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A Teoria do duplo estatuto foi estabelecida a partir de uma decisão do Supremo

Tribunal Federal, referente a um habeas corpus impetrado com objetivando a


soltura de indivíduo acusado de receptação ilegal. A prisão do depositário infiel é
prevista pela nossa Constituição Federal, contudo, era contrária às disposições da
Convenção Americana de Direitos Humanos, ratificada e incorporada ao
ordenamento jurídico brasileiro. Assim, o Supremo Tribunal Federal buscou
resolver tal impasse, por meio de tal decisão, a qual se tornou paradigmática para
a interpretação e aplicação dos Tratados Internacionais de Direitos Humanos.        

Considerando tal decisão, diga o que é a teoria do duplo estatuto e analise de


forma crítica sua repercussão sobre a interpretação e aplicação dos Tratados
Internacionais de Direitos Humanos incorporados ao nosso ordenamento.       

A chamada Teoria do Duplo Estatuto dos Tratados de Direitos Humanos é o controle


constitucional de uma norma internacional a ser incorporada em nosso ordenamento
jurídico. Este tratado internacional precisa ser aprovado no Congresso Nacional
(Câmara dos Deputados e Senado Federal), com quórum qualificado na forma do art.
5°, §3°, da CF/88, terá status de norma constitucional, caso contrário, se o tratado
internacional não for aprovado nos moldes do art. 5°, §3°, da CF/88, passa a ter força de
norma supralegal, ficando abaixo da Constituição, mas acima das leis.

Com este entendimento de um tratado ter a necessidade de passar por um duplo crivo de
aprovação, acaba protegendo a soberania do nosso país de absorver leis internacionais
que não terão utilidades práticas em nosso país. Embora nem todos possam concordar
com esta teoria, ele é o melhor controle constitucional de tratados internacionais.
Trata-se de terminologia referida pela doutrina especializada e que deve ser de
conhecimento de vocês. Entendo que cobrar o conhecimento de determinadas
terminologias não é a forma mais inteligente de se testar o conhecimento do candidato,
mas é fato que os examinadores assim o exigem – e não podemos discutir sobre isso!
Assim, podemos afirmar que o art. 5º, § 3º, da CF/88 motivou a revisão do
posicionamento do STF sobre a hierarquia dos tratados de direitos humanos no Brasil.
No julgamento do RE 466.343, simbolicamente também referente à prisão civil do
depositário infiel, a maioria de votos dos Ministros sustentou novo patamar normativo
para os tratados internacionais de direitos humanos, inspirada pelo § 3º do art. 5º da
CF/88 introduzido pela EC n. 45/2004.
A nova posição prevalecente no STF foi capitaneada pelo Min. Gilmar Mendes, que,
retomando a visão pioneira de Sepúlveda Pertence (em seu voto no HC 79.785-RJ),
sustentou que os tratados internacionais de direitos humanos, que não forem aprovados
pelo Congresso Nacional pelo rito especial do art. 5º, § 3º, da CF/88, têm natureza
supralegal: abaixo da Constituição, mas acima de toda e qualquer lei.
Já os tratados aprovados pelo Congresso pelo rito especial do § 3º ao art. 5º (votação em
dois turnos nas duas Casas do Congresso, com maioria de três quintos) terão estatuto
constitucional.
Ficou consagrada a teoria do duplo estatuto dos tratados de direitos humanos:
natureza constitucional, para os aprovados pelo rito do art. 5º, § 3º;
natureza supralegal, para todos os demais, quer sejam anteriores ou posteriores à
Emenda Constitucional 45 e que tenham sido aprovados pelo rito comum (maioria
simples, turno único em cada Casa do Congresso).
Em resumo, com a consagração da teoria do duplo estatuto, temos que:

1. as leis (inclusive as leis complementares) e atos normativos são válidos se forem


compatíveis, simultaneamente, com a Constituição e com os tratados
internacionais de direitos humanos incorporados;
2. cabe ao Poder Judiciário realizar o chamado controle de
convencionalidade nacional das leis;
3. os tratados recepcionados pelo rito especial previsto no art. 5º, § 3º, da CF/88
passam a integrar o bloco de constitucionalidade restrito, podendo servir de
parâmetro para avaliar a constitucionalidade de uma norma infraconstitucional
qualquer.