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Aplicação hermenêutica do princípio da dignidade da pessoa humana

Milton Silva Vasconcellos1


Ana Maria Seixas Pamponet 2

Resumo. O presente trabalho volta-se a valoração hermenêutica do princípio da


dignidade da pessoa humana e surgiu da necessidade de se aferir abordagens distintas da
eficácia deste princípio, concebendo-o como importante instrumento de hermenêutica
aplicada. Para tanto o trabalho desenvolve-se em argumento que se expressa a partir de
seis etapas distintas, valorando-se inicialmente a eficácia interpretativa do princípio,
numa segunda etapa a compreensão da dignidade humana sob o prisma axiológico,
numa terceira etapa valora-se a dignidade da pessoa humana enquanto fundamento da
República, na quinta etapa discorre-se acerca da dignidade da pessoa humana e sua
titularidade e, por fim na última e sexta etapa compreende-se a temática da dignidade da
pessoa humana em sua relação com os direitos fundamentais. Em cada uma dessas
etapas, são sugeridas aplicações hermenêuticas distintas do princípio da dignidade da
pessoa humana, com vistas assim a concebê-lo para além de sua já conhecida eficácia
normativa para alcançar também uma eficácia interpretativa.

Palavras-chave: Dignidade da pessoa humana. Interpretação constitucional.


Hermenêutca Jurídica. Princípio constitucional. Direito constitucional

Abstract: The present work returns to the hermeneutical valuation of the principle of
the dignity of the human person and arose from the need to evaluate different
approaches to the effectiveness of this principle, conceiving it as an important
instrument of applied hermeneutics. For this, the work is developed in an argument that
is expressed from six different stages, initially assessing the interpretative effectiveness
of the principle, in a second stage the understanding of human dignity under the
axiological prism, in a third stage values dignity Of the human person as the foundation
of the Republic, in the fifth stage the dignity of the human person and its ownership are
discussed, and finally, in the last and sixth stage, the theme of the dignity of the human
person in its relation with fundamental rights is understood. In each of these stages
different hermeneutical applications of the principle of the dignity of the human person
are suggested, in order to conceive it beyond its already known normative effectiveness
in order to achieve an interpretative efficacy.

Keywords: Dignity of human person. Constitutional interpretation. Hermenêutca


Jurídica. Constitutional principle. Constitutional right

1 Introdução

1
Advogado, Mestrando em Políticas sociais e Cidadania (UCSAL), Especialista em Direito
Público, Professor universitário (Direito Tributário e Hermenêutica Jurídica
miltonsvasconcellos@gmail.com

2
Pós-doutora em Ciências Sociais pela Universidade de Coimbra (UC – Coimbra,
PORTUGAL). Professora de Metodologia Científica da Faculdade Apoio Unifass,
pamponet.ana@ig.com.br
Com o fim da segunda Guerra Mundial e a derrocada da ideologia nazista, desponta um
processo por toda a Europa que viria a sugerir um esgotamento de um determinado
modo de pensar o direito, alçando, dentre outras, o homem como centro do
pensamento3, com indiscutíveis efeitos para o direito e seu plano interpretativo.

Dentre outras, com o advento do que a doutrina costuma chamar de paradigma Pós-
Positivista, observa-se um cabedal de alterações, dentre as quais, a normatização dos
princípios, que expressa novos ângulos acerca da eficácia normativa destes textos
constitucionais, seja como fundamento a um direito pleiteado (eficácia positiva), seja
como parâmetro limitador das ações estatais (eficácia negativa), seja ainda naquilo que
a doutrina convencionou chamar de “eficácia interpretativa (BARROSO, 2009, p. 379).

Dessa forma, se no exercício de sua eficácia positiva, os princípios ainda encontram


muita divergências – sobretudo face a esse caráter abstrato e de baixa densidade
normativa que estas normas apresentam, o que – para alguns – ameaça a segurança
jurídica (na medida em que tal percepção abstrata permite uma amplíssima
compreensão do conteúdo desta norma), no exercício de sua eficácia interpretativa
entretanto, não restam dúvidas dos efeitos que estas normas propiciam, oportunizando-
se assim abordagem em separado.

Dentre tais normas, destaca-se o princípio da dignidade da pessoa Humana, alçado a um


dos fundamentos da República pelo paradigma constitucional vigente (art. 1, III,
CFRB), exercendo dessa forma papel central na compreensão e aplicação do nosso
Ordenamento Jurídico. Sob essa perspectiva é que se desenvolvem as considerações
sobre o conteúdo normativo da dignidade da pessoa humana enquanto norma jurídica
eficaz e, sobretudo apta a gerar efeitos no plano hermenêutico.

2 Modalidades de Eficácia da dignidade da pessoa humana

3
Em verdade, desde a época do Renascimento, o homem já ocupava esse status, consoante
se pode corroborar todo a contribuição do pensamento de filósofos como Francis Bacon,
Descartes e, principalmente Kant (SOARES, 2010, p. 17)
Compreendendo o caráter normativo peculiar a todo e qualquer princípio, percebe-se a
dignidade da pessoa humana como uma norma dotada de plena e ampla eficácia jurídica
a se expressar em diferentes matizes. Nesse sentido, cumpre destacar que numa
percepção jurídica a dignidade é parte integrante do indivíduo, devendo por isso ser não
só reconhecida, mas também protegida e respeitada. Logo seu caráter normativo impõe
o reconhecimento da possibilidade de produzir efeitos (SARLET, 2001, p.41).

Sabe-se que os princípios apresentam carga normativa e geram variados efeitos, sendo
possível falar-se então em normas dotadas de eficácia como qualquer outra. Nesse
sentido, fala-se em eficácia positiva e negativa, gerando efeitos sobre o mundo jurídico,
bem como sobre a realidade fática.

Concebendo a primeira perspectiva, fala-se em eficácia direta de um princípio (também


chamada de eficácia positiva) quando a utilização deste serve de fundamento de um
direito pleiteado. Nesse caso, a utilização do princípio se aproximará da incidência
normativa das regras, na medida em que são observados os fatos em seu
enquadramento na proposição jurídica que se deseja.

Visto por outro ângulo e ampliando esta noção, assevera a doutrina:

A eficácia positiva consiste em reconhecer, ao eventual beneficiado pela


norma jurídica enunciadora de direito fundamental, ainda que de suposta
eficácia limitada, o direito subjetivo de produzir tais efeitos, mediante a
propositura da ação judicial competente, de modo que seja possível obter a
prestação estatal, indispensável para assegurar uma existência digna. O
Estado está, portanto, obrigado a concretizar a dignidade da pessoa humana,
ao elaborar normas e formular/implementar políticas públicas. (SOARES,
2015,p. 259)
Dessa forma, além de assegurar direitos subjetivos, tais efeitos impõe efeitos direitos ao
estado que deve considerar tais valores quando da atividade legislativa e de
administração.

Por outro lado, fala-se em eficácia negativa de um princípio quando seu caráter
normativo propicia a falta de eficácia de quaisquer normas ou atos jurídicos que não se
harmonizem com seu conteúdo. Nesse sentido, o exercício da eficácia negativa de um
princípio aproxima-se de um controle de constitucionalidade, na medida em que o
advento de uma norma jurídica que implique em violação a um princípio constitucional,
pode resultar na declaração de inconstitucionalidade desta norma (BARROSO, 2009, p.
153).

Nesse sentido, pontua a doutrina:

[...] a eficácia negativa confere à cidadania a prerrogativa de questionar a


validade de todas as normas infraconstitucionais que ofendam o conteúdo de
uma existência digna, ferindo os direitos fundamentais que consubstanciam o
respeito ao princípio constitucional da dignidade da pessoa humana
(SOARES, 2015,p. 259)

Sua compreensão vista por este ângulo empresta assim novo limite ao estado na medida
em que deve abster-se de ingerências na esfera do indivíduo que represente de qualquer
forma uma afronta à sua dignidade. (SARLET, 1998, p. 110).

Nesse sentido fala-se que por meio da compreensão e aplicação deste princípio mostra-
se possível alcançar uma noção mais efetiva dos direitos fundamentais, na medida em
que estes tem sua efetivação potencializada por meio da satisfação da dignidade da
pessoa humana, que orienta o Estado a adotar posturas compatíveis ao respeito e
aplicação destas normas, asseverando-se assim, por exemplo, na fundamentalidade dos
direitos sociais de cunho prestacional, ao tempo que rechaça a "reserva do possível"
(SOARES, 2015, p. 262)

Para além das já conhecidas modalidades positiva e negativa do princípio da dignidade


da pessoa humana, concebe-se ainda uma terceira modalidade de eficácia indicada pela
doutrina – a eficácia interpretativa – que permite a percepção dos princípios também
como instrumento de interpretação.

Fala-se assim em eficácia interpretativa com a força normativa que os princípios


exercem no sentido de dar harmonia e unidade ao sistema jurídico. Em exercício deste
tipo de eficácia, os princípios constitucionais operam limites à determinação do alcance
e sentido das demais normas jurídicas infraconstitucionais. No plano interno do sistema
jurídico constitucional, o exercício da eficácia interpretativa exerce influência sobre as
demais normas constitucionais a fim de que, diante de múltiplas possibilidades
interpretativas, o intérprete escolha aquela que melhor satisfaz o conteúdo axiológico
que o princípio representa (tal situação é muito comum diante de textos normativos
constitucionais composto por conceitos jurídicos indeterminados, atraindo assim a
construção do sentido final da expressão normativa abstrata pelo esforço do próprio
intérprete, que para tanto, deve valer-se de optar pelo sentido que melhor se aproxima
dos valores constitucionais).

Nesse sentido, são oportunas as palavras da doutrina:

A eficácia interpretativa poderá operar também dentro da própria


Constituição, em relação aos princípios; embora eles não disponham de
superioridade hierárquica sobre as demais normas constitucionais, é possível
reconhecer-lhes uma ascendência axiológica sobre o texto constitucional em
geral, até mesmo para dar unidade e harmonia ao sistema. A eficácia dos
princípios constitucionais, nessa acepção, consiste em orientar a interpretação
das regras em geral (constitucionais e infraconstitucionais), para que o
intérprete faça a opção, dentre as possíveis exegeses para o caso, por aquela
que realiza o melhor efeito pretendido pelo princípio constitucional
pertinente. (BARROSO,2009, p. 379)
Em complemento indica a doutrina ao referir-se exclusivamente à eficácia interpretativa
da dignidade da pessoa humana:

[...] no plano hermenêutico, o princípio da dignidade da pessoa humana


ostenta a correta interpretação e aplicação das regras e demais princípios de
um dado sistema jurídico, a fim de que o intérprete escolha, entre as diversas
opções hermenêuticas aquela que melhor tutele a ideia de existência digna no
caso concreto (SOARES, 2015,p. 259)

Alcança-se assim a noção de dignidade da pessoa humana um status exegético que


confere unidade valorativa de sentido para a aplicação e compreensão de todo o sistema
normativo que encontra neste supra valor ao mesmo tempo uma ferramenta ao intérprete
e um parâmetro/limite de atuação do Estado.

4 Plano sintático
A considerar um plano sintático da interpretação debruça-se sobre a realidade de ser o
objeto da Hermenêutica textos jurídicos. Dessa forma, a considerar o texto normativo
da dignidade da pessoa humana, sua previsão decorre da previsão constitucional do art.
1, III, CF:

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união


indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-
se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:

[...]

III - a dignidade da pessoa humana; (BRASIL:1988)


Sabe-se que um princípio tem seu cumprimento em graus variados, uma vez que podem
ser objetos de ponderação, razão pelo qual a doutrina os situam no âmbito de
importância (peso ou valor) e não apenas a considerar sua validade. São assim
compreendidos como mandamentos de otimização, onde seu cumprimento ocorre na
maior medida possível (CAMARGO, 2007, P. 124)

Sob o prisma hermenêutico, a dimensão da sintaxe, expressa a interpretação gramatical,


lógica e sistemática, tipos de interpretação que refletem distintas percepções acerca do
sentido e alcance das normas jurídicas.

Nesse sentido, fala-se em método literal ou interpretação gramatical aquela que, na


busca do sentido e alcance do texto normativo considera tão somente as palavras, em
busca do sentido literal que o texto tem a oferecer. Para Carlos Maximiliano tal
interpretação:

[...] o primeiro esforço de quem pretende compreender pensamentos alheios


orienta-se no sentido de entender a linguagem empregada. Daí se originou o
processo verbal ou filológico, de exegese. Atende à forma exterior do texto;
preocupa-se com as acepções várias dos vocábulos; graças ao manejo
relativamente perfeito e ao conhecimento integral das leis e usos da
linguagem, procura descobrir qual deve ou pode ser o sentido de uma frase,
dispositivo ou norma. (SANTOS, 2011, p. 88)

Trata-se então de uma técnica que inicia o processo de interpretação, na medida em que
permite ao exegeta conhecer o signo linguístico utilizado, sem o qual restaria inútil todo
e qualquer avanço semântico para se compreender o sentido e alcance deste texto.

Face a própria natureza polissêmica (que é inerente às palavras) e o caráter abstrato


comum às normas principiológicas, uma acepção literal do princípio da dignidade da
pessoa humana é algo de imensa dificuldade, sendo muito mais apropriado falar-se
numa interpretação literal apenas como início do processo interpretativo, sobretudo
porque a noção acerca da dignidade é um valor plural, variando a partir da época e local
onde se insere (o que não impede de se estabelecer um conteúdo universal mínimo
respeitando-se sempre fatores sociais: desenvolvimento social, econômico e cultural de
cada comunidade).

Acerca da interpretação lógica, expressa aquela em que o trabalho exegético busca


determinar a mens legislatoris do texto, extraindo-se assim as motivações do legislador
para o qual a norma foi criada.Nesse sentido costuma-se apontar a utilidade do manejo
da interpretação lógica para resolver contradições entre termos num mesmo texto
normativo, com vistas a se alcançar um significado coerente. Nestes termos a
situação da polissemia retratada na interpretação literal, poderia ser sanada com manejo
em conjunto deste outro tipo de interpretação (o que endossa o já afirmado alhures da
insuficiência da interpretação literal para se alcançar um resultado hermenêutico
adequado).

Por fim, a interpretação sistemática é aquela em que se busca interpretar o texto


normativo partindo do pressuposto deste enquanto parte de um todo. Em outras palavras
trata-se do trabalho em que o sentido e alcance do texto normativo é determinado
levando-se em conta não o texto em separado (como uma realidade autônoma), mas sim
considerando-o como parte de um sistema maior.

Destaca-se nesse sentido a posição de Eros Grau


A interpretação do direito é interpretação do direito, no seu todo, não de
textos isolados, desprendidos do direito. Não se interpreta o direito em tiras,
aos pedaços. A interpretação de qualquer texto de direito impõe ao intérprete,
sempre, em qualquer circunstância, o caminhar pelo percurso que se projeta
a partir dele - do texto - até a Constituição. Um texto de direito isolado,
destacado, desprendido do sistema jurídico, não expressa significado
normativo algum. (GRAU,2009, p. 88)

Por meio desta forma de interpretação, intenta-se ainda a manutenção da própria


integridade do sistema, haja vista que ao buscar a interpretação considerando o todo
do ordenamento, evita-se antinomias.

A compreensão da dignidade da pessoa humana sob um viés sistemático talvez seja a


mais adequada em nível de plenitude e eficácia. Afirma-se isso, pois a dignidade da
pessoa humana foi eleita pelo constituinte como um fundamento da República,
direcionando-se a todas as pessoas, bem como o próprio Estado.

Em atenção ao que determina o art. 1, III, CFRB, a dignidade da pessoa humana tem seu
reconhecimento expresso como um dos fundamentos da República. Mas afinal o que
isso significa em termos normativos, bem como em termos hermenêuticos?
Pelo prisma normativo, ao considerar a dignidade como fundamento de todo o sistema
normativo, tem-se neste princípio uma espécie de “meta-valor” a ser utilizado como
solução de conflitos entre normas ou ainda como fundamento de políticas públicas,
representando neste último caso uma determinação dirigida aos Poderes Públicos.
(CAMARGO, 2007, p. 121)

Pelo primeiro prisma interpretativo, ao indicar a dignidade da pessoa humana como


fundamento da República, o constituinte determina uma espécie de ascensão deste
valor ante os demais. Não se interprete por ascensão nenhum tipo de superioridade
normativa, mas sim uma diretriz hermenêutica a ser utilizada tanto na criação como na
interpretação de todas as demais normas do Ordenamento (constitucionais e
infraconstitucionais).

Para alguns autores, a dignidade da pessoa humana, passa a ter status de “cláusula
pétrea implícita”, formando assim o núcleo axiológico da Constituição convertendo-se
assim uma dupla função, ora como fundamento, ora como um fim.

Nesse sentido, pontua a doutrina:


A dignidade da pessoa humana figura como primeiro fundamento de todo
sistema constitucional posto e o último arcabouço da guarida dos direitos
fundamentais, porquanto a busca pela realização de uma vida digna direciona
o intérprete do direito à necessária concretização daqueles valores essenciais
a uma existência digna. (SOARES, 2010,p. 146)

A compreensão deste princípio em sua acepção hermenêutica por fim, permite ainda o
exercício da interpretação da norma em atenção aos dois tipos de eficácia que o
princípio pode apresentar (eficácia positiva ou negativa).

Em postura interpretativa de exercício da eficácia negativa, a dignidade da pessoa


humana expressa um dever de respeito, ou seja, impele a uma determinação de sentido e
alcance das normas que regram o Poder Público a uma acepção que significa abstenção
de práticas que impliquem – de qualquer forma – em violação aos valores de dignidade
(CAMARGO, 2007, p. 121).

A seu turno, o trabalho interpretativo fundado em exercício da eficácia positiva deste


princípio expressa um dever de proteção, ou seja, impele a uma determinação de sentido
e alcance das normas que representem a proteção do indivíduo por meio da promoção
de seus direitos fundamentais.

5 Plano axiológico

A compreensão da dignidade humana em um plano axiológico, a identifica como um


“valor autônomo”, dentro do sistema jurídico. Ou seja, tal valor deixa de ter função
meramente acessória dentro da percepção jurídica (como feita no ideário positivista),
passando agora a ter positivação expressa e papel fundamental para o direito.
(CAMARGO, 2007, p. 116)

Compreender a dignidade da pessoa humana enquanto valor autônomo, significa que tal
situação é uma prerrogativa de todo e qualquer ser humano, que sempre será um fim em
si mesmo. Tal condição, implica reflexos sob o prisma hermenêutico, sendo um deles a
constatação de que o homem não pode ser concebido como instrumento ou objeto de
nada. Resultando assim desautorizada toda e qualquer interpretação normativa que não
atribua ao homem e sua dignidade tal condição axiológica.

A guisa de exemplo, pode-se imaginar a discussão acerca da prestação de serviços de


saúde suplementar (empresas que vendem planos de saúde) e limitam sua atuação, com
base em regras contratuais que limitam a cobertura do atendimento. Em tais casos,
prevalecerá a dignidade enquanto valor autônomo, para que se dê sentido jurídico a esta
relação não tendo como base as disposições contratuais, mas sim a vida, direito
fundamental, (ou ameaça a este bem jurídico) que nada mais é do que um valor conexo
à ideia de dignidade da pessoa humana.

6 Dignidade da pessoa humana e sua titularidade

Diante das duas possibilidades eficaciais expostas no item anterior, desdobra-se ao


intérprete duas realidades quanto aos integrantes da relação hermenêutica desenvolvida.
Sabe-se que, a noção de dignidade da pessoa humana tem conteúdo abstrato (como
natural das normas jurídicas do tipo princípio), razão pelo qual mostra-se também difusa
a titularidade do direito à dignidade, sendo pois atributo de todo e qualquer ser humano.
Por tal motivo, a doutrina afasta desta titularidade apenas os órgãos estatais, pessoas
coletivas ou jurídicas pois não dotadas do atributo “ser pessoa humana”. (CAMARGO,
2007, p. 126)
Em que pese tal incerteza em seu conteúdo, mostra-se possível delimitar em parte esta
idéia e sugerir ao menos uma noção de titularidade e destinatários do desenvolvimento
hermenêutico decorrente do exercício da eficácia positiva ou negativa do princípio da
dignidade da pessoa humana.

Se quanto ao conteúdo jurídico da dignidade da pessoa humana afastam-se pessoas


jurídicas e órgãos estatais, compreensão distinta será quanto a possibilidade destes entes
integrarem a chamada relação hermenêutica, sendo portanto absolutamente lícita a
extensão do resultado interpretativo decorrente dos dois tipos de eficácia do princípio da
dignidade da pessoa humana a estes órgãos e pessoas jurídicas.

Nesse sentido, a guisa de exemplo, imagine-se o trabalho de interpretação de uma


norma jurídica que trata do funcionamento e finalidade de um órgão público de
fiscalização de vendedores ambulantes. A interpretação feita pela autoridade
administrativa acerca de sua atuação, não poderá desconsiderar a eficácia negativa da
ideia de dignidade da pessoa humana que veda práticas que impliquem – de qualquer
forma – em violação aos valores de dignidade

Dessa forma, para o desenvolvimento hermenêutico decorrente do exercício da eficácia


negativa do princípio da dignidade da pessoa humana (abstenção de práticas que
impliquem – de qualquer forma – em violação aos valores de dignidade), a
determinação do sentido e alcance desta norma pelo agente público não poderá jamais
legitimar uma atuação fiscalizatória – ainda que sob a alegação do interesse público -
que implique em violação da dignidade do indivíduo fiscalizado. Nesse sentido o dever
de respeito alcança não apenas pessoas físicas, mas também os órgãos públicos, pessoas
coletivas ou empresas.

De igual forma, será idônea aplicação análoga do desenvolvimento hermenêutico


decorrente do exercício da eficácia positiva do princípio da dignidade da pessoa humana
(dever de proteção do proteção do indivíduo por meio da promoção de seus direitos
fundamentais). A guisa de exemplo, imagine-se aqui a publicação de edital cujo critério
de concorrência impliquem em exposição vexatória da imagem das empresas. Nesse
caso, em exercício interpretativo destes citados critérios contidos no edital, poderá a
empresa postular em juízo interpretação destas normas, reduzindo seu sentido e alcance,
de forma a proteger sua imagem.

7 Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais

Finalizando a abordagem acerca da aplicação hermenêutica do princípio da dignidade


da pessoa humana, destaca-se a relação entre este princípios e os direitos fundamentais.
Destaque-se nesse sentido que dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais não
são sinônimos, sendo também errado considerar a dignidade da pessoa humana como
tipo de direito fundamental. Há entre estas duas idéias uma relação de “meio e fim”,
sendo os direitos fundamentais pressupostos à dignidade da pessoa humana.
(CAMARGO, 2007, p. 116).

Ao deparar-se com o paradigma pós-positivista, altera-se a compreensão acerca dos


princípios, que doravante passam a ter reconhecido seu caráter normativo e sua eficácia
positiva. Os direitos fundamentais a seu turno, que normalmente são expressos sob
forma de princípios constitucionais, sofrem também reflexos diretos deste novo
paradigma, na medida em que passam a ter aplicação direta e imediata (art. 5, § 1,
CFRB), revisando assim a doutrina tradicional acerca da classificação das normas
constitucionais que concebe a existência de normas programáticas, cujo teor restringe-se
a apontar políticas públicas voltadas aos fins sociais do Estado (SOARES, 2010,p.151)

Tal percepção voltada aos direitos fundamentais mostra-se inaceitável, sendo alterada
esta realidade com o comando constitucional de aplicação direta e imediata destas
normas, sendo inaceitável condicionar sua eficácia à existência de normas
infraconstitucionais.

Os reflexos hermenêuticos dessa nova percepção propiciam o surgimento de uma


hermenêutica criativa, concretizante e orientada aos valores tutelados pela Constituição.
Por “hermenêutica criativa”, se quer aqui, fazer menção ao papel do intérprete que
exerce função ativa na construção do sentido do texto normativo representativo de
direito fundamental.

A respeito do caráter “concretizante” – também citado – se quer expressar uma postura


hermenêutica que busca a efetividade dos valores constitucionais, ou seja, uma postura
hermenêutica que busca determinar como sentido o efeito concreto (efetivo) do direito
fundamental envolvido.

Por fim acerca da percepção de uma hermenêutica orientada aos valores tutelados pela
Constituição, se quer aqui expressar a elaboração de uma hermenêutica teleológica, cujo
sentido e alcance será determinado por este valores, dos quais os direitos fundamentais
se inserem.

Em síntese, pode-se então concluir que a ideia da dignidade da pessoa humana, da qual
as normas que expressam direitos fundamentais são pressupostos, permite uma
reconstrução em sentido e aplicabilidade destas normas, na medida em que propicia
uma postura hermenêutica diferenciada, de onde o resultado interpretativo irá buscar
sempre a efetividade dos valores constitucionais, dos quais os direitos fundamentais se
inserem.

9. Conclusão

Os princípios apresentam carga normativa e geram variados efeitos, sendo possível


falar-se então em normas dotadas de eficácia como qualquer outra. Nesse sentido, fala-
se em eficácia positiva e negativa, gerando efeitos sobre o mundo jurídico, bem como
sobre a realidade fática.

Em seu prisma de eficácia positiva, a dignidade da pessoa humana serve de fundamento


de um direito pleiteado. Nesse caso, a utilização do princípio se aproximará da
incidência normativa das regras, na medida em que são observados os fatos em seu
enquadramento na proposição jurídica que se deseja.

Considerando a eficácia negativa do princípio da dignidade da pessoa humana,


compreende-se que o advento de uma norma jurídica violadora de um princípio
constitucional, pode resultar na declaração de inconstitucionalidade desta norma

Citou-se ainda uma terceira modalidade de eficácia indicada do princípio da dignidade


da pessoa humana – a eficácia interpretativa – que permite a percepção dos princípios
também como instrumento de interpretação. Nesse sentido, o considerar tal eficácia,
compreende-se a força normativa que os princípios exercem no sentido de dar harmonia
e unidade ao sistema jurídico, operando limites à determinação do alcance e sentido das
demais normas jurídicas infraconstitucionais, bem como exercendo influência sobre as
demais normas constitucionais a fim de que, diante de múltiplas possibilidades
interpretativas, o intérprete escolha aquela que melhor satisfaz o conteúdo axiológico
representativos dos valores constitucionais.

O princípio da dignidade da pessoa humana pode ainda ser compreendido - dentro deste
verniz hermenêutico - a partir de um plano sintático e axiológico. Acerca do primeiro
deles, a considerar um plano sintático da interpretação, deve-se destacar sobre a
realidade de ser o objeto da Hermenêutica textos jurídicos escritos. Dessa forma, a
considerar o texto normativo da dignidade da pessoa humana e sua previsão
constitucional do art. 1, III, CF, pode-se extrair considerações a partir das formas que,
sob o prisma hermenêutico, a dimensão da sintaxe apresenta-se: a interpretação
gramatical, lógica e sistemática.

A percepção hermenêutica do princípio da dignidade da pessoa humana sob o viés da


interpretação literal (aqui compreendida como aquela em que se busca o sentido e
alcance dos textos normativos a partir de sua literalidade), mostra-se prejudicada face a
própria natureza polissêmica e o caráter abstrato comum às normas principiológicas.
Por tal razão, uma acepção literal do princípio da dignidade da pessoa humana expressa
apenas o início do processo interpretativo, sobretudo porque a noção acerca da
dignidade é um valor plural, variando a partir da época e local onde se insere.

A seu turno, a percepção hermenêutica do princípio da dignidade da pessoa humana sob


o viés da interpretação lógica (aqui compreendida pelo trabalho exegético que busca
determinar a mens legislatoris do texto) permite extrair as motivações do legislador
para o qual a norma foi criada.Nesse sentido costuma-se apontar a utilidade do manejo
da interpretação lógica para resolver contradições entre termos num mesmo texto
normativo, com vistas a se alcançar um significado coerente. Ao se considerar por
exemplo, a situação da polissemia retratada nos textos jurídicos, poderia ser minimizada
pelo advento da implementação da interpretação lógica, endossando-se assim a
insuficiência da interpretação literal para se alcançar um resultado hermenêutico
adequado do art. 1, III, CF.
Por fim, a compreensão da dignidade da pessoa humana sob um viés sistemático
mostra-se como - dentro do plano sintático - a mais adequada modalidade interpretativa
em nível de plenitude e eficácia. Para tanto, o fato de ter sido a dignidade da pessoa
humana eleita pelo constituinte como um fundamento da República, reforça esta
conclusão.

Sob o plano axiológico, a compreensão da dignidade humana é identificada como um


“valor autônomo”, dentro do sistema jurídico, deixando assim de ter função meramente
acessória dentro da percepção jurídica (como feita no ideário positivista), passando
agora a ter positivação expressa e papel fundamental para o direito. Nesse sentido,
compreendeu-se a dignidade da pessoa humana como uma prerrogativa de todo e
qualquer ser humano, o que sob o prisma hermenêutico significa que o homem não pode
ser concebido como instrumento ou objeto de nada, motivo pelo qual resta
desautorizada toda e qualquer interpretação normativa que não atribua ao homem e sua
dignidade tal condição.

10. Referências bibliográficas

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