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FREIRE, G. A.; SANTOS, R. dos.

Hibridismo na música instrumental do


Grupo Medusa... Per Musi, Belo Horizonte, n.28, 2013, p.162-169.

 O autor inicia o artigo destacando que o termo “música instrumental” na


década de 70/80 se referia predominantemente a música de cunho jazzístico
que é praticada na fase pós bossa nova realizada sem o advento de um
cantor(a);
 Durante as décadas posteriores aos festivais existiu um movimento de
crescente interesse do público em relação a música instrumental, que toma
um formato distinto do jazz/bossa praticado anteriormente, isso se deve a
formação de um público mais alinhavado com o rock progressivo e habituado
a longas seções instrumentais e solos;
 Existe portanto o rompimento do movimento de jazz/bossa com músicos
como Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti, criando uma nova forma de fazer
música diferente das bases que os criaram, incorporando características da
música regional bem como da música erudita e do rock;
“Não apenas Wagner Tiso, mas a partir de certo momento de sua carreira,
Egberto Gismonti também passa a incorporar à música brasileira,
procedimentos da música erudita e da fusão jazzística com o rock, estilo
conhecido como fusion.”(Freire; Santos, 2013 p.163)

 O fusion surge como uma maneira de misturar diversas formas de fazer


música diferentes e gerar assim um novo estilo, tendo como marco inaugural
o disco Bitches Brew, de Miles Davis, no entanto muitas outras gravações
com estilos parecidos surgiram simultaneamente, inviabilizando assim a
demarcação de um único criador do estilo;
 A aproximação dos músicos da linguagem fusion era uma forma de se
destacar no mercado, uma vez que essa era a vanguarda do jazz, a forma de
compreender as escolhas dos artistas podemos partir do pressuposto de que
essas escolhas, mesmo que inconscientes, tendem a dialogar com o mercado
vigente;
 A construção desse tipo de música no Brasil se deve como afirmação da
cultura brasileira apesar das influências externas, incorporando esse material
e se apropriando da música tradicional para criar algo novo e que não tem
limites teoricamente;
“O uso de um instrumento com origem cultural estrangeira, quando
associado à execução da rítmica sincopada do samba, tradicional da música
brasileira se mostra como uma mistura de tradições culturais realizada pelo
grupo. Ela não se aproxima nem das tradições brasileiras, nem das
tradições norte-americanas.”(Freire; Santos, 2013 p.164)
 A instrumentação diz muito sobre a estruturação do pensamento musical do
grupo, uma vez que este mistura instrumentos tradicionais do samba como
tamborim e cuíca com um Fender Rhodes por exemplo, criando uma
sonoridade muito especifica que flutua entre o limiar do jazz e da música
brasileira;
 O arranjo joga diretamente com a percussão, fazendo as texturas transitarem
partindo dela, gerando assim interesse no ouvinte e destacando bastante o
sentido fusion da música que está sendo feita;
“Para escapar dessas convenções tradicionais referidas, Miles adotou
quatro possibilidades como alternativas de escape que foram: 1) inventar
uma progressão harmônica, que não precisaria ser simétrica ou tonal; 2)
Seguir uma sequência pré-determinada de modos, com duração livre; 3)
Seguir uma sequência pré-determinada de modos, com duração pré-
determinada; 4) Basear-se uma improvisação inteira em um único
modo.”(Freire; Santos, 2013 p.166)
 A faixa Pé no Chão possui diversas similaridades com So What, do disco Kind of Blue, de
Miles Davis, se devendo diretamente ao modalismo aplicado em ambas as faixas, sendo a
parte A particularmente semelhante a faixa de Miles;
“Ainda que o grupo tenha permitido a hibridação, pode-se dizer que seus
ideais simbólicos limitaram esses processos, fazendo com que se
mantivessem características musicais do território de origem. Assim, o
vínculo com a tradição seria então, um elo para sustentar a construção da
noção de identidade brasileira e um filtro pelo qual fosse selecionado o que
não deveria ser hibridado.”(Freire; Santos, 2013 p.168)