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Escritos de Louis Le Guillant

Da ergoterapia à psicopatologia do trabalho

Prefácio: Yves Clot


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Posfácio: Wanderley Codo
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Escritos de Louis Le Guillant : da ergoterapia à


psicopatologia do trabalho I prefácio de Yves Clot ;
Organização e apresentação: Maria Elizabeth Antunes Lima
posfácio de Wanderley Codo ; organização e
apresentação de Maria Elizabeth Antunes Lima ;
tradução de Guilherme Teixeira. - Petrópolis,
RJ : Vozes, 2006.
ISBN 85.326.3316-1 Tradução: Guilherme Teixeira
Título original : Travaux et écrits de Louis Le
Guillant quelle psychiatrie pour notre temps?
Bibliografia.
1. Le Guillant, Louis, 1900-1968
2. Psicopatologia 3. Psiquiatria social
4. Terapêutica ocupacional 5. Trabalho- Aspectos
psicológicos I. Clot, Yves. li. Codo, Vanderley.
III. Lima, Maria Elizabeth Antunes.

06-1584 CDD-158.7

Índices para catálogo sistemático:


1. Ergoterapia : Psiquiatria social : EDITORA
psicologia aplicada 15 8. 7
VOZES
2. Psicopatologia do trabalho :
Psiquiatria social: Psicologia aplicada 158.7 Petrópolis
© Maria Elizabeth Antunes Lima

Esta obra foi organizada a partir dos seguintes originais franceses: Sumário
- L'affaire des souers Papin. Revue Les Temps Modernes, vol. 19, n. 210, 1963.
- Introduction à une psychopathologie sociale. Revue L'evolution Psychiatrique, Apresentação, 7
n. 1, 1954. Prefácio à edição brasileira, 13
- Quelle Psychiatrie pour notre temps- Travaux et écrits de Louis Le Guillant.
Toulouse, Éres, 1984. Introdução a uma psicopatologia social, 23
Parte I - Ergo terapia, 7 5
Direitos de publicação em língua portuguesa:
2006,_ Editora Vozes Ltda. 1. Uma experiência de readaptação social, 77
Rua Frei Luís, 100 2. Observações sobre um grupo de cem pacientes de um serviço
25689-900 Petrópolis, RJ fechado de um departamento de Paris, 94
Internet: http://www.vozes.com.br
3. Problemas suscitados pela cronicidade no plano das instituições
Brasil
psiquiátricas, 112
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poderá ser 4. A organização do trabalho dos pacientes em um hospital
reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios psiquiátrico, 149
(eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em 5. Uma experiência com "oficinas terapêuticas", 154
qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora.
Parte 11- Psicopatologia do trabalho, 173
Editoração: Maria da Conceição Borba de Sousa 1. A neurose das telefonistas, 175
Projeto gráfico e capa: AG.SR Desenv. Gráfico 2. Algumas observações metodológicas a propósito da neurose das
telefonistas, 189
ISBN 85.326.3316-1 3. O trabalho e a fadiga, 218
4. Incidências psicopatológicas da condição de "empregada
doméstica", 242
5. O caso das Irmãs Papin, 287
6. O caso de Marie L., 331
Posfácio - O resgate de uma dívida, 349
Biobibliografia de Louis Le Guillant, 355

Este livro foi composto e impresso pela Editora Vozes Ltda.


Apresentação
Maria Elizabeth Antunes Lima

É com imensa satisfação que apresento ao leitor brasileiro parte da obra do


grande psiquiatra francês Louis Le Guillant. Lamento apenas não ter sido possí-
vel fazê-lo antes, tendo em vista a importância histórica deste autor que lutou
incansavelmente pela humanização da prática psiquiátrica no seu país.
Le Guillant foi um dos fundadores do movimento denominado Psiquiatria
Social, que emergiu na França a partir de 1945 e do qual participaram os princi-
pais teóricos que contribuíram para a construção do campo da Saúde Mental e
Trabalho (SM&T) naquele país, dentre eles, Paul Sivadon, François Tosquelles,
Sven Follin, Lucien Bonnafé e Claude Veil. Apesar de admitir algumas diver-
gências teóricas em relação aos colegas, Le Guillant jamais negou um ponto que
tinham em comum e que dava sentido ao movimento: a insatisfação com a psi-
quiatria de sua época e o desejo de transformar suas práticas. É claro que cada
um, ao buscar essa renovação, construiu sua trajetória de forma singular e con-
tribuiu à sua maneira para o avanço desse processo, mas não tenho dúvida de
que o mais consistente e original foi Le Guillant. E é por isto que só posso ressal-
tar a relevância desta publicação que, ~spero, seja apenas a primeira de uma série
que contemple todo o legado do autor.
Assim, ao organizar esta coletânea, minha pretensão foi a de resgatar pelo
menos uma parcela da enorme dívida que temos para com esse teórico, cuja de-
dicação permanente à pesquisa, balizada por uma inteligência privilegiada, per-
mitiu que lançasse as bases de um campo ainda incipiente em seu país, alcançan-
do resultados que, ainda hoje, permanecem válidos.
Ao tentar compreender os impactos nefastos dos processos de trabalho, que
proliferavam na França do pós-guerra, sobre a saúde mental dos trabalhadores,
Le Guillant deixou uma contribuição inestimável para os interessados por esse
campo de estudos. Os resultados de suas pesquisas em torno da "fadiga nervosa"
parecem cada vez mais visíveis, sendo confirmados pela maioria das investi-
gações sobre os efeitos da globalização da economia nos assalariados, confi-
gurando o que Yves Clot nomeia corretamente, no prefácio desta obra, como
8 Apresentação Apresentação 9

"doenças da produtividade". Foi, sem dúvida, graças à sua sagacidade e dedica- temos a pesquisa com as empregadas domésticas cujo rigor teórico-metodológi-
ção que Le Guillant conseguiu perceber nas formas de organização do trabalho co a coloca seguramente entre os clássicos dessa disciplina. Em função disso,
de sua época os sinais, ainda incipientes, dessa patologia que assume, nos dias achei necessário incluir nesta coletânea, além do texto no qual ele discute os re-
atuais, um caráter epidêmico. sultados desse estudo, um artigo que não se encontra na edição francesa e que foi
Mas seu legado vai bem além, pois nosso autor deixou também contribui- publicado na Revista Temps Modernes, de 1963: "O caso das Irmãs Papin". O ar-
ções valiosas, extraídas de suas ricas experiências em torno da reinserção de paci- tigo trata de um crime cometido por duas irmãs, empregadas domésticas, con-
entes psiquiátricos, o que permitiu um avanço das chamadas "terapêuticas ati- tra as patroas (mãe e filha) no interior da França, em 1933. Pelas suas caracterís-
vas", conforme o leitor poderá constatar na primeira parte desta coletânea. Seu ticas de extrema violência, esse crime mobilizou toda a França e tem sido objeto
trabalho com esses pacientes revelou a ineficácia das práticas comumente adota- de reflexão de muitos teóricos, inspirando até mesmo uma conhecida peça de
das pela instituição psiquiátrica francesa que permanecia, segundo ele, "pobre e Jean Genet (As criadas). Entre as diversas produções sobre o assunto, a deLe
equivocada por trás de sua segurança habitual". O verdadeiro tratamento, dizia Guillant se destaca não apenas pela sua fidelidade aos fatos, mas, sobretudo, por
ele, deveria consistir no retorno desses pacientes para o seu meio de origem. ter sido construída após conhecer em profundidade as condições de vida e de tra-
O sucesso do seu propósito revelou, simultaneamente, o fracasso das práti- balho das domésticas parisienses.
cas tradicionais da psiquiatria do seu país, construindo, ao lado das experiências Mais especificamente no campo da clínica, temos o caso Marie L. 2, conside-
de Tosquelles, em Saint-Alban e de Paul Sivadon, em Ville-Évrard, os pilares rado, com razão, por Bernard Doray3 , como o momento em que Le Guillant
para a sua transformação. Aliás, cabe ressaltar que, muito mais do que a "psico- "mais se aproximou dessa que seria sua obra máxima", ao inovar os processos de
terapia institucional" preconizada por Tosquelles, o que Le Guillant propunha diagnóstico e tratamento dos problemas de saúde. A nova abordagem que
era a superação da ordem asilar, única saída, segundo ele, para uma instituição, emergiu da história clínica de Marie L. trouxe subsídios inestimáveis a todos os
cuja desumanidade, desde sua origem, a desqualificava para qualquer esforço de profissionais de saúde, independentemente de sua área de atuação. Ela represen-
humanização. Assim, apesar de suas divergências teóricas com Paul Sivadon, foi ta, provavelmente, o momento em que o grande psiquiatra francês conseguiu
com ele que se uniu nos esforços para superar uma prática que ambos considera- articular melhor as dimensões subjetiva e objetiva, o singular e o coletivo, esca-
vam cruel e ineficaz, o, que os coloca, sem dúvida, entre os precursores da luta pando à visão dicotômica que prevalecia no seu meio e evitando, assim, cair no
antimanicomial naquele país 1 . psicologismo ou no sociologismo, vieses que identificou na produção teórica de
Esse aspecto de sua trajetória, igualmente pouco conhecido no Brasil, valoriza sua época e que jamais deixou de combater. Ao expor o caso, Le Guillant deixou
ainda mais esta publicação, uma vez que as bases teóricas sobre as quais tem se claro que todo seu esforço consistia em compreender o adoecimento, a partir da
apoiado a reforma psiquiátrica no nosso país não incorporaram devidamente, no ultrapassagem das explicações "sumárias e insatisfatórias" a respeito de suas "cau-
meu entender, o legadb francês. Pois, como bem definiu Billiard (2001, id.), esse sas sociais" ou "psicológicas". Fiel à sua herança politzeriana, o que propunha era
grupo de psiquiatras não se limitou a propor a revisão das práticas de assistência que se tentasse estabelecer possibilidades de compreensão e de intervenção, no
aos pacientes no âmbito do hospital ou a criação de instituições extra-hospitalares. plano "do conhecimento prático do homem, da história dos pacientes e de suas
Ele propôs igualmente uma reflexão sobre o lugar do psiquiatra na sociedade, condições concretas de existência". O contexto psicológico deveria ser apreendi-
agindo na prevenção dos transtornos mentais em todos os lugares nos quais eles se do, segundo ele, de forma integrada com as condições de vida e ser concebido
manifestam e empreendendo um esforço pedagógico junto à população, a fim de como o "reflexo no espírito do paciente das condições sociais e educativas, eco-
reduzir as atitudes de rejeição que reforçam o isolamento dos doentes mentais. nômicas e ideológicas, ao me_smo tempo bem reais e particulares que ele viveu
No âmbito da Psicopatologia do Trabalho, a contribuição deLe Guillant é
igualmente notável. Além dos estudos já citados a respeito da "fadiga nervosa",
2. Cf. cap. 6 da Parte li desta publicação.
3. Cf. Doray, B. Un regard sur l'oeuvre de Louis Le Guillant dans le domaine de la
1. Cf. Billiard, I. Santé mentale et travail- L'émergence de la Psychopathologie du Travail. Pa- Psychopathologie du Travail. In: Clot, Y. (org.). Les histoires de la Psychologie du travail.
ris, La Dispute, 2001. Toulouse, Octares, 1996.
10 Apresentação Apresentação 11

desde sua infância até o momento atual". Foi, portanto, na análise desse caso sua época, ele já podia contar com teóricos perfeitamente capazes de subsidiar
que Le Guillant explicitou, pela primeira vez, o método biográfico posto por ele suas investigações, tais como Vygotsky, Leontiev, além de Karl Marx e do pró-
como o único caminho possível para se compreender como se dá o processo de prio Politzer, a quem se referia freqüentemente como sua grande fonte de inspi-
adoecimento. Tal método consiste no resgate da totalidade da história do paci- ração. Os dois últimos aparecem com freqüência no seu trabalho, embora no
ente, visando, sobretudo, explicitar "suas formas de julgar e de se conduzir", caso de K. Marx nem sempre de forma adequada, uma vez que percebe-se um
além das "representações do mundo forjadas por essa história". Ou seja, a expli- certo hegelianismo no tratamento dado ao seu legado teórico. Quanto aos dois
cação para o problema não se encontraria, nem nos dados de personalidade, nem primeiros, parecem não ter sido sequer citados por ele, sugerindo que a psicolo-
no contexto social, considerados isoladamente, mas sempre nas formas pelas gia da antiga União Soviética restringiu-se, para nosso autor, àquela produzida
quais eles se articulam, construindo uma trama complexa que se traduz, final- por Pavlov.
mente, na trajetória de cada indivíduo. "Parece-me cada vez mais [dizia ele} que A adesão deLe Guillant a correntes teóricas incapazes de dar conta da ri-
só a biografia total[ ... } dos nossos pacientes nos permite compreendê-los ple- queza do material empírico que ele próprio reunia, só pode ser entendida como
namente e, eventualmente, ajudá-los". um reflexo em sua obra dos principais dilemas de sua época. Isto sugere que até
Mas é claro que a obra deLe Guillant não está isenta de equívocos. Cabe, por- mesmo as mentes mais privilegiadas sofrem os limites historicamente impostos
tanto, tratar também aqui de suas insuficiências, embora seja importante ressal- ao pensamento. Nada disso, entretanto, reduz a importância do nosso autor. Ao
tar, desde já, que ele faz parte daquela cepa de teóricos cuja grandeza intelectual contrário, a leitura dos seus textos coloca sempre em evidência sua inteligência e
está presente até mesmo nos erros que cometem. Ou seja, por mais que sejamos sua grandeza, qualidades que o leitor certamente será capaz de identificar.
tentados a ver de forma puramente negativa suas referências a autores como Pav-
lov, por exemplo, um olhar mais atento para os seus argumentos evidencia que Belo Horizonte, 11 de outubro de 2005
sua intenção era a de dar um conteúdo mais concreto aos processos psicofisioló-
gicos que investigava. Assim, o que tentava encontrar em Pavlov era uma teoria
mais capaz de explicar concretamente os processos psicossomáticos que, à sua épo-
ca (e receio que até hoje), eram vistos de forma demasiadamente abstrata4 • Embo-
ra questionável, esse re~urso a Pavlov teve por finalidade reforçar uma tese funda-
mental que aparece em diversos momentos de sua obra: a da impossibilidade de
separar o psicológico e o fisiológico. Seu intuito, portanto, era o de "eliminar o ve-
lho dualismo metafísico entre psicologia e fisiologia, psicogênese e organogênese".
Além disso, ele se sentia insatisfeito com as teses sobre a influência do meio na ati-
vidade nervosa superior, mas sem qualquer esforço no sentido de demonstrar, de
forma efetiva, como se dá tal relação. Em Pavlov ele encontrou alguns elementos
que lhe permitiam avançar nessas questões, embora reconhecesse que diversos as-
pectos de sua teoria careciam de maior aprofundamento.
Mesmo quando citou autores ainda mais inconsistentes, tais como Stalin e
Mao Tsé-Tung 5 , Le Guillant mostrou-se capaz de destacar em seus textos aque-
les aspectos que melhor traduziam as bases sociais do psiquismo. É claro que, à

4. O esforço no sentido de ultrapassar a mera especulação nesse campo ficou evidente


também no tratamento dado ao caso de Marie L., quando Le Guillant expôs suas críti-
cas às teorizações, que prevaleciam naquele momento, em torno da psicossomática.
5. Cf. "Introdução a uma psicopatologia social", artigo de 1954, que inicia esta coletânea.
Prefácio à edição brasileira
Yves Clot

É com alegria que recebemos a notícia da publicação, no Brasil, de uma


grande parte da obra de Louis Le Guillant. Em matéria de análise do trabalho, a
França e o Brasil têm uma história comum; além disso, entre nossos dois países
existem sólidos vínculos no campo da ergonomia e da psicopatologia do traba-
lho. No entanto, é uma injustiça que a obra deLe Guillant seja tão pouco conhe-
cida no Brasil; aliás, esse foi o caso, durante muito tempo, na própria França até
serem publicados, em 1984- sob o título Quelle psychiatrie pour notre temps? -,os
escritos deste psiquiatra heterodoxo. Os textos do presente livro são, no essencial,
oriundos dessa obra. Apraz-nos parabenizar os organizadores desta edição brasi-
leira pelo fato de terem concebido uma publicação diferente do livro francês,
graças a uma nova seleção dos artigos que, durante um período de cerca de 25
anos, foram escritos por Le Guillant.
Este Prefácio não pretende ser, de modo algum, um guia certificado de leitu-
ra. Todos aqueles que vierem a estudar estes textos formarão sua própria idéia
em relação ao alcance de um pensamento I
tão original quanto o de Le Guillant.
Na realidade, eu gostaria de limitar-n;:te a algumas observações a propósito de
sua contribuição para o desenvolvimento do que, atualmente, é designado por
"clínica do trabalho". Na França, uma primeira fundação da "psicopatologia do
trabalho", estudada de forma excelente por Isabelle Billiard (200 1), que contou
com o relevante contributo deLe Guillant- entre outros especialistas e em con-
trovérsia com eles (P. Sivadon, F. Tosquelles e C. Veil) -,foi seguida pela impor-
tante obra de C. Dejours que culminou na proposição de designar este campo de
análise pela denominação de "psicodinâmica do trabalho". A contribuição deLe
Guillant tem sido mobilizada, freqüentemente, no âmbito desta última perspecti-
va (Dejours, 2000); entretanto, "a psicodinâmica do trabalho" rompe, também,
de forma bastante nítida, com a herança da década de 50. Ao transformar a psi-
canálise em sua principal referência na psicopatologia do trabalho, a concep-
ção - agora, clássica- de C. Dejours adota uma orientação diferente da que ha-
via sido preconizada por Le Guillant.
14 Prefácio à edição brasileira Prefácio à edição brasileira 15

Pode-se, sem grande dificuldade, compreender o itinerário que vai da psico- acompanhou um grande número de doentes mentais do hospital de Chari-
patologia do trabalho à psicodinâmica do trabalho que, aliás, tem seus próprios té-sur-Loire; com efeito, sua tarefa consistia em retirá-los deste estabelecimento
méritos. Pode-se, também, discuti-lo- como já tenho feito em várias oportuni- para escaparem aos bombardeios. Assim, fora do hospital, pôde verificar que,
dades (Clot, 1998; Clot, 2001; Clot, 2004) -, na perspectiva de um outro hori- nas provações coletivas da vida cotidiana, eles demonstravam uma "surpreen-
zonte possível em clínica do trabalho, a saber: o de uma "clínica da atividade". dente adaptação social"; a tal ponto que, em seguida, a internação deixou de ser
No entanto, apesar de existirem várias maneiras de fazer viver, no campo da psi- justificada para um grande número destes pacientes. Desta constatação, ele tirou
copatologia do trabalho, a herança de Le Guillant, sua apropriação crítica exige uma lição que compartilha com Tosquelles: convém cuidar da instituição para cui-
que a obra deste autor seja bem conhecida. E, deste ponto de vista, a edição bra- dar melhor dos pacientes. Esta é a razão por que, nas discussões sobre a ergotera-
sileira é um importante acontecimento científico. pia, ele defenderá sempre o trabalho "real", privilegiando as experiências de ofi-
Quando alguém inscreve seu trabalho no campo da análise psicológica do cinas, no exterior do hospital, relativamente às abordagens internalistas que cor-
trabalho, como é o meu caso, as indicações de Le Guillant são preciosas. Assim, rem o risco, em seu entender, de impor aos pacientes uma espécie de ortopedia
ele adverte-nos contra uma psicologia do trabalho positivista, demasiado disse- institucional. Suas escolhas são orientadas sempre pela "reabilitação social do tra-
minada na tradição anglo-saxã da psicologia industrial. Para ele, a psicologia do balhador" (Billiard, 2001, p. 126-129). Desta forma, na psicopatologia do traba-
trabalho não deve ser paralisada por um objetivismo hábil e prudente, nem per- lho, em vez de estabelecer um quadro clínico ou a nosologia dos distúrbios seja dos
der-se nas areias movediças da erudição (1952, p. 89-92). No Prefácio de apre- radiotelegrafistas, das empregadas domésticas, das telefonistas, dos mecanografis-
sentação da tese de]. Bégoin\ em 1958, ele insiste sobre a "ação" que, inclusive, tas ou, ainda, dos maquinistas de trem, trata-se sobretudo de promover uma nova
deve deixar de ser o apanágio do psiquiatra ou do psicossociólogo na medida em clínica a partir de cada situação concreta, passível de ser transformada. Esta posi-
que o essencial é a elucidação das situações pelos próprios trabalhadores. E, des- ção é original e deixa-o bastante afastado das preocupações de profilaxia social que
te modo, para sublinhar o melhor possível sua preocupação relativamente à congregam outros psiquiatras, tais como P. Sivadon e C. Veil, em torno da Ligue
transformação do trabalho, ele escreve "psicologia-do-trabalho" com traços-de- d'Hygiene Mentale {Liga da Higiene Mental}; de preferência, ela o aproxima da
união. Estes exprimem, perfeitamente, a escolha deLe Guillant: antes das pes- tradição ergonômica francófona, desenvolvida por A. Wisner, embora tal en-
soas, é do trabalho q~e se deve "cuidar", em todos os sentidos da palavra. contro, realmente, nunca tivesse ocorrido (Wisner, 1999, p. 149).

Com efeito, para ele, está fora de questão confundir a nocividade do traba- Convém não dissimular que tal postura clínica, alimentada por uma dura-
lho com uma "doença profissional", específica a determinada profissão, e que ti- doura suspeição relativamente à psicanálise- apesar de um interesse nunca des-
vesse de ser "reconhecida" em uma nosografia. A "síndrome subjetiva comum mentido-, pode ser considerada com<D uma concepção "sociogenética" da doen-
da fadiga nervosa" designa todas "as doenças da produtividade", cuja fonte é a ça mental (Billiard, 2001, p. 125); ainda melhor, ela pode levar a acreditar que,
intensificação do trabalho. Com Bégoin, ele defende a idéia de que, nas condi- na concepção de Le Guillant, verifica~se uma atenuação da dimensão da aliena-
ções do momento, o "nervosismo" das telefonistas é uma doença necessária para ção propriamente subjetiva, assim como a dissolução da dimensão pessoal na
a realização de suas tarefas profissionais; portanto, a preocupação predominante moldura social (Doray, 2001, p. 168). E é verdade que sua insistência sobre a
deLe Guillant é a transformação do trabalho taylorizado, em plena expansão na alienação social, associada a seu compromisso- às vezes arriscado- em relação
época. Compreende-se, então, o motivo pelo qual nosso autor inscreve a psico- à "cruzada" pavloviana do período stalinista, marcam sua obra com uma certa
patologia do trabalho em uma psicopatologia social mais ampla. Apesar de nun- heterogeneidade.
ca ter formulado sua reflexão desta forma, o cuidado dispensado a esta transfor- No entanto, estou convencido de que convém evitar as simplificações na in-
mação real do trabalho é que constitui a melhor garantia para a saúde mental terpretação de seu trabalho, ~tê mesmo quando ele próprio nos impele a ceder a
dos trabalhadores. Pelo que parece, ele nunca chegou a esquecer uma experiên- essa tentação. Vejamos dois exemplos. Em 1957, ele publicaHistoire de Mme L. 2 ,
cia que havia feito em psiquiatria: na situação transformada pela guerra, ele estudo de caso que dá testemunho de uma rara atenção à subjetividade; este

1. Cf., nesta coletânea, O trabalho e a fadiga (N.T.). 2. Cf., nesta coletânea, História de Marie L.: estudo de caso (N.T.).
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16 Prefácio à edição brasileira Prefácio à edição brasileira 17

texto é redigido na mesma época do Prefácio da tese de Bégoin. Em certo senti- mo tempo, inútil para viver na nova situação em que se encontra e da qual, apesar
do, ele descreve a "síndrome subjetiva comum da fadiga nervosa" a partir do de tudo, deve apropriar-se. Esta experiência depreciada, tecida por sentimentos
"interior", do ponto de vista de uma história irredutivelmente singular. O caso de contrariados, fica encarcerada, então, em sua existência atual. O ressentimento é,
Marie L. constitui um excelente exemplo de que, sob determinadas condições portanto, uma espécie de ruminação dos sentimentos latentes, exacerbados pelas
de trabalho, uma pessoa acaba ficando "nervosa" para conseguir realizar sua ta- humilhações e pela injustiça da situação presente. Poderíamos defini-lo como um
refa. E, no entanto, raramente como neste texto, Le Guillant terá dado provas repisamento dos sentimentos, como um sentimento sobre sentimentos, ao mesmo
de tamanha sensibilidade clínica, aliás, uma das características que ele desenvol- tempo solicitados e proibidos, A propósito das empregadas domésticas, Le Guil-
ve, de forma particular, na esteira da grande tradição francesa na área da medi- lant escreve que "o distúrbio vai surgir do grau de distância e de contradição entre
cina. Com uma impressionante precisão, ele demonstra como Marie L. "compli- suas condutas de vida passadas e presentes, da forma correlativa dos conflitos daí
ca sua vida" ao enervar-se no cumprimento de sua tarefa; descreve o quadro do resultantes" (1984, p. 317). Mas esse é, precisamente, o caso de todos os "desloca-
"frenesi quase maníaco" (Doray, 2001, p. 173) com que ela defende sua "con- dos" e "transplantados" da existência em situação de trabalho; pela interferência
cepção do mundo", no decorrer de toda a sua decepcionante vida. Neste aspec- de sua própria história, eles estão amputados de seu poder de agir sobre seu meio
to, não existe nenhuma causalidade linear para garantir a ligação entre o psíqui- profissional atual. Um mundo subjetivo, individual e coletivo, interpõe-se, por-
co e o social. Pelo contrário, "estabelece-se uma relação dialética entre fatores tanto, entre os sujeitos e seus contextos de existência. Eis por que, como é subli-
psicológicos e fadiga nervosa. Esta dramatiza as contradições e os conflitos, as di- nhado ininterruptamente por Le Guillant, "o problema central e mais difícil de
ficuldades, os temores e os descontentamentos, no plano tanto da vida pessoal nossa disciplina encontra-se na passagem de uma situação vivida, seja ela qual for,
quanto da vida de trabalho; por sua vez, todos estes ingredientes tornam as con- para um distúrbio mental" (1984, p. 316).
dições de trabalho ainda mais intoleráveis, e as cadências mais infernais" (1984, No estudo da profissão das empregadas domésticas, justamente a submis-
p. 3 71). Este último comentário, válido para Marie L., encontra-se no artigo so- são, relacionada com a ofensa e a humilhação, é encarada não como a aceitação
bre algumas observações metodológicas a propósito da "neurose das telefonis- da situação, mas como a forma invertida de uma impotência para agir. Estamos
tas"\ publicado no mesmo período; aliás, ele poderia ser classificado na catego- em 1963 eLe Guillant identifica a passividade de uma conduta como um ato
ria dos textos "sociogenéticos" deLe Guillant. psíquico defensivo; deste modo, ele separa-se da velha noção de uma patologia
É que, de fato, uma hipótese serve de suporte- sem dúvida, de forma bastan- considerada como uma agressão que, do exterior, atinge um sujeito desarmado e
te subterrânea- ao edifício da psicopatologia do trabalho de nosso autor. Trata-se inocente. Na patologia existe, realmente, uma criação subjetiva que inclui o
da hipótese do ressentimento. Penso que esta formulação deve ser levada a sério, ou ódio. No entanto, trata-se de uma criação mórbida que confina o sujeito na la-
seja, como um conceito central que estabelece a ligação entre as peças do que- buta sem fim das tarefas fictícias. Assiin, inspirando-se em S. Weil, ele pode es-
bra-cabeça desta obra. ,Ao pensar em Nietzsche, embora citando Littré4, Le Guil- crever que, no trabalho, a tentação de ''deixar de pensar" pode tornar-se invencí-
lant define o ressentimento desta forma: "no decorrer da história, seu sentido des- vel "por ser o único meio de deixar de sofrer" (1984, p. 406). Ele chega mesmo a
locou-se, lentamente, de tudo o que era ação de ressentir para limitar-se a designar avançar mais longe já que, ao invocar a dialética da "ofensa e da humilhação"
a lembrança dos ultrajes e não dos favores" (1984, p. 303 ). Esta "contabilidade do neste estudo sobre as empregadas domésticas, ele pede de empréstimo a Dide-
dado e do recebido" inscreve-se na dramaturgia subjetiva de uma impotência para rot, pela mediação de Hegel, algumas reflexões sobre a submissão - aparente-
agir, em um sentido bem preciso: a impossibilidade do sujeito para transformar mente, voluntária - constatada no mundo do trabalho. O sobrinho de Rameau 5
sua experiência vivida em um expediente para viver uma outra experiência. "humilha-se e dissimula a baixa condição, mas nesta depravação encontra uma
Assim, ele acaba descobrindo que é prisioneiro de uma existência vivida e, ao mes-

5. No original, Le Neveu de Rameau, romance satírico de Diderot (1713-1784)- um dos


mais ardentes defensores das idéias filosóficas do séc. XVIII publicado postumamen-
3. Cf., nesta coletânea, A neurose das telefonistas (N.T.). te, em 1821: trata-se de um diálogo entre "Eu", filósofo racionalista e sensato, e "Ele",
4. Émile Littré (1801-1881), lexicógrafo francês, conhecido sobretudo por seu monu- parasita boêmio e cínico, sobrinho de Jean-Philippe Rameau (1683-1764), compositor
mental Dicionário da Língua Francesa (4 vols. e 1 supl.) (N.T.). e um dos maiores representantes da música clássica na França (N.T.).
18 Prefácio à edição brasileira Prefácio à edição brasileira 19

oportunidade de afirmar sua dignidade"; acontece que, acrescenta ele, "mal se sem dúvida, contra as difíceis questões de uma teoria da atividade, cujas soluções
manifesta, esta dignidade revela-se irrisória a si mesma" (p. 324). Dificilmente, propostas pela tradição ergonômica também deixavam a desejar. Neste aspecto,
poderia ser mais bem explicitada a parcela assumida pelos sujeitos nos dramas mais do que em Le Guillant, será possível encontrar em Daumézon e Tosquelles
de sua própria história. as indicações estratégicas que poderiam ter conduzido a psicopatologia do tra-
Vejamos um segundo exemplo que, igualmente, impede de simplificar a balho a um desenvolvimento bastante diferente. Em um texto de 1948, por oca-
obra de Le Guillant. Efetivamente, ele pratica uma clínica atenta às condições sião dos debates sobre a prática psiquiátrica e o trabalho, G. Daumézon havia
sociais do trabalho a fim de que, nessas circunstâncias, sejam identificados con- proposto a substituição da pesquisa clínica tradicional dos sinais de alienação
flitos objetivos, cujas manifestações psicopatológicas constituem outras tantas por uma "clínica de atividades", a fim de ficar mais próximo-" de maneira dinâ-
expressões dramatizadas. Deste ponto de vista, o trabalho é uma relação social mica, no decorrer de condutas que, por si mesmas, têm um dinamismo curador"
que define condições de subordinação que devem ser reencontradas, inclusive, do comportamento dos sujeitos confiados a seus cuidados (Daumézon, 1948,
na intimidade da vivência subjetiva. Uma idéia importante é, então, proposta: a p. 241). Confesso que a descoberta deste texto, graças a Isabelle Billiard, foi pa-
do trabalho como condição, como Gestalt. Ainda, neste aspecto, é possível come- ra mim um acontecimento: aqui, a atividade de trabalho era observada, não só
ter exageros. Com efeito, a concepção deLe Guillant não é estritamente deter- como um objeto de análise, mas como um meio de ação.
minista: não o sendo em si, a condição social pode tornar-se patogênica para si, Esta orientação, desembaraçada de sua preocupação ergoterapêutica e reno-
sobretudo, através de suas discordâncias, dos conflitos embutidos nesta condi- vada pelo contato com a tradição vygotskyana na área da psicologia, abre reais
ção e impostos ao sujeito. Ela não é um contexto amorfo; de fato, submete os su- perspectivas. Para começar, ela permite inscrever em uma longa história o que,
jeitos a dissociações sociais ou a rupturas que são outros tantos testes no decorrer desde 1997 e sem ter conhecimento deste texto de Daumézon de 1948, eu desig-
dos quais a realização de si é, simultaneamente, oferecida e recusada. Assim, a nava pela expressão "Clínica da Atividade" na psicologia do trabalho. Este proble-
propósito dos jovens e da delinqüência ele escreve, em 1961, o que é, certamen- ma da atividade foi muito trabalhado, igualmente, por F. Tosquelles que procu-
te, um de seus mais importantes textos para compreender seu projeto de psico- rou ressaltar os méritos da ergoterapia, justamente ao criticar uma concepção feti-
patologia social. Descobre-se, aí, uma abordagem, bastante particular, da "con- chista da atividade. Permitam-me que faça citações um pouco mais longas. Há
dição social" que, em ,vez de uma opressão diretamente deletéria, transforma o um risco, escreve ele, "de ver introduzir-se sorrateiramente, por detrás da simpáti-
social em uma foi:1te de conflitos: "Verificou-se a fragmentação dos universos, ca palavra 'atividade', uma distorção e um contra-senso bastante grave(. .. }. Com
outrora bastante limitados, fechados e coerentes, em que vivia a maior parte dos efeito, deve-se evitar a confusão entre o conceito de atividade e a simples utilização
jovens; acabaram por abrir-se para um mundo de controvérsias e conflitos, de de movimentos, até mesmo, de esforçps despendidos de aplicação e de persistên-
questões sem respostas, de tentações insatisfeitas e de promessas não cumpri- cia, submetidos ao desejo do mestre-escola ou do contramestre (. .. }. 'Atividade'
das" (1984, p. 274). No mínimo, podemos dizer que, tendo sido escritas há mais significa atividade própria que parte do sujeito e enraíza-se nele para desabrochar,
de 40 anos, estas linhas não se tornaram obsoletas e continuam sendo válidas no momento apropriado, em um contexto social" (Tosquelles, 1967, p. 16). Ao
' concluir que a "simples azáfama" aparente não é, forçosamente, sinônimo de ativi-
bem além do mundo da juventude, para o mundo do trabalho, em todos os seus
dade psicológica, Tosquelles lança-nos uma advertência bem clara. A atividade
aspectos. Considerada desta forma, a condição não é redutível a um molde so-
realizada não tem o monopólio do real da atividade que inclui, também, o possí-
cial; trata-se realmente de um obstáculo, mas encontra-se também inacabada,
vel e o impossível: ou, dito por outras palavras, o campo da atividade real com-
aberta aos riscos da ação.
preende tanto a atividade interditada quanto a atividade sonhada (Clot, 2004).
Será que, então, se deve concluir que a herança deLe Guillant está imune de Com Bakhtine (1984) e Vygotsky (2003), cujas contribuições foram tão importan-
qualquer crítica? Não creio. E, justamente, para terminar, eu gostaria de formu- tes para a renovação das teorias "dialógicas" da atividade, a psicopatologia do tra-
lar duas questões que, em meu entender, são bastante decisivas para alimentar balho pode, portanto, explorar outros caminhos (Clot, 2001; 2002).
nossa ação e nossa conceitualização. A primeira já foi objeto das reflexões de Isa-
A segunda questão pode ser formulada desta maneira: o que pensar das re-
belle Billiard. À semelhança dos outros psiquiatras da tradição da psicopatolo-
lações entre psicopatologia do trabalho e psicanálise? É sobejamente conhecida a
gia do trabalho, mas, talvez, ainda mais do que os outros, nosso autor esbarrou,
resposta que C. Dejours fornece a esta pergunta quando desenvolve a psicodinâ-
20 Prefácio à edição brasileira Prefácio à edição brasileira 21

mica do trabalho. Não tenho a certeza de que esta seja a única possível, mesmo mento implica que a saúde mental do sujeito, em vez de limitar-se a aceitar o le-
que eu compartilhe com ele a idéia de que, por sua vez, a psicanálise pode ser gado da Cultura como sua mola propulsora, procure sobretudo produzir - com
afetada por nossas pesquisas no campo do trabalho. Com efeito, ainda neste as- sua contribuição para a existência de todos, por meio de serviços particulares- o
pecto, creio na utilidade da obra deLe Guillant. De uma forma bastante elegan- lugar psíquico em que se subjetiviza sua humanidade, passando de uma huma-
te, ele debateu, em seu texto de 1948, a contribuição da psicanálise relativamen- nidade recebida para uma humanidade recriada (2002, p. 73).
te à delinqüência juvenil. O conceito psicanalítico de identificação apareceu-lhe Somos levados a pensar, então, em determinados aspectos da obra de Freud:
como uma "noção nova e enriquecedora" para compreender, nessa idade e nes- "O indivíduo, escrevia ele, deve consagrar-se à grande tarefa de separar-se dos
tas circunstâncias, as relações entre vida social e vida subjetiva (1984, p. 274). pais. Somente a solução desta tarefa permite-lhe deixar de ser uma criança sub-
No entanto, ele mostra que convém reconsiderar os mecanismos de identifica- metida a transferências relativamente aos adultos para tornar-se um membro da
ção, abordando-os sob um duplo aspecto: além de identificação ao ser pessoal, comunidade social" (1999, p. 427 -428). Neste caso, a função psicológica do tra-
esta deve ser encarada como a identificação ao que é designado por ele como "o balho poderia consistir em amparar o indivíduo no enfrentamento desta tarefa
ser social" do adulto (1984, p. 277). Neste caso, poderíamos escrever: não ape- da separação. O trabalho perde, é claro, esta função psíquica quando, tanto para
nas uma identificação a um outro, mas a uma outra coisa. Se levarmos a sério esta as mulheres quanto para os homens, deixa de ser uma fonte e um centro de inici-
hipótese não só relativamente à análise tanto das relações entre jovens e adultos ativa e de criatividade, um trabalho de civilização do real. Sabe-se que essa é a
quanto dos vínculos entre os próprios trabalhadores, parece-me que teremos ocorrência mais freqüente. Mas, de qualquer forma, se a função psicológica do
dado um importante passo na análise do próprio trabalho. trabalho consiste em encarnar- sob certas condições - esta tarefa de separação
Com efeito, na clínica da atividade, já temos demonstrado que, sem quadro na história do sujeito, a obra deLe Guillant poderia levar-nos muito mais longe
de referência do coletivo, nem manutenção de uma história comum, a ação indi- do que tem sido pressuposto até aqui.
vidual desregula-se no trabalho (Clot, 2002). Para falar como Bakhtine, pode-
mos dizer que, além de exigir que cada um seja destinatário do trabalho de ou-
Referências bibliográficas
trem, o trabalho coletivo em curso reivindica uma história comum independen-
te de cada um, um sobredestinatário a quem sejam dirigidos os esforços despen- Bakhtine, M. (1984). Esthétique de la création verba/e. Paris: Gallimard.
didos. o trabalho coletivo tem necessidade de um coletivo de trabalho, cuja his- Billiard, I. (2001). Santé menta/e et travail- L'émergence de la Psychopathologie du
tória permeia cada um e da qual cada um possa sentir-se responsável: algo de dife- Travail. Paris: La Dispute.
rente que merece ser defendido a fim de que a vida de trabalho, em cada dia, per- Clot, Y. (1998). Le travail sans l'homme?- Pour une psychologie des milieux de travail
maneça defensável para cada um. et de vie. 2. ed. Paris: La Découverte.
Certamente Le Guillant não escolheu esta formulação sobre o "ser social" da - (2001). "Psychopathologie du Travail et clinique de l'activité". Éducation
identificação para tratar o problema que estou levantando neste momento. É, Permanente, 146, p. 35-51.
antes, o oposto: os trabalhos empreendidos a partir de Bakhtine e de Vygotsky - (2002). "Clinique de l'activité et répétition". Cliniques Méditerranéennes, 66,
na psicologia do trabalho permitem redescobrir todas as potencialidades clíni- p. 31-53.
cas e teóricas não realizadas na obra deLe Guillant. Vamos terminar, portanto, - (2004). La fonction psychologique du travail. Ed. ver. e aumentada. Paris: PUF,
com a referência a uma delas que, aliás, o teria deixado bastante surpreendido. 4a ed. aumentada.
Alguns psicanalistas procuram conservar o vigor de sua disciplina ao seguirem, Daumézon, G. (1948). ''L'ap~lication pratique des theses nouvelles en assistan-
sem forçosamente terem conhecimento disso, uma via bastante próxima de nos- ce psychiatrique". Informations Psychiatriques, 9, p. 239-246.
so autor, graças a uma releitura crítica de Freud. Como N. Zaltzman, eles consi- Dejours, C. (2000). Travail, usure mora/e. 3. ed. aumentada. Paris: Bayard.
deram que o trabalho da cultur~ [Kulturarbeit} é a garantia, para cada sujeito, de Doray, B. (2001). "Un regard sur l'reuvre deLe Guillant dans le domaine de la
uma filiação trans-histórica independente dos avatares edipianos de cada histó- Psychopathologie du Travail". In: Clot, Yves (org.). Les histoires de la Psycholo-
ria individual (Zaltzman, 1998, p. 102). Assim, acrescenta Doray, tal posiciona- gie du Travail. Toulouse: Octares.
22 Prefácio à edição brasileira

- (2002). "Le trauma, la Kulturarbeit et le travail industrieux". Cliniques Médi-


terranéenees, 66, p. 65-85.
Freud, S. (1999). Conférences d'introduction à la psychanalyse (1914-1915). Paris: Introdução a uma psicopatologia
Gallimard.
Le Guillant, L. (1952). "La Psychologie du Travail". La Raison, 4, p. 75-104. sociall
- (1984). Quelle psychiatrie pour notre temps? Toulouse: Éres [Travaux et écrits de
Louis Le Guillant - Préface de Lucien Bonnafé}.
Louis Le Guillant
Tosquelles, F. (1967). Le travail thérapeutique à l'hôpital psychiatrique. Paris: Sca-
rabée.
Vygotsky, L. (2003). Conscien~e, inconscient, émotions. Paris: La Dispute.
Wisner, A. (2001). "Itinéraire d'un ergonomiste dans l'histoire de la psycholo-
gie contemporaine. In: Clot, Yves (org.). Les histoires de la Psychologie du Tra-
Para introduzir um conjunto- devo reconhecer, ainda um pouco confuso-
vail. Toulouse: Octares.
de concepções e trabalhos relativos ao papel do "meio" em psiquiatria, eu teria
Zaltzman, N. (1998). De la guérison psychanalytique. Paris: PUF.
preferido limitar-me, quase exclusivamente, a fatos.
Abril de 2004 Assim, eu estava pensando apresentar-lhes os resultados iniciais de um estu-
do sobre indivíduos transplantados- no caso concreto, bretões 2 "emigrados", se
é que se pode falar assim em Paris; aliás, mais adiante, fornecer-lhes-ei um breve
apanhado deste estudo.
Penso que o interesse desta pesquisa- as perspectivas que, no meu entender,
são abertas por seu intermédio- ser-lhes-á melhor perceptível por este meio do
que por uma discussão a respeito dos princípios que lhe serviram de fundamento.
Infelizmente, a doença de nosso amigo Torrubia- encarregado, no meu ser-
viço, de reunir o material estatístico - impede-me, absolutamente, de realizar
tal projeto.
Depois de ter tentado, sem êxitq, adiar esta conferência, aceitei fazê-la a
partir de outros fatos relacionados corri a readaptação social dos psicopatas e, em
particular, dos problemas levantados pela "saída" dos pacientes internados.
Todavia, por serem quase exclusivamente "asilares", estes problemas cor-
rem o risco de suscitar, apenas, um mitigado interesse por parte de alguns dos

1. L. Le Guillant. "Introduction à une psycho-pathologie sociale". Évolution psychiatri-


que, fase. I, jan.-mar./1954, p. f-52. Paris.
2. Oriundos da Bretanha, região mais ocidental da França, que é formada por uma parte
marítima- Armor- e pelas terras do interior- Argoat. Nesta época, a reduzida indus-
trialização, acompanhada por uma pressão demográfica que acelerou o êxodo rural, foi a
causa de intensa e desastrosa emigração, dirigida principalmente para a região parisien-
se. Cf. Pequeno Dicionário Enciclopédico- Koogan Larousse. Rio de Janeiro, Larousse doBra-
sil, 1987 (N.T.).
6
O caso de Marie L.*
Louís Le Guíllant

Pedem-me para curar seres humanos; no entanto, durante 75% do tempo,


constato minha ineficácia. Seria necessário curar, também,
a vida dessas pessoas (Pierre Gascar. L'Asile [O asilo]).
Dois anjos? Que nada! Dois monstros que, em Le Mans, ar-
rancaram os olhos das patroas. As vítimas com as órbitas esva-
ziadas, os crânios fraturados, as mãos ainda quentes_ morreram
depois de uma atroz agonia.

A história de Marie L. é extraída de um livro- ou melhor, de um projeto de


livro - no qual tenho a intenção de reunir um certo número de "histórias de pa-
cientes".
Elas visam mostrar, segundo a minha concepção, o papel das condições de
vida na gênese - e tratamento - de alguns distúrbios nervosos ou funcionais.
Sem dúvida, existem outras vias para proceder a tal abordagem. Tenho plena
consciência das lacunas na apresentação deste caso 1 . Sei perfeitamente que a de-
monstração do vínculo entre as condições de vida de Marie L. e o glaucoma2 de
que ela sofre é, neste caso, de alguma forma, grosseira. Teriam sido necessários
longos comentários e, no mínimo, a comparação com fatos análogos- paralelis-
mo que é, precisamente, o objeto do estudo muito mais abrangente do qual este
caso é extraído- para torná-lo não tanto convincente, mas, pelo menos, sensível
e orientar o espírito dos leitores para esta perspectiva. Dou-me conta, com toda
a clareza, de que um longo esforço de precisão, aprofundamento e, talvez, expe-

* La Raison, n. 18, 195 7. Cf. Louis Le Guillant. Quelle psychiatrie pour notre temps? - Tra-
vaux et écrits. Toulouse. Éres, 1984, p. 410-425.
1. Refere-se a uma pessoa recebida no serviço do Dr. Nora, no Hospital Rothschild, que
Foto da sala do tribunal durante o julgamento das Irmãs Papin. faz parte do grupo das pacientes-acompanhadas por meu amigo, o Dr. Sapir; ele assu-
miu seu tratamento, procurou "compreendê-la" - e conseguiu sua cura. Este é um
exemplo de que a colaboração de um interno com um psiquiatra pode ser bem-sucedida
na aplicação de uma medicina verdadeiramente psicossomática.
2. Afecção no olho caracterizada pelo aumento lento ou rápido da pressão intra-ocular
que provoca o endurecimento do globo e determina uma compressão do nervo óptico,
cujo efeito é a diminuição da acuidade visual.
333
332 Parte li- Psicopatologia do trabalho 6. O caso de Marie L.

rimentação, teria sido necessário para mostrar alguns elos que estabelecem a li- segundo parece, foi uma circunstância externa, ou seja, o incêndio em uma fun-
gação entre a doença de Marie L. e sua história. dição que acabou sendo abandonada; ora, seus operários eram os principais cli-

Trata-se de uma história que vai ser considerada por alguns como excepcional e, entes do restaurante.
por outros, como banal; e todos têm razão. Mas, formulo a questão: a vida de nossas As condições da vida familiar - salvo a pobreza, a tentativa fracassada de
pacientes- aliás, e a nossa- não será feita destas circunstâncias, a um só tempo, ba- mudança de condição social e, em seguida, a invalidez do pai- parecem ter sido
nais e específicas que, no entanto, não deixam de determinar o essencial? favoráveis: os pais eram sérios e trabalhadores; viviam harmoniosamente e eram

O que representam, afinal de contas, as poucas situações, semelhantes e incer- "adorados" pela fllha.
tas- às quais a psicanálise crê poder atribuir os acontecimentos presentes-, diante A paciente freqüentou a escola até os 12 anos, tendo obtido facilmente o
da diversidade e da complexidade, além da riqueza singular do real em que se de- certificado de conclusão do curso primário. Em seguida, por decisão pessoal,
senrolou, por exemplo, a existência "ordinária" e dramática de Marie L.? aprendeu outras matérias -por exemplo, moda, costura e comércio-, tendo es-

Para descrevê-la, utilizei, propositalmente, na medida do possível, as pró- colhido a costura.


prias expressões da paciente, anotadas ao pé da letra. Esta linguagem popular, Já falamos do período em que ficou internada entre 7 e 9 anos. Depois de ter
fruto de uma experiência individual e coletiva, direta e insubstituível, parece-me voltado para a companhia dos pais, freqüentou uma escola religiosa dos 9 aos 12
ser mais adequada do que outra descrição que viesse a ser feita "do exterior", ou anos, em semi-internato; tendo conseguido uma boa adaptação a este meio, per-
em termos mais "científicos" suscetíveis de evocar a realidade, para tornar per- maneceu profundamente crente, embora pouco praticante.
ceptíveis os aspectos sensíveis de situações que escapam sempre, em parte, àque- Casou-se aos 19 anos. Durante os dois primeiros anos, ficou em casa; em se-
les que não as vivenciaram. Assim, em meu entender, tal linguagem é a forma guida, com a guerra de 1914-1918 e a convocação do marido, arranjou trabalho
mais adaptada a um estudo objetivo das "condições de vida" de nossas pacientes. em uma fábrica de material bélico. Por mais doze anos continuou sua ativida-
Nascida em 1893, Marie L. é fllha única. O pai era trabalhador braçal, so- de como operária fabril e, depois, em uma loja comercial.
bretudo na área da marcenaria; morreu de um câncer do piloro, em 1922. Teve Teve 3 filhos: uma menina, nascida em 1913; outra, em 1915; e um meni-
sempre uma saúde de ferro, salvo dois graves acidentes de trabalho- na primei-
no, em 1920.
ra vez, caiu de um andaime sem parapeito e, na segunda, ficou soterrado debai- Por sua vez, 0 marido gozava de excelente saúde, apesar de ter sido ferido li-
xo de chapas de ferro descarregadas por uma grua -, tendo fraturado as duas geiramente durante a guerra: exercia a profissão de motorista e, em seguida, vi-
pernas (uma delas, provavelmente, com fratura aberta) e sofrido uma contusão
gilante em um banco. Foi morto, em 1944, por ocasião de um bombardeio.
(?)abdominal com "evisceração", cujo tratamento necessitou de numerosas in-
Os antecedentes patológicos, sejam eles familiares ou pessoais, são raros: a
tervenções cirúrgicas. Ele obteve uma pensão de invalidez correspondente a
uma taxa de 75% de seu salário. Estava com 50 anos. mãe teria apresentado uma certa hipertensão arterial; por sua vez, Marie L. con-
servou, até os últimos anos, um bom estado de saúde. Em 1945-1946, ela teria
Nesta ocasião, a paciente deu guarida aos pais.
sofrido de uma infecção crônica das vias urinárias provocada por colibacilos.
Observe-se que estes haviam fracassado em sua tentativa de administrar um
As condições de vida durante a Segunda Grande Guerra é que parecem es-
pequeno restaurante; como veremos, eles foram obrigados, nesse momento, a
tar na origem da afecção - glaucoma e hipertensão arterial - que a encaminhou
internar a ftlha em uma instituição religiosa durante dois anos.
para o Hospital Rothschild.
Por sua vez, a mãe é descrita como dotada "de natureza newosa, de boa ín-
Já vimos que ela havia dado guarida à mãe. Em 1942, a filha mais velha ma-
dole e dedicada"; morreu por ocasião de um bombardeio, em 1943. Segundo pa-
nifestou os primeiros sinais de uma lesão cardíaca - um estreitamento mitral,
rece, ela teria sido a instigadora e animadora da criação do restaurante "monta-
até então bem compensado, de acordo com as indicações obtidas por nós - que
do de improviso, a partir de um galpão vazio, com adiantamentos dos principais
acabou provocando sua morte em 1946, depois de numerosas crises de assisto-
fornecedores". "Ela era, diz-nos Marie L., muito inteligente para uma mulher do
campo, bastante ambiciosa e fazia tudo." A única causa do fracasso comercial lia e de uma longa agonia.
'
'
334
Parte li- Psicopatologia do trabalho 6. O caso de Marie L. 335

Lembremos que a mãe e o marido da paciente foram mortos por ocasião de No final qe março de 1953, é examinada na consulta de oftalmologia do
bombardeios; eles viviam em uma localidade próxima de Paris que, no decorrer Hospital Rothschild; o diagnóstico indica um glaucoma. Observa-se que ela é
dos anos 1943-1944, ficou inteiramente destruída. Mobiliada, aos poucos, a pe- muito emotiva e manifesta inquietação, chora facilmente e não dorme o sufi-
quena moradia de blocos de cimento, construída pelo pai e pelo marido, ficou ciente, além de sentir-se sempre esgotada.
danificada e, em seguida, foi saqueada.
No início de 1954, a T.A. é de 200-110; pouco tempo depois, a paciente é
Agora, devo continuar esta exposição da história da paciente, servindo-me examinada pelo Dr. Sapir.
de suas próprias declarações. Os fatos e as descrições de algumas situações con-
Eis como ela descreve sua existência depois de 1942, data em que o estado
cretas estão misturados com impressões mais subjetivas- e com um grande nú-
cardíaco da filha se tornara rnotivo de inquietação. Nessa época, ela encontrou
mero de preconceitos. No entanto, como veremos, a própria tendência destes
as dificuldades de abastecimento comuns a todos os habitantes do subúrbio pa-
preconceitos acaba fortalecendo o esboço que ela nos faz de suas condições de
risiense, um tanto agravadas pelo fato de que certos escrúpulos e a falta de recur-
vida e de trabalho, sem ter a mínima intenção de denegri-lo. O tom de seu rela-
sos impediam-na, praticamente, de ter acesso ao mercado negro. "Eu estava irri-
to, habitualmente moderado e quase contido, confere-lhe, por momento, uma
tada, diz ela, e não conseguia deixar de sentir-me sempre irritada. Não tínhamos
ênfase excepcionalmente sincera e dramática que revela perfeitamente a reali-
nada, nunca compramos nada no mercado negro; cenouras e apenas cenouras".
dade vivenciada de determinadas situações patogênicas.
Ela devia buscar ramos secos para vendê-los a um lenhador estrangeiro que, por
Sua apresentação transforma, dentro de certos limites, esta paciente em sua vez, se encarregava de entregá-los aos compradores. "Fazíamos esse trabalho
uma personagem bem peculiar; de fato, a atitude reservada, a indumentária cui- às escondidas; meu estado de nervosismo atingia tal grau que, certamente, o sr.
dadosa, a linguagem fácil, um tanto rebuscada, os cabelos pintados e o rosto dis- é incapaz de imaginar." Neste momento, ela sofreu crises noturnas de angústia
cretamente maquilado conferem-lhe um tipo que é o mais "pequeno-burguês" bastante intensas "acompanhadas por taquicardia; além disso, meus dentes ba-
possível com um matiz, talvez, de afetação que contrasta visivelmente com sua tiam". "Não tinha mais tranqüilidade, diz ela, eu vivia à beira de um ataque de
condição social. No entanto, ela permanece simples e não só amável, mas simpá- nervos." Observe-se que, nesta época, a localidade de sua residência foi atingi-
tica; é dotada de uma inteligência viva e aberta. Manteve excelentes relações co- da por uma quinzena de bombardeios que visavam um alvo bem próximo. Em
migo e com os difere~tes membros da equipe médico-psicológica que a exami- 1944, como já afirmei, o marido foi morto por ocasião de um bombardeio de
naram; embora não esteja, manifestamente, habituada à solicitude, mostra-se uma estação de estrada de ferro; como a casa ficou danificada, ela foi obrigada a
bem confiante e, até mesmo, reconhecida. arranjar moradia em uma cidade vizinha, na qual os refugiados não eram bem
O estado patológico que foi objeto de tratamento apareceu em 1943, em de- acolhidos - "éramos incômodos em toda parte".
corrência de condições que serão estudadas mais adiante. Manifestou-se por uma Entretanto, não foi esta situação ameaçadora e de dependência que derru-
"mácula" no campo visual do olho esquerdo; o oftalmologista consultado teria bou Marie L.: "Remei contra a corrente, diz ela, com grande coragem, por
diagnosticado uma hemorragia retiniana, sem ter feito o exame de T.A.R.D amor-próprio, para segurar a barra ... " Apesar de sua aparência, estas expressões
[Tensão Arterial Retiniana Diastólica}, nem de T.A. [Tensão Arterial}. não estão, de modo algum, eivadas de nenhuma vaidade; mas traduzem- é ver-
Em 1951, ela teria apresentado uma nova hemorragia retiniana- desta vez, dade, com uma energia peculiar - uma concepção do mundo que, em várias
no olho direito- ocorrida bruscamente no final do dia, ao voltar do trabalho. oportunidades, irá exprimir-se, se quisermos, como um ideal de vida que contri-
Em 195 3, no seu campo visual aparecem "círculos coloridos" centralizados buiu bastante, como veremos, para agravar a situação, já singularmente penosa
pela luz, geralmente no final do dia, quando ela estava cansada e irritada; nessa do ponto de vista objetivo, et? que se encontrava a paciente.
época, como a acuidade visual estava bastante reduzida, ela tinha a impressão de "Arranjei, diz ela, uma atividade maluca" (em uma fábrica de peças de repo-
que havia um "véu" diante dos olhos. Além disso, observava-se um edema ma- sição para televisores). "Eu era obrigada a acompanhar uma pequena linha de
leolar, cefaléias e um estado de espírito bastante perturbado; sentia-se esgota- montagem" formada por três torniquetes; em cada um trabalhavam três operá-
da, tinha receio de ficar cega e pensava em suicidar-se. rias. Ela "cortava os rebotalhos" das peças: "é preciso que elas estejam prontas
antes de serem enviadas para as estufas, isto é, que todas as peças tenham seus
....
336
Parte 11- Psicopatologia do trabalho
6. O caso de Marie L. 337

reb~ta~hos cortados. À medida que as horas avançam, eu fico em uma situação


lastlmavel; caso contrário, eu não sentiria a angústia do final do dia nem meus Aliás, ela manifesta sentimentos bem matizados em relação aos chefes. "Os
olhos ficariam embaçados". ' patrões são ainda jovens e preocupam-se apenas com o rendimento; aquelas que
não conseguem o rendimento são demitidas." A bem da verdade, ela não os co-
Segundo. parece, mas não cheguei a verificar a hipótese no próprio local, esta
nhece; como acabamos de ver, tem receio das "chefinhas" (as contramestras).
tarefa- mamfestamente mais difícil do que a das companheiras_ ter-lhe-ia sido
Falando de seu "chefinho" imediato, ela afirma: "Ele não chega a compreender o
atribuída por tratar-se de um posto de confiança que, naturalmente, conviria ser
que se passa, apesar de saber que meus olhos ficavam embaçados; cheguei a falar
entregue.a uma trabalhadora tão zelosa. Além disso, parece que, tendo 0 encar-
com sua namorada (uma operária), pedi que fizessem outras contratações, mas
g~ de venficar o trabalho executado nos três torniquetes, ela sentir-se-ia respon- recusaram-me novas operárias. Assim, competia-me trabalhar bem, executar
savel pelo acabamento das peças antes de enviá-las para a estufa, no final do dia.
minha tarefa normalmente e ignorar o resto; eu deveria ter mais coragem, mas
De qual~uer modo, ela não cessava de repetir: "Queira Deus que eu consiga não sei defender-me".
fa~er tudo; nao tenho nenhum problema para executar minha tarefa até porque Pelo contrário, ela não tem queixas contra os "chefes de escalão superior"
~m~a cadência é boa, mas todo esse trabalho demais ... se eu tives,se a incum-
e (gerentes da oficina): "Eles são amáveis, manifestam estima por mim; eis uma
benna de v~rific/ar apenas dois torniquetes, se meus olhos não ficassem velados coisa que me deu ânimo ao sentir sua consideração, acrescenta ela. No próximo
no fi~ do di~ ... E demais para um ser humano ... veja os meus polegares. Já nem domingo, vou receber a visita da minha chefe". Por sua vez, ela "tem estima por
consigo servir-me deles. Meus nervos ficavam à flor da pele à força de cortar tan- eles, embora ignorem o que se passa: se a gente se queixa com os chefes superio-
to rebotalho ... "
res, eles chamam a atenção dos chefes de nível inferior e a vida torna-se impossí-
d · A cadência de seu trabalho nem sempre havia sido tão rápi.da "As operanas,
A •
/ · vel". "Seria necessário, continua ela, proceder a um controle das tarefas: nosso
iZ.ela, tem cadernos em que registram o rendimento; ao encontrar um deles, dever é trabalhar, somos pagos por isso; no entanto, as tarefas deveriam ser limi-
venfiquei .que algumas
. moças chegavam a render 180, 200 , 250 por h ora. E u tadas, o trabalho deveria ser compartilhado de maneira mais razoável."
mesma consegm 700. Esta taxa nunca havia sido alcançada; minhas colegas di- Em várias oportunidades ela manifestou de modo totalmente espontâneo e,
zem que estou eq~ivocada em empenhar-me tanto, em andar tão preocupada ... às vezes, sob uma forma impressionante, a convicção de que seus distúrbios ocu-
Mas o c~efe devena ter a noção de que é demasiado trabalho para uma operária, lares estão associados ao estado de seus nervos o qual, por sua vez, tem a ver com
de que isso supera a tarefa normal... Outrora, éramos dirigidas por mulheres, suas condições de trabalho: "Para mim, doutor, esta é a verdadeira causa; apesar
enquanto, atualmente, temos um homem ainda jovem que não tem a noção do de não ser a única, ela constitui o essencial porque, à noite, fico com os olhos
que se passa."
completamente velados a tal ponto que, uma vez, perdi meu trem; eu não con-
Perguntei-lhe o motivo pelo qual ela não protestava, nem ;olicitava, pelo seguia enxergar, os faróis dos automóv~is estavam rodeados de um círculo verde
menos, a mudança de posto de trabalho. Eis sua resposta: "Quando se trabalha e vermelho ... O estado de meus nervos não depende de mim, mas de meu traba-
de~sa ~orma, é necessário ter cuidado; qualquer comentário que eu pudesse fazer lho; se eu pudesse trabalhar sem angústia, eu estaria bem". "Um dia, tive difi-
d~ixana ~eu chefe contra mim, a vida tornar-se-ia insuportável e eu teria de pe- culdade para enxergar direito e não consegui acabar minha tarefa; então, desatei
dir a, demissão. Presenciei essa cena inúmeras vezes·, então , era prei:e / 1fiKar ca- a chorar." Ela exprime bem, igualmente, uma impressão subjetiva experimenta-
11 nve

lada . Com~ este .receio - sem dúvida, fundamentado - corresponde, de qual- da, freqüentemente, pelas mulheres, cujo trabalho exige cadências muito rápi-
q~er modo, a reahd.a~e, Marie L. insistiu, energicamente, para que suas queixas das: "A expressão apropriada é a seguinte: devo ficar sob pressão, estar irritada
nao f~ssem transm1t1das pelo serviço social ao empregador; mas, parece que, para conseguir executar minha tarefa. É esta irritação que provoca o inchaço de
tambem, ela experimentou um certo orgulho em ocupar este posto de trabalho. meus olhos. Quando estou tranqüila, não sinto estes sintomas". Ela tomava café
De ~ualq~er modo, é praticamente impossível alterar esta situação: "Na nossa para alcançar o ritmo exigido: "Sem isso, diz ela, eu não teria conseguido atingir
ofin~a, ha falta de pessoal, temos falta de uma operária. Não tive a sorte de con- meu rendimento. Eis o que me salvou, conservando minha dignidade: evitei o
segmr esse trabalho. Foram suprimidos alguns postos; agora, temos de executar álcool e o fumo para não entrar em estado de decadência".
o trabalho do pessoal que foi suprimido". Já foi mostrada claramente a atitude de Marie L. em relação ao trabalho;
agora, vou descrever apenas um aspecto dessa atitude mais geral diante da vida.
338 Parte li- Psicopatologia do trabalho 6. O caso de Marie L. 339

Já afirmei que, depois de sua casa ter sido danificada, em 1944, ela teve de pessoal porque tenho medo de incomodar". É assim que, no domingo, ela deixa
refugiar-se em uma cidade vizinha. A morte da filha em 1946 constituiu uma o casaco ao ar livre "porque este conserva o odor da oficina"; e evita o alho, no
terrível provação moral e material; aliás, ela receava esta morte não só em si almoço, pensando nos companheiros da viagem da noite.
mesma, mas em sua óptica peculiar. Ela dizia para si mesma: "Como poderei pa- "Nas oficinas, diz ela ainda, é uma verdadeira bagunça. Só quem já esteve
gar o funeral de minha filha? Ela merece uma cerimônia como todo o mundo". em uma oficina é que pode fazer uma idéia dessas mulheres que bebem, fumam
Efetivamente, Marie L teve de fazer um empréstimo, dando como caução sua e, do ponto de vista moral, comportam-se de maneira leviana."
casa e pagando pouco a pouco.
Esta concepção das coisas. acaba por ocasionar-lhe um considerável acrésci-
Entretanto, além de não ter ficado abatida, ela superou a adversidade apoian- mo de fadiga. Ao meio-dia, almoça na própria mesa de trabalho; não há cantina,
do-se em seu intenso sentimento por determinados valores sociais: "Pelo amor- mas as operárias têm a possibilidade de esquentar os alimentos. Elas dispõem de
próprio consegui vencer as dificuldades, lutei para tornar-me uma mulher normal, 1 hora e meia de pausa se a jornada de trabalho é de 8 horas; 1 hora se ela é de 10
sem vícios; ainda tive receio de cair em um estado de decadência, de que o álcool horas o que, felizmente, ocorre raras vezes porque "isso então, diz ela, é que é re-
me fornecesse energias de tal modo que eu fosse incapaz de livrar-me dele ... Man- almente uma carnificina".
tive sempre a esperança de alcançar um nível de vida que me agradasse."
À noite, retorna para casa, esgotada, depois de "terem ressoado, há um bom
Sua vida é organizada da seguinte maneira: ela pega um trem às 6 horas que a tempo" às 20 horas (o trabalho termina às 18 horas). "Acontece freqüentemente
conduz diretamente, em meia hora, ao trabalho. No entanto, ela levanta-se entre tirar minha capa, jogar-me na cama, estafada, completamente cansada, e adorme-
4 e 4 horas e meia. "De fato, faço questão, diz ela, da minha higiene pessoal, assim cer vestida até meia-noite." Então, levanta-se, toma uma simples xícara de leite,
como acho necessário tomar tranqüilamente o café da manhã e nada exigir de troca de roupa e deita-se. De qualquer modo, "à noite, não tenho ânimo para pre-
meus nervos nesse momento ... Algumas operárias limitam-se a fazer a higiene parar uma refeição; faço apenas um mingau". Em uma grande tigela, Marie L
pessoal. Durante toda a vida levantei-me sempre às 4 horas. Em criança, quando mistura iogurte com germe de trigo, levedura de cerveja, açúcar mascavo e leite
eu via meu pai sair de casa às 4 horas, eu chorava muitas vezes, dizendo para comi- em pó; antes disso, ela toma uma xícara de café "para ter a coragem de preparar o
go mesma: eis a verdadeira profissão de alguém condenado a trabalhos forçados. mingau e terminar a atividade do dia". De fato, nunca se deita antes das 22 horas,
A atividade era mais difícil para o corpo, embora menos penosa para os nervos." ou seja, "o tempo suficiente para a higiene pessoal e um pouco de relaxamento".
À noite, ela "leva duas horas" para voltar; de fato, faz questão de pegar o Ela não conhece o descanso. "No sábado, às vezes trabalhamos até o meio-dia
trem em Paris, única forma de evitar as baldeações - neste caso, ela teria de sair e faço as minhas compras; no domingo, tenho de lavar a roupa e passá-la a ferro,
de um vagão bem aquecido e esperar na plataforma; ora, ela é muito sensível ao além de alguma costura. A sujeira acumula-se durante a semana e sinto-me cansa-
frio, bastante "friorenta".
da demais para fazer alguma coisa quando volto para casa. Tudo fica por minha
Mas é, também, porque ela encontrar-se-ia com "o pessoal na saída da usina conta: pintar, botar sola nova ... Como o tempo passa rápido, meu Deus!"
Renault, o que chamo ralé. Eu não deveria dizer semelhante coisa, acrescenta ela Ela ganha cerca de 5.000 francos por semana; no mesmo período, gasta 600
imediatamente. Enquanto na estação parisiense estou com pessoas parecidas co- francos em transporte. Faz "grandes despesas" para reformar e trocar os móveis
migo, bem-comportadas e verdadeiramente delicadas. Os operários da Renault de sua pequena casa, construída pelo pai e pelo marido. "Ao recebermos o salá-
não suportam uma operária com chapéu; por minha parte, fico mais tranqüila rio, comprávamos o que fosse possível: blocos de cimento, um pouco de cal, uma
por estar com pessoas gentis e bem-educadas, com boas maneiras". porta ou uma janela. Só ao fim de 25 anos é que a casa ficou pronta."
Com freqüência, sem incômodo manifesto e, até mesmo, com uma certa de- Ela tentou reformar os móveis, mas "com um salário baixo não é fácil; com o
terminação, ela volta a este tema: "Se viajamos com um chapéu ... se o senhor meu trabalho, consegui um revestimento de bétula que pinto de forma a dar a
soubesse as más maneiras que eles têm, é de se perguntar onde teriam sido edu- aparência de madeira de carvalho ou de nogueira ... um interior sem valor, mas,
cados. Não se trata de uma atitude de desprezo; compreendo perfeitamente as apesar de tudo, limpo. Eu gostaria que, na minha casa, tudo fosse semelhante
dificuldades de um operário, mas é algo que está fora de mim. Tenho um receio a mim, bem-arrumado, bem limpo".
doentio de incomodar quem quer que seja; tomo todas as precauções de higiene
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340 Parte 11- Psicopatologia do trabalho 6. O caso de Marie L.

Estas citações literais das declarações de Marie L. fornecem, em meu enten- tende "ficar devendo seja lá o que for"-, ela afirma: "Quero conservar a glória de
der, preciosas indicações sobre sua mentalidade que, por sua vez, só poderá ser minha coragem e de minha energia." Mas, considerando as circunstâncias infeli-
verdadeiramente compreendida em função de sua história familiar e da educa- zes que ela vivenciou, as formas externas deste ideal de vida tornaram-se, a um só
ção recebida. Como se viu, ela é filha de humildes trabalhadores, apesar de tudo, tempo, mais caras e indispensáveis- além de mais inacessíveis. Em certa medi-
movidos por uma profunda ambição social. Ao atingir a maioridade, o pai, ftlho da, ela perdeu o contato com sua realidade social, de modo que a busca dessas
de meeiros da Vendée 3 , dirigiu-se a Paris à procura de trabalho. A mãe era aparências, exageradamente valorizadas, suscitaram-lhe os problemas quase in-
dona-de-casa e costureira; antes de casar-se, tinha sido camareira na casa de superáveis, indicados mais acima.
grandes famílias burguesas. Depois do fracasso de sua tentativa para ter acesso a Ao mesmo tempo, ela alienou-se profundamente do meio em que é obriga-
uma outra condição social, eles projetaram na filha única, provavelmente, a to- da a viver. Apesar de manter boas relações com as colegas de trabalho, ela não as
talidade de seus sentimentos e expectativas; em conjunto com as religiosas que, freqüenta e afasta-se de sua presença mal termina o trabalho; ela conhece perfei-
durante longos anos, estiveram encarregadas da instrução de Marie L., eles ga- tamente e compreende a condição e as dificuldades das trabalhadoras explora-
rantiram-lhe a "boa educação" à qual mostra-se tão afeiçoada. De acordo com das. "As operárias da solda, diz ela, têm também crises de nervos, as pobres mu-
sua descrição, eles são "honestos e bons", muito unidos, além de constituírem lheres! Muitas vezes eu disse para mim mesma: eu gostaria de saber o que fazem
um mundo fechado que, por sua vez, acabou determinando profundamente seu as mulheres no degredo." Mas, ela as rejeita de seu universo, ridículo e dramáti-
sistema de valores. co em que as "boas maneiras" são a exigência fundamental; ela ignora simples-
Um exemplo mostrará como se constituiu tal exigência moral de índole reli- mente a solidariedade, a ajuda mútua e, evidentemente, as lutas operárias.
giosa- característica predominante de sua personalidade -, intimamente con- Segundo parece, estas contradições e algumas outras não criam, nela, um
fundida com os aspectos formais de uma certa ordem familiar ou social das coi- "conflito" no sentido habitual desta expressão; de fato, sua concepção do mundo
sas. Em vez de se basear em conflitos inconscientes, no sentido em que é preconi- não chega a ser questionada com seriedade. Sua experiência vivida- apesar de
zado pela psicanálise, são as atitudes educativas bem-concretas, repetidas du- sua tão eloqüente tragicidade- exprime-se em uma linguagem que ela não en-
rante um longo período de tempo, fortalecidas por sanções - apesar de ditadas tende; apesar disso, contribui de maneira singular para agravar a situação con-
pela ternura- que resultam em um verdadeiro condicionamento moral. "Quan- creta em que está mergulhada. Um dos aspectos mais sensíveis é sua solidão:
do minha mãe, disse-me ela, queria que eu lhe confessasse alguma coisa, ela di- "Para resumir, declarou-me ela, é a primeira vez (no serviço) que encontrei o in-
zia-me: 'Vem prestar juramento diante de Jesus ... ' Eu julgava que ia morrer se teresse, a bondade: até então, eu estava só, sempre só". Mais adiante, veremos as
dissesse uma mentira."
perspectivas psicoterápicas abertas por essas relações médico-paciente.
Além disso, a profissão do marido introduziu-a em um meio e em um mun- Aparentemente, ela deixou de receber ajuda de suas convicções religiosas,
do de ilusões em que er,a induzida a encontrar modelos. De fato, ele era "moto-
sempre profundas. Entretanto, diz ela, "falo com Deus do mesmo modo que falo
rista de uma agência de locação, cujos clientes pertenciam à alta sociedade".
com 0 sr., mas não sou uma beata; peço-lhe ajuda e que não me abandone ... mas
"Logo depois de nosso casamento, eu o acompanhava em seus deslocamentos;
fico de tal modo cansada que sinto a maior dificuldade para fazer minha oração".
fui apresentada à baronesa de ... Cheguei a passar férias no castelo de ... "
As relações com os filhos estão profundamente alteradas. Apesar de ser sig-
Haverá necessidade de dizer que não se trata de contestar em bloco a repre-
nificativo, este aspecto lateral da história e da personalidade de Marie L. será
sentação do mundo e o sistema de valores elaborados, desta forma, ao longo de
analisado de forma sucinta. Parece que os filhos não lhe prestaram ajuda em suas
sua vida decepcionante por nossa paciente? As virtudes de Marie L. são bem reais
dificuldades. Aliás, no quesito ctinheiro, eles mostrariam- e, sobretudo, a filha-
e, até mesmo, excepcionais. Por momentos, ela tende para uma espécie de santi-
uma extraordinária austeridade; ela alimenta perspectivas de ascensão social se-
dade pequeno-burguesa. Por exemplo, a propósito dos filhos -a quem não pre-
melhantes às da mãe e parece em vias de consegui-lo, sobretudo no plano mate-
rial. De qualquer modo, a atitude de reserva da paciente não lhe permitiu - e
3. Região da costa atlântica, ao sul de N antes, formada por campos e pradarias cercados ainda não lhe permite- pedir ou aceitar seja lá o que for.
por espessas sebes. (N.T.)
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342 Parte 11 - Psicopatologia do trabalho 6. O caso de Marie L.

Eu próprio entrevistei essa filha durante um longo tempo. Suas declarações gar, relaxa .. .' Veja bem, passei sete anos lá dentro." Então, os círculos luminosos
confirmaram o retrato psicológico que eu havia extraído de minhas observações. reaparecem, assim como a insônia. A T.A.R.D. está em 65/65.
"Minha mãe, diz ela, tem um estilo de vida que chega a atingir um grau de selva- No início de janeiro de 1955, os círculos persistiram. A paciente foi obriga-
geria. Ela decidiu evitar incomodar seja lá quem for; trata-se de uma espécie de da a abandonar o tricô. Ela não se atreve a trabalhar fora "por causa dos contro-
delicadeza levada ao extremo." As relações da paciente com os filhos são raras e les". Reaparece um discreto edema interpapilomacular. A T .A. está em 15 5-90,
pouco calorosas. "Não há atritos, dizem eles, não se pode dizer que haja desacordo, a T.A.R.D. em 60/60, enquanto a tensão ocular atinge, de novo, 42/42.
mas também não há nenhum estímulo; os dois lados permanecem fechados." No dia 19 de fevereiro, a paciente confia-nos que as principais causas de seu
Tal é o contexto em que, apesar de ser "banal", uma situação de trabalho, nervosismo são as preocupações relativas ao futuro. "Eu deveria saber como vai
bem-definida e penosa, assumiu um caráter patogênico. funcionar essa história de seguridade social... Esta doença prolongada terá um
fim. Desde que meti na cabeça que não voltaria à oficina, fiquei muito mais
Marie L. permaneceu no Hospital Rothschild praticamente dois meses (até
tranqüila ... Terei de encontrar um trabalho simples que me convenha." Os cír-
o final de maio de 1954). Parece inútil reproduzir, aqui, em detalhe os exames e
culos reaparecem apenas quando ela pensa nesses problemas; sente-se feliz em
tratamentos praticados. No total, ela passou por um tratamento baseado no
sua casa, apesar da falta de recursos financeiros. "Parece-me tão bom me ocupar
sono- pouco profundo, embora prolongado- com reduzidas doses de hipnóti-
da minha casa", diz ela.
cos. Sua T.A. baixou desde que se deitou e, na seqüência, manteve-se sem gran-
Estas condições de segurança e de atividades foram, praticamente, concreti-
des alterações; por outro lado, o fundo do olho ficou límpido e, sobretudo, o glau-
zadas. O fundo do olho voltou a ficar límpido e a tensão ocular baixou (28/30).
coma passou por uma considerável regressão, apesar de ter sido suprimida a
aplicação de policarpina. Desde essa época, perdi-a de vista, mas ela continuou sendo acompanhada
pelo Dr. Sapir; a situação permaneceu satisfatória.
Como sempre, as pequenas peripécias do tratamento: a duração do sono, as
variações- subjetivas e objetivas- dos distúrbios funcionais, etc. revelaram per- Nesta observação, ficamos impressionados com o estreito paralelismo entre
feitamente a repercussão das circunstâncias e das preocupações que mais atin- os sintomas, bastante banais, por um lado, e, por outro, os acontecimentos vi-
gem a sensibilidade da paciente. É assim que, no 29° dia desse tratamento, ela venciados e os sentimentos experimentados. Vamos analisar melhor este parale-
recebe a visita do filho que a deixa bastante emocionada; de fato, sente profun- lismo, em particular, durante o período em que acompanhei Marie L.
damente a falta de contato com os filhos. Além disso, no dia seguinte, por meio É indiscutível que a tensão ocular baixou no período de sua hospitalização.
de uma assistente social da fábrica, fica sabendo que as colegas haviam organiza- Os distúrbios funcionais desapareceram, apesar de ter sido suprimida a aplicação
do uma coleta para ajudá-la- notícia que a deixa terrivelmente humilhada. Pela da policarpina; mas, voltaram depois de uma emoção, embora tivesse sido man-
primeira vez, desde a internação, os sinais indicadores do glaucoma reaparecem tido, intransigentemente, o repouso e os calmantes, para desaparecerem depois
e exigem a aplicação do colírio à base de policarpina. de uma "psicoterapia" simples. Na seqüência, a tensão ocular continuou varian-
do em função das circunstâncias: elevou-se, em particular, depois de ter reto-
Em julho, seu moral é bom: não trabalha, nem pensa no assunto. "Não re-
mado o tricô, cuja execução evocava-lhe as cadências da fábrica, e abaixou de-
tomei minha atividade, diz ela; e foi isso que me fez muito bem. Se tivesse de
pois de sua cessação e da continuidade da "doença prolongada" que afastava o
voltar para esse inferno, eu não teria ficado curada. Se eu tivesse sido obriga-
receio do retorno à oficina.
da a voltar para lá, nem sei o que eu teria feito." A T.A.R.D. está em 45/45,
a tensão ocular em 22/28 com doses mínimas de policarpina. A tensão arterial registrou uma leve queda desde que começou o período de
repouso e, posteriormente, s_ofreu poucas alterações; a aplicação dos calmantes,
Em novembro, ela sentia-se bem e, nos últimos 20 dias, havia tentado "tri-
a adoção do regime sem cloreto de sódio e os acontecimentos, praticamente,
cotar para os outros". "Quando faço tricô, diz ela, meus gestos avançam cada vez
mais rapidamente, à semelhança do que ocorria na oficina. Não sei trabalhar de não a modificaram.
outra maneira; procuro ser razoável, mas estou de tal modo habituada a avançar Pelo contrário, com o repouso e o tratamento, verificou-se uma queda da
rapidamente, a acelerar a cadência e a dizer para mim mesma: 'Você tem que ir T.A.R.D. que, durante sua hospitalização, permaneceu extremamente estável;
rápido, ainda mais rápido'. Pouco adianta que eu repita, agora: 'Vai mais deva- pouco depois, ela sofreu um ligeiro aumento.
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Parte li- Psicopatologia do trabalho 6. O caso de Marie L. 345

Durante o tratamento, o fundo do olho melhorou sensivelmente. Uma cur- mográficos (reações vasomotoras decorrentes de excitantes relacionados com a
ta recaída ocorreu no momento em que retomou o tricô, implicando 0 retorno situação patogênica).
involuntário dos esforços de atenção e de rapidez, exigidos por sua atividade an-
Todavia, por enquanto, abstenho-me de avançar mais longe neste terreno.
terior; de novo, verificou-se um retrocesso depois de ter deixado de lado o tricô e
O único objetivo desta exposição consiste em formular um certo número de in-
com a perspectiva garantida de um repouso prolongado. Como era previsível,
terrogações e em abrir um certo número de perspectivas. Apesar do grande nú-
uma melhora prevaleceu em relação ao elemento exsudativo; pelo contrário, 0
mero de dados à nossa disposição, eles ainda carecem de uma efetiva comprova-
aspecto arterial permaneceu sem alterações já que, no início, existiam sinais níti-
ção: um enorme material, clínico e experimental, mostra, seja a aparição de um
dos de esclerose dos pequenos vasos retinianos.
distúrbio grave, embora transitório, seja a consolidação de uma doença somática
O que poderá ser deduzido da história de Marie L. no que diz respeito aos preexistente na seqüência de acontecimentos traumatizantes. Mas, ainda está
mecanismos psicofisiopatológicos?
por comprovar que uma entidade mórbida duradoura possa constituir-se desta
A hipertensão da paciente tem evoluído nos últimos dez anos. Segundo pa- forma. É verdade que, até agora, os estudos sobre o papel das situações patogê-
rece, ela teria surgido por ocasião de um conjunto de graves dificuldades mate- nicas prolongadas- em meu entender, as mais significativas na observação rela-
riais e psicológicas- algumas das quais exacerbadas pela atitude moral de Marie tiva a Marie L. e de um modo geral- têm sido raros. Experiências soviéticas e
L. Esta hipertensão é ligeiramente elevada; existe uma hipertensão materna, norte-americanas, ainda recentes e que não permitem um suficiente recuo, cria-
provavelmente, benigna. Apesar de sua taxa moderada, a hipertensão da paciente ram as condições para reproduzir diferentes distúrbios funcionais duradouros no
resultou em uma esclerose das arteríolas da retina. Por último, desde que passou animal, com modificações orgânicas, pelos diferentes métodos que desencadei-
a ser acompanhada, sua hipertensão sofreu apenas uma leve influência dos acon- am "neuroses experimentais".
tecimentos e da medicação. Convém reconhecer que, perante as leves hiperten- Estes fatos precisos deveriam ser colocados em paralelo com dados de cará-
sões de caráter hereditário, continuamos ignorando um grande número de de- ter mais geral: por exemplo, todos aqueles que dizem respeito ao considerável
talhes do que se passa.
aumento dos distúrbios funcionais em determinadas populações e grupos hu-
Pelo contrário, segundo parece, as crises exsudativas no nível da retina e as manos que se encontram sob a influência de determinadas situações e condições
modificações da T.A.,R.D. estão relacionadas com os acontecimentos vivencia- de trabalho. Infelizmente, neste aspecto, devo limitar-me a uma breve evocação,
dos pela paciente. necessária para situar esta observação e seu comentário.
Ainda fica por analisar o glaucoma. A tensão ocular e os indicadores funcio- Em uma perspectiva oposta- quero dizer, no plano terapêutico -, as pes-
nais parecem ser, claramente, influenciados pelas circunstâncias. Infelizmente, quisas experimentais e clínicas dos últimos anos comprovam, igualmente, a pos-
por ocasião da primeira hemorragia retiniana em 1943, não foi fornecida nenhu- sibilidade de conseguir a cura ou a melhora de doenças somáticas por meio de
ma indicação relativa ao tônus ocular. O glaucoma já existiria, latente, antes dos ações cirúrgicas ou medicamentosas sobre o sistema nervoso; assim, elas enfati-
acontecimentos traumatizantes? Ou teria surgido em decorrência destes aconte- zaram, sobretudo, o papel deste sistema nervoso. Do mesmo modo, a influência
cimentos e, sobretudo, teria sido provocado pelas cadências exageradas de sua das práticas psicoterápicas - em suas diferentes modalidades - sobre múltiplos
atividade na oficina? distúrbios funcionais orgânicos é uma realidade fora de contestação; constituem
Neste aspecto, Marie L. é taxativa: "O nervosismo [em seu trabalho}, diz um aspecto essencial do tratamento baseado no sono e de um grande número de
ela, fez com que meus olhos ficassem inchados, provocou o glaucoma". O des- outros tratamentos destes distúrbios. Todavia, aqui também os estudos ainda
pertar deste nervosismo- e das manifestações clínicas- observado durante 0 pe- são recentes e parcelares. Sefi!_ dúvida, é raro que uma psicoterapia tenha conse-
ríodo subseqüente ao tratamento, como resposta às atividades e preocupações guido a cura definitiva de uma afecção somática caracterizada- em particular,
que faziam lembrar o trabalho, parece confirmar esta interpretação, pela própria uma úlcera, a asma ou uma hipertensão.
paciente, do mecanismo de seus distúrbios. Este mecanismo poderia, sem dúvi- Para evitar um longo e inútil debate, não abordo, nesta exposição, proposi-
da, ser verificado objetivamente, em particular, mediante alguns testes pletis- talmente, os problemas suscitados pela psicossomática que, apesar de algumas
conciliações aparentes e algumas concessões práticas - bastante contestáveis,
Parte 11- Psicopatologia do trabalho 6. O caso de Marie L. 347
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em meu entender, em sua própria perspectiva- permanece intimamente inspi- tros, será que ;:t. resposta não pode ser procurada em sua história pessoal? Entre-
rada pela psicanálise, para não dizer confundida com ela. Para tirar essa conclu- tanto, excelentes espíritos médicos rejeitam este gênero de explicações; em seu
são, basta mencionar os estudos a seu respeito contidos em La Psychanalyse entender, além de destituídas do poder de agir de uma forma profunda e dura-
d'aujourd'hui, cuja resenha é feita nesta revista; o espírito de conciliação, eviden- doura sobre o organismo, as situações e acontecimentos invocados são incapa-
ciado em tais textos, sublinha claramente como é bem diferente o sistema de re- zes, por sua própria banalidade, de justificar o fato singular que é a doença.
ferências, a concepção dos mecanismos etiológicos e terapêuticos, assim como o Mas, pensando bem, qual será o campo em que tal "banalidade", tanto in-
próprio modo de pensamento dos psicossomáticos em relação aos não-psicana- vocada, é mais sensível? Naturalmente, a alimentação, as roupas, o descanso, a
listas. Por mais lamentável que seja um divórcio tão profundo e persistente em higiene, etc. diferem, sensivelmente, por exemplo, segundo as classes sociais.
um campo da ciência, creio que não existe, atualmente, um verdadeiro confron- Quem pode contestar tal fato? Do mesmo modo, é diferente a maneira como as
to- no plano nem dos fatos, nem dos pacientes- entre a psicossomática e a clí- afecções e os traumas orgânicos acidentais atingem as pessoas. No entanto, em
nica tradicionaL geral, essa será a maior diferença entre elas? Será nesse campo que as variações
Entre as conseqüências desse divórcio, o clínico acaba abandonando o estu- individuais são mais amplas? Não será, sobretudo, naquilo que as caracteriza
do (pessoal) dos problemas psicológicos e sociais. Consciente da existência de como seres humanos: suas idéias, seus sentimentos, suas condutas, a história
"fatores afetivos" que, incessantemente, afloram em seus hipertensos, ulcerosos, particular de cada uma?
etc., seduzido, não tanto pelas interpretações que lhe oferece a psicanálise quan- A consideração de tal perspectiva não implica nenhuma mistificação das cau-
to por suas promessas de compreensão, mas sendo incapaz de penetrar em seu sas reais- e, em particular, das causas sociais- da doença. Na medida em que as
universo fechado e em sua experiência incomunicável, ele entrega-se nas mãos condições de vida de Marie L. podem ser incriminadas, seus distúrbios surgiram
de uma espécie de mago, o psiquiatra-psicanalista, confiando-lhe inteiramente em decorrência de circunstâncias e situações bem concretas: seus infortúnios e, em
este campo da investigação e da prática. Já chamei a atenção 4 para as conseqüên- seguida, a intensificação de seu trabalho, sua fadiga, sua solidão e a falta de recur-
cias deste estado de coisas que leva a uma divisão no exercício da medicina. O so- sos. Entre os primeiros "tratamentos", convém que lhe seja aplicado o descanso,
mático vê seu papel limitado às intervenções orgânicas; por sua vez, o psicanalis- além de lhe serem fornecidos recursos materiais e uma segurança suficiente.
ta é o único a conhecer e modificar o encadeamento das circunstâncias, agindo Entretanto, estas condições de vida, seja qual for o aspecto considerado, in-
sobre as causas primeiras. O aprofundamento que, segundo parece, é proposto tegram-se em um contexto psicológico que lhes confere uma acuidade peculiar
pela psicossomática, afinal de contas, consuma um novo dualismo, uma divisão e, em definitivo, seu caráter patogênico. Este mesmo contexto psicológico nada
ainda mais profunda do paciente. tem de mítico, mas, no espírito da paCiente, é o reflexo das condições sociais e
Um dos objetivos desta exposição é o seguinte: a tentativa de fazer aparecer educativas, econômicas e ideológicas, aum só tempo, bem reais e específicas, vi-
- no plano do conhecimento prático do homem, da história dos pacientes e de venciadas por ela, desde a infância até o dia de hoje: em vez desta ou daquela
suas condições concretas de existência- determinadas possibilidades de com- condição, mais ou menos arbitrariamente valorizada, trata-se da sucessão e da
preensão e de intervenção que ultrapassem a simples afirmação - freqüente- totalidade de tais condições.
mente, tão sumária e insatisfatória- de "causas sociais" ou psicológicas relativa- O "nervosismo" que, segundo Marie L.- em meu entender, justificadamente
mente às manifestações da patologia funcionaL -, seria o responsável pela aparição de seus distúrbios- embora decorrentes, antes
Eis o que merece ser abordado de forma mais detalhada. De fato, se nos de tudo da cadência de seu trabalho - assume um valor particular na angústia
'
questionamos sobre as razões que levam determinado sujeito - esse indivíduo e que a oprime pela simples idéia de ser incapaz de efetuar sua tarefa; ora, esta an-
não todos os que, aparentemente, se encontram em situações semelhantes - a gústia não é experimentada com tanta intensidade por outras trabalhadoras. Sua
mostrar-se menos resistente e a apresentar uma afecção que não atinge os ou- própria fadiga é acrescida pela organização irracional de sua vida, a longa viagem
de retorno com os "colarinhos-brancos", o trabalho suplementar para reformar a
casa e a preocupação para manter uma aparência "burguesa". Esta mentalidade de
4. L Le Guillant. In: Colloque sur la cure de sommeil {Colóquio sobre o tratamento baseado
Marie L. representa não tanto a manifestação de alguma tendência profunda, mas
no sono}. Paris, Masson, 1954.
348 Parte 11- Psicopatologia do trabalho

um tipo psicológico ou, mais exatamente, um tipo social, particularmente acen-


tuado, é verdade, sem deixar de ser sobejamente conhecido; parece-me que pude-
mos ver claramente como ele se constituiu. Seria necessário ignorar totalmente Posfácio
como se processam as relações humanas na nossa sociedade para desconhecer a
existência e a força desse tipo, sem dúvida, em declínio, mas ainda capaz de domi-
O resgate de uma dívida
nar uma vida inteira. Neste sentido, a doença de Marie L. aparece, em certa me-
Wanderley Codo
dida, como a expressão particular das contradições mais gerais e das dificuldades
de adaptação, em determinado momento, de uma categoria social, cujos proble-
mas são familiares e compreensíveis para todos nós.
Assim, a plena apreensão dG caráter patogênico de seu trabalho só será pos-
sível, parece-me, ao ser estabelecida a relação das condições de tal atividade com
A psicologia do trabalho deve muito a Louis Le Guillant. Também no Brasil,
toda a história da paciente, com suas maneiras de julgar e comportar-se, e com a
e não apenas ela, mas também a psicologia e a psiquiatria; toda a área psi. Todos
representação do mundo, forjadas por esta história.
devemos e muito poucos de nós o conheciam. Este livro corrige este profundo
Uma vez mais, não pretendo reduzir a doença de Marie L. a tais mecanismos handcap. Até agora, o nome de Le Guillant permanecia pouco conhecido de
psicológicos e sociais; no entanto, pelo que vimos, ou entrevimos a seu respeito, quem se preocupa com a construção sempre ingrata de uma ciência do indiví-
tais mecanismos fornecem-nos, em meu entender, relativamente a uma clínica duo. O brilho e a originalidade de seu texto "A neurose das telefonistas" não
tradicional ou mistificada, um maior número de possibilidades para sua compre- pode eludir o fato de que sua contribuição transcende muito aquele texto.
ensão, assim como para seu tratamento. De fato, a partir do conhecimento de Pode-se pensar uma psicologia social sem pensar na determinação social da psi-
tais mecanismos é que conseguimos, não tanto a inteira satisfação, mas, pelo que? Pode-se pensar na Psicologia, ciência social por definição sem buscar a so-
menos, a definição das exigências para um tratamento pleno desta paciente, assim ciedade como determinante da conduta e da loucura dos homens? Le Guillant
como para uma psicoterapia um pouco mais adaptada: aliás, esta nada tem de sabia que não, e ensinou que não. E provou que não.
esotérico e qualquer clínico, dotado de um pouco de experiência e de sensibilida-
Um texto de aproximadamente 50 anos atrás vem tomar espaço nas estan-
de, seria capaz de praticá-la.
tes deste novo século, antes de mais nada, pelo seu valor histórico, pelo vaticínio
Neste caso particular, ela se baseava no respeito por uma certa forma de re- quase chavão: quem não conhece a história estará condenado a repetir seus er-
lações humanas mantidas por Marie L., pela solicitude e pela organização de sua ros. Um resgate da história psi, um dos. inícios mais férteis da psicopatologia do
vida em função de suas necessidades e de suas preocupações - e, também, um trabalho, da psicologia do trabalho. Fazer justiça às nossas origens, permitir às
pouco de seus preconceitos: o descanso, a segurança da "doença prolongada", a novas gerações conhecer os pais e avós do pensamento de hoje, eis uma das mais
busca de uma certa atividade em um meio conforme à sua representação- irrisó- importantes funções que este livro, através do cuidado e do carinho de Elizabeth
ria, embora imperiosa- de um certo "bem" social. Antunes, vem a cumprir.
Parece-me que, nesta perspectiva, a patogenia e o tratamento de tal afecção Mas a pergunta bem que poderia ser outra. Além e apesar das contribuições
encontram-se enriquecidos; por sua vez, nosso papel é ampliado e garantido, que trouxe, do seu papel semeador de pioneiro, do seu nome cravado na história
aproximando-se mais de uma medicina verdadeiramente humana. deste confuso domínio "psi", Le Guillant tem o que dizer ao mundo do século
XXI? Quem passou por estaslinhas pode utilizar seus conhecimentos, agora?
Ao dobrar uma esquina, amanhã pela manhã?
Que se ouça uma telefonista. O desenvolvimento da tecnologia em comuni-
cações, o advento do computador, mudou muito o trabalho da telefonista, no
entanto, pasme-se, é possível ouvir no seu discurso os mesmos traços que Le