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MACROECONOMIA

MACROECONOMIA

O PROGRAMA DE
INVESTIMENTO EM LOGÍSTICA
CLEMENS NUNES
Professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EESP)

E M 9 de junho último, o Governo anunciou


o Programa de Investimento em Logística
(PIL). Este programa prevê um investimento
sidade na utilização dos fatores de produção. No
caso da economia brasileira, certos setores com
capacidade ociosa, como a indústria de transfor-
de R$ 198,4 bilhões em infraestrutura, compre- mação, poderiam beneficiar-se desse estímulo.
endendo portos, aeroportos e ferrovias. Deste No entanto, o volume de investimento previsto
total, estima-se que R$ 69,2 bilhões serão inves- é bastante tímido para ter efeito relevante sobre
tidos entre 2015 e 2018, enquanto R$ 129,2 bi- a demanda agregada. Admitindo que todos os
lhões o serão a partir de 2019. Segundo o Minis- investimentos serão realizados tempestivamen-
tério do Planejamento, Orçamento e Gestão, os te, o impacto anual até 2018 será de 0,36% do
objetivos desejados são aumentar a produtivida- PIB ao ano até 2018 – um valor insuficiente para
de via modernização da infraestrutura do País e retomar o crescimento. Para efeito de compara-
contribuir para a retomada do crescimento eco- ção, somente a Petrobras investiu anualmente,
nômico. Em minha última coluna, vimos que a em média, 1,67% do PIB no período de 2012
tarefa de retomar o crescimento sustentado da a 2014. Quanto ao segundo aspecto, apesar de
economia brasileira é extremamente desafiado- seus propósitos louváveis, o anúncio do PIL foi
ra. A retomada requer não apenas corrigir os recebido com frieza pelos agentes econômicos.
desequilíbrios macroeconômicos via ajuste fis- Este ceticismo fundamenta-se em fatos. Em
cal, mas também uma agenda ampla de aumento 2012, o Governo anunciou um pacote similar
da produtividade da economia. Nesse aspecto, o que previa investimentos de R$ 133 bilhões ape-
Programa aponta nessa direção. Em seguida, irei nas em rodovias e ferrovias. Dos nove lotes de
analisar os possíveis impactos deste programa concessões previstos em rodovias, apenas seis
sobre a economia no curto e no longo prazos e foram concedidos. Dos projetos previstos em
seus desafios. ferrovias, nenhum saiu do papel. Esse histórico
deixa os investidores e empresários numa atitu-
No horizonte de curto prazo, o Programa po- de de esperar para ver. Além disso, há, ainda,
deria contribuir para a retomada do crescimento desconfianças quanto à manutenção do grau de
de duas formas: em primeiro lugar, contribuir investimento e da disposição do Governo em
para aumentar a demanda agregada na econo- manter o ajuste fiscal em meio ao aumento do
mia; em segundo lugar, aumentar a confiança na desemprego, à queda de popularidade e à perda
economia brasileira pelos agentes econômicos. do apoio político.
Em relação ao primeiro aspecto, o estímulo da
demanda agregada pode gerar um aumento da Quanto aos impactos de longo prazo, esse
renda e da produção na economia, auxiliando na Programa insere-se na agenda de aumento da
recuperação da atividade econômica. Este resul- produtividade. Nesta agenda, a melhoria da in-
tado, no entanto, depende da existência de ocio- fraestrutura tem um papel relevante. Especifica-

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mente, o setor do agronegócio é um dos mais cilitar a execução de políticas públicas, a MP nº
afetados pela infraestrutura precária. Estradas 579, que alterou estruturalmente o setor elétri-
em péssimo estado, filas de caminhões nos por- co para forçar a redução dos preços de ener-
tos, custos de frete elevados, portos ineficientes, gia. Especificamente, no setor de ferrovias, há
malha ferroviária limitada são fatores prejudi- grande indefinição sobre o modelo regulatório
ciais à produtividade e à lucratividade da cadeia a ser adotado, bem como quanto à remuneração
do agronegócio, que, apesar destes obstáculos, de operadores e detentores da malha ferrovi-
consegue manter-se competitivo. Nesse aspecto, ária. Nos portos, a governança corporativa na
o Programa é bem-vindo como uma tentativa de área dos portos organizados ainda é dependente
enfrentar estes problemas. do papel das Companhias Docas, ou seja, um
quadro de empresas com baixa capacidade de
Em relação ao programa anunciado em 2012, investimento e sujeitas à ingerência política. No
o PIL é superior, sendo mais realista e prag- segundo aspecto, a execução do projeto é con-
mático. Em primeiro lugar, o Governo reco- dicionada a uma série de aprovações ambientais
nhece suas limitações de recursos gerenciais e e legais que retardam sensivelmente sua conclu-
financeiros para conduzir esses projetos. Sob são e aumentam o custo das obras, podendo in-
severa restrição fiscal, o Governo pode reduzir viabilizar os retornos previstos.
seu gasto com investimentos e arrecadar recur-
sos com a outorga nos leilões. Adicionalmen- Em resumo, acredito que, embora o Programa
te, o Governo tenta estimular o financiamento aponte na direção correta, seu impacto na ativi-
privado, incentivando a emissão de debêntures dade econômica no curto prazo será muito pe-
para financiamento parcial dos projetos. Desta queno. No longo prazo, embora suas chances de
forma, o Governo reduz o volume de subsí- sucesso sejam melhores do que as do plano de
dios, inclui o monitoramento dos projetos pe- investimentos anunciado em 2012, as dificulda-
los agentes de mercado, divide riscos e estimu- des na execução e o risco regulatório ainda são
la o mercado de capitais. Em segundo lugar, o obstáculos relevantes para seu êxito.
Governo acena com condições mais favoráveis
para a participação do setor privado. Entre elas,
podemos citar: taxas de retorno mais realistas e
determinadas pelo mercado; redução do tama-
nho do lote para concessão de rodovias para
possibilitar a participação de empresas meno-
res; inclusão do critério de outorga nos leilões;
resolução de algumas pendências regulatórias
para a concessão de terminais portuários, por
meio da Lei nº 12.815/13.

Embora, em geral superior ao programa de


2012, o PIL apresenta projetos de viabilidade
duvidosa, como a ligação bioceânica, que res-
ponde por 20% do total de investimentos pre-
vistos. Além disso, algumas razões para o baixo
desempenho na execução dos projetos obser-
vados no programa de 2012 ainda persistem.
Entre elas, podemos citar o elevado risco re-
gulatório e as restrições ambientais e legais na
execução dos projetos. No primeiro aspecto,
pesquisa que avalia a percepção dos investido-
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res internacionais sobre o risco regulatório indi-


ca que este subiu consideravelmente no Brasil.
Entre as razões, podemos citar a percepção de
que agências reguladoras foram usadas para fa-

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