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OS DESAFIOS DA EDUCAÇÃO NA MODERNIDADE LÍQUIDA

ZYGMUNT BAUMAN

PEDAGOGIA SOCIAL

A arte de combinar sons e silêncios em um período de tempo é uma característica


da música, porém não menos da educação. Pedagogia Social.txt nasce para dar
conta de alguns compassos pedagógicos que marcaram novas melodias no início
do novo século. Uma coleção polifônica não apenas em sua criação, em suas
escrituras, mas também pela diversidade e peculiaridade nas aproximações no
campo da pedagogia sociais e suas práticas. Assim mesmo, sejam bússolas
metafóricas ou compassos magnéticos, os livros da Pedagogia Social.txt inspiram
rumos e evitam desvios, orientando-nos à navegação por novas potencialidades do
trabalho social educativo. Isto é, dão as chaves para acessar um outro momento
aberto a uma nova e emocionante ação pedagógica: o momento do educador onde
este poderá pensar, concordar com outros, revisar suas próprias hipóteses, propor
novas metas pedagógicas e realizar, enfim, esse gesto de coragem que significa dar
à luz pública seus trabalhos e experiências, os quais configuram uma partitura
aberta para que nós leitores escutemos, interpretemos, planejemos e apontemos
bússolas inéditas.

PRÓLOGO

O desafio de escrever um prólogo para um texto de Bauman implica que volte a


perguntar o que é esta obra, o quê pretende. Assim, voltei a ler uma referência que
me acompanha há tempos. Trata-se de um livro de Jorge Luiz Borges que tem o
irônico título Prólogo com um prólogo de prólogos. Em Prólogo de prólogos, lemos:
Que eu saiba, ninguém formulou até agora uma teoria do prólogo. Essa
omissão não deve nos afligir, já que todos sabemos do que se trata. O
prólogo, na triste maioria dos casos, lida com a oratória de tampos de mesa
ou com os panegíricos fúnebres e abundância de hipérboles irresponsáveis
que a leitura incrédula aceita como convenções do gênero. O prólogo,
quando propícia as estrelas, não é uma forma subordinada do brinde; é uma
espécie secundária da crítica.
Efetivamente, a falta de teoria acima mencionada não deve nos afligir. Porém
apenas na medida em que Borges nos proporciona uma orientação para essa
escrita de prólogos: não se trata de uma forma subordinada de brindes.
Também podemos pensar que um prólogo não é um mero comentário em
que se supõe que o autor disse (cada leitor realiza sua própria experiência de
conceber o sentido ou sentidos ao texto), nem – menos ainda – uma pretensão de
explicar o que virá na continuação: uma sorte de didática do livro que poupa ao
leitor a aventura de ler. Talvez um prólogo deveria dar conta da própria experiência
de leitura e convidar outras pessoas para fazer suas próprias viagens.
Aparando-me bem na palavra de Borges, tentarei exercer (e espero que os
astros sejam propícios) uma espécie secundária de crítica hospedando-a em minha
experiência de leitura e expondo tanto aquelas referências que me permitiram dar
nós como as reflexões que ele me deu.
Em primeiro lugar, entendo que este texto de Zygmunt Bauman vem dar uma
nova perspectiva das reações entre cultura e educação, pois as condições da
modernidade líquida se transformaram. É certo que cada pensador que aborda
temas pedagógicos há de revisar e visitar o filho da história, é dizer, voltar a explicar
como podem estabelecer-se e sustentar tais vínculos no período histórico a que
fazem referência.
Não obstante, nos momentos de mudança, de crise, esta tarefa passa de
necessária a imprescindível, pois se trata de momentos onde que se dissolvem ou
mudam os vínculos existentes até então e é necessário voltar a enfrentar as
mesmas possibilidades da educação como processo de transmissão de cultura.
Cabe complementar que não se trata de uma empresa fácil. Abrir a questão das
incertezas que as mudanças implicam; sensação ou vertigem de um vazio que
sozinho torna-se insuportável; tratar de conceituar dele que ali se julga sem plenas
condições nem de inteligência, é ofício de valentes.
No começo do século XX, em um interessante artigo intitulado “As antinomias
centrais da Pedagogia”, Gustav Wyneken explicou: “A perplexidade da pedagogia,
seu conflito de consciência estão condicionados temporal e historicamente; são um
fenômeno típico de uma época de transição: uma época de desilusão e nova
formação.
Os discursos pedagógicos em uso (como suas contrapartes nos campos da
filosofia, da sociologia e da antropologia, para citar alguns) também acusam tais
crises. Porém, diferente dos pensadores prolixos, postulam-se como vitrines
vendendo velhas certezas, metamorfoseadas de “novidades”. São discursos que
operam entupindo (rápida e eficientemente) as possibilidades que toda crise abre
(recordemos aqui a sugestão de Hannah Arendt) para pensar no novo, inventar
outras maneiras de dizer e fazer.
Bauman assume esse desafio. Seu trabalho aborda no campo pedagógico
elementos recentes para pensar nestes tempos de passagem e incertezas. Em uma
breve introdução, o autor ressalta que, sobre o que se trata, é de reajustar o
significado de tempo. Uma declaração enigmática que destaca a evocação da
educação como tempo, como tempos diversos e até divergentes, que o ato
educativo pretende amarrar em um breve instante, em uma educação ínfima, mas
que deixa a sua marca.
Cinco são os capítulos da exposição que Bauman realiza, ainda que nem
todos têm, no meu modo de ver, o mesmo rascunho. Em alguns recorda e relaciona
questões que já vem sido objeto de consideração por outros autores, mas
redimensionando seus alcances com as vistas da educação.
O primeiro deles, dedicado ao tema de conceituação do tempo na
modernidade líquida, registra a transformação do tempo linear em pontilista. Uma
eclosão fragmentária que, em respeito ao trabalho educativo, pode articular-se com
a proposta que o autor realiza em outro capítulo: uma educação que aparece em
momentos distintos e ao longo da vida. Entretanto, a vida, dirá o autor, vai perdendo
densidade para ser um instante puro, em um lançar e substituir agora, já mesmo.
Um tempo difícil para a educação. Impossível para as práticas apoiadas no tempo
linear da modernidade sólida.
No que se refere a identidade indescritível, o trabalho de Bauman me
encaminha a um livro já clássico (de 1995), de Sherry Turkle: A vida no ecrã: a
identidade na era da internet, em que a autora faz uma sugestiva aproximação ao
tema. Turkle afirma que a Internet expõe a ilusão de atribuir uma identidade, no
sentido de fingir totalizar e dotar de uma entidade à pessoa. A autora também
aponta que as teorizações que a este respeito realizaram Lacan e Foucault
avançavam já nesta direção e que é justo agora quando podem ser entendidas. De
maneira que não há identidade (em sentido sólido), apenas multiplicidade de
identificações parciais, lacunares, que são substituídos, se movem e se articulam de
maneira desigual e combinada. Neste sentido, Bauman mostra como a
modernidade líquida, ao diluir os dispositivos produtores do sentido da modernidade
sólida, dilui também a eficácia simbólica dos mesmos. Por exemplo, a noção de
identidade como unicidade ou projeto vital cuja realização vai parar todos os
esforços pessoais e sociais. Na verdade, sublinha Bauman, é que essa sucessão
inesgotável de renasceres (em um leque consumista compulsivo que vai desde as
lipoaspirações até os mais recentes acessórias de moda) se faz em nome da busca
do autêntico, de ser você mesmo a cada instante. A cultura do presente deseja
reinventar de modo contínuo. E Bauman resenha, em capítulos diferentes, as
transformações que aparecem de maneira mais recorrente nessa busca incessante.
Agora bem, feito esta breve jornada pelo texto (de uma maneira que entendo
que não é subalterno) devo dizer que a leitura de Bauman está atravessada e
atravessa meu ofício de professora universitária. Esta experiência docente me
permite reconhecer a aqueles jovens que tocaram (ou em sua expressão:
arranharam) algo da transmissão: ao qual alguns dos efeitos educacionais lhes
permitiram construir um lugar diferente para o puro ruído e pura imediação.
Sem dúvida, os fenômenos de conexão/desconexão próprios da lógica do
tempo pontilhista inscrevem as práticas educativas em uns novos parâmetros. A
posição atual dos jovens como consumidores sem tempo a perder, se é tocada por
algo educativo, nos mostra jovens lábeis mas atentos, plugados a diversas fontes
simultâneas, ainda que conhecedores da existência de outros tempos; sujeitos
dispostos a aventurar-se em leituras diferentes do icônico, mas com grandes
habilidades em lidar com este sinal dos tempos... que ainda não sabemos canalizar
nas práticas docentes.
À maneira dos projéteis inteligentes comentados por Bauman,os jovens
sabem mudar de direção, adaptar-se a circunstâncias variáveis, detectar de
imediato os movimentos que começam a ocorrer pela atualização e retificação da
sua própria trajetória... Dele depende sua sobrevivência. Normalmente são céticos
sobre as promessas e aos supostos valores que contradizem as tendências do
mundo atual. Por ele a educação (no sentido sólido, como promessa do futuro) é
fortemente questionada e substituída pela fórmula educação ao longo da vida.
Certamente é uma falácia prometer mundos de realização mais que aleatórios ou
simplesmente anacrônicos. Ele redunda em um maior descrédito da educação aos
olhos dos mais jovens. Porém também diante dos próprios educadores (e adultos
em geral) aparece uma clara impostura que implica a muitas vezes desgaste,
licenças médicas por doenças devido a causas psicológicas, etc, inversamente
proporcionais ao esgotamento da educação.
Entendo que Bauman nos traz uma nova luz na hora de nossas reflexões.
Em primeiro lugar, adverte que há poucas possibilidades, para não dizer nenhuma,
de que se corrija a trajetória errática da criação de mercados e, portanto, de que os
cálculos relativos aos “recursos humanos” acumulem-se mais realistas. Por ele,
repensar a educação nos leva a outra cena que não é meramente econômica ou
economicista. Diz Bauman que se trata de outorgar poder, da necessidade de que a
educação aponte e contribua com seus saberes e tarefas para a construção de uma
nova cidadania, situando-a fora da armadilha economicista.
Esta formulação talvez ajude a sair da perplexidade pedagógica deste novo
século (que apontou Wyneken em relação ao anterior), e que podemos tomar em
sentido etimológico [perplexus: entrelaçado, sinuoso, enredado].4 Quiçá possamos
desdobrar a proposta de Bauman, colocá-la em prática em cada lugar onde se
joguem práticas educativas, para que dê seus frutos. Pois não está claro como a
educação ao longo da vida, para salvar a armadilha da empregabilidade pontual e
precária, pode apoiar cada sujeito em suas particularidades e suas dimensões
culturais e sociais. Como cada sujeito, no particular e em suas relações sociais e em
suas conexões culturais, poderá reajustar o significado do tempo.
VIOLETA NÚÑEZ
Barcelona, junho de 2007.

No Washington Post de 2 de janeiro de 2001, Caroline Meyer informava


sobre uma ampla variedade de produtos que haviam invadido os supermercados
estadunidenses durante o ano anterior, descritos como produtos de comida rápida
que economizam tempo e esforço e podem ser consumidos instantaneamente sem
complicações.
É verdade que os norte-americanos (e não só eles) há muito tempo
chegaram a identificar o progresso como atalhos: com as cada vez mais abundantes
oportunidades de comprar o que antes havia que fazer. Também é certo (e tão certo
que parece trivial) que, uma vez que foi instalado, essa concepção de
“melhoramento” tende a expandir-se de forma espiral e estar na categoria de tarefas
evitáveis e desagradáveis em uma quantidade cada vez maior de atividades que
antes se realizavam com boa vontade. Trabalhos que costumavam ser feitos
diariamente, em geral sem queixas e muitas vezes com prazer, chegaram a ser
considerados e experimentados como um um desperdício descartável, repugnante
ou detestável de tempo e energia. Esta tendência não é de maneira alguma nova,
porém a velocidade com que estas “novas e melhoradas” preparações que
permitem economizar tempo foram instaladas recentemente nas prateleiras dos
supermercados, para passar rapidamente aos carrinhos dos consumidores
entusiasmados, surpreenderia o mais perspicaz observador dos mercados de
alimentos e os hábitos de seus dependentes.
Caroline Meyer nos deixa saber que cada mais há crianças estadunidenses,
e cada vez com maior frequência, que consideram agoniante o esforço que implica
comer uma maçã: trabalho árduo demais para as mandíbulas e dentes e, além
disso, um investimento de tempo excessivo para a quantidade de prazer obtida. À
estas crianças também desagrada ter que descascar uma laranja e preferem beber
um suco embalado. O novo costume de beber cerveja diretamente da garrafa, um
hábito que se espalha pelos bares estadunidenses e nos pubs ingleses tão
rapidamente como um incêndio florestal, não se relaciona com uma crescente
sensação de que é um trabalho demasiadamente tedioso derramar a cerveja da
garrafa em um copo antes de saciar a sede?
Smucker, uma fábrica de comidas rápidas, apresentou não faz muito tempo
uma novidade amplamente aclamada: eles removeram a crosta das fatias de pão
sobre as quais se espalham a manteiga de amendoim e a geléia de frutas dos
sanduíches favoritos das crianças americanas. Aparentemente, a inovação
responde à uma necessidade urgente, já que o sucesso foi instantâneo.
Aparentemente, as crianças chegaram a considerar que morder a borda mais dura
do pão fatiado era um desafio muito trabalhoso para suas mandíbulas.
Embora os pais não parecem ir para a zaga. O chá gelado é uma das
bebidas favoritas dos norte-americanos. Mas, infelizmente, para prepará-lo à moda
antiga, primeiro você deve ferver a água, encher o bule de chá, fazer o chá e
esperar que a preparação queime. Muito trabalho e muito tempo. Sobreviveriam à
sede e ao desejo de saciá-la em todo o processo? Felizmente, outro potentado da
indústria alimentícia, Lipton, decidiu acalmar a impaciência dos amantes do chá
gelado e oferece aos aficionados viciados em saquinhos de chá cujo conteúdo é
solúvel em água gelada (e até mesmo gelificado). Agora, a satisfação pode ser
instantânea, como no caso do atum em pó instantâneo recentemente
comercializado que põe fim à pesada tarefa de perder tempo abrindo uma lata. Já
não é necessário adiar as necessidades. A espera – como prometido uma vez os
anúncios que tentaram os futuros usuários dos recém aparecidos cartões de crédito
- foi finalmente eliminada do desejo de consumir atum e chá gelado.

A SÍNDROME DA IMPACIÊNCIA

Em seu artigo, Caroline Mayer, cita o professor David Shi, da Universidade Furman
da Carolina do Sul: esperar tornou-se uma circunstância intolerável. Shi apelidou
como a “síndrome da aceleração”, esse novo humor dos estados unidenses. Eu
falaria mais precisamente da “síndrome da impaciência”. Max Weber elegeu a
postergação da gratificação como a virtude suprema dos pioneiros do capitalismo
moderno e como a fonte primária do seu assombroso êxito. O tempo chegou a ser
um recurso (quiçá o último) cujo gasto é unanimemente considerado como
abominável, injustificável, intolerável; na realidade, um tapa na cara da dignidade
humana, uma violação aos direitos humanos.
Nos nosso dias, qualquer atraso ou espera, tornou-se uma estigma de inferioridade.
O drama da hierarquia do poder representado diariamente (com um corpo de
secretários cumprindo o papel base de diretores de cena) em inúmeras salas de
espera onde se pede para algumas pessoas (inferiores) que “tomem seus assentos”
e continuem esperando até que as outras (superiores) estejam livres para “recebê-
los agora”. O emblema do privilégio (talvez um dos fatores mais poderosos da
estratificação) é o acesso aos atalhos, aos meios que permitem alcançar a
gratificação instantaneamente. A posição de cada um na escala hierárquica se
mede pela capacidade (ou incapacidade) de reduzir ou fazer desaparecer por
completo o espaço-tempo que o separa de sua satisfação. A ascensão na hierarquia
social se mede pela crescente habilidade para se obter o que se é desejado (se for
o que se quer) agora, sem demora.
Como no caso de outros bens condicionados, o mercado está sempre disposto a
fornecer prêmios de consolação projetados segundo os modismos da nova era:
sacos de chá gelado, sopas de atum em pó ou réplicas produzidas massivamente
de objetos originais da alta cultura, reservada para o gozo de uns poucos
selecionados. Entrevistada por Oliver Burkman da The Guardian, uma jovem inglesa
de 18 anos declara: “Ao fazer uma revisão da minha vida, eu não gostaria ver que
encontrei um emprego e permaneci nele por toda a minha vida, porque era seguro.”
Aos pais - que permaneceram em seus empregos durante toda sua vida (quero
dizer, se ainda existem aqueles pais) - eles são vistos como um aviso e um
impedimento: esse é o tipo de vida que você deve evitar a todo custo.
Enquanto isso, um padeiro nova-iorquino queixou-se a Richard Sennett sobre as
perplexidades sentidas por aqueles que estavam do lado dos pais: “Você não
consegue imaginar, como me sinto estúpido quando falo com meus filhos sobre
compromisso. Como é uma virtude abstrata, não vêem em lugar nenhum.”
Certamente não há muita evidência de compromisso na vida desses mesmos pais.
Estes provavelmente tentaram se comprometer com algo mais sólido e duradouro
do que eles mesmos - uma vocação, uma causa, um local de trabalho - apenas para
descobrir que há pouquíssimas metas sólidas e duradouras a serem buscadas, ou
talvez nenhuma, que recebam sua oferta de compromisso com interesse.
A descoberta de Benjamin Franklin de que "tempo é dinheiro" era um elogio ao
tempo: o tempo é um valor, o tempo é importante, é algo que devemos valorizar e
cuidar, como fazemos com nosso capital e nossos investimentos.
A "síndrome da impaciência" transmite a mensagem inversa: o tempo é um
aborrecimento e uma tarefa, um revés, uma fraqueza para a liberdade humana, uma
ameaça aos direitos humanos e não há necessidade ou obrigação de sofrer tal
desconforto do bom grado. O tempo é um ladrão. Se alguém aceitar esperar,
adiando as recompensas dadas à sua paciência, perderá as oportunidades de
alegria e prazer que têm o hábito de apresentar apenas uma vez e desaparecer
para sempre. A passagem do tempo deve ser registrada na coluna de débito dos
projetos de vida humana; isso traz perdas e não ganhos. A passagem do tempo
pressagia a diminuição das oportunidades que precisavam ser tomadas e
consumidas quando surgiam.
Depois de comparar as idéias pedagógicas e os quadros educacionais de treze
civilizações diferentes, Edward D. Myers observou (em um livro publicado em 1960)
"a crescente tendência de considerar a educação como um produto e não como um
processo".
Quando é considerado como um produto, a educação torna-se algo "alcançado",
completo e acabado, ou relativamente acabado: por exemplo, hoje é comum ouvir
uma pessoa perguntar: "Onde você recebeu sua educação?" à espera da resposta:
Nesta ou naquela universidade. "A implicação é que o graduado aprendeu tudo o
que ele precisava saber sobre as técnicas e habilidades, aspirações e valores da
linguagem, matemática e todo o conhecimento acumulado sobre as relações da
sociedade, bem como sua dívida com o passado, a ordem natural e sua relação
com ela: em suma, tudo o que ele precisava saber, isto é, que era obrigado a obter
um emprego.”
Myers não gostou do que encontrou; preferiria que a educação fosse considerada
como uma empresa contínua que dura a vida inteira. Ele também não gostou da
tendência de cortar o bolo de conhecimento em pequenas porções, um em cada
ofício ou profissão. Na opinião de Myers, uma "pessoa culta" tinha o dever de não
se contentar com sua própria "porção profissional" e, além disso, não era suficiente
para cumprir esse dever durante os anos de educação formal. O conhecimento
objetivamente acumulado e potencialmente disponível foi enorme e continuou a se
expandir, para que o esforço para assimilá-lo não parasse no dia da formatura. O
"apetite pelo conhecimento" deve gradualmente tornar-se mais intenso ao longo da
vida, de modo que cada indivíduo "continue a crescer" e seja, ao mesmo tempo,
uma pessoa melhor. No entanto, Myers deu como certo - e desafiou - a ideia de que
alguém poderia se apropriar do conhecimento e transformá-lo em uma propriedade
durável da pessoa. Como em qualquer outra propriedade, no estágio "sólido" da
modernidade, o grande era bonito e ter mais significava ser melhor. O que Myers
considerou errado com o pensamento educacional da época era apenas a noção de
que os jovens poderiam obter sua educação de uma vez por todas, como uma única
aquisição, em vez de considerá-la uma busca contínua por posses cada vez mais
numerosas e ricas que seria adicionado àqueles já adquiridos.

O CONHECIMENTO

A imagem do conhecimento refletia que o compromisso e a visão da educação eram


uma réplica das tarefas que o compromisso definia na agenda moderna. O
conhecimento tinha valor porque era esperado que durasse, assim como a
educação tinha valor no momento em que oferecia conhecimento de valor
duradouro. Quer tenha sido julgado como um episódio isolado, ou considerado um
empreendimento para toda a vida, a educação deve ser abordada como a aquisição
de um produto que, como todas as outras posses, poderia e deveria ser valorizado e
preservado para sempre.
Assim, chegamos ao primeiro dos muitos desafios que a educação contemporânea
deve enfrentar e suportar. Em nossa "modernidade líquida", as possessões
duradouras, os produtos que supostamente compram-se uma vez e nunca mais são
substituídos - e eles, obviamente, não foram projetados para serem consumidos
apenas uma vez - perderam o seu encanto antigo. Uma vez considerados como
ativos rentáveis, hoje tendem a ser vistos como passivos. Aqueles que já foram
objetos de desejo tornaram-se objetos de ressentimento. Por quê? Porque o "mundo
vital" da juventude contemporânea, desajeitadamente composto por porções de
suas experiências de vida, não mais se assemelha às passagens ordenadas,
sólidas e "apreensíveis" dos labirintos de "rato de laboratório" que meio século atrás
estavam acostumados a explorar os mistérios da adaptação através da
aprendizagem. John Kotter, professor da Harvard Business School, aconselha seus
leitores a não ficarem presos em empregos de longo prazo, como desenvolver uma
lealdade institucional ou deixar-se absorver por muito tempo. Não deveria nos
surpreender, então, que o rico padeiro lamentasse diante de Sennett como era difícil
para ele explicar o que um compromisso poderia significar.
A história da educação é atormentada por períodos críticos em que se tornou
evidente que premissas e estratégias comprovadas e aparentemente confiáveis
haviam perdido o contato com a realidade e demandado ajustes ou reformas. Tudo
somado, aparentemente, a crise atual é diferente do passado. Os desafios atuais
estão atingindo fortemente a própria essência da idéia de educação, tal como foi
concebida no limiar da longa história da civilização: hoje, invariavelmente, se
questiona a ideia e as características constitutivas da educação que mesmo agora
eles suportaram todos os desafios do passado e saíram ilesos de todas as crises.
Refiro-me aos pressupostos nunca antes questionados e muito menos suspeitos de
terem perdido validade, com os que, necessariamente, devem ser reexaminados e
substituídos.
No mundo da modernidade líquida, a solidez das coisas, assim como a força dos
laços humanos, é interpretada como uma ameaça. Qualquer juramento de
fidelidade, qualquer compromisso de longo prazo (e muito mais um compromisso
eterno) prevê um futuro carregado de obrigações que (inevitavelmente) restringiriam
a liberdade de movimento e reduziriam a capacidade de aproveitar novas
oportunidades ainda desconhecidas no momento (inevitavelmente) se apresentam.
A perspectiva de ter uma responsabilidade vitalícia é desprezada como algo
repulsivo e alarmante.
Hoje sabe-se que as coisas mais preciosas envelhecem rápido, elas perdem o brilho
em um instante e subitamente e quase sem aviso, se tornam um emblema da
estigma de vergonha. Os editores de brilhantes revistas de moda sabem fazer bem
o pulso dos tempos: juntamente com informações sobre as novas tendências,
sobre "o que tem que fazer" e "o que deve ser", fornecem regularmente os seus
conselhos aos leitores sobre o que "não é mais usado" e deve ser descartado. Além
disso, hoje espera-se que até mesmo os hábitos que supostamente durariam um
pouco mais permaneçam inalteráveis. Um recente anúncio oferecendo telefones
móveis atraiu usuários de telefones curtume com esse aviso: "Você não pode mais
aparecer em público com o telefone que você tem agora ... venha ver os novos
modelos". Nosso mundo parece cada vez mais a "cidade invisível" de Lenia de Italo
Calvino, onde "a riqueza não pode ser medida pelas coisas que estão sendo
criadas, vendidas e compradas todos os dias, [...] mas sim , pelas coisas que são
jogadas fora diariamente para abrir espaço para as novas". A alegria de "se livrar"
das coisas, de descartá-las, de jogá-las na lata de lixo, é a verdadeira paixão do
nosso mundo.
A capacidade de durar muito tempo e servir seu dono indefinidamente não joga
mais a favor de um produto. Espera-se que as coisas, como os links, sirvam apenas
por um "tempo determinado" e depois sejam destruídas; que, quando - cedo ou
tarde, mas de preferência cedo - tenham esgotado sua vida útil, serão descartados.
Portanto, é preciso evitar posses e bens particulares de longo prazo, que não são
fáceis de se livrar. O consumismo de hoje não é definido pelo acúmulo de coisas,
mas pelo breve prazer delas. Portanto, por que a "riqueza de conhecimento"
adquirida durante os anos passados na escola ou universidade seria uma exceção a
essa regra universal? No turbilhão de mudanças, o conhecimento ajusta-se ao uso
instantâneo e é concebido para que seja usado apenas uma vez. O conhecimento
instantâneo é instantaneamente descartável daquele estilo prometido pelos
programas de software - que aparecem e desaparecem das prateleiras das lojas em
uma sucessão sempre acelerada - é muito mais atraente.
Todo esse encolhimento do lapso de vida do conhecimento, causado por um
"contágio" completo - pelo impacto da degradação da durabilidade, da posição
outrora venerável, que ocupou a hierarquia dos valores - é exacerbado pela
mercantilização do conhecimento e de acesso ao conhecimento.
Hoje o conhecimento é uma mercadoria, pelo menos ele se desvaneceu no molde
da mercadoria e é incentivado a continuar se formando de acordo com esse modelo.
Hoje é possível patentear pequenas porções de conhecimento com o objetivo de
impedir a replicação, enquanto outras partes - que não se enquadram na estrutura
das leis das patentes - são segredos cuidadosamente guardados enquanto ainda
estão em processo de desenvolvimento (como um novo modelo de automóvel antes
de ser exibido na exposição do próximo ano), seguindo a crença bem fundamentada
de que, como no caso de qualquer outra mercadoria, o valor comercial reflete o que
diferencia o produto dos existentes, antes do qualidade do produto como um todo. O
que diferencia o produto, em geral, é sua curta duração, já que o impacto da
novidade se desgasta rapidamente. Portanto, o destino dos produtos é perder o
valor de mercado rapidamente e ser substituído por outras versões "novas e
melhoradas", que afirmam ter características diferenciadas, como produtos que só
são descartados porque eles perderam seu poder de sedução momentâneo.
Concentrar o valor no diferencial é uma forma de desvalorizar, obliquamente, o resto
do conjunto, o resto que não tem sido afetado pela mudança, o resto que
"permanece o mesmo".
É assim que a ideia de que a educação pode ser um "produto" que se ganha e
preserva, valoriza e protege, é desencorajada e, certamente, são poucos os que
falam a favor da educação institucionalizada. Antes, para convencer seus filhos dos
benefícios do aprendizado, pais e mães costumavam dizer-lhes: "Ninguém jamais
será capaz de roubar o que você aprendeu". Tal conselho pode ter sido uma
promessa encorajadora para aquelas crianças que foram ensinadas a construir suas
vidas como casas - desde as fundações até o telhado, enquanto nesse processo
iam acumulando móveis - mas muito provavelmente a juventude contemporânea irá
considerá-la uma perspectiva assustadora. Hoje, os compromissos tendem a ser
muito mal vistos, a menos que contenham uma cláusula de "até novo aviso". Em um
número cada vez maior de cidades nos Estados Unidos, as licenças para construir
são entregues somente junto com a licença de demolição correspondente.
A MUDANÇA CONTEMPORÂNEA

O segundo desafio às premissas básicas da educação vem da natureza errática e


essencialmente imprevisível da mudança contemporânea e acrescenta novas forças
à primeira ameaça.
Em todas as eras, o conhecimento era valorizado por ser uma representação fiel do
mundo; Mas o que acontece quando o mundo muda de uma forma que
continuamente desafia a verdade do conhecimento existente e constantemente
pega até mesmo as pessoas "mais bem informadas" de surpresa? Werner Jaeger,
autor do inquérito clássico para as antigas raízes do conceito ocidental de ensino e
aprendizagem, acreditava que da ideia de educação (bildung, formação) nasceu um
par de hipóteses: primeiramente foi a ideia de que, sob o estrato fragmentário da
diversidade, da variada e mutável experiência, fica a rocha da ordem imutável do
mundo. E a segunda que baseia-se, nas leis que sustentam e governam a natureza
humana são igualmente fortes. A primeira suposição justificava a necessidade e os
benefícios de transmitir o conhecimento dos professores aos discípulos. A segunda
oferece aos professores a confiança necessária para esculpir a personalidade dos
alunos, tais como esculturas de mármore, para moldá-las, em todos os momentos e
sente que ele deve ser justo, belo e, por aquelas mesmas razões, virtuosas e
nobres.
Se as descobertas de Jaeger são bem sucedidas (e nunca foram refutadas), a
educação "tal como a conhecemos" está com sérias dificuldades, porque hoje
requer um enorme esforço para sustentar qualquer uma das duas suposições e
ainda mais esforço para percebê-las como conceitos evidentes.
Ao contrário do labirinto dos behavioristas, o mundo, como se vive, parece mais um
artefato projetado para esquecer do que um lugar para aprender. As partições
podem ser, neste labirinto, laboratório opaco e impenetrável, mas marcham sobre
rodas e estão em constante movimento, arrastando consigo as passagens testadas
e exploradas anteriormente. Miseráveis aqueles com memórias persistentes,
quando encontram maneiras que ontem eram confiáveis, logo terminam em becos
sem saídas ou na areia movediça, ou quando descobrem padrões de
comportamentos transformados em hábitos e uma vez que tinham garantia
absoluta, começam a causar desastres nos lugares de sucesso garantido!
Em tal mundo, a aprendizagem é obrigada a ser uma busca interminável por objetos
indescritíveis sempre, além disso, têm o péssimo e enlouquecedor hábito de
evaporar ou perder o brilho quando são atingidos. E uma vez que as recompensas
para fazer corretamente tendem a mover-se diariamente para diferentes locais, o
aumento dos esforços pode ser gratificante, mas também enganoso: eles são
armadilhas que devem ser cuidadas e evitadas, pois podem incutir hábitos e
impulsos que em breve serão revelados inúteis, se não prejudiciais
Nigel Thrift, o perspicaz analista de empresários contemporâneos, observou a
extraordinária mudança de vocabulário e estrutura cognitiva que caracteriza a nova
elite global da indústria, comércio e finanças e como - entre eles - os mais bem
sucedido , digamos "aqueles que tomam a dianteira", estabelecem as diretrizes de
comportamento dos menos bem-sucedidos ou membros que ainda aspiram a imitá-
los.
Para fortalecer as regras de suas estratégias e a lógica de suas ações, os líderes
contemporâneos do mundo dos negócios usam os tropos da "dança" e "surf". Não
falam de "engenharia" como fizeram seus avós e até mesmo seus pais, mas
"culturas" e "redes" de "equipamento" e "coligações" e antes de falar de controle,
liderança ou, mais especificamente, endereço, preferem falar sobre "influências".
Em oposição aos conceitos abandonados ou evitados, esses novos termos
transmitem uma mensagem de volatilidade, fluidez, flexibilidade e vida curta. As
pessoas que exibem suas expressões estão procurando organizações com uma
estrutura não é muito fácil de montar, desmontar e adaptar conforme as
circunstâncias, notificando-as em pouco tempo ou sem aviso prévio. Esta forma
fluida de montagem e desmontagem é o que melhor se adapta a percepção do
mundo ao seu redor: "múltipla, complexa e em rápida mudança" e, portanto,
"ambígua", "confusa" e " plástica, "incerta, paradoxal e até caótica ".
As organizações comerciais de hoje tendem a ter um considerável elemento de
desorganização deliberadamente construída; quanto menos sólida e prontamente
alterável for uma organização, melhor. E, como em tudo o mais, em um mundo tão
líquido, toda a sabedoria e todo o conhecimento de como fazer algo só envelhecem
mais rapidamente e de repente esgotam a vantagem que uma vez ofereceu. Por
isso hoje são apresentados como preceitos da eficácia e produtividade da "recusa
em aceitar o conhecimento estabelecido", da relutância em ser guiado pelos
antecedentes e pela suspeita que a experiência acumulada desperta. Um é tão bom
quanto seus sucessos, mas na realidade é tão bom quanto seu último projeto bem-
sucedido.
Nos anos pioneiros da cibernética, já havia quem notasse que a "organização
perfeita" não poderia existir. Não há como afirmar com algum grau de certeza qual
das organizações alternativas é "melhor", a menos que o ambiente em que aquela
organização está destinada a operar tenha sido levado em consideração.
Podemos julgar que os complexos organismos multifuncionais dos mamíferos
superiores são as conquistas de primeira ordem da evolução das espécies, apenas
porque o planeta Terra onde habitam, está protegido do espaço exterior cheio de
meteoritos, por uma espessa camada de atmosfera. Se esse não fosse o caso, um
modo de vida muito mais "perfeito" seria uma massa de plasma fluido e sem forma.
Podemos decidir que a terra da fronteira que todos habitamos nos dias de hoje
parece favorecer o plasma e desfavorecer os complexos e intimamente integrados
organismos que se reproduzem monotonamente.
Como Ralph Waldo Emerson apontou, há muito tempo atrás, quando alguém
desliza sobre uma fina camada de gelo, a salvação está na velocidade. Para
aqueles que estão procurando por salvação, seria um bom conselho tentar agir com
rapidez suficiente para não correr o risco de gastar muito tempo testando a
resistência do lugar. Em um mundo volátil como o da modernidade líquida, em que
quase nenhuma estrutura mantém a sua forma suficientemente longa para garantir
alguma confiança e se cristalizar como um passivo de longo prazo (pelo menos ele
nunca disse se vai cristalizar ou quando e é pouco provável que não o faça),
caminhar é melhor do que sentar, correr é melhor do que andar e surfar é melhor do
que correr. O surfe melhora com a leveza e vivacidade daqueles que o praticam,
também é conveniente que o atleta não seja exigente para escolher as ondas que o
alcançam e esteja sempre disposto a deixar de lado o conhecimento recebido,
juntamente com as preferências usuais que o conhecimento garante.

A MEMÓRIA

Isso vai contra a essência de tudo o que a aprendizagem e a educação representou


durante a maior parte de história. Afinal, aprendizado e educação foram criados
para se adequarem a um mundo duradouro.
Eu esperava continuar sendo durável e visava me tornar ainda mais durável do que
eu tinha sido até então. Em tal mundo, a memória era um valor positivo, quanto
mais rico o passado fosse, por mais tempo seria preservado. Hoje, uma memória
tão solidamente entrincheirada parece, em muitos casos, potencialmente
incapacitante, em muitos aspectos até mais enganosa e, na maioria das vezes,
inútil. Não se pode deixar de perguntar até que ponto o crescimento rápido e
dramático de redes e servidores eletrônicos deve-se a promessa oferecida por
esses servidores para amenizar as preocupações sobre o armazenamento,
eliminação e reciclagem de resíduos. O trabalho de memorização produz mais
resíduos do que produtos úteis e não há nenhuma maneira confiável para decidir
previamente o que será adequado ou não (ou quais produtos aparentemente úteis
cairão em desuso e quais aparentemente inúteis desfrutarão de uma procura
repentina), a possibilidade de todas as informações armazenadas em recipientes
que são mantidos a uma distância segura do cérebro (onde a informação
acumulada poderia disfarçadamente assumir o controle de comportamento), torna-
se uma proposta oportuna e tentadora.
Em nosso mundo volátil de mudanças instantâneas e erráticas, os costumes,
cognitivos, quadros sólidos e preferências de valor estável - esses objetivos últimos
da educação ortodoxa, tornam-se desvantagens. Pelo menos, essa é a posição que
coloca o conhecimento do mercado EDL por quanto (como acontece com os
produtos em outros mercados) legalmente qualquer link inquebrável e todo
compromisso de longo prazo é uma repreensão e um obstáculo à que deve sair
rapidamente do caminho. Passamos o labirinto imutável criado nos laboratórios
behavioristas e a rotina monótona modelado por colaboradores de Pavlov, o
mercado aberto, onde tudo pode acontecer a qualquer momento, mas em que nada
pode ser feito e consertado de uma vez por todas e onde cada passo alcançado é
uma questão de sorte, que de nenhuma maneira garante que, se for repetido, outro
sucesso será obtido. E devemos lembrar e apreciar com todas as suas
consequências, é que hoje o mercado e toda toda mappa mundi et viatae e
sobrepõe. Como observou recentemente Dany Roberto Dufouer, "o capitalismo
sonha não só com expansão [...] no território, em que cada objeto é uma mercadoria
(direitos sobre a água, direitos no genoma e sobre todas as espécies vivas, sobre os
órgãos humanos [ ...]) para os limites do mundo, também procura expandir em
diversidade profundidade para cobrir assuntos particulares, uma vez encarregada
do indivíduo (subjetividade, sexualidade [...]) e agora incluída na categoria de
mercadoria.”
No atual estágio "líquido" da modernidade, a demanda por funções diretivas
ortodoxas para "disciplinar e monitorar" é rapidamente esgotada. E é fácil entender
o porquê: se alcançado o domínio e garantir que dedicando menos esforço, tempo e
dinheiro, por ameaça de ser excluído de qualquer compromisso ou, melhor ainda,
por se recusar a priori de cometer, atos que a aplicação de controle e vigilância
obstrutiva e contínua, dia após dia. A ameaça de exclusão do compromisso ou
recusa de compromisso transcende o onus probandi para o outro, para o lado
dominante. Agora, cabe ao subordinado comportar-se (e fazê-lo diariamente) de
uma forma que atraia a atenção de seus chefes e desperte neles o interesse de
"comprar" seus serviços e seus "produtos" concebidos individualmente da mesma
forma como outros produtores. Os vendedores seduzem clientes em potencial para
que eles queiram os produtos que colocam à venda. "Seguir a rotina" não seria
suficiente para atingir esse objetivo. Como provou Luc Boltanski e Ève Chiapello,
quem quer ter sucesso na organização que substituiu as situações de trabalho do
tipo labirinto de rato de laboratório, deve ser alegre, dono de habilidades
comunicativas, aberto e curioso, oferecendo para venda sua própria pessoa, a
pessoa inteira, como um valor único e insubstituível que melhorará a qualidade do
equipamento. Agora, é da responsabilidade do funcionário em exercício ou aquele
que aspira a ser "monitorado", a fim de ter certeza de que sua ação é convincente e
provavelmente será aprovada não apenas no presente, mas a qualquer momento,
se o gosto daquele que examina mude. Não é mais tarefa dos patrões moderar as
idiossincrasias de seus empregados, homogeneizar seu comportamento ou manter
suas ações dentro do quadro rígido da rotina.
A receita para o sucesso é "ser você mesmo", não ser "como todo mundo". O que
vende melhor é o diferença e não a semelhança. Ter conhecimento e aptidões
"adequados para o emprego" e já exibidos por outros que fizeram o mesmo trabalho
antes que se candidatarem a fazê-lo agora não seria mais suficiente, é provável que
seja considerado uma desvantagem. Por outro lado, faltam idéias incomuns,
projetos experimentais nunca antes sugeridos por outros e, acima de tudo, uma
propensão a marchar sozinho em seus próprios caminhos. Não parece fácil
aprender tais virtudes em livros didáticos (e sim, talvez, nos livros de bolso - cada
vez mais numerosos - que ensinam ou prometem ensinar como desafiar e remover
do caminho, o conhecimento e a sabedoria recebidos e como coletar a coragem
necessária para viajar sozinho). Por definição, tais virtudes devem ser
desenvolvidas "de dentro" pela liberação e expansão das "forças internas" que
estão latentes nas entranhas escuras das forças de personalidade, à espera de ser
despertada para chegar ao trabalho.
Esse é o tipo de conhecimento (ou, mais precisamente, de inspiração) que homens
e mulheres da modernidade líquida aspiram. Eles querem ter conselheiros para
ensiná-los a "marchar", em vez de professores que lhes asseguram que estão
viajando pela única estrada possível, já lotada. Conselheiros que estão dispostos a
pagar o que for preciso para tais serviços, colaborar e ter vontade para escavar
profundamente seu caráter e personalidade, onde, presumivelmente, eles são
depósitos de preciosos e sólidos metais pedindo para serem descobertos. Estes
conselheiros provavelmente irão culpar a preguiça ou a negligência dos clientes
antes de sua ignorância e ensinou-lhes sobre "como", ou seja, o savoir être o el
savoir vivre antes do "saber" para secar, significado de sabedoria, aquele
conhecimento que os educadores ortodoxos queriam transmitir aos seus discípulos
e que eles tinham que transmitir muito bem. O atual culto da "educação continuada"
é parcialmente focado na necessidade de se atualizar quanto às "últimas notícias"
da informação profissional, mas também, em igual ou maior parte, deve sua
popularidade à convicção de que o repositório da personalidade nunca se esgota e
a firme crença de que ainda se podem encontrar mestres espirituais que saibam
como alcançar os depósitos inexplorados que os outros guias não poderiam
alcançar ou ignorar, isto é, podem se dedicar com dedicação e suficiente dinheiro
para pagar o preço de seus serviços.A marcha triunfal do conhecimento em todo o
mundo habitado (vivido) por homens e mulheres modernos, desenvolvidos em duas
frentes: a primeira começou a invadir, capturar, domesticar, projetar, colonizar e
cultivar novos territórios ainda inexplorados do mundo. Graças ao avanço da
primeira frente, informações sobre a construção do império foi a intenção de
representar o mundo: no momento da representação, o partido representado ao
mundo foi considerado vencido e reivindicou para os seres humanos. A segunda
frente foi o da educação, que progrediu através da expansão dos "homens
educados" e ampliando as capacidades de percepção e retenção de alunos. Em
ambas as frentes, o "objetivo final" do longo e tortuoso esforço - o fim da guerra -
era claramente presente desde o começo: todos os espaços em branco acabarão
por preencher um mapa-múndi completo e todas as informações necessárias para
mover-se livremente pelo mundo mapeado, que seria disponibilizado aos membros
da espécie humana, fornecendo a quantidade necessária de canais de transmissão
educacional.
No entanto, quanto mais essa guerra progredia e as crônicas das batalhas vitoriosas
se tornavam mais longas, mais a "linha de meta" parecia retroceder. Nesta data já é
prudente supor que a guerra foi, continua e continuará a ser impossível vencer tanto
em uma frente como na outra.
Para começar, o mapeamento de cada território recém-conquistado parece
aumentar em vez de diminuir, e o tamanho e a quantidade de espaços em branco,
de modo que o momento de esboçar um mapa-múndi completo não parece
iminente. Além disso, o mundo "lá fora", que antes parecia fácil de capturar e
apreender, de aprisionar e imobilizar no ato de representar, hoje consegue escapar
de todas as formas registradas e é mais como um jogador (astuto e desonesto)
envolvidos no jogo da verdade que participa no jogo da verdade que a aposto no
jogo e no prêmio que os jogadores humanos esperavam compartilhar. De acordo
com a descrição vívida de Paul Virilio, "o mundo de hoje já não tem mais nenhum
tipo de estabilidade, está escorregando o tempo todo, escorregando
silenciosamente".
Com tudo, na segunda frente, na frente educacional, da distribuição do
conhecimento, chegam ainda mais novidades seminais. Continuando a citar Virilio,
"o desconhecido mudou sua posição: passou do mundo, que era muito vasto,
misterioso e selva", para a "galáxia nebulosa da imagem". Scouts ansioso para
examinar essa galáxia em sua totalidade são poucos e só aparecem
esporadicamente, e aqueles que são treinados para fazer isso são ainda menos.
"Os cientistas, artistas, filósofos [...], todos nós estamos em uma" nova aliança "para
a exploração da galáxia, um tipo de aliança que também as pessoas comuns
poderiam abandonar toda a esperança de chegarem um lugar. A galáxia é, pura e
simplesmente assimilado. Além disso, grande parte do mundo a que se refere a
informação, a informação em si tornou-se o principal local do "desconhecido". Hoje
parece "demasiado vasto, misterioso e selvagem" é a informação em si. os homens
e mulheres comuns hoje acreditam muito mais ameaçador estes grandes volumes
de informação com fome de atenção que os poucos "mistérios do universo" que
permaneceram e são apenas objetos de interesse para um pequeno grupo de
viciados em ciência e um punhado ainda menor de vencedores do prêmio Nobel.
Tudo o que é desconhecido tende a parecer uma ameaça, embora as diferentes
variedades do "desconhecido" provoquem reações diferentes. Os espaços suaves
do mapa do universo despertam a curiosidade do aventureiro, incitam-no a ação e
aumentam sua determinação, coragem e confiança. Eles prometem uma vida
interessante de descoberta, uma melhor gradual para livrar-se das dificuldades que
envenenam a vida. Mas ao contrário do caso da massa impenetrável de
informações "objetivamente disponível": tudo está aqui, disponível agora ao seu
alcance e ainda insolente e enlouquecedoramente distante, teimosamente alheio,
além de toda esperança de ser totalmente compreendido alguma vez. O futuro não
é mais um tempo para ser perseguido. Só aumentam as complicações presentes,
exponencialmente acrescentando massa sufocante de conhecimento inútil,
impedindo a salvação sedutora que oferece. A massa completa de conhecimento
em oferta é o principal obstáculo que impede a aceitação dessa mesma oferta. E é
também a principal ameaça para a confiança humana: certamente deve haver em
algum lugar essa massa terrível de informações, uma resposta a todos os
problemas que nos atormentam e é assim que, se você não consegue encontrar a
resposta imediatamente e naturalmente, a autocrítica e o desprezo chegam.
A massa de conhecimento acumulado tornou-se o epítome contemporâneo da
desordem e do caos. Nesta massa foram gradualmente entrando em colapso e
dissolvendo todos os mecanismos ortodoxos de ordenação: questões relevantes,
atribuição de importância, necessidade de determinar a utilidade e as autoridades
que determinam o valor. A massa faz com que seu conteúdo pareça uniformemente
descolorido. Poderíamos dizer que nessa massa toda informação flui com o mesmo
peso específico. E o povo, a quem é negado o direito de falar por si mesmo por falta
de conhecimento, mas constantemente criticado pelas correntes cruzadas das
declarações contraditórias dos especialistas, não tem como separar o joio do trigo.
Na massa, a parcela de conhecimento cortada para consumo e uso pessoal só pode
ser avaliada pela sua quantidade, não há possibilidade de comparar sua qualidade
com o restante. Uma informação é igual a outra. Os programas de perguntas e
respostas televisivas refletem fielmente esse novo e desconcertante conhecimento
do conhecimento humano: o competidor recebe o mesmo número de pontos para
cada resposta correta, independentemente do assunto a que se refere. A
importância das perguntas e a conseqüente transcendência das respostas não
contam. E se eu contasse, como alguém conseguiria compará-los e medi-los?

CONCLUSÃO

Atribuir importância às várias informações e, ainda mais, a outras pessoas é


provavelmente uma das tarefas mais complicadas e uma das decisões mais difíceis
de tomar. A única regra empírica que pode nos guiar é a relevância momentânea do
tópico, uma relevância que, ao mudar de um momento para o outro, faz com que as
porções do conhecimento se tornem assimétricas, perdem o significado assim que
são adquiridas e, muitas vezes, muito antes de terem sido bem aproveitados. Como
outras mercadorias no mercado, são produtos projetados para serem consumidos
imediatamente, no local e em dose única.
No passado, a educação assumia muitas formas e mostrava-se capaz de se adaptar
às novas circunstâncias, estabelecendo novas metas e desenhando novas
estratégias. Mas, repito, a mudança atual não é como as mudanças do passado. Em
nenhum outro ponto de virada na história da humanidade, os educadores enfrentam
um desafio estritamente comparável ao apresentado pela divisão de águas
contemporâneas. Simplesmente, nunca estivemos em tal situação antes. Ainda
temos que aprender a arte de viver em um mundo super saturado de informações. E
também precisamos aprender a arte ainda mais difícil de preparar as próximas
gerações para viver em tal mundo.