Você está na página 1de 16

Determinação racional da vontade humana e

educação natural em Rousseau*

Cláudio Almir Dalbosco


Universidade de Passo Fundo

Resumo

O presente artigo procura mostrar, por meio de um trabalho analí-


tico-reconstrutivo, que na base do ‘argumento secular’ de
Rousseau sobre a origem da maldade humana, desenvolvido no
livro IV de Émile, está uma teoria da determinação racional da von-
tade que oscila entre os conceitos de consciência e razão. Pela
expressão ‘argumento secular’, entende-se o fato de Rousseau ver
a origem do mal não mais em uma força estranha nem mais no
indivíduo isolado, mas sim na própria sociedade. O artigo pretende
esclarecer também que, apesar dessa oscilação, tal teoria torna-se
decisiva ao esboço de um projeto de educação natural oferecido
pelo autor ao seu aluno imaginário no Émile. Uma vez que seu
caráter é constituído pela trama de relações sociais, não há outra
alternativa a Emílio senão a de buscar educar-se no convívio social,
mesmo correndo o risco permanente de ser corrompido pela soci-
edade. Como o esboço da teoria da determinação racional da von-
tade humana está em estreita conexão com o esboço das teorias
social e antropológica também oferecido por Rousseau no Émile,
Correspondência: ele também deve arrolar argumentos para o confronto, por meio de
Cláudio Almir Dalbosco
Rua Independência, 1006 apto 81
um trabalho educativo da tendência egoísta do amour-propre,
99010-040 – Passo Fundo – RS com o processo de estranhamento oriundo da sociabilidade huma-
e-mail: cadalbosco@upf.br na, visando a recuperação do sentimento do amour de soi-même
no convívio social.

Palavras-chave
*
Trabalho vinculado ao projeto de pes-
quisa Iluminismo e Pedagogia, perten- Razão – Consciência – Vontade – Educação natural.
cente à linha de pesquisa Fundamen-
tos da Educação do PPG em Educação
e ao Núcleo de Pesquisa em Filosofia e
Educação (Nupefe) da Universidade de
Passo Fundo (UPF/RS). Agradeço ao
Serviço Alemão de Intercâmbio Aca-
dêmico (DAAD-Alemanha), à Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado do
Rio Grande do Sul (FAPERGS/Brasil),
à Universidade de Kassel (Unikassel-
Alemanha) e à Universidade de Passo
Fundo (RS/Brasil) pelo apoio financei-
ro de viagens e estadias na Alemanha
e pelo financiamento de horas de pes-
quisa sem os quais este trabalho cer-
tamente não teria sido possível.

Educação e Pesquisa, São Paulo, v.33, n.1, p. 135-150, jan./abr. 2007 135
Rational determination of human will and natural
education in Rousseau*

Cláudio Almir Dalbosco


Universidade de Passo Fundo

Abstract

This article seeks to show, with the help of an analytical-


reconstructive work, that at the basis of Rousseau’s “secular
argument” about the origin of human evil, developed in book IV
of the Emile, lies a theory of the rational determination of the will
that oscillates between the concepts of conscience and reason.
By the expression “secular argument” is understood here the fact
that Rousseau no longer sees the origin of evil in a strange force,
or in the singular individual, but in society itself. The present text
attempts to clarify also that, despite this vacillation, such theory
becomes decisive in the outline of a project of natural education
offered by that author to his imaginary pupil in the Emile. Since
his character is constituted in the intertwining of social relations,
no alternative is left to Emile but to try to educate himself in the
social exchange, notwithstanding the permanent risk of being
corrupted by society. Because the outline of the theory of the
rational determination of human will is closely associated with the
drafts of social and anthropological theories also put forward by
Contact:
Cláudio Almir Dalbosco
Rousseau in the Emile, he must also enlist arguments for the
Rua Independência, 1006 apto 81 confrontation, through a work of education of the selfish
99010-040 – Passo Fundo – RS tendency of the amour-propre, with the realization of otherness
e-mail: cadalbosco@upf.br
that comes from the human sociability, aiming at recovering the
feeling of amour de soi-même in the social exchange.
*
This work is linked to the research project Keywords
Iluminismo e Pedagogia (Enlightenment
and Pedagogy), which belongs to the line
of research on Foundations of Education
Reason – Conscience – Will – Natural Education.
of the Graduate Program in Education, and
to the Research Center on Philosophy and
Education (Nupefe) of the University of
Passo Fundo (UPF/RS). I am indebted to
the German Service of Academic
Exchange (DAAD-Germany), to the
Research Foundation of the State of Rio
Grande do Sul (FAPERGS/Brazil), to the
University of Kassel (Unikassel-
Germany) and to the University of Passo
Fundo (RS/Brazil) for the financial support
with travels expenses and stays in
Germany, and by the sponsoring of hours
of research, without which this work
would certainly not have been possible.

136 Educação e Pesquisa, São Paulo, v.33, n.1, p. 135-150, jan./abr. 2007
Taylor (1996) dedica um capítulo de seu pelo nascente homem moderno de ser coeren-
extenso livro, Fontes do si mesmo: o nascimento te consigo mesmo. Esse esforço rousseauniano
da identidade moderna, para tratar de Rousseau de tematizar a ligação do homem com a natu-
e Kant, atribuindo-lhe o sugestivo título ‘Natu- reza e de destacar a dimensão natural tanto do
reza como fonte’. Considera Rousseau como um homem como da sociedade poderia ser interpre-
dos autores modernos que mais influenciou os tado também como uma crítica à autodetermi-
contemporâneos e esboça uma interpretação nação calculista e alienada da racionalidade
relevante de seu pensamento ao conectar entre moderna, e tal crítica deveria ser levada adiante
si os conceitos de natureza e consciência, deri- pela tematização da relação entre natureza e
vando deles o recurso à ‘voz interna’ como consciência (Taylor, 1996).
busca incessante do eu para identificar-se con- Para os propósitos de Taylor, de inves-
sigo mesmo. A analogia constante entre nature- tigar as fontes conceituais da formação do Self,
za e voz interna deve-se ao fato, primeiramente, é central a analogia rousseauniana entre voz
de que Rousseau, além de ter sido escritor, tam- interna da natureza e voz interna da consciên-
bém fora músico. Com esse recurso, ele poderia cia. No entanto, apesar de muito sugestiva, essa
ser considerado, em certo sentido, como um sua interpretação passa por alto algumas das
continuador de Agostinho, com a grande dife- principais dificuldades que emergem dessa
rença, porém, de que Rousseau busca a fonte da analogia. Taylor não trata sistematicamente, por
unidade e da totalidade no próprio eu e, por exemplo, do significado dos conceitos de razão
isso, pode ser considerado um autor eminente- e consciência e de sua relação, no contexto
mente moderno. argumentativo de Rousseau, com o conceito de
O primeiro sentimento que provém da natureza. Ora, a questão é se se pode discutir
natureza é correto e trata-se do sentimento do adequadamente o pensamento de Rousseau,
amor de si mesmo (amour de soi-même), que analisando sua contribuição para o surgimento
está em nós e é responsável para que sejamos da identidade moderna a partir da conexão
nós mesmos. A voz interna da natureza deter- entre os conceitos de natureza e consciência,
mina em última instância o que é bom. A cons- sem tratar sistematicamente dos problemas re-
ciência, por sua vez, que é nossa condutora lacionados ao conceito de razão e de sua rela-
interna, fala para nós na linguagem da natureza. ção com o conceito de consciência. Qualquer
Ela é a voz da natureza como aparece num ser tentativa, ao meu ver, que ignora esse ponto,
que já vive em sociedade, que é capaz de lin- como a de Taylor, só pode oferecer uma imagem
guagem e razão. Esse é um dos motivos que muito generalizante e parcial das ‘fontes do si
levaria Rousseau atribuir grande peso ao papel mesmo e do surgimento da identidade moderna’.
da consciência, pois ouvir sua voz interna sig- Que o pensamento de Rousseau tem
nificaria nada mais do que ouvir a própria voz contribuído, no entanto, para oferecer uma
da natureza. Nessa identificação, entre natureza ‘autocertificação da modernidade’ é o que pre-
e consciência, repousaria o núcleo constitutivo tendo mostrar na seqüência com base na hipó-
do sujeito agente, a partir do qual ele constrói tese de que a capacidade de ‘sair fora de si
suas referências normativas de autenticidade e de mesmo’, latente, mas não desenvolvida, da ação
personalidade própria, alcançando então a con- humana movida pelo sentimento do amour-
dição de ser ele mesmo (isto é, de ter um Self propre só é capaz de ser levada adiante com
autônomo). Nesse contexto, segundo Taylor, o maior consistência por meio de uma teoria da
que Rousseau considerou como sendo o viver determinação racional da vontade, a qual
de acordo com a natureza seria viver de acor- Rousseau esboça, sem desenvolvê-la adequada-
do com a voz interna da consciência e isso mente, no livro IV do Émile . Ele não pode
representaria a busca constante empreendida justificá-la adequadamente porque vacila no

Educação e Pesquisa, São Paulo, v.33, n.1, p. 135-150, jan./abr. 2007 137
esclarecimento dos conceitos de razão e de mento da racionalidade moral humana, não fica-
consciência e não é firme o suficiente para mos sabendo ao certo o quanto ela contém de
mostrar que sem o confronto com a razão, a humano e o quanto mantém de divino; justa-
voz interna da consciência não pode adquirir mente esse hibridismo é uma das razões que
conteúdo moral. Por não poder justificar ade- ajuda explicar a incompletude de sua teoria da
quadamente sua teoria da determinação racio- determinação racional da vontade. Por último,
nal da vontade, também não pode tirar todas as mesmo considerando essas e outras dificuldades,
conseqüências do recurso ao si mesmo (Self) procuro extrair breves conclusões sobre o signi-
como uma nova instância de legitimação da ficado que o esboço de uma teoria da determi-
moralidade das ações sociais do homem moder- nação racional da vontade assume em relação
no. Apesar dessas dificuldades, procuro adotar ao projeto educacional do Emílio.
uma posição que possa colocar as idéias de
Rousseau sobre a relação entre razão e consci- Modernidade e teodicéia:
ência, ainda que confusas e obscuras, a favor desresponsabilização de Deus e
de um projeto de educação natural. culpabilização da sociedade
Para que o conceito de natureza de
Rousseau possa se tornar, no entanto, um con- Como um autor do século XVIII, Rousseau
ceito eminentemente moderno, ele precisa se tem diante de si a tarefa de pensar o homem como
defrontar ao menos com um dos problemas de um ser livre para conduzir sua ação, tomar suas
teodicéia, a saber: com o problema da origem decisões e ser responsabilizado por elas. Do pon-
da maldade na história da vida humana e po- to de vista filosófico, isso significa poder justificar
der, mostrar que a sua culpa não reside em a tese de que a vontade humana é capaz de se
Deus nem exclusivamente no homem, mas sim determinar racional e livremente, independente de
na sociedade. Ele precisa mostrar, em primeiro forças externas e estranhas a ela. Visto sob essa
lugar, que o sentido normativo do conceito de perspectiva, o iluminismo de Rousseau coloca-se
natureza não depende mais diretamente de diante de um duplo desafio: poder basear-se, por
Deus, para poder conectar, em seguida, a sua voz um lado, num nível de argumentação racional que
com a voz interna da consciência. Amparando- possa evitar, simultaneamente, tanto o excesso
me em Cassirer (1980), vou reconstruir em lar- como o déficit de racionalidade. Isto é, ele pre-
gos traços o argumento com o qual Rousseau cisa sustentar um conceito de razão que não
enfrenta esse problema de teodicéia e delinear a seja excessivamente otimista nem pessimista.
solução por ele apresentada. Na seqüência, Por outro lado, deve mostrar que a capacidade ra-
amparando-me em passagens da ‘Profissão de fé cional humana, evitando tanto seu excesso como
do vigário saboiano’, vou reconstruir os argu- sua falta, é capaz de justificar, por si mesma, a
mentos relacionados ao problema da determina- ação humana em sua coletividade, tratando refle-
ção racional da vontade, procurando mostrar xivamente (conceitualmente) de seus dilemas
que Rousseau justifica-o por meio da tentativa morais e de sua destinação. Rousseau vê-se na
de conectar o seu conceito normativo de natu- eminência de ter que explicar a origem dos juízos
reza com a voz interna da consciência. Esse de valor, das noções de bem e de mal na ação
passo em seu argumento não ocorre sem maio- histórico-social do homem, sem poder fazer con-
res dificuldades: primeiro, a expressão ‘voz inter- cessão à interferência direta do poder divino na
na da consciência’ parece carregar um claro determinação do conteúdo dessas noções. Isto é,
hibridismo, pois, no fim da exposição do vigá- seu problema consiste em tratar das condições
rio saboiano, considerando o caráter obscuro da de possibilidade de ações boas e más, portan-
voz da consciência, assumindo simultaneamen- to, do problema da moralidade, sem poder
te a condição de ser ‘instinto divino’ e desdobra- contar mais com a interferência de Deus. Para

138 Cláudio A. DALBOSCO. Determinação racional da vontade humana...


ele, a questão não se coloca mais, por exemplo, lo como obra de Deus nem como obra exclusiva
no sentido de discutir a relação da moralidade do homem individual, mas principalmente como
das ações humanas com o poder divino e de obra de sua sociabilidade: Deus não tem nada a
saber como o conceito de um Deus perfeito e ver com nossas irresponsabilidades morais por um
justo pode ser compatível com a imperfeição e lado e, por outro, minha própria bondade natural
maldade humanas, mas independentemente ainda não pode ser responsabilizada pela malda-
disso, ter que explicar a bondade e a maldade de das ações humanas simplesmente por que ela
das ações humanas, enraizadas na vida histó- é uma bondade ainda não sociável e, portanto,
rico-social do homem, como responsabilidade ainda incapaz de conteúdo moral1 . Essa é, de
direta de suas decisões. modo geral, uma tendência em seu pensamento,
Será, sobretudo, sua tentativa de tratar manifestada tanto no Segundo discurso como
da moralidade humana que Rousseau, ao rom- também no Contrato social. No entanto, há, segun-
per com uma abordagem tradicional dos pro- do Cassirer (1980), uma diferença notável entre as
blemas de teodicéia, oferece um diagnóstico duas obras: enquanto o Segundo discurso defen-
filosófico extremamente original dos ‘novos de a idéia de que o ingresso na sociedade signi-
tempos’ e, por assim dizer, insere-se numa tra- fica um abandono do estado feliz da natureza (da
dição iluminista que prima pela ‘dialética da bondade natural), pois o homem pensante é visto
razão’. A abertura para a tematização da proble- como um animal desnaturado (‘o homem que
mática da subjetividade moderna, isto é, da bus- medita é um animal depravado’), o Contrato soci-
ca do indivíduo em construir a identidade do seu al afirma que o “espírito humano alcançou a ver-
eu consigo mesmo, mediante a racionalidade dadeira liberdade na ordem do mundo político e
emergente de sua própria sociabilidade, é alcan- social” (p. 397). Enquanto o primeiro concebe o
çada por meio do enfrentamento com problemas processo de socialização como uma perda da liber-
de teodicéia. Como mostra Cassirer (1980), tanto dade natural e, portanto, como sinônimo do au-
sua crítica à cultura como à sociedade está pro- mento do nível de artificialidade e convencio-
fundamente influenciada por tais problemas que nalismo das relações humanas, o Contrato social vê
são próprios aos séculos XVII e XVIII, estando em tal processo a condição de possibilidade para
sua crítica conectada com o problema do mal e, que o homem possa desenvolver suas faculdades
especificamente, como o problema do ‘mal so- e, em síntese, regrar sua própria sociabilidade2 . No
cial’. Rousseau proclama, por um lado, a doutrina entanto, o que explicaria então uma mudança de
da bondade original da natureza humana, fa- enfoque dessa envergadura?
zendo dela o centro e o eixo de seu pensamen- Tal mudança deve-se, ao meu ver, fun-
to. Por outro lado, afirma a perversão e a damentalmente a um novo significado atribu-
corrupção dessa bondade no processo de soci- ído ao conceito de liberdade pelo Contrato
abilidade humana. Nesse contexto, coloca-se a social em relação ao Segundo discurso : ao
pergunta de como se pode atribuir o mal e a procurar tratar da origem das desigualdades
culpa à natureza humana se ela está livre de sociais, buscando radicá-la na propriedade pri-
ambos em seu estado natural? Ora, se o mal não vada, Rousseau ampara-se, no Segundo discur-
é causado pela natureza humana original nem por
1. Essa interpretação do conceito de bondade natural em Rousseau também
Deus, uma vez que Rousseau o desresponsabiliza é enfatizada por Fichte (1978) em sua Sittenlehre, para quem a maldade e a
dessa causa, de onde ele provém então? Rousseau bondade humanas repousam, no sentido moral, no ato racional livre do ser
debate-se com esse problema e a solução encon- humano, o qual pressupõe, por sua vez, a superação daquela bondade origi-
nal e ingênua. O que Fichte exige é que Rousseau deveria ter concedido mais
trada por ele mostra a originalidade de seu diag- à razão e menos à consciência e é justamente no contexto dessa exigência
nóstico sociofilosófico da nascente modernidade. que se pode entender sua afirmação de que Rousseau “atua sem ter consci-
ência de sua própria atividade” (Fichte apud Guéroult, 1972, p. 161).
A originalidade da resposta de Rousseau 2. Kersting (1994) também traça uma diferença semelhante a nós entre
sobre a origem do mal consiste não em concebê- esses dois livros.

Educação e Pesquisa, São Paulo, v.33, n.1, p. 135-150, jan./abr. 2007 139
so, mais no conceito natural e, portanto, ain- suas ações a moralidade (moralité) que antes
da não definitivamente moral e jurídico de li- lhe faltava. É só então que, tomando a voz do
berdade. Já no Contrato social, predomina o dever ( la voix du devoir) o lugar do impulso
conceito de liberdade ‘bem regrada’ (la liberté físico (l’impulsion physique), e o direito o lu-
bien réglée) que é o ponto de partida da indis- gar do desejo, o homem, até aí levando em
pensável consciência que cada cidadão deve consideração apenas sua pessoa, vê-se força-
ter de seus limites, isto é, da consciência sobre do a agir baseando-se em outros princípios e
até onde vão seus direitos e onde estão seus a consultar a razão antes de ouvir suas inclina-
deveres, consciência essa que é indispensável ções. (OC iii 364) (1978, p. 36; 2003, S. 22)3
para viabilizar uma boa sociabilidade. No Se-
gundo discurso, não se coloca com toda a cla- O pessimismo presente na primeira obra
reza ainda a tese da base social da moralidade referente à análise do processo de socialização
que sustenta a teoria social subjacente tanto ao humana é substituído, no Contrato social, pela
Contrato social como ao Émile (Dalbosco, ênfase nas conquistas que o ingresso humano
2005). É tal tese e, com ela, o conceito de li- na sociedade adquire: na medida em que o
berdade ‘bem regrada’ que permite Rousseau impulso físico é submetido ao dever, o direito
analisar o processo de sociabilidade humana passa a regular os desejos e a razão humana
como origem de sua maldade e, ao mesmo domina suas inclinações. Assim, o Contrato
tempo, como possibilidade de sua correção. social representa a perspectiva de que quanto
Ora, é no contexto de tal conceito que ele pode mais o ser humano se socializa, tornando sua
chegar ao problema da relação entre liberdade ação cada vez mais racional e livre, embora não
e lei, colocando-se como defensor da lei e de necessariamente moral, tanto mais sua dimensão
sua validade universal incondicional. Quando impulsiva e desejante é colocada sob o contro-
visto sob essa perspectiva, então, o pensamen- le da racionalidade moral e jurídica e o aumen-
to de Kant seria imensamente tributário do to progressivo de sua socialização corresponde,
pensamento rousseauniano, tendo sido ele um portanto, à intensificação da dimensão moral e
dos poucos filósofos que se tornou discípulo e jurídica de sua ação.
admirador de Rousseau (Cassirer, 1980). Voltemos ao nosso ponto. Do problema
Do Segundo discurso ao Contrato social, de Deus, passamos para o problema da origem
também ocorre uma inversão de significado em do mal no mundo, localizando-a na própria
relação aos conceitos de estado de natureza e sociedade. No entanto, o percurso do pensa-
estado social: enquanto no Segundo discurso o mento de Rousseau não se esgota aí. Se o mal
estado de natureza é visto como fonte da bon- reside na sociedade, precisamos um critério
dade natural humana e o estado social como justo e adequado para julgá-lo e ele aponta a
fonte de sua perversão, no Contrato social o es- subjetividade e a interioridade humanas como
tado social é associado, direta e positivamente, à núcleo desse julgamento. Entretanto, trata-se
possibilidade de superação do nível instintivo e, de uma subjetividade que deve agora buscar a
portanto, desregrado da vida humana em seu
estado natural. Esse ponto de vista é justificado 3. Todas as citações das obras de Rousseau, salvo indicação contrária,
claramente numa passagem do Contrato social: serão feitas como a que seguiu, indicando-se no corpo do próprio texto, de
acordo com a edição Gallimard da Bibliothèque de la Plêiade, a abreviatura
OC referente às Oeuvres Complètes , seguida da indicação do volume em
Esta passagem do estado de natureza (l’état de romano minúsculo com a respectiva paginação em arábico. A citação no
corpo do texto será seguida, imediatamente, por uma indicação entre pa-
nature) para o estado social (l’état civil) provo- rênteses, primeiro, da tradução portuguesa e, depois, da tradução alemão,
ca no homem uma mudança muito notável, indicando-se tão somente o ano e a paginação correspondentes à tradução
usada para o cotejo com o texto original. Usei amplamente as traduções
substituindo, na sua conduta, o instinto
portuguesas dos textos de Rousseau, fazendo livremente as modificações
(l’instint) pela justiça (justice) e atribuindo às quando julguei necessárias.

140 Cláudio A. DALBOSCO. Determinação racional da vontade humana...


racionalidade normativa nela mesma, conside- (1980), “em tirar de Deus o peso da responsa-
rando, no entanto, que tal racionalidade tam- bilidade e colocá-lo na sociedade humana. Se
bém é, desde o início, constituída socialmente. a sociedade não pode suportar esse peso, se
Parece que nos vemos aqui inserido numa or- não consegue realizar, através da responsabili-
dem circular entre racionalidade e sociabilida- dade livre, e que sua autodeterminação exige
de! De qualquer modo, a guinada do divino dela, ela é culpada” (p. 413). Essa solução
para o social não resolve de modo algum o coloca o problema da responsabilidade num
problema, uma vez que o ser humano, liberto lugar não visto antes por ninguém, deslocando
do poder de Deus, encontra-se aprisionado o eixo da ‘imputabilidade’ das ações do sujei-
socialmente: livre do fetiche divino, não está to individual para o sujeito coletivo, isto é, para
livre do estranhamento social. a sociedade. Vista sob a perspectiva antropoló-
A busca pela autonomia, que passa inici- gica, a origem do mal não reside no sentimen-
almente pela independização do homem em re- to do amour de soi-même, mas sim no senti-
lação ao poder religioso exercido temporalmen- mento de amour-propre :
te pelo clero, vê-se confrontada novamente com
um tipo de alienação mais profunda, que se ra- O amor-próprio, que contém a causa de toda
dica na própria natureza antropológica do ser a futura perversão e fornece a vaidade do
humano e que se efetiva nas mais diversas formas homem e sua sede de poder, deve ser impu-
de relacionamento social e não só no relaciona- tado exclusivamente à sociedade. (p. 411)
mento religioso. Trata-se da tendência humana,
brilhantemente exposta nas passagens do livro IV Um dos problemas que permanece nes-
de Émile que antecedem a ‘Profissão de fé do sa solução, e que não é visualizado por Cassirer,
vigário saboiano’, de querer construir a identidade é o de saber se uma teoria da sociedade que
consigo mesmo por meio da comparação com os parece desresponsabilizar o sujeito individual
demais. É esse ‘ato imitativo’, de caráter profun- da maldade no mundo e responsabilizar intei-
damente fetichizante, que outrora se manifesta- ramente a sociedade pode dar conta da impu-
va na relação do ser humano com sua divindade, tabilidade das ações individuais? Justamente
que se manifesta agora, no contexto de uma so- para evitar que a individualidade seja sufocada
ciedade cada vez mais secularizada, na relação ou aniquilada pela sociedade e evitar deixar
entre os seus próprios membros, constituindo o com isso o problema da imputabilidade indivi-
caráter artificial e inautêntico de sua identidade. dual das ações em aberto, problema esse que
A tendência de se comparar com os outros tem é de fundamental importância para as teorias
sua origem, conforme mostra Rousseau, no sen- moral e jurídica, é que, ao meu ver, o argumen-
timento egoísta do amour-propre, o qual, por sua to de Rousseau precisa de uma teoria da deter-
vez, nasce com a própria sociabilidade humana. minação racional da vontade, que seja capaz
Ora, se a origem do mal humano e de pensar a autonomia do indivíduo em seu
social não reside em Deus, uma vez que Ele é processo de socialização. Embora Rousseau
a perfeição e o absoluto em bondade, nem também não tivesse inteiramente consciência
exclusivamente no homem, porque em seu es- desse problema, ele esboça tal teoria na ‘Pro-
tado natural ele não conhece a maldade, ela só fissão de fé do vigário saboiano’, intercalando-
pode ter sua origem na sociedade. A solução a na exposição do livro IV do Émile. Em que
dada por Rousseau ao problema da teodicéia medida ela dá conta satisfatoriamente dessa
consiste em dizer que a sociedade é a respon- dupla tarefa, isto é, da tarefa de pensar o pro-
sável pela criação e, ao mesmo tempo, pela blema da imputabilidade das ações individuais
solução de seus problemas. A solução de e de justificar a autonomia do indivíduo, é o
Rousseau consiste, portanto, segundo Cassirer que veremos a seguir.

Educação e Pesquisa, São Paulo, v.33, n.1, p. 135-150, jan./abr. 2007 141
Determinação racional da sa que determina o seu julgamento (jugement)?
vontade humana: da voz da É sua faculdade inteligente (faculté intelligente),
natureza à voz interna da seu poder de julgar; a causa determinante está
consciência em si mesmo. Além disto não entendo mais
nada” (OC iv 586) (1992, p. 324; 2004, S. 573).
Para que uma teoria da obrigação moral Ao colocar o problema nesses termos, Rousseau
possa ser a base de figurações jurídico-políti- está evidenciando com toda a clareza uma
cas e sustentar o processo pedagógico da edu- ‘consciência de época’ dos ‘tempos modernos’ e
cação natural, ela deve estar embasada por uma isso não significa outra coisa senão apresentar
teoria da determinação racional da vontade, da uma teoria de autocertificação da modernidade
qual, como afirmei, Rousseau oferece um esbo- sustentada por uma teoria da determinação ra-
ço no livro IV de Émile. Seu ponto de partida cional da vontade: sua causa reside não mais em
consiste em desvincular a vontade da sensibili- um Deus nem mais num conceito de Ser, mas
dade, tornando-a independente em relação aos na ‘capacidade própria de conhecimento’, isto
sentidos e colocá-la sob o domínio da razão. é, na capacidade da própria razão humana. Ao
Interpretado sob essa perspectiva, Rousseau dizer que a causa determinante da vontade está
antecipa a temática kantiana da fundamentação no ‘si mesmo’, Rousseau bloqueia qualquer
da moralidade na Grundlegund4 , na qual, a ra- acesso externo, concebendo o recurso ao ‘si
zão deve determinar a vontade por motivos a mesmo’ como princípio fundante – como cau-
priori. No entanto, Rousseau não está plena- sa – da determinação da vontade. Se esse é o
mente convencido, no livro IV do Émile , como resultado a que chega o seu argumento, ainda
Kant o está na GMS , sobre a necessidade da que possa ser um resultado provisório, cabe
determinação racional da vontade como ponto perguntar o que significa a vontade ser deter-
de partida indispensável para uma fundamen- minada pelo ‘si mesma’ e, mais especificamen-
tação adequada da moralidade das ações hu- te, o que significa esse ‘si mesmo’? Para ser
manas. Seu argumento vacila, tornando-se con- coerente com a exigência posta pelo seu argu-
fuso em relação ao significado do conceito de mento até aqui, o próprio ‘si mesmo’ deveria
razão e consciência e o papel que desempe- ser constituído racionalmente ou, pelo menos,
nham na justificação da moralidade. o argumento de Rousseau deveria oferecer um
Por um lado, parece haver uma direção ‘acesso racional’ ao ‘si mesmo’, para que ele
clara no sentido de atribuir à razão a capacida- pudesse ser a causa determinante da vontade.
de de determinar a vontade. Diz Rousseau: Antes de tratarmos dessa dificuldade, é preci-
“Quando me perguntam qual é a causa que so seguir mais de perto sua argumentação em
determina minha vontade, eu me pergunto qual relação ao problema da liberdade da vontade.
a causa que determina meu julgamento: por- Consciente de que não pode existir ‘uma
que é claro que estas duas coisas não são se- verdadeira vontade sem liberdade’, Rousseau
não uma” (OC iv 586) (1992, p. 324; 2004, S. conecta esse esboço da determinação racional
573). Ao identificar a causa da determinação da da vontade com o problema da liberdade: se a
vontade com a causa da determinação do jul- minha vontade deve ser determinada racional-
gamento, seu argumento está autorizando a mente, para que tal determinação possa ser
conclusão de que a vontade é determinada ou, eficiente, precisa ser uma determinação livre,
pelo menos, pode ser determinada pela razão. isto é, ocorrer mediante a idéia da liberdade.
Na seqüência, ainda no mesmo parágrafo, ele Por isso, a determinação racional da vontade
formula literalmente a tese da determinação
racional da vontade: “Qual a causa então que 4. Forma abreviada da obra kantiana Grundlegung zur Metaphisyk der
determina sua vontade (volonté)? E qual a cau- Sitten, também conhecida pela sigla GMS .

142 Cláudio A. DALBOSCO. Determinação racional da vontade humana...


deve sintetizar a capacidade do querer por mim posso saber que minha vontade é livre, se a
mesmo, sem o recurso a qualquer determina- todo o momento pareço vê-la subordinada a
ção estranha: “mas minha liberdade (liberté) uma infinidade de outras determinações que
consiste nisto mesmo que só posso querer o são estranhas a ela mesma? A independência em
que me é apropriado ou o que julgo adequa- relação aos sentidos seria um critério suficien-
do, sem que nada do que venha de fora de te para assegurar sua liberdade? No entanto,
mim me determine” (OC iv 586) (1992, p. 324; para uma vontade que fosse inteiramente livre
2004, S. 573-574). Isso aponta para o critério da pressão das paixões e da força da sensibi-
de que uma escolha só pode ser considerada lidade, teria sentido ainda em falar de liberda-
como acertada se for resultado de um querer de? Ao meu ver, Rousseau não oferece uma
orientado pelo julgamento. Sendo um ponto de resposta plausível para essas questões no con-
partida indispensável para se chegar à justifica- texto argumentativo da ‘Profissão de fé do vi-
ção da autonomia moral do indivíduo, o crité- gário saboiano’, mesmo considerando que tal
rio da determinação racional e livre do querer escrito seja o tratamento mais sistemático que
ainda está muito longe, no entanto, de se cons- ele ofereceu de sua filosofia moral. Isso mos-
tituir num critério universal, válido para todos. tra então o nível precário contido, no geral,
Embora já se comece desenhar com essa argu- pelo seu esboço de teoria da determinação
mentação o núcleo constitutivo do próprio con- racional da vontade.
ceito de vontade geral, pois seria um absurdo De qualquer forma, seu esforço consis-
querer pensá-lo sem o conceito de uma vonta- te em sustentar tal esboço em três artigos de fé
de autodeterminada, isto é, sem o conceito de e também fazer depender deles o conteúdo
uma vontade racional e livremente constituída, subseqüente de sua argumentação. O primeiro
o problema reside em ter que assegurar que o atribui a causalidade da ação à vontade, isto é,
conteúdo daquilo que é ‘julgado como adequa- afirma que não pode existir ação sem vontade:
do’ pelo ‘si mesmo’ não seja apenas representa- “há uma vontade que move o universo e ani-
ção de interesses privados de uma vontade indi- ma a natureza” (OC iv 576) (1992, p. 315;
vidual egoísta. Ou seja, não há ainda um critério 2004, S. 560) e a matéria em movimento é
para se saber ou se evitar que aquilo que eu julgo prova dessa vontade. O segundo mostra que
como apropriado (no sentido de ser autêntico e uma matéria em movimento, isto é, uma ação,
merecedor de crédito) não seja apenas uma con- só pode ser considerada como inteligente
veniência pessoal minha que, além de não ir ao quando orientada por leis: “Se a matéria em
encontro do bem comum, pode estar inclusive em movimento me mostra uma vontade, a matéria
pleno desacordo com ele. em movimento segundo certas leis mostra-me
Para poder agir, o ser humano precisa a uma inteligência” (OC iv 578) (1992, p. 317;
ter uma vontade e uma liberdade. Ou seja, 2004, S. 562). Por fim, o terceiro artigo de fé
Rousseau esboça uma teoria da ação no livro IV faz a vontade humana depender de sua liber-
do Émile que tem na liberdade da vontade do dade. Em síntese, seu argumento conecta a ação
ser humano o seu princípio. Isso ele afirma li- a uma vontade e esta, à racionalidade e à liber-
teralmente na seguinte passagem: “O princípio dade, permitindo que se conclua a idéia de que
de toda a ação está na vontade de um ser li- se o agir mediante leis mostra-me a racionalidade
vre; não se poder regressar além disto” (OC IV da vontade, colocando-a também na base de
586) (1992, p. 324; 2004, S. 574). Se ‘não se minha própria liberdade, então somente uma
pode ir além disso’, podemos nos perguntar se vontade racionalmente livre é capaz de agir
com essa afirmação ele já não teria ido longe segundo a representação de leis. Ter-se-ia al-
demais? Ou seja, qual é o argumento para jus- cançado aqui então um passo irretrocedível
tificar a liberdade da vontade humana? Como para a discussão da moralidade das ações hu-

Educação e Pesquisa, São Paulo, v.33, n.1, p. 135-150, jan./abr. 2007 143
manas. Se o argumento de Rousseau tivesse lação satisfatória entre as dimensões sensíveis e
concluído enfaticamente nessa direção, ele te- racionais do ser humano, uma vez que a própria
ria também antecipando literalmente outra tese capacidade de julgamento pertence à razão. Ou
central da GMS, a saber, de que somente seres seja, em tese, seria ela que permitiria, em termos
racionais e livres podem agir de acordo com a de moralidade, o acesso mais promissor à voz
representação de leis. No entanto, mesmo que interna da consciência.
ele não tenha chegado claramente a essa conclu- Embora Rousseau possa ser interpretado
são, ela se coloca como condição indispensável como um precursor de Kant, não é necessário
para que indivíduos possam lavrar livremente exagerarmos numa ‘kantianização’ de seu pen-
contratos entre si e se sintam obrigados, racional samento. Portanto, prossigamos: antes de che-
e livremente, a viver mediante ordenamentos de gar ao argumento da consciência, como vimos,
uma vontade geral. Rousseau precisou mostrar que os males e pro-
Se Rousseau tivesse enfatizado satisfato- blemas vividos pelo homem são de responsabi-
riamente a racionalidade e a liberdade da von- lidade da sociedade e, em parte, do próprio
tade humana, com isso ele ainda não teria mos- homem. Isto é, ele precisou, primeiramente,
trado a moralidade dessa mesma vontade, uma desresponsabilizar a Providência. Seu argumen-
vez que uma vontade racionalmente livre não to joga-nos inteiramente na condição de ter
pode ser identificada com uma vontade moral. que responder pelos nossos próprios atos, sem
Como Kant mostrará duas décadas depois, a poder querer mais justificar que o mal que nos
moralidade não pode ser deduzida analiticamen- acomete, que a condição miserável na qual nos
te da liberdade da vontade humana. No caso de encontramos seja obra do destino ou da vontade
Rousseau, não se trata ainda, portanto, de uma de Deus, mas que depende do próprio ‘abuso
vontade moral, pois mesmo quando impulsiona- de nossas faculdades’. Ao desresponsabilizar a
da pela razão a agir livremente, não está garan- Providência de nossos males, Rousseau parece,
tido ainda que a vontade vai agir moralmente. ao mesmo tempo, não querer deixar-nos órfão
Entretanto, o que falta então para que uma dela: “Ela [a Providência, CAD.] não quer o mal
vontade racionalmente livre também seja moral? que o homem faz, abusando da liberdade que
Ao se colocar a pergunta nesses termos, Kant ela lhe dá; [...]. Ela o quis livre, a fim de que
responderá dizendo que a moralidade da ação de fizesse, não o mal, mas o bem de vontade pró-
um ser, que é racional e ao mesmo tempo sen- pria” (OC iv 587) (1992, p. 325; 2004, S. 574).
sível, portanto, de um ser que não pode deter- Ao desresponsabilizar a Providência e ao voltar-
minar racionalmente de uma forma absoluta sua se especificamente para o homem e para a soci-
vontade, só é possível na medida em que a lei edade, ele prepara o terreno para um outro tra-
moral valha para ele na forma de um dever, isto tamento do problema da imputabilidade moral:
é, na linguagem técnica da GMS, somente na porque possuímos uma vontade livre que é capaz
medida em que a lei moral tenha validade para de se deixar influenciar pelas paixões, mas que
esse ser na forma de um imperativo categórico também pode se determinar racionalmente, pode-
e, para assegurar isso, é preciso uma dedução. mos escolher entre fazer o bem ou o mal e, fun-
No entanto, Rousseau não só não formula ex- damentalmente, sermos responsabilizados pela
pressamente a lei moral, como, muito menos, nossa escolha. Diz ele: “Homem, não procurais
terá condições de pensar numa dedução. Suas mais o autor do mal; és tu mesmo esse autor.
dificuldades aumentam ainda mais quando ele Não existe outro mal senão o que fazes e so-
vê no recurso à voz interna da consciência o cri- fres, e um e outro te vêm de ti”. Em outra
tério de julgamento da moralidade das ações hu- passagem, na mesma página, ele afirma: “O mal
manas, pois, ao fazer isso, ele assume o ônus da moral é incontestavelmente nossa obra” (OC iv
prova de ter que ao menos apresentar uma re- 587) (1992, p. 325; 2004, S. 575).

144 Cláudio A. DALBOSCO. Determinação racional da vontade humana...


Se precisamos ser responsáveis pela Há no mínimo duas dificuldades centrais
moralidade de nossas ações, o ponto de parti- conectadas com essa ‘teoria da consciência’: a
da para discuti-la também deve residir em nós primeira é a da sua compatibilidade com a tese
mesmos e essa é a guinada decisiva provocada oriunda da teoria social de Rousseau sobre a
por seu pensamento: de agora em diante, toda base social de nossa moralidade; a segunda diz
a moralidade de nossas ações dependerá do jul- respeito à sua compatibilidade com o esboço da
gamento que fazemos de nós mesmos e é na teoria da determinação racional da vontade.
voz interna da consciência que buscamos o Quanto à primeira dificuldade, ela pode ser mais
critério inato de justiça e virtude para efetuar- bem formulada com a seguinte pergunta: sen-
mos esse julgamento. Rousseau define a cons- do o recurso à voz interna da consciência o
ciência da seguinte maneira: “Há, portanto, no critério para o julgamento moral e consideran-
fundo de nossas almas um princípio de justiça do que Rousseau a define como o princípio
e de virtude de acordo com o qual, apesar de inato de justiça e de virtude, como ela se rela-
nossas próprias máximas, julgamos boas ou más ciona com a base social da moralidade? Isto é,
nossas ações e as de outros e é a esse princí- em que sentido esse seu inatismo é compatível
pio que chamo de consciência (conscience )” com o caráter social da moralidade das ações
(OC iv 598) (1992, p. 335; 2004, S. 590). Ela humanas? Há aqui, numa primeira vista, uma
é a sede dos sentimentos que nos permitem contradição explicita no pensamento de Rousseau.
discernir o “adequado ou inadequado que existe No entanto, uma outra passagem parece oferecer
entre nós e as coisas que devemos respeitar ou um argumento plausível para tratar dessa contra-
evitar” (OC iv 599) (1992, p. 337; 2004, S. 592). dição. Diz Rousseau:
Todo o peso atribuído à consciência como sede
da moralidade revela-se com toda a inteireza Mas se, como não se pode duvidar, o ho-
numa conhecida passagem da ‘Profissão de fé mem é sociável ( sociable) por sua natureza,
do vigário saboiano’, na qual Rousseau exclama: ou ao menos feito para sê-lo, ele só o pode
ser através de outros sentimentos inatos, que
Consciência! Consciência! (conscience!) Ins- se referem à espécie; pois, em se conside-
tinto divino, voz celeste e imortal; guia se- rando unicamente a necessidade física, deve-
guro de um ser ignorante e limitado, mas se com certeza separar um dos outros os
racional e livre; juiz infalível do bem e do homens ao invés de aproximá-los. Ora, é do
mal, que tornas o homem semelhante a sistema moral ( sistême moral ) formado por
Deus, és tu que fazes a excelência de sua essa dupla relação consigo mesmo e com
natureza e a moralidade de suas ações; sem suas relações com seus semelhantes que
ti nada sinto em mim que me eleve acima nasce o impulso da consciência. (OC iv 600)
dos animais, a não ser o triste privilégio de (1992, p. 337; 2004, S. 592)
me perder de erro em erro com a ajuda de
um entendimento (entendiment) sem regra e Ela relativiza, na primeira parte, o senti-
de uma razão (raison) sem princípios. (OC iv do do inatismo: Rousseau afirma que a predis-
600-601) (1992, p. 338; 2004, S. 593-594) posição humana para a sociabilidade depende
de sentimentos inatos. O inato pode ser com-
Rousseau a concebe como juiz e guia preendido aqui biologicamente como uma pre-
que distancia o homem dos animais e o apro- disposição genética da espécie que a impele,
xima de Deus; enfim, ela é o critério básico não só por motivos de autoconservação, para
apontado por ele para distinguir entre o mal a sua socialização. Na seqüência, vem o argu-
e o bem e para avaliar a moralidade de nos- mento decisivo: embora o seu princípio de
sas ações. justiça e de virtude seja inato, a consciência

Educação e Pesquisa, São Paulo, v.33, n.1, p. 135-150, jan./abr. 2007 145
recebe seu impulso, além de sua relação con- apelo ao coração humano como uma referencia
sigo mesma, também da relação com seus se- indispensável a um tratamento realista da
melhantes. Portanto, há uma predisposição moralidade humana. É a partir disso que se
natural que é impulsionada socialmente e isso pode compreender também sua grande ênfase,
parece então não contradizer a tese da socia- no método pedagógico, ao apelo do coração:
bilidade da moral.
A segunda dificuldade, além de mais Não te aproximes jamais da juventude com
importante, é mais grave. Se a consciência passa argumentações racionais secas. Daí um cor-
a ser o critério de julgamento de nossas ações, po à razão se quiserdes lha torná-la sensí-
como ela se relaciona com nossa vontade e, vel. Fazei passar pelo coração a linguagem
mais precisamente, com aquela necessidade, do espírito, a fim de que se faça entender.
identificada por Rousseau, de uma determina- (OC iv 648) (1992, p. 382; 2004, S. 657)
ção racional da vontade, põem-se aqui de ime-
diato algumas perguntas: em que sentido o No entanto, seu apelo excessivo à voz da
recurso à voz interna da consciência constitui consciência e aos sentimentos do coração difi-
critério adequado para uma vontade que bus- culta, por vezes, a própria compreensão de seu
ca agir moralmente? Se, como vimos, Rousseau conceito de razão. Segundo Schäffer (2002),
considera importante que a vontade seja determi- Rousseau concebe-a como um poder (faculda-
nada racionalmente, qual é o grau de reflexividade de) ambivalente: a razão é, por um lado, a pro-
que a voz interna da consciência permite alcan- dutora de erros, por estar subordinada às paixões
çar? Enfim como ela se relaciona com a razão? e ao amor-próprio. No entanto, ela é também,
Parece-me que o ponto de partida para por outro lado, aquela força voltada para o
um tratamento adequado dessa segunda difi- controle das paixões e que está na condição de
culdade e as perguntas dela derivadas consis- conhecer o bem. O mais fundamental em seu
te, primeiro, em não perder de vista a distinção conceito de razão residiria, segundo esse autor,
feita por Rousseau entre consciência e razão: se na idéia de que a razão indicaria para o seu
é com a primeira que nós podemos sentir, será corretivo imediato, ou seja, para a consciência
somente com a segunda que alcançamos nos- e somente quando relacionada a ela é que a
sa capacidade de julgamento. Segundo aspec- razão poderia livrar-se de suas incorreções. Por
to, como decorrência do primeiro, se a consci- fim, Rousseau tem como pano de fundo da
ência não possui a capacidade de julgamento, educação do jovem Emílio essa necessária re-
ela precisa ser esclarecida pela razão. É eviden- lação entre consciência e razão.
te que essa interpretação coloca-se, em certo Rousseau apresenta, ao meu ver, um
sentido, na contramão de muitas afirmações de conceito menos problemático de razão, que é
Rousseau e, sobretudo, à sua insistência quanto mais compatível com o projeto educacional de
à não subordinação excessiva da consciência à Emílio, quando trata, no livro II do Émile, jus-
razão. Entretanto, é preciso ter em mente tam- tamente da importância de se desenvolver a
bém o fato de que essa sua posição deve-se em sensibilidade na formação da criança. Aí afirma
grande parte à sua crítica aos sistemas filosó- ele o seguinte: “De todas as capacidades do
ficos abstratos e ao próprio conceito de razão homem, a razão, que não é, por assim dizer,
deles decorrente. Por ser contra todo o tipo de senão um composto de todas as outras, é a que
intelectualismo moral, Rousseau atribui grande se desenvolve mais dificilmente e mais tarde”
peso ao recurso à consciência e à sensibilida- (OC iv 317) (1992, p. 74; 2004, s. 205). Con-
de para o tratamento dos problemas morais. siderando que a capacidade de julgamento deve
Em síntese, suas convicções intelectuais cami- ser provocada, em sua inteireza na formação de
nham firmemente na direção de reconhecer o Emílio, somente mais tarde e considerando as

146 Cláudio A. DALBOSCO. Determinação racional da vontade humana...


dificuldades subjacentes ao desenvolvimento suem significado moral, embora haja por
desta capacidade, Rousseau pensa que a me- vezes no sentimento das ações de outrem
lhor forma de prepará-la é começar a educação em relação a nós. (OC iv 288) (1992, p. 48;
pela sensibilidade. Na verdade, o que está em 2004, S. 166)
jogo é a idéia de que, embora discorde do
conceito de razão dos filósofos, ele considera Da razão, brota o conhecimento da mora-
central a capacidade de julgamento à educação lidade, da consciência, o seu sentimento5 . Assim,
de Emílio, sobretudo em relação à sua forma- a moralidade das ações humanas é pensada a
ção moral, assumindo, desse modo, a tese de partir do confronto entre razão e consciência,
que a voz da consciência precisa ser confron- entre sentir e conhecer: ao tratar da relação en-
tada com a razão. Entretanto, o que essa tese tre consciência e razão, mesmo que de forma
significa exatamente e que dimensão ela assume assistemática, Rousseau vincula a consciência di-
para se pensar a moralidade das ações humanas retamente à nossa sensibilidade e a concebe como
parecem ser questões que Rousseau não tematizou sendo anterior tanto à razão como à moralidade.
com a atenção e sistematicidade merecidas, e essa Ela é um espaço aquém da razão, do qual esta,
foi uma das razões que o impossibilitou de ofere- mesmo diferenciando-se da consciência, não dei-
cer uma teoria sistemática da determinação racio- xaria de ser seu desdobramento. É a dupla dimen-
nal da vontade humana. são da consciência, como ‘instinto divino’ e como
Encontramo-nos aqui, sem dúvida, no origem da racionalidade moral, que torna seu ‘ato
âmago de um dos pontos mais controversos na obscuro’, revelando com isso toda sua ambigüi-
interpretação de seu pensamento, pois, além de dade: por um lado, como ‘instinto divino’, con-
não definir claramente os conceitos de consci- tém uma dimensão impulsiva que a impede de
ência e de razão, Rousseau também não foi agir segundo a representação de leis e, portanto,
claro o suficiente ao pensar a relação entre segundo máximas a priori; por outro, quando
ambos, abrindo margens para muitas especula- confrontado com aquele seu prolongamento, isto
ções. Apesar disso, penso ser possível verter seu é, com a razão, passa a pertencer ao ‘plano su-
pensamento contra si mesmo e, por meio do perior’ da natureza, misturando-se com a dimen-
confronto de passagens contraditórias, recons- são livre e racional do ser humano (Guéroult,
truir um conceito de educação natural que jus- 1972). Podemos nos perguntar a esta altura, se
tifique a responsabilização dos envolvidos no aqui se trata realmente de uma obscuridade ou se
processo pedagógico, a qual só pode ser asse- Rousseau não está tocando num dos problemas
gurada com base no fortalecimento da tese de mais profundos e controversos da filosofia práti-
que a voz da consciência precisa ser submetida, ca, o qual Kant formulou, poucos anos mais tar-
sob determinadas circunstâncias e mediante de, também enigmaticamente, com a expressão
determinados aspectos, aos preceitos da razão. “Stein der Weisen”?6
Tal fio condutor, apesar da obscuridade da ar- Visto do ponto de vista antropológico,
gumentação de Rousseau, encontra-se confirma- poder-se-ia dizer que a consciência seria a sede
do na seguinte passagem do livro I do Émile: do amour de soi-même que, ao manter-se
aquém da razão, sem confrontar-se com ela,
Somente a razão (raison) nos ensina a conhe- permaneceria moralmente neutra. No entanto,
cer o bem e o mal. A consciência (conscience) por meio do processo de socialização, confron-
que nos faz amar um e odiar o outro, embora
independente da razão, não pode, pois, de- 5. Sob esse aspecto, segundo a interpretação de Lévi-Strauss (1972), a pi-
senvolver-se sem ela. Antes da idade da ra- edade pode ser concebida como uma força intermediária que, por ter sua raiz
tanto na consciência como na razão, pode ser tanto afetiva como racional,
zão ( l’age de raison ), fazemos o bem e o animal como humana e, enfim, podendo significar tanto natureza como cultura.
mal sem o saber; e nossas ações não pos- 6. Sobre isso, ver Dalbosco (2003).

Educação e Pesquisa, São Paulo, v.33, n.1, p. 135-150, jan./abr. 2007 147
tando-se com o sentimento do amour-propre, deve ser ensinado a não suportá-lo com a
seu princípio inato de justiça e de virtude ad- mesma intensidade em que é preparado a su-
quiriria um conteúdo moral propriamente dito. portar as intempéries naturais. Do ponto de
A moralidade resultaria então da tensão entre o vista antropológico, o sentimento egoísta do
princípio de justiça e virtude que reside na amo-próprio deve ser, portanto, confrontado
consciência e seu inevitável confronto com reflexivamente com a piedade e com o senti-
capacidade humana reflexiva oriunda do pro- mento de humanidade emergentes do amor de
cesso de socialização humana. Se tal interpre- si mesmo. A origem do mal social deve-se,
tação procede, como ela fica evidente que o nesse caso, ao esforço concentrado do senti-
simples apelo à voz interna da consciência ou mento egoísta do amor-próprio em preservar
somente o recurso de conhecimento que bro- seus interesses privados à custa dos outros,
ta da razão não são suficientes, isoladamente, sufocando a perspectiva universalizante de
para a formação moral do Emílio, também não poder incluir a humanidade e, portanto, o ou-
sendo suficientes, portanto, para constituírem a tro em sua ação. Isso aponta para uma tese
moralidade das ações humanas. Por isso, nes- central da teoria educacional exposta no Émile:
se contexto, ouvir a voz da consciência nada a educação do Emílio só faz sentido quando
mais significa do que a exigência de confrontá- pensada dentro e não fora da sociedade e a
la com a capacidade racional de julgamento e, questão decisiva que se coloca para seu projeto
visto pelo lado da razão, as ações humanas tam- é o de que Emílio deve formar-se socialmente,
bém precisam ser constantemente confrontadas apreendendo a viver bem consigo mesmo e
à voz do coração. Se o contexto argumentativo com os demais, para poder construir relações
rousseauniano não esclarece a ‘obscuridade do moralmente autônomas no interior da socieda-
ato da consciência’, parece deixar claro, ao de da qual faz parte. Esse é um dos motivos
menos, sua dupla dimensão, a sensível e a raci- que torna a educação moral uma referência
onal, fazendo de ambas a sede da moralidade indispensável à formação da identidade do ser
das ações humanas. humano a tal ponto que este seja capaz de
viver bem consigo mesmo e com os outros.
Algumas implicações De outra parte, estando em estreita
pedagógicas sintonia com as teorias social e antropológica,
o esboço da teoria da determinação racional da
A crítica à sociedade feita por Rousseau vontade também deve oferecer argumentos
significa, ao mesmo tempo, uma crítica à ori- para o confronto, por meio de um trabalho
gem social da maldade e, num sentido mais educativo da tendência egoísta do amor-pró-
amplo, da própria moralidade humana. Tal crí- prio, com o processo de estranhamento oriun-
tica está também na base de seu projeto edu- do da sociabilidade humana, visando à recupe-
cacional: Emílio, seu educando imaginário, ração do sentimento do amor de si mesmo no
deve ser ensinado a suportar todo tipo de ‘mal convívio social. Dentro desse contexto, o pro-
físico’. Rousseau considera a capacidade de jeto educacional de Emílio não consiste em
suportar privações e necessidades como um negar o estado social, como se fosse possível
princípio pedagógico genuíno para servir como educá-lo fora da sociedade, mas dito em termos
ponto de partida, mas não como ponto de antropológicos, tornar visível, dentro de tal
chegada da educação, da vontade contra seu estado, a tensão entre os dois tipos de senti-
próprio livre arbítrio, isto é, contra uma ‘liber- mentos constitutivos da personalidade humana,
dade desregrada’ de uma vontade que pensa o amor de si mesmo e o amor-próprio.
que o simples querer já é poder tudo. No en- Expressado em termos jurídicos e políti-
tanto, quando se trata do ‘mal social’, Emílio cos, Rousseau imagina, contrafaticamente, na

148 Cláudio A. DALBOSCO. Determinação racional da vontade humana...


educação de Emílio, um desenvolvimento em O problema que permanece em aberto
direção a uma comunidade genuinamente hu- aqui, considerando a imbricação de argumen-
mana, que não mais necessitaria das molas do tos provindos tanto da teoria social como an-
poder nos moldes de uma subjetividade egoísta tropológica e educacional, é o de saber até que
do amor-próprio, centrada unicamente em si ponto o sentimento de obrigação moral perante
mesma, mas enraizada na sujeição comum à lei, a lei é suficiente para fazer frente ao mal soci-
interiormente reconhecida como obrigatória e al anteriormente diagnosticado? Pode-se for-
necessária. Nesse sentido, sua teoria educacio- mular momentaneamente a idéia de que, en-
nal precisa estar amparada por uma teoria da quanto a teoria moral, baseada na determinação
obrigação moral que mostre ao Emílio, progres- racional da vontade, deveria pensar os funda-
sivamente, a importância da sujeição à lei como mentos para que uma consciência se sentisse
uma condição indispensável à conquista de sua obrigada racionalmente a respeitar a lei, a teo-
consciência cidadã. O processo pedagógico deve ria jurídica deveria oferecer o ordenamento legal
se constituir num processo de interiorização que assegurasse objetivamente, baseando-se
crítica da lei no sentido de que Emílio sinta-se, inclusive em procedimentos coercitivos, aquela
no decorrer de seu processo educativo, obriga- obrigação. No entanto, é evidente que o argumen-
do racional e livremente a respeitá-la. to de Rousseau não aponta sistematicamente para
Visto em termos educativos, o ideal de essa direção e uma das razões deve-se ao fato de
Rousseau exige a substituição progressiva da ele tratar dessa problemática num contexto histó-
ação coercitiva e disciplinatória, próprias ao rico, início da modernidade, no qual as relações
período educacional da infância e tematizado humano-sociais não se encontram ainda plenamen-
exaustivamente nos três primeiros livros do te juridificadas8 . Ou seja, ele pensa a relação en-
Émile, pela ação moral obrigatória, própria ao tre moralidade e direito nos termos de que o
período da vida humana que se caracteriza nível de obrigação derivado da moralidade já
pelo uso da razão, isto é, ao período que co- seria força motivadora suficiente para a execu-
meça com a juventude e que é tematizado nos ção da ação nos termos exigidos pela própria
livros IV e V do Émile 7 . De outra parte, seu obrigação moral. Seu conceito de sociedade
ideal normativo societário exige, por sua vez, a atribui, nesse sentido, maior peso à moralidade,
substituição da ação coercitiva social pela ação exigindo menos interferência do poder coercitivo
humana livre de uma comunidade política e das ações jurídicas.
ética, na qual cada um só obedece a vontade
geral, em vez de se submeter às vontades in-
dividuais centradas no amor-próprio egoísta.
Disso se pode concluir que toda a teoria educa-
cional que permanecer somente na primeira eta-
pa, isto é, que pense um processo pedagógico 7. A pedagogia kantiana pode ser interpretada em termos muito semelhan-
baseado só na ação coercitiva e disciplinadora da tes, uma vez que Kant exige, em seu projeto educacional, a passagem da ação
disciplinada à obrigação moral. Sobre isso, ver Dalbosco (2004a; 2004b).
criança, sem visualizar a ação moralmente obri- 8. Emprego o termo ‘juridificação’ no sentido que Flickinger (2004) lhe
gada, orientada por máximas, princípios e leis, atribui, considerando, no entanto, o contexto completamente diferenciado
pode formar seres humanos adestrados, mas que marca nossas abordagens. Juridificação significa, segundo ele, “o fato
de a sociedade liberal moderna orgulhar-se da transformação abrangente
jamais cidadãos. Essa é mais uma prova de que das relações sociais e institucionais em relações juridicamente determi-
o projeto rousseauniano de uma educação na- nadas, a fim de garantir o reconhecimento da liberdade de todos os seus
membros. De fato, o status de membro da sociedade define-se aí pela
tural deve estar sustentado tanto por uma teo- qualificação do indivíduo como ‘pessoa de direito’, ou seja, por sua deter-
ria moral como jurídico-política. minação jurídica” (p. 98).

Educação e Pesquisa, São Paulo, v.33, n.1, p. 135-150, jan./abr. 2007 149
Referências bibliográficas

CASSIRER, E. A questão de Jean-Jacques Rousseau. In: QUIRINO, C. G.; SOUZA, M. T. S. R. O pensamento político clássico
clássico. São
Paulo: T. A. Queiroz, 1980, p. 379-418.

DALBOSCO, C. A. Racionalidade prática e práxis pedagógica: considerações introdutórias. In: _____. (Org.). Filosofia prática e
pedagogia
pedagogia. Passo Fundo: UPF Editora, 2003, p. 13-29.

______. A. “Vom disziplinierten Zwang zur moralischen Verbindlichkeit. Zur Bedeutung und Rolle der Pädagogik bei Kant”.
Pädagogische Rundschau
Rundschau, n. 58, 2004a, p. 385-400.

______. Da pressão disciplinada à obrigação moral: esboço sobre o significado e o papel da pedagogia no pensamento de Kant.
Educação & Sociedade
Sociedade, v. 25, n. 89, 2004b, p. 1333-1356.

______. Teoria social, antropologia filosófica e educação natural em Rousseau. In: DALBOSCO, C. A.; FLICKINGER, H. G. Educação
e maioridade
maioridade: dimensões da racionalidade pedagógica. Passo Fundo: UPF Editora; São Paulo: Cortez, 2005, p. 70-103.

FLICKINGER, H. G. A juridificação da liberdade: os direitos humanos no processo de Globalização. Revistas de Estudos Criminais
Criminais,
ano IV, n. 16, 2004, p. 97-106.

GUÉROULT, M. Naturaleza humana y estado de naturaleza en Rousseau, Kant y Fichte. In: LÉVI-STRAUSS et al. Presencia de
Rousseau
Rousseau. Buenos Aires: Ediciones Visión, 1972, p. 141-162.

KERSTING, W. Die politische Philosophie des Gesellschaftsvertrags


Gesellschaftsvertrags
gs. Darmstadt: WB, 1994.

KOCH, L. Wohlgeregelte Freiheit. Rousseaus Bildungsprinzip. In: HANSMANN, O. (Hrsg.). Seminar


Seminar: der pädagogische Rousseau.
Band II: Kommentare, Interpretationen, Wirkungsgeschichte. Weinheim: Deutscher Studien Verlag, 1996, p. 141-166.

LÉVI-STRAUSS, C. Jean-Jacques Rousseau, fundador de las ciencias del hombre. In: LÉVI-STRAUSS et al. Presencia de Rousseau
Rousseau.
Buenos Aires: Ediciones Visión, 1972. p. 07-19.

ROUSSEAU, J. J. Oeuvres complètes


complètes. Paris: Gallimard, Bibliothèque de la Plêiade, 5 v., 1959-1995.

______. Du contrat social


social: ecrits politiques. vol. III. Paris: Gallimard, Bibliothèque de la Pléiade, 1964.

______. Émile
Émile: education – morale – botanique. v. IV. Paris: Gallimard, Bibliothèque de la Pléiade, 1969.

______. Gesellschaftsvertrag
Gesellschaftsvertrag. Stuttgart: Reclam, 2003a.

______. Emil oder Über die Erziehung


Erziehung. Stuttgart: Reclam, 2004.

______. Emilio ou da Educação


Educação. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1992.

______. Do contrato social


social: ensaio sobre a origem das línguas; discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre
os homens; discurso sobre as ciências e as artes. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Coleção os Pensadores).

SCHÄFER, A. Jean-Jacques Rousseau


Rousseau: ein pädagogisches porträt. Weinheim und Basel: Beltz Verlag, 2002.

TAYLOR, C. Quellen des selbst


selbst: die entstehung der neuzeitlichen identität. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1996.

Recebido em 26.01.06
Aprovado em 07.08.06

Cláudio Almir Dalbosco é doutor pela Universität Kassel (Alemanha) e professor do curso de Filosofia e do Programa de
Pós-graduação em Educação da Universidade de Passo Fundo.

150 Cláudio A. DALBOSCO. Determinação racional da vontade humana...

Você também pode gostar