Você está na página 1de 43

SOCIEDADES

EOSÓFICAS

g n u tm iiT *

P U B L I C A Ç Ã O 00 S E C R E T A R I AD O
N A C I O N A L DE D E F E S A DA F É
AS SOCIEDADES TEOSÓFICAS
VOZES EM DEFESA DA FÉ
C a d e r n o 11

FREI BOAVENTURA, O. F. M.

As Sociedades Teosóficas

PUBLICAÇÃO DO
SECRETARIADO NACIONAL DE DEFÇSA DA FE’
EDITORA VOZES LIMITADA
1959
I M P R I M A T U R
POR COMISSÃO ESPECIAL DO EXMO.
E REVMO. SR. DOM MANUEL PEDRO
DA CUNHA CINTRA, BISPO DE PE-
TRÓPOLIS. FREI DESIDERIO KALVER-
KAMP, O. F. M. PETRÓPOLIS, 2-III-1959.

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS


AS SOCIEDADES TEOSÓFICAS

Existem atualmente, no Brasil, duas Sociedades


Teosóficas distintas e mesmo hostis entre si: a So­
ciedade Teosófica Brasileira, fundada pelo Sr. Hen­
rique José de Sousa, com sede central em São Lou-
renço, M. G., e dez filiais ou “Ramas” em outros Es­
tados; e a Sociedade Teosófica no Brasil, com sede
central em São Paulo e 33 filiais ou “Lojas” pelos
Estados; esta última é a Secção Nacional da Socie­
dade Teosófica Mundial, com sede central em Adyar,
perto de Madras, na índia, e 48 Secções Nacionais,
distribuídas por outros tantos países do mundo inteiro.
I. A Sociedade Teosófica Mundial
Èsta Sociedade foi fundada em Nova York no ano
de 1875 por Helena Petrovna B l a v a t s k y , em co­
laboração com Henry O 1c o 11.
O vocábulo “teosofia” (de theòs = deus, sophia = sabe­
doria) já estava em uso antes de ser açambarcado pela atual
Sociedade Teosófica. Todos os pensadores que procuravam
obter um conhecimento de Deus mediante uma espécie de
visão ou intuição eram classificados como teósofos. “Teo­
sofia” era também um denominador comum para doutrinas
distintas, mas em torno das quais se mantinha um certo se-
grêdo ou mistério. Portanto o aspecto “esotérico” era seu
elemento formal. Eram geralmente doutrinas de inspiração
religiosa ou mística, mas com um fundo mais ou menos
cristão. Tais eram as “teosofias” de Jakob Boehme, Franz
Baader, Gichtel, William Law, Jane Lead, Swedenborg, etc.
Mas todo êsse teosofismo ocidental é anterior e sem nenhu-

As Sociedades — 2 5
ma relação de paternidade com as teosofias com que n os
preocuparemos adiante. Veremos mesmo que a denomina­
ção ( “teosófica”) foi inteiramente acidental na Sociedade
fundada por Blavatsky.

1) Origem da Sociedade Teosófica


Helena Petrovna Hahn nasceu em Ekaterinoslaw
(Rússia), no ano de 1831, de família nobre. Aos 16
anos casou-se com o general russo Nicéforo B l a ­
v a t s k y . Mas já no ano seguinte, em 1848, aban­
donou o marido e foi iniciar uma vida de agitadas
aventuras. Passou pela Ásia Menor, em companhia
de Paulo Metamon, mago e prestidigitador. Em 1851
encontramo-la em Londres, onde freqüenta sessões
espíritas com o famoso médium Daniel Douglas Ho­
me. Cinco anos depois increve-se na associação car-
bonária de Mazzini, a “Jovem Europa”. Alguns au­
tores, principalmente os teosofistas, dizem que por ês-
te tempo ela foi estudar no Tibet. Mas o conhecido
orientalista Réné G u é n o n, Le Théosophisme (cita­
mos a edição aumentada, de 1928), prova com do­
cumentos absolutamente convincentes que Helena não
estêve no Tibet ou na índia antes de 1878. Em 1858
ela volta à Rússia, onde permanece até 1863. Pouco
depois aparece na Itália. Em 1863 encontramo-la com­
batendo ao lado de Garibaldi. E’ gravemente ferida
em Mentana. Reconvalesce em Paris, onde sofre a in­
fluência de Vítor Michal, espírita, magnetizador, ma-
çon e amigo de Denizard Rivail (Allan Kardec!),
que também é maçon. Aí desenvolveu suas faculda­
des mediúnicas e chegou mesmo a entrar no círculo
de Allan Kardec, onde foi colhêr suas idéias reencar-
nacionistas. De 1870-1872 ela atua como conhecida
médium em Cairo, no Egito. Aí reencontra Paulo Me­
tamon e com ele e outros funda o “clube dos mila­
gres”, que é depois fechado por causa das fraudes

6
desmascaradas. Parte então para os Estados Unidos.
No ano seguinte, em 1874, conhece o jornalista Hen-
ry Steele O l c o t t (nascido em 1832), também es­
pírita e maçon. Por esta mesma época trava também
relações com George H. Felt, membro da forte socie­
dade secreta “H. B. of L.” (Hermetic Brotherhood
of Luxor), sociedade que se opunha à interpretação
espírita dos fenômenos “espiritualistas”. No dia 20
de outubro de 1875 é então fundada, em Nova York,
uma sociedade “para investigações espiritualistas”,
sob a presidência de Olcott, a vice-presidência de
Felt, sendo Blavatsky secretária. Também William
Q. Judge (de destacada importância na futura socie­
dade) e Charles Sotheran (um dos chefes da Maço-
naria Americana) faziam parte dêste grupo inicial.
Albert Pike, então Grão Mestre do Rito Escocês,
conhecido mas pouco original doutrinador maçon, in­
teressou-se pela incipiente sociedade. No dia 17 de
novembro de 1875, por proposta do milionário espí­
rita Henry J. Newton, não se sabe bem por que, .o
grupo passou a tomar a denominação de Sociedade
Teosófica. Portanto, o nome surgiu de modo inteira­
mente acidental. Felt, que queria uma “Sociedade
Egipciológica”, abandonou a companhia de Helena.
Interessante e muito significativa é a primeira decla­
ração de princípios da Sociedade Teosófica:
“O título da Sociedade Teosófica explica os objetivos e
os desejos de seus fundadores: êles procuram conseguir o
conhecimento da natureza e dos atributos do Poder supre­
mo e dos espíritos mais elevados, por meio de processos fí­
sicos. Em outras palavras, esperam que, penetrando mais
nas filosofias dos tempos antigos, serão capazes de atingir
por si mesmos e por outros investigadores a prova da exis­
tência de um mundo invisível, da natureza de seus habitan­
tes, se é que existem, das leis que os governam e suas rela­
ções com o gênero humano”. — Portanto, um programa
bastante espirita e, aliás, parecido com as sociedades eso­

2
* 7
téricas, rosacrucianas e “místicas” que então surgiam em
grande abundância.
Em companhia do “coronel” Olcott dirige-se em
1878 à índia, onde mora nos primeiros anos em Bom-
bay. Em 1882 passa para Adyar, perto de Madras,
onde fixa definitivamente a sede principal da Socie­
dade, e onde ainda está hoje. Três anos depois ela
é novamente denunciada em Nova York pelo Prof.
Kiddle e, ainda em 1885, pela Sociedade de Investi­
gações Psíquicas de Londres, como “uma das mais
perfeitas, ingeniosas e interessantes impostoras”.
E’ bastante importante a investigação feita pela Socieda­
de de Investigações Psíquicas de Londres. Oficialmente dele­
gado para fazer uma investigação rigorosa da natureza dos
“fenômenos” produzidos por Helena Blavatsky na distante
índia, o Dr. Richard H o d g s o n foi até Adyar, onde che­
gou em novembro de 1884. Fêz um minucioso estudo até
abril de 1885. E o resultado foi um longo relatório, no qual
expôs detalhadamente os truques usados pela senhora Bla­
vatsky e conclui “que ela não é uma aventureira vulgar, mas
que ela conquistou seu lugar na história como uma das
mais perfeitas, das mais ingeniosas e das mais interessantes
impostoras, cujo nome merece passar à posteridade”. Tiramos
êstes dados da obra citada de René Guénon, que leu o rela­
tório no Proceedings of the Society for Psychical Research,
dezembro de 1885. A mencionada Sociedade de Londres exami­
nou o relatório de Hodgson e declara Blavatsky “culpável de
uma combinação Iongamente continuada com outras pessoas,
com o fim de produzir, por meios ordinários, uma série de ma­
ravilhas aparentes para sustentar assim o movimento teo-
sófico”. — Tratava-se principalmente de esclarecer a mis­
teriosa origem das cartas dos “Mahatmas”, dos quais Bla­
vatsky afirmara ter recebido seus ensinamentos.
Neste mesmo ano de 1885 Blavatsky volta à Euro­
pa, onde escreveu sua indigesta e incompreensível
Doutrina Secreta. Em 1887 funda em Londres a re­
vista “Lúcifer”. Afinal, em 1891, morre em Londres.
Olcott assumiu então a direção da Sociedade, até 1907,
quando morreu. Seguiu-lhe a senhora Annie B e s a n t,

8
que inaugurou uma nova época para a Sociedade
T eosóf ica.
Annie Wood nasceu em 1847, em Londres, e foi
educada na seita presbiteriana. Muito nova ainda,
casou com o pastor protestante Frank B e s a n t, com
o qual teve dois filhos. Mas abandonou bastante de­
pressa o marido. Pregou depois o materialismo e o
malthusianismo. Os tribunais ingleses qualificaram suas
conferências como “próprias para perverter e depra­
var a moral pública”. Em Bruxelas, em 1880, che­
gou a declarar que era necessário “combater sobre­
tudo Roma e seus sacerdotes, lutar contra o Cristia­
nismo e arrancar a Deus do céu”. Mas Blavatsky
conquistou-a para a Teosofia. Quando, em 1907, to­
mou a presidência, resolveu iniciar uma intensa
campanha messiânica, pretendendo apresentar ao
mundo um Novo Redentor. Ajudou-lhe nisso um há­
bil ocultista: o Sr. C. W. L e a d b e a t e r . Em 1908
iniciaram na teosofia um jovem hindu, Krishnamurti,
de 13 anos de idade e que foi apresentado como o
esperado Messias. Teria passado por 32 encarnações,
gastando para isso 72.000 an o s... Estas fantasias
foram a causa das principais cisões entre os teóso-
fos. A secção alemã, por exemplo, dirigida por R.
Steiner, separou-se e fundou a “Antroposofia”. Tam­
bém o grupo francês, dirigido por Eduardo Schuré
e Eugênio Levy, formou uma associação independen­
te. No mesmo tempo alguns teósofos norte-america­
nos criavam uma “Liga de Reforma Teosófica”, com
o intuito de restaurar o ideal primitivo. Este foi tam­
bém o principal motivo alegado entre nós, para jus­
tificar a fundação duma “Sociedade Teosófica Bra­
sileira”, completamente independente de Adyar, mas
nem por isso menos fantástica, como se verá adiante.

9
Jiddu K r i s h n a m u r t i nasceu em Madranapalle, Madras
(índia), em 1897. Seu nome de família é Jiddu. Depois re­
cebeu o nome iniciático de Alcyone ou Alcione. Outra vez
aparece também como Krishnaji. E’ filho de Narayaniah,
teosofista convicto, que se empregou no quartel geral da Socie­
dade em Adyar. Annie Besant e C. W. Leadbeater resolveram
dar a Krishnamurti e a seu irmão mais novo Nityananda
uma educação especial. Já em 1910, quando o rapaz tinha
apenas 13 anos, foi proclamado por Besant o “novo mes­
sia s’* e Instrutor do Mundo. Leadbeater e Besant publica­
ram então a fantástica biografia de Krishnamurti: apareceu
no mundo pela primeira vez há 72.000 anos; no ano de
12.800 antes de Cristo era mulher e casou em segundas
núpcias com Júlio César; em 18.875 antes de Cristo Annie
Besant, que então era homem, era irmão menor de Krishna­
murti, e t c ... Resolveram divulgar também a “pré-história
lunar” do jovem hindu: numa cabana vivia um homem “lu­
nar”, com sua mulher e seus filhos; ao redor deles dança
um bando de macacos, “tão fiéis como se fôssem cães” ; “no
meio dêsses macacos reconhecemos os futuros Leadbeater,
Besant, Krishnamurti e Mizar” (o irmãç) N ityananda)...
Em 1911 Besant tomou os rapazes consigo e os levou para
a Europa e passou a anunciar püblicamente a grandeza esr-
piritual latente em Krishnamurti. Milhares de teosofistas
aceitaram sua proclamação e se reuniram em uma corpo­
ração denominada “Ordem da Estréia do Oriente”, a fim de
prepararem o caminho do novo Instrutor do Mundo. A “Or­
dem da Estréia”, com sede em Ommen, na Holanda, se des­
dobrou em numerosas secções nacionais e teve sua secção
também aqui no Brasil, tendo à frente o Sr. Aleixo Sousa,
até hoje destacado membro da Sociedade Teosófica no Bra­
sil. Com a finalidade de difundir entre nós as idéias do no­
v o Instrutor, foi fundada também, no Rio de Janeiro, a
“Instituição Cultural Krishnamurti”, que continua ativa até
hoje. Em suas instruções Krishnamurti costuma falar com
rude franqueza. Repete que veio para libertar o homem “de
t&das as gaiolas, de todos os temores, de todas as muletas,
d e tôdas as religiões e seitas e de todos os deuses”. O ho­
mem, êle mesmo, é o deus único e não existe outro deus.
Nada de religião, nada de igrejas e seitas, nada de cultos
e preces, nada de imagens e cerimônias: tudo isso é supér­
fluo e andar atrás destas coisas é criancice e tempo perdido.
N egação e libertação da idéia religiosa, sobretudo da reli­

10
gião organizada, eis a tese central em tôrno da qual giram
as instruções do novo messias. Por isso mesmo dissolveu
êle em 1929 a Ordem da Estrela, pois a verdade, dizia êle,
não pode estar contida em uma organização, qualquer que
seja: “Os poucos que forem fortes não necessitam de uma
instituição, porém os muitos que forem fracos formarão uma
seita, uma religião, um culto tirado da Ordem; é meu de­
sígnio destruir tôdas as muletas, antigas e modernas e tor­
nar os homens livres”. E depois gritou aos que o estavam
escutando no acampamento de Ommen: “Para que ter gente
falsa e hipócrita seguindo-me, a mim, que sou a corporifi-
cação da Verdade?” Assim, dissolvida a Ordem como tal,
continuou, entretanto, a organização de propaganda e difu­
são das agressivas palestras de Krishnamurti. Em 1935 fa­
lou aqui no Brasil, decepcionando não pouco os nossos teó-
sofos. Desligou-se oficialmente da Sociedade Teosófica, pa­
ra ser mais desimpedido e tornar mais livres os homens...

2) Esboço dos Principais Ensinamentos da Teosofi


O resumo da doutrina teosófica que vamos apre­
sentar não foi feito pôr nós. Seu Autor é um desta­
cado membro da Sociedade Teosófica no Brasil, o Sr.
Aleixo A l v e s de S o u s a , que publicou em 1949
um Catecismo Teosófico, em forma de perguntas e
respostas. Faremos disso um resumo denso, em forma
direta. Se com sua leitura o leitor ficar tonto, atri­
bua então o estonteamento à sublimidade da dou­
trina. ..
A Teosofia admite um Princípio Uno, ou Deus, que
se desdobra em três Aspectos (que são o Pai, o Fi­
lho e o Espírito Santo da Mensagem Cristã). Do Ter^
ceiro Aspecto (o Espírito Santo) emanou a Primeira
Onda de Vida, que organizou a matéria dos sete pla­
nos da Natureza e que são: o Físico, no qual vive­
mos; o Astral ou Emocional, para onde vai a alma
logo depois da morte; ou Mental ou Devachan, habi­
tado pelas almas antes de reencarnar (é o nosso céu);
ou Búdico; o Átmico ou Nirvânico; o Monádico ou
11
Paranirvânico; o Adi ou Mahaparanirvânico. A evo­
lução humana sc processa nos três primeiros planos
(Físico, Astral e Mental, que são os mais densos);
os outros quatro são os mundos da Evolução Super-
humana ou Divina, para onde chegaremos a seu tem­
po. Êstes sete planos, cada vez menos densos, ocu­
pam o mesmo lugar e se interpenetram, em virtude
de suas diferenças de densidade. Cada um dêstes
Planos é subdividido em sete Subplanos. Assim o Pla­
no Físico está subdividido nos seguintes Subplanos:
o sólido, líquido, gasoso, etérico, superetérico, suba­
tômico e atômico. Ao todo coexistem, pois, 49 Subpla­
nos. — Do Segundo Aspecto do Princípio Uno (o Fi­
lho) emanou a Segunda Onda de Vida que dá as For­
mas à Matéria e infunde-lhe vida. Surgem assim se­
te Reinos da Natureza: o Primeiro Reino Elemental,
no Plano Mental Superior; o Segundo Reino Elemen­
tal, no Plano Mental Inferior; o Terceiro Reino Ele­
mental, no Plano Astral; o Reino Mineral, o Vegetal,
o Animal e o Humano, todos no Plano Físico. — Do
Primeiro Aspecto (o Pai) emanou a Terceira (e últi­
ma) Onda de Vida, que dá a autoconsciência aos
sêres humanos.
Como no Princípio Uno, também no homem há 3
Aspectos: o Angoeidas ou o corpo irradiante ou um
ovóide resplandecente (corresponde ao Terceiro As­
pecto); o princípio Budico ou Crístico, ainda por de­
senvolver na maioria (corresponde ao Segundo As­
pecto); e o Atma ou a Vontade espiritual (corres­
ponde ao Primeiro Aspecto). O homem tem um cor­
po constituído da matéria de cada um dos sete pla­
nos e os vai abandonando na medida em que passar de
plano para plano. Nisso consiste a evolução. E isso
se faz por meio das sucessivas reencarnações. De­
pois de passar pela fase animal, o homem iniciou a

12
sua evolução cm estado selvagem, passou depois pa­
ra o estado civilizado, torna-se então idealista e aca­
ba um Iniciado. Até lá, entretanto, terá passado por
centenas de encarnações. Depois de Iniciado passa
para o Reino Super-humano e se transforma em Ser
Perfeito, ou Adepto, ou Salvador do Mundo. Por ve­
zes tais Adeptos (ou Mahatmas!) descem ao Plano
Físico para ajudar os homens. Foi o caso de Confú-
cio, Buda, Krishna, Jesus Cristo, etc. Êles constituem
a Grande Fraternidade Branca e o Govêrno Oculto
do Mundo. Mas também entre êles há uma Hierar­
quia: o Chefe ou o Rei do Mundo, que é assistido por
quatro Budas ou Sábios Iluminados (um dêles é Gau-
tama, o Grande Iluminado do Oriente). Seguem de­
pois na Hierarquia os três Grandes Senhores ou
Chohans: o Manu ou o Fundador das Raças, o Bo-
disattava ou o Instrutor do Mundo, e o Maha-Cho-
han ou o Chefe do Sistema Cultural. Depois vêm os
Sete Senhores ou Chohans dos sete Raios; e, afinal,
uma série de Adeptos e Discípulos de vários graus.
Mas — note-se bem! — tudo isso não no Plano Fí­
sico: a Grande Fraternidade Branca pertence aos ou­
tros Planos.
Devemos distinguir também, na evolução da Hu­
manidade, sete Raças: a Primeira e a Segunda fo­
ram etéreas e desenvolveram-se durante o período de
ignição da terra; nesse período não possuíamos mente
e éramos assexuais. A Terceira Raça é a Lemuriana,
que a humanidade viveu num continente denominado
Lemúria, cujos restos são a Austrália e algumas ilhas
circunjacentes; foi a princípio bissexual, separando-
se depois os sexos; nesse tempo começou a desenvol­
ver-se também a inteligência. A Raça Atlante é a
Quarta, que povoava a Atlântida, hoje afundada nos
mares; nesse período continuou a evolução da mente.

13
Agora vivemos a Quinta Raça. A Sexta habitará um
continente que está em esboço de formação para os
lados da Costa ocidental do Pacífico, próximo à Ca­
lifórnia. E* preciso notar que cada Raça se divide em
sete Sub-raças. Agora vivemos a Quinta Sub-raça
da Quinta Raça.
No fim da Evolução acaba tudo na Suprema Luz
Branca primordial.
Omitimos de propósito qualquer comentário, que nos pa­
rece totalmente supérfluo. Entretanto, para tirar quaisquer
dúvidas da mente do leitor, queremos mais uma vez decla­
mar que esta doutrina, tal qual, apenas em forma de pergun­
tas e respostas, se encontra no mencionado Catecismo Teo-
sôfico do Sr. A. Alves de Sousa. E' a doutrina de Blavatsky e
seus sequazes. O Sr. Perilo G o m e s , que já em 1924 pu­
blicou entre nós um estudo sob o título A Theosophia (Edi­
ção do Centro Dom Vital), considerando estas fantasias teo-
sóficas, escreve à p. 156: “Onde iríamos parar se quisés­
semos transplantar para estas páginas tôdas as delirantes
concepções do ensino teosófico? Pela simples exposição que
aí fica é patente que a literatura de Blavatsky e seus com­
parsas, e ainda das suas vítimas é um caso meramente de
psiquiatria, tem dé ser incorporado aos anais da história
das enfermidades mentais, deve merecer o carinho e a aten­
ção de homens como o professor Juliano Moreira e seu dig­
no auxiliar o Dr. Humberto Gottuzo. E não sei mesmo por
que o eminente diretor do Hospício Nacional, de ordinário
tão cioso do progresso da sua ciência — menos por vaidade
pessoal do que por um louvável sentimento de humanidade
— ainda não cedeu algum dos salões do seu vasto palace­
te da Praia Vermelha para sede da Sociedade Teosófica!”

II. A Sociedade Teosófica no Brasil

A Secção Nacional da Sociedade Teosófica Mun­


dial tem sua sede central em São Paulo, Rua Anita
Garibaldi, 29. Seu Presidente é o Sr. Armando Sa­
les, Vice-Presidente a Sra. Cinira Riedel Figueiredo
(que é também figura destacada do Círculo Esotéri­

14
co da Comunhão do Pensamento). Já em 1902 foi
fundada uma loja teosófica em Pelotas, R. G. S., mas
com vida muito efêmera. Em 1910 organizou-se no
Rio de Janeiro a Loja Perseverança. Esta e as outras
que lhe seguiram ficaram ligadas à Secção Nacional
da Argentina, até 1919, quando foi constituída a Sec­
ção do Brasil.
Conta esta Sociedade, hoje, no Brasil, com as 6eguintes
Lojas:
Loja Albor — Santos, S. P.
Loja Alcione — Salvador
Loja Amizade — São Paulo
Loja Arjuna — São Luís (Maranhão)
Loja Bhagavad Gôthana — Belo Horizonte
Loja Corações Unidos — São Paulo
Loja Cruzeiro do Sul — Cruzeiro, S. P.
Loja Fraternidade — São Paulo
Loja Gandhi — Recife
Loja Giordano Bruno — Sorocaba, S. P.
Loja Harmonia, São José do Rio Prêto, S. P.
Loja Henry Olcott — Recife
Loja Himalaia — Niterói
Loja Jenoshua’ — Pôrto Alegre
Loja Jesus de Nazaré — Manaus
Loja Kalakshetra — São Paulo
Loja Karma Yoga — Bauru, S. P.
Loja Leadbeater — Cuiabá
Loja Liberdade — São Paulo
Loja Loto Branco — Ilha do Governador
Loja Lumen — Rio de Janeiro
Loja Orfeu — São Paulo
Loja Paraná — Curitiba
Loja Perseverança — Rio de Janeiro
Loja Pitágoras — Rio de Janeiro
Loja Raja Yoga — São Paulo
Loja Rio de Janeiro — Rio de Janeiro
Loja Rukmini — Visconde do Rio Branco, M. G.
Loja São Paulo — São Paulo
Loja Tibet — São Paulo
Loja União Juventude Teosófica Bandeirante — São Paulo
Loja Unidade — Fortaleza.

15
Verificamos assim que a Sociedade Teosófica é
particularmente e notàvelmente forte no Estado de
São Paulo: ao todo 15 Lojas e apenas na Capital
Bandeirante temos um total de 10 Lojas Teosóficas,
sem contar as “Ramas” da Sociedade Teosófica dis­
sidente, da qual falaremos depois.
Segundo o Manual Informativo do Membro da So­
ciedade Teosófica, esta Sociedade tem os seguintes
objetivos:
“ 1) Formar na Humanidade um núcleo de Frater­
nidade Universal, sem distinção de raça, credo, se­
xos, casta ou cor;
“2) estimular o estudo comparativo das religiões,
filosofias e ciências;
“3) investigar as leis inexplicadas da Natureza e
os poderes latentes no homem”.
Objetivos bons, indiscutivelmente, todos os três;
apenas não se compreende por que formar para isso
uma sociedade especial e por que dar a esta associa­
ção o nome de “Teosofia”. Pois com ou sem Teoso-
fia, nossas Universidades estudam com muito mais
seriedade as religiões, filosofias e ciências; e investi­
gam com menos fantasia as leis ainda desconhecidas
da natureza e as forças latentes do homem. E quan­
to à famosa “fraternidade universal”, os teósofos, de­
pois de uma experiência de mais de 80 anos, nada
podem apresentar de realmente notável neste campo;
pelo contrário: não só criaram mais uma seita a se­
parar os homens, como ainda esta mesma seita se sub­
dividiu, havendo constantes desentendimentos entre
êles (basta lembrar as duas “Sociedades Teosóficas”
entre nós), aumentando dêste modo a “desunião uni­
versal”.
O art. 3 dos Estatutos determina: “A Loja é intei­
ramente alheia a qualquer espírito de seita religiosa

16
ou filosófica, e de facção política, como de classe so­
cial, e procurará estudar imparcialmente as questões
atinentes ao homem”. E o já citado Manual Informa-
tivo diz, na p. 66, que a Sociedade Teosófica “nada
impõe a seus membros: nem método de vida, nem
práticas especiais, nem crenças particulares, mesmo
as da própria Teosofia ou comparecimento às ses­
sões de suas Lojas”. A crer nestas declarações, rei­
na aí um liberalismo e uma liberdade absolutos. O
sócio parece ter apenas um único dever, consigna­
do no art. 15 dos Estatutos: “Todos os sócios con­
tribuirão com uma mensalidade para a Loja e com
uma anuidade para a Sociedade Teosófica”.
O Manual Informativo publica uma Resolução apro­
vada pelo Conselho Geral da Sociedade Teosófica em
1924 e que leva o liberalismo até o seguinte extremo:
"Visto a Sociedade Teosófica haver-se espalhado urbi. et
orbi no mundo civilizado e haverem professos de todas a?
religiões se tornado seus membros sem renunciar aos dog
mas, ensinos ou crenças especiais de suas respectivas crer
ças, considerou-se/ ser conveniente ressaltar o fato de qd
não há nenhuma doutrina nem opinião, ensinada ou pro­
fessada por quem quer que seja, que de algum modo obri­
gue qualquer membro da Sociedade, ou que qualquer
membro não seja livre de aceitar ou rejeitar. A única
condição de filiação à Sociedade Teosófica consiste na
aceitação de seus três objetivos [e que lembramos aci­
ma]. Nenhum instrutor ou escritor, desde H. P. Blavatsky,
tem qualquer autoridade para impor seus ensinos ou opÍ7
niões aos membros. Todo membro tem igual direito para
aderir a qualquer instrutor ou a qualquer escola de pensa­
mento de sua escolha, mas não lhe assiste nenhum direito
de forçar sua escolha sôbre outro qualquer. Nenhum candi­
dato a' qualquer cargo, ou qualquer votante, pode ser torna­
do inelegível ou impedido de votar, por causa de qualquer
opinião que sustente, ou por causa de sua filiação a qual­
quer escola de pensamento, a que pertença”.
E’ o modo de falar que encontramos também entre
os maçons, entre os espíritas, entre os esoteristas, os
17
rosacrucianos, etc. E’ um expediente para efeitos d e
propaganda. Querem desta forma abafar eventuais
escrúpulos de ordem religiosa. Mas nem por isto es­
ta mesma Sociedade Teosófica deixa de propagar,
também no Brasil, as obras e as idéias de Helena Bla-
vatsky, de Leadbeater, de Jinarajadasa, etc., como os
espíritas não deixam de difundir as obras de Allan
Kardec, como os rosacrucianos não deixam Max
Heindel, etc.
O “Manual Informativo do Membro da Sociedade
Teosófica”, publicado em São Paulo, revela nas pp.
67-69 um interessante Ritual de uma sessão de cura, fei­
ta em Loja Teosófica. Divide-se a sessão em 5 partes:
1) Preparação: Reúnem-se os membros atrás de portas
fechádas a chave. Coloca-se o cálice sobre a mesa, em ci­
ma da caixa. Os membros do grupo procuram relaxar o cor­
po, tranqüilizar a parte emocional, dominar a mente e har­
monizar-se mütuamente. Música apropriada. O chefe lê al­
guma coisa piedosa.
2) Invocação: Todos de pé, de mãos dadas, formam um
círculo em torno do cálice. Segue a oração do chefe. Feita
a prece, sentam-se e “por um esforço de intenso desejo e
concentração de pensamento, o chefe envolverá o seu grupo
numa atmosfera da mais pura e branca luz”.
3) Enunciação: “Enquanto os membros procuram elevar
a sua consciência para o Eu Superior, o chefe lê com certa
ênfase os nomes e os pedidos dos que necessitam de auxílio,
pausando 5 segundos no intervalo de um nome a outro”.
4) Meditação: “A meditação será orientada no sentido
de libertar a consciência individual de sua identificação com
o corpo físico, com as emoções e a mente sucessivamente,
procurando sempre a realização de sua identidade com o
Eu espiritual. Ao mesmo tempo se buscará perceber a cons­
ciência Crística, que flui por todo o grupo, com ela se fun­
dindo”.
5) Bênção: Os membros, de fronte inclinada, olhos cer­
rados, de pé e com as mãos voltadas para trás, acompanham
mentalmente a oração que o chefe recita, suplicando a “Pre­
sença Curativa” de Deus. Música apropriada. Todos se re­
tiram em silên cio...

18
III. A Sociedade Teosófica Brasileira
O Sr. Henrique José de Sousa (“IHS”), delirante
fundador da Sociedade Teosófica Brasileira (STB),
descreve pessoalmente nos seguintes termos a origem
de sua associação: “Espiritualmcnte a STB nasceu
em São Lourenço [M. G. j, a 28 de setembro de 1921,
segundo já anunciavam as velhas tradições... Só a
10 de agosto de 1924, porém, é que ela toma forma
militante, com o nome de “Sociedade Dhâranâ”, na
Rua Santa Rosa, 426, em N iterói... Mais tarde, a
Sociedade tomou o nome de “Sociedade Teosófica
Brasileira”, porque a Teosofia, tal como H. P. Blavats-
ky a lançou para o Ocidente, tinha-se corrompido e
ia perdendo de vistas uma das suas principais fina­
lidades: provar que todas as religiões existentes se
originaram de uma doutrina primitiva ú n ic a ...”
Oficialmente a STB se apresenta nos seguintes ne­
bulosos têrmos:
“A STB é uma Escola Iniciática para todos aquêles que
desejarem pertencer à elite precursora da Nova Civilização
que fará seu surto nesta parte do Globo, e para a qual foi
a mesma criada. Visando em primeiro plano a infância, por
ser esta a prodigiosa semente da esperada Era Nova para
o mundo, também chamada Era do Aquário, adotou por le­
ma: Spes messis in semine, isto é: A esperança da colheita
reside na semente. A STB é, portanto, uma Associação com­
pletamente independente e autônoma, constituída de livres
pensadores, na extensão da palavra, já que o têrmo Teó-
sofo inclui os de Ecléticos e Sincretistas, por seu espírito
de crítica; Harmonistas, por buscarem a Suprema Síntese
Filosófica, e chamada Sabedoria Iniciática das Idades, por
outro nome, Religião-Sabedoria; Analogistas, por aplicarem
a chave hermética de que “o que está em baixo é como o
que está em cima”; Teósofos, enfim, por buscarem,
para o homem vulgar, a Suprema Ciência da Superação que
há de fazer dêle um Super-Homem, um Titã, um Prometeu,
um Herói. E isso, para fazer jus à iniciática e expressiva
sentença de que "deuses fomos e nos temos esquecido”. O

19
Movimento Cultural-Espiriíualista, em que está empenhada
a STB, é conhecido por diversos nomes, destacando-se en­
tre êles os de Missão da Sétima Sub-raça, que lhe foi dado
pelo próprio Arauto, o insigne sábio e teósofo espanhol Dr.
Mário Roso de Luna, que era o número “7” de nossas filei­
ras, e Missão dos Sete Raios de Luz, outorgado pelo Chefe
daquela Missão, procurando, com êle, simbolizar a manifes­
tação de Surya, o Sol Místico, cujo sétimo raio é Sevaraj,
com o estado de consciência que lhe é afim — Atmã — sem
falar em outras razões de ordem oculta de que somente os
discípulos mais adiantados de nosso Colégio Iniciáíico são
conhecedores. No entanto, o nome por excelência do nosso
Movimento — pela sua expressão de síntese — é Missão Y,
por abranger, essa designação simbólica, as duas Américas,
do Norte e do Sul, pois o Y representa os dois caminhos:
o da direita, ou solar, e o da esquerda ou l unar. . . ”
O leitor não entendeu tudo? E’ porque não é um ini­
ciado. .. O leitor viu muita empáfia nestas pretensiosas
palavras? Mas Teosofia é exatamente isso. O Bra­
sil, nesta nova sub-raça que vai começar, será o “San­
tuário da Iniciação do Gênero Humano a caminho da
Sociedade Futura” ; e São Lourenço já é o “Centro
de Irradiação espiritual para todo o mundo” ; e o Sr.
Henrique José de Sousa e sua Exma. esposa Dona
Helena Jefferson de Sousa são os “gêmeos espirituais”,
que “receberam o Bastão de Comando do Movimen­
to das Mãos da própria Divindade”.
Naturalmente, como a Sra. Blavatsky se preparou
no Tibet para a grande missão de fundar a Socie­
dade Teosófica, assim o nosso Sr. “IHS” se iniciou
“em certos lugares do Oriente”. Eis, por exemplo, o
que êle mesmo, o Sr. J. H. de Sousa, escreve em sua
Folha do Povo, de 18-11-56, p. 2:
“A nossa Missão, que é justamente a do preparo espiri­
tual das Américas, e em especial, do Brasil, começou, para
ser oficialmente conhecida, na estância de São Lourenço,
em 28 de setembro de 1921, com a fundação espiritual da
Sociedade Teosófica Brasileira, depois de termos feito nossa
Iniciação — como o fêz o próprio Cristo — em certos lu­

20
gares do Oriente, com a idade de 15 para 16 anos. Três anos
mais tarde, ou seja, em 10 de agosto de 1924, seguiu-se a
fundação material, que se deu em Niterói, Estado do Rio,
mudando-se depois para o Rio de Janeiro e finalmente para
São Lourenço, que é a sede da STB e lugar considerado co­
mo a verdadeira “capital espiritual do mundo”, onde se acha
erguido o nosso Templo como fôrça central, ou 8’, tendo
cm volta 7 cidades, as quais mais tarde também deverão
possuir o seu templo (7 Templos, portanto, para o 8*, em
São Lourenço), completando assim o Sistema Geográfico,
análogo ao que existiu na Atlântida, submersa há um mi­
lhão de anos e cujo resto, a Ilha de Poseidonis, desapareceu
há 9.000 a n o s . . . ”
Em setembro de 1956 a STB anunciou oficialmente
pela imprensa “que a partir do dia 29 do corrente
mês não mais receberá adultos nas suas fileiras”. A
partir, pois, do dia 29 de setembro de 1956, a STB
resolveu cessar as conferências públicas para canali­
zar tôdas as suas atividades em prol da infância.
Por quê? Porque “chegou o fim do Ciclo Definidor
dos Destinos Humanos” : o ano de 1956 foi o “an
do Julgamento da Humanidade” e só os menores d
21 anos estavam isentos do Julgamento. Mas, fazend*
uma exceção, no dia 26 de janeiro de 1957, abri­
ram-se outra vez as portas daquele templo e a prof.
Marta Queirós proferiu importante conferência. E de­
clarou diante daqueles graves teósofos de São Lou­
renço:
“Processou-se, enfim, em 1956 — data não arbitrária, mas
que traz em si o selo duma determinação superior — o gran­
de Julgamento dum final de ciclo, para iniciar outro. Tal­
vez, vós, meus caros ouvintes, não acrediteis no que vos
contamos hoje; talvez por achardes que acontecimento des­
sa gravidade deveria ser anunciado por um super-majesto-
so Arcanjo, rodeado de nuvens e de querubins, esplendoro­
sos de fulgor, com uma troni-troante trombeta que fizesse
tremer céus e terras e que permitisse a todos os sêres da
terra, ouvi-lo duma vez só, em indescritível pavor ou inex-
cedível bem-aventurança. E, erp vez dessa maravilha celes-

21
te, uma pobre mortal, igualzinha ou pior que qualquer dé
vós, é quem está afirmando, e convicta, tamanha novidade.
Perdoai-nos a desilusão, mas é mesmo de nossa bôca mo-
destáínente humana e imperfeita que ouvireis o resto da his­
tória que temos para vos contar. Assim, em junho (?) de
1956 a STB cerrou suas portas aos adultos, parou os ape­
los que já não tinham mais cabimento, cessou os avisos co­
letivos e aguardou, com a realização do Julgamento, que no
silêncio dos corações se fizesse ouvir a Voz de Deus”. E
depois: “Os homens foram julgados e essa verdade come­
çará a se fazer sentir neste ano de 1957, denominado pela
STB de Ano Definidor. Ou a definição se faz no sentido
evolucional, de colaboração com a Lei portanto, ou contra
ela, recuando os s ê r e s ...” E pelo fim da apocalíptica con­
ferência o porta-voz do Sr. J. H. de Sousa e da STB per­
gunta: “Podereis argüir-nos: Mas como sabeis de tôdas
essas coisas? como podereis prová-las? Já vos dissemos de
início que a STB ensina aos seus membros essas e muitas
outras coisas. Como prová-las? Por um raciocínio lógico
construído à base dos conhecimentos que recebemos. De
quem os recebemos? De dois Sêres, a quem respeitamos,
humanos na aparência exterior, misteriosos em sua comple­
xidade interior. Sêres que representam o Amor e a Sabedo­
ria Divinos, e que vêm, à custa de sacrifícios de tôdas as
espécies, indicando-nos — não impondo — o caminho pelo
qual poderemos chegar à imortalidade, à perfeição, ao equi­
líbrio. Sêres que, por se completarem em seu trabalho gi­
gantesco e ainda desconhecido, são denominados de Gêmeos
Espirituais. São Êles, que, portadores da revelação Divina,
na presente etapa, conosco convivem e por nós sofrem, pre­
sos à contingência da matéria, tão ou mais dolorosa que a
momentânea Cruz de Cristo, pois seus sofrimentos e dores,
lutas e perseguições, têm sido permanentes, desde a hora do
nascimento para a face da terra. Seu papel é preparar o
caminho para a vinda do Avatara Maitreia como integral ma­
nifestação da Divindade em Pai, Mãe e Filho”.
Os tão enaltecidos “dois Sêres” e que seriam os
“portadores da revelação Divina na presente etapa”
são simplesmente o Sr. Henrique José de Sousa e a
Sra. Helena Jefferson de Sousa. Blavatsky aprendeu
sua sabedoria apenas com os imaginados Mahatmas
da índia, estudando com têles em vastas bibliotecas

22
subterrâneas e em constantes exercícios ascéticos; mas
nossos ditosos “Gêmeos Espirituais” de São Louren-
ço entraram em contacto direto com a Divindade, po­
dendo apresentar-se como portadores não já dos en­
sinamentos dos Mahatmas ou Adeptos, mas da pró­
pria Revelação D ivina... Acertadamente profetizou
o Apóstolo: “Virá tempo em que acharão insuportá­
vel a sã doutrina e, levados pelo prurido de ouvir,
acrescentarão mestres sobre mestres, a seu capricho
e talante, apartando os ouvidos da verdade e voltan-
do-se para as fábulas” (2 Tim 4, 3-4).
Com efeito, o Iluminado Teósofo de São Lou-
renço não deixou de ter seus discípulos e seguidores:
Sociedades filiadas à STB, chamadas também “Ra­
mas”, abriram-se nas seguintes cidades:
Rio de Janeiro, Instituto Hermes.
São Paulo, Sociedade Cultural e Espiritualista Cruzeiro
do Sul.
Recife, Rama Cristóvão Colombo.
Belém, Instituto Teosófico Hilarião.
Belo Horizonte, Rama Maria.
Curitiba, Rama Serapis.
Niterói, Rama Kut-Humi.
Campinas, Sub-Rama Roso de Luna.
Santo André, Sub-Rama de Santo André.
Santarém, Pará.

IV. Crítica da Teosof ia e de sua Doutrina

Pedimos vênia ao Pe. M. C e r d á, S. J., para re­


produzir neste quarto parágrafo parte da excelente
conferência por êle pronunciada em São Paulo, em
1935. Pois não poderiamos compendiar melhor em pou­
cos pontos uma sã e justa crítica da Teosof ia e de
suas doutrinas. São, pois, do Pe. Cerdá os dois itens
que seguem. Acrescentaremos algumas considerações
sôbre a lei do Karma.

23
fl) Observações sôbre a Teosofia
1) A sua história não favorece os teósofos. — Tal
é a impressão geral, que recolhe o leitor imparcial e
prudente, da origem e desenvolvimento da Sociedade
Teosófica. Poderão ser verdadeiras as suas doutrinas,
mas a vida de seus fundadores e organizadores prin­
cipais dá muito que pensar. E’ que,, tratando-se de
doutrinas religiosas e morais, a moralidade, boa ou má
de seus autores, é de grande importância. Como po­
dem ser mestres da humanidade, os depositários das
verdades essenciais e necessárias à vida humana, uma
Blavatsky declarada oficialmente uma “impostora”,
sem pudor e moderação nas suas coisas, amiga de
fraudes por sistema; uma A. Besant, não menos ami­
ga de embustes que a sua mestra, anarquista na sua
juventude e defensora do malthusianismo; um Olcott,
a quem a Blavatsky a cada passo brindava com o epí-
teto de “burro” ; um Leadbeater cujos métodos edu­
cativos já vimos como foram qualificados pelos tri­
bunais. Por isso, diz R. Guénon que a história da
Teosofia é a sua melhor refutação.
2) E perfeitamente inútil. — Porque, conforme A.
Besant, não faltam ao Teosofismo “ensinamentos e
práticas (as exotéricas e vulgares) que qualquer me­
diania pode compreender e aplicar, mas outras (as
esotéricas e pròpriamente teosóficas) são tão subli­
mes, que compreender todo o seu alcance, hoje é im­
possível a todos os homens, estando ainda a flor da
humanidade (os anglo-saxônios e norte-americanos),
no quinto subplano do quinto plano! Talvez os indi­
víduos da sexta raça poderão compreender verdades
excelsas. Mas nem sequer eles o poderão. Tal sorte
é exclusiva dos Mahâtmâs; um Rishi, um Buda, que
voam já pelas esferas divinas”. Pois então, por que

24
tanto empenho em propagar e vulgarizar doutrinas
incompreensíveis a todas as gerações atuais?
3) E irracional. — Afirmar que o conhecimento das
verdades essenciais ao gênero humano e à sua vida
moral, social e religiosa, excede a capacidade de
quase toda a humanidade e é privilégio exclusivo de
alguns escolhidos, além de ser injúria à sabedoria do
Criador, é uma presunção tão pedante como intole­
rável. E réus dêsse orgulho são todos os esoterismos
e ocultismos. Por isso sábios eminentes afirmam, e
com fundamento, que nunca existiu o esoterismo bú-
dico que invocam os teosofistas. Pelo menos cristianis­
mo esotérico nunca se conheceu senão nos escritos
dos hereges gnósticos e dos seus sequazes, os teóso-
fos da última hora. Neste ponto não pode falar mais
claro Jesus Cristo: “Eu tenho falado püblicamente ao
mundo. Eu tenho sempre ensinado na sinagoga e no
templo aonde acodem todos os judeus. Nada tenh(
dito em segrêdo” (Jo 18, 20). O qual não quer dize
que o mesmo que ensinava às multidões não o pu­
desse repetir o Divino Mestre em segrêdo, e a pes­
soas particulares, como a Nicodemos, cujo diálogo
com o Salvador, feito .público por S. João, costu­
mam aduzir os teósofos para provar o seu esoterismo
cristão.
4) E gratuito. — Pelo fato de uma instituição apre­
sentar a seus membros doutrinas incompreensíveis à
razão humana, esta não perde os seus direitos. Po­
de e deve, mesmo em se tratando do Cristianismo,
exigir que esses mistérios que se lhe propõem: pri­
meiro, que não se oponham às leis absolutas do pen­
samento; segundo, que apresentem suas credenciais
ou motivos externos de credibilidade. Êsses motivos
e credenciais, e base de todo esoterismo teosófico, são
as revelações dos “mahâtmâs”, com as quais são mi-

25
moseados os diretores passados e presentes e o serão
os futuros do Teosofismo: a Blavatsky, A. Besant,
Olcott, etc. Ora, semelhantes “tnahâtmâs” existem só
na imaginação dos teosofistas, e as mensagens ma-
hátmicas se recebiam no meio de embustes e fraudes
das sessões espíritas e uma delas foi um plágio de
um discurso pronunciado na América do Norte.
5) Está longe de ser original. — Basta achar-se
um tanto familiarizado com a história da filosofia ou
das religiões, para que, ao percorrer aquelas pági­
nas daquele oceano de erudição indigesta que se in­
titula A Doutrina Secreta e é “a obra melhor do Teo­
sofismo” (Leadbeater), para que instintivamente lhe
venha aos lábios a frase: “isto já o tenho lido”. Se
bem se examina o Teosofismo, é um amálgama, às vê-
zes grandioso e sugestivo pela forma externa, às vê-
zes amolante e soporifero, em que entram em partes
desiguais: teorias, conceitos, e, em modo especial, fra­
seologia do bramanismo, budismo e outras literaturas
orientais, o simbolismo da Cabala, algo do pseudo-
misticismo dos neoplatônicos, de Bõhme, conceitos e
teorias do Ocultismo, fundido e amassado tudo ao ca­
lor de umas imaginações engenhosas e desbocadas.
Dizer que debaixo da cortiça externa dêsses elemen­
tos, respigados em campos tão distantes e heterogê­
neos, se oculta uma verdade recôndita, manifestada
ünicamente aos adeptos e mestres da sociedade Teo-
sófica, é uma afirmação que não podemos admitir.

b) Crítica da Doutrina Teosófica


1) O Deus dos teósofos é uma quimera. — Os
partidários da teosofia consideram as coisas atra­
vés de Deus. Di-lo o seu mesmo nome: Teosofia, sa­
bedoria ou conhecimento divino. Em todos os episó-

26
dios do grande drama cósmico e antropológico, Deus
intervém como protagonista, como único agente. Deus
é a fonte da vida; a base e pedestal de todo o univer­
so. Essa idéia de Deus não pode estar em pé, é um
absurdo. Porque por uma parte é ilimitado e limitado,
por outra é infinito e finito. Compreende-se que, se o
Infinito produz algo fora de si e distinto de si, este
algo necessàriamente deve ser finito, porque dois in­
finitos repugnam. Mas que o infinito ponha em seu
seio limites, vale tanto quanto afirmar a quadratura
do círculo.
2) O seu panteísmo è duas vezes absurdo. — Por­
que aos absurdos do panteísmo em geral, como são
a pluralidade de substâncias automatas no mundo,
identificar o espírito e a matéria, o extenso e o inex-
tenso, a vida e a inércia, o necessário e o contingen­
te, etc., ajuntam todos os absurdos do idealismo, ma
terialismo e pampsiquismo. Com efeito, a concepçã(
teosófica do universo não é um panteísmo simples,
mas composto, isto é, que, conforme o ponto de vis­
ta, é ao mesmo tempo idealista, animista e materia­
lista. E’ idealista, porque assim os seres todos perma­
nentes (minerais, plantas, animais e homens) como
os acontecimentos de todas as ordens (físicos, quí­
micos, biológicos, psíquicos, morais, etc) que naque­
les se verificam são outras tantas modificações duma
consciência, a do Grande Logos ou Ishara... E as
modificações de uma mesma consciência não se com­
preende que possam ser outra coisa senão idéias,
pensamentos, representações, mais ou menos intensas.
Além disso, Maya não outra coisa senão o resíduo,
a representação mnemonica dos Manvantaras ante­
riores. E por outro lado, o universo não é mais do
que a ampliação dêsse mesmo Maya. Logo, pura re­
presentação, pura idéia. Assim o mundo extenso e
material é pura ilusão.
Mas por outra parte, como reduzir a puros con­
ceitos êsses planos do Cosmos, que se nos descre­
vem como “extensos” e de “diversa densidade” ; es­
sas formas, que ao atravessarem, descendo, os diver­
sos planos, tomam dêles não já objetos intencionais
que representem, mas seus elementos constitutivos?
Como se nos diz que êsses planos e formas se iden­
tificam com o Infinito, porque são só modalidades
suas, como o é o mesmo Ishara; não é verdade que
nos sentimos tentados de crer que êsse Infinito, êsse
Uno incognoscível é a nebulosa caótica do monismo
materialista?
Mas como essas mesmas formas trazem no seu bo­
jo amplas" mônadas, que são como o coração e a al­
ma de todos os sêres, mais ainda, como as mesmas
formas e os átomos de que se compõem, e tudo, mes­
mo o ínfimo mineral vive, isto é, vegeta, sente e tem
consciência mais ou menos reduzida, não poderiamos
dizer com toda verdade que o panteísmo teosófico é,
desde êste ou outros pontos de vista, animista e pam-
psiquista? Por isso podemos afirmar que a “cosmogê-
nese” teosófica do mundo é um panteísmo sincrético
em grau superlativo e por isso duas vêzes incoeren­
te e contraditório.
3) A evolução teosófica nada explica. — Porque
nela o fator principal e causa de todos os sêres é a
“Vibração”. Tudo enche esta palavra. O universo é
um conjunto de vibrações. E esta palavra será har­
moniosa e sugestiva quanto se quiser, mas não por
isso menos inepta para explicar a origem dos sêres.
Que coisa poderá ser a vibração de um ser espiritual,
como é a consciência? E depois, Vibração, ou é uma
palavra sem sentido, ou não é mais do que uma clas­

28
se de movimento local, como o oscilatório, etc, isto é,
transporte, mudança de posição de um ponto ou cor­
po material. Toda vibração, pois, em força da sua
mesma definição, supõe, não produz, o ser material
que modifica e muito menos explica a vida, que não
é, não pode ser, no sistema teosófico, mais do que o
poder de emitir vibrações. De modo que o universo
é um conjunto de vibrações. E a causa delas qual é?
— A vida. E a causa da vida? — O poder de vibrar.
E’ inútil procurar no sistema razões explicativas.
4) A reencarnação è gratuita e absurda. — Para
a imensa maioria dos teósofos, incapazes de com­
preenderem as especulações da evolução panteísta, o
Teosofismo fica reduzido ao dogma da reencarnação ou
metempsicose. Ora um tal dogma, cem vêzes elimi­
nado da sã filosofia, os teósofos não o provam de
modo algum. O seu argumento principal é que o ho
mem, para alcançar seu fim, não tem bastante com
mesquinho espaço de uma vida, mas deve evolució
nar durante séculos e séculos. Para que o argumen­
to concluísse, os teósofos deveríam provar: l.°, que
o fim último, como êles dizem, é “conseguir uma
consciência clara da sua identidade com Deus”, fim
tão absurdo como o panteísmo em que se funda; 2.°,
deveríam provar que a sua sonhada evolução é um
fato.
Aduzem o fato experimental das desigualdades fí­
sicas e morais do gênero humano, as quais, sem o
dogma das reencarnações humanas sucessivas, dei­
xam a justiça divina numa posição pouco honrosa.
O problema do mal, em que se abroquelam com ês-
te argumento, derramando sofisticamente num quadro
tõda a tinta negra espalhada pelo mundo, o proble­
ma do mal sempre deu que pensar aos espíritos re­
flexivos. Prescindindo agora da solução católica, que

29
gira como sobre dois pólos, sobre a liberdade do ho­
mem e o pecado original, o certo é que o teosofismo
não resolve o problema. Com efeito, quando as mô-
nadas humanas se encarnaram pela vez primeira, eram
iguais ou desiguais? Se iguais, como os veículos ani­
mais a que se uniram, resultados de uma evolução
uniforme e contínua, eram também iguais, segue-se
que cada homem nessa longa série de existências, tem
sido ou será o que todos os demais homens, teve to­
dos os vícios e as virtudes, toda a ciência e idiotice,
toda a grandeza e pequenez física e moral de todas
as gerações. Todos serão tudo. Porque apelar para
a liberdade, para explicar as diferenças, não o pode
fazer logicamente um sistema materialista. Se nos dis­
serem que as mônadas humanas foram desiguais des­
de a sua primeira encarnação, a quem se deverá atri­
buir essa desigualdade, senão a Mahadeva, que as
formou, como êles asseguram, para não aparecerem
danvinistas?
Além disso, a mônada humana, que acaba de en-
carnar-se por primeira vez, desprovida como está de
toda experiência, fonte única de suas idéias diretri­
zes e morais, não pode ser responsável de seus atos,
como a criança antes do uso da razão. E contudo,
desde então, contrai o seu primeiro “Karma”, padrão
e modêlo de todos os “Karmas” sucessivos. A quem
se deve imputar êsse primeiro “Karma” ? Porventu­
ra não será o homem obrigado a expiar atos de que
não foi responsável? Não provam pois a sua tese os
teósofos. Por outro lado, se quantos existimos no mun­
do temos vivido já outras vidas, por que nem um só
sequer conserva pelo menos uma idéia vaga das mais
recentes existências, nem sequer nos momentos de hi-
permnésia dos histéricos ve hipnotizados? Finalmen­
te pode ser verdadeira uma teoria que sanciona to-

30
dos os crimes? Conforme esta teoria, tu, que me es­
tás lendo, és um homem virtuoso, um ancião, enrique­
cido com a experiência de cem vidas passadas; eu,
criminoso, começo a percorrer o ciclo da minha evo­
lução. Se as minhas ações são criminosas, é porque
me acomodo necessariamente ao grau da minha evo­
lução. Sou um Eu que começa. Mais tarde serei me­
lhor, sem correções nem castigos. Não vos assiste,
pois, o direito de me castigar. Para mim sobeja a
justiça. *
5) A moral teosófica. — Os teósofos, se fossem ló­
gicos, deveríam ser amorais. Porque sem liberdade de
indiferença, incompatível por outra parte com o ma-
terialismo e fatalismo teosóficos, sem um Deus pes­
soal, fonte de toda moralidade, e sem uma sanção su­
ficiente para as boas é más obras, é impossível falar
de atos humanos, de leis de direitos ou deveres do
homem. Novo argumento da falsidade de suas dou­
trinas. Cedendo contudo ao impulso do sentido co­
mum, mais poderoso nêles que a lógica, não temera
contradizer-se e nos ponderam a elevação da sua mo­
ral. Não negamos que muitos de seus preceitos e má­
ximas têm certa elevação e nobreza. Mas é porque
são plagiadas do Budismo, ou de outras filosofias an­
tigas e modernas, especialmente do estoicismo e do
Kantismo. Além de que o seu tão cacarejado altruís­
mo humanitário, pelo exagerado e até ridículo em cer­
tas ocasiões, e pelo enregelado naturalismo que corre
em suas veias, jamais será outra coisa senão uma ca­
ricatura da caridade cristã. Finalmente se opõe dia­
metralmente à moral do Cristianismo, quando rejeita

*) Mais extensas considerações sõbre a pluralidade das


existências e a lei do Karma, veja no caderno n.° 8 desta
mesma coleção: A Reencarnação, Exposição e Critica, com
123 pp. Editôra Vozes Ltda., Petrópolis, R. J.

31
corno imoral e impossível até a simples noção da ora­
ção jsl Deus, da graça, da redenção expiatória e do per­
dão dos pecados. Para eles a salvação do homem é
negócio exclusivo do indivíduo.
6) Conclusão. — A razão de que se possam pro­
fessar semelhantes doutrinas está na profunda igno­
rância religiosa que reina por toda a parte, na in­
clinação que em todos os tempos manifestou o gêne­
ro humano ao que se apresenta encoberto com o véu
do mistério e do maravilhoso, e na imperiosa ne­
cessidade de encher êsse vácuo isondável do coração
humano, produzido pela consideração da própria pe­
quenez, incapaz de alcançar com os próprios recur­
sos a supervivência rio além-campa, que o instinto da
própria conservação a cada instante lhe põe diante
dos olhos.
Apraz-me terminar com algumas considerações de
Balmes (El Protestantismo, 1. 1, c. 7) “Mais aluci­
nado às vêzes que sedutor, o miserável maníaco che­
ga talvez a persuadir-se profundamente de que são
verdadeiras as suas doutrinas e de que ouviu a pala­
vra do céu, e apresentando na linguagem truculenta
da demência algo dé singular e extraordinário, trans­
mite a seus ouvintes uma parte da sua loucura e ad­
quire em breve tempo um número considerável de
adeptos. Não são muitos os capazes de representar
o primeiro papel na cena da loucura, mas infelizmen­
te os homens são demasiado insensatos para deixar-
se comboiar pelo primeiro que se arremesse a acome­
ter a emprêsa, pòis que a experiência e a história far­
tamente nos têm ensinado, que para. fascinar um gran­
de número de homens, basta uma palavra, e, para for­
mar um partido, por malvado, por extravagante, por
ridículo que seja, nada mais é preciso do que levan­
tar uma bandeira”.

32
c) Observações sôbre a Lei do Karma
Os reencarnacionistas de todas as escolas falam mui­
to daquilo que êles chamam de “lei do Karma”. Seria
a aplicação da lei da causalidade física ao mundo mo­
ral. Cada ação do homem, durante a vida terrestre ou a
encarnação, seria como que uma causa que terá ine-
vitàvelmente seu efeito ou na outra encarnação ou na
vida intermediária entre as reencarnações (tempo ao
qual os teosofistas dão o nome de Devachan e que,
segundo alguns, duraria 1.500 anos). O Karma seria,
pois, “a lei sem exceção, que rege o universo inteiro,
desde o átomo invisível e imponderável até os astros;
e esta lei consiste em que toda causa produz seu efei­
to, sem que nada possa impedir ou desviar o efeito,
uma vez posta a causa”. Esta lei é “cega, automática
e não inteligente”, exatamente como as leis físicas. O
que se faz está feito e terá inevitàvelmente suas con-
seqüências, sem possibilidade de perdão, nem de re­
denção, nem de indulgência.
Em torno desta lei, princípio básico da filosofia
teosófica, faremos as seguintes considerações críticas:
1) A lei do Karma de fato não nos faz progredir
na senda da perfeição. — E’ um jogo constante de
vaivém. A ação produz reação; a reação reclama no­
va ação; a nova ação outra reação; e assim indefini­
damente. João matou Paulo. Na próxima reencarna-
ção João deverá sofrer morte violenta: há de haver,
portanto, quem o mate; êste alguém, por sua vez, na
encarnação seguinte, deverá encontrar outro assassi­
no; e assim por diante. E a isso chamam de progres­
so. Progresso, sim; mas horroroso progresso na senda
do crime.
2) A lei do Karma leva a absurdos: E’ urç fato
universal, em que os próprios teósofos e reencarna-

33
ciònistas insistem, que não há pessoa sem seus sofri­
mentos e dores, sem aflições e contrariedades; quase
todos somos vítimas de ingratidão e traição, de injus­
tiças e calúnias, etc. Deveríam, pois, os defensores do
Karma sustentar que todos, absolutamente todos, fo­
mos, em vidas anteriores, homens ingratos e traidores,
injustos e ladrões, criminosos e tiranos, porquanto to­
das estas calamidades que agora sofremos, seriam
apenas reações exata. e matemàticamente equivalentes
à conduta de nossa vida anterior. O absurdo será mais
evidente ainda se considerarmos a vida de Cristo, de
Maria Santíssima, dos Apóstolos, dos grandes Már­
tires e dos Santos em geral, pois que, todos êles, à
imitação de Cristo, sofreram em grau heróico. De acor­
do com as inevitáveis leis do Karma, teríamos que
Cristo, o Rei dos Mártires, e Maria, a Rainha das Dores,
devem ter sido em vidas anteriores dos maiores cri­
minosos de que há memória... Absurdos inadmissíveis.
3) A lei do Karma è injusta. — Ela nos faz sofrer
por culpas de que não temos a menor idéia. Castigos
de que crimes? Por que motivo somos tão duramente
punidos? Qual o pecado que devemos expiar? E fi­
camos a sofrer castigos e mais castigos, em longas e
intermináveis séries de reencarnações, sem ao menos
saber por quê. Tirania sem nome! A elementar jus­
tiça humana exige que o réu castigado saiba por que
é punido. O bom-senso revolta-se contra um castigo
que nos é infligido sem têrmos a menor idéia de al­
guma culpa cometida. Nem mesmo os seres inrracio-
nais são punidos assim, porque também nêles procura-
se associar quanto possível o castigo ao erro cometido.
4) A lei do Karma é fatalista: Uma vez praticada
a ação, não há mais remédio. E’ esperar a reação do
efeito inevitável. E’ impossível fugir. Não haverá nem
arrependimento, nem esforço que possa contornar o

34
feito. E’ fatal. Não há liberdade. A liberdade é apenas
aparente.
5) A lei do Karnxa nega a bondade e a misericór­
dia de Deus. — A fundadora da Teosofia, Sra. Bla-
vatsky, é consequente quando escreve em sua Intro­
dução à Teosofia o seguinte: “Nós não cremos nem
num sacrifício propiciatório, nem na possibilidade do
perdão do mais insignificante pecado, por meio de
qualquer D eu s... Nós cremos numa justiça rigorosa,
imparcial. . . que não pode sentir nem ira, nem com­
paixão, mas que age com eqüidade absoluta, deixando
que cada coisa, grande ou pequena, produza suas con­
sequências inevitáveis”. Neste sistema não há lugar
para Cristo, o Redentor, nem para os sacramentos da
Ig reja....
E, assim, a lei do Karma é pagã, anticristã.

V. As Sociedades Teosóficas e a Igreja


Não são, pois, necessários profundos conhecimen­
tos filosóficos ou teológicos para verificar que há opo­
sição total entre as arbitrárias fantasias dos teóso-
fos e a mensagem cristã e que, por conseguinte, o
teósofo deixou de ser cristão e o cristão não pode afi­
liar-se à Teosofia. Basta lembrar as grandes linhas
que caracterizam o pensamento teosófico: panteísmo,
evolucionismo monista, cristologia fantástica e reen-
carnacionismo. Como os espíritas, esoteristas, maçons,
e rosacrucianos, também os teósofos propalam que
êles não são contra nenhuma religião, mas ao mesmo
tempo propagam as idéias mais diametralmente con­
trárias à doutrina cristã. A propaganda teosófica sus­
tenta que o católico, para ser bom teósofo, pode con­
tinuar bom católico, mas ao mesmo tempo lhe faz sa­
ber que a Santíssima Trindade são apenas “três as­

35
pectos” da Divindade; que Jesus Cristo não passa de
um mahatma ou Adepto do Reino Super-humano, que
vive no Plano Búdico e desceu a este Plano Físico para
ser um dos Instrutores deste Mundo, ao lado de Con-
fúcio, Buda, e K rishna...; que o homem está sujeito
à fatal e inevitável “lei do Karma”, sem possibilida­
de de perdão ou redenção: “Nós — escreve a Sra.
BÍavatsky em sua Introdução à Teosofia — nós não
cremos nem num sacrifício propiciatório, nem na pos­
sibilidade do perdão do mais insignificante pecado,
por meio de qualquer D eus... Nós cremos numa jus­
tiça rigorosa, imparcial. . . que não pode sentir nem
ira nem compaixão, mas que age com equidade ab­
soluta, deixando que cada coisa, grande ou peque­
na, produza suas conseqüências inevitáveis”. Reden­
ção, graça, sacramentos, Igreja — tudo se torna per-
feitamente supérfluo e impossível no sistema teosófico.
Não obstante continua a propaganda dos teósofos a
bater na gasta tecla: “Não somos contra nenhuma re­
ligião; e o católico pode continuar em sua religião e
ser bom te ó so fo ...” Diante desta insistente e irri­
tante popaganda, a Santa Sé viu-se obrigada a inter­
vir com uma declaração oficial, feita em 1919, nos
seguintes termos:
“Na reunião plenária dos Eminentíssimos e Reverendis­
simos Cardeais Inquisidores das questões de fé e de costu­
mes, foi proposta a seguinte dúvida: Se as doutrinas hoje
denominadas teosóficas podem conciliar-se com a doutrina
católica e, portanto, se é lícito afiliar-se às Sociedades Teo­
sóficas, assistir às suas reuniões, ler seus livros, revistas,
diários e outras publicações. — Os mesmos Reverendissi­
mos Cardeais, tendo pedido antes o voto dos Consultores,
concordaram em responder o seguinte: Negativamente a tô -
das as perguntas. E na quinta-feira, 17 do mesmo mês, nos­
so Santíssimo Padre Bento XV, por graça de Deus Sumo
Pontífice, na audiência ordinária concedida ao Ilustríssimo
Assessor do Santo Ofício, conhecida a resolução tomada pe-

36
Ios Eminentíssimos Cardeais, aprovou-a e mandou que fos­
se publicada. Dado em Roma, no Palácio do Santo Ofício,
aos 8 de julho de 1919*'. — (A. A. S., 1919, p. 317; cf. Dz.
2189).
A Santa Sé, portanto declarou oficialmente:
1) as dotrinas hoje denominadas teosóficas não po­
dem conciliar-se com a doutrina católica (“componi
non possunt cum doctrina catholica”);
2) não é lícito ao católico afiliar-se às Sociedades
Teosóficas;
3) não é lícito assistir às reuniões dos teósofos;
4) não é lícito ler livros, revistas, diários ou outras
publicações teosofistas.
As Sociedades Teosóficas se apresentam como mo­
vimentos organizados, com fins religiosos e numero­
sas doutrinas heréticas e pagãs. Por isso seus asso­
ciados devem ser considerados como membros de
seitas acatólicas ou heréticas, são verdadeiramente he-
reges e como tais devem ser tratados. O católico que
se,associa a qualquer sociedade, loja ou rama dos teó­
sofos, desliga-se ipso facto da Igreja e perde todos
os direitos dos fiéis na comunidade cristã: E’ herege
e incorreu na censura da excomunhão.
m
ÍNDICE

I. A Sociedade Teosófica Mundial ....................................... 5


1) Origem da Sociedade Teosófica ............................... 6
2) Esboço dos principais ensinamentos da Teosofia 11
II. A Sociedade Teosófica no Brasil ................................... 14
III. A Sociedade Teosófica Brasileira ................................. 19
IV. Crítica da Teosofia e de sua Doutrina ....................... 23
a) Observações sôbre a Teosofia ............................... 24
1) A sua história não favorece os teósofos ......... 24
2) E’ perfeitamente inútil ........................................ 24
3) E’ irracional ............. 25
4) E’ gratuito ................................................................ 25
5) Está longe de ser original ............................... 26
\ ' b) Critica da doutrina teosófica ................................... 26
1) O Deus dos teósofos é uma quimera .............. 26
2) O seu panteismo é duas vezes absurdo ___ 2*í
3) A evolução teosófica nada explica .................. 28
4) A reencarnação é gratuita e absurda .............. 29
5) A moral teosófica .................................................. 31
6) Conclusão ................................................................... 32
c) Observações sôbre a Lei do Karma ....................... 33
V. As Sociedades teosóficas e a Igreja ........................... 35

Você também pode gostar