixo,
sem seguir nunca um padrão constante e sem repetir nunca exata-
mente o mesmo padrão de oscilações. 21
O comportamento surpreendente, irregular, vem de um des-
vio não-linear no fluxo de energia, tanto para o balanço como do
balanço, que é um oscilador simples. O balanço é amortecido e im-
pulsionado: amortecido porque o atrito tenta pará-lo, impulsiona-
do porque recebe um impulso periódico. Mesmo quando um sis-
tema amortecido e impulsionado está em equilíbrio, ele não está
em equilíbrio, e o mundo está cheio desses sistemas, a começar pelas
condições atmosféricas, amortecidas pelo atrito do ar e da água em
movimento e pela dissipação do calor no espaço exterior, e impul-
sionadas pela pressão constante da energia solar.

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A imprevisibilidade, porém, não foi a razão pela qual físicos
e matemáticos começaram a levar os pêndulos novamente a sério
nas décadas de 60 e 70. Ela foi apenas o chamariz da atenção. Os
estudiosos da dinâmica caótica descobriram que o comportamen-
to irregular de sistemas simples agia como um processo criativo.
Gerava complexidade: padrões de organização variada, por vezes
estáveis e por vezes instáveis, por vezes finitos e por vezes infinitos,
mas sempre com o fascínio das coisas vivas. Era por isso que os cien-
tistas brincavam com brinquedos.
Um desses brinquedos, vendido sob o nome de "Bolas Espa
ciais ", ou "Trapézio Espacial", é um par de bolas nas pontas de uma
haste, colocada como barra transversal do T no alto de um pêndu-
lo, com uma terceira bola, mais pesada, na base.22 Esta última os-
cila de um lado para outro, enquanto a barra transversal gira livre ·
mente. Todas as três bolas têm pequenos ímãs dentro, e quando acio-
nado, o aparelho mantém-se em movimento porque tem um ele-
troímã a pilhas em sua base. Esse ímã sente a aproximação da bola
inferior e dá-lhe um pequeno impulso magnético quando ela pas-
sa. Por vezes o aparelho adquire uma oscilação rítmica, constante.
Em outras ocasiões, porém, seu movimento parece caótico, sem-
pre variado e sempre surpreendente.
Outro brinquedo comum feito com o pêndulo é chamado pên-
dulo esférico - um pêndulo que pode oscilar não apenas com o
movimento de vai-e-vem, mas em qualquer direção. Pequenos ímãs
são colocados na sua base; eles atraem o peso de metal, e quando
o pêndulo parar, terá sido dominado por um dos ímãs. A idéia é co-
locar o pêndulo num movimento oscilatório e adivinhar que ímã
ganhará. Nem mesmo com apenas três ímãs colocados num triân-
gulo, o movimento do pêndulo pode ser previsto. Ele oscilará de
um lado para outro entre A e B por algum tempo, depois passará
a oscilar entre B e C e, quando parece que se decidirá por C, volta
novamente a A. Suponhamos que um cientista explore sistemati-
camente o comportamento desse brinquedo fazendo um mapa, co-
mo se segue: escolhe um ponto de partida; coloca o peso do pên-
dulo ali e o solta; marca esse ponto de vermelho, azul ou verde, de-
pendendo do ímã que acaba atraindo .o ·peso. Que aspecto terá o
mapa? Terá regiões só de vermelho, azul, ou verde, como se pode-
ria esperar - regiões de onde o peso oscilará seguramente para de-
terminado ímã. Mas também pode ter regiões nas quais as cores es-
tarão misturadas, numa infinita complexidade.Junto a um ponto ver-
melho, por mais de perto que examinemos, e por mais que amplie-
mos o mapa, haverá pontos verdes e azuis. Para todas as finalida-
des práticas, será impossível prever o destino do peso do pêndulo.

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Tradicionalmente, os especialistas em dinâmica acreditam que
escrever as equações de um sistema é compreendê-lo. Haveria me-
lhor maneira de capturar-lhe os aspectos essenciais? Em relação ao
balanço ou a um brinquedo, as equações reúnem o ângulo, a velo-
cidade, o atrito e a força que impulsiona o pêndulo. Mas, em virtu-
de das pequenas não-linearidades dessas equações, os especialis-
tas se veriam incapazes de responder às mais fáceis perguntas prá-
ticas sobre o futuro do sistema. Um computador pode ocupar-se
do problema simulando-o e calculando rapidamente cada ciclo. A
simulação, porém, encerra problemas próprios: a minúscula impre-
cisão intrínseca a cada cálculo cresce rapidamente, porque se trata
de um sistema com uma dependência sensível das condições ini-
ciais. Em pouco tempo, o sinal desaparece e tudo o que resta é o
barulho.
Mas será mesmo? I..orenz descobriu a imprevisibilidade, mas
também descobriu padrões. Outros descobriram sugestões de es-
truturas em meio a comportamentos aparentemente aleatórios. O
exemplo do pêndulo era demasiado simples e podia ser ignorado;
mas os que preferiram não ignorá-lo descobriram uma mensagem
estimulante. Perceberam que num certo sentido a fisica compreendia
perfeitamente os mecanismos fundamentais do movimento pendu-
lar, mas não podia estender essa compreensão aos prazos longos.
As peças microscópicas eram perfeitamente claras; o comportamen-
to macroscópico permanecia um mistério. A tradição de examinar .
os sistemas localmente - de isolar os mecanismos para depois somá- .
los - estava começando a desmoronar. Para os pêndulos, para os
fluidos, para os circuitos eletrônicos, para os lasers, o conhecimento
das equações fundamentais já não parecia ser o tipo de conhecimen-
to adequado.
No decorrer da década de 60, cientistas fizeram, individual-
mente, descobertas que se comparavam às de I..orenz: um astrôno-
mo francês 2 3 ao estudar as órbitas galácticas, por exemplo, e um
engenheiro eletricista japonês 24 ao criar modelos de circuitos eletrô-
nicos. Mas a primeira tentativa deliberada, coordenada, de com-
preender como o comportamento global podia diferir do compor-
tamento local foi feita por matemáticos. Entre eles estavam Stephen
Smale, da Universidade da Califórnia em Berkeley, já famoso pordes-
lindar os mais esotéricos problemas da topologia multidimensio-
. nal. Um jovem físico, 2 s para entabular conversa, perguntou a Smale
em que ele estava trabalhando. A resposta o espantou: "Oscilado-
res". Era absurdo. Osciladores: pêndulos, molas ou circuitos elétricos
- eram problemas que o físico liquidava logo no início de seus es-
tudos. Eram fáceis. Por que um grande matemático estaria estudando
física elementar? Só anos depo is o jovem compreendeu que Smale

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se estava ocupando de osciladores não-lineares, osciladores caóti-
cos, e vendo coisas que os físicos tinham aprendido a não ver.

Smale fez uma má conjectura. Nos mais rigorosos termos ma-


temáticos, ele afirmou que praticamente todos os sistemas dinâmi-
cos tendiam a adotar, na maioria dos casos, um comportamento que
não era demasiado estranho. Como verificou logo, as coisas não
eram assim tão simples.
Smale era um matemático que nao só resolvia problemas, como
também criava programas de problemas para que outros resolves-
sem. 26 Transformou seu conhecimento de história e sua intuição
sobre a natureza na capacidade de anunciar, tranqüilamente, que
toda uma área de pesquisa ainda não tentada era agora digna do tem-
po de um matemático. Como um homem de negócios bem-
sucedido, calculou os riscos e planejou friamente sua estratégia; e
ele tinha uma característica de Pied Piper*. Quando Smale lidera-
va, muitos o seguiam. Sua reputação, porém, não se limitava à ma-
temática. Em princípios da guerra do Vietnã, ele ejerry Rubin or-
ganizaram "Dias Internacionais de Protesto" e patrocinaram tenta-
tivas de impedir que trens que transportavam soldados passassem
pela Califórnia. Em 1966, enquanto a Comissão de Atividades An-
tiamericanas do Congresso tentava convocá-lo a depor, ele se diri-
gia para Moscou, a fim de comparecer ao Congresso Internacional
de Matemáticos. Ali, foi agraciado com a Medalha Fields, a mais al-
ta honraria de sua profissão.
O que aconteceu em Moscou naquele verão tornou-se parte
indelével da lenda de Smale. 27 Cinco mil matemáticos agitados e
agitadores se tinham reunido ali . A tensão política era forte. Circu-
lavam petições. Quando o encontro se aproximava do fim, Smale
atendeu à solicitação de um repórter norte-vietnamita, dando uma
entrevista coletiva nas amplas escadarias da Universidade de Mos-
cou. Começou condenando a intervenção americana no Vietnã e
logo depois, quando seus anfitriões ainda estavam sorrindo, acres-
centou uma condenação da invasão soviética da Hungria e da au-
sência de liberdade política na União Soviética. Quando terminou,
foi retirado dali rapidamente, de carro, para ser interrogado por fun-
cionários soviéticos. Ao voltar para a Califórnia, a Fundação Nacional
da Ciência cancelou o auxílio que lhe vinha prestando para
pesquisas. 28

* Herói alemão lendário, que tinha o dom de convencer as pessoas a segui-lo,


especialmente em empresas absurdas. (N. do T.)

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A Medalha Fields, ganha por Smale, honrava um famoso tra-
balho em topologia, ramo da matemática que floresceu no século
XX e teve seus dias de maior glória na década de 50. A topologia
estuda as propriedades que permanecem inalteradas quando as for-
mas se modificam ao serem submetidas a torções, dilatações ou com-
pressões. Se a forma é quadrada ou redonda, grande ou pequena,
é irrelevante em topologia, porque a dilatação pode modifícar tais
propriedades. Os topologistas indagam se a forma está ligada, se tem
buracos, se tem protuberâncias. Imaginam superfícies não apenas
nos universos unidimensional, bidimensional e tridimensional de
Euclides, mas em espaços de muitas dimensões, cuja visualização
é impossível. A topologia é a geometria com formas de borracha.
Preocupa-se mais com os aspectos qualitativos do que com os quan-
titativos. Pergunta, caso não saibamos as medidas, o que podemos .
dizer sobre a estrutura geral. Smale tinha resolvido um dos impor-
tantes e históricos problemas da topologia, a hipótese de Poincaré,
para espaços de cinco dimensões ou mais, e com isso conquistou
uma posição segura como um dos grandes homens deste campo.
Na década de 6o, porém, deixou a topologia para tentar um territó-
rio inexplorado. Começou a estudar os sistemas dinâmicos.
As duas matérias, topologia e sistemas dinâmicos, remontavam .
a Henri Poincaré, que as via como as duas faces da mesma moeda.
Poincaré foi, na passagem do século, o último grande matemático
a fazer com que a imaginação geométrica tivesse influência nas leis
do movimento do mundo físico. Foi o primeiro a perceber a possi-
bilidade do caos; seus trabalhos indicavam uma espécie de impre-
visibilidade quase tão séria como a descoberta por Lorenz. Depois
da morte de Poincaré, porém, enquanto a topologia florescia, os sis-
temas dinâmicos se atrofiaram. Até o nome deixou de ser usado ;
a matéria para a qual Smale voltou-se era chamada, oficialmente, de
equações diferenciais. As equações diferenciais descrevem a maneira
pela qual os sis.temas se modificam constantemente com o tempo.
A tradição col)Sistia em examinar tais coisas doponto de vista local,
isto é, engenheiros ou físicos examinavam uma série de possibili-
dades de cada vez. Como Poincaré, Smale queria compreendê-las
globalmente, ou seja, queria compreender todo o reino de possi-
bilidades ao mesmo tempo.
Qualquer série de equações descritivas de um sistema dinâ-
mico - as de Lorenz, por exemplo - permite a fixação de certos
parâmetros iniciais. No caso da convenção térmica, um parâmetro
relaciona-se com a viscosidade do fluido. Grandes variações nos pa-
râmetros podem causar grandes diferenças num sistema - por
exemplo, a diferença entre chegar-se aum regime estacionário ou
à oscilação periódica. Os físicos, porém, supunham que modifica-

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ções muito pequenas provocariam-apenas diferenças muito peque-
nas nos números, e não modificações qualitativas no comportamento.
Relacionar a topologia com os sistemas dinâmicos é criar a pos-
sibilidade de usar uma forma para ajudar a visualizar toda a gama
de comportamentos de um sistema. Para um sistema simples, a for-
ma poderia ser uma espécie de superfície curva; para um sistema
complicado, um tubo de muitas dimensões. Um único ponto nes-
sa superfície representa o estado de um sistema num momento con-
gelado de tempo. Quando o sistema avança no tempo, o ponto se
move, traçando uma órbita através dessa superfície. Encurvar um
pouco a forma corresponde a modificar os parâmetros do sistema,
tornando um fluido mais viscoso ou impulsionando o pêndulo com
um pouco mais de força. Formas que mantêm aproximadamente
a mesma aparência exibem aproximadamente os mesmos tipos de
comportamento. Se pudermos visualizar a forma, poderemos com-
preender o sistema.
Quando Smale se voltou para os sistemas dinâmicos, a topo-
logia, como a maioria da matemática pura, era praticada com um
desprezo explícito pelas aplicações no mundo real. As origens da
topologia estavam próximas da física, mas para os matemáticos as
origens físicas estavam esquecidas, e as formas eram estudadas por
si mesmas. Smale acreditava plenamente nessa atitude - era o mais
puro dos puros - e apesar disso tinha a idéia de que o desenvolvi-
mento abstrato, esotérico, da topologia poderia contribuir com al-
-guma coisa para a física, tal como Poincaré pretendia na passagem
do século.
Uma das primeiras contribuições de Smale foi a sua hipótese
errônea. Em termos físicos, ele estava propondo uma lei da nature-
za mais ou menos assim: um sistema pode comportar-se de manei-
ra irregular, mas o comportamento irregular não pode ser estável.
A estabilidade - "estabilidade no sentido de Smale", como os ma-
temáticos diziam por vezes - era uma propriedade crucial. O com-
portamento estável num sistema era um comportamento que não
desaparecia apenas porque algum número era modificado um pou-
quinho. Qualquer sistema podia ter comportamentos estável e ins-
tável ao mesmo tempo. As equações que governam a permanência
de um lápis sobre a sua ponta têm uma boa solução matemática com
o centro de gravidade diretamente acima da ponta - mas não po-
demos colocar um lápis sobre sua ponta porque a solução é instá-
vel. A menor perturbação faz com que o sistema escape dessa solu-
ção. Por outro lado, uma bola de gude no fundo de uma tigela per-
manece ali, porque se a bola for lev~mnt perturbada, rola nova-
-mente para o ponto inicial. Os físicos supunham que qualquer com-
portamento que pudessem observar regularmente na prática; teria

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de ser estável, já que nos sistemas reais pequenas perturbações e
incertezas são inevitáveis. Nuqca conhecemos exatamente os parâ-
metros. Se quisermos um modelo que seja ao mesmo tempo fisica-
mente realista e resistente às pequenas perturbações, os físicos di-
rão que certamente queremos um modelo estável..
A má notícia chegou pelo correio logo depois do Natal de 1959,
quando Smale vivia temporariamente num apartamento no Rio de
Janeiro, com a mulher, dois filhos pequenos e uma grande quanti-
dade de fraldas. Sua hipótese tinha definido uma classe de equações
diferenciais, todas estruturalmente estáveis. Qualquer sistema caó-
tico, dizia ele, é passível de uma: aproximação tão grande quanto se
deseje, por um sistema na su-a classe. Mas isso não acontecia. Uma
carta de um colega29 informava que muitos sistemas não se com-
portavam tão bem quanto ele imaginara, e descrevia um contra-
exemplo, um sistema com caos e estabilidade, juntos. Esse sistema
era resistente. Se fosse levemente perturbado, como qualquer sis-
tema natural é constantemente perturbado pelo ruído, a estranhe-
za não desaparecia. Resistente e estranho - Smale estudou a carta
com uma descrença que foi desaparecendo_lentamente.3°
Caos e instabilidade, conceitos que estavam apenas começando
a adquirir definições formais, não etam a mesma coisa. Um siste-
ma càótico podia ser estável se sua irregularídade específica perdu-
rasse diante de pequenas perturbações. O sistema de l.orenz era um
exemplo, embora transcorressem anos antes que Smale ouvisse fa-
lar de l.orenz. O caos descoberto por l.orenz, com toda a sua im-
previsibilidade, era tão estável quanto uma bola de gude numa ti-
gela. Poderíamos acrescentar ruído ao sistema, sacudi-lo, agitá-lo,
interferir em seu movimento, mas quando tudo se acalmava, quando
as interferências passageiras desapareciam como ecos num preci-
pício, o sistema voltava ao mesmo padrão singular de irregularida-
des de antes. Era localmente imprevisível, globalmente estável. Sis-
temas dinâmicos reais agiam segundo uma série de regras mais com-
plicadas do que se tinha imaginado. O exemplo descrito na carta
do cofega de Smale era um outro sistema simples, descoberto ha-
via mais de uma geração, e quase esquecido. Era um pêndulo dis-
farçado: um circuito eletrônico oscilante. Era não-linear e era pe-
riodicamente alimentado, como uma crianÇa num balanço.
Era uma válvula eletrônica, realmente, investiga.da na d écada
de 20 por um engenheiro eletricista holandês chamado Balthasar
van der Pol.31 Um estudante moderno de física investigaria o com-
portamento desse oscilador examinando a linha traçada na tela de
um osciloscópio. Van der Pol não dispunha de um osciloscópio, por
isso tinha de acompanhar seu circuito ouvindo as variações de tom
num aparelho telefônico. Teve a satisfação de descobrir regularida-

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des no comportamento ao mudar a corrente que o alimentava. O
tom saltava de freqüência para freqüência, como se subisse uma es-
cada, deixando uma freqüência e firmando-se solidamente na se-
guinte. Não obstante, de vez em quando Van der Pol notava alguma
coisa estranha. O comportamento parecia irregular, de uma maneira
que ele não conseguia explicar. Não se preocupou, porém. "Mui-
tas vezes ouvimos um ruído irregular nos telefones, antes que a fre-
qüência passe para o valor inferior seguinte'', escreveu numa carta
a Nature. "Trata-se, porém, de um fenômeno subsidiário". 32 Ele foi
um dos muitos cientistas que teve a percepção do caos, mas não dis-
punha de uma linguagem para compreendê-lo. Para quem estava ten-
tando fazer válvulas eletrônicas, o bloqueio de freqüência era im-
portante. Mas, para as pessoas que tentavam compreender a natu-
reza da complexidade, o comportamento realmente interessante se-
ria o "barulho irregular" criado pelas trações conflitantes de freqüên-
cias maiores e menores.
Mesmo errada, a hipótese de Smale o colocou diretamente no
caminho de uma nova maneira de conceber toda a complexidade
dos sistemas dinâmicos. Vários matemáticos tinham examinado as
possibilidades do oscilador de Van der Pol, e Smale transferiu o tra-
balho deles para uma nova esfera. Sua única tela de osciloscópio era
sua mente, mas uma mente condicionada por anos de exploração
do universo topológico. Smale concebeu toda a gama de possibili-
dades do oscilador, todo o espaço de fase, como os físicos diziam.
Qualquer estado do.sistema num momento congelado no tempo
era representado como um ponto no espaço de fase; toda informa-
ção sobre sua posição ou velocidade estava encerrada nas coorde-
nadas daquele ponto. Quando o sistema se modificava de alguma
maneira, o ponto movia-se para uma nova posição no espaço de fase.
Quando o sistema se modificava continuamente, o ponto traçava
uma trajetória.
Para um sistema simples como o pêndulo, o espaço de fase po-
deria ser apenas um retângulo: o ângulo do pêndulo num dado mo-
mento determinaria a posição leste-oeste de um ponto e a veloci-
ctade do pêndulo determinaria a posição norte-sul. Para um pêndulo
que oscilasse regularmente de um lado para outro, a trajetória pelo
espaço de fase seria um loop, repetindo-se à medida que o sistema
atravessasse a mesma seqüência de posições repetidas vezes.
Em lugar de examinar uma trajetória específica, Smale
concentrou-se no comportamento de todo o espaço, à medida que
o sistema se modificava - quando maior energia propulsora lhe era
acrescentada, por exemplo. Sua intuição pulou da essência física
do sistema para um novo tipo de essência geométrica. Seus instru-
mentos eram as transformações topoiogicas das formas no espaço

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li''

RETRATOS NO ESPAÇO DE FASE. As séries temporais tradicionais (ao al-


to) e as trajetórias no espaço de fase (embaixo) são duas maneiras de mostrar
os mesmos dados e conseguir um retrato do comportamento do sistema alongo
prazo. O primeiro sistema (esquerda) converge para um regime estacionário
- um ponto no espaço de fase. O segundo repete-se periodicamente, forman-
do uma órbita cíclica. O terceiro repete-se num ritmo de valsa mais complica-
da, um ciclo com "período três". O quarto é caótico.

de fase - transformações como dilatação e compressão. Por vezes


essas transformações tinham um significado tisico claro. A dissipa-
ção num sistema, a perda de energia pelo atrito, significava que a
forma do sistema no espaço de fase se contrairia como um balão
que perde o gás - encolhendo-se finalmente a um ponto, no mo- .
mento em que o sistema pára totalmente. Para representar a com-
. plexidade total do oscilador de Van der Pol, ele compreendeu que
o espaço de fase teria de sofrer um novo e complexo tipo de com-
binação de transformações. Converteu rapidamente sua idéia so-
bre a visualiZ<I;ção do comportamento global num novo tipo de mo-
delo. Sua inovação- uma imagem duradoura do caos nps_anos que
se seguiram - foi uma estrutura que se tornou conhecida como a
ferradura.
Para fazer uma versão simples da ferradura de Smale,33 toma-
se um retângulo, aperta-se no alto e embaixo, até transformá-lo nu-
ma barra horizontal. Toma-se uma das pontas da barra, dobra-se e
estende-se até a altura da outra ponta, formando uma espécie de e,
como uma ferradura. Imagine-se em seguida a ferradura enquadrada
num novo retângulo e repita-se a mesma transformação, encolhen-
do, dobrando e espichando. ·
O processo reproduz o trabalho de uma máquina de fazer ca-
ramelo, ou puxa-puxa, 34 com braços rotativos que abrem a mas-

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••••

A FERRADURA DE SMALE. Essa transformação topológica oonstitui uma


base para o entendimento das propriedades caóticas dos sistemas dinâmicos.
Os fundamentos são simples: um espaço é estendido numa direção, apertado
na outra e depois dobrado. Quando o processo é repetido, produz uma espécie
de mistura estruturada, oonhecida de quem já bateu massa de rosca de mui-
tas camadas. Um par de pontos que acabam juntos pode ter começado muito
separados.

sa, estendem-na, dobram-na, estendem-na novamente, e assim por


diante até que a sua superfície se torna bastante longa, fina e intrin-
cadamente contida em si mesma. Smale submeteu sua ferradura a
uma variedade de fases topológicas e, matemática à parte, a ferra-
dura proporcionou um claro visual análogo da dependência sensí-
vel das condições iniciais que Lorenz descobriria na atmosfera, al-
guns anos depois. Tomem-se dois pontos próximos no espaço ori-
ginal, e não poderemos supor onde acabarão. Eles serão muito afas-
tados um do outro, arbitrariamente, pelo movimento de esticar e
dobrar. Depois disso, dois pontos que por acaso se encontram pró-
ximos terão começado arbitrariamente muito distantes.
Originalmente, Smale esperava explicar todos os sistemas di-
nâmicos em termos desses movimentos de esticar e apertar - sem
dobrar, ou pelo menos sem dobrar a ponto de solapar drasticamente
a estabilidade do sistema. Mas comprovou-se ser necessário do-
brar,35 e isso permitiu acentuadas modificações no comportamen-
to dinâmico. A ferradura de Smale ficou sendo a primeira de mui-
tas formas geométricas novas que deram aos matemáticos e físicos
uma nova intuição sobre as possibilidades do movimento. Sob certos
aspectos, ela era demasiado artificial para ser útil, ainda era muito
uma criatura da topologia matemática para interessar os ffsicos . Ser-
viu , porém , de ponto de partida. No decorrer da década de 60 Smale
reuniu à sua volta, em Berkeley, um grupo de jovens matemáticos
que compartilhavam de seu entusiasmo pelo novo trabalho com sis-

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temas dinâmicos. Mais uma década se passaria antes que seu traba-
lho atraísse a atenção de ciências menos puras, mas quando isso
aconteceu, os físicos compreenderam que Smale levara todo um ra-
mo da matemática de volta para o mundo real. Era uma época áu-
rea, disseram eles. 36
"É a mudança de paradigma das mudanças de paradigmas", dis-
se Ralph Abraham, colega de Smale que veio a ser professor de ma-
temática da Universidade da Califórnia em Santa Cruz.37
"Quando iniciei meu trabalho em matemática em 1960, o que
não faz muito tempo, a matemática moderna, em sua totalidade -
em sua totalidade-, era rejeitada pelos físicos, inclusive os físicos
matemáticos mais avançados. Assim, a dinâmica diferenciável, a aná-
lise global, as variedades de mapeamento, a geometria diferencial
- tudo o que estava um ou dois anos à frente do que Einstein tinha
usado-, eram rejeitadas. O romance entre a matemática e os físi-
cos terminara em divórcio na década de 30. Já não se falavam . Sim-
plesmente, desprezavam-se uns aos outros. Os físicos matemáticos
não davam aos seus alunos permissão para seguir cursos de mate-
mática com matemáticos: Aprenda matemática conosco. Nós lhe
ensinaremos tudo o que você precisa saber. Os matemáticos estão
numa espécie de orgia de egoísmo terrível e destruirão a sua mente.
Isso foi em 1960. Em 1968 a situação se tinha modificado totalmen-
te.'' Físicos, astrônomos e biólogos acabaram sabendo, todos, que
tinham de se inteirar das novidades.

Um modesto mistério cósmico:38 a Grande Mancha Vermelha


de Jlipiter, um enorme oval rotativo, como uma tempestade gigan-
tesca, que nunca se move e nunca se esgota. Quem viu as imagens
transmitidas através do espaço pelo Voyager 2, em 1978, re.c onhe-
ceu a aparência familiar de turbulência numa escala gigantesca e nada
familiar. Era um dos marcos mais veneráveis do sistema solar - "a
mancha vermelha bramindo como um olho angustiado/ em meio
à turbulência de sobrancelhas ferventes", 39 como John Updike a
descreveu. Mas o que era ela? Vinte anos depois de Lorenz, Smale
e outros cientistas terem apresentado um novo modo de entender
os fluxos da natureza, as condições de tempo extra-terrenas de Jú-
piter revelavam-se um dos muitos problemas que esperavam um no-
vo sentimento das possibilidades da natureza, proporcionado pe-
la ciência do caos.
Durante três séculos, a mancha vinha sendo um exemplo do
fenômeno em relação ao qual quanto mais se sabe, menos se sabe.
Astrônomos notaram uma mancha no grande planeta pouco depois
que Galileu apontou pela primeira vez seus telescópios para Júpi-
ter. Robert Hooke viu-a na década de 1600-1610. Donati Creti pintou-

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a na galeria de quadros do Vaticano. Como colorido, a mancha não
demandava muitas explicações. Mas, à medida que os telescópios
se foram aperfeiçoando, a maior informação mostrou que o desco-
nhecimento era maior. O século passado produziu uma marcha
constante .de teorias, umas atrás das outras. Por exemplo:
Teoria do fluxo de lava - Em fins do século XIX cientistas
imaginaram um enorme lago oval de lava liquefeita, saindo de um
vulcão. Ou talvez a lava tivesse saído de um buraco criado por um
planetóide que se chocara com uma fina crosta sólida.
Teoria da Nova Lua - Um cientista alemão afirmou, por sua .
vez, que a mancha era uma nova lua a ponto de emergir da superfí-
cie do planeta.
Teoria do ovo - Um fato novo e estranho: constatou-se que
a mancha vagava lentamente sobre o pano de fundo do planeta. As-
sim, foi apresentada uma idéia em 1939, segundo a qual a mancha
seria um corpo mais ou menos sólido flutuando na atmosfera talco-
mo um ovo flutua na água. Variações dessa teoria- inclusive a idéia
de uma bolha flutuante de hidrogênio ou hélio - perduraram du-
rante décadas.
Teoria da coluna de gás - Outro fato novo: embora a man-
cha flutuasse, não ia nunca longe, razão pela qual cientistas afirma-
ram, na década de 60, que ela seria o alto de uma coluna de gás as-
cendente, possivelmente saindo de uma cratera.
Veio então o Voyager. A maioria dos astrônomos achou que
o mistério desapareceria tão logo pudessem examiná-lo de perto,
e na verdade a aproximação do Voyager proporcionou um esplên-
dido álbum de novas informações, mas estas, em última análise, não
foram suficientes. As fotos da nave espacial revelaram, em 1978, ven-
tos fortes e redemoinhos coloridos. Os astrônomos viram, em de-
talhes espetaculares, a própria mancha como um sistema de fluxo
giratório semelhante a um furacão, empurrando para o lado as.nu-
vens, mergulhado em zonas de vento leste-oeste que criava faixas
horizontais em volta do planeta. Furacão foi a melhor descrição que
se pôde imaginar, mas era inadequada por várias razões. Os fura-
cões terrestres são impulsionados pelo calor liberado quando a umi-
dade se condensa em chuva: nenhum processo de umidade impul-
siona a Mancha Vermelha. Os furacões giram numa direção ciclô-
nica, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, acima do
Equador, e no sentido dos ponteiros abaixo dele, como todas as tem-
pestades da terra. A rotação da Mancha Vermelha é anticiclônica.
E, o que é mais importante, os furacões se esgotam em poucos dias.
· Ao estudarem as fotos do Voyager, os astrônomos também per-
ceberam que o planeta era praticamente todo de fluido em movi-
mento. Estavam condicionados a esperar um planeta sólido, cerca-

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do de uma atmosfera muito pequena como a da terra, mas se Júpi-
ter tinha um núcleo sólido, estava muito longe da superficie. O pla-
neta passou a ter, de repente, a aparência de um grande experimen-
to na dinâmica dos fluidos, e ali estava a Mancha Vermelha, giran-
do constantemente, sem ser perturbada pelo caos que a cercava.
A mancha tornou-se um teste de gestalt. Os cientistas viam nela
o que sua intuição lhes permitia ver. Um especialista em dinâmica
de fluidos, que via a turbulência como aleatória e ruidosa, não ti-
nha contexto para compreender uma ilha de estabilidade em seu
meio. O Vqyager tinh::i tornado o mistério ainda mais enlouquece-
dor, mostrando aspectos pequenos do fluxo, demasiado pequenos
para serem vistos pelos mais potentes telescópios da terra. 40 Esses
detalhes revelavam desorganização rápida, redemoinhos que apa-
reciam e desapareciam num dia, ou menos. Não obstante, a man-
cha permanecia imune. O que a mantinha em movimento? O que
a mantinha no lugar?
A Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (NASA)
guarda suas fotos em arquivos, uma meia dúzia, aproximadamen-
te, espalhados por todo o país. Um desses arquivos está na Univer-
sidade de Cornell. Ali perto, em princípios da década de 80, Philip
Marcus, jovem astrônomo e estudioso da matemática aplicada, ti-
nha seu escritório. Depois do Voyager, Marcus era um entre uma
meia dúzia de cientistas, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, que
procuravam meios de criar um modelo da Mancha Vermelha. Liber-
tados da teoria ersatz do furacão, encontraram análogos mais ade-
quados em outros elementos. A Corrente do Golfo, por exemplo,
serpenteando pelo oceano Atlântico ocidental, o faz de maneira que
lembra sutilmente a mancha. Desenvolve pequenas ondas, que se
transformam em nós, que se transformam em anéis e, girando,
libertam-se da corrente principal - formando vértices lentos, de
longa duração, anticiclônicos. Outro paralelo podia ser estabeleci-
do com um fenômeno singular da meteorologia, conhecido como
bloqueio. Por vezes um sistema de alta pressão se desloca para lon-
ge da costa, girando lentamente, durante semanas, ou meses, num
desafio ao habitu~l fluxo leste-oeste. O bloqueio perturbava os mo-
delos de previsão global, mas também dava aos meteorologistas al-
guma esperança, já que produzia características ordenadas de ex-
cepcional longevidade.
Marcus estudou essas fotos da NASA durante horas, as maravi-
lhosas fotos de Hasselblad de homens na lua e as fotos da turbulên-
cia de Júpiter. Como as leis de Newton se aplicam a qualquer lugar,
Marcus programou um computador com um sistema de equações
de um fluido. Para entender a meteorologia joviana era necessário
escrever regras para uma massa de hidrogênio e hélio densos, se-

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melhante a uma estrela nãociluminada. O planeta gira depressa, ca-
da dia valendo dez horas çla terra. Esse movimento giratório pro-
duz uma violenta força de Coriolis, a força lateral que empurra uma
pessoa que atravesse um carrossel, e a força de Coriolis impulsio·
na a mancha.
Enquanto Lorenz usou seu pequeno modelo do tempo na ter-
ra para imprimir grosseiras linhas num rolo de papel, Marcus usou
um computador muito mais potente para reunir notáveis imagens
coloridas. Primeiro, ele fez gráficos de contorno. Mal podia ver o
que estava acontecendo. Fez em seguida, slides, e depois montou
as imagens num desenho animado. Foi uma revelação. Em azuis, ver-
melhos e amarelos brilhantes, uma configuração quadriculada de
vórtices em rotação se aglutinam num oval com uma fantasmagó-.
rica semelhança com a Grande Mancha Vermelha do filme anima-
do que a NASA fez do fenômeno real. "Vê-se essa mancha em gran-
de escala, feliz como um marisco em meio ao caótico fluxo em pe-
quena escala, e o fluxo caótico está sugando a energia como uma
esponja", disse ele. "Vêem-se pequenas estruturas filamentosas num
pano de fundo de um mar de caos." 41
A mancha é um sistema auto-organizador, criado e regulado
pelas mesmas mudanças não-lineares que criam a,agitação impre-
visível à sua volta. É o caos estável.
Durante o curso de pós-graduação, Marcus estudar;ta física tra-
dicional, resolvendo equações lineares, realizando experiências des-
tinadas a corresponder a análises lineares. Era uma existência tran-
qüila, mas, afinal de contas, as equações não-lineares desafiam so-
lução, e assim sendo, por que desperdiçar o tempo do estudante?
Sua formação deveria proporcionar-lhe satisfação. Desde que man-
tivesse as experiências dentro de certos limites, as aproximações
lineares bastavam, e ele seria recompensado com a solução espe-
rada. De vez em:qvando, inevitavelmente, o mundo real se intro-
meteria, e Marcus ver.ja aquilo que, anos depois, compreenderia se-
rem sinais do caos. Parava, e dizia: "Ora, e essa pequena falha aqui?".
Respondiam-lhe: ''Ah, é'um erro de experiência, não se preocupe
com ela." 42
Ao contrário da maioria dos físicos, porém, Marcus acabou
aprendendo a lição de Lorenz, de que um sistema determinista po-
de produzir muito mais do que apenas um comportamento perió-
dico. Sabia procurar a desordem, e sabia que ilhas de estrutura po-.
dem aparecer dentro da desÜrdem . Pqrtanto, levou para o estudo
da Grande Mancha Vermelha a compreensão de que um sistema
e
complexo pode dar origem à turbulência à·coerência, ao mesmo .
tempo. Podia trabalhar dentro de uma disciplina que surgia e que
. estava criando sua tradição própria no uso de computadores como

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ferramenta de experiências. E estava disposto a considerar-se um
novo tipo de cientista: e não principalmente um astrônomo, não
um especialista em dinâmica dos fluidos, ou em matemática apli-
cada, mas um especialista em caos.

Notas
1 - O entendimento que tem Kuhn das revoluções científicas foi amplamente ana-
lisado e debatido nos 25 anos decorridos desde a sua apresentação, mais ou
menos na época em que Lorenz estava programando seu computador para
produzir um modelo das condições meteorológicas. Quanto às opiniões de
Kuhn, baseei-me prindpalmente em The Structure ofScientificRevolutions,
2~ ed. aumentada (Chicago, University of Chicago Press, 1970), e secunda-
riamente em The Essential Tension: Selected Studies in Scientific Tradition
and Change(Chicago, UniversityofChicago, 1977); "WhatAreScientific Revo-
lutions?" (Occasional Paper n ? 18, Centro de Ciência Cognitiva, Instituto de
Tecnologia de Mass.a chusetts); e em entrevista com Kuhn. Outra análise útil
e importante do assunto encontra-se em 1. Bernard Cohen, Revolution in
Science (Cambridge, Mass., Belknap Press, 1985 .)
2 - Structure, pp. 62-65, citando J .S. Bruner e Leo Postman, "On the Perception
of Incongruity: A Paradigm",Journal of Personality, XVIII (1949), p. 206.
3 - Structure, p. 24.
4 - Tension, p. 229.
5 - Structure, pp. 13-15.
6 - Tension, p. 234.
7 - Cvitanovic.
8 - Ford, entrevista e "Chaos: Solving the Unsolvable, Predicting the Unpredic-
table", em Chaotic Dynamics and Fractais, M.F. Barnsley e S.G. Demko, orgs.
(Nova York, Academic Press, 1985.)
9 - Michael Berry, porém, observa que o Oxford English Dictionary tem " Chao-
logy" (raro), "a história ou descrição do caos". Berry, "The Unpredictable Bouc-
ing Rotator: A Chaology Tutorial Machine" pré-publicação, H.H. Wills Phis-
ics Laboratory, Bristol.
10 - Richter.
11 - ]. Crutchfield, M. Nauenberg e]. Rudnick, "Scaling for Externai Noise at the
Onset of Chaos", Physical Review Letters, 46 (1981), p. 933.
12 - Alan Wolf, "Simplicity and University in the Transjtion to Cbaos", Nature, 305
(1983), p. 182 .
13 -Joseph Ford , "What is Chaos That We Should Be Mindful of It?'', pré-
publicação, Instituto de Tecnologia da Geórgia, Atlanta.
14 - "What Are Scientific Revolutions?", p. 23.
15 - Structure, p. 111.
16 - Yorke e outros.

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17 - "What Are Scientific; Revolutions?", pp. 2-10.
18 - Galileo Opere, VIIl:277. Também VIIl:l29-30 .
•19 - David Tritton, "Chaos in the Swing of a Pendulum", New Scientist, 24 de ju-
lho de 1986, p. 3 7. É um ensaio legível , não-técnico, sobre as implicações fi'
losóficas da caos do pêndulo.
20 - Na prática, alguém que empurra um balanço pode sempre produzir um mo-
vimento mais ou menos regular, presumivelmente usando um mecanismo de
retroalimentação não-linear inconsciente.
21 - Entre muitas análises das possíveis complicações de um pêndulo simples im-
pulsionado, um bom resumo é D. d'Humieres, M.R. Beasley, B.A. Huberman
e A. Libchaber, "Chaotic States and Routes to Chaos in the Forced Pendulum",
Pbysical Review, A 26 (1982), pp. 3483-96.
22 - Michael Berry pesquisou a física desse brinquedo, teórica e experimentalmen-
te. Em "The Unpredictable Boucing Rotator " ele descreve uma gama de com-
portamentos só compreensíveis na linguagem da dinâmica caótica: "KAM tori,
bifurcation of periodic orbits Hamiltonian, chaos, stable flxed points and
strange attractors".
23 - Hénon.
24 - Ueda.
25 - Fox.
26 - Smale, Yorke, Guckenheimer, Abraham , May, Feigenbaum: um breve relato,
um tanto anedótico, do pensamento de Smale durante esse período encontra-
se em "On How I Got Started in Dynamical Systems", em Steve Smale, Tbe
Matbematics of Time: Essayson Dynamical Systems, Economic Processes
and Related Topics (Nova York, Springer;Verlag, 1980), pp. 147-151.
27 - Raymond H. Anderson, "Moscow Silences a Criticai American", Tbe New York
Times, 27 de agosto de 1966, p. l; Smale, "On the Steps ofMoscow Universi-
ty ", Tbe Matbematical /ntelligencer, 6:2, pp. 21-27.
28 - Smale.
29 - O colega foi N. Levinson. Várias tendências da matemática, que remontam a
Poincaré, reúnem-se aqui. A obra de Birkhoff é uma delas. Na Inglaterra, Mary
Lucy Cartwright e].E. Littlewood pesquisaram as sugestões de Balthasar van
der Pol sobre osciladores caóticos. Esses matemáÜcos sabiam perfeitamente
da possibilidade de caos em sistemas simples, mas Smale, como a maioria dos
matemáticos bem formados, nâo tinha conhecimento do trabalho deles, até
receber a carta de Levinson.
30 - Smale; "On How I Got Started".
31 - Van der Pol descreveu seu trabalho em Nature, 120 (1927) , pp. 36~4 .
32 - Ibid.
33 - A exposição matemática definitiva que Smale faz çle seu trabalho é " Difern ~
tiable Dynamical Systems", Bulletin of tbe American Matbematical Society,
1967, pp. 747-81 7 (também em Tbe Matbematics of Time, pp. 1-82).
34 - Rõssler.
35 - Yo rke.
36 - Guckenheimer, Abraham.

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3 7 - Abraham.
38 - Marcus, Ingersoll , Williams; Philip S. Marcus, "Coherent Vortical Features iil
a Turbulent Two-Dimensional Flow and the Great Red Spot of]upiter", tra-
balho apresentado à 10 ~ Reunião da Sociedade Acústica dos Estados Unidos,
Nashville, Tenessee, 5 de novembro de 1985 .
39 - John Updike, "The Moons of Jupiter", Facing Nature (Nova York, Knopf,
1985), p. 74.
40 - Ingersoll; também Andrew P. Ingersoll, "Order from Chaos: TheAtmospheres
of Jupiter and Saturn", Planetary Report, 4:3, pp. 8-11 .
41 - Marcus.
42 - Marcus.

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Altos e Baixos
da Vida

O resultado de um desenvolvimento matemático deve ser


conferido constantemente com a nossa intuição do que
constitui um comportamento bioJógico aceitável. Quando
essa conferência revelar discordância, devemos exami-
nar então as seguintes possibilidades:
a. Fbi cometido um erro no desenvolvimento matemáti-
co formal.
b. Os pressupostos de partida são incorretos e/ou cons-
tituem uma simplificação demasiado drástica.
c. Nossa intuição sobre o campo biológico é inadequada.
d. Um penetrante princípio novo foi descobert.o.
- HARVEY J. GOLD,
Mathematical Modeling
of Biological Systems.

P EIXES vorazes e plâncton saboroso. 1 Florestas pluviais


cheias de répteis sem nome, pássaros planando sob um
teto de folhas, insetos zumbindo como elétrons num ace-
lerador. Áreas de geada onde arganazes e lemingues florescem e di-
minuem com metódica periodicidade quadrienal, em face do san-
grento combate da natureza . O mundo constitui um desorganiza-
do laboratório para os ecologistas, um caldeirão com cinco milhões
de espécies que interagem. 2 Ou são 50 milhões? Os ecologistas na
realidade não sabem.

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Biólogos com inclinações matemáticas, no século XX, criaram
uma disciplina, a ecologia, que deixou de lado o barulho e a cor da
vida real, e tratou as populações como sistemas dinâmicos. Os eco-
logistas usaram as ferramentas elementares da ffsica matemática para
descrever os fluxos e refluxos da vida. Espécies ún.J.cas multiplicando-se
pum lugar onde o alimento é limitado, várias espécies competindo
pela existência, epidemias espalhando-se por meio de populações hos-
pedeiras - tudo isso podia ser isolado, se não em laboratórios, pelo
menos na mente dos teóricos da biologia.
Os ecologistas tinham um papel especial a desempenhar no
aparecimento do caos como uma nova ciência, na década de 70.
Usavam modelos matemáticos, mas sempre souberam que eram pá-
lidas aproximações do fervilhante mundo real . De uma maneira in-
direta, sua consciência das limitações permitia-lhes ver a importância
de algumas idéias que os matemáticos tinham considerado excen-
tricidades interessantes. Se equações regulares podiam produzir
comportamento irregular, para um ecologista isso despertava cer-
tas associações. As equações aplicadas à biologia populacional eram
contrapartidas elementares dos modelos usados pelos físicos para
seus pedaços do universo. Mas a complexidade dos fenômenos reais
estudados nas ciências da vida superava tudo o que se podia encon-
trar no laboratório de um físico. Os modelos matemáticos dos bió-
logos tendiam a ser caricaturas da realidade,3 como também os
modelos dos economistas, demógrafos, psicólogos e planejadores
urbanos, quando essas ciências não-exatas tentavam dar rigor ao seu
estudo dos sistemas que se modificam com o tempo. Os padrões
eram diferentes. Para o físico, um sistema de equações como o de
Lorenz era tão simples que parecia praticamente transparente. Para
o biólogo, até mesmo as equações de Lorenz pareciam proibitiva-
mente complexas - tridimensionais, continuamente variáveis e ana-
liticamente intratáveis.
A necessidade criou um estilo de trabalho diferente para os bió-
logos. A correspondência entre as descrições matemáticas e os sis-
temas reais tinha de ser feita de uma maneira diferente. Um físico,
ao examinar determinado sistema (digamos, dois pêndulos ligados
por uma mola), começa por escolher as equações adequadas. Vai
procurá-las, de preferência, num manual; não as encontrando, vai
obtê-las a partir dos princípios básicos. Ele sabe como os pêndu-
los funcionam e conhece as molas. Resolve então as equações, se
puder. O biólogo, por outro lado, nunca poderia simplesmente de-
duzir as equações adequadas apenas refletindo sobre determinada
população animal. Teria de recolher dados e tentar encontrar equa-
ções que produzissem resultados semelhantes. O que acontece se
colocarmos mil peixes num tanque com um abastecimento limita-

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do de alimentos? O que acontece se juntarmos a isso 50 tubarões
que comem dois peixes por dia? O que acontece com um vírus que
mata a um certo ritmo e se difunde numa certa velocidade, depen-
dendo da densidade populacionàl? Os cientistas idealizaram essas
perguntas, a fim de poder aplicar fórmulas secas.
Com freqüência , isso funcionava. A biologia populacional
aprendeu muito com a história da vida, com a interação dos preda-
dores e suas presas, com a maneira pela qual a modificação na den-
sidade populacional de um país afeta a difusão de uma doença. Se
apareciam certos modelos matemáticos, ou se chegavam ao equilí-
brio, ou desapareciam, os ecologistas podiam levantar certas hipó-
teses sobre as circunstâncias nas quais uma população real, ou uma
epidemia, podia se comportar da mesma maneira .
Uma simplificação útil foi fazer um modelo do mundo em ter-
mos de intervalos de tempo separados, como um relógio cujos pon-
teiros pulam para a frente de segundo em segundo, em lugar de des-
lizar continuamente. As equações diferenciais descreviam proces-
sos que se modificam suavemente com o tempo, mas as equações
diferenciais são difíceis de ser calculadas. Equações mais simples
- "equações de diferença" - podem ser usadas para processos que
pulam de estado para estado. Felizmente, muitas populações ani-
mais fazem o que fazem em claros intervalos de um ano. Modifica-
ções anuais são, com freqüência, mais importantes do que as mo-
dificações num contínuo. Ao contrário das pessoas, muitos insetos,
por exemplo, limitam-se a um único período de procriação, de modo
que suas gerações não se confundem. Para calcular a população das
limântrias (tipo de mariposa) ou a epidemia de sarampo do próxi-
mo inverno, o ecologista precisaria apenas conhecer o número cor-
respondente para este ano. Urp fac-símile ano a ano produz apenas
uma.sombra de complexidades de um sistema, inas em muitas apli-
cações reais tal sombra proporciona todas as informações de que
o cientista precisa.
A matemática da ecologia está para a matemática do Steve Smale
assim como os Dez Mandamentos e.s tão para o Talmude: um bom
conjunto de regras funcionais, mas nada muito complicado. Para
descrever uma população que muda a cada ano, o biólogo usa um
raciocínio que um estudante de escola secundária pode aco mpa-
nhar com facilidade. Suponhamos que a população de limântrias
do próximo ano dependerá totalmente da população deste ano. Po-
demos imaginar um quadro com todas as possibilidades específi-
cas - 31.000 limântrias este ano significam 35 .000 no ano seguin-
te, e assim por diante. Ou poderíamos estabelecer a relação entre
todos os números deste ano e os números do próximo seguinte, co-
mo uma regra - uma função. A população (x) do próximo ano é

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uma função (F) da população deste ano: xpróximo = F(x). Qualquer
função específica pode ser traçada num diagrama, dando imedia-
tamente uma idéia de sua forma geral.
Num modelo simples como este, seguir uma população atra-
vés do tempo é apenas uma questão de tomar um número de parti-
da e aplicar a mesma função repetidamente. Para conseguir a po-
pulação para um terceiro ano, basta aplicar a função ao resultado
do segundo ano, e assim sucessivamente. Toda a história da popu-
lação surge através desse processo de iteração funcional - uma rea-
limentação, servindo o resultado de cada ano como o insumo do
ano seguinte. A realimentação também pode escapar do controle,
como ocorre quando o som de um alto-falante é apanhado pelo mi-
crofone e amplificado rapidamente num guincho insuportável. Ou
pode produzir estabilidade, como faz o termostato, ao regular a tem-
peratura de uma casa: qualquer temperatura acima de determina-
do ponto leva à refrigeração, e qualquer temperatura abaixo leva à
calefação.
Muitos tipos diferentes de funções são possíveis. Uma abor-
dagem ingênua da biologia populacional pode sugerir uma função
que aumenta a população em certa porcentagem anual. Isso cons-
tituiria uma função linear - xpróximo = rx - e constituiria o esque-
ma maltusiano clássico do crescimento de população, não limita-
do pelo abastecimento de alimentos ou pela contenção moral. O
parâmetro r representa a taxa de crescimento populacional. Diga-
mos que é de 1,1; nesse caso, se a população deste ano for 10, a do
próximo ano será 11. Se o insumo é 20.000, o produto é 22 .000. A
população cresce cada vez mais, como o dinheiro deixado para sem-
pre numa conta de poupança com juros compostos.
Os ecologistas compreenderam, há gerações, que teriam de
se sair melhor. Um ecologista que imaginasse peixes reais num tan-
que real, teria de encontrar uma função que correspondesse às cruas
realidades da vida - por exemplo, a realidade da fome, ou da com-
petição. Quando os peixes proliferam, começa a faltar alimento para
eles. Uma pequena população de peixes crescerá rapidamente. Uma
população excessivamente grande diminuirá. Ou vejamos os esca-
ravelhos. Todo 1? de agosto podemos sair ao jardim e contá-los. Para
simplificar, não levamos em conta os passarinhos, as doenças dos
escaravelhos, e concentramo-nos apenas no abastecimento fixo de
alimentos. Se forem poucos, os besouros se multiplicarão; se forem
muitos, comerão todo o jardim e morrerão de fome.
No cenário maltusiano de crescimento ilimitado, a função li-
near de crescimento sobe sempre. Num cenário mais realista, o eco~
logista precisa de uma equação com um termo extra que detenha
o crescimento quando a população se tornar grande. A função mais

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natural a ser escolhida se elevará acentuadamente quando a popu-
lação for pequena, reduzirá o crescimento a quase zero nos valo-
res intermediários, e cairá rapidamente quando a população for mui-
to grande. Repetindo o processo, o ecologista pode observar a con-
solidação de um comportamento a longo prazo por uma popula-
ção - chegando, presumivelmente, a um regime estacionário. Uma
incursão bem-sucedida na matemática pelo ecologista o levaria a
dizer alguma coisa como: Eis uma equação; eis uma variável que re-
presenta a taxa de reprodução; eis uma variável que representa a ta-
xa de mortalidade natural ; eis uma variável que representa a taxa de
mortalidade adicional provocada pela fome ou predação; portan-
to, a população crescerá com esta velocidade até chegar àquele ní-
vel de equilíbrio.
Como encontrar tal função? Muitas equações diferentes pode-
riam funcionar, e possivelmente a mais simples delas seja uma mo-
dificação da versão maltusiana linear: xpróximo = rx(l-x). Mais uma
vez, o parâmetro r representa a taxa de crescimento, que pode ser
maior ou menor. O novo termo - 1 - x - mantém o crescimento
dentro de limites, já que quando x aumenta, 1 -x cai.* Qualquer pes-
soa, com uma calculadora, poderia escolher um valor de partida,
uma taxa de crescimento, e realizar a operação aritmética para ob-
ter a população do próximo ano.
Na década de 50 vários ecologistas examinaram as variações
dessa equação, conhecida como a equação da diferença logística. 4
Na Austrália, por exemplo, W. E. Ricker aplicou-a a pesqueiros reais.
Os ecologistas compreenderam que o parâmetro da taxa de cresci-
mento r representava uma característica importante do modelo.

* Por uma questão de conveniência, neste modelo muito abstrato, a "popula-


ção" é expressa como uma fração entre zero e 1, representando o zero a extin-
ção, e 1, a maior pópulação concebível do tanque.
Comecemos: escolha-se um valor arbitrário parar, digamos 2, 7, e uma po-
pulação inicial de 0,02. Um menos 0,02 é 0,98. Multiplique-se por 0,02 e te-
mos 0 ,0196. Multiplique-se isso por 2, 7 e temos 0 ,0529. A população inicial,
muito pequena, mais do que duplicou. Repita-se o processo, usando a nova po-
pulação como semente, e temos 0,1353 . Com uma calculadora programável ba-
rata, essa iteração é apenas uma questão de apertar um botão repetidas vezes.
A população cresce para 0,3159, depois para 0,5835, depois para 0,6562- a
taxa de crescimento diminui. E então, quando a morte por inanição supera a
reprodução, 0,6092. Depois, 0 ,6428, depois 0,6199, depois 0,6362 , depois
0,6249. Os números parecem oscilar, aproximando-se porém de um número
fixo: 0,6328, 0,6273 , 0 ,6312, 0,6285, 0,6304, 0,6291, 0,6300, 0,6294, 0,6299,
0,6295, 0 ,6297, 0,6296, 0,6297, 0,6296, 0 ,6296 , 0 ,6296, 0,6296, 0,6296,
0,6296, 0,6296. Sucesso!
Nos dias dos cálculos com lápis e papel, e nos dias das máquinas de somar
com manivelas, a exploração numérica nunca foi muito longe.

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Uma população atingeôequilibriodep0is de subir, ultrapassaroslimit.es e cair
novanient.e.

Nos sistemas físicos, dos quais essas equações foram extraídas,


tal parâmetro correspondia à quantidade de calor, ou à quantidade
de atrito, ou à quantidade de qualquer outra quantidade desorde-
nada. Em suma, à quantidade de não-linearidade. Num tanque, po-
deria corresponder à fecundidade dos peixes, à propensão da po-
pulação não apenas para o crescimento máximo, mas também pa-
. ra decrescer ("potencial biótico" era o nome científico). A pergun-
ta era: como esses parâmetros diferentes afetavam o destino final
de uma população mutável? A resposta óbvia era que um parâme-
tro inferior faria com que essa população idealizada terminasse num
nível menor. Um parâmetro maior levaria a urna maior estabilida-
de. Isso se revelou correto para muitos parâmetros - mas nem to-
dos. Ocasionalmente, pesquisadores como Ricker tentaram, sem dú-
vida, parâmetros ainda mais altos e, quando o fizeram, devem ter
visto o caos.
Estranhamente, o fluxo de números começa a comportar-se
indevidamente, o que é um aborrecimento para quem esteja usan-
do uma calculadora manual. Os números ainda não crescem sem
limites, é claro, mas também não convergem para um nível estável.
Evidentemente, porém , nenhum desses ecologistas antigos tinha
a inclinação ou a força para continuar a produzir numeros que se
recusavam a estabilizar-se. De qualquer modo, se a população con-
tinuava a ir e vir, os ecologistas supunham que'ela oscilava em tor-
no de algum equilíbrio subjacente. O equilíbrio era o importánte.
Não lhes ocorreu que poderia não haver equilíbrio.
Os livros de referência e os manuais que tratavam da equação
logística, e de suas primas mais complicadas, geralmente nem sequer
admitiam a possibilidade do comportamento caótico.5 ]. Maynard
Smith. no clássico Mathematical fdeas in Biology, de 1968, fez uma
avaliação padrão das possibilidades: as populações freqüentemente
(
permanecem mais ou menos estáveis. ou então variam "com uma

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periodicidade bastante regula '~ em torno de um presumido pon-
to de equilíbrio. Ele não era tão irigênuo a ponto de imaginar que
as populações reais não pudessem comportar-se nunca de manei-
ra irregular. Apenas supôs que o comportamento irregular nada ti-
nha a ver com o tipo de modelos matemáticos que estava descre-
vendo. De qualquer modo, os biólogos tinham de manter esses mo-
delos a certa distância. Se os modelos começassem a trair o conhe-
cimento que seus donos tinham do comportamento real da popu-
lação, a ausência de alguma característica sempre podia explicar a
discrepância: a distribuição de idades na população, algum aspec-
to do território ou da geografia, ou a complicação de ter de contar
dois sexos.
E, o que é mais importante, os ecologistas tinham sempre o
pressuposto de que uma seqüência irregular de números provavel-
mente significava que a calculadora estava interferindo, ou simples-
mente que não era precisa.6 As soluções estáveis é que eram interes-
santes. A ordem era a sua própria recompensa. A tarefa de encon-
trar equações adequadas e fazer o cálculo era, afinal de contas, difí-
cil. Ninguém queria perder tempo numa linha de investigação que
se tornava irregular, não produzindo nenhuma estabilidade. E ne-
nhum bom ecologista esqueceu jamais que suas equações eram ver-
sões muito simplificadas dos fenômenos reais. Todo o objetivo da
extrema simplificação era criar um modelo da regularidade. Para que
ter tanto trabalho para ver apenas o caos?

Mais tarde, diriam que James Yorke tinha descoberto Lorenz


e dado à ciência do caos o seu nome. A segunda parte dessa afirma-
ção é verdadeira.
Yorke era um matemático que gostava de se considerar um
filósofo, embora profissionalmente fosse perigoso dizer isso. Era um
homem brilhante, de fala macia, um admirador meio despenteado
do meio despenteado Steve Smale. Como todo mundo, teve dificul-
dades em avaliar Smale. Mas, ao contrário da maioria, compreen-
deu por que era difícil entendê-lo. Quando tinha apenas 22 anos,
ingressou num instituto interdisciplinar da Universidade de Mary-
land, chamado Instituto para Ciências Físicas e Tecnologia, que mais
tarde viria a chefiar. Era o tipo de matemático que se sentia obriga-
do a dar alguma utilidade às suas idéias da realidade. Preparou um
relatório sobre a disseminação da gonorréia que convenceu o go-
verno federal a modificar as estratégias nacionais para o controle
da doença. Prestou depoimento oficial ao Estado de Maryland du-
7

rante a crise da gasolina, na década de 70, argumentando correta-


mente (mas de maneira pouco convincente) que o sistema de ven-
der gasolina alternadamente em dias pares ou ímpares apenas tor-

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nava maior as filas. 8 Numa época de manifestações antibélicas,
quando o governo liberou uma foto tirada por um avião-espião que
supostamente mostrava multidões pouco densas ·em volta do Mo-
numento a Washington, no momento culminante de um comício,
ele analisou a sombra do monumento para provar que a foto tinha
sido tirada meia hora depois, quando o comício já estava
acabando.9
No instituto, Yorke tinha uma liberdade rara de trabalhar em
problemas que estavam fora dos domínios tradicionais, e desfruta-
va de um contato permanente com especialistas de uma grande va-
riedade de disciplinas. Um deles, um especialista em dinâmica de
fluidos, tinha tomado conhecimento, em 1972 , do trabalho de Lo-
renz intitulado "Fluxo Determinista Não-Periódico'', datado de 1963,
e apaixonara-se por ele, distribuindo cópias a todos os interessados.
Deu uma delas a Yorke.
O trabalho de Lorenz era a espécie de mágica que Yorke vinha
procurando sem mesmo ter consciência disso. 10 Para começar, foi
um choque matemático- um sistema caótico que violava o esque-
ma classificatório otimista original de Smale. Mas não era apenas ma-·
temática; era um modelo físico vivo, um retrato de um fluido em ·
movimento, e Yorke percebeu imediatamente que era algo que de-
sejava que os físicos vissem. Smale tinha dirigido a matemática pa-
ra esses problemas físicos, mas, como Yorke compreendeu bem,
a linguagem matemática continuava sendo uma barreira séria à co-
municação. Se houvesse no mundo acadêmico lugar para uma es-
pécie híbrida, os fisié:o-matemátícos - mas não havia. Embora o
trabalho de Smale sobre os sistemas dinâmicos tivesse começado
a eliminar a barreira, os matemáticos continuavam a falar uma lín-
gua, e os físicos, outra. O fisico Murray Gell-Man disse certa vez: "Os
membros do corpo docente estão familiarizados com certo tipo de
pessoa que parece aos matemáticos um bom físico, e parece aos fí-
sicos um bom matemático. Muito adequadamente, não querem ver
por perto tais pessoas." 11 Os padrões das duas profissões eram di-
ferentes . Os físicos tinham teoremas, os matemáticos, conjeturas.
Os objetos que constituíam os seus mundos eram diferentes. Seus
exemplos eram diferentes.
Smale podia sentir-se satisfeito com um exemplo como o se-
guinte: ~ Ç>_, ma fra ão ent zero e um , e dobre-o.
Abandone em seguida a..pª.f.te inteir a arte à es uerda da , ula
decimal. R ~ ce so. Como a maioria dos números são irra-
cionais e imprevisíveiSem seus detalhes, o processo produzirá uma
seqüência imprevisível de números. O físico veria nisso apenas uma
banal excentricidade m atemática, totalmente sem seµtido, dema-
siado simples e demasiado abstrata para ser útil. Smale, po rém , sa-

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bia intuitivamente que essa excentricidade matemática existia na
essência de muitos sistemas físicos.
Para o físico, um exemplo legítimo era uma equação diferen-
cial que pudesse ser escrita de forma simples. Quando Yorke viu o
trabalho de Lorenz, embora estivesse sepultado numa revista de me-
teorologia, sabia que era um exemplo compreensível aos físicos. Deu
uma cópia a Smale, com seu endereço, para que ele pudesse devolvê-
la. 12 Smale ficou surpreso ao ver que esse meteorologista tinha des-
coberto - dez anos antes - uma espécie de caos que ele próprio
havia considerado matematicamente impossível. Fez várias fotocó-
pias de "Fluxo Determinista Não-Periódico", e com isso criou a lenda
de que Yorke tinha descoberto Lorenz. Todas as cópias do trabalho
que apareceram em Berkeley tinham o endereço de Yorke.
Yorke sentiu que os físicos tinham aprendido a não ver o caos.
Na vida cotidiana, a característica lorenziana da dependência sen-
sível das condições iniciais paira sobre tudo. Um homem sai de ca-
sa, d~ manhã, 30 segundos mais tarde, um vaso de planta deixa de
acertar a sua cabeça por uns poucos milímetros, e em seguida ele
é atropelado por um caminhão. Ou , menos dramaticamente, per-
de o ônibus que passa a cada 10 minutos - sua conexão para um
trem que passa a cada hora. Pequenas perturbações no trajeto diá-
rio de uma pessoa podem ter grandes conseqüências. Um batedor,
diante de uma bola que lhe foi atirada, sabe que aproximadamente
o mesmo golpe nao produzirá aproximadamente o mesmo resul-
tado, sendo o beis.ebol um jogo d e centímetros. A ciência, porém
- a ciência era diferente.
Do ponto de vista pedagógico, uma boa parcela da física e da
matemática consistia - e consiste - em escrever equações dife-
renciais num quadro negro e mostrar aos alunos como resolvê-las.
As equações diferenciais representam a realidade como um conti-
nuum, que se modifica suavemente de lugar para lugar e de tem-
pos em tempos, e não é decomposto em pontos separados ou pas-
sos temporais. Como todo estudante de ciência sabe, é difícil resolver
equações diferenciais. Mas em dois séculos e meio, os cientistas acu-
mularam um enorme conjunto de conhecimentos sobre elas: ma-
nuais e catálogos de equações diferenciais, juntamente com v:ários
métodos para resolvê-las, ou "encontrar uma integral de forma fe-
chada" (closed-form integral), como dirá um cientista. Não é exa-
gero afirmar que um vasto trabalho de cálculo tornou possível a
maior parte dos êxitos práticos da ciência pós-medieval; nem dizer
que ele constitui uma das mais e ngenhosas criações do ser huma-
no na tentativa de construir um modelo do mutável mundo à sua
volta. Assim, quando o cientista domina essa maneira de refletir so-
bre a natureza, passando a lidar confortavelmente com a teoria e a

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dura prática, provavelmente já perdeu de vista um fato: a maioria
das equações diferenciais não pode ser resolvida. .
"Se for possível encontrar a solução de uma equação diferen-
cial", disse Yorke, "então, necessariamente, ela não é caótica, pois
para encontrá-la teremos de encontrar invariantes regulares, coisas
que são conservadas, como o momento angular. Encontramos um
.. ti número suficiente delas, o que nos permite chegar à solução. Mas
'jl.._essa é exatamente a maneira de eliminar a possibilidade de caos." 13
Os sistemas solúveis são aqueles que os manuais mostram. Eles
se comportam bem. Frente a um sistema não-linear, os cientistas te-
rão de substituí-lo por aproxímações lineares, ou encontrar algu-
ma outra incerta porta traseira para uma abordagem. Os manuais
mostraram aos estudantes apenas os raros sistemas não-lineares que
cediam ante essas técnicas. Não apresentaram dependência sensí-
vel das condições iniciais. Os sistemas não-lineares com um caos
real raramente eram ensinados e raramente eram aprendidos. Quan-
do eram encontrados - e o eram - todo o treinamento recebido
levava a rejeitá-los como aberrações. Poucos eram capazes de selem-
\ brar de que os sistemas solúveis, ordenados, lineares é que consti-
tuíam as aberrações. Ou seja, eram poucos os que compreendiam
corno, em sua essência, a natureza é não-linear. 14 Enrico Fermi ex-
clamou certa vez: "Não está escrito na Bíblia que todas as leis da na-
tureza são expressáveis linearmente!" 1s O matemático Stanislaw
' Ulam observou que chamar o estudo do caos de "ciência não-linear"
era como chamar a zoologia de " estudo dos animais
não-elefantes' '. 16
\it Yorke compreendeu. ''A primeira mensagem é a de que há de-
ft--sordem. Os físicos e os matemáticos querem descobrir regularida-
des. Pergunta-se: que utilidade há na desordem? Mas é preciso co-
nhecer a desordem para tratar dela. O mecânico de automóveis que
não sabe da bôrra nas válvulas não é um bom mecânico." 17 Yorke
acreditava-que tanto os cientistas como os não-cientistas podiam
enganar-se facilmente quanto à complexidade, se não estivessem
J, d _ ev id a~ent alertas. Por que os investidores insistem na existên-
f eia de etclos nos preços do ouro e da prata? Porque a periodicida-
de é o comportamento ordenado mais complicado que podem ima-
ginar. Quando vêem um complicado padrão de preços, procuram
alguma periodicidade contida num pequeno ruído aleatório. E os
experimentadores científicos, na física, química ou biologia, não
são dife rentes. "No passado, o comportamento caótico foi visto em
inúmeras circunstâncias'', disse Yorke. "Realizava-se uma experiência
física, e a experiência se comportava de maneira irregular. Tentava-
se corrigi-la, ou então ela e ra abandonada. O comportamento irre-

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gular era explicado alegando-se que havia ruído, ou apenas que a
experiência não dera certo.' '
Yorke convenceu-se de que havia na obra de Lorenz e Smale
uma mensagem que os físicos não estavam ouvindo. Por isso, es-
creveu um artigo para a revista de mais ampla circulação em que lhe
parecia possível publicá-lo, aAmerican Mathematical Monthly. (Co-
mo matemático, ele se considerava incapaz de redigir as idéias nu-
ma forma que as revistas de física achassem aceitável; só anos de-
pois é que descobriria o recurso de colaborar com físicos.) O arti-
go de Yorke era importante pelos seus próprios méritos, mas no fim
seu aspecto mais influente foi seu título misterioso e malicioso: " O
Período Três Subentende o Caos".18 Seus colegas aconselharam-no
a escolher alguma coisa mais sóbria, mas Yorke insistiu na palavra
que veio a significar toda a crescente questão da desordem deter-
minista. Ele conversou também com seu amigo Robert May, biólogo.

May entrou na biologia pela porta dos fundos, por assim di-
zer.19 Começou como físico teórico em Sydney, na Austrália, onde
nasceu, filho de um advogado brilhante, e fez seu pós-doutoramento
em matemática aplicada em Harvard. Em 1971 foi passar um ano no
Instituto de Estudos Avançados de Princeton, mas, em lugar de rea-
lizar o trabalho que dele se esperava, viu-se atraído pela Universi-
dade de Princeton, para conversar com os biólogos de lá.
Ainda hoje os biólogos tendem a não ir, na matemática, muito
além do cálculo. Quem gosta de matemática e tem aptidão para ela
tende mais para a matemática ou a física do que para as ciências da
vida. May era uma exceção. Seu interesse, a princípio, voltava-se para
os problemas abstratos da estabilidade e complexidade, explicações
matemáticas sobre o que permite aos competidores coexistir. Mas
começou logo a focalizar as questões ecológicas mais símples rela-
tivas ao comportamento das populações singulares no tempo. Es-
ses modelos inevitavelmente simples pareciam constituir uma con-
cessão menor. Quando ingressou definitivamente no corpo docente
de Princeton - onde acabaria sendo o deão para a pesquisa-, já
tinha passado muitas horas estudando uma versão da equação da
diferença logística, usando a análise matemática e também uma pri-
mitiva calculadora manual.
Na verdade, escreveu certa vez num quadro negro em Sydney
a equação como um problema para alunos de pós-graduação. Ela
começava a incomodá-lo. "Que diabo acontece quando lambda se
torna maior do que o ponto de acumulação?" 2 º Ou seja, o que
acontece quando a taxa de crescimento de uma população, a sua
tendência para a explosão e a decadência, passava de um ponto crí-
tico? Experimentando diferentes valores desse parâmetro não-linear,

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REGIME ES'D\CIONÁRIO

Regime
e stacioná.rio

Extinç6o

PERÍODO DOIS PERÍODO QUATRO CAOS

DUPLICAÇÃO DE PERÍODO E CAOS. Em lugar de usar diagramas indivi·


duais para mostrar o comportamento das populações com diferentes graus de
fertilidade, Robert May e outros cientistas usaram "um diagrama de bifurca-
ção" para reunir todas as informações numa única imagem.
O diagrama mostra como as modificações num pa.râm.etro -neste caso,
a ascensão e queda de uma população animal- modificam o comportamento
final desse sistema simples. Os valores do pa.râm.etro são representados da es-
querda para a direita; a população final está plotada no eixo vertical. Em cer-
to sentido, o aumento do valor do parànletro significa pressionar o sistema,
aumentando a sua não-linearidade.
Quando ô parâmetro é baixo (esquema), a população se extingue. Quando
o parâmetro sobe (centro), também sobe o nivel de equilíbrio da população. Se
o parâmetro subir mais ainda, o equilíbrio divide-se em dois, assim como o au-
mento do calor num fluido em convecção provoca o aparecimentodainstabili·
dade; a população começa a alternar entre dois niveis diferentes. A divisão, ou
bifurcação, torna-se cada vez mais râpida. Depois o sistema tórna-se caótico
(direita) e a população passa por um número infinito de valores diferentes. (Am·
pliação da região caótica, ver páginas.... .. . )

May verificou que podia mudar drasticamente o caráter do sistema.


t;Aume ntar o parâmetro significava aumentar o grau de n ão -
linearidade, e isso modificava o resultado não só quantitativamen-
te, mas também qualitativamente. Afetava não só a população final
em equilíbrio, mas também a sua possibilidade de chegar a qual-
quer equilíbrio.

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Quando o parâmetro era baixo, o modelo simples de May
fixava-se num regime estável. Quando o parâmetro era alto, esse re-
gime desfazia-se, e a população oscilava entre dois valores alternan-
tes. Quando o parâmetro era muito alto, o sistema - esse mesmo
sistema - parecia comportar-se de maneira imprevisível. Por quê?
O que acontecia, exatamente, nos limites entre os diferentes tipos
de comportamento? May não conseguia descobrir. (Nem os seus alu-
nos de pós-graduação.)
May realizou um programa de intensa investigação numérica
do comportamento dessas equações mais simples. Seu programa
foi análogo ao de Smale: tentava compreender essa equação sim-
ples em sua totalidade, não local, mas globalmente. A equação era
muito mais simples do que qualquer coisa que Smale tinha estuda-
do. Parecia incrível que suas possibilidades de criar ordem e desor-
dem não tivessem sido, há muito, esgotadas. Mas não tinham. Na
verdade, o programa de May era apenas um começo. Ele investigou
centenas de valores diferentes do parâmetro, colocando em ação
a retroalimentação e observando para ver onde - e se - a seqüên-
cia de números se estabeleceria num ponto fixo. Focalizou cada vez
mais de perto o limite crítico entre a estabilidade e a oscilação. Era
como se tivesse o seu tanque de peixes, onde pudesse controlar a
explosão e a decadência dos peixes. Ainda usando a equação logís-
tica x p rox1
. .mo = rx(l-x), May aumentou o parâmetro o mais lenta-
mente que pôde. Se o parâmetro era 2, 7, então a população seria
0 ,6292. Com a elevação do parâmetro, a população final aumen-
tou ligeiramente, também, numa linha que subia de leve ao mover-
se da esquerda para a direita, no gráfico.
De repente, porém, quando o parâmetro passou de 3, a linha
se decompôs em duas. A população de peixes imaginários de May
recusava-se a estabilizar-se num único valor, oscilando entre dois
pontos em anos alternados. Partindo de um número baixo, a popu-
lação crescia e, em seguida, variava até oscilar constantemente de
um l.a do para outro. Aumentando um pouco mais o volume - au-
mentando o parâmetro um pouco mais-, a oscilação voltava a
dividir-se, produzindo uma série de números que se fixavam em qua-
tro valores diferentes, cada qual retornando a cada quatro anos.*

* Com um parâmetro de, digamos, 3.5, e um valor inicial de 0,4, ele veria uma
série de números como esta: 0,4000, 0,8400, 0,4704, 0,8719,
0,3908, 0,8332, 0,4862, 0,8743,
0,3846, 0,8284, 0 ,4976, 0 ,8750,
0,3829, 0,8270, 0,4976, 0 ,8750,
0,3829, 0,8270, 0.,5008, 0,8750,
0,3828, 0,8269, 0,5009 , 0,8750,
0,3828, 0,8269, 0 ,5009, 0 ,8750, etc.

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Agora a população aumentava e diminuía num esquema regular de
quatro anos. O ciclo tinha dobrado novamente - primeiro de anual
para cada dois anos, e agora para quatro. Mais uma vez, o resultante
comportamento cíclico foi estável; diferentes valores de partida para
a população convergiam para o mesmo ciclo quadrienal.
Como Lorenz tinha descoberto uma década antes, a única ma-
neira de dar sentido a tais números e preservar a visão é criar um
gráfico. May traçou um esboço resumindo todo o conhecimento
sobre o comportamento de um sistema assim, em diferentes parâ-
metros. O nível do parâmetro foi traçado horizontalmente, aumen-
tando da esquerda para a direita. A população foi representada ver-
ticalmente. Para cada parâmetro May traçou um ponto que repre-
sentava o resultado final, depois que o sistema atingia o equilíbrio.
À esquerda, onde o parâmetro era reduzido, esse resultado era ape-
nas um ponto, de modo que diferentes parâmetros produziam uma
linha que ascendia ligeiramente da esquerda para a dirdta. Quan-
do o parâmetro passava o primeiro ponto crítico, May tinha de tra-
çar duas populações: a linha se dividia em duas, fazendo um Y de
lado, oU um garfo. Essa divisão correspondia a uma população que
variava de um ciclo de um ano para um ciclo de dois anos.
Com um maior aumento do parâmetro, o número de pontos
dobrava novamente, novamente e novamente. Isso era espantoso
- um comportamento tão complexo, e no entanto tão torturante-
mente regular. "A cobra na grama matemática" foi como o definiu
May. As próprias duplicações eram bifurcações, e cada bifurcação
significava que o padrão de repetição sofria nova decomposição.
Uma população que tinha sido estável oscilava entre diferentes ní-
veis em anos alternados. Uma população que vinha oscilando num
ciclo de dois anos, agora passava a variar no terceiro e quarto anos,
passando assim ao período quatro. .
Essas bifurcações ocorriam cada vez mais depressa- 4, 8 , 16,
32_: .. - e de repente, eram interrompidas. Além de certo ponto, o
"ponto de acumulaçãO'', a periodicidade dava lugar ao caos, ava-
riações que nunca se fixavam . Regiões inteiras do gráfico são total-
mente obscurecidas. Se estivéssemos acompanhando uma popu-
. lação animal governada por essas simplíssimas equações não-
lineares, pensaríamos que as mudanças de ano para ano eram ab-
solutamente aleatórias, como se tivessem sido causadas por ruído
ambiental. Não obstante, no meio dessa complexidade, retornam
subitamente ciclos estáveis. Embora o parâmetro esteja subindo, o
que significa estar a não-linearidade dominando cada vez mais o sis-
. tema, uma janela abria-se de repente com um período regular: um
período ímpar, como 3 ou 7. O padrão da transformação popula-
cional repete-se num ciclo de três ou de sete anos. Em seguida as

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bifurcações da duplicação do período começam novamente num
ritmo mais rápido, passando logo pelos ciclos de 3, 6, 12 ... ou 7, 14,
28 .. ., e em seguida interrompendo-se mais uma vez, com a reintro-
dução do caos.
A princípio, May não conseguiu ver todo esse quadro. Mas os
fragmentos que conseguiu calcular eram bastante vaiiáveis. Num
sistema do mundo real, um observador veria apenas o corte verti-
cal correspondente a um parâmetro de cada vez. Veria apenas um
tipo de comportamento - talvez um regime estável, talvez um ci-
clo de sete anos, talvez uma aleatoriedade óbvia. Não teria meios
de saber que o mesmo sistema, com alguma pequena mudança num
parâmetro qualquer, podia evidenciar padrões de um tipo totalmente
diferente. .
James Yorke analisou esse comportamento com rigor matemá-
tico em seu "O Período Três Subentende o Caos". Provou que, em
qualquer sistema unidimensional, se um ciclo regular do período
três aparece, então o mesmo sistema evidenciará também ciclos re-
gulares de qualquer outra extensão, bem como ciclos completamen-
te caóticos. Foi essa descoberta que constituiu um "choque elétri-
co" para físicos como Freeman Dyson. Era absolutamente contrá-
ria à intuição. Era de supor que seria comum instalar um sistema que
se repetisse numa oscilação do período três sem nunca produzir
o caos. Yorke mostrou que isso era impossível.
Por mais surpreendente que fosse, 21 Yorke acreditava que o
valor de relações públicas de seu artigo superava a substância
matemática.
Isso era verdade, em parte. Poucos anos depois, ao compare-
cer a uma conferência internacional em Berlim Oriental, ele tirou
parte do tempo para fazer turismo e foi dar um passeio de barco pelo
Spree. De repente foi abordado por um russo 'q ue tentava, com in-
sistência, dizer-lhe alguma coisa. Com a ajuda de um amigo polo-
nês, Yorke finalmente compreendeu que o russo afirmava ter com-
provado o mesmo resultado. O russo recusou-se a dar detalhes, di-
zendo apenas que mandaria o seu trabalho. Quatro meses depois,
este chegou, A.N. Sarkovskii tinha, realmente, feito a descoberta pri-
meiro, num trabalho intitulado ''Coexistência de Ciclos de um Ma-
pa CÓntínuo de uma Linha para Si Mesma".22 Yorke, porém, ofere-
ceu mais do que um resultado matemático. Tinha mandado uma
mensagem para os físicos : o caos está por toda parte; é estável; é es-
truturado. Levou também à crença de que os sistemas complicados,
cujos modelos eram tradicionalmente construídos com equações
diferenciais contínuas.e complexas, podiam ser compreendidos em
termos de fáceis mapas discretos.

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JANELAS DE ORDEM DENTRO DO CAOS. Até m esmo com a mais simples
equação, a região de caos num diagrama de bifurcação evidencia uma estru-
tura complicada- muito mais ordenada do que Robert May poderia supor, ini-
cialmente. Primeiro, as bifurcações produzem períodos de 2 , 4 , 8 , 16 . . . De-
pois começa o caos, sem p eríodos regulares. Mas então, quando o sistema se
intensifica, aparecem jane las com períodos ímpares. Um período estável 3 sur-
ge (ampliação, alto à dire ita), depois uma duplicação de período recomeça: 6,
12, 24 .. . A estrutura é infinitamente profunda. Quando segmentos são am:
pliados (como o segmento médio da janela do período 3, embaixo à direita),
revelam-se semelhantes a todo o diagrama.

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O encontro turístico entre esses matemáticos frustrados e ges-
ticulantes era um sintoma de um permanente problema de comu-
nicações entre a ciência soviética e a ocidental. Em parte por causa
da língua, e em parte por causa das restrições às viagens do lado so-
viético, sofisticados cientistas ocidentais tinham, com freqüência,
repetido trabalhos que já existiam na bibliografia soviética. O flo-
rescimento do caos nos Estados Unidos e na Europa tinha inspira-
do um enorme volume de trabalho paralelo na União Soviética. Por
outro lado, tàl florescimento causou também considerável espan-
to, porque grande parte da nova ciência não era assim tão nova em
Moscou. Matemáticos e físicos soviéticos tinham uma forte tradi-
ção de pesquisas em caos, que remontava à obra deA.N. Kolmogo-
rov, na década de S0. 23 Além disso, tinham a tradição de trabalho
em conjunto que sobreviveu à divergência entre matemáticos e fí-
sicos em outros lugares.
Assim, os cientistas soviéticos foram receptivos a Smale - sua
ferradura provocou considerável agitação na década de 60. Um bri-
lhante físico matemático, Yasha Sinai, traduziu rapidamente siste-
mas semelhantes para os termos termodinâmicos. Da mesma for-
ma, quando a obra de Lorenz chegou finalmente aos físicos ociden-
tais na década de 70, difundiu-se ao mesmo tempo na União Sovié-
tica. E em 1975, enquanto Yorke e May lutavam para conquistar a
atenção de seus colegas, Sinai e outros rapidamente reuniam um po-
deroso grupo de trabalho de físicos, cujo centro ficava em Gorki.
Nos últimos anos, alguns especialistas ocidentais em caos24 visita-
ram regularmente a União Soviética para se informarem; a maioria
deles, porém, teve de contentar-se com a versão ocidental da sua
ciência.
No Ocidente, Yorke e May foram os primeiros a sentir todo o
choque da duplicação dos períodos e a comunicá-lo à comunida-
de de cientistas. Os poucos matemáticos que tinham notado o fe-
nômeno trataram-no como uma questão técnica, uma excentrici-
dade numérica, quase como uma brincadeira. Não porque o con-
siderassem trivial, mas porque o consideravam característico do seu
universo especial.
Os biólogos não tinham levado em conta as bifurcações que
conduziam ao caos porque lhes faltava sofisticação matemática e
motivação para investigar o comportamento irregular. Os matemá-
ticos tinham visto as bifurcações, mas não se detiveram nelas. May,
homem com um pé em cada um desses dois mundos, compreen-
deu que estava entrando num domínio surpreendente e profundo.

Para entender melhor este sistema simplíssimo, os cientistas


precisavam de computadores de maior capacidade. 2 s Frank Hop-

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pensteadt, do Instituto Courant de Ciências Matemáticas da Univer-
sidade de Nova York, tinha um computador tão potente que resol-
veu fazer um filme.
Hoppensteadt, matemático que mais tarde manifestou gran-
de interesse pelos problemas biológicos, alimentou a equação la-
. gística não-linear centenas de milhões de vezes em seu Control Data
6600. Fotografou a tela do computador a cada mil valores diferen-
tes do parâmetro, mil sintonizações diferentes. As bifurcações sur-
giram, depois o càos - e em seguida, dentro do caos, pequenas pon-
tas de ordem, efêmeras em sua instabilidade. Rápidos fragmentos
de çomportamento periódico. Vendo seu próprio filme, Hoppens-
teadt teve a sensação de que estava voando sobre uma paisagem es-
tranha. Num momento, ela parecia nada ter de caótico. No momento
seguinte, estava cheia de tumulto imprevisível. Hoppensteadt nunca
se recuperou desse espanto.2 6
May viu o filme de Hoppensteadt. Começou também a cole-
cionar análogos de outros campos, como genética, economia e di-
nâmica dos fluidos. Como divulgador do caos, tinhfl duas vantagens
em relação aos matemáticos puros. A primeira era que para ele as
equações simples não podiam representar com perfeiÇão a reali-
dade. Sabia que eram apenas metáforas - por isso, começou 'a in-
dagar qual a amplitude de aplicação das metáforas. A segunda era
que as revelações do caos contribuíam diretamente para uma vee-
mente controvérsia em seu campo.
A biologia populacional vinha sendo, há muito, um ímã para
as controvérsias. Havia uma tensão nos departamentos de biologia,
por exemplo, entre os biólogos moleculares e os ecologistas. Os pri-
meiros achavam que faziam ciência de verdade, com problemas con-
cretos, claros, ao passo que o trabalho dos ecologistas era vago. Os
segundos acreditavam que as obras-primas técnicas da biologia mo-
lecular eram apenas desenvolvimentos inteligentes de problemas
bem definidos.
Dentro da própria ecologia, tal como May a via, uma impor-
tante polêmica em princípios da década.de 70 ocupou-se da natu-
reza das modificações populacionais. 27 Os ecologistas dividiram-
se quase que de acordo com as personalidades. Alguns encaravam
a mensagem enviada pelo mundo como algo ordenado: as popula-
ções eram reguladas e estáveis- com exceções. Outros entendiam
uma mensagem oposta: as populações variam irregularmente -
com exceções. E não foi coincidência o fato de terem esses cam-
pos opostos também se dividido quanto à aplicação da matemáti-
ca objetiva às confusas questões biológicas. Os partidários das po-
pulações estáveis argumentavam que elas tinham de ser reguladas
por mecanismos deterministas. Os defnsor~ das populações ir-

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1.0

-·----ãi:i:i

o ....,
"'
.-i ..;
a "'
..;
N
00
..;
00
..; ...;
: 00
..;

o contorno do diagrama de bifurcação tal como May o viu pela primeira vez,
antes que computadores mais potentes revelassem sua rica estrutura.

regulares argumeri.tavam que elas tinham de ser influenciadas por


fatores ambientais imprevisíveis, que anulavam qualquer sinal de-
terminista que pudesse existir. Ou a matemática determinista pro-
duzia o comportamento regular, ou o ruído externo aleatório pro-
duzia o comportamento aleatório. Era essa a opção.
No contexto desse debate, o caos ap.resentava uma mensagem
surpreendente:
•• 1
os modelos deterministas simples podiam produ-
zir o que parecia um comportamento aleatório. O comportamento
tinha, na realidade, uma estranha estrutura fina, embora qualquer
de suas partes parecesse indistingüível do ruído. A descoberta atingia
o núcleo da discussão.
Quando May examinou mais e mais sistemas biológicos, atra-
vés do prisma de modelos caóticos simples, continuou a ver resul-
tados que violavam a intuição clássica dos pesquisadores. Em epi-
demiologia, por exemplo, sabia-se bem que as epidemias tendem
a ocorrer em ciclos, regulares ou iq-egulares. Sarampo, pólio, rubéola
- todas elas têm uma freqüência que sobe e cai. May compreen-
deú que as oscilações podiam ser reproduzidas por um modelo não-
linear, e ficou pensando no que aconteceria se tal sistema recebes-
se um súbito empurrão - uma perturbação do tipo que poderia
corresponder a um programa de inoculação. A intuição ingênua in-
dica que o sistema se modificará suavemente na direção desejada.
Mas, na realidade, May constatou que enormes oscilações provavel-
mente ocorrem. Mesmo que a tendência a longo prazo viesse a de- '
crescer, com firmeza, o caminho para um novo equilíbrio seria in-
terrompido por picos surpreendentes. De fato, nos dados dos pro-
gramas reais, como uma campanha para acabar com a rubéola na

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Grã-Bretanha, os médicos tinham visto oscilações exatamente co-
mo as previstas pelo modelo de May. Não obstante, qualquer fun-
cionário de saúde, vendo um acentuado aumento a curto prazo na
rubéola ou na gonorréia, suporia que o programa de vacinação ti-
nha falhado.
Em poucos anos, o estudo do caos deu um forte impulso à bio-
logia teórica, levando biólogos e físicos a uma colaboração cientí-
fica inconcebível alguns anos antes. Ecologistas e epidemiologis-
tas desenterrara111 dados velhos, que cientistas antigos tinham posto
de lado como demasiado irregulares para serem usados. O caos de-
terminista foi encontrado nos registros da Municipalidade de No-
va York sobre epidemias de sarampü2 8 e em 200 anos de variações
da população de linces do Canadá, registradas pelos caçadores da
Companhia da Baía de Hudson. Os biólogos moleculares começa-
ram a encarar as proteínas como sistemas em movimento. Os fisio-
logistas viam os órgãos não como estruturas estáticas, mas como
complexos de oscilações, alguns regulares e outros, não.
May sabia que em todas as ciências os especialistas tinham ob-
servado e discutido o comportamento complexo dos sistemas. Cada
disciplina considerava seu ramo específico de caos especial em si
mesmo. Era desesperador. Mas se a evidente aleatoriedade pudes-
se vir dos modelos simples? E se os mesmos modelos simples
aplicavam-se à complexidade em diferentes campos? May com-
preendeu que as espantosas estruturas que ele mal começava a in-
vestigar não tinham uma conexão intrínseca com a biologia. Ficou
imaginando quantos cientistas de outras áreas teriam a mesma sur-
presa que ele. Pôs-se a trabalhar naquilo que acabou considerando
seu artigo "messiânico'', uma resenha para a revista Nature, em 1976.
O mundo seria melhor, afirmava May, se todos os estudantes
jovens recebessem uma calculadora de bolso e fossem estimulados
a brincar com a equação da diferença logística. 2 9 O simples cálcu-
lo, por ele exposto em detalhes no artigo de Nature, podia neutra-
lizar o senso deformado das possibilidades do mundo, provocado
por uma educação científica clássica. Modificaria a maneira de se
refletir sobre tudo, desde a teoria dos ciclos econômicos até a pro-
pagação dos boatos.
A ciência do caos deveria ser matéria de ensino, sustentava ele.
Era tempo de se reconhecer que a educação padrão de um cientis-
ta dava a impressão errônea. Por mais complexa que a matemática
linear pudesse ser, com suas transformadas de Fourier, suas funções
ortogonais, suas técnicas de regressão, May afirmava que ela inevi-
tavelmente enganava os cientistas sobre o mundo, onde predomi-
nava a não-linearidade. ''A intuição matemática assim desenvolvi-
da prepara mal o estudante para enfrentar o comportamento bizar-

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ro evidenciado pelo mais simples dos· sistemas discretos não~
lineares", escreveu ele.3º
''Não só na pesquisa, mas ~mbé no mundo cotidiano da po-
lítica e da economia, estaríamos todos i:nelhores se um maior nú-
mero de pessoas compreendesse que os sistemas não-lineares sim-
~ ples não dispõem necessariamente de propriedades dinâmicas sim-
ples." ·

Notas
1·- May, Schaffer, Yorke, Guckenheimer. A famosa resenha de May sobre as lições
do caos em biologia p·opulacional é "Simple Mathematical Models with Very
Complicated Dynamics", Nature, 261 (1976), pp. 459-67. Também: "Biologi-
catPopulations with Nonoverlapping Generations: Stable Points, Stable Cy-
cles and Chaos;', Science, 1?6 (1974), pp. 645-47; eMay e GeorgeF. Oster, "Bi-
furcations and Dynamic Complexity in Sim pie EcoÍOgical Models", The Ameri-
can Naturalist, 110 (1976), pp. 573-99. Um excelente levantamento do desen-
volvimento dos modelos matemáticos de populações, antes de caos, é Sha~
ron E. Kingsland, Modeling Nature: Episodes in the History of Population
Ecology (Chicago, University of Chicago Press, 1985).
2 - May e John Seger, "Ideas ln Ecology: Yesterday and Tomorrow"; pré-
publicação, Princeton University, p. 25.
3. - May e George F. Os ter, "Bifurcations an.d Dynamk Complexity in Simple Eco-
logical Models ", The A"!erican Naturalist, 110 (1976), p. 573.
4 - May.
5 - J. Maynard Smith, Mathematical ldeas in Bio!Ogy (Cambridge, Cambridge
University Press, 1968), p. 18; Harvey J. Gol d, Mathematical Modeling ofBi-
ological Systems.
6- May.
7 - Gonorrhea Transmission Dynamics and Contrai. Herbert W. Hethcote e James
A. Yorke (Berlim, Springer-Verlag, 1984).
8 - Pelas simulações no computador, Yorke descobriu que o sistema forçava os
motoristas a fazer mais viagens aos postos de gasolina e manter seus tanques
mais cheios, durante todo o tempo. Portanto, o sistema aumentava o volume
de gasolina parado, em desperdício, nos automóveis do país, em qualquer
momento.
9 - Relatórios de aeroportos provaram, mais tarde, que Yorke estava certo.
10 - Yorke.
11 - Murray Gell-Mann, "The Concept of the Institute", em Emerging Syntheses
in Science, atas das sessões de trabalho iniciais do Santa Fe Institute (Santa Fe,
The Santa Fe Institute, 1985), p. 11 .
12 - Yorke, Smale.
13 - Yorke.

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14 - Um ensaio legível sobre a linearidade, não-linearidade e o uso histórico dos
computadores para o entendimento das diferenças encontra-se em David
Campbell,James P. Crutchfield, J. Doyne Farmer e EricaJen, "Experimental
Mathematics: The Role ofComputation in Nonlinear Science", Communica-
tions of the Associationfor Computing Machinery, 28 (1985), pp. 374-84.
15 - Fermi, citado em S.M. Ulam, Adventures of a Mathematician (Nova York,
Scribners, 1976). Ulam também descreve a origem de outra importante ten-
dência para a compreensão da não-linearidade, o teorema de Ferrni-Pasta-Ulam.
Procurando problemas que pudessem ser computados no novo computador
MANIAC em Los Alamos, os cientistas tentaram um sistema dinâmico que era
simplesmente uma corda em vibração - um modelo simples, "tendo, além
disso, um termo não-linear pequeno e fisicamente correto". Viram os padrões
se juntarem numa periodicidade inesperada. Como conta Ulam: "Os resulta-
dos foram, qualitativamente, muito diferentes do que até mesmo Fermi, com
seu grande conhecimento dos movimentos ondulatórios, teria esperado.( .. .)
Para nossa surpresa, a corda começou a comportar-se como num jogo de ca-
deiras musicais•..." Fermi não deu importância aos resultados, que não tive-
ram maior divulgação, mas alguns matemáticos e físicos os desenvolveram
e eles se tornaram uma parte específica do folclore local de Los Alamos. Ad-
ventures, pp. 226-28.
16 - Citado em "Experimental Mathematics", p. 374.
17 - Yorke.
18 - Escrito em colaboração com seu aluno Tien-Yien Li. "Period Three Implies
Chaos", American Mathematical Monthly, 82 (1975), pp. 985-92.
19 - May.
20 - May. Foi essa pergunta aparentemente irrespondível que o levou dos méto-
dos analíticos para a experimentação numérica, com o objetivo de propor-
cionar intuição, pelo menos.
21 - Yorke.
22 - "Coexistence of Cycles of a Continuous Map of a Line Into Itself", Ukraini-
an Mathematics ]ournal, 16 (1964), p. 61.
23 - Sinai, comunicação pessoal, 8 de dezembro de 1986.
24 - Por exemplo, Feigenbaum, Cvitanovié.
25 - Hoppensteadt, May.
26 - Hoppensteadt.
27 - May.
28 - William M! Schaffer e Mark Kot, "Nearly One-dimensional Dynamics in an
Epidemic",]ournal of Theoretical Biology, 112 (1985), pp. 403-27; Schaffer,

* Brincadeira de salão na qual os participantes dançam à volta de uma fileira


de cadeiras, cujo número é inferior, em uma, ao deles, e que, ao parar a músi-
ca, devem correr para sentar-se; os que não o conseguem vão sendo elimina-
dos, e a cada rodada retira-se uma cadeira, de modo que no fim dois participan-
tes disputam a última cadeira. (N. do T.)

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"Stretching and Folding in Lynx Fur Returns: Evidence for a Strange Attrac-
tor in Nature'', The American Naturalist, 124 (1984), pp. 798-820.
29 - " Simple Mathematical Models", p. 467.
30 - Jbid.

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C•A•O•S

Uma Geometria
da Natureza
E no entanto surge Uilla relação,
Uma pequena relação que se expande como a sombra
De Uilla nuvem na areia, uma forma na encosta de um
morro.
- WALLACE STEVENS,
"Connoisseur of Chaos"

B ENOIT MANDELBROT foi .c onstruindo, no decorrer dos


anos, um quadro da realidade em sua mente 1. Em 1960
era ainda uma sombra de idéia, uma imagem apagada, fora
de foco. Mandelbrot, porém, conseguia reconhecê-la quando a via,
e lá estava ela, no quadro-negro, no gabinete de Hendrik Houthakker.
Mandelbrot era um matemático dos sete instrumentos que fora
adotado e protegido pela ala da pesquisa pura da lnternational Bus-
iness Machines Corporation. Ele andara se avent.urando pela eco-
nomia, estudando a distribuição das grandes e pequenas rendas.
Houthakker, professor de economia de Harvard, convidara-o para
fazer uma palestra, e quando o jovem matemático chegou ao Cen-
tro Littauer, o imponente edifício da Faculdade de Economia bem
ao norte da Harvard Yard, ficou espantado ao ver suas descobertas
já diagramadas no quadro do colega mais velho.2 Mandelbrot fez
uma piada meio queixosa: Como pôde meu diagrama aparecer an-
tes da minha palestra? - , mas Houthakker não sabia do que ele es-
tava falando. O diagrama nada tinha a ver com distribuição de ren-
da; representava oito anos de preços do algodão.
Também do ponto de vista de Houthakker havia alguma coisa
estranha naquele gráfico. Os economistas supunham gerahnente que

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os preços de uma mercadoria como o algodão dançavam segundo
duas músicas diferentes, uma ordenada, a outra aleatória. A longo
prazo, os preços seriam impulsionados regularmente pelas forças
reais da economia - a ascensão e queda da indústria têxtil da Nova
Inglaterra, ou a abertura de rotas comerciais internacionais. A cur-
to prazo, os preços oscilariam de forma mais ou menos aleatória.
Infelizmente, os dados de Houthakker não correspondiam às suas
expectativas. Havia um número demasiado grande de saltos. A maio-
ria das variações de preço eram pequenas, é·claro, mas a razão en-
tre as pequenas e grandes mudanças não era tão alta quanto ele es-
perava. A distribuição não baixava com rapidez suficiente. Tinha uma
longa cauda. . .
O modelo padrão para traçar a variação era, e é, a curva em for-
ma de sino. No meio, onde se projeta a corcova do sino, a maioria
dos dados se situa em torno da média. Dos lados, os extremos mais
baixos e mais altos caem rapidamente. Um estatístico usa uma cur-
va em forma de sino da mesma maneira que um médico de doen-
ças internas usa o estetoscópio, como o instrumento a que primei-
ro recorre. Ela representa o padrão, a chamada d~stribução gaus-
siana das coisas - ou, simplesmente, a distribuição normal. Diz al-
guma coisa sobre a natureza da aleatoriedade. O problema é que,
quando variam as coisas, tentam permanecer próximo de um pon-
to médio e conseguem espalhar-se em torno da média de maneira
razoavelmente tranqüila. Mas, como meio de encontrar caminhos
na selva econômica, as noções padrão deixam alguma coisa a de- ·
sejar. Como disse o prêmio Nobel Wassily Leontief: "Em nenhum
campo da investigação empírica foi usada uma maquinaria estatís-
tica tão maciça e sofistiçada, com resultados tão indiferentes."3
Qualquer que fosse a maneira pela qual traçasse as modifica-
ções nos preços do algodão, Houthakker não conseguia enquadrá-
las no modelo campanular. Mas elas formavam uma imagem cuja
silhueta Mandelbrot estava começando a ver em lugares surpreen-
dentemente diferentes. Ao contrário da maioria dos matemáticos,
ele enfrentava os problemas firmado na sua intuição sobre feitios
e formas. Desconfiava da análise, mas confiava em suas imagens men-
tais. E já tinha a idéia de que outras leis, com comportamento dife-
rente, podiam governar fenômenos ~tocási ale_:,!tórios. Quan-
do voltou ao gigantesco centro de pesquisas da IBM em Yorktown
Heights, Nova York, rios morros ao norte do Westchester County,
levava os dados de Houthakker sobre o algodão numa caixa de car-
tões de computador. Depois, mandou pedir mais ao Departamen-
to de Agricultura em Washington, remontando a 1900.
Como cientistas em outros campos, os economistas estavam
atravessando o umbral da era do computador, percebendo lenta-

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TH•
NORMAL
LAW OI' . .lltOll
•TAND• OUT IN TH•
•XP'•lll•NCI: OI' MANKIND
A8 ONK 01" THI: BROADl'•T
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INTl:llP'lll:TATION º" THI: ••••e DATA o•TAIN•D •Y o•Bl:llYAnoN ANO l:XP'l:lllMl:NT
A curva em forma de sino.

mente que teriam o poder de recolher, organizar e manipular infor-


mações numa escala antes inimaginável. No entanto, nem todos os
tipos de informação estavam disponíveis, e informações que podiam
ser colhidas ainda precisavam de ser colocadas em forma utilizável.
A era do cartão perfurado apenas começava, também. Nas ciências
exatas, os pesquisadores achavam mais fácil reunir seus milhares ou
milhões de pontos que representavam informações. Os economis-
tas, como os biólogos, ocupavam-se de um mundo de seres vivos
e dotados de vontade. Os economistas estudavam a mais evanes-
cente de todas as criaturas.
Mas pelo menos o ambiente dos economistas produzia um flu-
xo constante de números. Do ponto de vista de Mandelbrot, os pre-
ços do algodão constituíam uma fonte ideal de dados. Os registros
eram completos e antigos, remontando a um século ou mais, sem
cessação de continuidade. O algodão era um dos produtos do uni-
verso de compra e venda com um mercado centralizado - e por-
tanto registros centralizados-, porque na passagem do século to-
do o algodão do Sul fluía através da bolsa de Nova York a caminho
da Nova Inglaterra, e os preços de Liverpool estavam também liga-
dos aos de Nova York.
Embora os economistas dispusessem de poucos elementos
quando se tratava de analisar preços de mercadorias ou preços de
ações, isso não significava que lhes faltasse um ponto de vista fun-
damental sobre a maneira pela qual as variações de preços funcio-
navam. Pelo contrário, partilhavam de alguns artigos de fé. Um de-
les era a convicção de que as modificações pequenas e transitórias
nada tinham em comum com as grandes mudanças a longo prazo.
As variações rápidas ocorriam aleatoriamente. Os altos e baixos em
pequena escala, durante as transações de um dia, são apenas ruído
imprevisível e desinteressante. As mudanças a longo prazo, porém,
são totalmente diferentes. As amplas oscilações de preços durante

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meses, ou anos, ou décadas são determinadas por profundas for-
ças macroeconômicas, tendências de guerra ou recessão, forças que
devem, em tese, levar a um entendimento. De um lado, o zumbido
da variação a curto prazo; do outro, o sinal da modificação a longo
prazo.
No caso, essa dicotomia não tinha um lugar na imagem da rea-
lidade que Mandelbrot estava desenvolvendo. Em vez de separar as
pequenas e as grandes mudanças, sua imagem se juntava. Ele pro-
curava padrões que não estavam numa ou noutra estala, mas por
todas elas. Estava longe de ser óbvio como se deveria traçar o qua-
dro que ele tinha em mente, mas Mandelbrot sabia que teria de ha-
ver uma espécie de simetria, não uma simetria de direita e esquer-
da, ou alto e baixo, mas uma simetria de grandes e pequenas escalas.
Na verdade, quando Mandelbrot processou os dados do pre-
ço do algodão nos computadores da IBM, obteve os espantosos re-
sultados que estava procurando. Os números que produziam aber-
rações do ponto de vista da distribuição normal produziam sime-
tria do ponto de vista da escala. Cada variação específica de preço
era randômica e imprevisível. Mas a seqüência de variações era in-
dependente da escala: as curvas para as variações diárias e as men-
sais correspondiam-se perfeitamente; E, o que era inacreditável, ana- .
lisado à maneira de Mandelbrot, o grau de variação permanecia: cons-
tante durante um tumultuado período de 60 anos, que viu duas guer-
ras mundiais e uma depressão.
Dentro das mais desordenadas resmas de dados vivia um tipo
inesperado de ordem. Considerando-se a arbitrariedade dosnúme-
ros que examinava, Mandelbrot perguntou-se por que iria manter-
se alguma lei? E por que deveria ela aplicar-se igualmente às rendas
pessoais e aos preços do algodão?
Na verdade, a formação econômica de Mandelbrot era tão pre-
cária quanto a sua capacidade de comunicar-se com os economis-
tas. Ao publicar um artigo sobre suas constatações, precedeu-o de
um artigo explicativo de um dos seus alunos, que repetia o mate-
rial do professor num inglês de economistas. Mandelbrot passou
a outros interesses. Levou consigo, porém, a crescente disposiÇão
de investigar o fenômeno da escala. Parecia ser uma característica
dotada de vida própria - uma assinatura.

Apresentado para uma conferência, anos depois("... lecionou


economia em Harvard, engenharia em Yale, fisiologia na Faculda-
de Einstein de Medicina ..."), ele observou com orgulho: "Muitas ve-
zes, quando ouço a relação de meus cargos anteriores, fico pensando
se realmente existo. A intersecção desses conjuntos é, certamente,

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vazia." 4 Na verdade, desde sua época de IBM, Mandelbrot não ti-
nha conseguido existir numa longa lista de campos diferentes. Era
sempre um marginal, adotando uma abordagem não-ortodoxa de
um aspecto pouco elegante da matemática, investigando discipli-
nas nas quais rarâmente era bem recebido, escondendo suas maio-
res idéias em tentativas de publicar seus artigos, sobrevivendo prin-
cipalmente pela confiança de seus empregadores em Yorktown
Heights. Fez incursões em campos como a economia e depois
retirou-se, deixando atrás de si idéias atormentadoras, mas raramente
um corpo de trabalhos bem fundamentados .
Na história de caos, Mandelbrot teve um caminho próprio. Não
obstante, a imagem da realidade que se estava formando em seu es-
pírito em 1960 evoluiu a partir de uma estranheza na geometria pro-
priamente dita. Para os físicos que procuravam ampliar o trabalho
de pessoas como Lorenz, Smale, Yorke e May, esse matemático irri-
tadiço continuava sendo um espetáculo a margem - mas suas técni-
cas e sua linguagem tornaram-se parte inseparável da nova ciência.
Essa descrição não teria parecido exata a quem o tivesse co-·
nhecido no final de sua vida, com a testa alta e imponente e sua lis-
ta de títulos e honrarias, mas Benoit Mandelbrot é compreendido
melhor se visto como um refugiado. Nasceu em Varsóvia em 1924,
de uma família judia da Lituânia. O pai era vendedor de roupas por
atacado, a mãe, dentista.5 Atenta à realidade geopolítica, a família ·
transferiu-se para Paris em 1936, atraída em parte pela presença, ali,
de um tio de Mandelbrot, Szolem Mandelbrot, matemático. Quan-
do a guerra chegou, a família continuou um pouco adiante dos na-
zistas, mas uma vez, abandonando tudo, exceto umas poucas ma-
las, e juntando-se à correnteza de refugiados que congestionaram
as estradas ao sul de Paris. Chegaram finalmente à cidade de Tulle.
Durante algum tempo Benoit viveu como aprendiz de fabri-
cante de ferramentas, distinguindo-se perigosamente pela sua altura
e sua educação. Foi uma época de visões e medos inesquecíveis, po-
rém mais tarde ele não se lembrava de ter enfrentado muitas difi-
culdades pessoais, lembrando-se, em lugar disso, das ocasiões em
que foi bem recebido, em Tulle e outros lugares, pelos professores,
alguns deles famosos , também atingidos pela guerra. No todo, sua
vida escolar foi irregular e sofreu interrupções. Ele dizia nunca ter
aprendido o alfabeto ou , o que é mais importante, a tabua<..la de mul-
tiplicar além de 5. Ainda assim, tinha talento.
Quando Paris foi lÍbertada, ele submeteu-se ao exame de ad-
missão, oral e escrito à Escola Normal e Escola Politécnica, o qual
durava um mês. Apesar de sua falta de preparo, passou. Entre ou-
tras coisas, havia uma prova de desenho, e Mandelbrot descobriu
que dispunh? de uma facilidade latente de copiar a Vênus de Milo.

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Nas partes matemáticas do exarrie - exercícios de álgebra formal
e análise integrada - , conseguiu disfarçar sua falta de formação com
a ajuda de sua intuição geométrica. Tinha compreendido que, frente
a qualquer problema analítico, podia, quase sempre, refletir sobre
ele em termos de alguma forma mental. Dada uma forma, podia en-
contrar um meio de transformá-la, alterando-lhe as simetrias,
tornando-a mais harmoniosa. Com freqüência, essa transformação
levava diretamente a uma solução do problema análogo. Em física
e química, onde não podia aplicar a geometria, teve notas baixas.
Em matemática, porém, problemas que ele jamais poderia ter re-
solvido com as técnicas adequadas desapareciam ante sua manipu- ·
lação das formas
A Escola Normal e a Escola Politécnica eram instituições de eli-
te, sem paralelo na educação americana. Em conjunto, preparavam
menos de 300 alunos, em cada classe, para as universidades e o ser-
viço público. Mandelbrot começou na Normal, a menor e mais pres-
tigiosa das duas mas deixou-a poucos dias depois pela Politécni-
ca. Ele já era um refugiado de Bourbaki.6
Talvez só na França, com seu amor pelas academias autoritá-
rias e regras tradicionais de ensino, pudesse ter surgido Bourbaki.
Começou como um clube, fundado na esteira agitada da Primeira
Guerra Mundial por Szolem Mandelbrot e um punhado de outros
jovens matemáticos despreocupados, que procuravam reconstruir
a matemática francesa. A deformada demografia da guerra tinha dei-
xado um hiato etário entre professores e alunos de universidade,
interrompendo a tradição de continuidade acadêmica, e aqueles
jovens talentosos pretendiam estabelecer novos alicerces para a prá-
tica da matemática. O nome do grupo foi resultado de uma piada
entre eles, adotado em virtude de seu som estranho e atraente -
como mais tarde se supôs - do nome de um general francês de ori-
gem grega que viveu no século XIX. Bourbaki nasceu com uma jo-
vialidade que logo desapareceu.
Seus membros reuniam-se secretamente. Nem mesmo todos
os seus nomes são conhecidos. O número de membros era fixo.
Quando um deles deixava o grupo aos 50 anos, como era exigido,
outro era eleito pelos que ficavam. Eram os melhores e os mais in-
teligentes entre os matemáticos, e em pouco tempo sua influência
estendeu-se pelo continente.
Bourbaki começou, em parte, como uma reação contra Poin-
caré, o grande homem de fins do século XIX, pensador fenomenal-
mente prolífico, escritor, cujas preocupações com o rigor eram me-
nores do que as de muita gente. Poincaré dizia: Sei que está certo,
e então para que prová-lo? Bourbaki achava que Poincaré tinha dei-
xado uma base frágil para a matemática, e o grupo começou a es-

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crever um enorme tratado, de estilo cada vez mais fanático, que pre-
tendia colocar a disciplina nos trilhos. A análise lógica era básica.
O matemático tinha de começar com princípios fundamentais só-
lidos e deduzir deles todo o resto. O grupo ressaltou o primado da
matemática entre as ciências, insistindo também no seli desligamen-l
to das outras ciências. A matemática era a matemática - não podia
ser avaliada em termos de sua aplicação a fenômenos físicos reais. '
E, acima de tudo, Bourbaki rejeitava o uso de imagens. O matemá-
tico podia ser enganado pelo aparato visual. A geometria não era
digna de confiança. A matemática devia ser pura, formal e austera . ~
Não era um fenômeno estritamente francês. Nos Estados Uni-
dos, também, os matemáticos se estavam afastando das exigências
das ciências físicas, com a mesma firmeza com que artistas e escri~
tores rejeitavam as demandas do gosto popular. Uma sensibilidade
hermética predominava. A matéria dos matemáticos fechou-se em
si mesma; seu método tornou-se formalmente axiomático. O ma-
temático podia orgulhar-se ao dizer que seu trabalho nada explica-
va no mundo ou na ciência. Essa atitude foi benéfica, e os matemá-
ticos lhe deram grande valor. Mesmo quando trabalhava para unir
matemática e ciência natural, Steve Smale acreditava, tão profun
damente quanto lhe era possível, que a matemática devia ser al-
go em si mesma .7 Com a auto-suficiência veio a clareza. E aclare-
za também andava de mãos dadas com o rigor do método axiomá-
tico. Todo matemático sério, compreende que o rigor é a força de-
finidora da disciplina, o esqueleto de aço sem o qual tudo desaba.
O rigor é que permitia aos matemáticos adotar uma linha de refle-
xão que se estendia pelos séculos, e continuá-la, com uma garantia
firme.
Mesmo assim, as exigênciás do rigor tiveram conseqüências
imprevistas para a matemática do século XX, levando a matéria a
ter um tipo especial de evolução. 8 O pesquisador escolhe um pro-
. blema e começa por tomar uma decisão sobre o caminho a seguir.
Acontecia que, com freqüência, essa decisão envolvia uma escolha
entre um caminho matematicamente possível e outro interessante
do ponto de vista da compreensão da natureza. Para o matemático,
a opção era clara: abandonar por algum tempo qualquer conexão
óbvia com a natureza. Seus alunos acabariam enfrentando uma de-
cisão semelhante e teriam de fazer uma escolha semelhante.
Em nenhum outro lugar esses valores estavam codificados de
maneira tão rigorosa quanto na França, e ali Bourbaki teve um êxi-
to que seus fundadores não poderiam ter imaginado. Seus precei-
tos, estilo e notação tornaram-se obrigatórios. Ele alcançou a inata-
cável probidade resultante do controle de todos os melhores alu-
nos e da produção de um fluxo constante de matemática bem-

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sucedida. Seu predomínio na Escola Normal foi total e, para Man-
delbrot, insuportável. Abandonou-a por causa de Boorbaki, e uma
década depois deixava a França pela mesma razão, indo morar nos
Estados Unidos. Em poucas décadas, a incansável abstração de Bour-
baki começaria a mor~ de um choque provocado pelo computa-
dor, com sua capacidade de promover uma nova matemática do
olho. Mas isso aconteceu tarde demais para Mandelbrot, incapaz de
viver segundo os formalismos de Bourbaki e avesso a abandonar
sua intuição geométrica.

Acreditando sempre na criação de sua própria mitologia, Man-


delbrot incluiu a seguinte declaração em seu verbete no Wbo s Wbo:
"A ciência seria arruinada se (como o esporte) colocasse a compe-
tição acima de tudo, e se esclarecesse as regras da competição
retirando-se totalmente para especialidades definidas com rigor. Os
raros eruditos que são nômades por opção são essenciais ao bem-
estar intelectual das disciplinas estáticas." Esse nômade por opção,
que também se chamava de pioneiro por 'n ecessidade,9afastou-se
do mundo acadêmico ao deixar a França, aceitando o abrigo do Cen-
tro de Pesquisas Thomas]. Watson, da IBM. Numa viagem de 30
anos da obscuridade até a eminência, nunca viu seu trabalho ser acei-
to pelas muitas disciplinas às quais era dirigido. Até mesmo os ma-
temáticos diziam, sem maldade manifesta, que Mandelbrot podia
ser muitas coisas, mas não era.um deles.
Encontrou lentamente seu caminho, sempre ajudado por um
conhecimento extravagante dos esquecidos desvios da história cien-
tífica. Aventurou-se pela lingüística matemática, explicando uma lei
da distribuição das palavras. (Pedindo desculpas pelo simbolismo,
insistiu que o problema chamou-lhe a atenção a partir de um co-
mentário sobre um livro que ele pegou na cesta de lixo de um ma-
temático puro, para ter alguma coisa que ler no metrô parisiense.)
\ Investigou a teoria dos jogos. Trabalhou ocasionalmente com eco-
nomia. Escreveu sobre as regularidades de escala na distribuição das
grandes e pequenas cidades. A idéia geral que dava unidade ao seu
trabalho permanecia como pano de fundo, ainda sem formação.
Em princípios de sua permanência na IBM, logo depois does-
tudo dos preços de mercadorias, ele deparou com um problema prá-
tico de grande interesse para a empresa que o empregava. Os enge-
nheiros estavam perplexos com o problema do ruído nas linhas te-
lefônicas usadas para transmitir informações de computador a com-
putador. A corrente elétrica transmite a informação em pacotes se-
parados, e os engenheiros sabiam que quanto mais forte a corren-
te, melhor para afastar o ruído. Verificaram, porém, que certo ruí-

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do espontâneo nunca podia ser eliminado: De quando em vez, ele
apagava algum sinal, criando um erro.
Embora pela sua natureza o ruído de transmissão fosse alea-
tório, sabia-se muito bem que ocorria em grupos. Períodos de co-
municações sem erro eram seguidos de períodos de .erros. Conver-
sando com os engenheiros, Mandelbrot ficou logo sabendo que ha-
via certo folclore sobre os erros, que nunca fora colocado pores-
crito porque não correspondia a nenhuma das maneiras padrões
de raciocinar: quanto mais examinavam esses grupos, mais compli-
cados os padrões de erro pareciam. Mandelbrot mostrou uma ma-
neira de descrever a distribuição dos erros que previa exatamente
os padrões observados. Contudo, era muito singular. Entre outras
coisas, tornava impossível o cálculo de uma média de erros - um
número médio de erros por hora, ou por minuto, ou por segundo.
Em média, no esquema de Mandelbrot, os erros se aproximavam
da dispersão infinita.
Sua descrição funcionou fazendo separações cada vez mais pro-
fundas entre períodos de transmissão limpa e períodos de erros. Su-
ponhamos que dividíssemos um dia em horas. Uma hora passaria
sem quaisquer erros. Depois, uma hora cometeria erros. E depois,
uma hora passaria sem erros.
Mas suponhamos então que dividíssemos a hora com erros em
períodos menores de 20 minutos. Veríamos que também nesse ca-
so alguns períodos seriam totalmente perfeitos, ao passo que ou-
tros teriam uma seqüência de erros. De fato, contrariando a intui-
ção, Mandelbrot afirmou que era impossível encontrar um perío-
do no qual os erros estivessem dispersos continuamente. Dentro
de qualquer seqüência de erros, por mais breve que fosse, havia sem-
pre períodos de transmissão totalmente livres de erros. Além dis-
so, ele descobriu uma relação geométrica 10 coerente entre as se-
qüências de erros e os espaços de transmissão perfeita. Em escalas
de uma hora ou um segundo, a proporção de períodos livres de er-
ro para os períodos cheios de erros permanecia constante. (Uma vez,
para horror de Mandelbrot, um grupo de dados pareceu contradi-
zer seu esquema - mas verificou-se que os engenheiros não tinham
gravado os casos mais extremos, na suposição de que eram
irrelevantes.)
Os engenheiros não tinham estrutura para compreender ades-
crição de Mandelbrot, mas os matemáticos, sim. Com efeito, Man-
delbrot estava reproduzindo uma construção abstrata conhecida
como teoria dos conjuntos de Cantor, assim chamada em homena-
gem ao seu descobridor, o matemático Georg Cantor, que viveu no
século XIX . Para fazer um conjunto de Cantor, começamos com o
intervalo de números de O a 1, representado por um segmento de

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•• ••
li li li li
•• • •
li li li li
li li li li li li 1111 li li li li li li li li
1111 1111 1111 1111 1111 1111 1111 1111

A POEIRA DE CANTOR. Começa-se oom uma linha; corta-se o terço médio;


depois, corta-se o terço médio dos segmentos restantes, e assim por diante. O
conjunto de Cant.or é a poeira de pontos que fica. São infinit.os, mas sua exten-
são total é O.
· As caracteristicas paradoxais dessas construções perturbe.raro os ma-
temáticos do século XIX, mas Mandelbrot vi'uo conjunt.o de Cant.or como o mo-
delo para a ocorrência de erros numa linha de transmissão eletrônica. Os en-
genheiros viram periodos de transmiBBão livre de erros, misturados com pe-
riodos nos quais os erros vinhBJ:Il em séries. Examinadas mais detalhadam.en-
te, essas séries também oontinhBJ:Il periodos livres de erro dentro delas. E as-
sim por diante-era um exemplo de tempo fractal. Em todas as escalas de tem-
po, de horas a segundos, Mandelbrot descobriu que a relação entre os erros
e a transmissão limpa permiµiecia constante. Essas poeiras, afirmou ele, são
indispensáveis na criação de modelos de intermitência.

linha. Eliminamos então o terço médio. Isso resulta em dois segmen-


tos, e retiramos o terço médio de cada um deles (de um nono para
dois nonos e de sete nonos para oito nonos). Isso resulta em qua-
tro segmentos, e eliminamos o terço médio de cada um deles - e
assim por diante, até o infinito. O que resta? Uma estranha "poei-
ra" de pontos, dispostos em grupos, um número infinito, que ape-
sar disso é infinitamente dispersv. Mandelbrot pensava nos erros
de transmissão como um conjunto de Cantor disposto no tempo.
Essa descrição altamente abstrata teve um peso prático para os
cientistas que tentavam decidir entre diferentes estratégias para o
controle do erro. Em especial, significou que, em lugar de tentar au-
mentar a força do sinal para eliminar uma qµantidade cada vez maior
de ruído, os engenheiros deviam usar um sinal modesto, aceitar a
inevitabilidade dos erros e usar uma estratégia de redundância pa-
ra descobri-los e corrigi-los. Mandelbrot também modificou a ma-
neira como os engenheiros da IBM viam a causa do ruído. Séries
de erros sempre levaram os engenheiros a procurar, em algum lu-

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gar, um homem com uma chave de parafusos. Os padrões de esca-
la de Mandelbrot, porém, indicaram que o ruído jamais seria expli-
cado com base em acontecimentos locais específicos.
Mandelbrot voltou-se para outros dados, extraídos dos rios do
mundo. Os egípcios mantêm, há milênios, registros da cheia do Nilo.
É, para eles, uma preocupação que nada tem de passageira. O Nilo
sofre variações excepcionalmente grandes, subindo muito em alguns
anos e baixando em outros. Mandelbrot classificou a variação em
termos de dois efeitos, comuns também na teoria econômica, e que
ele chamou de Efeitos Noé e José.
O Efeito Noé significa a descontinuidade: quando uma quan-
tidade se modifica, pode modificar-se de uma maneira quase que
arbitrariamente rápida. Os economistas imaginaram tradicionalmen-
te que os preços se modificam suavemente - depressa ou devagar,
conforme o caso, mas sem saltos, no sentido de que passam por to-
dos os níveis intermediários entre um ponto e outro. Essa imagem
do movimento foi tomada de empréstimo à física, como tantas ou-
tras coisas da matemática aplicada à economia. Mas estava errada.
Os preços podem variar em saltos instantâneos, com a mesma ra-
pidez das notícias num teletipo, e mil corretores podem mudar de
opinião. Mandelbrot afirmava que estaria fadada ao fracasso uma es-
tratégia do mercado de ações baseada na suposição de que uma ação
seria vendida por $50 em certo momento de sua queda de $60 para
. $10 .
O efeito José significava a persistência. 11 Ocorreram então se-
te anos de grande abundância na terra do Egito. E virão depois
deles sete anos de escassez. Se a linguagem bíblica pretendia signi-
ficar periodicidade, estava muito simplificada, é claro. Mas as cheias
e as secas persistem realmente. Apesar de uma aleatoriedade subja-
cente, quanto mais prolongada a seca, mais provável é que se torne
mais longa. Além disso, a análise matemática da cheia do Nilo mos-
trou que a persistência se aplicava tanto a períodos de séculos, co-
mo de décadas. Os Efeitos Noé e José pressionavam em diferentes
direções, mas resumem-se nisto: as tendências na natureza são reais,
mas podem desaparecer tão rapidamente quanto surgem.
Descontinuidade, surtos de ruídos, poeira de Cantor - fenô-
menos como estes não eram mencionados nas geometrias dos úl-
timos dois mil anos. As formas da geometria clássica são as linhas
e os planos, os círculos e as esferas, os triângulos e os cones. Repre-
sentam uma poderosa abstração da realidade, e inspiraram uma vi-
gorosa filosofia de harmonia platônica. Euclides fez delas uma geo-
metria que durou dois milênios, a única geometria conhecida da
maioria das pessoas, até hoje. Os artistas viram nelas uma beleza
ideal, os astrônomos ptolemaicos construíram uma teoria do uni-

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verso com elas. Para compreender a complexidade, porém, essas
formas revelam-se o tipo inadequado de abstração.
As nuvens não são esf~a, como Mandelbrot gosta de dizer.12
As montanhas não são cones. O relâmpago não percorre uma linha
reta. A nova geometria espelha um universo que é irregular, e não
redondo; áspero, e não liso. É uma geometria das reentrâncias, de-
pressões, do que é fragmentado, torcido, emaranhado e entrelaça-
do. O entendimento da complexidade da natureza esperava a sus-
peita de que a complexidade não era apenas algo aleatório, não era
apenas um acaso. Exigia a convicção de que o interessante na .traje-
tória do raio, por exemplo não_é sua direção, mas sim a distribui-
ção dos seus ziguezagues. O trabalho de Mandelbrot fez uma afir-
maÇão sobre o mundo, a afirmação de que tais formas ímpares en-
cerram um significado. As reentrâncias e os emaranhados são mais
do que imperfeições deformantes das formas clássicas da geometria
euclideana. São, muitas vezes, as chaves para a essência das coisas.
Qual a essência da linha de um litoral, por exemplo? Mandel-
brot fez essa pergunta num artigo que se tornou um ponto crucial
de seu pensamento: "Que extensão tem o litoral da Grã-Bretanha?".
Mandelbrot tomou cOntato com a questão da linha litorânea
num obscuro artigo pós.turno de um cientista inglês, Lewis F. Ri-
chardson, que focalizou um surpreendente número de problemas
que mais tarde se tornaram parte do caos. Escreveu sobre a previ-
são numérica do tempo na década de 20, estudou a turbulência dos
fluidos lançando um saco de pastinagas brancas no Canal de Cape
Cod e indagou num artigo de 1926: "Os Ventos têm uma Velocida-
de?" ("Essa pergunta, que à primeira vista é tola, melhora à medida
que a examinamos", escreveu.) Preocupado com as linhas litorâneas
e as sinuosas fronteiras nacionais,13 Richardson examinou enciclo-
pédias na Espanha e em Portugal, na Bélgica e na Holanda, e des-
cobriu discrepâncias de 20 % na extensão estimada de suas fron-
teiras comuns.
A análise que Mandelbrot fez dessa questão pareceu aos seus
ouvintes dolorosamente óbvia ou absurdamente falsa . Ele verificou
que a maioria das pessoas respondia à pergunta de uma de duas ma-
neiras: "Não sei, não é a minha área'', ou "Não sei, mas consultarei
a enciclopédia".
De fato, afirmou ele, qualquer litoral é - em certo sentido -
infinitamente longo. Num outro sentido, a resposta depende do me-
tro usado. Examinemos um método plausível de medir. Um agri-
mensor toma uma série de compàssos de pontas secas, abre-os nu-
ma extensão de um metro, e mede com eles o litoral. O número de
metros resultante é apensas uma aproximação da extensão real, por-
que os compassos pulam por cima de recortes e curvas inferiores

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a um metro, mas de qualquer modo o agrimensor anota o número.
Abre depois os compassos numa extensão menor, digamos 30 cen-
tímetros, e repete o processo. Chega a urna extensão um pouco
maior, porque os compassos abarcarão mais detalhes e serão neces-
sários mais de três marcações de 30 centímetros para cobrir adis-
tância antes coberta pela medida de um metro. Ele anota esse nú-
mero, e em seguida fixa o compasso em dez centímetros e recomeça
a medição. Essa experiência mental, usando compassos de ponta
seca imaginários, é uma maneira de quantificar o efeito da obser-
vação de um objeto a diferentes distâncias, em escalas diferentes.
Um observador que tente calcular a extensão do litoral da Inglater-
ra a partir de um satélite obterá um resultado menor do que o ob-
servador que tente a mesma coisa caminhando pelas suas enseadas
e praias, que por sua vez fará uma estimativa menor do que urna les-
ma que percorre cada pedra.
O bom senso sugere que, embora continuem a crescer, essas
estimativas se aproximarão de determinado valor final, que é a ver-
dadeira extensão do litoral. Em outras palavras, as medidas devem

UM LITORAL FRACTAL. Um litoral gerado pelo computador: os detalhes são


aleatórios, mas a dimensão fractal é constante, de modo que o grau de irregu-
laridade parece o mesmo, por mais que a imagem seja ampliada.

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convergir. E, de fato, se o litoral fosse uma forma euclideana, como
um círculo, esse método de somar distâncias em linha reta cada vez
menores realmente convergiria. Mas Mandelbrot verificou que, à
proporção que a escala de medição se torna menor, a extensão me-
dida do litoral aumenta sem limite, baías e penínsulas revelam sub-
baías e subpenínsulas ainda menores - pelo menos até escalas atô-
micas, onde o processo finalmente é concluído. Talvez.

Como as medidas euclideanas - extensão, profundidade, es~


pessura - não abrangem a essência das formas irregulares, Man-
delbrot voltou-se para uma idéia diferente, a idéia da dimensão. A
dimensão é uma propriedade com uma vida muito mais rica para
os cientistas do que para os não-cientistas. Vivemos num mundo
tridimensional, o que quer dizer que precisamos de três números
para especificar um ponto: por exemplo, longitude, latitude e alti-
tude. As três dimensões são imaginadas como direções em ângu-
los retos umas com as outras. Isso ainda é um legado da geometria
euclideana, onde o espaço tem.três dimensões, um plano tem duas,
a linha tem uma e o ponto, zero.
O processo de abstração 14 que permitiu a Euclides conceber
objetos monodimensionais ou bidimensionais projeta-se facilmente
em nosso uso dos objetos cotidianos. Uin mapa rodoviário, por
exemplo, para todos os fins práticos, é quintessencialmente uma coi-
sa bidimensional, um plano. Usa suas duas dimensões para trans-
mitir informações de um tipo precisamente bidimensional. Na rea-
lidade, é claro, os mapas rodoviários são tão tridimensionais como
tudo o mais,, mas suaespessuraé tão pequena(e tão irrelevante pa-
ra a sua finalidade) que pode ser esquecida. Efetivamente, um ma-
pa rodoviário permanece bidimensional, mesmo quando dobrado.
Da mesma maneira, um fio é realmente monodimensional e uma
partícula não tem nenhuma dimensão.
~ . Então qual a dimensão de um rolo de barbante? Depende do
1f ponto de vista, respondeu Mandelbrot. A uma grande distância, o
' rolo é apenas um ponto com dimensões zero. Mais de perto, o rolo
parece encher um espaço esférico, ocupando três dimensões. De
mais perto ainda, o barbante passa a ser percebido, e o objeto torna-
se efetivamente monodimensional, embora a dimensão esteja ema-
ranhada em volta de si mesma, de uma maneira que usa o espaço
tridimensional. A noção de quantos números são necessários para
especificar um ponto continua útil. 15 De longe, não é preciso ne-
nhum - o ponto é a única coisa que existe. De perto, são necessá-
rios três. De mais perto ainda , um é bastante - qualquer posição
ao longo do barbante é única , quer esteja estendido, ou emaranha-
do num rolo.

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Passando-se às perspectivas microscópicas, o barbante
transforma-se em colunas tridimensionais, as colunas transformam-
se em fibras monodimensionais,' o material sólido dissolve-se em
pontos de dimensão zero. Mandelbrot recorreu, de forma pouco
matemática, à relatividade: "A noção de que um resultado numéri-
co deve depender da relação do objeto com o observádor é does-
pírito da física neste século e constitui até mesmo uma ilustração
exemplar dele."
Deixando de lado a filosofia, porém, a dimensão real de um
objeto acaba sendo diferente de suas três dimensões comuns. Uma
fraquezà do argumento verbal de Mandelbrot parecia ser seu re-
curso a noções vagas, "de longe'', "um pouco mais de perto". E no
intervalo entre esses pontos? Certamente não havia um limite cla-
ro no qual um rolo de barbante passa de um objeto tridimensional
a um objeto monodimensional. Não obstante, longe de ser uma fra~
queza, a natureza mal definida dessas transições leva a uma nova idéia
sobre o problema das dimensões.
Mandelbrot foi afém das dimensões O, 1, 2, 3 ... até uma impos- ti/
sibilidade aparente: as dimensões fractais. Ess_a idéia é i.im ato de equi- ?rf.
librismo conceituai. Para os não-matemáticos, ela exige uma volun-
tária suspensão da incredulidade. Não obstante, tem muita força.
A dimensão fracionada: torna-se uma maneira de medir pro-
priedades que, sem isso, não têm definição clara: o grau de aspere-
za, ou de fragmentação, ou de irregularidade de um objeto. Um li-
toral sinuoso, por exemplo, apesar de sua imensurabilidade em ter-
mos de extensão, tem certo grau característico de rugosidade. Man-
delbrot especificou maneiras de calcular a dimensão fracionada dos
objetos reais, levando-se em conta alguma técnica de construção
de uma forma, ou alguns dados, e fez com a sua geometria uma afir-
mação sobre os padrões irregulares que estudara na natureza: a de ~
que o grau de irregularidade permanece constante em diferentes es-
calas. Com uma freqüência surpreendente, tal afirmação se mostra
verdadeira. O mundo exibe, repetidamente, uma irregularidade re-
gular.
Numa hibernal tarde em 1975, 16 ciente das correntes parale-
las que surgiam na física, e ao preparar seu primeiro trabalho im-
portante para publicação em livro, Mandelbrot achou que precisa-
va de um nome para as suas formas, suas dimensões e sua geome-
tria. Seu filho tinha chegado da escola, e Mandelbrot se viu folhean-
do o dicionáiio de latim do menino. Encontrou o adjetivofractus,
do verbo,frangere, quebrar, fraturar. A associação com os princi-
pais cognatos ingleses - fracture e fraction - parecia adequada.
Mandelbrot criou a palavra (substantivo e adjetivo, inglês e francês)
fractal.

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O FLOCO DE NEVE DE KOCH. "Um modelo imperfeito, mais vigoroso, de um
litoral", nas palavras c;le Mandelbrot. Para construir uma curva de Koch,
começa-se com um triângulo com a extensão lateral de 1. No meio de cada la-
do, acrescenta-se um novo triângulo com um terçó do tamanho, e assim por
diante. A extensão do limite é 3 x 4/3 x4/3 x 4 /3 .. .. infinito. Não obstante, a
área permanece menor do que a área de um círculo traçado à volta do triângu-
lo original. Assim, uma linha infinitamente longa cerca uma área finita.

Para a imaginação, um fractal é uma maneira de v,er o infinito.


Imaginemos um triângulo, tendo 30 centímetros de cada la-
do. Imaginemos agora certa transformação - uma série de regras
específicas, bem definidas, facilmente repetidas. Marquemos um
terço da parte do meio de cada lado; sobrepondo ali um novo triân-
gulo, de forma idêntica, mas com um terço do tamanho do primeiro.
~\ O resultado é uma estrela de Davi. Em lugar de três segmen -
1}- tos de 30 centímetrós, o contorno dessa forma tem agora 12 seg-
mentos de 10 centímetros. Em lugar de três pontas, temos seis.
Tomemos então cada um dos doze lados, repetindo a transfor-
mação, apondo um triângulo menor no terço médio de cada um des-
ses lados. Repitamos a operação, até o infinito. O contorno torria-
se cada vez mais detalhado, assim como um conjunto de Cantor se
~ ~orna cada vez !Dais esparso. Assemelha-se a uma espécie de floco
'Jr:de n eve ideal. E conhecido como a curva d~oç h - uma curva é
uma linha ligada, seja reta ou não-, ein homenagem a Helge von
. Koch, o matemático sueco que primeiro a descreveu em 1904.
Examinando-a, torna-se evidente que a curva de Koch tem as-
pectos interessantes. Entre outros, é uma loop contínuo que não se
cruza nunca, porque os novos triângulos de cada lado são sempre

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pequenos o bastante para evitar o encontro com outro. Cada trans-
. formação acrescenta uma pequena área à parte interna da curva, mas
· a área total permanece finita, não muito maior do que o triângulo
original, na verdade. Se traçarmos um círcµlo em torno do triân-
gulo original, a curva de Koch jamais irá além dele.
Não obstante, a curva em si é infinitamente longa, tão longa
· quanto uma linha reta euclideana que se estendesse nas beiradas de
um universo ilimitado. Assim como a primeira transformação subs-
titui um segmento de 30 centímetros por quatro segmentos de 10
centímetros, cada transformação multiplica a extensão total em qua-
tro terços. E~tac! g p_ar~O. g _ ~e _ u~ - ~ t ~ !: ~ - ªQ.i n{i!t<, çle;n-
tro de um espaço finito, perturbou m _ l,j!Q~ dQ ~ mat~1Iáico ~ ga pas-
sagem ê'.to?!c1:!Joq1Jlf sé ocuparâm :do problema. AcúrVâde Koch
era monstruôsa":úm désrespeito a toda intuição justa sobre as for-
mas e - quase nem era preciso dizer - patologicamente diferente
de qualquer coisa encontrada na natureza.
Nessas circunstâncias, seu trabalho teve pouco impacto na épo-
ca, mas alguns matemáticos igualmente obstinados imaginaram ou-
tras formas com algumas das características bizarras da curva de
Koch. Houve curvas de Peano. Houve tapetes de Sierpiiíski (Sier-
pinski carpets) e gaxetas de Sierpiiíski (Sierpinskí gaskets). Para fazer
um tapete, começa-se com um quadrado, divide-se esse quadrado
três por três em nove quadrados iguais, e retira-se o quadrado cen-
tral. Repete-se a operação nos oito quadrados restantes, deixando
um buraco quadrado no centro de cada um. A gaxeta é a mesma coi-
sa, mas com triângulos equiláteros em lugar de quadrados; ela tem
uma propriedade difícil de imaginar, a de que qualquer ponto arbi-
trário é um ponto de bifurcação, uma forquilha na estrutura. Ou seja,
difícil de imaginar até que se tenha pensado na Torre Eiffel, 17 uma
boa aproximação tridimensional, cujas traves, vigas mestras e as-
nas se projetam numa treliça de membros cada vez menores, uma
cintilam-e rede de pequenos detalhes. Eiffel, é claro, não podia le-
var essa disposição ao infinito, mas compreendeu o sutil aspecto
de engenharia que lhe permitia retirar peso sem retirar também força
estrutural.
A mente não pode visualizar toda a capacidade infinita que a
complexidade tem de auto-embutir-se. Mas, para alguém que pen-
se como um geômetra sobre a forma, esse tipo de repetição da es-
trutura em escalas cada vez menores pode abrir todo um mundo.
Explorar essas formas, apertar os dedos mentais nas bordas borra-
chosas de suas possibilidades, era uma espécie de jogo, e Mandel-
brot teve um prazer infantil em ver variações que ninguém tinha visto
ou compreendido antes. Quando não tinham nomes, ele as batiza-
va: cordas e folhas, esponjas e espumas, coalhadas e gaxetas.

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• ·•·
• • • ~ -
~ lil
~
I!

• • • []I ..

CONSTRUINDO COM BURACOS. Alguns matemáticos, em princípios do sé-


culo XX, conceberam objetos de aparência monstruosa, feitos pela técnica de

#f
rescentar ou retirar muitas partes infinitamente. Uma dessas formas é o
pete de Sierpi.áski, construído cortan,do-se ~no do centro ~e um qua-
drado ; depois cortam-se os centros dos oito quadrado menores que ficaram;
eassimsucessivamente. Umobjetrid ns ionalágé~_!
ger; um rendac;lo d e aparência sólida que tem uma área de superficie infinita,
e"'fiào obstant.e, um vol ume O.

A dimensão fracionadà mostrou ser precisamente o metro ade-


quado. Em certo sentido, o grau de irregularidade correspondia à
eficiência do objeto na ocupação do espaço. Uma linha euclideana
simples, monodimensional, não ocupa nenhum espaço. Mas o con-
torno da curva de Koch, com sua extensão infinita apertando-se nu-

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ma área finita, ocupa espaço. É mais do que uma linha, porém me-
nos do que um plano. É maior do que unidimensional, porém me-
nos do que uma forma bidimensional. Usando técnicas criadas pe-
los matemáticos no princípio do século e depois quase esquecidas,
Mandelbrot pôde caracterizar precisamente as dimensões fraciona- ·
das. Para a curva de Koch, a multiplicação .e stendida infinitamente
por quatro terços dá uma dimensão de 1,2618.
Ao seguir esse caminho, Mandelbrot teve duas grandes vanta-
gens sobre os poucos matemáticos que tinham refletido sobre tais
formas. Uma era o seu acesso aos recursos de computaÇão assoda-
dos aO nome IBM . Era uma outra tarefa idealmente adequada à for-
ma específica de idiotismo em alta velocidade do computador. As-
sim como os meteorologistas precisavam realizar os poucos cálcu-
los idênticos em milhões de pontos vizinhos na atmosfera, também
Mandelbrot precisava realizar uma transformação facilmente pro-
gramada um sem-número de vezes. A engenhosidade podia con-
ceber as transformações. Os computadores poderiam executá-las
- por vezes com resultados inesperados. Os matemáticos de prin-
cípios do século XX chegavam rapidamente à barreira dos cálcu-
los, 1ª como a barreira enfrentada antes pelos protobiólogos sem mi-
croscópios. Ao examinar um universo de detalhes cada vez meno-
res, a imaginação só pode ir até certo ponto.
Como disse Mandelbrot: 19 "Houve um longo hiato de cem
anos no qual o desenho não teve nenhum papel na matemática, por-
que a mão, o lápis e a régua estavam esgotados. Eram bem compreen-
didos e já não ocupavam a linha de frente. E o computador não existia.
"Quando comecei a praticar este jogo, havia uma ausência to-
tal de intuição. Era necessário criar uma intuição partindo do na-
da. A intuição tal como era exercitada pelos instrumentos habituais
- a mão, o lápis e a régua- achava essas formas monstruosas e pa-
tológicas. A velha intuição era enganosa. As primeiras imagens fo-
ram para mim uma grande surpresa; depois, comecei a reconhecer
algumas imagens. a partir de imagens anteriores, e assim por diante.
' 'A intuição não é algo dado. Treinei minha intuição para con-
siderar óbvias formas inicialmente rejeitadas como absurdas, e acho
que todos podem fazer o mesmo."
A outra vantagem de Mandelbrot era a imagem da realidade que
tinha começado a formar em seus encontros com os preços do al-
godão, com o ruído nas transmissões eletrônicas e com as cheias
dos rios. A imagem estava começando a.entrar em foco, agora. Seus
estudos dos padrões irregulares nos processos naturais e sua inves-
tigação das formas infinitamente complexas tiveram um ponto in-
telectual em comum: uma característica de auto-semelhança, Aci" W
ma de tudo, fractal significa auto-semelhante. · /h
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A auto-semelhança é a simetria através das escalas. Significa re-
. corrência, um padrão dentro de outro padrão. Os gráficos de pre-
ços e os gráficos de rios de Mandelbrot mostravam uma auto-
semelhança, porque não só produziam o detalhe em escalas cada
· vez menores, como também produziam o detalhe com certas me-
didas constantes. Formas monstruosas conio a curva de Koch exi-
bem uma auto-semelhança porque parecem exatamente a mesma
coisa, mesmo sob grande ampliação. A auto-semelhança está con-
tida na técnica de construção das curvas - a mesma transforma-
ção é repetida em escalas cada vez menores. A auto-semelhança é
. uma característica facilmente identificável. Suas imagens estão por
toda parte, na cultura: no reflexo infinitamente profundo de uma
pessoa entre dois espelhos, ou na caricatura em que um peixe co-
me um peixe menor, que come um peixe menor, etc. Mandelbrot
gosta de citar Jonathan Swift: "E assim, observam os naturalistas,
uma pulga I Tem pulgas menores que a atormentam / E estas tem
pulgas menores que a5 picam, I e assim por diante, ad infinitum."

No nordeste dos Estados Unidos, 20 o meihor lugar para estu-


dar terremotos é o Observatório Geofísico de Lamont-Doherty, um
grupo de discretos edifícios escondidos nos bosques do sul does-
tado de Nova York, logo a oeste do rio Hudson: Foi em Lamont-
Doherty que Christopher Scholtz, professor da Universidade de Co-
lúmbia que se especializava na forma e estrutura da terra sólida, co-
meçou a pensar nos fractais.
Enquanto os matemáticos e físicos teóricos ignoravam o tra-
balho de Mandelbrot, Scholz era precisamente o tipo de cientista
pragmático, funcional, mais capaz de usar os instrumentos da geo-
metria fractal. Tomara conhecimento do nome de Benoit Mandel-
brot na década de 6o, quando este trabalhava em economia, e Scholz
era aluno de pós-graduação do curso M.I.T. e passava grande parte
do tempo ocupado com uma questão que resistia à solução, a pro-
pósito de terremotos. Sabia-se muito bem, havia 20 anos, que adis-
tribuição dos grandes e pequenos terremotos seguia determinado
padrão matemático, precisamente o mesmo padrão de escalas que
parecia governar a distribuição de rendas pessoais numa economia
de livre mercado. Essa distribuição era observada em toda parte na
terra, onde quer que os terremotos fossem contados e medidos.
Considerando-se a irregularidade e imprevisibilidade d05 terremo-
tos, sob outros aspectos, valia a pena indagar que tipo de proces-
sos físicos poderiam explicar essa regularidade. Ou pelo menos as-
sim parecia a Scholz. A maioria dos sismólogos satisfazia-se em re-
gistrar o fato e seguir em frente.

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Schoiz lembrou-se do nome de Mandelbrot e em 1978 com-
prou um livro profusamente ilustrado, estranhamente erudito, cheio
de equações, chamado Fractais: Form, Chance and Dimension. Era
como se Mandelbrot tivesse reunido num livro meio desconexo tu-
do o que sabia ou suspeitava sobre o universo. Em alguns anos esse
livro, e seu substituto, revisto e ampliado, Tbe Fractal Geometry of
Nature, tinha vendido mais exemplares do que qualquer outro li-
vro de alta matemática. Seu estilo era abstruso e exasperante, por
· vezes espirituoso, literário e opaco. O próprio Mandelbrot chamava-
º de "um manifesto e um caderno de anotações".21
Como poucos especialistas num punhado de outros campos,
especialmente cientistas que trabalhavam nas partes materiais da na-
tureza, Scholz passou vários anos tentando imaginar o que fazer com
esse livro. Estava longe de ser óbvio. Fractais era, como disse Scholz,
"não um livro que ensinava a fazer, mas um livro intrigante".22
Scholz, porém, estava muito interessado em superfícies, presentes
em todo o livro. Verificou que não conseguia parar de pensar so-
bre o potencial das idéias de Mandelbrot. Começou a elaborar uma
maneira de usar os fractais para descrever, classificar e medir os pe-
daços do seu mundo científico.
Percebeu logo que não estava sozinho, embora muitos anos
tivessem de transcorrer antes que conferências e seminários sobre
os fractais começassem a multiplicar-se. As idéias unificadoras da
geometria fractal reuniram cientistas que achavam que as suas ob-
servações eram idiossincráticas e que não dispu'nham de uma ma-
neira sistemática de compreendê-las. As percepções da geometria
fractal ajudaram os cientistas que estudavam a maneira pela qual as
coisas se fundiam, a maneira pela qual se separavam ou a maneira
pela qual se fragmentavam . É um método de examinar os materiais
- as superfícies microscopicamente irregulares dos metais, os pe-
quenos orifícios e canais de rochas porosas portadoras de petró-
leo, as paisagens fragmentadas de uma zona de terremotos.
Para Scholz, competia aos geofísicos descrever a superfície da
terra, a superficie cuja intersecção com os oceanos lisos cria as li-
nhas costeiras. No alto da terra sólida estão superfícies de outro ti-
po, superfícies de fendas. Falhas e fraturas dominam de tal modo
a estrutura da superfície da terra que se tornam a chave de qualquer
boa descrição, mais importante, no geral, do que o material de que
se ocupam. As fraturas entrecruzam-se na superfície da terra em três
dimensões, criando o que Scholz extravagantemente chamou de
"esquizosfera". Elas controlam o fluxo ao fluido através do chão -
o fluxo da água, o fluxo do petróleo e o fluxo do gás natural. Con-
trolam o comportamento dos terremotos. Era importante ent ~ nder

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as superfides, porém Scholz acreditava que sua profissão estava num
dilema. Na verdade, não havia nenhuma estrutura.
Os geofísicos examinavam as superfícies da mesma maneira
que qualquer pessoa faria, como formas. Uma superfície podia ser
lisa. Ou podia ter determinada forma. Podia-se olhar para o contorno
de um Fusca, por exemplo, e traçàr aquela superficie como uma cur-
va. A curva seria medida pelos conhecidos processos euclidianos.
Podia-se usar uma equação para isso. Mas.na descrição de Scholz,
só se poderia examinar aquela superfície através de uma estreita faixa
espectral. Seria como examinar o universo através de um filtro ver-
melho - vê-se o que acontece naquele comprimento de onda da
luz, mas perde-se tudo o que acontece nos comprimentos de onda
de outràs cores, para não falarmos da vasta gama de atividades em
partes do espectro correspondente à radiação infravermelha ou às
ondas de rádio. O espectro, nessa analogia, corresponde à escala
Ver a superfície de um Volkswagen em termos de sua forma eucli-
diana é vê-la apenas na escala de um observador a dez ou cem me-
tros de distância. E o observador que está a um quilômetro, ou a cem
quilômetros de distância? Ou a um milímetro, ou a um mícron?
Imaginemos o traçado da superfície da terra, vista de uma dis-
tância de cem quilômetros, lá do espaço. A linha sobe e deseí:e por
árvores e morros, edifícios e - num estacionamento, em algum pon-
to - um Volkswagen. Naquela escala, a superfície é apenas uma pe-
quena elevação entre muitas outras, um produto do acaso.
Imaginemos agora ver o Volkswagen cada vez mais perto, num
enfoque crescente com lupas e microscópio. A princípio, a super-
fície parece ficar cada vez mais lisa, à medida que a rotundidade dos
pára-choques e do ca.pô deixam de ser percebidas. Mas em seguida
a superfície microscópica do aço revela-se também cheia de altos
e baixos, de uma maneira aparentemente aleatória. Parece caótica.
Scholz viu que a geometria fractal proporcionava um vigoro-
so instrumento para a descrição das irregularidades específicas da
superfície da terra, e os metalurgistas fizeram a mesma constatação
em relação às superficies de diferentes tipos de aço. A dimensão frac-
tal da superfície de um metal, por exemplo, proporciona com fre-
qüência informações que correspondem ao vigor do metal. E adi-
mensão fractal da superfície da terra oferece chaves também para
as suas importantes propriedades. Scholz refletiu sobre uma forma-
ção geológica clássica, a encosta escarpada de uma montanha. À dis-
tância, é uma forma euclidiana, dimensão dois. Quando o geólogo
se aproxima, porém, vê-se caminhando não só sobre ela, como tam-
bém dentro dela - a escarpa se decompõe em pequenas elevações
do tamanho de carros. Sua dimensão real passou a ser de cerca de
2, 7, porque as superfícies da rocha se projetam por sobre ele em

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forma de ganchos e o envolvem, quase que ocupando o espaço tri-
dimensional, como a superfície de uma esponja.
As descrições fractais tiveram aplicação imediata numa série
de problemas ligados às propriedades das superfícies em contato
umas com as outras. O contato entre as riscas do pneu e o concreto
é um desses problemas. Também o contato das juntas das máqui-
nas, ou o contato elétrico. Os contatos entre superfícies têm pro-
priedades totalmente independentes dos materiais usados. São pro-
priedades que dependem da característica fractal das irregularida-
des sobre irregularidades e sobre irregularidades. Uma conseqüência
simples, mas séria, da geometria fractal das superfícies é que estas,
·em contato, não se tocam totalmente. A irregularidade em todas as
escalas impede isso. Até mesmo em rochas sob enorme pressão, em
escala suficientemente pequena torna-se claro que há hiatos, per-
mitindo que os fluidos corram. Para Scholz, é o Efeito Humpty-
Dumpty. E em virtude deste que dois pedaços de uma xícara que-
brada não podem ser colados, embora pareçam, numa escala maior,
encaixar-se perfeitamente. Numa escala menor, as irregularidades
deixam de coincidir.
Scholz tornou-se conhecido em seu campo como uma das pou-
cas pessoas que adotavam técnicas fractais. Ele sabia que alguns dos
seus colegas encaravam esse pequeno grupo como excêntricos. Se
usava a palavra fractal no título de um artigo, sentia que era visto
como admiravelmente atualizado, ou não tão admiravelmente opor-
tunista, adotando um modismo. Até mesmo escrever artigos obri-
gava a decisões difíceis, entre escrever para um pequeno público
de adeptos fractais, ou escrever para um público geofísico maior,
que precisaria de explicações de conceitos básicos. Ainda assim,
Scholz considerava indispensáveis os instrumentos da geometria
fractal.
"É um modelo único, que nos permite enfrentar a gama das
mutáveis dimensões da terra", 23 disse ele. "Proporciona-nos os ins-
trumentos matemáticos e geométricos para descrever e fazer pre-
visões. Uma vez vencida a dificuldade e entendido o paradigma, po-
demos começar a medir coisas e pensar nelas de uma nova manei-
ra. Passamos a vê-las de maneira diferente. Temos uma nova visão.
Não é igual à visão antiga, absolutamente - é muito mais ampla."

Que tamanho tem? Quanto tempo dura? Essas são as perguntas


mais básicas que o cientista faz. São tão básicas para a maneira pela
qual as pessoas conceituam o mundo que não é fácil ver que en-
cerram certa tendenciosidade. Indicam que o tamanho e a duração,
propriedades dependentes da escala, são propriedades com signi-
ficado, propriedades que podem ajudar a descrever ou classificar

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um objeto. Quando o biólogo descreve o ser humano, ou o físico
descreve um quark, o tamanho e a duração são, na verdade, per-
guntas adequadas. Em sua estrutura física ampla, os animais estão
muito presos a determinada escala. Imagine-se um ser humano com
uma escala que seja o dobro do seu tamanho, mantendo todas as
proporções, e teremos imaginado uma estrutura cujos ossos desa-
barão sob seu peso. A escala é importante. .
A física do comportamento dos terremotos é, em grande par-
te, independente da escala. Um terremoto grande é apenas uma ver-
são, em maior escala, de um: terremoto pequeno. Isso distingue os
terremotos dos animais, por exemplo - um animal de trinta centí-
metros tem de ter uma estrutura bem diferente da de um animal de
dez centímetros; e um animal de dois metros precisa de uma arqui-
tetura ainda mais diferente, para que seus ossos não se partam sob
a maior massa. As nuvens, por outro lado, são fenômenos indepen-
dentes da escala, como os terremotos. Sua irregularidade caracte-
rístiea - que pode ser descrita em termos de dimensão fractal -
não se modifica, ao ser observada <;m diferentes tamanhos. É por
isso que os viajantes de avião perdem qualquer perspectiva da dis-
tância de uma nuvem. Sem a ajuda de indicações como a nebulosi-
dade, uma nuvem a seis metros pode ser indistinguível de uma a 600
metros. Na verdade, as análises das fotos de satélites mostrou uma
'dimensão fractal invariável nas nuvens observadas a centenas de qui-
lômetros de distância.
É difícil .romper o hábito de pensar nas coisas em termos de
seu tamanho e de sua duração. A geometria fractal, porém, preten-
de que, para alguns elementos da natureza, a busca de uma escala
caracterí.s tica torna-se uma perturbação. Furacão. Por definição, é
uma ventania de certa intensidade. Mas a definiÇão é imposta por
pessoas à natureza. Na realidade, os cientistas atmosféricos estão
compreendendo que o tumulto no ar forma um continuum, des-
de os pés-de-vento que arrastam o lixo nas ruas de uma cidade até
os vastos sistemas ciclônicos visíveis do espaço. As categorias são
enganosas. Os extremos do continuum formam uma só peça com
o meio.
Ocorre que as equações do fluxo dos fluidos são, em muitos
contextos, sem dimensões, significando que se aplicam sem se le-
var em cohta a escala. As asas de um avião e as hélices de um navio
. podem ser testadas em menor escala em túneis aerodinâmicos e em
·bacias de laboratório. E, com algumas limitações, as tempestades
. pequenas agem como as grandes.
Os vasos sanguíneos, da aorta aos capilares, formam um ou-
. tro tipo de continuum . Eles se ramificam e dividem e voltam a
ramificar-se até se tornarem tão estreitos que os glóbulos sangüí-

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neos são forçados a deslizar em fila indiana. A natureza dessa rami-
ficação é fractal. Sua estrutura assemelha-se a um dos monstruosos
objetos imaginários concebidos pelos matemáticos de Mandelbrot
na passagem do século. Por uma questão de necessidade fisiológi-
ca, os vasos sanguíneos têm de desempenhar certa mágica dimen-
sional. Assim como a curva de Koch, por exemplo, aperta uma li-
nha de extensão infinita numa pequena área, o sistema circulató-
rio tem de apertar uma enorme área de superfície num volume li-
mitado. Em termos dos recursos do corpo, o sangue é caro e o es-
paço também. A estrutura fractal que a natureza imaginou opera com
tal eficiência que, na maioria dos tecidos, nenhuma célula está a uma
distância de mais de três ou quatro células de um vaso sanguíneo.
Mesmo assim, vasos e sangue ocupam pouco espaço, não indo além
dos 5 % do corpo. É a Síndrome do Mercador de Veneza, como acha-
mou Mandelbrot - não só não se pode tirar meio quilo de carne
sem derramar sangue, como não se pode tirar um miligrama sem
que se faça o mesmo.
Essa estranha estrutura- na realidade, duas árvores de veias
e artérias que se interligam - está longe de ser excepcional. O cor-
po está cheio dessas complexidades. No aparelho digestivo, o teci-
do revela ondulações dentro de ondulações. Também os pulmões
têm de concentrar a maior superfície possível no menor espaço. E
a capacidade de um animal de absorver oxigênio é mais ou menos
proporcional à área da superfície de seus pulmões. Os pulmões hu-
manos típicos concentram uma superfície maior do que uma qua-
dra de tênis. E uma outra complicação, o labirinto da traquéia deve
fundir-se eficientemente com artérias e veias.
Todo estudante de medicina sabe que os pulmões são feitos
de modo a acomodar uma enorme área de superfície. Os anatomis-
tas, porém, são treinados a examinar uma escala de cada vez - por
exemplo, os milhões de alvéolos, sacos microscópicos em que ter-
mina a seqüência dos vasos ramificados. A linguagem da anatomia
tende a obscurecer a unidade que existe através das escalas. A abor-
dagem fractal, em contraste, abarca toda a estrutura em termos das
ramificações que a produzem, ramificações que se comportam de
maneira coerente, das grandes às pequenas escalas. Os anatomis-
tas estudam o sistema vascular classificando os vasos sanguíneos
em categorias baseadas no tamanho - artérias e arteríolas, veias e
vênulas. Para certas finalidades, tais categorias são úteis. Para outras,
porém, podem induzir a erro. Por vezes, os manuais didáticos pa-
recem dançar em volta da verdade: "Na transição gradual de um ti-
po de artéria para outro, é por vezes difícil classificar a região inter-
mediária. Algumas artérias de calibre intermediário têm paredes que
sugerem artérias maiores, enquanto algumas artérias grandes têm

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paredes como as de tamanho médio. As regiões de transição ( .. .) fre-
qüentemente designam-se como artérias mistas." 24
Não imediatamente, mas uma década depois que Mandelbrot
publicou suas especulações fisiológicas, alguns biólogos teóricos 2 5
começaram a verificar que a organização fractal controlava estru-
turas em todo o corpo. A descrição "exponencial" clássica das ra-
mificações dos brônquios estava errada: uma descrição fractal
enquadrava-se melhor nos dados. O sistema coletor urinário revelou-
se fractal. O canal biliar no fígado. A rede de fibras especiais 2 6 do
coração, que transmitem os pulsos de corrente elétrica aos múscu-
los que se contraem. A última estrutura a revelar-se aos especialis-
tas do coração, como a rede His-Purkinje, inspirou uma linha parti-
cularmente importante de pesquisas. Um trabalho considerável em
corações saudáveis e anormais dependeu dos detalhes de como as
células musculares das câmaras de bombeamento conseguem
coordenar-se. Vários cardiologistas interessados no caso27 verifica-
ram que o espectro da freqüência das batidas cardíacas, como os

*
~anizção
terremotos e os fenômenos econômicos, seguia as leis fractais, e afir-
maram que uma chave para compreender o ritmo cardíaéo era a or-
fractal da rede de His-Purkinje, um labirinto de trilhas que
se ramificam, organizado para ser idêntico a si mesmo em escalas
cada vez menores.
Como a natureza conseguiu produzir essa arquitetura tão com-
plicada? A tese de Mandelbrot é de que as complicações só existem
no contexto da geometria euclidiana tradicional. Como fractais, as
estruturas ramificantes podem ser descritas com transparente sim-
plicidade, com apenas algumas informações. Talvez as transforma-
ções simples que dão origem às formas imaginadas por Koch, Pea-
no e Sierpmski tenham seu análogo nas instruções codificadas do
genes de um organismo. O DNA certamente não pode especificar
o vasto número de brônquios, bronquíolos e alvéolos, ou a estru-
tura espacial específica da árvore resultante, mas pode especificar
um processo de repetição da bifurcação e do desenvolvimento. Esses
processos são. adequados aos propósitos da natureza. Quando a E.I.
Dupont De Nemours & Company28 e o Exército dos Estados Uni-
dos começaram finalmente a produzir um correspondente sintéti-
co de penugem de ganso, foi por terem compreendido que a feno-
menal capacidade de colher o ar, evidenciada pelo produto natu-
ral, vinha dos nodos e ramificações fractais da proteína chave da pe-
nugem, a ceratina. Mandelbrot passava naturalmente das árvores
pulmonares e vasculares para as árvores botânicas reais, árvores que
precisavam captar o sol e resistir ao vento, com ramos fractais e fo-
lhas fractais. E os biólogos teóricos começaram a especular que a
escala fractal não era apenas comum, mas universal, em morfogê-

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nese. Argumentaram que o entendimento de como esses padrões
eram codificados e processados ·tornara-se um dos grandes desa-
fios à biologia.

"Comecei a procurar esses fenômenos nas latas de lixo da ciên-


cia, porque desconfiava que estava observando não uma exceção,
mas talvez algo muito comum. Assisti a conferências e procurei em
publicações antiquadas, a maioria delas de pouca ou nenhuma uti-
lidade, mas de vez em quando encontrava coisas interessantes. De
certa maneira, era a abordagem de um naturalista, e não de um teó-
rico. Mas minha busca foi recompensada." 2 9
Tendo consolidado num livro um conjunto das idéias sobre
a natureza e a história matemática, que passara toda a vida formu-
lando, Mandelbrot conheceu uma margem de sucesso acadêmico
a que não estava habituado. Ele se tornou uma peça do circuito das
conferências científicas, com suas indispensáveis bandejas de sli-
des coloridos e seu cabelo branco parecido com palha. Começou
a ganhar prêmios e outras honras profissionais, e seu nome tornou-se
tão conhecido do público não-científico quanto o de qualquer ou-
tro matemático. Isso aconteceu, em parte, em virtude da atração es-
tética de suas imagens fractais, e em parte porque os muitos milha-
res de pessoas que usam um microcomputador como passatempo
podiam começar a explorar sozinhos aquele mundo. E em parte por-
que ele se destacou. Seu nome apareceu numa pequena lista com-
pilada pelo historiador da ciência 1. Bernard Cohen, de Harvard .3º
Cohen tinha investigado os anais da descoberta durante anos, pro-
curando cientistas que consideravam a sua própria obra "revolu-
ções". Ao todo, encontrou apenas 16. Robert Symmer, escocês con-
temporâneo de Benjamin Franklin, cujas idéias sobre a eletricida-
de eram realmente radicais, mas errôneas. Jean-Paul Marat, conhe-
cido hoje apenas pela sua sangrenta contribuição à Revolução Fran-
cesa. Von Liebig. Hamilton. Charles Darwin, naturalmente. Virchow.
Cantor. Einstein. Minkowski. Von Laue. Alfred Wegener - deriva
dos continentes. Compton Just. James Watson - a estrutura do
DNA. E Benoit Mandelbrot.
Para os matemáticos puros, porém, Mandelbrot continuava
um marginal, polemizando com a violência de sempre com a polí-
tica da ciência. No auge de seu sucesso, ek foi vilipendiado por al-
guns colegas, que o consideravam anormalmente preocupado com
o lugar que lhe cabia na história da ciência. Diziam que ele os inti-
midava a propósito dos créditos que lhe eram devidos. Não há dú-
vida de que em seu período de herege profissional ele alimentou
a apreciação tanto pela tática quanto pela substância da realização
científica . Por vezes, quando surgiam artigos que usavam idéias da

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geometria fractal, telefonava ou escrevia aos autores para queixar-
se de que não haviam feito referências a ele ou ao seu livro.
Seus admiradores tiveram facilidade em perdoar-lhe o ego, le-
vando em conta as dificuldades que tivera de superar para conse-
guir reconhecimento pelo seu trabalho. " É claro que eleé um pou-
co megalomaníaco,31 tem esse ego incrível, mas o trabalho que faz
é bonito, por isso a maioria das pessoas não se importa", disse al-
guém . Nas palavras de outro, "Ele teve tantas dificuldades32 com
seus colegas matemáticos que, para sobreviver, simplesmente teve
de desenvolver essa estratégia de exagerar seu próprio ego. Se não
fizesse isso, se não estivesse tão convencido de que tinha a visão
certa, jamais teria conseguido o êxito."
A questão de receber e dar créditos pode tornar-se obsessiva
na ciência. Mandelbrot fez as duas coisas, com intensidade. Seus li-
vros estão cheios da primeira pessoa: Afirmo... Concebi e desen-
volvi .. . e coloquei em prática ... Confirmei ... Mostrei ... Criei ... Em
minhas viagens por territórios recém-abertos, ou recém-
colonizados, fui muitas vezes levado a exercer o direito de dar no-
me aos seus marcos.
Muitos cientistas não gostavam desse estilo. Nem se deixavam
comover pelo fato de ser Mandelbrot igualmente copioso em suas
referências a predecessores, alguns totalmente obscuros. (E todos,
como observam seus detratores, já mortos e não representando ne-
nhum risco.) Achavam que essa era apenas sua maneira de tentar
colocar-se bem no centro, instalando-se como o papa, lançando sua
bênção de um lado do campo ao outro. Reagiram. Os cientistas di-
ficilmente podiam evitar a palavra "fractal," mas se quisessem evi-
tar o nome de Mandelbrot33 podiam falar da dimensão fraccional
como dimensão de HausdorffcBesicovitch. Eles também- em es-
pecial os matemáticos - ressentiam-se da maneira pela qual Man-
delbrot entrava e saía das diferentes disciplinas, fazendo suas asse-
verações e conjeturas e deixando a outros o trabalho pesado de
prová-las.
Era uma questão legítima. Se um cientista anuncia que algu-
ma coisa é provavelmente verdade, e outro a demonstra com rigor,
qual deles contribuiu mais para o avanço da ciência? A formulação
de uma conjetura é um ato de descoberta? Ou será apenas a tentati-
va, a sangue frio, de firmar uma prioridade? Os matemáticos sem-
pre enfrentam tais questões, mas o debate tornou-se mais intenso
à medida que os computadores começaram a desempenhar um pa-
pel novo. Aqueles que os usavam para realizar experimentos
tornaram-se parecidos com cientistas de laboratório, trabalhando
segundo regras que permitiam a descoberta sem a prova habitual
pelo teorema, a prova do teorema do trabalho matemático padrão.

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O livro de Mandelbrot era muito abrangente e estava cheio das
minúcias da história matemática. Onde quer que o caos levasse, Man-
delbrot tinha alguma base para asseverar que chegara ali primeiro.
Pouco importava que a maioria dos seus leitores achassem obscu-
ras ou mesmo inúteis as suas referências. Eles tinham de admitir sua
extraordinária intuição da direção dos avanços em campos que ele
nunca estudara realmente, desde a sismologia até a fisiologia. Era
por vezes estranho, e outras vezes irritante. Até mesmo um admira-
dor gritaria, exasperado: "Mandelbrot não foi o primeiro a pensar
em tudo."34
Pouco importa. O rosto de um gênio nem sempre precisa ter
a expressão de santidade de um Einstein. Mesmo assim, durante dé-
cadas, como acredita Mandelbrot, ele teve de ser hábil com o seu
trabalho. Teve de formular idéias originais em termos que não fos-
sem ofensivos. Teve de suprimir seus prefácios visionários para con-
seguir a publicação dos seus artigos. Quando escreveu a primeira
versão do seu livro, publicado em francês em 1975, achou que foi for-
çado a fingir que ele não tinha nada de muito surpreendente. Foi por
isso que escreveu a versão mais recente explicitamente como "um ma-
nifesto e um histórico". Estava enfrentando a política da ciência.
"A política afetou o estilo35num sentido que mais tarde eu vi-
ria a lamentar. Eu dizia: 'É natural .. . É interessante observar que .. .'
Mas na verdade aquilo nada tinha de natural, e a observação inte-
. ressante era na verdade resultado de longas investigações, de bus-
ca de provas, e de autocrítica. Tinha uma atitude filosófica edis-
tante, que achei necessário à sua aceitação. A política estava no fato
de que, se eu propusesse um afastamento radical, isso teria repre-
sentado o fim do interesse dos leitores.
"Mais tarde recebi de volta algumas dessas afirmações, gente
que dizia: 'É natural observar...' Não era isso o que eu pretendia."
Rememorando, Mandelbrot viu que cientistas de várias disci-
plinas reagiram à sua abordagem em etapas tristemente previsíveis.
A primeira era sempre a mesma: quem é você, e por que se interes-
sa pelo nosso campo? Segunda: que relação tem isso com o que você
vem fazendo, e por que não explica com base no que sabemos? Ter-
ceira: tem certeza de que isso é matemática? (Tenho certeza, sim.)
Então, porque nós não sabemos disso? (Porque é matemática, mas
muito obscura.)
A matemática difere da física, e de outras ciências aplicadas,
sob esse aspecto. Quando um ramo da física se torna obsoleto ou
improdutivo, tende a ser parte do passado, para sempre. Pode cons-
tituir uma curiosidade histórica, talvez fonte de inspiração para um
cientista moderno, mas a física morta está, em geral, morta por uma
boa razão. A matemática, em contraste, está cheia de canais e ata-

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lhos que parecem não levar a lugar nenhum numa época e que se
tornam importantes áreas de estudo em outra. A aplicação poten-
cial de um raciocínio puro jamais pode ser prevista. É por isso que
os matemáticos valorizam seu trabalho de uma maneira estética, bus-
cando elegância e beleza, como fazem os artistas. É por isso tam-
bém que Mandelbrot, em sua atividade de antiquário, encontrou
tanta matemática boa, pronta a ser espanada.
Portanto, a quarta etapa era esta: o que as pessoas desses ramos
da matemática acham do seu trabalho? (Não se interessam, porque
não é uma contribuição para a matemática. Na verdade, ficam sur-
presas com o fato de que suas idéias representam a natureza.)
No fim, a palavra "fractal" passou a representar uma maneira
de descrever, calcular e pensar sobre formas irregulares e fragmen-
tadas, recortadas e descontínuas - formas que vão das curvas cris-
talinas dos flocos de neve até as poeiras descontínuas das galáxias.
Uma curva fractal significa uma estrutura organizadora escondida
atrás da medonha complicação dessas formas. Estudantes secun-
dários podem entender as fractais e brincar com elas: eram tão pri-
márias quanto os elementos de Euclides. Programas simples de com-
putadores para desenhar imagens fractais circularam entre os que
tinham computadores pessoais como passatempo.
Mandelbrot encontrou a aceitação mais entusiástica entre os
cientistas aplicados que trabalhavam com petróleo, rochas ou me-
tais em especial nos centros de pesquisas de grandes empresas. Em
meados da década de 80, grande número de cientistas das enormes
instalações de pesquisa da Exon36 , por exemplo, trabalhavam em
problemas fractais. Na General Electric, as fractais tom.aram-se um
princípio de organização no estudo de polímeros e também - em-
bora esse trabalho fosse realizado secretamente - em problemas
de segurança de reator nuclear. Em Hollywood, as fractais encon-
traram sua aplicação mais fantasiosa na criação de paisagens feno-
menalmente realistas, terrenas e extra-terrenas, nos efeitos especiais
para o cinema.
Os padrões que pessoas como Robert May e James Yorke des-
cobriram em princípios da década de 70, com seus complexos li-
mites entre o comportamento ordenado e o caótico, tinham regu-
laridades insuspeitadas que só podiam ser descritas em termos da
relação entre as escalas grandes e pequenas. As estruturas que pro-
porcionavam a chave da dinâmica não-linear eram fractais. E no ní-
vel prático mais imediato, a geometria fractal também proporcio-
nava uma série de ferramentas que foram utilizadas por físicos, quí-
micos, sesmiólogos, metalurgistas, teóricos das probabilidades e fi-
siologistas. Esses pesquisadores estavam convencidos, e tentavam

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convencer outros, de que anova geometria de Mandelbrot era a da
própria natureza.
Eles tiveram um impacto irrefutável sobre a matemática orto-
doxa e também sobre a física, mas o próprio Mandelbrot jamais con-
quistou o respeito total dessas comunidades. Mesmo assim, tiveram
de aceitá-lo. Um matemático37 disse aos amigos que acordou cer-
ta noite ainda tremendo em conseqüência de um pesadelo. Nele,
o matemático estava morto, e de repente ouvia a voz inequívoca de
Deus. "Sabe'', disse Deus, "havia realmente alguma coisa naquele
Mandelbrot".

A idéia de auto-semelhança faz soar acordes antigos em nossa


cultura. Uma velha tendência do pensamento ocidental honra essa
idéia. Leibniz imaginou que uma gota d'água contivesse todo um
pulsante universo, encerrando por sua vez, gotas d 'água e novos uni-
versos dentro delas. "Ver o mundo.num grão de areia'', escreveu Bla-
ke, e com freqüência os cientistas mostravam-se predispostos a vê-
lo. Quando o espermatozóide foi descoberto, julgou-se que cada
um deles seria um homúnculo, um ser humano, minúsculo, mas ple-
namente formado.
Mas a auto-semelhança desapareceu como princípio científi-
co, por uma boa razão: não se harmonizava com os fatos. Os esper-
matozóides não só não eram apenas seres humanos em pequena es-
cala, como eram muito mais interessantes do que isso - e o pro-
cesso de desenvolvimento ontogenético é muito mais interessan-
te do que a simples ampliação. O sentido inicial da auto-semelhança
como princípio de organização vinha das limitações da experiên-
cia humana com as escalas. De que outra maneira imaginar o mui-
to grande e o muito pequeno, o muito rápido e o muito lento, se-
não como extensões do que era conhecido?
O mito morreu quando a visão humana foi ampliada pelos te-
lescópios e microscópios . As primeiras descobertas trouxeram a
compreensão de que cada mudança de escala provocava novos fe-
nômenos e novos tipos de comportamento. Para o moderno físico
de partículas, o processo não termina. Todo acelerador novo, com
seu aumento de energia e velocidade, amplia o campo de visão da
ciência a partículas cada vez menores e escalas de tempo cada vez
mais limitadas, e toda extensão parece trazer novas informações.
À primeira vista, a idéia da coerência das novas escalas parece
trazer menos informações. Em parte, isso ocorre em virtude de uma
tendência paralela na ciência, a do reducionismo. Os cientistas des-
montam as coisas e olham uma parte de cada vez. Se querem exa-
minar a interação de partículas subatômicas, colocam duas ou três
juntas. Isso já é uma complicação suficiente. O poder da auto-

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semelhança, porém, começa em níveis de complexidade muito
maiores. É uma questão de examinar o todo. ·
Embora Mandelbrot fizesse dela o mais amplo uso geométri-
co possívei, a volta das idéias de escala à ciência nas décadas de 60
e 70 tornou-se uma corrente intelectual que se fez sentir em mui-
tos lugares. A auto-semelhança estava implícita em muitos lugares,
simultaneamente. Estava implícita na obra de Edward LÜrenz. Era
parte do seu entendimento intuitivo da estrutura fina dos mapas fei-
tos pelo seu sistema de equações, uma estrutura que ele podia sen-
tir, mas não ver nos computadores existentes em 1963. A escala tam-
bém tornou-se parte de um movimento da física que levou, mais
diretamente do que o trabalho do próprio Mandelbrot, à discipli-
na conhecida como caos. Até mesmo em campos distantes, os cien-
tistas estavam começando a pensar em termos de teorias que usa-
vam hierarquias de escala, como na biologia evolucionária, onde
tornou-se claro que uma teoria completa teria de identificar padrões
de desenvolvimento em genes, em organismos individuais, em es-
pécies e em famílias de espécies, ao mesmo tempo.
Paradoxalmente, talvez, a apreciação dos fenômenos de esca-
la deve ter vindo do mesmo tipo de expansão do entendimento hu-
mano que acabou com as ingênuas idéias antigas de auto-
semelhança. Em fins do século XX, de modo jamais concebido an-
tes . as imagens do incompreensivelmente pequeno e do inimagi-
navelmente grande tornaram-se parte da experiência de todos. A cul-
tura viu fotografias de galáxias e de átomos. Ninguém teve de ima-
ginar, como Leibniz; o que poderia ser o universo em escalas mi-
croscópicas ou telescópicas - os microscópios e telescópios tor-
naram essas imagens parte da experiência cotidiana. Dada a ansie-
dade da mente em encontrar analogias na experiência, novos tipos
de comparação entre o grande e o pequeno eram inevitáveis - e
algumas foram produtivas.
Os cientistas atraídos pela geometria fractal sentiram, com fre -
qüência, paralelos emocionais entre sua nova estética matemática
e as mudanças ocorridas nas artes na segunda metade do século. Sen-
tiram ·que a cultura em geral lbes estava transmitindo um entusias-
mo interior. Para Mandelbrot, o epítome da sensibilidade euclidia-
na fora da matemática era a arquitetura da Bauhaus. Bem poderia
ter sido o estilo de pintura melhor exemplificado pelos quadrados
coloridos de Josef Albers: depurados, lineares, ordenados, reducio-
nistas, geométricos. Geométrico - a palavra significa o que tem sig-
nificado há milhares de anos. Edifícios chamados de geométricos
são compostos de formas simples, linhas retas e círculos, descrití-
veis com apenas alguns números. A moda da arquitetura e da pin-
tura geométricas veios e passou. Os arquitetos já não se preocupam

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em construir arranha-céus em forma de blocos, como o Edifício Sea-
gram em Nova York, outrora muito elogiado e copiado. Para Man-
delbrot e seus seguidores, a razão é clara. As formas simples são inu-
manas. Elas não se harmonizam com a maneira pela qual a nature-
za se organiza, ou com a maneira pela qual a percepção humana vê
o mundo. Nas palavras de Gert Eilenberger, físico alemão que ado-
tou a ciência não-linear depois de se especializar em supercondu-
tividade: "Por que a silhueta de uma árvore sem folhas, batida por
uma tempestade, sobre o pano de fundo de um céu de entardecer
no inverno é considerada bela, mas a silhueta correspondente de
um edifício universitário de múltiplos propósitos não é, apesar de
todos os esforços do arquiteto? A resposta parece-me, mesmo que
Seja um tanto especulativa, estar nas novas maneiras de ver os siste-
mas dinâmicos. Nosso sentimento de beleza é inspirado pela dis-
posição harmoniosa da ordem e da desordem, tal como ocorre nos
objetos naturais - nas nuvens, nas árvores, nas cadeias de monta-
nhas ou nos cristais de neve. As formas de todos eles são processos
dinâmicos congelados em formas físicas, e combinações específi-
cas de ordem e desordem são típicas delas."3 8
Uma forma geométrica tem uma escala, um tamanho caracte-
rístico. Para Mandelbrot, a arte que satisfaz não tem escala, no sen-
tido de que contém elementos importantes de todos os tamanhos.
Ele contrapõe ao Ediffcio Seagram a arquitetura do estilo Beaux-Arts,
com suas esculturas e gárgulas, suas pedras angulares e jambas, suas
cartelas decoradas com arabescos, suas cornijas encimadas de ca-
lhas e revestidas de dentículos. Um exemplo do estilo Beaux-Arts
como a Ópera de Paris não tem escala porque tem todas as escalas.
Ao ver o edifício de qualquer distância, o observador encontra de-
talhes que atraem os olhos. A"composição muda quando ele se apro-
xima, e novos elementos da estrutura entram em função.
Apreciar a estrutura harmoniosa de qualquer arquitetura é uma
coisa; admirar a selvageria da natureza é outra. Em termos de valo-
res estéticos, a nova matemática da geometria fractal colocou a ciên-
cia exata em harmonia com o sentimento caracteristicamente mo-
derno da natureza não-domesticada, não-civilizada, não-domada.
Houve uma época em que as florestas pluviais, os desertos, as ma-
tas e as terras áridas e erodidas representavam tudo o que a socie-
dade lutava para dominar. Quando queriam satisfação estética com
a vegetação, as pessoas olhavam para os jardins. Como disse] ohn
Fowles, escrevendo sobre a Inglaterra do século XVIII: " Esse pe-
ríodo não tinha simpatias pela natureza não-regulada, ou primor-
dial. Era a selvageria agressiva, um lembrete feio e insistente da Que-
da, do exílio eterno do homem cio Jardim do Éden ... Até mesmo
suas ciências naturais ( ... )continuaram essencialmente hostis à na-

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tureza selvagem, vendo-a apenas como alguma coisa a ser doma-
da, classificada, utilizada, explorada."39 No final do século XX, a
cultura se modificou, e hoje a ciência se está modificando com ela.
Assim, a ciência acabou encontrando um uso para os primos
obscuros e imaginosos do conjunto Cantor e da curva de Koch. A
princípio essas formas poderiam ter servido de provas no proces-
so de divórcio entre a matemática e a física, na passagem do sécu-
lo, o fim de um casamento que vinha sendo o tema dominante da
ciência desde Newton. Matemáticos como Cantor e Koch
deliciaram-se com a sua originalidade. Achavam-se mais inteligen-
tes do que a natureza - quando na realidade ainda não estavam à
altura da criação da natureza. A prestigiosa corrente principal da fí-
sica também se afastou do mundo da experiência cotidiana. Só mais
tarde, depois que Steve Smale levou a matemática de volta para os
sistemas dinâmicos, pôde um físico dizer: ''Devemos agradecer aos
astrônomos e aos matemáticos por nos passarem, a nós físicos, o
campo em muito melhor forma do que o deixamos a eles, há 70
anos''. 4 º
Não obstante, apesar de Smale e apesar de Mandelbrot, seriam
os físicos, afinal de contas, que fariam a nova ciência do caos. Man-
delbrot deu-lhes_a linguagem indispensável e um catálogo de ima-
gens surpreendentes da natureza. Como ele mesmo reconheceu, seu
programa descrevia mais do que explicava. Podia arrolar os elemen-
tos da natureza juntamente com suas dimensões fractais- litorais,
redes fluviais, troncos de árvores, galáxias - e os cientistas pode-
riam usar esses números para fazer previsões. Os físicos, porém, que-
riam saber mais.41 Queriam saber por quê. Havia formas na natu-
reza - não formas visíveis, mas formas embutidas na estrutura do
movimento - que esperavam revelação.

Notas
1 - Mandelbrot, Gomory, Voss, Barnsley, Richter, Mumford, Hubbard, Shlesin -
ger. A Bíblia de Benoit Mandelbrot é The Fractal Geometry ofNature (Nova
York, Freeman, 1977). Uma entrevista com Anthony Barcellos foi publicada
em Mathematical People, DonaldJ. Albers e G.L. Alexanderson, orgs. (Bos-
ton, Birkhauser, 1985). Dois ensaios de Mandelbrot menos conhecidos e ex-
tremamente interessantes são "On Fractal Geometry anda Few of the Mathe-
matical Questions It Has Raised'', Proceedings of the International Congress
ofMathematicians, 16-14 de agosto de 1983, Varsóvia, pp. 1661-75; e "Towards
a Second Stage of Indeterminism in Science'', pré-publicação, IBM Thomas
J . Watson Research Center, Yorktown Heights, Nova York. Resenhas sobre as
aplicações das fractais tornaram-se defl,'lasiado freqüentes para serem relacio-

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nadas, mas dois exemplos úteis são Leonard M. Sander, "Fractal Growth Pro-
cesses", Nature, 322 (1986), pp. 789-93; Richard Voss, "Random Fractal For-
geries: From Mountais to Music", em Science and Uncertainty, Sara Nash , org.
(Londres, IBM United Kingdom, 1985).
2 - Houthakker, Mandelbrot .
3 - Citado em Fractal Geometry, p. 423.
4 - Woods Hole Oceanographic Institute, agosto de 1985 .
5 - Mandelbrot.
6 - Mandelbrot, Richter. Pouco se escreveu sobre Bourbaki, mesmo hoje; uma
introdução jocosa é Paul R. Halmos, "Nicholas Bourbaki", Scientific Ameri-
can, 196 (1957), pp. 88-89.
7 - Smale.
8 - Peitgen.
9 - "Second Stage", p. 5.
10 - Mandelbrot; Fractal Geometry, p. 74;).M. Berger e Benoit Mandelbrot, "A New
Model for the Clustering of Errors on Telephone Circuits", IBM ]ournal of
Research and Development, 7 (1963), pp. 224-36 .
11 - Fractal Geometry, p. 248.
12 - Jbid., p. 1, por exemplo.
13 - Jbid.' p. 27.
14 - Jbid., p. 17.
15 - Ibid,., p. 18.
16 - Mandelbrot.
17 - Fractal Geometry, p. 131 , e "On Fractal Geometry", p. 1663.
18 - F. Hausdorff e A.S. Besicovich.
19 - Mandelbrot.
20 - Schoiz; C.H . Scholz e C.A. Aviles, "The Fractal Geometry of Faults and Faul-
ting", pré-publicação, l.amont-Doherty Geophysical Observatory; C.H. Scholz,
"Scaling l.aws for Large Earthquakes", Bulletin of the Seismological Society
of America, 72 (1982), pp. 1-14 .
21 - Fractal Geometry, p. 24.
22 - Scholz.
23 - Scholz.
24 - William Bloom e Don W. Fawcett, A Textbook of Histology (Filadélfia, W.B.
Saunders, 1975) .
25 - Uma resenha dessas idéias encontra-se em Ary L. Goldberger, "Nonlinear
Dynamics, Fractais, Cardiac Physiology and Sudden Death", em Temporal Di-
sorder inHuman Oscillatory Systems, L. Rensing, ü. Ao der Heiden, M. Mac-
key, orgs. (Nova York, Springer-Verlag, 1987).
26 - Goldberger, West.
27 - Ary L. Goldberger, Valmik Bhargava, Bruce). West e Arnold). Mandell, " On
a Mechanism of Cardiac Electrical Stability: The Fractal Hypothesis '', Biophy-
sics journal, 48 (1985), p. 525. .

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28 - Barnaby J . Feder, "The Army May Have Matched the Goose", 7be New York
Times, 30 de novembro de 1986, 4:16.
29 - Mandelbrot.
30 - 1. Bernard Cohen, Revolution in Science (Cambridge, Mass., Belknap, 1985),
~. .

31 - Mumford.
32 - Richter.
3 3 - Assim como Mandelbrot pôde mais tarde evitar o crédito dado rotineiramente
a Mitchell Feigenbaum em referências aos números de Feigenbaum e à uni-
versidade de Feigenbaum: Em lugar disso, Mandelbrot referia-se habitualmen·
te a P.J . Myrberg, matemático que estudou as iterações dos mapeamentos qua-
dráticos em princípios da década de 60, obscuramente
34 - Richter.
35 - Mandelbrot .
36 - Klafter.
37 - Relatado por Huberman .
. 38 - "Freedom Science, and Aesthetics", em Scbônbeit im Cbaos, p. 35.
39 - John Fowles, A Maggot (Boston, Little, Brown, 1985), p .. 11 .
40 - Robert H.G. Helleman, "Self-Generated Behavior in Nonlinear Mechanics ",
emFundamentalProblems inStatisticalMecbanics, 5, E. G.D. Cohen, org.
(Amsterdã, North-Holland, 1980), p. 165.
41 - Leo Kadanoff, por exemplo, perguntou: "Where is the physics offractal?", em
Pbysics Today, fevereiro de 1986, p. 6, e em seguida respondeu com uma no-
va abordagem "multifractal" em Pbysics Today, abril de 1986, p. 17, provo-
cando uma resposta tipicamente aborrecida em Mandelbrot , Pbisics Today,
setembro de 1986, p. 11. A teoria de Kadanoff, escreveu ele, "enche-me de um
orgulho de pai - que em breve será avô?"

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~· ...J- ... - 1

Atratores
Estranhos
Grandes espirai.s têm pequenas espirai.s
Que se alimentam da velocidade delas,
E pequenas espirai.s têm espirai.s menores,
E assim por diante até a viscosidade.
- LEWIS P. RICHARDSON

A turbulência era um problema com pedigree. Todos os


grandes físicos refletiram sobre ela, formal ou informal-
mente. 1 Um fluxo tranqüilo transforma-se em espirais e
redemoinhos. Configurações tumultuosas rompem o limite entre
o fluido e o sólido. A energia escoa rapidamente dos movimentos
em grande escala para os de pequena escala. Por quê? As melhores
idéias vieram dos matemáticos; para a maioria dos físicos, a turbu-
lência era demasiado perigosa para perderem tempo com ela. Pa-
recia quase impossível conhecê-la. Há uma anedota segundo a qual
o teórico do quantum Werner Heisenberg, em seu leito de morte,
teria dito que faria duas perguntas a Deus: por que a relatividade,
e por que a turbulência? E teria concluído: "Eu realmente acho que
Ele deve ter uma resposta para a primeira pergunta." 2
A física teórica tinha chegado a uma espécie de distanciamen-
to do fenômeno da turbulência. Com efeito, a ciência tinha traça-
do uma linha no chão e dito: além dessa linha não podemos ir. Do
lado mais próximo da linha, onde os fluidos se comportam de ma-
neira ordenada, havia muita coisa com que trabalhar. Felizmente,
o fluido de curso suave não se comporta como seria de esperar
de seu número quase infinito de moléculas independentes, cada qual
capaz de movimento independente. Em lugar disso, as partes do flui-

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do que começam perto tendem a ficar perto, como cavalos atrela-
dos. Os engenheiros têm técnicas funcionais para calcular o fluxo,
desde que permaneça calmo. Usam um corpo de conhecimentos
que datam do século XIX, quando o entendimento dos movimen-
tos dos líquidos e gases era um dos principais problemas da física.
Na era moderna, porém, isso já não constituía um dos proble-
mas principais. Para os teóricos , a dinâmica dos fluidos parecia não
possuir mistério algum, a não ser o que era inacessível até mesmo
no céu. O lad_o prático era tão bem compreendido que podia ficar
a cargo dos técnicos. A dinâmica dos fluidos deixou de ser realmente
parte da física, como diziam os físicos. Era simples engenharia. Os
brilhantes físicos jovens tinham coisas melhores a fazer. Os espe-
cialistas em dinâmica dos fluidos eram encontrados, em geral, nos
departamentos de engenharia das universidades. O interesse práti-
co pela turbulência esteve sempre em primeiro plano, e o interesse
prático é geralmente unilateral: fazer desaparecer a turbulência. Em
algumas aplicações, ela é desejável- num motor a jato, por exem-
plo, onde a combustão eficiente depende da mistura rápida. Na
maioria dos casos, porém, a turbulência significa desastre. Circu-
lação turbulenta do ar sobre uma asa destrói a força de sustentação.
O fluxo turbulento num oleoduto cria uma resistência ao avanço.
Enormes somas de dinheiro do governo e das grandes empresas são
investidas nos projetos de aviões, motores a turbina, hélices, cas-
cos de submarinos e outras formas que se movimentam em meio
aos fluidos. Os pesquisadores têm de se preocupar com o fluxo nos
vasos sanguíneos e nas válvulas do coração. Interessam-se pela forma
e evolução das explosões. Preocupam-se com vórtices e redemoi-
nhos, chamas e ondas de choque. Em teoria, o projeto da bomba
atômica da Segunda Guerra Mundial foi um problema de física nu-
clear. Na realidade, a física nuclear tinha sido em grande parte re-
solvida quando o projeto começou e a questão que ocupava os cien-
tistas reunidos em Los Alamos era um problema de dinâmica dos
fluidos.
O que é a turbulência, então? É uma porção de desordens em
~ todas as e_scalas, pequenos redemoinhos dentro de redemoinhos
ll grandes. E instável. E muito dispersiva, significando isso que a tur-
bulência retira energia e cria o arrastamento. É o movimento que
se torna aleatório. Mas como o fluxo passa de suave para turbulen-
to? Vamos supor que temos um cano perfeitamente liso, com uma
fonte perfeitamente constante de água, perfeitamente protegida de
vibrações - como pode esse fluxo criar alguma coisa aleatória?
Todas as regras parecem desabar. Quando o escoamento é sua-
ve, ou laminar, as pequenas turbulências desaparecem. Passada, po-
rém, a fase inicial, as perturbações crescem de maneira catastrófi-

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ca. Esse início- essa transição- tornou-se um mistério crítico na
ciência. O canal sob uma rocha num rio torna-se um vórtice rodo-
piante que cresce, se separa e vai girando corrente abaixo. Uma plu-
ma de fumaça de cigarro eleva-se do cinzeiro, suavemente,
acelerando-se até passar a velocidade crítica e transformar-se em
redemoinhos desenfreados. O início da turbulência pode ser visto
e medido em experiências de laboratório;' pode ser testado para qual-
quer asa ou hélice novas pelo trabalho experimental num túnel ae-
rodinâmico - sua natureza, porém, permanece indefinível. Tradi-
cionalmente, o conhecimento obtido tem sido especial, e não uni-
versal. A pesquisa pela tentativa e erro na asa de um Boeing 707 em
nada contribui para a pesquisa pela tentativa e erro sobre a asa de
um caça F-16. Até mesmo os supercomputadores são quase que im-
potentes frente ao movimento irregular dos fluidos.
Alguma coisa agita um fluido; ativando-o. O fluido é viscoso
- pegajoso, de modo que a energia sai dele, e se pararmos de sacu-
dir, ele volta naturalmente ao repouso. Quando o sacudimos, acres-
centamos energias de baixa freqüência, ou grandes comprimentos
de onda, e a primeira coisa a ser observada é que os grandes com-
primentos de onda se decompõem em pequenos comprimentos.
Formam-se redemoinhos, e dentro deles outros menores, cada qual
dissipando a energia do fluido e produzindo um ritmo característi-
co. Na década de 30 A.N. Kolmogoráv-fez uma descrição matemáti-
ca que dava certa idéia cie como funcionam esses redemoinhos. Ele
imaginou toda a cascata de energia descendo por escalas cada vez
menores, até finalmente atingir um limite, onde os redemoinhos se
tornam tão pequenos que predominam os efeitos relativamente
maiores da viscosidade.
Para fazer uma descrição clara, Kolmogorov imaginou que esses
redemoinhos enchiam todo o espaço do fluido, tornando-o igual
por toda parte. Essa suposição,3 a suposição da homogeneidade,
não é exata, e até mesmo Poincaré sabia disso 40 anos antes, tendo
visto, na superfície agitada de um rio, que os redemoinhos sempre
se misturam com regiões de fluxo suave. A vorticidade é localiza-
da. A energia na realidade só se dissipa em parte do espaço. Em ca-
da escala, ao examinarmos mais detalhadamente um redemoinho
turbulento, novas regiões de calma podem ser vistas. Assim, a su-
posição de homogeneidade dá lugar à suposição de intermitência.
A imagem intermitente, quando um pouco idealizada, parece alta-
mente fractal, com mistura de regiões de agitação e suavidade, em
escalas que vão das grandes para as pequenas. Também esse qua-
dro está um tanto aquém da realidade.
Intimamente relacionada com esse problema, mas bem distin-
ta, era a questão do que acontece quando a turbulência começa. Co-

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mo um fluido atravessa o limite do suave para o turbulento? Antes
que a turbulência se desenvolva totalmente, que fases intermediá-
rias podem existir? Havia uma teoria um pouco melhor para tais
questões. Esse paradigma ortodoxo vinha de Lev D. Landau, o grande
cientista russo cujo texto sobre dinâmica dos fluidos continua sendo
um clássico.4 O quadro de Landau é um amontoado de ritmos que
competem. Quando mais energia entra num sistema, conjeturou
ele, novas freqüências começam, uma de cada vez, cada qual incom-
patível com a última, como se uma corda de violino respondesse
a um golpe mais enérgico do arco vibrando com um segundo tom,
dissonante, depois um terceiro, e um quarto, até que o som setor-
nasse uma cacofonia incompreensível.
Qualquer líquido ou gás é um conjunto de partículas, tantas
que podem ser infinitas. Se cada uma se movimentasse de forma in-
dependente, então o fluido teria possibilidades infinitas, "graus de
liberdade" infinitos, no jargão especializado, e as equações quedes-
crevem o movimento teriam de tratar de variáveis infinitas. As par-
tículas, porém, não se movem de forma independente - seu mo-
vimento depende muito do movimento das partículas vizinhas -
e num fluxo suave, razão pela qual os graus de liberdade podem ser
poucos. Movimentos potencialmente complexos continuam con-
jugados. Partículas próximas permanecem próximas ou se afastam
de uma maneira suave, linear, que produz linhas claras em foços de
túnel aerodinâmico. As partículas numa coluna de fumaça de cigarro
sobem como se fossem uma, durante algum tempo.
Mas surge então a confusão, uma combinação de misteriosos
movimentos desordenados. Por vezes esses movimentos recebem
nomes: oscilatório, varicose oblíqua,s rolo-cruzado, nó, zigueza-
gue. Na opinião de Landau, esses movimentos instáveis e novos ape-
nas se acumularam, um sobre o outro, criando ritmos com veloci-
dades e tamanhos coincidentes. Conceitualmente, essa idéia orto-
doxa da turbulência parecia harmonizar-se com os fatos, e se ateo-
ria era matematicamente inútil - como era - , bem, que o fosse. O
paradigma de Landau era uma maneira de manter a dignidade ao
mesmo tempo que se levantavam as mãos.
A água corre por um cano, ou em volta de um cilindro, fazen-
do um silvo leve e suave. Aumentemos, mentalmente, a pressão. Um
ritmo de vai-e-vem começa. Como uma onda, ela bate lentamente
contra o cano. Giremos novamente a torneira. Vinda de alguma parte,
urna segunda freqüência entra em cena, fora de sincronização com
a primeira. Os ritmos se sobrepõem, competem, chocam-se. Já co-
meçam a criar um movimento complicado, as ondas batendo con-
tra as paredes, interferindo umas nas outras, a tal ponto que quase
não podemos acompanhá-las. Vamos dar mais uma volta na tornei-

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ra. Uma terceira freqüência começa, depois uma quarra, uma quinta,
uma sexta, todas incomensuráveis. O fluxo tornou-se extremamente
complicado. Talvez isso seja turbulência. Os físicos aceitam esse qua-
dro, mas ninguém tinha qualquer idéia de como prever quando um
aumento de energia criaria uma nova freqüência, ou qual seria a nova
freqüência. Ninguém tinha visto essas freqüências que chegam tão
misteriosamente, numa experiência, porque na verdade ninguém
jamais testou a teoria de Landau sobre ó início da turbulência.

· Os teóricos fazem experimentos com seus cérebros. Os expe-


rimentadores têm de usar as mãos, também. Os teórieos são pensa-
dores, os experimentadores são artesãos. O teórico não precisa de
cúmplices. O experimentador tem de reunir estudantes de pós-
graduação, adular maquinistas, lisonjear assistentes de laboratório.
O teórico opera num lugar puro, livre de ruído, vibração, sujeira.
O experimentador desenvolve uma intimidade com a matéria, tal
como o escultor com a argila, lutando com ela, dando-lhe forma ,
empenhando-se. O teórico inventa suas companheiras, como um
Romeu ingênuo imaginava a sua Julieta ideal. As amantes do expe-
rimentador suam, reclamam e soltam gases.
Eles precisam um do outro, mas teóricos e experimentadores
permitiram que certas desigualdades entrassem na~ suas relações,
desde os tempos antigo11 quando todo cientista era as duas coisas
1

ao mesmo tempo. Embora os melhores experimentadores ainda


guardem em si um pouco do teórico, a recíproca não é verdadeira.
Em última análise, o prestígio vai em grande parte para o teórico.
Na física da alta energia, em especial, a glória cabe aos teóricos, en-
quanto os experimentadores tornaram-se técnicos altamente espe-
cializados, manejando equipamento caro e complicado. Nas déca-
das decorridas desde a Segunda Guerra Mundial, à medida que a
física passou a ser definida pelo estudo das partículas fundamen-
tais, os experimentos que tiveram maior divulgação foram os reali-
zados com os aceleradores de partículas. Spin, simetrfa, cor, sabor
- eram essas as abstrações fascinantes. Para a maioria dos leigos que
acompanham a ciência, e para um número razoável de cientistas,
o estudo das partículas atômicas era a física . Mas estudar partícu-
las menores, ou escalas temporais menores, significava maiores ní-
veis de energia. Dessa forma, a maquinária necessária aos bons ex-
perimentos aumentou com o passar dos anos, e a natureza da ex-
perimentação transformou-se, para sempre, na física das partículas.
O campo estava lotado, e o grande experimento estimulava a for-
mação de equipes. Os trabalhos sobre a física das partículas
destacavam-se com freqüência na Physical Review Letters: em ge-

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ral, uma relação de autores podia ocupar quase um quarto do ta-
manho do artigo.
Alguns experimentadores, porém, preferiram trabalhar sozi-
nhos, ou em duplas. Trabalhavam com substâncias mais à mão. Em-
bora campos como a hidrodinâmica tivessem perdido status, a fí-
sica do estado sólido crescera em prestígio, aumentando o seu terri-
tório o bastante para exigir um nome mais abrangente, ''f'JSica da ma-
téria condensada" : a física dos sólidos e líquidos. Na física da ma-
téria condensada, a maquinária era mais simples. A distância entre
o teórico e o experimentador era menor. Os teóricos exibiam um
pouco menos de esnobismo, e os experimentadores uma atitude
um pouco menos defensiva.
Mesmo assim, as perspectivas eram difernts~ Era normal um
teórico interromper a conferência de um experimentador para per-
guntar: Um número maior de dados não seria mais convincente?
Aquele gráfico não está um pouco confuso? Aqueles números não
deveriam estender-se, para cima e para baixo, por mais algumas or-
dens de grandeza?
E, em troca, era normal Harry Swinney esticar-se bem em seus
quase 1, 70m de altura e dizer: "Correto", com uma mistura de seu
encanto inato da lDuisiana e sua~ nova-iorquina adqui-
rida. "Correto, se tivermos um número infinito de dados livres de
ruído." 6 E voltando para o quadro-negro, liquidar a pergunta com
as seguintes palavras: "Na realidade, é claro, temos um número li-
mitado de dados cheios de ruído."
Swinney estava fazendo experimentos com estruturas não-
cristalinas. Para ele, o ponto crucial tinha ocorrido quando era alu-
no do curso de pós-graduação daJohns Hopkins. O entusiasmo pela
física das partículas era perceptível. O inspirador Murray Gell-Mann
foi fazer uma palestra, certa vez, e Swinney ficou encantado. Mas
quando investigou ó que os alunos de pós-graduação estavam fa-
zendo, descobriu que escreviam, todos, programas cie computador
ou soldavam câmaras de ignição. Foi então que conversou comum
físico mais velho, que esciva começando a trabalhar em transições
de fase - passagens do sólido para o líquido, do não-imã para o imã,
do condutor para o supercondutor. Em pouco tempo, Swinney ti-
nha uma sala vazia - não muito maior do que um armário, mas só
sua. Tinha um catálogo de equipamentos, e começou a fazer enco-
mendas. Dentro em pouco tinha uma mesa, um laser, equipamen- .
to de refrigeração e algumas pontas de prova. Projetou um apare-
lho para medir a eficiência com que o dióxido de carbono condu-
zia o calor em volta do ponto crítico em que ele se transformava
de vapor em líquido. A maioria das pessoas achava que a conduti-
vidade térmica se modificaria ligeiramente. Swinney verificou que

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se modificava por um fator de 1.000. Isto era emocionante - sozi-
nho numa salinha, descobrir alguma coisa que ninguém mais sa-
bia. Viu a luz sobrenatural que brilha de um vapor, qualquer vapor,
próximo do ponto crítico, alui chamada "opalescência" em virtude
da suave dispersão dos raios que lhe dá o brilho branco de opala . .
Como grande parte do próprio caos, as transições de fase en-
volvem uma espécie de comportamento macro~ ko que pare-
ceâifícil de prever 12elo e me dos detalhes microscópicos. Quan-
do um sólido é aquecido, suas molécu as vibram cõmõaéréscimo
de energia. Pressionam para fora, contra suas ligações, e forçam a
substância a expandir-se. Quanto mais calor, mais expansão. Não
obstante, a uma certa temperatura e pressão, a transformaçãQ torna-se
s~ _ ~ pescontír~ua , Uma corda que se estava esticando se rom~
pe. A fotma cristalina .§.e_diss.Qlve, e as moléculas se afastam umas
das outras. Obedecem a lÔs dos fluidos qµe não poderiam ter sido
deduzidas de f!_en):m _ aSQ~Ct Q ººsó.lido. A energia atômica média
quâsE"nãó mudou, mas o material - ora um líquido, ora um imã,
ou um su rcondutor - entrou num novo reino. ·
Günter Ahlers, da AT&T Bell Laboratories em Nova Jersey, exa-
minou a chamada transição superfluida em hélio líquido, na qual,
à medida que a temperatura baixa, o material se torna uma espécie
de líquido de fluxo mágico, sem nenhuma viscosidade ou atrito per-
ceptível. Outros tinham estudado a supercondutividade. Swinney
estudou o ponto crítico no qual a matéria se modifica entre líqui-
do e vapor. Swinney, Ahlers, Pierre Bergé,Jerry Gollub, Marzio Gi-
glio - em meados da década de 70 esses experimentadores, e ou-
tros nos Estados Unidos, na França e na Itália, todos da jovem tra-
dição da exploração das transições de fase, procuravam novos pro-
blemas. Com a mesma intimidade com que o carteiro aprende os
acidentes de sua área, eles aprenderam as indicações singulares das
substâncias que mudavam de estado fundamental. Tinham estudado #
a borda sobre a qual pendia a matéria.
A marcha da pesquisa da transição de fase tinha seguido os de-
graus da analogia: uma transição de fase de um não-imã para um imã
mostrou-se igual a uma transição de fase de líquido para vapor. A
transição de fase de fluido para superfluido mostrou-se igual à tran-
sição de fase de condutor para supercondutor. A matemática de um
experimento aplicava-se a muitos outros. Na década de 70 o pro-
blema tinha, em grande parte, sido resolvido. Uma questão, porém,
era até que ponto se poderia levar a teoria. Que outras modificações
no mundo, quando examinadas de perto, seriam transições de fase?
Não era uma idéia muito original, nem muito óbvia a de apli-
car as técnicas de transição de fase ao fluxo dos fluidos . Não era muito
original, porque os grandes pioneiros da hidrodinâmica, Reynolds

129

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~- 1
e Rayleigh, e seus seguidores de princípios do século.XX, já tinham
notado que um experimento em fluido cuidadosamente controla-
do produz uma mudança na qualidade do movimento - em ter-
mos matemáticos, uma bifurcação. Numa célula de fluido, por exem-
plo, líquido aquecido do fundo passa subitamente da imobld ~ de
para o movimento. Os físicos foram tentados a supor que o carater
físico dessa bifurcação se assemelhava às mudanças numa substân-
cia, que se inseria na classificação de transições de fase.
Não era o tipo de experimento mais óbvio porque, ao contrá-
rio das transições de fase reais, essas bifurcações de fluidos não acar-
retavam nenhuma mudança na própria substância. Em lugar disso,
acrescentavam um novo elemento: movimento. Um líquido para-
do torna-se um líquido em movimento. Por que a matemática dessa
mudança corresponde à matemática de uma condensação de vapor?

Em 1973 Swinney estava lecionando no City College de Nova


York. 7 Jerry Gollub, um sério e jovem aluno de pós-graduação de
Harvard, lecionava em Haverford. Haverford, um instituto de ciên-
cias humanas algo bucólico perto da Filadélfia, parecia um lugar pou-
co ideal para um físico. Não tinha estudantes de pós-graduação pa-
ra ajudar no trabalho de laboratório e ocupar a metade inferior da
importante relação entre mentor e protegido. Gollub, porém, gos-
tava de lecionar para estudantes de graduação e começou a trans-
formar o departamento de física da universidade num centro bem
conhecido pela qualidade de seu trabalho experimental. Naquele
ano, tirou um semestre de licença e foi para Nova York, colaborar
com Swinney.
Tendo em mente a analogia entre as transições de fase e as ins-
tabilidades dos fluidos, os dois resolveram examinar um sistema clás-
sico de líquidos confinados entre dois cilindros verticais. Um ci-
lindro girava dentro do outro, movimentando o líquido à sua vol-
ta. O sistema fechava o fluxo entre superfícies. Assim, restringia o
possível movimento do líquido no espaço, ao contrário dos jatos
e dos abalos em águas abertas. Os cilindros rotativos produziram
o que era conhecido como fluxo de Couette-Taylor. Tipicamente,
o cilindro interno gira dentro de uma concha estacionátfa, por uma
questão de comodidade. Quando a rotação começa e adquire ve-
locidade, ocorre a primeira instabilidade: o líquido forma um de-
senho elegante que se parece com uma pilha de câmaras de ar nu-
ma oficina mecânica. Faixas em forma de rosca surgem em volta do
cilindro, empilhadas umas sobre as outras. Uma mancha no fluido
gira não só de leste para oeste, mas também para cima, para baixo
e para fora , em volta das roscas. Isso já tinha sido efetuado. G.1. Taylor
o tinha visto e medido em 1923 .

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FLUXO ENTRE CILINDROS ROTATIVOS. O fluxo da água mostrado entre
dois cilindros deu a Harry Swinney e Jerry Gollub uma maneira de ver o iní-
cio da turbulência. Quando a taxa de rotação aumenta, a estrutura torna-se
mais complexa. Primeiro, a água forma um padrão característioo do fluxo se-
melhante a roscas amontoadas. Depois as roscas começam a enrugar-se. Os
físicos usaram um laser para medir a mudança da velocidade da água ao apa-
recer toda nova instabilidade.
Para estudar o fluxo de Couette, Swinney e Gollub construí-
ram um mecanismo que podia ser colocado sobre uma mesa, um

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cilindro de vidro externo do tamanho de uma lata de bolas de tê-
nis, com cerca de 30 centímetros de altura e cinco centímetros de
largura . Um cilindro.interno de aço encaixava-se perfeitamente lá
dentro, deixando apenas um oitavo de polegada para a água. "Era
uma aparelhagem rudimentar'', disse Freeman Dyson, um dos ines-
perados e ilustres observadores que ali foram nos meses seguintes.
''Tínhamos aqueles dois cavalheiros num acanhado e simples labo-
ratório, essencialmente sem dinheiro, fazendo um experimento de
grande beleza. Foi o início de um bom trabalho substantivo sobre
a turbulência." 8
Os dois tinham em mente uma tarefa científica legítima que
lhes teria proporcionado um certo reconhecimento pelo seu tra-
balho e, em seguida, o esquecimento. Swinney e Gollub pretendiam
confirmar a idéia de Landau sobre o início da turbulência. Os ex-
perimentadores não tinham razões para duvidar dela. Sabiam que
os especialistas em dinâmica dos fluidos acreditavam no quadro de
Landau. Como físicos, gostavam dele porque se enquadrava no qua-
dro geral das transições de fase, e o próprio Landau tinha propor-
cionado a mais funcional das estruturas antigas para o estudo das
transições de fase, baseada na sua percepção de que esses fenôme-
nos podiam obedecer a leis universais, com regularidades que su-
peravam as diferenças em substâncias específicas. Quando estudou
o ponto crítico líquido-vapor no dióxido de carbono, Harry Swin-
ney o fez com a convicção de Landau de que suas descobertas se
aplicariam ao ponto crítico líquido-vapor em xenônio -e, realmen-
te, aplicavam-se. Por que não seria a turbulência uma constante acu-
mulação de ritmos conflitantes núm fluido em movimento?
Swinney e Gollub prepararam-se para combater a confusão dos
fluidos em movimento com um arsenal de claras técnicas experi-
mentais, construído no decorrer de anos de estudo das transições
de fase, nas mais delicadas circunstâncias. Tinham estilos de labo-
ratório e equipamento de medir que um especialista em dinâmica
dos fluidos jamais teria imaginado. Para investigar as correntes de
convecção, usavam luz de laser.Um feixe brilhando através da água
produzia uma deflexão, ou dispersão, que podia ser medida com
uma técnica chamada interferometria a laser Doppler. E os dados
podiam ser armazenados e processados pelo computador - apa-
relho que em 1975 raramente era visto numa mesa de laboratório
de experimentos.
Landau tinha dito que novas freqüências surgiriam, uma de ca-
da vez, à medida que o fluxo aumentasse. "Lemos isso" lembrou
Swinney, "e dissemos: muito bem, examinaremos as transições em
que essas freqüências aparecem. Examinamos, e certamente hou-
ve uma transição muito bem definida. Avançamos e recuamos a tran-

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sição, aumentando e diminuindo a velocidade de rotação do cilin-
dro. Estava muito bem definida."9
Quando começaram a relatar os resultados,JO Swinney e Gol-
lub enfrentaram um limite soeiológico da ciência, entre o domínio
da física e o domínio da dinâmica dos fluidos. O limite tinha certas
características nítidas. Em especial, determinava que burocracia,
dentro da Fundação Nacional da Ciência, controlava seu financia-
mento. Na década, de 80 um experimento Couette-Taylor era no-
vamente física, mas em 1973 era apenas a dinâmica dos fluidos, e
para pessoas acostumadas à dinâmica dos fluidos, os primeiros nú-
meros vindos desse pequeno laboratório de City College eram sus-
peitosamente limpos. Os especialistas no campo não acreditavam
neles, simplesmente. Não estavam acostumados a experimentos no
estilo preciso da física de transição de fase. Além disso, na perspec-
tiva da dinâmica dos fluidos, a razão teórica desse experimento era
difícil de ver: Na vez seguinte em que Swinney e Gollub tentaram
conseguir dinheiro da Fundação Nacional da Ciência, não foram
;itendidos em seu pedido. Alguns dos responsáveis pelas verbas da
fundação não acreditavam nos seus resultados, e alguns disseram
que não havia neles nada de novo.
Mas o experimento não parou. ''Havia a transição, muito bem
definida", disse Swinney. "Isso era grande. Então prosseguimos, a .
procurar a seguinte." 11 · · · · · - - · · -"·: --

E então a esperada seqüência de Landau foi interrompida. O ·


experimento deixou de confirmar a teoria.12 Na transição seguin-
te o fluxo pulou para um estado confuso, sem ciclos distinguíveis.
Nenhuma freqüência nova, nenhuma intensificação gradual da com-
plexidade. " O que verificamos foi que a coisa se tornou caótica."
Poucos meses depois, um belga magro, muito encantador, apare-
ceu à porta de seu laboratódo.
l)avid Ruelle costumava dizer13 que há dois tipos de físicos, os
que cresceram desmontando rádios - numa época anterior ao es-
tado sólido, quando ainda se podiam ver fios e válvulas eletrônicas
de brilho alaranjado e imaginar alguma coisa sobre o fluxo dos elé-
trons - e os que brincavam com conjuntos de química. Ruelle brin-
cava com conjuntos de química, ou não exatamente conjuntos, no
recente sentido americano, mas produtos químicos, explosivos ou
venenosos, prazeirosamente fornecidos pelos farmacêuticos de sua
cidade natal no norte da Bélgica, e em seguida misturados, agita-
dos, aquecidos, cristalizados, e por vezes explodidos pelo próprio
Ruelle. Ele nasceu em Gand, em 1935, filho de um professor de gi-
nástica e de uma professora universitária de lingüística, e embora
tivesse feito carreira no reino abstrato da ciência, sempre teve gos-

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to pelo lado perigoso da natureza, que escondia suas surpresas em
cogumelos criptógaf!l.OS fungói(jes, ou salitre, enxofre e carvão.
Foi na física matemática, porém, que Ruelle fez a sua contri-
buição duradoura para a investigação do caos. Em 1970 ele tinha
entrado para o Institut des Hautes Études Scientifiques, um insti-
tuto nas proximidades de Paris, modelado no Instituto de Estudos
Avançados, de Princeton.] á tinha desenvolvido o hábito, que se pro-
longaria por toda a sua vida, de deixar o instituto e sua família, pe-
riodicamente, para fazer caminhadas solitjrias, que duravam sema-
nas, levando apenas uma mochila, por terras desertas, na Islândia
ou no México rural. Com freqüência, não via ninguém . Quando en-
contrava seres humanos e aceitava-lhes a hospitalidade-talvez uma
refeição de tortillas de milho, sem qualquer gordura, animal ouve-
getal - , achava que estava vendo o mundo tal como existira dois
milênios antes. Quando voltava para o instituto, recomeçava a sua exis-
tência científica, o rosto apenas um pouco mais magro, a pele um pou-
co mais esticada na testa redonda ou no queixo pontudo. Ruelle ti-
nha ouvido conferências de Steve Smale sobre o mapa ferradura e as
possibilidades caóticas dos sistemas dinâmicos. Também tinha pen-
sado na turbulência dos fluidos e na imagem clássica de Landau. Des-
confiava que essas id_éias eram relacionadas - e contraditórias.
Ruelle não tinha experiência com os fluxos de fluidos, mas is-
so não o desanimou, como não tinha desanimado seus muitos pre-
decessores malsucedidos. "Os não-especialistas sempre descobrem
as coisas novas", disse ele. 14 Não existe uma teoria profunda, natu-
ral, da turbulência. Todas as perguntas que se podem fazer sobre
a turbulência são de uma natureza mais geral e, portanto, acessíveis
aos não-especialistas." Era fácil ver por que a turbulência resistia à
análise. As equações de fluxo dos fluidos eram equações diferenciais
parciais não-lineares, insolúveis, exceto em casos especiais. Não obs-
tante, Ruelle criou uma altemativa abstrata para o quadro de Landau,
formulada na linguagem de Smale, com imagens do espaço como um
material flexível a ser espremido, esticado e dobrado em formas se-
melhantes a ferraduras. Escreveu um trabalho em seu instituto, com
um matemático holandês visitante, Floris Takens, que ambos publi-
caram em 1971. is O estilo era inequivocadamente matemático - fí-
sicos, cautela! -, ou seja, os parágrafos começavam com Definição
ou Proposição ou Prova, seguida do)ntrodutório inevitável: Seja ...
"Proposição (5 .2). Seja Xµ uma família de um parâmetro do
campo vetorial Ck num espaço Hilbert H tal que ..."
Não obstante, o título pretendia uma conexão com o mundo
real: "Da Natureza da Turbulência", uin eco deliberado do famoso
título de Landau, "Do Problema da Turbulência". O objetivo claro
do argumento de Ruelle e Takens ia além da matemática; eles pre-

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tendiam oferecer um substituto para a idéia tradicional do início da
turbulência. Em lugar de acumulação de freqüências que levava a uma
infinidade de movimentos independentes sobrepostos, afirmavam
que apenas três movimentos independentes produziriam a comple-
xidade total da turbulência. Matematicamente falando, parte de sua
lógica revelou-se obscura, errada, copiada- ou tudo isso ao mes-
mo tempo - as opiniões ainda variavam, 15 anos depois. t6
Mas a percepção, o comentário, a marginália e a física existen-
tes naquele trabalho fizeram dele uma contribuição duradoura . O
mais sedutor era uma imagem que os autores chamavam de atra-
tor estranho. Essa expressão era psicanalíticamente "sugestiva'', co-
mo Ruelle achou mais tarde.17 Sua posição no estudo do caos foi tal
que ele e Thkens brigaram, sob uma aparência de cordialidade, pe-
la honra de ter escolhido as palavras. A verdade é que nenhum dos
dois se lembravam, mas Takens, um homem alto, corado, ferozmente
nórdico, diria: "Você já perguntou a Deus se ele criou este maldito
universo? ... Eu não me lembro de nada ... Muitas vezes crio sem me
lembrar disso". 18 Por sua vez, Ruelle, o principal autor do trabalho,
diria suavemente: "Takens estava visitando o IHES. Pessoas dife~nts
trabalham de maneira diferente. Algumas pessoas tentariam escre-
ver um artigo sozinhas, para ter todo o crédito." 19
O atrator estranho vive no espaço de fase, uma das invenções
mais poderosas da ciência moderna. O espaço de fase proporcio-
na uma maneira de transformar números em imagens, extraindo to-
das as informações essenciais de um sistema de partes móveis, me-
cânicas ou fluidas, e traçando um flexível mapa rodoviário de to-
das as suas possibilidades. Os físicos já trabalhavam com dois tipos
de "atratores " mais simples: pontos fixos e ciclos limites, represen-
tando o comportamento que chegava a um regime estacionário ou
se repetia continuamente .
No espaço de fase, o conhecimento total sobre um sistema di-
nâmico num instante único do tempo resume-se a um pünto: Esse
ponto é o sistema dinâmico - naquele instante. No instante seguinte,
porém, o sistema se terá modificado, mesmo que seja levemente,
e assim o ponto se move. A história do tempo do sistema pode ser
registrada num gráfico pelo ponto móvel, traçando-se sua órbita pelo
espaço de fase com a passagem oo tempo.
Como podem todas as informações sobre um sistema compli-
cado estar armazenadas num ponto? Se o sistema tem apenas duas
variáveis, a resposta é simples. Vem diretamente da geometria car-
tesiana ensinada nas escolas secundárias - uma variável no eixo
horizontal, a outra no vertical. Se o sistema é um pêndulo oscilan-
te, sem a,trito, uma variável é a posição, e a outra, a velocidade, e elas
mudam consrantemente, fazendo uma linha de pequenos pontos

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que traça um loop, repetindo-se para sempre, em círculos. O mes-
mo sistema com um nível de energia mais alto - oscilando cada
vez mais depressa e mais longe - forma um loop no espaço de fase
semelhante ao primeiro, porém maior.
Um pouco de realismo, sob a forma de atrito, modifica o qua-
dro. Não precisamos de equações de movimento para saber o des-
tino de um pêndulo sujeito a atrito. Toda órbita tem de acabar no
mesmo lugar, o centro: posição O, velocidade O. Esse ponto cen-
tral fixo "atrai" as órbitas. Em lugar de dar voltas e voltas continua-
mente, elas espiralam para dentro. O atrito dissipa a energia do sis-
tema, e no espaço de fase a dissipação se revela como uma pressão
em direção ao centro, a partir das regiões externas de alta energia
para as regiões internas de baixa energia. O atrator - o tipo mais
simples possível - é como um pequeno imã embutido numa lâ-
mina de borracha.
Uma vantagem de se ver os estados como pontos no espaço
é que isso torna mais fácil a observação da mudança. Um sistema
cujas variáveis se modificam continuamente, para cima e para bai-
xo, torna-se um ponto móvel, como uma mosca voando pela sala.
Se algumas combinações de variáveis nunca ocorrem, então o cien-
tista pode simplesmente imaginar que parte da sala é uma área proi-
bida. A mosca nunca vai ali. Se o sistema comporta-se periodica-
mente, voltan~ ao mesmo estado repetidamente, então a mosca
se movimenta numa espiral, passando pela mesma posição no es-
paço de fase repetidamente. Os retratos do espaço de fase dos sis-
temas físicos mostravam movimentos que de outra forma seriam
invisíveis, como a fotografia em infravermelho de uma paisagem po-
de revelar configurações e detalhes que estão pouco além do alcance
da percepção. Quando examinava um retrato de fase, o cientista po-
dia usar sua imaginação para repensar o próprio sistema. Esse loop
ou espiral corresponde a tal periodicidade. Essa torção correspon-
de àquela mudança. Esse vazio corresponde àquela impossibilida-
de física.
Mesmo em duas dimensões, os retratos do espaço de fase ti-
nham muitas surpresas guardadas, e até mesmo computadores pe-
quenos podiam demonstrar facilmente algumas delas, transforman-
do equações em coloridas trajetórias móveis. Alguns físicos come-
çaram a fazer filmes e videoteipes para mostrar aos colegas, e alguns
matemáticos da Califórnia20 publicaram livros com uma série de
desenhos nas cores verde, azul e vermelho, ao estilo de caricaturas
- "quadrinhos do caos", como disseram alguns de seus colegas,
com um leve toque de malícia. As duas dimensões começaram a não
cobrir os tipos de sistemas que os físicos precisavam estudar. Tinham
de mostrar mais do que duas variáveis, e isso significava mais dimen-

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e{
A velocidade é O q u ando
o pêndulo começa a osci-
,. lar. A posição é um nú-
..

rrJ _./
.-···
mero negativo, a distân-
cia para a esquerda do 1

.iJJ_
centro.

Os dois números especi-


-·------ ficam um p o nto único
no espaço de fase
bidimerisionaL . :+-

\(~ _/ A velocidade atinge o


máximo quando a posi-
ção do pêndulo passa
poro .

~
-. ---..... A velocidade diminui
novamente para O e em
seguida torna-se nega-
tiva para representar o
movimento para a

~ '--------- -
esquerda.
,.

OUTRA MANEIRA DE VER UM PÊNDULO. Um ponto no espaço de fase (di-


reita) contém todas as informações sobre o estado de um sistema dinãmico em
qualquer momento (esquerda). Para um pêndulo simples, dois números -ve-
locidade e posição - é tudo o que se precisa conhecer.

Os pontos traçam uma trajetória


que proporciona uma maneira de
visualizar o comportamento
contínuo a longb prazo de um
sistema dinâmico. Um loop
repetitivo representa um sistema
que se repete a intervalos regulares
para s e mpre.
S e o comportamento repetitivo
é estável, como no relógio de
pêndulo, então o sistema volta a
essa órbita depois de quaisquer
pequenas perturbações. No espaço
de fase, as trajetórias próximas da
órbita são atraídas para ela; a
órbita é um atrator.

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sões. Toda parte de um sistema dinâmico que se pode movimentar
independentemente é outra variável, outro grau de liberdade. E cada
grau de liberdade exige outra dimensão no espaço de fase, a fim de
que um único ponto contenha informações suficientes para deter-
minar o estado do sistema, de forma única. As equações simples que
Robert May estudou eram unidimensionais - um único número
bastava, um número que podia representar a temperatura ou a po-
pulação, e esse número definia a posição de um ponto numa linha
unidimensional. O sistema simplificado de convecção dos fluidos
de Lorenz era tridimensional, não porque o fluido se movesse em
três dimensões, mas porque eram necessários três números dife-
rentes para fixar o estado do fluido a qualquer momento.
Espaços de quatro, cinco ou mais dimensões sobrecarregam
a imaginação visual até mesmo do mais ágil topologista. Mas os sis-
temas complexos têm muitas variáveis independentes. Os matemá-
ticos tiveram de aceitar o fato de que sistemas com uma infinidade
de grau~ de liberdade - a natureza sem peias expressa-se numa tur-
bulenta queda d'água ou num cérebro imprevisível - exigiam um
espaço de fase de dimensões infinitas. Mas quem podia manusear
tal coisa? Era uma hidra, impiedosa e incontrolável, e foi a imagem
de Landau para a turbulência: modos infinitos, graus infinitos de
liberdade, dimensões infinitas.

Os físicos tinham boas razões para não gostar de um modelo


que via tão pouca clareza na natureza. Usando equações não-lineares
do movimento fluido, os mais rápidos supercomputadores do mun-
do foram incapazes de traçar com precisão o fluxo turbulento até
mesmo de um centímetro cúbico, por mais de uns poucos segun-
dos. A culpa disso foi, certamente, mais da natureza do que de Lan-
dau, mas mesmo assim o quadro de Landau ia contra as tendências.
À falta de qualquer conhecimento, o físico poderia suspeitar que
algum princípio estava escapando à descoberta. O grande teórico
do quantum Richard P Feynman, expressou esse sentimento. ''Sem-
pre me aborrece o fato de que, de acordo com as leis tal como as
entendemos hoje, seja necessário um número infinito de operações
lógicas de uma máquina computadora para verificar o que aconte-
ce numa região do espaço, por menor que seja, e por uma região
do tempo, por menor que seja. Como é possível que tudo aquilo
esteja ocorrendo nesse pequeno espaço? Por que seria necessário
um volume infinito de lógica para determinar o que um pequeno
fragmento de espaço/tempo vai fazer?" 21
Como tantos outros que começaram a estudar o caos, David
Ruelle suspeitava 22 que os padrões visíveis no fluxo turbulento -
linhas de circulação auto-emaranhadas, vórtices espirais, espirais

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1 • 1 1
1

O atrator pode ser um único ponto. Para um pêndulo que perde constantemente
a energia com o atrito, todas as trajetórias espirala.Iil para dentro na direção
de um ponto que representa um regime estacionário - neste caso, o regime
estacionário de total ausência de movimento.

que surgem ante o olho e desaparecem novamente - refletiam pa-


drões explicados por leis ainda não descobertas. Para ele, a dissipa-
ção de energia num fluxo turbulento ainda deve levar a uma espé-
cie de contração do espaço de fase, um puxão no sentido de um atra-
tor. Certamente, o atrator não seria um ponto fixo, porque o fluxo
n ão entraria nunca em repouso. A energia estava entrando no siste-
ma, bem como saindo dele. Que outro tipo de atrator poderia ser?
De acordo com o dogma, só havia um outro tipo, um atrator perió-
dico, ou ciclo limite - uma ó rbita que atraía todas as ó rbitas próxi-
mas. Se um pêndulo adquire energia de uma mola, enquanto a per"
de com o atrito - isto é, se o pêndulo é ao mesmo tempo impul-
sionado e amortecido - uma órbita estável pode ser o loop fecha-
do no espaço de fase que representa o movimento oscilatório re-
gular de um relógio de pêndulo. Qualquer que seja o ponto em que
ele comece, o pêndulo se fi xará numa órbita. Será? Em certas con-
dições iniciais - as de mais baixa energia - o pêndulo ainda aca-
bará parando, o que significa que o sistema tem na realidade dois
atratores, sendo um deles um loop fechado e o outro, um ponto fi-
xo. Cada atrator tem sua "bacia", assim como dois rios próximos
banham suas próprias bacias específicas.
A curto prazo, qualquer ponto num espaço de fase pode re-
presentar um comportamento possível do sistema dinâmico. A lon-
go prazo, os únicos comportamentos possíveis são os próprios atra-
tores. Outros tipos de movimento são transitórios . Por definição,
os atratores tinham a importante propriedade da estabilidade - num

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sistema real onde as partes móvekestãci sujeitas a choques e sacu-
didelas em virtude do ruído do mundo real , o movimento tende
a
a retornar para o atrator. Um choque pode deslocar trajetória por
um breve período de tempo, mas os resultantes movimentos tran-
sitórios acabam desaparecendo. Mesmo que um gato esbarre nele,
o relógio de pêndulo não passa para um minuto de 62 segundos.
A turbulência num fluido era um comportamento de uma ordem
diferente, que jamais produzia um ritmo único, com exclusão dos
outros. Uma característica bem conhecida da turbulência era apre-
sença simultânea de todo o amplo espectro de ciclos possíveis. A
turbulência é como o ruído branco, ou estática. Poderia isso surgir
de um sistema de equações determinista e simples?
Ruelle e Takens indagaram se algum outro tipo de atrator po-
dia ter o conjunto adequado de propriedade. Estável - represen-
tando o estado final de um sistema dinâmico num mundo cheio de
ruídos. De baixa dimensão - uma órbita num espaço de fase que
pódia ser uin retângulo ou uma caixa, com apenas alguns graus de
liberdade. Não-periódico - que nunca se repetisse, e nunca caísse
num ritmo estável do relógio de pêndulo. Geometricamente, a ques-
tão era um enigma: que tipo de órbita podia ser traçada hum espa-
ço limitado, de modo a não repetir-se nunca e nunca cruzar-se -
porque quando um sistema retorna a um estado pelo qual já pas-
sou, deve seguir o mesmo caminho, a partir dali . Para produzir to-
dos os ritmos, a órbita teria de ser uma linha infinitamente longa
numa área finita. Em outras palavras - mas a palavra não tinha si-
do criada-, teria de ser fractal . ·
Pelo raciocínio matemático, Ruelle eTakens afirmaram que tal
coisa devia existir. Nunca a tinham visto, e não desenharam uma.
Mas a afirmação bastava. Mais tarde, fazendo um discurso perante
o Congresso Internacional de Matemática, em Varsóvia, com a con-
fortável vantagem de uma visão retrospectiva, Ruelle declarou: "A
reação do público científico à nossa proposição foi bastante fria .
Em especial, a idéia de que o espectro contínuo estaria associado
a alguns graus de liberdade foi vista como uma heresia por muitos
físicos ." 23 Mas foram os físicos - alguns apenas, na verdade - que
reconheceram a importância do artigo de 1971 e continuaram a de~
senvolver suas implicações.

Na realidade, em 1971 a bibliografia científica já continha um


pequeno desenho linear da inimaginável besta que Ruelle e Takens
estavam tentando trazer à vida. Edward Lorenz o tinha anexado ao
seu artigo de 1963 sobre o caos determinista, 24 um desenho com
apenas duas curvas à direita, uma dentro da outra, e cinco à esquerda.
Para projetar apenas ~se sete loops foram necessários SOO cálcu-

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- · · · 1

O PRIMEIROATRJITOR ESTRANHO. Em 1963 Edward Ll:Jrenz só pôde com-


putar os primeiros poucos fios de um atrator para seu sistema simples de equa-
ções. Mas pôde ver que o entrelaçamento das duas asas espirais devia ter uma
extraordinária estrutura em escalas invisivelmente pequenas.

los sucessivos no computador. Um ponto movimentando-se ao lon-


go dessa trajetória no espaço de fase, em torno dos loops, ilustrava
a rotação lenta, caótica, de um fluido, tal como modelado pelas três
equações de Lorenz para a convecção. Como o sistema tinha três
variáveis independentes, esse atrator ficava num espaço de fase tri-
dimensional. Embora traçasse apenas um fragmento dele, Lorenz
pôde ver mais do que traçou: uma espécie de espiral dupla, como
um par de asas de borboleta, interligadas com infinita habilidade.
Quando o calor crescente do seu sistema empurrava o fluido nu-
ma direção, a trajetória permanecia do lado direito; quando o mo-
vimento rotativo parava e se invertia, a trajetória oscilava para a ou
tra asa .
O atrator era estável, de báixa dimensão e não-periódico. Não
podia cortar-se nunca, porque se o fizesse, voltando a um ponto já
visitado, a partir de então o movimento se repetiria num loop pc
riódico. Isso nunca acontecia - e aí estava a beleza do atrator. Es
ses loops e espirais eram infinitamente profundos, nunca se juntando

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totalmente, nunca se cruzando. Não obstante, permaneciam den-
tro de um espaço finito, confif?.ado por uma caixa. Como era possí-
vel? Como podia um número infinito de percursos ficar num espa-
ço finito?
Numa época antes que as imagens dos fractais de M.andelbrot
tivessem inundado o mercado científico, os detalhes da constru-
ção de tal forma eram difíceis de ser imaginados, e Lorenz reconhe-
ceu uma "evidente contradição" em sua tentativa de descrição. "É
difícil conciliar a fusão de duas superfícies, uma das quais conten-
do todas as espirais, com a incapacidade de duas trajetórias se fun-
direm", 2 s escreveu ele. Viu, porém uma resposta demasiado delica-
da para aparecer nos poucos cálculps ao alcance de seu computa-
dor. Onde as espirais parecem juntar-se, as superfícies devem dividir-
se, percebeu ele, formando camadas separadas à maneira de um mil-
folhas. "Vemos que cada superfície é na realidade um par de super-
fícies, de modo que, quando parecem fundir-se, há na verdade qua-
tro superfícies. Continuando esse processo num outro circuito, ve-
mos que há realmente oito superfícies, etc., e concluímos finalmente
que há um infinito complexo de superfícies extremamente próxi-
mas de uma ou outra das duas superfícies que se fundem''. Não era
de surpreender que os meteorologistas deixassem, em 1963, essas
especulações de lado, nem que Ruelle, uma década depois, se es-
pantasse e entusiasmasse ao tomar finalmente conhecimento dO tra-
balho de lDrenz. Foi visitá-lo certa vez, 26 nos anos seguintes, e vol-
tou um pouco decepcionado por não terem falado mais do seu ter-
ritório comum na ciência. Com a timidez característica, Lorenz fez
do encontro uma ocasião social, e eles foram, acompanhados de
suas mulheres, a um museu de arte.
Os esforços de seguir as indicações fornecidas por RueUe e Ta-
kens tomaram duas direções. Uma delas foi a luta teórica para vi-
sualizar os atratores estranhos. Seria típico o atrator de Lorenz? Que
outros tipos de formas eram possíveis? A outra direção era uma li-
nha de trabalho experimental destinado a confirmar ou refutar o
ato de fé altamente não-matemático que sugeria a aplicabilidade dos
atratores estranhos ao caos na natureza.
No Japão, o estudo dos circuitos elétricos que imitavam o com-
portamento das molas mecânicas - com muito maior rapidez -
levou Yoshisuke Ueda a descobrir um conjunto extraordinariamente
belo de atratores estranhos. (Enfrentou uma versão oriental da frieza
com que Ruelle foi recebido: "Seu resultado não passa de uma os-
.cilação quase periódica. Não forme um conceito egoísta dos regi-
mes estacionários.")27 Na Alemanha, Otto Rõssler, um médico que
não clinicava e que chegou ao caos através da química e da biolo-
gia teórica, começou com a inesperada capacidade de ver os atra-

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-~, 1
1

tores estranhos como objetos filosóficos, deixando que a matemá-


tica viesse atrás. O nome de Rõssler ligou-se a lim atrator particu-
larmente sirrwles, na forma de uma faixa ou fita com um laço ou do-
bra, muito estudada por ser fácil de desenhar, mas ele visualizou tam-
bém os atratores em dimensões maiores - "uma salsicha numa sal-
sicha numa salsicha numa salsicha", 2 8 dizia, "tire-a, dobre-a,
aperte-a, coloque-a de volta". Na verdade, dobrar e apertar o espa-
ço era uma chave para a construção de atratores estranhos, e talvez
uma chave para a dinâmica dos sistemas reais que lhes deu origem.
Rõssler achava que tais formas embutiam um princípio de auto-
organização no mundo. Imaginava alguma coisa como uma biruta
num campo de aviação, "um tubo aberto com um buraco na pon-
ta, e o vento entra por ali'', disse ele. "Em seguida o vento fica pre-
so. Contra sua vontade, a energia faz alguma coisa produtiva, co-
mo o diabo na história medieval. O princípio é que a natureza faz
alguma coisa contra a sua própria vontade, e, emaranhando-se, pro-
duz beleza."
Fazer imagens dos atratores estranhos não era coisa simples.
De um modo geral, as órbitas percorriam suas trilhas cada vez mais
complicadas através de três dimensões ou mais, criando um traça-
do escuro no espaço, com uma estrutura interna que não podia ser
vista de fora . Para transformar essas meadas tridimensionais em ima-
gens planas, os cientistas usaram primeiro a técnica da projeção, na
qual um desenho representava a sombra que um atrator projetaria
numa superfície. Com atratores estranhos complicados, porém, a
projeção apenas atenua os contornos, transformando-os numa con-
fusão indecifrável. Uma técnica mais reveladora era fazer um ma-
pa de retorno, ou um mapa de Poincaré, tomando-se uma parte do
núcleo emaranhado do atrator, eliminando-se uma seção bidimen-
sional, assim como o patologista prepara uma seção do tecido para
uma lâmina de microscópio.
O mapa de Poincaré elimina uma dimensão de um atrator e
transforma uma linha contínua num conjunto de pontos. Ao redu-
zir um atrator ao seu mapa de Poincaré, o cientista supõe implicita-
mente que pode preservar grande parte do movimento essencial.
Pode imaginar, por exemplo, um atrator estranho dando voltas e
zumbindo ante seus olhos, com órbitas que vão para cima e para
baixo, para a esquerda e a direita , para frente e para trás, em sua tela
de computador. Cada vez que a órbita passa pela tela, deixa um ponto
brilhante no lugar do cruzamento, e qs pontos formam uma man-
cha randômica ou começam a traçar alguma forma em fósforo.
O processo corresponde à amostragem do estado de um sis-
tema, com certos intervalos, e não continuamente. Quando fazer
amostragem - onde tirar o pedaço do atrator estranho - é uma

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- __
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~- -
MOSTRANDO A ESTRUTURA DO ATRAToR. O atrator estranho acima -
primeiro uma órbita, depois dez, depois cem- mostra o comportamento caó-
tico de um rotor, um pêndulo oscilando num circulo completo, impulsionado
por um empuxe energétioo em intervalos regulares. Quando LOOO órbitas já
foram traçadas (embaixo) o atrator tornou-se um novelo impenetravelmente
embaraçado.
Para ver-a estrutura por dentro, o computador pode fazer um corte atra-
vés de um atrator, a chamada seção de Poincaré. A técnica reduz uma imagem
tridimensional a duas dimensões. 'lbda vez que a trajetória passa por um pla-
no, marca um ponto, e gradualmente surge um padrão minuciosamente deta-
lhado. Este exemplo tem mais de 8.000pohtos, cada qual representando uma
órbita completa em torno do atrator. Na verdade, o sistema é "amostrado" em
intervalos í:egulares. Um tipo de informação é perdido; outro é bastante des~
tacado.

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. . . . . 1

questão que proporciona certa flexibilidade ao investigador. O in-


tervalo mais informativo poderia corresponder a um aspecto físi-
co do sistema dinâmico : por exemplo, um mapa de Poincaré po-
deria fazer amostragens da velocidade de um pêndulo toda vez que
ele passasse pelo seu ponto mais baixo. Ou o investigador podia es-
colher um intervalo irregular de tempo, congelando estados suces-
sivos no clarão de uma luz estroboscópica imaginária. De qualquer
maneira, essas imagens começaram finalmente a revelar a estrutu-
ra fractal fina suposta por Edward lorenz . .

O atrator estranho mais esclarecedor, 29 por ser o mais sim-


ples, veio de um homem muito distanciado dos mistérios da tur-
bulência e da dinâmica dos fluidos. Era um astrônomo_, Michel Hé-
.non, do Observatório de Nice, no litoral sul da França. De certa ma-
neira, é claro que foi a astronomia que deu início aos sistemas di-.
nâmicos, pois os movimentos dos planetas no sentido dos pontei-
ros do relógio deu a Newton o seu triunfo, e a Laplace a sua inspira-
ção. A mecânica celeste, porém, diferia da maioria dos sistemas ter-
restres num aspecto crítico. Os sistemas que perdem energia na fric-
ção são dissipáveis. Os sistemas astronômicos, ao contrário, são con-
servadores, ou hamiltonianos. Na verdade, numa escala quase infi-
nitesimal, até mesmo os sistemas astronômicos sofrem de uma es-
pécie de amortecimento, com as estrelas perdendo energia irradia-
da e o atrito das marés amortecendo certo momentum dos corpos
em órbita, mas, para finalidades práticas, os cálculos dos astrôno-
mos podiam ignorar a dissipação. E sem dissipação, o espaço de fa-
se não dobraria nem encolheria da maneira necessária à produção
de camadas fractais infinitas. Um atrator estranho jamais poderia sur-
gir. Poderia surgir o caos?
Muitos astrônomos têm carreiras longas e felizes sem nunca
pensar nos sistemas dinâmicos, mas Hénon era diferente. Nasceu
em Paris em 1931, sendo poucos anos mais jovem do que Lorenz,
mas, como este, era um cientista com certa atração não-realizada pela
matemática. Hénon gostava de problemas pequenos, concretos, que
pudessem ser ligados a situações físicas - "não como o tipo de ma-
temática feito hoje", dizia ele. Quando os computa dores chegaram
a um tamanho que permitiu sua utilização como passatempo, Hé-
non arranjou um, que montou e com o qual brincava em casa. Muito
antes disso, porém, ele se ocupou de um problema particularmen-
te intrigante em dinâmica. Relacionava-se com os aglomerados glo-
bulares - compactas bolas de estrelas, por vezes um milhão num
lugar, que formam os objetos mais antigos e, possivelmente, mais
espantosos do céu noturno. Os aglomerados globulares são sur-
preendentemente densos de estrelas. O problema de como perma-

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necem juntas e como evoluem no tempo tem desnorteado os as-
trônomos ao longo de todo o século XX.
Em termos dinâmicos, um aglomerado globular é um grande
problema de corpos múltiplos. O problema de um corpo duplo é
fácil. Newton ó resolveu completamente. Cada corpo - a terra e
a lua, por exemplo - percorre uma elipse perfeita em torno do cen-
tro conjunto de gravidade do sistema. Acrescente-se mais um ob-
jeto _gravitacional, porém, e tudo muda. O problema de três corpos
é dificil, e pior do que difícil. Como descobriu Poincaré, é na maioria
dos casos impossível. As órbitas podem ser calculadas numerica-
mente durante algum tempo, e com computadores potentes podem
ser acompanhadas por muito tempo, antes que as incertezas come-
. cem a predominar. Mas as equações não podem ser solucionadas
analiticamente, o que significa que questões a longo prazo sobre um
·sistema de três corpos não podem ser solucionadas. O sistema so-
lar é estável?3°Certamente parece ser, a curto prazo, mas ainda ho-
je ninguém sabe com certeza se algumas órbitas planetárias não po-
deriam tomar-se cada vez mais excêntricas, até os planetas se sepa-
rarem para sempre do sistema.
o
Um sistema como aglomerado globular é demasiado com-
plexo para ser tratado diretamente como um problema de corpos
múltiplos, mas a sua dinâmica pode ser estudada com a ajuda de
certas concessões. É aceitável , por exemplo, imaginar que as estre-
las isoladas seguem seu caminho através de um campo gravitacio-
nal médio com um centro gravitacional específico. Ocorre, porém,
duas estrelas se aproximarem o bastante para que stia interação te-
nha de ser tratada separadamente. E os astrônomos compreende-
ram que os aglomerados globulares não devem, em geral, ser está-
veis. Sistemas estelares binários tendem a formar-se dentro deles,
emparelhando-se as estrelas em pequenas órbitas compactas, e quan.
do uma terceira estrela encontra uma binária, uma das três tende
a levar um violento empurrão. Ocorre também uma estrela ganhar
energia suficiente com essa interação para alcançar a velocidade de
fuga e afastar-se para sempre do aglomerado; o resto deste, nesse
caso, contrai-se ligeiramente. Quando Hénon ocupou-se desse pro-
blema em sua tese de doutorado em Paris, em 1960, fez uma supo-
sição bastante arbitrária: que, à medida que o aglomerado mudava
de escala, permanecia semelhante a si mesmo. Desenvolveu os cál-
culos e chegou a um resultado surpreendente. O núcleo de um aglo-
merado desabaria, ganhando energia cinética e buscando um esta-
do de densidade infinita . Isso era difícil de imaginar, e além do mais
não tinha apoio nos dados dos aglomerados observados até então.
Lentamente, porém, a teoria de Hénon - que mais tarde recebeu
o nome de "colapso gravotérmico" - foi aceita .

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Assim fortalecido, querendo aplicar a matemática a velhos pro-
blemas e explorar os resultados inesperados até suas conseqüên-
cias improváveis, ele começou a trabalhar num problema muito mais
fácil - o da dinâmica estelar. Dessa vez, em 1962, visitando a Uni-·
versidade de Princeton, teve acesso pela primeira vez aos compu-
tadores, exatamente quando Lorenz, no M.l .T., começava a usá-los
em meteorologia. Hénon fez modelos das órbitas das estrelas à volta
de seu centro galáctico. De forma razoavelmente simples, as órbi-
tas galácticas podem ser tratadas como as órbitas dos planetas em
torno de um sol, com uma exceção: a fonte de gravidade central não
é um ponto, mas um disco com espessura em três dimensões.
Ele fez uma concessão com as equações diferenciais. "Para ter
mais liberdade de experimentação", como disse, "esquecemos mo-
mentaneamente a origem astronômica do problema".3' Embora
não o dissesse na época, "liberdade de experimentação" significa-
va, em parte, liberdade de jogar com o problema num computador
primitivo. Sua máquina tinha menos de um milésimo da memória
de um único chip de um computador particular de 2 5 anos depois,
e era lenta, também. Mas, à semelhança de experimentadores mais
recentes dos fenômenos do caos, Hénon verificou que a simplifi-
cação excessiva tinha compensações. Fazendo abstração apenas da
essência do seu sistema, conseguiu descobertas que se aplicavam
também a outros sistemas, e mais importantes. Anos depois, as ór-
bitas galácticas ainda eram um jogo teórico, mas a dinâmica desses
sistemas estava sob uma investigação intensiva, onerosa, pelos in-
teressados nas órbitas das partículas em aceleradores de alta ener-
gia e pelos inters~do no confinamento dos plasmas magnéticos
para a criação da fusão nuclear.
As órbitas estelares nas galáxias, numa escala temporal de cer-
ca de 200 milhões de anos, adquirem um caráter tridimensional,
em lugar de realizar elipses perfeitas. Órbitas tridimensionais são
tão difíceis de visualizar quando reais quanto as construções ima-
ginárias no espaço de fase. Por isso, Hénon usou uma técnica com-
parável à elaboração de mapas de Poincaré. Imaginou urna folha li-
sa cólocada de pé de um lado da galáxia, de modo que todas as ór-
bitas passassem por ela, como os cavalos numa corrida passam pe-
la linha de chegada. Em seguida; ele mar.c ava o ponto onde a órbita
atravessava esse plano e traçava o movimento do ponto de ó rbita
para órbita. ·
Hénon tinha de projetar esses pontos a mão, mas posteriormen-
te os muitos cientistas que usaram essa técnica iriam vê-los surgir
numa tela de computador, como distantes postes de luz acendendo-
se um a um, ao anoitecer. Uma órbita típica também podia come-
çar com um ponto no lado inferior esquerdo da página. Depois, na

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-
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- ------
volta seguinte, um ponto surgia alguns centímetros à direita. Depois
outro, mais à direita e mais acima um pouco, e assim por diante. A
princípio, nenhuma configuração se evidenciava, mas depois de 10
a 20 pontos, uma curva ovalada começava a formar-se. Na realida-
de os pontos sucessivos faze~ um circuito em volta da curva, mas
como não completam a volta exatamente no mesmo lugar, por fim,
depois de centenas ou milhares de pontós, a curva está perfeitamente
delineada.
Essas órbitas não são completamente regulares, já que nunca
se repetem exatamente, mas são sem dúvida previsíveis, e estão longe
de ser caóticas. Os pontos nunca chegam dentro da curva ou fora
dela. Levadas de volta ao quadro tridimensional completo, as órbi-
tas delineavam um toro, ou a forma de uma rosca, e o mapeamento
de Hénon era um corte transversal do toro. Até aí, ele estava sim-
plesmente ilustrando o que todos os seus antecessores tinham co-
mo certo. As órbitas eram periódicas. No observatório de Copenha-
gue,52 de 1910 a 1930, uma geração de astrônomos observou com
dificuldade, e calculou, centenas dessas órbitas - mas estavam in-
teressados apenas nas que se mostravam periódicas. "Eu também
estava convencido, como todos naquela época, de que todas as ór-
bitas deviam ser regulares como esta", disse Hénon.5:1 Mas ele, e um
aluno seu de Princeton, Carl Heiles, continuaram a computar dife-
rentes órbitas, aumentando cada vez mais o nível de energia em seus
sistemas abstratos . Viram logo alguma coisa totalmente nova.
Primeiro, a curva ovalada se transformava em algo mais com-
plicado, cruzando a si mesma em forma de oi tos e separando-se em
loops distintos . Ainda assim, cada órbita se enquadrava num des-
ses loops. Depois, em níveis ainda maiores, ocorria outra modifi-
cação, muito abruptamente. "E ali estava a surpresa", escreveram Hé-
ron e Heiles .:\" Algumas órbitas tornaram-se tão instáveis que os
pontos se dispersavam aleatoriamente no papel. Em certos lugares.
as curvas ainda podiam ser traçadas; em outros, nenhuma curva se
adequava aos pontos. O quadro tornou-se bastante dramático : in-
dicações de total desordem misturadas com claros restos de ordem,
criando formas que lembrnvam "ilhas" e "cadeias de ilhas" - 1 esses
astrônomos. Eles tentaram dois computadores diferentes e duis mé-
todos diferentes de integração, mas os resultados foram os mesmos.
Só podiam investigar e especular. Baseados apenas em sua experi-
mentação numérica, fizeram uma suposição sobre a estrutura pro-
funda dessas imagens. Com maior ampliação, sugeriram eles, mais
ilhas surgiriam em escalas cada vez menores, talvez até o infinito
A prova matemática era necessária, "mas a abordagem matemática
do problema não parece fácil' '.-" ~

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~-· 1
1

. . •• •
ÓRBITAS EM TORNO DO
CENTRO GALÁCTICO. Para
li compreender as trajetórias das
estrelas numa galáxia, Michel

..,,
.. Hénon computou os cruzamentos
de uma órbita com um plano. Os
padrões resultantes dependeram
li
da energia total do sistem;i.. Os

...
11,
pontos de uma órbita estável
'º •• produziram gradualmente uma
curva continua, ligada (esquerda).
Outros níveis de energia, porém,
produziram complicadas misturas
de estabilidade e caos;
representadas pelas regiões de
pontos dispersos.

' .·· . ·. .:· :..

: ·. / <. . - ;. ·:e.', ._ ~: ~ , ~ - ~:{ ·~ , · ...·.


. .... .·
: .·· . . ·... .· ···
...:
. . . .;·. ... . ,.. ..

'·~ - · .· · ·

.Hénon passou a outros ·problemas, mas 14 anos depois, quando


finalmente ouviu falar dos atratores estranhos de David Ruelle e Ed-
ward Lorenz, estava preparado. Em 1976 ele se tinha transferido para
o Observatório de Nice, o cavaleiro do Mediterrâneo, no Grande Cor-
niche, e ouviu um físico visitante' 6 falar do atrator de Lorenz. Esse
físico tinha tentado diferentes técnicas para iluminar a "microestru-

149

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tura" fina do atrator, com pouco êxito. Embora os sistemas dissipá-
veis não fossem o seu campo ("os astrônomos têm, por vezes, me-
do dos sistemas dissipáveis - eles são desordenados"),-P Hénon
achou que tinha uma idéia. ·
Mais uma vez, resolveu esquecer todas as referências às origens
físicas do sistema e concentrar-se apenas na essência geométrica que
desejava explorar. Quando Lorenz e outros tinham ficado com as
equações diferenciais - fluxos, com mudanças contínuas no es-
paço e no tempo~, ele se voltou para as equações de diferença des-
contínuas no tempo. A chave, acreditava ele, era a repetida exten-
são e dobra do espaço de fase, à maneira do pasteleiro que prepara
as roscas, dobrando-as, desdobrando-as, criando uma estrutura que
acabará sendo um feixe de finas camadas. Hénon traçou um oval
liso num pedaço de papel. Para espiehá-lo, tomou uma função nu-
mérica curta que moveria qualquer ponto no oval para um novo pon-
to numa forma que fosse esticada para cima, no centro, como um
arco. Era um mapeamento - ponto por ponto, todo o oval foi "ma-
peado" sobre o arco: Escolheu então um segundo mapeamento, des-
sa vez uma contração que encolheria o arco para dentro, para torná-
lo mais estreito. Eem seguida uma terceira mapeação virava o arco
estreito de lado, para que correspondesse bem ao oval original. Os
três mapeamentos poderiam ser combinados numa função única
para os objetivos de cálculo.
Em espírito, ele seguia a idéia da ferradura de Smale. Numeri-
camente, todo o processo era tão simples que podia ser facilmente
acompanhado numa calculadora. Qualquer ponto tem uma coor-
denada x e uma coordenada y para fixar a sua posição horizontal
e vertical. Para encontrar o novo x, a regra era tomar o velho y, acres-
centar 1esubtrair1,4 vezes o velhoxao quadrado. Para encontrar
o novo y, era multiplicar 0,3 pelo velho x. Ou seja: x novo = y +
1 - 1,4 x 2 ey novo = 0,3 x. Hénon tomou um ponto de partida mais
ou menos aleatoriamente, pegou a calculadora e começou a proje-
tar novos pontos, um depois do outro, até ter projetado milhares.
Em seguida, usou um computador de verdade, um IBM 7040 ; e tra-
çou rapidamente cinco milhões. Qualquer pessoa que tivesse um
computador particular e um mostrador de gráficos poderia fazer
a mesma coisa, facilmente.
A princípio os pontos parecem saltar desordenadamente pela
tela. O efeito é o de uma seção de Poincaré de um atrator tridimen-
sional; movendo-se irregularmente de um lado para outro da tela.
Mas uma forma começa a aparecer rapidamente, um contorno cur-
vado semelhante a uma banana. Quanto mais longo o programa ,
mais detalhes aparecem. Partes do contorno parecem ter certa es-
pessura, mas em seguida essa espessura Se transforma em dl!aS li-

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nhas distintas , depois essas duas em quatro, um par bem junto e o
outro bem separado. Com maior ampliação, cada uma das quatro
linhas revela-se composta de mais duas linhas, e assim por diante,
ad infinitum . Como o atrator de Lorenz, o de Héron evidencia um
regresso infinito, como uma seqüência interminável de bonecas rus-
sas, uma dentro da outra .
Os detalhes encaixados, linhas dentro de linhas, podem ser vis-
tos em forma final numa série de imagens com ampliação progres-
sivamente maior. Mas o efeito fantástico do atrator estranho pode
ser apreciado de outra maneira quando a forma aparece no tempo.
ponto a ponto. Surge como um fantasma surge da névoa . Novos pon
tos se espalham pela tela de forma tão aleatória que parece incrível
que qualquer estrutura exista ali , e muito menos uma estrutura tão
complicada e fina. Quaisquer dois pontos consecutivos estão ar-
bitrariamente muito distantes, como quaisquer dois pontos inicial-
mente próximos num fluxo turbulento. Dado qualquer número de
pontos, é impossível supor onde o próximo aparecerá - exceto,
é claro, que será em algum lugar do atrator.
Os pontos vagueiam tão aleatoriamente, a configuração sur-
ge tão etereamente, que é difícil lembrar que a forma é um atrator.
Não é apenas uma trajetória qualquer de um sistema dinâmico. É
a trajetória para a qual convergem todas as outras trajetórias . É por
isso que a escolha das condições iniciais não tem importância. En-
quanto o ponto de partida estiver em algum lugar perto do atrator,
os poucos pontos seguintes convergirão para o atrator com gran-
de rapidez.

Anos antes, quando David Ruelle chegou ao laboratório de Gol-


lub e Swinney no City College, em 1974 , os três físicos viram que
eram frágeis os elos entre a teoria e a experimentação. Um fragmento
matemático, filosoficamente ousado, mas tecnicamente incerto. Um
cilindro de fluido turbulento, que não era grande coisa para se ver,
mas claramente em desacordo com a velha teoria. Os homens pas-
saram a tarde conversando, e em seguida Swinney e Gollub parti-
ram com as mulheres, para passar férias na cabana de Gollub, nas
montanhas Adirondack. Eles não tinham visto um atrator estranho,
e não tinham medido grande parte do que poderia realmente acon-
tecer no início da turbulência. Mas sabiam que Landau estava erra -
do e suspeitavam que Ruelle estava certo.
Como um elemento do mundo revelado pela investigação em
computador, o atrator estranho começou como simples possibili-
dade, marcando um lugar que não tinha sido alcançado por muitas
das grandes imaginações do século XX. Mas logo, quando os cien -
tistas viram o que os computadores tinham para mostrar, isso lhes

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- ·-·-- -·- -- - - -- - - - - -----'

O ATRATOR DE HÉNON. Uma simples combinação de dobragem e extensão


produziu um atrator que é fácil de computar, embora ainda mal compreendi-
do pelos matemáticos. Enquanto milhares, depois milhões, de pontos vão apa-
recendo, surgem mais e mais detalhes. O que parece ser linhas únicas revela-
se, sob ampliação, como pares, depois pares de pares. Mas, se quaisquer dois
pontos sucessivos aparecem próximos, ou muito distantes, é imprevisível.

pareceu um rosto já visto por toda parte, na música dos fluxos tur-
bulentos ou nas nuvens espalhadas como véus pelo céu. A nature-
za era refreada. A desordem era canalizada, ao que parecia, para pa-
drões com um tema comum subjacente.
Mais tarde, a aceitação dos atratores estranhos alimentou are-
volução no caos dando aos investigadores numéricos um claro pro-
grama a ser posto em prática. Eles procuraram atratores estranhos
em toda parte, onde quer que a natureza parecesse comportar-se
de forma aleatória . Muitos afirmaram que as condiçôes meteoro-
lógicas da terra poderiam estar num atrator estranho. Outros reu-

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-~·:•i, 1

niram milhões de dados sobre o mercado de ações e começaram


a buscar um atrator estranho ali, examinando a aleatoriedade atra-
vés das lentes ajustáveis de um computador.3ª
Em meados da década de 70 essas descobertas ainda eram coi-
sas do futuro. Ninguém tinha visto realmente um atrator estranho
numa experiência, e estava longe de ser claro como continuar a
procurá-lo. Na teoria, o atrator estranho podia dar substância ma-
temática a novas propriedades fundamentais do caos. A dependência
sensível das condições iniciais era uma delas. A "mistura" era ou-
tra, de uma forma que teria sentido para o projetista de motor aja-
to, por exemplo, preocupado com a combinação eficiente de com-
bustível e oxigênio.·Mas ninguém sabia como medir essas proprie-
dades, como atribuir-lhes números. Os atratores estranhos pareéiam
fractais, significando isso que sua verdadeira dimensão era fracio-
nada, mas ninguém sabia como medi-la, ou como aplicar essa me-
dida no contexto dos problemas de engenharia.
E, o que era mais importante, ninguém sabia se os atratores es-
tranhos informariam alguma coisa sobre o problema mais profun-
do dos sistemas não-lineares. Ao contrário dos sistemas lineares, fa-
cilmente calculados e facilmente classificados, sistemas não-lineares
ainda parecem, em sua essência, não ser passíveis de classificação
- cada um deles era diferente dos outros. Os cientistas podiam des-
confiar que tinham propriedades comuns, mas quando chegava o
momento de tomar medidas e fazer cálculos, cada sistemá não-linear
era um mundo em si. O entendimento de um deles parecia não ofe-
rece ajuda para que se entendesse o seguinte. Um atrator como o
de Lorenz ilustrava a estabilidade e a estrutura oculta de um siste-
ma que, sem isso, parecia não ter padrões. Mas como essa espiral
dupla peculiar podia ajudar os pesquisadores que investigavam sis-
temas não correlatos? Ninguém sabia.
Mas então a animação foi além da ciência pura. Cientistas que
viam essas formas permitiam-se esquecer momentaneamente as re-
gras do discurso científico. Ruelle, por exemplo: "Nunca falei do
encanto estético dos atratores estranhos. Esses sistemas de curvas,
essas nuvens de pontos, lembram por vezes fogos de artifício ou
galáxias, outras vezes estranhas e inquietantes proliferações vege-
tais. Há um reino a ser explorado nessas formas, e harmonias a se-
rem descobertas."39

Notas
1 . Ruelle, Hénon, Rõssler, Sinai, Feigenbaum, Mandelbrot, Ford, Kraichnan. Há
muitas perspectivas sobre o contexto histórico da turbulência vista pelo atrator
estranho. Uma introdução boa é encontrada em John Miles, "Strange Attrac-

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tors in Fluid Dynamics' ', em Advances in Applied Mecbanics, 24 (1984), pp.
189-214. A resenha mais acessível escrita por Ruelle é "Strange Attractors",
Matbematical Jntelligencer, 2 (1980), pp. 126-3 7; sua catalizadora proposta
foi David Ruelle e Floris Takens, "On the Nature ofTurbulence", Communi-
cations in Matbematical Physics, 20 (1971), pp. 167-92; entre outros artigos
essenciais estão "Turbulent Dynamical Systems", Proceedings of tbe lnter-
national Congress of Matbematicians, 16-24 de agosto de 1983, Varsóvia,
pp. 271-86; "Five Turbulent Problems", Pbysica, 7D (1983 ), pp. 40-44; e "The
Lorenz Attractor and the Problem ofTurbulence", em Lecture Notes in Ma-
thematics, nº 565 (Berlim, Springer-Verlag, 1976), pp. 146-58.
2. Há muitas versões desta história. Orszag cita quatro substitutos de Heisen-
berg - Von Neumann, Lamb, Sommerfeld e Von Karman - e acrescenta;
"Imagino que, se Deus tivesse dado uma resposta a cada um deles, teria sido
uma resposta diferente em cada caso."
3 Ruelle; também "Turbulent Dynamical Systems", p. 281.
4. L.D. Landau e E.M. Lifshitz, Fluid Mecbanics (Oxford , Pergamon. 1959).
5. Malkus.
6. Swinney.
7 Swinney, Gollub.
8. Dyson.
9. Swinney.
1 O. Swinney, Gollub.
11 . Swinney.
12 . J.P. Gollub e H.L. Swinney, "Onset ofTurbulence in a Rotatmg Fluid", Physi-
cal Review Letters, 3 5 (1975), p. 92 7. Essas primeiras experiências apenas abri-
ram a porta a uma apreciação dos complexos comportamentos espaciais que
podiam ser produzidos com a variação dos poucos parâmetros de fluxo en-
tre cilindros rotativos. Nos anos seguintes, foram identificadas configurações
que variavam de "ondinhas de saca-rolhas" e "influxos e saídas ondulados"
a "espirais interpenetrantes". Um sumário encontra-se em C. David Andereck,
S.S. Liu e Harry L. Swinney, "Flow Regimes in a Circular Couette System with
Independently Rotating Cylinders",]ournal of FluidMecbanics, 164 (1986),
pp. 155-83.
13. Ruelle.
14. Ruelle.
15 . "On the Nature of Turbulence".
16. Eles descobriram rapidamente que algumas de suas idéias já tinham apareci-
do na bibliografia em russo; "Por outro lado, a interpretação matemática que
devemos à turbulência parece continuar sendo de nossa exclusiva respon-
sabilidade", escreveram eles, "Note Concerning Our Paper 'On the Nature
of Turbulence"', Communications in Matbematical Physics, 23 (1971), pp.
343-44.
17. Ruelle.
18. "Strange Attractors", p. 131.
19. Ruelle.
2 O. Ralph H. Abraham e Christopher D. Shaw, Dynamics: The Geometry ofBe-
bavior (Santa Cruz, Aerial, 1984).
2 1. Richard P. Feynman, Tbe Cbaracter ofPbysical Law (Cambridge, Mass., The
M.I.T. Press, 1967), p. 57.
2 2. Ruelle.
2 3. "Turbulent Dynamical Systems", p. 275 .
24. "Deterministic Nonperiodic Flow", p. 13 7.
2 5. lbid., p. 140.

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... ,~. 1

26. RueHe.
2 7. Ueda examina suas primeiras descobertas do ponto de vista dos circuitos elé-
tricos em "Random Phenomena Resulting from Nonlinearity in the System
Described by Duffing's Equation", em lnternation]ournal ofNon-Linear
Mechanics, 20 (1985), pp. 481-91, e faz um relato pessoal de sua motivação
e da fria reação de seus colegas, no pós-escrito. Também Stewart, comunica-
ção pessoal.
2 8 . Rõssler.
2 9 . Hénon; ele descreveu sua invenção em "A Two-Dimensional Mapping with
a Strange Attractor'', em Communications in Mathematical Physics, 50
(1976), pp. 69-77, e Michel Hénon e Yves Pomeau , "Two Strange Attractors
with a Simple Structure", em Turbulence and the Navier-Stokes Equation,
R. Teman, org. (Nova York, Springer-Verlag, 1977).
30. Wisdom.
3 1 . Michel Hénon e Carl Heiles, "The Applicability of the Third Integral of Mo
tion: Some Numerical Experiments", Astronomicaljournal, 69 (1964); p. 73.
3 2. Hénon.
3 3. Hénon.
3 4 . "The Applicability", p. 76.
3 5. /bid., p. 79.
3 6. Yves Pomeau.
3 7. Hénon.
3 8. Ramsey.
3 9. "Strange Attractors", p. 13 7.

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Universalidade
A repetição destas linhas traz ouro;
O enquadramento deste círculo no chão
Traz furacões, tempestades, trovões e relâmpagos.
-MARLOWE,
Dr. Faustus

A
LGUMAS dezenas de metros antes de uma queda d'água,
um rio que corre suavemente parece adivinhar a queda
iminente. A água começa a andar mais depressa e a agitar-
se. Pequenas correntes individuais se destacam, como veias gros-
sas e pulsantes. Mitchell Feigenbaum está na margem. Está suando
um pouco em seu casaco esportivo e calças de veludo cotelê, e fu-
mando um cigarro. Esteve caminhando_çom amigos, mas estes con-
tinuaram a andar, para as piscinas mais tranqüilas, adiante. De súbi-
to, no que poderia parecer uma paródia demente, em alta veloci-
dade, de um espectador num jogo de tênis, ele começa a voltar a
cabeça de um lado para outro. "Podem~ concentrar a atenção em
alguma coisa, um pouco de espuma ou outra coisa. Se movermos
a cabeça bem depressa, podemos, de repente, perceber toda a es-
trutura da superfície, e podemos senti-la no estômago".' Ele tira
uma baforada do cigarro. "Mas, se olhar para isso, ou para as nuvens
com todos os flocos em cima de flocos, ou se ficar num quebra-mar
durante uma tempestade, qualquer pessoa que tenha uma forma-
ção matemática verá que realmente não sabe nada."
Ordem no caos. Era o mais antigo lugar-comum da ciência. A
idéia de uma unidade oculta e de uma forma subjacente comum na
natureza tinha uma atração intrínseca, e uma história infeliz de ins-
piração para pseudo-cientistas e doidos. Quando foi para o Labo-
ratório Nacional de Los Alamos, em 1974, 2 faltando um ano para
seu 30º aniversário, Feigenbaum sabia que, para fazer algum uso da
idéia agora, os físicos precisavam de uma estrutura prática, uma ma-

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........ ,

neira de transformar as idéias em cálculos. A primeira abordagem


do problema estava longe de ser óbvia.
Feigenbaum foi contratado por Peter Carruthers, um físico cal-
mo, enganosamente amável, que veio de Cornell em 1973 para che-
fiar a Divisão Teórica. Seu primeiro ato foi demitir uma meia dúzia
de cientistas antigos - não há nos quadros çle Los Alamos o equi-
valente a um posto universitário - e substituí-los por alguns pes-
quisadores jovens e brilhantes, de sua escolha. Como diretor cien-
tífico, tinha fortes ambições, mas sabia pela experiência que a boa
ciência nem sempre pode ser planejada.
"Se organizássemos uma comissão no laboratório, ou em Was-
hington, e diséssemos: 'A turbulência está realmente nos obstruindo
. o caminho, temos de entendê-la, a falta de entendimento realmen-
te destrói nossas possibilidades de progresso em muitos campos',
então, naturalmente, contrataríamos uma equipe. Teríamos um com-
putador gigantesco. Começaríamos a operar grandes programas. E
não chegaríamos a resultado algum. Em lugar disso, temos esse su-
jeito inteligente, quieto no seu canto... conversando com as pessoas,
é claro, mas principalmente trabalhando sozinho." 3 Eles tinham
conversado sobre turbulência, mas o tempo passou, e até mesmo
Carruthers já não estava seguro do camillho seguido por Feigen-
baum. ''Achei que ele tinha desistido e encontrado um novo pro-
blema. Eu não sabia que esse outro problema era o mesmo problec
ma. Parece ter sido a questão que levou muitos campos diferentes
da ciência a um impasse - estavam bloqueadas por esse aspecto
do comportamento não-linear dos sistemas. Ora, ninguém teria pen-
sado que o pano de fundo adequado a esse problema era conhecer
a física das partículas, conhecer alguma coisa sobre a teoria do cam-
po quântico e saber que na teoria do campo quântico temos essas
estruturas conhecidas como grupo de renormalização. Ninguém sa-
bia que teríamos de entender a teoria geral dos processos estocás-
ticos, e também as estruturas fractais.
"Mitchell tinha a formação adequada. Ele fez a coisa certa no
momento certo, e fez muito bem-feita. Nada parcial. Ele esclareceu
todo o problema."
Feigenbaum levou para Los Alamos a convicção de que sua
ciência não tinha conseguido compreender os problemas concre-
tos - os problemas não-lineares. Embora ele quase nada tivesse pro-
duzido como físico, tinha acurnµlado uma excepcional bagagem in-
telectual. Tinha um conhecimento funcional agudo da mais desa-
fiadora análise matemática, novos tipos de técnica de computação
que permitiam à maioria dos cientistas chegar aos seus limites. Ti-
nha conseguido não purgar-se de algumas idéias aparentemente não-
científicas do romantismo do século XVIII. Queria fazer uma ciên-

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eia que fosse nova. Começou colocando de lado toda a idéia de com-
preender a complexidade real e, em lugar disso, voltou-se para as
equações não-lineares mais simples que podia encontrar.

O mistério do universo 4 anunciou-se pela primeira vez a Mit-


chell Feigenbaum quando ele tinha quatro anos, através de um rá-
dio Silvertone localizado na sala de seus pais, na região de Brooklyn
conhecida como Flatbush, pouco depois da guerra. Ele ficou per-
turbado ao pensar na música que chegava sem nenhuma causa con-
creta. A vitrola, por outro lado, ele acreditava entender. Sua avó lhe
tinha dado uma autorização especial para tocar os discos de 78.
Seu pai era um químico que trabalháva para a Port ofNew York
Authority e, mais tarde, para Clairol. Sua mãe lecionava nas escolas
públicas da cidade. Mitchell resolveu, a princípio, ser engenheiro
eletricista, um profissional que, como se sabia em Brooklyn, ganhava
bom dinheiro. Mais tarde, compreendeu que a física era a mais pro-
vável fonte dos conhecimentos que desejava ter sóbre o rádio. Per-
. tenceu à geração de cientistas que foram criados nos subúrbios de
Nova York e que se prepararam para suas brilhantes carreiras nas
grandes escolas secundárias públicas - no seu caso, a Samuel]. Til-
den - e depois no City College.
Crescer bem em Brooklyn era, até certo ponto, uma questão
de seguir uma rota irregular entre o mundo do intelecto e o mundo
das outras pessoas. Ele era imensamente gregário quando bem jo-
vem, o que lhe parecia constituir a chave para não ser surrado. Mas
teve um estalo quando compreendeu que podia aprender coisas.
Desligou-se cada vez mais dos amigos. As conversas comuns já não
lhe prendiam a atenção. A certa altt,ira de seu último ano na facul-
dade, percebeu que tinha perdido sua adolescência e estabeleceu
um prójeto deliberado de voltar_a ter contato com a humanidade.
Ficava sentado, calado, na lanchonete, ouv:indo os estudantes fala-
rem sobre o barbear ou sobre comida, .e aos poucos reaprendeu
grande parte da ciência de conversar com os outros.
Formou-se em 1964 e foi para o Instituto de Tecnologia de Mas-
sachusetts, onde obteve seu doutorado em físirn elementar das par-
tículas, em 1970. ~m seguida, passou quatro infrutíferos anos em
.Cornelle no Instituto Politécnico de Virgínia- isto é, infrutíferos,
em termos da constante publicação de trabalhos sobre problemas
mais ou menos verificáveis, essencial para um jovem cientista uni-
versitário. Esperava-se que os alunos de pós-doutorado escreves-
.sem trabalhos. Ocasionalmente, um orientadors perguntava a Fei-
genbaHm o que tinha acontecido com algum problema, e a respos-
ta era: ''.Ah, eu.o compreendi."

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Recém-instalado em Los Alamos, Carruthers, cientista admi-
rável por seus próprios méritos, orgulhava-se de sua capacidade de
descobrir talentos. Procurava, não inteligência, mas uma espécie
de criatividade que parecia fluir de alguma glândula mágica. Sem-
pre se recordava do caso de Kenneth Wilson, outro físico de Cor-
nell, de fala macia, que parecia não estar produzindo absolutamente
nada. Quem conversasse com Wilson por muito tempo compreen-
deria que ele tinha uma profunda capacidade para entender a físi-
ca. Por isso, a presença de Wilson tornou-se motivo de sério deba-
te. Os físicos dispostos a apostar em seu potencial ainda não-
comprovado venceram - e foi como se uma represa estourasse. ·
Não um, mas uma torrente de artigos saiu das gavetas da mesa de
Wilson, inclusive o trabalho que lhe deu o Prêmio Nobel em 1982.
A grande contribuição de Wilson para a física, juntamente com
o trabalho de dois outros físicos, Leo Kadanoff e Michael Fisher,
constitui um importante ancestral da teoria do caos. Esses homens,
trabalhando independentemente, estavam todos pensando de di-
ferentes maneiras sobre o que acontecia nas transições de fase. Es-
tudavam o comportamento da matéria próximo ao ponto em que
ela passa de um estado para outro - de líquido para gás, ou do não-
imantado para o imantado. Como limites singulares entre duas es-
feras da existência, as transições de fase tendem a ser altamente não-
lineares em sua matemática. O suave e previsível comportamento
da matéria em qualquer fase é de pouca ajuda para o entendimento
das transições. Uma panela d'água no fogo aquece-se de maneira
regular, até chegar ao ponto de ebulição. Mas então a mudança de
temperatura pára, enquanto alguma coisa muito interessante acon-
tece na interface molecular entre líquido e gás.
Tal como o problema era visto por Kadanoff6 na década de
60, a transição de fase constitui um enigma intelectual. Imaginemos
um bloco de metal sendo imantado. Ao ingressar num regime or-
denado, ele-tem de tomar uma.decisão. O ímã pode ser orientado
numa direção ou noutra. Tem liberdade de escolher. Mas cada mi-
núsculo pedaço do metal tem de tomar a mesma decisão. Como?
De alguma forma, no processo de escolha, os átomos do me-
tal devem transmitir-se mutuamente uma informação. A visão de Ka-
danoff foi que a comunicação pode ser descrita muito simplesmente
em termos de escala. Com efeito, ele imaginou a divisão do mate-
rial em compartimentos. Cada compartimento se comunicava com
seus vizinhos imediatos. A maneira de descrever tal comunicação
é a mesma de se descrever a comunicação de qualquer átomo com
os seus vizinhos. Daí a utilidade da escala: a melhor maneira de pen-
sar no metal é em termos de um modelo fractal, com compartimen-
tos de todos os diferentes tamanhos.

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Muita análise matemática e muita experiência com sistemas
reais eram necessárias para estabelecer a força da idéia do processo
de escala. Kadanoff achou que tinha tomado algo desajeitado e cria-
do um mundo de extrema beleza e autonomia. Parte da beleza es-
tava na sua universalidade. A idéia de Kadanoff dava uma espinha
dorsal ao fato mais notável nos fenômenos críticos, ou seja, que as
transições aparentemente não-relacionadas - ebulição dos líqui-
dos, magnetização dos metais - seguiam, todas, as mesmas regras.
Wilson realizou então o trabalho que reuniu toda a teoria sob
o título de teoria do grupo de renormalização, proporcionando uma
maneira vigorosa de realizar cálculos reais sobre sistemas reais. A
renormali:zação tinha ingressado na ffsica na década de 40 como uma
parte da teoria quântica, que to_rnou possível o cálculo das intera-
ções de elétrons e fótons . Um problem<J. com esses cáléulos, e com
os cálculos que preocuparam Kadanoff e Wilson, era que alguns itens
pareciam exigir tratamento como quantid~s infinitas, o que era
confuso e desagradável. A renormalização do sistema, das manei-
ras imaginadas por Richard Feynman, Julian Schwinger, Freeman
· Dyson e outros fískos, eliminava 'os inf~tos.
Só mais tarde, na década de 60, Wilson chegou até as bases sub-
jacentes para o sucesso da renormalização. Como Kadanoff, ele pen-
sou nos princípios de escala. Certas quantidades, como a massa de
uma partícula, sempre foram consideradas fixas - como a massa
de qualquer objeto na experiência cotidiana é fixa. O atalho da re-
normalização teve êxito -agindo como se uma quantidade como a
massa não fosse absolutamente fixa. Essas quantidades pareciam va-
riar para cima ou para baixo, dependendo da escala da qual eram
vistas. Parecia absurdo. Não obstante, era um análogo exato daqui-
lo que Benoit Mandelbrot estava fazendo com as formas geométri-
cas e o litoral da Inglaterra. Sua extensão não podia ser medida in-
dependente da escala. Havia uma espécie de relatividade na qual
a posição do observador, perto ou longe, na praia ou num satélite,
afetava a medida. E também como Mandelbrot tinha visto, a varia-
ção através das escalas não era arbitrária: seguia regras. A variabili-
dade nas medidas padrões de massa ou extensão significava que uma
quantidade diferente continuava fixa . No caso das fractais, er~ adi-
mensão fracionada - uma constante que podia ser calculada e usada
como um instrumento para novos cálculos. Permitir que a massa
variasse segundo a escala significava que os matemáticos podiam
identificar a semelhança entre as escalas.
Dessa maneira, para o árduo trabalho de cálculo, a teoria do
grupo de renormalização de Wilson proporcionava um caminho
diferente para problemas infinitamente çlensos. Até então, a única
maneira de abordar problemas altamente não-lineares era com um .

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recurso chamado de teoria de perturbação. Para finalidades de cál-
culo, supõe-se que o problema não-linear está razoavelmente pró-
ximo de algum problema linear, solucionável - a uma distância de
apenas uma pequena perturbação. Resolve-se o problema linear e
realiza-se um complicado truque com a parte restante, expandindo-a
nos chamados diagramas de Feynman. Quanto maior a exatidão ne-
cessária, mais desses diagramas agonizantes é necessário produzir.
Com sorte, os cálculos convergem para uma solução. A sorte cos-
tuma desaparecer, porém, sel)1pre que um problema é especialmente
interessante. Feigenbaum, como todos os jovens físicos de partículas
na década de 60, viu-se fazendo intermináveis diagramas de Feyn-
man . Ficou-lhe a convicção de que a teoria de perturbação era te-
diosa, não-esclarecedora e obtusa. Por isso, gostou da nova teoria
de grupo de renormalização, de Wilson. Reconhecendo a auto-
semelhança, ela proporcionava uma maneira de desmontar a com-
plexidade, uma camada de cada vez.
Na pratica, o grupo de renormalização estava longe de ser à pro-
va de erros. Exigia uma boa dose de engenhosidade para a escolha
dos cálculos adequados para captar a auto-semelhança. Mas funcio-
nava suficientemente bem, e com a necessária freqüência para ins-
pirar alguns físicos , inclusive Feigenbaum, a experimentá-lo no pro-
blema da turbulência . Afinal de contas, a auto-semelhança parecia
ser a assinatura da turbulência, variações sobre variações, espirais
sobre espirais. Mas, e o início da turbulência - o misterioso mo-
mento em que um sistema ordenado se torna caótico? Não havia
indícios de que o grupo de renormalização tivesse qualquer coisa
a dizer sobre essa transição. Não havia indícios, por exemplo, de que
a transição obedecesse a leis de escala.

Quando aluno de pós-graduação do M.l.T., Feigenbaum teve


uma experiência que o marcou por muitos anos. Estava passeando
com amigos em torno do Reservatório Lincoln, em Boston. Tinha
criado o hábito de dar passeios de quatro e cinco horas, refletindo
sobre a grande quantidade de impressões e idéias que fluíam pela
sua mente. Naquele dia, distanciou-se do grupo e caminhou sozi-
nho. Passou por algumas pessoas que faziam um piquenique e, ao
afastar-se, olhou para trás com freqüência, ouvindo o som de suas
vozes, observando os movimentos das mãos que gesticulavam ou
pegavam a comida. De repente, sentiu que o quadro tinha atraves-
sado algum umbral de incompreensibilidade. As figuras pareciam
pequenas demais para serem discerníveis. Os gestos pareciam des-
conexos, arbitrários, aleatórios. Os fracos sons que chegavam até
ele tinham perdido o sentido.

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O incessante movimento e a incompreensível agitação da vi-
da. Feigenbaum lembrou-se das palavras de Gl.istav Mahler, 7 des-
crevendo uma sensação que tentou capturar no terceiro movimento
de sua Segunda Sinfonia. Como os movimentos de figuras dançan-
tes num salão de baile fortemente iluminado, para o qual olha-
mos do lado de fora, em meio à noite escura e a uma distância que
torna a música inaudível. ( . .)A vida pode parecer sem sentido.
Feigenbaum estava ouvindo Mahler e lendo Goethe, mergulhando
em suas atitudes românticas. Era inevitável que o Fausto de Goe-
the lhe proporcionasse o maior prazer, impregnando-o de sua com-
binação das idéias mais apaixonadas sobre o mundo com as mais
intelectuais. Sem certas inclinações românticas, ele certamente te-
ria esquecido uma sensação como a confusão experimentada no
Reservatório. Afinal de contas, por que os fenômenos não perde-
riam o significado, vistos de maiores distâncias? As leis físicas da-
vam uma explicação trivial para o seu encolhimento. Pensando bem,
. a conexão entre o encolhimento e a perda de significado não era
tão óbvia. Por que, ao se tornarem menores, as coisas também se
tornavam incompreensívds?
Ele tentou, seriamente, analisar essa experiência em termos dos
instrumentos da física teórica, imaginando o que poderia dizer so-
bre o mecanismo de percepção do cérebro. Vemos certas transações
humanas e fazemos deduções sobre élas. Dado o enorme volume
de informações disponível para os nossos sentidos, como o nosso
mecanismo de decodificação faz a necessária triagem? Evidentemen-
te - ou quase-, o cérebro não dispõe de cópias diretas daquilo
que forma o mundo. Não há uma biblioteca de formas€ idéias com
as quais comparar as imagens da percepção. As informações estão
armazenadas de uma maneira plástica, permitindo justaposições fan-
tásticas e saltos de imaginação. Existe lá fora certo caos, e ó cérebro
parece ter mais flexibilidade do que a física clássica, para encontrar
a ordem nesse caos.
Ao mesmo tempo, Feigenbaum pensava na cor. Uma das esca-
ramuças menores da ciência, nos primeiros anos do século XIX, foi
a diferença de opinião entre os seguidores de Newton na Inglater-
ra e Goethe na Alemanha sobre a nature,za da cor. Para a física new-
toniana, as idéias pe Goethe eram ap'e nas divagações pseudo-
científicas. Goethe recusava-se a ver a cor como uma quantidade
estática, a ser medida no espectômetro e fixada, como uma borbo-
. leta numa cartolina. Afirmava ser a cor uma questão de percepção.
"Com pesos e contrapesos, a Natureza oscila dentro dos seus limi-
tes predeterminados", escreveu ele, "e não obstante, surgem dessa
forma todas as variedades e condições dos fenômenos qúe nos são
apresentados no espaço e no tempo".8

162

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•·'t- 1

A pedra de toque da teoria de Newton foi sua famosa experiên-


cia com o prisma. Um prisma decompõe um raio de luz branca num
arco-íris de cores, dispostas em todo o espect10 visível, e Newton
percebeu que essas cores puras devem ser os componentes elemen-
tares que ajudam a produzir o branco. Além disso, com grande per-
cepção, afirmou que as cores correspondiam a freqüências. Imagi-
nou que alguns corpos que vibravam - corpúsculos era a palavra
antiga- deviam estar produzindo cores em proporção à velocida-
de das vibrações. Considerando-se as poucas provas que corrobo-
ravam essa idéia, ela era tão injustificável quanto brilhante. O que
é o vermelho? Para um físico, é a luz irradiando-se em ondas entre
620 e 800 bilionésimos de metro. A óptica de Newton foi confir-
mada milhares de vezes, ao passo que o tratado de Goethe sobre
a cor desapareceu numa obscuridade misericordiosa. Quando foi
procurar esse tratado, Feigenbaum descobriu que o único exemplar
das bibliotecas de Harvard tinha sido retirado.
Finalmente encontrou um exemplar, e descobriu que Goethe
tinha, na realidade, realizado uma série extraordinária de experiên-
cias em sua investigação das cores. Goethe começou como New-
ton, com um prisma. Newton colocou o prisma frente a uma luz,
lançando o raio dividido numa superfície branca. Goethe colocou
o prisma junto do olho e olhou para ele. Não viu cor alguma, nem
um arco-íris nem tonalidades individuais. E olhar para uma super-
fície branca limpa, ou um céu azul claro, através do prisma, produ-
zia o mesmo efeito: uniformidade.
Mas, se uma leve mancha interferisse na superfície branca ou
uma nuvem aparecesse no céu, então ele via uma explosão de cor.
É "o intercâmbio da luz. e da sombra", concluiu Goethe, que causa
a cor. Ele passou a investigar a maneira pela qual as pessoas vêem
as sombras lançadas por diferentes fontes de luz colorida. Usou velas
e lápis, espelhos e vidros coloridos, a luz do luar e do sol, cristais,
líquidos e rodas coloridas numa série completa de experiências. Por
exemplo, acendeu uma vela diante de um papel branco ao entar-
decer e levantou um lápis. A sombra na luz da vela era de um azul
brilhante. Por quê? Só o papel branco é visto como branco, seja na
declinante luz do dia, seja na luz proporcionada pela vela. Como
uma sombra divide o branco numa região de azul e numa região de
amarelo avermelhado? A cor é "um grau de escuridão", afirmou Goe-
the, "aliado à sombra". Acima de tudo, numa linguagem mais mo-
derna, a cor vem das condições limítrofes e das singularidades.
Onde Newton era reducionista, Goethe era holista. Newton
decompôs a luz e descobriu a explicação física mais básica para a
cor. Goethe caminhou por jardins floridos e estudou quadros, bus-
cando uma explicação ampla, abrangente. Newton fez a sua teoria

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da cor enquadrar-se num esquema matemático para toda a física .
Feliz ou infelizmente, Goethe, detestava a matemática.
Feigenbaum convenceu-se de que Goethe estava certo em re-
lação à cor. As idéias dele pareciam uma nbçãofácil, popular entre
psicólogos, que distingue entre a realidade física concreta e as va-
riáveis percepções subjetivas dessa realidade. As cores que vemos
variam de momento para momento e de pessoa para pessoa - isso
é fácil de dizer. Mas, no entendimento de Feigenbaum, as idéias de ·
Goethe tiriham uma ciência mais verdadeira. Eram concretas e em-
píricas, Goethe ressaltou muitas vezes que suas experiências podiam
ser repetidas: Para ele, a percepção da cor é que era universal e ob-
jetiva. Que prova científica havia para uma qualidade real, definí-
vel, do vermelho, independente de nossa percepção?
Feigeribaum viu-se perguntando que tipo de formalismos ma-
temáticos podiam corresponder à ·p ercepção humana, particular-
mente uma percepção que, peneirava a confusa multiplicidade da
experiência e encontrava qualidades universais. O vermelho não
é necessariamente uma faixa de onda da luz, como pretendiam os
newtonianos. É um território de um universo caótico, cujos limi-
tes não se descrevem com facilidade__..:._ não obstante, nossa percep-
ção encontra o vermelho com uma freqüência regular e verificá-
vel. Eram as reflexões de um jovem físico, muito distantes, ao que
pareciam, de problemas como a turbulência dos fluidos. Ainda as-
sim, para compreender como a mente humana trata o caos da per-
cepção, certamente precisaríamos compreender como a desordem
pode produzir universalidade.

Quando começou a refletir sobre a não-linearidade, em Los Ala-


mos, Feigenbaum compreendeu que sua educação nada lhe tinha
ensinado de útil. Resolver um sistema de equações diferenciais não-
lineares era impossível, apesar dos exemplos especiais elaborados
nos manuais. A técnica da perturbação, fazendo córreÇões sucessi-
vas num problema solúvel que, esperava-se, estaria mais ou menos
próximo do problema real, parecia tolice. Feigenbaum consultou
textos sobre fluxos e oscilações não-lineares, e concluiu que havia
pouca coisa capaz de ajudar a um físico racional. Com apenas lápis
e papel como equipamento de computação, Feingenbaum resolveu
começar com um análogo da equação simples que Robert May es-
tudou no contexto da biologia populacional.
Era a equação que os alunos das escolas secundárias usam pa-
ra traçar o gráfico de uma parábola. Pode ser escrita como y = r(x-
x 2). Todo valor de x produz um valor de y, e a curva resultante ex-
pressa a relação dos dois números para a escala de valores. Se x (a
população deste ano) é pequeno, então y (a do ano seguinte) é pe-

164

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.L~ ............ 1

queno, embora maior do que x; a curva eleva-se acentuadamente.


Se x está no meio da escala, então y é grande. Mas a parábola se es-
tabiliza e cai, de modo que, se x é grande, então y será novamente
pequeno. É isso que produz o equivalente das quedàs populacio-
nais nos modelos ecológicos, impedindo o crescimento irrestrito
não-realista. · · ·
. Para May, e mais tarde Feigenbaum, a que~tão era usar esse cál-
culo simples, não uma vez, mas repeti-lo interminavelmente, como
um loop de retroalimentação. O resultado de um cálculo era nova-
mente usado como insumo pára o cálculo seguinte. Para ver o que
acontecia graficamente, a parábola ajudava muito. Tome-se um va-
lor inicial ao longo do eixo x. Trace-se uma linha para cima, até en-
contrar a parábola. Leia-se o valor resultante no eixo y. A princípio
a seqüência pula de lugar para lugar na parábola, e em seguida tal-
vez se fixe num equilíbrio estável, onde x e y são iguais e o valor
não se modifica, portanto.
Em espírito, nada poderia estar mais longe dos complexos cál-
culos da física clássica. Em lugar de um esquema labiríntico a ser
resolvido de uma vez, este era um cálculo simples, realizado repe-
tidamente. O experimentador numérico veria, como um químico
observando uma reação b0fbulhar numa retorta. No caso, o resul-
tado era apenas uma série de números, e nem sempre convergia para
um regime final estático. Podia terminar oscilando de um lado para
outro entre dois valores. Ou, como May explicou aos biólogos po-
pulacionais, o resultado podia continuar variando caoticamente en-
quanto o experimentador se desse ao trabalho de observar. A es-
colha entre essas diferentes possibilidades de comportamento de-
pendia do valor do parâmetro de sintonia.
Feigenbaum fez um trabalho numérico desse gênero mais ou
menos experimental e, ao mesmo tempo, tentou modos teóricos
mais tradicionais de analisar as funções não lineares. Mesmo assim,
não pôde perceber todo o quadro de possibilidades dessa equação.
Viu, porém, que as possibilidades já eram tão complicadas que po-
diam ser terrivelmente difíceis de analisar. Sabia também que três
matemáticos de Los Alamos - Nicholas Metropolis, Paul Stein e
Myron Stein- tinham estudado esses "mapas" em 1971, e Paul Stein
advertiu-o então de que a complexidade era realmente assustado-
ra. Se essa equação extremamente simples já se mos trava intratável,
o que acontecia com as equações muito mais complicadas que um
cientista usaria para sistemas reais? Feigenbaum guardou todo o pro-
blema na gaveta.
Na breve história do caos, essa equação de aparência
inocente9 oferece o exemplo mais sucinto de como diferentes ti-
pos de cientistas examinavam um mesmo problema de muitas ma-

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neiras diferentes. Para os biólogos, era uma equação com uma men-
sagem: sistemas simples podem fazer coisas complicadas. Para Me-
tropolis, Stein e Stein, 10 o problema era catalogar um grupo de pa-
drões topológicos sem referência a quaisquer valores numéricos.
Eles começariam o processo de retroalimentação em determinado
ponto, e observariam os valores sucessivos saltarem de um lugar para
outro na parábola. À medida que os valores se moviam para a es-
querda ou para a direita, escreviam as seqüências de Es e Ds. Padrão
número um: D. Padrão número dois: DED ..Padrão número 193 :
DEEEEEDDEE. Essas seqüências tinham aspectos interessantes para
um matemático - pareciam ocorrer sempre na mesma ordem es-
pecial. Mas, para um físico, pareciam obscuras e tediosas.
Ninguém o percebeu na ocasião, mas Lorenz tinha examina-
do a mesma equação em 1964, como uma metáfora para uma ques"
·tão profunda sobre o clima. A questão era tão profunda que quase
ninguém pensou em formulá-la antes: Existe um clima?H Isto é, as
condições atmosféricas da terra têm uma média a longo prazo? A
maioria dos meteorologistas, então como agora, tinham a resposta
como certa. Sem dúvida, qualquer comportamento_ mensurável, por
mais que varie, deve ter uma média. Mas, pensando bem, isto está
longe de ser óbvio. Como assinalou Lorenz, a média do tempo para
os últimos 12 .000 anos tem sido notavelmente diferente da média
dos 12 .000 anos anteriores, quando a maior parte da América _ ~o
Norte estava coberta pelo gelo. Havia um clima que se transforma-
va em outro, por alguma razão física? Ou há um clima a prazo ainda
mais longo, dentro do qual esses períodos são apenas variações?
Ou pode um sistema como o tempo não convergir nunca para uma
média?
l.orenz fez uma segunda pergunta. Suponhamos que fosse pos-
sível escrever o conjunto completo de equações que governam o
tempo. Em outras palavras, suponhamos que tivéssemos o código
do próprio Deus. Poderíamos então usar equações para calcular a
estatística média da tempe1 atura ou da participação atmosférica? Se
as equações fossem lineares, a resposta seria um "sim" fácil. Mas são
não-lineares. Como Deus não nos revelou as equações reais, Lorertz
examinou a equação de diferença quadrática.
Como May, Lorenz examinou primeiro o que acontecia quan-
do a equação era repetida, levando-se em conta algum parâmetro.
Com parâmetros baixos, viu-a chegar a um ponto fixo e estável. Ali ,
certamente, o sistema produziá um "clima'', no sentido mais comum
possível- o "tempo" nunca variava. Com parâmetros maiores, per-
cebeu a possibilidade de oscilação entre dois pontos, e ali, também ,
o sistema convergia para uma média simples. Mas além de certo pon-
to, l.orenz verificou que o caos se seguia. Como estava pensando

166

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.• ,

em clima, perguntou não só se a retroalimentação contínua produ-


ziria um comportamento periódico, mas também qual seria o resul-
tado médio. E reconheceu gue a resposta era que também a média
variava de forma instável. Quando-o valor do parâmetro era modi-
ficado muito ligeiramente, a média podia variar drasticamente. Por
analogia, o clima da terra poderia não fixar-se nunca, de maneira
confiável, num equilíbrio com um comportamento médio a longo
prazo.
Como trabalho matemático, o trabalho de Lorenz sobre o cli-
ma teria sido um fracasso - ele nada provava no sentido axiomáti-
co. Como um estudo de física, tinha também sérias falhas, porque
não conseguiu justificar o uso de uma equação simples para che-
gar a conclusões sobre o clima da terra. Mas Lorenz sabia o que es-
tava dizendo. "O autor acha que essa semelhança não é mero acaJ
so, mas que a equação de diferença encerra grande parte da mate-
mática, se não da física, das transições de um regime de fluxo para
outro e, na verdade de todo o fenômeno da instabilidade." Mesmo
20 anos depois, ninguém conseguia compreender que intuição jus-
tificava tal afirmação ousada, publicada em Tellus,.uma revista me-
teorológica sueca.(" Tellus! Ninguém lê Tellus!", exclamou um físi-
co aborrecido.) Lorenz estava começando a compreender, ainda mais
profundamente, as possibilidades singulares dos sistemas caóticos
- mais profundamente do que conseguia expressar na linguagem
da meteorologia.
Continuando a investigar as máscaras mutáveis dos sistemas
dinâmicos, Lorenz compreendeu que os sistemas ligeiramente mais
complicados do que o mapa quadrático podiam produzir outros
tipos de padrões inesperados. Esconder-se dentro de determinado
sistema podia ser mais do que uma solução estável. Um observa-
dor podia ver um tipo de comportamento durante um período muito
longo, porém, um comportamento de tipo totalmente diferente po-
dia ser igualmente natural para o sistema. Esse sistema é chamado
de intransitivo. Pode permanecer num equilíbrio ou em outro, mas
não em ambos. Somente um empurrão externo pode forçá-lo a mu-
dar de regime. De uma maneira simples, um relógio de pêndulo co-
mum é um sistema intransitivo. Um fluxo constante de energia en-
tra de uma mola espiral ou de uma bateria, através de um mecanis-
mo de escape. Um fluxo constante de energia é usado pelo atrito.
· Se alguém dá um encontrão no relógio, o pêndulo pode acelerar-
se ou desacelerar-se em virtude do sacolejo momentâneo, mas vol-
tará rapidamente ao seu equilíbrio. O relógio, porém, tem também
um segundo equilíbrio - uma segunda solução válida para suas
equações de movimento-, que é o estado no qual o pêndulo pen-
de diretamente na vertical e sem mover-se. Um sistema intransitivo

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menos trivial- talvez com várias regiões distintas de comportamen-
to totalmente diferente - poderia ser o próprio clima.
Os clima:tologistas que usam modelos globais de computador
para simular o comportamento a longo prazo da atmosfera e dos
oceanos da terra sabem, há muitos anos, que seus modelos permi-
tem pelo menos um equilíbrio notavehnente diferente. Durante todo
o passado geológico, esse clima alternativo jamais existiu, mas po-
dia constituir um:a solução iiualmente válida para o sistema de equa-
ções que governa a terra. E o que alguns climatologistas chamam
de clima da Terra Branca: 12 uma terra cujos continentes são cober-
tos de neve e cujos oceanos são cobertos degelo. Uma terra glacial
refletiria 70% da radiação solar e por isso permaneceria extrema-
mente fria. A camada mais baixa da atmosfera, a troposfera, seria
muito mais fina. As tempestades que varreriam a superfície gelada
seriam muito meno(es do que as que conhecemos. Em geral, o cli-
ma seria menos hospitaleiro à vida do que o clima que conhecemos.
Os modelos de computador têm uma forte tendência a cair no equi-
líbrio da Terra Branca, o que leva os próprios climatologistas a se per-
guntarem por que isso nunca aconteceu. Pode ser simplesmente
uma questão de oportunidade.
Para que o clima da terra fosse levado ao estado glacial, seria
necessário um extraordinário empurrão de alguma força externa.
IDrenz, porém, descreveu um outro tipo plausível de comportamen-
to chamado de "quase-intransitividade". Um sistema quase intran-
sitivo evidencia uma espécie de comportamento médio durante mui-
to tempo, flutuando dentro de certôs limites. E então, sem qualquer
razão, passa a um comportamento diferente, ainda oscilante, mas
produzindo média diferente. As pessoas que projetam modelos de
computadores conhecem a descoberta de Lorenz, mas tentam, a to-
do custo, evitar a quase intransitividade. É demasiado imprevisível,
Sua inclinação natural é fazer modelos com uma acentuada tendên-
cia de voltar ao equilíbrio que medimos cotidianamente no plane-
ta real. E então, para explicar grandes modificações de clima, bus-
cam causas externas - mudanças na órbita da terra em volta do sol,
por exemplo. Não obstante, não é preciso muita imaginação para
que um climatologista veja que a quase-intransitividade bem po-
deria explicar por que o clima da terra tem entrado e saído em pro-
longadas Idades do Gelo a intervalos irregulares e misteriosos ..Se as-
sim for, não será necessário encontrar causas físicas para esse rit-
mo. As Eras Glaciais devem ser simplesmente um sobproduto do
caos.

Como colecionadores de armas lembrando saudosamente o


Colt 45 numa época de armas automáticas, o cientista moderno ali-

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-. ,
menta certa nostalgia de calculadora portátil HP-65. Nos poucos anos
de sua supremacia, essa máqu1na modificou para sempre os hábi-
·tos de trabalho de muitos cientistas. Para Feigeribaum, foi a ponte
entre o lápis e o papel e um estilo de trabalho com computadores
que ainda não tinha sido concebido.
Ele não sabia nada de Lorenz, 13 mas no verão de 1975, numa
reunião em Aspen, Colorado, ouviu Steve Smale falar sobre algu-
mas das qualidades matemáticas da mesma equação de diferença
quadrática. Smale parecia acreditar que havia algumas interessan-
tes questões abertas sobre o ponto exato no qual o mapa passa de
periódico para caótico. Como sempre, Smale tinha um agudo ins-
tinto para questões que valia a pena investigar. Feigenbaum resol-
veu examiná-la mais uma vez. Com sua calculadora, começou á usar
uma combinação de álgebra analítica e exploração numérica para
chegar a uma compreensão do mapa quadrático, concentrando-se
na região limítrofe entre a ordem e o caos.
Metaforicamente - mas apenas metaforicamente -, ele sabia
que essa região era como a misteriosa fronteira entre o fluxo suave
e a turbulência num fluido. Era a região para a qual Robert May ti-
nha chamado a atenção dos biólogos populacionais, que antes não
haviam percebido a possibilidade de ciclos não-ordenados nas po-
pulações animais em modificação. A caminho do caos nessa região
havia um grande número de duplicação de períodos, ~divsão de
dois ciclos em quatro ciclos, de quatro ciclos em oito ciclos, e as-
sim por diante. Essas divisões contituíam um padrão fascinante. Eram
os pontos nos quais uma pequena mudança de fecundidade, por
exemplo, poderfa levar uma população de limântrias a passar de um
ciclo de quatro anos para outro de oito. Feigenbaum resolveu co-
meçar a calcular os valores exatos dos parâmetros que produziam
as divisões.
Por fim, foi a lentidão da calculadora que o levou à descober-
ta, naquele agosto. Foram necessários séculos - minutos, na ver-
dade - para calcular o valor exato do parâmetro de cada duplica-
ção de período. Quanto mais alto subia a cadeia, mais tempo era ne-
cessário. Com um computador rápido e com uma saída impressa,
Feigenbaum poderia não ter observado nenhum padrão. Tinha, po-
rém, de anotar os números à mão e, depois, meditar sobre eles en-
quanto esperava, e em seguida, para ganhar tempo, tinha de adivi-
nhar qual seria a próxima resposta.
Mas num instante ele viu que não tinha de adivinhar. Havia uma
inesperada regularidade oculta nesse sistema: os números conver-
giam geometricamente, como uma linha de postes telefônicos idên-
ticos converge para o horizonte num desenho de perspectiva. Se
soubermos de que tamanho são dois postes, saberemos todo ores

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to; a razão entre o segundo e o primeiro também será a razão do ter-
ceiro para o segundo, e assim por diante. As duplicações de perío-
do não estavam ocorrendo cada vez mais depressa, apenas, mas-sim
ocorrendo cada vez mais depressa e num ritmo constante.
Por que isso? Geralmente, a presença de convergência geomé-
trica indica que alguma coisa, em algum lugar, se está rep~tindo em
escalas diferentes. Mas, se havia um padrão de escala dentro dessa
equação, nunca alguém o tinha visto. Feigenbaum calculou a razão
da convergência com a máxima precisão possível em sua máquina
- três casas decimais-e obteve um número: 4,669. Teria algum
significado, essa razão específica? Feigenbaúm fez o que qualquer
pessoa que se interessa por números faria. Passou o resto do dia ten-
. tando enquadrar o número em todas as constantes padrão - n, e,
assim por diante. Não era variante de nenhuma.
Estranhamente, 14 Robert May compreendeu mais tarde que
também ele tinha visto essa convergência geométrica. Mas esqueceu-
se dela tão rapidamente quanto a percebeu. Da perspectiva ecoló-
gica de May, era apenas uma peculiaridade numérica. Nos sistemas
do mundo real que estava examinando, sistemas de populações ani-
mais ou mesmo modelos econômicos, o ruído inevitável abafaria
qualquer detalhe dessa precisão. A própria confusão que até então
o impulsionara deteve-o no ponto crucial. May ficou empolgado
com o comportamento flagrante da equação. Nunca tinha imaginado
que detálhes numéricos seriam importantes. ·
Feigenbaum sabia o que tinha, porque a convergência geomé-
trica significava que alguma coisa nessa equação estava em proces-
so de escala, e isso era importante. Tudo, na teoria de renormaliza-
ção, dependia dela. Num sistema aparentemente sem regras, a es-
cala significava que alguma qualidade estava sendo preservada en-
quanto tudo mais se modificava. Alguma regularidade existia sob
a superfície turbulenta da equação. Mas onde? Era difícil ver o que
fazer em seguida.
O verão transforma.:se logo em outono, no ar rarefeito de Los
Alamos, e outubro já tinha quase terminado quando Feigenbaum
teve um pensamento estranho. Sabia que Metropolis, Stein e Stein
tinham examinado também outras equações e verificado que cer-
tos padrões se transferiam de uma espécie de função para outra. As
mesmas combinações de D's e E's apareceram, e todas na mesma
ordem. is Uma função tinha envolvido o seno cie um número, o que
fez com que a abordagem da parábola, cuidadosamente desenvol-
vida, de Feigenbaum se tornasse irrelevante. Ele teria de começar
de novo. Assim, pegou novamente a.sua HP-65 e começou a com-
putar a duplicação de períodos xt+ 1 = r seno 1rXt. O cálculo de uma
função trigonométrica tornava o processo muito mais lento~ e Fei-

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genbaum indagou-se se, com a versão mais simples da equação, não
teria um atalho. Certamente, estudando os números, percebeu que
estava convergindo geometricamente mais uma vez. Era apenas uma
questão de calcular o índice de convergência para essa nova equa-
ção. Mais uma vez, sua precisão estava limitada, mas ele conseguiu
um resultado de três casas decimais, 4,669.
Era o mesmo número. De maneira incrível, essa função trigo-
nométrica não evidenciava apenas uma regularidade geométrica
coerente. Evidenciava uma regularidade numericamente idêntica
à de uma funÇão muito mais simples. Nenhuma teoria matemática
ou física explicava por que duas equações tão diferentes na forma
e no significado levavam ao mesmo resultado.
Feigenbaum chamou Paul Stein, que não estava preparado para
acreditar na coincidência, com provas tão escassas. A precisão era,
afinal de contas, baixa. Não obstante, Feigenbaum também telefo-
nou aos seus pais em Nova]ersey para dizer-lhes que tinha desco-
berto alguma coisa profunda. Disse à mãe que isso iria torná-lo fa-
moso. Depois, começou a tentar outras funções, qualquer coisa que
pudesse pensar que atravessasse uma seqüência de bifurcação, em
seu caminho para a desordem. Todas produziram o mesmo resul-
tado.
Feigenbaum tinha brincado com números toda a sua vida .
Quando adolescente, sabia como calcular logaritmos e senos que
a maioria das pessoas procurava em tábuas. Mas nunca tinha apren-
dido a usar qualquer computador maior do que sua calculadora por-
tátil - e isso era típico dos físicos e matemáticos, que tinham a ten-
dência de desdenhar o pensamento mecanicista implícito no tra-
balho do computador. Agora, porém, era chegado o momento. Pe
diu a um colega que lhe ensinasse a linguagem Fortran, e ao fim do
dia, para uma multiplicidade de funções ele tinha calculado sua c< ms
tante até cinco casas decimais, 4,66920 . Naquela noite, leu sohre
a precisão dupla no manual , e no dia seguinte chegou até
4,6692016o90 - precisão suficiente para convencer Stein Feigen-
baum não tinha muita certeza de se ter convencido :ot st mesmo, po-
rém. Tinha começado procurando regularidade - l·ra isso que sig-
nificava entender matemática - , mas també m começara sabendo
que certos tipos de equações, tal como certos sistemas físicos,
cbmportam-se de maneiras especiais, características. Essa.<> equações
eram simples, afinal de contas. Feigenbaum compreendia a equa-
ção quadrática, compreendia a equação do seno - a matemática
era comum. Não obstante, alguma coisa no coração dessas equa-
ções muito diferentes, repetindo-se sempre e sempre, criava um nú-
mero singular. Tinha descoberto alguma coisa: talve7 apenas uma
curiosidade. talvez uma nova lei da natureza.

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Imaginemos que um zoólogo pré-histórico resolva que algu-
mas coisas são mais pesadas do que outras - que têm uma proprie-
dade abstrata que ele chama de peso - e queira investigar essa idéia
cientificamente. Ele nunca mediu o peso, na realidade, mas acha que
compreende a idéia. Olha as cobras grandes e pequenas, os ursos
grandes e pequenos, e deduz que o peso desses anim~ poderia ter
alguma relação com o tamanho. Constrói uma balança e começa a
pesar as cobras. Para sua surpresa, toda cobra pesa a mesma coisa.
Para sua consternação, todo urso pesa também a mesma coisa. E para
seu maior espanto, os ursos pesam o mesmo que as cobras. Todos
pesam 4,6692016090 . Evidentemente, o peso não é o que ele tinha
imaginado. Todo o conceito tem de ser reformulado.
Rios que correm, pêndulos que oscilam, osciladores eletrô-
nicos - muitos sistemas físicos passaram por uma transição a ca-
minho do caos, e essas transições eram demasiado complicadas para
serem analisadas. Eram , todos, sistemas cuja mecânica parecia per-
feitamente bem compreendida. Os físicos sabiam todas as equações
adequadas ; apesar disso, passar das equações para o entendimen-
to do comportamento global , a longo prazo, parecia impossível. In-
felizmente, as equações para os fluidos, até mesmo para os pêndu ~
los, eram muito mais desafiadoras do que o simples mapa logístico
unidimensional. A descoberta de Feigenbaum, porém, deixava im-
plícito que essas equações não interessavam . Eram irrelevantes.
Quando surgia a ordem, ela parecia ter esquecido, subitamente, qual
era a equação original. Quadrático ou trigonométrico, o resultado
era o mesmo. ''Toda a tradição da física é que, isolados os mecanis-
mos, todo o resto flui '', IC> disse ele. "Isso está desmoronando total-
mente. Nesse caso, sabemos as equações certas, mas elas de nada
valem. Somamos todas as peças microscópicas e vemos que não po-
demos estendê-las a longo prazo. Elas não são o que é importante
no problema. Isso modifica totalmente o significado de saber al-
guma coisa."
Embora a co.nexão entre os dados numéricos e a física fosse
tênue, Feigenbaum tinha encontrado a prova que precisava para ela-
borar uma nova maneira de calcular problemas complexos não-
lineares. Até então, todas as técnicas existentes dependiam dos de-
talhes das funções. Se a função era uma função seno, seus cálculos
cuidados;unente elaborados eram cálculos seno. Sua descoberta da
universalidade significava que todas as técnicas teriam de ser lança-
das fora. A regularidade nada tinha a ver com senos. Nada tinha a
ver com parábolas. Nada tinha a ver com qualquer função específi-
ca . Mas por quê? Era frustrante. A natureza tinha afastado a cortina
por um instante e oferecido uma visão rápida de ordem inespera-
da . O que mais haveria atrás daquela cortina?

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·-"P~,r 1

Quando a inspiração veio, foi na forma de uma imagem, uma


imagem mental de duas pequenas formas ondulantes e uma forma
grande. Foi tudo - uma imagem brilhante, nítida, desenhada em
sua mente, não mais, talvez, do que a ponta visível de um enorme
iceberg de processamento mental que tinha ocorrido debaixo da
linha d'água da consciência. Tinha relação com as escalas, e deu a
Feigenbaum o caminho do que ele precisava.
Ele estava estudando atratores. O equilíbrio constante alcan-
çado pelos seus mapeamentos é um ponto fixo que atrai todos os
outros - qualquer que seja a "população" inicial, ela se aproxima-
rá sempre do atrator. Depois, com a primeira duplicação do perío-
do, o atrator, divide-se em dois, como uma célula. A princípio, es-
ses dois pontos estão praticamente juntos; depois, quando o parâ-
metro se eleva, eles se separam. Depois, outra.duplicação de perío-
do: cada ponto do atrator divide-se novamente, ao mesmo tempo.
O número de Feigenbaum levou-o a prever quando ocorreriam as
duplicações de período. Agora, ele descobria que também podia
prever os valores precisos de cada ponto nesse atrator cada vez mais
complicado - dois pontos, quatro pontos, oito pontos ... Podia pre-
ver as populações reais alcançadas nas oscilações de ano a ano. Ha-
via mais uma convergência geométrica. Também esses números obe-
deciam a uma lei de escala.
Feigenbaum estava explorando um terreno intermediário, es-
quecido, entre a matemática e a física. Era difícil classificar o seu tra-
balho. Não era matemática; ele não estava provando nada. Estuda-
va números, sim, mas números são para o matemático o que os sa-
cos de moedas são para um banqueiro de investimento: nominal-
mente, a matéria de sua profissão, mas, na realidade, demasiado árida
e específica para que perca tempo com ela. As idéias são a verdadei-
ra moe.da dos matemáticos. Feigenbaum estava colocando em prá-
tica um programa em física e, por mais estranho que parecesse, era
quase que uma espécie de física experimental.
Os números e as funções eram os objetos de seu estudo, em
lugar dos mésons e quarks. Eles tinham trajetórias e órbitas. Feigen-
baum precisava investigar o seu comportamento. Precisava - nu-
ma frase que mais tarde se tornou um lugar-comum de nova ciên-
cia - criar intuição. Seu acelerador e sua câmara úmida eram o com-
putador. Juntamente com a teoria, estava criando uma metodolo-
gia. Em geral, um usuário de computador formula um problema,
coloca-o no computador e espera que a máquina calcule sua solu-
ção - um problema, uma solução. Feigenbaum e os pesquisado-
res do caos que se seguiram precisavam de mais. Precisavam fazer
o que Lorenz tinha feito, criar universos em miniatura e observar
sua evolução. Poderiam, em seguida, mudar este ou aquele elemento

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~Xn
X...1 x•• 1
/
~

/ ~1 ~
/ /
I/

t
/
1/

\
x.

MIRANDO NO CAOS. Uma equação simples, repetida muitas vezes: Mitchell


Feigenbaumconcentrou-se em funções diretas, tomando um nÚinero como in-
sumo e produzindo outro como resultado. Para populações animais, uma fun-
ção poderia expressar a relação entre a população deste ano e a do próximo ano.
Uma maneira de visualizar essas funções é fazer um gráfico, plotando
o insumo no eixo horizontal e o produto no eixo vertical. Para cadainsumo pos-
sível, x, há apenas um resultado ou produto, y, e eles constituem uma forma
representada pela linha mais grossa.
Em seguida, para mostrar o comportamento do sistema alongo prazo,
Feigenbaum traçou uma trajetória que começava com algum x arbitrário. Co-

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mo cadayeraentãorealimentadonamesmafunção como novoinsumo,.ele pôde
usar uma espécie de atalho esquemático: a trajetória desviava-se da linha de
45 graus, a linha onde x é igual a y.
Para o ecologista, o tipo mais óbvio de função para o crescimento popu-
lacional é linear-o cenário maltusiano de cresciinento constante, iliinitado,
·num peroentualanualfixo.(esquerda). Funções mais realistas formavam um .
arco, fazendo a população diininuir quando se tornava demasiado elevada. É
ilustrado o ''mapa logístico", uma pará.bola perfeitamente definida pela fun-
ção y = rx(l-x), onde o ~or der, de O a4, determina a inclinação da pará.bola.
Mas Feigenbaum descobriu que não iinportava o tipo de arco usado; os deta-
lhes da equaçãÜ não interessavam. O iinportante era que a função tivesse uma
''corcova''.
O comportamento dependia sensivelmente, porém, da inclinação - o
grau de não-linearidade, ou o que Robert May chamou de "ascensão e queda". ·
Uma função demasiado pequena provocaria a extinção: qualquer população
inicial acabaria levando a O. O aumento da inclinação produzia o equili brio es-
tável esperàdó por um ecologista tradicional; esse ponto, atraindo todas as tra-
jetórias, era uni "atrator" unidimensional.
Além de certo ponto, uma bifurcação produzia uma população oscilan-
te com periodo dois. Depois, mais duplicações de periodo ocorriam, e por fim
(embaixo, direita) a trajetória se recusava a estabilizar-se.
Essas iinagens foram uni ponto de partida para Feigenbaum, quando
tentou formular uma teoria. Começou pensando em termos de recorrência;
funções de funções, e funções de funções de funções, e assiin por diante; ma-
pas com duas corcovas, depois quatro .. .

e observaras modificações resultantes. Estavam armados com a nova


convicção, afinal de contas, de que todas as pequenas mudanças
em certos aspectos podiam levar a grandes mudanças no compor-
tamento geral.
Feigenbaum descobriu logo como as instalações computacio-
nais de Los Alamos eram inadequadas para o estilo de computação
que desejava desenvolver. Apesar dos recursos enormes, muito su-
periores à maioria das universidades, Los Alamos tinha poucos ter-
minais capazes de mostrar gráficos e imagens, e esses poucos esta-
vam na Divisão de Armamentos . Feigenbaum queria pegar os nú-
meros e plotá-los como pontos num mapa. Teve de recorrer ao mé-
todo mais primitivo que se podia conceber: longos rolos de papel
de impressão, com linhas feitas por séries de espaços seguidos de
um asterisco ou uin sinal de mais. Segundo a política oficial em los
Alamos, um computador grande valia muito mais do que muitos
computadores pequenos - política de acordo com a tradição de
um problema, uma solução. O uso de pequenos computadores não
era estimulado. Além disso, a compra de um computador, por qual-
quer divisão, teria de seguir rigorosas normas governamentais e uma
revisão formal. Só mais tarde, com a cumplicidade orçamentária
da Divisão Teórica, Feigenbaum foi beneficiado com uma "calcu-
ladora de mesa" no valor de 20 mil dólares. Pôde, então, modificar
à vontade suas equações e imagens, torcê-las e afiná-las, tocando
o computador como um instrumento musical. Até então, os únicos

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terminais capazes de gráficos sérios estavam em áreas de seguran-
ça máxima - atrás da cerca, como se dizia. Feigenbaum tinha de
usar um terminal ligado por linhas telefônicas a um computador cen-
tral. O trabalho nessas condições tornava mais difícil perceber a gran-
de potência do computador do outro lado da linha. Até mesmo as
tarefas mais simples consumiam minutos. Editar uma linha de um
programa exigia que se apertasse o Retum e esperasse, enquanto
o terminal zumbia incessantemente e o computador central fazia
a ronda eletrônica dos usuários em todo o laboratório.
Enquanto computava, ele pensava. Que matemática nova po-
dia produzir os padrões de escala múltiplos que tinha observado?
Alguma coisa nessas funções devia ser repetitivq, percebeu ele, auto-
referencial, sendo o comportamento de uma guiado pelo compor-
tamento de outra escondida dentro dele. A imagem ondulada que
lhe apareceu num momento de inspiração expressava alguma coi-
sa sobre a maneira pela qual uma função podia ser pos~ em escala
para corresponder a outra. Aplicou a matemática da teoria do gru-
po de renormalização, com seu uso da escala para fazer de infinitos
quantidades manuseáveis. Na primavera de 1976, passou a ter uma
vida mais intensa do que antes. Concentrava-se como se estivesse
em transe, programando freneticamente, anotando com seu lápis,
programando outra vez . Não podia pedir ajuda à Divisão C, porque
para isso teria de desligar o computador para usar o telefone, e are-
ligação era problemática. Não podia parar para pensar por mais de
cinco minutos, porque o computador desligava automaticamente
a sua linha. Por vezes o computador enguiçava, de qualquer maneira,
deixando-o trêmulo com a adrenalina. Trabalhou durante dois meses
sem parar. Seu dia de trabalho tinha 22 horas. Tentava dormir nu-
ma espécie de torpor, e acordava duas horas depois, com os pensa-
mentos exatamente onde os tinha deixado. Sua dieta era rigorosa-
mente de café. (Mesmo quando saudável e tranqüilo, Feigenbaum
subsistia exclusivamente com a carne mais crua possível, café e vi-
nho tinto. Seus amigos diziam que ele devia estar tirando suas vita-
minas do cigarro.)17
Por fim, um médico acabou com isso. Receitou um regime mo-
derado de Vali um e férias forçadas. Mas já então Feigenbaum tinha
criado uma teoria universal.

A universalidade representava a diferença entre o belo e o útil.


Além de certo ponto, os matemáticos pouco se importam em pro-
porcionar uma técnica de cálculo. Além de certo ponto, os físicos
precisam de números. A universalidade oferecia a esperança de que,
resolvendo um problema fácil, os físicos pudessem resolver pro-
blemas muito mais difíceis. As respostas seriam as mesmas. Além

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•. ,~ .. - 1

disso, colocando sua teoria dentro da estrutura do grupo de renor-


malização, Feigenbaum dava-lhe um revestimento que os físicos po-
diam reconhecer como um instrumento de cálculo, quase que al-
guma coisa padrão.
Mas o que tornava útil a universalidade também a tornava difí-
cil de acreditar, para os físicÕs. A universalidade significava que di-
ferentes sistemas se comportariam de maneira idêntica. É claro que
Feigenbaum estava estudando apenas funções numéricas simples.
Acreditava, porém, que sua teoria expressava uma lei natural sobre
sistemas no ponto de transição entre a ordem e a turbulência. To- ·
dos sabiam que a turbulência significava um espectro contínuo de
freqüências diferentes, e todos tinham indagado de onde vinham
as diferentes freqüências. De súbito, era possível vê-las chegando,
seqüencialmente.18 A implicação física era de que os sistemas do
rpundo real se comportavam da mesma maneira identificável, e que
além disso era mensuravelmente a mesma. A universalidade de Fei-
genbaum não era apenas qualitativa, era também quantitativa; não
era apenas estrutural, mas métrica. Estendia-se não apenas aos pa-
drões, mas a números precisos. Para um físico, era difícil acreditar
nisso.
Anos depois, Feigenbaum ainda guardava na gaveta, onde podia
apanhá-las com facilidade, as cartas de rejeição ao seu trabalho. Go-
zava, já então, de todo o reconhecimento de que precisava. Seu
trabalho em Los Atamos assegurava-lhe prêmios e recompensas, 19 ·
que trouxeram prestígio e dinheiro. Mas ainda causava irritação o
fatÓ "de terem·os diretores das principais revistas acadêmicas consi-
derado o seu trabalho impróprio para publicação, durante dois anos,
desde que começou a envfa-lo. A idéia de uma descoberta científi-
ca tão original e inesperada que não pode ser publicada parece um ·
mito ligeiramente desacreditado. A ciência moderna, com seu vas-
to fluxo de informações e seu sistema imparcial de crítica por pes-
soas competentes, não deve ser uma questão de gosto. Um dos di-
retores que devolveu um artigo de Feigenbaum reconheceu, anos
depois, que tinha recusado um trabalho que era um ponto crucial
do campo, mas argumentou que tal trabalho não erà adequado ao
público de sua revista, constiuído de especialistas da matemática
aplicada. Nesse meio-tempo, mesmo sem publicação, a descober-
ta de Feigenbaum tornou-se uma notícia "superquente" em certos
círculos da matemática e da física. A essência da teoria foi divulga-
da da maneira pela qual a maior parte da ciência é hoje transmitida
- através de conferências e pré-publicações. Feigenbaum descre-
veu seu trabalho em conferências, e pe.d idos de fotocópias de seus
artigos chegaram-lhe às dezenas e depois às centenas.

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Downloaded by: kaua-vasconcelos (kauamonde@gmail.com) --- ~ -
A economia moderna recorre muito à eficiente teoria do mer-
cado. Supõe-se que o conhecimento flui livremente de lugar para
lugar. As pessoas que tomam decisões importantes 9evem ter aces-
so mais ou menos ao mesmo corpo de informações. E claro que per-
duram, aqui e ali, bolsões de ignorância ou de informações confi-
denciais, mas no todo, quando um conhecimento se torna públi-
co, os economistas pressupõem que está ao alcance de todos. Os
historiadores da ciência têm como certa, muitas vezes-, uma eficiên-
te teoria do mercado própria. Quando se faz uma descoberta, quan-
do uma idéia é expressa, supõe-se que se torna propriedade comum
do mundo científico. Toda descoberta e toda nova revelação têm
como base a precedente. A ciência se eleva como um edifício, tijo-
lo por tijolo. As crônicas intelectuais podem ser, para todos os fins
práticos, lineares.
Essa visão da ciência funciona melhor quando uma discipli-
n<i; bem definida espera a resolução de um problema bem defini-
do:Ninguém entendeu mal a descoberta da estrutura molecular do
DNA, por exemplo. Mas a história das idéias nem sempre é assim
tão clara. Quando a ciência não-linear surgiu em cantos estranhos
de diferentes disciplinas, o fluxo das idéias não seguiu a lógica pa-
drão dos historiadores. O aparecimento do caos como uma enti-
dade em si mesma foi uma história não só de novas teorias e novas
descobertas, mas também do entendimento tardio de idéias anti-
gas. Muitas peças do enigma tinham sido vistas muito antes - por
Poincaré, por Maxwell, até mesmo por Einstein - e esquecidas. Mui-
tas peças novas foram compreendidas a princípio apenas por uns
poucos iniciados. Uma descoberta matemática era entendida por
matemáticos; uma descoberta física, _por físicos; uma descoberta
meteorológica, por ninguém. A forma pela qual as idéias se difun-
diram tornou-se tão importante quanto a forma pela qual elas sur-
giram.
Cada cientista tinha uma configuração particular de pais inte-
lectuais. Cada qtial tinha seu próprio quadro da paisagem das idéias,
sendo cada quadro limitado de certa maneira. O conhecimento era
imperfeito. Os cientistas tornavam-se tendenciosos em virtude dos
hábitos de suas disciplinas ou dos caminhos acidentais de sua for-
mação. O mundo científico pode ser surpreendentemente finito.
Não foram comissões de cientistas que levaram a história a um no-
vo caminho, mas sim um punhado de indivíduos, com percepções
pessoais e metas pessoais.
Posteriormente, começou a formar-se um consenso sobre quais
inovações e quais contribuições tinham sido mais influentes. O con-
senso, porém, envolvia certo revisionismo. No auge da descober-
ta, especialmente em fins da dfcada.de 70, não havia dois físicos,

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dois matemáticos que entendessem o caos exatamente da mesma
mane.ira. Um cientista habituado aos sistemas clássicos, sem atrito
ou dissipação, se colocaria numa linhagem que vinha de russos co-
mo A.N. Kolmogorov e V.I. Arnold. Um matemáw:o acostumado
aos sistemas dinâmicos clássicos seguiria uma linha vinda de Poin-
caré a Birkhoff, l.evinson e Smale. Mais tarde, a configuração de um
matemático podia centrar-se em Smale, Guckenheimer eRuelle. Ou
podia enfatizar um conjunto de predecessores mais inclinados ao
uso dos computadores, associados com Los Alamos: Ulam, Metro-
polis, Stein. Um físico teórico pensaria em Ruelle, Lorenz, Rõssler
e Yorke. Um biólogo pensaria em Smale, Guckenheimer, May e Yorke.
As possíveis combinações eram intermináveis. Um cientista que trac
balhasse com materiais - um geólogo ou um sismólogo - atribuiria
crédito à frifluência direta de Mandelbrot; um físico teórico mal co-
nheceria esse nome.
O papel de Feigenbaum viria a ser um motivo especial de dis-
cussão. Muito mais tarde, quando ele estava no auge da semicele-
bridade, alguns físicos esforçaram-se para citar outras pessoas que
vinham trabalhando no mesmo problema, ao mesmo tempo, co~
diferenças de poucos anos. Alguns o acusaram de concentrar-se com
demasiada estreiteza num ·p equeno segmento do amplo espectro do
comportamento caótico. A "feigenbaumologia" 2 º foi supervalori-
zada, diria um físico, mas não foi tão influente quanto o trabalho
de Yorke, por exemplo. Em 1984 Feigenbaum foi convidado a falar
perante o Nobel Symposium na Suécia, e ali a controvérsia predo-
minou. Benoit Mandelbrot fez uma palestra maldosa, que depois
seus ouvintes classificaram de sua "conferência antifeigenbaum".
Mandelbrot exumou um artigo, com vinte anos de idade, sobre a du-
plicação de períodos, da autoria de um matemático finlandês,
Myrberg, e referiu-se às seqüências de Feigenbaum como "seqüên-
cias de Myrberg".
Mas Feigenbaum tinha descoberto a universalidade e criado
uma teoria para explicá-la. Era esse o eixo sobre o qual girava a no-
va ciência. Não podendo publicar esse resultado espantoso e con-
trário à intuição, ele o difundiu numa série de palestras em New
Hampshire, em agosto de 1976; num encontro internacional de ma-
temática em Los Alamos, em setembro; numa série de palestras na
Brown University, em novembro. A descoberta e a teoria foram re-
cebidas com surpresa, incredulidade e entusiasmo. Quanto mais um
cientista pensava sobre a não-linearidade, mas sentia a força da uni-
versalidade de Feigenbaum. Um deles disse simplesmente: "Foi uma
descoberta muito feliz, e um choque, a de que havia estruturas em
sistemas não-lineares que são sempre as mesmas, se as examinar-
mos da forma adequada." 2 1 Alguns físicos usaram não só as idéias,

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mas também as técnicas. Brincar com esses maps~ brincar, ape-
nas~ dava-lhes calafrios. Com suas próprias calculadoras, podiam
experimentar a surpresa e a satisfação que sustentaram Feigenbaum
em Los Alamos. E aperfeiçoaram a teoria. Ao ouvir sua palestra no
Instituto de Estudos Avançados de Princeton, Predrag Cvitanovié,
um físico de partículas, ajudou Feigenbaum a simplificar sua teoria
e ampliar-lhe a universalidade. Mas durante todo o tempo, 22 Cvita-
novié fingia tratar-se apenas de um passatempo: não podia confes-
sar aos colegas o que estava fazendo.
Também entre os matemáticos predominou uma atitude de re-
serva, em grande parte porque Feigenbaum não oferecia uma pro-
va rigorosa. Na verdade, só em 1979 houve a prova em termos dos
matemáticos, num trabalho de Oscar E. Lanford IIl. 2 3 Feigenbaum
lembrava-se com freqüência de ter apresentado sua teoria a um pú-
blico seleto no encontro de Los Angeles, em setembro. Mal tinha
começado a descrever o trabalho, quando o eminente matemático
Mark Kac levantou-se e perguntou: "O senhor vai apresentar núme-
ros ou uma prova?"24
Mais de um, e menos do outro, respondeu Feigenbaum.
"Será o que qualquer homem sensato chamaria de prova?"
Feigenbaum disse que os ouvintes teriam de julgar por si mes-
mos. Depois de terminar, chamou Kac, que respondeu com um r
sardonicamente carregado: "Sim, trata-se na verdade de uma pro-
va de um homem sensato. Os detalhes podem ficar a cargo dos ma-
temáticos r-r-rígorosos.''
Um movimento tinha sido iniciado, e a descoberta da univer-
salidade estimulou-o. No verão de 1977,25 dois físicos, Joseph Ford
e Giulio Casati, organizaram a primeira conferência sobre uma ciên-
cia chamada caos. Foi realizada numa graciosa vílla em Como, na
Itália, pequena cidade às margens do lago do mesmo nome, uma
bacia espantosamente azul que recolhe a neve derretida dos Alpes
italianos. Ce.m pessoas compareceram - principalmente fisicos, mas
também cientistas curiosos de outros campos. "Mitch tinha visto
a universalidade, descoberto suas escalas e estabelecido uma ma-
neira de chegar ao caos que era intuitivamente atraente'', 26 disse
Ford. ''Foi a primeira vez que tivemos um modelo claro que todos
podiam compreender.
"Foi uma daquelas coisas para as quais era chegado o momento.
Em disciplinas que iam da astronomia à zoologia, as pessoas esta-
vam fazendo as mesmas coisas, publicando em suas limitadas revistas
disciplinares, desconhecendo totalmente que as outras pessoas exis-
tiam.Julgavam-se sozinhos, e eram considerados um tanto excên-
tricos em suas próprias áreas. Tinham esgotado as perguntas sim-
ples que podiam fazer e começavam a preocupar-se com fenôme-

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_,-~.· 1

nos um pouco mais complicados. E essas pessoas choravam de gra-


tidão ao descobrir que todas as outras estavam na mesma situação."

Mais tarde, Feigenbaum vivia num espaço desnudo, uma ca-


ma num cômodo, um computador num outro e no terceiro, três tor-
res eletrônicas pretas para tocar a sua coleção de discos alemães.
Sua única experiência em móveis domésticos, a compra de uma cara
mesinha de mármore quando estava na Itália, terminara em fracas-
so: recebeu um pacote de pedaços de mármore. Pilhas de papéis
e livros revestiam as paredes. Ele falava depressa, o cabelo compri.-
do, agora de um grisalho misturado com castanho, penteado para
trás a partir da testa. ''Alguma coisa dramática aconteceu na década
de 20 27 Sem qualquer razão, os físicos toparam com uma descri-
ção essencialmente correta do mundo à sua volta - porque ateo-
ria da mecânica quântica está, em certo sentido, essencialmente cor-
reta. Ela nos diz como podemos pegar sujeira e fazer com ela com-
putadores. É a maneira pela qual aprendemos a manipular o nosso
universo. É a maneira pela qual são feitos os produtos químicos, os
plásticos e tudo mais. Sabemos como computar com ela. É uma teo-
ria muito boa - exceto em certos níveis nos quais não tem sentido.
"Parte da imagística está faltando. Se perguntarmos o que as
equações realmente significam e qual é a descrição do mundo se-
gundo essa teoria, não é uma descrição que .encerre a nossa intui-
ção do mundo. Não se pode pensar que uma partícula em movimen-
to tenha uma trajetória. Não podemos visualiZá-la dessa maneira.
Se começarmos a fazer perguntas cada vez mais sutis - qual, segun~
do essa teoria, a aparência do mundo?-, no fim estaremos tão lon-
ge do nosso modo normal de imaginar as coisas que depararemos
com todo tipo de conflitos. Ora, talvez o mundo seja realmente as-
sim. Mas não.sabemos realmente se não há um outro jeito de reu-
nir todas essas informações, que não exija um afastamento tão ra-
dical da maneira pela qual intuímos as coisas.
"Há na física a suposição fundamental de que nosso entendi-
mento do mundo consiste em isolar seus ingredientes até compreen-
dermos a matéria que nos pareça realmente fundamental . Presumi-
mos então que as outras coisas que não compreendemos são deta-
lhes. A suposição é que ha um pequeno número de princípios que
podemos discernir examinando as coisas em seu estado puro - é
a noção verdadeiramente analítica - e então, de alguma forma, reu-
nimos essas coisas de uma maneira mais complicada quando que-
remos resolver problemas mais sujos. Se pudermos. ·
"Por fim , para compreender, temos de mudar de marcha. Te-
mos de reformular a maneira pela qual concebemos as coisas im-
portantes que estão acontecendo. Poderíamos ter tentado simular

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um modelo de um sistema fluido no computador. Está começan-
do a ser possível. Mas teria sido uma perda de esforço, porque o que
realmente acontece nada tem a ver com um fluido ou com uma equa-
ção específica. É uma descrição geral do que acontece numa gran-
de multiplicidade de sistemas quando as coisas funcionam por si
mesmas repetidamente. É necessária uma maneira diferente de re-
fletir sobre o problema.
"Quando olhamos para esta sala - vemos coisas ali, uma pes-
soa sentada aqui, e portas acolá-, espera-se que tomemos os prin-
cípios elementares da matéria e anotemos as funções de onda para
descrevê-las. Bem, não é uma idéia exeqüível. Talvez Deus pudes-
se fazê-lo, mas não existe nenhum pensamento analítico para a com-
preensão desse problema.
"Também não é uma questão acadêmica perguntar o que acon-
tecerá com uma nuvem. As pessoas querem muito saber - e isso
significa que há dinheiro disponível para isso. Esse problema está
perfeitamente dentro do âmbito da física e é um problema domes-
mo calibre. Estamos vendo alguma coisa complicada, e a atual ma-
neira de resolvê-la é tentar examinar o maior número possível de
pontos, o suficiente para dizer onde a nuvem está, onde o ar quen-
te está, qual a sua velocidade, e assim por diante. Depois, enfiamos
isso na maior máquina aue pudermos e tentamos ter uma estimati-
va do que acontecerá em seguida. Mas isso não é muito realista."
Amassou a ponta do cigarro e acendeu outro. "Temos de pro-
urar maneiras diferentes. Temos de procurar estruturas em escala
-- como os detalhes grandes se relacionam com os pequenos. Exa-
minamos perturbações de fluido '- c'Struturas complicadas nas quais
a complexidade surgiu com um processo persistente. Em certo ní-
vel, elas não se importam muito com o tamanho do processo - pode
ser do tamanho de uma ervilha ou de uma bola de basquete. O pro-
cesso não se importa onde está, e mais ainda, não se importa com
a duração em que vem ocorrendo. As únicas coisas que jamais po-
dem ser universais, em certo sentido. são as coisas em escala.
"De certo modo, a arte é um ... teoria sobre a aparência que o
mundo tem para os seres humanos. É muito óbvio que não conhe-
cemos em detalhe o mundo à nossa volta. O que os artistas fizeram
foi compreender que há apenas um pequeno volume de matéria que
é importante, e em seguida viram o que era. Portanto, eles podem
fazer para mim parte de minha pesquisa. Quando olhamos para os
primeiros quadros de Van Gogh, há milhões de detalhes colocados
neles, há sempre uma imensa quantidade de informações. Eviden-
temente, ocorreu-lhe qual é o volume irredutível dessa matéria que
temos de usar. Ou podemos estudar os horizontes nos desenhos ho-
landeses de cerca de 1600, com pequenas árvores e vacas que pa-

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recem reais. Se olharmos mais de perto, as árvores têm uma espé-
cie de contornos de folhas, mas não é tudo - há também, agarra-
dos nelas, pequenos fragmentos de coisas semelhantes a galhos. Há
uma interação definida entre as texturas mais suaves e as coisas com
linhas mais definidas. De algum modo, a combinação resulta na per-
cepção correta. Com Ruysdael e Turner, se examinarmos a manei-
ra pela qual pintaram águas revoltas, veremos que estas são pinta-
das claramente de uma maneira repetitiva. Há uma camada de tin-
ta, e depois algo é pintado em cima disso, e depois são feitas corre-
ções a essa segunda camada. Os fluidos turbulentos para esses pin-
tores são sempre alguma coisa com uma idéia de escala.
"Eu realmente quero saber como descrever as nuvens. Mas di-
zer que há uma nuvem aqui com tal densidade, e ao lado dela uma
outra com tal densidade - acumular essas informações assim de-
talhadas, parece-me errado. Não é assim, certamente, que os seres
humanos vêem essas coisas, e não é assim que um artista as vê. De
alguma forma, escrever equações diferenciais parciais é não teres-
tudado o problema.
"De algum modo, a maravilhosa promessa da terra é a existência
de coisas belas, coisas maravilhosas e atraentes, e em virtude de nos-
so ofício, queremos compreendê-las." Pôs de lado o cigarro. A fu-
maça subiu do cinzeiro, primeiro fina coluna e em seguida (com um
cumprimento à universalidade) em espirais que
subfam girando para
o teto.

Notas
1 - Feigenbaum. Os trabalhos cruciais de Feigenbaum sobre universalidade são:
"Quantitative Universality for a Class of Nonlinear Transformations'', four-
nal of Statistical Pbysics, 19 (1978), pp. 25-52, e "The Universal Metric Pro-
perties ofNonlinear Transformations",journa/ ofStatistical Pbysics, 21 (1979),
pp. 669-706. Uma apresentação um pouco mais acessível, embora ainda exi-
ja certa matemática, é sua resenha "Universal Behavior in Nonlinear Systems",
Los Alamos Science, 1 (verão de 1981) pp. 4-27. Também recorri às suas recor-
dações inéditas, "The Discovery of Universality in Period Doubling".
2 - Feigenbaum, Carruthers, Cvitanovié, Campbell, Faimer, Visscher, kerr, Hass-
chler, Jen.
3 - Carruthers.
4 - Felgenbaum.
5 - Carruthers.
6 - Kadanoff.
7 - Gustav Mahler, carta a Max Marschalk.

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8 - Zür Farbenlehre, de ~oeth, encontra-se hoje em várias edições. Utilizei uma
edição belamente ilustrada Goethe's Calor Tbeory, Rupprecht Matthaei, org.,
trad. Herb Aach (Nova York, Van Nostrand Reinhold, 1970). De mais fácil acesso
é a Tbeory of Colors (Cambridge, Mass., M.I.T. Press, 1970), com uma exce-
lente introdução de Deane B. Judd. ·
9 - A certa altura, Ulam e Von Neumann usaram suas propriedades caóticas co-
mo solução para o problema de criar números randômicos com um compu-
tador digital finito.
e
10 - Esse trabalho - a única ligação de Stanislaw Ulam John von Neumann com
James Yorke e Mitchell Feigenbaum - é "On Finite -Limit Sets for Transfor-
niations on the Unit lnterval"Journa/ of Combinatorial Theory, 15 (1973),
pp. 25-44.
11 - "The Problem ofDeducing the Climate from the Governing Equations", Te/ ·
lus, 16 (1964), pp. 1-11.
12 - Manabe.
13 - Feigenbaum.
14 - May.
15 - " On Finite Limit Sets", pp. 30-31. A sugestão crucial: "O fato de que esses pa-
drões (.. .)sejam propriedade comum de quatro transformações aparentemente
não-relacionadas( ... ) indica que a seqüência de padrões é uma propriedade
geral de ampla classe de mapeamentos. Por essa razão, demos a essa seqüên-
cia de padrões o nome de seqüência-U, sendo U (com certo exagero) de 'uni-
versal'." Os matemáticos, porém, nunca imaginaram que a universalidade se
estenderia aos próprios números; prepararam um quadro de 84 diferentes va-
lores de parâmetros, cada qual com sete casas decimais, sem observar as rela-
ções geométricas ali ocultas.
16 - Feigenbaum.
17 - Cvitanovié
18 - Ford.
19 - A bolsa MacArthur; o Prêmio Wolf de física de 1986.
20 Dyson.
l. I Gilmore.
22 - Cvitanovié.
2:3 - Mesmo então, a prova não era ortodoxa, pois dependia de um volume tremen-
do de cálculo numérico, de modo que não podia ser feita, nem verificada, sem
o uso de computador. Lanford; Oscar E. Lanford, ' 'A Computer-Assisted Proof
of the Feigenbaum Conjectures ", Bulletin of the American Mathematical So-
ciety, 6 (1982), p. 427; também P. Collet, J,P. Eckmann e O.E. Lanford, "Uni-
versal Properties of Maps ori an lnterval", Communications in Matbemati-
cal Physics, 81 (1980), p . 2 11.
24 - Feigenbaum: "The Discovery of Universality", p. 17.
25 · Ford, Feigenbaum, LebÓwitz.
26 Ford
2""' · Feigenbaum.

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o
Experimentador
É uma experiência como nenhuma outra que eu possa
descrever, a melhor coisa que pode acontecer a um cien-
tista, compreender que algum.a coisa que ocorreu em sua
mente corresponde,exatamenteaal.guma coisa que acon-
tece na natureza. E surpreendente, todas as vezes que
ocorre. Ficamos espantados com o fato de que um cons-
truto de nossa própria mente possa realmente
materializar-se.no mundo real que existe lá fora. Um
grande choque, e uma alegria muito grande.
- LEO KADANOFF

~ ~A LBERT está amadurecendo". 1 Assim diziam na Es-


cola Normal Superior, a escola que, juntamente com
. a Escola Politécnka, constitui a cúpula da hierar-
quia educacional francesa. Talvez a idade se estivesse fazendo sen-
tir em Albert Libchaber, que conquistara renome, como físico de
baixa temperatura, estudando o comportamento quântico do hé-
lio superfluido eni temperaturas bem abaixo do.zero absoluto. Ele
tinha prestígio e um lugar assegurado no corpo docente da esco-
la. E agora, em 1977, esta desperdiçando seu tempo e os recursos
da universidade numa experiência que parecia sem importância.
O próprio Libchaber preocupava-se com a possibilidade de preju-
dicar a carreira de qualquer aluno de pós-graduação que colabo-
rasse no seu projeto, por isso preferiu a assistência de um engenheiro
profissional.
Cinco anos antes da ocupação de Paris pelos alemães, Libcha-
ber nasceu naquela cidade, filho de judeus poloneses, neto de um
rabino. Sobreviveu à guerra, 2 tal como Benoit Mandelbrot ,

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escondendo-se no campo, separado dos pais, cujo sotaque era de-
masiado perigoso. Seus pais conseguiram sobreviver; o resto da fa-
mília pereceu ante os nazistas. Numa ironia do destino político, a
vida de Lilx:haber foi salva pela proteção de úm chefe local da po-
lícia secreta de Pétain, um homem cujas ardorosas convicções di-
reitistas só eram comparáveis ao seu fervoroso anti-racismo. Depois
da guerra, o menino de 10 anos retribuiu o favor. Testemunhou, sem
entender direito, perante uma comissão de crimes de guerra, e suas ·
declarações salvaram o homem.
Movimentando-se no mundo da ciência acadêmica francesa,
Libchaber.ascendeu em sua profissão, e súa inteligência nunca
foi posta em dúvida. Os colegas o achavam, às vezes, um pouco doi-
do - um místico judaico entre os racionalistas, um gaulista num
meio onde a maioria dos cientistas eram comunistas. Pilheriavam
sobre a visão que tinha da História, baseada nos Grandes Homens, .
sua fixação em Goethe, sua obsessão pelos livros antigos. Tinha cen-
tenas de edições originais de obras de cientistas, algumas datando
do século XVII. Ele as lia não como curiosidades históricas, masco- ·
mo uma fonte de novas idéfas sobre a natureza da realidade, a mes-
ma realidade que investigava com lasers e bobinas de refrigeração
.de alta tecnologia. Encontrou um espírito compatível em seu assis-
tente, o engenheiro Jean Maurer, um francês que só trabalhava quan-
do tinha vontade. Pareceu a Libchaber que Maurer acharia seu no-
vo projéto divertido - seu modesto eufemismo gaulês para intri-
gante, emocionante ou profundo. Os dois se propuseram, em 1977,
a realizar uma experiência que revelaria o início da turbulência.
Como experimentador, Libchaber era conhecido pelo seu es-
tilo século XIX: inente perspicaz, mãos ágeis, preferindo sempre
a engenhosidade à força bruta. Era avesso à tecnologia gigantesca
e à computação pesada. Sua idéia de uma boa experiência era co-
mo a idéia que um matemático tem de uma boa prova. A elegância
contiva tanto quanto' os resultados. Mesmo assim, alguns colegas
achavam que ele estava indo longe demais com o seu experimento
do início da turbulência. Era tão pequeno que podia ser levado nu-
ma caixa de fósforo - e por vezes Libchaber o levava consigo, co-
mo uma peça de arte conceituai. Deu-lhe o nome de "Hélio numa
Caixinha".3 O núcleo do experimento era ainda menor, uma pilha
do tamanho de uma semente de limão, de aço inoxidável, com pa-
redes e margens o mais cortantes possível. Na pilha, havia hélio lí-
quido a cerca de quatro graus acima do zero absoluto, o que era
quente, se comparado com os experimentos superfluidos realiza-
dos antes por ele.
O laboratório ocupava o segundo andar do edifício da física,
da École, em Paris, e apenas algumas centenas de metros do velho

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laboratório de Louis Pasteur. Como todo bom laboratório de física
para finalidades gerais, o de Libchaber vivia numa constante desar-
rumação, com latas de tinta e ferramentas manuais espalhadas pelo
chão e pelas mesas, estranhos pedaços de metal e plástico por to-
do lado. Em meio à desordem, o dispositivo que sustentava a mi-
núscula pilha de fluido de Libchaber tinha um ar estranho de coisa
com uma finalidade. Sob a pilha de aço inoxidável ficava uma pla-
ca de cobre de alta pureza. Acima, uma placa de cristal de safira. Os
.materiais foram escolhidos de acordo com a !Ilaneira pela qual con-
duziam o calor. Havia pequenos filamentos elétricos de aquecimento
e gaxetas de teflon. O hélio líquido fluía de um tanque, que era ape-
nas um cubo de meia polegada. Todo o sistema ficava dentro de um
recipiente que mantinha um vácuo perfeito. E o recipiente, por sua
vez, ficava num banho de nitrogênio líquido, que ajudava a estabi-
lizar a temperatura.

Banho de hélio

Tubo de
Contat.o térmico abasteciment.o de hélio

Mola de regulagem
Reservatório de hélio
Condut.ores de corrente
Bolõmetro de regu1agem
Gaxetas de teflon
Sonda local -
-Parede de aço inoxidável
Condutores de corrente ..--
~*= - Vácuo
Bolõmetro da placa inferior
. . Àqu~cedor /

' 'HÉLIO NUMA CAIXINHA''. O delicado experimento de Albert Libchaber:


seu núcleo era uma pilha retangular, cuidadosamente acabada, contendo hé-
lio liquido; pequenos "bolômetros" de safira mediam a temperatura do flui-
do. A pequena pilha estava dentro de uma camisa destinada a protegê-la do ruí-
do e da vibração, e permitir um controle preciso do aqueciment.o.

A vibração sempre preocupou Libchaber. Os experimentos,


como os sistemas não-lie~rs reais, existiam contra um pano de

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fundo constante de ruídos. Os ruídos prejudicavam as medidas e
deformavam os dados. Em fluxos sensíveis - e o de Lilxhaber se-
ria o mais sensível que pudesse conseguir - o ruído podia pertur-
bar muito um fluxo não-linear, fazendo-o mudar de comportamento.
Mas a não-linearidade tanto pode estabilizar como desestabilizar um
sistema 4 . A retroalimentação não-linear regula o movimento,
tornando-o mais resistente. Num sistema linear, uma perturbação
tem um efeito constante. Em presença da não-linearidade, a pertur-
bação pode alimentar-se de si mesma até desaparecer, e o sistema
volta automaticamente a um regime estacionário. Libchaber acre-
ditava que os sistemas biológicos usavam a sua não-linearidade co-
mo defesa contra o ruído. A transferência de energia pelas proteí-
nas, o movimento ondulatório da eletricidade do coração, o siste-
ma nervoso - todos mantinham sua versatilidade no mundo de ruí-
dos, Libchaber esperava que qualquer estrutura subjacente a um flu-
xo de fluidos fosse forte o bastante para ser detectada pelo seu
experimento.
Seu plano era criar a convecção no hélio líquido aquecendo
a placa inferior a um ponto mais elevado do que a superior. Era exa-
tamente o modelo de convecção descrito por Edward Lorenz, o sis-
tema clássico conhecido como convecção de Rayleigh-Bénard. Lib-
chaber não tinha conhecimento de Lorenz - àquela época. Nem
tinha qualquer idéia da teoria de Mitchell Feigenbaum. Em 1977 Fei-
genbaum estava começando a percorrer o circuito das conferências
científicas e suas descobertas causavam impressão nos lugares on-
de os cientistas sabiam como interpretá-las. Mas, no que dizia res-
peito à maioria dos físicos, os padrões e as regularidades da Feigen-
baumologia não tinham nenhuma ligação óbvia com sistemas reais.
Esses padrões vinham de uma calculadora digital. Os sistemas físi-
cos eram infinitamente mais complicados. Sem maiores provas~ o
máximo que alguém podia dizer era que Feigenbaum tinha desco-
berto uma analogia matemática que se parecia com o começo da
turbulência.
Libchaber sabia que experimentos americanos e franceses ti-
nham solapado a idéia de Landau sobre o início da turbulência, mos-
trando que esta chegava numa transição súbita, em lugar de numa
acumulação constante de freqüências diferentes. Experimentado-
res como Jerry Gollub e Harry Swinney, com seu fluxo num cilin-
dro rotativo, tinham demonstrado que uma nova teoria era neces-
sária, mas não conseguiram ver a transição para o caos em detalhes
claros. Libchaber sabia que nenhuma imagem nítida do incio da tur-
bulência tinha surgido num laboratório, e concluiu que sua minús-
cula pilha de fluido proporcionaria uma imagem da maior clareza
possível.

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.1.
't

.. (> ..

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A limitação da visão ajuda a manter ;i,ciência em movimento.
Com suas luzes, os especialistas em dinâmica dos fluidos estavam
certos em duvidar do alto nível de precisão que Swinney e Gollub
afirmavam ter conseguido no fluxo de Couette. Com suas luzes os
matemáticos estavam certos em ver Ruelle com desconfiança, co-
mo faziam . Ele tinha violado as regras. Tinha apresentado uma am-
biciosa teoria física dis'farçada de um sólido raciocínio matemáti-
co. Tornara difícil separar o que era suposição sua e o que provava.
O matemático que se recusa a endossar uma idéia enquanto não tem
os clássicos teorema, prova, teorema, prova, desempenha o pa-
pel que lhe foi atribuído pela sua disciplina: conscientemente ou
não, está vigilante contra as fraudes e os místicos. O diretor de re-
vista que rejeita novas idéias porque estão formuladas num estilo
diferente leva as suas vítimas a pensar que está protegendo o terre-
no em nome de seus colegas tradicionais, mas também esse dire-
tor tem um papel a desempenhar numa comunidade com razões
para ser cautelosa com o que não foi comprovado, ''A ciência foi
construída lutando contra muito absurdo'',5 como disse o próprio
Libchaber. Quan.d o seus colegas o chamaram de místico, o epíteto
nem sempre pr_e tendia ser elogioso.
Ele era um experimentador, cuidadoso e disciplinado, conhe-
cido pela precisão com que trabalhava. Não obstante, tinha um sen-
timento de uma coisa abstrata, mal definida, fantasmagórica, cha-
madafluxo. O fluxo era forma mais mudança, movimento mais for-
ma , Um físico, que concebe sistemas de equações diferenciais, cha:-
maria o seu movimento matemático de fluxo. O fluxo era uma idéia
platônica, supondo que a mudança nos sistemas refletia alguma rea-
lidade independente do instante específico. Libchaber adotava o sen-
tido platônico de que formas ocultas enchem o universo. "Mas vo-
cê sabe que eriêhem, realmerite! 6 Quando olhamos para todas as
folhas, não ficamos espantados com o fato de ser o número de for-
mas genéricas limitado? Poderíamos desenhar facilmente a forma
principal. Seria de algum interesse tentar compreender isso. Ou ou-
tras formas . Num experimento, vimos líquidos penetrarem líqui-
dos." Sua mesa estava cheia de fotos desses experimentos, gordos
dedos fractais de líquido. "Ora, em nossa cozinha, se acendermos
o gás, veremos que a chama é novamente essa forma. É muito am-
pla. É universal. Não me importo que seja uma chama ou um líqui-
do num líquido ou um cristal sólido crescente - o que me interes-
sa é a sua forma.
"Desde o século XVIII , houve certo sonho de que a ciência
não estava acompanhando a evolução da forma no espaço e a evo-
lução da forma no tempo. Se pensarmos num fluxo, poderemos peff
sar nele de muitas maneiras, fluxo na economia ou fluxo na histó-

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ria. Primeiro, pode ser laminar, depois bifurcar-se em regime mais com-
plicado, talvez com oscilações. E pode em seguida ser caótico."
A universalidade de formas, as semelhanças através de esca-
las, o poder repetitivo dos fluxos dentro de fluxos - tudo isso fi-
cava pouco além do alcance da abordagem padrão do cálculo dife-
rencial para as equações de mudança. Isso, porém, nem sempre era·
fácil de ver. Os problemas científicos são expressos na linguagem
científica existente. Até agora, a melhor expressão, do séculóXX,
para a intuição de Libchaber sobre os fluxos precisou da linguagem
da poesia. \Vclllace Stevens, por exemplo, manifestou um sentimento
do mundo que estava adiante do conheciménto disponível aos fí-
sicos. Ele tinha uma estranha suspeita sobre o fluxo, como este se
repetia ao mesmo tempo que se modificava:
O mosqueado rio,
Perene fluxo que nunca se repete, que flui
Por toda parte, como se nunca fixo estivesse. ·
A poesia de Stevens transmite, com freqüência, uma visão de
tumulto na atmosfera e na água. Também transmite uma fé nas for-
mas invisíveis que a ordem toma na natureza, uma crença de
que, na atmosfera sem sombras,
Jaz despercebido o conhecimento das coisas.
Quando Libchaber e alguns outros experimentadores na dé-
cada de 70·começaram a examinar o movimento dos fluida>, fizeram-
no com alguma·coisa próxima dessa intenção poética subversiva.
Suspeitavam que havia uma ligação entre o movimento e a forma
universal. Acumularam dados da única maneira possível, anotan-
do números ou registrando-os num computador digital. Mas, em
seguida, procuraram meios de organizar os dados de maneiras que
revelassem formas. Esperavam expressar as formas em termos de
movimento. Estavam convencidos de que formas dinâmicas, como
chamas, e formas orgânicas, como as folhas, obedeciam a forças ain-
da não compreendidas. Esses experimentadores, os mais incansá-
veis n~ busca do caos, tiveram êxito recusando-se a aceitar qualquer
realidade que pudesse ser congelada na imobilidade. Nem mesmo
Libchaber teria ido tão longe na sua expressão, mas a concepção
que tinha aproximava-se daquilo que Stevens chamou de "insóli-
do ondear do sólido":
Vigor de glória, brilho nas veias,
Coisas surgindo, se movendo e desaparecendo
Na distância, transformação ou nada,
Visíveis mutações da noite de verão,
Argentina abstração que é qua5e forma,
e súbito se nega, dissolvendo-se. 8

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Para Libchaber, era Goethe, e não Stevens, quem proporcio-
nava a inspiração mística. Enquanto Feigenbaum procurou na bi-
blioteca de Harvard a Teoria das Cores de Goethe, Libchaber já ti-
nha conseguido acrescentar à sua coleção uma edição original da
monografia, ainda mais obscura, Da Transformação das Plantas.
Esse trabalho era um ataque indireto de Goethe aos físicos que, na
sua opinião, preocupavam-se apenas com fenômenos estáticos, e
não com as forças e fluxos vitais que produziram as formas que ve-
mos a todo instante. Parte do legado de Goethe - parte desprezí-
vel, no que concerne aos historiadores da literatura - foi um gru-
po de seguidores pseudocientíficos na Alemanha e Suíça; mantido
vivo por filósofos como Rudolf Steiner e Theodor Schwenk. Esses
homens eram também admirados por Libchaber, tanto quanto pe-
los físicos.
"Caos sensível" - Das sensible Chaos - foi a definição de
Schwenk para a relação entre força e forma. Usou-a como título de
um estranho livrinho publicado em 1965 e que, a partir de então,
encontra-se esporadicamente esgotado. Era um livro, a princípio,
sobre a água. A edição inglesa tinha um admirável prefácio do co-
mandante Jacques Y. Cousteau, e depoimentos do Water Resources
e
Bulletin -d o ]ournal of the institute of Water Engineers. Nenhu-
ma pretensão de fazer ciência prejudicava a exposição de Schwenk,
e nenhuma de fazer matemática. Mas ele observava de maneira per-
feita. Apresentava numerosas formas de fluência natural com o olho
de um artista. Reunia fotos e fazia dezenas de desenhos precisos,
como os desenhos de um biólogo de células, olhando pelo seu pri-
meiro microscópico. Tinha um espírito aberto e uma ingenuidade
que teriam sido o orgulho de Goethe.
Suas páginas estão cheias de fluxo. Grandes rios como o Mis-
sissippi, e a Bacia d'.Arcachon, na França, serpenteiam em amplas
curvas na direção do mar. No próprio mar, a Corrente do Golfo tam-
bém desliza sinuosamente, fazendo curvas que ondulam para leste
e para oeste. É um gigantesco rio de água cálida em meio às águas
frias, como disse Schwenk, um rio que " faz as suas margens da pró-
pria água fria".9 Depois que o fluxo passa ou se torna invisível, seus
vestígios permanecem. Rios de ar deixam sua marca na areia do de-
serto, mostrando as ondas. O fluxo da vazante da maré deixa uma
rede de éstrias na praia. Schwenk não acreditava em coincidência.
Acreditava em princípios universais e, mais do que na universalida-
de, acreditava em certo espírito na natureza, o que tornava sua pro-
sa incomodamente antropomórfica. Seu "princípio arquetípico" 10
era o seguinte: aquele fluxo "quer realizar-se, a despeito do mate-
rial que o cerca' '.

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Ele sabia que dentro das correntes há correntes secundárias.
A água que desce nos meandros de um rio flui, secundariamente,
em torno do eixo do rio, em direção à margem, ao leito do rio, em
sentido transversal em direção à outra margem, pata cima em dire-
ção à superfície, como uma partícula espiralando em tomo de uma
rosca. O percurso de qualquer partícula de água forma uma corren-
teza que dá voltas em torno de outras correntezas. Schwenk tinha
a imaginação de um topologista para essas configurações. ''Essa ima-
gem de fios que se retorcem juntos numa espiral só é exata em rela-
ção ao movimento real. Não é comum falar-se de 'cordas' de água;
não são na realidade cordas isoladas, mas superfícies inteiras, que
se interligam espacialmente e fluem umas pelas outras." 11 Via rit-
mos que competiam em ondas, ondas que se alcançavam umas às
outras, superfícies que se dividiam e camadas limítrofes. Via rede-
moinhos e vórtices, e seqüências de vórtices, interpretando-as co-
mo a "rolagem" de uma superfície em torno de outra. E nisso
aproximou-se, tanto quanto poderia aproximar-se um filósofo, da
concepção que tem o físico sobre a dinâmica de uma turbulência
que se aproxima. Sua convicção artística supunha universalidade.
Para Schwenk, os vórtices significavam instabilidade, e a instabili-
dade significava que um fluxo estava lutando contra uma desigual-
dade dentro de si mesmo, e a desigualdade era "arquetípica". Oro-
lamento dos redemoinhos, a torção de plantas como o feto, os en-
rugamentos das cadeias de montanhas, os ocos dos órgãos animais,
tudo seguia, na sua opinião, um caminho. Nada tinha a ver com qual-
quer meio específico, ou qualquer tipo de diferença. As desigual-
dades podiam serlentas e rápidas, quentes e frias, densas e tênues,
salgadas e doces, viscosas e fluidas, áeidas e alcalinas. 12 No limite,
a vida floresce.
A vida, porém, era território deD'ArcyWentworth Thompson.
Esse naturalista extraordinário escreveu em 1917: "Pode ocorrer que
todas as leis da energia, e todas as propriedades da matéria, e toda
a química de todos os coloidais sejam tão impotentes para explicar
o corpo quanto são impotentes para compreender a alma. Por mim,
creio que não."13 D'Arcy Thompson trouxe para o estudo da vida
exatamente aquilo que, fatalmerue, faltava a Schwenk: matemática.
Schwenk argumentava por analogia. Sua argumentação - espiri-
tual, florida, enciclopédica - finalmente se reduzia a mostrar se-
melhanças. A obra-prima de D'Arcy Thompson, On Growth and
Form, tinha um pouco do espírito de Schwenk e um pouco do seu
método. O leitor moderno se pergunta que crédito dar às meticu-
losas imagens de multidentadas gotículas de líquido em queda, pen-
dentes em gavinhas sinuosas, mostradas ao lado de águas-vivas es-
pantosamente parecidas. Será apenas um caso intelectualizado de

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coincidência? Se duas formas se parecem, deveremos buscar cau-
sas também semelhantes?
D'.Arcy Thompson é, sem dúvida, o mais influente biólogo que
já existiu às margens da ciência legítima. A revolução da biologia
do século XX, já em adiantado processo durante sua vida, passou
sem atingi-lo. Ele desconheceu a química, entendeu mal a célula e
não poderia ter previsto o explosivo desenvolvimento da genéti-
ca. Suas obras, mesmo durante sua vida, pareciam demasiado clás-
sicas e literárias - demasiado belas - para serem confiáveis como
ciência. Nenhum biólogo moderno tem de ler D'.Arcy Thompson.
Não obstante, de algum modo os maio rés biólogos se sentem atraí-
dos pelo seu livro. Sir Peter Medawar considerou-o "sem compa-
ração, a melhor obra de literatura em todos os anais da ciência es-
critos na língua inglesa". 14 StephenJay Gould não encontrava me-
lhor trabalho para o qual voltar-se em busca dos ascendentes inte-

- ~~

FLUXOS SINUOSOS E ESPIRALANTES. TheodrScwnk~atus­


rent.es dos fluxos naturais como faixas com compllcados movimentos secun-
dários. "Elas não são, porém, faixas realmente unitárias", escreveu ele, "mas
superfícies inteiras, interligando-se espacialment.e..."

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PINGOS EM QUEDA D'Aroy Wentworth Thompson mostrou os fios e colu-


nas pendentes feitos por gotas de tintas caindo através da água (esquerda) e
pela água'.viva (direita). "Um resultado muito curioso( ...) é mostrar como são
sensíveis estas(... ) gotas às condições físicas. Usando sempre a mesma gela-
tina, e variando apenas a densidade do fluido na terceira casa decimal, conse-
guimos toda uma gama de configurações, do pingo oomum pendente até o mes-
m o com uma configuração de costelas..."

lectuais de sua crescente convicção de que a natureza força as for-


mas das coisas. Com exceção de D'Arcy Thompson, não foram mui-
tos os biólogos modernos que buscaram a unidade inegável dos or-
ganismos vivos. "Poucos· perguntaram se todos os padrões pode-
riam ser reduzidos a um sistema único de forças geradoras", 15 co-
mo disse Gould. " E poucos pareciam sentir a importância que tal
prova de unidade poderia ter para a ciência da forma orgânica."
Esse classicista, poliglota, matemático, zoólogo, tentou ver a
vida como um todo, exatamente quando a biologia se estava vol-
tando, produtivamente, para métodos que reduziam os organismos
às suas partes funcionais constitutivas. O reducionismo triunfou,
de maneira mais emocionante na biologia molecular, mas também
em outros setores, desde a evolução até a medicina. Como com-
preender as células, a não ser pelo entendimento de membranas e
· núcleos e, em última instância, proteínas, enzimas, cromossomos

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e pares básicos? Quando a biologia finalmente estudou o funcio-
namento interno dos sinos, retinas, nerv(')S, tecido cerebral, tornou-
se uma singularidade nada divertida preocupar-se com a forma do
crânio. D'Arcy Thompson foi o último a fazê-lo. Foi também o últi-
mo grande biólogo em muitos anos a dedicar energia retórica à dis-
cussão cuidadosa da causa, em especial a distinção entre a causa
final e a causa eficiente, ou física. A causa final é aquela que seba-
seia na finalidade ou intenção: uma roda é.redonda porque tal for-
ma torna possível o transporte. A causa física é mecânica: a terra é
redonda porque a gravidade transforma um fluido em rotação num
esferóide. A distinção neni sempre é tão óbvia. Um copo é redon-
do porque tal forma é a mais confortável para ser segurada, ou para
dela se beber. Um copo é redondo por ser essa a forma assumida
naturalmente na roda de cerâmica ou no vidro soprado.
Na ciência, no todo, a causa física predomina. Na verdade,
quando a astronomia e a física deixaram as sombras da religião, gran-
de parte dador dessa separação foi provocada pela rejeição dos ar-
gumentos da teleologia, voltada para as finalidades, para a frente -
a terra é oque é para que a.humanidade possa fazer o que faz. Na
biologia, porém, Darwin estabeleceu firmemente a teleologia co-
mo a maneira de pensar sobre a causa. O mundo biológico pode
não realizar a intenção de Deus, mas realiza uma forma funcional
condicionada pela seleção natural. Esta opera não sobre genes ou
embriões, mas sobre o produto final. Dessa forma, a explicação de
um adaptacionista para a forma de um organismo ou a função de
um órgão busca sempre a sua causa, não sua causa tisica, mas sua
causa final. A causa final sobrevive na ciência onde quer que o pen-
samento darwiniano se tenha tornado habitual. Um antropólogo
moderno, ao especular sobre o canibalismo, ou sobre ó sacrifício
titual, tende, certo ou errado, a perguntar apenas a que finalidades
ele serve. D'.Arcy Thompson percebeu que assim seria. Pediu que
a biologia se lembrasse também da causa física, mecanismo e teleo-
logia juntos. Dedicou-se à explicação das forças matemáticas e físi-
cas que funcionam na vida. Com o avançar do adaptacionismo, tais
explicações começaram a parecer irrelevante_s. Explicar uma folha
em termos da maneira pela qual a seleção natural criou um painel
solar tão eficiente tornou-se·um problema interessante e proveito-
so. Só muito depois alguns cientistas começaram a intrigar-se no-
vamente com o lado inexplicado da natureza. As folhas têm apenas
umas poucas formas, entre todas as imagináveis, e a forma de uma
folha não é ditada pela sua função.
A matemática de que dispunha D'.Arcy Thompson não podia
provar o que ele queria provar. O melhor que ele podia fazer era de-
senhar, por exemplo. crânios de espécies correlatas, com coorde-

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nadas hachuradas, demonstrando que uma simples transformação
geométrica transformava uma na outra. Para organismos simples -
com formas torturantemente reminiscentes de jatos líqllidos, que-
da de gotículas e outras manifestações de fluxo - ele suspeitava a
existência de causas físicas, como a gravid~ e a tensão de super-
fides, que não podiam realizar o trabalho formativo que ele pedia delas.
Por que, então, Albert Libchaber pensava a respeito de On Growth and
Form quando começou seus experimentos com fluidos? _
A intuição de D'.Arcy Thompson sobré as forças que modelam
a vida aproximou-o, mais do que qualquer outro na corrente prin-
cipal da biologia, da perspectiva dos sistemas dinâmicos. Ele via a
vida como vida, sempre em movimento, sempre respondendo a
ritmos - "os ritmos profundos do crescimento", i6 que acreditava
serem os criadores das formas universais. Considerava seu deveres-
tudar não só as formas materiais das coisas, mas também a sua di-
nâmica - "a interpretação, em termos de força, das operações da
Energia". 17 Era suficientemente matemático para saber que a cata-
logação das formas nadaprovava. Mas era sufic~ntem poeta para
ter a certeza de que nem o acidente, nem a intenção, poc:Jiám expli-
car a espantosa universalidade das formas que reunira erh~tJS lon-
gos anos de observação da natureza. As leis físicas é que dJviam
explicá-la, governando a força e o crescimento de modos que es-
capavam ao entendimento. Platão, novamente. Atrás das formas es-
pecíficas, visíveis, da matéria devia haver formas fantasmagóricas
servindo de padrões invisíveis. Formas em movimento.

Libchaber escolheu o hélio líquido para o seu experimento.


O hélio líquido tem uma viscosidade excessivamente baixa, e por
isso move-se ao menor estímulo. O experimento equivalente num
fluido de viscosidade média, como a água ou o ar, teria exigido um
recipiente muito maior. Com abaixa viscosidade, Libchaber tornou
seu experimento muito mais sensível ao calor. Para provocar a con-
vecção em sua pilha milimétrica, ele tinha apenas de criar uma di-
ferença de temperatura de um milésimo de grau entre as superfí-
cies superior e inferior. Por isso a pilha tinha de ser tão pequena.
Num recipiente maior, onde o hélio líquido teria mais espaço para
rolar, o movimento equivalente exigiria um aquecimento ainda me-
nór muito menor. Numa caixa dez-vezes maior em cada direçao, do
tamanho de uma uva - mil vezes maior em volume -, a convec-
ção começaria com um diferencial de calor de um milionésimo de
grau. Variações tão minúsculas de temperatura não podiam ser con-
troladas.
No planejamento, na projeção e na construção, Libchaber e
seu engenheiro dedicaram-se à eliminação de qualquer imperfei-

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ção. De fato, fiz.eram todo o possível para eliminar o movimento que
estavam tentando estudar. O movimento dó fluido, de fluxo suave
para a turbulência, é visto como movimento pelo espaço. Sua com-
plexidade surge como uma complexidade espacial, suas perturba-
ções e seus vórtices como um caos espacil ~ Libchaber, porém, bus-
cava ritmos que se auto-revelassem como mudança, com o tempo.
O tempo era a arena oride se desenvolviam os fenômenos e a medi-
da. Ele espremeu o espaço, reduzindo-o quase que a um ponto uni-
dimensional. Estava levando ao extremo uma técnica que seus ante-
cessores na experimentação com fluidos também tinham usado. To-
dos sabiam que um fluxo fechado- a convecção de Rayleigh-Bénard
num recipiente ou a rotação de Couette-Taylor num cilindro -
comportava-se mensuravelmente melhor do que um fluxo aberto,
como ondas no oceano ou no ar. Num fluxo aberto, a superfície li-
mítrofe permanece livre, e a complexidade se multiplica.
Visto que a convecção numa caixa.retilínea produz rolos de
fluidos como cachorros-quentes - no caso, coino sementes de sé-
samo - , ele escolheu as dimensões de sua pilha cuidadosamente,
a fim de dar, com exatidão, espaço para dois rolos. O hélio líquido
se elva~ no centro, rolava para cima, para a esquerda e a direita,
e depois descia nas orlas externas da célula. Era uma geometria pa-
ralisada. A oscilação era limitada. Linhas claras e proporções cui-
dadosas.eliminavam quaisquer variações estranhas; Libchaber con-
. gelou o espaço, para poder jogar com o tempo.
Uma vez iniciado o experimento, com o hélio rolando dentro
da pilha dentro do recipiente de vácuo dentro do banho de nitro-
gênio, Libchaber precisava de alguma maneira ver o que estava acon-
tecendo. Embutiu duas microscópicas sondas de temperatura na su-
perfície superior de safira da pi!pa. Suas medições eram registradas
continuamente por uma pena de riscar. Podia, dessa forma, moni-
torar as temperaturas em dois pontos no alto do fluido. Era tão sen-
sível, tão bem imaginado, disse outro físico, que Libchaber conse-
guiu enganar a natureza. 18
Essa obra-prima de precisão miniaturizada levou dois anos para
ser totalmente explorada, mas foi, como ele disse, o pincel adequado
para sua pintura, nem grande demais, nem sofisticado demais. Ele
finalmente viu tudo. Fazendo funcionar seu experimento hora após
hora, noite e dia, Libchaber descobriu um padrão de comportamen-
to mais intrincado, no início da turbulência, do que tinha imagina-
do. Surgiu, completa, a cascata da duplicação do período. Libcha-
ber confinou e purificou o movimento de um fluido que ascende
ao ser aquecido. O processo começa com a primeira bifurcação, o
início do movimento tão longo a placa inferior de cobre de alta pu-
reza se aquece o suficiente para superar a tendência do fluido a per-

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manecer estático. A uns poucos graus acima do zero absoluto, um
mero milionésimo de grau é suficiente. O líquido do fundo se aquece
e se expande o suficiente para se tornar mais leve do que o líquido
frio do alto. Para deixar que o líquido quente suba, o líquido frio
tem de afundar. Imediatamente, para que os dois movimentos ocor-
ram, o líquido se organiza num par de cilindros rolantes. Os rolos
chegam a uma velocidade constante, e o ~istema atinge o equilíbrio
- um equilíbrio móvel, com a energia cfo calor sendo transforma-
da constantemente em movimento e dissipando-se pelo atrito até
voltar a ser calor e escoando-se pela placa superior fria.
Até então, Libchaber estava reproduzindo um experimento
bem conhecido na mecânica dos fluidos, tão conhecido que era des-
prezado. "Era física clássica'', disse ele, "o que infelizmente signifi-
cava que era antiga, o que significava que era desinteressante." t9
Era também precisamente o fluxo cujo modelo l.orenz tinha esta-
belecido com seu sistema de três equações. Mas um experimento
no mundo real - líquido real, numa caixa feita por um mecânico,
num laboratório sujeito a vibrações do tráfego parisiense - já tor-
nava a tarefa de coligir dados muito mais difícil do que simplesmente
gerar números num computador.
Experimentadores como Libchaber usaram uma simples pe-
na de riscar para registrar a temperatura medida pela sonda embu-
tida na superfície superior. No movimento equilibrado depois da
primeira bifurcação, a temperatura em qualquer ponto permanece
mais ou menos estável, e a pena registra uma linha reta. Com mais
. aquecimento, mais instabilidade surge. Um nó aparece em Cada ro-
lo, e move-se constantemente para frente e para trás. Essa oscilação
aparece como uma variação de temperatura, para cima e para bai-
xo, entre dois valores. A pena traça então uma linha ondulada no
papel.
·-
A partir de uma simples linha de temperatura, que se modifi-
ca continuamente e é abalada pelo ruído experimental, torna-se im-
possível ler o tempo exato das novas bifurcações, ou deduzir a sua
natureza. A linha tem picos e vales irregulares, que parecem quase
tão aleatórios quanto uma linha de oscilações de uma bolsa de va-
lores. Libchaber analisou esses dados transformando-os num dia-
grama de espectro, destinado a revelar as principais freqüências ocul-
tas nas variações de temperatura. Faier um diagrama de espectro de
dados obtidos a partir de utn experimento é como fazer um gráfi-
co das freqüências sonoras que formam um acordo complexo nu-
ma sinfonia. Uma linha desigual e de foco impreciso corre sempre
pela base do gráfico - ruído experimental. Os tons principais se
revelam como pontas verticais: quanto mais alto o tom, mais alta
a ponta. Da mesma forma, se os dados produzirem uma freqüên-

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eia dominante - um ritmo que surge uma vez por segundo, por
exemplo - , então essa freqüência se mostrará ·c omo uma ponta num
diagrama de espectro.
No experimento de Libchaber, a primeira freqüência de onda
a aparecer tinha cerca de dois segundos. A bifurcação seguinte en-
cerrava uma modificação sutil. O rolo continuava a oscilar e a tem-
peratura de bolômetro continuava a subir e baixar com um ritmo
dominante. Mas em ciclos ímpares a temperatura começava a subir
um pouco mais do que antes, e em ciclos pares, a cair um pouco mais
do que antes. De fato, a temperatura máxima dividiu-se em duas,
de modo a haver duas máxímas e duas mínimas distintas. A linha
traçada pela pena, embora de difícil leitura, exibiu oscilação sobre
oscilação, uma metaoscilação. No diagrama de espectro, isso se apre-
sentava mais claramente. A freqüência antiga ainda tinha uma pre-
sença forte, já que a temperatura ainda se elevava a cada dois segun-
dos. Agora, porém, uma nova freqüência20 surgia exatamente na
metade da anterior, porque o sistema tinha desenvolvido um com-
ponente que se repetia a cada quatro segundos. Com a continua-
ção das bifurcações, era possível distinguir um padrão estranhamen-
te coerente: novas freqüências surgiam no dobro da antiga, de modo
que o diagrama enchia os quartos, os oitavos e os décimos-sextos, pa-
recendo uma paliçada, com estacas alternadamente altas e baixas.

()
DUAS MANEIRAS DE VER UMA BIFURCAÇÃO. Quando um experiment.o
como a pilhade convecção de Libchaber produz uma oscilação constante, sua
imagem de espaço de fase é um loop que se repete a intervalos regulares (ao
alto, esquerda). Um experimentador que esteja medindo as freqüências dos
dados verá um diagrama de espectro com um acentuado pico para este único
ritmo. Depois de uma bifurcação de duplicação de período, o sistema forma
loops duas vezes, antes de repetir-se exatamente (centro), e entãoo experimen-
tador vê um novo ritmo com metade da freqüência - duas vezes o períod~
do original. Novas duplicações de período enchem o diagrama de espectro de
mais picos.

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Mesmo para alguém que procurava formas ocultas em dados
confusos, foram necessárias dezenas e depois centenas de repeti-
ções antes que os hábitos dessa pequena pilha começassem a tornar-
se claros. Coisas estranhas podiam sempre acontecer, quando Lib-
chaber e seu engenheiro elevavam lentamente a temperatura e q sis-
tema passava de um equilíbrio a outro. Por vezes freqüências tran-
sitórias apareciam, deslizavam lentamente pelo diagrama de espectro
e desapareciam. Outras vezes, apesar da geometria clara, apareciam
três rolos em lugar de dois - e como podiam realmente saber o -que
estava acontecendo dentro daquela pequena pilha?
Se conhecesse então a descoberta da universidade por Feigen-
baum, Libchaber teria sabido exatamente onde procurar suas bifur-
cações e como chamá-las. Em 1979 um grupo crescente de mate-
rpáticos e físicos de inclinação matemática estavam atentos à nova
teoria de Feigenbaum. Mas o grande número de cientistas que co-
nheciam os problemas dos sistemas físicos reais acreditavam ter boa
razão para aguardar antes de fazer um pronunciamento. A comple-
xidade era uma coisa em sistemas unidimensionais, os mapas de May
e -Fe,igenbaum. E ei:a certamente outra coisa nos sistemas bidimen-
sionais, tridimensionais ou quadridimensionais de aparelhos mecâ-
nicos que podiam ser construídos por um engenhefro. Exigiam
equações diferenciais sérias, e não apenas simples equações de di-
ferença. E outro abismo parecia separar os sistemas de baixa dimen-
são dos sistemas de fluxo de fluido, que os físicos encaravam co-
mo sistemas de dimensões pontencialmente infinitas. Até mesmo
uma pilha como a de Libchaber, cüidadosamente estruturada, tinha
uma infinidade virtual de partículas fluidas ~ Cada partícula repre-
sentava pelo menos o potencial de movimento independente. Em
certas circunstânciFts, qualquer partícula poderia ser o local de al-
guma nova contorção ou vórtice.
"A idéia de que o movimento real relevante, fundamental, nesse
sistema se resume a dois mapas ... 'ninguém entendeu isso'', 21 disse
Pierre Hoheriberg, dos Laboratórios AT&T Bell, em Nova Jersey. Ho-
henberg foi um dos poucos físicos a seguir a nova teoria e os novos ·
experimentos, ao mesmo tempo. "Feigenbaum pode ter sonhado com
iss0, mas certamente não disse. O trabalho de Feigenbaum era so-
bre mapas. Por que deveriam os físicos interessar-se por mapas? É
um jogo. Realmente, enquanto estivessem brincando com mapas,
tudo aquilo parecia muito longe do que queríamos entender.
"Mas quando vimos os experimentos, foi que começamos real-
me.n te a nos interessar. O milagre é que, nos sistemas que são inte-
ressantes, ainda podemos compreender o comportamento em de-
talhe com um modelo dotado de um pequeno número de graus de
liberdade.''

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r

11i

DADOS DO MUNDO REAL CONFIRMAM A TEORIA. Os diagramas de es-


pectro de Libchaber confirmam vigorosamente o padrão preciso de duplica-
·Qão de periodo previsto pela teoria. Os picos de novas freqüências destacam-
se claramente acima do ruido experimental. A teoria de escala.de Feigenbawn
previu não só quando e onde as novas freqüências apareceriam, como também
a força que teriam - suas amplitudes.

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Foi Hohenberg que, finalmente, reuniu o teórico e o experi-
mentador. Ele organizou um curso prático em Aspen, no verão de
1979 , e Libchaber estava presente. (Quatro anos antes, no mesmo
curso de verão, Feigenbaum tinha ouvido Steve Smale falar sobre
um número - apenas um número - que surgia quando um mate-
mático examinava a transição para o caos em certa equação.) Quando
Libchaber descreveu seus e_x:perimentos·com hélio líquido, Hohen-
berg tomou nota. Ao voltar para casa, Hohenberg fez uma parada
para visitar Feigenbaum no Novo México. lDgo depois, Feigenbaum
fez uma visita a Libchaber em Paris, onde os dois se encontraram
em meio às peças e os instrumentos espalhados pelo laboratório de
Libchaber.22 Este mostrou orgulhosamente sua pequena pilha e
deixou Feigenbaum explicar sua mais recente teoria. Depois, per-
correram as ruas de Paris em busca do melhor café possível. Lib-
chaber lembrava-se, mais tarde, de como ficara surpreso ao ver um
teórico tão jovem e por isso, dizia ele, tão animado.

O pulo dos mapas para ô fluxo dos fluidos parecia tão grande
que os mais inclinados a aceitá-lo achavam, por vezes, que' era um
sonho. Como podia a natureza ligar tal complexidade à tal simpli-
cidade era o que estava longe de ser óbvio. "Temos de ver isso co-
mo uma espécie de milagre, não como a ligação habitual entre teo-
ria e experimento", disseJerry Gollub. 2 3 Em poucos anos, o mila-
gre se estava repetindo novamente num vasto bestiário de ~ is temas
de laboratório:2 4 maiores pilhas de fluidos com água e mercúrio,
osciladores eletrônicos, lasers e até mesmo reações químicas. Teó-
ricos adaptaram as técnicas de Feigenbaum e descobriram outros
caminhos matemáticos para o caos, primos da duplicação de perío-
do: padrões como a intermitência e a quase-periodicidade. Thmbém
estes mostraram sua m1iversalidade, na teoria e nos experimentos.
As descobertas dos experimentadores ajudou a colocar em mo-
vimento a era da experimentação pelo computador. Os físicos des-
cobriram que os computadores produziam as mesmas imagens qua-
litativas que os experimentos reais, e as produziam milhões deve-
zes mais depressa e de maneira mais confiável. Para muitos,2 s ain-
da mais convincente do que os resultados de Libchaber foi um mo-
delo fluido criado por Valter Franceschini, da Universidade de Mo-
dena, na Itália- um sistema de cinco equações diferenciais que pro-
duzia atratores e duplicação de período. Franceschini nada sabia de
Feigenbaum, mas seu modelo complexo, multidimensional, pro-
duziu as mesmas constantes que Feigenbaum tinha encontrado nos
mapas unidimensionais. Em 1980 um grupo europeu 26 ofereceu
uma convincente explicação matemática: a dissipação drena de um

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sistema complexo de muitos movimentos conflitantes, reduzindo
'finalmente a um o comportamento de muitas dimensões.
Fora dos computadores, encontrar um atrator estranho num
experimento de fluido constituía um desafio sério, que ocupou ex-
perimentadores como Harry Swinney até uma fase adiantada da dé-
cada de 80. E quando os experimentadores finalmente tiveram êxito,
os peritos em computadores novos menosprezavam com freqüên-
cia seus resultados, considerando-os apenas ecos grosseiros e pre-
visíveis das imagens de magníficos detalhes que seus terminais grá-
ficos já estavam produzindo. Num experimento em computador,
quando gerávamos nossos milhares oti milhões de dados, os padrões
se tornavam mais ou menos evidentes. Num laboratório, como no
mundo real, a informação útil tinha de ser separada do ruído mági-
co. Num ex;perimento em computador, os dados fluíam como vi-
nho de um cálice mágico. Num experimento em laboratório, era pre-
ciso lutar para conseguir cada gota .
Ainda assim, as novas teorias de Feigenbaum e outros não te-
riam conquistado uma comunidade tão ampla de cientistas apenas
com a força dos experimentos de computador. As modificações, as
concessões, as aproximações necessárias à digitação das equações
diferenciais não-lineares eram demasiado suspeitas. As simulações
decompõem a realidade em pedaços, tantos quanto possível, mas
sempre menos do que o necessário. Um -modelo de computador
é apenas um conjunto de regras arbitrárias, escolhidas pelos pro-
gramadores. Um fluido do mundo real, mesmo numa pilha milimé-
trica e simplificada, tem o inegável potencial de todo o movimen-
to livre, não-controlado, da desordem natural. Tem o potencial da
surpresa.
Na era da simulação pelo computador, quando fluxos em to-
dos os campos, das turbinas a jato até as válvulas cardíacas, são mo-
delados em supercomputadores, é difícil lembrar a facilidade com
que a natureza pode confundir um experimentador. De fato, nenhum
computador pode simular hoje, de forma completa, nem mesmo
um sistema tão simples quanto a pilha de hélio líquido de Libcha-
ber. Sempre que um bom físico examina uma simulação, deve per-
guntar que parte da realidade foi deixada de lado, que surpresa em
potencial foi contornada. Libchaber gostava de dizer que ele não
desejaria voar num avião simulado - ficaria pensando no que te-
ria perdido. Além disso, dizia que as simulações em computador aju-
dam a desenvolver a intuição ou a aperfeiçoar os cálculos, mas não
dão origem a descobertas autênticas. Esse, pelo menos, é o credo
dos experimentadores.
Seu experimento foi tão imaculado, suas metas científicas tão
abstratas, que certos físicos consideraram o seu trabalho mais filo-

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sofia ou matemática do que física. Ele, por sua vez, acreditava que
os padrões predominantes de seu campo eram reducionistas, dan-
do primazia às propriedades dos átomos. "Um físico me pergunta-
va:27 Como este átomo chegou aqui, e ficou aqui? E qual a sensi-
bilidade para a superfície? E como se pode escrever a hamiltoniana
do sistema?
E se eu lhe disser que não me importo, que meu interesse está
nestaforma, na matemática da forma e na evolução, na bifurcação
desta forma para essa forma e para aquela forma, ele me dirá que
isso não é física, que estou fazendo matemática. Ainda hoje, ele me
dirá isso. O que posso dizer, então? Sim, claro, estou fazendo mate-
mática. Mas é relevante para o que nos cerca. Isso também é natu-
reza."
Os padrões por ele descobertos eram realmente abstratos. Eram
matemáticos. Nada diziam sobre as propriedades do hélio líquido,
ou do cobre, ou sobre o comportamento dos.átomos próximo ao
zero absoluto. Eram, porém, padrões com os quais os antepassados
místicos de Libchaber tinham sonhado. Tornavam legítimo um se-
tor de experimentação no qual muitos cientistas, de químicos a en-
genheiros eletricistas, tornaram-se logo exploradores, buscando os
novos elementos do movimento. Os padrões ali estavam para se-
rem vistos, na primeira vez que ele conseguiu elevar a temperatura
o suficiente para isolar a primeira duplicação de período, e a segumte,
e a outra. De acordo com a nova teoria, as bifurcações deviam ter
produzido uma geometria de escala precisa, e foi e:Xatamente o que
Libchaber viu, as constantes universais de Feigenbaum, passando
naquele instante de um ideal matemático para uma realidade físi-
ca, mensurável e reproduzível. Muito tempo depois, lembrava-se
ainda da sensação, a impressionante observação de uma bifurcação
após outra, e em seguida a compreensão de que estava vendo uma
cascata infinita, rica de estruturas. Foi, como disse, divertido.

Notas
1 - Libchaber, Kadanoff.
2 - Libchaber.
3 - Albert Libchaber, "Experimental Study of Hydrodynamic Instabilities.
Rayleigh-Benard Experiment: Helium in a: Small Box", em Nonlinear Pheno-
mena at Phase Transitions and Jnstabilities, T. Riste, org. (Nova York, Ple-
num , 1982), p. 259 .
4 - Libchaber, Feigenbaum.
5 - Libchaber.

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6 - Libchaber.
7 - Wallace Stevens, "This Solitude of Cataracts", The Palm at tbe End of the Mind,
Holly Stevens, org. (Nova York, Vintage, 1972), p. 321.
8 - "Reality is an Activity of the Most August Imagination", /bid., p. 396.
9 - Theodor Schw'enk, Sensitive Chaos (Nova York, Schocken, 1976) p. 19 .
10 - lbid.
11 - lbid. , p. 16.
12 - /bid ., p. 39.
13 - Di\rcy \1'entworth Thompson, On Growth and Form ,J.T. Bonner, org. (Cam-
bridge, Cambridge University Press, 1961), p. 8.
14 - lbid. , p. viii.
15 - Stephen]ayGould , HensTeethandHorses Toes(Nova York, Norton, 1983),
p. 369.
16 - On Growtb and Form , p. 267.
17 - lbid., p. 114.
18 - Campbell.
19 - Libchaber.
20 -.Libchal::ler e Maurer, 1980 e 1981 . Também a introdução de Cvitanovié apre-
senta um resumo lúcido.
21 - Hohenberg.
22 - Feigenbaum, Libchaber.
23 - Gollub.
24 - A bibliografia é igualmente vasta. Um resumo da fusão inicial da teoria com
o experimento, numa multiplicidade de sistemas, encontra-se ~m Harry L.
Swinney, "Observations of Order and Chaos in Nonlinear Systems", Physics,
7D (1983), pp. 3-15 ; Swinney dá uma lista de referências dividida em catego-
rias, de osciladores eletrônicos e químicos até tipos de experimentos mais
esotéricos.
2 5 - Valter Franceschini e Claudio Tebaldi, "Sequences oflnfinite Bifurcations and
Turbulence in a Five-Mode Truncation ofthe Navier-Stokes Equations",Jour-
nal of Statistical Physics, 21 (1979), pp. 707-26.
26 - P. Collet, J.P. Eckmann e H. Koch, "Period Doubling Biffurcations for Fami-
lies of Maps on Rn",journal of Statistical Pbysics, 25 (1981), p. 1.
27 - Libchaber.

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Imagens do
Caos

Que outra coisa, quando o caos atrai. para o interior todas


as forças,
Pode modelar uma única folha.
- CONRAD AIKEN

M ICHAEL BARNSLEY conheceu Mitchell Feigenbaum nu-


ma conferência na Córsega, em 1979. 1 Foi então que
Barnsley, matemático formado em Oxford, tomou co-
nhecimento da universalidade, da duplicação de períodos e das cas-
catas infinitas de bifurcações. Uma boa idéia, pensou ele, exatamen.te
o tipo de idéia que sem dúvida faria com que os cientistas corres-
sem para se aproveitar de algum de seus aspectos. Por sua vez, Barns-
ley achou que tinha percebido um aspecto que ninguém havia no-
tado.
De onde vinham esses ciclos de 2, 4, 8, 16, essas seqüências
de Feigenbaum? Surgiampor mágica de algum vazio matemático,
ou revelavam a sombra de alguma coisa ainda mais profunda? A in-
tuição de Barnsley era que deviam ser parte de algum fabuloso ob-
jeto fractal, até então oculto.
Tinha um contexto para essa idéia: o território numérico co-
nhecido como o plano complexo. Neste, os números de menos in-
finito até infinito - ou seja, todos os números reais - situam-se nu-
ma linha que se estende do extremo oeste para o extremo leste, com
zero no centro. Mas essa linha é apenas o equador de um mundo
que também se estende ao infinito para o norte e para o sul. Cada
número é composto de duas partes, uma parte real, correspondendo
à longitude leste-oeste, e uma parte imaginária, que corresponde

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à latitude norte-sul. Convencionalmente, esses números comple-
xos são escritos assim: 2 + 3i, significando ia parte imaginária. As
duas partes dão a cada número um endereço único nesse plano bi-
dimensional. A linha original dos números reais, portanto, é ape-
nas um caso especial, a série de números cuja parte imaginária é igual
a zero. No plano complexo, ver apenas os números reais - só os
pontos do equador - seria limitar a visão aos contatos ocasionais
de formas que poderiam revelar outros segredos, quando vistas em
duas dimensões. Era isso que Barnsley suspeitava.
As denominações real e imaginário surgiram quando os nú-
meros comuns pareciam mais reais do que esse novo híbrido, mas
hoje são reconhecidas como arbitrárias, pois ambas as séries são tão
reais e tão imaginárias quanto quaisquer outras. Historicamente, os
números imaginários foram inventados para preencher o vácuo con-
ceituai produzido pela pergunta: Qual a raiz quadrada de um nú-
mero negativo? Convencionalmente, a raiz quadrada de-1 é i, a raiz
quádrada de -4 é 2 i, e assim por diànte. Faltava apenas um passo pa-
ra a compreensão de que as combinações de números reais e ima-
ginários permitiam novos tipos de cálculo com equações polinô-
micas. Os números complexos podem ser somados, multiplicados,
fatorados, integrados, deles se pode tirar a média, assim como qua-
se todos os cálculos com números reais podem ser tentados sobre
números complexos também. Quando começou a traduzir as fim-
ções de Feigenbaum para o plano complexo, Barnsley viu emergi-
rem os contornos de uma fantástica família de formas, aparentemen-
te relacionadas com as idéias dinâmicas que intrigavam os físicos
experimentais, mas que eram também surpreendentes como cons-
tru tos matemáticos.
Mas esses ciclos, afinal de contas, não surgem do nada, com-
preendeu ele. Enquadram-se na linha real do plano complexo, on-
de, se examinarmos, há um grande número de ciclos, de todas as
ordens. Houve sempre dois ciclos, três, quatro, flutuando próximo
da visão, até chegarem à linha real. Barnsley correu de volta da Cór-
sega para sua sala no Instituto de Tecnologia da Georgia e escreveu
um artigo, que mandou para Communications in Matbematical
Pbysics, para publicação. O diretor da revista era David Ruelle, e Ruel-
le deu-lhe más notícias: sem saber, Barnsley tinha redescoberto um
trabalho, de 52 anos, escrito por um matemático francês. "Ruelle
mandou o artigo de volta para mim, como uma batata quente, e disse:
'Michael, você está falando dos conjuntos de Julia"', lembrou-se
Barnsley. 2
Ruelleacrescentou um conselho: "Entre em contato com Man-
delbrot.''

209

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John Hubbard, matemático americno - ~ que gostava de ousa-
das camisas da moda, lecionava cálculo elementar para alunos do
primeiro ano de universidade em Orsay, França, três anos antes. En-
tre as matérias que ensinou estava o método de Newton, o esque-
ma clássico para a solução de equações com aproximações suces-
sivamente melhores. Hubbard, porém, estava um pouco cansado
das matérias clássicas, e resolveu, pelo menos uma vez, ensinar o
·método de Newton de uma maneira que fizesse os alunos pensar.
O método de Newton é velho, e já era velho quando Newton
o inventou. Os gregos antigos usaram uma versão dele para encon-
trar a raiz quadrada. O método começa com uma suposição. Esta
leva-a uma outra suposição melhor, e o processo de repetição se apro-
xima de uma resposta, como um sistema dinâmico que busca seu
regime estacionário. O processo é rápido, o número qe dígitos de-
cimais exatos geralmente dobra a cada etapa. Hoje, é claro, as raí-
zes quadradas sucumbem a métodos mais analíticos, como todas
as raízes das equações polinômicas de grau dois - aquelas nas quais
as variáveis são elevadas à segunda potência. O método de Newton,
porém, funciona para equações polinômicas de graus mais eleva-
dos, que não podem ser resolvidas diretamente. O método também
funciona muito bem em vários algoritmos de computador, sendo
a repetição, como sempre, o forte do computador. Um pequeno pro-
blema com o método de Newton é que as equações têm, geralmente,
mais de uma solução, em especial quando há soluções complexas.
A solução encontrada pelo método depende da suposição inicial.
Em termos práticos, os alunos verificam que isso não constitui pro-
blema. Em geral, têm boa idéia de onde começar, e se a suposição
parece convergir para a solução errada, eles simplesmente recome-
çam em algum outro ponto.
Poderíamos perguntar qual o caminho traçado, exatamente,
pelo método de Newton, ao aproximar-se de uma raiz de um poli-
nômio de segundo grau no plano complexo. Poderíamos respon-
der, pensando geometricamente, que o método apenas busca qual-
quer uma das duas raízes que estiver mais próxima da suposição ini-
cial. Foi o que Hubbard disse aos seus alunos em Orsay, quando a
questão surgiu, certo dia.
"Quanto às equações de, digamos, terceiro grau, a situação pa-
rece mais complicada'', disse ele, com confiança. "Vou pensar, e lhes
direi na semana que vem." 4
Ele ainda supunhas que a dificuldade estaria em ensinar aos
seus alunos-como calcular a iteração e que fazer a suposição ini-
cial seria fácil. Mas quanto mais pensava sobre o assunto, menos
sabia o que constituía uma suposição inteligente ou, até mesmo, o
que o método de Newton realmente fazia . A suposiçãq geométrica

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óbvia seria dividir o plano eµi trê_s partes, com uma raiz em cada
parte, mas Hubbard descobriu que isso não funcionava. Coisas es-
tranhas aconteciam próximo dos limites. Além disso, descobriu que
não era o primeiro matemático a-topar com essa questão surpreen-
dentemente difícil. Lorde Arthur Cayley tiriha tentado, em 1879, pas-
sar do controlável caso do segundo grau para o assustadoramente
incontrolável caso do terceiro grau. Mas Hubbard, um século de-
pois, tinha nas mãos um instrumento que faltava a Cayley.
Hubbard era u.m matemático rigoroso, que desprezava as su-
posições, as aproximaçõe,s, as meias verdades baseadas na intuição,
e não na prova. Era um matemático que, 20 anos depois que o atra-
tor de Edward Lorenz tinha entrado na bibliografia, continuaria a
insistir em que ninguém realmente sabia se essas equações dávam
lugar a um atrator estranho. Era uma conjetura não provada. A co-
nhecida espiral dupla, disse ele, não constituía prova, mas sim me-
ro indício, produzido pelos computadores. ·
Então, a contragosto, Hubbard começou a usar um computa-
dor para fazer o que as técnicas ortodoxas ·n ão tinham conseguido.
O computador não provaria nada. Mas pelo menos podia revelar
a verdade; de modo que um matemático pudesse saber o que de-
via tentar provar: Assim, Hubbard começou o experimento. Tratou
o método de Newton não como uma maneira de resolver proble- .
mas, mas como um problema em si mesmo. ExaminÓu o mais sim-
ples exemplo de um polinômio de terceiro grau, a equação x3-l =O.
Ou seja, encontre-se a raiz cúbica de 1. Em números reais, é claro,
há apenas a solução trivial: 1. Mas o polinômio tem também duas
soluções complexas: -1/2 + i "{31Z, e -1/2-i-Y3'i2. Plotadas no plano
complexo, essas três raízes marcam um triângulo eqüilátero, com
uma ponta nas 3 horas, uma nas 7 e uma nas 11 horas. Dado qual-
quer número complexo como ponto de partida, a questão era ver
a qual dessas três soluções levaria o método de Newton. Era como
se esse método fosse um sistema dinâmico, e as três soluções fos-
sem três atratores. Ou era como se o plano complexo fosse uma su-
perfície lisa, inclinada em direção a três vales profundos. Uma bo-
la de gude lançada de qualquer ponto do plano rolaria para um dos.
vales - mas qual?
Hubbard começou fazendo uma amostragem da infinidade de
pontos que constituem o plano. Fez o computador passar de pon-
to a ponto, calculando o fluxo do método de Newton para cada um
deles, e codificando os resultados em cores. Os pontos de partida
que levavam a uma solução foram todos coloridos de azul. Os pontos
que levavam à segunda solução receberam a cor vermelha e os que
levavam à terceira, o verde. Numa aproximação muito grosseira, ele
verificou que a dinâmica do método de Newton realmente dividia

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o plano em três cunhas. Emgeral, os pontos próximos de determi-
nada solução levavam rapidamente àquela solução. Mas a explora-
ção sistemática pelo computador mostrou uma complicada orga-
nização subjacente que nunca poderia ter sido vista pelos matemá-
ticos antigos, capazes de calcular apenas um ponto aqui e outrb ali.
Embora algumas suposições iniciais convergissem rapidamente para
uma raiz, outras oscilavam em torno de uma delas, aparentemente
de maneira aleatória, até convergir, por fim, para uma solução. Por
vezes, parecia que um ponto podia cair num ciclo que se repetiria
para sempre - um ciclo periódico-, sem jamais chegara uma das
três-soluções.
, Quando Hubbard levava seu computador a explorar o espa-
ço em detalhes cada vez menores, ele e seus alunos se espantaram
· çom a imagem que começou a aparecer. Em lugar de uma clara cris-
ta entre os vales azul e vermelho, por exemplo, viu manchas de verde
enfileiradas como jóias. Era como se uma bola de gude, colhida entre
a atração conflitante dos dóis vales próximos, terminasse num ter-
ceiro vale, mais distante. Um limite entre duas cores nunca se esta-
belecia totalmente. 6 Num exame ainda mais detalhado, a linha en-
tre uma mancha verde e o vale azul exibia faixas de vermelho. E as-
sim por diante - o limite finalmente revelou a Hubbàrd uma pro-
, priedade singular, que teria parecido estranha até mesmo a alguém
familiarizado com os monstruosos fractais de Mandelbrot: nenhum
ponto servia como limite entre duas cores exatas. Sempre que duas
cores tentam juntar-se, uma terceira sempre se insere, com uma sé-
rie de novas intrusões semelhantes. Cada ponto limítrofe serve de
fronteira a uma região de cada uma das três cores, de uma maneira
quase impossível.
Hubbard inc~ou um estudo dessas formas complicadas e suas
implicações para a matemática. Seu trabalho e o de seus colegas
tornaram-se logo uma nova linha de ataque ao problema dos siste-
mas dinâmicos. Ele compreendeü que o mapeamento do método
de Newton era apenas uma de toda uma família inexplorada de ima-
gens que refletiam o comportamento de forças no mundo real. Mi-
chael Barnsley estava frente a outros membros da família. Benoit
Mandelbrot, como ambos verificaram logo, estava descobrindo os
avós de todas essas formas.

O conjunto de Mandelbrot é o objeto mais complicado7 na


matemática, como gostam de dizer os seus admiradores. Uma eter-
nidade não seria suficiente para vê-lo todo, seus discos revestidos
de.e spinhos pontudos, suas espirais e seus filamentos que se retor-
cem para fora e à volta, como moléculas bulbosas pendtiradas, nu-
ma variedade infinita, como cachos de uvas na vinha pessoal de

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LIMITES DE COMPLEXIDADE INFINITA. Quando uma t.ortaé cortada em
três pedaços, eles se encontram num único pont.o, e os limites entre quaisquer
dois pedaços são simples. Mas muit.os processos dematemáticaabstrata e fí-
sica do mundo real movimentam-se para criar limites que sãcí quáse inimagi-
navelmente complexos.
AD alto, o método de Newton aplicado à extração da raiz cúbica de -1 di-
vide o plano em três regiões idênticas, uma das quais é mostrada em branco.
'Tudos os pontos brancos são "atraidos" pela raiz que está na maior área bran-
ca; todos os pont.os negros são atraidos para uma das outras duas raizes. O li-
mite tem a propriedade peculiar de que todos os seus pont.os fazem fronteira
com todas as três regiões. E, como as inserções mostram, segment.os amplia-
dos revelam uma estrutura fractal , repetindo o padrão básico em escalas ca-
da vez menores.

Deus. Examinado em cor no visor ajustável de uma tela de compu-


tador, o conjunto de Mandelbrot parece mais fractal do que os frac-
tais, tão rica é a sua complicação através das escalas. Um catálogo
das diferentes imagens dentro dele ou uma descrição numérica do
contorno do conjunto demandariam uma infinidade de informa-
ções. Mas há nisso um paradoxo: para enviar uma descrição com-
pleta do conjunto por uma linha de transmissão são necessários ape-

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nas algumas dezenas de caracteres de código. Um programa com-
pacto de computador contém informações suficientes para repro-
duzir todo o conjunto. Os que iriam compreender primeiro a ma-
neira pela qual o conjunto mistura complexidade e simplicidade. 8
foram apanhados de surpresa - mesmo Mandelbrot. O conjunto
de Mandelbrot tornou-se uma espécie de emblema público do caos,
aparecendo em brilhantes capas dos anais de conferências e das pu-
blicações trimestrais de engenharia, formando a peça central de uma
exposição sobre a arte pelo computador, que viajou internacional-
mente em 1985 e 1986. Sua beleza era sentida com facilidade a par-
tir dessas imagens; mais difícil de perceber era o significado que ti~
nha para os matemáticos que aos poucos a entenderam.
Muitas formas fractais podem ser criadas por processos iterati-
vos no plano complexo1 mas há apenas um conjunto de Mandel-
brot. EJe começou a aparecer, vago e espectral, quando Mandelbrot
tentou encontrar uma maneira de generalizar sobre uma classe de
formas conhe.cidas como os conjuntos deJulia. Elas foram inven-
tadas e estudadas durante a Primeira Guerra Mundial pelos mate-
máticos franceses Gaston]ulia e Pierre Fatou, trabalhando sem as
imagens que um computador pode fornecer. Mandelbrot tinha visto
seus modestos desenhos e lido seu trabalho - já obscuro - quan-
do tinha 20 anos. Os conjuntos de Julia, sob vários disfarces, eram
precisamente os objetos que intrigavam Barnsley. Alguns desses con-

Uma coleção de conjunt.os de Julia.

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juntos são como círculos deformados em muitos pontos para que
adquiram uma estrutura fractal. Outros são divididos em regiões,
e outros ainda são como poeira desconexa. Mas nem palavras, nem
conceitos da geometria euclidiana servem para descrevê-los. O ma-
temático francês Adrien Douady disse: "Pode-se conseguir uma in-
crível variedade de conjuntos de Julia: uns são uma nuvem gorda,
outros uma rala moita de bambus, alguns se parecem com fagulhas
que flutuam no ar depois de apagado um fogo de artifício. Um tem
a forma de um coelho, muitos são como rabos de hipocampos."9
Em 1979 Mandelbrot descobriu 10 que podia criar uma. ima-
gem no plano complexo que serviria como um catálogo dos con-
juntos de Julia, uma guia para cada um deles e para todos. Estava
explorando a iteração dos processos complicados, equações com
raízes quadradas, senos e cosenos. Depois de construir sua vida in-
telectual em torno da proposição de que a simplicidade gera a com-
plexidade, ele não compreendeu imediatamente o quanto era ex-
traordinário o objeto que pairava pouco além do visor de suas te-
las de computadores na IBM e em Harvard. Pressionou seus pro-
gramadores para ter mais detalhes, e eles se empenharam na aloca .
ção de uma memória já carregada, a nova interpolação de pontos
num computador de estrutura principal com uma grosseira válvula
em preto e branco. Para agravar as coisas, os programadores tinham
sempre de precaver-se contra uma armadilha comum na explora-
ção pelo computador, a produção de "artefatos", aspectos que sur-
giam apenas de alguma extravagância da máquina, e desapareciam
quando o programa era escrito de maneira diferente.
Mandelbrot voltou então sua atenção para um mapeamento
simples, particularmente fácil de programar. Numa grade simples,
·com um programa que repetia o loop de realimentação apenas al-
gumas ve7.es, apareciam os primeiros contornos dos discos. Umas
poucas linhas de cálculos a lápis mostraram que os discos eram ma-
tematicamente reais, e não apenas produtos de algum capricho do
computador. À direita e esquerda dos discos principais, apareciam
indícios de mais formas. Em sua mente, disse mais tarde, ele via mais:
uma hierarquia de formas, átomos produzindo átomos menores ad
infinitum. E onde o conjunto cruzava a linha real, seus discos su-
cessivamente menores faziam escala com uma regularidade geomé-
trica qúe os especialistas em dinâmica agora reconheciam: a seqüên-
cia de bifurcações de Feigenbaum.
Isso o estimulou a levar mais adiante a computação, melhoran-
do aquelas primeiras imagens imperfeitas, e em pouco tempo ele
descobria que a sujeira se acumulava nas beiradas dos discos e tam-
bém flutuava no espaço próximo. Ao tentar cálculos cada v~z mais
minuciosos e detalhados, 11 ele sentiu de repente que sua boa sor-

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te tinha acabado. Em lugar de se tornarem mais nítidas, as imagens
tornaram-se mais confusas. Voltou-se para o centro de pesquisas da
IBM em Westchester County, para tentar a computação numa esca-
la que era impossível em Harvard. Para sua surpresa, a crescente con-
fusão era indício de alguma coisa real. Brotos e gavinhas projetavam-
se languidamente, distanciando-se da ilha principal. Mandelbrot viu
um limite aparentemente tranqüilo transformar-se numa cadeia de
espirais como o rábo de hipocampos. O Ú'racional fertilizava o ra-
cional.
O conjunto de Mandelbrot é uma coleção de pontos. Cada pon-
to no plano complexo - isto é, cada número complexo - está den-
tro do conjunto ou fora dele. Uma maneira de definir o conjunto
é fazê-lo em termos de um teste para cada ponto, envolvendo isso
uma aritmética simples, repetitiva. Para testar um ponto, toma-se
o número complexo; eleva-se ao quadrado; acrescenta-se o núme-
ro original; eleva-se o resultado ao quadrado; acrescenta-se o nú-
mero original; eleva-se o resultado ao quadrado- e assim por diante.
Se o total projetar-se para o infinito, então o ponto não está no con-
junto de Mandelbrot. Se o total permanecer finito (pode ser fixado
num loop repetitivo, ou pode vagar caoticamente), então o ponto
está dentro do conjunto.
Essa técnica de repetir um processo indefinidamente e indà-
gar se o resultado é infinito assemelha-se aos processos de retroali-
mentação no mundo cotidiano. Imaginemos que estamos montando
um microfone, um ·amplificador e alto-falantes num ãuditório.
Preocupa-nos o guinchO daretroalimentação do som, ou microfo-
nia. Se o microfone capta um ruído alto o suficiente, o som amplifi-
cado dos alto-falantes volta ao microfone, num loop interminável,
cada vez mais alto. Por outro lado, se o som for reduzido o bastan-
te, simplesmente desaparecerá sem nenhum efeito. Para fazer um
modelo numérico desse processo de retroalimentação, poderíamos
tomar um número de partida, multiplicá-lo por si mesmo, multiplicar
o resultado por si mesmo, e assim por diante. Descobriríamos que
osnúmerosgrandeslevamrapidamenteaoinfinito: 10, 100, 10.000 ...
Os números pequenos, porém, levam a zero: 1/2 ,1/4, 1/16 ... Para fa-
zer uma imagem geométrica, definimos um conjunto de todos os
pontos que, quando alimentados nessa equação, não se projetam
no infinito. Examinemos os pontos de uma linha, de zero para ci-
ma. Se um ponto produz um guincho de retroalimerttação, vamos
marcá-lo de branco. Se não, de preto. Em pouco tempo teremos uma
forma que consiste numa linha negra de O a 1.
Nurri processo unidimensional não há necessidade de recor-
rer realmente a uma tentativa experimental. É bastante fácil estabe-
lecer que números maiores de 1 levam ao infinito, e os outros não.

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.

~-._, .. - · - ·- - · ~·-<

SURGE O CONJUNTO DE MANDELBRO'Í'. Nas primeiras e grosseiras saí-


das impressas de Benoit Mandelbrot aparecia uma estrutura imperfeita, ga-
nhando detalhes à medida que melhorava a qualidade da computação. Seriam
as "moléculas" flutuantes , semelhantes a besouros, ilha.S isoladas? Ou esta-
riam presas ao corpo principal por filamentos demasiado finos para serem ob-
servados? Era impossível dizer.

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Mas nas duas dimensões do plari.o complexo,.para deduzir uma for-
ma definida por um processo de iteração, geralmente não basta co-
nhecer a equação, Ao contrário das formas tradidonais da geome-
tria - círculos, elipses e parábolas -, o conjunto de Mandelbrot não
tem atalhos. A única maneira de ver que tipo de forma se ajusta a
determinada equação é por tentativa e erro, e esse estilo levou os
exploradores desse novo terreno mais para perto, em espírito, de
Magalhães do que de Euclides.
A união do mundo das formas com o mundo dos números, des-
sa maneira, representou um rompimento com o passado. As novas
geometrias começam sempre que alguém modifica uma regra fim~
<lamentai. Suponhamos que o espaço possa ser curvo, e não pla-
no, diz um geômetra, e o resultado é uma paródia estranhamente
curva de Euclides, que proporciona a estrutura adequada à teoria
geral da relatividade. Suponhamos que o espaço possa ter quatro
dimensões, ou cinco, ou seis. Suponhamos que o número que ex-
pressa dimensão possa ser uma fração. Suponhamos que as formas
possam ser torcidas, espichadas, enroladas. Ou, agora, suponhamos
que as formas são definidas, não resolvendo-se uma equação uma
vez, mas repetindo-a num loop retroalimentador.
Julia, Fatou, Hubbard, Batnsley, Mandelbrot - esses matemá-
ticos modificaram as regras sobre a maneira de fazer formas geo-
métricas. Os métodos euclidiano e cartesiano de tranS'formar equa-
ções em curvas são conhecidos de todos os que estudaram geome-
tria na escola secundária, ou encontraram um ponto num mapa,
usando duas coordenadas. A geometria padrão toma uma equação
e pede o conjunto de números que a satisfazem. As soluções para
uma equação como Xl +y 2 = 1, portanto, resultam numa forma, no
caso um círculo. Outras equações simples produzem outras ima-
gens, as elipses, parábolas e hipérboles das secções cônicas, ou mes-
mo as formas mais complicadas produzidas por equações diferen-
ciais no espaço de fase. Mas, quando um geômetra repete uma equa-
ção em lugar de resolvê-la, a equação se torna um processo em lu-
gar de uma descrição, dinâmica em lugar de estática. Quando um
número entra na equação, um novo número sai; o novo número en-
tra, e assim por diante, saltando de casa para casa. Um ponto é plo-
tado não quando satisfaz a equação, mas quando produz certo ti-
po de comportamento. Um comportamento pode ser um regime
constante. Outro pode ser uma convergência para uma repetição
periódica de regimes. Outro pode ser uma corrida descontrolada
para o infinito.
Antes dos computadores, nem mesmo Julia e Fatou, que com-
preenderam as possibilidades desse novo tipo de produção de for-
mas, dispunham dos meios para fazer dele uma ciência. Com os com-

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putadores, a geometria da tentativa e erro tornou-se possível. Hub-
bard explorou o método de Newton calculando o comportamen-
to de ponto após ponto, e Mandelbrot viu seu conjunto, pela pri-
meira vez, dessa mesma maneira, usando um computador para \'ar-
rer os pontos do plano, um após outro. Nem todos os pontos, é cla-
ro. Como o tempo e os computadores são finitos, tais cálculos usam
uma grade de pontos. Uma grade mais fina dá uma imagem mais ní-
tida, às expensas de uma computação mais longa. Para o conjunto
de Mandelbrot, o cálculo foi simples, porque o processo era, em
si mesmo, muito simples: a iteração no plano complexo do mapea-
mento z-.z 2 +e. Tome-se um número, multiplique-se esse núme-
ro por ele mesmo, e acrescente-se o número original.
À medida que Hubbard familiarizou-se com esse novo estilo
de exploração de formas pelo computador, também passou a usar
um estilo matemático inovador, aplicando os métodos da análise
complexa, área da matemática que não tinha sido aplicada antes aos
sistemas dinâmicos. Tudo se juntava, na opinião dele. As discipli-
nas separadas dentro da matemática convergiam para uma encru-
zilhada. Sabia que não bastava i•er o conjunto de Mandelbrot ; an-
tes de acabar, queria compreendê-lo e, na verdade, finalmente de-
clarou que o compreendia.
Se o limite fosse meramente fractal, no sentido dos monstros
de Mandelbrot na passagem do século, então uma imagem se pare-
ceria mais ou menos com a última. O princípio de auto-semelhança
em diferentes escalas possibilitaria a previsão daquilo que o micros-
cópio eletrônico veria no nível seguinte de ampliação. Em lugar dis-
so, cada incursão mais profunda no conjunto de Mandelbrot trazia
novas surpresas. Mandelbrot começou preocupando-se 12 por ter
feito unia definição demasiado restritiva de fractal; ele certamen-
te desejava que a palavra se aplicasse a esse novo objeto. O conjun-
to mostrou que quando suficientemente ampliado, continha cópias
aproximadas de si mesmo, pequenos objetos semelhantes a inse-
tos flutuando a partir do corpo principal, mas uma ampliação ain-
da maior mostrava que nenhuma dessas moléculas era exatamente
igual à outra. Havia sempre novos tipos de cavalos marinhos, no-
vas plantas de estufa que se retorciam. De fato, nenhuma parte do
conjunto assemelha-se exatamente a qualquer outra parte, em ne-
nhuma ampliação.
A descoberta das moléculas flutuantes suscitou um problema
imediato, porém. Teria o conjunto de Mandelbrot uma ligação, um
continente com penínsulas que se projetavam? Ou era uma poeira,
um corpo principal cercado por pequenas ilhas? Estava longe de
ser óbvio. Nenhuma orientação era proporcionada pelos coniun-
tos de Julia, porque eles vinham nas duas formas, alguns eram for-

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mas completas, outros, poeira. As poeiras, sendo fractais, têm a pro-
priedade singular de não haver duas peças "juni:as" 13 - porque to-
da peça está separada das outras por uma região de espaço vazio-,
porém nenhuma dessas peças está "sozinha'." já que sempre que en-
contramos uma, podemos encontrar um grupo de peças arbitraria-
mente próximas. Quando examinou suas imagens, Mandelbrot com-
preendeu que a experimentação com o computador não estava dan-
do uma resposta à sua questão fundamental. Focalizou mais deta-
lhadamente as manchas que pairavam em torno do corpo princi-
pal. Algumas desapareceram, mas outras cresceram, transformando-
se em quase réplicas. Mas estavam, possivelmente, ligadas por linhas
tão finas que continuavam a escapar do rendilhado dos pontos
computados.
Douady e Hubbard usaram uma brilhante matemática nova pa-
ra provar que cada molécula flutuante está pendurada numa filigrana
que a liga a todo o resto, uma delicada teia formada por pequenas
projeções do corpo principal, um ''polímero do diabo'', na expres-
são de Mapdelbrot. Os matemáticos provaram que qualquer seg-
mento - não importava onde, e por menor que fosse-, se amplia-
do pelo microscópio computa dor, revelava novas moléculas, todas
semelhantes ao corpo principal, porém sem ser exatamente igual.
Toda nova molécula estava cercada pelas suas próprias espirais e pro-
jeções semelhantes a chamas, e estas, inevitavelmente, revelavam
moléculas ainda menores, sempre semelhantes, nunca idênticas,
executando uma mandado de variedade infinita, um milagre de mi-
niaturização no qual todo detalhe novo era, seguramente, um uni-
verso em si mesmo, diverso e completo.

" Era tudo uma abordagem muito geométrica, em linhas re-


tas", 14 disse Heinz-Otto Peitgen. Falava da arte moderna. "O traba-
lho de Josef Albers, por exemplo, tentando descobrir a relação das
cores, era, essencialmente, apenas quadrados de diferentes cores
dispostos uns sobre os outros. Essas coisas eram muito populares.
Se as vemos agora, parecem ter passado. As pessoas não gostam mais
.disso. Na Alemanha, construíram enormes. blocos de apartamen-
tos no estilo Bauhaus e as pessoas se mudam, não gostam de morar
ali. Há na sociedade, neste momento, razões muito profundas, ao
que me parece, para não gostar de alguns aspectos de nossa concep-
ção da natureza." Peitgen tinha ajudado um visitante a selecionar
ampliações de regiões do conjunto de Mandelbrot, dos conjuntos
de Julia, e outros complexos processos iterativos, todos muito co-
loridos. Em sua pequena sala da Califórnia, ele oferecia slides, trans-
parências grandes, até mesmo um calendário com um conjunto de
Mandelbrot. "O profundo entusiasmo que temos está relacionado

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com essa perspectiva diferente de ver a natureza. Qual o verdadei
ro aspecto do objeto natural? A árvore, digamos - o que é impor
tante? É a linha reta, ou o objeto fractal? " Enquanto isso, em Cor-
nell, is John Hubbard estava às voltas com as demandas do comér-
cio. Centenas de cartas chegavam ao departamento de matemáti-
ca, pedindo fotos do conjunto de Mandelbrot, e ele percebeu que
tinha de criar amostras e listas de preço. Dezenas de imagens já es-
tavam calculadas e armazenadas em seus computadores. prontas para
exibição imediata, com a ajuda de alunos que se lembravam dos de-
talhes técnicos. As imagens mais espetaculares, porém, com a re-
solução mais detalhada e cor mais viva, estavam sendo produzidas
por dois alemães, Peitgen e Peter H. Richter, e sua equipe de cien-
tistas na Universidade de Bremen, com o patrocínio entusiasta de
um banco local.
Peitgen e Richter, um deles matemático e o outro, físico, dedi-
caram suas carreiras ao conjunto de Mandelbrot. Para eles, o con-
junto encerrava um universo de idéias: unia moderna filosofia da
arte, uma justificação do novo papel da experimentação na mate-
mática, uma maneira de levar os sistemas complexos ao grande pú-
blico. Publicaram luxuosos catálogos e livros, e viajaram por todo
o mundo com uma exposição de suas imagens de computador. Rich-
ter chegou aos sistemas complexos 16 a partir da física, através da
química e posteriormente da bioquímica, estudando oscilações em
processos biológicos. Numa série de trabalhos sobre fenômenos
como o sistema imune e a conversão do açúcar em energia pela fer-
mentação, ele constatou que as oscilações governavam, com fre-
qüência, a dinâmica de processos habitualmente vistos como está-
ticos, pela boa razão de que os sistemas vivos não podem ser facil-
mente abertos para exame, no tempo real. Richter mantinha preso
à sua janela um bem lubrificado pêndulo duplo, seu "sistema dinâ-
mico de estimação", feito especialmente para ele pela oficina de sua
universidade. De tempos em tempos fazia-o girar em movimentos
caóticos não-ritmados, que podia reproduzir no computador tam-
bém. A dependência das condições iniciais era tão sensível que o
impulso gravitacional de um simples pingo de chuva a mais de um
quilômetro de distância perturbava o movimento por 50 ou 60 re-
voluções, cerca de dois minutos. Suas imagens gráficas coloridas
do espaço de fase desse pêndulo duplo mostravam as regiões em
que periodicidade e caos se misturavam, e ele usou as mesmas téc-
nicas gráficas para mostrar, por exemplo, regiões idealizadas de am-
pliação num metal e também explorar o conjunto de Mandelbrot.
Ao seu colega Peitgen, o estudo da complexidade ofereceu uma
oportunidade de criar novas tradições na ciência, em lugar de ape-
nas resolver problemas. "Numa área completamente nova como es-

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ta, podemos começar a pensar hoje é se fmmos bons cientistas po-
demos conseguir soluções interessantes dentro de poucos dias, de
· uma semana ou de um mês", disse Peitgen.17 O assunto ainda não
está estruturado.
"Numassuntb estruturado, sabe-se o q~e é sabido, o que é des-
conhecido, o que já foi tentado e não leva a nada. Nele, temos de
trabalhar num problemà que se sabe que é um problema, sem o que
estamos perdidos. Mas um problema que se sabe que é um proble-
ma deve ser difícil, pois se não fosse já teria sido resolvido."
Peitgen não partilhava da resistência dos lllatemáticos ao uso
de computadores para realizar experimentos. É certo que todo re-
sultado acabaria tendo de ser transformado em algo rigoroso pe-
los métodos padrões de prova, ou não seria matemático. Ver uma
imágem numa tela gráfica não é garantia de sua existência na lingua-
gem de teorema e prova. Mas a própria disponibilidade dessa ima-
gem era suficiente para modificar a evolução da matemática. A in-
vestigação pelo computador estava .dando aos matemáticos a liber-
dade de tomar um caminho mais natural, pensava Peitgen. Por en-
quanto, o matemático podia suspender a exigência da prova rigo-
rosa. Podi4 ir aonde quer que os experimentos o levassem, tal co- ·
mo o físico. O poder numérico da computação e as indicações vi-
suais para a intuição indicavam caminhos promissores e poupavam
o matemático dos becos sem saídas. E então, depois de encontra-
dos os novos caminhos e isolados os novos objetos, o matemático
podia voltar às provas padrões. "O rigor é a força da matemática",
disse Peitgen. 18 ''A possibilidade de continuar numa linha de pen-
samento absolutamente garantida é algo de que os matemáticos não
querem abrir mão, nunca. Mas podemos examinar situações que
podem ser entendidas agora parcialmente e talvez com rigor nas
gerações futuras. Rigor, sim,·não ao ponto de deixar alguma coisa
de lado apenas porque não posso fazê-la agora."
Na década de 80 um computador doméstico podia operar uma
aritmética precisa o bastante para criar imagens coloridas do con-
junto, e logo os que se divertiam com eles descobriram que explo-
rar essas imagens em ampliações cada vez maiores proporcionava
uma sensação intensa de aumento de escala. Se imaginássemos o
objeto como sendo do tamanho de um planeta, um computador
particular podia mostrar todo el~, ou então o tamanho das cidades,
ou o tamanho dos edifícios, ·ou o tamanho das salas, ou o tamanho
dos livros, ou o tamanho das letras, ou o tamanho das bactérias, ou
o tamanho dos átomos. Aqueles que olhavam tais imagens viam que
todas as escalas tinham padrões semelhantes, porém eram diferen-
tes. E todas essas paisagens microscópicas eram geradas pelas mes-
mas poucas linhas de c6di$0 de computador.*

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É no limite que 6 programa do conjunto de Mandélbrot gasta
a maior parte de seu tempo e faz todas as suas concessões. Ali, quan-
do 100 ou 1.000 ou 10.000 repetições não provocam um rompimen-
to, o programa ainda não pode estar absolutamente certo de que o
ponto está dentro da fase. Quem sabe o que trará a milionésima re-
petição? Assim, os programas que fizeram as imagens mais notáveis,
de ampliação mais profunda, do conjunto, foram operados em com-
putadores de estrutura principal, ou computadores dedicados ao
processamento paralelo, com milhares de cérebros individuais rea-
lizando a mesma aritmética em lock step. O limite ocorre onde os
pontos são mais lentos em escapar à atração _do conjunto. É como
se estivessem equilibrados entre atratores concorrentes, um em zero
e o outro, com efeito, envolvendo o conjunto a uma distância de
infinito.
Qtiando os cientistas passaram do conjunto de Manclelbrot para
novos problemas de representar os fenômenos físicos reais, as ca-
racterísticas do limite do conjunto se evidenciaram. O limite entre
dois ou mais atratores num sistema dinâmico servia como um limiar
de um tipo que parece governar muitos processos comuns, desde
a_decomposição de materiais até a tomada de decisões. Cada atra-
tor nesse sistema tem sua bacia, como um rio tem a sua, que leva
-a ele. Cada bacia tem um limite. Para um influente grupo, em prin-
cípios dá década de 80, o estudo dos limites das bacias fractais pa-
recia constituir um novo campo da matemática e da física, extre-
mamenté promissor.19

~ * O programa de um conjunto de Mandel])rot exige apenas uma8 poucas pe- .


~ ças essenciais. O motor principal é umloop de instruções que tDma seus nú-
meros complexo inicial e lhe aplica a regra aritmética. Parao conjunto de Man-
delbrot, a regra é a seguinte: z-+r +e, -onde z começa em zero e e é o número
complexo correspondente ao ponto que está sendo testado. Assim, toma-se O,
multiplica-se por ele mesmo e soma-se o número inicial; toma-se o resultado
- o número :inicial·- , mllltiplica-se por ele mesmo e soma-se o número inicial;
toma-se o novo resultado, multiplica-se por ele mesmo e li!Oma-seonúmeroini-
cial. A aritmética dos números complexos é simples. Um número complexo
é escrito oomduas partes: por exemplo, 2+3i (oend01'QO~ pontDem2 leste
e 3 norte no pano complexo). Para somar um parde números COo;iPlma;>s. ~­
ta somar as partes reais para ter uma nova parte real, e as partes imaginárias
para ter uma nova parte imaginária:

2 + 4i
+ 9 - 2i.
11 + 2i

Para multiplicar dois números complexos, multiplica-se cada parte de um nú-


mero pelas partes do outro e eomani-seos quatro resultados. Comoi multipli-

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Esse ramo da dinâmica ocupava-se, não da descrição do com-
portamento final, estável, de um sistema, mas da maneira pela qual
o sistema escolhe entre opções concorrentes. Um sistema como o
modelo, hoje clássico, de Lorenz tem apenas um atratoi; um coni7
portamento que predomina quando o sistema se estabiliza, e é um
atrator caótico. Outros sistemas podem terminar com comporta-
mento de regime estacionário não-caótico- mas com mais de um
regime estacionário possível. O estudo dos limites das bacias frac-
tais era o estudo de sistemas que podiam chegar a um de vários re-
gimes finais não-caóticos, suscitando a questão de como prever qual.
James Yorke, que foi pioneiro da investigação dos limites .das bacias
fractais uma década depois de dar ao caos o seu nome, propôs-uma
máquina fliperama imaginária. 2°Como a maioria dessas máquinas,
tem um êmbolo com uma mola. Puxa-se o êmbo.lo e impulsiona-se
uma bola até a área de jogo. A máquina tem o sistema habitual de
beiradas de borracha e impulsionadores elétricos que dão ã bola

cado por si mesmo é igual a -1, pela definição original dos números imaginá-
rios, um termo do resultado se transforma em outro.

2 + 3i
X 2 + 31
6i +. 9í 3
4 + 6i
4 + 12i + 9í3
= 4 + 12i - 9
= -5 + 12i

Para fugir desseloop, o programa precisa observar o total. Se ele partir


para o infinito, afastando-se cada vez mais do centro do plano, o ponto origi-
nal nAo pertence ao conjunto, e se o total for maior do que 2 ou inferior a -2,
seja na parte real ou imaginária, estará certamente rumando para o infinito
- o programa pode continuar. Mas se o programa repete o cálculo muitas ve-
zes sem tornar-se superior a 2, então o ponto é parte do conjunto. O número
de vezes depende do volume de ampliaQão. Para as escalas acessíveis a um com-
putador particular, 100 ou 200 é, com freqüência, bastante, e 1.000 é seguro.
O programa tem de repetir esse processo para cada um·de milhares dé
pontos numa grade, com uma escala que pode ser ajustada para maior amplia-
ção. E o programa tem de mostrar seu resultado. Os pontos no conjunto podem
ser coloridos de preto, outros pontos de branco. Ou, para uma imagem mais
viva, os pontos brancos podem ser substituídos por gradações de cores. Se a
iteração se interrompe depois de 10 repetições, por exempló, o programa po-
de plotar um ponto vermelho; para 20 repetições, um ponto laranja; 40 repeti-
ções, um ponto amarelo, e assim por diante. A escolha de cores e dos pontos
de corte pode ser ajustada ao gosto do programador. As cores revelam os con-
tornos do terreno imediatamente fora do conjunto propriamente dito.

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golpes de energia extra. O golpe é importante: significa que a ener-
gia não se limita a diminuir su_avemente. Para simplificar, essa má-
quina não tem obstáculos no fundo, mas apenas duas rampas de saí-
da. A bola tem de sair por uma delas.
Essa é a fliperama determinista - não se sacode a máql.1ina.
Só um paclmetro controla o destino da bola, e é a posição inicial
do êmbolo. Imaginemos que a máquina está feita de tal modo que
puxando-se um pouco o êmbolo a bola terminará sempre na rampa
do lado direito, ao passo que puxando-se muito ela sempre acaba-
rá na rampa da esquerda. Nas posições intermediárias, o compor-
tamento se torna complexo, com a bola batendo nas margens, de
um lado para outro, da maneira agitada, barulhenta e variada de sem-
pre antes de finalmente escolher uma ou oútra saída.
Imaginemos agora fazer-se um gráfico do resultado de todas
as posições iniciais possíveis do êmbolo. O gráfico é apenas uma
linha. Se uma posição levar a uma saída pela direita, marque-se um
ponto vermelho, marcando-se um ponto verde para a esquerda. O
que esperamos descobrir sobre esses atratores como função da po- .
sição inicial?
O limite revela-se um conjunro fractal, não necessariamente
auto-semelhante, mas infinitamente detalhado. Algumasregiões da
linha serão exclusivamente vermelhas ou verdes, enquanto outras,
quando aumentadas, mostrarão novas regiões de vermelho dentro
do verde, ou do verde dentro do vermelho. Ou seja, para algumas
posições do êmbolo, uma pequena mudança não faz diferença. Para
outras, porém, até mesmo uma mudança arbitrariamente pequena
representa a diferença entre vermelho e verde. .
O acréscimo de uma segunda dimensão significa o acréscimo
de um segundo parâmetro, um segundo grau de liberdade. Com a
máquina tl.iperama, por exemplo, poderíamos considerar o efeito
de mudar a inclinação. Descobriríamos uma espécie de complexi-
dade intermitente que daria pesadelos aos engenheiros responsá-
veis pelo controle da estabilidade de sistemas reais energéticos, sen-
síveis; com mais _d e um parâmetro - grades de energia elétrica, por
exemplo, e usinas geradoras nucleares, que se tornaram alvo de pes-
quisas inspiradas pelo caos, na década de·80. Para um valor dopa-
râmetro A, o parâmetro B poderia apresentar um tipo de compor-
tamentO ordenado, tranqüilizador, com regiões coerentes de esta-
bilidade. Os engenheiros poderiam fazer estudos e gráficos exata-
mente do tipo que seu treinamento linear sugere. Não obstante, pai ·
rando nas proximidades poderia estar outro valor do parâmetro A
que transforma a importância do parâmetro B.
Yorke levantava-se ·ru1s conferências para mostrar imagens de
limites das bacias. fractais. Algumas dessas imagens representavam

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LIMITES DA BACIA FRACTAL. Mesmo quando o comportamento alongo pra-
zo de um sistema dinâmico não é caótico, o caos pode surgir no limite entre
um tipo de coi:nportamento estável e outro. Com freqüência, o sistema dinâ-
mico tem mais de um estado de equilíbrio, como o pêndulo que pode parar em
qualquer um de dois imãs colocados em sua base. Cada equilíbrio é um atra-
tor, e o limite entre dois atratores pode ser complicado mas suave (esquerda).
Ou o llnllte pode ser complicado mas não suave. O erttre1a.çamento altamente
fractal de branco e preto (direita) é um diagrama de espaço de fase de um pên-
dulo. O sistema certamente chegará a um de dois regimes estacionáno1:1 pu1:1-
síveis. Para determinadas con~ções iniciais, o resultado é perfeitamente pre-
visível-preto é preto e branco é branco. Mas perto do limite, a previsão torna·
se impossível.

o comportamento de pêndulos forçados que podiam p;uar num de


dois estados finais - sendo o pêndulo forçado, como seu público
sabia muito bem, um oscilador fundamental com muitos disfarces
na vida cotidiana. "Ninguém pode dizer que viciei o sistema esco-
lhendo um pêndulo'', dizia Yorke jovialmente. "É'o tipo de coisa que
se vê por toda a natureza . Mas o comportamento é diferente de qual-
quer coisa que se vê na bibliografia. É comportamento fractal de
um tipo descontrolado." 21As imagens eram fantásticas espirais de
branco e preto, como se um misturador de cozinha tivesse falhado
algumas vezes, ao misturar de m an e ira incompleta baunilha e cho-
colate. Para fazer tais imagens, seu computador tinha percorrido uma
grade de pontos de 1.000 por 1.000, cada qu.al representando uma
posição diferente do pêndulo, e tinha registrado o resultado : preto
ou branco. Eram bacias de atração, misturadas edobradas pelas co-
nhecidas equações do movimento newtoniano, e o resultado era
mais limite do que qualquer outra coisa. Em geral, mais de três quar-
tos dos pontos marcados estavam na área limítrofe.22
Para os pesquisadores e engenheiros havia uma lição nessas
imagens - uma lição e uma advertência . Com demasiada freqüên-
cia, a gama potencial de comportamento dos sistemas complexos

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tinha de ser suposta a partir de um pequeno grupo de dad03. Quando
o sistema funcionava normalmente, permanec;endo numa limitada
gama de parâmetros, os engenheiros faziam suas observações e es-
peravam que pudessem extrapolá-las mais ou menos linearmente
para o comportamento menos usual. Mas os cientistas que estuda-
vam os limites das bacias fractais mostraram que a fronteira entre
calma e catístrofe 2 3 podia ser muito mais complexa do que se tinha
pensado. "Toda a grade de energia elétrica da Costa Leste é um sis-
tema oscilatório, estável a maior parte do tempo, e gostaríamos de
saber o que acontece quando o perturbamos", disse Yorke. "Preci-
samos saber qual é o limite. O fato é que eles não têm idéia de qual
seja esse limite."
Os limites das bacias fractais suscitavam questões profundas
na fisica teórica. As transições de fase estavam situadas em limiares,
e Peitgen e Richter examinaram um dos tipos mais estudados das
transições de fase, a magnetização e não-magnetização de materiais.
Suas imagens desses limites mostravam a complexidade singular-
mente bela, que estava .começando a parecer muito natural, for-
mas que lembravam couves-flores, com protuberâncias e sulcos pro-
gressivamente mais emaranhados. Ao variarem os parâmetros e ao
aumentarem a ampliação dos detalhes, a imagem parecia cada vez
mais aleatória, até que de súbito, inesperadamente, no fundo dó nú-
cleo de uma região desconcertante, aparecia uma forma familiar,
achatada nos pólos: o conjunto de Mandelbrot, com todas as gavi-
nhas e átomos. Era outro indício da universalidade. "Talvez devês-
semos acreditar em mágica'', escreveram eles. 24

Michael Barnsiey seguiu um caminho diferente. Estudou as ima-


gens da própria natureza, em especial os padrões gerados por or-
.ganismos vivos. Fez experimentos com os conjuntos deJulia e ten-
tou outros processos, sempre procurando modos de gerar uma va-
riabilidade ainda maior. Por fim, recorreu à aleatoriedade como base
de uma nova técnica de criar modelos de formas naturais. Quando
escreveu sobre sua técnica, 2 s chamou-a de "construção global de
fractais por meio de sistemas de funções iteradas". Ao falar sobre
ela, porém, chamava-a de "jogo do caos".
Para ftzer rapidamente o jogo do caos, precisamos de um com-
putador com uma tela de gráficos e um gerador de número aleató-
rio, mas em princípio uma folha de papel e uma moeda funcionam
igualmente bem. Escolhemos um ponto de partida em algum lugar
do papel, não importa onde. Inventamos duas regras, uma cara e
a outra, coroa. Uma regra nos diz como levar um ponto para o ou-
tro: "Mexa-se cinco centímetros para nordeste", ou "Mexa-se 25%
mais para perto do centro". Em seguida, começamos a jogar a moeda

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para o alto e a marcar pontos, usando a regra para cara quando a moe-
da der cara, e a regra de coroa quando der coroa. Se abandonarmos
os primeiros 50 pontos, como o carteador do "21" que põe de la-
do as primeiras cartas numa nova mão, veremos que o jogo do caos
produz não um campo aleatório de pont~, mas uma forma, que
se torna cada vez mais nítida à medida que o jogo prossegue.
A principal descoberta de Barnsley foi qtie os conjuntos de Julia
e outras formas fractais, embora adequadamente vistas como ore-
sultado de um processo determinista, tinham uma segunda existên-
cia, igualmente válida, como o limite de um processo aleatório. Por
analogia, ele sugeriu que imaginássemos um mapa da Grã-Bretanha
desenhado com giz no chão de uma sala. Um agrimensor, com ins-
trumentos comuns, acharia complicado medir a área dessas formas
estranhas, com litorais fractais, afinal de contas. Mas suponhamos
que atiremos grãos de arroz ao ar, um a um, deixando que caiam
aleatoriamente ao chão e contando os que caem dentro do mapa.
Com o tempo, o resultado começa a aproximar-se dà área das for-
mas - como o limite de um processo aleatório. Em termos dinâ-
micos, as formas de Barnsley eram os atratores.
O jogo do caos utilizava a característica fractal de certas ima-
gens, a característica de serem .constituídas de pequenas cópias da
-imagem principal. O ato de anotar uma série de regras a serem re-
petidas aleatoriamente captava certas informações globais sobre uma ·
forma, e a iteração das regras regurgitava as informações sem preo-
cupação com a escala. Quanto mais fractal uma forma, nesse senti-
do, mais simples seriam as regras adequadas. Barnsley descobriu
logo que podia gerar todos os fractais do livro de Mandelbrot, hoje
clássicos. A técnica de Mandelbrot tinha sido uma sucessão infini-
ta de construção e aperfeiçoamento. Para o floco de neve de Koch
ou a gaxeta de Sierpitíski, retiravam-se segmentos de linha,
·substituindo-os por figuras específicas. Usando em lugar disso o jogo
do caos, Barnsley fez imagens que começavam como paródias con-
fusas e tornavam-se progressivamente mais nítidas. Nenhum pro-
cesso de aperfeiçoamento era necessário: apenas uma série de re-
gras que, de alguma forma, encerravam a forma final.
Barnsley e seus colaboradores iniciaram então um programa
descontrolado de produzir imagens, repolhes, moldes e lodo. A
questão principal era como inverter o processo: dada determina-
da forma, como escolher uma série de regras? A resposta; que ele
chamou de "teorema da colagem", era tão simples que os ouvintes
por vezes achavam que havia algum truque. Começa-se traçando
a forma que desejamos reproduzir. Barnsley escolheu um asplênio
preto, um tipo de feto, para um de seus primeiros experimentos, pois
há muito era admirador dessa planta. Usando um terminal de com-

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. .• "· :. ..
·. . . : ....
·'
. • .. .
..

. . .
. ..
• .
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. . :". := .
.. . .... .

. . .· . .
. : . ..
......: -: .:··
!· .. .

O JOGO DO CAOS. Cada ponto novo cai aleatoriamente, mas aos poucos a ima-
gem de um feto vai aparecendo. 'Ibdas as informações necessárias estão codi-
ficadas nUillaEI poucas regras simples.

putador e um mouse como apontador, colocavam-se pequenas có-


pias sobre a forma original, deixando que se sobrepusessem des-
cuidadamente, se necessário. Uma forma altamente fractal podia ser
facilm<:;nte obtida com cópias de si mesma, uma forma menos frac-
tal com menos facilidade,' e com certo nível de aproximação todas
as formas podiam ser obtidas.
· "Se a imagem é complicada, as regras serão complicadas", disse
Barnsley. 26 "Por outro lado, se o objeto tem uma ordem fractal
oculta - e Benoit fez a observação fundamental de que grande parte
da natureza tem essa ordem oculta - , então será possível, com umas
poucas regras, decodificá-lo. O modelo, portanto, é mais interessante
do que um modelo feito com a geometria euclidiana, porque sabe-

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mos que, quando se olha a borda de uma folha, não se vêem linhas
retas." Seu primeiro feto, produzido com um pequeno computador
de mesa, correspondia perfeitamente à imagem do livro de fetos que
tinha desde criança. "Era uma imagem espantosa, correta sob to-
dos os aspectos. Nenhum biólogo teria problema em identifid-la."
De cerra forma, afirmou Barnsley, a natureza deve estar jogan-
do a sua versão própria do jogo do caos. "Há apenas certo volume
de informações no esporo que codifica um feto", disse ele. "Portan-
to, há um limite de perfeição com que o feto pode crescer. Não é de
surpreender que possamos encontrar informações sucintas equiva-
lentes para descrever os fetos. O inverso é que seria surpreendente."
Mas era o acaso necessário? Também Hubbard refletiu sobre
os paralelos entre o conjunto de Mandelbrot e a codificação bioló-
gica das informações, mas ele rejeitava qualquer insinuação de que
tais processos dependessem da probabilidade. "Não há aleatorie-.
dade no conjunto de Mandelbrot", disse Hubbard. 27 "Não há alea-
toriedade em nada do que faço. Também não acho que a possibili-
dade de aleatoriedade tenha qualquer relevância direta para a bio-
logia . Na biologia, a aleatoriedade é morte, o caos é morte. Tudo é
muito estruturado. Quando se faz a colagem de plantas, a ordem em .
que os ramos saem é exatamente a mesma. O conjunto de Mandel-
brot obedece a um esquema extraordinariamente preciso, nada dei-
xando ao acaso. Desconfio muito que, no dia em que alguém des-
cobrir como o cérebro é organizado, eles descobrirão, para seu es-
panto, que há um esquema de codificação para consti:uir o cérebro,
que é de uma precisão extraordinária. A idéia da aleatoriedade em
biologia é apenas um reflexo."
Na técnica de Barnsley, porém, o acaso serve apenas como uma
ferramenta. Os resultados são deterministas e previsíveis. À medi-
da que os pontos surgem na tela do computador, ninguém conse-
gue saber onde o próximo ponto aparecerá: isso depende do flip
da moeda interna da máquina. Não obstante, de alguma forma o flu-
xo de luz permanece sempre dentro dos limites necessários à cria- .
ção de uma forma fosforescente. Sob esse aspecto, o papel do acaso
é uma iiusão. ''A aleatoriedade é uma pista falsa", disse Barnsley. 28
"Ela é importante para a obtenção de imagens de certa medida in- .
variável que vive no objeto fractal. Mas o objeto em si não depen-
de da aleatoriedade. Com a probabilidade um, conseguimos sem-
pre a mesma imagem.
" É dar informação profunda, sondar os objetos fractais com
um algoritmo aleatório. Tal como, ao entrarmos numa nova sala, nos-
sos olhos dançam à volta dela numa ordem que poderíamos tam-
bém considerar aleatória, e temos umiboa idéia da sala. A sala é ape-

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nas o que ela é. O objeto existe independentemente do que eu es--
teja fazendo."
Da mesma maneira, o conjunto de Mandelbrot existe. Existia
antes de Peitgen e Richter começarem a fazer dele uma forma artís-
tica, antes que Hubbard e Douady compreendessem sua essência
matemática, antes mesmo que Mandelbrot o descobrisse. Existia
desde que a ciência criou um contexto- uma estrutura de núme-
ros complexos e uma noção das funções iterativas. Depois, ficou
esperando para ser descoberto. Ou talvez existisse antes mesmo, tão
logo a natureza começou a organizarcse por meio de leis físicas sim-
ples, repetidas com infinita paciência e iguais por toda parte.

Notas
1 - Barnsley.
2 - Barnsley.
3 - Hubbard; também Adrien Douady, "Julia Sets and the Mandelbro~ Set'', pp.
161-73 . O texto principal de The Beauty of Fractais também fornece um re-
sumo matemático do método do Newton, bem como os outros pontos em
comum da dinâmica completa:, comentados neste capítulo.
4 - "Julia Sets and the Mandelbrot Set'', p. 170.
5 - Hubbard .
r5 - Hubbard: The Beauty of Fractais; Peter H. Richter e Heinz-Otto Peitgen, "Mor-
phology of Complex Boundaries'', Bunsen-Gesellschaft für Physikatische
Chemie, 89 (1985), pp. 575-88. · ·
7 - Uma introdução de leitura agradável, com instruções para fazer um progra-.
ma de microcomputador, é A.K. Dewdney, "Computer Recreations' ', Scien-
tific American (julho de 1985), pp. 16-32 . Peitgen e Richter, em The Beauty
of Fractais, fazem um exame detalhado da matemática, bem como de algu-
mas das imagens mais espetaculares existentes.
8 - Hubbard, por exemplo.
9 - "Julia Sets and the Mandelbrot Set", p. 161.
10 - Mandelbrot, Laff, Hubbard. Um relato na primeira pessoa encontra-se em Man-
delbrot, "Fractais and the Rebirth oflteration Theory", em The Beauty ofFrac-
tais, pp. 151-60_
11 - Mandelbrot; The Beauty of Fractais.
12 - Mandelbrot.
13 - Hubbard.
14 - Peitgen.
15 - Hubbard.
16 - Richter.

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17 - Peitgen.
18 - Peitgen.
19 - Yorke; uma boa introdução, para os que têm gosto pela técnica, é Steven W.
MacDonald, Celso Grebogi, Edward Ott e James A. Yorke, "Fractal Basin Boun-
daries'', Pbysica, 17D (1985), pp. 125-83 .
20- Yorke.
21 - Yorke, comentários na Conferência sobre as Perspectivas em Dinâmica Bio-
lógica e Medicina Teórica, National Institute ofHealth, Bethesda, Maryland,
10 de abril de 1986.
22 - Yorke.
23 - Da mesma forma, num texto destinado a apresentar o caos aos engenheiros,
H. Bruce Stewart eJ.M. Thompson advertiam ; " Levado a um falso sentimen-
to de segurança pela sua familiaridade com a resposta única de um sistema
linear, o analista ou o experimentalista ocupado grita "Eureka, é a solução",
quando uma simulação se fixa num equilíbrio de ciclo constante, sem se preo-
cupar em explorar pacientemente o resultado de diferentes condições de par-
tida. Para evitar erros potencialmente perigosos e desastres, os projetistas in-
dustriais têm de estar preparados para dedicar uma maior percentagem de
seu esforço à investigação de toda a gama de respostas dinâmicas de seus sis-
temas." Nonlinear Dynamics and Cbaos (Chichester, Wiley, 1986), p. xiii.
24 - Tbe Beauty of Fractais, p. 136.
2 5 - Por exempio, "Iterated Function Systems and the Global Construction ofFrac-
tals", Proceedings of tbe Royal Society of London , A399 (1985), pp. 243-75
26 - Barnsley.
27 - Hubbard .
2 8 - Barnsley.

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O Corpo Coletivo
dos Sistemas
Dinâmicos
A comunicação através da divisão revolucionária é ine-
vitavelmente parcial.
-THOMAS S. KUHN

s ANTA CRUZ 1 era o mais novo campus do sistema da Uni-


versidade da Califórnia, incrustado num cenário de livro
de histórias, a uma hora ao sul de São Francisco, e dizia-se
que parecia mais uma floresta nacional do que uma universidade.
Qs edifícios ficavam ein meio de sequóias e, dentro do espírito da
época, os planejadores procuraram deixar de pé todas as árvores.
Pequenas trilhas iam de um lugar para outro. Todo o campus ficava
no alto de um morro, de modo que, com freqüência, topava-se com
uma vista do sul, por sobre as faiscantes ondas de Monterey Bay. San-
ta Cruz foi inaugurada em 1966, e em poucos anos tornou-se, em
suma, o mais seleto dos campi da Califórnia. Os alunos se associa-
vam a muitos dos ícones da vanguarda intelectual: Norman O.
Brown, Gregory Bateson e Herbert Marcuse lecionavam ali, e Tom
Lehrer cantava. Os vários departamentos de pós-graduação, partindo
do zero, começaram com certa ambivalência, e a física não consti-
tuiu exceção. Os professores - cerca de 15 físicos - eram enérgi-
cos e em sua maioria jovens, como convinha ao grupo de não-
conformistas brilhantes atraídos para Santa Cruz. Estavam influen-
ciados pela ideologia dos livre-pensadores da época; não obstan-
te, os físicos também voltaram os olhos para o sul, na direção de Cal-

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tech, e compreenderam que precisavam estabelecer padrões e de-
monstrar sua seriedade.
Um dos alunos de pós-graduação, de seriedade indiscutível,
era Robert Stetson Shaw, um bostoniano barbado e formado por
Harvard, o mais velho de seis filhos de um médico e uma enfermeira,
que em 1977 estava chegando aos 31 anos de idade. Era portanto
mais velho do que a maioria dos seus colegas, tendo a sua carreira
em Harvard sido interrompida várias vezes para servir ao Exército,
para participar de vida comunal e por várias outras experiências im-
provisa das, entre aqueles dois extremos. Ele não sabia por que fo-
ra para Santa Cruz. 2 Nunca tinha visto o campus, embora tivesse li-
do uma brochura, com fotos das sequóias e um texto sobre expe-
riências em novas filosofias educacionais. Shaw era sossegado -
tímido, de uma maneira que se impunha. Era bom aluno, e faltavam
poucos meses para que completasse sua tese de doutorado sobre
a supercondutividade. Ninguém se preocupava muito pelo fato de
estar ele perdendo tempo no andar inferior do edificio de fisica, brin-
cando com um computador analógico.
A formação de um fisico depende de um sistema de orienta-
dores e protegidos. Os professores dispõem de assistentes de pes-
quisas para ajudar no trabalho de laboratório ou nos cálculos tedio-
sos. Em troca, os alunos de pós-graduação e os que têm bolsas de
pós-doutorado recebem parte da subvenção que cabe aos profes-
sores, e algum crédito nas publicações. Um bom orientador ajuda
seus alunos a escolher problemas que sejam ao mesmo tempo so-
lucionáveis e úteis. Se há uma boa relação, a influência do profes-
sor pode ajudar o protegido a encontrar emprego. Com freqüên-
cia, seus nomes ficam ligados para sempre. Quando uma ciência ain-
da não existe, porém, poucos se dispõem a lecioná-la. Em 1977 o
caos não tinha orientadores. Não havia aulas sobre o caos, nem cen-
tros de estudos não-lineares, nem pesquisas sobre os sistemas com-
plexos, não havia livros didáticos sobre o caos, nem mesmo uma
revista.

William Burke,3 cosmólogo de Santa Cruz e relativista, encon-


trou seu amigo Edward A. Spiegel, astrofisico, a uma hora da ma-
nhã no saguão de um hotel de Boston, onde ambos compareciam
a uma conferência sobre a relatividade geral. ''.Acabei de ouvir o atra-
tor de Lorenz", disse Spiegel, que tinha transmuçlado esse emblema
do caos, usando circuitos improvisados, ligados a um aparelho de
alta fidelidade, num looping de zumbidos e apitos antimelódicos.
Ele levou Burke para o bar para beberem alguma coisa, e explicou.
Spiegel conhecia Lorenz pessoalmente, e sabia do caos desde
a década de 60 ..0cupara-se e'inprocurar indícios da possibilidade

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de comportamento errático em modelos do movimento das estre-
las e mantinha contato com matemáticos franceses. Por fim, como
professor da Universidade de Colúmbia, fez da turbulência no es-
paço - "arritmias cósmicas" 4 - o núcleo do seu estudo astronô-
mico. Tinha o dom de cativar seus colegas com novas idéias, e no
decorrer daquela noite~ cativou Burke, cujo espírito era aberto a tais
coisas. Ele tinha feito sua fama com trabalho sobre um dos mais pa-
radoxais presentes de Einstein à física, a·idéia das ondas de gravi-
dade ondufando através do espaço-tempo. Era um problema acen-
tuadamente não-linear, com um comportamento irregular relacio- ·
nado com as perturbadoras não-linearidades na dinâmica dos flui-
dos. E.r a também devidamente abstrato e teórico, mas Burke gosta-
va da física terra-a-terra, também, tendo certa vez publicado um ar-
tigo sobre a óptica dos copos de cerveja: como fazer um copo grosso
e ainda assim dar a impressão de que continha a quantidade nor-
mal da bebida. Gostava de dizer que era um pouco antiquado, pois
considerava a ffsica como realidade. Além disso, tinha lido o artigo
de Robert May em Nature, com sua reivindicação de mais cursos
sobre sistemas não-lineares simples, e também tinha passado algu-
mas horas brincando com as equações de May numa calculadora.
Por isso, o atrator de Lorenz parecia interessante. Não tinha a inten-
ção de ouvir falar dele, queria vê-lo. Quando voltou para Santa Cruz,
entregou a Rob Shaw um papel onde tinha rabiscado uma série de
três equações diferenciais. Poderia Shaw colocá-las no computador
analógico?
Na evolução dos computadores, as máquinas analógicas repre-
sentavam um beco sem saída. Não pertenciam aos departamentos ·
de física, e a existência delas em Santa Cruz era um mero acaso: os
planos originais previam uma faculdade de engenharia; quando essa
faculdade foi cancelada, um comprador apressado já tinha adqui-
rido alguns equipamentos. Computadores digitais, construídos de
circuitos que podiam ser ligados ou desligados, zero ou um, não
ou sim, davam respostas precisas às perguntas formuladas pelos pro-
gramadores;5e se mostravam muito mais adaptáveis à miniaturiza-
ção e aceleração da tecnologia que dominava a revolução dos com-
putadores. Qualquer coisa feita num computador digital podia ser
feita novamente, com o mesmo resultado exatamente, e em princí-
pio podia ser feita em qualquer outro computador digital. Os com-
putadores analógicos eram, pela sua construção, confusos. Seus blo-
cos não eram chaves sim-não, mas circuitos eletrônicos como re-
sistores e capadtores- bem conhecidos dos que trabalharam com
rádios na era anterior do estado sólido, como Shaw. A máquina de
Santa Cruz era um Systron-Donner, pesada, empoeirada, com um
painel de ligações na frente, como os painéis das mesas telefôniCas

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antigas. Programar o computador analógico era uma questão de es-
colher componentes eletrônicos e encaixar pinos no painel.
Fazendo várias combinações de circuitos,6 um programador
simula sistemas de equações diferenciais de maneiras adequadas aos
problemas de engenharia. Digamos que quiséssemos fazer um mo-
delo de suspensão de automóvel com molas, amortecedores e massa,
para projetar o desempenho mais suave possível. As oscilações nos
circuitos podem ser levadas a corresponder às oscilações no siste-
ma físico. Um capacitor toma o lugar de uma mola, os indutores re-
presentam a massa, e assim por diante. Os cálculos não são preci-
sos. A computação numérica fica em segundo plano. Em lugar de-
la, temos um modelo feito de metal e elétrons, muito rápido e -
o que é melhor - facilmente ajustável. Simplesmente girando bo-
tões, podemos ajustar variáveis, tornando a mola mais forte ou o atri-
to menor. E podemos observar os resultados mudarem no tempo
real, as linhas traçadas na tela de um osciloscópio.
Lá em cima, no laboratório de supercondutividade, Shaw avan-
çava desordenadamente para a conclusão de sua tese. Estava, po-
rém, começando a passar cada vez mais tempo brincando com o
Systron-Donner. Tinha chegado ao ponto de ver imagens no espa-
ço de fase de alguns sistemas simples - representações de órbitas
periódicas, ou, ciclos de limites. Se tivesse visto o caos, na forma de
atratores estranhos, certamente não o teria reconhecido. As equa-
ções de Lorenz, que lhe tinham sido entregues num papel, não eram
mais complicadas do que os sistemas com os quais vinha brincan-
do. Foram necessárias apenas algumas horas para ligar os fios cer-
tos e ajustar os botões. Alguns minutos depois,7 Shaw sabia que
jamais terminaria sua tese sobre a supercondutividade.
Passou várias noites naquele porao, vendo o ponto verde do
osciloscópio voando pela tela, traçando repetidamente a máscara
de coruja característica do atrator de Lorenz. O fluxo da forma per-
manecia na retina, uma coisa trêmula e palpitante, diferente de qual-
quer objeto mostrado pela pesquisa de Shaw. Parecia ter vida pró-
pria. Prendia a atenção como uma chama, tomando formas que nun-
ca se repetiam. A imprecisão e a impossibilidade de repetir com exa-
tidão uma operação no computador analógico favorecia Shaw. Ele
viu logo a dependência sensível das condições iniciais que conven-
cera Edward Lorenz da inutilidade das previsões do tempo a longo
prazo. Ele determinava as condições iniciais, apertava o botão para
começar, e surgia o atrator. Depois, criava as mesmas condições ini-
ciais outra vez - tão próximas quanto era fisicamente possível-,
e a órbita se afastava alegremente do curso anterior, terminando po-
rém no mesmo atrator:

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Quando criança, Shaw tinha ilusões do que seria a ciência -
um mergulho romântico no desconhecido. Aquilo que estava fazen-
do era finalmente uma espécie de investigação que correspondia
à ilusão infmtil. A física de baixa temperatura era divertida, do ponto
de vista do experimentador, com muitos canos e imãs grandes, hé-
lio líquido e botões. Para Shaw, porém, não levava a nada. Pouco
depois, ele transferiu o computador analógico para a sala de cima,
que nunca mais voltou a ser usada para a supercondutividade.

"Tudo o que você tem de fazer é manejar esses botões, e de


repente está explorando este outro mundo, onde é um dos primei-
ros viajantes e de onde não tem vontade de sair", disse Ralph Abra-
ham, professor de matemática que o visitou nos primeiros dias pa-
ra ver o atrator de Lorenz em movimento. 8 Tinha estado com Ste-
ve Smale nos gloriosos começos em Berkeley, sendo portanto um
dos pouquíssimos membros do corpo docente de Santa Cruz com
uma experiência que lhe permitia compreender a importância da
brincadeira de Shaw. Sua primeira reação foi de espanto com ave-
locidade da exibição - e Shaw observou que estava usando capa-
citares extras para impedir que fosse ainda mais rápida. O atrator
era resistente. A imprecisão dos circuitos do analógico provou isso
- as oscilações dos botões não provocavam seu desaparecimen-
to, nem o transformavam em alguma coisa aleatória, mas sim o fa-
ziam girar ou curvar-se de uma maneira que, aos poucos, começou
a ter sentido. "Robteve uma experiência espontânea, na qual uma
pequena exploração revela todos os segredos'', disse Abraham. "To-
dos os conceitos importantes - o expoente de Lyapunov, a dimen-
são fractal - ocorriam naturalmente. Podia-se vê-los e começar a
explorar."
Seria ciência, isso? Certamente não era matemática, esse tra-
balho de computador sem o formalismo ou as provas, e nem todo
o estímulo de pessoas solidárias como Abraham podia modificar
esse fato. Os professores de física não viam razão para achar que aqui-
lo era física, também. O que quer que fosse, atraiu um público. Shaw
costumava deixar a porta aberta, e a entrada do departamento de
física ficava em frente, do outro lado do corredor. O trânsito era con-
siderável. Dentro em pouco, ele tinha companhia.
O grupo que viria a chamar-se de Corpo Coletivo dos Siste-
mas Dinâmicos - outros o chamavam de Cabala do Caos - tinha
em Shaw o seu centro tranqüilo. Shaw tinha certa relutância em apre-
sentar suas idéias no mercado acadêmico; felizmente para ele, os
seus novos companheiros não tinham esse problema. Enquanto isso,
voltavam com freqüência à sua visão firme da maneira pela qual se

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· devia executar um programa não-planejado de exploração de uma
ciência não-reconhecida.
Doyne Farmer,9 um texano alto, ossudo, de cabelos ruivos,
tornou-se.o porta-voz mais eloqüente do grupo. Em 1977 ele tinha
24 anos de idade, e toda a energia e entusiasmo, uma máquina de
idéias. Todos os que o conheciam desconfiavam, a princípio, que
era um conversa-fiada. Norman Packard, três anos mais jovem, co-
lega de infância, criado na mesma cidade do Novo México chama-
da Silver City, chegou a Santa Cruz naquele outono, justamente quan-
do Farmer estava tirando um ano de licença para dedicar toda a sua ·
energia ao plano de aplicar as leis do movimento ao jogo da roleta.
Essa empreitada era tão premente quanto ambiciosa. Durante mais
de uma década, Farmer e um variável grupo de colegas físicos, de
jogadores profissionais e de agregados perseguiram o sonho da ro-
leta. Farmer não o abandonou nem mesmo depois de ingressar na
Divisão Teórica do Laboratório Nacional de Los Alamos. Calcula-
ram inclinações e trajetórias, escreveram e reescreveram programas,
embutiram computadores nos sapatos e fizeram nervosas incursões
em cassinos. Mas nada funcionou como planejado. Em algum mo-
mento, todos os membros do corpo coletivo, exceto Shaw, empre-
. garam suas energias na roleta, e temos de dizer que o projeto lhes
proporcionou um treinamento excepcional na análise rápida dos
sistemas dinâmicos, mas pouco contribuiu para que o corpo do-
cente de físicos em Santa Cruz viesse a achar que Farmer levava a
ciência a sério.
O quarto membro do grupo era James Crutchfield, o mais jo-
vem e o único natural da Califó.r nia. Era pequeno e corpulento, sur-
fista elegante e, o que era mais importante para o corpo coletivo,
um mestre instintivo na computação. Crutchfield foi para Santa Cruz
como aluno de graduação, trabalhou como assistente de laborató-
rio dos experimentos realizados por Shaw em supercondutivida-
de, antes de dedicar-se ao caos, passou um ano indo e vindo "por
cima do morro", como dizem em Santa Cruz, com um emprego no
centro de pesquisas da IBM em San] ose, e só ingressou realmente .
no departamento de física como estudante de pós-graduação em
1980. Já então tinha passado dois anos no laboratório de Shaw e que-
ria aprender a matemática de que precisava para compreender os
sistemas dinâmicos. Como o resto do grupo, deixou para trás oca-
minho padrão do departamento.
Só na primavera de 1978 o departamento pôde acreditar real-
mente que Shaw abandonava sua tese sobre supercondutividade,
que estava quase acabando. Por mais entendiado que ele estivesse,
argumentou o corpo docente, podia apressar as formalidades, con-
seguir seu doutorado e passar então para o mundo real. Quanto ao

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caos, havia problemas de adequação acadêmica. Ninguém em Santa
Cruz tinha qualificações para supervisionar um curso de estudos
nesse campo sem nome. Ninguém tinha recebido doutorado nele.
Certamente, não havia empregos para os formados nessa especia-
Íidade. Também havia a· questão do dinheiro. Os físicos em Santa
Cruz, 10 como toda universidade americana, eram financiados prin-
cipalmente pela Fundação Nacional de Ciência e por outros depar-
tamentos do governo federal, através de bolsas de pesquisa aos pro-
fessores. A Marinha, a Força Aérea, o Departamento de Energia, a
Central Intelligence Agency- todos gastavam grandes somas com
a pesquisa pura, sem se preocupar necessariamente com a aplica-
ção imediata em hidrodinâmica, aerodinâmica, energia ou informa-
ção. Um físico do corpo docente podia receber o suficiente para
comprar equipamentos de laboratório e pagar salários de assisten-
tes de pesquisa - alunos de pós-graduação, que se atrelavam à sua
subvenção. Ele pagava as fotocópias, as viagens para comparece-
rem a congressos e até mesmo salários para mantê-los no verão. Sem
isso, os estudantes viam-se em apuros financeiros. Era desse siste-
ma que Shaw, Farmer, Packard e Crutchfield estavam agora se des-
ligando. ·
· Quando certos tipos de equipamento eletrônico começaram
a desaparecer à noite, tornou-se prudente procurá-los no antigo la-
boratório de baixa temperatura de Shaw. Ocasionalmente, um dos
membros do corpo coletivo conseguia uns cem dólares da associa-
ção dos alunos de pós-graduação, ou o departamento de física con-
seguia um jeito de reservar-lhe uma verba assim. Traçadores, con-
versores, filtros elétricos, começaram a acumular-se. Um grupo de
física de partículas que ficava mais adiante, no mesmo corredor, ti-
nha um pequeno computador digital que não servia mais: foi leva-
do para o laboratório de Shaw. Farmer especializou-se em arranjar
tempo em computador. Num verão, foi convidado a ir ao Centro
Nacional de Pesquisa Atmosférica, em Boulder, Colorado, onde
computadores enormes faziam pesquisas em coisas como mode-
los de tempo global, e sua capacidade de conseguir tempo nessas
máquinas, que custava caro, espantou os climatólogos.
A sensibilidade experimental do grupo de Santa Cruz também
lhes foi muito útil. Shaw sempre teve inclinação para aparelhos. 11
Packard consertava aparelhos de televisão quando rapaz, em Silver
City. Crutchfield pertencia à primeira geração de matemáticos pa-
ra os quais a lógica dos processadores de computador era uma lin-
guagem natural. O próprio prédio da física, em seu sombreado re-
tiro em meio às sequóias, assemelhava-se aos prédios de física em
toda parte, com uma ambiência universal de pisos de cimento e pa-
redes que sempre precisam de pintura, mas a sala ocupada pelo gru-

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po do caos adquiriu uma atmosfera própria, com pilhas de papéis
equadros de ilhéus do Taiti nas paredes e, por fim, gravuras de atra-
tores estranhos. A qualquer hora, praticamente, embora mais à noite
do que pela manhã, o visitante podia ver membros do grupo refor-
mulando circuitos, abrindo cabos, discutindo sobre consciência ou
evolução, ajustando um visor de osciloscópio, ou apenas observan-
do um brilhante ponto verde traçar uma curva de luz, com a órbita
. tremeluzindo e pulsando como algo vivo.

"Foi a mesma coisa que realmente nos atraiu: a idéia de que


era possível ter determinismo, mas não realmente", disse Farmer.
''A idéia de que todos esses sistemas deterministas clássicos que tí-
nhamos estudado podiam gerar aleatoriedade era intrigante. Fomos
levados pelo desejo de entender por quê.
"É impossível valorizar esse tipo de revelação, a menos que se
tenha sofrido uma lavagem cerebral com seis ou sete anos de um
currículo típico de física. Aprendemos que há modelos clássicos
onde tudo é determinado pelas condições iniciais, e há também os
modelos mecânicos quânticos, onde as coisas são determinadas mas
temos de enfrentar um limite sobre o volume de informação inicial
que podemos colher. Não-linear era uma palavra só encontrada no
fim do livro. Um aluno de física fazia um curso de matemática, e o
último capítulo era sobre equações não-lineares. Pulávamos isso em
geral, e, se não pulássemos, o que se fazia era pegar essas equações
não-lineares e reduzi-las a equações lineares, para conseguir pelo
menos soluções aproximadas. Era um exército de frustração.
"Não tínhamos noção da diferença real que a não-linearidade
representa num modelo. A idéia de que uma equação podia oscilar
de uma maneira aparentemente aleatória ... isso era muito estimu-
lante. Perguntávamos: 'De onde vem esse movimento aleatório? Não
o vejo nas equações.' Parecia alguma coisa vinda do nada, ou ·algu-
ma coisa em troca de nada."
Crutchfield disse: "Foi a compreensão de que há todo um mun-
do da experiência física que não se enquadra na estrutura atual. Por
que isso não era ensinado? Tínhamos a oportunidade de olhar à vol-
ta, para o mundo imediato - um mundo tão mundano que era ma-
ravilhoso - e compreender alguma coisa."
Encantaram-se, e espantaram os seus professores com pergun-
tas sobre determir;iismo, a natureza da inteligência, a direção da evo-
lução biológica.
;70 que nos unia era uma visão de longo alcance'', disse Pac-
kard. "Espantava-nos o fato de que se tomássemos sistemas físicos
regulares, analisados exaustivamente na física clássica, mas nos afas-
tássemos deles um passo em espaço paramétrico, acabávamos com

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alguma coisa a qual não se aplicava todo esse enorme corpo de análise.
"O fenômeno do caos podia ter sido descoberto há muito, mui-
to tempo. Não foi, em parte, porque esse enorme trabalho sobre a
dinâmica do movimentá regular não levava àquela direção. Mas, se
olharmos, ele lá está. Evidenciava a necessidade de nos deixarmos
guiar pela física, pelas observações, ver que tipo de quadro teórico
é possível desenvolver. A longo prazo, víamos a investigação da di-
nâmica complicada como um ponto de entrada que poderia levar
ao entendimento da dinâmica realmente complicada."
Farmer disse: "Em nível filosófico, pareceu-me como uma ma-
neira operacional de definir o livre-arbítrio, de uma maneira que ·
permitia reconciliá-lo com o determinismo. O sistema é determi-
nista, mas não podemos dizer o que ele fará da próxima vez. Ao mes- '
mo tempo, sempre senti que os problemas importantes do mundo .
estavam relacionados com a criação da organização, na vida ou in- ·
teligência. Como, porém, se estudava isso? O que os biólogos esta-
vam fazendo parecia tão aplicado e específico; os químicos não se
ocupavam disso, certamente; também não os matemáticos, e era al-
guma coisa que os físicos não faziam. Sempre achei que o apareci-
mento espontâneo da auto-organização devia ser parte da física.
"Ali estava uma moeda com dois lados. De um, a ordem, com
uma emergente aleatoriedade; e, um passo mais adiante, estava a alea-
toriedade com sua própria ordem subjacente."

Shaw e seus colegas tinham de transformar seu entusiasmo es-


pontâneo num programa científico. Tinha de fazer indagações que
pudessem ser respondidas e que valesse a pena responder. Busca-
ram maneiras de relacionár a teoria com o experimento - ali,
parecia-lhes haver uma lacuna a ser preenchida. Antes que pudes-
sem sequer começar, tiveram de aprender o que era conhecido e
o que não era, e só isso já constiuía um desafio terrível.
Tiveram dificuldades em virtude da tendência que a comuni-
cação tem de ser fragmentada na ciência, em especial quando uma
nova matéria abrange subdisciplinas consolidadas. Não sabiam, com
freqüência, se percorriam território novo, ou velho. Um valioso an-
tídoto para sua ignorância foi Joseph Ford, o advogado do caos no
Instituto de Tecnologia de Geórgia. Ford já tinha concluído 12 que
a dinâmica não-linear era o futuro da física- todo o futuro - e se
tinha constituído num centro de informações sobre artigos publi-
cados em revistas. Sua formação era em caos não-dispersivo, o caos
dos sistemas astronômicos, ou da física de partículas. Tinha um co-
nhecimento excepcional do trabalho que estava sendo feito na União
Soviética, e procurava estabelecer conexões com qualquer pessoa
que partilhasse, mesmo remotamente, do espírito filosófico desse

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novo empreendimento. Tinha amigos em toda parte. Qualquer cien-
tista que mandasse um trabalho sobre ciência não-linear teria esse
trabalho resumido ria crescente.lista de sínteses de artigos organi-
zada por ele. O grupo de Santa Cruz ouviu falar dessa lista e solicitou-
lhe cópias de artigos pré-publicados. Pouco tempo depois, as pré-
publicações chegavam, numerosas.
Compreenderam 13 que muitas perguntas podiam ser feitas so-
bre os atratores estranhos. Quais as suas formas características? Qual
a sua estrutura topológica? O que a geometria revela sobre a física
dos sistemas dinâmicos correlatos? A primeira abordagem foi a in-
vestigação iniciada por Shaw, na prática. Grande parte da bibliografia
matemática tratava diretamente da estrutura, mas a abordagem ma-
temática pareceu a Shaw demasiado detalhada - .á rvores demais,
e pouca floresta. Ao examinar a bibliografia, achou que os matemá-
ticos, privados, pela sua própria tradição, de ferramenta do com-
putador, se tinham enterrado nas complexidades específicas dases-
truturas orbitais, infinitos aqui e descontinuidades ali. Os matemá-
ticos não se tinham preocupado especialmente com a imprecisão
analógica - do ponto de vista dos ffsicos, a imprecisão que sem dú-
vida controlava os sistemas do mundo real. Shaw viu em seu osci-
loscópio não as órbitas individuais, mas um envoltório no qual as
órbitas estavam embutidas. Era o envoltório que mudava quando
ele girava lentamente os botões. Não podia dar uma explicação ri-
gorosa das dobras e torções na linguagem da topologia matemáti-
ca. Não obstante, começou a sentir que as compreendia.
O físico quer tomar medidas. O que havia para ser medido nes-
sas indefiníveis imagens móveis? Shaw e os outros tentaram isolar
as características especiais que tinham tornado os atratores estra-
nhos tão encantadores. Dependência sensível das condições ini-
ciais - a tendência que tinham as trajetórias próximas de se afasta-
rem umas das outras. Foi isso que fez Lorenz compreender a impos-
sibilidade da previsão determinista do tempo a longo prazo. Onde,
porém, estavam os compassos para medir essa qualidade? Podia a
própria imprevisibilidade ser medida? ·
A resposta a essa pergunta estava numa concepção russa, o ex-
poente de Lyapunov. Esse número oferecia uma medida das carac-
terísticas topológicas que correspondiam a conceitos como a im-
previsibilidade. Os expoentes de Lyapunov num sistema proporcio-
navam uma maneira de medir os efeitos conflitantes de distensão,
contração e dobragem no espaço de fase de um atrator. Davam uma
imagem de todas as propriedades de um sistema que levava à esta- ·
bilidade ou à instabilidade. Um expoente maior do que zero signi-
ficava distensão- os pontos próximos se distanciavam. Um expoen-
te menor do que zero significava contração. Para um atrator de ponto

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4

DOBRANDO Õ ESPAÇO DE FASE. O remodeÍamento topológico do espaço de


fase cria um atrator, como uma rosca, mas dobrado sobre si mesmo, conheci-
do como o rolo de Birkhoff.

. fixo, todos os expoentes de Lyapunov eram negativos, já que adi-


reção do em puxe era para dentro, no sentido do regime estacioná-
rio final. Um atrator na forma de uma órbita periódica tinha um ex-
poente de exatamente zero e outros expoentes qüé erarrinegativos.
Um atrator estranho, como se viu por fim, devia ter pelo menos um
expoente positivo de Lyapunov.
Para sua consternação, os estudiosos de Santa Cruz não inven-
taram essa idéia, mas a desenvolveram das formas mais práticas pos-

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síveis, aprendendo a medir os expoentes de Lyapunov e a relacioná-
los com outras propriedades importantes. Usaram a animação com
o computador para fazer filmes ilustrativos da fusão da ordem e do
caos nos sistemas dinâmicos. Sua análise mostrava claramente co-
mo alguns sistemas podiam criar a desordem numa direção, enquan-
to permaneciam ordenados e metódicos em outra. Um filme mos-
trava o que acontecia num pequeno aglomerado de pontos próxi-
mos - representando as condições iniciais - num atrator estra-
nho, à medida que o sistema evoluía no tempo. O aglomerado co-
meçava a dispersar-se e a perder a nitidez. Transformava-se num pon-
to e em seguida num borrão. Para certos tipos de atratores, o bor-
rão espalhava-se rapidamente por toda a superfície. Esses atratores
eram eficientes para misturar. Para outros, porém, a mancha só se
espalhava em certas direções. A mancha ou borrão tornava-se uma
faixa , caótica em relação a um eixo e ordenada em relação a outro.
Era como se o sistema tivesse um impulso ordenado e outro desor-
denado, juntos, e como se estes se estivessem separando. Um im-
pulso levava à imprevisibilidade aleatória, o outro mantinha o rit-
mo como um relógio preciso. Ambos os impulsos podiam ser defi-
nidos e medidos.

A marca mais característica da pesquisa do grupo de Santa Cruz


sobre o caos relacionava-se com uma combinação de matemática
e filosofia, conhecida como a teoria da informação, 14 inventada em
fins da década de 40 por um pesquisador da Bell Telephone Labo-
ratories, Claude Shannon que deu ao seu trabalho o título de ''Teo-
ria Matemática da Comunicação'', embora se relacionasse com uma
quantidade muito especial chamada informação, e o nome da teo-
ria da informação é que pegou . A teoria era produto da era eletrô-
nica. As linhas de comunicação e as transmissões de rádio transpor-
tavam determinada coisa, e os computadores estavam, dentro em
pouco, armazenando essa mesma coisa em cartões perfurados ou
cilindros magnéticos, e tal coisa não era conhecimento, nem signi-
ficado. Suas unidades básicas não eram idéias, nem conceitos, nem
mesmo, necessariamente, palavras ou números. Essa coisa podia ter
sentido ou não - mas os engenheiros e matemáticos podiam medi-
la, transmiti-la e testar a exatidão da transmissão. "Informação" era
uma palavra tão boa quanto qualquer outra, mas a pessoas tinham
de lembrar-se de que estavam usando um termo especializado, des-
tituído de valor, sem as conotações habituais de fatos, conhecimento,
sabedoria, entendimento e esclarecimento.
Os componentes físicos da máquina determinaram a forma da
teoria. Como a informação estava armazenada em chaves binárias
on-off designadas como bits, os bits tomaram-se a medida básica

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da infçrmação. Do ponto de vista técnico, a teoria da informação
tornou-se um instrumento para se perceber como o ruído, na for-
ma de erros aleatórios, interferiam no fluxo de bits. Constituía uma
maneira de prever a necessária capacidade de transporte das linhas
de comunicação, ou discos compactos, ou qualquer tecnologia que
codificassem a linguagem, os sons ou as imagens. Oferecia um meio
teórico de avaliar a eficiência de diferentes esquemas de correção
de erros - por exemplo, usando alguns bits como verificação de
outros. Dava dentes á idéia crucial da "redundância". Em termos da
· teoria de informação de Shannon, a linguagem comum tem uma re-
dundância superior a 50 % , sob a forma de sons ou letras que não
são rigorosamente necessários para transmitir a mensagem. Essa
idéia é conhecida: a comunicação comum, num mundo de resmun-
gadores e de erros tipográficos, depende d.a redundância. O famo-
so anúncio de uma escola de tàquigrafia - se vc pd ntnder ist -
ilustrava tal observação, e a teoria da informação permitia que are-
dundância fosse medida. A redundância é um afastamento previsí-
vel na aleatoriedade. Parte da redundância na linguagem comum está
no seu significado, e tal parte é difícil de quantificar, dependendo,
como depende, do conhecimento compartilhado que as pessoas
têm de sua linguagem e do mundo. É a parte que permite solucio-
nar palavras cruzadas ou colocar a palavra que falta no fim de uma.
Mas outros tipos de redundância prestam-se mais facilmente a me-
didas numéricas. Estatisticamente, a probabilidade de que qualquer
letra em inglês seja "e" é muito maior do que 1 em 26. Além disso,
as letras não têm de ser contadas como unidades isoladas. Saber que
uma letra num texto em inglês é "t" ajuda a prever que a letra se-
guinte pode ser "h", ou "o"; saber duas letras ajuda ainda mais, e
assim por diante. A tentência estatística de as várias combinações
de duas e três letras surgirem numa língua contribui muito para que
se aprendam certas características essenciais dessa língua. Un:i com-
putador guiado apenas pela relativa probabilidade de seqüências
possíveis de três letras pode produzir uma série de combinações
aleatórias sem sentido, mas reconhecíveis como inglês macarrôni-
co. Os decifradores de códigos há muito usam esses padrões esta-
tísticos para conhecer os códigos simples. Os engenheiros de co-
municação usam-nos hoje ao imaginar técnicas para compactar da-
dos, eliminar redundância para economizar espaço numa linha de
transmissão ou um disco de armazenagem. Para Shannon, a maneira
adequada de examinar esses padrões era a seguinte: uma seqüên-
cia de dados na linguagem comum é menos do que aleatória; cada
novo bit é parcialmente determinado pelos bits anteriores; assim,
cada novo bit encerra um pouco menos de um bit de informação
real. Havia urna sugestão de variação paradoxal nessa formulação.

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Quanto mais aleatório o fluxq dos dados, mais informações seriam
transmitidas por todo novo bit.
Além de sua adequação técnica ao início da era do computa-
dor, a teoria da informação de Shannon adquiriu uma estatura filo-
.sófica modesta, e uma parte surpreendente da atração que tinha para
os que estavam fora do campo de Shannon podia ser atribuída à es-
colha de uma palavra: entropia. Como disse Warren Weaver numa
exposição clássica sobre a teoria da informação: "Quando encon-
tramos o conceito de entropia na teoria de comunicação, temos o
direito de nos agitarmos - o direito de suspeitar que estamos às vol-
tas com alguma coisa que pode vir a ser básica e importante." 1s o
conceito de entropia vem da termodinâmica, onde servfü de adjunto
o
à Segunda Lei, a tendência inexorável que tem universo, e qual-
quer sistema isolado nele existente, de deslizar para um estado de
crescente desordem. Divida-se uma piscina no meio, com alguma
barrdra; encha-se uma metade de água e a outra de tinta; espere-se
que estejam em repouso; levante-se a barreira, e simplesmente pe-
lo movimento aleatório das moléculas, tinta e água acabam por
misturar-se. A mistura nunca volta atrás, mesmo que esperemos até
o fim do universo, razão pela qual se diz com freqüência que a Se-
gunda Lei é a parte da física que faz do tempo uma rua de mão úni-
ca. Entropia é o nome para a característica dos sistemas que aumenta
com a Segunda Lei - mistura, desordem, aleatoriedade. O concei-
to é mais fácil de ser entendido intuitivamente do que medido em
qualquer situação da vida real. Qual seria o teste fidedigno para o
nível de mistura de duas substâncias? Poderíamos imaginar a con-
tagem de moléculas de cada uma, numa amostra. Mas e se estive-
rem dispostas como sim-não-sim-não-sim-rião-sim-não? Dificilmen-
te se poderia dizer que a entropia é elevada. Podiámos contar até
mesmo as moléculas pares, mas e se a disposição fosse sim-não-não-
sim-não-não-sim? A ordem se faz de maneiras que desafiam qual-
quer algoritmo contável direto. E, na teoria da informação, as ques-
tões de significado e representação constituem complicações su-
plementares. UmaseqüênciacomoOl 0100010000101110101100
000 0010 111 010 11 6109 O 000 000 ... só poderia aparecer ordena-
da a alguém familiari2ado com o ·c ódigo Morse e com Shakespeare.
E o que dizer dos padrões topologicamente refratários de um atra-
tor estranho?
Para Robert Shaw, os atratores estranhos eram motores de in-
formação. Em sua primeira e mais ampla concepção, o caos ofere-
cia urri'a maneira natural de devolver às ciências físicas, de forma re-
vigorada, as idéias que a teoria da informação tinha extraído da ter-
modinâmica. Os atratores estranhos, combinação da ordem e de-
sordem, davam um aspecto desafiador à questão de medir a entro-

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pia de um sistema. Os atratores estranhos serviam como misturado-
res eficientes. Criavam a imprevisibilidade. Suscitavam entropia. E, ao
ver de Shaw, criavam informações onde não havia informação.
Norman Packard 16 estava lendo o Scíentific American, certo
dia, e viu um anúncio de um concurso de ensaios chamado con"
curso Louis]acot. Era uma coisa improvável, que lhes vinha a ca-
lhar - um bom prêmio instituído por um financista francês queima-
ginara uma teoria pessoal sobre a estrutura do universo, galáxias den-
tro de galáxias. O concurso exigia um trabalho sobre o tema deJa-
cot, como quer que se entendesse esse tema. ("Parecia coisa de lou-
cos que escrevem pelo correio", disse Farmer.) Mas os juízes do con-
curso reuniam um grupo impressionante de nomes da ciência fran-
cesa oficial, e o dinheiro também era impressionante. Packard mos-
trou o anúncio a Shaw. O prazo final era o dia do Ano Novo dé 1978.
O corpo coletivo reunia-se então regularmente numa enorme
casa velha em Santa Cruz, perto da praia. A casa acumulava móveis
de segunda mão e equipamento de computador, grande parte do
qual dedicado ao problema da roleta. Shaw guardava ali um piano,
no qual tocava música barroca ou improvisava sua mistura de mú-
sica clássica e moderna. Em suas reuniões, os físicos desenvolve-
ram um estilo de trabalho, uma rotina de apresentar idéias e filtrá-
las pelo crivo do que era prático, ler a bibliografia e conceber tra-
balhos próprios. Acabaram aprendendo a escrever artigos para re-
vistas de uma maneira coletiva razoavelmente eficiente, mas o pri-
meiro artigo foi de Shaw, um dos poucos que escreveu, e ele, ca-
racteristicamente, nada disse aos outros sobre o que estava escre-
vendo. E, também caracteristicamente, era tarde. ·
Em dezembro de 197717 Shaw partiu de Santa Cruz para com-
parecer à primeira reunião da Academia de Ciências de Nova York
dedicada ao caos. Seu professor de supercondutividade pagou-lhe
a passagem, e Shaw chegou sem ser convidado, para ouvir pessoal-
mente, os cientistas que conhecia apenas de artigos. David Ruelle,
Robert May, James Yorke. Shaw sentia-se temeroso frente a esses ho-
mens, e também à diária astronômica de 35 dólares do Barbizon
Hotel. Ouvindo as palestras, ele oscilou entre os sentimentos de que
vinha reinventando idéias que esses homens já tinham desenvol-
vido detalhadamente e, por outro lado, de que tinha um importan-
te ponto de vista novo a oferecer. Levara o rascunho inacabado de
seu trabalho sobre a teoria da informação, rabiscando à mão em lon-
gas tiras de papel numa pasta, e tentou, sem êxito, conseguir uma
máquina de escrever, primeiro do hotel, depois de uma oficina de
consertos. Acabou levando sua pasta de volta. Mais tarde, quando
os amigos imploraram-lhe os detalhes, eles lhes disse que o ponto
alto tinha sido um jantar em honra de Edward Lorenz, que estava

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finalmente recebendo o reconhecimento que lhe fora negado du-
rante tantos anos. Quando Lorenz entrou na sala, 18 segurando timi-
damente a mão da mulher, os cientistas se levantaram para ovacioná-
lo. Shaw ficou espantado com o ar aterrorizado do meteorologista . ··
Algumas semanas depois, numa viagem ao Maine, onde seus
pais tinham uma casa de veraneio, ele finalmente enviou seu traba-
lho para o concurso]acot. 19 O Ano Novo já tinha passado, mas o
envelope foi generosamente carimbado, pelo agente local do cor-
reio, com data atrasada. O ensaio- uma mistura de matemática eso-
térjca e filosofia especulativa, ilustrado com desenhos parecidos
com caricaturas, feitos pelo irmão de Shaw, Chris - recebeu uma
menção honrosa. Shaw ganhou um prêmio em dinheiro suficiente
para custear a viagem a Paris para receber a láurea. Era uma recom-
pensa pequena, mas vinha num momento dificil das relações do gru-
po com o departamento. Precisavam, desesperadamente, de quais-
quer mostras exteriores de credibilidade que pudessem conseguir.
Farmer estava deixando de lado a astrofísica, Packard estava aban-
donando a mecânica estatística, e Crutchfield ainda não estava em
condições de chamar-se de estudante de pós-graduação. O depar-
tamento achava que as coisas estavam passando dos limites.

"Strange Attractors, Chaotic Behavior, and Information Flow"


circulou naquele ano numa pré-publicação que acabou chegando
aos mil exemplares, o primeiro e penoso esforço de combinar ateo-
ria da informação e o caos. .
Shaw tirou das sombras alguns pressupostos da mecânica clás-
sica. A energia existe nos sistemas naturais em dois níveis: as ma-
croescalas, onde os objetos cotidianos podem ser contados e me-
didos, e as microescalas, onde incontáveis átomos nadam em mo-
vimento aleatório, impossíveis de ser medidos exceto como uma·
entidade média, temperatura. Como observou Shaw, a energia to- .
tal que vive nas microescalas podia superar a energia das macroes-
calas, mas nos sistemas clássicos esse movimento térmico era irre-
levante - isolado e inutilizável. As escalas não se comunicam en-
tre si. "Não precisamos conhecer a temperatura para resolver um
problema de mecânica clássica", disse ele. Na opinião de Shaw, po-.
rém, os sistemas caótico e quase caótico preenchiam a lacuna en-
tre as macroescalas e as microescalas. O caos era a criação de infor-
mação.
Imaginemos a água passando por uma obstrução. Como sabem
todos os especialistas em hidrodinâmica e todos os remadores de
águas fluviais, se a água estiver correndo com rapidez suficiente, pro-
duz espirais màis abixo ~ A determinada velocidade, as espirais per-

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manecem fixas. Numa maior velocidade, elas se movem. Um expe-
rimentador podia escolher vários métodos de obter dados desse sis-
tema, com verificação de velocidades e assim por diante, mas por
que não tentar alguma coisa simples: tomar um ponto qualquer abai-
xo da obstrução e, em intervalos uniformes de tempo, verificar se
as espirais estão para a direita ou para a esquerda?

Se estiverem estáticas, os dados serão mais ou menos assim:


esquerda-esquerda-esquerda-esquerda-esquerda-esquerda-
esquerda-esquerda-esquerda-esquerda-esquerda-esquerda-
esquerda-esquerda-esquerda-esquerda-esquerda-esquerda-
esquerda-esquerda-.Depois de algum tempo, o observador come-
ça a achar que novos bits de dados não lhe estão oferecendo infor-
mações novas sobre o sistema.
Ou as espirais podem estar andando para frente e para trás, pe-
riodicamente: esquerda - direita, esquerda - direita, esquerda - di-
reita, esquerda-direita-esquerda-direita-esquerda<direita-esquerda-
direita-esquerda-direita-esquerda-direita-esquerda-direita. Mais uma
vez, embora a princípio o sistema pareça um pouco mais interes-
sante, logo deixa de oferecer surpresas.
Mas quando o sistema se torna caótico, rigorosamente em con-
seqüência de sua imprevisibilidade, gera um fluxo constante de in-
formações. Cada observação nova é um novo bit. É um problema
para o experimentador que quer caracterizar todo o sistema. "Ele
não poderia sair nunca da sala'', disse Shaw. ''A correnteza seria uma
fonte constante de informações."
De onde vem essa informação? O banho térmico das microes-
calas, bilhões de moléculas em sua dança termodinâmica aleatória.
Assim, como a turbulência transmite energia partindo das grandes
escalas para baixo através d~ cadeias de vórtices até as dissipadoras
pequenas escalas de viscosidade, também a informação é transmi-
tida de volta das pequenas escalas para as grandes - de qualquer
modo, foi assim que Shaw e seus colegas começaram a descrevê-
la. E o canal que transmite a informação para o alto é o atrator estra-
nho, ampliando a aleatoriedade inicial, assim como o Efeito Bor-
boleta amplia pequenas incertezas para transformá-las em padrões
em grande escala de condições atmosféricas.
A questão era saber quanto. Shaw descobriu - depois de re-
petir involuntariamente parte do trabalho deles - que mais uma
vez os cientistas soviéticos tinham sido os primeiros. A.N. Kolmo-
gorov e Yasha Sinai2° tinham desenvolvido uma esclarecedora ma-
temática para a maneira pela qual a "entropia por unidade de tem-
po" do sistema se aplica às imagens geométricas de superfícies que
se estendem e dobram no espaço de fase. O núcleo conceitua! da

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técnica era uma questão de traçar uma caixa arbitrariamente pequena
· em volta de uma série de condições iniciais, assim como se pode-
ria traçar tfm_pequeno quadrado ao lado de um balão, depois de cal-
cular o efeitti> dàs várias expansões ou torções da caixa. Ela poderia
estender-se numa direção, por exemplo, permanecendo estreita na
outra. A modificação na área correspondia a uma introdução de in-
certeza sobre o passado do sistema, um ganho ou uma perda de in-
formação.
Na medida em que a informação era apenas uma palavra ima-
ginosa para a imprevisibilidade, essa concepção simplesmente cor-
respondia a idéias que cientistas como Ruelle estavam desenvol-
vendo. Mas a estrutura da teoria da informação permitiu que o gru-
po de Santa Cruz adotasse um corpo de raciocínio matemático que
tinha sido bem investigado pelos teóricos da comunicação. O pro-
blema de acrescentar ruído extrínseco a um sistema que de outros
ângulos era determinista, por exemplo, era novo em dinâmica, mas
antigo nas comunicações. A verdadeira atração para esses jovens
cientistas, porém, só em parte estava na matemática. Quando fala-
vam de sistemas que geravam informações, pensavam na geração
espontânea de padrão no mundo. "No alto da dinâmica complica-
da estão processos de evolução biológica, ou processos de pensa-
mento", disse Packard. 21 "Intuitivamente, parece haver um sentido
claro no qual esses sistemas, em última análise complicados, estão
gerando informações. Há bilhões de anos havia apenas bolhas de
protoplasma; agora, bilhões de anos depois, estamos aqui. Dessa
forma, informações tinham sido criadas e armazenadas em nossa
estrutura. No desenvolvimento da mente de uma pessoa, desde a
infância, as informações não são evidentemente, apenas acumula-
das, mas também geradas - criadas a partir de ligações que não es-
tavam ali antes". Era o tipo de conversa que podia fazer girar a ca-
beça de um físico sóbrio.

Eles eram, porém, experimentadores primeiro, e só em segun-


do lugar filósofos . Poderiam estabelecer uma ponte entre os atra-
tores estranhos, que conheciam tão bem, e os experimentos da fí-
sica clássica? Uma coisa era dizer que direita-esquerda-direita-
direita-esquerda-direita-esquerda-esquerda-esquerda-direita era
imprevisível e gerador de informações. Outra coisa era tomar o fluxo
de dados reais e medir seu expoente de Lyapunov, sua entropia, sua
dimensão. Ainda assim, os físicos de Santa Cruz se sentiam melhor
com essas idéias do que qualquer um'de seus colegas mais velhos.
Vivendo com atratores estranhos dia e noite, convenceram-se de
que os reconheciam nos fenômenos inconstantes, vacilante;s, os-
cilantes, de suas vidas cotidianas.

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Tinham u:m jogo que costumavam jogar num café. Pergunta-
vam: a que distância está o mais próximo atrator estranho? Seria
aquele barulhento pára-lama de carro? Aquela bandeira tremulan-
do de maneira irregular numa brisa constante? Uma folha oscilan-
te? "Não vemos alguma coisa22 enquanto não temos a metáfora
adequada, que nos deixa percebê-la", disse Shaw, fazendo eco a Tho-
mas S. Kuhn. Pouco tempo depois, seu a.migo relativista Bill Burke
convencia-se de que o veloéímetro de seu carro estava chocalhan-
do ao jeito não-linear de um atrator estranho. E Shaw, iniciando um
projeto experimental que o ocuparia nos anos seguintes, adotou o
sistema dinâmico mais doméstico que um físico poderia imaginar:
uma torneira que pinga. A maioria das pessoas imagina que o gote-
jar de uma torneira é sempre periódico, mas isso não ocorre neces-
sariamente, como revela um momento de experimentação. "É um
exemplo simples2 3 de um sistema que passa de um comportamen-
to previsível para um comportamento imprevisível", disse Shaw. "Se
abrirmos um pouco a torneira, podemos ver um regime onde o go-
tejar é irregular. Na verdade, não é um padrão previsível além de um
curto tempo. Assim, até mesmo algo tão simples como uma tornei-
ra pode gerar um padrão que é eternamente criativo."
Como geradora de organização, a torneira que pinga pouca coi-
sa oferece como material de trabalho. Gera apenas gotas, e cada pin-
go é mais ou menos como o último. Mas, para quem começava a
investigar o caos, a torneira gotejante revelou certas vantagens. To-
dos tinham dela uma imagem mental já pronta. O fluxo de dados
é tão unidimensional quanto possível: uma batida rítmica de pon-
tos isolados, medid9s no tempo. Nenhuma dessas qualidades po-
deria ser encontrada nos sistemas que o grupo de Santa Cruz ex-
plorou mais tarde 24 - o sistema de imunização humano, por
exemplo, ou o perturbador efeito beam-beam que estava degradanc
do, inexplicavelmente, o desempenho dos feixes de partículas em
colisão no Centro de Acelerador Linear Stanford, mais ao norte. Ex-
perimentadores como Libchaber e Swinney obtiveram um fluxo
unidimensional de dados colocando uma sonda arbitrariamente
num ponto, num sistema levemente mais complexo. Na torneira go-
tejante, a linha única de dados é tudo o que há. E não é nem mesmo
uma velocidade ou temperatura que varia continuamente - ape-
nas uma lista de intervalos de gotas.
Se lhe pedissem para organizar um ataque a esse sistema, o fí-
sico tradicional poderia começar fazendo um modelo físico tão com-
pleto quanto possível. Os processos que governam a criação e in-
terrupção dos pingos são compreensíveis, embora não sejam tão
simples quanto poderiam parecer. Uma variável importante é a ta-
xa de fluxo. 2 s (Tem de ser lento em comparação com a maioria dos

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sistemas hidrodinâmicos. Shaw geralmente examinava taJClS de que-
da de 1 a 10 por segundo, o que significava uma taxa de fluxo de
30 a 300 gpf- galões por quinzena.) Outras variáveis abrangem a
viscosidade do fluido e a tensão de superfície. Uma gota d'água pen-
durada na torneira, esperando para cair, assume uma complicada
forma tridimensional, e o cálculo dessa forma, apenas, era, como
disse Shaw, "uma demonstração do progresso do cálculo compu-
tacional".26 Além disso, a forma está longe de ser estática. Uma go-
ta que se enche de água é como um pequeno saco elástico de ten-
são superficial, oscilando de um lado para outro, ganhando massa
e estendendo suas paredes até chegar a um ponto crítico e
desprender-se. O físico que tentasse fazer o modelo do problema
da gota, completamente - anotando séries de equações diferen-
ciais parciais não-lineares acopladas com condições de limite ade-
quadas e, em seguida, tentando resolvê-las- acabaria perdido nu-
ma mata cerrada.
Uma abordagem alternativa seria esquecer a física e examinar
apenas os dados, como se viessem de uma caixa preta. Dada uma
lista de números que representam intervalos entre gotas, poderia
um especialista em dinâmica caótica ter alguma coisa útil a dizer?
Na verdade, como se comprovou, era possível imaginar métodos
de organizar esses dados e trabalhar num retorno à física, e tais mé-
todos tornaram-se críticos p~ra a aplicabilidade do caos aos proble-
mas do mundo real.
Shaw, porém, começou a meio caminho entre esses extremos,
fazendo uma espécie de caricatura de um modelo físico completo.
Ignorando a forma dos pingos, ignorando movimentos complexos
em três dimensões, ele resumiu grosseiramente a física do pingo.
=Imaginou um peso pendurado numa mola. Imaginou que o peso
crescia constantemente com o tempo. Ao crescer, a mola se disten-
dia e o peso descia cada vez mais. Quando chegava a certo ponto,
uma parte dele se desligava. O volume que se separava, como Shaw
supôs de forma arbitrária, dependia rigorosamente da velocidade
do peso descendente, quando atingia o ponto de rompimento.
Em seguida, como era natural, o peso remanescente subia no-
vamente, como fazem as molas, com oscilações que os estudantes
de pós-graduação aprendem a similar usando equações padrões. O
interessante no modelo - o único interesse a torção não-linear que
tornava possível o comportamento caótico - era que o pingo se-
guinte dependia da interação da mola com o peso que aumentava
constantemente. Um salto para baixó ajudaria o peso a chegar ao
ponto de rompimento muito mais cedo, ou um pulo para cima po-
deria retardar o processo levemente. Com uma torneira real, os pin-
gos não são todos do mesmo tamanho. O tamanho depende da ve-

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locidade do fluxo e da direção do salto. Se o pingo já começa a sua
vida descendo, então ele se separará mais cedo. Se estiver no pe-
ríodo em que a mola sobe, então ele poderá encher-se um pouco
mais, antes de separar-se. O modelo de Shaw tinha a justa medida
de imperfeição para poder ser resumido em três equações diferen-
ciais, o mínimo necessário para o caos, como Poincaré e Lorenz ti-
nham mostrado. Mas geraria tanta complexidade quanto uma tor-
neira real? E seria a conipléxidade do mesmo tipo?
Shaw viu-se sentado num laboratório no edifício de física, com
uma grande banheira plástica de ágl!a sobre a cabeça, um cano des-
cendo até um bocal de bronze da melhor qualidade. Cada gota, ao
cair, interrompia um feixe de luz, e um microcomputador na sala
ao lado registrava o tempo. Enquanto isso, Shaw submetia suas três
equações arbitrárias ao computador analógico, produzindo uma
serie de dados imaginários. Certo dia, fez uma exibição para os pro-
fessores - um "pseudo-colóquio",27 como disse Crutchfield, pois
alunos de pós-graduação não podiam realizar colóquios formais.
Shaw tocou uma fita de uma torneira pingando sobre uma lata. E
fez o computador trabalhar clique-clique-clique num seco ritmo sin-
copado, revelando padrões auditivos. Tinha resolvido o problema
simultaneamente pela frente e por trás, e seus ouvintes podiam ou-
vir a estrutura profunda nesse sistema aparentemente desordena-
do. Mas, para ir adiante, o grupo precisava de uma maneira de co-
lher dados brutos de qualquer experimento e remontar às equações
e atratores estranhos que caracterizavam o caos.
Com um sistema mais complicado, seria possível imaginar a
plotagem de uma variável contra outra, relacionando asmudanças
de temperatura ou a velocidade com a passagem do tempo. Mas a
torneira gotejante proporcionava apenas uma série de tempos. Por-
tanto, Shaw tentou uma técnica que pode ter sido a mais inteligen-
te e a mais duradoura contribuição prática do grupo de Santa Cruz
para o progresso do caos. Era um método de reconstituir um espa-
ço de fase para um atrator estranho oculto, e podia ser aplicado a
qualquer série de dados. Para os dados da torneira gotejante, Shaw
fez um gráfico bidimensional, no qual o eixo x representava um in-
tervalo de tempo entre dois pingos, e o eixo y representava o inter-
valo de tempo seguinte. Se 150 milissegundos transcorriam entre
o pingo um e o pingo dois, e então 150 milissegundos passavam entre
o pingo dois e o três, ele plotava um ponto na posição 150-150.
Isso bastava. Se os pingos eram regulares, como tendia a acon-
tecer quando a água fluía lentamente e o sistema estava em seu "re-
gime de relógio d 'água", o gráfico era monótono, como devia. To-
do ponto caía no mesmo lugar. O gráfico era um ponto único. Ou
quase. Na realidade, a primeira diferença entre a torneira gotejante

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do computador e a torneira real era estar a,xersão real sujeita ao ruí-
do, e ser excessivamente sensível. "Evidenciou-se que a coisa é um
excelente sismômetro", disse Shaw ironicamente, "muito eficien-
te rta transposição do ruído das pequenas escalas para as grandes
escalas". 28 Shaw terminou fazendo a maior parte do seu trabalho à
noite, quando era menor o movimento pefos corredores. O ruído
significava que, em lugar do ponto único previsto pela teoria, ele
veria uma mancha de contorno impreciso.
Quando o fluxo era aumentado, o sistema entrava numa bifur-
cação de duplicação de período. As gotas caíam aos pares. Um in-
tervalo podia ser de 150 milissegundos e o seg~int, de 80. Assim,
o gráfico mostrava. duas manchas imprecisas, uma centrada em
150-80 e a outra, em 80-150. O verdadeiro teste ocorreu quando o
padrão se tornou caótico. Se fosse realmente aleatório, os pontos
se espalhariam por todo o gráfico. Não haveria nenhuma relação en-
tre um intervalo e o intervalo seguinte. Mas, se um atrator estranho
estivesse oculto nos dados, poderia revelar-se.como umacoalescên-
cia de imprecisão em estruturas distinguíveis.
Eram, com freqüência, necessárias três dimensões para ver-
se a estrutµra, mas isso não constituía problema. A técnica podia
ser facilmente generalizada no gráfico de maior dimensão. Em lu-
gar de plotar o intervalo n contra o intervalo n + 1, podia-se plotar
o intervalo n + 1 contra o intervalo n + 2. Era um recurso - um tru-
que. Habitualmente, um gráfico tridimensional exigia o conheci-
mento de três variáveis independentes num sistema. O recurso da-
va três variáveis pelo preço de uma. Refletia a fé que esses cientis-
tas tinham em que a ordem estava tão profundamente arraigada na
desordem aparente que encontraria um modo de expressar-se, mes-
mo para experimentadores que não sabiam quais as variáveis físi-
cas a serem medidas, ou que não eram capazes de medir essas va-
riáveis diretamente. Como disse Farmer: "Quando se pensa numa
variável, a sua evolução deve ser influenciada por quaisquer Outras
variáveis com as quais interage. Seus valores devem estar, de algú-
ma forma, contidos na história dessa coisa. Sua marca deve, de al-
guma forma, estar ali." 2 9 No caso da torneira gotejante de Shaw, as
imagens ilustravam o argumento. Especialmente em três dimensões,
os padrões apareciam, assemelhando-se a anéis de fumaça deixa-
dos por um avião da esquadrilha da fumaça que tivesse perdido o
controle. Shaw pôde estabelecer correspondência entre os pontos
dos dados experimentais com os dados produzidos pelo seu mo
delo obtido no computador analógico, estando a principal diferença
no fato de serem os dados reais sempre menos precisos, perturba-
dos pelo ruído. Mesmo assim, a estrutura era inequívoca. O grupo
de Santa Cruz começou a colaborar com experimentalistas hábeis

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como Harry Swinney, que se transferira para a Universidade do Te-
xas em Austin, e aprendeu como identificar atratores estranhos em
todos os tipos de sistemas. Era uma questão de inserir os dados nurn
espaço de fase de dimensões suficientes. Em pouco tempo Floris
Takens, que tinha inventado atratores estranhos com David Ru<:tlle,
deu, independentemente, uma base matemática a essa vigorosa téc-
nica de reconstituição do espaço de fase de um atrator, a-partir de
dados reais.3° Como incontáveis pesquisadores logo descobriram,
a técnica distingue entre mero ruído e caos, no novo sentido: de-
sordem ordenada criada por processos simples. Dados realmente
aleatórios permanecem espalhados numa confusão indefinida. Mas
o caos - determinista e com um padrão - organiza os dados em
form;is visíveis. De todos os possíveis caminhos da desordem, a na-
tureza escolhe apenas uns poucos

A transição de rebelde para físico foi lenta. De vez em quan-


do, sentado num café ou trabalhando emseu laboratório, algum dos
membros do grupo tinha de controlar o espanto pelo fato de já não
ter acabado aquela fantasia científica. Meu Deus, ainda estamos ja-
zendo isso, e ainda tem sentido, diriaJim Crutchfield.3 1 Continua-
mos aqui. Até onde irá isso?
Seus principais apoios no corpo docente eram o protegido de
Smale, Ralph Abraham no departamento de matemática; e no de fí-
sica, Bill Burke, que se fizera o "tzar do computador analógico' ' pa-
ra proteger o direito de o corpo coletivo usar esse equipamento, pelo
menos. O resto dos professores de física se viam numa posição mais
difícil. Alguns anos mais tarde, alguns deles negaram, .32 com vee-
mência, que o corpo coletivo tivesse sido forçado a vencer a indi-
ferença ou a oposição do departamento. O corpo coletivo reagiu
com a mesma veemência ao que considerava uma história revisio-
nista da parte de conversos de última hora ao caos. "Não tínhamos
orientador, ninguém que nos dissesse o que fazer", explicou
Shaw. 33 "Estivemos no papel de adversários durante anos, e isso
continua até hoje. Nunca fomos financiados em Santa Cruz. Todos
nós trabalhamos durante consideráveis períodos sem salário, e foi
sempre uma operação paupérrima, sem nenhuma orientação inte-
lectual, nem qualquer outra."
O corpo docente, porém, acha que tolerou, e até mesmo abri-
·gou, um longo período de pesquisa que parecia estar fora de qual-
quer tipo de ciência substancial. O orientador da tese de Shaw em
supercondutividade manteve seus pagamentos durante um ano,
mais ou menos, muito depois de ter Shaw deixado a física de baixa
temperatura. Ninguém mandou que a pesquisa sobre caos fosse sus-
pensa. No máximo, o corpo docente adotou uma atitude de desen-

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corajamento benévolo. Todos os membros do corpo coletivo ou-
viam, de tempos em tempos, uma conversa sincera, em que eram
advertidos de que, mesmo que se arranjasse um jeito de justificar
os doutorados, ninguém poderia ajudá-los a arranjar empregos num
campo inexistente. Isso pode ser uma moda, diziam os professo-
res, e depois dela onde ficarão vocês? Mas fora do abrigo entre as
sequóias dos morros de Santa Cruz, o caos estava criando sua pró-
pria instituição científica, e o Corpo Coletivo dos Sistemas Dinâ-
micos tinha de ingressar nela.
Houve um ano em que Mitchell Feigenbaum apareceu, fazen-
do Circuito de conferências para explicai sua descoberta.d a univer-
salidade. Como sempre, suas palestras eram muito matemáticas: a
teoria do grupo de renormalização era uma manifestação esotérica
da física da matéria condensada que o grupo não tinha estudado.
Além disso, o corpo coletivo estava mais interessado em sistemas
reais3 4 de que em delicados mapas unidimensionais. Doyne Far-
mer, nesse meio-tempo, ouviu dizer que um matemático de Berke-
ley, Oscar E. I.anford III, estava investigando o caos, e foi conver-
sar com ele. I.andford ouviu educadamente,35 depois olhou para
Farmer e disse que nada tinha em comum. Estava tentando com- ·
preender Feigenbaum. ·
Que desinteresse! Onde está o senso de amplitude desse su-
jeito?, pensou Farmer. "Ele estava olhando para aquelas pequenas
órbitas. Enquanto isso, nós estávamos na teoria da informação, com
toda a sua profundidade, desmontando o caos, 'vendo o que o fazia ·
funcionar, tentando relacionar a entropia métrica e os expoentes
de 1..fapunov com medidas mais estatísticas."
Em sua conversa com Farmer, I.anford não enfatizou a univer-
salidade, e só mais tarde o primeiro percebeu que não tinha com-
preendido. "Foi ingenuidade da minha parte'', disse Farmer.36 ''A
idéia da universalidade não era um grande resultado. A coisa de Mit-
chell era também uma técnica para empregar todo um exército de
gente desempregada, ligada aos fenômenos ·críticos.
' 'Até então, parecia que os sistemas não-lineares teriam de ser
tratados caso a caso. Estávamos tentando encontrar uma linguagem
para quantificá-los e descrevê-los, mas ainda assim parecia que tu-
do teria de ser tratado caso a caso. Não víamos como colocar os sis-
temas em classes e escrever soluções que fossem válidas para toda
a classe, como em sistemas lineares. A universalidade significava en-
contrar propriedades que fossem exatamente as mesmas em formas
quantificáveis para tudo naquela classe. Propriedades previsíveis.
Por isso era realmente importante.
"E havia um fator sociológico que bombeava ainda mais com-
bustível. Mitchell colocou seus resultados na linguagem da tenor-

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malização. Adotou toda essa maquinaria que as pessoas ligadas aos
fenômenos críticos tinham aprendido a usar. Aqueles sujeitos es-
tavam enfrentando dificuldades, pprque não parecia restar proble-
mas interessantes para deles se ocuparem. Estavam em busca de al-
guma outra coisa para nela aplicar seus truques. E de repente Fei-
genbaum apareceu com seu uso, extremamente importante, desses
truques. Deu origem a toda uma subdisciplina."
Independentemente,. porém, os estudantes de Santa Cruz co-
meçaram a causar uma impressão própria. Dentro do departamen-
to a sua estrela começou a subir depois de um comparecimento de
surpresa a um congresso, em meados do inverno, sobre fisica da ma-
téria condensada, em Laguna Beach, em 1978, organizado por Ber-
nardo Huberman, do Centro de Pesquisa da Xerox em Palo Alto e
pela Universidade de Stanford. O corpo coletivo não foi convida-
do, mas mesmo assim compareceu, amontoando-se na caminho-
nete Ford 1959 de Shaw, de estilo rural, um carro conhecido como
Sonho Creme. Por via das dúvidas, o grupo levou algum equipamen-
to, inclusive um enorm~ monitor de televisão .e um videoteipe.
Quando um orador convidado cancelou sua presença no último mi-
nuto, Huberman convidou Shaw a substituí-lo. O momento era per-
feito. O caos tinha alcançado certa fama, mas poucos entre os físi-
cos presentes sabiam o que significava. Shaw começou explican-
do os atratores no espaço de fase: primeiro, pontos fixos (onde tu-
do pára); depois, ciclos de limites (onde tudo oscila); em seguida,
atratores estranhos (todo o resto). Demonstrou, com seus gráficos
de computador em videoteipe. ("Os recursos audiovisuais nos de-
ram uma vantagem", disse ele.37 "Podíamos hipnotizá-los com as
luzes brilhantes".) Mostrou o atrator de LÜrenz e a torneira gotejan-
te. Explicou a geometria - como as formas se distendem e se do-
bram, e o que significa isso em termos gerais da teoria da informa-
ção. Além disso, referiu-se no fim aos paradigmas instáveis. A pa-
lestra foi um triunfo popular, e entre os presentes estavam vários
professores de Santa Cruz, pela primeira vez vendo o caos pelos
olhos de seus colegas.

Em 1979 todo o grupo compareceu ao segundo congresso so-


bre o caos promovido pela Academia de Ciências de Nova York, e
agora como participantes, pois o campo estava estourando. O con-
gresso de 1977 tinha sido de Lorenz, com a presença de dezenas de
especialistas. Ó de 1979 era de Feigenbaum, e os cientistas compa-
receram às centenas. Se dois anos ántes Rob Shaw tinha; timidamen-
te, tentado encontrar uma máquina para escrever um trabalho que
pudesse colocar debaixo da porta dos colegas, agora o Corpo Co-

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letivo dos Sistemas Dinâmicos tornara-se uma verdadeira impres-
sora, produzindo artigos rapidamente, e sempre de autoria conjunta.
Mas o corpo coletivo não podia durar para sempre. Quanto
mais se aproximava do mundo real da ciência, mais perto ficava de
um desmembramento. Certo dia, Bernar.d o Huberman telefo-
nou.38 Perguntou por Rob Shaw, mas acabou falando com Crutch-
field. Huberman precisava de um colaborad9r para um artigo con-
ciso, simples, sobre o caos. Crutchfield, o membro mais jovem do
corpo coletivo, preocupado em não ser visto apenas como um "agre-
gado", estava começando a compreender que sob um aspecto o cor-
po docente de Santa Cru2! tinha razão: cada um deles teria, algum
dia, de ser julgado individualmente. Hubermari tinha, além disso,
toda a sofisticação da profissão de físico que faltava aos estudantes
e, em especial, sabia como aproveitar o máximo de determinado
trabalho. Tinha suas dúvidas, tendo visto o laboratório do grupo
- "era tudo muito vago, você sabe, sofás e sacos de feijão, era co-
mo entrar numa máquina do tempo, filhos das flores e novamente
a década de 60".39 Precisava, porém, de um computador analógi-
co, e de fato Crutchfield conseguiu processar seu programa de pes-
quisa em poucas horas. O corpo coletivo era um problema, porém.
"Todos os outros querem entrar também", disse Crutchfield a cer-
ta altura, e Huberman foi absolutamente contra. "Não é apenas a
questão do crédito, é a responsabilidade. Suponhamos que o arti-
go esteja errado - vai responsabilizar um corpo coletivo? Eu não
sou parte de um corpo coletivo." Ele queria um colaborador para
um trabalho específico.
O resultado foi exatamente o esperado por Huberman: o pri-
meiro trabalho40 sobre o caos publicado pela principal revista ame-
rieana que divulgava as descobertas em física, a Physical Review
Letters. Em termos de política científica, não foi uma realização co-
mum. "Para nós, era tudo matéria óbvia'', disse Crutchfield, "mas
o que Bernardo compreendeu foi que teria um grande impacto''. Era
também o começo da assimilação do grupo pelo mundo real. Far-
mer ficou irritado, 41 vendo na defecção de Crutchfield um enfra-
quecimento do espírito coletivo.
Crutchfield não foi o único a sair do grupo. Pouco tempo de-
pois o próprio Farmer, e Packard também, estavam colaborando com
físicos e matemáticos renomados: Huberman, Swinney, Yorke. As
idéias fermentadas no caldeirão de Santa Cruz tornaram-se parte só-
lida da estrutura do estudo moderno dos sistemas dinâmicos. Quan-
do um físico com uma grande quantidade de dados queria investi-
gar sua dimensão ou sua entropia, as definições adequadas e as téc-
nicas funcionais bem poderiam ser as criadas nos anos de manu-
seio de pinos no computador analógico Systron-Donner e de ob-

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servação do osciloscópio. Os especialistas em dima42 discutiam se
o caos da atmosfera e oceanos do mundo tinham dimensões infi-
nitas, como supunham os especialistas em dinâmica, ou seguiam,
de alguma forma, um atrator estranho de baixa dimensão. Os eco-
nomistas, ao analisarem dados do mercado de ações, 43 tentavam
descobrir atratores da dimensão 3,7 ou 5,3 . Quanto mais baixa a
dimensão, mais simples o sistema. Muitas singularidades matemá-
ticas tiveram de ser isoladas e compreendidas. A dimensão írac-
tal, 44 a dimensão Hausdorff, a dimensão Lyapunov, a dimensão da
. informação - as sutilezas dessas medidas de um sistema caótico
forám mais bem explicadas por Farmer e Yor.ke. A dimensão de um
atrator era "o primeiro nível de conhecimento necessário para ca-
racterizar suas propriedades". 4s Era o aspecto que daV.a "o volume
de informação necessários·para especificara posição de um ponto
no atrator, dentro de determinada precisão". Os métodos do gru-
po de Santa Cruz e seus colaboradores mais velhos relacionaram
essas idéias com outras importantes medidas de sistemas: o índice
de decadência da previsibilidade, o índice do fluxo de informação,
a tendênda para criar mistura. Por vezes, ao usarem esses métodos,
os cientistas viam-se plotando dados, desenhando pequenas caixas ·
e contando o número de pontos de dados em cada caixa. Contu-
. do, mesmo essas técnicas aparentemente grosseiras colocaram os
sistemas caóticos pela primeira vez ao alcance do entendimento
científico.
Enquanto isso, tendo aprendido a procurar atratores estranhos
em bandeiras tremulantes e velocímetros barulhentos, os cientis-
tas empenharam-se em descobrir os sintomas do caos determinis-
ta em toda a bibliografia corrente de física. Ruído inexplicado, va-
riações surpreendentes, regularidade combinada com irregularidade
- esses efeitos apareciam em artigos de experimentalistas que es-
tudavam tudo, desde aceleradores de partículas a lasers e junções
Josephson. Os especialistas em cáos adotariam como seus esses sin-
tomas, dizendo aos não-conversos, com efeito, que os problemas
de ambos eram iguais. "Vários experi:'llentos em osciladores de jun-
ção Josephson revelaram um notável fenômeno de ruído, come-
çava um artigo, "que não pode ser explicado em termos das varia-
ções térmicas".
Quando o corpo coletivo se desfez, alguns dos professores de
Santa Cruz tinham aderido ao caos, também. Outros fisicos, porém,
achavam, numa visão retrospectiva, que Santa Cruz tinha perdido
a qportunidade de começar o tipo de centro nacional para pesqui-
sas em dinâmica não-linear que dentro em pouco surgiam em ou-
tras universidades. Em princípios da' década de 80 os membros do
corpo coletivo formaram-se, e se dispersaram. Shaw terminou sua

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tese em 1980, Farmer em 1981, Packard em 1982. A de Crutchfield
apareceu em 1983, uma miscelânea tipográfica em que páginas da-
tilografadas entremeavam-se com nada menos de U artigos já pu-
blicados em revistas de física e matemática. Ele foi para a Universi-
dade da Califórnia em Berkeley. Farmer ingressou na Divisão Teó-
rica de Los Alamos. P'ackard e Shaw, no Instituto de Estudos Avan-
çados, em Princeton. Crutchfield estudou loops retroalimentado-
res de vídeo. Farmer trabalhou em fractais gordos (''fatfractals")
e fez um modelo da dinâmica complexa do sistema de imunização
humano. Packard investigou o caos espacial e a formação de flocos
de neve. Apenas Shaw reluiou em seguir as tendências predominan-
tes. Seu influente legado compreendia apenas dois ensaios, um que
lhe tinha assegurado uma viagem a Paris e outro, sobre a torneira
gotejante, que resumia toda a sua pesquisa em Santa Cruz. Por vá-
rias vezes, esteve em via de deixar totalmente a ciência. Como dis-
se um de seus amigos, ele estava oscilando.

Notas
1 - Farmer, Shaw, Crutchfield, Packard, Burke, Nauenberg, Abrahams, Guckenhei-
mer. O essencial de Robert Shaw, aplicando a teoria da informação ao caos,
The Dripping Faucet as a Model Chaotic System (Santa Cruz, Aerial, 1984),
juntamente com "Strange Atractors, Chaotic Behavior and Information
Theory", Zeitschriftfür Naturforschung, 36a (1981), p. 80. Uma exposição
sobre as aventuras da roleta de alguns dos alunos de Santa Cruz, revelando
muito do clima daqueles anos, encontra-se em Thomas Bass, The Eudemo-
nic Pie (Boston, Houghton Mifflin, 1985).
2 - Shaw.
3 - Burke, Spiegel.
4 - Edward A. Spiegel, "Cosmic Arrhythmias", em Chaos in Astrophysics ] .R.
Buchler et ai; orgs. (Nova York, D. Reide!, 1985), pp. 91-135 .
5 - Farmer, Crutchfield.
6 - Shaw, Crutchfield, Burke.
7- Shaw.
8-Abraham.
9 - Farmer é a principal figura e Packard é uma figura secundária em The Eude-
monic Pie, a história do projeto da roleta, escrita por um ex-associado ao grupo.
10 - Burke, Farmer, Crutchfield.
11 - Shaw.
12 - Ford.
13 - Shaw, Farmer.

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14 - O texto clássico, ainda bastante legível, é Claude E. Shannon e Warren Wea-
ver, Tbe Matbematical Tbeory of Communication (Urbana, University of Il-
linois, 1963), com uma útil introdução de Weaver.
15 - lbid., p. 13 .
16 - Packard.
17 - Shaw.
18 - Shaw, Farmer.
19 - "Strange Attractors, Chaotic Behavior, and Information Flow".
20 - Sinai, Comunicação pessoal.
21 - P-ackard.
22 - Shaw.
23 - Shaw.
24 - Farmer: uma abordagem dos sistemas dinâmicos à imagem dos sistemas de
imunidade, e capacidade que tem o corpo humano de "lembrar-se"e reconhe-
cer padrões de maneira criativa, é feita em]. Doyne Farmer, Norman H. Pac-
kard e Alan S. Perlson, "The Immune System, Adaptation, and Machine Lear-
ning", pré-publicação, Laboratório Nacional de Los Alamos, 1986.
25 - Tbe Dripping Faucet, p. 4.
26 - lbid.
27 - Crutchfield.
28- Shaw.
29- Farmer.
30 - Esses métodos,.que se tornaram o sustentáculo da técnica experimental em
muitos éampos difernt ~ ; foram muito aperfeiçoados e ampliados pelos pes-
quisadores de Santa Cruz, e outros experimentalistas e teóricos. Uma das pro-
postas chave de Santa Cruz foi Nornam H. Packard, James P. Crutchfield,].
Doyne Farmer e Robert Shaw (o crédito canônico], "Geometry from a Time
Series", Pbysical Review Letters, 47 (1980), p. 712. O trabalho mais influente
sobre o assunto, de Floris Takens, foi "Detecting Strange Attractors in Thrbu-
lence'', em Lecture Notes in Matbematics, 898, D.A. Rand e L.S. Young, orgs.
(Berlim, Springer.:Verlag, 1981), p. 336. Uma resenha antiga, mas bastante am-
pla, das técnicas de reconstituição dos retratos de espaço de fase é Harold
Froehling, James P. Crutchfield, J. Doyne Farmer, Norman H. Packard e Ro-
ber.t S. Shaw, " On Determifiing the Dimension of Chaotic Flows'', Pbysica ,
3D (1981), pp. 605-17.
31 - Crutchfield.
32 - Por exemplo, Nauenberg.
33 - Shaw.
34 - Não que o grupo ignorasse totalmente os mapas. Crutchfield, inspirado pelo
trabalho de May, passou tanto tempo em 1978 fazendo diagramas de bifurca-
ção que teve barrado o seu acesso à plotadora do centro de computação. Um
·número demasiado grande de penas tinha sido destruído fazendo milhares
de pontos.
3 5 - Farmer.

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36 - Farmer.
37- Shaw.
38 - Crutchfield, Huberman.
39 - Huberman.
40 - Bernardo A. Huberman e James P. Crutchfield, "Chaotic States and Anhar-
monic Systems in Periodic Fields", Physica/ Review Letters, 43 (1979), p. 1743.
41 - Crutchfield.
42 - É um debate que continua na revista Nature, por exemplo.
43 - Ramsey.
44 - ]. Doyne Farmer, Edward Ott e James A. Yorke, "The Dimension of Chaotic
Attractors", Physica, 7D (1983), pp. 153-80.
45 - lbid., p. 154.

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C•A•O•S

Ritmos
Interiores
As ciênai.as não tentam explicar, dificilinente tentam se-
quer interpretar, elas fazem modelos, principalmente.
.Por modelo entenda-se um construto matemático que,
com o acréscimo de certas interpretações verbais, descre-
ve fenômenos observados. Ajustificação desse construto
matemático é apenas, e precisamente, o que se espera que
funcione.
- JOHN VON NEUMANN

B ERNARDO HUBERMAN olhou 1 para o seu auditório,


composto de biólogos teóricos e experimentais, matemá-
ticos e físicos puros, e psiquiatras, e compreendeu que
enfrentava.um problema de comunicação. Tinha acabado de pro-
nunciar uma palestra pouco comum, numa reunião pouco comum,
em 1986- a primeira grande conferência sobre o caos na biologia
e medicina, sob os auspícios variados da Academia de Ciências de
Nova York, do Instituto Nacional de Saúde Mental e do Departamen-
to de Pesquisa Naval. No cavernoso Auditório Masur do Instituto
Nacional de Saúde, nas vizinhanças de Washington, Huberman via
muitos rostos conhecidos, especialistas em caos de longa data, e mui-
tos outros desconhecidos, também. Um orador experiente podia
esperar certa impaeiência do público - era o último dia do encon-
tro, e a hora do almoço aproximava-se perigosamente.
Huberman, um elegante californiano de cabelos pretos, trans-
plantado da Argentina, tinha um interesse pelo caos desde a sua co-
laboração com membros do grupo de Santa Cruz. Era pesquisador
do Centro de Pesquisas da Xerox em Palo Alto, mas às vezes se vol-

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tava para projetos que não pertenciam à área da companhia, e ali,
naquela conferência de biologia, acabava de descrever um desses
projetos: um modelo para o movimento irregular dos olhos doses-
quizofrênicos.
Os psiquiatras vêm lutando há gerações para definir a esqui-
zofrenia e classificar os esquizofrênicos, mas a doença tem se mos-
trado quase tão difícil de descrever quanto de tratar. A maior parte
de seus sintomas surgem na mente e no comportamento. Desde
1908, porém, os cientistàs conhecem uma manifestação física da
doença que parece atingir não só os esquizofrênicos, como também
seus parentes. Quando os pacientes tentam olhar um pêndulo que
oscila lentamente, seus olhos não conseguem acompanhar o mo-
vimento suave. O olho é, quase sempre, um instrumento notavel-
mente capaz. Os olhos de uma pessoa sadia fixam-se em alvos mó-
veis sem o menor pensamento consciente; as imagens móveis per-
manecem congeladas no mesmo lugar, na retina. Mas os olhos de
um esquiwfrênico pulam de um lado para outro, sem seqüência,
em pequenos movimentos, indo além ou ficando aquém do alvo,
e criando um halo constante de movimentos estranhos. Ninguém
·sabe por quê.
Os fisiologistas reuniram grande volume de dados, no decor-
rer dos anos, preparando quadros e gráficos para mostrar os padrões
do movimento irregular dos olhos. Eles supunham, em geral, que
as variações decorriam de variações no sinal vindo do sistema ner-
voso central, que controla os músculos dos olhos. Um resultado com
ruído significava um insumo também com ruído, e talvez alguma
perturbação aleatória que afetasse os cérebros dos esquizofrênicos
se estivesse revelando nos olhos. Huberman, físico, tinha outra opi-
nião, e fez um modelo modesto.
Refletiu, nos termos mais simples possíveis, sobre a mecâni-
ca dos olhos e escreveu uma equação. Havia um termo para a am-
plitude da oscilação do pêndulo e um te.r mo para a sua freqüência.
Havia um termo para a inércia do olho. Havia um termo para o amor-
tecimento, ou atrito. E havia termos para a correção do erro, para
dar ao olho uma maneira de firmar-se em seu alvo.
Como Huberman explicou para seus ouvintes, a equação re-
sultante descreve um sistema mecânico análogo: unia bola rolan-
do poruma calha curva, enquanto a calha oscila de um lado para
outro. O movimento de oscilação corresponde ao movimento do
pêndulo, e as paredes da calha correspondem ao elemento de cor-
reção do erro, tendendo a levar a bofa de volta para o centro. No
estilo hoje padrão de explorar tais equações, Huberman tinha pas-
sado seu modelo, durante horas, num computador, mudando os vá-
rios parâmetros e fazendo gráficos dos comportamentos rdultan-

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tes. Encontrou tanto ordem como caos. Em alguns regimes, o olho
corria suavemente; depois, com o aumento do grau de não-
linearidade, o sistema entrava numa rápida seqüência de çiuplica-
ção de período, e produzia uma espécie de desordem, indistinguí-
vel da desordem relatada nos trabalhos médicos.
No modelo, o comportamento irregular nada tinha a ver com
qualquer sinal exterior. Era uma conseqüência inevitável de uma não-
linearidade excessiva do sistema. Para alguns dos médicos que o
ouviam, o modelo de Huberman parecia corresponder a um mo-
delo genético plausível para a esquizofrenia. Uma não-linearidade
que pudesse estabilizar o sistema ou desorganizá-lo, dependendo
da força ou da fraqueza da não-linearidade; poderia corresponder
a um único traço genético. Um psiquiatra comparou o conceito à
genética da gota, na qual um nível demasiado elevadó de ácido úri-
co cria sintomas patológicos. Outros, mais familiarizados do que
Huberman com a literatura clínica, observaram que os esquizofrê-
nicos não estavam sós: toda uma gama de problemas de movimen-
to dos olhos podia ser encontrada em diferentes tipos de pacientes
neurológicos. Oscilações periódicas, oscilações aperiódicas, todos
os tipos de comportamento dinâmico podiam ser encontrados nos
dados por quem se desse ao trabalho de voltar atrás e aplicar as fer-
ramentas do caos.
Mas, para cada cientista presente que via novas linhas de pes-
quisa se abrirem, havia outro que desconfiava ter Huberman sim-
plificado demais, e grosseiramente, o seu modelo. Quando chegou
a hora das perguntas, seu aborrecimento e sua frustração se eviden-
ciaram. "Meu problema é: o que o orientou na feitura desse mode-
lo?", disse um dos cientistas. "Por que buscar esses elementos es-
pecíficos de dinâmica não-linear, ou seja, essas bifurcações e solu-
ções caóticas?" ,
Ht.iberman fez uma pausa. ''.Ah, muito bem. Então falhei real-
mente em expor a finalidade disto. O modelo é simples. Alguém me
procura e diz: vemos isto; o que acha que acontece? E eu pergun-
to: qual é a explicação póssível? E eles retrucam: bem, a única coi-
sa que podemos imaginar é que algo está variando em espaços muito
curtos em sua cabeça. E então eu digo: bem, vejam, sou um espe-
cialista em caos e sei que o modelo de rastreamento não-linear mais
simples que se pode formular, o mais simples, tem essas caracte-
rísticas genéricas, a despeito dos detalhes específicos. Mostro por-
tanto essas características, e as pessoas dizem: ah, é muito interes-
sante, nunca pensamos que talvez a coisa fosse o caos intrínseco no
sistema.
"O modelo não tem nenhum dado neurofisiológico que eu
possa sequer defender. Tudo o que digo é que o rastreamento mais

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~imples é alguma coisa que tende a incorrc;f em erro e ir para zero.
.E assim que mexemos os nossos olhos, e é assim que uma antena
rastreia um avião. Podemos aplicar o modelo a qualquer coisa."
Um outro biólogo presente, ainda frustrado pela simplicida-
de do modelo de Huberman, pegou o microfone. Nos olhos reais,
disse ele, quatro sistemas de controle de musculos operam simul-
taneamente. Começou uma descrição muito técnica do que consi-
derava um modelo realista, explicando que, por exemplo, o termo
"massa" é abandonado porque o olho é muito amortecido. "E há
mais uma complicação: o volume de massa presente depende da
velocidade de rotação, porque parte da massa fica para trás quan-
do o olho acelera muito rapidamente. A gelatina dentro dos olhos
fica para trás quando o invólucro exterior gira muito depress,a."
Pausa. Huberman estava numa situação difícil. Finalmente, um
dos organizadores da conferência, Arnold Mandell, um psiquiatra
que há muito se interessava pelo caos, tomou-lhe o microfone.
"Como psiquiàtra, quero faze.e uma interpretação. O que vo-
cês acabaram de ver é o que acontece quando um especialista em
dinâmica não-linear que trabalha com sistemas globais de baixa di-
mensão vai falar com um biólogo que usa instrumentos matemáti-
cos. A idéia de que na verdade há propriedades universais desiste-
mas, incorporadas has representações mais simples, atista todos.
nós. Portanto, a questão é: 'Qual é o subtipo da esquizofrenia?', 'Há
quatro sistemas motores oculares', e 'Qual é o modelo do ponto de
vista da estrutura física real', e tudo começa a se decompor.
"O que ocorre é que, como médicos ou cientistas que apren-
dem todas as 50.000 partes de tudo, vemos com desconfiança a pos-
sibilidade de haver, de fato, elementos universais do movimento.
Bernardo nos apresenta um, e vejam o que acontece."
Huberman disse: "Isso aconteceu na física há cinco anos, mas
agora já estão convencidos."

A opção é sempre a mesma. Podemos tornar nosso modelo


mais complexo e mais fiel à realidade, ou podemos tomá-lo mais
simples e de uso mais fácil. Só o cientista muito ingênuo acredita
que o modelo perfeito é aquele que representa perfeitamente a rea-
lidade. Esse modelo teria os mesmos defeitos de um mapa tão grande
e detalhado quanto a cidade que representa, um mapa retratando
todos os parques, todas as .ruas, todos os edifícios, todas as árvo-
res., todos os buracos, todos os habitantes e todos os mapas. Se tal
mapa fosse possível, sua especificidade destruiria seu propósito: ge-
neralizar e abstrair. Os cartógrafos ressaltam os aspectos que seus
' clientes desejam. Qualquer que seja o seu objetivo, mapas e modec
los devem simplificar tanto quanto reproduzem o mundo.

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Para Ralph Abraham, o matemático de Santa Cruz, um bom mo-
delo é o "mundo da margarida" de James E. Lovelock e Lynn Mar-
gulis, proponentes da chamada hipótese Gaia, na qual as condições
necessárias à vida são criadas e mantidas pela própria vida num pro-
cesso auto-mantenedor de retroalimentação dinâmica. O mundo.
·da margarida talvez seja a versão mais simples imaginável de Gaia,
tão simples que parece idiota. "Três coisas acontecem", como dis-
se Abraham, 2 1'margaridás brancas, margaridas pretas e um deser-
to sem plantas. Três cores: branco, preto e vermelho. Como é que
isso pode nos explicar alguma coisa sobre nosso planeta? Isso ex-
plica como surge a regulagem da temperatura. Explica por que es-
te planeta tem uma boa temperatura para a vida. O modelo do mun-
do da margarida é um modelo terrível, mas explica como a homeos-
tase foi criada na terra."
As margaridas brancas refletem a luz, tornando o planeta mais
frio. As margaridas pretas absorvem a luz, reduzindo o albedo, ou
refletividade, e com isso tornando o planeta mais quente. Mas as mar-
garidas brancas "querem'' um clima mais quente, significando isso
que elas florescem de preferência quando às temperaturas se ele-
vam. As margaridas pretas querem um clima frio. Essas qualidades
podem ser expressas numa série de equações diferenciais e o mundo
das margaridas pode ser posto em movimento num computador.
Uma ampla gama de condições iniciais levou a um atrator de equi-
líbrio - e não necessariamente a um equilíbrio estático.
''E apenas um modelo matemático de um modelo cónceitual,
e é isso o que vocês precisam - vocês não precisam de-modelos
de alta fidelidade de sistemas biológicos ou sociais'', disse Abraham.
''Basta incluir os albedos, fazer um plantio inicial e observar bilhões
de anos de evolução passarem. E vocês educam os filhos para se-
rem melhores membros da junta de diretores do planeta."
O modeio ideal de um sistema dinâmico complexo e para mui-
tos cientistas, portanto, a pedra de toque de qualquer abordagem
da complexidade é o corpo humano. Nenhum objeto de estudo ao
alcance dos físicos oferece tal cacofonia de movimento contra-
rí tmico em escalas que vão da macroscópica à microscópica: mo-
vimento dos músculos, dos fluidos, de correntes, de fibras, de cé-
lulas. Nenhum sistema físico prestou-se a um ramo tão obsessivo
do reducionismo: cada órgão tem sua microestrutura própria e sua
química peculiar, e os alunos de fisiologia passam anos estudando
apenas os nomes das partes. Não obstante, como pode ser difícil che-
gar a elas! Em sua forma mais concreta, uma parte do corpo pode
ser um órgão aparentemente bem definido, como o fígado. Ou po-
de ser uma rede, espacialmente desafiadora, de sólido e líquido co-
mo o sistema vascular. Ou pode ser um conjunto invsíe~ realmente

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tão abstrato quanto o "tráfego" ou a "democracia", como o sistema
imunológico, com seus linfócitos e mensageiros T4, uma máquina
de criptografia miniaturizada para codificar e decodificar dados so-
bre organismos invasores. Estudar esses sistemas sem o conheci-
mento detalhado de sua anatomia e sua química seria inútil, razão
pela qual os especialistas do coração estudam o transporte de íons
pelo tecido muscular ventricular, os especialistas do cérebro estu-
dam os detalhes elétricos das descargas de neurônios e os especia-
listas em olhos estudam o nome, localização e finalidade de todos
os músculos oculares. Na década de 80 o caos deu vida a um novo
gênero de fisiologia, construído sobre a idéia de que os instrumentos
matemáticos poderiam ajudar os cientistas a compreender sistemas
complexos globais, independentemente dos detalhes locais. Os pes-
quisadores reconheceram o corpo, 3 cada vez mais, como um local
de movimento e oscilação - e criaram métodos para ouvir seus va-
riados batidos. Descobriram ritmos que eram invisíveis em lâmi-
nas de microscópio congeladas, ou amostras diárias de sangue. Es-
tudaram o caos nos distúrbios respiratórios. Investigaram os me-
canismos de retroalimentação no controle dos glóbulos sangüíneos
vermelhos e brancos. Os especialistas do câncer especularam so-
bre a periodicidade e a irregularidade no ciclo de crescimento da
célula. Os psiquiatras exploraram uma abordagem multidimensional
do receituário de drogas contra a depressão. Mas descobertas sur-
preendentes sobre um órgão dominaram a ascensão dessa nova fi-
siologia- o coração, cujos ritmos animados, estáveis ou instáveis,
saudáveis ou patológicos, mediam com grande precisão a diferen-
ça entre a vida e a morte.

Até mesmo David Ruelle deixou o formalismo para especular


sobre o caos no coração - "um sistema dinâmico de interesse vi-
tal para todos nós'', escreveu ele.4
"O regime cardíaco normal é a periodicidade, mas há muitas
patologias não-periódicas (como a fibrilação ventricular) que levam t:
ao regime estacionário da morte. Parece que poderia haver grande
vantagem médica com estudos computadorizados de um modelo
matemático realista que reproduzisse os vários regimes cardíacos
dinâmicos.''
Equipes de pesquisadores nos Estados Unidos e Canadá acei-
taram o desafio. Há muito as irregularidades nas batidas cardíacas
tinham sido descobertas, investigadas, isoladas e categorizadas. Para
o ouvido treinado, dezenas de ritmos irregulares podem ser distin-
.guidos. Para o olho treinado, os desenhos cheios de pontas de um
eletrocardiograma oferecem indicações sobre a fonte e a serieda-
de de um ritmo irregular. O leigo pode perceber a riqueza do pro-

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blema pela abundância de nomes existentes para os diferentes ti-
pos de arritmias. Há batidas ectópicas, alternantes elétricos e tor-
sades de pointes. Há bloqueios e ritmos de escape de grau elevado.
Há parassístole (auricular ou ventricular, pura ou modulada). Há rit-
mos de Wenckebach (simples ou complexos). Há taquicardia. O mais
prejudicial deles às perspectivas de sobrevivência é a fibrilação. Esses
nomes de ritmos, como os nomes de partes, reconforta os médi-
cos. Permite a especificidade no diagnóstico das doenças do cora-
ção, e certo entendimento do problema. Os pesquisadores que em-
pregam os instrumentos do caos começaram, porém, a descobrir
que a cardiologia tradicional estava fazendo generalizações erradas
sobre as batidas irregulares, usando inadvertidamente classificações
superficiais para obscurecer causas profundas.
Descobriram o coração dinâmico: Quase sempre, a formação
desses pesquisadores nada tinha de comum. Leon Glass, da Univer-
sidade McGill em Montreal tinha estudado física e química, que lhe
despertaram também o interesse pelos números e pela irregulari-
dade, tendo completado sua tese de doutorado sobre movimento
atômico nos líquidos, antes de se ocupar do problema das batidas
cardíacas irregulares. Tipicamente, disse ele, os especialistas diag-
'il-:.
1
nosticam muitas arritmias diferentes examinando breves fitas de ele-
!' trocardiogramas. "Isso é tratado pelos médicos como um proble-
ma de reconhecimento de padrão, uma questão de identificar pa-
drões vistos antes na prática e nos manuais. Eles realmente não ana-
lisam em detalhe a dinâmica desses ritmos. A dinâmica é muito mais
rica do que se poderia pensar pela leitura dos manuais."5
Na Faculdade de Mediçina de Harvard, Ary L. Goldberger, co-
diretor do laboratório de arritmia do Hospital Beth Israel, de Bos-
ton, acreditava que a pesquisa do coração representava um início
de colaboração entre os fisiologistas e os matemáticos e fisicos. ''Es-
tamos numa nova fronteira, e uma nova classe de fenomenologfa
existe aí", disse ele. 6 "Quando vemos bifurcações, modificações
súbitas de comportamento, não há nada nos modelos lineares con-
Jr
~ i
vencionais para explicar isso. Precisamos, evidentemente, de uma
nova classe de modelos, e a física parece oferecê-los." Goldberger
e outros cientistas tinham superado barreiras de linguagem cientí-
fica e classificação institucional. Um obstáculo considerável, na sua
opinião, era a incômoda antipatia de muitos fisiologistas em rela-
ção à matemática. "Em 1986 não se encontrava a palavra 'fractais'
num livro de fisiologia'', disse ele. "Acho que em 1996 não se pode-
ra encontrar um livro de fisiologia sem ela."
O médico que ouve as batidas do coração percebe sibilar e o
choques de fluido contra fluido, fluido contra sólido e sólido con-
tra sólido. o sangue corre de câmara para câmara, espremido pe-

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los músculos que se contraem, e em seguida distende as paredes
que ficam à frente. Válvulas fibrosas fecham-se audivelmente para
evitar o retorno do fluxo. As próprias contrações musculares depen-
dem de uma complexa onda tridimensional de atividade elétrica.
A criação de um modelo de qualquer peça do comportamento do
coração seria um trabalho árduo para um supercomputador; fazer
um modelo de todo o ciclo interligado seria impossível. Os mode-
los de computador do tipo que parece natural a um especialista em
dinâmica de fluidos que projeta asas de aviões para a Boeing, ou flu-
xos de motores para a Administração Nacional de Aeronáutica e Es-
paço, é uma prática estranha aos tecnólogos médicos.
O método de tentativa e erro, por exemplo, tem governado os rf/
projetos de válvulas artificiais para o coração, esses aparelhos de me- f:
tal e plástico que hoje prolongam a vida das pessoas cujas válvulas
naturais se gastam. Nos anais da engenharia, um lugar especial de-
. ve ser reservado à válvula cardíaca da própria natureza, uma estru-
tura peliculosa, flexível, translúcida, de três pequenas ventosas se-
melhantes a pára-quedas. Para deixar entrar o sangue na câmara bom -
beadora do coração, a válvula tem de dobrar-se graciosamente, abrin-
do caminho. Para impedir que o sangue reflua quando o coração
o bombeia para frente, a válvula tem que encher-se e fechar-se sob
a pressão, e tem de fazê-lo sem deixar vazar nada, nem romper-se,
dois ou três bilhões de vezes. Engenheiros humanos não consegui-
ram isso. Válvulas artificiais, em geral, foram copiadas dos bombei-
ros : desenhos padrão, como "bola de jaula", testados com grande
ônus em animais. Superar os problemas óbvios de vazamento e fal
'ta por estresse foi bastante difícil. Poucos poderiam ter previsto co
mo seria ainda mais difícil eliminar outro problema. Ao mudar os
padrões de fluxo de fluido no coração, as válvulas artificiais criam
áreas de turbulência e áreas de estagnação; quando o sangue estag
na, forma coágulos; quando estes se soltam e chegam ao cérebro.
causam ataques. Esses coágulos foram a barreira fatal para os cora-
ções artificiais. Só em meados da década de 80, quando os mate-
máticos do Instituto Courant da Universidade de Nova York 7 apli-
caram ao problema novas técnicas de criar modelos pelo compu
tador, é que a manufatura de válvulas de coração começou a utili -
zar plenamente a tecnologia existente. Seu computador fez filmes
de um coração pulsando, bidimensionais mas perfeitamente reco-
nhecível. Centenas de pontos, representando partículas de sangue
fluem pela válvula, distendendo as paredes elásticas do coração t
criando redemoinhos. Os matemáticos verificaram que o coração
acrescenta todo um nível de complexidade ao problema do fluxo
de fluídos, porque qualquer modelo realista tem de levar em conta
a elasticidade das suas paredes. Em lugar de fluir soore uma super-

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fície rígida, como o ar sobre a asa de um avião, o sangue modifica
a superfície do órgão de maneira dinâmica e não-linear. ·
Ainda mais sutil, e muito mais mortal, foi o problema das ar-
ritmias. A fibrilação ventricular provoca centenas de milhares de
mortes súbitas, anualmente, só nos Estados Unidos. Em muitos des~
ses casos, a fibrilação tem uma causa específica, bem conhecida:·
bloqueio das artérias, que leva à morte do músculo bombeador. O
uso de cocaína, o estresse nervoso, a hipotermia, também podem
predispor uma pessoa à fibrilação. Em muitos casos, o início da doen-
ça permanece misterioso. Frente a um paciente que sobreviveu a
um ataque de fibrilação, o médico prefere ver um defeito orgânico
- indício de uma causa. O paciente com um coração aparentemen-
. te saudável tem, na verdade, mais probabilidade de sofrer novo
ataque. 8
Há uma metáfora clássica para a fibrilação do coração: um sa-
co de vermes. Em lugar de contrair e relaxar, contrair e relaxar de
. maneira repetitiva, periódica, os tecidos do músculo cardíaco setor-
cem, sem coordenação, incapazes de bombear o sangue. Num co-
ração que pulsa normalmente, o sinal elétrico viaja como uma on-
da coordenada através da estrutura tridimensional do coração.
Quando o sinal chega, todas as células se contraem. Depois todas
as células relaxam por um período refratário crítico, durante o qual
não voltam a contrair-se novamente. Num coração fibrilado a on-
da desaparece. O coração nunca está totalmente contraído, nem to-
talmente relaxado.
Uma das características intrigantes da fibrilação é que muitos
dos componentes ir:idividuais do coração podem estar funcionan-
do normalmente. Com freqüência, os nódulos que determinam o
ritmo continuam enviando sinais elétricos regulares. As células mus-
culares reagem adequadamente. Cada célula recebe seu estímulo,
contrai-se, passa o estímulo adiante e relaxa para esperar o estímu-
lo seguinte. Na autópsia, os tecidos musculares podem não revelar
nenhum dano. Essa é uma das razões pelas quais os especialistas em
caos acreditavam que era necessária uma abordagem nova, global:
as partes de um coração fibrilado parecem estar funcionando, porém
o todo se descontrola fatalmente. A fibrilação é um distúrbio de um
sistema complexo, assim como os distúrbios mentais - tenham ou
não raízes químicas - são distúrbios de um sistema .complexo.
A fibrilação do coração não pára por si mesma. Esse gênero
de caos é estável. Só um choque de eletricidade de um aparelho des-
fibrilador - choque que qualquer especialista em dinâmica reco-
nhece como uma perturbação maciça - pode fazer voltar o cora-
ção ao estado normal. Em geral, os desfibriladores sao eficientes.
Mas seu modelo, como o das válvulas artificiais do coração, eXigiu

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muitas suposições. ''A questão de determinar o volume e a forma
desse choque foi rigorosamente empírica", disse Arthur T Winfree,
·biólogo teórico.9 "Não havia nenhuma teoria sobre isso. Hoje pa-
rece que certas suposições não estão corretas. Parece que os desfi-
briladores podem ser radicalmente reds~nhao para melhorar
muito a sua eficiência e, com isso, melhorar muito as possibilida-
des de sucesso.'' Para outros ritmos cardíacos anormais, tinha sido
tentada toda uma variedade de terapias com drogas, em grande parte
baseadas também no método de tentativa e erro - "uma magia ne-
gra'', como Winfree disse. Sem um conhecimento teórico sólido da
dinâmica do coração, é difícil prever os efeitos de determinada dro-
ga. "Um trabalho maravilhoso foi feito nos últimos 20 anos, para
se descobrir todos os detalhes essenciais da fisiologia da membra-
na, todo o funcionamento detalhado da imensa complexidade de
todas as partes do coração. Essa parte essencial da questão vai bem.
O que foi negligenciado foi o outro lado, o de se tentar conseguir
uma perspectiva global de como tudo aquilo funciona."

Winfree vinha de uma família em que ninguém tinha freqüen-


tado a universidade. Como dizia, ele começou por não ter uma edu-
4"
. cação adequada. Seu pai, subindo desde os mais baixos escalões
do ramo de seguros de vida até o nível de vice-presidente, transfe-
ria a família, quase que anualmente, para cima e para baixo no lito-
ral leste, e Winfree freqüentou mais de uma dúzia de escolas antes
de terminar o curso secundário. Adquiriu a impressão de que as coi-
sas interessantes do mundo tinham relação com a biologia e a ma-
temática, ·e um sentimento equivalente de que nenhuma das com-
binações conhecidas das duas matérias fazia justiça ao que era in-
teressante. Por isso, resolveu não seguir a abordagem padrão. Fez
um curso de cinco anos de física de engenharia na Universidade de
Cornell, aprendendo matemática aplicada e todas as variedades de
estilos práticos de trabalho de laboratório. Preparado para trabalhar
para o complexo industrial-militar, obteve um doutorado em bio-
logia, procurando combinar os experimentos e a teoria, de manei-
ras novas. Começou na UniversidadeJohns Hopkins, deixou-a em
virtude de conflitos com o corpo docente, continuou em Prince-
ton, saiu em virtude de conflitos com o seu corpo docente, e final-
mente recebeu o grau de Princeton a distância, quando já leciona-
va na Universidade de Chicago.
Winfree é um tipo raro de experimentador no mundo da bio-
logia, que leva um forte senso de geometria 10 ao seu trabalho so-
bre problemas fisiológicos. Começou sua investigação da dinâmi-
ca biológica em princípios da década de 70, estudando os relógios

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biológicos - ritmos circadianos. Era uma área governada tradicio-
nalmente por uma abordagem naturalista: esse ritmo é caracterís-
tico daquele animal, e assim por diante. Na opinião de Winfree, o
problema dos ritmos circadianos devia prestar-se a um estilo mate-
mático de reflexão. "Eu estava com a cabeça cheia de dinâmica não-
linear, e percebi que o problema podia ser examinado, e devia ser
examinado, nesses termos qualitativos. Ninguém tinha qualquer
idéia do que são os mecanismos dos relógios biológicos. Temos,
portanto, duas opções. Podemos esperar até que os bioquímicos
. estabeleçam o mecanismo dos relógios, e em seguida tentar extrair
algum comportamento dos mecanismos conhecidos, ou podemos
começar pelo estudo de como os relógios funcionam, em termos
da teoria dos sistemas complexos e da dinâmica topológica e não-
linear. Foi o que escolhi." 11
Em certa época, ele tinha um laboratório cheio de mosqui-
tos em caixas. Como qualquer pessoa habituada a acampar pode
supor, os mosquitos aparecem ao anoitecer, todos os dias. Num la-
boratório, com temperatura e luz constantes para isolá-los do dia
e da noite, os mosquitos mostraram um ciclo interior, rião de 24 ho-
ras, mas de 23. A cada 23 horas, eles zumbiam com particular intensi-
dade. O que os mantém funcionando ao ar livre é o choque da luz
que recebem todos os dias; com efeito, ela acerta o seu relógio.
Winfree lançou luz artificial sobre seus mosquitos em doses
cuidadosamente reguladas. Esses estímulos anteciparam ou retar-
daram o ciclo seguinte, e ele comparou esses efeitos com os tem-
pos de exposição. Depois, em lugar de fazer suposições sobre a bio-
química em questão, examinou o problema topologicamente - isto
é, examinou a forma qualitativa dos dados, e não os detalhes quan-
titativos. Chegou a uma conclusão surpreendente: havia uma sin-
gularidade na geometria, um ponto diferente de todos os outros .
pontos. Examinando-a, ele previu que determinado golpe de luz, da-
do num momento preciso, provocaria um colapso total no relógio bio-
lógico do mosquito, ou em qualquer outro relógio bfológico.
Essa previsão era surpreendente, mas os experimentos de Win-
free a confirmaram. ''.Aplique num mosquito, à meia-noite, certo nú-
mero de fótons, e esse choque, num momento particularmente bem
calculado, desliga o seu relógio. Depois disso, ele sofre de insônia
- cochilará, zumbirá por algum tempo, aleatoriamente, e continuará
assim enquanto nos dermos ao trabalho de observar, ou até que lhe
apliquemos outro choque. Provocamos nele uma confusão 'c omo
a que ocorre com seres humanos em conseqüência de prolonga-
das viagens a jato, através de fusos horários." 12 No princípio da dé-
cada de 70, a abordagem matemática dos ritmos circadianos feita
por Winfree despertou pouca atenção geral, e era dificil aplicar téc-

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CAOS QUÍMICO. Ondas que se propagam para fora em círculos concêntricos,
e at.é mesmo ondas espiraladas, eram sinais de daosnumareaçãoquímicamui-
to estudada, a reação de Beluzov-Zhabotinsky. Padrões semelhantes foram ob-
servados em pratos de milhões de amebas. Arthur Winfree teorizou que tais
ondas são análogas às ondas de atividade elétrica que atravessam os múscu-
los do coração, regular ou irregularmente.

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nicas de laboratório a espécies que se recusavam a permanecer em
pequenas caixas por meses seguidos.
As conseqüências humanas das prolongadas viagens em aviões
a jato, e a insônia, continuam na lista dos problemas de biologia não-
resolvidos. Os dois casos suscitam os piores charlatanismos - pí-
lulas e poções mágicas inúteis. Os pesquisadores reuniram dados
sobre pacientes humanos, em geral estudantes ou aposentados, ou
dramaturgos que tinham de terminar uma peça, dispostos todos a
aceitar algumas centenas de dólares por semana para viver em "iso-
lamento temporal": nenhuma luz do dia, nenhuma variação de tem-
peratura, nenhum relógio, nem telefone. As pessoas têm um ciclo
de sono e vigília, bem como um ciclo de temperatura de corpo, sen-
do ambas osciladores não-lineares que se restabelecem depois de
perturbações ligeiras. Em isolamento, sem um estímulo diário, os
ciclos de temperatura parecem ser de 25 horas, ocorrendo o inais
baixo durante o sono. Experimentos de pesquisadores alemães des-
cobriram, porém, que depois de algumas semanas o cido de sono
·. e vigília se separa do ciclo térmico e se torna irregular. As pessoas
ficavam acordadas por 20 ou 30 horas seguidas, para depois dor-
mir 10 ou 20 horas contínuas. Os pacientes não só ignoravam que
seu dia se tornara mais longo, como também não acreditavam nis-
so, ao serem informados. Só em meados da década de 80, porém,
os pesquisadores começaram a aplicar a abordagem sistemática de
Winfree a seres humanos, começando com uma mulher idosa que
fazia tricô à noite sob uma iluminação feérica. Seu ciclo modificou-se
acentuadamente, e ela declarou sentir-se muito bem, como se via-
jasse num carro com a capota abaixada. '' Quanto a Winfree, pas-
sou a estudar os ritmos do coração.
Narealidade, ele não teria dito que "passou" aos ritmos do co-
ração. Para Winfree, era o mesmo assunto - química diferente, di-
nâmica igual. Interessou-se de forma específica pelo coração, 14 po-
rém, depois de ter testemunhado, sem nada poder fazer, a morte de
duas pessoas em ataques cardíacos, uma delas um parente em fé-
rias dé verão, a outra um homem numa piscina onde Winfree esta-
va nadando. Por que um ritmo que se mantivera constante a vida
inteira, por dois bilhões, ou mais, de ciclos ininterruptos,
contraindo-se.e relaxando, acelerando e desacelerando, passava de
repente a uma irregularidade louca, fatalmente insuficiente?

Winfree contou a história de um pesquisador antigo, George


Mines, que tinha 28 anos em 1914. Em seu laboratório na Universi-
dade McGill, em Montreal, Mines construiu um pequeno aparelho
capaz de transmitir pequenos impulsos elétricos, regulados compre-
cisão, ao coração. ·

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"Quando Mines achou que era o momento de.começar a tra-
balhar com seres humanos, escolheu o paciente que estava mais per-
to para a experiência: ele mesmo'', escreveu Winfree. 15 "Lá pelas
seis horas da tarde, um faxineiro, achando que havia um silêncio
anormal no laboratório, entrou. Mines jazia sob a mesa, envolvido
em equipamento elétrico retorcido. Um mecanismo quebrado es-
tava preso ao seu peito, em cima do coração, e um outro aparelho,
ao lado, ainda registrava batidas irregulares. Ele morreu sem recu-
perar a consciência."
Poderíamos supor que um choque, pequeno mas em momento
calculado com precisão, pode provocar a fibrilação no coração, e
na verdade até mesmo Mines tinha formulado tal suposição, pou-
co antes de sua morte. Outros choques podem adiantar ou retardar
a batida seguinte, tal como nos ritmos circadianos. Uma diferença,
porém, entre corações e relógios biológicos - e que não pode ser
posta de lado nem mesmo num modelo simplificado - é que oco-
ração tem uma forma no espaço. Podemos segurá-lo na mão. Pode-
mos rastrear uma onda elétrica através de três dimensões.
Para fazê-lo, porém, é necessária engenhosidade. 16 Raymond
E. Ideker, do Centro Médico da Universidade de Duke, leu um arti-
go de Winfree no ScientificAmerican, em 1983, e anotou quatro
previsões específicas sobre a indução e a suspensão da fibrilação
baseadas na dinâmica não-linear e na topologia. Ideker não acredi-
tou muito. Pareciam especulativas demais e, do ponto de vista do
cardiologista, muito abstratas. Três anos depois, todas tinham sido
confirmadas, e Ideker estava dirigindo um programa avançado pa-
ra reunir os dados mais minuciosos, necessários a uma abordagem
dinâmica do coração. Era, como disse Winfree, "o equivalente car-
díaco de um ciclotron". 17
O eletrocardiograma tradicional oferece apenas um grossei-
ro registro unidimensional. Durante uma cirurgia do coração, o mé-
dico pode tomar um eletrodo e movê-lo de um lugar para outro, no
·coração, colhendo amostras de 50 ou 60 pontos, num período de
10 minutos, produzindo com isso uma espécie de quadro composto.
Durante a fibrilação, essa técnica é inútil. O coração muda e treme
com demasiada rapidez. A técnica de Ideker, muito dependente do
processamento computadorizado em tempo real, era encaixar 128
eletrodos numa teia que seria colocada sobre o coração, como uma
meia num pé. Os eletrodos registravam o campo da voltagem quan-
do cada onda percorria o músculo, e o computador produzia um
mapa cardíaco.
A intenção imediata de Ideker, 18 além de testar as idéias teóri-
cas de Winfree, era melhorar os aparelhos elétricos usados para deter
a fibrilação. Equipes médicas de emergência levam versões padrão

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de desfibriladores, prontas a provocar forte choque de corrente con-
tínua através do tórax de um paciente vítima de um ataque cardía-
co. Experimentalmente, os cardiologistas criaram um pequeno apa-
relho implantável, a ser colocado na cavidade peitoral dos pacien-
tes considerados de grande risco, embora a identificação de tais pa-
cientes continue sendo um problema. Um desfibrilador implantá-
vel, um pouquinho maior do que um marcapasso, fica parado ob-
servando a batida constante do coração, até que se torne necessá-
rio liberar certa eletricidade. Ideker começou a recolher as infor-
mações físicas necessárias para que o projeto dos desfibriladores
deixasse de ser um jogo de adivinhação de alto preço e passasse a
ser mais ciência.

Por que devem as leis do caos aplicar-se ao coração, com seu


tecido peculiar- células que formam fibras interligadas que se pro-
jetam, transportando íons de cálcio, potássio e sódio? Era essa a ques-
tão que intrigava os cientistas da Universidade de McGill e do Institu-
to de Tecnologia de Massachusetts.
I..eon Glass e seus colegas Michael Guevara e Alvin Scitrier, da
McGill, realizaram uma das linhas de pesquisa mais discutidas em
toda a curta história da dinâmica não-linear. Usaram pequenos agre-
gados de células cardíacas 19 de embriões de galinhas de sete dias.
Essas bolas de células,1/200 de polegada de largura, colocadas num
prato e misturadas, começaram a bater espontaneamente em ritmos
da ordem de uma vez por segundo, sem nenhum marcapasso ex-
terno. A pulsação era claramente visível num microscópio. O pas-
so seguinte foi aplicar também um ritmo externo, e os cientistas da
McGill o fizeram com um microeletrodo, um fino tubo de vidro com
uma ponta minúscula, inserido numa das células. Um potencial elé-
trico era transmitido pelo tubo, estimulando as células com uma for-
ça e um ritmo que podiam ser ajustados à vontade.
Assim resumiram eles as suas constatações, na revista Science,
em 1981: " O comportamento dinâmico exótico, visto antes nos es-
tudos matemáticos nas ciências tisicas, pode em geral estar presente
quando os osciladores biológicos são perturbados periodicamen-
te.'' 20 Viram duplicações de período - padrões de batidas que se
bifurcavam e bifurcavam novamente quando o estímulo mudava.
Fizeram mapas de Poincaré e mapas de círculos. Estudaram a inter-
mitência e o bloqueio de modo. "Muitos ritmos diferentes podem
ser estabelecidos entre um estímulo e um pedacinho de coração de
galinha", disse Glass.21 " Usando matemática não-linear, podemos
compreender bastante bem os diferentes ritmos e sua ordenação.
Atualmente, os cardiologistas quase não estudam matemática, mas

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a maneira pela qual estamos examinando esses problemas é a ma-
neira pela qual, no futuro, eles terão de ser examinados."
Enquanto isso, num programa conjunto Harvard-M.l.T. em
ciência da saúde e tecnologia, Richard]. Cohen, cardiologista e fí-
sico, descobriu uma gama de seqüências de duplicação de perío-
do em experimentos com cachorros. Usando modelos feitos em
computador, ele testou um programa plausível, no qual a frente de
onda da atividade elétrica quebra nas ilhas de tecido. ' 'É um exem-
plo claro de fenômeno de Feigenbaum'', disse ele, 22 ''um fenôme-
no regular que, sob certas circunstâncias, se torna caótico, e evidencia-
se que a atividade elétrica no coração tem muitos paralelos com ou-
tros sistemas que manifestam comportamento caótico."
Os cientistas de McGill voltaram também a dados antigos, acu-
mulados sobre diferentes tipos de batidas anormais do coração. Nu-
ma síndrome anormal bem conhecida, as batidas ectópicas são in-
tercaladas com batidas de sinus. Glass e seus colegas examinaram
os padrões, contando os números das batidas de sinus entre as ec-
tópicas. Em certas pessoas, os números variavam, mas por alguma
razão eram sempre ímpares: 3, ou 5, ou-7. Em outras, o número de
batidas normais era sempre parte da seqüência: 2, 5, 8, 11 ...
"Fizeram-se essas estranhas observações numéricas, mas os me-
canismos não são de compreensão muito fácil", disse Glass. 23 "Há
com freqüência algum tipo de regularidade nesses números, mas
há também, com freqüência, grande irregularidade. É uma das di-
.visas dessa matéria: ordem no caos."
Tradicionalmente, as reflexões sobre a fibrilação tomaram duas
formas. Uma idéia clássica era a de que sinais de ritmo secundários
vinham de centros anormais dentro do próprio músculo cardíaco,
conflitando com o sinal principal. Esses pequenos centros ectópi-
cos disparam ondas em intervalos pouco confortáveis, e a intera-
ção e sobreposição estaria, como se pensou, perturbando a onda
coordenada de contração. A pesquisa dos cientistas da McGill ofe-.
receu certo apoio a essa idéia, demonstrando que uma gama com-
pleta de mau comportamento dinâmico pode surgir da interação
entre um impulso externo e um ritmo inerente ao tecido cardíaco.
Mas por que os centros secundários de ritmação surgem é o que con-
tinuou difícil de ser explicado.
A <'>utra abordagem centrava-se, não na iniciação das ondas elé-
tricas, mas na maneira pela qual são conduzidas geograficamente
através do coração, e os pesquisadores de Harvard-M.I.T. continua-
ram mais próximos dessa tradição. Verificaram que as anormalida-
des na onda, girando em círculo fechado, podiam provocar o "re-
torno", no qual algumas áreas começam uma nova batida antes do

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tempo, impedindo que o coração fizesse a pausa do intervalo ne-
cessário ao bombeamento coordenado.
Enfatizando os métodos da dinâmica não-linear, os dois gru-
pos de pesquisadores puderam usar a constatação de que uma pe-
quena modificação num parâmetro - talvez uma modificação no
tempo ou na condutividade elétrica - podia levar um sistema, que
sob outros aspectos era sadio, a ultrapassar um ponto de bifurca-
ção para um comportamento qualitativamente novo. Também co-
meçaram a encontrar um terreno comum para o estudo global dos ·
problemas do coração, relacionando distúrbios que antes eram con-
siderados sem relação. Além disso, Winfree acreditava que, apesar
de seus diferentes enfoques, tanto a escola da batida ectópica co-
mo a escola do retorno estavam certas. Sua abordagem topológica
sugeria que as duas idéías poderiam ser uma e a mesma coisa.
''As coisas dinâmicas geralmente contrariam a intuição, e o co-
ração não é exceção'', disse Winfree. 24 Os cardiologistas esperavam
que a pesquisa levasse a uma maneira científica de identificar os que
corriam risco de fibrilação, de criar aparelhos desfibriladores e de
receitar remédios. Winfree também esperava que uma perspectiva
matemática, global, desses problemas fertilizasse uma discipl1na que
mal existia nos Estados Unidos, a biologia teórica.