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PINTO FERREIRA :Í-?

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Curso de Organização Social


e Política Brasileira

1972

JOSÉ KONFINO
editor

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CURSO DE ORGANIZAÇÃO SOCIAL E
POLÍTICA BRASILEIRA

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PINTO FERREIRA

Curso de Organização Social


8 Política Brasileira

JOSÉ KONFINO — editor


Av. Erasmo Braga, 227 — 1.® and., sede própria
Caixa Postal 2.746 — ZG-00 — Enderêço telegráfico Konfino
Rio de Janeiro
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TRABALHOS DO AUTOR

1) Novos Rumos de Direito Público. Esgotado. 1937.


2) Teoria Científica do Conhecimento. Esgotado. 1938.
8) Sociologia das Revoluções. Esgotado. 1939.
4) Ologênese Ciclo-Social. Esgotado. 1939.
5) Teoria do Espaço Social. Esgotado. 1939.
6) Wahrscheinlichkeitslogik und Soziologie. Esgotado. 1940.
7) VoN WiESE und die zeitgenoessische Bezeihungslehre. Esgotado.
1941. 2.a Edição, 1959.
8) Da Soberania. Recife. Esgotado. 1943.
9) Formação, Desenvolvimento e Fins do Estado. Esgotado. 1945.
10) PITIRIN A. SOROKIN y ei Concepto de Ia Sociologia Relacionai,
México, 1945. , „ ., • i-
11) A Democracia Socialista, e os Novos Rumos do Presidencialismo
Brasileiro. 1946.
12) Da Constituição. 1946. 2. Edição. 1956.
13) Democracia y Planificacion. México. 1947.
14) The Marxian Socialism. 1947. 2.^ Edição, 1968.
15) Laski e o Estado Moderno. 1948. 2.® Edição, 1956.
16) Analysis of Mind and Hipnosis. 1948.
17) The Concept of Neus. 1948.
18) Korzybski and a New Interpretation of Socialism. 19481 2.
Edição, 1952.
19) Princípios Gerais de Direito Constitucional Moderno. 1948.
2.®- Edição, 2 vols. 1951. 3.® Edição, 2 vols., 1955. 4.®" Edição,
2 vols., 1962. 5.» Edição, 2 vols., 1971.
20) Emory S. Bogardus y los Nuevos Fundamentos do Ia Morfo-
logia Social. México. 1949.
21) Pernambuco e seu Destino Histórico. 1950.
22) Introdução à Filosofia Científica. 1951.
231 Tradição e Progresso. 1952.
oA\ Novos Rumos da Filosofia,Jurídica. 1952.
255 CAMÕES e a Cultura Luso-Brasileira. 1953.
26) Tobias Barreto e a Nova Escola do Recife. 2.» Edição, 1958.
27) A Democracia Socialista. 1953.
28) Tobias Barreto et Ia Sociologie Brésilienne. 1954.
29) Petite Histoire de Ia Littératiíre Brésilienne. 1954. 2.® Edição,
1960.
30) El Problema de Ia Reforma Agraria. México. 1954.
/ Trabalhos do Autor

31) Atualidada de Tobias Barreto, 1954.


32) Sociologia. 2 vols. 1955. 2.® Edição, 1969.
33) A Dinâmica Social e a Lei do Progresso. 1955.
Traduzido para o espanhol com o título: Visión Panoramica
de Ia Dinamica Social. México. 1957.
34) Filosofia da História Literária. 1955.
35) Nuevos Fundamentos de Ia Espaciologia Social. México. 1955.
36) Interpretação da Literatura Brasileira. 1957. Trabalho pre
miado pela Academia Pernambucana de Letras e com o Prêmio
Silvio Romero da Academia Brasileira de Letras.
37) Notas Críticas sobre a Filosofia Marxista. 1957.
Traduzido para o alemão com o título: Kritische Anmerkun-
gen zur Marxistischen Philosophie. 1959.
Traduzido para o russo com o título: Krítikii zamietki
etsnositsno filosofia marksísta. 1962.
38) Teoria Geral do Estado. 2.^ Edição. Rio de Janeiro. 1957.
2 vols. (1.^ Edição com o título: Da Soberania)^
39) Panorama da Sociologia Brasileira. 1958.
40) Polêmicas. 1958.
41) Ás Técnicas da Democracia. 1959.
42) O Regime Eleitoral. 1959.
43) Síntese da Contribuição de Durkheim à Sociologia. 1959.
Traduzido para o espanhol com o título: Síntese de Ia
Contribución de Durkheim à Ia Sociologia. México. 1959.
44) Die Deutsche Einwanderung in Bresilien. 1959.
45) Concepto y Classificación de los Procesos Socíales. México.
1959. .,
46) Pequena História da Literatura Brasileira, especialmente nos
séculos XIX e XX. 1959. ^ ,, .1 . 4. :;o
Traduzido para o russo com o título: Karotkaia istoriia
brasiliiskoi literaturi, spetsialne stoletia 19-20. 1959.
47) El Parlamentarismo. Buenos Aires. 1^60. _
48) A Reforma Agrária. 1.^ Edição, 1960. 2. Edição, 1960. 3.
Edição, 1964.
49) Las Clases Sociales. México. 1961.
50) Die Politischen Partein Brasiliens. 1961• Po
Traduzido para o espanhol com o titulo: Los
líticos en Brasil y su Desenvolvimento Historico. México.
1962.
51) A Odisséia de Santa Maria, no Jornal de Literatura Estran
geira. Moscou. 1961. - .
52) As Constituições Modernas da Europa e Asia.
53) As Imunidades Parlamentares. 1962.
54) O Município. 1963. . ry t ioaq
55) O Regime dos Estados na Federação Brasileira, Brasília. 19bd.
56) Do Orçamento. 1964. 4 oa
57) Curso de Direito Constitucional. Rio de Janeiro. 1964.
Edição, 1970.
58) ^^^Conãtituições dos Estados no Regime Federativo. Brasília.
59) Capitais Estrangeiros e Dívida Externa do Brasil. São Paulo.
1965.
Trabalhos do Autor VII

GO) A Inflação. 1965. 2.^ Edição. Rio de Janeiro. 1967.


Traduzido para o espanhol com o título: La Inflación.
México, 1966.
61) O Poder Executivo na República Brasileira. 1967.
62) Autonomia dos Municípios-Capitais. Recife. 1967 (mimeo).
63) A Suspensão dos Direitos Políticos e seus Efeitos (mimeo).
Recife. 1968.
64) Personalidade Jurídica, Autonomia e Patrimônio da Facul
dade de Direito do Recife (mimeo). Recife, 1968. 2.^ Edição,
1970.
65) As Técnicas do Parlamentarismo. 1968.
66) Um Discurso de Paraninfo. 1968.
67) A Evolução do Federalismo Brasileiro. Recife. 1969.
68) Sociologia do Desenvolvimento. Recife. 1970.
69) A Universidade no Mundo. Recife. 1971.
70) As Escalas em Ciências Sociais. Recife. 1971.
71) Neo-Colonialismo e Desnacionalização da Economia Brasileira.
1971.
72) A Idéia da Universidade e a Recente Reforma Universitária
Alemã. 1971.
73) A Competência Tributária da União no Regime Constitucional
Brasileiro. 1971.
74) Curso de Educação Moral e Cívica. 1972.
75) Pesquisa Social. Recife. 1972.
76) Curso de Organização Social e Política Brasileira. 1972.
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PREFÁCIO

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PREFÁCIO

A nova geração necessita conhecer a realidade nacional,


na riqueza da sua ecologia e nxi ascensão do seu desenvolvi
mento. O Brasil, nação a seu modo imperiol peUi vtsao do
seu futuro, enriquecido pela ^ autenticidade do seu huma
nismo, é uma grande experiência vitoriosa no mundo tro
pical, criando uma civilização autônoma, onde outros países
falharam. .. , - j
O Brasil deve ser uma nação original, que nao deve
imitar ninguém, como pais gigante e continental, a criar o
seu próprio modelo de ascensão social, desenvolvimento
e progresso. . .
Para isso é preciso conhecer a sua organização e insti
tuições sociais, a história das suas lideranças políticas, as
fases diversas de sua evolução econômica como sustentáculo
da vida social, os seus padrões pedagógicos, a história social
das suas cidades e engenhos poéticos plantados à beira do3
rios, o humanismo da sua democracia racial equilibradora de
conflitos sociais, o ritmo, do seu desenvolvimento, a beleza
esplendente da sua ecologia e de sua paisagem social. ^
A ascensão do Brasil como uma superpotência mundia^
no século XXI é uma vigorosa possibilidade geopoUtica. As
gerações novas devem estar atentas a êste despertar.
É o fim a que se destina êste manual — de resto redi
gido em forma didática — relembrando êste despertar da
consciência nacional e especialmente das novas gerações para
a visão do Brasil de amanhã.
Recife, 16 de julho de 1970 a 1^ de fevereiro de 1971.
Rua Herminia Lins, 25
Luiz Pinto Ferreira
1.» PARTE

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO


SOCIAL E política

CAPÍTULO I

FUNDAMENTOS DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL


E POLÍTICA

1 A criação da cadeira de Organização Social e


Política Brasileira

A origem da criação da disciplina hoje intitulada Orga^


nização Social e Política Brasileira, no curso médio do nosso
ensino, se prende à necessidade de transmitir no coração da
juventude os conhecimentos da vida, da sociedade, da eco
nomia, da cultura, em suma da realidade brasileira, a fim de
transformar os jovens em cidadãos úteis à pátria.
Somente o saber e a cultura tornam os países gloriosos
e emancipados. O conhecimento da realidade brasileira habi
lita a melhor vincular o coração e o sentimento no amor
à pátria e no cálido sentimento de fraternidade e solidarie
dade humanas.
Antigamente se ensinava no país a disciplina chamada
Instrução Moml e Cívica. Hoje se ensinam ambas as ma
térias. Na França a nomenclatura é de Instrução Cívica^
nos Estados Unidos a cadeira denomina-se Oovêmo Ame
ricano. j -' u 1 ,
Como a educação e a base do desenvolvimento, e a ins
trução é a grande arma de cabeceira da democracia, daí o
empenho de ministrar as bases da organização da pátria na ^
juventude do país, para que possa amá-la. \\
6 Curso de Organização Social e Política Brasileira

Transmitindo assim seu patrimônio espiritual e cultural


intacto e enriquecido às gerações do porvir.
2 — Do objeto da disciplina Organização Social e Polí
tica Brasileira
A disciplina Organização Social e Política Brasileira
tem um conteúdo amplo. A sua finalidade é de transmitir
os ensinamentos necessários para que o cidadão se comporte,
ainda na miniatura da alma de criança, no respeito e no
culto das instituições do país.
Ela pode dividir-se em duas partes, uma parte geral
e uma parte especial.
A Parte Geral examina os seguintes pontos: a) a socie
dade e o povo; b) a sociedade política e o Estado; c) as for
mas de govêrno e os regimes políticos d) a dinâmica da
sociedade política, a saber, os partidos políticos e a demo
cracia; e) a ordem jurídica, as constituições, os códigos, as
leis, o direito em suma.
Por sua vez, a Parte Especial tem por objeto:
a) o conhecimento da organização político-administra-
tíva do país; b) os direitos do homem e do cidadão; c) a evo
lução econômica e social da pátria brasileira; d) a compo-
QiVão racial da nossa população; e) a organização da f^i-
,l e do casamento; f) o valor da educação e_ da cultura
Tin qociedade; g) o papel da religião na formaç^ sentimen
tal e cultural do país; h) as características da população
^'^^Pqhio a Instrução Moral e Cívicay a nova disciplina
nra^izooão Social e Política visa formar e consolidar o
espírito público desde as novas gerações, modelando ins-
l^ições da comunidade em costumes sadios e em uma solid
tradição moral. ,.
Ê o que já dizia HORÁCIO: ''De que valem as leis
sem os Costumes? Resultarão vãs".
. ■■ I. . ( I

■' n QUESTIONÁRIO

^ Organização
2 — Qual a sua finalitadè? i
3 — Qual a frase de Horáiéâo ^ leis e os costumes?
Capítulo II

CONCEITO DE ORGANIZAÇÃO SOCIAL E POLÍTICA


1 O homem como animal social
O homem é um ser destinado a conviver em sociedade.
Não se pode compreender o homem isolado. Por isso ja
ARISTÓTELES, sábio grego do mundo antigo, dizia com
razão que o homem é tm animal social. Dizia que era um
animal político, mas a sua frase é hoje entendida numa
acepção ampliativa. - ,
Desde a sua origem, o homem vive agrupado em íami-
lia. As famílias se associam em clãs, tribos, e estas em
aldeias, cidades e Estados. • jj?
O que é que leva o homem a viver em socieaaüe.
Dois fatores fundamentais e de relêyo: o instinto e a
inteligência. O instinto de defesa, de sociabilidade, de p
criação, como ainda de outro lado a compreensão de qu
o esforço conjugado e a ajuda mútua sao indispensável
para a. sobrevivência e o progresso, levando assim o homem
à necessidade inevitável da vida social.
2 A famüta, os clãs, a tribo e o Estado
A forma histórica da organização do homem é a famí
lia. A família é a unidade social baseada no casamento.
A família também pode ser entendida como o grupo for
mado pelos pais, filhos e parentes mais próximos.
As famílias articuladas por um ascendente comum for
mam os clãs. Os clãs se dizem clãs totêmicos (da palavra
totem), quando ligados por um ancestral comum simbólico.
Mas os clãs têm a necessidade de associar-se mais am
plamente em organizações, que são as tribos. Estas sao
sociedades maiores, que resultam da reunião das famílias
clãs, a fim de obter alimentos, defender-se do inimigo
comum, tendo sempre costumes e tradições semelhantes.
por fim, da associação das tribos surge o Estado.
O Estado é a sociedade politicamente organizada.
O Estado é o agrupamento humano, fixado sôbre um
território determinado e com um comando central ou
soberano.

I\
® Curso de Organização Social e Política Brasileira
A palavra soberania deriva do latim superanus, e signi
fica o poder mais alto de decisão na comunidade.
3 — A organizado sodaX
A sociedade não pode sobreviver sem estar organizada.
Para conseguir alimentos, para caçar e pescar, para defen
der-se no mundo primitivo perigosamente hostil, o homem
necessita estar organizado em conjunto com os seus seme
lhantes.
O que é assim organização social?
A organização social é o conjunto de elementos ou par
tes de uma entidade (Estado, família), emprêsas que se
justapõem e se integram para conseguir os fins necessários
da convivência humana.
Entre os principais elementos da organização social de
um país se mencionam:
a) a maneira de agir, de pensar e de servir, os modos
de vida de um povo; b) as itnstituições sociais dominantes,
como o Estado, a Igreja, a família, a propriedade; c) a to
talidade das crenças, costumes, tradições, folclore, existentes
na sociedade; d) a totalidade dos grupos sociais (econômi
cos, profissionais, culturais, religiosos, etc.) incluídos na
sociedade global; e) os estatutos e a composição da socie
dade classificada em partes, que se chamam de classes
sociais ou camadas sociais.
Há diversos tipos e modalidades de organização social,
como a organização política, a organização econômica, a
organização religiosa, a organização pedagógica, etc.

QUESTIONÁRIO

1 — Porque o homem é um animal social?


2 — Quais os fatôres essenciais que levam o homem a asso
ciar-se?
3 — Que é aifamília?
4 — Como definir um clã?
5 — O que é a tribo?
6 — Como se cotiíipreende o Estado e como defini-lo?
7 _ o que se dew ratender por soberania?
8 — Qual o significado da palavra drganização e seus prin
cipais tipos? *
Capítulo III

A SOCIEDADE E OS GRUPOS SOCIAIS !!


1 — A soéiedade e a classificação dos grupos
A sociedade é a reunião de diverscbs pessoas Que se asso
ciam para um determinado fim. Há sempre um objetivo
a conseguir, como a procura do alimento, vestuário, a cons
trução de casa ou habitação, a necessidade de defesa contra
o perigo comum, a união conjugada para trabalhos coletivos,
a realização de ideais e crenças.
A sociedade é assim um fato natural, necessário e uni
versal. Onde se encontra o homem, aí se encontra também
a sociedade.
Encontra-se também a sociedade nos animais, como a
admirável organização das formigas, das abelhas, mas com
base no instinto.
No homem surge a razão, aparece a inteligência. Esta
razão pensante, êste espirito pensante, como a mais alta
floração da natureza, permite a manifestação da linguagem,
da ciência, da filosofia, da religião, da moral, do progresso
em suma, chamada de civilização.
Procura-se às vêzes^^istinguir entre as diversas formas
de convivência humana, discriminando as massas ou nvidti-
dões, os grupos sociais e as comunidades. É a classificação
proposta por von WIESE.
Outros autores dividem os grupos sociais de acordo
com os contatos sociais que se fazem entre as pessoas.
COOLEY classifica os grupos sociais em: a) primários, de
contatos pessoais diretos como a família, o grupo de recreio,
a comunidade; b) secundários, de contato indireto, como o
Estado, a Humanidade; c) mtermedidrios, do contato di
reto mas não permanente: grupos profissionais, econômi
cos, religiosos, partidos políticos.
Ainda outros autores classificam os grupos nas seguin
tes categorias: 1 — nJatura^, de base biológica, a que o in
divíduo pertence pelo nascimento; 2 — mtericUmais, a que
a pessoa pertence voluntàriamente, como a escola, o grupo
de trabalho, a sociedade desportiva; 3 — permanentes, que
são grupos estáveis, com longa vida, como a família e o
Estado; 4 — temporários, como os grupos de duração pas
sageira, como uma reunião dançante, uma excursão, etc.
\\
10 Curso de Organização Social e Política Brasileira

2 — A comunidade

A palavra comunidade tem um significado especial. Ela


pode ser entendida como um grupo social de contatos na
sua maioria diretos e formados de indivíduos que habitam
uma área delimitada (aldeia, vila, fazenda, engenho, etc.)
A comunidade sempre se apresenta com relações de vi
zinhança entre os seus membros. Embora não sendo neces-
sàriamente parentes, vivem a pouca distância, se comuni
cam com facilidade, têm contatos pessoais permanentes, com
uma forma de convivência menos artificial e mais orgânica.
A comunidade tem assim uma forma de vida espontânea e
natural.
Como tipos de comunidades, podemos assinalar a co
munidade do Engenho Lagoa Sêca, a comunidade da Fazen-
da_Santa Osita, para assinalar e representar os habitantes
de tais regiões.

g — Grupos sociais impo&tantes

Na atualidade se destacam alguns grupos sociais ini-


portantes, que devem ser relembrados. Há os grupos bioló
gicos, representados pela famíUa; os grupos pedagógicos,
como a escola, a vndversicUide; os grupos econômicos, como
0 sindicado-, os grupos recreativos, como os clubes de futebol
e as sociedades de dança; os grupos políticos, como os par
tidos, os mimicípios, o Estado; os grupos religiosos, como
a Iareia; os grupos internacionais, como a Organizarão das
ünidas (ONU).
Em tais grupos vive necessàriãmente o homem. Êste
não pode prescindir de certo número dêles, indispensável à
formação da sua personalidade, da sua cultura, à defesa dos
seus interêsses.

QUESTIONÁRIO
• I

1 — O que é uma sociedade?


2 — Como se,clasp^ficam os grupos sociais?
3 __ O que são grupos primários?
4 — O que são grupos secundários?
5 — Mencionar alguns grupos sociais de importância.
6 —- Definir o que seja uma comunidade.
Capítulo IV

AS RELAÇÕES SOCIAIS
1 — A mteraçãso social !
Nenhuma vida na sociedade é possível sem que as
pessoas tenham relações sociais umas com as outras. A vida
em sociedade é destarte formada por uma série múltipla
ou uma trama de relações sociais.
As relações sociais também se chamam de interações
humamas, isto é, um conjunto ou uma série de ações ou
reações recíprocas, mediante as quais os homens se apro
ximam ou se afastam, se associam ou se desassociam mu
tuamente.
Os diversos modos de interação social, pelos quais os
indivíduos ou os grupos sociais atuam ou se influenciam uns
sobre os outros, se chamam de relações sociais ou processos
sócias.
A relação social é o aspecto estático do processo social.
O processo social é o aspecto dinâmico da relação social.
Ambos têm o mesmo significado, apenas de acordo com o
ângulo de visão com que são vistos, no aspecto estático ou
no aspecto dinâmico.
Os processos sociais básicos são os seguintes: a) coo
peração; b) oposição.
Para que exista interação é preciso que haja um contato
social entre as pessoas ou grupos.
O contato social é o encontro direto ou indireto, per
manente ou transitório, entre pessoas ou grupos sociais.
Provocando seja a aproximação ou o afastamento.
Os contatos sociais podem ser de duas categorias:
a) priTnârios ou diretos, que se verificam face a face, em
associações íntimas; h) contatos secundários ou indiretos,
"caracterizados pela exterioridade e por maior distância",
como a carta, telefone, telegrama, televisão, etc.
2 — Cooperação, aoowodação e assimilação
Os principais processos sociais que levam os homens a
se aproximarem são a cooperação, a acomodação e a assi
milação.
Os homens tem necessidade de uma convivência pacífica,
de uma congregação e^ harmonia de esforços para a conquista
dos fins sociais, e tais processos são fatos naturais que os
aproximam.
Curso de Organização Social e Política Brasileira

A cooperação é a ação de diversas pessoas que traba


lham em conjunto para a realização de um objeto comum.
A acomodaçãjo é uma maneira de convivência social que
faz terminar os conflitos e divergências. É um ajustamento
de pessoas ou grupos até então hostis.
A assimilação é uma etapa final da acomodação, quando
indivíduos ou grupos, antes com profundas dissimilaridades,
alteram as suas atitudes e suas concepções de vida e se
identificam em seus interêsses, objetivos e pontos de vista,
partilhando novas crenças e atitudes.
3 — Competição e conflito
As pessoas e grupos também podem apresentar diver
gências se opondo mutuamente na sociedade. É o processo
básico da oposição, que assume formas mais intensas com
a competição e o conflito.
A competição é a forma de interação social pela qual
os homens e os grupos procuram apossar-se de recursos, bens
ou posições sociais e econômicas que existem em quantidade
inferior aos desejos dos concorrentes.
O oonflito é uma forma mais violenta de competição.
É a forma consciente e deliberada de eliminação ou domi
nação do adversário, eis que "cada um sabe que só pode
ganhar o prêmio derrotando o outro". Fase mais aguda de
um conflito é a guerra, como a luta armada entre nações.
QUESTIONÁRIO
. 1 — O que é interação social?
2 — Distinguir relação social e processo social.
3 — Definir os seguintes têrmos: cooperação, acomo
dação, assimilação, competição e conflito.

Capítulo V
A ESTRUTURA SOCIAL
1 Estmtwfds sociais
A estrutura social é o conjunto de relações sociais exis-
tentes; e asp^to estótico da própria organização. Com-
preende^r coM^inte tôdas as rtíações sociais padroni
zadas e essenciais entre as pessoas que compõem um mesmo
grupo ou entre grupos da mesma seriedade
A Estrutura Social

Na estrutura social se processa uma diferenciação da


sociedade em grupos diversos, ou se baseando em um só
laço, ou em laços múltiplos, subdividindo-se os grupos em
camadas ou estratos. jj
2 — O es-paço social
O espaço social distingue-se naturalmente do espaço
físico e do espaço geográfico, com o que não deve ser con
fundido. Êle é estudado^ ^ em sociologia pela espaciologia
social.
O espaço físico é aquêle em que ocorrem os fenômenos
geográficos ou físicos, em que não se encontra a presença
do homem. Tais fenômenos físicos, como as chuvas, os relâm
pagos, os trovões, as geadas, as erosões, o fluir dos rios,
ocorrem no mundo do universo físico. A distância entre tais
fenômenos se mede por metros, o tempo por uma contagem
exata de horas, ou suas divisões, ou multiplicações.
O espaço social é exatamente outro, aquêle em que
decorrem ações humanas, onde a presença do ser huinano
é indispensável, como nos casamentos, divórcios, aniver
sários, danças, eleições, etc.
A distância social se mede por outras categorias, pelos
sentimentos sociais, prevenções, hierarquia, posições econô
micas e sociais de podei: e prestígio. Assim, um general e
um soldado podem estar próximos no espaço físico, um ao
lado do outro, mas a distância social entre ambos é imensa,
de poder e prestígio, isto é, a distância social é diversa da
distância física.

3 — Clcusses soGWÀs

A classe social é o conjunto de pessoas que se distinguem


pelos traços específicos de cultura e de situação econômica.
É um estrato social não-hereditário, cujos membros se
reputam socialmente iguais por^ causa das semelhanças de
profissão, educação, nível econômico, comportamento reli
gioso, atitudes morais"e políticas, habitação em certas áreas
residenciais, padrões de namôro e sexualidade,formas e tipos
de consumo, pelas mesmas condições de vida e de existência.
As classes sociais se dividem geralmente em três cama
das: 1) a classe alta ou superior, englobando cêrca de 5%
da sociedade; 2) a classe média, abrangendo aproximada-
Curso de Organização Social e Política Brasileira

mente 30 a 35% da sociedade; 3) a classe baixa conglo-


bando 60 a 65% da sociedade.
A sociedade forma assim uma espécie de pirâmide, em
cujo ápice está a classe alta, a seção mediana é formada
pela classe média e a base pela classe baixa.
A classe alta é a burguesia abastada, a alta plutocra-
cia; a classe inferior é o campesinato e o proletariado.
São os seguintes os indicadores e índices distintivos da
classe social: 1) nível de educação; 2) montante de renda;
3) valor locativo da casa; 4) categoria funcional.

4 — Statiis social

O Statíis social é a posição que o indivíduo ocupa na


sociedade ou em cada grupo a que pertence.
A pessoa pode ter um status superior, quando desempe
nha um papel de relêvo na sociedade, um status médio
quando exerce uma posição neutra, e um status inferior,
quando exerce uma posição subordinada.
Um diretor de uma Faculdade, por exemplo, ocupa um
status superior, já um contínuo ou servente ocupa um status
inferior.
A pèssoa pode ter tantas posições ou status quantos
grupos a que pertencer. Pode ser um chefe de família e
simultâneamente um professor e um líder político.
Já o papel social representa o aspecto dinâmico do
status, é na realidade o desempenho de direitos e deveres
que constituem o status.
5 — Estratificação social
A estratificação social é a diferenciação da sociedade
em camadas hieràrquicamente superpostas.
A palavra procede do latim stratus, estrato ou camada.
A estratificação pode ser horizontal quando as camadas
ou classes têm o mesmo valor, significado e importância so
cial; pode ser vertical, quando se acham superpostas em
camadas diferentes de situação, nível e importância social.
Exemplo de uma estratificação horizontal: os grandes
banqueiros e grandes industriais.
Eimmplo de uma estratificação vertical: a burguesia e
o proletariado^ ,^
A ®sl^fificação é üm fato social universal. Na velha
Roma existiam os patariaios e plebeus, na idade média os
A Estrutura Social 15

senhores feudais e os vassalos, no mundo atual a burguesia


e o proletariado.
Cumpre ainda distinguir as três seguintes formas prin
cipais de estratificação social: 1) Estratificação polUicjCf,
que é a diferenciação da sociedade em governantes e gover
nados; 2) Estratifióação econômica, baseada no grau de ri
queza e de renda; 3) Estratificação profissional, fundamen
tada na diferença das profissões e na hierarquia dos salários.
São estas as principais formas de estratificação social,
que assim opera naturalmente na sociedade.

6 — Mobilidade social

A mobilidade social significa o movimento dos indiví


duos, grupos e valôres dentro dos quadros da sociedade.
A mobilidade tanto pode ser vertical como horizontal.
A mobilidade horizontal é o deslocamento de uma classe,
um indivíduo, um valor ou um grupo na mesma esfera ou
nível social.
A mobilidade vertical é o deslocamento de classes, in
divíduos, valôres ou grupos para outra esfera ou nível social
diferente. A mobilidade vertical pode ser ascendente ou
descendente, quando o deslocamento se processa para capas
ou níveis sociais superiores ou inferiores.
Exemplo de mobilidade horizontal: um grande fazen
deiro e criador de gado que se transforma em grande ban
queiro, com o mesmo nívèl de renda.
Exemplo de mobilidade vertical descendente: uma pro
fessora que se transforma em servente; exemplo de mobili
dade vertical ascendente: uma servente que se transforma e
adquire o stalus de professôra.
Diversos são os canais de ascensão social, como as uni
versidade, as escolas, a igreja, o exército, os bancos, etc.

QUESTIONÁRIO
1 — O que é espaço social?
2 — Qual a diferença entre espaço social e espaço geo-
gráfico? ,.
3 — Que se entende por classe social?
4 — Como se representam as seções da pirâmide social?
5 _ Quais os principais indicadores de classes sociais?
6 — Definir status e papel social.
7 — Que se entende por estratificação social?
16 Curso de Organização Social e Política Brasileira

8 — Quais os principais tipos de estratificação social?


9 — Qual a estratificação social de sua classe?
10 — O que é mobilidade social?
11 — Como se classificam as espécies de mobilidade social?
12 — Mencionar alguns exemplos de mobilidade social.

Capítulo VI

A CULTURA

1 — Noção de cidtura
As sociedades se apresentam com determinados carac
teres e sinais distintivos nas diversas regiões da terra. Rece
bem influência do ambiente, da tradição, do mundo circun-
dante, sofrem a influência dos fatores raciais, são assim
grupos nitidamente diferenciados; têm um estilo de vida
próprio, um determinado comportamento coletivo indivi-
duante. Tudo isto constitui por conseguinte a sua cultura.
O que é assim a cultura?
A cultura é o conjunto de bens espirituais e culturais
que caracterizam os grupos humanos.
A cultura é o conhecimento do grupo armazenado (na
memória dos homens, nos livros, nos objetos) para uso
futuro.
A cultura é em^ suma o conjunto de crenças, costumes,
normas, artes, hábito de alimentação, técnicas, artefatos,
em suma todo o patrimônio material e espiritual da socie
dade.
Nenhuma sociedade vive sem a sua cultura própria,
que pesa sôbre a geração dos vivos. A sua aquisição da
aprendizagem e da educação é necessária, por isso a cultura
é uma herança social.
Divide-se geralmente a cultura em dois aspectos bási
cos: a cultwra Tnxiierial e a cvltura espinrUual.
A cultura material é a totalidade dos objetos, instru-
menms e equix>amentos materiais (ferramentas, edifícios,
as idéias S^Mina?^^' automóveis, etc.), que corporificam
totaliza as idéias, crenças, senti-
™®«taiç6es,
ciência, mcnica, manifestações valôres,
reliigiosas conhecimentos,
e artísticas de uma
A Cultura 17

Ambos os aspectos da cultura se integram no conceito


da cultural total, espiritual e material ao mesmo tempo.

2 — Caracteres fundamentais das culturas: transmis


são, acumulação, integração, aculturação, retardamem,to,
marginalidade, difusão, mudança.
As culturas nascem, se desenvolvem e progridem, por
vêzes se retardam e desaparecem, emprestam e difundem
seus elementos a outras sociedades ou ainda destas recebem
novos elementos espirituais e materiais.
O primeiro característico básico da cultura é a trans
missão. Toda sociedade tránsmite o seu patrimônio cultural
às novas gerações. Os ensinamentos são transmitidos de
geração a geração através da educação. É a herança cul
tural do grupo.
Segundo caracterísco da cultura é a acumulação. A nor
ma básica é a de que sempre crescem a soma de conheci
mentos e o patrimônio cultural e moral. Tal crescimento é
cumulativo, embora não seja uniforme e contínuo.
Terceiro elemento distintivo de cultura é a continvida^
de. As gerações do presente nunca perdem totalmente as
suas raízes com as gerações do passado. Há laços de conti
nuidade reais e duradouros entre as diversas gerações.
Quarto traço característico é a integração. Mediante
ela'os diversos elemeptos da cultura se harmonizam e se
articulam em uma totalidade orgânica e em uma unidade.
Quinta nota distintiva é o retardamento. Muitas vêzes
os diversos setores da cultura não crescem de maneira uni
forme, uns se atrasam em relação a outros, e daí o fenô
meno do retardamento cultural.
Outro traço distintivo é a acultura/Ção. O que significa
a aculturação? É a modificação de uma cultura através dos
contatos sociais diretos ou indiretos que ela tem com cultu
ras diferentes.
É de assinalar-se que pode ocorrer ainda o caso da
marginalidade das culturas, através de conflitos mentais
proporcionados pela posição da pessoa diante de duas cul
turas diferentes, como o caso dos judeus ou de sírios vivendo
em outro país que o seu de origem.
Chama-se por sua vez difusão cultural a extensão de um
elemento de uma^ cultura para outra, ou a propagação de
elementos culturais de uma sociedade para outra. Por exem-
18 Curso de Organização Social e Polítíca Brasileira

pio: a minissaia propagou-se da Inglaterra para o mundo


ocidental.
Enfim a mudança cultural é a substituição de traços,
complexos elementos e instituições da cultura, provocados
pela difusão ou pela invenção.
Tais são em suma as principais notas distintivas da
cultura.

QUESTIONÁRIO
1 — Que se entende por cultura?
2 — Quais os aspectos básicos da cultura?
3 — O que é cultura espiritual?
4 — O que é cultura material?
5 — Definir: Transmissão cultural, acumulação, continui
dade, integração, aculturação, retardamento, margina
lidade, difusão, mudança.

Capítulo VII

O DESENVOLVIMENTO NACIONAL
1 — A idéia do desenvolvimento
A idéia do desenvolvimento é hoje noção básica da po
lítica, da sociologia e da economia. É uma palavra mágica
que soa com entusiasmo na mente dos políticos e estadistas.
Com ela se estimulam as energias nacionais e se acalenta a
idéia do progresso.
Por vêzes se usam indistintamente as noções de desen
volvimento, crescimento econômico e progresso.
As Constituições do Brasil de 1967 e 1969 aludem repe
tidas vêzes ao desenvolvimento.
O que é o desenvolvimento?
O desenvolvimento significa a passagem de uma socie
dade agrária, baseada na produção de produtos agrícolas,
em uma sociedade^ industrial, com as mudanças sociais e
de mentalidade decorrentes de tal transformação.
Todas as nações atuais buscam o desenvolvimento, com
a sua meta principal que é a industrialização.
O papel relevante que a industrialização representa e
de tal significado que inclusive se formulou a seguinte
da sociologia e da economia, que é a lei de PETTY-CLARK-:
São ricos os países industriais, são pobres os países agrí
colas. I
o Desenvolvimento Nacional 19

Geralmente se dividem as nações, conforme o seu grau


de desenvolvimento, em três grupos: a) nações desenvol
vidas; b) nações em desenvolvimento; c) nações subdesen
volvidas.

2 — Os caracteres do desenvolvimento
Há determinados caracteres distintivos que permitem
diferenciar os países desenvolvidos e os países subdesen
volvidos. \\
Tais caracteres se chamam testes mi indicadores do
desenvolvimento. Os testes ou indicadores são primámos e
secicndÁrios. O principal indicador primário é o grau de
industrialização.
São em geral os seguintes caracceres dos países subde
senvolvidos: a) forte mortal.dade, sobretudo a mortalidade
infantil; b) vida média baixa da população, de 30 a 40 anos;
c) forte fecundidade da mulher, com ausência da limitação
de' filhos e visível explosão demográfica; d) alimentação
insuficiente, com um número de calorias inferior a 2.500
e alimentação fraca de proteínas; e) forte proporção de
analfabetos, acima de 50%; f) forte proporção de agricul
tores e pescadores; g) inferioridade social da mulher e ausên
cia de trabalho fora do. lar; h) trabalho de menores a co
meçar de 10 anos, ou mesmo antes; i) debilidade da classe
média; j) regime autoritário com ausência das instituições
democráticas; 1) insuficiente industrialização e tecnologia.
Dêstes indicadores a industrialização é o elemento deci
sivo, eis que a industrialização provoca a maior riqueza ou
renda absoluta nacional da comunidade.

8 — A riqueza das nações: o PNB e a renda per capita


A riqueza das nações se mede de um modo geral pelo
seu PNB ou produto nacional bruto, isto é, tudo que uma
nação produz durante um ano. Tal riqueza é hoje medida
em dólares, como a moeda* de liquidez internacional.
As nações mais ricas ou a,s grandes superpotências são
os Kstados Unidos e a URSS, áo lado das seguintes grandes
potências: Alemanha Ocidental, Reino Unido, França, Japão,
China, Itália, Canadá, índia.^
Eis o PNB das dez potências mundiais, isto é, dos 10
países de maior ^vulto, em 1965, bem como a renda p^r
capita, e em bilhões de dólares:
20 Curso de Organização Social e Política Brasileira

PNB PNB per capita


(1965) (1965)

1) Estados Unidos 692,3 3.5?7


2) UKSS 297 1.288
3) Alemanha Ocidental
(inclusive Berlim Ocidental).. 112,4 1.095
4) Reino-Unido 98,5 1.804
5) França 94,1 1.924
6) Japão 84 857
7) China 60 75
8) Itália 56,8 1.101
9) Canadá 48,3 2.464
10) índia 48,3 99

É interessante ainda assinalar a posição de 19 países


contendores que se colocam abaixo das grandes potências
mundiais, entre êles o Brasil:

' PNB PNB per capita


-
(1965) (19Ô5)

11) Polônia 30,3 962


12) Alemanha Oriental 1.574
13) Brasil 23 280
14) Austrália 22,9 2.009
15) Tchecoeslováquia 22 1.554
16) México 19,4 455
17) Suécia 19,3 2.497
18) Romênia 14,4 757
19) Argentina 11 492
20) Paquistão 10,5 91
21) Indonésia 99
22) África do Sul 9,26 503
23) África do Sudoeste 9,26 503
24) Nova Zelândia 5,1 1.392
25) Colômbia .. 5 277
26) RAU .. 166
27) Nigéria ... 83
28) Tailândia ij 126
29) Israel 1.334
30) Taiuã 221
o Brasil Como Potência Latino-Âmericana 21

Na atualidade, por estranho que pareça, tende a am


pliar-se a diferença de PNB e de renda per capita entre os
países desenvolvidos e os países subdesenvolvidos. Êste é
um dos aspectos mais graves da presente conjuntura inter
nacional.

A renda per capita é a renda anual de que dispõe cada


habitante de uma coletividade nacional, é a sua renda anual.
Como se obtém a renda pçr capitai Ela é o resultado
da divisão por habitante da renda nacional.
Suponhamos um país com 80 bilhões de dólares de renda
nacional (PNB) e com 40.000.000 de habitantes.
A sua renda per capita é a seguinte:
80.000.000.000
Renda per capita = — 2.000
40.000.000
Êste número de 2.000 dólares é a renda per capita
dos países em aprêço.

QUESTIONÁRIO
1 — O que significa a palavra desenvolvimento?
2 — Quais as Constituições do Brasil que falam de desen
volvimento?
3 — Como se classificam as nações quanto ao grau de de
senvolvimento?
4 — Quais os principais indicadores ou testes de desenvol
vimento?
5 — Que se entende por PNB?
6 — Que se entende por renda per capita?
7 — Quais as nações mais ricas do mundo em PNB?
8 — Qual o PNB do Brasil?
9 — Qual a renda per capita do Brasil?

Capítulo VIII

O BRASIL COMO POTÊNCIA LATINO-AMERICANA


1 A gra/ndeza do Brasil
O Brasil^ de certo modo ocupa uma posição privilegiada
no mundo e isto é um motivo de justo orgulho para os bra
sileiros. A herança moral, espiritual e material transmi-
22
Curso de Organização Social e Política BrasUeira
tida como um precioso legado pelos nossos antepassados,
pelo seu trabalho, seu amor à pátria, seu sangue, deve ser
entrepe intata e enriquecida às novas gerações de amanhã.
A posição do Brasil no ano 2000 será possivelmente
de uma po.encia mundial. O poder de uma nação deve ser
med do através de determinadas variáveis chaves que per
mitam aquilatar o seu grau de desenvolvimento, fôrça e
piesngio mundial. É possível então projetar determinadas
variaveis chaves na sociedade.
_ Tais variáveis compreendem principalmente a j^opnla^
pao, o produto nacioYial bruto (PNB), a alfabctização, as
fontes de energia, o poder militar.
PelR sua população, que é uma das maiores do mundo,
ocupa o^ Brasil uma posição de destaque. Em 1965, a sua
população atingiu 82.200.000 habitantes, com uma taxa de
crescimento anual de 3,1. No ano 2000 a população do Bra
sil deverá atingir 212.000.000 de habitantes.
O PNB do Brasil de 1965 foi de 23 bilhões de dólares,
o maior da América Latina, superior ao do México (19,4
bilhões) e da Argentina (11 bilhões de dólares), devendo
atingir uma média de 107 bilhões de dólares no ano 2000.
A renda per capita do Brasil em 1965 era de 280 dó
lares, devendo alcançar a média de 506 dólares por pessoa
no ano 2000.
Verifica-se por conseguinte que o Brasil é a maior po
tência latino-americana em população e renda nacional ab
soluta (PNB), como também o é em recursos naturais e
poder militar. Isto lhe concede invejável posição para a es
calada do poder mundial nas próximas gerações.
A juventude brasileira não deve descuidar-se do seu
desempenho com entusiasmo ao progresso e crescimento
ewnômico ou espiritual do País. Para assim libertar a na
ção de todas as servidões, tanto da servidão econômica como
da servidão da ignorância.

2 A dist/nbuição da renda
A riquéza da nação brasileira, como a de tôdas as na
ções, ^ acha dividida pelas classes e camadas sociais do
povo Ha mna Bir^ide da renda.
da renda tem sido feita
por diferentes pesquisadores.
i
o Brasil Como Potência Latino-Americana 23

Esta renda está assim distribuída em 1969, calculada


em 350 dólares por pessoa:

População Renda per Renda Total |


j
% da (1.000 capita (1.000.000
população habitantes) (dólares) (dólares)

50 45.000 130 5.850


40 36.000 250 12.600
9 8.100 880 7.128
1 90.000 6.500 5.850
100 350 31.428

O Estado contemporâneo, que é um Estado baseado no


bei7i-estar social, que os estudiosos inglêses e norte-ame
ricanos chamam de social loelfare State, procura sempre
um equilíbrio mais harmônico e justo na distribuição da
renda a fim de estabelecer a justiça social.

QUESTIONÁRIO-

1 — Quais são as variáveis chaves que permitem aquilatar


a grandeza de uma nação?
2 — Qual a posição do Brasil na América Latina?
3 — Qual o PNB do Brasil em 1965?
4 — Qual a renda per capita do Brasil em 1965?
5 — Qual a população do Brasil estimada em 1965?
6 — Que se entende por PNB?
7 — Que se entende por renda per capita?
8 — Como se obtém a renda per capita?
2.^ PARTE

A SOCIEDADE POLÍTICA

capítulo IX

o ESTADO

1 — A pcda/vra Estado
A palavra Estado é de origem italiana, surgiu na Re
nascença, para designar uma comunidade política, como por
exemplo o Estado de Florença. Antigamente se usavam as
expressões seguintes: polü entre os gregos e república en
tre os romanos.
O Estado é no fundo a sociedade politicamente orga
nizada.
No Brasil, a palavra Estado tanto se emprega para
designar o poder central, a União (o Estado brasileiro),
como os podêres locais, como o Estado de Pernambuco.

2 — O conceito de Estado
O Estado é sobretudo hoje em dia a sociedade ou a
nação politicamente organizada.
Êle é tão antigo quase como a própria humanidade.
Resulte da aglomeração de famílias e tribos, na necessidade
de fortalecer a unidade do grupo, de manter a ordem interna,
de assegurar a defesa externa contra os inimigos comuns,
de consolidar o patrimônio cultural e material da comuni
dade.
Como defini-lo?
Curso de Organização Social e Política Brasileira

O Estado é aquela sociedade em que se processa uma


deferenciação entre governantes e governados, e onde os
governantes detêm o monopólio de coação legal.
O Estado também pode ser definido como o agrupa
mento humano, fixado sôbre um território determinado e
dispondo de um comando central. Êste comando central é
geralmente soberano.

3 — Elementos constitutivos do Estado


O Estado pode ser visto como formado de três elementos
constitutivos: a) o povo; b) o território; c) o govêrno.
O povo é a totalidade de pessoas que habitam uma socie
dade, um determinado espaço geográfico. Distingue-se natu
ralmente do eleitorado, que é o conjunto de cidadãos que
dispõem do direito de voto.
O território é o espaço físico e o geográfico onde habita
a coletividade humana e sôbre o qual o Estado exerce o seu
poder de comando. É o território sôbre o qual o Estado tem
a sua soberania. i
Êste território abrange ainda o subsolo, a atmosfera
ou õ espaço aéreo correspondente ao território, a plataforma
continental e as águas territoriais. Antigamente as águas
territoriais iam até o alcance da bala de canhão.
Hoje as águas territoriais do Brasil, segundo recente
decisão do govêrno em 1970, alcançam até 200 milhas da
costa. Êste alcance do mar territorial é admitido por 9 países
latino-americanos, entre êles a Argentina, Uruguai, Peru e
Equador. Com isso se visa a defesa das riquezas marítimas,
a pesca, o petróleo, além da defesa do país.
O outro elemento do Estado é o govêrno, com o conjunto
de pessoas que dirigem o Estado. Êste govêrno exerce geral
mente o poder da soberania.

4 — A soberania
A palavra soberania vem do latim medieval superanus.
empregada no sentido moderno por
A Da Rejmblica (1576).
eSe 1.Í" ^ na sociedade
ha var.os poderes decisãoo em últimadeinstância.
do chefe família,
o do sindicato, o dos clubes fat^cU^s Tnaturalmente
necessário que exista um poder mX eSp!que é o poder
Formas ou Tipos de Estado 27

soberano ou o poder dotado de soberania, que decide os con


flitos.
A soberania divide-se em interna e externa ou inde
pendência.
A soberania é assim um poder superior aos demais
podêres.
QUESTIONÁRIO
1 — De onde se origina a palavra Estado?
2 — Como se define o Estado?
3 — Quais os elementos constitutivos do Estado?
4 Qual o alcance das águas ou do mar territorial?
5 — Que se entende por soberania?
6 — O que é o território do Estado?

Capítulo X

FORMAS OU TIPOS DE ESTADO

1 Os tipos de Estado
O Estado se divide em dois grandes tipos: o Estado
simples e o Estado composto^
O Estado simples é aquele que não se divide em partes
internas que merecem o nome de Estado. Exemplos: a Fran
ça atual é um Estado unitário ou simples constituído por
90 departamentos; o Brasil durante o Império (1822-1889)
com as suas províncias descentralizadas.
O Estado composto é aquêle que se divide em partes
internas que merecem o nome de Estado.
Entre as principais formas de Estado composto se men
cionam as seguintes: a União pessoal, a União real, a União
incorporada, a Confederação de Estados e o Estado federal.
Só a última dessas formas, a saber o Estado federal, tem
hoje importância histórica.
Na União pessoal um soberano governa dois Estados
enquanto vive ou durante um certo tempo.
Na União real dois Estados soberanos se reúnem sob
o domínio de um só soberano em caráter definitivo.
Na União incorporada dois ou mais Estados se fundem,
mas conservam o direito de secessão.
Na Confederação de Estados, cada Estado associado
conserva a sua soberania.
Curso de Organização Social e Política Brasileira

2 — O Estado federal
O Estado federal se originou das condições atuais de
países com uma grande extensão territorial, com diversidade
de interêsses regionais e nos quais se procurou unir em
síntese política proveitosa a unidade nacional diante da
pluralidade dos interêsses regionais.
O Estado federal é aquêle tipo de Estado composLo
formado com duas ordens de competências ou dois governos
(o govêrno central e os governos estaduais), no qual o go-
vêmo central dispõe da sobedoria e os governos estaduais
dispõem de um poder limitado de organização política e
constitucional.
O Estado federal pode originar-se de duas maneiras:
a) pelo^ tratado, quando diversos Estados soberanos
renunciam à sua soberania, transferida à União que se
fomia, como nos Estados Unidos em 1787; h) por um
movimento nacional, quando as antigas províncias do Estado
unitário se transformam em Estados membros da federação,
como no Brasil em 1891.
São exemplos de Estado federal hoje em dia, entre
outros: os Estados Unidos, Brasil, Argentina, México, Aus
trália, URSS, Canadá, índia, etc.

3 — O Federalismo Brasileiro
O Brasil constitui uma repúbhca federativa desde 1891
até a presente data, com a sua última Constituição que é
a de 1969.
Entre os principais elementos que caracterizam o fe
deralismo brasileiro se mencionam os seguintes:
a) a existência da União ou do poder central dotado de
soberania e com uma constituição; b) a existência dos
Estados-membros da federação, dotados de autonomia cons
titucional de acôrdo com os princípios da Constituição fe-
deral e com autonomia política local com os seus três podêres
(legislat^o, ex^çutivo, judiciário); c) a descentralização ad-
Estadc»- ®a direito
fim deobrigá-los
intervenção da União
a cumprir nos
os seus
Estados-membros de ' agüêèm
<lWdonapreciso;
esfera legislativa e admi-
e) a proibição dos
Mtrativa pr^^ com desrespeito,às leis como à Cons
tituição Federal, /) a existência djb Supremo Tribunal
0 Povo

Federal, como órgão supremo do Poder Judiciário, encar


regado de velar pela defesa do regime constitucional.
questionário
1 — Como se classificam os Estados?
2 — Que se entende por Estado simples?
3 — Que se entende por Estado composto?
4 Quais as principais formas do Estado composto.
5 — o que é Estado federai? , ^
6 Mencionar os principais caracteres do Estado teaerai
brasileiro.

Capítulo XI

O POVO

1 o sentido da palavra povo


A palavra povo vem do latim poptdus. Ela é usada em
vários sentidos, como multidão, massa, plebe, população,
conjunto de cidadãos, nação, país. Estado. Muitas dessas
significações permanecem no vocabulário atual da língua^
Podem-se atualmente distinguir as seguintes acepções
da palavra povo, além daquelas há pouco mencionadas:
u) a significação natural (ia palavra povo, como o conjunto
de pessoas que vivem em lugar de pequena dimensão (aldeia,
vila, engenho, fazenda, montanha, beira de rio), ou ainda
como multidão, massa, turba ou afinal como a parte humilde,
pobre e desfavorecida de uma sociedade; b) no sentido res
tritamente político, contudo, o povo é a própria populaç^,
o próprio elemento humano constitutivo e integrante do
Estado.

2 — Povo, riação e Estado


O povo é o elemento humano ou a população do Estado.
Nem todo povo forma uma nação, a nação assim é um con
ceito diferente de povo'.'
A nação é o povo constituído por uma certa comunhão
de origem, de língua, de tradições, de sentimentos comuns,
com um patrimônio moral e espiritual, idêntico, entrelaçado
pela amizade cívica, animado pelo ideal da grandeza e pros
peridade do país.
30 Curso de Organização Social e Política IJrasileira

O Estado é a nação politicamente organizada. "En


quanto o Estado — diz DELOS — organiza uma ordem
jurídica exterior e legal, a Nação afeta o homem no seu
mais íntimo recesso e marca-o com o seu gênio nacional".
A nação nem sempre coincide com o povo ou com o
Estado.
Há nações sem Estado, como acontece com os ciganos,
e acontecia antigamente com os judeus, que só no século XX
fundaram o seu Estado, o Estado de Israel.
( Há povos com várias nações, como a Iugoslávia, formada
de sérvios, croatas e eslovenos, os Estados formados por
múltiplas nações, como a URSS, constituída de cêrca de
40 nações.
Muitas vêzes uma nação pode ser partilhada por di
versos Estados, como a Polônia dividida pela Rússia, Áustria
e Prússia.

3 — A Pátria
Quando a nação possui durante largo tempo um terri
tório próprio e goza de independência e unidade, conser
vando a sua. personalidade moral através dos séculos, ela
se organiza,como uma só pátria.
A palavra pátria significava a princípio a terra dos
antepassados {terra patrum), o território habitado por
nossos antepassados.
A idéia de pátria é complexa e envolve múltiplos senti
mentos, a saber: a) a idéia do território comum e da soli
dariedade humana entre os seus habitantes; 6) a vinculação
afetiva e cívica entre os habitantes do presente e as raízes
de tal sentimento projetadas no passado; c) o elemento
material e humano formado pelo território e pelos habi
tantes, é o Qorpo da na^;d) a stia alma, isto é, a unidade
de crenças, moral, idéias, sentimentos da religião, língua,
costumes, aspirações, tudo entrelaçado numa síntese orgâ
nica comum.
A pátria é, assim, uma verdadeira pessoa moral.
4 — O patriotismo
O ® o amor à pátria, o devotamento à sua
pandeza, o culto dos antepassados, o enleio telúrico pela
beleza e fascínio do mundo onde se iasceu
•X- ^ sempre um ideai de engrandecimento
nifica o amor à pátria, que sig
comuni-
0 Poder Político 31

Mas O amor à pátria não se opõe ao amor à humanidade.


"Um amor que nada admite superior à Pátria — es
clarece DE HOVRE — desampara o homem e acaba por
desamparar a Pátria". Daí afirmar CHESTERTON que
patriotismo degenera em vício quando transformado em
virtude suprema.

QUESTIONÁRIO
1 — Que se entende por povo?
2 — O que é uma nação? \
3 — Qual a diferença entre povo e nação?
4 — Que se entende por pátria?
5 — o que significa o patriotismo?

CAPÍTULO XII

O PODER POLÍTICO

1 o poder politioo e a soberania


O poder é a capacidade de impor a vontade própria na
vida social, mesmo contra a resistência de vontades alheias.
O poder é um elemento constitutivo do Estado, for
mando a sua autoridade. A autoridade jiolítica é o próprio
poder revestido de um conteúdo moral e legal.
A autoridade política do Estado é soberana, sendo assim
a soberania a autoridade suprema do Estado.
Admite-se que só há Estado quando há soberania.

2 — lÁmites (ho poder do Estado


A autoridade do Estado é soberana, mas a soberania
não significa absolutismo. O poder do Estado é soberano,
mas não é absoluto.
Assim sendo o poder sofre limitações, e estas limitações
são de natureza externa e natureza interna.
As limitações externas à soberania provêm da própria
convivência com outros países do mundo, expressas em tra
tados, convenções, pactos, acordos, etc.
As limitações internas ao poder do Estado são, entre
outras, as seguintes: a) a constituição como lei fundamental
do Estado; b) os costumes; c) os princípios de justiça e
32 Curso de Organização Social e Política Brasileira

direito natural respeitando a dignidade da pessoa humana;


d) os direitos do cidadão e dos demais grupos sociais; e) as
leis morais, para que o Estado se apresente como um padrão
de dignidade.

3 — As fontes do poder pelitioo


O poder político implica na autoridade de mandar, de
impor obediência e por conseguinte de ser realmente obe
decido.
A autoridade exerce um comando e êste deve receber
respeito e obediência, o cidadão sendo obrigado a cumprir
e respeitar os comandos legais.
Mas é preciso encontrar uma base moral e um funda
mento ético para o dever de obediência, do contrário êste
tende a descumprir os preceitos do Estado, por reputá-los
injustos.
Por isso mesmo, os filósofos e o homem comum do povo
sempre se preocuparam com as razões e os motivos da sua
obediência.
Os filósofos deram resposta a tais perguntas, como
PLATÃO, ARISTÓTELES, MAQUIAVEL, LOCKE, ROUS-
SEAU, MONTESQUIEU, HEGEL, KANT, entre inúmeros
outros.
Responde-se então a estas perguntas: A qu&m pertence
o poder e como êle nasce?
São as seguintes as respostas: a) o poder nasce de Deus
e pertence a Deus, é a fórmula das teocracias; b) o poder
pertence ao rei e nasce com o rei, é a fórmula da monarquia
absoluta expressa por LUÍS XIV: "O Estado sou eu";
c) o poder pertence a uma classe e nasce com uma classe,
é fórmula das aristocracias e das oligarquias; d) o poder
pertence ao próprio Estado e nasce com o Estado, é a fór
mula das ditaduras totalitárias; e) o poder nasce com o
povo e pertence ao povo, é a fórmula da democracia.

^ ^ po-üo corno fonte do poder político e suo^ cori-


quistos
tos 11

® povo é a fonte do poder políti^*


A Francesa de 1789, da Revolução No^
de 1688.
® Revolução Párlamentarista inglesa
o Poder Político 33

O poder político repousa na vontade da maioria, do


eleitorado que governa por intermédio dos seus. representan
tes (presidente, governadores, Congresso Nacional, etc.).
Mas a ascensão do povo para a conquista dos seus
direitos foi lenta. Os reis se sentiram os únicos donos do
poder, era a sob&rania do rei.
Com o ciclo das grandes revoluções ocidentais (Ingla
terra, Estados Unidos, França), o povo conquistou os seus
principais direitos civis privados (liberdade de consciência,
de religião, de expressão do pensamento, etc.) ou os seus
direitos políticos (direito de voto, de representação, de for
mação de partidos, etc.) y
Mais tarde conseguiu o povo conquistar outros direitos
de natureza social e econômica, como o salário-mínimo, a
estabilidade, o fundo de garantia, o auxílio à gestante, o
seguro social, completando a sua evolução na conquista do
poder político.
5 A separação de podêres
O poder político se encontra hoje em dia dividido em
três grandes ramos: o Poder Legislativo, o Poder Executivo
e o Poder Judiciário.
É a teoria da separação de podêres que foi formulada
por JOÃO LOCKE na Inglaterra e por MONTESQUIEU
na França, êste último no seu livro Do Espírito das Leis,
publicado em 1748.
A teoria da separação rígida dos três podêres foi pela
primeira vez concretizada na Constituição norte-americana
de 1787.
Para que se separam os podêres? Para limitá-los e
contê-los, num sistema de freios e contrapesos. "Para evitar
0 despotismo" — dizia MONTESQUIEU — "é preciso que o
poder detenha o poder".
O Poder Legislativo é o poder que elabora, revoga, altera
e emenda a lei.
O Poder Executivo é o poder que administra a coisa
pública. , ,.
O Poder Judiciário e o.poder que aplica as leis.
É esta a separação tripartida do poder.

QUESTIONÁRIO
1 o que significa o poder?
2 Que se entende por autoridade política?
36 Curso de Organização Social e Política Brasileira

Mais tarde São Tomás de Aquino chama as formas


puras de governos legítimos e as formas impuras de governos
ilegítimos em seu livro Do Regime dos Príncipes.
Outro pensador político italiano da Renascença, Ma-
QUIAVEL, publicou um ensaio intitulado O Príncipe, onde
apenas menciona uma classificação dualista, a saber, a mo-
vnarquia e a república.
Uma classificação moderna pode catalogar as seguintes
formas de govêrno: a) monarquia; b) aristocracia; c) dita
dura, d) democracia.

3 — Conceitos de monarquia, aiistocracia, ditadura e


Democracia

A monarquia é o govêrno de uma só pessoa, na sua


acepção histórica inicial, mas hoje em dia outros órgãos se
associam junto ao monarca, às vêzes preponderantemente.
A monarquia pode ser: a) absoluta, quando o rei exerce
o poder de uma forma ilimitada; b) constitucional quando
o monarca está submetido a uma lei fundamental ou cons
tituição, que disciplina a sua vontade; c) parlamentar,
quando o monarca governa por intermédio do parlamento,
eleito pelo povo em eleições periódicas, e que designa um
ministério ou gabinete, que tem a missão de governar.
A aristocracia é o govêrno de uma classe privilegiada.
É o que ocorreu na velha Grécia, em Roma, Cartago e nas
cidades da Idade Média, com a república dos doges em Ve
neza, Gênova, Florença, etc.
A ditadura é a concentração dos podêres do Estado em
um só órgão, é a hipertrofia do poder executivo. Há dois
tipos principais de ditaduras: as ditaduras de direita (Por
tugal, Espanha, a Alemanha de Hitler, a Itália de Musso-
lini) e as ditaduras de esquerda ou ditadura do prole
tariado (União Soviética, desde 1917, China marxista desde
1949, Cuba, etc.).
Já a democh^acia é o govêrno constitucional do povo, é
a forma de govêrno predominante no Ocidente europeu e no
mundo norte-americano (França, Itália, Alemanha Ociden
tal, Estados Unidos, etc.).
questionário
1 — Que se entende por govêrào?
2 — Que se entende por governar?
37
A Democracia

3 _ Como se classificam as formas de governo?


4 — o que é monarquia?
5 — o que é aristocracia?
6 — O que é ditadura?
7 — O que é democracia?

Capítulo XV

Á DEMOCRACIA

1 — o conceito da democracia .
A democracia é um ideal acalentado pelo espírito hu
mano que se realiza lentamente na história. É de essência
evangélica e repousa num sentimento, que é o respeito à
eminente dignidade do homem.
Etimològicamente, a palavra deriva do grego demos
ou povo e cratein governar. É o govêrno do povo.
Lincoln afirmou: a democracia é o govêrno do povo
pelo povo e para o povo. É uma definição famosa do regime.
Nas democracias o povo ou o corpo eleitoral, formado
pelos cidadãos adultos com o direito de voto, elege periodi
camente os principais agentes.do govêrno, do legislativo e
do executivo, escolhidos livremente e sem coação como os
seus principais representantes.
A democracia existiu imperfeitamente no mundo antigo
(grego e romano), mas adquiriu plenitude no mundo mo
derno, onde se opõe às místicas do totalitarismo.
2 — Tipos de democracia
A democracia se apresentou na história com três tipos
mais importantes: a) democracia direta; b) democracia re
presentativa; c) democracia mista.
A democracia direta realiza-se na antiga Grécia, quando
o povo se reunia na praça pública ou ágora e decidia os seus
problemas. Hoje ainda existe na Suíça. Teve existência his
tórica em comunidades pouco numerosas, como em Atenas,
com o seu corpo de cidadãos de apenas 10.000 pessoas.
A democracia representativa é aquela em que o eleito
rado escolhe os agentes do poder executivo e do legislativo,
os quais, em seu nome, exercerão as funções do govêrno.
É a modalidade da democracia contemporânea (Estados Uni
dos, Alemanha Ocidental, França, Itália, etc.).
38 Curso de Organização Social e Política Brasileira

A democracia mista é uma combinação da precedente:


0 povo gnverna por intermédio dos representantes, mas con
serva uma maior vigilância e fiscalização sôbre êles por
intermédio de alguns instrumentos de ação.
Quais são tais expedientes de controle do povo sôbre
os governantes?
São os seguintes: o recall, ou iniciativa popular, o refe-
rendum e o plebiscito.
O recall ou direito de revogação é o poder que tem o
eleitorado de destituir ou revogar os mandatos dos legisla
dores e chefes do executivo, principalmente dos primeiros.
Funciona nos Estados Unidos, Suíça, Áustria, etc.
A midativa popular é o poder conferido ao eleitorado
de propor projetos de lei, poder que só é próprio normal
mente do legislativo ou mais raramente do Executivo na
chamada democracia representativa.
O refer&ndum é a decisão popular sôbre uma medida
legislativa. Difere do plesbicito, que é uma votação popular
sôbre uma medida ou um ato do executivo.

QUESTIONÁRIO
1 — Que se entende por democracia?
2 — Quais os principais tipos de democracia? Como defi
ni-los?
3 — O que é direito de revogação?
4 — O que é iniciativa popular?
5 Como distinguir o referendum e o plebiscito^

Capítulo XVI

PARLAMENTARISMO E PRESIDENCIALISMO

1 — Noção do pmlÁJt/m^twrisrm
O parlamentarismo nasceu na Inglaterra por volta do
ano de 1688, com o seu BiR of Rights, ou Declaração dos
Direitos. Substituiu o governo absoluto por uma modali
dade de govêmo constitucional mais legitimamente fundado
nas aspirações populares.
A Inglatewa^ é assim a mãe ou a terra madre do par
lamentarismo, hojé adotado na França^ Itália, Alemanha Oci-
Parlamentalismo e Presidencialismo 39

dental, Suécia, Noruega, Bélgica, Holanda, Canadá, índia


e inúmeros outros países.
No parlamentarismo o govêrno é formado por uma co
missão ou gabinete — daí o nome govêrno de gabinete —
eleitos pela maioria parlamentar existente no Parlamento e
também revocável pela vontade desta mesma maioria par
lamentar.
No parlamentarismo há uma dualidade do poder exe
cutivo: a) o chefe de Estado, que é o monarca ou o Presi
dente da República; b) o chefe de govêrno, que é o Primei-
ro-Ministro.
Há monarquias parlamentares como a tradicional Ingla
terra e também repúblicas parlámentares (França, Itália,
Alemanha Ocidental).

2 — Ntoção do presidencialismo
O presidencialismo nasceu com o regime constitucional
norte-americano, mais exatamente com a sua Constituição
de 1787.
O govêrno presidencial é aquêle em que o Presidente da
República, como a figura mais importante no regime, de
cide com independência a política nacional, não podendo ser
destituído pela ação da maioria congressual.
No presidencialismo há uma unidade do poder executivo,
eis que o Presidente da República é simultâneamente chefe
de Estado e chefe de govêrno.
Originário dos Estados Unidos no século XVIII, o
presidencialismo se expandiu na América Latina e foi ado
tado pelo México, Argentina, Colômbia, Venezuela, etc., bem
como pelo Brasil desde a sua Constituição republicana de
24 de fevereiro de 1891.

QUESTIONÁRIO

Que se entende por parlamentarismo?


2 Quando surgiu na história política?
3 — Existe unidade ou dualidade de poder executivo no
regime parlamentar?
5 — Qual o país que primeiro adotou o presidencialismo?
Q — Quando o Brasil adotou o presidencialismo? Em que
constituição?
Capítulo XVII

OS PARTIDOS POLÍTICOS

1 — As divergências de opinião
Os homens têm na sociedade diversas opiniões a respeito
dos mais diversos assuntos; religião, economia, casamento,
divórcio, política, etc. Há o diálogo das opiniões. No regime
democrático, cada um tem o direito de expressar livremente
a sua opinião, e a liberdade de cada um termina onde começa
a liberdade alheia.
Assim pode-se pensar que o Estado deve fazer uma re
forma agrária, ou se achar que não há necessidade de tal
reforma; pode-se ser favorável ou contrário ao divórcio;
pode-se admitir ou não o voto das mulheres e dos analfa
betos. São opiniões diversas que se legitimam no regime
democrático. A democracia permite que tais opiniões se re
velem püblicamente, aceitando a decisão da opinião pública
expressa pelo voto.
Daí dizer Laski que o verdadèiro democrata deve admi
tir que a opinião do adversário pode ser correta eventual
mente e deve ser tolerante com a opinião dos demais.

2 — A opinião pública
A opinião pública é a opinião geral do povo ou a opinião
da vontade geral da comunidade. ROüSSEAU a chamou a von
tade de todos, que é sempre a vontade da maioria.
A opinião pública não é una e indivisa: há a opinião
da maioria e a opinião das minorias discordantes. Há assim
várias correntes de opinião pública. A opinião da maioria
é a opinião prevalecente nas democracias.
^ Ela se expressa de diversas maneiras, pelo rádio, tele
visão, livros, revistas, jornais, periódicos, mas tem nas de-
niocracias um órgão específico que a revela, que são os par
tidos políticos.

3 Os Partidos Políticos
.1
cidadaos partidos políticos da
para d exereício sãoação
associações
política. permanentes de
J-
diversos Pajses ade ®personalidade
grupos sociais dotados
jurídica de atualmente, em
direito público,
como no Jorasil. •' ^
Os Partidos Políticos

Os partidos políticos são assim grupos de pessoas que


têm a mesma opinião sôbre os problemas de organização da
sociedade e de Estado, que se associam para a conquista do
poder político propondo-se a realizar um determinado pro
grama.
O Estado democrático é um Estado que consagra a plu
ralidade de partidos políticos. É assim chamado de Estado
pluripartidá^.
Tal pluralidade de partidos permite por conseguinte que
os cidadãos se agrupem de acôrdo com as suas convicções
e opiniões em grandes arregimentações partidárias. Esta di
versidade de partidos permite assim conseqüentemente a
diversidade de manifestação de pontos de vista e de con
vicções.
Já as ditaduras são geralmente Estados de um só par
tido. Chama-se tal tipo de Estado unipartidáHo. Prevalece
só uma opinião e uma crença política dominante. A União
Soviética admite só um partido único, assim também acon
teceu com a Alemanha na época do nacional-socialismo
(Hitler) e na Itália (com Mussolini). Formaram-se os
partidos únicos, o Partido Comunista na URSS, o partido
nazista, na Alemanha e o partido fascista na Itália.
Quais as vantagens, do Estado pluripartidário? Elas
são as seguintes: a) asseguram a expressão de liberdade
política e privada do cidadão; b) permitem o rodízio do
poder, isto é, um partido majoritário pode tornar-se mino
ritário ou vice-versa; c) tal alternância é útil ao progresso
e alivia as tensões sociais.

4 — o direito de voto

As democracias se baseiam no corpo eleitoral, de cida


dãos que dispõem do poder de voto e elegibilidade (direito
de ser votado).
O voto é pessoal, pois ninguém pode votar por procura
ção, é igual, pois a cada cidadão corresponde um voto, é
secn-eto pois se vota em segredo em cabine indevassável e
é livre ou isento de pressões externas.
No Brasil o problema de voto das eleições e dos par
tidos é regulado, além dos dispositivos existentes na Consti
tuição de 1969, por três diplomas legislativos: o Código
Eleitoral (1965), a Lei Orgâniéa dos Partidos Políticos
(1971) e a Lei das Inegihilidades (1970).
42 Curso de Organização Social e Politíca Brasileira

1 — O que significa a opinião pública?


2 — Que se entende por partido político?
3 — A democracia é um Estado-de-partidos?
4 — Qual a distinção entre Estado unipartidário e Estado
pluripartidário?
5 — Enuncie as vantagens e conveniências do Estado pluri
partidário.
6 — Quais os caracteres do voto?
3.® PARTE

AS NORMAS E A ORDEM JURÍDICA


DA SOCIEDADE POLÍTICA

Capítulo XVIII

AS CONSTITUIÇÕES

1 — A palavra constituição
A palavra constituição procede do grego politéia e já
era empregada por Aristóteles. Mais tarde os romanos
usavam a expressão rempublidam comUtuere, organizar ou
constituir a República, de onde se originou o têrmo consti-
tutio e depois a palavra constituição.
A palavra constituição é usada num sentido amplo e
num sentido restrito.
No sentido amplo a constituição é a própria ordem que
regula o Estado, o conjunto de elementos (regras jurídicas,
costumes, documentos sobre o Estado e o governo). Todos
os Estados têm assim uma constituição.
No sentido restrito a constituição é o conjunto de nor
mas que: anunciam os órgãos do poder público; determinam
a sua competência e atribuições; declaram o regime político
e a forma de govêrno; fixam o sistema tributário nacional;
proclamam os^ direitos do homem e^ as garantias constitucio-
mais; determinam a ordem econômica, social e cultural;
estabelecem o sistema de desenvolvimento e de segurança
nacional.
44 Curso de Organização Social e Política Brasileira

2 — Definições sôbre a constituição


Inúmeras são as definições dadas sôbre a constituição.
Vejamos algumas:
Orban: "É a lei fundamental do Estado, anterior e
superior a. todas as outras leis".
CoOLEY: "É o corpo de regras e máximas de acôrdo
com as quais os podêres da soberania são habilidosamente
exercidos".
p. Ferreira: "é a super-lei fundamental do Estado".
As constituições se colocam numa estrutura escalonada,
hierárquica, acima das demais leis. As leis não podem con
trariar o espírito e a letra das constituições.
Os povos devem cultivar o culto da constituição e das
leis. Êsse culto enobrece os países e lhes revigora o senso
moral, é útil ao seu desenvolvimento.
Alguns conceitos são mencionados a respeito:
MONTESQUIEU: "A menor mudança numa constituição
destrói-lhe os princípios c causa-lhe a ruína".
Bentham: "A melhor constituição para um povo é
aquela à qual está acostumado".
Erasmo: "Nunca se troca a constituição de um povo
sem perturbações".
TÁCITO: "Desgraçada a República de muitas leis".
HORÁCIO: "De que valem as leis sem os costumes? Resul
tarão vãs".

3 — Tipos de Constituição
As constituições podem ser classificadas em diversos
tipos. As formas naais importantes de constituição são as
seguintes: a) constituições escritas e costumeiras; b) cons
tituições rígidas e flexíveis; c) constituições votadas e ou
torgadas.
A constituição escrita consta de documentos formais e
solenes, consignada em fôlhas de papel, estabelecendo de
modo claro a ox*ganização do Estado. Como exemplos de
constituição escrita, podem ser citadas a Constituição dos
Esta(ms Unidos de 1789, a da França de 1958, a do Brasil
de 1969, entre pptras.
A con^ituição costumeira era predominante até o fim
do século compondo-se de costumes, usos, praxes,
documentos escritos isolados. O seu exemplo atual é a Cons
tituição da Inglaterra. I ^
As Constituições

A constituição flexível é a que pode ser alterada pelo


Congresso ou pelo Parlamento por uma maioria absoluta ou
simples. ..
A constituição rígida exige solenidades especiais e uma
tramitação mais demorada de reforma. Ou se prescreve uma
maioria qualificada, ou um referendum constitucional com
a publicação da lei magna por uma aprovação do povo nas
urnas eleitorais, por um referendum constitucional.
As constituições ainda podem ser votadas ou outorga
das. No 1.° caso são elas elaboradas por assembléia cons
tituinte ou parlamentos investidos de tal atribuição. No 2.
caso são promulgadas e concedidás pelo soberano, pelo dita
dor, pelo chefe de govêrno provisório.
As constituições do Brasil de 1821 e 1937 foram outoi-
gadas; as de 1891, 1934 e 1946, foram votadas e promulga
das por assembléia constituinte; a de 1967 voi votada. Pro
mulgada e decretada pelo Congresso, investido de poder
constituinte pelo Ato Institucional n.° 4 de 1966.
4 o Poder Gonstituinte
O poder constituinte é o poder de elaborar ou de revisar
uma constituição. São assim duas as funções principais do
poder constituinte: 1) ela^opr ou criar originàriamente
uma constituição; 2) reformá-la.
A teoria do poder constituinte foi elaborada por Sieyes,
durante a revolução francesa. Êle distinguia o poder cons
tituinte ou Vútestas constitueris e o poder constituído ou
potestas cmistüuta. Êsse último se desdobra em três ramos:
Legislativo, Executivo, Judiciário.
Já uma Assembléia Constituinte é a assembléia ou
corpo representativo, eleito pelo povo, e encarregado de ela
borar ou revisar a lei magna de um país.
QUESTIONÁRIO
^ j)e onde vem a palavra constituição?
2— Qual.o sentido amplo, das constituições?
3 Qual K) sentido usual e moderno da Constituição?
4 Defirar uma constituição,
5 Como se classificam as constituições?
Q Que países têm constituições escritas?
7 Mencione um país com constituição costumeira.
8 Que se entende por poder constituinte?
Capítulo XIX

A LEI

1 — O conceito do direito

O direito é o conjunto de condições existenciais e evo-


lucionais da sociedade asseguradas coativamente pelo poder
público. É a definição de Tobias Barreto.
É própria do direito a idéia de coação ou de sanção.
A coerção é a possibilidade de uma sanção contra o agente
que viola a lei. As normas jurídicas são assim dotadas de
um caráter de coercibilidade.
Nisto o direito se distingue de moral, que é sancionada
pela opinião pública.

2 — A Lei

Lei é a norma de conduta emanada do poder público


competente a fim de reger as relações sociais de uma de
terminada comunidade. É a norma de conduta emanada do
poder competente para legislar.
Clóvis Beviláqua define: "É a ordem, ou a regra geral
obrigatória que, emanada de uma autoridade competente e
reconhecida, é imposta coativamente à obediência de todos".
No Brasil pela Constituição de 1969, a competência para
elaborar as leis, pertence principalmente ao Poder Legisla
tivo com a colaboração do Poder Executivo.
O poder legislativo é exercido no plano federal pelo
Congresso Nacional, no plano estadual pelas Assembléias
Legislativas dos Estados membros da federação, e no âmbito
local pelas Câmaras Municipais. Surgem então as leis fede
rais, as leis estadvxiis e as leis municipais.

3 — O processo legislativo
1 acordo com a Constituição Brasileira de 1969, na
e aooraçâo das leis federais, há atos de exclusiva compe-
ncia do Congresso, Nacional, atos de competência exclu-
ava do Presidente da República.
Ao Congresso Nacfpnal compete a elaboração de:
i — emendas à Constituição ou leis que alteram ou modi-
Lcani as antigas constituições; II — Uis oomplementa/res da
Constituição ou leis que completam os predeitos do Código
A Lei 47

niagno; III — leis ordinárias, estabelecendo e formulando


normas sôbre assuntos que não sejam do conteúdo do Código
Magno; IV — resoluções legislativas; V — decretos legis
lativos.
Já ao presidente da República compete: I — a elabo
ração de emendas à CoTistituição; II — a elaboração de leis
delegadas, ou seja, leis que procedem de resoluções do Con
gresso Nacional outorgando ao Presidente podêres para le
gislar; III — a iniciativa de determinadas leis, como as leis
sôbre matéria financeira; IV — a expedição de deoretos-
leís ou decretos com fôrça de lei nos casos de urgência e
de interêsse público rate^nte e desde que não provoquem
aumento de despesa e^brqpgurança nacional, finanças pú
blicas, incluindo normas fnliutárias, criação de cargos pú
blicos e fixação de vencimentos.
O Congresso Nacional poderá aprovar ou rejeitar os
decretos-leis no prazo de 60 dias, mas findo tal.prazo, nada
deliberando, serão tidos como aprovados.

4 — A elaboração da lei
A elaboração das leis começa com a apresentação de
projetos de lei ao Congresso Nacional que pode ser efetivada
pelos Senadores, Deputados Federais e pelo Presidente da Re
pública.
O projeto, depois de aprovado por uma das Câmaras,
é em seguida apreciado e votado pela Câmara revisora.
Quando a Câmara revisora aprova o projeto, êle é en
caminhado a sanção ou promulgação.
Se porém a Câmara revisora o emendar, será o projeto
de lei devolvido à Câmara iniciadora para novamente apre
ciá-lo. Em caso de rejeição será arquivado.
No Brasil há um regime bicameral, isto é, as duas câma
ras colaboram na feitura da lei. Contudo em outros países,
em vez de bicameralismo, há unicameralismo, como na
Tchecoslováquia, em que o Parlamento nacional se compõe
de uma só câmara, a única que assim elabora a lei.
5 — Sanção e promulgação das leis

A sanção é ato pelo qual o Presidente da República


aprova o projeto lei votado pelo Congresso.
A promulgação é o ato pelo qual o Presidente da Repú
blica dá fôrça obrigatória à lei, apondo a sua assinatura no
48 Curso de Organização Social e Política Brasileira

diploma legislativo e mandando publicá-lo na imprensa


oficial.
Se a lei não for promulgada pelo Presidente da Repú
blica, no prazo legal, fa-lo-á o Presidente do Senado e se
êste não o fizer no prazo prev.sto será a lei promulgada
pelo Vice-Presidente do Senado.
Há leis que exigem a sanção do Presidente, outras que
apenas exigem a promulgação sem a sanção.
Uma vez publicada a lei, ela se torna conhecida dos
cidadãos e tem força obrigatória. Ninguém se excusa da
ignorância da lei, não podendo alegar que da mesma não
tem conhecimento ou notícia.

6 — 0 V€to

O Presidente da República pode opor-se ao projeto de


lei do Congresso e VQtá-lo.
O v^o é por conseguinte a negação do Presidente da
República a aprovar um projeto de lei. Em caso de vfto,
contudo a palavra final compete ao Congresso.
Então o Presidente encaminha ao Congresso o projeto
vôtado, justificando as suas razões, mas o Congresso em
reunião conjunta da Câmara dos Deputados e do Senado
pode opor-se ao veto mediante o voto da maioria de 2/3
dos seus membros.
O voto é uma instituição que procede do direito público
romano, da velha Roma e significa em latim: opo-nívo-me.

7 — O Decreto

O decreto é qualquer ato do poder executivo no exercício


das suas atribuições legais e que contém um comando ou uma
determinação.
Os decretos pode ser: I — gei-ais ou regidamentaives,
estabelecendo as condições e a maneira como a lei deve ser
cumprida e executada, são os regulamentos administrativos;
II — especiais ou individuais quando relativos a situações
jurídicas particulares, individuais, medidas de natureza P""
rarnente administrativa (decretos de nomeação, de trans
ferência de funcionários, decretos de demissões, condeco
rações, etc.).
O decreto não pode ser elaborado violando a lei. Esta
tem uma hierarquia jurídica superior ao decreto.
A Lei 49

QUESTIONÁRIO
1 — Como se define o direito?
2 — Que se entende por lei? \
3 — Quais as leis existentes no Brasil além da lei federal?
4 — A que órgãos compete elaborar a lei federal?
5 — Quais as fases de elaboração das leis?
6 — Qual a distinção entre sanção e promulgação?
7 — Qual a distinção entre sanção e veto?
8 — Quando uma lei entrá em vigor?
9 — Pode o Congresso conttapor-se ao veto presidencial?
Como?
10 — Que é lei delegada?
11 — Que se entende por decreto?
4.a PARTE

A ORGANIZAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL


CAPÍTULO XX

OS CICLOS DA ECONOMIA NACIONAL

I A ev<oluçcbo da ecanomia Irasüeira


Era Portugal no início da colonização brasileira uma
grande potência comercial.^ O seu comércio internacional
estava em franca ascensão. Os portugueses descobriram o
caminho marítimo para a índia e procuraram consoLda-lo.
A descoberta do Brasil foi uma conseqüência da expansão
econômica e comercial de Portugal.
Mas, ao contrário da índia, onde uma população nume
rosa e uma civilização de amplos recursos, permitia a con
solidação do comércio, especialmente das especiarias, no
Brasil não^haviaA ysÃuma população desenvolvida, Amas
Brasil Tiaúo navia uma popuiaçao aesenvoiviaa, mas indíge-
nas numa populaçãoA rarefeita
«MA
ea sem condições de 'iTl'i'OVP5).Tn~
intercâm
bio mercantil considerável.
Destarte Portugal procurou encontrar no Brasil pro
dutos de interêsse ao mercado europeu, fazendo desenvolver
as possibilidades da exportação dos produtos do nôvo país
tropical descoberto.
2 Os ciclos da economia nacional
A economia nacional desenvolveu-se em função dos pro
dutos de exportação, em determinados ciclos econômicos, do
minados por jxroi^tos-^-eis ou produtos mais importantes da
exportação em cada época.
52 Curso de Organização Social e Política Brasileira

Êstes ciclos mais importantes foram os ciclos do paw-


brcLsil, o do a^çúcar, o do ooviro, o do ouro e o do café. Os dois
primeiros retratam a ocupação do Brasil litorâneo, os três
últimos já demarcaram a ocupação do interior.
O Brasil tem assim vivido sobretudo da exportação dos
seus produtos de agricultura tropical, entre êles principal
mente o café, o algodão, o fumo, além da extração de alguns
outros de importância.
Na colônia foi o açúcar, no Império e na República o
café. A exportação total do Brasil desde a sua descoberta
até 1962, foi de 12.521 milhões de libras esterlinas, de
acordo com o seguinte quadro:

EXPORTAÇÃO TOTAL DO BRASIL

(desde a sua descoberta até 1962)

£ 12.521 milhões

Café 55,0%
Algodão 8,9%
Açúcar 5,1%

69,0%

Outros 31,0%

100,0%

Verifica-se assim que cêrca de 70^ da nossa exporta


ção, desde a descoberta até 1962, pelo seu valor, consistiu
em três produtos principais: o café, o algodão e o açúcar.
O açúcar foi o pr^uto-rei da economia nacional, ren
deu 300 milhões de libras-ouro segundo SiMONSEN em sua
HiÃtórm Econôrrma éo Brasil, isto é, 56% do valor de ex
portação total durante a época colonial.
j- j. da exportação. 1962, o café contribuiu com 55% do
total
Hoje em dia, nos derradeiras anos, o Brasil começa
uma nova lase de sua economia: o ôiclo da mdustrioMzcLçãa,
copsolidação do mercado interno.
. , está
volvimento, ustnalizaçãio,
realmente oque significa
núcleo riqueza
do i Brasil e desen
progressista
de amanha. '
0 Ciclo do Pau-Brasil 53

QUESTIONÁRIO
1 — De que fato decorreu a descoberta do Brasil?
2 — Quais os produtos-reis da economia nacional?
3 — Quais os principais ciclos da economia nacional?
4 — A quanto montou a exportação total do Brasil desde
1500 a 1962?
5 — Quanto representa o açúcar neste total? E o algodão?
E o café? W
6 — Qual o principal produto de exportação durante o Brasil
colonial? E durante a República?
7 — Que papel representa a industrialização?

Capítulo XXI

O CICLO DO PAU-BRASIL

1 — Formação da economia brasileira


O ciclo do pavr-brasü é assim chamado por que esta
madeira foi a principal riqueza do país durante a 1.^ me
tade do século XVI.
A madeira do patu-brasil era encontrada desde o Rio
Grande do Norte até Cabo Frio, nas matas costeiras. Por
isso alguns mapas registravam no século XVI com o nome
de costa do pau-brasil essa área do litoral do país.
A exploração do pau-brasil tinha por principal fina
lidade tingir panos, mas também era êle aplicado na fabri
cação de móveis. Suas propriedades corantes eram conheci
das dos índios, que o chamavam de ubirapitanga, nome tupi
significando madeira vermelha.
Na época toda a atenção portuguêsa estava voltada para
o comércio com a índia. Essa foi a razão pela qual, para a
exploração de tal comércio, o Rei de Portegal D. MANUEL
arrendou o dito comércio de tinta a uma companhia de
cristãos novos (nome dados aos judeus convertidos ao cato
licismo), dirigida por Fernando de Noronha.

2 — As feitorias
A exploração do pau-brasil era feita principalmente pe
los indígGii^s, aos quais cabia a derrubada da árvore, o seu
corte e transporte das toras de madeira para as feitorias,
de onde eram posteriormente embarcadas para a Europa.
54 Curso de Organização Social e Política Brasileira

As feitorias foram assim primeiros núcleos de coloni


zação, às vêzes permanentes, às vêzes provisórios.
As feitorias eram armazéns fortificados, habitados por
portuguêses sob o comando e a direção de um feitor, dedi
cados ao comércio do pau-brasil.
Com elas se organiza a primeira modalidade de fixação
dos portuguêses ao solo brasileiro.
Os franceses também disputaram durante longo tempo
0 comércio do pau-brasil, negando-se o seu Rei a reconhecer
os direitos de Portugal sôbre o país recém-descoberto.
0 comércio do pau-brasil, embora o único de importân
cia decisiva na época, contudo teve uma grande falha, que
foi o desflorestamento e a devastação desordenada das matas,
afora conflitos com os índios.

QUESTIONÁRIO
1 — O que é o paio-brasin
2 — Quem foi Fernando de Noronha?
3 — Que são feitorias?
4 — Quais as conseqüências da exploração do pau-brasil?
5 — Que significado teve o pau-brasil no comércio portu
guês do século XVI?

Capítulo XXII

O CICLO DA CANA DE AÇÚCAR


1 — O principal produto da colônia
Durante o Brasil colonial, a principal riqueza foi o
açúcar, a cana de açúcar. Daí o nome dado a êste ciclo
econômico.
A cana de açúcar, originária da Ásia, foi cultivada na
ilha da Madeira, por ordem do Infante D. Henrique.
As primeiras notícias sôbre ela no Brasd datam de 1515,
quançio o Rei de Portugal enviou um técnico ao país a fi"^
de montar um engenho, providenciando ademais a entrega
de mstruinentos agrícolas aos moradores do Brasil. De Ita-
maraca foi para Portugal em 1526 a primeira remessa do
açúcar. i
Mar-mm Apqnso de Souza, em São Vicente»
em 153Z, já com a criação ^as capitanias hereditárias, que
começou a construção de um engenho.
o Ciclo da Cana-de-Açúcar 53

Há um desacordo quanto à fundação do primeiro en


genho. Segundo alguns a prioridade coube à capitania de
Duarte Coelho, quando Jerônimo de Albuquerque Çindou
o Engenho Nossa Senhora da Ajuda, chamado Forno ae Cal,
com o apoio do donatário; segundo outros, o primeiro en
genho de açúcar foi montado em São Vicente, em 1532, por
Pero de Góis.
Em Pernambuco a cultura canavieira encontrou largo
impulso e desenvolvimento, expandiu-se depois no Recônca
vo Baiano, dando às capitanias de Pernambuco e Bahia a
predominância sôbre aS demais.
Foi durante a Colônia (1800-1822) o açúcar realmente
o prodivto-rei da economia nacional.

2 — Os engenhos de açúcar

O maior centro da expansão canavieira foi a capitania


de Duarte Coelho, chamada de Nova Lusitânia (hoje Per
nambuco).
O clima tropical predominante, o solo favorável com o
massapê, o clima quente e úmido, a avançada tecnologia
aplicada e os capitais trazidos de Portugal, permitiram o
florescimento da lavoura canavieira.
Ao lado dos seus rios, nos seus vales e nas suas várzeas,
floresceram os engenhos e enriqueceram os seus proprie
tários.
O engenho é no fundo uma fábrica. É "um estabeleci
mento complexo, compreendendo numerosas construções e
aparelhos mecânicos: moenda (onde a cana é espremida),
caldeira, que fornece o calor necessário ao processo de puri
ficação do caldo; casa de purgar onde se completa esta puri
ficação. Além de outras: o que tôdas as propriedades pos
suem é, em regra, a cosa grande, habitação do senhor; a
senzala dos escravos; e instalações acessórias ou suntuárias:
oficinas, estrebarias, etc.".
Em 1576, segundo Gandavo, Pernambuco contava com
30 engenhos, passando para 66 entre 1584-1590 e 181 en
genhos ao fim do século XVII. Quatruplicou o número de
engenhos em cêrca de um século.
Quando os holandeses invadiram o nordeste e a esqua
dra de LONCK abeirou-se do Recife, as capitanias de Pernam
buco, Itamaracá, Paraíba e Rio Grande do Norte contavam
com 166 engenhos, dos quais 121 em Pernambuco.
de Organização Social e Política Brasileira

assim o grande centro de riqueza na


cional. So em 1618 dados precisos apontavam que vieram a
Pernambuco 120 navios.
A cidade-avòzinha da região, Olinda, era o grande cen
tro de luxo, fausto e riqueza do país. Esta riqueza foi que
excitou a cobiça da invasão holandesa.
É verdade que outras atividades econômicas secundárias
permaneciam, como^ a lavoura de subsistência necessária à
alimentação, o comércio do fumo, o comércio dos escravos,
a exploração das madeiras. Mas o açúcar foi o centro de
importância da economia colonial.
3 — A UTistocrada rural
Formou-se então uma grande aristocracia rural que foi
a base da primeira estratificação econômica do Brasil.
Os senhores de engenho, enriquecidos com o açúcar e a ri
queza das suas plantações, formaram uma grande sociedade
aristocrática, nas camadas mais baixas da sociedade viviam
os escravos que laboravam no cultivo da cana e importados
da África com o comércio negreiro.
Os principais negros africanos, que formavam a grande
fôrça de trabalho, constituíam o outro pólo do sistema de
trabalho. Era o binômio: escravos e senhores, embora no
meio dêles vivesse uma classe média constituída dos peque
nos lavradores, comerciantes, agregados, etc.
Os plantadores da aristocracia rural viviam em resi
dências senhonais chamadas cosas grandes e os escravos em
casinhas juntas chamadas de senzalas, A casa-grande e sen
zala consti^i um complexo residencial, funcionando com
casa, engenho, barco, fortaleza, o pequeno mundo em que se
encastelava o senhor rural.
As conseqüências do desenvolvimento da lavoura cana
vieira foram bem visíveis: a importação de capitais portu-
uma sociedade aristocrática, o desflo-
macãn
maçao rfn
do laHf' ^'■'uutica, a escravatura negra, a for-
,r agrario
latifúndio
exigiam largas extensões de terras, o
revestia de tVôQ ^ ® assim a agricultura canavieira se
vagisrm. aspectos: latifúndio, monocultura e escUt-
acúc^^nas^^ntil^i^^^®®®® Passaram a cultivar a cana de
em dia o 4.® produtor mundial' dTaç£ ^
o Ciclo de Couro 57

QUESTIONÁRIO
1 — Onde se desenvolveu a lavoura canavieira?
2 — O que é um engenho? I
3 — Quantos engenhos existiam em Pernambuco em 1576?
E por ocasião da invasão dos holandeses?
4 — Qual a principal riqueza do Brasil durante a colônia?
5 — Que motivo fascinou a invasão holandesa no Brasil?
6 — Qual a organização da sociedade açúcareira?
7 — Que é casa grande? \
8 — Que é senzala?
9 — Para que se importavam os escravos africanos?
10 — Qual a estratificação econômica da sociedade açuca-
reira?
11 — Quais as conseqüências da implantação da lavoura
canavieira?
12 — Por que decaiu o ciclo do açúcar no Brasil?

CAPÍTULO XXIII

O CICLO DO COURO

1 — Os currais de gado
As primeiras cabeças de gado chegaram ao Brasil por
determinação de TOMÉ DE SouzA, que as mandou trazer d^
ilhas de Cabo Verde. É evidente que os primeiros currais,
ou fazendas, ficavam ao lado dos engenhos.
O gado foi destarte usado para auxiliar a produção do
açúcar. Era utilizado pelos senhores de engenho para a ali
mentação, para o abastecimento de carne, leite, manteiga,
movimentar as almanjarras, assim praticamente os dois ci
clos econômicos coincidiram no Brasil colonial.
Mas o gado apresentava um grande inconveniente, des
truindo as plantações e a lavoura, havia pouca árvore para
cercá-los, e daí o lento afastamento dás fazendas para o
inte ^ çQjiquista holandesa acelerou esta penetração no in
terior, que foi em parte provocada ainda pelo mêdo da re
quisição do gado pelos invasores.
Assim tais motivos, incluindo a possibilidade da criação
do gado ao lado das plantações na mesma área, levou à
ocupação do interior e à consolidação definitiva das fazendas
longe dos engenhos.
Curso de Organização Social e Política Brasileira

Já era tão grande a criação de gado que em 1711


Antonil o calcula em 500.000 e 800.000 reses respectiva
mente, que pastavam nos currais baianos e pernambucanos.

2 — O povoamento do interior
O povoamento da região do São Francisco decorreu na
turalmente das condições favoráveis da água do grande rio
da unidade nacional. Os criadores pernambucanos e baianos
SC estabeleceram com suas fazendas, tanto de um lado como
do outro.
Havia de resto a possibilidade do mercado de consumo
pois o gado podia abastecer o Recife, Olinda e Salvador, com
uma população urbana já desenvolvida.
O lado baiano era chamado "sertão de dentro", o lado
pernambucano "sertão de fora".
Três grandes ondas de penetração se sucederam para
lelamente: uma direção subiu o rio São Francisco e atingiu
as suas nascentes, se encontrando com criadores e bandei
rantes vindos da capitania de São Vicente; outra direção
seguiu para o Maranhão e Piauí e os atuais Estados do
nordeste; uma terceira rumou ainda mais para o oeste e
povoou os sertões de Mato Grosso e Goiás.
A terra foi dividida em imensos latifúndios, alguns
com mais de 100 léguas de extensão, como as da Casa de
Torre e de Antônio Guedes de Brito, em lotes de terras
devolutas com uma lágua de largura. O gado se criou sôlto,
os seus proprietários moravam nas cidades maiores, espe
cialmente do litoral, pagando aos vaqueiros 1/4 dos bezerros
que nascessem. A alimentação dessa gente era constituída
de carne e leite, farinha e rapadura.

3 — A dviUzação do couro
Chamou-se a esta civilização de civilização do couro.
A designação é do historiador Capistrano de Abreu.
Qu^e não havia circulação de dinheiro, o comércio se
efetiva à base de troca, fabricando-se inúmeros objetos de
couro. Dêste se fazia tudo: cordas, roupas, calçados, tambo-
retes, mesas, camas, e até portas e janelas das casas rústicas.
Foi^ou-se assim um outro nordeste, o nordeste do couro
e do gado, com uma população mais rárefeita e quase sem
penetração do negro escravo, diferentí das características
0 Ciclo do Ouro 59

do nordeste dos engenhos e da cana de açúcar, de grande


concentração agrária e com base na monocultura escravo
crata.

QUESTIONÁRIO
1 — Qual o grande rio que possibilitou a penetração do
gado?
2 — Quais as causas de des,envolvimento da pecuária na
região de S. Francisco?
3 — Como foi dividida a terra?
4 — Quais os maiores latifúndios?
5 — Quantas reses existiam aproximadamente em 1711?
6 — De que se alimentou o vaqueiro?
7 — O que significa a expressão civilização do couro?
8 — Quem a criou?
9 — Quais os principais objetos fabricados do couro?

CAPÍTULO XXIV

O CICLO DO OURO

1 — ^ descoberta ch ouro e seiis efeitos

A procura do ouro assinalou uma outra fase de impor


tância na ocupação do interior. Foi em fins do século XVII
que isto ocorreu. Havia a ânsia de buscá-lo e as recomen
dações do govêrno português sempre foram dadas aos dona
tários e governadores gerais para incentivarem a sua busca.
O ouro era a moeda natural. Nada mais rico do que o ouro.
Os bandeirantes paulistas descobriram minas de ouro
no "sertão das Gerais" nos fins do século XVII. A notícia
se espalhou e houve verdadeira corrida para as regiões aurí-
feras.
O povoamento do país se concentrou no sul de Minas
Gerais, através do fascínio exercido. Os antigos centros de
riqueza, como Olinda, Salvador e o Recife perderam a he
gemonia.
Deslocou-se assim como conseqüência o centro econô
mico do país. Por isso o deslocamento paralelo do centro
político. Em 1763 processou-se a transferência do govêrno de
Salvador para o Rio de Janeiro. O Brasil foi elevado à cate-
60 Curso de Organização Social e Política Brasileira

g^ria de Vice-Reino. Quem governava o país tinha o titule


de Více-Rei, não mais de governador.
A imigração portuguêsa se acelerou para o Brasil, em
busca do ouro, causando sérias preocupações ao próprio
govêrno que procurou mesmo trazer-lhe impedimentos.
O século XVIII foi o século proeminente na produção
do ouro, especialmente no período de 1761-1780.
Foi a seguinte a produção de ouro no Brasil:

PRODUÇÃO DE OURO NO BRASIL (1691 a 1875)

Períodos Total em quilos Média anual


quilos

1691-1700 15.000 1.500

1701-1720 55.000 2.750


1721-1740 177.000 8.850
1741-1760 292.000 14.600
1791-1780 207.000 10.350
1781-1800 109.000 5.450

1801-1810 37.500 3.750


1811-1820 17.600 1.760
1821-1830 22.000 2.200
1881-1840 30.000 3.000
1841-1855 11.000 2.200
1856-1860 10.600 2.120
1861-1865 12.000 2.400
1866-1870 8.750 1.750
1871-1875 8.600 1.720

Uma qmnta parte dos minérios explorados era paga ao


reino de Portugal como imposto, e daí o nome quinta. Foi
tão grande a riqueza com isto proporcionada que permitiu a
construção de edifícios suntuosos em Portugal, como o conv-
vento de Mafra.
O metal era recolhido no leito dos rios entre os casca-
lhos, utilizando-se uma peneira de origem africana, chama
da &atew. Depois foi descoberto nas rochas, com exploração
mais difícil, fázendó-se necessário construir galerias e poços
nas minas de ouro, para acompanhar O veio ou filãOj
No século XIX declinou sensivelmente a produção de
ouro no Brasil. -
o Ciclo do Café 61

2 — O povoamento urbano
Na zona das minas concentraram-se os am'aiais, como
centros de população, dando origem a inúmeras cidades.
Muitas delas têm assim uma origem mineira. Foi a explo
ração do ouro que as fêz surgir.
Entre outras podem ser mencionadas: Vila Rica (atual
mente Ouro Prêto), Sabará, São João dei Rei, Caeté, Con
gonhas do Campo, Diamantina, Cuiabá. Em Diamantina se
processou um grande fluxo dé produção de diamantes, ao
lado do ouro vindo do chamado Arraial de Tijuco.
Minas Gerais tornou-se a região mais importante do
Brasil. Grandes cidades se desenvolveram. Movimentos lite
rários surgiram e a cultura intelectual e política se conso
lidou. Em conseqüência disto, o Brasil se fortaleceu, as suas
elites passaram a pensar em independência: Tiradentes foi
0 seu grande mártir.

QUESTIONÁRIO ,
1 — Quando foi descoberto o ouro no Brasil?
2 — Como era colhido o ouro?
3 Qual a época de maior contribuição do ouro na eco
nomia nacional?
4 — Quais as conseqüências do ciclo do ouro?
5 Por que se deslocou o cêntro demográfico e econômico
do Brasil do nordeste para Minas Gerais e o sul?
6 Que cidades do Brasil têm uma origem mineira?
7 Quando declinou a produçãjo do ouro?
8 Quais as vantagens obtidas pelo govêrno português com
a produção brasileira do ouro?
9 Qual a relação do ciclo do ouro e a independência do
Brasil?

capítulo XXV

O CICLO DO CAFÉ

1 A introdução do café na economia nacional


No Brasil o café foi primeiro introduzido no Pará, por
FRANCISCO DE MELO PALHETA, no século XVIII»
trazido da Guiana Francesa. Foi apenas cultivado em quin-
C2 Curso de Organização Social e Política Brasileira

tais. Mais tarde foi levado para o Rio de Janeiro, desen


volvendo-se as primeiras lavouras importantes nessa região.
Já no fim do Primeiro Reinado a produção do café
avultava na economia nacional. O ano de 1830 assinala a
época em que o café supera o açúcar na produção de divisas.
Esta hegemonia é crescente e ainda hoje permanece.
Logo em seguida, do vale do rio Paraíba, se envere
dou pelas províncias do Rio de Janeiro, Minas Gerais e
São Paulo. Nesta última região encontrou a chamada terra
roxa, tão favorável ao seu cultivo. Enfim em pleno século
XX ainda o café se irradia pelo Paraná, provocando em
tôda a parte a riquc-za e o desenvolvimento.

2 — As oonseqüênci.'s do ciclo do café


Durante o 2.® Reinado e a Velho República (1891-1930)
o café teve uma hegemonia inconteste na economia nacio
nal. Chegou a representar cêrca de 70% na receita da ex
portação, trazendo riquezas iménsas às regiões do sul, espe
cialmente São Paulo, que se transformou no Estado-líder
do Brasil, passando através dos seus Presidentes a dirigir
a política nacional.
Ainda em 1966 o café contribuiu com o percentual de
42,7% do valor da exportação nacional, sendo que os Es
tados Unidos compraram 2/3 da produção brasileira.
O Brasil é ainda o 1.° produtor principal de café no mundo,
muito embora a cultura cafeeira tenha se difundido bas
tante, sobretudo em países africanos e em outros países
latino-americanos.
O ciclo econômico do café consolidou a proeminência
do sul do país, estimulando-lhe o aumento da população,
principalmente em São Paulo, permitiu a construção de es
tradas e ferrovias, tendo inclusive o Presidente WASHING
TON LUIZ declarado —: "Governar é abrir estradas".
Quando foi abolida a escravatura em 1888, a abolição
prejudicou regiões em que a mão-de-obra era de escravos,
sobretudo o Rio de Janeiro e as províncias do Norte. São
Paulo porém tinha uma grande soma de imigrantes e colo
nos estrangeiros, spfrendo pouco as conseqüências do ato
abolicionista.
Durante o ciclo do café, como economia subsidiária,
teve grande importância o cultivo dá borracha, especial
mente noS primeiros anos do século "ÈX permitindo o po
voamento e a expansajo econômica da Amazônia; bem como
0 Ciclo Industrial 63

ainda o cacau, proveniente da bacia amazônica, que se acli


matou admiràvelmente na Bahia, e desde 1914 foi um
grande fator no comércio do país.
É de relembrar que o excesso do cultivo do café trouxe
uma superprodução do mesmo, sendo necessário inclusive
a sua queima para contrabalançar a superprodução.
Hoje, sem a proeminência única antiga, contudo o café
ainda representa um têrço da riqueza brasileira.

QUESTIONÁRIO
1 — Quando foi introduzido o café no Brasil e por quem?
2 — Qual a importância e as conseqüências do ciclo do café?
3 — O que representa o café para São Paulo?
4 — Qual o percentual do café na exportação nacional du
rante a Primeira República?
5 — Qual o percentual da exportação do café em 1966?
6 — Que nação compra mais o café brasileiro?

Capítulo XXVI

O CICLO INDUSTRIAL

1 — o processo de wdv^trializobção
O Brasil do Império era uma nação tipicamente agrá
ria, a sua economia se baseando principalmente na expor
tação de produtos da agricultura tropical, como o café e o
açúcar. O Brasil da República é uma nação que tende a ser
uma nação industrial. Há assim uma sensível mudança na
organização de sua economia. A nação passa a viver um
nôvo ciclo de sua economia, o dclo industrial,
A industrialização começou com a República, embora
os seus delineamentos iniciais surgissem, ao fim do Império,
com as usinas de açúcar e .as fábricas de tecelagem.
Três grandes momentos passou com a República o cha
mado ciclo industrial.
O 1.® momento é o da guerra mundial de 1914-1918.
O 2.® é o da nova guerra de 1939-1945. O Brasil começou
então a fabricar produtos que importava dos Estados Uni
dos e da Europa, que a guerra impedia de importar. O 3.®
momento é o da implantação da indústria pesada, com as
64 Curso de Organização Social e Política Brasileira

importantes obras de fortalecimento da infra-estrutura eco


nômica.
É a fase do desenvolvimento e da decolagem econômica,
igual à que a Inglaterra, a França, os Estados Unidos so
freram no século XIX.
Entre as obras fundamentais da montagem desta in
fra-estrutura convém destacar: a) a indústria petrolífera,
com a criação da PETROBRÁS, em 1945, explorando os
lençóis petrolíferos da Bahia, Sergipe e Alagoas. Foram
instaladas diversas refinarias, como a LANDULFO AL
VES na Bahia, a DUQUE DE CAXIAS no Rio de Janei
ro, a GABRIEL PASSOS em Minas Gerais, além de refina
rias particulares. A exploração do petróleo aumentou sen
sivelmente, podendo o Brasil abastecer presentemente 1/3
do seu consumo interno e poupando divisas para a sua eco
nomia; b) a indústria siderúrgico^, com a instalação em
1946 da Usina PRESIDENTE VARGAS em Volta Redon
da, afora outras inauguradas posteriormente, como o 00-
SIPA em São Paulo, a USIBA na Bahia, a ACESITA, a
USIMINAS e a de MONLEVADE em Minas Gerais; c) a
industria autoTrbohilistica, que teve um grande impulso no
Brasil contemporâneo e é um dos mais sólidos parques in
dustriais da nação; e) a indnistrm metalúrgica, que é outra
fonte considerável de progresso econômico.
Através da montagem dessa estrutura, intensificando
ainda a produção do carvão mineral e a eletrificação, in
centivando os transportes, o Brasil passou a desfrutar de
importância no cenário econômico.

2 — A eUtrificoLção
Uma grande nação industrializada tem de ser natural
mente um país de potente eletrificação.
Já se definiu a civilização como uma máquina de fa
bricar energia. A energia muscular é substituída pela ener
gia elétrica e nuclear. Hoje o tório e o urânio são riquezas
que valem mais do que o ouro.
Construíram-se no país grandes usinas hidrelétricas.
Dentre elas se destacam as de Pavlo Afonso e Três Ma/rias
no São Francisco, em Fumas e Peixoto, a usina de Urubu-
pungá no rio Paraná e a de Boa Esperança no Paraíba
Com a exploração do seu pbtencial hidrelétrico, que é
um dos maiores do mundo, m^ís se intensificará a vida
econômica brasileira.
o Ciclo Industrial 65

3 — Crescimento do Produto Real

A matemática dos números permite agòra examinar


mais a contento o crescimento do produto real do Brasil
nos últimos anos.
Entre 1920 e 1967 o produto real cresceu em média
de 4,8% ao ano, a agricultura se desenvolvendo e se ex
pandindo ao ritmo de 4,1% anuais, a indústria de 6,1%,
o comércio de 5% e as comunicações de 7,2% ao ano.
Passemos à análise por períodos.
No decênio de 1920, o produto real se expandiu em
média de 3,7% ao ano. A agricultura, a indústria e o co
mércio se expandiram quase com a mesma taxa média de
3,3% e 3,4% ao ano, os transportes com um índice mais
avultado de 8,1% anuais.
Entre 1930 e 1940, o produto real cresceu de 4,6%
ao ano, o produto industrial se expandindo à razão de 5,2%
anuais.
Entre 1940 e 1947 o produto real cresceu ainda mais,
à razão de 5,1% ao ano, a componente industrial se am
pliando na média de 6.5% anuais.
No período que vai de 1947 a 1956, o produto real
cresceu de 5,6% ao ano em média.
Entre 1956 e 1961 cls taxas de cresdmervbo foram mais
espetacularmente brilhantes. O produto real expandiu-se na
média de 7% ao ano, a componente industrial aumentou
de 11,1% anuais e a componente agrícola de 5,8% ao ano.
Depois foram as seguintes as taxas de crescimento:
1962 — 5,4%
1963 — 1,6%
1964 — 3,1%
1965 — 3,9%
1966 —■ 3,4%
1967 — 4,9%

Tais dados são coligidos da obra de MARIO SIMON-


SEN intitülada Brasil 2001 (Rio, 1969).
Ainda segundo informações da revista semanal do De
partamento (Ministério do Comércio) dos Estados Unidos,
o Brasil teve em 1969 uma das maiores taxas de cresci
mento do mundo, 9% ao ano.
66 Curso de OrgauiàsSo Social e Política Brasileira
No dito ano 1969, o PNB do Brasil alcan^u 32.300
bilhões de dólares, contra 23 bilhões
ração, o PNB dos Estados Unidos alcançou 932 bilhões de
dólares em 1969.

QUESTIONÁRIO
1 — Quando começou no Bi^asil o ciclo industrial?
2 Quais as principais fases da evolução do ciclo indus
trial no Brasil?
3 — Quando surgiu a indústria pesada?
4 Quais os principais ramos da indústria pesada?
5 Que importância representa a eletrificação no desen
volvimento industrial? i j -r»
6 Analise o crescimento do produto real do Brasil desde
1920
7 Que taxa de crescimento apresentou o Brasil em 1969?
8 — Quanto é o PNB do Brasil em 1969? E o dos Estados
Unidos?

Capítulo XXVII

ORGANIZAÇÃO DA VIDA ECONÔMICA


1 — As bases econômicas da indústria brasileira
A indústria brasileira repousa nos investimentos de
capitais públicos do Estado e de capitais privados, seja de
firmas nacionais ou de firmas estrangeiras.
O poder público no Brasil tem investido consideràvel-
mente capitais em empreendimentos gigantescos de infra-es
trutura. Entre eles se destacam principalmente os setores
econômicos da indústria pesada e eletrificação, como no
petróleo com a PETROBRÁS, na siderurgia com VOLTA
REDONDA e ACESITA, na indústria química com a
CIA. NACIONAL DE ÁLCALIS, nas grandes centrais hi-
drelétriças.
Os capitais privados têm grande importância, eis que
a vida econômica repousa na liberdade de iniciativa. Os
capitais privados se aplicam principalmente nas indústrias
leves, nas indústrias de cimento, nas indústrias de constru'
ção, de química, etc.
Há grandes grupos econômicos que operam no Brasil
principalmente americanos, japoneses, alemães, ao lado de
Organização da Vida Econômica 67

gigantescas emprêsas nacionais. Entre as últimas se des


tacam principalmente os grupos JOSÉ ERMÍRIO DE MO
RAES e MATARAZZO. |
2 — Os capitais estrangeiros
O desenvolvimento econômico do Brasil também sa
opera através dos investimenwos diretos estrangeiros! Dês-
tes, os mais importantes s^q os norte-americanos.
O total de invést.mentos diretos norte-americanos na
América Latina era em 1968 de US$ 11,010 milhões.
A Venezuela foi em 1960 o principal mercado dos in
vestimentos norte-americanos na América Latina. Segundo
dados oficia s a Venezuela detinha US$ 2.600 milhões, se
guida do Brasil com US$ 1.484 milhões, do México com
US$ 1.459 milhões e da Argencina com US$ 1.148 milhões,
tudo relativo ao ano de 1968.
É de salientar que mais da metade dos investimentos
norte-americanos na área em apreço foi aplicada na indús
tria, o que significa uma maior intensidade no ritmo da
industrialização. Do total dos investimentos 83,6% foram
destinados à indústria de manufatura, 27,1% no setor do
petróleo, 12,7% à indústria metalúrgica e à mineração,
11,4% ao comércio, 5,7% em serviços de utilidade pública
e 9,6% em outros setores.
Por sua vez o Canadá absorve 30% dos recursos norte-
americanos, a América Latina 16%, a Comunidade Eco
nômica Européia 13%, a Ásia 7,2%, a Oceânia 4,3% e a
África 4,1%.
Antigamente no século XIX e comêço do XX, o país
que mais investia no Brasil era a Inglaterra, hoje são os
Estados Unidos, que de resto são os nossos maiores com
pradores.

QUESTIONÁRIO
1 Em que capitais repousa a indústria brasileira?
2 -—■ A que países pertencem principalmente os grupos eco
nômicos estrangeiros que operam no Brasil?
3 — Qual o montante dos investimentos diretos norte-ame
ricanos no Brasil em 1968?
4 _ Que país investiu mais no Brasil no século XIX e
inicio do XX? E atualmente, que nação mais investe
no Brasil?
Capítulo XXVIII

O COMÉRCIO INTERNACIONAL DO BRASIL

1 — A balança, comercial do Brasil


Com o seu atual desenvolvimento econômico, o Brasil
já ocupa um lugar de relêvo no comércio internacional. Tem
um elenco diversificado de exportações e uma rica pauta
de importações.
Embora não possa comparar-se ainda com outros paí
ses desenvolvidos, contudo tem a tendência crescente a avul-
tar no campo das relações comerciais.
A diversificação geográfica do comércio exterior bra
sileiro é desejo e também ambição do govêrno, ampliando
as áreas de intercâmbio. Mesmo para a União Soviética,
o Brasil exportou em 1967 mercadorias no valor de 38
milhões de dólares e importou o equivalente a 19 milhões.
Contudo o maior e mais intenso mercado é com os Estados
Unidos, que são aliás a maior potência comercial do presente.
No comércio mundial, em 1967, era a seguinte a posi
ção dos principais países:
Comércio Mundial — 1967
(Exportação X Importação)
Pc&£s Sobre o total mimdial
Estados Unidos
Alemanha Ocidental 9,05%
Grã-Bretanha 7,40%
França 5,50%
Canadá 5,10%
Japão 5,10%
Itália 4,25%
União Soviética 4,15%

2 — As exportações do Brasil
O café continua ainda como o principal produto da ex
portação brasileira. Representa hoje 40% da exportação
(já atingiu. 70%) e ainda cêrca de 30% da produção
mundial. .j . .. !
Vêm em seguida minérios, algodão, hematita, açúcar,
cacau O açúcar hoje se coloca em 5.® lugar em dólares, já
o Comércio Internacional do Brasil 69

tendo ocupado a primeira posição no Brasil colonial e du


rante o 1.° Reinado.
Todos os produtos são principalmente exportados para
os Estados Unidos, exceto o algodão exportado sobretudoj
para Europa e Japão. !
últimamente o Brasil começou a exportar bens indús-
triais em geral, como navios, máquinas, veículos e acessórios
especialmente para a América Latina, a Europa Oriental e
Ocidental.
\\
3 — As importações do Brasil
As máquinas e veículos, ás manufaturas em geral, ma
térias-primas (especialmente metais não-ferrosos), gêneros
alimentícios e bebidas, petróleo, trigo, produtos químicos e
farmacêuticos, são os produtos importados em maior vplume.
Isoladamente, os produtos mais importados são ò pe
tróleo bruto e o trigo, representando cada um aproxima
damente 9% e 8% do quantum de importação em 1966.
A produção de trigo e do petróleo no Brasil, provo
cando a sua auto-suficiência, será assim de grande relêvo
para a poupança da economia nacional.
É significativo ainda o quãntum da importação de
produtos manufaturados, máquinas e equipamentos, que re
trata a marcha do país para a industrialização.

4 — A disci'iminação da balança comercial


A balança comercial é o cômputo das operações, im
portação e exportações, entre os diversos países. Quando
as exportações excedem as importações das mercadorias, a
nação é credora do estrangeiro e o respectivo saldo se inclui
no seu ativo; mas pode ocorrer que as importações exce
dam as importações, nesse caso advém o déficit da balança
comercial, o saldo inscrevendo-se no passivo. No 1.® caso,
a situação do país é favorável, no 2.® caso é desfavorável.
A exportação no Brasil foi a seguinte em milhões de
dólares: 1962 — 1.215 milhões; 1963 — 1.406 milhões;
1964 — 1.430 milhões; 1965 — 1.596 milhões; 1966 —
1.730 milhões.
Por sua vez, foi a seguinte a importação, expressa em
milhões de dólares: 1962 -- 1.304 milhões — 1963 — 1.294
milhões; 1964 1.086 milhões; 1965 — 941 milhões; 1966
1.270 milhões.
70
/ Curso de Organização Social e Política Brasileira

Em 1962 e 1963 houve assim déficit na balança co


mercial, mas em 1964, 1965 e 1966 a nossa balança comer
cial apresentou um saldo apreciável (quadro n.° 1).

Quadro 1

BALANÇA COMERCIAL (em milhões de dólares)

Discriminação 196JÍ. 1965 1966(x)


II 1962 1968

Balança comercial 89 112 344 655 460


Exportação (FOB) 1.215 1.406 1.430 1.596 1.730
Café 643 748 760 707 772
Algodão 112 . 114 108 101 113
Minérios 95 94 102 132 125
Hematita 68 70 81 103 100
Manganês 27 24 21 29 25
Cacau 40 50 46 41 68
Açúcar 40 72 ' 33 57 77
Outros 285 328 381 558 575
Importação (FOB) 1Í3'04 1.294 1.086 941 1.270
Matérias primas 263 267 241 209 236
Petróleos e derivados 196 194 180 156 171
Outros 67 73 61 53 65
Gêneros alimentícios
e bebidas 205 211 251 177 226
Trigo 139 139 176 114 142
Outros 66 72 75 63 84
Máquinas e veículos 473 408 288 229 352
Produtos químicos e
farmacêuticos 140 151 127 151 96
Manufaturas 218 249 176 171 256
Outros 5 8 3 4 4

(x) estimativa

5 — A balança de pagamentos 11
A balança de pagamentos é um conceito mais amplo do
que a baJança comercial. Segundo a -definição do FMI
(Fundo Monetário Internacional), a balança de pagamentos
procura mostrar a conexão entre a economia de um país
0 Comércio Internacional do Brasil 71

e O mundo exterior, pelo registro sistemático de dados de


todas as transações econômicas. Essas transações econômi
cas incluem destarte os serviços e capitais, excluídos por
conseguinte da balança comercial.
A estrutura tradicional do Brasil se mantém quanto
ao déficit crônico dos serviços, representado principalmente
por conta dos transportes (fretes e seguros marítimos), e
do pagamento das dívidas, pelo recebimento de capitais
estrangeiros.
Em 1932 o Brasil devia 1.30(1 milhões de dólares, com
uma exportação de 300 milhões iie dólares, isto é, devia
cerca de 4 vêzes mais do que expprtava anualmente. Em
1966 o Brasil devia aproximadamente 3 bilhões de dólares,
exportando cerca de 1.700 milhões de dólares, isto é, devia
menos do dôbro de sua exportação anual. Estes dados reve
lam assim que o seu grau de endividamento, embora maior,
diminuiu quanto à situação de sua estrutura econômica
montada. Ou seja, o Brasil tem hoje uma maior capacidade
de endividamento, podendo pagar mais fàcilmente as suas
dívidas, pois é uma nação mais rica (vide quadro n.° 2).
Atualmente, em 1971, a dívida externa do Brasil ascende
a cêrca de 5,2 bilhões de dólares.

Quadro 2

BALANÇO DE PAGAMENTOS

(Posição líquida — Milhões de Dólares)

1962 — 343
1963 — 279
1964 40
1965 362
1966 (estimativa 152

QUESTIONÁRIO
1 — o que é balança comercial?
2 — Que se entende por balança de pagamentos?
3 — Quais as maiores potências comerciais do mundo?
4 — Qual a situação do café no atual quadro de exporta
ção brasileira?
5 — Quais os produtos mais exportados pelo Brasil?
6 — Que mercadorias o Brasil importa principalmente.
Organização Social e Política BrasUeira
7 — Qual O quantum da importação do trigo e do petróleo
em 1965 pelo Brasil?
8 — Qual a dívida externa no Brasil em 1932?
9 — Qual a dívida externa do Brasil em 1966?
10 — Que proporção ou equivalência tem esta dívida com
relação ao quantum de exportação respectivamente
nos anos de 1932 e 1966?
11 — Qual o montante da dívida externa do Brasil em 1971?

Capítulo XXIX

A MODERNA ECONOMIA BRASILEIRA


1 — A economia brasileira dos dias apwais
A economia brasileira dos nossos dias se tranqfnvr^r.,,
profundamente, o Brasil do século XIX e L i a ti
do século XX tinha uma armadura típicamente coloniar
Tal armaOura colonwi cede ante o sôpro de industrialização
que impulsiona o país.
O ciclo do café se acha em fase de declínio em favnr
do ciclo industrial. Uma nova política econômica deve linr
gir estimulando tal industrialização.
É preciso então substituir a monocultura de um nníQ
que só exporta um produto básico. Um povo que se ha^oia
na monocultura comete suicídio. Vive na dependêncír tio
flutuação da conjuntura internacional.
Daí a necessidade do desenvolvimento das indú<ítrioo
especialmente as chamad^ indústrias básicas, acompaXtin
do movimento paralelo da agricultura. Panhado
2 — A economia agrícola
Dentro da parte agrícola, o Brasil tem hoje uma n
dução considerável, que o coloca em plano de relevo e ti"
importância. ®
O café, o algodão, o cacau e o açúcar são fontes de tii
visas. Em 1966 a exportação do café rendeu 772 mil dólareJ"
a de algodão 113 mil dólares, a de açúcar 77 mil dólareq'
a do caxian 68 ttiil dólares. São os principais produtos de
nossa exportação, provenientes da agricultura,
Outros produtos ^ ainda se destacam neste aspecto
A juta e a borracha são produzida^ pela Amazônia; o arroz
A Moderna Economia Brasileira

O é pelo Maranhão e S. Paulo; o fumo pela Bahia; a. mar^


dioca e o milho em quase todo o país; a fruticultura e esti
mulada por tôda a parte. . 14.
Quanto aos principais produtos da agricultura tropical,
podem-se aqui indicar as suas fontes: o café provem prinj
cipalmente de S. Paulo e Paraná; o algod^
de S. Paulo e do Nordeste; o açíícar principalmente por
Pernambuco e S. Paulo; o cacau pela Bahia.
É de salientar, o que de perto interessa a /
a restauração da economia açucareira no
O Brasil em 1968 se Apresentou como o 4.
tor do açúcar, na seguinte ordem em toneladas me
URSS
EUA 5.689.715
Cuba
Brasil 4.881.944
Em 1969, o Brasil exportou para o estrangei^ .• • •
1.661.208 toneladas métricas de açúcar, no valor ae í
115 milhões, com o valor médio de US| 104.69 por t -
lada, com um preço competitivo, sem subsídios ou arra j
cambiais para sua colocação no mercado internacional.
A principal nação compradora dos nossos produtos
agricultura tropical são os Estados Unidos: são
veis pela compra de 2/8 do café brasileiro. Quanto ao ç
car os Estados Unidos compraram, em 1969, o qtmnuum
651.878 toneladas métricas sôbre o total exportado
1.061.208. .
É de salientar que a nossa economia tende hoje edi
a conseguir um maior mercado de consumo
do o país menos vulnerável às oscilações do preço inter
cional.

8 — A econfwmia vudustrval

O ciclo do café tende a declinar em P^°^®^*Jopoiaffern


industrial. O Brasil já começou evidentemente sua o
econômica. conomia,
O problema do petróleo, básico na moderna ® ^a
já se encontra equacionado. O petróleo jorra á básico
Bahia, Sergipe e Alagoas. O chamado <ywro n gusten-
para a nossa emancipação econômica, como ponto
Curso de Organizasão Social e Política Brasileira
//
tação dá soberania política. Várias refinarias têm sido cons
truídas em diversos pontos do território nacional.
A indústria siderú/rgi&a é outra que se encontra em
plena expansão. Volta Redonda no Rio de Janeiro, a CosiPA
em S. Paulo, a UsiBA na Bahia, a Acesita e a UsiMiNAs em
Minas Gerais, são símbolos ou marcos desta transformação
O c^ao vem sendo explorado com maior intensidade
no Rio Grande do Sul e Santa Catarina desde 1914-1918
A energm hidroelétrica ganha largo impulso, com obras
^andiosas de engenharia e do aproveitamento racionalizado
das nossas qued^ dapa. É o que se pode observar em
Paulo Afonso e ^ea Manas no rio S. Francisco, com Ur"
bupunga no no Paraná, com Furnas no Rio Grande e com
Boa Esperança no Pamaíba.
Por tôda a parte ^ende a industrialização, com a mon-
tegem de uma mfra;estrutura básica, na qual rekde o núdw
de nosso desenvolvimento. "ucieo

questionário
1 Quais os principais produtbfe agrícolas do Brasil'
2- Quanto renderam em dólares no ano de 1966 os se
guintes produtos: café, algodão, açúcar, caca^
3 — Qual o principal mercado estrangeiro
produtos agrícolas do Brasü' consumidor dos
^ ~ ?â=ar"r """"dial de
5 — Quais os principais Estados produtores Hr. «
6 - Quais as principais usinas hi^Sa
' ~ ^Portantes usinas siderú?g'?as do
8 — Está o ciclo do café em declínio?
\ 'l

5.a PARTE

A SOCIEDADE RURAL E URBANA

capítulo XXX

A VIDA RURAL

1 — Os problemas da vida rural

O Brasil, país de dimensões continentais, tem ainda


uma grande parte de espaço geográfico desocupado, com
áreas imensas de florestas, càmpos, vales, ainda não apro
priados. ^ ..
Há tôda uma imensa região que necessita da ação civi-
lizadora do homem. Na Amazônia o homem ainda é o mesmo
intruso impertinente da epopéia euclideana.
Embora a trepidante e agitada gente urbana viva cada
vez mais a intensidade do mundo das cidades, há do outro
lado uma imensa população campesina, mais rarefeita, dis
tribuída nos meios rurais.
A mentalidade da gente rural é a mais rotineira e con
servadora. A mentalidade do povo das cidades é mais liberta
dos preconceitos e sensível às renovações. Dai a realidade
do provérbio: o ar da cidade faz o homem livre.
As condições ainda pouco satisfatórias de vida da so
ciedade rural exigem o planejamento e a intervenção o
Estado, na educação, na saúde, na alimentação, nos trans
portes, que modifiquem os seus padrões tradicionais de vi a.
76 Curso de Organização Social e Política Brasileira

2 —!iA estrutura agrária brasileira em 1950

O Brasil é um país onde domina o latifúndio. Desde a


época da colonização, as plantações de açúcar, e mais tarde,
as fazendas de gado e de café exigiram longos tratos de
terra para a sua implantação.
Ainda hoje a distribuição de terras é orientada em tal
sentido, com um alto grau de concentração da propriedade
fundiária.
O recenseamento de 1950 classificou os estabelecimentos
rurais nas seguintes categorias: a) pequenos estabelecimen
tos rurais com menos de 100 ha; b) estabelecimentos rurais
médios de 100 ha a menos de 200 ha; c) grandes estabeleci
mentos rurais com mais de 200 ha.
Na época, isto é, em 1950, os pequenos estabelecimentos
agropecuários representavam 85% do número total de es
tabelecimentos, mas ocupando só 17 % de área; os esta
belecimentos agropecuários médios representavam 6% do
total ocupando 8% de área; enfim os grandes estabeleci
mentos, representando apenas 9% do total, ocupavam 75%
da área, isto é, 2/3 das terras. '
Verifica-se de imediato a antítese entre o minifúndio
ou a pulverização e fragmentação da propriedade, e o lati
fúndio ou as grandes e imensas propriedades, sem a conso
lidação da média propriedade. São dois pólos antagônicos
do sistema de distribuição da propriedade agrária, domi
nante no Brasil.

3 — A estrutura agrária brasileira em 1960


No recenseamento brasileiro de 1960 verificou-se a exis
tência no país de cêrca de 3.337.769 estabelecimentos rurais,
ocupando a área de 2.498.621 km^ isto é, 31% do terri
tório nacional.
Continua a mesma antítese da pulverização dos mini
fúndios e da extrema concentração agrária, dominante da
história social e econômica do país.
A área ocupada pelos grandes estabtíecimentos agro
pecuários é bem maior do que aquela ocupada pelos esta
belecimentos de meiior iwrte, muito embora em muito maior
número.
O quadro abaixo é significativo;
A Vida Rural 77

Estabelecimentos

Tipo Número Extensão ocupada


(ha)

Menos de 50 ha 2.983.774 34.455.699


De 50 a 500 ha 564.728 76.679.094
De 500 a 1.000 ha 40.764 28.413.333
Mais de 1.000 ha 32.480 110.304.016
\

Assim sendo, os 2.983.774 pequenos estabelecimentos


agrários ocupavam apenas 34.455.699 ha, mas sòmente
32.480 grandes estabelecimentos ocupavam 110.304.016 ha.
Há uma dupla tendência no desenvolvimento da questão
agrária: a tendência à atomização e pulverização da pro
priedade através dos latifúndios, e a tendência antagônica
à concentração fundiária.

4 — O campesinato

É grande o percentual da população que trabalha nos


campos como agricultores. A iwpulação campesina no Brasil,
com 15.521.701 trabalhadores rurais em 1960 é mesmo
superior à norte-americana, ascendendo a 14.803.000 em
1961.
Êste pessoal está assim dividido pelas regiões fisio-
gráficas do pais:

Região fisiográfica Pessoal ocupado


1950 1960

Brasil 10.996.834 15.521.701


Norte 326.502 536.619
Nordeste 2.897.444 4.564.868
Leste 3.905.688 4.883.473
Sul 3.481.587 679.470
Gentro-Oeste 385.613
78 Curso de Organização Social e Política Brasileira

De acordo com os dados do IBRA em 1964, num total


de 3.708.796 imóveis cadastrados, 2.766.201 são minifún
dios; 279.000 são latifúndios por dimensão; 793.881 são
latifúndios por exploração; e somente 82.256 são emprêsas
rurais.
Os minifúndios ocupam uma área de 45.821.125 hec
tares e representam 2.766.201 famílias; os latifúndios co
brem 298.131.049 hectares e representam 793.666 famílias
proprietárias de terras; assim sendo, os latifúndios cobrem
82,9% das propriedades cadastradas, os minifúndios ape
nas 12,50%.
Uma grande população campesina, mas com insuficiente
tecnologia, com poucos tratores e arados. No Brasil existiam
apenas 63.493 arados e 1.031.930 tratores em 1960.
É de salientar que a maior parte dessa população rural
não tem terra. Êsses camponeses podem ser classificados em
diversos grupos, a saber: a) a>ss(üari(icLos, que cultivam a
terra para os seus donos, recebendo um salário; b) a/rren-
datérios, numerosos nas árças onde dominam a lavoura de
subsistência e a policulturá, pagando uma renda aos pro
prietários pelo uso da terra; c) parceiros, vivendo prin
cipalmente nas áreas de expansão da pecuária, onde o agri
cultor cultiva a terra pagando ao proprietário com uma
parte da produção (geralmente a metade ou a têrça parte);
d) moradores, nas áreas de dominação de extrativismo ve
getal, que trabalham e fazem a coleta, obrigados porém a
vender a mesma produção ao proprietário, a quem compram
os gêneros de sua necessidade.

QUESTIONÁRIO

1 — Como se estrutura a organização agrária do Brasil


em 1950?
2 — O que é minifúndio?
3 — O que se entende por latifúndio?
4 — Qual a estrutura agrária do Brasil em 1960?
5 — A quanto ascende a população campesina do Brasil?
4 Há suficientes tratores e arados?
7 Como se pode classificar a população campesina?
Capítulo XXXI

O ESTATUTO DA TERRA

!!
A densa população campesina com padrões de vida
pouco elevados, tanto de renda como de saúde e educação,
passou a ser uma viva preocupação do govêrnp. Era ne
cessário fortalecer o seu nível de vida para ampliar o mer
cado de consumo nacionál. Era indispensável educá-la para
processar a sua integração no cenário nacional.
De outro lado, a concentração fundiária nos meios mais
povoados e civilizados, provocou movimentos de reivindica
ção social, através da formação de grupos unidos, como os
posseiros no Paraná ou as ligas camponesas no nordeste.
Ora o govêrno as reprimia, ora desapropriava lotes de terras
para atender às suas reivindicações.
O govêrno JOÃO Goulart criou um órgão de reforma
agrária, chamado de SUPRA ou Superintendência da R^'
foama Agrária. A fim de melhor planejar, a seu ver, a re
forma agrária, propôs uma reforma ao Congresso para
permitir a desapropriação dos latifúndios improdutivos me
diante o pagamento de títulos de dívida pública e não da
própria indenização em dinheiro, como previa a Constitui
ção do Brasil de 1946. Do outro lado, mediante decreto de
13.3.1964 assinou um aj» autorizando a desapropriação por
interêsse social das terras situadas à beira dos açudes fe
derais, ferrovias e rodovias. Promulgou de outro lado, como
complemento de sua ânsia reformista, em 2 de março de
1963, o Estatudo do Trabalhador Rural.

2 — O Estatuto da Terra

O novo govêrno emerso da Revolução de 1964, mantendo


as normas fundamentais do Estatuto do Trabalhador Rural,
promulgou uma lei agrária de importância chamada Esta
tuto da Terra, em 30 de novembro de 1964.
Para a execução dessa política agrária do então Pre
sidente castelo Branco foram organizados dois órgãos de
importância, a saber: o IBRA ou Instituto Brasileiro de
Reforma Agrária e o INDA ou Instituto Nacional de Desen^
volvimento Agrário. O 1.° se preocupando principalmeme
com os problemas da posse e do uso da terra; o 2.® ten o
80 Curso de Organização Social e Política Brasileira

em vista a política agrária do aumento da produtividade


por hectare das áreas rurais e com a política de coloniza
ção. Ambos passaram a ser molas centrais da nova lei agrá
ria, hoje ambos fundidos no INCRA (Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária).
Tal lei agrária procurou sobretudo ser implantada den
tro das tradições e do contexto da realidade brasileira, fu
gindo à imitação ou ao radicalismo das soluções estrangei
ras. Cogitou principalmente de uma transformação agrária
gradualista, atenta às condições da vida brasileira.
Para êsse efeito cogitou tanto do estímulo ao coope-
rativismo como de uma política tributária da terra; visou o
desenvolvimento econômico do campo e da sociedade rural;
propôs-se a melhorar os baixos padrões de vida e de edu
cação do camponês; teve em vista combater tanto a elevada
concentração agrária como a expansão do minifúndio com
a conseqüente atomização da propriedade agrária.
De outro lado, as novas constituições do Brasil de 1967
e 1969, ao contrário da antiga constituição de 1946, que só
previa a desapropriação com prévia e justa indenização em
dinheiro, passaram a admitir a desapropriação mediante
títulos de dívida pública, o que facilita a ação governa
mental.
Com os dispositivos constitucionais de 1969 e a Lei
n.® 4.054, sancionada em 30.11.1964 e que dispõe sôbre o
Estatuto da Torra, procurou-se assim equacionar o clássico
problema do uso e da posse da terra no Brasil.
De acôrdo com o dito Estatuto, da Terra, chama-se:
1) iTaóvél Rural a propriedade de área contínua que se
destina à exploração agrícola, pecuária, ou agro-industrial;
2) Propriedade farmliar é o imóvel explorado direta e pes
soalmente pelo agricultor e sua família, com uma extensão
de área máxima fixada de acôrdo com a região; 3) Módulo
rural, que é a área fixada no item 2; 4) latifúndio, que
obteve um conceito de fixação legal no Estatuto, que é o
imóvel rural correspondente a 600 vêzes o módulo rural ou
ainda, mesmo que não o exceda, seja mantido inexplorado
ou com deficiente exploração, j
3 — A proteção ao tirahaZhador rural
No Brasil, a Consolidação das Leis do Trabalho de 1943
já havia assegurado diversos direitos aos trabalhadores, ins-
o Estatuto da Terra 81

pirada nos Códigos Magnos da Kepública de 1934 e 1937.


Esta influência benfazeja contudo não tinha não tinha con
seguido amparar as massas camponesas, não se lhes apli
cando na prática as medidas protetoras, por fôrça da vis|\^el
resistência dos empregadores. ''
Mais tarde o Estatuto do Trabalhador Rural (1963)
e o diploma legislativo atual chamado Estatuto da Terra
reexaminaram o problema, também regulado na ^ recente
Constituição de 1969, que outorgou competência à União
para legislar sôbre o râmo novo do direito que surgiu, a
saber, o direito agrário.
Entre os direitos atribuídos e garantidos aos trabalha
dores rurais se mencionam os seguintes: o direito ao salario-
mínimo, a jornada de trabalho de 8 horas, o repouso seina-
nal remunerado, férias remuneradas, aviso prévio, estabi
lidade ou fundo de garantia, higiene e segurança do traba
lho, etc., normas diversas sôbre o trabalho das mulheres, me
nores, previdência social, sindicalização, etc.
Há todo um complexo de normas que se reúnem para
o efeito de melhor amparar os trabalhadores
um meio de eliminar as tensões e os desníveis da sociedade
rural.

QUESTIONÁRIO

1 — Que entende por Estatuto do Trabalhador Rural?


2 — Que significa o Estatuto da Terra? De que ano e e
data?
3 — Que quer dizer a expressão IBRA?
4 — Qual o significado da expressão INDA? xrr-TíA?
5 — Para que se destinam o IBRA e o INDA? E o IJ;
6 — O que significa uma reforma agrária
7 — Como a Constituição de 1946 previa a desaprop
ção das terras? mnria-
8 — Que constituições do Brasil admitiram a desapr p
ção de terras por títulos da dívida pública.
9 — O que é módulo rural? . ^
10 — Que se entende por propriedade familiar»
11 — Que é imóvel rural? , «oui o
12 — Qual o conceito legal do latifúndio de acor
Estatuto da Terra?
Capítulo XXXII

A SOCIEDADE URBANA

1 — As primeiras vilas brasileiras

As primeiras vilas brasileiras surgiram na orla do lito


ral. Era natural esta origem, à beira do oceano, pelas faci
lidades de comunicação com a metrópole, consolidando-se
como centros comerciais e núcleos de vigilância contra as
potências estrangeiras.
A formação das vilas e cidades na orla litorânea, como
regra de povoamento, de que foi exceção a Vila de Pira-
tininga, representa destarte uma função para melhor se
compreender a evolução social e econômica brasileira.
A construção das vilas e cidades foi precedida da fun
dação das feitorias.
A primeira feitoria foi fundada em 1504 por Américo
Vespúcio, a de Cabo Ffio, onde ficaram 24 homens. Mais
tarde outras feitorias foram estabelecidas principalmente no
nordeste, onde se descobriu o comércio de pau-brasil.
A Pernambuco, talvez a região mais procurada na época,
foi enviada em 1516 uma expedição pelo govêrno português,
que fundou uma feitoria no atual sítio dos Marcos, perto
de Itapissima.
Em 1526 Cristóvão Jaques fundou outra feitoria na
ilha de Itamaracá, que foi destruída em 1531 pelos franceses
e depois restaurada por Pero Lopes de Souza, até ser doada
a Duarte Coelho com a capitania de Pernambuco.
A vüa de São Vicente foi criada em 1532 por Martim
Afonso de Souza.
É porém com a criação das capitanias hereditárias, em
1534, que surgem no Brasil as principais vilas.
Na capitania de São Vicente foi fundada no século XVI
a Vüe de Santos. Quanto à origem de São Paulo, advém de
um colégio do mesmo nome fundado pelo padre JosÉ de
AnchiEta no planalto de Piratininga em 1551, tornando-se
depois vüa e cidanie apenas em 1711.
Ainda no século XVI foram fundadas as vilas de Pôrto
Seguro pelo donatário Pero do Campo Tourinho e a de
Cíxnceição, na capitania de Itamaracá.
A Sociedade Urbana 83

2 — As pri7)ieiras vüas de Pernambuco


Em Pernambuco ou Nova Lusitânia, bem próxima à
feitoria de Cristóvão Jaques, foi Duarte Coelho, seu do
natário, o fundador da vila de Igcurassu, em 1535. Logo em
seguida, em aliança com os tabajaras, expulsou os caetés ido
local onde edificou a nova e florescente vila de Olinda, em
1587.
Olinda, trepada em um monte de verdejante beleza;
olhando o azul do céu e a resplandecência morna no mar
tropical, foi a sua capital, Esta foi durante longo tempo o
mais importante povoamento do norte, rico e cheio de fausto
com as riquezas dos engenhos de açúcar plantados na várzea
do Capibaribe.
Nos arrecifes, ao sul de Olinda, o ancoradouro natural
fêz nascer mais tarde um nôvo povoamento, o Remfe, que
Maurício de Nassau transformou no século XVIl iia im
portante capital do Brasil holandês, e no mais importante
ponto comercial da região.

3— principais cidades do Brasil


A primeira cidade do Brasil foi a de Salvador, também
chamada de São Salvador, construída por TOMÉ DE Souza,
em 1549, na baía de Todos os Santos. Para erguê-la o go-
vernador-geral teve a ajuda eficiente dos jesuítas, chefiados
pelo Pe. Manuel da NÒbrega e dos índios, liderados por
Diogo Álvares, o Caramuru, bem como de antigos colonos
que moravam na vila dio Pereira, vindos para o país com o do
natário da capitania, Francisco Pereira Coutinho.
Um pouco mais tarde, em 1.° de março de 1565, ESTÁ-
cio DE SÁ fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Jor
neiro, que foi assim a segunda cidade do Brasil.
Ela se situou a princípio entre os morros do Pão de
Açúcar e Cara de Cão. Logo depois Mem de Sá, em 1567,
a transferia para o morro de S. Januário, depois chamado
Morro do Castelo, eis que o primitivo local não dava margem
ao seu amplo desenvolvimento
No nordeste, Olinda é a cidade-avòzinha de Pernambuco,
e ao fim do século XVI foi também fundada por Frutuoso
Barbosa a cidade de Füipéia de Nossa Senhora das Neves,
depois Paraíba e agora Jüão Pessoa.
Quanto às capitais, o Brasil teve três. A 1-^
Salvador, até 1763 capital do Brasil, quando o Marques DE
84 Curso de Organização Social e Política Brasileira
,/
Pombal transferiu a sede da colônia para o sul, no Rio de
Janeiro, por torça da influência do ciclo do ouro e das de
fesas da colônia contra as colônias platinas da Espanha.
Em 21 de abril de 1960 foi inaugurada a nova capital
do Brasil, Brasília fundada pelo Presidente Juscelino
Kubitschek. Esta última capital revela a tendência para
uma mais nítida ocupação do interior do Brasil, na expan
são e ocupação efetiva das suas imensas fronteiras.

QUESTIONÁRIO

1 —
Qual a primeira feitoria fundada no Brasil?
2 —
Quais as principais feitorias de Pernambuco?
3 —
Quais as vilas fundadas por Duarte Coelho?
4 —
Que papel representa Maurício de Nassau na funda
ção de Recife?
5 — Quais as principais cidades do Brasil?
6 — Quantas capitais teve o Brasil? Quais foram?

Capítulo XXXIII

DESENVOLVIMENTO URBANO DO BRASIL


1 — A tendência à urba/nização
O Brasil nos derradeiros anos apresenta uma tendência
irresistível para a ujrbanização. As cidades crescem e se agi
gantam. A população rural diminui constantemente diante
do aumento crescente das cidades. Grandes metrópoles sur
gem, como centros comerciais, industriais e culturais.
O percentual de população rural e urbana foi o seguinte
nos últimos recenseamentos:
População rural População urbana
1940 69% dl%
1950 64% 36%
1960 54% 46%

O ano de 1970 possivelmente assistirá a uma igualdade


no número da composição da sociedade rural e urbana.
Para efeito de comparação, deve-se lembrar que a
União Soviética atingiu tal igualdade há poucos anos, em
1960. "
Desenvolvimento Urbano do Brasil 85

Contudo, a Inglaterra, já no século passado, por volta


de 1850, isto é, 120 anos antes do Brasil, tinha uma popu
lação urbana igual à população rural.

2 — Caráter das cidadas brasileiras j


As cidades brasileiras, quando fundadas no século XVI,
assim como as primeiras vilas, marginavam o litoral.
A colonização e a urbanização começaram pela costa.
Salvador, Rio de Janeiro e o Recife situaram-se em am
plos ancoradouros naturais, como excelentes pontos comer
ciais, de entrecruzameiito de relações econômicas.
Além desta função comercial tinham ainda o sentido
de defesa contra os indígenas, cs estrangeiros e os piratas,
que também pilhavam o litoral brasileiro.
Por isso surgiram de início na orla litorânea: Olinda,
Recife, Salvador, Vitória, Cabo Frio, R:o de Janeiro, San
tos, São Vicente, Itanhaém, Iguape. Eram por vêzes cidades-
fortalezas, ao lado de sua função colonizadora e comercial.
A localização na área litorânea também era necessária
em face da agiúcultura canavieira que se desenvolveu na
mata. As cidades e vilas dependiam em grande parte dos
engenhos, a sua miséria e desalinho contrastavam com a
riqueza e o resplendor dos engenhos.
Eram lugares mal construídos e sem um planejamento
adequado, habitados por pma pequena população.
Bem pequena e rarefeita era a população urbana. Em
1750 a população do Rio de Janeiro montava apenas a 25.000
habitantes. Esta, juntamente com Recife e Salvador, eram
os mais importantes núcleos populacionais da época no
Brasil.
A própria população de Portugal na época manteve-se
em um ritmo bem pequeno de aumento. O 1.® censo demo
gráfico feito em Portugal, em 1527, registra 278.108 fogos
(ou lares), ou 1.326.000 habitantes, numa taxa de 4 a 6
pessoas por unidade familiar. É de espantar que tão pouca
gente tenha realmente construído um tão grande império
colonial.
Com o ciclo do gado e do ouro, outras cidades tiveram
explicada a sua origem e desenvolvimento.
Os criadores de gado, ao mesmo tempo que penetraram
pelo interior a dentro, com os seus rebanhos e suas tropas
de muares, consolidavam a ocupação, do interior. A ativi
dade pastoril foi a fonte que deu origem a inúmeras cidades,
86 Curso de Organização Social e Política Brasileira
/;

como Pmiso Sêco, Pouso Alto, Pcmso Alegre, Campinas, Cam


pina Grande, Vacaria, Curral. Por ser bastante dispersiva
a atividade pastoril, outros fatores consolidaram o feitio
original da formação de tais cidades:
Outras aglomerações urbanas surgiram ademais no sul
com a descoberta das minas de ouro. Aglomerados urbanos
a princípio sem importância que se consolidaram, como Vila
Rica, Mariana, Sabarâ, Caeté, Queluz, Cataguases, outrora
centros de exploração do ouro.
Posteriormente surgiram grandes cidades-mercaéos,
como Campina Gramãe na Paraíba e Caruaru em Pernam
buco; cidades industriais, como Santo André e São Bernardo,
onde se situa enorme parque industrial automobilístico, São
Ccbetano do Sul, no Estado de S. Paulo, Volta Redonda com
uma enorme usina siderúrgica, no Estado do Rio de Janeiro;
cidades turísticas e de repouso, como Ganranhuns em Per
nambuco, Caxamhu, Camhuquira, e tantas outras.
Nos séculos XIX e XX a epopéia da ferrovia, do ca
minhão e do ônibus forçou a penetração no interior, dando
margem à possibilidade de formação de novas cidades e à
consolidação de outras existentes nos grandes centros de
entrecruzamento de rotas comerciais, servidas pelas estra
das pavimentadas.
A tecnologia e a modernização aceleraram o progresso
das cidades.. As capitais foram remodeladas. No início do
século XX Pereira Passos remoderniza a cidade do Rio de
Janeiro, mais tarde também Antônio Prado, faz o mesmo
com S. Paulo, outras cidades acompanham o ritmo de mo
dernização.
Outras cidades são construídas artificialmente, median
te um plano bem elaborado, como Belo Horizonte, Goiânia e
BrasiMa, esta última com um admirável projeto arquite
tônico.

3 — Cresdm&nio das cidades brasileiras

Durante o Brasil colonial, as principais cidades eram


Salvador, Rio de Janeiro e Olinda, esjta substituída no sé
culo XVII pela importância de Recife; durante a época da
dominação holandesá. Por tôda a colônia, estas cidades tive
ram a sua hegemonia inconteste na imensa região.
O Recife, em Pernambuco, pela influência do gênio po
lítico e administrativo de Maurício db' Nassau, de "simples
Desenvolvimento Urbano do Brasil 87

povoado de pescadores em volta de uma igrejinha", foi du


rante o século XVII a melhor cidade da colônia.
Salvador e Rio de Janeiro, pelo seu caráter de capitais
— o Recife também foi a capital do Brasil holandês —,
como centros políticos, de administração, de cultura e de
defesa militar, associados aos elementos naturais de beleza,
pelo movimento comercial dos seus portos, conquistaram a
hegemonia urbana a partir do século XVIII. O Rio de Ja^
neiro teve a sua população aumentada de 25.000 para 100.000
habitantes no período de 17*50 para 1800.
Durante o Brasil imperial as cidades mais importantes
continuaram sendo o Rio de Janeiro, Salvador, o Recife,
desabrochando São Paulo ao fim do Império para a disputa
de tal primazia.
Já na época da 1.® República, continuaram as ditas ci
dades em primeiro plano, ultimando-se a progressiva ascen
dência de S. Paulo.
No ano de 1970, de acordo com o recenseamento feito,
era a seguinte a população das capitais dos Estados brasi
leiros:

l.o São Paulo — 5.901.533 habitantes


99
2.0 Rio de Janeiro — 4.296.782
»

99 99
3.0 Belo Horizonte — 1.232.708
99
4.0 Recife — 1.078.819 99

99
5.0 Salvador — 1.000.647 99

6.0 Porto Alegre — 885.567 99 99

99
7.0 Fortaleza — 842.231 99

8.0 Belém — 642.514 99 99

9.0 Curitiba — 603.227 99 99

lO.o Brasília — 544.862 99 99

ll.o Goiânia — 388.926 99 99

12.0 Niterói — 324.367 99 99

13.0 Manaus — 303.166 99 99

14.0 Natal — 270.124 99 99

15.0 Maceió — 269.415 99 99

99 99
16.0 São Luiz — 267.321
17.0 Teresina — 230.168 99 99

18.0 João Pessoa — 221.484 99 99

19.0 Aracaju — 188.333 99 99

20.O Florianópolis -- 143.101 99 99

21.0 Vitória — 135.570


99 99

22.0 Rio Branco — 72.835


99 99
" Curso de Organização Social e Política Brasileira
Outras grandes cidades, algumas delas inclusive com
mais população que a das capitais, são as seguintes, segundo
dados e estimativas de 1967:

1. Santo André (SP) 417.275


2. Santos (SP) 345.459
3. Campinas (SP) 333.947
4. Nova Iguaçu (RJ) 333.921
5. Osasco (SP) 285.160
6. Duque de Caxias (RJ) 258.781
7. Juiz de Fora (MG) 224.275
8. Guarulhos (SP) 222.275
9. Ribeirão Preto (SP) 197.045
10. Olinda (PE) 190.343

Calcula-se que em 1970 a porcentagem da população ur


bana sera de 54% sobre o total, e em 1975 será de 57%.

QUESTIONÁRIO

1 — Existe uma tendência à urbanização no Brasil?


2 (^ais os percentuais da população urbana e rural
em 1940, 1950 e 1960 no Brasil?

4 ^ influência do gado na formação de algumas


cidades brasileiras?
5 - Qual a influência do ciclo do ouro na formação de
algumas cidades brasileiras?
6 — O que são cidades-mercados?
7 Que se entende por cidades-industriais?
8 — (^uais as principais cidades do Brasil 'durante a co
lônia?
9 — Quais as principais cidades do Brasil durante o Im
pério?
10 — Quais as principais cidades do Brasil durante a Re
pública?
11 — Que cidades foram construídas artificialmente?
12 — Quais as mais populosas cidades do Brasil em 1970?
6.» PARTE

A EVOLUÇÃO POLÍTICA DO BRASIL

capítulo XXXIV

^ AS TENDÊNCIAS DA EVOLUÇÃO POLÍTICA


DO BRASIL

1 — Os regimes políticos do Brasil


O Brasil atravessou na sua história de quase cinco sé
culos a experiência de diversos regimes políticos. Foi colo-
ma, vice-remo, reino, império e república. Adotou diversos
tipos de govêrno, dos quais os mais importantes foram,
desde a independência, a monarquia parlamentar e a repu
blica presidencial.
Durante o império a forma predominante foi a monar
quia parlamentar, mas durante a república houve um mo
mento, em 1961, em que o Brasil adotou o parlanientarismo,
para retornar logo em 1963 ao regime presidencialista.
2 — Fases da evolução política: uma síntese
A descoberta do Brasil não provocou inicialmente um
grande surto colonizador, pois Portugal estêve preocupado
com o comércio com as índias.
Somente cêrca de 80 anos depois,, a atenção do govêrno
português se voltou para o país recém-descoberto. Foi en
viada uma expedição chefiada por Martim Afonso de
Souza, e para melhor administração da colônia se adotou
o sistema das capitemos hereditérias. _
Em 1549 a mudança do sistema levou à criaçao de
um Govêrno Geral no Brasil, sediado em Salvador. Em i^^
o Brasil foi dividido em dois governos, o segundo com s
90 Curso de Organização Social e Política Brasileira

no Rio de Janeiro, mas logo se processou a unificação de


ambos em um só governo com sede na Bahia.
No século XVIII, exatamente em 1763, foi o Brasil ele
vado à categoria política mais importante de Vice-Reino
retornando o Rio de Janeiro a ser a capital novamente!
A crise política européia advinda com a era napoleônicâ
forçou a emigração da família real para o Brasil em 1808,
sendo o país elevado ainda à categoria de Reino Unido' a
Portugal e Algarves.
A 7 de setembro de 1822 foi proclamada a indepen
dência, formando-se o Império do Brasil, que perdurou até
15 de novembro de 1889, com a proclamação da República.
QUESTIONÁRIO
1 —" Quantos regimes políticos atravessou o Brasil desde
o seu descobrimento?
2 — Quais foram êles?

Capítulo XXXV

O REGIME DAS CAPITANIAS

X — O primitiva povoamento do Brasil e o sistema de


capitanias
Foi somente com o Reinado de D. João III que êste
monarca resolveu colonizar sistematicamente o Brasil No
início do século a atenção de Portugal estava voltada prin
cipalmente para as índias. O dito monarca criou em 1534
o sistema de capitanias. ^
Antes dominava o sistema das feitorias e é conhecida
na história a expedição de Martim Afonso de Souza, que
fundou em 1532 a vila de São Vicente, mobilizando o' pri
meiro contingente humano apreciável para o povoamento
primitivo do país.
Não ousando o monarca aplicar os recursos do governo
português numa aventura ainda fascinante, perigosa e per
turbadora, pela própria carência de recursos financeiros
para empreendimento de tal vulto, resolveu D. João III
implantar o regime de capitanias hereditdrüis, segundo uma
experiência já existente nas ilhas da Madeira e de Açores
o Regime das Capitanias 91

Foi por isso que entre 1532 e 1534, D. João III dividiu
o Brasil em 15 regiões ou lotes, se estendendo de diversos
pontos do litoral até o Meridiano de Tordesilhas, a 370
léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde, Doou estes lotes
a 12 donatários.
A palavra capitania já era empregada na organização
administrativa de Portugal e Espanha. Recebeu na ocasião
um aditivo: particuldr e Jiereditâna. As capitanias eram
assim particulares, pertenciam aos donatários, e hereditá
rias, transmissíveis por herança aos sucessores legítimos.
Foram as seguintes as capitanias doadas, com os i'es-
pectivos donatários:
1) Maranhão I — AiRES DA CUNHA;
2) Maranhão II — Fernando Alves de Andrade;
3) Ceará — Antonio Cardoso de Barros;
4) Rio Grande — JOÃO DE Barros;
5) Itamaracá — Pero Lopes de Souza;
6) Pernambuco ou Nova Lusitânia — Duarte Coelho
Pereira *
7) Bahia de Todos os Santos — Francisco PerBIRA Cou-
tinho;
8) Ilhéus — Jorge de Figueiredo Correia;
9) Pôrto Seguro — Pero de Campos TourinhO;
10) Espírito Santo — Vasco Fernandes Coutinho;
11) São Tomé ou Paraíba do Sul — Martim Afonso de
SOUZA;
12) Santo Amaro — Pero Lopes de Souza;
13) São Vicente — Martim Afonso de Souza;
14) Santana — Pero Lopes de Souza.
Ainda depois, em 1539, foram doadas a ilha de Trin
dade a Belchior Camacho e de Itaparica a D. Antonio
DE Ataíde. Antes o rei D. Manuel também havia doado
a ilha de São João, a atual Fernando de Noronha ao dona
tário FERNÃO de Loronha, ao qual se deve o nome de hoje.
Ainda no século XVIII foram doadas outras capitanias,
mas o período áureo das capitanias é aquele que se inter
cala de 1534 e 1549, época da instalação do Governo Geral.
2 — A oTganizdção do sisteTUd das odpitdn/íds
As idéias fundamentais do regime das capitanias con
sistiram em acelerar o povoamento e a ocupação do Bra
à custa dos donatários.
92 Curso de Organização Social e Política Brasileira

O sistema era formado de uma pirâmide poderosa cons


tituída de três elementos: a) o rei e doador, no alto de tôda
a estrutura, com as funções de protetor geral; b) os á&rui-
tários, que recebiam as capitanias hereditárias como doa
ções do monarca; c) os colonos ou sesmeiros.
Os donatários usufruíam de inúmeros direitos, entre
êles destacam-se os seguintes: o direito de usar os títulos
de capitão-mor e governador; o de legar as capitanias aos
herdeiros (masculino ou feminino), salvo nos casos de trai
ção à coroa; o de fundar vilas e feitorias; o de conceder
sesmarias a cristãos que as requeressem com condições de
estabelecimento; o de cobrar diversos tributos; o de exercer
dentro de certas limitações o poder judiciário; a adminis
tração de províncias, entre inúmeros outros.
Entre os seus principais deveres mencionam-se: garan
tir ao monarca o pagamento de 1/5 do mineral explorado
bem como o monopólio de todo o pau-brasil, das drogas e
especiarias e a obrigação de povoar e defender as capitanias
com os seus próprios recursos.
Por sua vez os colonos ou sesmeiros tinham os direitos
de somente pagar o tributo do dizimo, exportar e importar
produtos de Portugal, podendo comerciar livremente de uma
para outra capitania. As sesmarias eram as largas exten
sões de terras dadas às pessoas para aproveitá-las e cul
tivá-las.
Dois documentos jurídicos tinham a função de formali
zar o regime das capitanias, mediante a carta de doação
e o f(yral. A carta de doação era uma ordem real concedendo
a capitania a um dos súditos e lhe transferindo uma par
cela da autoridade real. O foral o monarca determinava
a distinção com que a população devia tratar respeitosa
mente o Rei e os donatários quanto a "direitos, foros, tri
butos e cousas".

3 Os resultados e conseqüências das capitanias


As capitanias, numa época de extrema dificuldade de
comunicações e de pouca gente para o povoamento de uma
larga porção do território, tiveram em parte o seu sucesso.
Alguns foram um surpreendente êxito; uma minoria, é ver
dade. Outras fracassaram, em sua maioria.
As capitanias que se^ consolidaram com mais sucesso
foram as de Nova lAcsitâ/nia ou Pernambuco e a de «São
Vicente.
o Regime das Capitanias 93

Na de Pernambuco se fundaram duas vilas, Igaraçu e


OKnda, esta última sendo a capital de DUARTE COELHO.
Ficou acima do rio São Francisco,
Acima da capitania de Pernambuco ficou a outra capi
tania de Itamaracá, onde foi fundada a vila da Conceiçáoj
Ainda ao norte desta as capitanias do Rio Grande, Ceará
e Maranhão, que não foram colonizadas na época.
O atual Estado da Bahia abrangeu três capitanias: a
de Pôrto Seguro, Ilhéus e Bahia. Na de Porto Seguro o seu
donatário construiu engenhos e desenvolveu a pesca, mas
com a sua morte foi campo de pilhagem dos aimorés; na
de Ilhéus, o seu donatário não veio ao Brasil e o seu subs
tituto não pôde impedir a sua ruína pelos ataques dos índios
e desordens dos colonos; na Bahia, o seu donatário foi apri
sionado pelos índios da ilha de Itaparica e morto pelos
mesmos.
Depois, ao sul de Pôrto Seguro vinha a capitania do
Espírito Santo, cujo donatário perdeu tudo o que tinha no
Brasil, entregou-se ao vício do fumo e morreu na miséria.
No atual Estado do Rio de Janeiro, foi doada a capi
tania de São Tomé e o seu donatário fundou o povoamento
chamado Vila da Rainha, plantou açúcar, mas a sua obra
foi destruída pelos índios.
A capitania de Santo Amaro abrangia parte das terras
de São Paulo.
A capitania de São Vicente, também em S. Paulo, teve
sucesso com as plantações e os engenhos de açúcar. Mar-
TiM Afonso de Souza, seu donatário antes mesmo da doa
ção, havia fundado a vila de São Vicente em 1532, nunca
mais voltou à capitania, dirigida pelos administradores dos
donatários, um dos quais, de nome Brás Cubas, fundou em
1546, a vila de Santos.
Destarte só em Pernambuco e São Vicente houve uma
real consolidação do povoamento e de fixação do homem ao
solo, entre ambos rareando alguns núcleos de povoamento
espalhados aqui e acolá, na imensidão do país recém-des-
coberto.
Mas as causas gerais do insucesso das diversas capita
nias foram principalmente as seguintes: os ataques perma
nentes dos selvagens, a imensidão das terras a serem povoa
das, a dificuldade de comunicações com Portugal, a insufi
ciência dos capitais particulares, eis que o tesouro português
se encontrava exaurido com a sua aventura marítima.
94 Curso de Organização Social e Política Brasileira

O regime das capitanias foi assim o primeiro momento


sério da aclimatação portuguêsa no litoral e o ponto de
partida para a sua extraordinária atividade colonizadora.

QUESTIONÁRIO
1 — Por que D. JoÃO 111 resolveu colonizar o Brasil por
meio das capitanias hereditárias? Em que ano?
2 — Em quantas capitanias foi dividido o Brasil?
3 — Quais os direitos dos donatários?
4 — Quais os deveres dos donatários?
5 — Que se entende por carta de doação?
6 — Que se entende por foral?
7 — Quais as capitanias que mais floresceram?
8 — Quais as primeiras vilas fundadas no Brasil?
9 — Quais as vilas fundadas nas capitanias de Itamaracá
e de Pernambuco?
10 — Qual a velha capital da capitania de Pernambuco?
11 — Quais as conseqüências e resultados do regime das
capitanias?
12 — Quais as causas mais importantes que motivaram as
dificuldades do regime das capitanias?

Capítulo XXXVI

GOVÊRNO GERAL E VICE-REINADO

1 — A criação do govêmo geral

A divisão do Brasil em capitanias, representando um


esforço inicial de colonização, podia contudo comprometer
a unidade da região recém-descoberta. Daí a necessidade
evidente de um governo geral, com mais amplos podêres e
recursos para manter tal unificação era permanente crise
pela pressão dos fatores de uma geografia de proporções
continentais.
Assim D. João III resolveu em 1548 sobrepor-se aos
podêres das capitanias e dos donatários, no pleno exercício
dos podêres da própria coroa. Foi uma tentativa, talvez
deliberada, de unificação da imensa região.
Um govêrno geral com mais recursos financeiros e eco
nômicos, com mais poder militar, podendo assistir mais de
perto os colonos, se admitiu como indispensável. Foi assim
Govêrno Geral e fVice-Reinado 95

resolvido o estabelecimento de um Govêmo Geral, sediado


na Bahia, para que o rei comprou a mesma capitania aos
herdeiros de Francisco Pereira Coutinho.

2 — Os Regimentos dos Goveimadores


A estrutura de sistema do Govêrno Geral foi montadaj
substituindo por conseguinte o regime das capitanias here
ditárias.
Para êste efeito foi estabelecido o Regimembo Geral de
17 de dezembro de 1548, que vigorou por mais de um sé
culo. Êste regimento foi entregue ao primeiro governador
nomeado TOMÉ de Souza e vigorou até 1667, aplicado por
26 governadores.
Em 23 de janeiro de 1667 foi expedido nôvo Regimmto
Geral, entregue ao 27.° governador do Brasil ROQUE DA
Costa Barreto.
Anteriormente, em 14 de abril de 1665, havia sido ex
pedido um Regimento para ser aplicado exclusivamente no
Estado do Maranhão, mais distante do centro do govêrno
geral, a princípio na Bahia.

3 — Organização do 'nôvo sistema administrativo do


govêmo geral
A estrutura do nôvo sistema administrativo se compu
nha dos seguintes elementos: o govemador-geral, como a
autoridade suprema da colônia; um ouvidor-geral, a quem
se atribuíam os negócios da justiça; um jn-ovedor-mor da
Fazenda, encarregado do fisco (arrecadação dos impostos
devidos à realeza, como os quintos de ouro, os dízimos, as
sizas e demais proventos); o capitão-Tnor da costa, tendo
por incumbência a defesa e proteção da costa.
Esta organização era completada por agentes adminis
trativos de menor categoria e gente da Igreja, entre êles
se distinguindo os seguintes: o tesoureiro das rendas, um
almoxarife dos mantimentos, um mestre de fortificações,
um vigário da igreja matriz, escrivães e funcionários.
Posteriormente foi criado pelo Papa o bispado do Bra
sil, e assim ao vigário da igreja matriz se acrescentou em
1551 o Bispo de São Salvador.
O 1.° Governador-Geral do Brasil foi TOMÉ DE Souza,
que fundou em 1549 a cidade de Salvador, sede e capital da
colônia, como sede do govêrno até 1776, data da transfe
rência da capital para o Rio de Janeiro.
95 Curso de Organização Social e Política Brasileira

^^4 — Criação de novos órgãos administrativos


Com a complexidade crescente da Colônia, novos e su
cessivos órgãos de administração pública e de justiça foram
sucessivamente criados. Entre êles se destacam a Adminis
tração dos índios^ para a defesa dos indígenas brasileiros
diante da sanha escravizadora dos brancos: a Intendênda
do Ouro para a cobrança do "Quinto" devido à Coroa, em
seguida ao descobrimento do ouro, fiscalizando e superin
tendendo os serviços da mineração; assim como a chamada
Intendênda dos Díamcmtes, para dirigir a exploração dos
diamantes no Distrito Diamantino.
Mas ainda possuia relêvo a administração da justiça.
Como ela era feita? Para o dito fim foram criados os car
gos de juizes onrdiná/rios e de juizes de fora, como órgãos
de decisão em 1.® instância; as decisões de 2.^ instância
cabiam inicialmente aos tribunais portuguêses, como o
Desemhargo do Paço, a Relaçato do Pôrto e a Casa de Su-
p- licações.
Posteriormente com a mesma finalidade, para economia
e celeridade processual, tais providências eram em 2.^ ins
tância resolvidas no próprio Brasil, mediante a Relação da
Bahia, criada em 1609 e depois a Relação do Rio de Jcn-
neiro organizada em 1751.
5 — O direito vigente na Colônia
Sobre a legislação dominante no Brasil-colônia, convém
salientar que as suas raízes datam da própria vida lusitana.
Quando o Condado Portucalense se desmembrou do
B,ÊÍno de Leão, Castela e Galiza, formando-se como nação,
em 1139, o nôvo reino teve a sua vida regulada por leis de
aplicação local limitada aos concelhos ou distritos. Tais leis
tanto podiam ser provenientes do próprio rei, como dos
senhores feudais, dos condes, barões, etc. A nomenclatura
usada para designar tais leis era o nome de forais.
Com o tempo, multiplicaram-se as leis, fazendo-se sen
tir necessidade de uma evolução, mediante leis com validade
em todo o país, chamadas Xjeis Gerais.
Ainda a excessiva confusão das leis gerais levou à ten
tativa de unidade da legislação, ordenando-as em um do
cumento único. Foram assim as leis portuguêsas compiladas
em ordenações.
A 1.^ compilação das leis portuguêsas foi feita em 1446
durante o reinado de Dom Afonso V e daí seu nome de
Ordenações Afonsinas.
Governo Geral e Vice-Reínado 97

A 2.^ compilação data de 1521 quando Dom Manuel


substituiu a velha compilação por uma outra que receb^
o nome de Ordenações Manoelmas, vigorando até 1603.
A 3.® compilação provém de Filipe II (rei de Espanha)
data de 1603, com o nome de Ordenações Füipinas,
As Ordenações Manoelinas e depois as Ordenações Fi
lipinas foram o direito vigorante no Brasil colonial. Era
tal legislação, complementada pelos decretos do Rei, que
tinha a sua plena aplicabilidade no Brasil colônia.

6 — Unidade, divisão e nova unificação cha Colônia


O sistema estabelecido com o Govêrno-Geral visava
manter a unidade da Colônia. Esta unidade política foi po
rém diversas vêzes cindida.
Assim sendo é que de 1572 a 1577 a administração do
Brasil foi exercida por dois governos, um localizado na Ba
hia e outro no Rio de Janeiro.
Em 1606 e até 1612 as capitanias do Espírito Santo,
Rio de Janeiro e S. Paulo foram desmembradas para for
mar a chamada Repartição do Stil, ficando fora da jurisdi
ção da Bahia.
Em 1621 o Estado do Maranhão foi criado, conglobando
as terras imensas que se estendiam do Ceará até o Amazo
nas, submetido diretamente ao govêrno de Portugal.
As causas que levaram à criação do Estado do Mara
nhão foram entre outras as seguintes: as dificuldades de
navegação da costa norte para a Bahia, por motivo das cor
rentes marinhas e dos ventos, que não foram superados com
êxito pelas frágeis embarcações da época; a maior faci
lidade das comunicações diretas entre o Maranhão e Portu
gal; a tendência da Espanha, então dominante, de subdivi
dir as regiões debaixo do seu império.
É de se lembrar que, algumas vêzes, partes do território
brasileiro ficaram sujeitos à jurisdição estrangeira. Tanto
o Rio de Janeiro de 1555 a 1567 como o Maranhão estive
ram dominados pelos franceses, como também o nordeste
do Brasil de 1630 a 1654 ficou sujeito à dominação flamenga.
Mas nos meados do século XVIII Portugal tudo fêz
pela unidade colonial. Durante a época de D. José (1750-
1777), o seu dinâmico ministro o Marquês de Pombal
unificou novamente o Brasil, transferindo em 1763 a ca
pital da Colônia para o Rio de Janeiro.
gg Curso de Organizagão Social e Política Brasileira

7//— A sitvxição das capitanias nos séculos XVIII


e XIX

No século XVI, especialmente após a criação do Go-


vêrno-Geral, houve a tendência de Portugal a extinguir as
capitanias hereditárias e particulares, reavendo as suas ter
ras, não obstante algumas tendo sido ainda doadas. Essa
a tendência irreversível à centralização administrativa.
As capitanias particulares transformaram-se em capi
tanias da coroa, extinguindo-se em 1766.
A partir de então a palavra capitania tomou um sen
tido diferente, para designar tão-sòmente as divisões terri
toriais da Colônia.
Deu-se a divisão das capitanias em capitanias gerais
e capitanias subalternas, as primeiras sendo as de maior
importância, e as segundas subordinadas às anteriores.
No ano de 1808, época da vinda de D. JOÃO para o
Brasil, era a seguinte a divisão territorial do Brasil:
a) Dez capitanias gerais: Grão-Pará, Maranhão, Per
nambuco, Bahia de Todos os Santos, Rio de Janeiro, Rio
Grande de São Pedro, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso;
b) seis capitamas subalternas: São José do Rio Negro
(sujeita à capitania do Grão-Pará), Piauí (dependendo do
Maranhão), Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba (su
jeitas a Pernambuco), Espírito Santo (subordinada à Ba
hia).
Durante a época da permanência de D. JOÃO no
Brasil criaram-se duas novas capitanias: Alagoas e Sergipe.
Além disso ficaram autônomas as capitanias do Rio Grande
do Norte, Espírito Santo e Santa Catarina.
Qual a organização administrativa das capitanias?
Cada capitania era governada por um capitão-geral
ou capitão-mor, ao qual se subordinavam as autoridades ad
ministrativa e do fisco, e que além disso comandava as
tropas de linha. Nas vilas ou cidades existia um núcleo de
formação popular: as câmaras, constituídas de um juiz, que
era o presidente, de vereadores e de um procurador com au
toridade delimitada. As câmaras eram encolhidas pelos cha
mados homns-bons.
Com a Independência, em 1822, as capitanias, além da
chamada Província Cisplatina incorporada ao país em 1821,
passaram a constituir as Províncias do Império.
Govêmo Geral e Vice-Reinado 99

8 — Os Vice-Reis

Os Governadores-Gerais tintam êsse título, simboli


zando as pessoas que dirigiam o Brasil em nome de Por
tugal. Em 1640, contudo, o Governador D. JORGE MAS-
CARENHAS, Marquês de MONTALVÃO, teve a outorga
do título de vice-rei do Brasil. Foi este assim o primeiro
vice-rei do Brasil.
A residência oficial do vice-rei era Salvador, mas em
1768 passou a ser o Rio de Janeiro, com a transferência da
capital para esta cidade. '
O primeiro vice-rei que governou o Brasil do Rio de
Janeiro foi o CONDE DA CUNHA,o último foi D. MARCOS
de NORONHA, oitavo CONDE DOS ARCOS. Mas desde
1808 o Brasil tornou-se a sede da monarquia, com a vinda
do príncipe D. JOÃO e da família real portuguêsa. Termina
destarte em 1808 o govêrno dos Vice-Reis.

QUESTIONÁRIO

1 — Quando se criou o Govêrno Geral no Brasil?


2 — Quais os motivos que levaram a tal organização do
Govêrno-Geral?
3 — Que sabe sobre os Regimentos dos Governadores?
4 — Qual a organização do nôvo sistema administrativo?
5 — Quais as principais autoridades criadas pelo sistema
do govêrno-geral?
6 — Como se administrava a justiça?
7 — Qual o direito vigente na Colômbia?
8 — Que se entende por Ordenações Afonsinas?
9 — Que se entende por Ordenações Manoelinas?
10 — Que se entende por Ordenações Filipinas?
11 — Qual a situação das capitanias desde 1776?
12 — Quais eram as capitanias gerais?
13 — Quais eram as capitanias subalternas?
14 — Quem dirigia as capitanias?
15 — Quais as funções de capitão-mor?
16 — Como se constituíam as câmaras?
17 — Quando foi criado o cargo de Vice-Rei?
18 — Quando terminou o govêrno dos Vice-Reis?
Capítulo XXXVII

O BRASIL-REINO E A INDEPENDÊNCIA

1 — A vinda do Prindpe Regente D. JOÃO para o


Brasil

Com a epopéia das guerras napoleônicas e a ameaça


da invasão de Portugal pelas tropas francesas, por fôrça
da sua aliança com a Inglaterra, a famíilia real emigrou
para o Brasil. Na época governava Portugal o Príncipe-
Regente D. JOÃO, pois a rainha D. MARIA se achava
doente, sofrendo de uma doença mental.
D. JOÃO chega ao Brasil em 1808. De passagem pela
Bahia, por influência de JOSÉ DA SILVA LISBOA, depois
Visconde DE CAIRU, decreta a abertura dos portos bra
sileiros ao comércio internacional, abolindo assim o mono
pólio do comércio com Portugal. Esta medida elevou os
preços dos principais produtos de exportação (açúcar e
algodão), sendo útil ao progresso do país. De outro lado
consolidou uma burguesia mercantil e favoreceu os grandes
proprietários, dando-llies mais fôrça e influência econômica.
O Rio de Janeiro transformou-se com a vinda da fa
mília real. Apesar de bonachão na aparência, tinha D. JOÃO
um espírito prático e progressista. Muitas medidas tomou
úteis para o progresso do Brasil, em plena expansão.
Entre as principais medidas podem ser mencionadas
as seguintes: a fundação da Biblioteca Nacional, do Jardim
Botânico, da Academia da Marinha, da Fábrica de Pólvora,
do Banco do Brasil, da Imprensa Régia.
Amparou as artes, fazendo vir ao Brasil uma Missão
Artística Frandesa, da qual fêz parte TAUNAY. Procurou
desenvolver a indústria siderúrgica, embora com pouco êxito,
buscando técnicos europeus como VARNHAGEN e ECH-
WEGE.
Cêrca de 15.000 emigrados vieram para o Brasil, cuja
capital se modernizou para abrigá-los convenientemente, na
sua qualidade de elementos representativos da nobreza se
nhoria!
Afinal D. JOÃO elevou o Brasil à categoria de Reino
Umdo ao de Portugal e Algarves, em 15 de dezembro de
1816. Morrendo então D. MARIA em 1818 o príncipe re
gente foi coroado no Brasil com o título de D. JOÃO VI.
o Brasil Reino e a Independência v 101

2 — A independência do Brasü
A verdade é que, embora já expulsos os franceses de
Portugal, D. JOÃO VI estava inteiramente acomodado à
vida no Brasil. Não desejava mais voltar à terra i^'^tal.
Então explodiu em 1820, na cidade do Porto, em Portugal,
uma revolução, exigindo antes de tudo o seu retorno a
Portugal, deixando o seu filho PEDRO como príncipe re
gente. Mas a independência do Brasil estava próxima. O
sonho de TIRADENTES em breve se realizaria.
O Brasil já haviá^ se desenvolvido consideràvelmente.
As ondas ideológicas do liberalismo favoreciam o clima de
emancipação do pais frente ao jugo colonial. As colônias
espanholas se emancipavam. Era a vez do Brasil.
D. JOÃO, sentindo tais aspirações, disse ao seu filho:
"PEDRO, se o Brasil se separar, antes seja para ti, que
me hás de respeitar do qu^ para algum dêsses aventureiros".
Apoiado principalmente pelos brasileiros, assessorado
pelo grande espírito do estadista JOSÉ BONIFÃCIO, pro
clamou a 7 de setembro de 1822 a independência do Brasil,
unido e monárquico. '
Na época, em 1822, era o Brasil uma nação agrícola,
como permaneceria no império como uma grande expor
tadora de mercadorias tropicais, essencialmente o açúcar,
o café e o algodão (respectivamente 45.644.800, 24.318.304
e 5.208.000 de libras, em pêso).
Era esta nação, nova, uma experiência sui generis no
mundo tropical, que despertava para o mundo na aurora
do século XIX.

QUESTIONÁRIO

1 — Qual a razão que levou o príncipe regente D. JOÃO


a transferir a sede da monarquia pòrtuguêsa para o
Brasil?
2 Quais as conseqüências econômicas da abertura dos
portos do Brasil ao comércio internacional?
3 — Quem elevou o Brasil à categoria de Reino-Unido? Em
que ano?
4 — Que medidas foram tomadas para o progresso do
Brasil durante a permanência de D. JOÃO como prín-
I cipe regente e monarca?
5 — Como se deu a Independência?
Capítulo XXXVIII

O IMPÉRIO BRASILEIRO

1 — A Assembléia CoTistituinte e o Império


Convocada a Assembléia Constituinte para votar uma
constituição, esta se reuniu com 90 deputados constituintes,
funcionando no período de 1822 a 1823. O Imperador D.
PEDRO I a dissolveu, contestando o seu liberalismo, em
proveito das suas tendências autoritárias.
Outorgou.ao povo uma constituição, a lei magna de
25 de março de 1824, que perdurou até 1889, sofrendo duas
emendas,
Com a dissolução da Assembléia Constituinte, fato
ocorrido a 12 de novembro de 1824, foram exiladas figuras
importantes do cenário político, incluindo JOSÉ BONIFÁCIO
DE ANDRADA,^ o patriarca da independência. Esta atitude
autocrática do novo govêrno conflitou com a opinião pública
das elites, dando margem a movimentos separatistas, como
a Confederação do Equador, em 1824, chefiada por MANUEL
DE CARVALHO PAES DE ANDRADE.
2 — A CoTistitidção de 182U
A constituição de 1824 estabeleceu as bases de um
Estado unitário, dividido em províncias. Cada província
era dirigida por um Presidente, nomeado pelo Poder Central
e demissível ad nutum, isto é, a critério do mesmo govêrno
central. Os Presidentes da Província nomeados e não eleitos
eram auxiliados por um Conselho Geral, eleito pelo prazo'
de 4 anos pelo colégio eleitoral respectivo.
Ao fim do Império, existiam 20 províncias, com a
criação das províncias do Amazonas e do Paraná, esta des
membrada em 1853 de São Paulo.
O Govêrno Central era exercido por 4 podêres, segundo
a fórmula de BENJAMIN CONSTANT, a saber, o Poder
Executivo, o Poder Moderador, o Poder Legislativo e o
Poder Judiciário.
O Poder Executivo era exercido por um Ministério ou
Gabinete, tendo sido criado o cargo do Presidente do Con
selho de Ministros em 1847.
O Poder Moderador era atribuição do próprio Impe
rador, zelando pela independência e equilíbrio dos demais
podêres. Para êste efeito, o Imperador era assessorado por
o Império Brasileiro 103

um CoTisélho (Í6 Estado, constituído do membros vitalícios


por êle nomeados.
O Poder Legislativo era bicameral, exercido por duas
casas, a saber, a Cârnava dos Deputados, com representante
temporários do povo e o Senado, vitalício, eleito na
da metade do número de deputados de cada Província.
Ambos formavam a Assembléia Geral.
O Poder Judiciário, enfim, se constituía de um Supremo
Tnbunal de Justiça, Tribunais Provinciais, juizes e jurados.
A monarquia estabelecida em 1824 era constitucional,
hereditária e representativa. Aos poucos o país se enca
minhou para o parlamentarismo, mas um parlamentarismo
sem grande consistência, dada a fôrça do poder pessoal, do
prestígio e da influência do D. PEDRO I.
D. PEDRO I governou até 1831. É a fase do 1.® Reinado.
O seu autoritarismo fê-lo entrar em choque com as elites
brasileiras. Ademais, atraído ainda por Portugal, abdicou
em favor de seu filho a 7 de abril de 1831.

3 — A Regência
De acordo com a Lei Magna de 1824, como não tinha 18
anos o principe D. PEDRO DE ALCÂNTARA, filho de D.
PEDRO I, idade prevista para exercer o governo, devia-se
escolher uma regência tHna, eleita pela Assembléia Geral.
A Regência Trina Provisória, foi eleita em 7 de abril
de 1831, composta do brigadeiro FRANCISCO DE LIMA
E SILVA, NICOLAU DE CAMPOS VERGUEIRO e o
MARQUÊS DE CARVALHO (JOSÉ JOAQUIM CARNEIRO
DE CAMPOS). . . . m
Ainda em junho de 1831 foi eleita a Regencia
Peinnanente, formada pelo brigadeiro FRANCISCO
LIMA E SILVA e pelos deputados JOSÉ DA COSTA CAR
VALHO (futuro MARQUÊS DE MONTE ALEGRE) e
JOÃO BRÁULIO MUNIZ. _
O Ato Adicional de 1834 previu a regência unica, tendo
havido dois regentes nestas condições. Fêz-se era 1835 a
eleição para regente único, sendo vitorioso o Padre D^GÜ
A. FEIJÓ antigo Ministro da Justiça da Regencia Trina
Peraianente, tomando posse em outubro de 1837.
FEIJÓ renunciou a regência em setembro de 183 ó por
falta de apoio de EVARISTO DA VEIGA entre outras
causas, e seu sucessor foi PEDRO DE ARAÚJO LIM ,
princípio interinamente e depois eleito para o mesmo carg
Curso de Organização Social e Política Brasileira

no ano seguinte. Entre as realizações de ARAÚJO LIMA o


MARQUÊS DE OLINDA, conta-se a fundação do Colégio
Redro II (183T) e do Instituto Histórico c GBOQvá/fico
(1838). A sua regência terminou em 1840, com a procla-
mação da maioridade, antes do prazo constitucional.
O^ período de regcncias foi perturbado por inúmeras
rebeliões. A unidade nacional esteve ameaçada. À energia
de inúmeros bomens públicos, deve-se então a salvaguarda
da unidade nacional. Entre os principais movimentos re-
bel^s citam-^ a Cabanagem, no Pará, a Balaiada, no Ma-
^nhao, a Sabinada na Bahia, a Guerra dos Farrapos no
Rio Grande do Sul. ^

fí® de
1831 a 23 de julho Regências
1840. se prolonga de 7 de abr 1 de
4 neformas da Constituição de 182^.
Magna de 1824 sofreu duas modificações com
o Ato AdiciomM, de 1824, que suavizou o centralismo exa-
gerado do governo, e mais ^rde com a Lei de Interpretação
do Ato Adtcumal'de 1840.
De acordo com o Ato Adicional, o govêrno central
passou a ser exercido por um só regente, ficando assim for
talecido. Porem as Províncias ficaram com atribuições mais
amplas, pois passaram a eleger Assembléias Provinciais
podendo legislar sôbre a divisão civil, judiciária e eclesiás
tica local, a instrução pública e os orçamentos municioai*?
e provinciais. ^
A Constituição do Império foi a mais longa do país
tendo perdurado ate 1889.

5 — A legisla^ eleitoral
Duraiite quase tod^o o Império, o voto era indireto, com
a Lei Sara/iva foi instituído o voto direto. Atribuía-se na
época ao ^to indireto a motivação mais grave da corrupção
eleitoral. Tornou-se então famosa a frase de LAMARTINE:
E mais facü emwenena/r u/m copo dágua )do que u/m rio'*.
O copo dágua seria uma assembléia restrita, um colégio elei-
•fcoral restrito. O rio era comparado ao povo. Admitia-se ser
mais fácil subornar um pequení^ colégio eleitoral do que o
povo, e daí a emergência da Lei Saraiva.
O eleitorado do Brasil era' muito pequeno durante o
Império. Na eleição do Regente FEIJó em 9.10.1835, vo-
o Império Brasileiro

taram 6.000 pessoas. O decreto de 5.7.1876 declarou que o


Império tinha 1.486 paróquias eleitorais e 24.637 eleitores
para uma população de 10.000.000 dé habitantes, isto e,
apenas 0,25% da população. n
Uma elite política comandava o país. De que se cons
tituía a elite? Ela se formou principalmente da grande aris
tocracia rural dos grandes proprietários de terras., bem como
dos comerciantes exploradores de açúcar,
ligados em uma ampla unidade. O Imperador PEDRO li
buscou fundar uma grande nobreza senhorial sustentada, na
aristocracia rural e seus suportes. Concedeu para isto inú
meros títulos de nobreza, a altos funcioiários, criadores, po
líticos, fazendeiros de café, plantadores de cana, comer
ciantes enriquecidos, formando uma côrte relembrando o
fausto das cortes européias. ^ .
Esta nobreza, ponto de sustentação da monarquia, aoan-
donou-a bruscamente com a abolição. Os escravos foram
libertados. Valiam na época 400.000 contos. Quantia astro
nômica, pois a última receita do Império foi estimada em
150.000 contos. Os proprietários de escravos sentiram-se
prejudicados, reputando a aboíiçào como um coníisco, e
abandonaram o seu apoio à monarquia. ^
Diversas causas paralelas e conjugadas contriDuiram
para a queda dá monarquia, podendo ser salientadas as
seguintes: a) a ubolição da escravatura, feita a 13
de 1888 pelo 1.° Ministro JOÃO ALFREDO e pela PRIN
CESA IZABEL, então Regente, que retirou o suporte a
monarquia dos grandes proprietários rurais; 6) a
religiosa, com a prisão de D. VITAL e D. ANTONIO DE
MACEDO COSTA, bispos respectivamente de Olinda e do
Grão Pará, que retirou o apoio da Igreja Católica; c) a
questão militar, que dissociou os grandes chefes militares
da fidelidade ao trono; d) a antipatia e hostilidade votadas
contra o CONDE D'EU, espôso da PRINCESA IZABEL,
por ser estrangeiro e reputado como sovina e avarento;
e) o endividamento externo do Brasil à Inglaterra, cêrca
de 30 000.000 de libras, avaliadas por RUI BARBOSA em
1.000.000 de contos ao câmbio da época, obrigando a naçao
a um excessivo pagamento de juros de dívidas externas.
/

questionário
1 — Quando se reuniu a Assembléia Constituinte no Im-
périe?
106 Curso de Organização Social e Política Brasileira
h

2 — De quantos constituintes se compunha?


3 — De que ano data a Constituição do Império?
4 — O Brasil do Império era um Estado unitário ou
composto? Como se dividia?
5 — Como se organizavam as Províncias do Império?
6 — Quantos podêres previa a Constituição de 1824?
Quais eram êles?
7 — Quantas reformas sofreu a Constituição de 1824?
8 — Qual o resultado do Ato Adicional?
9 —. Quando se elegeu a Regência Trina Provisória? E a
Regência Trina Permanente?
10 — Quais os regentes únicos do Império no período de
1885-1840?
11 — O voto indireto no Brasil perdurou até que ano?
12 — Quem introduziu o voto direto?
13 — Quantos votantes teve o Brasil em 1835 na eleição
do Regente FEIJÓ?
14 — Quantos eleitores tinha o país em 1876? Que per
centual representavam sobre a população?
15 — Quais os pontos de sustentação política e econômica
da Monarquia?
16 — Que causas mais importantes provocaram a queda
do Império?

Capítulo XXXIX

OS PARTIDOS POLÍTICOS NO IMPÉRIO

1 — Os agrupamentos políticos no IP Reinado


Durante o IP Reinado formaram-se agrupamentos
políticos, mas sem a forma definida de partidos. Já na
Assembléia Constituinte de 1823 constituíram-se dois grupos
antagônicos: um situacionista de apoio ao Imperador D.
PEDRO I e outro de oposição, em que formaram os mais
liberais. A Assembléia Constituinte foi dissolvida em 1824.
Em 1826 instalou-se a Assembléia Geral (o Parlamen
to),formando-se também os grupos naturais: os ahsolutistas
e os Uberads, sustentando ou se opondo ao Imperador.
Com a abdicação de D. PEDRO I verifica-se que na
oposição ao mesmo na Assembléia Geral se refletia realmente
a própria opinião da elite e do póvo.
Os Partidos Políticos no Império 107

Assim sendo, o 1.° Reinado não conheceu partido po


lítico na legítima acepção da palavra.

2 — Os Pci/)'tidos Políticos dura/nte a Regência 11


I

Em 1831 abdica D. PEDRO I e com a menoridade de


seu filho, passou o Brasil a ser governado através de Re
gências. Estas foram as seguintes: a Regência Trina Provisó
ria (1881-1882), a Regência Trina Permanente (1882-1885),
a Regência Una de Padre ANTÔNIO FEIJÓ (1885-1887) e
a Regência Una de PEDRO DE ARAÚJO (1887-1840).
Nesta época foi proclamada a maioridade do Príncipe. Os
Regentes exerciam o Poder Executivo, mas não o Poder
Moderador.
A fisionomia político-partidária do país durante a
época da Regência Trina Provisória assim se esquematizava:
a) os antigos políticos mais ligados ao Imperador e que se
retraíram momentâneamente, b) os antigos oposicionistas,
desdobrados em duas alas: os moderadios e os exaltados, os
primeiros ocupando as posições do govêrno e exercendo uma
missão pacificadora, enquanto os segundos defendiam uma
maior descentralização das províncias, mas fora do poder.
Vem agora o período da Regência Trina Permanente.
No poder continuam os moderados, aos quais se chamavam
pitorescamente de chima/ngos; na oposição permaneciam os
exaltados, chamados de jurujuhas; um 8.° grupo os caru-
murus, defendendo a volta do ex-Imperador.
O Ato adicional de 1884 modifica esta paisagem, des-
fazendo-se os coíramums, já sem sentido pela morte de D.
PEDRO I, e os jurujuhas perdendo a força do seu radica
lismo.

8 — Os Pajrtidos Políticos no Império


Prevista a formação da Regência Una, foi eleito o
Regente FEIJÓ em 1885, pelo país inteiro, por 2.826 votos.
FEIJÓ era um chimango ou moderado. A política do regente
dividiu os chimangos em dois grupos, os que o apoiavam
e os que os hostilizavam.
FEIJÓ procurou fundar um partido, denominado Pro
gressista, e depois os seus companheiros organizaram sôbre
êste núcleo o Partido Liberal. Os adversários do Regente
organizaram um grupo regressista, que foi a base do Partido
oonserwdor. Ambos surgiram por volta de 1887 a 1840.
108 Curso de Organização Social e Política Brasileira

n
Foram êsses os dois partidos mais importantes do Im
pério, que se revezaram no poder. Os liberais batiam-se
pela abolição, maiores direitos do Homem, liberdade maior
dada às províncias, enquanto os conservadores eram escla-
vagistas e suportes das grandes tradições do país. Em 1879
surgiu o Partido Republiccmo, mas sem grande relevo ou
expressividade, porém contando com grandes figuras, como
QUINTINO BOCAIÚVA, BENJAMIN CONSTANT e LO
PES TROVÃO.
Entre os políticos pertencentes ao partido liberal se
destacaram: ANTÔNIO CARLOS DE ANDRADE, o Padre
FEIJÓ, o VISCONDE DE SINIMBU, SARAIVA, o VIS
CONDE DE OURO PRÊTO. RUI BARBOSA e JOAQUIM
NABUCO foram eleitos pelo mesmo.
Entre os conservadores foram figuras eminentes: o
MARQUÊS DE OLINDA, BERNARDO PEREIRA DE
VASCONCELOS, o MARQUÊS DE PARANÁ, VISCONDE
DE RIO BRANCO, JOÃO ALFREDO, o BARÃO DE CO-
TEGIPE.
■(

4 — Rotativismo dos liberais e conservadores no poder


Os dois grandes partidos liberais e conservadores se
alternaram no poder. Foi esta a sua trajetória:
Desde 1837 a 1840 dominaram os conservadores com os
dois regentes FEIJÓ e PEDRO DE ARÀÚJÒ LIMA; com
a proclamação da maioridade ascendem os liberais; os
conservadores ascendem novamente ao poder em 1841; os
liberais o reconquistam de 1848 a 1848; em 1848 os conser
vadores retomam o poder até 1858; de 1858 a 1858 surgem
os Ministérios da Conciliação, em que os dois partidos
exercem o poder simultâneamente; em 1858 até 1861 é nova
vez de comando dos liberais; em 1861 os conservadores re
conquistam o poder; os liberais retomam de 1861 a 1868; de
1868 a 1878 é um longo período de domínio dos conserva
dores; a este período se segue um outro longo período de
dominação dos liberais, desde 1878 a 1885; novamente os
conservadores nos anos de 1885-1889, substituídos desde
junho de 1889 pelos liberais, sob o comando do VISCONDE
DE OURO PRÊTO, o último gabinete do Império, quando é
proclamada a República.
Em 1889 se extinguiram os Velhos partidos do Império,
iniciando-se a fase de predomínio dos republicanos.
0 Parlamentalismo no Império 109

QUESTIONÁRIO
1 — Quais os principais grupos políticos no 1° Reinado?
2 — Que grupos dominaram na Regência?
3 — Quando foram fundados os dois Partidos Conservador
e Liberal? jj
4 — Que ideologia representavam?
5 — Quando se constituiu o Partido Republicano?
6 — Quais as figuras mais importantes do Partido Con
servador?
7 — Quais as figuras mais representativas do Partido Li
beral?
8 — Qual a seqüência dos partidos políticos no exercício
do govêrno?

Capítulo XL

O PARLAMENTARISMO NO IMPÉRIO

1 — O parlwmentainsmo na C<anstituição de 1824-


A Constituição de 1824 não estabeleceu formalmente
0 parlamentarismo. Era o próprio monarca que escolhia o
seu ministério ou gabinete, com inteira liberdade, sem de
pender da confiança da Câmara dos Deputados. D. PEDRO
1 durante o 1.° Reinado sempre defendeu as suas prerroga
tivas e foi altaneiro em relação ao parlamentarismo.
O parlamentarismo começa a surgir durante a Regência
Una. A oposição firme de BERNARDO DÉ VASCONCE
LOS, chamado o MIRABEAU brasileiro, ao Regente FEIJÓ,
provocando-lhe a queda de sucessivos gabinetes, começou a
permitir o esboço do parlamentarismo. Não existia porém
o cargo de 1.° Ministro, que foi criado em 1847.
O objetivo da criação da PresicLêricia do Conselho de
Ministros tinha por finalidade: amparar o Imperador, cuja
ação ficava assim acobertada sob a responsabilidade do
ministério, uniformizar a ação e o comando do ministério.
O parlamentarismo durante o 1.® Império não tinha
porém a autenticidade completa do modêlo europeu, de pre
dominância da assembléia, pois no Brasil a influência do
Imperador D. PEDRO I foi muito decisiva. Antes de tudo
a vontade era do Imperador, como dizia JOAQUIM NA-
BUCO.
110 Curso de Organização Social e Política Brasileira

2 — Os Gabmetes do Impéi^io
íi-
Inúmeros foram os gabinetes ou Ministérios organi
zados, seja durante o 1.° Reinado ou o 2.° Reinado.
Durante o 1.® Reinado, na época de D. PEDRO I, houve
13 ministérios, dos quais o primeiro começou a 16 de janeiro
de 1822, antes mesmo da proclamação da independência,
nomeado pelo Príncipe Regente. Com exceção do primeiro,
liderado por JOSÉ BONIFÁCIO DE ANDRADA E SILVA,
Ministro do Império e Estrangeiros, de personalidade mar
cante e tumultuosa, os ministérios foram pràticamente con
trolados pelo Imperador. Cada ministério durou uma média
de oito meses, não obstante as graves agitações políticas,
sendo que o último ministério, de 5 de abril de 1831, chamado
o ministério dos marqueses, permaneceu apenas dois dias.
Seguidamente vêm os ministérios dos governos regen-
ciais. Cumpre mencionar o ministério de 7 de abril de 1831,
durante a regência Trina Provisória. Houve só um minis
tério.
Já durante a Regência Permanente Trina houve cinco
ministérios, desde 1831 a 1835, com um prazo razoável de
permanência dos mesmos no poder. Apesar das dificuldades
políticas, conseguiu-se uma relativa estabilidade ministerial,
sobretudo em um país mal saído da independência.
Agora vem a Regência FEIJÓ, com quatro ministérios,
desde 14 de outubro de 1835, quando surgiu, o primeiro
gabinete, sob a regência de FEIJÓ, até o quarto ministério
de 16 de maio de 1837, substituído a 19 de setembro do dito
ano. Houve assim quatro ministérios durante cêrca de dois
anos, decrescendo a média de duração de cada gabinete para
seis meses.
Em seguida vem a Regência ARAÚJO LIMA, desde
1837 até a revolução da maioridade, em 1840, com quatro
ministérios, cada gabinete durando mais de oito meses,
quando^ começou a organizar-se o estilo de vida do parla
mentarismo, através das sugestões práticas da vida.
No tocante aos ministérios de 2.® Reinado, êles são
número de trinta e seis, sendo que o cargo de Presidente
do Conselho foi criado por decreto de 20 de julho de 1847.
Durante a existência do 2.® Reinado, desde 1840 até 1889,
sucederam-se trinta e oito gabinetes, com uma média de
duração de mais de treze meses para cada Ministério.
Segundo os ditos cálculos, foi, assim, o seguinte o nú
mero de Gabinetes: 13 durante o 1.® Reinado; 14 durante a
A Idéia Republicana e a Constituição de 1891 111

Regência ou durante os governos regenciais; 38 durante o


2.® Reinado. Ao todo 65 gabinetes, isto é, a duração média
total de cada gabinete foi de mais de 1 ano.
É de relembrar que, desde 1847, a maioria dos gabi
netes provinha de políticos do nordeste. Bahia e Pernambuco
exerciam um poder equivalente ao que exerceriam S. Paulo
e Minas Gerais durante a República. Eram as Províncias de
Pernambuco e Bahia, então, as mais ricas, a sua riqueza
repousando no açúcar e na sua economia, que lhes consolidava
0 prestígio político. Desde 1847 a 1889, houve 32 gabinetes,
dos quais 23 foram presididos por estadistas da Bahia e
Pernambuco, bem como de outras Províncias do Nordeste,
comprovando tal predominância.

QUESTIONÁRIO
1 — A Constituição do Império de 1824 adotou o parla
mentarismo?
2 — Como e quando se organizou o sistema parlamentar no
império?
3 — Quando se criou o cargo de Presidente do Conselho de
Ministros?
4 — Qual a finalidade dêsse cargo?
5 — Quantos gabinetes houve no Brasil durante o Império?
6 — Quais as regiões que predominaram na vida «política
do Império? Que Províncias? Qual a razão?
7 — Quantos Presidentes de Conselho houve no Brasil de
1847 a 1889 e qual a sua predominância de acôrdo com
as regiões e províncias?

Capítulo XLI

A IDÉIA REPUBLICANA E A CONSTITUIÇÃO DE 1891


1 — A idéia repuhlicoma

A idéia republicana já vem desde o Brasil colônia, sem


sucesso. Conta-se que no ano 1710, BERNARDO VIEIRA DE
MELO a havia proposto áó Senado da Câmara de Olinda.
Os inconfidentes mineiros que em Vila Rica imaginaram a
independência, pensavam no ideal republicano. Do mesmo
modo teve um caráter republicano a revolução pernambucana
de 1817, propondo criar um govêmo colegiado de cinco
Curso de Organização Social e Política Brasileira
Classes, constituídas de representantes da agricultura, co
mércio, magistratura, clero e forç
Duas correntes disputaram a pumazia no
Independência: uma propondo a monaiquia com JOSe BO
NIFÁCIO, outra menos
como pretendia o pernambucano GERVASIO PIRES FER-
^^^Após a Independência, a Confederação do Equador, li
derada por pernambucanos, teve um conteúdo republicano;
assim também diversos outros movimentos, por vezes de
tendência separatista, como os cabanas no Para e no Ama
zonas, ou partidários da República Baiense e os farroupilhas.
Parece contudo que a monarquia constitucional conso
lidou a unidade nacional, mantendo o país coeso e unificado.
A partir do 2.° Remado, os ideais republicanos esmaecem,
para se desenvolverem desde 1870 com a fundação do Partido
Republicano através do manifesto de Itu.
Este pensamento republicano foi vitorioso em 1889,
liderado pelo Marechal DEODORO DA FONSECA, que pro
clamou a República em 15 de novembro de 1889, transfor
mando a monarquia em repúbliod e o Estado unitário do
Império em federação, isto é, constituindo-se uma república
federativa.

2 — A Constituição de 1891
Vitoriosa a revolução de 1889, o govêrno provisório,
tendo como chefe DEODORO DA FONSECA, vice-chefe
RUY BARBOSA, logo convocou uma assembléia constitu
inte, que promulgou a constituição republicana de 24 de
fevereiro de 1891. Esta sofreu uma revisão em 1924, a cha
mada revisão ARTUR BERNARDES.
A nova lei magna de 1891 estabeleceu as seguintes
normas básicas: kx) as antigas Províncias do império em
número de 20 se transformaram em Estados autônomos;
b) adotou-se a forma presidencial e republicana de govêrno,
com um Presidente e um Vice-Presidente da República, elei
tos de 4 em 4 anos, negando-se a reeleição do Presidente para
o período imediatamente subseqüente; c) estabeleceu-se o
sistema de separação dos três podêres: o Executivo, exercido
pelo Presidente que escolhia os seus ministros livremente;
o Legislativo, exercido pelo Congresso desdobrado em dois
ramos, a saber, a Câmara dos Deputados, eleita por 3 anos
e o Senado, por 9 anos, mas renovado por 1/3 e 2/3 de
A Idéia Republicana e a Constituição de 1891 113

3 em 3 anos; o Judiciário, exercido pelos tribunais e juizes,


coroado por um órgão supremo, chamado o Supremo Tri
bunal Federal; d) determinou-se que o Supremo Tribunal
Federal seria o órgão de vigilância e de guarda da consti
tuição, julgando a inconstitucionalidade das leis e atos ad
ministrativos; e) estabeleceu-se o sistema de democracia
liberal, com a declaração de direitos e as garantias constitu
cionais, salientando-se entre estas o habeas-corpus; /) se
parou-se a Igreja do Estado; g) consolidou-se a estrutura
do voto direto; h) consolidou-se o federalismo, cada Estado-
membro da União podendo elaborar a sua constituição, ele
gendo o seu governador ou Presidente, elegendo o seu corpo
legislativo e organizando o seu sistema judiciário. É de
relembrar que a maioria dos Estados-membros tinha uma
só assembléia estadual, mas alguns Estados tiveram duas,
isto é, uma Câmara dos Deputados e um Senado, como
Pernambuco, Pará, Alagoas, Bahia, etc. O Senado de Per
nambuco funcionou na rua da Aurora e o avô do autor
destas linhas foi o senador estadual LEOPOLDO LINS.

3 — O ambiente social da vellua república

A velha República consagrou uma democracia de elites.


Apenas um pequeno percentual do povo votava. O analfabeto
não podia votar e assim a grande maioria do povo ficou
marginalizada do processo político.
A herança trágica do Império para a República foi de
90% de analfabetos. Por isso poucos eram os eleitores.
O Brasil consagrou então uma democracia sem povo, uma
democracia de elites.
A eleição de PRUDENTE DE MORAES, em 1.7.1894
trouxe apenas 290.833 eleitores, isto é, 2,21% da população.
A ultima eleição da Velha República trouxe 1.091.709 vo
tantes, isto é, 5,65% da população. O eleitorado duplicou em
cerca de 35 anos.
A marginalização do povo no processo eleitoral e a
ausência de voto secreto, de conjunto com a baixa renda
per capita e o baixo nível cultural, deixaram na prática o
mesmo ambiente social do Império.
O poder político foi na realidade controlado pelos gran
des proprietários rurais, especialmente os fazendeiros de
café, e pela burguesia mercantil.
As oligarquias estaduais poderosas controlavam o poder
político regional. Em Pernambuco são de lembrar-se as fi-
114 Curso de Organização Social e Política Brasileira
.//
guras ROSA E SILVA e ESTÁGIO COIMBRA. No plano
federal tinha absoluta dominação o Partido Republicano
Coníiservador, dirigido por PINHEIRO MACHADO.
Homens de bem, como geralmente o eram os políticos
e líderes da velha República, de grande lisura e responsabi
lidade moral, mas que passaram em breve a ser contestados
por forças sociais nascentes.

4 — A crise da velha republica e a revolução de 1930


Desde 1920 a inflação crescente e o endividamento
externo do Brasil criaram o momento declinante da velha
República. Movimentos revolucionários tiveram eclosão, li
derados por jovens oficiais — os tenentes —,com o suporte
e a simpatia da juventude, da classe média, da pequena
burguesia urbana.
Citam-se a propósito as rebeliões de 2 de julho de 1922
e do ano de 1924, no Rio de Janeiro e em São Paulo. SI
QUEIRA CAMPOS é herói lendário dos 18 do Forte Copa
cabana, em São Paulo a rebelião é dirigida por IZIDORO
DIAS LOPES. A coluna PRESTES é outro movimento re-
. belde, dela tomando parte MIGUEL COSTA, JOÃO AL
BERTO, CORDEIRO DE FARIAS, SIQUEIRA CAMPOS,
entre outros. Ainda JUAREZ TÁVORA é outra figura con
sagrada da época.
Em 1919 a Grande Depressão, nome dado à grande
crise que na época tumultuou a economia americana teve
reflexos no Brasil político e econômico. '
O estopim da revolução explode com a sucessão nre^i-
denc:al. WASHINGTON LUIZ, Presidente da República
indica como sucessor a JÚLIO PRESTES, que é vitorioso'
Os Estados em oposição. Rio Grande do Sul, Minas Gerais
'iífrados por GETOLIO VARGAS, ANTÔNIO
CARLOS e JOÃO PESSOA, contestam a candidatura ofi-
cial. É fundada a Aha/nga lÁberal. O Govêrno federal vence
tranqüilamente as eleições, com maioria expressiva. A re
volução explode em outubro de 1930 e é prontamente vito
riosa. O govêrno é então transferido a uma Junta Militar,
que logo o entrega ao novo chefe, GETÜLIO VARGAS.

QUESTIONÁRIO
1 — Quais as primeiras idéias e aspirações republicanas
no Brasil durante a Colônia e o Império?
A Constituição de 1934 115

2 — Quando se fundou o Partido Republicano?


3 — De quando data a Constituição da 1.^ República?
4 — Quem a reformou? Quando?
5 — Quais as normas básicas da Constituição de 1891?
6 — Qual o ambiente social da Velha República? 1 1
7 — Qual o percentual de analfabetos em 1890? m
8 — Quais os principais chefes políticos do nordeste?
9 — Quais os principais chefes da Revolução de outubro
de 1980?

CAPÍTULO XLII

A CONSTITUIÇÃO DE 1934

1 A Lei MagruL de 1934 e seu aonteúdo sodcU


A nova Constituição promulgada a 16 de julho de 1934
reflete a experiência social do após-guerra. Ao contrário do
Código Supremo de 1891, teve um conteúdo amplamente
sociâtl
Duas são as suas fontes principais: a constituição
americana de 1787 e a constituição alemã de 1919. Esta
introduziu as bases da democracia sociab do planejamento,
do direito trabalhista, e assim a lei magna brasileira pe^cUii
o seu teor rigidamente liberalista. Por isso se afirmou que
a Constituição brasileira de 1934 é um reflexo sul-amencano
da Constituição de Weimar. .
A influência de parlamentares e intelectuais, co^
LINDOLFÓ COLLOR, JOSÉ AMÉRICO, AGAMENON
MAGALHÃES, JOAQUIM PIMENTA, JOÃO MANGABEl-
RA, trouxe uma preocupação com os problemas sociais que
surgiram após a 1.^ Guerra Mundial. x 4. 4.- Hp
Ela reflete por conseguinte a primeira tentativa ae
transformação do Brasil agrícola em país industrial, com
que a burguesia mercantil e industrial bem como a PeP"}?
da classe média das cidades emerge como poder político
tentando maior participação nas decisões do gevemo.
2 As bases da Constituição de 1934
A Lei Magna de 1934 manteve o federalismo e ^ re
pública, esta com a tradicional forma presidenci^. O siswiu-
da divisão de iiodêres permaneceu: o Poder Execu
116 Curso de Organização Social e Política Brasileira

base eletiva e com o Presidente eleito por 4 anos; o Con


gresso concentrando a fôrça do Poder Legislativo e des
dobrado em um Senado e uma Câmara dos Deputados, nesta
existindo uma representação classista, eleita por organi
zações profissionais. A Justiça Eleitoral ganhou base cons
titucional, perdendo o Congresso o poder de verificação e
controle das eleições, um dos vícios da velha república.
Ampliaram-se as bases do sufrágio universal mediante
0 voto secreto e o voto feminino, já previsto no Código Eelei-
toral de 1932.
Outra inovação conseqüente e de base foi a introdução
de dispositivo concernente à ordem econômica e social, à
educação, à cultura, etc.
A Constituição ainda ampliou as garantias individuais
e data da mesma o remédio processual do manda/io de
seguramça, expressão criada por JOÃO MANGABEIRA.
Foi a mais progressista das leis magnas do país, porém
pouco durou, até 1937.

QUESTIONÁRIO

1 _ Que clima refletiu a constituição de 1934?


2 — Quais as suas fontes inspiradoras?
3 — A lei magna de 1934 consagrou uma democracia li
beral eu social?
4 — Qual o código que introduziu o voto feminino no Bra
sil? E o voto secreto?
5 — Que inovações trouxe a Lei Suprema de 1934?
6 — Quem criou a expressão mandado de segurança?

Capítulo XLIII

O ESTADO NÔVO E A CARTA POLÍTICA DE 1937

1 — A QTierra TmcndiaZ e a situcüção brasileira


O mundo se anuviava com as perspectivas sombrias
de um nôvo conflito bélico entre as nações. A humanidade
hesitante se intimidava de assumir posições conflitantes com
uma sociedade ainda convulsionada pela crise econômica
resultante de 1914-1918.
o Estado Nôvo e a Carta Política de 1937 117

Por tôda a parte velhas estruturas naufragaram. A


democracia ganhou impulso com ROOSEVELT e o New
Deal, per-mitinéo itma mmior intei'vençao do Est/ado no
mundo econômico. Porém, adiante, no seu berço tradicional,
a democracia soçobrava. jj
Na Itália se estabeleceu o fascismo, na Alemanha o
VMzismo, a Espanha foi abalada por uma guerra civil que
durou 3 anos e a subseqüente vitória do falangismo. Na
velha Rússia tzarista se implantou o comimismo.
As lutas das facções ideológkas se revestiram no Brasil
de maior dramaticidade. Uma revolta comunista foi esma
gada em 1935 no país. A ameaça de integralismo se fazia
visível.
GETÚLIO VARGAS governou como ditador de 1930
a 1934. Eleito indiretamente neste último ano pela Assem
bléia Constituinte, deveria governar até 1938.
Mas a sucessão presidencial agita o país. ARMANDO
SALES DE OLIVEIRA como representante da burguesia
mercantil e industrial do sul, bem como das tradicionais
fôrças rurais, de um lado; JOSÉ AMÉRICO DE ALMEIDA,
político progressista do nordeste, de outro lado; e PLÍNIO
SALGADO, criador do movimento integralista brasileiro,
por sua vez, disputavam com combatividade a sucessão
presidencial.
Nesta ocasião, no fulgor e na emotividade do processo
eleitoral, VARGAS dissolve o Congresso e os partidos polí
ticos, outorgando ao país uma nova carta magna, a de 10
de novembro de 1937.

2 — As bases da Carta-Política de 1937

A carta política de 1937, no plano da organização na


cional, pràticamente eliminou o federalismo e a autonomia
constitucional dos Estados. Êstes perderam o direito às
bandeiras e símbolos próprios. Não mais elegeram, por não
se aplicar a constituição, nem os "governadores e nem as
assembléias, durante o período de 1937-1945. Os governos
estaduais eram dirigidos por interventores, de livre no
meação e demissão do Presidente.
No plano federal, o Poder Executivo era dirigido pelo
Presidente da República, com mandato de 6 anos e podendo
indicar o seu sucessor. Foram dissolvidos o Congresso e os
partidos políticos.
118 .Curso de Organização Social e Política Brasileira

//Quanto à legislação, era competente para expedi-la o


próprio Executivo através de decretos-leis, podendo também
dissolver o próprio Congresso.
O poder judiciário perdeu a sua relevância, eis que o
Presidente podia sobrepor-se à declaração da inconstitucio-
nalidade das leis assim decididas pelo Supremo Tribunal
Federal. Os habeas-corpus o o mandado de segurança per
deram o seu prestígio, força e utilidade.
Ainda o art. 177 da Lei Magna de 1937 permit u ao
Presidente a demissão de funcionários, de acordo com a
conveniência do governo, sem as garantias do processo
democrático.

3 — Apogeu e queda de VARGAS


Na época do chamado Estado Nôvo, o Presidente da
República, com o seu poder hipertrofiado, desenvolveu uma
política de equilíbrio entre as forças conservadoras das
classes proprietárias e as novas forças proletárias.
Organizou uma política trabalhista, editando uma Cow-
soUdação das Leis do Trabalho cm 1943, bem como criou
as instituições da Previdência Social. O trabalhador urbano
e industrial foi protegido pelo direito social, embora na prá
tica as suas normas não se aplicassem ao camponês.
A industrialização do país se acelerou, com a Usina
Siderúrgica de Volta Redonda.
Preocupou-se com a ocupação e colonização das áreas
marginais do Brasil, criando 5 territórios federais, os de
Amapá, Roraima, Rondônia, Ponta-Porã e Iguaçu desmem
brados dos Estados do Pará, Amazonas, Mato Grosso Paraná
e Santa Catarina em 1943, mas os dois últimos depois foram
reintegrados aos respectivos Estados em 1946. Também
desmembrou de Pernambuco o território de Fernando de
Noronha.
A sua política foi pessoal e própria, cercado de um gri
tante aparelho de propaganda, através de um órgão chamado
DIP, ou Departamento de Imprensa e Propaganda, que lhe
louvava sempre os atos.
Mas o Brasil se viu envolvido na guerra mundial de
1939, eis que VARGAS, embora a princípio simpatizante
das potências do Eixo (Alemanha, Itália, depois o Japão),
permitindo ò estabelecimento de bases americanas no país,
desfechou o ódio da Alemanha, que afundou navios mer
cantes brasileiros nas costas nacionais, e em breve o Brasil
0 Estado Novo e a Carta Política de 1937 119

participava da guerra mundial com um corpo expedicionário,


que se portou heroicamente.

4 — A restauração democrática de 19Uã


Mas a situação do país se anuviou no período final da
guerra. O poder pessoal do govêrno havia adotado uma po
lítica antiliberal, especificamente dirigida contra a ex
pressão livre do pensamento e com a censura prévia da
imprensa. Contudo tal antiliberalismo colidia com o sentido
ideológico da guerra mundial, em que o Brasil defendeu no
plano internacional uma democracia, para contudo aplicar
no plano interno uma ditadura.
Forte campanha liberal se desenvolveu, no momento em
que VARGAS autorizou a campanha presidencial para a sua
sucessão, tendo como postulantes principais o seu ex-Minis-
tro da Guerra, EURICO GASPAR DUTRA e o brigadeiro
EDUARDO GOMES.
Iniciou-se da parte do govêrno um movimento quere-
mista, em que os seus partidários lançaram a idéia da con
vocação de uma Assembléia Constituinte, adiando-se a su
cessão presidencial.
Entretanto o impulso democrático estava bem acen
tuado. A anistia aos presos políticos e a liberdade de im
prensa então concedidas foram novas forças desagregadoras
da ditadura.
No momento, as forças armadas dirigidas pelo General
GóIS MONTEIRO, que efá então o próprio Ministro da
Guerra do ditador, derrubaram-no em 29 de outubro de
1945, sob os aplausos generalizados do país. O poder foi
entregue ao Presidente do Supremo Tribunal Federal, o Dr.
JOSÉ LINHARES, enquanto não se processassem as eleições
presidenciais e a posse do nôvo presidente eleito, EURICO
GASPAR DUTRA.
A Carta Política de 1937 teve 21 emendas, elaboradas
através de decretos-leis, perdurando até a promulgação da
Constituição de 1946.

QUESTIONÁRIO

1 •— Quais as conseqüências polít*cas da 1.^ guerra mun


dial?
120 Curso de Organização Social e Política Brasileira

2^/— Que pode dizer sobre o golpe de Estado de 10 de


novembro de 1937?
3 — Quais as bases da Constituição de 1937?
4 — Quantas emendas ela teve?
5 — Que posição assumiu VARGAS quanto à questão so
cial e à industrialização?
6 — De quando data no país a Consolidação das Leis do
Trabalho?
7 — Quantos territórios federais foram criados durante
o Estado Nôvo?
8 — Como e por quem VARGAS foi deposto?
9 — Que significado teve o chamado movimento quere-
mista?
10 — Quem substituiu o presidente deposto?

Capítulo XLIV

A CONSTITUIÇÃO DE 1946

1 — As bases da Constituição de 19U6


A Constituição de 18 de setembro de 1946, promulgada
pela Assembléia Constituinte convocada, consagra um re
tomo ao código magno de 1934.
É novamente resguardado o princípio do federalismo,
com a manutenção da autonomia constitucional dos Estados,
cada um dêles podendo eleger o seu Governador e uma
Assembléia Legislativa, pelo voto direto do povo.
A doutrina tradicional da separação de podêres é res
peitada, o Presidente é eleito por um qüinqüênio, assim como
o Vice-Presidente; o Congresso se desdobra em dois ramos,
a Câmara dos Deputados e Senado, com o mandato parla
mentar respectivo de 4 e 8 anos; o Poder Judiciário mantém
a sua supremacia, coroado pelo Supremo Tribunal Federal.
Os direitos do homem são assegurados, bem como as
principais garantias constitucionais, como o habeas-corpus,
o mandado de segurança, o processo criminal contraditório,
etc. Refletem-se de um modo geral os dispositivos concer
nentes à ordem econômica e social, à família, à educação
e cultura.
A Constituição de 1946 sofre 20 emendas e teve ainda,
ao final, o seu espírito modificado por diversos atos cons
titucionais.
A Constituição de 1946 121

2 — Os Presidentes da República durante a vigência da


Constituição de 194.6 e a construção de Brusília
Eleito Presidente da República o Marechal EURICO
Gaspar Dutra, foi êle sucedido por Getúlio Vargas, João
Café Filho, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e|
João Goulart, que governou o país até 1964.
Dutra inicia a construção da nova capital, Brasília,
que foi concluída por J. Kubitschek, sendo inaugurada a
nova capital em 21 de abril de 1960, em terras desmembra
das do Estado de Goiás.
A antiga capital é tránsformada em Estado, e o seu
primeiro governador foi Càrlos Lacerda. Em 1961 o ter
ritório do Acre advém Estado. Fica o Brasil constituído de
22 Estados, 1 Distrito Federal e 4 territórios federais.

3 — A emenda parlamentarista, o retômio do presiden-


óialismo e a crise revolucimiária de 1964

Sucessor de J. Kubitschek foi Jânio Quadros, que re


nunciou bruscamente poucos meses depois de eleito, apesar
das esperanças nêle depositadas pelo povo brasileiro. Com
a sua renúncia, surgiu uma crise político-militar de pro
porções graves, por ocasião da, posse do Vice-Presidente
João Goulart. Conseguiu-se então uma fórmula transacional
de superar-se a crise, votando-se em 2 de setembro de 1961
o Ato Adickmal, como ernenda à Constituição, que estabele
ceu o parlamentarismo, diluindo destarte a força congênita
do presidencialismo.
O Brasil teve então três Chefes de Conselho de Minis
tros, ou 3 gabinetes, presididos por Tancredo Neves (mi
neiro), Brochado da Rocha (gaúcho) e Hermes Lima
(baiano). Mas logo o pais retornou ao presidencialismo com
0 plebiscito de 23 de janeiro de 1963.

QUESTIONÁRIO
1 — Quais as bases da Lei Magna de 1946?
2 — Quantas emendas ela sofreu?
3 — Quem construiu Brasília e quando foi a nova capital
inaugurada?
4 — Quantos Estados tinha a República em 1961? E quan
tos territórios federais?
122 Curso de Organização Social e Política Brasileira

5 — Que destino se deu ao antigo Distrito Federal?


6 — 0 que foi o Ato Adicionai?
7 — Quantos gabinetes houve no parlamentarismo brasilei
ro depois do Ato Adicional?
8 — Quem os presidiu?

Capítulo XLV

A REVOLUÇÃO DE 1964 E A CONSTITUIÇÃO DE 1967

1 — A rev^olução de 196
Em 31 de março de 1964 eclodiu um movimento polí-
tico-militar de graves proporções, a fim de conter o radi
calismo de esquerda, que de pronto foi vitorioso, provo
cando a deposição do Presidente JOÃO Goulart. Vacante o
Cargo de Presidente da República, foi o país a princípio
dirigido por um Comando Revolucionário, e logo eleito pelo
Congresso o nôvo Presidente da República, Castelo Branco,
natural do Ceará e Marechal do Exército Brasileiro.
Os chamados Atos histitucionais consolidaram a Revo
lução. Foram expedidos então diversos atos, a saber, os Atos
Institucionais n.®s 1 e 2, de 9 de abril de 1964, pelo próprio
Comando Revolucionário, e o de 27 de outubro de 1965,
pelo nôvo Presidente da República.
Tais atos outorgavam diversas prerrogativas e atribui
ções ao Comando Revolucionário e em seguida ao Presidente,
como sejam: a) suspender os direitos políticos e cassar
os mandatos das pessoas acusadas de subversão e corrupção;
b) suspender a vitaliciedade e a efetividade dos magistra
dos e funcionários públicos; c) determinar a eleição indi
reta do Presidente da República e dos Governadores; d) ex
tinguir e dissolver os partidos políticos então existentes;
e) ampliar o número dos Ministros do Supremo Tribunal
Federal; f) fortalecer os podêres legislativos do Executivo;
g) ampliar os casos de intervenção federal.
O govêrno preocupou-se em fazer retornar o país à lega
lidade democrática. Assim sendo o Presidente Castelo
Branco encaminhou um anteprojeto de constituição, que
foi aprovado pelo Congresso Nacional em 1967, para ter
vigência em 15 de março do mesmo ano. Até esta data tive
ram vigor os Atos Institucionais expedidos, em número de 4.
A Organização Política Atual: A Constituição de 1969 123

Nôvo Presidente foi eleito em 3 de outubro de 1986,


pelo Congresso Nacional, tomando posse em 1967, o Mare
chal Artur da Costa e Silva.

2 — A Constituição de 1967
A nova Const.tuição de 1967 manteve as bases tradi
cionais da federação e da república. Alterou-se em alguns
pontos, especialmente fortalecendo os podêres da União e
expressando, com mais vigor a proeminência do Presidente
da República.
O sistema dos três podêres, executivo, legislativo e ju
diciário foi mantido, passando contudo o Presidente da
República a ser eleito indiretamente por um colégio eleitoral
especial, não mais pelo voto direto.
Ampliou-se a Justiça Militar, com o objetivo de defen
der os idea's da Revolução.
Enfim a Constituição manteve os preceitos tradicionais
da ordem econômica e social, da família, da educação e da
cultura, pondo ainda em foco os problemas do desenvolvi
mento e da reforma agrária.

QUESTIONÁRIO

1 — Com que fim eclodiu o movimento revolucionário de


1964?
2 — Quem sucedeu ao Presidente João Goulart e como
foi eleito o nôvo Presidente?
3 — Qual a finalidade dos Atos Institucionais?
4 — Quem aprovou o projeto da Constituição de 1967?
5 — Quais os preceitos básicos da Constituição de 1967?

Capítulo XLVI

A ORGANIZAÇÃO POLÍTICA ATUAL:


A CONSTITUIÇÃO DE 1969

1 — O Ato Institucional n.^ 5 e a Constituição de 1969


Os debates travados ao fim do ano de 1968 entre o
Congresso e o Poder Executivo, por ocasião dos incidentes
ligados aos discursos de alguns parlamentares, especialmente
124 Curso de Organização Social e Polítíca Brasileira

Márcio Moreira Alves, e vinculados ainda à extensão do


instituto das imunidades parlamentares, criaram o contexto
para o desenvolvimento de uma nova estrutura política.
Foi então editado o Ato Institucional n.° 5, de 13 de
dezembro de 1968, prevendo o recesso dos corpos legislativos,
inclusive do Congresso Nacional, pelo Presidente da Repú
blica, ao qual se atribuía ainda o poder de suspender os
direitos políticos de quaisquer cidadãos e cassar mandatos
eletivos federais, estaduais, e municipais. O mesmo ato sus
pendeu as garantias constitucionais ou legais de vitalicie-
dade, inamovibilidade e estabilidade, bem como o de exercício
em funções por prazo certo.
Além dêste, diversos Atos Institucionais foram edita
dos, prevendo inclusive o confisco de bens por enriquecimen
to ilícito, a pena de morte e de banimento por atos violentos
contra a ordem política e social, com a finalidade de pre
servação dos objetivos revolucionários.
Enfim, tôda a nova política e a organização do país,
- em suas linhas mestras, foi consolidada pela Emenda Cons
titucional n.° 1 de 17 de outubro de 1969, chamada breve
mente de Constituição de 1969,

2 — Forma de Estado

O Brasil continua ainda hoje uma república federativa


formada pela união indissolúvel dos Estados, do Distrito
Federal e dos Territórios.
Os Estados têm autonomia constitucional, elaborando as
suas próprias constituições, no respeito aos princípios bá
sicos do Código Magno. Elegem os governadores e vice-go-
vernadores pelo voto direto, os representantes do povo ainda
são eleitos diretamente para a formação de uma Assembléia
Liegislatiya, e ainda dispõem de um poder judiciário forma
do de juizes singulares e de um colegiado que é o Tribunal
de Justiça. Dispõem ademais de polícias militares para a
sua segurança interna e manutenção da ordem, podendo le
gislar sôbre os assuntos de sua competência.
O Distrito Federal e os Territórios não desfrutam de
autonomia constitucional. Os governadores de ambos são
nomeados pelo Presidente da República.
Esta união indissolúvel dos Estados, do Distrito Fede
ral e dos TerritóriÒs constitui a República Federativa do
Brasil.

í_.
A Organização Política Atual: A Constituição de 1969 125

3 — Foima de g^ovèmo
A forma de govêrno estatuída é o yresidenoiaXismo,
O Presidente da República é o chefe supremo da política
nacional, eleito hoje indiretamente pelo povo.
A Constituição declara, no art. 1.® § 1.°: "Todo o poder
emana do povo e em seu nome é exercido".
Contudo a plenitude desta declaração é dependente da
vigência dos atos institucionais, cuja forma de validade
permanece.
É o que prescreve o art. 142 da Carta Magna: "Conti
nuam em vigor o Ato Institucional n.° 5, de 13 de dezembro
de 1968, e os demais atos posteriormente baixados. Pará
grafo único — O Presidente da República, ouvido o Conse
lho de Segurança Nacional, poderá decretar a cassação ou
vigência de qualquer dêsses atos ou de seus dispositivos se
forem considerados desnecessários".

4 — A soberania da União e suas atribuições


A União está dotada da soberania, é o poder supremo
diante dos Estados, possuindo determinadas competências e
atribuições que lhe são exclusivamente privativas.
Entre inúmeras atribuições da União podem ser men
cionadas as seguintes: manter relações com Estados estran
geiros e com êles celebrar tratados e convenções; declarar
guerra e fazer a paz; organizar as forças armadas; plane
jar e promover o desenvolvimento e a segurança nacionais;
organizar e manter a polícia federal; emitir moeda; esta
belecer e executar planos nacionais de educação e de saúde,
bem como planos regionais de desenvolvimento; legislar
sobre Direito Civil, Comercial, Penal, Processual, Eleitoral,
Agrário, Marítimo, Aeronáutico, Espacial e do Trabalho.
O Código Básico ainda veda distinções entre brasileiros,
mantém a liberdade de culto e a fé pública nos documentos.
Sendo a União a ordem jurídica suprema, lhe é d^o
0 poder de intervenção federal. A intervenção federal é o
poder de interferir na vida dos Estados-membros a fim de
obrigá-los ao cumprimento de seus deveres.
A União- não intervém nos Estados, salvo para:
1 — manter a integridade nacional; II — repelir invasão
estrangeira ou a de um Estado em outro; III — pôr têrmo
a perturbação da ordem ou ameaça de sua irrupção ou a
corrupção no poder público estadual; IV — assegurar o
livre exercício de qualquer dos Podêres estaduais; V — reor-
126 Curso de Organização Social e Política Brasileira

ganizar as finanças do Estado que: a) suspender o paga


mento de sua dívida fundada, durante dois anos consecuti
vos, salvo por motivo de fôrça maior; c) adotar medidas ou
executar planos econômicos ou financeiros que contrariem
as diretrizes estabelecidas em lei federal; VI — prover
à execução da lei federal, ordem ou decisão judiciária; e,
VII — exigir a observância dos seguintes princípios: a) for
ma republicana ou representativa; b) temporariedade dos
mandatos eletivos cuja duração não excederá a dos manda
tos federais correspondentes; c) independência e harmonia
dos Podêres; d) garantias do Poder Judiciário; e) autono
mia municipal; f) prestação de contas dá administração;
e» g) proibição ao deputado estadual da prática ou ato do
exercício de cargo, função ou emprêgo mencionados nos
itens X e II, do art. 31, salvo a função de secretário de
Estado.

QUESTIONÁRIO
1 — Para que se destihou o Ato Institucional n.° 5?
2 — De quando data a última Constituição do Brasil?
3 — Qual a forma de Estado estabelecida?
4 — Que sabe sobre a organização dos Estados?
5 — Quem nomeia os Governadores dos Estados e Terri
tórios?
6 — Quem dispõe do poder soberano: a União ou Estado?
7 — Qual a forma de govêrno estabelecida pela Lei Magna
de 1969?
8 — Quais as atribuições da União?
9 — Que sabe sobre intervenção federal?

Capítulo XLVII

A ORGANIZAÇÃO DOS TRÊS PODÊRES

1 — 0 exercido dos três podêres


O regime constitucional moderno consagrou as teses de
Locke e Montesquieu sobre a organização política, com a
repartição tripartida dos podêres. Não se concentram os
podêres em um só órgão ou pessoas: êles são antes descon-
centrados e divididos em div^os órgãos
A Organização dos TrêsVPodêres 127

Tais podêres deverão funcionar e existir independente


mente, mas mediante coordenação e harmonia recíprocas.
Quais são êies?
A Constituição do Brasil assim os admite: a) o Poder
Legislativo, exercido pelo Congresso Nacional; b) o Po^r
Executivo, exercido pelo Presidente da República, auxiliado
pelos Ministros de Estados; c) o Poder Judiciário, exercido
pelo Supremo Tribunal Federal e pelos demais tribunais e
juizes singulares.

2 — Do Poder Legislativo
O Congresso Nacional se desdobra em dois ramos, a
saber, a Câmara dos Deputados e o Senado Federal.
São condições de elegibilidade para o Congresso Nacio
nal: a) ser brasileiro nato; b) estar no exercício dos direi
tos políticos; c) ser maior de 21 anos para a Câmara dos
Deputados e de 35 anos para o Senado; d) ter o domicílio
eleitoral de 2 anos no Estado ou região em que é candidato.
Os deputados são eleitos por 4 anos, proporcionalmente
à população eleitoral de cada Estado. A proporção é a se
guinte: a) até cem mil eleitores, três deputados; b) de cem
mil e um a três milhões de eleitores, mais um deputado
para cada grupo de cem mil ou fração superior a cinqüenta
mil; c) de três milhões e um a seis milhões de eleitores,
mais um deputado para cada grupo de trezentos mil ou
fração superior a duzentos e cinqüenta mil; d) além de
seis milhões de eleitores, más um deputado para cada grupo
de quinhentos mil ou fração superior a duzentos e cinqüen
ta mil.
Os senadores o são por 8 anos, à razão de 3 senadores
por Estado, renovando-se por 1/3 e por 2/3 de cada vez,
em 4 anos.
Cada Território Federal terá um único deputado, exceto
o de Fernando de Noronha.
Tanto os deputados como os senadores serão eleitos
pelo voto direto e secreto.
As atribuições do Poder Legislativo são amplas. Cabe-
lhe em primeiro plano a elaboração das leis, que é a sua
tarefa clássica; incumbe-lhe ainda ptorizar tratados, con
venções e atos celebrados pelo Presidente, autorizá-lo a de
clarar a guerra ou fazer a paz; julgar as contas do Presi
dente, etc.
Curso de Organização Social e Política Brasileira
128

' A Câmara dos Deputados tem ainda o poder de declarar


2/3 dos seus membros o impedimento ou impeachment
do Presidente e seus ministros, que então devem ser julga
dos pelo Senado. O impeachment ou impedimento é a acusa
ção dos principaiscom
responsabilidade, agentes políticos doperda
a subseqüente país,do
porcargo.
crimes de

3 j}o Poder Executivo


O poder Executivo é exercido pelo Presidente da Repú
blica, escolhido por um período de 5 anos, por um colégio
eleitoral especial. Só podem candidatar-se à Presidência os
hrasilelTos máos, maiores de 35 amos, no exercício dos di
reitos políticos.
o presidente da República é substituído nos casos de
vaga ou de impedimento pelo Vice-Presidente, eleito com
êle pelo mesmo prazo de duração do mandato e com as mes
mas condições de elegibilidade.
O colégio eleitoral referido será composto dos membros
do Congresso Nacional é de delegados das Assembléias Le
gislativas dos Estados.
Cada Assembléia indicará três delegados dentre seus
membros, e mais um por quinhentos mil eleitores inscritos
no Estado, não podendo nenhuma representação ter menos
de quatro delegados.
Em caso de impedimento do Presidente ou do Vice-Pre
sidente ou vacância dos respectivos cargos, serão sucessiva
mente chamados ao exercício da Presidência o presidente da
Câmara dos Deputados, o do Senado Federal e o Supremo
Tribunal Federal.
São inúmeras as atribuições presidenciais. Nomear e
demitir livremente os Ministros de Estado, o Governador do
Distrito Federal e dos Territórios Federais; exercer o co
mando supremo das fôrças armadas; nomear os funcionários
públicos federais; interferir no processo legislativo, sancio
nando, promulgando ou vetando os projetos de lei, tendo o
poder de iniciativa de algumas leis; manter relações com
Estados estrangeiros, declarar a guerra ou celebrar a paz,
autorizado pelo Congresso ou ad referendum do mesmo, etc.
Quando comete os crimes de responsabilidade, contra a
lei orçamentária, a probidade administrativa, os direitos
do homem, a existência da União, é acusado pela Câmara
A Organizasão dos Três Podêres 129

dos Deputados e julgado pelo Senado, é o impeachement ou


impedimento.

4 — Do Pod&r Judiciário

O órgão supremo do Poder Judiciário é o Supremo Tri-jj


bunal Federal, com sede na Capital da União e jurisdição
em todo o território nacional, composto de 11 Ministros.
Os Ministros serão nomeados pelo Presidente da República,
depois de aprovada a escolha pelo Senado Federal, dentre
cidadãos maiores de 35 anos, de notável saber jurídico e
reputação ilibada.
Além do Supremo Tribunal Federal, o Poder Judiciá
rio é exercido pelos seguintes órgãos: Tribunais Federais
de Recursos e Juizes Federais; Tribunais e Juizes Milita
res: Tribunais e Juizes Eleitorais; Tribunais e Juizes do
Trabalho; Tribunais e Juizes Estaduais.
Os Ministros e Juizes gozam das seguintes garantias:
vitaliciedade, inamovibilidade e irredutibilidade de venci
mentos.

QUESTIONÁRIO

1 — Quais são os três podêres da União?


2 — Quais os órgãos do Poder legislativo?
3 — Quem exerce o Poder Executivo?
4 — Quais os órgãos do Poder Judiciário?
5 — Que sabe sôbre a Câmara dos Deputados?
6 — Que sabe sôbre o Senado?
7 — Os territórios federais elegem deputados e senadores?
8 — Quais as principais atribuições do Poder Legislativo?
9 — Quem exerce o Poder Legislativo?
10 — Quais as condições de elegibilidade do Presidente e
do Vice-Presidente da República?
11 — Como se elege o Presidente?
12 — Quais as principais atribuições do Presidente?
13 — Que entende por impeaehmenti
14 — Enumere alguns crimes de responsabilidade.
15 — Quais os órgãos do Poder Judiciário?
16 — De quantos membros se compõe o Supremo Tribunal
Federal?
17 — Como são nomeados os Ministros do Supremo Tribu
nal Federal e quais as condições?
capítulo XLVIII

NACIONALIDADE E CIDADANIA

1 — NudonaMdade nata, e derivada


Os cidadãos brasileiros podem ser de duas categorias;
natos e naturalizados. Tem-se ass.m a nacionalidade de ori
gem e a 'naxnoTuUidfide derivada.
São brasileiros natos: os indivíduos nascidos no Brasil,
embora de pais estrangeiros, desde que êstes não estejam
a serviço do seu país; os nascidos fora do território nacional,
de pais brasileiros ou mãe brasileira, quando a serviço do
Brasil; os nascidos no estrangeiro, ou pai ou mãe brasilei
ros, embora não estejam a serviço do país, desde que regis
trados em repartição brasileira competente no exterior, ou,
ainda quando não registrados, venham a residir no territó
rio nacional, antes de atingir a maioridade, mas então de
verão optar dentro de 4 anos após a maioridade, pela nacio
nalidade brasileira.
Os brasileiros natuxçMzados são: os nascidos no estran
geiro que hajam sido admitidos no Brasil durante os 5 pri
meiros anos de vida, estabelecidos definitivamente no terri
tório nacional, mas, para preservar a nacionalidade brasi
leira deverão manifestar-se inequivocamente até 2 anos após
atingir a maioridade; os nascidos no estrangeiro que vindo
a residir no Brasil antes da maioridade, façam curso supe
rior em estabelecimento nacional e requeiram a nacionali
dade até um ano após a formatura: os que de outra forma
prevista pela lei, adquirirem a nacionalidade brasileira, exi
gida aos portugueses apenas residência por 1 ano ininter
rupto, idoneidade moral e sanidade física.

2 — A privatividade dos cargos públicos


Determinados cargos são privativos de cidadãos brasi
leiros natos, eis que pela sua importância não poderão ser
exercidos por brasileiros naturalizados.
São privativos de brasileiros natos os cargos de Presi
dente e Vice-Presidente da República, Ministro de Estado,
Ministro do Supremo Tribunal Federal, do Supremo Tribu
nal Militar, do Tribunal Superior Eleitoral, do Tribunal Su
perior do Trabalho, do Tribunal Federal de Recursos, do
Tribunal de Contas da União,, Procurador-Geral da Repú-
Os Direitos e os Deveres do Cidadão 131

blica, Senador, Deputado Federal, Governador do Distrito


Federal, Governador e Vice-Governador de Estado e de Ter
ritórios e seus substitutos, os de Embaixador e os de carrei
ras de Diplomata, de Oficial da Marinha, do Exército e da
Aeronáutica. 11
Justifica-se esta medida, porque só os brasileiros natos
têm na realidade um maior sentimento de amor à pátria,
para inclusive, quando necessário, oferecer-lhe em holocaus
to a vida nos momentos de perigo nacional.

QUESTIONÁRIO

1 — Como se divide a nacionalidade?


2 — Quais são os brasileiros natos?
3 — Quais são os brasileiros naturalizados?
4 — Como se perde a nacionalidade?
5 — Quais os cargos privativos de brasileiros natos?

Capítulo XLIX

OS DIREITOS E OS DEVERES DO CIDADÃO

1 — A liberdade

A liberdade é o poder do cidadão de exercer a atividade


física, moral, intelectual e econômica, sem outros limites
senão aquêles que o Estado interpõe para proteger a liber
dade dos demais cidadãos.
Os direitos de liberdade do cidadão estão expressos nas
chamadas declarações de direitos. As declarações e direi
tos são os grandes textos enunciativos da liberdade. A mais
antiga declaração de direitos é a Magna Carta inglêsa de
1215. Outra declaração famosa é a Declaração dos Direitos
do Homem e do Cidadão de 1789, editada pela França revo
lucionária, com os seguintes princípios básicos: liberdade,
igualdade, fraternidade e resistência à opressão.
Deve-se distinguir entre declaração de direitos e garan
tias constitucionais. As declarações de direitos são os textos
enunciativos das liberdades, enquanto as garantias consti
tucionais são os remédios processuais assecuratórios de tais
liberdades, como o habeas-oorpus, por exemplo.
132 Curso de Organização Social e Política Brasileira

2 — Os direitos do cidadão

Muitos são os direitos do cidadão. Entre êles se incluem


a liberdade de pensamento, a liberdade de culto, de profis
são, de ter convicções políticas próprias, etc. Daí a razão
que levou à classificação dos principais direitos do cidadão.
Anteriormente se dividiam tais liberdades em dois
grandes grupos: as liberdades j^i^vadas e as liberdades po
líticas.
Hoje pode fazer-se a seguinte divisão em quatro gru
pos dos direitos do homem, a saber: os direitos de liberdade
do indivíduo isolado (liberdade de consciência, liberdade
pessoal, propriedade privada, inviolabilidade de domicílio,
segrêdo de correspondência), aos quais se seguem os direi
tos de liberdade do indivíduo em relação aos outros (liber
dades de manifestação de opinião, de discurso, de imprensa,
de culto, de reunião e de associação), acompanhados dos clás
sicos direitos políticos do cidadão no Estado (igualdade di
ante da lei, direito de petição, sufrágio igual, acesso igual
aos cargos públicos), afinal coroados pelos "direitos e pre
tensões socialistas" (direitos ao trabalho, à assistência, so
corro, educação e instrução).
No Brasil, a pena de morte, de banimento, de confisco,
ou de prisão perpétua só é admitida nos casos de guerra
externa, psicológica adversa ou revolucionária ou subver
siva nos têrmos que a lei determinar.

3 — Os direitos polítioos

Os direitos políticos são os direitos do exercício da ação


política. Tais como, entre outros: o alistamento, o direito
de voto, a elegibilidade, o direito de pertencer a partidos, etc.
No Brasil, são eleitores os brasileiros maiores de de
zoito anos alistados na forma da lei.
O alistamento e o voto são obrigatórios para os brasi
leiros de ambos os sexos, salvo as exceções previstas em lei.
Os militares serão alistáveis, desde que oficiais, aspi
rantes a oficiais, guardas-marinha, subtenentes ou subofi-
ciais, sargentos ou alunos das escolas militares de ensino
superior para a formação de oficiais.
Não poderão alistar-se eleitores: a) os analfabetos;
b) os que não saibam exprimir-se na língua nacional; e.
Os Direitos e os Deveres do Cidadão 133

c) OS que tiverem sido privados, temporária ou definitiva


mente, dos direitos políticos.
O sufrágio é universal e o voto é direto e secreto, salvo
nos casos previstos na constituição: os partidos políticos
terão representação proporcional, total ou parcial, na foirma
que a lei estabelecer.
Atualmente, em junho de 1969, o eleitorado brasileiro
ascende a cêrca de 25.000.000 de eleitores.

4 — As garantias constitucionais

As garantias constitucionais são os remédios que asse


guram as liberdades humanas. A cada direito deve corres
ponder a possib-lidade de uma garantia constitucional.
Segundo Paulino jAOQUEs as garantias constitucionais
podem ser assim classificadas: "a) as garantias criminais
preventivas, que são a legalidade da prisão, a afiançabili-
dade do delito, a comunicabilidade da prisão, o habeas-cor-
pits, a plenitude da defesa, a inexistência de fôro privile
giado e de tribunais de exceção, a legalidade do processo e
da sentença, o júri; b) as garantias criminais repressivas,
que abrangem a individualização, a personalização e a hu-
manização da pena, a inexistência da prisão civil por dívida,
multa ou custas, a inexistência de extradição debrasileiro
e de estrangeiro por crime político ou de opinião; c) as ga
rantias tributárias, que abarcam a legalidade do tributo e
a de sua cobrança; d) as garantias civis, abrangendo o man
dado de segurança, a assistência judiciária gratuita, o rá
pido andamento dos processos nas repartições públicas, a
ciência dos despachos e informações respectivas, a expedi
ção de certidões, o direito de representação e a ação popu
lar". As garantias civis abrangem ainda a garantia da
irretroatividade da lei e do controle judiciário das leis, am
parando as liberdades privadas do cidadão.
Dentre as garantias destacam-se o habeas-corjms e o
mandado de segurança. O haheas-corpus destina-se a pro
teger a liberdade física de locomoção, e existe no Brasil
desde o Império. O Tncmdado de segura/nça foi introduzido na
Constituição de 1934, em expressão criada por João Man-
gabeira e se aplica para proteção dos direitos líquidos e
certos de pessoas, violadas pela autoridade, permitindo-se
desterte ao prejudicado interpor a medida perante o poder
judiciário para anular a coação e reparar o prejuízo.
134 Curso de Organização Social e Política Brasileira

5 — Os Deveres do Cidadão
Mas os cidaáãos têm deveres ao lado dos seus direitos.
Entre êles se incluem principalmente o respeito à Consti
tuição e às leis do país. É preciso desenvolver no coração
do povo e das autoridades o culto de constituição e o culto
da legalidade. Sem êles não há paz, progresso nem ordem.
Ainda outros deveres são enunciados, como o dever de
pagar impostos e taxas, prestar o serviço militar, alistar-se
e votar nas eleições, afora outros especificados na Consti
tuição e nas leis, ou em ambas implicitamente admitidos.

QUESTIONÁRIO

1 — Que entende por liberdade?


2 — Qual a distinção entre declaração de direitos e garan
tias constitucionais?
3 — Que sabe sobre a Carta Magna?
4 — Como se classificam os direitos do homem?
5 — Que entende por direitos políticos?
6 — Quais as condições para que o cidadão adquira o ti
tulo de eleitor? 1
7 —-A quanto ascende oficialmente o eleitorado brasileiro?
8 — Como sq classificam as garantias constitucionais?
9 — O que é haheas-corpus?
10 — O que é mandado de segurança?
11 — Quais os principais deveres do cidadão?

Capítulo L

OS PARTIDOS POLÍTICOS: DA VELHA REPÚBLICA


À ATUALIDADE

1 — Os partidos políticos na velha republica


Os partidos do Império, que tradicionalmente haviam
dominado o pais, se dissolveram em 1889, mantendo-se ape
nas o agrupamento dos republicanos. Contudo, a tendência
dominante , na Velha República foi a formação de partidos
locais.
Cada Estado tinha , via de regra, um partido republi
cano, como o paulista, o mineiro, etc. O partido republicano
paulista tinha então uma designação famosa — perrepista.
Os Partidos Políticos: Da Velha República à Atualidade 135

Tais partidos eram o ponto de sustentação dos governado


res que apoiavam o govêrno federal, e daí a expressão poli-
pica dos governadores, vulgarizada por Campos Sales.
No Rio Grande do Sul surgiu o Partido Libertador, de
orientação parlamentarista, tendo como representantes mais
autorizados ASSIS Brasil e Raul Pila, Francisco Glicério
foi o chefe do Partido RepuhlicaTio Federal em 1893. Outro
partido, de que foi chefe incontestável, era dirigido por
Pinheiro Machado, o Partido Republicano Conservador.
Rui Barbosa chefiou uma Campanha Civilista em 1919.
Mais tarde foi fundada a Àliamça Liberal, quando os parti
dos republicanos de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e
Paraíba se colocaram, em 1929, contra o govêrno federal no
momento da sucessão presidencial.
Em 1922 foi fundado o Pa/rtido Comvmsta, dirigido en
tão por Astrogildo Pereira, logo pôsto no subsolo de ile
galidade três mêses depois, e orientado mais tarde por Luis
Carlos Prestes. Depois de 1930 teve ainda um curto perío
do de legalidade, durante seis pieses.

2 — Os Partidos Politioos depois de 1930 até 1937

A revolução de 1930 foi prontamente vitoriosa, repre


sentando uma aliança de políticos e militares em ação con
jugada. Antônio Carlos, Getúuo Vargas e JoÃo Pessoa,
êste último assassinado na confeitaria Helvética no Recife,
foram os grandes chefes civis da revolução. Dentre os mi
litares se sobressaíram Juarez Távora, Siqueira Campos,
João Alberto, Eduardo Gomes e Cordeiro de Farias.
Em 1933 foram realizadas eleições para uma Assem
bléia Constituinte, promulgada a Constituição de 1934, sendo
então eleito indiretamene Getúlio Vargas como Presidente
por 4 anos.
No período que vai de 1930 a 1937, formaram-se a
Ação Integralista Brasileira em 1932, dirigida por PLÍNIO
Salgado; a Aliança Nacional Libertadora, dirigida pelo ex-
capitão Luís Carlos Prestes, que desencadeou um movi
mento comunista em 1935, irrompido em Natal, no Recife e
Rio de Janeiro, e logo esmagado, sendo os seus líderes apri
sionados, o relato da prisão descrito por Graciliano Ram^
uo liyvo Memórias do Cárcere. Ambos os partidos, a Ação
Integralista e a Aliança Nacional Libertadora eram parti
dos extremistas, de direita e de esquerda.
136 Curso de OrganLzaçãc Social e Política Brasileira

Partidos oficiais da estrutura clássica brasileira foram


constituídos pelos candidatos à sucessão presidencial; de um
lado a União Democrática NíwioiiaZ, que pretendia levar
à Presidência o Governador de S. Paulo Armando Sales
DE Oliveira, em oposição ao varguismo; do outro lado os
partidários do outro candidato JosÉ Américo de Almeida,
político paraibano de nomeada e ligado a Getúlio Vargas.
Mas o golpe de Estado de 1937 eliminou as possibilida
des de sucessão de ambos os candidatos. Os partidos foram
dissolvidos, o Congresso teve o mesmo destino, a imprensa
perdeu a sua liberdade, perdurando o regime que foi cha
mado de Estado Nôvo até 1945.

3 — Os Partidos Políticos depois de 19^5 a 1965


Após 15 anos de poder pessoal, Vargas foi deposto em
29 de outubro de 1945, no mesmo mês da revolução de 1930.
Formaram-se então diversos partidos. Houve então uma
tendência à aglutinação de forças políticas em três maci'0'
partidos, e, de outro lado, à pulverização em alguns micro-
parindos. ^
Os macro-partidos então fundados eram os seguintes:
Particbo Social Democrático, União Democrática Nacional e
Pa/rtido Trabalhista.
O Pa/rtido Social Democrátiáo manteve uma visível he
gemonia eleitoral na época,tendo eleito os Presidentes EURICO
Gaspar Dutra e Juscelino Kubitschek, apoiado pela bur
guesia rural e pelos conservadores.
A União Democrática Nacional teve a princípio o seu
grande líder em Eduardo Gomes, com os seus pontos de sus
tentação na classe média urbana, nos industriais, nos letra
dos, formando-se uma Esquerda Democrática, agregada à
mesma. JÂNIO Quadros teve na sua eleição vitoriosa o apoio
de um forte contingente industrial.
O terceiro macro-partido foi o Partido Trabalhista Bra^
süeiro, fundado por Vargas e vitorioso nas eleições de 1950.
Os trabalhadores urbanos eram o seu grande ponto de sus
tentação. Ultimamente passou a sofrer a influência da ideo
logia do Lahour Party inglês, amalgamando fôrças do sin
dicalismo com. tendências intelectuais, trabalhadores e so
cialistas.
Os micro-partidos eram inúmeros. Em 1965 ascendiam
a 13. Dêstes convém mencionar: o; Pa/rtido Social Progres-
Os Partidos Políticos: Da Velha República à Atualidade 137

sista, chefiado por Ademar de Barros; o Partido Republi


cano, liderado por Artur Bernardes, e retrocedendo as suas
raízes ao Império; o Partido LibeiiJiador, com tendência par
lamentarista, sob a orientação de Raul Pila; o Partido So-i
Gwlista Brasileiro, tendo como chefe o eminente intelectual'
e jurista João Mangabeira; o Partido de Representação
Popular, a antiga Ação Integralista, dirigido por PLÍNIO
SALGADO; o Partido Comunista do Brasü, que teve efêmera
legalidade, de 1945 a 1947, quando foi dissolvido, e ainda
dirigido por Luís Carlos Prestes.
Ao todo existiram 13 partidos às vésperas da revolução
de 1964, porém a maior expressividade eleitoral se concen
trava nos macro-partidos.
4 — Os Partidos Políticos atuais: a ARENA e o MDB
A Revolução Vitoriosa de 1964 manteve os partidos tra
dicionais, mas reduzidos na sua fôrça e agressividade pelas
cassações das suas principais lideranças. Contudo o Ato Ins
titucional n.® 2, de 27.10.1965, os dissolveu.
Nova legislação eleitoral foi editada. O Ministro da Jus
tiça, Milton Campos consolidou a nova legislação eleitoral,
em três documentos legislativos, a saber: o Código Eleitoral,
a Lei Orgânica dos Partidos Políticos e a Lei das Inelegibili-
dddes, todas datadas de 1965, as duas últimas substituídas
por novas leis, respectivamente em 1971 e 1970.
As Constituições de 1967 e 1969 também reformularam
a problemática do regime partidário.
O Ato oCmplementar n.® 4, de 25.11.1965 permitiu
a formação de organizações partidárias, constituindo-se
então a Arena (Aliança Renovadora Nacional) e o MDB
(Movimento Democrático Brasileiro), que em 1967 se trans
formaram em partidos políticos. São assim dois os grandes
macro-partidos do Brasil atual: a) a Arena, que apoia o
govêrno e a situação atual; b) o MDB que as contesta legal
mente e pretende a reforma da Constituição.
Foi inclusive dada grande importância à formação dos
Partidos. A Constituição atual de 1969, em seu art. 162,
regula a matéria.
A organização, o funcionamento e a extinção dos parti
dos políticos serão regulados em lei federal, observados os
seguintes princípios: I — regime representativo e democrá
tico, baseado na pluralidade de partidos e na garantia dos
direitos fundamentais do homem; II — personalidade jurí
dica, mediante registro dos estatutos; III — atuação per-
138 Curso de Organização Social e Política Brasileira

manente, dentro de programa aprovado pelo Tribunal Supe


rior Eleitoral, e sem vinculação, de qualquer natureza, com
a ação de governos, entidades ou partidos estrangeiros;
IV — fiscalização financeira; V — disciplina partidária;
VI — âmbito nacional, sem prejuízo das funções delibera
tivas dos diretórios locais; VII — exigência de cinco por
cento do eleitorado que haja votado na última eleição
geral para a Câmara dos Deputados, distribuídos, pelo me
nos, em sete Estados, com o mínimo de sete por cento em
cada um dêles; e, VIII — proibições de coligações par
tidárias.
A tendência atual é a de fortalecer os grandes parti
dos, dando-lhes estrutura, organização e direção nacional,
antagônica assim às pulverizações dos micro-partidos.
QUESTIONÁRIO
1 — Quais os partidos da Velha República?
2 — Que significa a palavra perrepisrru)?
3 — Que pode dizer sobre a expressão política dos go
vernadores? I .
4— Quais os principais partidos entre 1930 e 1937?
5 —^ Quantos partidos existiam em 1965?
6 — Que pode dizer sôbre os macro-partidos da época?
7— Que sabe sôbre os micro-partidos?
8 — Quais os três partidos mais importantes entre 1945
e 1965?
9 — Como ficou tripartida a legislação eleitoral depois de
1965?
10 — Quais os atuais partidos do Brasil?
11 — Quando se formaram a ARENA e o MDB? Qual a sua
orientação política?
12 — Como a Constituição de 1969 disciplina o problema
partidário?

Capítulo LI

PEQUENA HISTÓRIA DO PRESIDENCIALISMO:


A VELHA REPÚBLICA

1 — Os Presidemies da Velha República


Homens ilUstres construíram a nacionalidade da velha
República. Estadistas e homens públicos, de feitio diferente,
e que deram o melhor de sua perspnalidade à construção do
pensamento republicano.
Pequena História do Presidencialismo: A Velha República 139

Instalado o Govêrno Provisório, teve êle como chefe o


Mal. Deodoro da Fonseca, e como Vice-chefe Rui Barbosa,
também Ministro da Fazenda, com o seguinte ministério:
Campos Sales na Justiça, Quintino Bocaiúva nas Relaçõ^
Exteriores, Benjamin Constant na Guerra, Eduardo Wan-
DENKOLK na Marinha e Aristides Lobo no Interior.
Promulgada a Constituição de 1891, o Congresso, legeu
o Presidente da República e o Vice-Presidente. O 1.® Pre
sidente do país foi o Marechal Deodoro da Fonseca (1827-
1892), alagoano, que ascendeu à Presidência aos 62 anos.
Os oposicionistas à candidatura do Marechal lançaram o
nome de Prudente de Morais, que perdeu por 32 votos.
Mas ganhou a oposição quanto à Vice-Presidência, pois o
seu candidato Floriano Peixoto venceu o candidato do go
vêrno Eduardo Wandenkolk. Cpntudo Deodoro da Fon
seca não agiu com a necessária habilidade para contentar
a oposição republicana, pouco satisfeita com a sua ligação
com homens ilustres da Monarquia, com o Barão de Lucena.
Em face da hostilidade entre o Congresso e a Presidência,
Deodoro dissolveu-o a 3 de novembro de 1891, lançando um
manifesto à Nação. Tal atitude provocou a revolta da es
quadra em 23 de novembro do mesmo ano. O navio Riachuelo
disparou granadas, alarmando a população. Deodoro tinha
fôrça suficiente para esmagar a revolução, mas preferiu re
nunciar, morrendo em agosto de 1892.
Ascendeu ao poder o Marechal Floriano Peixoto
(1842-1895), alagoano, que ascendeu à Presidência em 1891,
aos 48 anos de idade, na qualidade de Vice-Presidente, para
terminar o quadriênio constitucional. Floriano Peixoto res
taurou o Congresso, substituindo os governadores estaduais
que haviam apoiado o seu antecessor. Logo em seguida 13
generais enviaram um manifesto ao Presidente, reclamando
nova eleição, eis que pretendiam ser inconstitucional a as
censão à Presidência de Floriano, como também o pretendia
o grande jurisconsulto Rui Barbosa. Floriano, enérgico,
puniu os aludidos generais, reformando-os, contando com o
apoio da maioria do Congresso. Nova revolução irrompeu
em fevereiro de 1893, no Rio Grande do Sul, que só foi de
todo dominada em 1895. Ainda em setembro de 1893, che
fiada por Custódio José de Melo e com o apoio do contra-
al;nirante Saldanha da Gama, irrompeu a revolta da Ar-
'oiada, no Rio de Janeiro. Floriano combateu com energia e
destemor tais movimentos revolucionários. Por sua energia
140 Curso de Organização Social e Política Brasileira
,/
indomável e sua combatividade foi chamado o Marechal de
Ferro e o Gonsolidador da Republica.
O 3.° Presidente do Brasil foi Prudente de Moraes
(1841-1902), paulista que ascendeu ao poder com 53 anos,
governando de 1894 a 1898. Inicia a série dos presidentes
civis e paulistas. Encontrou o país em dificuldades finan
ceiras e procurou aliviá-las, eis que decorrentes das su
cessivas sublevações. Decretou a anistia para os revoltosos
federalistas, sendo assim chamado o Pacificador. Pruden
te DE Moraes foi eleito por 290.883 votos sôbre 345.097
eleitores, tendo comparecido na eleição geral 2,21% da po
pulação. O principal acontec.mento do seu govêrno foi a
revolta de Canudos, chefiada por Antonio Conselheiro,
que derrotou três expedições militares, para afinal ser
vencido em 1897. Neste mesmo ano foi assassinado em no
vembro o Ministro da Guerra Carlos IMachado Bitten
court, quando procurou desarmar o criminoso que pretendia
assassinar o Presidente.
O 4.® Presidente foi Manoel Ferraz de Campos Sa
les (1841-1913), paulista que governou o país e que ascen
deu à Presidência com 57 anos. Foi eleito por 420.286 sô
bre o total de ,462.188 eleitores, com a participação de
2,70% da população. Escolheu para Ministro da Fazenda a
Joaquim Martinho, e à sua eficiência se deveu o equilíbrio
e a restauração das finanças nacionais, mantendo o câmbio
alto e pagando parte de nossa dívida externa.
O 5.® Presidente foi Rodrigues Alves (1848-1919),
que ascendeu ao poder aos 54 anos, também natural de São
Paulo, e que governou o país de 1902 a 1906. Foi o terceiro
Presidente paulista sucessivo. Foi eleito por 592.039 votos,
comparecendo 645.531 eleitores às urnas, comparecendo à
eleição 3,44% da população. A sua Presidência consagrou-se
com uma grande operosidade. O Barão do Rio Branco re
solveu diversos problemas de limites do país. O Prefeito
Francisco Pereira Passos transformou o Rio de Janeiro
em uma cidade moderna, abrindo amplas avenidas, como a
atual Avenida Rio Branco (antiga Avenida Central), A ave
nida Beira-Mar, construindo edifícios suntuosos, como o
Teatro Municipal, iluminando a cidade através de contrato
cora a companhia canadense Light and Power, à qual tam
bém coube a instalação dos bondes elétricos. É esta a época
de Oswaldo Cruz, diretor da Saúde Pública, que saneou
o Rio de Janeiro das moléstias quê atemorizavam o país::
a cólera, a varíola e a febre amarela, instituindo a vacina
Pequena História do Presidencialismo: A Velha República 141

obrigatória contra a varíola. Kodrigues Alves realizou sem


dúvida, em todos os aspectos, uma grande obra construtiva.
Para o 6.° mandato presidencial foi eleito um mineiro,
Afonso Pena (1847-1909) que ascendeu à Presidência aos
59 anos. Foi eleito por 288.289 votos sôbre 294.401, com
parecendo à eleição 1,44% da população. Governou a nação
de 1906 a 1909, falecendo neste ano, não tendo assim con
cluído o seu mandato. Fêz construir a Estrada de Ferro
Noroeste (São Paulo a Mato Grosso), pois se viajava para
aquêle Estado pelo Prata em navio e inaugurou em 1908
a Exposição Nacional comemorativa do centenário da aber
tura dos portos.
Com a sua morte, torna-se Presidente Nilo Peçanha,
com 42 anos, nascido no Estado do Rio de Janeiro, em 1867.
Tinha sido eleito Vice-Presidente em 1906, torna-se Presi
dente com a morte de Afonso Pena, e é assim o 6.° Pre-'
sidente do Brasil. O nôvo Presidente saneou a Baixada
Fluminense e iniciou uma elevada missão promotora da inte
gração do índio ao patrimônio espiritual do país.
O 8.° Presidente da República é o Marechal Hermes
Rodrigues da Fonseca, nascido no Rio Grande do Sul em
1855, que se empossa da Presidência aos 55 anos. Dirige o
país de 1910 a 1914. Foi eleito por 403.867 votos sôbre
707.561, comparecendo assim, 8,19% da população. Travou-
se na ocasião uma das mais movimentadas campanhas polí
ticas do país, pois o candidato da oposição era o prestigiado
líder político e intelectuaT Rui Barbosa, que idealizou a
Campaníiha Civüista. Na época ascendeu ainda a figura de
Pinheiro Machado, chefe do Partido Republicano Conser
vador, que apoiou o Marechal Hermes da Fonseca. O seu
govêrno revelou certa agitação. O marinheiro JoÃO Cân
dido chefiou uma revolta nos couraçados Minas Gerais e
PaÂilo, com o fito de abolir os castigos corporais ainda exis
tentes na Armada. O Batalhão Naval também se revoltou
na Ilha das Cobras. Os dois movimentos rebeldes foram logo
sufocados. A anistia os beneficiou. Ê também a época em
que apareceu o Padre Cícero, no Ceará, objeto de veneração
da crendice sertaneja e também provocando tumultos.
O 9.° Presidente da República foi Wenceslau BR^
Pereira, nascido em Minas Gerais em 1868, e que assim
conquistou ainda môço a Presidência, aos 46 anos. Gover
nou a nação de 1914 a 1918. A sua votação foi de 532.107
votos sôbre 580.917, abrangendo 2,40% da população. É o
142 Curso de Organização Social e Política Brasileira

/ tempo da entrada do Brasil na Guerra Mundial, em 1917,


em face da agressão sofrida pelo torpedeamento dos navios
brasileiros. No seu govêrno tem solução a chamada Questãx)
do Contesta^, região litigiosa disputada pelo Paraná e
Santa Catarina. Uma população campesina rebelde aí exis
tia, liderada pelo místico José Maria Agostinho, sempre
resistindo às tropas governamentais. Contudo o general Se-
TEMBRINO DE CARVALHO, à frente de 6.000 homens, conquis
tando o seu reduto, terminou a rebelião.
Nôvo Presidente eleito é Rodrigues Alves, paulista já
em avançada idade, aos 70 anos,, conseguindo 386.467 vo
tos sobre o total de 890.131, votando 1,48% da população.
Morre contudo, antes de assumir o poder, sendo substituído
pelo Vice-Presidente, Delfim Moreira (1868-1920), minei
ro, Presidente aos 50 anos. De acordo com a Constituição,
novas eleições são convocadas, apresentando-se como candi
datos Epitácio Pessoa e Rui Barbosa, que realiza uma ad
mirável campanha presidencial, vencendo porém o primeiro,
apoiado pelas forças governamentais.
Epitácio da Silva Pessoa, paraibano nascido em 1865,
foi assim Presidente áos 54 anos, eleito por 286.373 votos
sôbre 403.315, comparecendo à eleição 1,55% do eleitorado.
Governa o país de 1919 a 1922. É o idealizador das obras
. contra as secas no nordeste. Implantou também uma estru
tura de ferrovia no pais. Em 1922 se comemorou o Cente
nário da Independência do Brasil, com uma Exposição In
ternacional. Nesse mesmo ano foi eleito o nôvo Presidente
Artur Bernardes; para impedir a sua posse houve uma
rebelião lírica e corajosa no Forte Copacabcma, da qual fêz
parte o Brigadeiro Eduardo Gíomes.
O 13.® Presidente da República é Artur da Silva Ber
nardes, eleito por 466.877 contra 833.270, comparecendo
2,92% da população. Mineiro, nascido em 1875, tornou-se
Presidente aos 47 anos. O seu govêrno no quadriênio de
de 1922 a 1926 foi agitado por diversos movimentos revolu
cionários, dos quais o mais importante foi a revolta de julho
de 1924 em São Paulo, em que os rebeldes chegaram a apos
sar-se da capital do Estado; vencidos, se internaram em
Mato Grosso. Bernardes se utilizou várias vêzes do estado
de sítio. Em seus govêrno foi reformada a Constituição, em
1926.
O 14.® Presidente é Washington Luís Pereira de
Souza, no quadriênio de 1926^1930. Embora nascido no Rio
Pequena História do Presidencialismo: A Velha República 143

de Janeiro (fluminense), é politicamente paulista, pois em


São Paulo fêz a sua carreira política. Nasceu em 1870 e
faleceu em avançada idade em 1957, tendo sido Presidente
aos 56 anos. ij
Foi eleito por 688.528 votos sobre 702.612, compare
cendo 2,27% da população às eleições então realizadas.
Washington Luís procurou estabilizar a situação finan
ceira do país, abrindo estradas e fortalecendo a economia
cafeeira. Era seu lema: "Governar é abrir estradas". Neste
sentido fêz construir duas importantes ferrovias: a Rio-
São Paulo e a Rio-Petrhpolis. Foi o seu govêrno envolvido
pela crise econômica da chamada Grande Depressão, que
atingiu vários países, inclusive o Brasil, abrindo margem
para a intensificação do movimento revolucionário que der
rubou a Velha República. Washington Luís oficializou a
campanha do seu sucessor, Júlio Prestes de Albuquerque,
também paulista. Levantou-se a candidatura Getúlio Var
gas pelas fôrças de oposição. A vitória foi do candidato ofi
cial, que obteve 1.091.709 votos sôbre 1.890.521, compa
recendo 5,65% da população. Mas irrompeu um movimento
revolucionário em outubro de 1930. No dia 24 do mesmo
mês, Washington Luís foi deposto, e como prêso político
foi conduzido para o Forte Copacabana, depois exilado para
o estrangeiro. O seu govêrno terminaria a 15 de novembro,
poucos dias depois da sua deposição.

2 — A hegemonia mineiro-paulista no poder

Durante a Velha República, de 1889 a 1930, houve uma


visível ascendência mineiro-paulista no poder. A maioria dos
Presidentes da República nasceu nesses dois Estados, ou
estava vinculada à orientação política dos mesmos.
Assim, paulistas ou vinculados a São Paulo foram os
Presidentes Prudente de Moraes, Campos Sales, Rodri
gues Alves (2 vêzes, a segunda não tomou posse) Washing
ton Luís, afora JúLio Prestes, que não veio a empossar-se.
Mineiros foram os Presidentes AFONSO Pena, Vences-
LAu Braz, Delfim Moreira (na qualidade de Vice-Presi-
dente) e ARTUR Bernardes.
Nilo Peçanha assume o poder como Vice-Presidente
com a morte de Afonso Pena, é fluminense fora dos qua
dros tradicionais mineiro-paulista. O único Presidente do
144 Curso de Organização Social e Política Brasileira

nordeste sufragado pelo povo é Epitácio Pessoa, paraibano,


como um acidente circunstancial, devido ao falecimento do
Presidente eleito Rodrigues Alves, a fim de evitar uma
crise política entre os dois grandes Estados da Federação,
S. Paulo e Minas Gerais.
Além dêsses, há militares, dois alagoanos, Deodoro da
Fonseca e Floriano Peixoto, e um gaúcho Hermes da
Fonseca, que ascenderam ao poder por força de novos ca
nais de mobilidade social, a saber, as forças armadas.
Assini sendo, dos 14 Presidentes da República Velha, 11
foram civis e 3 militares, os civis especialmente formados
pelas duas academias jurídicas do Brasil, S. Paulo e o Recife.
A média de idade com que cada Presidente se empossou
no poder foi de 53 anos. Dêstes o mais môço foi Nilo Pei-
çanha, aos 42 anos, Wenceslau Braz aos 46 anos, Artur
Bernardes aos 47 anos e Floriano Peixoto aos 48 anos.
anos. Os mais velhos foram Deodoro da Fonseca, aos 62
anos, Afonso Pena, aos 59, Campos Sales, aos 57 e
Washington Luís, aos 56 anos.
Geralmente, no sistema dei combinação de forças, então
dominante, Minas e S. Paulo forneciam os Presidentes, os
Estados médios da Federação elegiam os Vice-Presidentes,
como Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro, etc. Pernambuco
deu dois Vice-Presidentes, a saber Rosa e Silva, que foi
Vice-Presidente de 1898 a 1902 durante o período de Cam
pos Sales e que assumiu a Presidência por 30 dias por oca
sião de sua ida à Argentina, assim como também pernam
bucano foi Estágio Coimbra.

QUESTIONÁRIO

1 — Como se constituiu o Govêrno Provisório?


2 — Quantos Presidentes da República teve a 1.^ Repúbli
ca? Quais foram êles?
3 — Quantos Presidentes militares e quantos civis teve a
1.^ República?
4 — O que significa o rotativismo mineiro-paulista no
poder?
5 — Qual o único Presidente civil do nordeste na época?
6 — Quantos Vice-Presidentes elegeu Pernambuco e quais
foram eles?
Capítulo LII

PEQUENA HISTÓRIA DO PRESIDENCIALISMO


BRASILEIRO: OS GOVERNOS REPUBLICANOS
DE 1930 A 1970

1 — A era de Vargas

A-revolução de 1930, uma vez vitoriosa, organizou uma


Junta Governativa, que entregou o poder ao chefe do mo
vimento Getúlio Vargas, gaúcho, nascido em 1883, que
assumia o poder aos 47 anos. Dé 1930 a 1934 exerceu o
poder como chefe do govêrno provisório, em 1930 foi eleito
Presidente constitucional por 4 anos, mas com o golpe de
Estado de 1937 se consagrou Ditador, até ser deposto em
29 de outubro de 1945 por decisão das forças abadas.
Dominou com férrea decisão o comando político durante
cêrca de 15 anos.
No início do seu govêrno empreendeu medidas enérgi
cas a fim de dèbelar a crise do café, valorizando o dito pro-
duto-rei mais importante da economia nacional, inclusive
mandando queimar as sobras, a famosa política de queima
do café. .' ' A
Durante o seu govêrno foi instituído o
Educação e Saúde, ocupado inicialmente por hRANCibou
Campos, a quem se deve bem orientada reforma pedagógica.
Mas VARGAS furtou-se a legalizar o país, evitando a
constitucionalização. São Paulo descontente desencadeou
Revolução Constitucionalista em junho de 1932, que em^ra
vencida militarmente, conseguiu o objetivo da reconstitu-
cionalização do país, em 1934. ^
A sucessão presidencial de Vargas, para a qual se can
didataram Armando Sales de Oliveira, principal repre
sentante da burguesia industrial e mercantil ppnstana,
José Amérioo de Almeida pela classe média e P^im^
gado, escritor e fundador da Ação Integralista,
pela rebelião comunista de 1935, permitiu o golpe de JííS-
tado de 1937. . ... . „
Começa então o chamado Estado Novo, instituind -
ditadura que se prolongou até 1945: os
Estados são substituídos por interventores P «
Ditador, suprimindo a liberdade de imprensa, „
Congresso, proibida a formação dos partidos poliu
146 Curso de Organização Social e Política Brasileira

criado o Tribunal de Segurança Nacional para julgar os


crimes políticos dos adversários do govêrno.

2 — A TecoTistituciíMíutMzação do pois: os movos


Presidentes

A guerra mundial de 1939 abre um nôvo contexto para


o país. O Brasil luta ao lado das nações democráticas con
tra o Eixo nazista. Esta luta tem no plano interno várias
conseqüências automáticas: a liberdade de imprensa, a anis
tia dos presos políticos, a formação dos partidos, a edição
do nôvo Código Eleitoral de 1945 e a convocação das elei
ções para 2 de dezembro do dito ano de 1945.
_ Com a deposição do Ditador em 29-10-1945, a revo
lução vitoriosa entrega o poder ao Presidente do Supremo
Tribunal Federal, José Linhares, natural do Ceará, que
preside as eleições com o seu elevado espírito de magistrado.
Os candidatos à sucessão presidencial eram dois milita
res de renome: EuRioo Gaspar Dutra, candidato pelo Par
tido Sockbl Deinoc&'âtieo, e o herói da epopéia de Copacabana,
o Brigadeiro Eduárdo Gomes, pela Unido Democrática Na
cional.
Nas eleições de 2-12-1945 Eurico Gaspar Dutra, nas
cido em 1885 no Mato Grosso, é eleito Presidente, o 17.°
Presidente da República. Teve 3.251.507 votos sobre o to
tal de 6.200.000, tendo votado 13,42% da população e tendo
obtido 52,44% da votação em uma eleição muito dispu
tada. Dirigiu o país de 1945 a 1950, pois o mandato presi
dencial foi ampliado de 4 para 5 anos. Atingiu a presidên
cia aos 60 anos, e governou com equilíbrio e bom senso.
Acontecimento político de importância durante o seu go
vêrno foi a extinção da legalidade do Partido Comunista,
por decisão do Supremo Tribunal Eleitoral, em 1947.
Em 1950 Getülio Vargas é de nôvo eleito Presidente,
poij' 3.849.040 ^ votos sobre 8.254.989 eleitores votantes,
tendo comparecido às.eleições 15,88 da população. É o 18.°
Presidente da República. A inflação e o endividamento ex
terno da República vinham crescendo assustadoramente
desde a guerra mundial. Vargas procurou normalizar a si
tuação. A crise política continua: o Presidente suicida-se
em 24 de agôsto de 1954.
Ascendeu ao poder o Vice-Presidente JoÃo Café Fi
lho, como o 19.° Presidente da República, e que governa
os anos de 1954 e 1955. Continua a crise política, econômica
Pequena Hist. do Pres. Brasileiro: Os Governo Rep. de 1930-1970 147

e militar, precursora de dias mais sombrios, tendo então


adoecido o Presidente. Em 11 de novembro de 1955, o Mi
nistro da Guerra General Teixeira Lott, com o apoio da
maioria das forças armadas, depôs Carlos Luz, Prç^idente
interino por ser Presidente da Câmara dos Deputados, sendo
convocado para substituí-lo o senador Nereu Ramos.
Já se havia processado a eleição de 3-10-1955, sendo
eleito JuscELiNo Kubitschek de Oliveira, ex-governador
de Minas Gerais, mineiro, por 3.077.441 votos sobre o to
tal de 9.097.014, comparecendo 14,66^ da população. Go
vernou o país de 1956 a 1960, sendo assim o 20.° Presidente
da República. O governo do novo Presidente teve uma larga
influência no país, iniciando uma política nadoml de deseri^
volvimento, Procurou atrair os capitais estrangeiros, esti
mular ao máximo a industrialização, tomando largo impulso
a indústria automobilística. Deve-se-lhe ainda uma política
de ocupação do interior da república, que é a obra simbólica
da construção de Brasília, transformada em capital da Re
pública, em 21 de abril de 1960.
Em 3-10-1960 é eleito nôvo Presidente, Jânio da Silva
Quadros, natural de Mato Grosso, mas que havia feito a
sua carreira política em São Paulo, como vereador, prefeito
da capital e depois governador do grande Estado bandei
rante. Foi eleitô^ por 5.636.623 votos sôbre o total de ....
12.586.354, comparecendo 19M% da população. JANIO
Quadros, o 21.° Presidente da República, elaborou um ^
vero programa de recuperação econômica do país, ordenando
em um espírito de austeridade administrativa, a abertura
de diversos inquéritos em ministérios e autarquias a fim
de averiguar irregularidades. Não emitiu papel moeda ne
nhum em seu governo, e foi assim uma singularidade, que
relembra Campos Sales, que chegou a incinerá-lo. Partindo
do ponto de vista da necessidade de ampliar os mercados
internacionais do comércio para onde se encaminhassem os
produtos agrícolas e industriais, abriu perspectivas novas
com a diversificação dêste mercado com as nações socia
listas e africanas. Defendeu o princípio de autodetermwtãi-
ção dos povos, justificando a manutenção das relações com
Cuba marxista. A expectativa de soluções novas abriu uma
brecha com o passado. Mas JÂNIO Quadros renunciou brus
camente após 7 meses de governo, mediante comunicação ao
Congresso, em 25 de agosto de 1961.
Assumiu interinamente a Presidência o Dr. RANi^
Mázilli, na qualidade de Presidente da Câmara dos De-
148 Curso de Organização Social e Política Brasileira

putados, durante uma semana, eis que o Vice-Presidente


João Goulart se achava de viagem na Ásia.
As áreas político-militares entraram em crise por causa
da ascensão do Vice-Presidente, mas uma fórmula transa
cional foi admitida com o parlamentarismo, então introdu
zido.
O 22.0 Presidente da República foi JoÃo Goulart, que
assume o poder em 1961, na quahdade de Vice-Presidente
e substituto legal, gaúcho e ligado à orientação de Vargas.
Governou de 1961 a 1964. JoÃo Goulart fêz uma visita de
cortesia aos Estados Unidos e ao México, onde foi recebido
com muitas manifestações. Continuou as diretrizes da polí
tica^ externa de comércio com os países socialistas, tendo
então restabelecido as relações comerciais e diplomáticas
com a URSS. Idealizou as chamadas reformas de base,
enquadrando nesse rótulo a política externa independente,
a reforma agrária, a reforma orçamentária, a reforma tri
butária, a reforma administrativa, entre outras. Para êste
efeito procurou novamente centralizar o comando político
^ ^sstauração do presidencialismo, reintroduzido com
plebiscito de 6 de janeiro de 1963. Os anos de 1963 e 1964
foram perturbados por freqüentes crises políticas, ao que
se agregava a inflação, criando um clima subversivo
Greves se sucederam, sobretudo na Guanabara e em
feao Paulo, inspiradas e lideradas principalmente pelo Co
mando Geral dos Trabalhadores (C.G. T.), com graves
repercussões e acompanhadas da arregimentáção de traba
lhadores rurais, com as ligas camponesas, que invadiram
propriedades em Minas Gerais, Goiás e no nordeste No
aia 13 de março de 1964, presente JOÃo Goulart, foi'rea-
zado um grande comício, na Guanabara, em que alguns
oradores, na ânsia das reformas de base, chegaram inclusive
críticas ao Congresso, a convocação de uma
assembléia constituinte. O seu objetivo era a realização das
base. Cenas de insubordinação também ocor
reram no Corpo de Fuzileiros Navais e na Marinha, ferindo
P^ihcipios tradicionais da hierarquia militar. Estava
formado o contexto para novas mudanças no cenário
político do país.

^ " Á Revolução de 1964 e os tvovos Presidentes


Finalmente, em 31 de março de 1964, irrompeu um
ovimento revolucionário, que se desenvolveu com rapidez
Pequena Hist. do Pres. Brasileiro: Os Governos Rep. de 1930-1970 149

fulminante. E entre os líderes cívis^ do movimento se encon


travam Carlos Lacerda, Magalhães Pinto e Ademar de
Barros, respectivamente governadores de três importantes
Bstados, Quais sejam, Guanabara, Minas Gerais e Sao Pauloj.
As tropas do Exército localizadas em Minas Gerais se su-
blevaram diante do manifesto do governador de Minas Ge
rais.
João Goulart, na época tendo vindo para o Rio, pre
tendia resistir, mas foi informado de que o II Exército (de
São Paulo), apoiava o movÍ)mento revolucionário. Já estava
marchando para o Rio, se encontrando perto de Rezende.
A Academia Militar de Agulhas Negras, representando a
juventude militar, aderiu ao movimento. GIoulart viajou
de avião para Brasília, onde qualquer resistência seria inútd,
por falta de apoio militar e daí para Pôrto Alegre, seu
grande reduto político. Compreendendo a inutilidade dè qual
quer resistência, desaconselhou-a publicamente e refugiou-se
no Uruguai.
Em Brasília, com a ausência do Presidente, o Dr Ra-
NIEBI Mazilli assume o cargo de Presidente da Republica,
na vaga do Presidente JoAo Goulart, tornando-se assim
Presidente da República embora a curto prazo, sendo na
tural de São Paulo. , . .
O país foi então governado através do regiine dos atos
institucionais, editados era seguida pelo Corrmii^ Revolu
cionário, atos que suprirairara as garantias individuais, bem
como permitiram a cassação dos mandatos parlamentares,
demissões e aposentadorias de funcionários, reforma de mi
litares e suspensão dos direitos políticos por 10 anos de
pessoas ligadas com o regime anterior.
O Ato estabeleceu a eleição indireta de Presidente e
de Vice-Presidente, pelo próprio Congresso. Foi eleito Pre
sidente o Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco
e Vice-Presidente foi o deputado JOSÉ Maria Alkmin. ^
O Marechal Castelo Branco, natural do Ceará, foi
destarte o 23.° Presidente da República. Empreendeu uma
luta enérgica contra a inflação, suprimiu os subsídios para
a importação de petróleo e seus derivados, trigo e pape .
Prometeu realizar reformas substanciais, mas dentro a
linha política do regime instaurado. Governou a naçao e
1964 a 1966, tendo entregue o país ao seu sucessor, leganzad
com a Constituição de 1967. Tomando o exemplo an erio
150 Curso de Orgamzação Social e Política Brasileira

de Floriano Peixoto, revelou desambição pelo poder, en


tregando pacificamente a presidência ao seu sucessor.
O 24.® Presidente da República foi também militar,
natural do Rio Grande do Sul, o Marechal Artur da Costa
E Silva, governando a República desde 1967, quando tomou
posse, até 1969. O Vice-Presidente eleito foi Pedro Aleixo,
na mesma ocasião. A linha política dominante do nôvo Pre
sidente se assemelhou à anterior, de manutenção dos obje
tivos da Revolução de 1964. Durante o seu govêrno grave
incidente político ocorreu com o Congresso, que apoiou as
imunidades parlamentares de vários deputados da oposição,
principalmente Márcio Moreira Alves, nos choques ideo
lógicos contra o govêrno, em linguagem mais candente e
agressiva, do que resultou o Ato Institucional n.® 5, de
13.12.1969, no mesmo estilo dos precedentes. Ainda per
duravam com intensidade os efeitos de tal crise, que levou
inclusive ao recesso do Congresso, quando o Presidente
Costa e Silva adoeceu bruscamente, sem condições de exer
cer o poder em hora de extrema gravidade, vindo a falecer
posteriormente!
Convocado em breve o Congresso, é eleito indiretamente
o 25.® Presidente da República, em 1969, o General Gar-
RASTAZu Médici, também natural do Rio Grande do Sul,
sendo eleito Vice-Presidente o Almirante Augusto Haman
RAdemake^ Grunewald. o govêrno continuou represen
tando o pensamento de consolidação dos ideais revolucioná
rios, especialmente a luta contra o radicalismo de esquerda.
Acontecimento de importância foi então a outorga de nova
Constituição do Brasil, em 27 de outubro de 1969.

QUESTIONÁRIO

1 — Como foi o primeiro govêrno de Vargas?


2 — Quais as razões da Revolução Constitucional.'sta?
3 — Como se procedeu a revolução democrática de 1945?
4 — Quais os Presidentes da Republica de 1945 a 1964?
5 — Como ocorreu a revolução de 1964 e quais os seus ob
jetivos?
6 — Quais os Presidéntes pós-revolucionários?
Capítulo LIII

PEQUENA HISTÓRIA DO PRESIDENCIALISMO: OS


VICE-PRESIDENTES
![
1 — Os Vice-Presidentes na Velha República
A Constituição brasileira de 1891 previa o cargo de
Vice-Presidente da República, eleito simúltâneamente com
o próprio Presidente, para substituí-lo nos casos de vacân
cias do cargo ou impedimento temporário. Geralmente os
cargos de Vice-Presidente decorriam de uma composição de
forças, da aliança dos Estados médios da federação, enquanto
os grandes Estados indicavam os Presidentes.
Foram Vice-Presidentes da República desde 1891 a
1930: Floriano Peixoto, alagoano, em 1891; Manuel Vi-
TORINO, baiano, de 1894-1898; Rosa e Silva, pernambucano,
de 1898 a 1902, tendo substituído Campos Sales por 30 dias
na Presidência; Silviano Brandão, mineiro, em 1902 e
logo depois Afonso Pena, também mineiro, de 1902-1906;
Nilo Peçanha, fluminense, de 1906-1909; Wbnceslau
Braz, mineiro, de 1910-1914; Urbano dos Santos, do Ma
ranhão, de 1914-1918; Delfim Moreira, mineiro, de 1919-
1920, tendo falecido na função; novamente Urbano dos
Santos, em 1922, falecido neste ano; Estágio Coimbra, per
nambucano, de 1922-1926; Melo Viana, mineiro,, de 1926-
1930.
Assim, 5 mineiros, 2 pernambucanos, 1 maranhense
(por duas vêzes), 1 fluminense, 1 baiano e 1 alagoano. Dois
Vice-Presidentes ascenderam à Presidência: Floriano Pei
xoto e Nilo Peçanha.
Pernambuco indicou dois líderes políticos de impor
tância à Vice-Presidência, a saber. Rosa e Silva, que chegou
interinamente à Presidência, e mais tarde ESTÁGIO COIM
BRA.

2 — Os Vice-PresideTites de 1930 a 1970

A Constituição de 1934 não previa o cargo de Vice-


Presidente, restaurado na Lei Magna de 1946, que o recriou.
Foram então Vice-Presidentes: Nereu Ramos, de Santa
Catarina, de 1946-1951; JoÁo Café Filho, do Rio Grande
do Norte, nos anos de 1951-1955; JoÁo Goulart, do Rio
Grande do Sul, por duas vêzes, de 1956 a 1960 e novamente
152 Curso de Organização Social e Política Brasileira

eleito em 1960. Todos os três ascenderam à Presidência, os


dois últimos a título efetivo.
Depois da Revolução de 1964 foram eleitos Vice-Presi-
dentes: JosÉ Maria Alkmin, mineiro, de 1964-1966; Pedro
Aleixo, mineiro de 1967-1969 e afinal Rademaker Grune-
WALD. Todos os Vice-Presidentes desde 1946 até o presente
foram civis, com exceção do último, alta patente da Marinha
de Guerra.

QUESTIONÁRIO
1 — Quais os Vice-Presidentes da-Velha República?
2 — Quantos Vice-Presidentes deu Pernambuco?
3 — A Constituição de 1934 previu o cargo de Vice-Presi-
dente?
4 — Quais os Vice-Presidentes desde 1946 até os nossos
dias?
5 — Que composição de forças levou à designação dos Vice-
Presidentes?
7.a PARTE

ORGANIZAÇÃO SOCIAL DO BRASIL

Capítulo LIV

A POPULAÇÃO BRASILEIRA

1 — Os habitantes do Brasil
O Brasil é uma nação em franca progressão demográ
fica. A sua população tem crescido assustadoramente. Ê hoje
uma das populações do mundo que mais cresce, à razão de
2,7% ao ano, quase o dôbro dos Estados Unidos, que crescem
atualmente à razão de 1,6% ao ano.
Em 1585, o Brasil tinha 57.000 habitantes, 1.900.000
em 1776, 3.000.000 em 1789 e 4.000.000 em 1808. O 1.°
recenseamento de 1872 registrou 10.099.000 habitantes,
para transformar-se no século XX em uma das populações
maiores do mundo, com 70.937.000 em 1960, e um número
recenseado de 92.237.570 no ano de 1970.
Não somente se trata de uma população numerosa, como
também tende a concentrar-se em grandes ambientes urba
nos, ao passo que ainda se desenvolve para a ocupação do
interior do país.

2 — Aspectos étnicos da população brasileira


A população do Brasil é heterogênea, eis que resulta
a sua fonnação de vários grupos étnicos e raciais. Elementos
de três grandes raças, os índios, brancos e negros, hoje
chamados de mongolóides, europóides e negróides, compõem
a atual população brasileira.
154 Curso de Organização Social e Política Brasileira

Daí proveio um verdadeiro caldeamento racial. Uma


população rmrena tende a predominar nO país. O caldea
mento se processou durante longos séculos, dando margem
a variados tipos de mestiços.
Vários tipos emergem do cruzamento racial, como o
mulato, o mameluco, o caboclo, o cafuso. O mulato é o pro
duto do branco com o negro, o mameluco ou caboclo resulta
do cruzamento do branco com o índio, o cafuso do cruza
mento do índio com o negro.
Houve uma tendência ao desaparecimento do índio na
civilização brasileira, o negro não tem predominância, a
futura civilização brasileira será possivelmente uma popu
lação branca de côr amorenada.

3 — O indígena

O indígena representa a população primitiva do país,


que foi dominada pelo conquistador branco. Hoje o seu
número é bastante reduzido, e sem cautelas, tende a desa
parecer. '
Na época da descoberta habitavam diversas tribos no
Brasil, com uma certa cultura e civilização, niveladas com
a Idade da Pedra. Dedicavam-se à caça, à pesca, possuíam
uma agricultura rudimentar, principalmente com o cultivo
do milho e da mandioca, do fumo, praticada pelas tribos
mais adiantadas. Para a caça, usavam o arco e a flecha.
Praticavam a agricultura rudimentar, tocando fogo nas
matas, processo que chamavam de coivara, ainda hoje usado
no interior do Brasil. Além do arco e da flecha, sua arma
preferida eram as lanças e o tacape, feito de pesada madeira,
alguns grupos se utilizando da esgaravatcma, tubo ôco que
servia para disparar setas venenosas com o sopro.
Quais as principais tribos que habitavam o Brasil?
Ao norte do pais viviam os Nuaruaques (como os Ma
naus e os Aruás), alguns com cultura adiantada de que dá
provas a cerâmica miarajm/ra.
A nação mais impoi^nte era a dos Tupis, língua geral
falada na costa brasileira. Esta nação abrangia muitas tribos
conhecidas da história brasileira: Maués ou Amaguâs no
Amazonas; Potiguares, no Rio Grande do Norte; Caetés
desde a Paraíba ao Rio São Francisco; Tupinambás e
pvrdquvns no Rio de Janeiro; os Carijós e Ouaraiús mais
para o sul.
A População Brasileira 155

É de mencionar ainda a nação dos Tapuias ou Gês,


dentre elas se destacando os Aimorés, êstes vivendo no
Espírito Santo. Salientavam-se pela sua dureza de vida e
ferocidade, dormindo no chão em cima de fôlli^, açoitando
os filhos para se habituarem com a vida das matas, atacando
as pessoas estranhas para matá-las e devorá-las. A nação
dos Xavarites, atualmente existente em Goiás, se inclui
neste grupo.
Os Carihas ou Camibas constituíam outra nação, tam
bém ferozes ao extremo e com o costume da antropofagia.
Convém citar ainda os Gaicurus, os índios cavaleiros,
habitantes de Mato Grosso.
A influência do indígena foi acentuada tanto na his
tória como na cultura do Brasil. Muitos mamelucos parti-
c.param das entradas, e bandeiras. Atualmente a sua in
fluência é ainda marcante na colonização da Amazônia.^
Na linguagem, é acentuada a penetração do vocabulário
indígena, designação dos rios, montanhas, ilhas, cidades. Na
alimentação, é de citar o uso do milho, da farinha de man
dioca, de frutas e animais, introduzido no regime alimentar
português, bem como o uso familiar dos utensílios de barro,
ervas medicinais no tratamento da saúde. Hábitos de vida
diários também procedem do índio, como o banho diário, a
rêde usada no nordeste, o uso da canoa e da jangada.

4 — Os negros
Os negros tiveram uma participação ainda mais decisiva
que o índio na formação social brasileira. Os portuguêses
recorreram à escravidão africana para a sustentação da
economia agrícola. A nossa agiúcultura se baseou na mão-
de-obra escrava. Foi também amplamente utilizada na
mineração, afora o seu uso mais permanente na agricultura,
na cana-de-açúcar, café e algodão.'
Os negros africanos eram importados nos navios ne-
greiros, chamados de tvmbeiros, da palavra tumba ou se
pultura, pois morriam em grande quantidade nos ^navios,
pela má alimentação, doença e maltrato nos porões dos
navios negreiros. O comércio de escravos era muito rendoso
e só foi proibido no Brasil em 1850 pela lei EUSÉBIO DE
QUEIRÓS.
Os negros africanos procediam de dois grupos mais
importantes, os sudaneses, que especialmente se localizaram
na Bahia, e os banlxys, disseminados em diversas áreas. Os
156 Curso de Organização Social e Política Brasileira
sudaneses tinham uma cultura mais desenvolvida e foram
utilizados na mão-de-obra mais qualificada, ao_ passo que
os bantos foram os grandes pontos de sustentação da agri
cultura. H P *4?
Foram sobretudo desembarcados nos portos do ícecife,
Salvador e Rio de Janeiro, grandes pontos de convergência do
comércio esclavagista. Eram vendidos nos mercados de es
cravos. Examinados pelos compradores como animais, para
a avaliação do seu preço.
A va^ríola e o sarampo dizimavam muitos negros, tam
bém atacados do banzo, a saudade da terra, que os levava a
pouco comer e morrer de inanição e fraqueza.
Mas nem todos os negros se entregaram passivamente
à submissão. É conhecida a Revolta dos Malês, ^ 1835,
de negros sudaneses. Os bantos são conhecidos também pelo
Quilombo dos PaZmares, no século XVII, e no século seguinte
participaram na balaiada do Maranhão e na Guerra dos
Cabanas em Pernambuco e Alagoas. Tiveram destarte os
seus momentos de rebeldia, orgulho e insubmissão diante
da secular exploração huníiana.
Nos engenhos do nordeste êles dormiam em casas de
pendentes da fazenda, a que se deu o nome de senzala, No
Engenho lAigoa Sêca, em Nazaré da Mata (Pe), ainda
existem intactos e incólumes os restos de uma senzala, per
feitamente habitável e conservada.
Durante vários séculos o Brasil assistiu a um intenso
comércio negreiro, de resto altamente lucrativo. A Grã-Bre
tanha foi aliás o centro do tráfico escravocrata, e Liverpool
o centro do mercado esclavagista inglês: em 1771, por
exemplo, de 192 navios negreiros inglêses, foram 107 para
Liverpool, 58 para Londres, 28 para Bristol e 4 para Lan
çaster.
Em 1769 a exportação de negros na região compreendida
entre o Cabo Branco e o rio Congo foi o seguinte, por países:
Grã-Bretanha 53.loo
França 23.520
Holanda 11.300
América Inglêsa 6.300
Portugal 1.700
Dinamarca 1.200
Os lucros eram enormes. No Senegal foram comprados
em 26.3.1963 cêrca de 800 escravos por 29.000 libras e
vendidos por 240.000.
A População Brasileira 157

Pelas estimativas do Padre Anchieta, em 1585 havia


no Brasil-colônia, cêrca de 14.000 escravos, sendo 10.000
em Pernambuco e 3.000 na Bahia, sôbre uma população
então avaliada em 57.000 habitantes. í!
Em 36 anos, de 1742 a 1772, o Recife recebeu 93.138
escravos, numa média anual de 2.600, e só a Bahia em 1798
acusa o recebimento de 7.051, de acordo com informações
aduaneiras. Foi tão grande a importação dos escravos, até
1850, que alguns estudiosos a calculam em 3.000.000 de
negros importados.
Qual a influência do negro na civilização brasileira?
Ela se revestiu de diversos aspectos.
Nas artes culinárias houve a introdução de temperos,
como o azeite-de~dendê, comidas típicas como o vatapá, o
angu e o munguzá.
Nas danças e na música são de relembrar o saMha e o
maracatu. Na religião se desenvolveram os cultos afro-bra-
sileiros, como o xangó e o candomblé. Na linguagem, nas
artes, nas letras, na poesia, e até nas dribladas do futebol
se encontram as raízes da influência africana.

5 — Os hra/ncos

O maior número de brasileiros é constituído pela po


pulação branca, com o contingente homogêneo dos portu-
guêses que colonizaram d país durante longos séculos. Du
rante êste período é de lembrar a fixação dos holandeses no
nordeste, o chamado Brasil-holandês, e dos franceses em
diversos pontos do país, além dos espanhóis e italianos para
cá vindos durante a dominação espanhola. Por fôrça e com
mêdo da Inquisição, os cristõbos-novos — judeus convertidos
ao catolicismo —,em grande quantidade, escolheram o Brasil
como o centro de sua residência e de sua vida. Contudo, o
núcleo fundamental da população branca foi formado pelos
portuguêses.
Não se pode entretanto desconsiderar a participação de
outros continentes. A contribuição alemã foi bastante acen
tuada, especialmente em algumas áreas do Paraná, Santa
Catarina, nas cidades de Blumenau e Joinville, ou ainda no
Rio Grande do Sul com as cidade de Nova Hamburgo e São
Leopoldo. A cultura do vinho os atraiu.
Em São Paulo foi imensa a participação dos italianos,
que acorreram em massa, atraídos pelo surto da economia
cafeeira e depois pelo seu parque industrial.
158 Curso de Organização Social e Política Brasileira

Eslavos de diversas procedências, poloneses, russos e


ucranianos se localizaram especialmente no Paraná. Os
espanhóis e forte corrente imigratória portuguêsa se fixaram
no sul e no sudeste do país.
No nordeste a maior contribuição imigratória foi a por
tuguêsa, pràticamente rarefeitos. os contingentes de outros
países. Os portuguêses sobretudo se dedicaram ao comércio,
e o avô do autor dêste curso, José Rodrigues Pinto Fer
reira, foi comerciante que no século XIX para o Recife
emigrou com sua família.
É de consignar-se a presença de brancos semitas no
Brasil, sobretudo provenientes do oriente médio, como os
turcos, sírios, árabes, libaneses, judeus, como do extremo
oriente: japonêses e chineses. É acentuadas a vocação mer
cantil dessa gente no alto e no pequeno comércio, localizan-
do-se nos centros urbanos e povoados. Em algumas cidades,
como o Recife, é considerável a penetração do elemento ju
deu, na Amazônia e no Maranhão tem sido enorme a pene
tração de elementos sírio-libaneses.
Qual o percentual estatístico aproximado de tal imi
gração especialmente depois da Independência do Brasil?
Em 1.° lugar é de consignar a origem latina da maioria
dos imigrantes, constituídos de portuguêses, italianos e es
panhóis.
Desde a Independência até 1850 foi pequeno o número
de imigrantes. Entre 1851 e 1950 ingressaram no Brasil
4.800.000 imigrantes, dos quais cêrca de 2.400.000 se
fixaram, os demais retornaram aos países de origem ou via
jaram para outras nações. Entre 1951-1958 aqui aportaram
502.600 imigrantes.
O censo de 1950 revelou a existência 1.314.000 estran
geiros, ou seja, 2,4% da população total, assim distribuídos:
70% na região sul, 24% no leste, 1,9% no Centro-Oeste,
1,4^ no Norte e 0,8% no nordeste.
Qual a influência dos brancos na vida brasileira? A sua
contribuição foi superior às demais: conquistou e colonizou
a terra, subjugou o índio, escravizou o negro. Deve-se-lhe
a lípgua dominante, o português, como meio de comunica
ção, bem assim, a religião predominante, a religião apostó
lica romana. As bases da nossa cultura e de nossa civiliza
ção cultural e material são européias: a forma de Estado,
a organização da família, o tipo de educação, os costumes,
o direito, os padrões morais, a vestimenta, o adôrno, a
A População Brasileira 159

habitação, é em suma imenso o legado dos brancos, especial


mente dos portuguêses, à civilização brasileira.
6 — O futuro da civilização brasileira ll
Há um evidente predomínio da gente de côr branca na
população brasileira. Qual será a predominância futura?
Foi estimada por Roquete Pinto como sendo a seguinte
a composição do povo brasileiro em 1930: 51% de brancos;
22% de mulatos; 14% de negros; 11% de caboclos e 2%
de índios.
Depois houve uma tendência ao crescimento do número
de brancos e mulatos, em 1950, de acordo com o seguinte
quadro comparativo:
Brancos Pardos ou mídatos Negros
1930 (estimativa) 51% 22% 14%
1950 (censo) 61,6% 26% 11%
, O censo de 1950 registrou os seguintes dados: brancos
— 61,6%; mulatos — 26,6%; negros — 11%; amarelos
— 0,6%; côr não declarada — 0,2%.
No período de 1930 a 1960 houve destarte uma tendên
cia a aumento da população branca e dos mulatos, diminuin
do o número de negros.
Possivelmente, a prosseguir tal tendência, a população
brasileira futura será de b7'anoos morenos ou de morenos
claros.

QUESTIONÁRIO
1 — Qual a estimativa da população brasileira em 1587?
E em 1808?
2 — Quantos brasileiros revelou o censo de 1870?
3 — Qual a população recenseada em 1960?
4 — Qual a população brasileira recenseada em 1970?
5 — Em quanto foi calculada a atual taxa de desenvol
vimento demográfico do Brasil?
6 — Que grandes raças contribuíram para o povoamento
do Brasil?
7 — Que sabe sobre o indígena?
8 — Que sabe sobre o negro?
9 — Quantos negros ingressaram no Brasil durante a
época da escravidão?
10 — Qual o grande centro do comércio negreiro europeu
no século XVIII?
160 Curso de Organização Social e Política Brasileira
11 — Quando se extinguiu o comércio negreiro no Brasil?
12 — Quais os brancos que colonizaram o Brasil nos pri
meiros séculos? .
13 — A quanto ascendeu a imigração estrangeira no Brasil
entre 1851 e 1950?
14 — Quais as grandes correntes imigratórias?^
15 — Qual a predominância racial na composição do povo
brasileiro?
16 — Como Roquete Pinto estimou para 1930 a compo
sição racial brasileira?
17 — Qual a composição racial revelada pelo censo de 1950?
18 — Que tendências apresentará a futura composição ra
cial brasileira?

Capítulo LV

ORGANIZAÇÃO DA FAMÍLIA

1 — A família na sociedade brasileira


A família constituiu-se na sociedade brasileira, durante
longo tempo, sob a forma patriarcal, com influência da
Igreja Católica, determinando o casamento indissolúvel.
O patriarcalismo estêve destarte sob a base da organização
da família, com evidente predomínio do poder pater famílias,
exercendo uma autoridade quase absoluta sobre a mulher
e os filhos.
Houve uma tendência da mulher a casar cedo na época
do patriarcalismo familiar, sendo a prole muito numerosa.
Os homens tinham maior liberdade de comportamento sexual
fora do lar, procriando com outras mulheres uma prole
ilegítima. No patriarcalismo dommava a regra do padrão
sexual duplo, punindo-se o adultério feminino, legalmente
também o masculino, êste último porém tolerado pela so
ciedade.
Com a industrialização, quebraram-se lentamente as
bases do patriarcado rural e urbano na organização da fa
mília. A mulher conquistou direitos políticos, podendo votar
desde 1932; adquiriu uma maior igualdade de direitos pri
vados, especialmente desde o Estatuto da Mulher Casada
de 1962.
Sociologicamente, também diminuiu o tamanho da fa
mília, tarnsformando-se a família patriarcal em família
A Organização da Família 161

miclear, constituída de pai, de mãe e de poucos filhos habi


tando o mesmo lar, mais reduzido ainda na classe alta e
na classe média do que nas classes proletárias.
Contudo, mesmo atualmente, a mulher brasileira ainda
tem um alto grau de fertilidade com uma média de 5 filhos
nascidos vivos para a mvlher p- rólífem, isto é, mulher com
preendida na faixa de idade entre 15 e 40 anos. Cêrca de
60% da população feminina brasileira se compõem de mulhe
res prolíficas. Ao contrário do que se pensa, a mulher negra
é a menos prolifera, e daí talVez ainda uma causa da dimi
nuição da população negra no Brasil. Os índices são os se
guintes, do ponto de vista racial: amarelas ou índias, 62%
de prolíficas; brancas, 60%; pardas, 60%; negras 56%.

2 — A oonstituição da família
No Brasil, a família legal é constituída pelo casamento,
que é indissolível. O casamento pode ser civil ou religioso.
A celebração do casamento civil é gratuita. O casamento re
ligioso eqüivalerá ao civil se observados os impediinentos
e prescrições da lei e o ato for inscrito no registro público,
a requerimento do celebrante ou qualquer interessado. Ainda
o casamento religioso celebrado sem tais formalidades, terá
contudo efeito civis se, á requerimento do casal, foi inscrito
no registro público mediante prévia habilitação perante a
autoridade competente. ^
O casamento pode ser feito com comunhão universal de
bens, com comunhão parcial, com separação de bens ou
total.
O casamento é indissolúvel, sendo assim o Brasil um
dos poucos países do mundo com uma legislação antidivor-
cista. A maioria predominante das nações atuais consagra
o divórcio nas suas legislações civis, e inclusive a Itália
aderiu recentemente em 1969 à legislação divorcista. A En-
cíclica Papal Casti Comiuhi de 1930 apregoa o princípio da
indissolubilidade matrimonial.
Em certos casos a legislação brasileira, constante do
Código Civil de 1916, da autoria de Clóvis Beviláqua, per
mite a anulação do casamento. Destarte, o casamento pode
ser anulado quando contraído por pessoas coagidas ou in
capazes de manifestar o seu consentimento, eis que a coaçao
vicia o ato jurídico; do raptor com a raptada enquanto este
se acha sob o seu poder; das pessoas sujeites ao pátrio
poder, tutela ou curatela sem o consentimento respectivo;
162 Curso de Organização Social e Politica Brasileira

/ das mulheres menores de 16 anos e dos homens menores de


18 anos, sem a autorização legal.
A sociedade conjugai termina: a) pela morte de um
dos cônjuges; b) pela nulidade ou anulação do casamento;
c) pelo desquite, amigável ou judicial.
O que é desquite?
O desquite é a dissolução da sociedade conjugai, mas
sem habilitar os ex-cônjuges a contrair novas núpcias.
O desquite só pode fundar-se nos seguintes motivos pre
vistos pelo Código Civil: a) adultério; b) tentativa de
morte; c) sevícia ou injúria grave; d) abandono voluntá
rio do lar conjugai durante dois anos contínuos; e) mútuo
consentimento dos cônjuges, se forem casados por mais de
dois anos, manifestado perante o juiz e devidamente ho
mologado.
A diferença entre desquite e o divórcio consiste em
que, dissolvendo ambos a sociedade conjugai, contudo só o
divórcio habilita a um nôvo casamento legal.

8 — O parentesco
As pessoas da família são ligadas mütuamente por la
ços de parentesco. O parentesco é assim a relação que vincula
as pessoaâ que procedem do mesmo tronco ancestral.
Classifica-se principalmente o parentesco em Unha reta
e em linha colateral (oblíqua ou transversal).
O parentesco em linha reta é o que vincula pessoas que
estão mütuamente na relação de ascendentes e descendentes.
São assim parentes em linha reta o pai e o filho, o avô e
o neto, o bisavô e o bisneto.
O parentesco em linha colateral é o que vincula as
pessoas que provêm de um só antepassado, sem descenderem
um do outro, até o sexto grau. São parentes em linha colate
ral os irmãos, os primos, os tios, os sobrinhos.
O parentesco pode também ser por afinidade, que é
aquele que se estabelece, por efeito do casamento, entre o
cônjuge e os parentes de outro cônjuge.
O parentesco pode ainda ser legítimo quando procede
do casamento, e ilegítimo resultante de relações extramatri-
moniáis, mas os pais podem reconhecer e legitimar os filhos
nascidos ilegitimamente.
Enfim o parentesco pode ser natural, quando resulta
da consangüinidade, e dvil, quando provém da adoção, vin
culando tão só o adotante e o adotado.
A Organização da Igreja 163

QUESTIONÁRIO

1 — Como se carací;eriza a família patriarcal!


2 — O que é família nuclear! |
|
3 — De quando data o Estatuto da Mulher Casada!1 1
4 — Qual o grau de fertilidade da mulher brasileira?
5 — Que se entende por mulher prolífica?
6 — Que mulher é mais prolifera no Brasil, a branca, a
parda ou a negra?
7 — Como se constitui a família?
8 — Quais os tipos de casamento no Brasil?
9 — O que é o casamento religioso?
10 — O Brasil admite o divórcio ou o desquite?
11 — O que é o divórcio?
12 — O que é o desquite?
13 — Qual a diferença entre divórcio e desquite?
14 — Quais os motivos do desquite?
15 — Como se dissolve no Brasil a sociedade conjugai.
16 — Que se entende por parentesco?
17 — Como se classifica o parentesco?

Capítulo LVI

A ORGANIZAÇÃO DA IGREJA

1 — A Igreja no Brasil-colônia
Realizado o descobrimento do Brasil ficou ele sob a
autoridade espiritual da Ordem de Cristo, cujo Grão-Mestre
era o próprio Rei. Foi porém criado o Bispado de Funchal,
na ilha da Madeira, sob cuja jurisdição religiosa ficou a
terra recém-descoberta. ^ j o-
Em 1551 o Papa criou no Brasil o Bispa^ de Soo
Sal/vador, subordinado ao Arcebispo de Lisboa, ficando en
tão todo o Brasil sob a jurisdição dessa diocese. O 1.® Bispo
do Brasil foi D. Pero Fernandes Sardinha.
Mas a população do país foi aumentando, assim
as suas necessidades espirituais, provocando a mi^nça na
organização religiosa do Brasil. Através de duas bul^, ex
pedidas em 1676 e 1677, a diocese de São Salvador foi ele
vada à categoria de Arquidiocese, bem como criad^
três Dioceses: Rio de Janeiro, Olinda e São Luiz do Ma-
164 Curso de Organização Social e Política Brasileira

ranhão. No século XVIII ainda foram criadas as dioceses


de Belém do Pará, São Paulo e Mariana.
Durante a época da Colônia, o Estado e a Igreja Cató
lica coexistiam em um regime de união. Tanto o Rei como
as autoridades civis tinham competência em certas matérias
religiosas e vice-versa.
Existia na realidade uma religião oficial do Estado, a
religião católica, apostólica, romana. O Rei pagava aos reli
giosos a cdngrv/j,, os seus meios de sustentação econômica,
como subvenção em dinheiro aos membros da Igreja. Em
contrapartida o próprio Rei podia sugerir ao Papa a opor
tunidade de criação de dioceses, a escolha de Bispos, a ins
talação de seminários e conventos.

2 — O Papel da Igreja Católioa m svra missão civüi-


zadora

Diversas ordens religiosas se estabeleceram no Brasil


durante a época da Colônia, entre elas se destacando os je
suítas, franciscanos, carmelitas e beneditinos. A sua influ
ência foi larga e fecunda, numa época em que a Igreja,
sobretudo em Portugal^ j era uma das poucas instituições que
concentravam o saber em suas mãos.
Os religiosos fundaram os seus conventos e mosteiros,
as suas igrejas e templos. Iniciaram a conhecida obra de
catequese dos índios, procurando civilizá-los, atraí-los aos
seus sentimentos religiosos de conversão ao catolicismo, com
batendo algumas práticas consideradas selvagens e ofensi
vas aos sentimentos morais da cristandade, especialmente a
antropofagia (hábito de comer a carne humana), a poUga^
mia (casamento do homem com várias mulheres) e o nudis
mo das mulheres indígenas, numa época de extremo recato
do corpo humano feminino. Exerceiam outrossim uma mis
são pacificadora entre os índios, procurando evitar as suas
guerras constantes, educando-lhes as crianças.
Entre os religiosos duas figuras merecem especial des
taque, ò Padre Manuel da Nóbrega e José de Anchieta.
Em tômo à capela do Colégio dos Jesuítas, ergueu-se a hoje
metrópole brasileira, que é São Paulo.
Sendo os religiosos o grande órgão de formação cultural
da juventude, na época do liberalismo europeu do século
XVIII, chegaram inclusive a propagar idéias de transfor
mação que éclodiram na alma das novas gerações e da socie
dade culta.
A Organização da Igreja 165

3 — Os mosteiros e conventos

Os religiosos fundaram no Brasil colonial inúmeros


mosteiros e conventos, além da construção de belas igrej^as,
revelando o bom gôsto da arquitetura da época, hoje a|nda
admiradas e centros de visitação turística.
O primeiro mosteiro fundado foi na Bahia, o mosteiro
de São Bento, em 1581, e a abadia de Salvador a mais an
tiga da América Latina. Em 1586 ainda os beneditinos por-
tuguêses instalaram no Rio de Janeiro o seu mosteiro. Em
Olinda, São Luiz do Maranhão e Paraíba de São Paulo,
afora outros lugares, continuou esta obra de irradiação cul
tural e religiosa.
O Mosteiro de São Bento de Olinda data de 1599, re
construído no século XVIII, de uma beleza admirável, e foi
a sede de instalação dos cursos jurídicos no norte do país
em 1827. Algumas cidades brasileiras, como Olinda e Sal^^-
dor, são verdadeiros monumentos artísticos religiosos. Olinda
foi mesmo chamada a Coimbra brasileira.
Os bispos tiveram ação fecunda no País. Destaca-se
entre outros o Bispado de Pernambuco, foi criado no século
XVII, tendo como sede a cidade de Olinda.
Azeredo Coutinho, grande bispo de Olinda, fêz do an
tigo Colégio dos Jesuítas um Seminário, uma escola secun
dária moderna, que Tollenare não hesitou em comparar aos
liceus franceses. O Seminário de Olinda foi em sua épwa
um foco de liberalismo: um dos seus professores, o Padre
João Ribeiro, foi herói e mártir da Revolução Pernambu
cana em 1817. Os ideais da revolução francesa tiveram assim
os seus representantes na Igreja.

4 — A Igreja, Católica no Império


Durante o Império Brasileiro continuou o regime da
União entre o Estado e a Igreja. O Imperador possuía duas
atribuições importantes em matéria religiosa: o padroa^
e o beneplácito. Pelo primeiro tinha interferência na escolha
dos padres para as freguesias e dos bispos para as dioceses,
pelo segundo referendava as decisões do Papa; para qi^
pudessem entrar em vigor, no Brasil, deveriam ter o placev
do Imperador. . .
Uma ajuda financeira era dada aos eclesiásticos
Estados, chamada a côngrm. O único casamento existente
era o religioso, não havendo o civil. Assim também o certi-
166 Curso de Organização Social e Política Brasileira

/ ficado de batismo dado pela Igreja substituía o registro de


nascimentp, que não existia. Ainda a Igreja tinha o poder
de administração dos cemitérios.
Conflitos surgiram entre as autoridades eclesiásticas e
civis, porém sempre dirimidos com harmonia. Mas um con
flito, a chamada Questão Religiosa, abalou profundamente
as relações entre o Estado e a Igreja.
Dois bispos de notável fôrça moral, D. Vital de Oli
veira, de Olinda, e D. Antônio Macedo Costa, do Pará,
determinaram que os padres e os membros das Irmandades
Religiosas abandonassem a maçonaria. Então o próprio Pre
sidente do Conselho de Ministros, o Visconde do Rio Bran
co, que era o Grão-Mestre da Maçonaria, instituição religiosa,
política e cultural poderosa, reagiu contra esta orientação,
aliás, determinada pelo próprio Papa Pio IX, eis que o
Imperador não eutorizou o cumprimento de tal ordem com
o seu plcLcet, Da luta resultante de tal questão, proveio a
prisão de dois bispos, daí advindo séria crise entre a Mo
narquia e a Igreja.

5 — A Igreja Católica na República

Estabelecida a República em 1889, logo esta instituiu


o regime de separação entre o Estado e a Igreja. Daí resul
taram algumas conseqüências importantes, entre outras as
seguintes: a secuZariza^o dos cemitérios (que passaram à
administração dos municípios), o casamento civil, o registro
civil dos nascimentos, a eliminação da côngrua e a perda de
competência e das atribuições do poder civil em matéria
religiosa.
A influência da Igreja continuou porém profunda, não
somente através de suas obras religiosas, como também de
sua obra de caridade humana com inúmeras instituições
sociais, como ainda pela sua missão cultural, inclusive fun
dando grandes universidades no Brasil, contribuindo assim
para o desenvolvimento do ensino cultural superior, entre
elas se destacando as Universidades Católicas do Rio de
Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Campinas e do Recife,
esta última inclusive dirigida por um leigo, o Reitor Poti
guar matos, a Universidade Católica de Pernambuco foi
até pioneira em entrega de suas unidades também a leigos,
como o Prof. Rosa e Silva quanto à Faculdade de Direito
da mencionada escola superior. '
A Organização da Igreja X67

De outro lado, sendo hoje o Brasil o núcleo de uma


grande população católica, inúmeras outras dioceses e ar
quidioceses foram criadas, havendo hoje em dia quatro Car
deais: em Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Aparecid^
Na década dos 60, a Igreja Católica possuía no paiá
6.275 paróquias, 32.250 Igrejas, 29.250 capelas públicas e
particulares, 24.000 associações religiosas e 11.300 sacer
dotes.

6 — A Igreja Católica Moderna


A Igreja Católica Moderna se atualizou mediante a pre
gação social evangélica dos seus papas, diante do impacto
de um mundo em pleno desenvolvimento econômico. As di
versas encíclicas papais consubstanciam esta orientação.
Entre as Encíclicas papais merecem ser apontadas: a
Rerum Novarum de 1891, do Papa Leão xiii; a do Qimdrar'
gesimo Am) de 1931, do Papa Pio XI; a Mater et Magistru
de 1961, firmada pelo Papa JOÃO XXIII; a Pacem in TerriSf
de 1963, assinada pelo mesmo Papa João xxiii; a Poputo-
rum Progressio de 1967, do Papa Paulo vi.
Com os seus papas progressistas e após o Concilio do
Vaticano II, a Igreja Católica preocupou-se profundamente
com a questão social, com o trato das populações pobres,
acrescentando à sua missão religiosa uma redentora missão
social.

7 — As religiões do Brasil
A religião católica apostólica romana é a religião do
minante no Brasil, aglutinando a maioria dos fiéis. Contudo
outros grupos religiosos ainda existem, tomando vulto ülti-
mamente o protestantismo.
Os protestantes agrupam no país sobretudo os batistas,
os presbiterianos, os metodistas e os luteranos, os primeiros
ligados geralmente a norte-americanos e inclusive com uma
missão cultural relevante, tendo criado a Universidade Mac-
kenzie em São Paulo; já os luteranos provenientes da enor
me imigração alemã no sul do país.
Há ainda os cismáticos do protestantismo, com ampla
penetração nas classes mais pobres, com os pentecostais, os
anabatistas e os sabatistas.
Outras religiões ainda estão disseminadas no país. Entre
os russos e ucranianos predomina a Igreja Ortodoxa; en-
168 Curso de Organização Social e Política Brasileira

tre OS orientais o credo predominante é o budista, com os


chineses e japonêses; como também os muçulmanos, a exem
plo dos árabes, turcos e sírios. O espiritismo tem também
larga e profunda irradiação. Já os índios se dedicam ao
fetichismo; os negros e mulatos sofrem a influência dos
cultos africanos.
Deve-se ainda relembrar o sincretismo dos cultos reli
giosos, a influência do fetichismo e das práticas africanas
nas religiões dominantes, dando margem aos xangós, can
domblés e outras cerimônias.
Embora a religião católica seja a dominante, com uma
predominância realmente incontestável, houve ultimamente
um progresso muito acentuado de outros cultos.
O IBGE, que antes não fazia o censo religioso, fê-lo nos
anos de 1940 e 1950, havendo então na dita década um
crescimento populacional de 26%, o catolicismo aumentando
em 24%, o espiritismo de 78%, o protestantismo em 67%
e a umbanda em 57%.
É o seguinte o quadro estatístico comparado dos dois
recenseamentos: i

1940 1950

População 51.944.397
Católicos 48.558.834
95,2% 98,49%
Espíritas 824.553
1,12% 1,59%
Protestantes 1.741.430
2,61% 3,35%
Umbanda 818.500
1,25% 1,6%

Ascensão ou queda do catolicismo no Brasil? É a per


gunta. Não ,se trata evidente de queda, mas de um aumento
natural de outros cultos, que contudo não ameaçam as pers
pectivas do catolicismo em sua qualidade de religião do
minante. !
A Organização da Igreja

QUESTIONÁRIO
1 A que jurisdição religiosa pertencia o Brasil durante
o coraêço do século XVI? . 11
2 Qual o primeiro bispado criado no Brasil e em i que
ano?
3 Quantas dioceses foram criadas no Brasil no sé
culo XVII?
4 — Qual a primeira Arquidiocese do Brasil?
5 — Que regime de relações existia entre o Estado e a
Igreja Católica durante o Brasil-colônia?
6 — Que se entende por côngrmi
7 Quais as principais ordens religiosas estabelecidas no
8 Que pode dizer sôbre a missão civilizadora da Igreja
Católica na colônia? .
9 — Que sabe sôbre a criação dos mosteiros e coúventos.
10 — Que sabe sôbre a Igreja Católica no Império.
11 — Que é padroado?
12 — Que é beneplácito? . ,. ,
13 — o que foi a chamada questão religiosa no Império.
14 — Qual o regime de relações entre o Estado e a Igreja
durante a 1.® República e quais as suas conseqüências.
15 Que se pode dizer sôbre a Igreja Católica moderna e
e as novas Encíclicas papais?
16 — Quais as principais religiões do Brasil?

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8.» P^RTE
ORGANIZAÇÃO PEDAGÓGICA DO BRASIL
Capítulo LVII

A EVOLUÇÃO DA EDUCAÇÃO NO BRASIL

1 — A educação no BrasiUcolônia e no Reino Unido


Nos primeiros anos do descobrimento, a situação cultu
ral do país era não só triste como desoladora. A instalação
de tipografias e a circulação de impressos eram proibidas.
A preocupação dominante de Portugal era a exploração das
riquezas do Brasil.
Os primeiros educadores-do Brasil foram os jesuítas.
Chegando ao país com Tomé de Souza, em 1549, tiveram
um vivo empenho na instalação de escolas. Em 1552 já
existiam três escolas de instrução elementar, mantidas pelos
jesuítas; as de Salvador, Espírito Santo e São Viceni^e.
Dois anos depois, a última foi removida para o interior, sendo
fundado o Colégio de São Paulo, nessa época sendo a alma
da pedagogia nacional a figura de José de Anchibta, que,
além de fundador de escolas era professor, ensinando lei
tura, escrita, contas, música, tanto aos filhos de portuguêses
como aos índios.
Os jesuítas foram incansáveis na sua missão pedagógica
e cultural. Novos colégios foram instalados como expressão
da sua atividade criadora, devendo-se mencionar os seguin
tes colégios: o Colégio da Bahia, em 1556, o Colégio do Rio
de Janeiro, em 1567 e o de Olinda, em 1575.
Nos lugares de maior expansão demográfica e comercial,
surgiram as primeiras escolas, traçando os delineamentos
da educação nacional.
172 Curso de Organização Social e Política Brasileira

No tempo dos flamengos, sob a influência de Maurí


cio DE Nassau, o Recife se desenvolve profundamente. Deu
nova fisionomia à cidade, construiu palácios e pontes, criou
uma escola e um observatório astronômico, organizou um
jardim público, o Recife tornou-se a mais opulenta cidade
do Brasil de então.
Por parte do govêrno português, contudo, dominaram
prementes as necessidades imediatas e utilitárias. Era pre
ciso defender militarmente a colônia; era necessário forti-
° govêrnomilitar
artilharia e de arquitetura português organizou
na Bahia aulas
e em São de
Luiz,
respectivamente no ano de 1669.
No século XVni as tendências educativas permanecem,
sob a ação do govêrno português que criou uma nova aula
de artilhmúa no Rio de Janeiro, em 1738, e dois seminários
para órfãos no ano de 1739, afora a ação particular dos
jesuítas.
Em 1759 o Marquês de Pombal, então no comando
da política portuguêsa, sendo inimigo dos jesuítas, e se
aproveitando de um atentado contra a vida de D. José I,
do que foram acusados os jesuítas, expulsou-os do Brasil.
Foi um grande golpe dado à sua atividade no país, exercida
ha cêrca de dois séculos.
A política pedagógica do Marquês de Pombal procurou
contudo, em contrapartida, superar as lacunas deixadas pela
ausência dos antigos educadores jesuítas.
Aliás, a expulsão dos jesuítas feita antecipadamente
por parte do govêrno português, refletiu-se também na
orientação de outros governos, que adotaram medidas iguais
Espanha, Nápoles e Sicília
(1767), coroadas com a ação do próprio Papa Clemente
XIV, que chegou a suprimir em 1773 a Companhia de Jesus.
Os jesuítas foram assim expulsos do Brasil, assim como
confiscados os seus bens. Por ocasião da sua expulsão, para
se avaliar o estado cultural da colônia, os jesuítas possuíam
o Remo, 24 colégios e 17 casas de residências; na colônia
possuíam 25 residências, 36 missões e 17 colégios e semi
nários, afora os seminários menores e escolas de escrita
e coi^s nos lugares onde existiam casas dos jesuítas.
Na pratica, todo o ensino até então estava concentrado
nas mãos dos jesuítas, afora algumas aulas de arte militar,
uns 3 seminários ou aulas de filosofia em conventos de car
melitas e franciscanos.
A reforma pomhalina em matéria pedagógica, através
do alvará de 28-6-1759, em substituição ao sistema prece-
A Evolução da Educação do Brasil 173

^^02^-^0^ cria. um car^o de **divciyov dè estudos' como orgão


de fiscalização e orientação, ao lado de aulas elementares
de gramática latina, grega e retórica. Mas só muitosnanos
depois tal reforma é realmente concretizada. Em 1774 inau-
gurou-se simultâneamente uma aula régia de latim em
João del-Rei (Minas Gerais) e uma de filosofia no Rio de
Janeiro. Ainda no Rio é fundada em 1782 unia Eswto de
Retórica e Poética, enquanto que em 1789 e fundado o
Semmái-io de Olinda, pela ação do bispo AzERipo CoUTirao.
O Seminário de Olinda merece um registro especial.
Nêle se refletem o espírito dos enciclopedistas e os ia®ais
da reforma pombalina, e foi logo considerado, se^ndo diz
Oliveira Lima, como "o melhor colégio de °
dária no Brasil". Representou uma brecha com tra(hç^
jesuítica do ensino colonial, renovou as matemáticas
tres e alunos, deu importância ao ensino ^as matemáticas
das ciências físicas e naturais. Foi de ou^^oj^do ™ ^a
foco de reivindicações liberais: Sem Azeredo Coutin
— diz CAPISTRANO DE Abreu — nao surgiria a geraçao
idealista de 1817". ^ .
Vem agora a época de D. João VI. Forçad p
cunstâncias excepcionais a sair de Portugal, mui o e
Brasil, dentro de critério prático e "Militarista. Teve a -
tenção deliberada de désenvolvê-lo, matenal e Çulturalmen .
Criou no Rio de Janeiro as seguintes instituições, a Ac
demia de Guardas-Marinha, os Cursos de Anatomia e ^..i-
rurgia, tudo em 1808 e os de Medicina em 1809, e ainda o
curso de Agricultura em 1814. Ainda no Rio d® «lanei^
organizou a Biblioteca e o Jardim Botânico em 1810, c
como o Laboratório de Química em 1812. Mas a sua atua
ção não se fixou só no sul; a Bahia também evoca a ^a
missão renovadora. Nela cria o curso de Cirurgia ^ »
o curso de Química, o curso de Agricultura em
de Desenho Técnico em 1817. Vê-se assim a sua orientação
eminentemente prática: a defesa militar da colônia e as
carreiras das ciências naturais e técnicas, da medicma.
Ainda faz vir a Missão Artística Francesa, contratada
em 1816: dela proveio a Real Academia de Desenho, Pi"tima,
Escultura e Arquitetura Civil, hoje Escola Nacional de Be^
las-Artes. A obra de D. João VI foi assim resumida por
Fernando de Azevedo: "uma ruptura completa com o pro u
grama escolástico e literário do período colonial . W
174 Curso de Organização Social e Política Brasileira

2 — A educação no Império
Com a Independência e o Império, já começou a Lei
Magna de 1824 a preocupar-se com a educação primária,
mantida pelo poder público, no seu artigo 179: "A instru
ção primária é gratuita a todos os cidadãos". Trata-se de
dispositivo programático, mantido em seu núcleo fundamen-
al pela legislação posterior, mas ainda sem ter tido a sua
exata aplicação, Com o Ato Adicional a atribuição para le
gislar sôbre instrução pública cabe às Províncias, mas ao
poder central a competência para legislar sôbre o ensino
superior e o ensino do Municipio Neutro.
Data do 1.*^ Reinado a fundação dos cursos jurídicos
de Olinda e de São Paulo, ambos em 1827, permitindo à
nova geração diplomar-se no Brasil sem as dificuldades de
transportar-se para Coimbra. Mais tarde os ditos cursos
transformaram-se em Faculdades, a de Olinda transferida
para o Recife, em 1854.
Ambas as Faculdades tiveram profunda influência no
país, formando advogados de renome, legisladores, estadis
tas, no Recife destacando-se, no plano jurídico, Paula Ba
tista e Tobias Barreto.
Em 1835 é fundada em Niterói a primeira escola nor
mal do país, e em 1837 no Rio de Janeiro é criado o Colégio
Pedro II. Ainda no Rio são criados o Arquivo Público e o
Instituto Histórico, ambos em 1838.
Era pequeno o número de alunos matriculados nas esco
las primárias e secundárias, existindo destarte úm grande
percentual de analfabetos.
Em 1867, calculava-se em 107.483 os alunos matricula
dos nas escolas primárias de todas as províncias, para uma
pop^dação livre de 8.830.000 pessoas; sôbre 1.200.000 pes
soas que deveriam receber a instrução primária, menos de
120.000 a recebiam, isto é, um décimo da população esco
lar, ou uma pessoa por 80 habitantes. Afora os escravos,
que no Império não eram pessoas, mas coisas, objeto de
propriedade particular.
Em 1864 estima-se que 8.600 alunos freqüentavam os
cursos e as aulas dos estabelecimentos públicos e particula
res de instrução secundária, ou seja, 8% do total dos alunos
primários, assim com uma evasão de 92% do curso primá
rio para o secundário.
Duas reformas de ensino de importância são planeja
das e executadas: a 1.® é a reforma Couro FERRAZ, em
A Evolução da Educação no Brasil 175

1851. Criaram-se escolas primárias de primeiro e segundo


grau, mas o curso secundário continuou em 7 anos. ,
A 2.^ reforma, mais ousada, é o de Leôncio de Car
valho, em 1870. Admitiu a obrigatoriedade do ensino pri
mário, a liberdade do ensino secundário (daí adveio a liber
dade de cátedra), a criação de jardins de infância, biblio
tecas, museus escolares, escolas primárias mistas, foi Leôn
cio DE Carvalho um inovador ousado.
Entre 1860 e 1890 ainda surgiram inúmeras escolas
secundárias no país, mantidas por particulares como insti
tuições modelares.
Quanto às universidades, nenhuma se criou no Brasil
Império, mas apenas instituições isoladas de ensino supe
rior, algumas com amplas tendências humanísticas, como
o núcleo das futuras universidades brasileiras.

3 — A educação na, Repitblica: os códigos de ensirio ^


A República i'ecebe do Império uma grande porcenta
gem de analfabetos, cerca de 90% da população. Procura
então renovar a totalidade do sistema pedagógico. A legis
lação do ensino é reformulada através do pensamento de
diversos educadores, e mesmo codificada de forma unitária.
A Lei Benjamin Constant, datada de 1892, é o pri
meiro código de ensino da República. Seguem-se outras co
dificações.
Em*1901 é editado o Código dos Institutos Oficiais de
Ensino Superior e Secimdário, ou Lei Epitácio Pessoa, que
foi o seu autor.
Em 1911 vem a Reforma Rivadávia Correia que per
mitiu às escolas secundárias o direito de prestar exames
oficiais, com efeitos julgados inconvenientes na época.
A Lei Carlos Maximiliano de 1915 visou corrigir tais
falhas, instituindo exames vestibulares e provas finais dos
concluintes dos colégios particulares, realizadas perante co
missões e bancas examinadoras oficiais. Esta reforma per
mitiu os exames parcelados, os preparatórios parcelados,
tendo como conseqüência a ânsia de concluir apressadamente
o curso, fragmentando a sua unidade, sistema de exames
parcelados que perdurou até 1925.
Data de 1925, a Reforma Rocha Vaz, também chamada
Reforma JoÃo Luiz Alves, da qual perduram ainda hoje al
guns dos seus objetivos, entre eles a criação dos currículos
das escolas secundárias. Instituiu a elaboração de progra-
176 Curso de Organização Social e Política Brasileira

mas oficiais para as escolas secundárias e bancas oficiais


nomeadas pelo Estado para o julgamento dos exames dos
alunos dos colégios particulares.
São estas as principais reformas da 1.^ República. Com
a Revolução de 1930 é criado o Ministério de Educação e
Saúde, cuja direção foi entregue a Francisco Campos, do
qual procede a reforma pedagógica de 1931, que é conhecida
pelo seu nome, como o principal autor.
Posteriormente, em 1942, é editada a Reforma CAPA-
NEMA, quanto ao ensino secundário. Êste passou à sua fei
ção ainda atual, desdobrado em dois ciclos: o 1.° ciclo com
preende o curso ginasial, com a duração de 4 anos, procuran
do ministrar os elementos básicos de educação média; o
2P ciclo, chamado ciclo colegial, foi dividido em dois cursos,
cada um com 3 anos de duração, a saber: o curso clássico,
aperfeiçoando o ginasial e emprestando especial atenção às
letras; o curso cientifico, também aprimorando o ginasial,
e concedendo especial relêvo às ciências.
Mais tarde, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacíowú é a última codificação do ensino no país, alusiva
ao ensino primário, secundário e superior, de diversas cate
gorias, e representa um esforço unificado do govêrno, com
pletando uma evolução pedagógica anterior. Esta é o núcleo
fundamental da atual legislação de ensino, complementada
depois pelo Estatuto do Magistério Superior e outras mo
dificações editadas pelos últimos Ministros da Educação do
país.
A República iniciou uma luta sempre constante contra
o analfabetismo, instituindo maiores verbas para a educa
ção, ao mesmo tempo que estimulou a criação de imiversi-
dades, como os órgãos mais importantes do ensino superior,
que inexistiram no Império.

QUESTIONÁRIO

1 — Quais os primeiros educadores do Brasil?


2 — Quais as primeiras escolas e colégios fundados no
país?
3 — Que pode dizer sobre o papel dos jesuítas no início
da educação brasileira?
4 — Que fêz o Padre JosÉ de Anchieta?
5 — Que fêz a Reforma do Marquês de Pombal?
6 — Qual a atuação e o espírito do Seminário de Olinda?
o Sistema Escolar Brasileiro 177

7 — Que sabe sobre a atuação de D. João VI em matéria


cultural e de educação no Brasil? ij
8 — Quando foram fundados os primeiros cursos juiffdi-
cos no Brasil? Que papel representaram as novas
Faculdades de Direito?
9 — Quais as principais reformas de ensino do Inipério?
10 — Que sabe sobre as reformas de ensino da República?
11 — Quando foi instituído o desdobramento do curso mé
dio em dois ciclos? Quais são êles?
12 — Que lei de ensino prevalece no Brasil atual?

Capítulo LVIII

O SISTEMA ESCOLAR BRASILEIRO

1 — A idéia, do sisteTmi escolar

O sistema escolar é o conjunto de instituições e práti


cas pelas quais a sociedade procura, de maneira deliberada
e consciente, formar a cultura e o saber, ^ idéias, os sen
timentos e os hábitos da sua juventude. É preciso educar
para a vida, educaf para o progresso e para a convivência
social. . -
A sociedade procura então, através de suas instituições
educativas, preparar a juventude para o mundo em que deve
viver. A educação deve então ser dirigida^ para a inteli
gência e o caráter. A educação deve também dar especia
relêvo à formação do caráter, como na Inglaterra.
O sistema escolar implica necessàriamente em uma rede
de instituições públicas e particulares, conglobando um com
plexo de unidades escolares, de diferentes níveis de pro
fundidade (primário, médio, superior). Ademais de sua
estrutura vertical de níveis de profundidade, deve organi
zar-se em uma estrutura horizoutaX, admitindo uma rica
variedade de opções e tipos diversificados de escolas, que
se ajustem à vocação e aos ideais de cultura e de vi a
juventude e da infância.

2 — A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacioml


A Lei de Diretrizes e Bases da
20-12-1961, que entrou em vigor em f ?deai3
educação, inspirada nos princípios de liberdade e v\
178 Curso de Organização Social e Política Brasileira
;/
de solidariedade humanas tem por fim: a) "a compreensão
dos direitos e deveres da pessoa humana, do cidadão, do
Estado, da família e dos demais grupos que compõem a
comunidade; b) o respeito à dignidade e às liberdades fun
damentais do homem; c) o fortalecimento da unidade na
cional e da solidariedade internacional; d) o desenvolvi
mento integral da personalidade humana e a sua participa
ção na obra do bem comum; e) o preparo do indivíduo e
da sociedade para o domínio dos recursos científicos e tec
nológicos que lhes permitem utilizar as possibilidades e
vencer as dificuldades do meio; f) a preservação e expansão
do patrimônio cultural; g) a condenação a qualquer tra
tamento desigual por motivo de convicção filosófica, polí
tica ou religiosa, bem como quaisquer preconceitos de classe
ou de raça.
De acôrdo com ela, a educação é direito de todos e será
dada no lar e na escola. Ã família cabe escolher o gênero
de educação que deve dar a seus filhos.
Destarte se assegurou a possibilidade do ensino tanto
ministrado pelo poder públicò (União, Estados e Municí
pios), como pelos particulares, que podem receber auxílios
e subvenções dos cofres públicos. A iniciativa particular é
assim amparada èm matéria de educação.
Segundo a Lei de Diretrizes e Bases, o Ministério de
Educação e Cultura exercerá as atribuições do Poder Pú
blico Federal em matéria de educação. Contudo o ensino mi
litar será regulado por lei especial.
É prevista a existência de um Conselho Federal de Edu
cação, composto por 24 membros nomeados pelo Presidente
da República, por 6 anos, dentre pessoas de notável saber
e experiência, em matéria de educação.
O Conselho Federal de Educação tem diversas atribui
ções, dentre elas se destacando: a) decidir sôbre o funcio
namento dos estabelecimentos isolados de ensino superior,
federais e particulares; b) decidir sôbre o reconhecimento
das universidades, mediante a aprovação dos seus estatutos
e dos estabelecimentos isolados de ensino superior, depois
de um prazo de funcionamento regular de, no mínimo, dois
anos; c) pronunciar-se sôbre os relatórios anuais dos insti
tutos referidos nas alíneas anteriores; d) opinar sôbre a
incorporação de escolas ao sistema federal de ensino, após
verificação da existência de recursos orçamentários; e) in
dicar disciplinas obrigatórias para os sistemas de ensino
médio e estabelecer a duração e o currículo mínimo nos
o Sistema Escolar Brasileiro 179

cursos de ensino superior; f) promover sindicâncias, por


meio de comissões especiais, em quaisquer estabelecimentos
de ensino, sempre que julgar conveniente; g) elaborar seu
regimento a ser aprovado pelo Presidente da Kepública;
h) conhecer dos recursos interpostos pelos candidatos ao
magistério federal e decidir sobre êles; i) sugerir medidas
para organização e funcionamento do sistema federal de
ensino; j) promover e divulgar estudos sôbre o sistema fe
deral de ensino; 1) adotar ou j^ropor modificações e medidas
que visem à expansão e ao aperfeiçoamento do ensino;
m) estimular a assistência social escolar; n) emitir parece-
res sôbre assuntos e questões de natureza pedagógica e edu
cativa que lhes sejam submecidos pelo Presidente dá Re
pública ou pelo Ministro da Educação.e Cultura; o) manter
intercâmbio com os conselhos estaduais de educação; p) ana
lisar anualmente as estatísticas do ensino e os dados com-
plementares.
É prevista ainda a existência de Conselhos EsiMuais
de Educação, aos quais cabe permitir a autorização e se
atribui a fiscalização dos estabelecimentos estaduais isola
dos do ensino superior.
Tanto a União, como os Estados e o Distrito^ Federal
organizarão os seus sistemas de ensino, com observância das
Leis de Diretrizes e Bases. Os sistemas de ensino atende
rão à variedade dos cursos, à flexibilidade dos currículos
e à articulação dos diversos graus e ramos. A União orga
nizará o ensino público dos territórios e estenderá a ação
federal supletiva a todo o país.
As principais instituições educativas do Brasil contem
porâneo abrangem as instituições de educação de grau pri
mário, de grau médio e de grau superior. O govêrno man
tém escolas gratuitas de todos os três tipos.
O ensino primário, pressuposto como obrigatório a par
tir dos 7 anos, é gratuito e ministrado em português. O re
ferido ensino primário deve ser ministrado no mínimo em
4 anos, mas os sistemas de ensino poderão ampliá-lo até 6
anos. As emprêsas comerciais, industriais e agrícolas, pos
suindo mais de 100 empregados, deverão ter o ensino gra
tuito para os seus empregados e respectivos filhos.
O ensino de grau médio é ministrado em.ginásios e
colégios, tanto públicos como particulares. Desde 1942, o
curso médio substitui o antigo curso ginasial de 5 anos por
dois cursos escalonados: o ginasial de 4 anos e o colegrial de
3 anos, desdobrado êste último em dois cursos paralelos.
180 Curso de Organização Social e Política Brasileira

á saber, o clássico (com predominância das letras) e o


científico (com predominância das ciências).
Além disso, o ensino de grau médio abrange os seguin
tes cursos: cursos secundários, cursos técnicos e cursos de
formação de professores para o ensino primário e pré-
primário.
Na organização do ensino médio serão observadas as
seguintes regras: I — Duração mínima do período escolar;
a) cento e oitenta >dias de trabalho escolar efetivo, não in
cluído o tempo reservado a provas e exames; b) vinte e
quatro horas semanais de aulas para o ensino de disciplinas
e práticas educativas; II — Cumprimento dos programas
elaborados tendo-se em vista o período do trabalho escolar;
III — Formação moral e cívica do educando, através de
processo educativo que a desenvolva; IV — Atividades com-
plementares de iniciação artística; V — Instituição da orien
tação educativa e vocacional em cooperação com a família;
VI — Freqüência obrigatória, só podendo prestar exame
final, em primeira época, o aluno que houver comparecido,
no mínimo, a 75% das aulás dadas.
Deve-se salientar que o ensino técnico abrange os se
guintes cursos: 1) industrial; 2) agrícola; 3) comercial. São
também ministrados em dois ciclos, como o curso de grau
médio em geral.
Enfim, o ensino normal tem por fim a formação de
professôres, orientadores, supervisores e administradores
escolares destinados ao ensino primário e o desenvolvimento
dos conhecimentos relativos à educação da infância.
A formação de docentes para o ensino primário far-
se-á: a) em escola normal de grau ginasial no mínimo de
quatro séries anuais onde, além das disciplinas obrigatórias
do curso secundário ginasial será ministrada preparação
pedagógica; b) em escola normal de grau colegial, de três
series anuais, no mínimo, em prosseguimento ao grau gi
nasial.
A formação de professôres para o ensino de grau médio
será feita nas faculdades de filosofia, ciências e letras e
a de professôres de disciplinas específicas de ensino técnico
em cursos especiais de educação técnica.
Nos instituto?, de educação poderão funcionar cursos
de formação de professôres para o ensino normal, dentro
das normas estabelecidas para os cursos pedagógicos das fa
culdades de filosofia, ciências e letras.
o Sistema Escolar Brasileiro

Tanto o ensino primário como o ensino de grau médio


proporcionam assim as bases e os núcleos de sustentação db'
ensino superior, como um ponto fundamentalmente neces
sário ao desenvolvimento nacional.

3 — A Lei de Diretrizes e Bases e a Educação de


Grmt Superar

De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases, o ensino


superior terá por objetivo a pesquisa, o desenvolvimento
das letras e das artes, e a formação de profissionais do
nível universitário. Êle será ministrado em estabelecimentos,
agrupados ou não em universidades, com a cooperação de
institutos de pesquisas e centros de treinamento profissiona'.
Nos estabelecimentos de ensino superior podem ser mi
nistrados os cursos de graduação, pós-graduação (doutorado
e mestrado), e ainda de especialização, aperfeiçoamento e
extensão.
0 currículo mínimo e a duração dos cursos que habili
tam à obtenção de diploma são fixados pelo Conselho Fe
deral de Educação.
As Universidades se constituem pela reunião, sob a
administração comum, de 5 ou mais estabelecimentos de en
sino superior. Gozam elas de autonomia, a chamada auto-
nonriia universitária, abrangendo a autonomia didática, ad
ministrativa, financeira e disciplinar, que será exercida na
forma dos seus estatutos, de acordo com a legislação em
vigor.
As Universidades oficiais se constituem sob a forma de
autarquia ou fundações; as Universidades particulares sob
a de fundações ou associações.
Em 1968, existiam no Brasil 654 estabelecimentos de
ensino superior, assim classificados;

1 — Faculdades do Universidade Federal 206


II — Faculdades isoladas federais ^ 22
ni — Faculdades de Universidades estaduais ^ 31
IV — Faculdades isoladas estaduais e municipais 36
V — Faculdades isoladas municipais _ ^
VI — Faculdades de Universidades particulares 89
Vil — Faculdades isoladas particulares 250
Total
182 Curso de Organização Social e Política Brasileira

Na época existiam 44 Universidades, sendo 25 Univer


sidades Federais, 4 Universidades estaduais e 15 Universi
dades particulares.
Quanto ao professorado, as duas constituições de 1946
e 1967 garantiam a chamada liberdade de cátedra. A atual
Constituição de 1969 fala em liberdade de c(ymunicação de
conhecimentos 'no exen^cido do magistério (art. 176, VIII).
Recentemente o Govêrno editou o Estatuto do Magis-
ério Supeiior (Lei n.® 4.881-A de 16-12-1965), regulandó-se
a carreira do educador de ensino superior. O referido Es
tatuto agrupou o pessoal docente do ensino superior em 3
categorias: Magistério Superior, Professores contratados e
Auxiliares de Ensino. O primeiro grupo compreende três
graus escalonados: Professor Catedrâtico, Professor-Adjunto
e Professor-Assistente.
Nova legislação de ensino se propôs a suprimir a cáte
dra na sistemática da organização escolar. Não há mais
cátedras?
Assim se expressa oi Conselheiro Valmir Chagas (pa
recer n.® 281/67, de 5-7-1967):"De acordo com a nova Cons
tituição do Brasil, com o Estatuto do Magistério Superior
(Lei n.® 4.881-A, de 6-12-1965) e com o Decreto-Lei n.®
252, de 28-2-67, a tradicional cátedra ou cadeira já não
existe 'no magistério superior brasileiro, substituída como
foi por uma carreira de magistério que, nas instituições
mantidas pela União se unifica no DEPARTAMEN'ÍO, de
finido como "a menor fração da estrutura universitária para
todos os efeitos de organização administrativa e didática-
cientifica e de distribuição de pessoal". "Isso não impede
que se continue a empregar as palavras cátedra e cadeira
para designar o cargo de professor catedrâtico, o mais alto
do magistério superior federal, tal como se usa o vocábulo
assistência para designar o cargo de professor assistente".
Determina ainda a LDB (Lei de Diretrizes e Bases)
que^ será observado, em cada estabelecimento de ensino su
perior,^ na forma dos estatutos e regimentos respectivos, o
calendário escolar, aprovado pela congregação, de modo que
o período letivo tenha a duração mínima de 180 anos (cento
e oitenta) dias de trabalho escolar efetivo, não incluído o
tempo reservado a provas e exames.
Determina enfim que será obrigatória, em cada esta
belecimento, a freqüência de professores e alunos, bem como
a execução dos programas de ensino. Será privado do direito
de prestar exames o aluno que deixar de comparecer a um

j
o Desenvolvimento do Ensino no Brasil 183

mínimo de aulas e exercícios previstos no regimento. O esta


belecimento deverá promover ou qualquer interessado poderá
requerer o afastamento temporário do professor que deixar
de comparecer, sem justificação, a 25% das aulas e exer
cícios ou não ministrar pelo menos 3/4 do programa da
respectiva cadeira. A reincidência do professor na íalta
prevista na alínea anterior importará, para fins legais, em
abandono do cargo.

QUESTIONÁRIO
1 Que entende por sistema escolar? ^ ^
2 A educação deve dirigir-se isoladamente so a
3 _ Qu"To fim^da^^ educação segundo a Lei de Diretrizes
4 _ Quafs^^as principais atribuições do Conselho Federal
5 De quantos niembros se compõe o Conselho Federal de
Educação? Quem os nomeia? _
6 Quais as principais instituições pedagógicas do Lra
sil atual?
7 — Que sabe sobre o ensino primário?
8 Que pode dizer sobre o ensino de grau meciio.
9 Que curso abrange o ensino técnico?
10 Qual a finalidade do ensino normal?
11 _ Que sabe sobre o ensino superior? _ .
12 Quantos estabelecimentos de ensino superior existiam
no Brasil em 1968?
13 _ Quantas Universidades existiam na época.' ^
14 Que sabe sobre o Estatuto do Magistério Superior.
15 — Como se classifica a carreira de professor de ensino
superior?

Capítulo LIX

O DESENVOLVIMENTO DO ENSINO NO BRASIL


1 — A luta oontra o analfabetismo
"Não pode permanecer livre uma nação }snorante'\
dizia HORACE Mann, educador norte-americano. Dai o gran
de empenho das nações contemporâneas em amp lar
volver a educação, aniquilando o analfabetismo.
184 » Curso de Organização Social e Política Brasileira

No Brasil a luta contra o analfabetismo tem sido uma


preocupação constante do país, e aos poucos a nação vai
vencendo a grande batalha da educação.
O percentual dos analfabetos, calculado na base da po
pulação de mais de 15 anos não sabendo ler e escrever, foi
o seguinte nos anos de recenseamento:
1940 1950 1960
Alfabetizados (mais de 15 anos) 44% 49% 61%
Analfabetos (mais de 15 anos) 56% 51% 39%

Os índices de escolarização também têm subido bastante,


tanto no curso primário, corno no curso médio e no curso
superior.
Os quadros abaixo, tendo como fonte o IPEA, do Mi
nistério do Planejamento, são expressivos:

ÍNDICES DE ESCOLARIZAÇÃO PRIMÁRIA


Fonte: IPEA — Ministério do Planejamento

ITEM 1950 1960

População Escolarizável (7-11 anos) 6.720.219 9.441.437


População Escolarizada (Primário Comum) -4.352.043 7.470.096
índice de Escolarização 64,8% 79,2%

ÍNDICES DE ESCOLARIZAÇÃO DO ENSINO MÉDIO

ITEM 1950 19G0

População Escolarizável (12-18 anos) 8.166.155 10.959.667


População Escolarizada (ensino médio) 538.346 1.224.485
índice de Escolarização 6,6% 11,2%

ÍNDICES DE ESCOLARIZAÇÃO NO ENSINO SUPERIOR


ITEM 1950 1960

População Escolarizada (19-25 anos) 7.069.782 8.667.792


População Escolarizada , 44.097 96.732
índice de Escolarização 0,52% 1,11%
o Desenvolvimento do Ensino no Brasil ^ 185

2 — A pojmlaçiho escolar, professores e escolas


A população escolar brasileira tende a crescer assusjbi-
doramente. Em face da explosão demográfica e das medidas
de amparo do govêrno, com os seus investimentos no campo
da educação, a população escolar brasileira tende a ser uma
das mais expressivas do mundo.
Segundo dados divulgados pelo IBGE no Armário Estor
tístico do Brasil, o país possuía em 1961 cêrca de 98.500
escolas, 810.000 professores e 8.200.000 alunos.
Em 1966, êste número- aumentou consideràvelmente, de
acordo com o quadro abaixo:

Graus Escolas Professores \Alunos

Ensino Primário 127.000 393.000 10.600.000


Ensino Médio 6.700 132.000 2.480.000
Ensino Superior 1.304 36.109 180.109
\

Total 135.000 561.000 13.260.000

Assim sendo, tanto em população escolar, como em nú


mero de professores e de escolas, há uma marcha constante
do desenvolvimento, que apesar de tudo, precisa ainda mais
ser consolidada e ampliada.
Seria também interessante analisar a distribuição dos
alunos nos cursos de grau médio, segundo informação do
mesmo Armário Estatístico do Brasil, ano de 1967:

Alunos matriculados:

1) Curso secundário 1.805.000 72,7%


2) Curso comercial 306.000 12,3%
3) Curso normal 265.000 10,8%
4) Curso industrial 91.000 3,7%
Curso agrícola 14.000 0,5%
5)

3 — O custo do eusiviO
O custo do ensino no Brasil tem sido calculado por
especialistas e estudiosos. Procura-se então estimar e saber
quais os custos unitários anuais por aluno.
Curso de Organização Social e Política Brasileira

Dados divulgados recentemente estimam que êstes custos


se limitam a 70 dólares no ensino primário (em estimativa
para o Estado da Guanabara, incluindo a merenda escolar),
mas para todo o Brasil o custo é estimado em 16 dólares;
90 dólares no ensino ginasial; 110 dólares no curso colegial;
1.000 dólares no curso universitário.
Vê-se assim a enorme carga que tem a nação no seu
compromisso para desenvolver a cultura do país, estendendo
os benefícios do saber a camadas mais amplas da comuni
dade.
Quanto ao dispêndio público com a educação, esta atin
giu em 1967 o seguinte valor em Cr$ milhões: 2.275. •
Tem ainda crescido a relação percentual das despesas
públicas em educação como porcentagem do produto interno
bruto, de acordo com o quadro abaixo:

DESPESA PÚBLICA EM EDUCAÇÃO COMO PERCENTAGEM


DO PRODUTO BRUTO

(Cr$ milhões a preços correntes)

Dispêndio Produto Relação


ANO Público em Interno Percentual
Educação Bruto

1960 55,4 2.418,8 2,2


1961 84,9 3.498,6 2,4
1962 148,0 5.498,0 2,7
1963 205,0 9.591,2 2,1
1964 412,4 18.867,3 2,2
1965 1.032,5 30.796,5 3,3
1966 1.487,3 44.369,1 3,3
1967 1.978,3 56.860,0 3,5

Ponte: MArio Simonsbn — Brasil — 2001, pág. 221.

4 — A pirâmide de ensino no Brasil e os gastos com


os diverèos cursos superior, médio e priríiário
A pirâmide de ensino no Brasil, revelando a porcenta
gem de alunos matriculados em cadá curso, no ano de 1966,
deve ser exposta e interpretada.
o Desenvolvimento do Ensino no Brasil 187

No aludido ano existiam 10.000.000 de alunos |no


curso primário, totalizando 78,9 da pirâmide de ensino;
2.480.000 alunos no curso médio totalizando 19,9% da pi
râmide; 180.000 alunos no curso superior, totalizando ape
nas 1,2% da pirâmide.
É de lembrar que, no dito ano, dos 16 miihões de
crianças em idade escolar de 7 a 14 anos, 10.000.000 es
tavam nas escolas e 6.000.000 sem escolas, como uma
ameaça contra a extinção futura de analfabetismo.
De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases, em seu art.
92, § 2.^, a União, para a manutenção e desenvolvimento do
ensino, constituirá 3 fundos de educação, em parcelas iguais:
foram, assim constituídos o Fundo Nacional do Ensino Pri
mário, o Fundo Nacional do Ensino Médio e o Fundo Na-
cion.al do Ensino Superior.
Êste dispositivo visou corrigir anomalias existentes.
Dados divulgados revelaram que com a multiplicação ex
cessiva das Universidades Federais e as subvenções às es
colas e Universidades particulares, o governo passou a
gastar 75% dos seus recursos com o ensino superior, 16%
com o ensino médio e apenas 9% com o ensino primário.
Foi o que salientou o Deputado Paulo Sarasate, membro
da Comissão de Orçamentos da Câmara Federal, analisando
a distribuição das verbas orçamentárias da Educação em
1961. Na aludida análise, se verifica que a União destinou
do total de 36 bilhões de cruzeiros as seguintes verbas: 3
bilhões (9%) para o ensino primário; 6 bilhões (16%)
para o ensino médio; 27 bilhões (75%) para o ensino su
perior.
É esta distorção que a Lei de Diretrizes e Bases pro
curou corrigir, distribuindo igualmente o fundo de Educação
em parcelas iguais para o ensino superior, médio e primário.

5 — O dispêndio público nus Universidades


As Universidades brasileiras foram criadas na 1.® Re
pública, porém a multiplicação tanto das Universidades como
das faculdades se processou sobretudo depois de 1945.
O primeiro grande problema que levou ao excessivo
dispêndio nas Universidades foi o dos altos custos unitários
calculados hoje em dia (1969) na média de 1.000 dólares
anuais por aluno.
Para êste gasto ocorrem vários fatores, sendo logo de
salientar a baixa relação aluno/professor. Em 1964 havia
188 Curso de Organização Social e Política Brasileira

em média só 4,7 alunos por professor universitário. Em


1966, em média havia 5 alunos por cada professor univer
sitário. Internacionalmente a relação normal varia entre
12 a 15 alunos por professor. Tem-se assim no Brasil uma
acen^ada improdutividade da relação aluno-professor.
Certo, isto é apenas uma média. Em alguns casos a
proporção se torna escandalosa: 6 professores para 10 alunos
na Escola de Odontologia do Amazonas; 130 alunos para 132
piofessôres na Escola de Enfermagem de Minas Gerais;
1 aluno por 1 professor no ensino superior de Arte em
Brasília; 1,51 de relação professor-aluno na Escola de Edu-
Física do Rio Grande do Sul. São dados alusivos a
1966.
Faculdades tradicionais mantêm as tabelas internacio-
nais, conio a Faculdade de Direito do Recife, hoje dirigida
pelo Pfof. Mário Baptista, com cerca de 60 professores
para cerca de 890 alunos, isto é, 1 professor para 15 alunos.
• ^^"sas dêsse fenômeno
üniversidade-prestigio, se devem
sem razões para aà sua
multiplicação
criação, edaa
proliferação de assistentes e catedráticos sem critérios se
letivos.
O outro motivo relevante deste dispêndio é dado pelos
excessivos gastos em obras arquitetônicas, prédios luxuosos,
televisões universitárias, deixando de lado os laboratórios,
museus, bibliotecas, bem como relegando os professôres ao
descaso.
Este excessivo gasto prejudica assim o esforço nacional
de^ ampliar as bases de educação média e da educação pri
maria.

® evasão esc'olar no Brasil


É importante, afinal, apreciar o baixo número de alunos
ao curso primário que atingem o curso superior. Aspecto
dramático pode ser apreciado sem dúvida nos índices de
evasao escolar.

1 a serie primária,
1950,^ de 2.087.000 alunos que se matricularam na
apenas 243.000 ou 11,6%, concluíram tal
curso; desses 243.000 apenas 160.000 em 1954 ingressaram
ginasial (7,6% que fizeram a 1.® série primária
em 1950); em 1960 apenas 61.000 alunos completaram o
ci^so secundário, isto é, tão só 2,9% dos que iniciaram a
1. serie primária em 1950; em 1961, afinal, apenas 22.500
o Desenvolvimento do Ensino no Brasil 133

alunos tiveram ingresso no curso superior, isto é, só 1,1^


dos iniciantes de 1950 na 1.^ série primária. 11
Resumindo: de cada grupo de 100 alunos que iniciam
a 1.^ série pHmária, apenas 7 atingem a escola secundária
e só 1 chega à Universidade,
Há assim, na realidade, um estreitamento anormal e
patológico da nossa pirâmide de ensino.
Segundo dados da IPEA (Ministério de Planejamento),
no mesmo sentido, de cadà grupo de 1.000 alunos matricula
dos na 1.^ série, apenas 181 chegam à 4. série primária;
53 concluem o curso ginasial; 85 concluem o último ano do
colégio.
O quadro abaixo é ilustrativo, divulgado pelo IPEA
(Ministério do Planejamento):

PIRÂMIDE EDUCACIONAL BRASILEIRA

Nível Série índice de matrículas

Primário 1.^ 1.000


2.a 395
3.a 281
4.a , 181
Ginasial 1.^ 101
2.a 80
3.» 65
4.» 53
Colegial l.a 51
2.a 41
3.a 35

Verifica-se que o fenômeno de evasão escolar, sobretudo


sé verifica da 1.^ para a 2.® série do curso primário, como
conseqüência do elevado percentual de reprovações.

QUESTIONÁRIO
1 — Qual o percentual de analfabetismo no Brasil respec
tivamente em 1940, 1950 e 1960? td -i
2 — Quantos professôres, alunos e escolas tinha o Brasil vn
em 1966?
190 Curso de Organização Social e Política Brasileira

3 — Como se distribuíam então os alunos matriculados no


curso médio?
4 — Qual o custo do ensino por aluno do curso superior,
médio e primário?
5 — Como se distribuem atualmente as parcelas do Fundo
de Educação de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases?
6 — Qual a relação de professores por aluno no curso su
perior?
7 — Que entende por evasão escolar?
8 — Quantos alunos concluem o curso superior em cada
grupo de 100 alunos que iniciam a 1.® série primária?
9.» PARTE

0 BRASIL NO MUNDO INTERNACIONAL


l .

Capítulo LX

O BRASIL E A VIDA INTERNACIONAL

1 — O Brasil no mundo /
Nenhuma nação pode viver fora do mundo internacional.
Convite com outros países, com os quais tem relações co
merciais, econômicas, culturais, celebra tratados e conven
ções, mantém relações diplomáticas. Esta convivência é
mesmo necessária e indispensável.
Para êste efeito o Brasil mantém emhaixad/LS nas
nações de maior importância, assim como legações nos países
de menor expressão. Em grandes cidades existem coTisidados,
e através desses mecanismos de comunicação e intercâmbio
se entrecruzam e se facilitam as relações entre os povos.
Como conseqüência da extensão e da amplitude das
Organizações Internacionais, o Brasil é membro de diversas
associações e comunidades. É membro da Orgamzaçâo das
Nações Unidas (ONU), da Organizaçaso dos Estados Ame
ricanos (OEA), do Fundo Monetário Internacioofuil (FMI),
dxi União Postal e TelegráficU e outras entidades.

2 — O Brasü e a ONU

Em 1954 o Brasil assinou a Carta das Nações UmdoÃ,


foi inclusive um dos 51 países que a subscreveram, fazendo
por conseguinte parte da Organização das Nações Unidas
(ONU).
192 Curso de Organização Social e Política Brasileira

Tomou assim uma posição bem definida na luta em


favor da paz mundial, eis que a ONU tem por objetivo prin
cipalmente manter a paz e a segurança nacional.
A guerra já havia sido posta fora da lei pelo pacto
BRIAND-KELLOG de 1928 e a contextura dos últimos
conflitos mundiais acelerou a tentativa de consolidar a paz
internacional entre os povos.
Segundo a estimativa de Hersoh a 1.^ Guerra Mundial
custou à Europa 12.500.000 de mortes causadas diretamente
pela guerra e uma cifra semelhante indiretamente provocada
pela mesma. Ao todo 25.000.000 de mortes.
É enorme também o custo da guerra. A guerra do Pa
raguai contra o Brasil custou 375.000.000 de francos. A
guerra de 1914-1918 custou 15.000 bilhões de francos e
a de 1939-1945 cerca de 40.000 bilhões. Estas quantias
fabulosas poderiam ser utilizadas para outros fins.
O Brasil, que é uma nação pacifista por índole, colabora
destarte com a ONU, na manutenção da paz e da segurança
nacional. Brasileiros ilustres têm colaborado nas Diretrizes
da FAO (Organização de Alimentação e Cultura das Nações
Unidas) e na Organização Mundial da Saúde.

3 — O Bíxlsü na OEA
A comunidade americana e a pan-americana têm im
portância para o Brasil, que é membro desde a sua funda
ção, da Organização dos Estados Americanos (OEA), fun
dada na época da 9.^ Conferência Interamericana de Bogotá
em 1948.
A OEA é uma conseqüência natural da evolução do
panamericanismo e dos ideais da defesa e da solidariedade
dos povos do continente americano.
Nesta organização os Estados Unidos, o Brasil, a Ar
gentina e o México são países que assim buscam o inter
câmbio e o progresso dos países americanos, ao lado de
nações menores que ambicionam a paz, a tranqüilidade, a
segurança e o bem-estar social.

4 — O Brasil em mitros organismos intemacicmiis


O Brasil ainda participa de outros organismos interna
cionais, onde tem tido uma atuação diligente e proveitosa.
Entre essas organizações internacionais se salientam diversas
de grande importância, a saber: a) a UNESCO ou Organi-
o Brasil e a Vida Internacional 193

zação Educativa, Científica e Cultural dás Nações Unidas,


com sede em Paris, tendo em vista a cooperação internacio-j
nal no campo da ciência, da cultura, do saber e da educaçãq;!
6) A FAO ou Organização da Alimentação e Agricultura
das Nações Unidas, com sede em Roma, tendo em vista o
melhoramento dos padrões de vida das populações, especial
mente as populações rurais; c) a OIT ou Organização Inter
nacional do Trabalho, coni sua sede em Genebra (Suíça),
atenta ao desenvolvimento do direito social e à solução das
questões trabalhistas; d) o Fundo Monetário Internacional
ou FMI, com sede em Washington (E.U.A.); e) a Organi^
zação Mundial da Saúde, com sede em Genebra; /) A União
Postal Telegr^fica, etc.

5 — A Declaração Universal dos Direitos do Homem


A 10 de dezembro de 1948 a assembléia geral da ONU
aprovou um texto com 30 artigos, contendo a proclamação
internacional dos principais direitos do homem.
A Declaração começa com um preâmbulo nos seguintes
têrmos:
"A presente declaração universal dos direitos do ho
mem, como o ideal comum a atingir por todos os povos e
nações, a fim de que todos os indivíduos, e todos os órgãos
da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se
esforcem, através do ensino e da educação, por desenvolver
0 respeito a êsses direitos e liberdades e por assegurar-lhesj
através de medidas progressivas de caráter nacional e
nacional, o reconhecimento e a aplicação universais e efeti
vos, seja entre as populações dos Estados Membros, seja
entre as populações dos territórios sob sua jurisdição .
A declaração universal dos direitos do homem é o co-
roamento histórico e doutrinário do liberalismo europeu, no
seu ideal de defesa e aperfeiçoamento da pessoa humana.
QUESTIONÁRIO
1 — Que pode dizer sôbre o Brasil no mundo internacional.
2 — Qual a finalidade da ONU? , , /.««a TitiiíiaQ?
3 — Quando o Brasil assinou a Carta das Naçoe
4 — Que pode dizer sobre a OIT e
5 — Que significam as siglas: FAO, UNESC ,
6 — Que sabe sôbre a Declaração dos Direitos do Homem?
7/

1
é. .

• ■

Mil >

' I
ÍNDICE

1.® PARTE

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL


E POLÍTICA

Capítulo I

Fundavientos da Organização Social e Política


Pags.
1. A criação da cadeira de Organização Social e Política
sileira. 2. Do Objeto do ensino da disciplina Organização Sc-
ciai e Política Brasileira '
Capítulo II

1. O homem como animal social. 2. A família, os clãs, a tribo ^


e o Estado. 3. A organização social
Capítulo III

A Sociedade e os Grupos Sociais


1. A sociedade e a classificação dos grupos. 2. A comunidade. ^
3. Grupos sociais importantes
Capítulo IV

As Relações Sociais
1. A interação social. 2. Cooperação, acomodação, assimi-
lação. 3. Competição e conflito
Capítulo V

A Estrutura Social
1. Estruturas sociais. 2. O espaço ^ 12
4. Sfaít^ social. 4. Estratificação social, 6. Mobilidade socai. 12
Capítulo VI

1. Noção de cultura. 2. Caracteres f?"dam^tai^. das cultu


ras: transmissão, acumulação,^ integração, a ' . 16 v\
damento, marginalidade, difusão, mudança
196 índice

Capítulo VII

O Desenvolvimento Nacional
Pág3.
■ 1. A idéia do desenvolvimento. 2. Caracteres do desenvolvi
mento. 3. A riqueza das nações: o PNB e a renda per capita. 18

Capítulo VIII

O Brasil como Potência Latino-Americana

1. A grandeza do Brasil. 2. A distribuição da renda 21

2.^ PARTE

A SOCIEDADE POLÍTICA

Capítulo IX

O Estado

1. A palavra Estado. 2. O conceito de Estado. 3. Elementos


constitutivos do Estado. 4. A soberania 2o
Capítulo X

Formas ou Tipos de Estado


1. Os tipos de Estado. 2. O Estado federal. 3. O Federalis
mo Brasileiro 27

Capítulo XI

O Povo

1. O sentido da palavra povo. 2. Povo, nação e Estado. 3. A


Pátria. 4. O patriotismo 29

Capítulo XII

O Poder Político

1. O poder político e a soberania. 2. Limites ao poder do


Estado. 3. As fontes do poder político. 4. O povo como fonte
do poder político e suas conquistas. 4. A separação de po-
dêres 31
Capítulo XIII
I

Fins do Estado: O Bem Comum

1.Finalidade do Estado. 2. O Bem Comum 34


índice jgy

Capítulo XIV

Fortnas dc Govêmo
Págs.
í' Conceito de govêrno. 2. Classificação das formas de go
verno. 3. Conceito de monarquia, aristocracia, ditadura e De
mocracia 35

Capítulo XV
A Democracia
1. O conceito da democracia. 2. Tipos de democracia 37
Capítulo XVI

Parlamentarismo e Presidencialismo
1. Noção do parlamentarismo. 2. Nòção do presidencialisipp. 38
Capítulo XVII

Os Partidos Políticos

1. As divergências de opinião. 2. A opinião pública. 8. Os


Partidos Políticos. 4. O direito de voto r
40

3.» PARTE

AS NORMAS E A ORDEM JURÍDICA DA SOCIEDADE


POLÍTICA
\\

Capítulo XVIII

As Constituições
1. A palavra Constituição. 2. Definições sobre a Constituição.
3. Tipos de Constituição. 4. O Poder Constituinte 43
Capítulo XIX

A Lei

1. O conceito do direito. 2. A Lei. 3. O processo legislativo.


4. A elaboração da lei. 5. Sanção e promulgação das leis.
6. O Veto. 7. O Decreto 46

4.» PARTE

A ORGANIZAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

Capítulo XX

Os Ciclos da Economia Nacional


l.A evolução da economia brasileira. 2. Os ciclos da economia ..
nacional
índice

Capítulo XXÍ
O Ciclo do Paur-Brasil

1 -Cl
1. - da economia brasileira. 2. As feitorias
Formação Págs.
53
Capítulo XXII

O Ciclo da Cana de Açúcar


1. O principal produto da colônia. 2. Os engenhos de açúcar.
3. A aristocracia rural 54

Capítulo XXIII

O Ciclo do Couro

.9® de gado. 2. O povoamento do interior. 3. A


civilização do couro 57
Capítulo XXIV

O Ciclo do Ouro

1. A descoberta do ouro e seus efeitos. 2. O povoamento urbano 59


Capítulo XXV

O Ciclo do Café

1. A in.trodução do café na economia nacional. 2. As conse


qüências do ciclo do café 61
Capítulo XXVI

O Ciclo Industrial

1. O produto de industrialização. 2. A eletrificação. 3. Cres


cimento do Produto Real 63

Capítulo XXVII

Organização da Vida Econômica


1. As bases econômicas da indústria brasileira. 2. Capitais
estrangeiros 66

Capítulo XXVIII

O Comércio Internacional do Brasil

A balança comercial do Bràsil. . As exportações do Bra


sil. 3. As importações do Brasil. 4. A discriminação da
balança comercial. 5. A balança de pagamento 68
m

índice 199

Capítulo XXIX

A Moderna Economia Brasileira


Págs.
1. A economia brasileira dos dias atuais. 2. A economia agrí
cola. 3. A economia industrial 72

5.® PARTE

A SOCIEDADE RURAL E URBANA

Capítulo XXX

A Vida Rural

1. Os problemas da vida rural. 2. A estrutura agrária bra


sileira em 1950. 3. A estrutura agrária brasileira em 1960. 75
4. O campesinato
Capítulo XXXI

O Estatuto da Terra

1. A questão agrária. 2. O Estatuto da Terra. 3. A pro 79


teção ao trabalhador rural
Capítulo XXXII

A Sociedade Urbana

l.As primeiras vilas brasileiras. 2. As primeiras vilas de 82


Pernambuco. 3. As principais cidades do Brasil
Capítulo XXXIII

Desenvolvimento Urbano do Brasil


1. A tendência à urbanização. 2. Caráter das cidades bra 84
sileiras. 3. Crescimento das cidades brasileiras

e.®' parte

A EVOLUÇÃO POLÍTICA DO BRASIL


Capítulo XXXXV

As Tendências da Evolução Política do Brasü


89
1. Os regimes politicos do Brasil
200 Índice
I
Capítulo XXXV

O Regime das Capitanias


Págs.
JL. O primitivo povoamento do Brasil e o sistema de capitanias.
2. A organização do sistema das capitanias. 3. Os resulta
dos e conseqüências das capitanias ÜO

Capítulo XXXVI

Govêmo Geral e Vice-Reinado

1. A criação do governo geral. 2. Os Regimentos dos Go


vernadores. 3. Organização do novo sistema administrativo
do Governo Geral. 4. Criação de novos órgãos administrati
vos. 5. O direito vigente na Colônia. 6. Unidade, divisão o
nova unificação da Colônia. 7. A situação das capitanias nos
séculos XVIII e XIX. 8. Os Vice-Reis 94

Capítulo XXXVII

O Brasil-Reino e a Independência
1. A vinda do Príncipe Regente D. João para o Brasil.
2. A independência do Brasil 100

Capítulo XXXVIII

O Império Brasileiro

1. A Assembléia Constituinte e o Império. 2. A Constituição


^ de 1824. 3. A Regência. 4. As reformas da Constituição de
1924. 5. A legislação eleitoral 102
Capítulo XXXIX

Os Partidos Políticos no Império

1. Os agrupamentos políticos no 1.° Reinado. 2. Os Partidos


Políticos durante a Regência. 3. Os Partidos Políticos no Im
pério. 4. Rotativismo dos liberais e conservadores no poder 106
Capítulo XL

1. O parlamentarismo na Constituição de 1824. 2. Os Ga


binetes do Império 109 ^
Capítulo XLI

A Idéia Republicana e a Constituição de 1891


1. A idéia republicana. 2. A Constituição de 1891. 3. O am
biente social da velha república. 4. A crise da velha república
e a revolução de 1930 111
índice 201

Capítulo XLII

A Constituição de 1934
Págs.
1. A Lei Magna de 1934 e seu conteúdo social. 2. As bases ,da
Constituição de 1934 J.j. 115
Capítulo XLIII

O Estado Nôvo e a Carta Política de 1937

1. A guerra mundial e a situação brasileira. 2. As bases da


Carta-Política de 1937. 3. Apogeu e queda de Vargas. 4. A
restauração democrática de 1945 116

Capítulo XLIV

A Constituição de 1946
1. As bases da Constituição de 1946. 2. Os Presidentes da
República durante a vigência da .Constituição de 1946 e a cons
trução de Brasília. 3. A emenda parlamentarista, q retorno
do presidencialismo e a crise revolucionária de 1964 120
Capítulo XLV

A Revolução de 1964 e a Constituição de 1967


1. A Revolução de 1964. 2. A Constituição de 1967 122
Capítulo XLVI
A Organização Política Atual: A Constituição de 1969
1. O Ato Institucional n.o 5 e a Constituição de 1969. 2. For
ma de Estado. 3. Forma de govêrno. 4. A soberania da
União e suas atribuições 123
Capítulo XLVII

A Organização dos Três Podêres


1- O exercício dos três podêres. 2. Do Poder Legislativo.
3. Do Poder Executivo. 4. Do Poder Judiciário 126

Capítulo XLVIII
Nacionalidade e Cidadania
1. Nacionalidade nata e derivada. 2. A privatividade dos car
gos públicos 13®
Capítulo XLIX
Os Direitos e os Deveres do Cidadão
1. A liberdade. 2. Os direitos do cidadão. 3. Os direitos po
líticos. 4. As garantias constitucionais. 5. Os Deveres do
Cidadão 131

\\
202 índice
/
Capítulo L

Os Partidos Políticos: Da Velha República à Atualidade


Págs.
1. Os Partidos Políticos na velha república. 2. Os Partidos
Políticos depois de 1930 até 1937. 3. Os Partidos Políticos
depois de 1945 a 1965. 4. Os Partidos Políticos atuais: a
ARENA e o MDB 134

CAptruLO LI

Pequena História do Presidencialismo: A Velha República


1. Os Presidentes da Velha República. 2. A hegemonia mi-
neiro-paulista no poder 138
Capitulo LII

Pequena História do Presidencialismo Brasileiro:


Os Governos Republicanos de 19S0 a 1970
1. A era de Vargas. 2. A reconstitucionalização do país:
os novos Presidentes. 3. A Revolução de 1964 e os novos
Presidentes 145
Capítulo LIII

Pequena História do Presidencialismo: Os Vice-Presidentes


1. Ós Vice-Presidentes na Velha República. 2. Os Vice-Pre
sidentes de 1930 a 1970 151

7.® PARTE

ORGANIZAÇÃO SOCIAL DO BRASIL

Capítulo LIV

A População Brasileira

1. Os habitantes do Brasil. 2. Aspectos étnicos da popula


ção brasileira. 3. O indígena. 4. Os negros. 5. Os brancos 153

Capítulo LV

Organização da Família
1. A família na sociedade brasileira. 2. A constituição da
família. 3. O parentesco 160
Capítulo LVI ^
A Organização da Igreja
1. A Igreja no Brasil-colônia. 2. O papel da Igreja Católica
na sua missão civilizadora. 3. Os mosteiros e conventos.
índice 203

Págs.
4. A Igreja Católica no Império. 5. A Igrej*a Católica na
Kepública. 6. A Igreja Católica Moderna. 7. As religiões
do Brasil Igg

8.® PARTE

Organização Pedagógica do Brasil

Capítulo LVII 11
i 1

A Evolução da Educação no Brasil


1. A educação no Brasil-colônia e no Reino-tJnido. 2. A edu
cação no Império. 3. A educação na República: os códigos
de ensino 171

Capítulo LVIII "—


O Sistema Escolar Brasileiro' ^^
1. A idéia do sistema escolar. 2. A Lei de Diretrizes e
Bases da Educação Nacional. 3. A Lei de Diretrizes e Bases
e a Educação de Grau Superior 177

Capítolo LIX

O Desenvolvimento do Ensino no Brasil


1. A luta contra o analfabetismo. 2. A população escolar,
professores e escolas. 3. O custo do ensino. 4. A pirâmide
de ensino no Brasil e os gastos còm os diversos cursos^ su
perior, médio e primário. 5. O dispêpdio público nas Univer
sidades. 6. A evasão escolar no Brasil 183

9.® parte

O BRASIL NO MUNDO INTERNACIONAL

Capítulo LX
O Brasil e a Vida Internacional
1. O Brasil no mundo. 2. O Brasil e a ONU. 3. O Brasil
na OEA. 4. O Brasil em outros organismos internacionais.
5. A Declaração Universal dos Direitos do Homem 191
vv

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