Você está na página 1de 9

IV SEMANA DE EDUCAÇÃO MUSICAL IA-UNESP / VIII ENCONTRO REGIONAL SUDESTE DA ABEM – 2012 – ANAIS

Práticas sociais e processos educativos:


convivendo com duas alunas de música
Pedro Augusto Dutra de Oliveira
Universidade Federal de São Carlos. pedroaugustodutra@gmail.com

Ilza Zenker Leme Joly


Universidade Federal de São Carlos. ilzazenker@gmail.com

Resumo: O presente trabalho surgiu de uma pesquisa realizada num projeto sociocultural de ensino de música. A
partir dos conceitos de Práticas Sociais e Processos Educativos, onde entendemos que de todas as práticas sociais
decorrem processos educativos e que em coletividade as pessoas se educam, foi realizada uma inserção do
pesquisador em momentos específicos de convivência entre duas alunas de música, no interior de um projeto de
música, porém fora do horário de aula. Convivência essa estabelecida de livre e espontânea vontade entre elas e de
onde surgiram processos educativos significativos para observação e estudo. Partindo de tal experiência e embasado
em autores como Paulo Freire e Ernani Maria Fiori e em seus conceitos de dialogicidade, concepção bancária da
educação, intersubjetividade e convivência, a pesquisa objetivou identificar processos educativos presentes na
prática social do fazer musical estabelecido entre essas duas alunas de música, entendendo que tais processos
educativos não se resumem ao momento específico da sala de aula ou entre o par professor/aluno, mas se estende
aos mais variados contextos, espaços e pessoas do Projeto. Após circunscrever e delimitar a prática social observada
no estudo, alguns objetivos do projeto original foram readequados. Buscou-se também fazer algumas considerações
em torno da prática docente, mostrando que muitas vezes, enraizados numa concepção bancária de educação, não
permitimos o despertar de práticas sociais e de processos educativos delas decorrentes.

Palavras-chave: Práticas Sociais; Processos Educativos; Convivência; Dialogo.

Social Practices and Educational Process: coexisting with two music students 817

Abstract: This article is part of a research held in a sociocultural music education project. Based on the Social
Practices and Educational Process´ concepts, which we understand that from all social practices derives substantial
education process, and it is in community that people learn and teach in the process of educated themselves. The
researcher entered at specifics moments shared by two music students, outside the classroom. Those moments
happened freely and by the student´s desires in which important educational process occurred. Reflecting about this
experience basing in authors such as Paulo Freire and Ernani Maria Fiori, considering their concepts of dialogical
approach, ―banking‖ education practice, inter-subjectivity, and coexistence, this research aimed to identify
educational process in the social practice of making music established between these two students of music,
understanding that those educations process are not limited to the classroom or only between the teacher and the
student, but extends to many different contexts and spaces and between all people involved. We seek also to make
some considerations about teaching practice, showing that often settle in the ―banking‖ educational practice, the
professional do not allow the awakening of social practices and educational process arising from them.

Keywords: Social Practices and Educational Process, Coexistence, Dialogue.

IV SEMANA DE EDUCAÇÃO MUSICAL UNESP

VIII ENCONTRO da ABEM – REGIÃO SUDESTE


IV SEMANA DE EDUCAÇÃO MUSICAL IA-UNESP / VIII ENCONTRO REGIONAL SUDESTE DA ABEM – 2012 – ANAIS

Introdução

O senhor... mire e veja, o mais importante e bonito do mundo é isto, que as


pessoas não estão sempre iguais; não foram terminadas --- mas que elas vão
sempre mudando. Afinam ou desafinam verdade maior. É o que a vida me
ensinou. Isso que me alegra, montão.

Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas

Assim como Guimarães Rosa, diria Paulo Freire: ―Onde há vida, há inacabamento‖, um
inacabamento das pessoas, das pessoas que mudam, que afinam, que desafinam, que constroem, que
desconstroem, que aprendem, que ensinam; pessoas que vivem e ao viverem e con-viverem, aprendem
com esse viver e viver com. Sendo assim, lhe ―alegrando montão‖, Guimarães termina revelando quem
lhe ensina: a vida.

A vida, que proporciona vivência e convivência, faz com que as pessoas, em meio à coletividade,
se construam e se eduquem por meio de Práticas Sociais.

Mas o que são práticas sociais? ―Práticas sociais decorrem de e geram interações entre os
indivìduos e entre eles e os ambientes, natural, social, cultural em que vivem.‖(OLIVEIRA et al., 2009,
p.4), e de tais práticas decorrem processos educativos, ou seja, toda prática social é educativa, ―com o 818
proposito de produzir bens, transmitir valores, significados, ensinar a viver e a controlar o
viver...‖(OLIVEIRA et al., 2009, p.4 ).

As práticas sociais nos encaminham para a criação de nossas identidades. Estão


presentes em toda a história da humanidade, inseridas em culturas e se
concretizam em relações que estruturam as organizações das sociedades.
Permitem, elas, que os indivíduos, a coletividade se construam. Delas,
participam, por escolha ou não, pessoas de diferentes gêneros, crenças, culturas,
raças/etnias, necessidades especiais, escolaridades, classes sociais, faixas etárias
e orientações sexuais. Participam pessoas com diferentes percepções e
conhecimentos, em diferentes processos de trabalho e lazer, em diferentes
espaços, escolares e não escolares. Nelas, as pessoas expõem, com
espontaneidade ou restrições, modos de ser, pensar, agir, perceber experiências
produzidas na vida, no estudo de problemas e dificuldades, com o propósito de
entendê-los e resolvê-los. (OLIVEIRA, et al., 2009, p.6)

Partimos do entendimento de que as pessoas se educam em convivência umas com as outras, em


comunhão, em diálogo, por meio de Processos Educativos inerentes a Práticas Sociais.

Segundo Freire, o diálogo ―é o encontro em que se solidarizam o refletir e o agir de seus


sujeitos...‖ (FREIRE, 2005, p.91), sendo assim, no diálogo e consequentemente nas práticas sociais onde
IV SEMANA DE EDUCAÇÃO MUSICAL UNESP

VIII ENCONTRO da ABEM – REGIÃO SUDESTE


IV SEMANA DE EDUCAÇÃO MUSICAL IA-UNESP / VIII ENCONTRO REGIONAL SUDESTE DA ABEM – 2012 – ANAIS

ele se insere, Um e Outro se constroem mutuamente, não através de uma relação bancária201 e de mão
única de Um sobre o Outro ou de Um para o Outro, mas onde é possível a constituição em comum das
ideias. Um e Outro se constituem a partir dessa relação, onde o diálogo pressupõe uma convivência
verdadeira, o respeito e o reconhecimento. ―A educação autentica, repitamos, não se faz de A para B ou
de A sobre B, mas de A com B, mediatizados pelo mundo‖. (FREIRE, 2005, p.97).

Assim como Freire, Fiori vê essa relação de encontro como o momento da própria constituição da
consciência. Para ele, essa construção, a conscientização, se dá por meio da comunicação entre os
sujeitos, ou seja, pela comunicação das consciências ou intersubjetividade, mediatizados pelo mundo.
Para Fiori, educar é conscientizar, e conscientizar é o ―retomar reflexivo do movimento da constituição da
consciência como existência‖ (1986, p.3).

Fiori entende que ―educação e conscientização se implicam mutuamente‖ (1986), sendo assim, a
intersubjetividade humana, que é conscientização, presente na educação, é possível por meio do diálogo:

O diálogo fenomeniza e historiciza a essencial intersubjetividade humana; ele é


relacional e, nele, ninguém tem iniciativa absoluta. Os dialogantes ―admiram‖
um mesmo mundo; afastam-se dele e com ele coincidem; nele põem-se e
opõem-se. (FIORI, 2005, p.16)

819
Partindo desse pressuposto, é a comunicação das consciências (intersubjetividade), tendo o
mundo como mediador, que as constituem. ―As consciências não se encontram, mas se constituem em
intersubjetividade originária‖. (FIORI, 1986, p.5)

Conceitos como, práticas sociais, processos educativos, convivência, dialogicidade,


intersubjetividade, podem contribuir com a pesquisa em Educação Musical e a partir de tais conceitos,
surgem as seguintes questões: Em quais práticas sociais a música se faz presente? Quais processos
educativos podem ser identificados em tais práticas sociais? Como o ensino de música pode possibilitar
ou negar a possibilidade de que tais práticas sociais ocorram? Mediante quais atitudes, muitas vezes
enraizadas no cotidiano da educação, podemos estar assumindo uma postura antidialógica de não
reconhecimento e negação do outro?

O presente trabalho partiu de uma pesquisa que tinha como objetivo identificar os processos
educativos decorrentes de uma prática social presente num contexto específico de ensino de música. É
importante destacar que após a identificação da prática social, houve um processo de inserção do
pesquisador em tal prática, onde foi estabelecida, juntamente com os sujeitos da pesquisa, uma relação
dialógica, de convivência, de amorosidade e de trocas.

201
Segundo Freire, a concepção bancária é aquela em que a função do educador se resume a ―encher os educandos
de conteúdos. É o de fazer depósitos de comunicados – falso saber...― (FREIRE, 2005, p.72).
IV SEMANA DE EDUCAÇÃO MUSICAL UNESP

VIII ENCONTRO da ABEM – REGIÃO SUDESTE


IV SEMANA DE EDUCAÇÃO MUSICAL IA-UNESP / VIII ENCONTRO REGIONAL SUDESTE DA ABEM – 2012 – ANAIS

Os procedimentos metodológicos utilizados durante a pesquisa foram o diário de campo e


gravações em áudio das conversas e interações entre as duas alunas. É importante deixar claro que não
houve uma intervenção pedagógica do professor nesse contexto, mas apenas uma inserção, decorrente da
observação das práticas e processos educativos entre as duas alunas.

O campo de pesquisa e seu contexto

A pesquisa foi realizada em um projeto sociocultural que promove o ensino de música por meio
de práticas coletivas. O projeto se encontra em uma cidade do interior do estado de São Paulo e possui
turmas de cordas friccionadas, madeiras, metais, percussão e canto coral.

O espaço físico onde o projeto está instalado é amplo. Situa-se numa antiga escola (denominada
pela população como ―antigo SESI‖). O prédio, além de possuir uma arquitetura antiga, está localizado no
interior de uma praça e possui dois amplos andares com várias salas em cada um deles. As salas foram
distribuídas para cada modalidade, tendo assim, a sala de cordas friccionadas, a sala de madeiras, de
metais, etc. Além disso, a maior sala do prédio foi separada e denominada como auditório. O auditório
possui um piano de meia cauda e é o espaço onde acontecem os ensaios da orquestra e algumas das
apresentações e palestras oferecidas pelo projeto.
820
202
Pelo fato da cidade possuir 56.481 habitantes, as relações entre os alunos ultrapassam o
ambiente do projeto, pois muitos estudam na mesma escola ou fazem parte de outros contextos comuns.

A identificação da prática social

A princípio a intensão era buscar uma prática social e a partir dela identificar os processos
educativos presentes em tal prática. A observação foi direcionada, obviamente, para os momentos no
interior da sala de aula, no momento da aula da turma de cordas friccionadas. Porém, de forma
inesperada, a observação foi direcionada para outro momento, para outra prática social que acontecia
simultaneamente no espaço do projeto, e o foco da pesquisa ficou restrito a uma prática social que estava
ocorrendo fora da sala de aula. As explicitações de alguns registros no diário de campo ou em gravações
de áudio podem auxiliar o leitor a compreender melhor o contexto da pesquisa.

Estando eu203, juntamente com a outra professora e os alunos da turma B,


participando do momento da aula, Ana204, uma aluna de clarinete e Maria

202
Censo populacional 2010
203
As palavras em itálico são citações literais do diário de campo do pesquisador, onde foram registradas
observações dos encontros e transcrições das gravações em áudio.
IV SEMANA DE EDUCAÇÃO MUSICAL UNESP

VIII ENCONTRO da ABEM – REGIÃO SUDESTE


IV SEMANA DE EDUCAÇÃO MUSICAL IA-UNESP / VIII ENCONTRO REGIONAL SUDESTE DA ABEM – 2012 – ANAIS

Clara, uma pequena aluna de violino da turma A, cuja aula já havia se


encerrado, bateram na porta da sala:

Maria Clara – Professor, você pode emprestar “meu” 205 violino?

Pedro – Oi Maria Clara, para que você quer seu violino?

Maria Clara – Quero mostrar para a Ana.

Nesse momento fiquei um tanto receoso, porém, observando que nenhum aluno
da turma B estava usando o violino de Maria Clara, o emprestei a elas. Lá se
foram, Maria Clara, Ana e o violino, para outra sala.

Aqui vale uma reflexão que nos faz pensar sobre duas das questões que anteriormente foram por
mim colocadas:

1) Como o ensino de música pode possibilitar ou negar a possibilidade de que tais


práticas sociais ocorram?
2) Mediante quais atitudes, muitas vezes enraizadas no cotidiano da educação, podemos
estar assumindo uma postura antidialógica de não reconhecimento e negação do
outro?

Mediante a pergunta de Maria Clara, ao pedir seu violino, muitos educadores poderiam se
questionar da seguinte forma: ―E se acontecer alguma coisa com o violino?‖; ―Será que a instituição me 821
permite emprestar? Afinal de contas ela já teve a aula dela!‖; ―Ela não consegue manusear sozinha o
instrumento!‖; ―O momento de aprendizagem é durante a aula e com o professor! Logo, para que
emprestar o violino?‖

Assumindo uma postura bancária, muitas vezes não por convicção, mas por estarmos encharcados
por tal concepção que historicamente nos contaminou, por certo ―respeito‖ às normas pautadas por tal
concepção, negamos a possibilidade de práticas sócias e de processos educativos por elas desencadeados,
negamos o conhecimento como processo de busca.

Na visão ―bancária‖ da educação, o ―saber‖ é uma doação dos que se julgam


sábios aos que julgam nada saber. Doação que se funda numa das manifestações
instrumentais da ideologia da opressão – a absolutização da ignorância, que
constitui o que chamamos de alienação da ignorância, segundo a qual esta se
encontra sempre no outro. O educador, que aliena a ignorância, se mantém em

204
Para preservar a identidade dos sujeitos da pesquisa, foram-lhe dados nomes fictícios.
205
As aspas foram usadas para ficar claro que de forma material o violino não pertencia à aluna, e sim ao projeto.
Porém, de forma simbólica, aquele violino era dela, pois era usado apenas por ela na turma A, sendo usado por outro
na turma B. Enfim, todos os instrumentos possuem donos momentâneos, donos que cuidam e ao mesmo tempo
compartilham com o outro (de outra turma). A importância de chamar a atenção para tal fato é que muitas vezes
fazemos tal discurso em sala de aula, (esse instrumento é seu, cuide dele!), porém, quando o aluno pede o ―seu‖
instrumento, que simbolicamente através do nosso discurso a ele foi dado, o negamos.

IV SEMANA DE EDUCAÇÃO MUSICAL UNESP

VIII ENCONTRO da ABEM – REGIÃO SUDESTE


IV SEMANA DE EDUCAÇÃO MUSICAL IA-UNESP / VIII ENCONTRO REGIONAL SUDESTE DA ABEM – 2012 – ANAIS

posições fixas, invariáveis. Será sempre o que sabe, enquanto os educandos


serão sempre os que não sabem. A rigidez destas posições nega a educação e o
conhecimento como processos de busca. (FREIRE, 2005, p.67)

Além disso, tal atitude nega a alegria e felicidade que o educando assume diante do aprendizado,
do conteúdo, e mais especificamente, nega a alegria do fazer musical, pois o fato de Maria Clara pedir o
violino revela seu bom relacionamento com a música e com o instrumento, revela uma verdadeira
musicidade206, cunhando aqui um termo que sugere a felicidade em se fazer música.

Durante as aulas da turma A, turma em que Maria Clara era aluna, haviam propostas de divisão
de grupos onde os alunos eram levados a participar, a ensinar os outros, contribuir, enfim, onde eram
incentivados a exercerem sua autonomia. Num desses dias, após a aula, Maria Clara disse que havia
gostado muito das atividades em grupos e se era possível realiza-la novamente na aula seguinte.

A intenção ao relembrar este momento, é a de refletir que possivelmente a atitude de Maria Clara
em pegar o violino para se reunir com Ana, seja resultado de uma autonomia a ela dada anteriormente
durante a divisão em grupos, ou seja, de certa forma Maria Clara queria juntamente com Ana formar um
novo grupo, porém fora do horário da aula. Isso se mostrou mais evidente quando ficou claro que as
alunas se reuniam todos os dias após a aula, para Maria Clara ensinar a Ana como tocar o violino. Isso
822
leva a um outro questionamento, pois uma atitude como a dos grupos, cuja proposta era desenvolver a
autonomia do educando, por entender que ele também educa, por entender que as trocas entre eles os
fazem educar e serem educados pelos seus pares poderia ser, de forma contraditória, negada, caso o
violino não fosse emprestado com a prerrogativa de que as alunas não teriam autonomia suficiente para
ficar com o instrumento, sozinhas. Sua autonomia poderia ter sido negada, o seu reconhecimento
enquanto sujeito que ensina poderia ter sido negado. A referência ao fato de não emprestar o violino se
faz significativa para este estudo, pois por outros motivos o mesmo poderia não ter sido emprestado, em
outra situação, tal como por exemplo, se outro aluno o estivesse utilizando naquele momento. A negação
e a contradição ocorreriam se, ao não emprestar o violino, o motivo fosse o pensamento de que Maria
Clara não fosse capaz de ensinar, ou de que ela não teria o cuidado suficiente com o instrumento, ou de
que fora da sala de aula não ocorrem processos educativos.

Diante do exposto, a partir de então, o foco de pesquisa ficou direcionado, nas semanas seguintes,
para a prática social do fazer musical estabelecida entre Maria Clara e Ana na sala ao lado.

206
Este termo me foi sugerido por um colega durante uma roda de conversas na universidade, onde dialogávamos
sobre minha inserção.
IV SEMANA DE EDUCAÇÃO MUSICAL UNESP

VIII ENCONTRO da ABEM – REGIÃO SUDESTE


IV SEMANA DE EDUCAÇÃO MUSICAL IA-UNESP / VIII ENCONTRO REGIONAL SUDESTE DA ABEM – 2012 – ANAIS

Educação musical e convivência ou convivência e educação musical?

A música agrega, por meio dela eu compartilho, troco, toco com, dialogo, ou seja, é verdadeiro
dizer que a educação musical gera convivência. Por outro lado, é importante notarmos que ao conviver,
ao trocar, ao tocar com, ao dialogar, eu ensino, eu aprendo, eu compartilho. Sendo assim, também é
correto afirmar que a convivência gera educação musical e gera também a educação e a construção
enquanto pessoa. ―...eu me construo enquanto pessoa no convìvio com outras pessoas; e, cada um ao fazê-
lo, contribui para a construção de ‗um‘ nós em que todos estão implicados.‖ (OLIVEIRA et al., 2009, p.1)

Com certeza a oportunidade gerada a partir da convivência já estabelecida entre Maria Clara e
Ana, proporcionou, aos participantes, processos educativos nos quais, ao conviver, todos aprendiam e
ensinavam.

Ao conviver e conversar com as duas, foi possível perceber que tanto Maria Clara ensinava
violino para Ana assim como Ana, quando possível, dava algumas dicas de clarinete para Maria Clara.

Estando eu um dia com Maria Clara e Ana, enquanto Maria Clara corrigia um
dos dedos do arco de Ana, que deveria estar flexionado, “arredondado”, mas
que estava esticado, Maria Clara disse: “Ana... dedinho....dedinho”. Nesse
momento ela se utilizou de uma metáfora que eu nunca havia pensado. Ela
disse: “Não tá tomando chá pra segurar assim, Ana”. E fez um gesto com a
mão como se estivesse segurando uma xícara apenas com o polegar e o 823
indicador, deixando assim o dedo mínimo esticado, o formato que ele não
deveria ter ao segurar o arco. No mesmo instante Ana se corrigiu. Como
professor, me utilizo de várias metáforas, porém nunca havia pensado nessa,
com certeza um processo educativo que passarei a utilizar em minhas aulas e
criado por Maria Clara.

Um dia, antes da aula, Maria Clara me procurou e disse: “Professor, a Ana


está tocando a outra música toda!”, e sem mais explicações saiu da sala.
Fiquei sem saber que música era essa que a Ana estava tocando, seria a música
que Maria Clara estava ensinando?

Naquele dia, quando me encontrei com as duas no horário em que nos


reuníamos, perguntei sobre a tal música, e quão grande foi minha surpresa em
descobrir que Ana estava tocando toda a música da turma B. Durante os
encontros das duas, na sala ao lado, acontecia a aula da turma B, sendo assim,
Ana começou ouvir a turma e sozinha conseguiu tocar toda a música.

Ana – Como é mesmo a música?

Pedro – Ela se chama “Noites Brasileiras”

Ana – Não... como é o ritmo? (percebi que ela queria que eu cantasse para que
ela se lembrasse)

IV SEMANA DE EDUCAÇÃO MUSICAL UNESP

VIII ENCONTRO da ABEM – REGIÃO SUDESTE


IV SEMANA DE EDUCAÇÃO MUSICAL IA-UNESP / VIII ENCONTRO REGIONAL SUDESTE DA ABEM – 2012 – ANAIS

Pedro – (cantei um trecho da música)

Ana – Ah... (pegou o violino e começou a tocar)

Maria Clara: Nossa, eu não consegui... não sei como a Ana consegue!

Pedro – Mas é assim mesmo, tem coisa que você consegue... (fui interrompido
por Ana)

Ana – e eu não... (me interrompendo)

Pedro – É... você consegue e ela não, e outras que ela consegue e você não. Por
isso que você ensina algumas coisas pra ela e ela te ensina outras.

Maria Clara – É... ela vai me ensinar clarinete!

Não só o clarinete, mas também o próprio violino! Ambas são capazes de ensinar e aprender, e
isso não se limita a um instrumento, pois elas ensinam e aprendem ―música‖, a prática musical. Parece ter
sido importante para Maria Clara esse processo de conscientização de que não apenas ela ensinava violino
para Ana, mas que a própria Ana ensinava violino para Maria Clara, lhe mostrando como tocar a música
da turma B. Ambas ensinavam e aprendiam ―música‖.

Alguns dias depois, mais uma surpresa. 824

Depois da aula veio me procurar o pai de Ana com um violino nas mãos. Disse-
me que Ana perguntara a ele, se caso ela fosse bem na escola, se ele não lhe
dava um violino. Enfim, ali estava o pai, com o violino nas mãos para que eu
pudesse afiná-lo, cumprindo sua promessa. Ana ganharia um violino!
Resultado de uma prática social que espontaneamente brotara entre as duas
meninas.

Assim se passaram vários encontros, várias trocas, várias aprendizagens, vários ensinamentos. O
último momento da pesquisa se deu quando, ao entrar na sala, foi possível perceber que Maria Clara e
Ana já não estavam mais sozinhas. Beatriz era a mais nova companheira a se unir ao grupo para aprender
e ensinar!

Maria Clara, Ana e Beatriz confirmaram o conceito de que a música não se resume ao espaço e
momento da aula, ela está na sala ao lado, em todo o prédio, durante o intervalo, na entrada, na saída. A
música está nas pessoas, a música está na vida.

IV SEMANA DE EDUCAÇÃO MUSICAL UNESP

VIII ENCONTRO da ABEM – REGIÃO SUDESTE


IV SEMANA DE EDUCAÇÃO MUSICAL IA-UNESP / VIII ENCONTRO REGIONAL SUDESTE DA ABEM – 2012 – ANAIS

Considerações Finais

O presente trabalho teve como objetivo relatar uma pesquisa na qual o principal objetivo era
identificar processos educativos presentes numa prática social estabelecida entre duas alunas de música,
em um projeto social. Esses momentos ocorriam fora do horário de aula, e por meio de tal prática foi
possível entender como a música e os processos educativos transcendem o espaço da aula, como é
importante que o professor tenha consciência disso para que ocorra, de certa forma, uma valorização
daquilo que acontece no entorno da aula de música. Foi também possível perceber como as pessoas se
educam em meio às práticas sociais, e no caso específico da pesquisa, como todos os envolvidos puderam
aprender e ensinar em diferentes espaços de convivência.

Referencias

BOSI, Ecléa. Sugestões para um jovem pesquisador. In: BOSI, Ecléa. O tempo vivo da memória: ensaios
de psicologia social. São Paulo: Ateliê, 2003, p. 59-67.

FIORI, Ernani Maria (1986) Conscientização e educação. Educação e Realidade. Porto Alegre: UFRGS.
11(1), p.3-10, jan/jun. 1986.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005. 213 p.
825
OLIVEIRA, Maria Waldenez; SILVA, Petronilha Beatriz Gonçalves; GONÇALVES JUNIOR, Luiz;
MONTRONE, Ainda Victória Garcia; JOLY, Ilza Zenker Leme. Processos educativos em práticas
sociais: Reflexões teóricas e metodológicas sobre pesquisa educacional em espaços sociais. Anais da 32ª
Reunião da ANPED, 2009.

IV SEMANA DE EDUCAÇÃO MUSICAL UNESP

VIII ENCONTRO da ABEM – REGIÃO SUDESTE