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Diversidade Sexual e
Avaliação Psicológica:
os Direitos Humanos
em Questão
Sexual Diversity And Psychological Evaluation:
Human Rights In Question

Diversidad Sexual Y Evaluación Psicológica:


Los Derechos Humanos En Cuestión

Angelo Brandelli
Costa &
Henrique
Caetano Nardi

Universidade Federal
do Rio Grande do Sul
Artigo

PSICOLOGIA: CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2013, 33 (núm. esp.), 124-137


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PSICOLOGIA:
CIÊNCIA E PROFISSÃO, Angelo Brandelli Costa & Henrique Caetano Nardi
2013, 33 (núm. esp.),124-137

Resumo: Este estudo visa contribuir com o debate contemporâneo da relação entre Psicologia, direitos
humanos e diversidade sexual. Na primeira parte, será exposto o debate acerca da relação entre direitos
humanos e avaliação psicológica, suas potencialidades e limitações. Em seguida, serão discutidas as definições
de direitos humanos e sua relação com a diversidade sexual. Na terceira parte, será apresentado o trata-
mento histórico que a Psicologia, especialmente a avaliação psicológica, deu às questões da diversidade
sexual e suas repercussões à luz dos direitos humanos. A quarta parte analisará o Inventário Fatorial de
Personalidade (IFP) identificando vieses discriminatórios. Por fim, será proposto o que se espera de uma
avaliação psicológica atenta aos pressupostos éticos que embasam os direitos humanos e que contribua
para a construção do conhecimento no século XXI.
Palavras-chave: Avaliação psicológica. Diversidade sexual. Direitos humanos. Igualdade social.

Abstract: This study aims to contribute to the contemporary debate in relation to psychology, human rights
and sexual diversity. The first part will expose the current discussions about the relationship between human
rights and psychological evaluation, their contributions and limitations. Then it will be discussed the definition
of human rights and its relation to sexual diversity. The third part will present the historical treatment that
psychology, especially the psychological evaluation gave to the issue of sexual diversity and its repercussion in
the human rights. The fourth part will examine the Inventário Fatorial de Personalidade (IFP) identifying the
discriminatory biases. Finally, it will be presented what it is expected of a psychology attentive to the ethical
presuppositions that underlie human rights and that contribute to the building of 21st century knowledge.
Keywords: Psychological assessment. Sexual diversity. Human rights. Social equality.

Resumen: Este estudio está orientado a contribuir con el debate contemporáneo de la relación entre la Psi-
cología, los derechos humanos y la diversidad sexual. En la primera parte, será expuesto el debate acerca de
la relación entre derechos humanos y evaluación psicológica, sus potencialidades y limitaciones. Enseguida,
serán discutidas las definiciones de derechos humanos y su relación con la diversidad sexual. En la tercera
parte, será presentado el tratamiento histórico que la Psicología, especialmente la evaluación psicológica, le
dio a las cuestiones de la diversidad sexual y sus repercusiones a la luz de los derechos humanos. La cuarta
parte analizará el Inventario Factorial de Personalidad (IFP) identificando aspectos discriminatorios. Por fin,
será propuesto qué se espera de una evaluación psicológica atenta a los supuestos éticos que sustentan los
derechos humanos y que contribuya para la construcción del conocimiento en el siglo XXI.
Palabras clave: Evaluación psicológica. Diversidad sexual. Derechos humanos. Igualdad social.

A Psicologia, e, especificamente, a avaliação fomentar a discussão da interface entre


psicológica, é capaz de dar conta dos desafios avaliação psicológica e direitos humanos é
colocados pelos princípios éticos que guiam fundamental para o estabelecimento de bases
a perspectiva dos direitos humanos? Refletir mais objetivas sobre as quais a atuação do
sobre as práticas psicológicas a partir dos psicólogo deve orientar-se. De outra maneira,
direitos humanos requer um posicionamento corre-se o risco de confusão, de demagogia e
crítico, isto é, requer “pensar a formação de interpretações errôneas.
e a atuação dos psicólogos inseridos em
tal contexto de análise e convocá-los para Um campo emblemático que permite ilustrar
pensar nos lugares que eles ocupam, nas como a avaliação psicológica deve atentar
subjetividades que eles estão produzindo” para a promoção e a garantia dos direitos é
(Bicalho, Cassal, Magalhães, & Geraldini, o da diversidade sexual. A reflexão acerca
O autor 2009, p. 20). Soma-se a isso o reconhecimento da diversidade sexual torna-se ainda mais
agradece aos mestres de que o atual Código de Ética profissional urgente diante de sua crescente visibilidade,
Henrique Caetano
não contempla diretamente todas as situações graças, infelizmente, aos constantes relatos de
Nardi e Denise
Ruschel Bandeira pela éticas relativas à avaliação psicológica: “Os agressão, violação de direitos, preconceito e
orientação ao longo avanços da ciência psicológica e as crescentes discriminação (Costa, Peroni, Bandeira, & Nardi,
da escrita deste ensaio
e aos amigos Heitor demandas sociais têm produzido novas 2012), reflexões essas reconhecidas no âmbito
Thomé da Rosa Filho, situações para as quais muitas vezes não da Psicologia por parte do Conselho Federal no
Roger Raupp Rios e
temos parâmetros sobre formas apropriadas caderno Psicologia e Diversidade Sexual: Desafios
Pedro Paulo Bicalho
pelos insights valiosos. de atuação” (Hutz, 2009, p. 297). Portanto, para uma Sociedade de Direitos (CFP, 2011).

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Objetivando colaborar para o aprofundamento relação com a avaliação psicológica é recente.


desse debate, este texto percorrerá algumas Apenas em 2010 surgem textos que discutem
etapas. Na primeira parte, será exposto claramente tal relação, especialmente com
o debate acerca da relação entre direitos as publicações: Avaliação Psicológica:
humanos e avaliação psicológica, suas Diretrizes na Regulamentação da Profissão
potencialidades e limitações. Em seguida, (2010), Ano da Avaliação Psicológica – Textos
serão discutidas as definições de direitos Geradores (2011) e o Relatório do Ano
humanos e sua relação com a diversidade Temático da Avaliação Psicológica (2013). Dois
sexual. Na terceira parte, será apresentado argumentos recorrentes nesses textos são, em
o tratamento histórico que a Psicologia, primeiro lugar, o reconhecimento de que os
especialmente a avaliação psicológica, deu testes psicológicos foram criados em uma
às questões da diversidade sexual e suas perspectiva adaptacionista e que “o ato de
repercussões à luz dos direitos humanos. A avaliar implica a emissão de juízos e valores”
quarta parte analisará o Inventário Fatorial (Anache, 2011, p. 17); em segundo lugar, a
de Personalidade (IFP) identificando vieses ideia de que, para estar de acordo com os
As várias discriminatórios. Por fim, será proposto o direitos humanos, é necessário “atentar para
reedições do que se espera de uma avaliação psicológica as características técnicas dos instrumentos
Código de atenta aos pressupostos éticos que embasam (como as diferentes evidências de validade e
Ética atestam
essa tendência, os direitos humanos e que contribua para a fidedignidade)” (Reppold, 2011, p. 24).
sendo que, construção do conhecimento no século XXI.
em sua última O primeiro ponto destaca que, historicamente,
revisão, logo no
primeiro princípio Direitos humanos e avaliação a avaliação psicológica fomentou práticas
fundamental, psicológica de exclusão social, sobretudo dado que a
lê-se que “o avaliação “era reduzida à administração de
psicólogo
testes isolados sem levar em consideração
baseará seu Desde a década de 70, com a publicação
trabalho no o contexto da aplicação, nem mesmo a
do primeiro Código de Ética profissional,
respeito e na necessidade de adaptação dos instrumentos
promoção da o Conselho Federal de Psicologia (CFP)
às normas locais” (Reppold, 2011, p. 23). Esse
liberdade, da tem atentado para a temática dos direitos
dignidade, da tipo de prática ainda se faz presente, uma vez
humanos. Essa discussão se fortaleceu durante
igualdade e da que a maioria das infrações éticas denunciadas
integração do ser a década de 90 com a criação da Comissão
Nacional de Direitos Humanos do CFP e, ao Conselho Federal de Psicologia trata de
humano, apoiado
nos valores que posteriormente, com a obrigatoriedade de queixas com respeito à avaliação psicológica,
embasam a como: a extrapolação do uso dos testes
Declaração
se criar comissões de direitos humanos nos
Conselhos Regionais. As várias reedições a situações diferentes daquelas para as
Universal dos
Direitos Humanos” do Código de Ética atestam essa tendência, quais foram projetados, declarações falsas
(CFP, 2005, p. 7). ou limitadas a partir dos testes e falta de
sendo que, em sua última revisão, logo
no primeiro princípio fundamental, lê-se confidencialidade (Anache & Reppold, 2010).
que “o psicólogo baseará seu trabalho no
O segundo ponto remete à responsabilidade
respeito e na promoção da liberdade, da
dignidade, da igualdade e da integração científica, ou seja, à constatação de que, a
do ser humano, apoiado nos valores que partir da qualidade dos testes, verificada em
embasam a Declaração Universal dos Direitos estudos que demonstram seus fundamentos
Humanos” (CFP, 2005, p. 7). científicos, evidências de validade e
fidedignidade e respeito à complexidade
Embora a preocupação mais genérica com das técnicas, estaria garantida a atenção aos
os direitos humanos figurasse em algum direitos humanos. O caminho para levar
grau nas regulamentações do CFP, a sua em conta essa responsabilidade tem sido

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reportar-se ao Sistema de Avaliação dos Testes certificar a qualidade dos instrumentos e


Psicológicos (SATEPSI) criado pela Resolução estão em direta consonância com o sentido
mais amplo dos princípios fundamentais
CFP nº 002/2003. A resolução estabelece que que são tratados na Declaração dos
1 Em março de
2012, o CFP publica
deve ser criado de um sistema de avaliação Direitos Humanos, pois buscam reconhecer
a Resolução CFP por pares das diferentes técnicas psicológicas instrumentais que atingem padrões de
nº 005/2012, que qualidade mínimos para uma prática
disponíveis no Brasil de acordo com critérios
modifica a Resolução cientificamente reconhecida, como
técnicos mínimos, a saber: forma de colocar o conhecimento e os
CFP n.º 002/2003.
A nova resolução instrumentos psicológicos disponíveis à
inclui os requisitos I - apresentação da fundamentação sociedade, de maneira responsável. (Primi,
éticos e de defesa dos teórica do instrumento, com especial 2011, p. 56)
direitos humanos que ênfase na definição do construto,
os testes psicológicos sendo o instrumento descrito em seu
aspecto constitutivo e operacional, É evidente que a implementação do SATEPSI
deverão atender
para que possam ser incluindo a definição dos seus possíveis modificou o panorama de mau uso das
reconhecidos como propósitos e os contextos principais técnicas de avaliação psicológica no Brasil.
testes em condição para os quais ele foi desenvolvido;
Antes do estabelecimento do sistema, como
de uso. A resolução II - apresentação de evidências empíricas
de validade e precisão das interpretações relembra Hutz (2009), os testes utilizados
estabelece, dentre
outras regras, que os propostas para os escores do teste [...]; no Brasil corriqueiramente utilizavam
psicólogos não poderão III - apresentação de dados empíricos dados oriundos de países economicamente
elaborar, validar, sobre as propriedades psicométricas
dos itens do instrumento;
desenvolvidos. As normas relativas a esses
traduzir, normatizar,
IV - apresentação do sistema de correção países, entre outras, induziam a uma avaliação
comercializar e
fomentar instrumentos e interpretação dos escores [...]; não condizente com indivíduos de outros
ou técnicas psicológicas V - apresentação clara dos grupos sociais que não os do contexto de
para criar, manter ou procedimentos de aplicação e
correção, bem como as condições nas origem dos instrumentos. O controle exercido
reforçar preconceitos,
estigmas ou quais o teste deve ser aplicado [...]; pelo CFP através do SATEPSI elevou a
estereótipos. Além VI - compilação das informações indicadas qualidade dos testes disponíveis no País e a
disso, estabelece que é acima, bem como outras que forem
atuação dos psicólogos nessa área. Por outro
vedado ao psicólogo, importantes em um manual [...] (CFP,
2003, pp. 2-3) lado, ainda que a resolução que regulamenta
na produção,
validação, tradução, o SATEPSI afirme ser necessária a “revisão
normatização, A prática profissional dos psicólogos que periódica das condições dos métodos e
comercialização e empregam essas técnicas passa então a ser técnicas utilizados na avaliação psicológica,
aplicação de testes
vinculada à utilização daqueles instrumentos com o objetivo de garantir serviços com
psicológicos: a)
realizar atividades listados pelo sistema. A esse respeito: qualidade técnica e ética à população usuária
que caracterizem desses serviços” (CFP, 2003, p. 1), não há
negligência, O SATEPSI eleva a qualidade dos menção, tanto na Resolução CFP nº 002/2003
preconceito,
instrumentos de avaliação psicológica quanto na Resolução CFP nº 006/2004 que a
exploração, violência,
crueldade ou opressão, utilizados pelos profissionais da altera, aos procedimentos a serem adotados
b) induzir a convicções área e prima pela atenção aos para que se assegure essa qualidade ética.
políticas, filosóficas, direitos humanos, uma vez que Além disso, não há uma só menção nessas
morais, ideológicas,
religiosas, raciais, de
baseia os critérios de avaliação da resoluções a respeito de direitos humanos
orientação sexual, c) qualidade dos testes em estudos e de seus princípios, ficando as resoluções
favorecer o uso de que comprovem seus fundamentos restritas a critérios técnicos1 Esses pontos
conhecimento da científicos (isto é, que sejam baseados de vista parecem sustentar, por um lado, a
ciência psicológica e
normatizar a utilização em evidências empíricas e normas crença de que, ao se estabelecerem critérios
de práticas psicológicas atualizadas). (Reppold, 2011, p. 25) psicométricos mínimos de validade e de
como instrumentos fidedignidade dos instrumentos, também se
de castigo, tortura ou Ou ainda:
qualquer forma de
garantirão critérios éticos, ou seja, a crença
violência (CFP, 2012a). na ambivalência entre critérios técnicos e
Os critérios [do SATEPSI] são meios de

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éticos. Por outro lado, adotam uma visão ser dada absoluta prioridade nas políticas
muito ampla de direitos humanos, que leva nacionais e internacionais: o direito à vida,
a uma noção genérica de violação desses o direito a um nível mínimo de segurança,
direitos; perde-se, assim, a especificidade a inviolabilidade da pessoa humana, a
dos direitos violados em questão. Para evitar liberdade física e a não discriminação. Eles
os riscos de ineficácia da aplicação dos ainda incluem a liberdade de pensamento,
princípios dos direitos humanos presentes o direito a nutrição adequada, a vestimenta,
nesses pontos de vista, faz-se necessário tanto a abrigo e a assistência à saúde (Sepúlveda
estabelecer de que forma se pode garantir a et al., 2004).
qualidade ética dos instrumentos (se somente
através da responsabilidade científica ou Por sua vez, a temática dos direitos sexuais
não) quanto distinguir, dentre os direitos ganha fôlego com a construção, no âmbito
humanos, aqueles fundamentais, para que dos movimentos de mulheres, da terminologia
se identifique qual perspectiva ética se busca. saúde e direitos reprodutivos e das estratégias
derivadas da política de enfrentamento ao HIV/
Direitos humanos e AIDS. Analistas apontam como fundamental
diversidade sexual para a afirmação dos princípios associados aos
direitos sexuais a Conferência Internacional
Direitos humanos são usualmente definidos de População e Desenvolvimento realizada
como direitos fundamentais inalienáveis e no Cairo, em 1994, e a IV Conferência sobre
inerentes a todas as pessoas, simplesmente a Mulher, realizada em Pequim, em 1995
porque ele ou ela é um ser humano (Simões & Facchini, 2009). A partir dessas
(Sepúlveda, van Banning, Gudmundsdóttir, conferências, o campo político relacionado
Chamoun, & van Genugten, 2004), e à saúde e aos direitos reprodutivos passa
também podem ser entendidos como a congregar uma série de reivindicações
o conjunto de valores consagrados em regulatórias nos âmbitos da violência sexual,
instrumentos jurídicos destinados a fazer DST/AIDS, nupcialidade, divórcio, separação
respeitar e concretizar as condições de e adultério, prostituição e orientação sexual,
vida que possibilitem a todo ser humano sob a égide, então, de direitos sexuais.
manter e desenvolver suas qualidades
peculiares. Os direitos humanos diferem Nos debates sobre diversidade sexual e
de outros tipos de direito por duas razões direitos humanos, cuja invocação se revelou
centrais: 1) são universais (aplicáveis em mais fundamental e capaz de proteger os
todos os lugares) e 2) são igualitários (os homossexuais, foram discutidos o direito
mesmos para todos). Desde a fundação de privacidade e liberdade, o direito de
da Organização das Nações Unidas, em igualdade e o de proteção da dignidade da
1945, a noção de direitos humanos ganhou pessoa humana (Rios, 2011). O direito de
importância. No entanto, foi a Declaração privacidade protege os homossexuais face à
Universal dos Direitos Humanos, lançada discriminação em virtude da sua orientação
em 10 de dezembro de 1948, que fundou os sexual com respeito à vida privada. A
alicerces do conceito moderno. A declaração privacidade possibilita aos indivíduos, de
é constituída por 30 artigos. Dentre eles, é forma autônoma, a tomada de decisões quanto
possível distinguir aqueles que dizem respeito aos objetivos e aos estilos de vida; já o direito
a necessidades materiais e não materiais à igualdade veda tratamentos prejudiciais
que, caso não sejam providas, ferirão a baseados na orientação sexual. Desse modo,
dignidade da existência humana. Esses restrições de direitos não autorizadas em
direitos fundamentais são aqueles a que deve lei (por ex., a proibição de manifestações

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de afeto entre homossexuais idênticas Psiquiátricas da American Psychiatric


àquelas admitidas para heterossexuais) Association, o homossexualismo figurava
bem como restrições de direitos fundadas entre os transtornos de identidade sexual.
em preconceito (por ex. restringir a adoção Respaldados por essas classificações
a casais heterossexuais sob o pretexto de diagnósticas, muitos Estados norte-americanos
danos à criança) caracterizam violação do aprovaram leis que feriam a compreensão
direito à igualdade. Por fim, a proteção da contemporânea de direitos sexuais. Essas
dignidade humana é compreendida como leis, sob a figura da sodomia, garantiam a
o reconhecimento do valor único de cada permanência indefinida dos homossexuais
vida humana, merecedora de respeito e em instituições terapêuticas até que fossem
consideração. Na esfera da sexualidade, declarados curados (Herek, 2010). Técnicas
esse direito pressupõe que ninguém seja que hoje podemos considerar tortura foram
afrontado em virtude de orientação sexual utilizadas para alterar o comportamento
(Rios, 2011). sexual (Gilman, 1985). Esses tratamentos
foram responsáveis por intenso sofrimento
Psicologia e diversidade sexual psíquico e físico, levando, em muitos casos,
a sequelas permanentes e ao suicídio
E o que a Psicologia tem a dizer sobre isso? (Haas et al., 2010). Durante esse período,
Historicamente, a Psicologia teve papel abundam instrumentos desenvolvidos
central na legitimação e na perpetuação para o diagnóstico da homossexualidade,
do estigma relacionado às orientações não dentre eles, os indicadores diagnósticos da
heteronormativas (Gilman, 1985). Embora homossexualidade no desenho da figura
relatos do desejo e de comportamentos humana (Gardner, 1969) e a interpretação
não heterossexuais remontem a diferentes do Teste Rorschach, segundo Schaffer (como
sociedades e períodos históricos, a ideia de citado por Andersen & Seitz, 1969). Esses
que esses comportamentos são dignos de testes buscavam diferenças clínicas entre
atenção científica (Foucault, 1998) começou heterossexuais e homossexuais, diferenças
a ganhar importância no final do século XIX, que, quando constatadas, justificavam
graças à ciência médica e jurídica da época. déficits psicológicos dos homossexuais em
Isso se deu através da implantação de um relação aos heterossexuais, contribuindo
discurso científico que visava a normalizar para a manutenção do estatuto de patologia.
a sexualidade através da sua submissão Esses trabalhos não levavam em conta, por
a uma taxonomia rígida e valorativa, ou exemplo, que tais problemas poderiam
seja, a ciência sobre a sexualidade teve ser fruto da grande segregação social e do
como contrapartida o desenvolvimento estigma vivenciado por esse grupo.
de uma clínica das perversões sexuais, na
qual a heterossexualidade monogâmica O panorama começa a mudar no final da
foi considerada padrão de normalidade, década de 40, com a publicação de uma
e as demais práticas sexuais e afetivas, série de estudos oriundos da Antropologia,
especialmente a homossexualidade, foram que mostravam que a homossexualidade
consideradas patologia (Herek, 2010). está presente em diferentes culturas. É
também dessa época o trabalho de Alfred
Boa parte do século XX testemunhou a Kinsey, Pomeroy e Martin colaboradores,
cristalização da interpretação dominante que, em 1948, publicam seu livro sobre
da ciência psicológica a respeito da o comportamento sexual dos homens
homossexualidade. Nas duas primeiras americanos constatando que experiências
edições do Manual Diagnóstico de Doenças homossexuais são relativamente comuns. São

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da mesma época os trabalhos seminais de a homossexualidade a indicadores de


Evlyn Hooker (1957, 1958). Essa pesquisadora transtornos psicológicos. No momento
conduziu o primeiro estudo comparando em que a homossexualidade deixa de ser
amostras não clínicas de homossexuais e tomada como um problema médico, a
heterossexuais buscando evidência do caráter atenção nesse campo recai sobre aqueles
patológico da homossexualidade. Hooker que a consideram um desvio moral, uma
aplicou o Teste Rorschach em 30 homens doença ou perturbação. George Weinberg
heterossexuais e em 30 homossexuais, publica, em 1972, Society and the Healthy
nenhum dos quais com indicadores de Homossexual (A Sociedade e o Homossexual
psicopatologia. Em seguida, Hooker pediu Saudável), introduzindo o termo homofobia:
para que avaliadores cegos identificassem de “Homofobia é o pavor de estar próximo
qual grupo provinham os protocolos e quais a homossexuais – e no caso dos próprios
deles apresentavam alguma caraterística homossexuais, auto-aversão” (Weinberg,
psicopatológica. Os juízes classificaram a 1972, p.8). O livro popularizou o termo e
maioria dos homossexuais e heterossexuais introduziu o preconceito contra orientações
da mesma forma e na categoria mais alta de não heterossexuais como um problema
ajustamento social. Hooker concluiu que acadêmico digno de análise e intervenção. O
a homossexualidade não constituía uma termo foi adotado por ativistas e incorporado
entidade clínica e não deveria estar associada pela Academia, especialmente dentro do
à psicopatologia. Além disso, o trabalho campo de estudos do preconceito, o qual
desse autor questionou o uso da avaliação tinha se preocupado em décadas anteriores
psicológica para identificar a orientação com os temas de anti-semitismo, racismo e
sexual, afirmando que “sua validade duvidosa sexismo (Young-Bruehl, 1996).
torna o seu valor questionável” (1958, p. 51).
Infelizmente, essas pesquisas foram por Desde essa época, a Psicologia tem se
muito tempo ignoradas, e as orientações dedicado a reverter os danos causados
não heteronormativas foram acriticamente pelo estigma que até então tinha ajudado a
patologizadas e erroneamente tratadas construir. Em 1975, a American Psychological
pela Psicologia até meados da década de Association publica um documento em
70. Outras pesquisas que supostamente que afirma que a homossexualidade por
apoiavam a noção da homossexualidade si só não implica prejuízo, e ainda apela
como psicopatologia foram revisadas para que “todos os profissionais de saúde
(Gonsiorek, 1991), percebendo-se uma tomem a iniciativa de remover o estigma
variedade de problemas, incluindo de doença mental que foi longamente
falta de clareza conceitual, classificação associado às orientações homossexuais”
inadequada dos participantes, grupos de (Conger, 1975, p. 633). Quase 25 anos mais
comparação inapropriados, amostragem tarde, o mesmo acontece no Brasil com
falha, não observância de fatores sociais a Resolução CFP nº 001/99, que, no seu
possivelmente correlacionados e uso de segundo artigo, informa que os psicólogos
medidas questionáveis. deverão contribuir “para uma reflexão
sobre o preconceito e o desaparecimento
Em 1973, a American Psychiatric Association de discriminações e estigmatizações contra
remove a homossexualidade da terceira aqueles que apresentam comportamentos ou
edição do seu Manual Diagnóstico de práticas homoeróticas” (p. 2). As pesquisas,
Doenças Mentais (DSM III) graças a pressões que, até o momento, eram voltadas para a
do movimento pelos direitos sexuais LGBT e cura e os diagnósticos da homossexualidade,
à falta de bases empíricas que associassem passam a buscar as raízes do preconceito e

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as estratégias para revisar práticas psicológicas em 15 necessidades psicológicas, a saber:


discriminatórias, dentre elas a avaliação assistência, dominância, ordem, denegação,
psicológica (Snyder, 2011). Em 1991, a intracepção, desempenho, exibição, afago,
APA publica um documento orientando a mudança, persistência, agressão, deferência,
revisão das práticas psicológicas levando em autonomia, afiliação e heterossexualidade.
conta vieses preconceituosos (APA, 1991), e, Cada necessidade compõe uma escala de
devido à visibilidade abjeta e patologizada a nove itens que devem ser avaliados em uma
que a população LGBT foi sujeita, a validade escala tipo Likert de 7 pontos, que vai de “1
de diversos instrumentos passou a ser = Nada característico” até “7 = Totalmente
questionada tendo em vista essas populações. característico”. Além disso, o teste possui
uma escala de desejabilidade social (12
Vieses discriminatórios na itens) e outra de mentira ou validade (8
avaliação psicológica itens), totalizando 155 itens. A adaptação
brasileira foi realizada por Pasquali, Azevedo
Chernin, Holden e Chandler (1997) revisaram e Ghesti (1997) com uma amostra de 3.399
uma série de testes de grande uso nos Estados sujeitos oriundos de 11 Estados brasileiros. O
Unidos, dentre os quais o Inventário Beck instrumento foi avaliado e aprovado para uso
de Depressão e o Inventário Multifásico pelo SATEPSI em 2003, sendo que, na última
de Personalidade de Minnesota – MMPI. publicação da lista de testes com parecer
Os autores sugerem três vieses que devem favorável para uso, em novembro de 2012,
ser levados em conta quando se avaliam o inventário mantinha-se presente2.
instrumentos tendo em vista as populações
LGBT: de omissão, de conotação e de A análise do IFP permite constatar alguns
contiguidade. O viés de omissão ocorre quando vieses, de acordo com Chernin, Holden e
a linguagem utilizada pelo instrumento ignora Chandler (1997). No que diz respeito aos
a possibilidade de o respondente pertencer a itens que compõem o instrumento, é possível
um grupo minoritário. O segundo tipo de viés encontrar exemplos do viés de omissão. Na
é o de conotação, e ocorre quando palavras escala de heterossexualidade (HT), itens
de conotação negativa são associadas a grupos como “gosto de beijar pessoas atraentes do
minoritários. Palavras como homossexual, por sexo oposto” aparecem ao lado de “gosto
exemplo, aparecem em conjunto com termos de ficar sexualmente excitado”, (Pasquali,
como alcoolista, fetichista e desajustado, Azevedo, & Ghesti, 1997, p. 26). Isso sugere
sugerindo uma categorização negativa da que o teste busca avaliar interesse sexual
homossexualidade. O terceiro viés é o de heterossexual, ficando o interesse sexual
2 Em outubro
de 2012, o CFP contiguidade, que se dá quando escalas com homossexual omitido do instrumento, uma
divulgou uma nota o objetivo de avaliar psicopatologia aparecem vez que não é possível, ao mesmo tempo,
de orientação aos sentir-se atraído por pessoas do mesmo sexo
em conjunto com escalas cujo objetivo é
psicólogos(as) a
caracterizar grupos minoritários. e interessado em excitação sexual. A escala
respeito do IFP,
recomendado HT foi originalmente criada para avaliar “o
cautela no seu Usando uma metodologia similar, Pope (1992) desejo de manter relações, desde românticas
uso, uma vez que até sexuais, com indivíduos do sexo oposto.
apontou vieses preconceituosos em outros
“supostamente possa
infringir preceitos instrumentos, dentre eles o Edwards Personal O sujeito com alto índice nesse fator é
constitucionais Preference Schedule (1954). O teste apresenta fascinado por sexo e por assuntos afins” (p.
fundamentais” e uma versão nacional, amplamente utilizada 39), no entanto, no manual do instrumento,
reforçando seu um jovem com escores extremamente baixos
em nosso contexto, chamada de Inventário
parecer favorável
para uso (CFP, Fatorial de Personalidade (Pasquali, Azevedo, nessa escala é interpretado da seguinte forma:
2012b). & Ghesti, 1997), que visa a avaliar o indivíduo “para um jovem de tal idade (22 anos), o

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interesse pelo sexo parece anormalmente foram avaliadas com qualidade quando se
ausente (seria repressão?)” (p. 57). O teste apresentavam de maneira clara, precisa e
não supõe que o jovem em questão possa adequada à população para a qual o teste
ser homossexual; no lugar disso, interpreta o se destinava. Concluiu-se que, dentre os
escore como heterossexualidade reprimida, instrumentos que apresentavam pontuação
ou seja, de forma negativa, o que constitui máxima em todos os critérios, estava o IFP.
um claro viés de conotação. Por fim, a mera Em outro estudo (Lima & Noronha, 2005),
presença da escala HT no teste constitui viés psicólogos e estudantes de pós-graduação
de contiguidade, já que o IFP é amplamente em Psicologia foram solicitados a avaliar
utilizado em contextos subclínicos (Peres &
a qualidade de testes, dentre eles o IFP.
Santos, 2006; Irigaray & Schneider 2007),
No primeiro bloco da avaliação, estavam
em que a homossexualidade é associada,
informações pertinentes relacionadas ao
implicitamente, à psicopatologia. É digno
nome, editora, ano de publicação e variável
de nota que mesmo os critérios técnicos
avaliada, entre outras; já o segundo bloco
apontam problemas na escala HT. Quando
relacionava informações sobre a construção
o teste é analisado quanto à sua estrutura
e os parâmetros psicométricos. O grupo
fatorial, as necessidades associam-se entre
si, exceto a heterossexualidade (Pasquali, dos pós-graduandos entrou em consenso
Azevedo, & Ghesti, 1997), o que coloca em quanto à alta qualidade do teste; o grupo
questão a relevância dessa escala em relação dos psicólogos, no entanto, apontou falhas,
às demais dimensões do construto avaliado. mas elas diziam respeito apenas à redação
O mesmo acontece em uma revisão recente do seu manual.
da estrutura fatorial do IFP, que apontou que
“a unidimensionalidade dos fatores pode ser Dessa forma, apesar de ter parecer favorável
questionada, o que sugere, pelo menos, que do SATEPSI e de ser um ótimo instrumento
os sujeitos perceberam conteúdos distintos na opinião de pesquisadores, de estudantes
em relação aos itens que formam cada fator” e de psicólogos que atuam na área, fica
(Araújo, 2004, p. 9). evidente que os critérios de reconhecimento
e de validação do instrumento analisado não
O IFP já passou pelo escrutínio de estão totalmente de acordo com os princípios
pesquisadores brasileiros em pelo menos
de promoção e de garantia dos direitos
duas oportunidades. A qualidade dos
humanos. O instrumento fere claramente
testes de personalidade disponíveis no
o direito à proteção da dignidade humana,
mercado brasileiro foi avaliada (Noronha,
uma vez que trata a homossexualidade de
2002) de acordo com os seguintes critérios:
maneira negativa, e o direito de igualdade,
qualidade do material, da documentação,
3 Devido a já que parte do pressuposto de que o
especificidades dos itens e das instruções. Por qualidade
na indexação e de material, entendeu-se a qualidade dos respondente do teste é heterossexual. Além
no arquivamento objetos, dos materiais impressos (folha de disso, o uso indiscriminado desse instrumento
dos processos pode promover encaminhamentos
do Tribunal resposta, cadernos e outros), do manual e
Regional Federal dos livros suplementares. A qualidade da equivocados com base na interpretação dos
da 4ª Região, o documentação referia-se à descrição clara seus resultados, como no caso da seleção
referido processo de pessoal em que o IFP é amplamente
e completa das características técnicas,
não pode ser
localizado, o que fundamentadas em dados e referências utilizado. Isso fica explícito no relato de
justificou a citação satisfatórias. A qualidade dos itens, por sua um processo julgado pelo Juiz federal
de comunicação vez, dizia respeito à redação e à adequada Roger Raupp Rios (comunicação pessoal,
pessoal do juiz
autor da sentença. seleção dos itens, e, por fim, as instruções 31/10/2011)3 segundo o qual:

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evidente que temos melhores noções de


Em um processo judicial se discutiu a personalidade hoje do que tínhamos na
eliminação em concurso público para
cargo de agente policial federal. O autor foi
época da criação da teoria que embasa
considerado inapto no processo seletivo, o instrumento. Revisões das teorias que
em virtude de laudo psicológico. Requereu embasam os testes são necessárias, mas é
em juízo o acesso ao conteúdo do laudo preciso ir além. A prática psicológica tem
e impugnou o motivo da exclusão, qual
seja, não ter satisfeito determinada constituído ferramenta de adequação e
escala de heterossexualidade, apontada de ajustamento por não se perguntar o
pelo avaliador como necessária para o suficiente a respeito de suas técnicas, que
exercício do cargo. Uma vez chamada
são datadas historicamente, instituindo, dessa
para explicar em que consistia tal escala,
a administração limitou-se a indicar forma, “modelos de ser e de estar no mundo
como parâmetro a média alcançada segundo padrões de normalidade produzidos
pelos concorrentes na tal escala, sem como únicos e verdadeiros, inferiorizando
justificar qual a relação de tal índice de
heterossexualidade com o exercício do
e desqualificando os lugares ocupados
cargo, nem fornecer elementos objetivos pelos chamados diferentes, anormais,
acerca dela. Considerar a orientação sexual perigosos” (Bicalho, 2011, p. 90). Para que
como impedimento para assumir cargo é se contemplem princípios de qualidade ética
violar o direito humano de igualdade.
na avaliação psicológica, de acordo com os
direitos humanos, essas diferenças precisam
Considerações finais
estar contempladas, não excluídas.
No exemplo citado, percebe-se como um
No Brasil, a Psicologia avançou no
instrumento pode estar em perfeita harmonia
reconhecimento e na promoção dos direitos
com os critérios técnicos estabelecidos e
humanos em sua relação com a avaliação
com o sistema regulatório, i.e., ser válido na
psicológica ao ser publicada a Resolução
opinião dos profissionais da área e, mesmo
nº 005, de 2012, porém, muitos desafios
assim, estar em desacordo com critérios
precisam ser enfrentados. A psicologia
éticos. A discussão centrou-se na questão da
norte-americana é um exemplo de como
diversidade sexual, mas o mesmo pode estar
uma instituição que teve um papel central
ocorrendo em outras temáticas que envolvem
na legitimação de um estigma foi capaz
marcadores sociais, como aqueles ligados a
de reconhecer sua cumplicidade nesse
classe, idade, escolaridade, raça/cor e religião,
processo e de trabalhar para desfazer seus
entre outros. Convém perguntar por que isso
efeitos negativos. O presente artigo sinaliza
tem ocorrido:
o problema dos vieses discriminatórios
A teoria ainda é, infelizmente, a parte presentes na avaliação psicológica, há muito
mais fraca da pesquisa e do conhecimento estudados no contexto estadunidense.
psicológicos, o que tem como consequência Em um país caracterizado por diferenças
a precariedade dos atuais instrumentos
sociais, culturais e econômicas tão marcantes
psicométricos e medidas nesta área.
[...] Apesar do avanço e da sofisticação como o Brasil, o trabalho de revisão de
estatísticos na psicometria, parece ser técnicas psicológicas deve ser constante, e os
essa fraqueza da base teórica que vem profissionais formados na área precisam ser
maculando a imagem dos procedimentos
psicométricos de observação dos capazes de realizar tal revisão.
fenômenos psicológicos. (Pasquali, 2010,
pp. 166-167) Uma direção para essa revisão pode ser extraída
do artigo de Herek e colaboradores (1991).
O IFP é baseado na teoria das necessidades A partir das posições dos autores, é possível
psicológicas básicas de Murray (1938), e é observar algumas questões. Esse instrumento

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ignora ou nega a existência de algum grupo tem como alvo? As características avaliadas
social? Esse instrumento estigmatiza algum reforçam problemas ou patologias nesses
grupo social? Esse instrumento reflete grupos? A linguagem da interpretação
estereótipos a respeitos desses grupos? Esse apresenta vieses discriminatórios?
instrumento sugere implicitamente que as
características avaliadas são causadas por Para que se a Psicologia contribua para a
algum atributo intrínseco desses grupos? Os construção do conhecimento no século XXI,
itens contemplam a diversidade? Quanto deve-se ter em mente que a investigação
à amostra: A amostra é representativa? Ela dos seus pressupostos, no que diz respeito
inclui diversidade o suficiente para permitir a vieses discriminatórios, é um importante
uma interpretação acurada? Já quanto ao passo para que a prática psicológica sirva
processo de interpretação: O processo de para todos e todas, independentemente de
aplicação do instrumento reforça estigmas, suas diferenças.
tem efeitos negativos nas populações que

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Angelo Brandelli Costa


Mestre em Psicologia Social pela Univesidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre – RS – Brasil.
E-mail: brandelli.costa@ufrgs.br

Henrique Caetano Nardi


Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e docente do Instituto de Psicologia da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre – RS – Brasil.
E-mail: hcnardi@gmail.com

Endereço para envio de correspondência:


Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Rua Ramiro Barcelo, 2600. CEP: 90040-060. Porto Alegre, RS.

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