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Digitalizado pelo Arquivo Histórico José Fereira da Silva - Blumenau - SC

BRUSQUE É UMA DAS MAIS RICAS,

PRÓSPERAS E APRAZíVEIS CIDADES DA BACIA


DO ITAJA!.

SUAS INDÚSTRIAS SE ORGULHAM DE


PRODUZIR ARTIGOS QUE RIVALIZAM COM O
QUE HA DE MELHOR NO BRASIL.

PREPARE.SE DESDE JA PARA VISI.


TAR BRUSQUE EM 1960, ANO DO SEU CENTE-
NÁRIO.

Cooperacão de Carlos Renaux S I A .

................................................................................................................
: :
~
· Blu ... enftu e... Cadernos i.
Mensário dedicado à história e aos interêsses do Vale do ltajaí
Assinatura 12 números .. . ..... Cr$ 100,00
Número avulso ..... .. ....... . Cr$ 10,00

··: Administração e responsabilidade de Luiz Ferreira da Silva.


Tôda a correspondência deverá ser dirigida a
i Blumenau em Cadernos
~
·i Caixa Postal, 425

·:....................................................................................... .......................
BLUMENAU - S. CATARINA
'

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em" CADERNOS
u
I Tomo I I Número 6 I Abril de 1958 I
rág inas do meu Ye l ~o ar~uiYo
Uma entrevista com C urt H ering
Nemésio DEUSI

MEU OBJETIVO ao entrevistar o Sr. Curt Hering, era, na época de

O 1942, em plena guerra, situar as fôrças democráticas e as totalitá-


rias, em função do próprio mundo em que vivemos.
Empolguei-me de tal forma pela palestra do entrevistado, que acre-
dito ter me alongado demais. Mas ... onde cortar a entrevista? Não! Não
cometeria tamanho crime contra a elegância de um amigo que desfilou
diante da minha maior curiosidade, uma formação cultural que bem sei,
foi conseguida através do árduo trabalho, que a faculdade da vida lhe
ensinou e que êle tão sàbiamente empregou em todos os momentos de sua
admirável e útil existência de homem probo e capaz.
Vamos portanto à entrevista na sua segunda fase em que tratamos
do comunismo como fôrça totalitária.
- Sr. Curt Hering: depois de ouvir um verdadeiro hino histórico
de fé democrática, gostaria que o Sr. me falasse do comunismo, sua dou-
trina e seus efeitos sôbre a grandeza democrática.
- Sr. Heusi, o Sr. sabe melhor do que ninguém que a doutrina co-
munista é uma utopia. Mas, antes de irmos buscar na história a própria
história quimérica da doutrina comunista, vou abrir um parêntesis para
recordar um fato que vem demonstrar a maior preocupação do meu ve-
lho e sempre saudoso pai, Hermann Hering, bem como a do muito saudoso
tio Bruno Hering, que, como o Sr. sabe, foram os fundadores da Compa-
nhia Hering, hoje com mais de sessenta anos de existência. Com pouco
mais ou menos quinze anos de idade comecei a trabalhar junto de meu
pai e de meu tio aqui na emprêsa Hering. Foi uma grande escola e aos
poucos fui sentindo a preocupação dos fundadores desta emprêsa quanto
ao problema social da mesma no que se refere ao lado profundamente hu-
mano do nosso operário. Isto no cotnêço de nosso século, pois a nossa em-
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prêsa foi fundada em 1880, ou seja em fins do século passado. Veja por-
tanto que já naquela época procurávamos a melhor harmonia entre o
Capital e o trabalho..
Vamos agora, depois dêste longo parêntesis, entrar no âmago a
análise da doutrina comunista. A primeira manifestação, realmente comu-
nista, tivemos com o célebre lançamento do "Manifesto Comunista", de
1848, de íntima colaboração de Marx. Êste manifesto, no entanto, não
surtiu o efeito que esperavam os comunistas. Somente em 1867, quando
apareceu pela primeira vez impresso "Capital" de Karl Marx é que te-
ve o comunismo o seu Corão, surgindo então uma legião de comentadores,
"de exegetas e sectários. As teorias marxistas viveram a sua época efêmera
porque não acreditando na harmonia entre o Capital e o Trabalho, cria-
ram um mundo de revoluções pessimistas como se a evolução social do Ca-
pital e do Trabalho fôsse coisa irrealizáveL Citemos um exemplo para si-
tuar-se melhor o pessimismo marxista e conseqüentemente o comunista.
Se fôsse possível Karl Marx ler hoje - passando-me os estatutos da "Ins-
tituição Hermann Hering" para eu ler, e continuou - êstes estatutos que
estão em suas mãos onde a nossa Cia. assiste através da "Instituição Her-
mann Hering" o operário com recursos médicos, hospitalares e farmacêu-
ticos, auxílio refeitório, adicional à aposentadoria concedida pelo IAPI,
seguro de vida em grupo e o que é mais importante: a participação nos
lucros para todos os seus servidores!
- O que aconteceria Sr. Heusi, a Karl Marx e aos comunista.; se les-
sem êsses estatutos?
- Sem dúvida Sr. Curt Hering, tudo isso prova exatamente que o
marxismo e o comunismo não souberam prever a evolução e a harmonia
entre Capital e Trabalho.
- Certo, Sr. Heusi. Êles foram por demais pessimistas. Eu sempre
acreditei e continuo a acreditar na fôrça e no ideal democrático, na liber-
dade ampla e responsável, na evolução cada vez maior da Social Democra-
cia onde o Capital e o Trabalho irmanados pelo mesmo ideal de dignidade
humana possam construir uma Paz duradoura onde a humanidade viva o
seu sublime destino.
E levantando-se como quem dá por encerrada a nossa palestra fi-
nalizou:
- Sr. Heusi aí está situada a doutrina comunista dentro do mundo
democrático: é a sua própria existência! Se comunista fôsse o mundo, ja-
mais sobreviveria a democracia. Basta isto para mostrar a beleza e a gran-
deza do ideal democrata. Eis a nossa verdade histórica!
-*
Decorridos dezesseis anos vou encontrar nas páginas de meu velho
arquivo, esta entrevista que nunca havia publicado antes. Ela não teve
prazo para ser publicada porque em qualquer época sempre estará atuali-
zada. Se vivo fôsse o saudoso Curt Hering estaria completando a oito de
maio próximo, setenta e sete anos de existência. Prestemo-lhe uma ho-
menagem publicando, no mês de seu aniversário, êstes fragmentos da sua
cultura que tanto personalizaram o seu caráter e refletiram em seus
exemplos.
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Relatório5 ÕO Dr. Blurnentlu
~uarto Relatório ~H Colônia Blumenau
Ano de 1853 (1)

.. COLôNIA está situada nas temente como entre os domicilia-


" margens do rio Itajaí-gran- dos já há 15 anos.
de, em distância de seis até Foram estas, principalmente a
sete léguas da costa do mar . O fertilidade e a boa situação das
rio oferece na embocadura, um terras, num rio navegável com
pôrto bom -e seguro contra todos pôrto seguro, à proximidade do
os ventos e a barra do mesmo na mar o clima salubre e a circunvizi-
maré baixa regula um fundo de nhança de muitas terras devolutas
14 até 15 palmos dágua, pelo me- os motivos que me determinaram
nos. fixar o meu estabelecimento no lu-
Fora da barra os morros das gar onde hoje existe, depois de eu
Cabeçudas formam uma abra ou ter viajado por grande parte das
praia bem abrigada contra os ven- províncias do Rio de Janeiro, San-
tos de Leste pelo Sul ao Oeste, os ta Catarina e e Rio Grande do Sul.
quais ordinàriamente são os mais Não me enganei nos meus cál-
fortes, e esta abra pode abrigar os culos relativos à prosperidade do.>
navios da maior lotação. colonos estabelecidos no Itaj aí, en-
O rio está bem navegável para caro-o ainda como a melhor situa-
os iates do país até ao arraial do ção para uma grande emprêsa co-
Belchior, meia légua abaixo da co- lonial nesta província e podendo eu
lônia; dali até o embarcadouro dispor dos meios necessários para
atual da colônia tem duas corren- tal grande emprêsa, não duvidari a
tezas baixas e bastante rápidas que que o Itajaí, num decênio, seria a
dificultam, porém não impedem, a região mais florescente desta p: o-
livre navegação de maneira que víncia .
havendo, no futuro, bastante popu- O sistema da colônia é aqui o
lação para entreter vantajosamen- da emigração espontânea; os colo-
te a carreira de vapores chatos co- nos vêm ordinàriamente às suas
mo se tem nos rios baixos da Ale- custas e somente em raros casos
manha, poderão os mesmos subir eu adianto a passagem. O mesmo
até meia légua acima do atual em- não acontece com os víveres, os
barcadouro da colônia. quais forneci e ainda agora devo
As terras do Itajaí. geralmente fornecer ou adiantar à maior par-
são celebradas na Província de te dos colonos, ficando êles obriga -
Santa Catarina pela sua uberdade. dos à restituição das quantias
e quanto mais rio acima, tanto adiantadas e as suas terras hipote-
mais férteis e mais livres de pânta- cadas por elas até o final do reem-
nos elas se mostram; a mandioca bôlso.
nos morros e taboleiros e a cana Cada pai de família recebe grá-
de açúcar nas vargens dão admirà- tis uma superfície de 50 até 75 mil
velmente, como também milho, braças quadradas, porém alguns
feijão , tabaco etc. etc. e a batata preferiram tomar chãos de casa de
inglêsa fornece ainda boas colhei- 500 até 1000 braças quadradas no
tas e no outono (março a julho) lugar do embarcadouro no rio ou
mesmo excelentes e abundantíssi- da futura povoação para melhor
mos tubérculos enquanto que mais exercerem ali os seus ofícios.
ao norte, na colônia de D.a Fran- Outros mais abastados compra-
cisca, muitas vêzes nem sequer ram terras Ôá cultivadas nas mar-
rende a semente e degenera. gens do rio mais para baixo.
(!) clima é dos mais salubres e Tomando a colônia e sua popu-
até agora tem tido poucos casos de h:ção maiores proporções, preten-
doenças entre os colonos, tanto en- do reservar em cada légua quadra-
trc aquêles que chegaram recen- da mais ou menos terras para lu-
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gar e arraial público, para igreja gui na direção dos negoclOs da co-
e escola e para lotes pequenos. lônia e dos colonos é o mais sim-
t:stes últimos serviriam para ofi- ples - reconhecendo os meus co-
ciais de ofícios, que não pudessem lonos, quase sem exceção alguma
muito trabalhar na lavoura e para entre êles, com gratidão e confian-
famílias indigentes, as quais nêles ça os meus esforços pela sua pros-
se poderiam estabelecer sem gran- peridade, estou considerado por
des despesas e ganhar em poucos êles mais como amigo dedica-
anos, em jornais, os meios neces- do do que como diretor e não
sários para poderem comprar sendo o seu número muito grande,
maior superfície e nela se estabe- muitas dificuldades se aplainam
lecer. com facilidade que em outras co-
De agora em diante, porém, não lônias deram ocasião para desgos-
poderei continuar de outorgar as tos e conflitos. Desta maneira, 'con-
terras grátis aos colonos mas hei segui convencer a maior parte dos
de vender-lhes as mesmas por pre- meus colonos para trabalhos públi-
ço barato ; sendo esta a única ren- cos por um jornal tão módico que
da que pretendo e posso tirar da os outros moradores recusaram de-
colônia e dos colonos e exigindo a cididamente de tomar parte nêles,
emprêsa bastante gastos não pos- e de executá-los por preço muito
so prescindir dela, mas ainda as- mais barato que em circunstâncias
sim recompensa somente de muita ordinárias.
modicidade o trabalho e o capital Como não aspiro supremacia al-
que já envolve e ainda sempre re- guma sôbre os colonos, tratando-
quer. os cuidadosamente com a mesma
A colônia e os colonos prospe- urbanidade e correção, que exijo
raram desta maneira, porém assim dêles contra mim, espero que tam-
não é emprêsa que pode fornecer bém no futuro, quando houver
lucros nem os usuais e qualquer maior população as minhas rela-
outro negócio rendê-Ios-ia maio- ções para com os colonos sejam
res; as vantagens indiretas que re- sempre mais aquelas de um vizi-
caem em proveito de um grande nho e amigo do que de um supe-
círculo de moradores e mesmo do rior.
estado, são maiores do que os di- Todavia, será conforme o pro-
reitos em proveito do empreende- grama que publiquei na Alemanha
dor. De outro lado, prosseguindo- sôbre a minha emprêsa, no futuro
se em tal emprêsa como meio de e quando houver na colônia ao me-
grande lucro, no meu ver nunca nos vinte e cinco famílias, um con-
poderá prosperar e tomar propor- selho comunal no qual me reservei
ções grandes e duráveis e por isso um assento e voto sendo os ou-
era de desejar que o govêrno tomas- tros membros do mesmo eleitos li-
se êsses negócios inteira e direta- vremente pelos colonos; êste con-
mente em sua mão; eu expus esta selho dirigirá, sem pr~udicar ou
opinião em diversas memórias, que querer subtrair-se à jurisdição das
tive a honra de oferecer ao Go- autoridades do país, os negócios in-
vêrno Imperial, e conservo-a ainda ternos da colônia concernentes às
hoje. obras comunais urgentes, para as
E ' reservado aos grandes cabe- quais não houver consignação de
dais de prosseguir em tais emprê- meios da parte da Província ou do
sas com vantagem pecuniária; Govêrno Imperial, ao culto Evan-
aquelas de menor escala, como a gélico e outros desta espécie que
minha não se podem sustentar se- não pertencem ao fôro das auto-
não com a maior dedicação e amor ridades do país. Exercerá também
à causa e com efetivos sacrifícios uma espécie de baixa políCÍ3 , quan-
pecuniários. A expenencia neste to fôr compatível com as leis em
país evidencia que quase sempre vigor, para evitar ou compor
se arruinavam os empreendedores rixas e desavenças entre os colo-
e queira Deus que não me aconte- nos, e enfim êstes se obrigam for-
ça o mesmo; que eu não perca in- malmente, na entrada da colônia ,
teiramente a fortuna que eu trou- de recorrerem em tôdas as dispu-
xe da minha antiga, e o fruto dos tas ou lides que não pertencerem
anos de penoso trabalho que pas- " ex-offício" às autoridades do país,
sei na nova pátria. unicamente à decisão de árbitros;
O regime que eu até agora se- e de se sujeitarem sem renitência
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e sem outra apelação, que não fô r tôdas as colônias alemãs que com
aquela de um segundo e em ca"os êleil fazem negócios .
de maior monta, terceiro tribunal O estado da população da col ô-
de árbitros, à sua sentença. nia se mostra pelo mapa ,~unto
Até agora não havia ocasião de sendo o mais exato possível, toda-
julgar se esta instituição dos ár- via não se pode referir senão à da-
bitros será exeqüível sem dificul- ta em que foi feito . Os solteiros
dades na parte dos colonos, enca- andam trabalhando aqui e acolá,
ro-a porém como a mai" salutar ausentam-se da colônia e em b:-e-
em favor da colonização alemã ve tornam a vir, para depois de
neste país, e a sua função como lei semanas e meses de novo ausenta-
geral e forçosa em tôdas as colô- rem-se. Parece também que diver-
nias alemãs, de maneira que as sas famílias ainda não fixaram de-
autoridades do país deverão exe- finitivamente o seu domicílio; foi,
cutar as decisões dos tribunais de por exemplo assim, que o colono
árbitros a todo transe, faria na Ale- n.O 91 , que no princípio do ano
manha a melhor impressão em fa - presente se ausentara da colônia ,
vor da emigração para o Brasil . e comprara terras já cultas, algu-
Em efeito , a não haver intérpretes mas léguas abaixo da colônia ,
probos e assalariados pelo esta_ as vendia há pouco e me declara-
do e bastante inteligentes para bem va depois da feitura do mapa jun-
entenderem o espírito de ambas to, a sua intenção de voltar à co-
as línguas, é quase impossível que lônia com a sua família de três
as autoridades do país possam for- membros. Pela volta dêle teria
mar decisões justas em questões pois um acréscimo de quatro pes-
dos colonos recém chegados; os co- soas poucos dias depois da feitur a
lonos estabelecidos já há muito do mana No mesmo estão contem
tempo no país mesmo abu- pIados: como já chegados e exis-
sam dos seus conhecimentos tentes, dezesileis pessoas que saí-
da língua , dos costumes, das ram de Hamburgo em meados de
leis e ainda das tortuosida- outubro e neste momento provável-
des destas de uma maneira às mente já se acham na barra dêste
vêzes inteiramente criminosa con- rio. Sendo o chefe ou condutor des-
tra o recém chegado, imperito e ta pequena sociedade um dos meus
cheio de confiança contra os seus mais íntimos amigos, não corro eu
antigos patrícios, o qual quando o risco que, chegados em São Fran-
não achar por acaso um amigo de- cisco , se deixem reter na colônia
sinteressado e conhecedor do país D.a Francisca em prejuízo da mi-
etc. se acha verdadeiramente per- nha. Aconteceu êste caso, porém,
dido e desamparado entre êles, que com algumas famílias e solteiros
de costume estão ligados uns aos do último e penúltimo transportes,_
outros por parentesco, compadres- os quais, atemorizados por falsos
co ou outros vínculos e raras vê- boatos sôbre a mínha colônia , que
zes estragam bons negócios, nos foram de propósito espalhados,
quais êles mesmos não perdem e abandonavam a sua primeira in-
as vêzes ainda ganham, ~m ao ou- tenção, de se estabelecerem na mi-
tro, esperando dêle em ocasião nha colônia , para a qual foram en-
oportuna o mesmo bom serviço . gajados, e ficavam em D.a Fran-
Logo os prejudicados ou díreta- cisca. E ' de lastimar que mesmo
mente logrados clamam na Alema- o diretor daquela colônia se me-
nha contra o país e a pouca pro- tia nestas intrigas pouco decente.> e
teção que as autoridades e a jus- incompativeis com a sua posição.
tiça a êles fornecem , e pôsto que As entradas dêste ano estão mui-
muitas vêzes êles mesmos, a . sua to diminutas e se restringem até
irreflexão e precipitação, sejam as esta data a dezesseis pessoas ; com
causas da sua desgraça, as suas as dezesseis que se espera por ês-
queixas sempre fazem impressão tes dias, o seu número será de trin-
grande e desfavorável na Alema- ta e duas. As entradas desde o
nha e são exploradas pelos inimi- princípio da emprêsa montam a
gos do Brasil. 150 e com as dezesseis em viagem
Por todos êstes motivos era a seram de 166. Daquelas 150 pes-
desejar, que a instituição dos ár- soas, 127 ficaram nas margens do
b itros, a escolher pelos interessa- Itajaí e 23 ausentaram-se para
dos , se tornasse forçosa e geral em mais longe.
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Pelo estabelecimento de diver- da de e clareza e espalhada em
sas famílias em terras já cultivadas forma de folheto e em milhares de
que compravam, e na barra do rio, exemplares, gratuitamente, por
e pelo falecimento de três pessoas, tôda a Alemanha. unicamente as-
a população fixa da colônia dimi- sim o público alemão, disposto pa-
nuiu de 78 pessoas contra 104 do ra a emigração, pode ser esclare-
ano passado. Tendo tido, desde o cido sôbre o Brasil com prontidão
princípio, a emprêsa nove nasci- e eficácia.
dos e dêles se ausentado um, há Outro motivo da diminuta imi-
um acréscimo de oito e a popula- gração dêste ano foi a aparição do
ção com êstes monta 86 almas e, cólera-morbus em Hamburgo. Foi
depois da chegada das 16 pessoa.,; esta a causa que uma sociedade de
em viagem, a 102. 40 pessoas mais ou menos, que pre-
Os motivos da diminuta imigra- tendia dirigir-se à minha colônia
ção dês te ano de 1853, tanto nes- e já me tinha pedido de reservar-
ta colônia como em outras são mui- lhe terras com fôrça dágua para
tos; em primeiro lugar porém es- engenhos, se retratava e procras-
tão as continuadas agressões da tinava a sua partida para o ano
Sociedade Central de Berlim e de futuro.
grande parte da imprensa alemã, Em compensação do diminuto
hostil ao Brasil e as intrigas secre- alargamento extensivo da colônia
tas de diversos governos ale- o intensivo foi maior e o número
mães contra a imigração alemã dos fogos existentes elevava-se a
para êste país. Precisará expedi- 19 acabados e mais três em cons-
entes extraordinários e executados trução.
com perseverança para vencer ês- Existe um engenho de açúcar e
tes obstáculos e, no meu ver, a pu- de aguardente, um dito de farinha
ra e simples execução da lei geral de mandioca e prepara-se outro de
sôbre as terras devolutas terá pou- açúcar para a safra próxima fu-
co ou nenhum efeito para atrair tura. Para um moinho de milho
em breve uma imigração espontâ- mandei duas grandes pedras e as
nea e considerável ao país. Pro- ferramentas necessárias de Ham-
nunciei esta opinião já em diver- burgo e espero que o mesmo seja
sas memórias, principalmente nu- montado em poucos meses, suprin-
ma que entreguei aos senhores do uma grande necessidade da co-
Viscondes de Abrantes e Cansação lônia. Igualmente já tem as fer-
de Sinimbu no ano de 1848 e con- ramentas para engenhos de serrar
servo-a ainda hoje intacta em tôda madeiras, o qual será estabeleci-
a sua constância não obstante as do no decurso do ano futuro e da-
opiniões opostas de grandes auto- rá ocasião de ganho a muitos co-
ridades nesta matéria, tendo tam- lonos. Fêz-se também uma porção
bém em meu favor uma experiên- de pedras de amolar as quais al-
cia prática de sete anos. A::. c cançarão bons preços e os respec-
cunstâncias do Brasil são diversas tivos canteiros estão continuando
das da América do Norte, Austrá- nesta indústria. Fabricam-se vina-
lia etc. e o seu sistema de coloni- gre e diversos licores em ponto
zar deverá também ser, ou não te- pequeno e fizeram-se ensaios de
rá o efeito desejado. Esta lei ser- fabricar cerveja de açúcar, cujo
ve é verdade, de cavalo de bata- resultado é bastante animador; o
lh~ à sociedade de Berlim, porém produto, pôsto que ainda imper-
não é difícil de mostrar evidente- feito, acha pronta extração e for-
mente ao público alemão a dialé- nece aos colonos uma bebida sã e
tica sofística da mesma - serve refrigerante, porém não se conser-
somente de encobrir intrigas moti- va por muito tempo .
vadas por outros interêsses e mes- O principal ramo de indústria da
mo pôsto o caso da sua execução. colônia ficará sempre a lavoura e
aquela sociedade que está intima- esta progride admiràvelmente. As
mente ligada ao govêrno prussia- derrubadas e as roças plantadas se
no dirigirá logo os seus ataques estendem por largo espaço e as úl-
sôbre outros pontos. Para bem es- timas colheitas principalmente de
clarecer o público alemão sôbre o batatas inglêsas e feijões foram
Brasil, não bastam curtos artigos abundantes que parte dos colonos
de jornais, mas precisará de uma já podia vender delas. A maior
exposição ampla, escrita com leal- parte dos colonos cultiva ainda ês-
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te.:; gêneros, o milho, Os carás, ai- rem em canoa. Enquanto aquêle.>
pins etc. e os legumes europeus se interessavam vivamente nestes
como uma nutrição imediata, po- trabalhos e se contentavam com
rém também a mandioca em maior jornais os mais módicos, grande
extensão e esta última já fornece- parte dos moradores do rio infe-
rá no ano próximo-futuro uma por- rior negou aos ditos trabalhos to-
ção de farinha . Alguns plantam a do e qualquer apoio e por êste mo-
cana de açúcar em maior exten- tivo, e por ser a consignação mui-
são e pode-se esperar na safra to pequena para a multidão de
p ;:óxima-futura por um produto pontes e outros trabalho.:; a faze _,
de 70 a 90 barricas de açúcar e falta ainda bastante coisa para ha -
quantidade de aguardente propor- ver-se um trânsito sofrível, desde
cionada. A safra pas.:;ada produziu a colônia até a barra, principal-
24 barricas de açúcar e três a qua- mente na parte inferior, onde as
tro pipas de aguardente. O fumo margens do rio são menos cultiva-
que foi cultivado por alguns co- das, que na parte superior. Toda-
lonos dava excelentes fôllras e via êste trâ03ito regular é uma
continua;se na sua cultura, em pe- questão vital não só para a colô-
quena escala, como também naque- nia como para os habitantes e por
la da mamona, de cujas semente.:; isso todos os moradores inteligen-
já se fabrica azeite bastante para tes esperam ansioso.:; pelo aca-
o gasto da colônia. Cada colono já bamento dos trabalhos tenden-
plantava maior ou menor porção tes a êsse fim , o qual porém depen-
de cafezeiros. Distribuí aos colo- de, por grande parte, da consig-
nos tôda casta de raízes e plantas nação de outra nova quantia,
úteis, a.:;sim como árvores frutífe- maior ou menor, conforme o inte-
ras do país e assim não lhe falta rêsse e a ajuda, que se podem al-
quase nada daquilo que se planta cançar dos moradores brasileiros
usualmente, como algodão, gengi- do rio inferior, ou as medidas obri-
bre, pimenta, laranjeiras, pesse- gatórias pelas quais cada um será
gueiros etc. etc. Todos criam ain- constrangido de contribuir com o
da porcos e galinhas e alguns em seu contingente para um fim tão
breve terão pastos prontos para útil e de interêsse tão geral. Até
o gado vacuum e cavalos. o lugar de Gaspar, no meio do rio,
O culto evangélico foi celebra- onde moram muitos colonos ale-
do de vez em quando e nas grandes mães estabelecidos ~ á há quinze
festas pelo professor formado, que anos, os habitantes da minha co-
se acha entre os colonos; os três lônia agora costumam andar por
colonos católicos celebraram o seu terra, enquanto que os moradores
na capela, duas léguas abaixo da brasileiros ordinàriamente prefe-
colônia. rem o caminho do rio ao qual es-
O dito professor ocupando-se tão acostumados.
já há tempo com o estudo da lín- A vista de tôdas as circunstân-
gua nacional, todavia não achava cias acima enumerada.:;, e mais
lugar apropriado para aprender a achando-se no seio da colônia um
mesma na sua pureza e não a lin- médico hábil, que em casos de do-
guagem corrompida dos Itajaianos, enças ou ferimentos, presta os seus
como porém se procurava tal lu- socorros, e um profe.:;sor muito ins-
gar, e já entende bastante a língua truído, de cujo emprêgo, por con-
espero que em poucos meses este- ta da província, em breve se po-
ja no caso de poder fazer o exame de esperar um ensino regular e
competente e então servir na colô- contínuo, tanto na língua nacio-
nia como professor público. nal como na alemã e exercício do
A consignação de um conto de culto divino em cada domingo,
réi.:;, que pelo Exmo. Sr. Presiden- tão anelados por todos os colonos,
te desta província foi concedida não pode causar admiração, que
para construção de pontes, neces- êstes vivem satisfeitos, alegres e
sárias para um trânsito regular sossegados e cheios de esperança
desde a colônia até a barra do rio, num futuro próspero. Continuando
contribuía também sensivelmente êles no mesmo andar de trabalho
para o bem dos habitantes da co- e na mesma boa harmonia como
lônia, que as suas vantagens sabem até agora, o que é de pre.:;umir da
melhor apreciar do que os outros boa índole dêles, quase sem exce-
moradores, acostumados de anda- ção, a colônia será dentro de pou-
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cos anos uma das mais bem culti- rio bastante grande e êste me fal-
vadas e risonhas regiões desta pro- ta e não me deixa continuar na
víncia. minha emprêsa senão em escala
Sendo assim, tôdas as condições relativamente muito pequena, com
para a prpsperidade interna da os maiores sacritícios pessoais e
colônia e dos seus habitantes as com renúncia a quase tôdas as co-
mais esperançosas e favoráveis, o modidades da vida, às quais tenho
seu engrandecimento exterior de- direito e que não me faltariam em
pende, desgraçadamente, de outras outra posição menos penosa e
que um particular da minha posi- menos cheia de encargos e cuida-
ção não pode vencer senão por dos. Empreendi a minha obra com
parte e ainda isso com grandes di- o maior entusiasmo, confiando na
ficuldades. ajuda de Deus, que não abandona
A minha colônia está constante- obra alguma; carreguei o seu pêso
mente recomendada pela Socieda- com firme vontade e trouxe-o, com
de Central de Berlim, aliás tão constância, por desgraças e angús-
hostil ao Brasil; a imprensa alemã tias, sem tremer; porém é de na-
se ocupa com ela com grande be- tureza na minha posição parti-
nevolência; conto com grande nú- cular, de esmagar ombros bastan-
mero de amigos, que a recomen- te fortes e tornar-se nela cada dia
dam e favorecem, em círculos par- mais pesado. Preciso, nesta posi-
ticulares, tendo me mandado e ção, proceder com a maior eco-
ainda mandando-me colonos esco- nomia e renunciar a ajuda alheia ,
lhidos e não obstante a imigração quanto é possível,desperdiçando as-
dêste ano foi extremamente dimi- sim o tempo que podia empregar
nuta. Os ataques e as agressões em misteres melhores e mais efi-
continuados contra o Brasil em ge- cazes ao desenvolvimento da colô-
ral, aniquilam pela maior parte a nia, numa multidão de ocupações
impressão favorável daquelas re- insignificantes porém indispensá-
comendações e não podem ser ven- veis, para as quais aliás podia em-
cidas senão por meios gerais e pregar homens subordinados. Não
enérgicos da parte do Govêrno Im- posso, nem preciso adiantar passa-
perial. Para haver uma imigração gens, porém não posso dispensar-
espontânea, que fora dos seus bra- me de o fazer com terras e víve-
ços ainda traz capital de inteligên- res e êstes últimos já envolvem
cia, indústria e dinheiro para o um cabedal considerável numa
Bra,;il, absolutamente não se pode emprêsa de médio tamanho e tan-
dispensar daqueles meios. Um dês- to maior quanto à sua restituição
tes seria o esclarecimento do públi- se demora por quatro, até cinco e
co alemão, por folhetos, como aci- ainda mais anos e perdas por mor-
ma indiquei; outro, o pagamento te ou fuga dos respectivos devedo-
por conta do estado da diferença res sempre ocorrem. Engrande-
entre o preço da passagem para cendo-se porém, em larga escala,
os Estados Unidos e aquêle para o como é de desejar, a população de
Brasil, e ainda outro , a formação minha colônia hão de faltar-me os
de mais núcleos de colonização e o meios para tais adiantamentos,
auxílio dos existentes em lugares tanto mais quanto preciso prepa-
que prometem pronta prosperida- rar-me para o reembôlso das
de, por maiores subsídios pecuniá- quantias, que o Govêrno Imperial
rio.> . benignamente me adiantou e a co-
Se fiel o cumprimento de deve- lônia ficará interrompida no seu
res carregados de livre vontade; se progresso e estacionária. Nestas
G mais vivo amor da causa e expe- circunstâncias o futuro não se po-
riência prática; se uma reputação derá apresentar senão debaixo de
bem fundada e honrada na Ale- um aspecto bastante escuro, porém
manha, e boa escolha do respec- não ouso de juntar às observações
tivo terreno, eram as únicas condi- acima pedido positivo algum e só
ções de fazer prosperar e ràpida- de recomendá-las e minha emprê-
mente engrandecer uma colônia, sa à benevolente atenção do Go-
seguramente que a minha não ce- vêrno Imperial. Os auspícios rela-
deria a alguma no Império e su- tivos a uma maior imigração para
peraria a muitas . Não se pode po- a minha colônia no ano próximo
rém dispensar de uma condição a futuro, não são desfavoráveis e
tal emprêsa, como capital pecuniá- antes bastante animadores; recebi
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J.;. FERREIRA DA SILVA

E RA UMA VEZ ...


A história poderia começar assim, como começam as histórias boni-
tas, que nos tocam à sensibilidade, às profundezas do coração.
Era uma vez um frade que, como o seráfico pai São Francisco, g03-
tava muito de passarinhos. E tinha, em sua pobre cela, centenas de cana-
rinhos : uns 10uros como espigas maduras, outros amarelos, da côr do ouro.
Outros brancos, outros verdes. Uns lisos, outros frisados e crespos. To-
dos alegres e felizes, enchendo a cela e o convento de maviosos gorjeios,
cantando, em côro, as glórias de Deus e a bondade do frade que todos os
dias lhes dava água fresca e alpiste do melhor e pão com leite e fôlhas de al-
face e ovos de formigas catados nos troncos apodrecidos da velha chácara
franci scana.
Os canarinhos eram a alegria de frei Marcílio. E frei Marcílio era
tudo para os canarinhos. Compreendiam-se e amavam-se.
Frei Marcílio adivinhava os mínimos desejos das gentis criaturi-
nhas. Quando via alguma delas encorujada no poleiro, com a cabecinha de
lado, o biquinho entre as penas das asas, mudo, indiferente ao pipilar ale-
gre das companheiras, ia logo dizendo:
- Coitadinho! precisas de um purgante, precisas . ..
E, com o cuidado de quem pega em coisa de alto preço, segurava o
bichinho pelas perninhas e obrigava-o a engolir umas gôtas de óleo de rí-
cino. No dia seguinte, amanhecia bem e alegre.
Sentava-se, o bom frade, horas inteiras (nos domIngos e dias de fes-
ta, naturalmente, porque, nos dias de trabalho, êle dava duro, de sol a sol,
nos trabalhos da horta, e pouco tempo lhe sobrava para os passarinhos) di-
ante do viveiro, que era a alegre cidade dos seus canários, e passava tem-
pos esquecidos, vendo-os a pular de um lado para outro, piando e cantando.
Havia entre êles tenores de voz forte. E havia barítonos e havia bai-
xos. E havia sopranos que ensaiavam árias tão bonitas e comoventes que

CONTINUAÇÃO DA PÁGINA ANTERIOR


cartas de diversos partidos e pes- rável para o Brasil. As refutações
soas abastadas que me pediram de superficiais e às vêzes ridículas de
reservar-lhes terras e anunciavam diversas pessoas que me foram
a sua vinda no ano próximo-futu- mandadas de Hamburgo não ser-
ro. Como porém o mesmo já acon- vem senão para piorar o atual es- '
teceu no ano passado, sem resulta- tado das coisas e de fornecer mes-
do e eu frustradamente fiz prepa- mo novas armas aos agres30res .
rações dispendiosas em conseqüên- Colônia Blumenau, 4 de janeiro
cia de tais cartas, não posso pres- de 1854
tar grande confiança àquelas que Dr. Hermann Blumenau
mencionei acima. Precisa com a
maior urgência, repito ainda, es-
1) Vide dois primeiros relatórios no n . G
clarecer o público alemão sôbre o 3. pag o 43 dês t es Cadernos.
verdadeiro estado do Brasil e refu- 2) Refere-se naturalmente, a os colonos
tar a fundo as mentiras sôbre o que j á habitavam o arraial de, Belchior,
mesmo , ou não haverá imigração antes da fundação de Blumenau.
3) No povoado do Gaspar.
espontânea alguma tanto conside- 4) O professor era Fernando Ostermann .

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deixavam longe as do Barbeiro de Sevilha ou as de Lúcia de Lamermoor,
E as canarinhas, a quem Deus não havia dado o dom do c'anto, ouviam,
enlevadas, os companheiros e batiam compassos com as patinhas nos po-
leiros, fazendo o contra-canto dos trinados com um pipilar macio e quase
imperceptível, entre as cataratas de sons que escachoavam das gargantas
empapuçadas dos machos orgulhosos,
Eram o enlêvo de frei Marcílio, Duas cousas inundavam-lhe a alma
de ternura a ponto de trazerem-lhe as lágrimas aos olhos: o grande, o doce
olhar da Nossa Senhora do altar-mor - uma imagem da Virgem que era
um encanto para a vista e um consôlo para o coração - e o côro dos seus
canarinhos,
O frade superior muitas vêzes o surpreendera enlevado, conversan-
do com as avezitas:

- Assim, assim.,. Nosso Senhor também deve gostar muito de


vocês. Cantem, cantem que o vosso canto deve subir aos céus como volutas
de incenso, porque os vossos coraçõeszinhos não abrigam maldade, , .
E o frade guardião, sempre cioso do perfeito cumprimento das re-
gras da Ordem, intervinha em tom brando:
- O meu irmão não acha que os seus canarinhos estão tomando lu-
gar' demais no seu coração que pert,e nce todo a Nosso Senhor?
Frei Marcílio, parece que inspirado por Deus, retrucava, humilde:
- O grande coração do nosso seráfico pai também era todo de N os-
so Senhor. E, no entanto, sabia sempre encontrar nêle lugar para os cana-
rinhos. E não apenas para os canarinhos, como vossa paternidade sabe.
Para as andorinhas, para os pombinhos também, para tôda a multidão das
avezinhas do céu.
E o padre superior afastava-se sem saber o que responder,
Certa tarde, frei Marcílio estava, como de costume, em sua cela, re-
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zando o seu rosário, acompanhando, com olhos embevecidos, os seus cana-
rinhos. Extasiava-se ante a algazarra que faziam. E quando, entre as ave-
marias e os gloria-patri, via-se transportado a um mundo diferente, trans-
cendental, eis que pareceu-lhe ouvir, entre os trinados de um canário, pelQ
qual tinha especial querer, uma voz que o chamava:
- Frei Marcílio! .
Se um raio tivesse caído na cela, naquela esplendida tarde de do-
mingo, o espanto de frei Marcílio não seria menor. Olhos arregalados, de-
dos apertando fortemente as contas do rosário, frei Marcílio continuou fi-
tando, a tremer, o passarinho.
- Frei Marcílio!
- Não podia vir de outra parte aquêle chamado. Era realmente do
seu predileto canário dourado.
A avezinha olhava o frade sem mêdo e, batendo o biquinho, prosse-
guiu:
- Frei Marcílio! Será que pela manhã, quando vais para a tua hor-
ta e o teu pomar, tu não podias soltar-me e a todos os canarinhos, meus
companheiros, machos e fêmeas?
Instintivamente, em meio ao estupor que o dominava, frei Marcílio
retrucou logo:
- Soltar-vos? E para quê? Não estais porventura contentes? Não
tendes, talvez, diàriamente, os meus cuidados, água e ração frescas?
- Temos, frei Marcílio, temos muito. Mas não é só de alpiste que
vivem os canarinhos, como não é só de pão que vivem os frades. Os cana-
rinhos, como os frades, vivem também da graça de Deus!
Frei Marcílio murmurou entre dentes:
- Lá isso é ...
- Pois, como os frades, nós também temos obrigação de dar graças
a Deus e de demonstrar, por atos, o nosso reconhecimento Àquele de quem
tudo depende. Cantamos, o dia todo, as glórias do Pai que nos proporcio-
na o alimento, fazendo germinar os grãozinhos nos campos. mandando os
raios do sol e as gôtas de chuva para fazê-los crescer e pr'o duzirem; que
nos dá o amoroso aconchego das canarinhas, que dá paciência a um frade
bondoso para nos proporcionar os seus cuidados e o seu carinho. Pois não
está o padre superior construindo a grande matriz da sua paróquia, a cus-
to de trabalhos enormes? Porque nós, os canarinhos, em vez de estarmos
aqui, o dia inteiro no ócio, não vamos ajudar a levantar o templo do Senhor?
Frei Marcílio não pôde conter o riso,
- Ora, ora! , . , E como é que vocêR vão ajudar a construir a igreja?
- Deixa isso por nossa conta, frei Marcílio. Solta-nos amanhã ce-
dinho e verás. À noitinha, quando depois de teres cantado as vésperas, vol-
tares para a tua cela, aqui nos encontrarás a todos, descansando dos la-
bôres do dia, felizes por têrmos concorrido com a nossa parte para o au-
mento da casa de Deus e da sua glória!
- Pois bem, assim será!
E, realmente, no dia seguinte, depois de ouvir a missa na capela do
convento e de rezar as orações de preceito, frei Marcílio voltou à sua cela
e abriu a portinhola do viveiro,
Em alegre revoada, os canarinhos atiraram-se ao espaço, r umo à
matriz em construção, algumas centenas de metros adiante do convento.
Como fizeram, como não fizeram, para aumentar a construção,
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ninguém soube, nem mesmo frei Ma:r:.cílio. Mas o fato é que os pedreiros
que levantavam as paredes do templo viviam intrigados porque, ao fim do
dia, as paredes haviam crescido algumas fileiras mais de petlras e tij olos
do que as que êles realmente haviam feito.
E à noite, depois da ceia, quando frei Marcílio voltava à cela para o '
merecido descanso de um dia de intenso labor entre as suas couves e as suas
laranjas, encontrava os seus canarinhos empoleirados ao fundo do viveiro,
as cabecinhas metidas debaixo das asas, entregues ao doce sono dos bem-
aventurados ...
Era uma vez ...
É assim que começam as histórias que nos falam ao coração, histó-
rias, entretanto, nem sempre verdadeiras, geralmente fantásticas, con-
tos de fadas benfazejas ou de bruxas vingativas.
Mas a história dos canarinhos que ajudaram a construir a igreja
de Blumenau é um conto verídico.
E' verdade que êles não ajudaram a construção falando a frei Mar-
cílio, nem carregando pedras e tijolos. Mas ajudaram de maneira igual-
mente eficiente.
Frei Marcílio criava - e cria ainda - centenas, milhares de cana-
rinhos e, nas festas populares, em benefício da construção da magnífica
igreja de que os blumenauenses já tanto se orgulham, punha-os em leilão.
E cada canarinho rendia muitas centenas de cruzeiros que iam fa-
zer crescer as paredes da imponente casa de Deus.
Não estavam, assim as gentis avezinhas, carregando pedras para o
templo de Nosso Senhor?

-Honrosa
qq)OM JOAQUIM fJOMINGU!<"S DE OLIVEIRA, ilust're Arcebispo de Flo-
-U rian6polis, é, sem favor, uma das mais altas expressões morais e
- culturais do episcopado b'rasileiro. Às suas virtudes de pastor vene-
rando, de sacerdote exemplar, alia uma inteligência brilhante e uma bon-
dade que cativa.
S. Excia. Revma., num gesto que sobremodo nos honra e nos envai-
dece, eSC?'eveu-nos uma carta da qual, com a devida vênia, copiamos êstes
trechos:
"Deu entrada aqui 'Blumenau em Cadernos', tomo I, númeTo 1, de
novembro findo, b?'ochura que foi logo lida e devidamente apreciada.
Apreciada em tudo. 'Pensar e agir em razão do ape'rfeiçoamento material
e moral da comuna', a exemplo daqueles idealistas que aí souberam ergue?'
uma obra que é o orgulho de Santa Catarina. Que oportuna e nobTe finali-
dade! A pena que a exa?'a revela--se das mais perfeitas e buriladas. '
Com os ag?'adecimentos, pois', pela gentileza da remessa traz os
sinceros pa?"abéns quem se p?'ofessa, atenta e gratamente em Jes~s Cristo,
- A ?'cebispo M et'ropolitano".
A nossa modesta publicação não pode?'ia aspirar a maior p'rêmio.
As palavras de Dom Joaquim nos COrlwve?'am profundamente e nos servi-
?'ão de estímulo, de incentivo pa?'a p?'osseguirmos no caminho que nos t1'a-
çamos com, maiO?' fé e maio?' entusiasmo.
A Dom Joaquim os nossos sinceros e Tespeitosos agradecimentos.
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Digitalizado pelo Arquivo Histórico José Fereira da Silva - Blumenau - SC
[amentável de5aparecimento
/;;)) 13 DE MARÇO dêste ano, faleceu na capital da república um ilus-
LA tre filho do Vale do ltajaí que, pelo seu saber e pelas suas virtudes,
honrou a sua pátria.
Trata-s e de João Geraldo K uhlmann, diretor aposentado do Jardim
Botánico do Rio de Janeiro.
Iniciado pO?' seu cunhado, o notável botánico F.C. Hoehne nos se-
g1'edos do estudo e classificação das plantas, Kuhlmann tornou-se notável
nessa ciência tendo deixado t1'abalhos de g1'ande valor e que lhe valeram
destacado conceito, não apenas no país, mas também no estrangeiro.
De uma ligeira biografia publicada no "Diário de Notícias" do Rio
de Janeiro, pelo Dr. Hoehne, extraímos os seguintes dados sôbre a vida
de Kuhlmann, como uma homenagem à memória dêsse ilustre homem de
cwncia que a ela dedicou toda a sua vida, alheio aos interêsses materiais.
ciência que a ela dedicou tôda a slla vida, alheio aos interêsses materiais.
QUANDO o dr. Blumenau, à seme- temática botânica", graças à rapi-
lhança de "Mariano Procópio" dez com que encontrava o nome
(Ferreira Lage), em Juiz de Fora, do gênero e da espécie de qual-
Minas e outro colonizador no Rio quer herbário que lhe era apresen-
Grande do Sul, nos primórdios do tado. Fama esta que os seus ami-
século XIX, criou o núcleo que gos: Drs. Francisco de Assis Iglesias
recebeu o seu nome, no Estado de e Adolfo Ducke, propalavam onde
Santa Catarina, mediante contra- quer que se falasse no seu nome.
tamento de agricultores da Alema- Filho legítimo de Frederico
nha, aos quais, em condições es- Kublmann e Rosália Bodenberg,
pecificadas, fornecia glebas de ter- nasceu Geraldo como os demais fi-
ras mediante pagamento em pre3- lhos do casal, na cidade de Blu-
taç5es resgatadas por meio de tra- menau, em 2 de dezembro de 1882,
balho e o compromisso de mante- assim 9 meses e dois dias depois
rem, pelo menos, uma quarta par- de nós. Com os demais da famí-
te das matas nativas nos altos das lia passou para Petrópolis, onde
mesmas, para conservação do so- igualmente predominava então o
lo e contínua adução de matéria elemento teutônico; pouco depois
orgânica, chegou àquela localidade fixou-se a família Kuhlmann, na
o progenitor do nosso amigo aqui Gávea, Rio de Janeiro.
citado. Nessas mesmas levas vie- Quando o Sr. Edmundo
ram também engenheiros e o bem Kublmann, contraiu matrimônio
conhecido Dr. Fritz Mueller; com com uma irmã nOS3a, realizando-
um dos últimos o Dr. Oderbrecbt, se o casamento em Juiz de Fora,
trabalhou como camarada no le- • ficamos conhecendo Geraldo e
vantamento do mapa hidrográfi- também a caçula da família
co, durante algum tempo, enquan- Kublmann, Clara Augusta Frieda,
to Fritz Mueller, mesmo de en- com a qual. casamos em 24 de de-
xada na sua roça , e3tudava os ve- zembro de 1903, depois de haver-
getais e animais, descrevendo-os mos sido nomeado para o cargo de
e publicando os resultados na Ale- Jardineiro-Chefe do Museu Nacio-
manha . E:sses trabalhos foram nal, Quinta da Boa Vista, em 6 de
classificados como excelente:>. Por setembro do mesmo ano .
isso Cbarles Darwin, declarou Fritz Des:>a época intensificaram-se
Mueller o " Príncipe dos Observa- os nossos interêsses em prol da
dores", embora pequena fôsse no conquista de Geraldo, para a botâ-
início sua biblioteca para a maté- nica . Nos dias feriados e facultati-
ria. Por analogia dois admiradores vos íamos para a Tijuca, Jacare-
de Geraldo Kublmanll, clas3ifica- paguá e outros arredore:> do Rio
vam-no como " iluminado em sis- de Janeiro, para colhêr material e

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113 Fereira da Silva - Blumenau - SC
, -fazer observações na naturc::za , pra - As espécies que dedicamos a êste
i. ter que desde menino mais nos eminente botânico são dez, de dife-
rentes gêneros e famílias de plan-
atraiu sempre.
Convidado para participarmos da tas. Com muitas outras foi êle ho-
Comissão de Linhas Telegráficas menageado também pelo seu gran-
• de Mato Grosso ao Amazonas, co- de amigo Dr. A. Ducke e fitologis-
mo Auxiliar de Botânica, pelo en- tas alemães e americanos .
tão nosso grande e bondoso ami- As e3pécies, gêneros e famílias
go Dr. Alipio de Miranda Ribeiro, por êle criadas e descritas sobem a
partindo em 27-6-1908 e demo- algumas dezenas e podem ser qua-
. rando até 7-11-1909 , nossa espôsa se tôdas encontradas nos " Arqui-
ficou aos cuidados dos seus pais e vos do Jardim Botânico" e ditos do
Genldo passou a fazer um estágio " Serviço Florestal" , do Rio de Ja -
no Ginásio Lobato, em Petrópolis. neiro, bem como nos " Anais da
Tendo regressado do Juruena , Primeira Reunião Sul Americana
Mato Grosso . nessa primeira de Botânica", realizada em 1939,
viagem, permãnecido no Rio de no Rio de Janeiro .
Janeiro , para organizar o material Nos " Anexos n.o 2, Botânica, da
coletado e expedir o de algumas Comissão Rondon". publicou Ge-
famílias de plantas para Berlim, raldo Kuhlmann os resultados do
tornamos para Mato Grosso em material.
2-12-1910, levando conosco Geral- João Geraldo Kuhlmann era ca-
do. para preparador e ajudante na sado com Dr. Hordália da Costa
coleta de material botânico e seu I\:uhlmann, que viúva agora, de
mano Bermano para preparador de parará, sem dúvida , com dificulda-
material de zoologia , que, a pedi- des, embor a sempre exercesse ati-
do do zoólogo Dr. A,'ipio de Mi- vidade como educadora e direto-
randa Ribeiro , que não r etornou a r a de tra balhos de ordem mi3sio-
Mato Grosso, devíamos reunir para ná ria . Dêsse consórcio provieram,
o MU3eu Nacional. um filho: Guilherme Geraldo
Realizada esta viagem-estréia , Kuhlmann, que preferiu seguir
João Geraldo Kuhlmann, realizou carreira mais produtiva , tornan-
mais três viagens a Mato Grosso . do-se grande técnico de aparelhos
Nas relações dos herbários , fi- elétricos, fixando residência em
guram 7.000 números como colhi- Montevidéu, casando-se ali (dando
dos por nós, em parte também pe- uma neta ao seu progenitor ) uma
ra então preparador Geraldo, na fllha D. Zilda Kuh,' mann, casada
dêste botânico na3 suas referidas com o Sr. Eunice Perei ~a, residia
ulteriores viagens, figuram 2.484 com Geraldo, proporcionando-lhe
números de exsicatas, incluindo al- com 03 netos grande alegria e dis-
gumas coletas também pelo então t ração nos últimos anos da sua efê-
General Cândido Mariano da Silva mera aposentadoria por implemen-
Rondon, grande amigo nosso e de to de idade, com a classificação de
João Geraldo Kuhlmann. Dire tor-Aposentado do Jardim Bo-
tânico do Rio de Janeiro".

Gente de bom humor


,vIGARIO de Blumenau, Frei Braz, é muito benquisto pelos seus
O paroquianos. E também os que são de outras crenças, vêem no in-
cansável franciscano um padre muito fervoroso, dedicado inteira-
mente ao progresso material e moral da sua paróquia. E os católicos que-
rem tão bem ao frade que um dêles propôs que, todos, nas orações da ma-
nhã, incluíssem êste pedido a Nosso Senhor:
- "Senhor, livrai-nos da Petrobraz, e da Eletrobraz; mas por fa-
vor, deixai-nos o Freibraz! Amem.
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ITAJAÍ
,
De rtlzenàtl tl CiOtlOQ
Almirante LUCAS A . BOITEUX

I
I• QUANDO. em março de 1711,
aportou em a enseada das Ga-
quentado "por não haver ali po-
voação, mas é seguro e abrigado, e
roupas (hoje Pôrto Belo) o Sar- pode vir a ser de transcendente
gento-mor da praça de Santos Ma- utilidade, como adiante direi; a sua
nuel Gonçalves de Aguiar, em ex- entrada é entre o Pontal do norte
ploração aos portos catarinenses, e a ponta Cabeçuda ao lado do sul,
dizia em informação que prestou , com 6 a 7 braças de fundo; o ca-
que " o rio Taá-hy se acha despo- nal é estreito e deve demandar-se
voado, sem morador algum ; e nêle com vento e maré favoráveis; o
foi morador o Capm. Miguel Dias fundeadouro tem o sobredito fun-
(de Arzão ?), sua mãe e irmãos e do e é defronte de uma Fazenda de
ora os achei moradores no rio S. lavoura, chamada do Anão, unica
Francisco" . que com casa ali se encontra". En-
O governador de S . Paulo, Bo- tre as medidas preconizadas pelo
telho Mourão , morgado de Mateus , citado autor, em sua preciosa "Me-
invadindo jurisdição alheia, man- mória Política" (1816) lembrava
dou, em 1766, o Capm. Antônio êle "povoar e cultivar os terrenos
Correia Pinto fundar um povoado de ambas as margens do rio Ta-
em Lajes. Seu colega do Rio Gran- jahi-assu, desde a sua foz até a pri-
de do Sul, Coronel Custódio de Sá meira cachoeira; e o Mirim ' desde
e Faria, ao saber do caso , protes- sua confluencia naquele até onde
tou contra a suposta invasão de sua fôr navegavel, e daí para cima até
circunscrição política. Esta recla- o campo da Boa Vista".
mação foi encaminhada ao Vice- UI. - A casa-real portuguêsa
rei, conde da Cunha, que, em ofício instalara-se no Brasil, que passara,
de 22 de fevereiro de 1767 ao Mor- em 1815, de simples colônia à ca-
gado , aconselhava-o 'a não prOS3e- tegoria de Reino-unido ao de Por-
guir na empreza, a fim de evitar tugal e Algarves. Dois anos volvi-
atritos,' persuadindo-lhe a 'estabe- dos, foi chamado a sobraçar a pas-
lecer povoação ao norte do rio Tu- ta do Reino e Erário e, logo de-
juhy (Itajaí), por ser mais comodo, pois, as da Marinha, Estrangeiros
o terreno para todas as execuções", e da guerra, o magistrado Tomaz
- dizia-lhe o conde com malícia Antônio de Villanova Portugal, que
- de suas vastissimas idéias". assim concentrava em si todo o me-
Diante disso , o Morgado oficiou canismo administrativo, tornando-
a Correia Pinto , indagando dêste se o ministro universal de um rei
"se se poderá fazer com a mesma absoluto. Embora português, Tomaz
utilidade esta fundação (a de que Antônio sempre demonstrou, des-
estava encarregado) nas cabecei- de sua chegada, grande afeição pe-
ras do rio das Canoas ou nas mar- lo nosso país e seus naturais. Ape-
gens do rio Tajuy, ou em outro sar de graves defeitos e de erros
ponto adonde não nos perturbem" . administrativos projetou e realizou
Não conhecemos, infelizmente, a vários serviços públicos dignos de
resposta do fundador de La~ es. memória.
lI. - Ao referir-se aos portos da Teve êle durante algum tempo
Província catarinense, de cujo go- os olhos voltados para Santa Ca-
vêrno fôra secretário, Paulo J . tarina, onde pretendia estabelecer
Miguel de Brito assim se manifes- um grande Arsenal marítimo; criou
ta sôbre o Itajaí: - " O porto de a Intendência de Marinha; na en-
Itajahi é pequeno e pouco fre- seada das Garoupas fêz assentar
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Digitalizado pelo Arquivo Histórico José Fereira da Silva - Blumenau - SC
uma colônia de peilcadores proce- rando-Ihe que " voluntariamente
dentes da Ericeira, em Portugal . não partiria , porquanto e ra ino-
Da mesma forma tratou de fun - cente" . acrescentand:o " que si o
dar às margens do Itajaí-mirim julgava criminoso, mandasse pô-lo
um estabelecimento colonial e os em processo e si o considerava ino-
alicerces de uma cidade. Para isso . cente, não consentisse que se abu-
procurou alguém de sua inteira saSile d e sua boa fé nem que o fi-
confiança e com capacidade bas- zessem instrumento da p ersegui-
tante para dirigir a emprêsa . O ção de um moço que, no principio
escolhido foi o seu Oficial de ga- de sua carreira, já t inha dado boas
binete Antônio de Menezes Vas- provas da sua honra e da sua pro-
concellos de Drumond ( 1794-1865 ) bidade"; " o poderoso Chanceler
ilustrado brasileiro que, mais tar- resolveu , atendendo ao precano
de relevantes serviços prestaria à estado de saúde de jovem funcio-
sagrada causa de nossa emancipa- nário, que fôsse para Santa Cata-
ção política sob a direção de José rina " mudar de ares com seis me-
Bonifácio, o Patriarca. ses de licença" .
Meu saudoso irmão JOilé Arthur , " Conta-nos Vasconcellos de
sob o título " Antônio de Menezes Drumond - prossegue José Boi-
Vasconcellos de Drumond", escre- teux - que da denuncia ao dia de
veu do Rio de Janeiro , a 11 de ju- sua partida decorreram muitos
nho de 1913 , a notícia abaixo , Que meses, mais de um ano. Governava
a "Revista Catharinense", da L a então a capitania o coronel João
guna. do não menos saudoso José Vieira Tovar de Albuquerque".
Johanny, estampou em o A . lII. Aqui um parêntesis. A 14 de
n .O 1., pago 19, de janeiro de 1914: fevereiro de 1820 Drumond apre-
- " Nos capítulos I e lI , da última sentou ao Governador referido o
parte das " Notas para a História seguinte Aviso real:
Catarinense" transcreve o capitão- "EI Rei N.S. Ho servido que
tenente Lucas Boiteux algumas r:t Vmce. vá se apresentar a João
ferências do ilustre brasileiro An Vieira Tóvar Albuquerque,
tônio de Menezes Vasconcellos de Governador da Capitania da
Drumond aos períodos governa- Ilha de Santa Catharina, para
mentais de Tovar de Albuquerque tomar posse d'huãs Terras pa-
e de Pereira Valente (conde do Rio ra o mesmo Senhor junto ao
Pardo ) que no quinqüênio de 1817 R io Tajahy-mirim , a fim de
a 1822, enfeixaram nas mãos os n elas formar hum Estabeleci-
poderes com que, em nome de Sua m en to . segundo a direcção que
Ma ~ estade . presidiam os negócios lhe ha de dar o mesmo Go-
da Capitania. Por julgá-las inte- vernador, na forma das Ins-
ressantes envia as notas que coligi, truções que serão a este dadas
em rápida leitura que fiz das por esta Secretaria d'Estado
" Anotações" do mesmo Vasconcel- dos Negocios do Reino . O que
los de Drumond, enviando o leitor par:ticipo a Vmce. para que
que queira conhecer-lhe a biogra - aSSIm se execute. Ds . Ge. a
fia ao " Brasil Histórico do Dr . A. Vmce. Paço em 5 de Fevereiro
J. de Melo Moraes. de 1820. - Thomaz Antônio
" Denuciado falsamente de per- de Villa Nova Portugal-
tencer a uma das Sociedades se- Snr. Antônio de Menezes Vas-
cretas que tão larga influencia ti- concellos de Drumond" .
v eram nos acontecimentos deter- ~ste aviso só foi registrado mais
minativos da revolução de 1817 , tarde, no Destêrro, a 28 de ~arço
em Pernambuco, Antônio de Me- do ano seguinte, pouco antes do re-
nezes Vasconcellos de Drumond , gresso de Drumond ao Rio. Infeliz-
que então exercia o cargo de Con- mente, não alcançamos descobrir
tador da Chancelaria-mor, gozan- as instruções transmitidas ao go-
do da inteira confiança do chance- vernador Tovar .
ler Tomaz Antônio de Villanova Prossegue José Boiteux : - " Ali
Portugal, recebeu o injusto casti- permaneceu Vasconcellos de Dru-
go de seguir para Londres. Aba- mond sete meses, que êle bem apro-
lado pela atitude a ssumida por v eitou, estudando a situação da ca-
Vasconcellos de Drumond , decla- pitania , traçando-lhe um vasto pla-
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no de melhoramentos. Regressan- ao Museu nacional. De S. Fran-
do ao Rio, apresentou circunstan- cisco, que também visitou, enviou
ciado relatório ao chanceler Villa- àquele Museu algumas perolas "pe-
nova Portugal, que o aprovou, co- quenas mas de boa qualidade", pes-
metendo-lhe a incumbência de co- cadas ali. A 9 de maio de 1821 che-
lonizar as terras banhadas pelo gava ao Rio de Janeiro Vascon-
rio Itajaí. Dois outros inestimáveis cellos de Drumond, a bordo da
serviços ficou devendo a capitania sumaca Venus, de propriedade do
a Vasconcellos de Drumond, que negociante catarinense João Luiz
propôs a abertura de uma estrada do Livramento, para cujo bordo fô-
do Destêrro a Lajes e a desanexa- ra acompanhado pelo governador
ção desta então vila da capitania Tovar de Albuquerque, pelo in-
de S. Paulo e sua reunião à de tendente de Marinha ,Miguel de
Santa Catarina. Ambas as propos- Souza Melo e Alvim e por outras
tas foram aceitas por Villanova pessoas qualificadas".
Portugal, que determinou fôs- Quando Drumond aportou ao
sem executadas. "A obra da Destêrro (hoje Florianópolis) ali
abertura da estrada - narra-nos encontrou o sábio naturalista
Drumond - foi interrompida pela francês Saint-Hilaire. Tratou logo
revolução de 1821, que decidiu do de seguir para o Itajaí a pôr em
regresso do rei D. João VI a Por- prática os planos ministeriais. Com
tugal. Não sei se depois da Inde- uns tantos soldados, dispensados
pendência essa obra continuou, das fileiras do 12. 0 Batalhão (do
nem o estado em que se acha. O coronel Inácio Madeira, o verdugo
que me parece é que deve ser aca- da Bahia na guerra da Indepen-
bada e em tôda a sua extensão, dência) e perceberiam 160 rs. diá-
criadas colonias agricolas de gen- rios no 1.0 ano e 80 rs. no segun-
te livre, cujo numero nunca será do, iniciou êle no sítio escolhido,
demasiado. Todo aquele terreno é as derrubadas, plantações, edifi-
muito produtivo. Da Vargem dos cações expeditas para o alojamen-
Pinheiros se tirou o mastro gran- to dos colonos e a montagem de
de para a nau S. Sebastião, que foi uma serraria. Logo em seguida deu
construida no Rio de Janeiro . A princípio à construção naval, pon-
intenção de Tomaz Antonio era do no estaleiro a quilha de uma su-
de criar ali colonias nacionais e maca. A futura povoação, que de-
estrangeiras" . via ser chamada "São Tomaz da
No tocante aos trabalhos exe- Villanova", em homenagem ao
cutados no Itajaí, diz-nos Vascon- nomeado ministro, foi delineada
cellos de Drumond , que alguns se pelo coronel português, da arma
fizeram, "mas nem houve tempo de engenharia, Antônio José Rodri-
nem meios para os levar ao cabo" , gues (1774-1858), mandado em
porquanto assumindo a pasta do junho de 1819 a Santa Catarina in-
Reino, o almirante Quintela lhe di- cumbido das obras das fortifica-
rigira um aviso, em data de 26 de ções e outras de engenharia.
fevereiro de 1821, recomendando A respeito da missão de Vascon-
suspendesse tôdas as obras que exi- cellos de Drumond, assim se ma-
gissem despesa e se retirasse para nifesta o historiador catarinense
a côrte, visto S.M. dar por acaba- M.J. de Almeida Coelho, à pago 93
da a comissão de que estava en- de sua "Memória histórica", pri-
carregado. meira edição de 1856: "No
" Todavia, - acrescenta o ilus- mesmo ano (1820) veio da côrte
tre brasileiro - ali se construiu do Rio de Janeiro Antônio de Me-
uma sumaca denominada S· ' Do- nezes Vasconcellos encarregado da
mingos Lourenço, que foi a primei- fundação de uma Colônia no rio
ra embarcação daquele lote que Itajaí. :ll:ste homem gastou um ano
passou a barra do rio Itajaí, carre- em passear e iludir (expressões de
gada de feijão , milho e taboado, uma memória que temos presente,
para o Rio de Janeiro. Ainda do e vamos copiando) o Ministro a
Itajaí mandou Vasconcellos de Dru- bem do seu interêsse particular,
mond, sem nenhum dispendio para vexando os pobres moradores do
os cofres publicos, a madeira para lugar, a quem dava a tarefa de
a construção do edifício destinado serrar taboado, e cujos jornais
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MONUM ENíOS DA BACIA DO 114JII

li IGREJA MATRIZ da cidade de Itajaí, que se vê na foto acima,


" é um dos mais grandiosos e imponentes monumentos ar-
quitetônicos de tôda a bacia do Itajaí. Honra quem o idea-
lizou, os que o executaram e, principalmente, o povo nobre e virtuoso da
bela cidade da foz. O projeto é de autoria do arquiteto Simão Gramlich ,
de Blumenau, que também é autor dos projetos das suntuosas igrejas de
Santa Cruz do Sul, de Venâncio Aires ,no Rio Grande do Sul, de Gaspar
e de Rio do Sul, que focalizaremos em nossos próximos cadernos. Sua cons-
trução foi iniciada em 1941 e concluída em 15 de novembro de 1955. Os
trabalhos, entretanto, estiveram interrompidos durante dois anos, de 1945
a 1947. O orçamento de sua construção montou em Cr$ 9.500.000,00. Mede
60 metros de comprimento por 25 de largura. Com sua lotação completa,
comporta de 4 a 5 mil fiéis . E' seu atual administrador, como vigário da
paróquia, o R evmo. Sr. Cônego Wendelino Hobold, sacerdote que goza de
geral estima entre os seus paroquianos e mesmo dos de outros setores re-
ligiosos, pela sua cultura, pelas suas virtudes e pelo seu desassombro em
defesa da fé e da religião.

CONTINUAÇÃO DA PÁGINA ANTERIOR

n u nca foram pagos, apesar de dl.:;- bada, sem deixar sinal algum de
pender a Fazenda real em tão pou- Colônia. Ouviu-se-lhe por muitas
co tempo, pois retirou-se em 1821 , vêzes dizer: aproveitemos o Mi-
o melhor de cinco mil cruzados: nistro d'Estado (Villanova Por-
não fêz mais do que uma derru- tugal) que está velho".
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A BR I L
1881 - dia 3. A "Theater Geselschaft" leva à cena a comédia em
4 atos "Der beste Ton".
1881 - dia 17. Funda-se em Encano, atualmente do município de
Indaial, uma sociedade agrícola "Landwirtschaftlich V erein" com o fim
de instruir os colonos na prática da agricultura e especialmente intensifi-
car o cultivo do algodão. Seus primeiros dirigentes foram: O. Bachmann,
presidente, A. Lauth, vice e O. Heilmenn, secretário.
1881 - dia 18. Exame público no Colégio São Paulo.
Nesse mês, foram feitas experiências de moagem de trigo de
grãos importados pela firma W. Asseburg, de Itajaí.
1881 - dia 21. Em visita à colônia, chegou o conhecido viajante
Amand Goegg. Êsse camarada fêz uma conferência pública na casa de
Friedenreich, tendo, entretanto, que interrompê-la por ter desagradado a
muitos dos presentes .
1882 - dia 25. O Dr. Antunes, com os membros da sua comissão e
soldados, retiraram-se da vila, embarcados no vapor "Progresso" .
1882 - dia 30. Numa reunião da Sociedade dos Atiradores, esta
confere o título de sócio honorário ao Dr. Alfredo d'Escaragnole Taunay,
deputado geral, pelos bons serviços que havia prestado à colônia.
1883 - dia 4. Aparece o primeiro número do semanário "IMMI-
GRANT", de propriedade de Bernardo Scheidemantel e que foi, mais tarde,
substituído por "Der Urwaldsbote". Aparecia às quartas-feiras e a sua
assinatura custava 4$000 por semestre e 7 000 por ano. De regular forma-
to, geralmente com seis páginas, trazia abundante noticiário. Defendendo
ponto de vista contrário ao do "Blumenauer Zeitung", jornal fundado em
1880, não tardou em apresentar-se oportunidade para que os dois semaná-
rios entrassem em luta acesa. O julgamento, pelo júri, de um polaco de
nome Wolek, que pretendera pôr fogo numa capela, no Indaial, serviu de
pretexto para acaloradas discussões. Assim é que no número 2, do "Immi-
grant", o vigário padre Jacobs, fêz publicar, na "Seção Livre", a seguin-
te carta: "Prezado Senhor Redator. O aparecimento do seu "Immigrant",
por outros fundamentos e também porque se está, agora, com meios para
defender-se dos ataques do "Blumenauer Zeitung" e de pôr as cousas no
devido lugar, deve ser saudado com alegria. Quando eu, há coisa de um
ano, respondi, aberta e logicamente, as calúnias reproduzidas por aquêle
jornal contra a igreja católica e os seus ministros, em vez de publicar a de-
fesa, disse simplesmente: "O artigo do Padre Jacobs não será publicado pa-
ra não perturbar a paz religiosa". Assim, a gente deve deixar-se ofender,
mas defender-se, não. Assim também no número de 7, dêste mês, êle vem
com novas insinuações. A afirmação do "Blumenauer Zeitung" de que é
uma ridicularia o incêndio de uma capela católica prova uma falta de tato
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que eu, para manter a minha dignidade, nem sei como caracterizar. Po-
rém a afirmação de que, de comêço, a aludida capela foi construída para
a escola, por católicos e protestantes, e que, mais tarde, fôra transformada
em templo católico, é uma inverdade, pois o signatário desta foi quem ori-
entou e acompanhou os trabalhos da construção da capela, destinada ao
serviço divino e também a dotou dos utensílios e paramentos necessários a
êsse serviço. Como vigário, entretanto, permitiu que, se fôsse criada uma
escola, funcionasse na referida capela. Isso tudo eu disse francamente
perante o júri. Ou acha o "Blumenauer Zeitung" que eu sou capaz de jurar
falf!a? 8 de abril de 1883. José Maria Jacobs, vigário". A nota do Blume-
nauer Zeitung, a carta do vigário J acobs, o artigo-programa do "Immi-
grant" suscitaram discussões interessantes que, não raro, chegaram aos
desaforos, às injúrias, vendo-se nelas envolvidos Baumgarten, Fritz
Mueller, Friedenreich, Scheidemantel, Scheeffer e outros. A carta do pa-
dre Jacobs, não ficou sem resposta. "Um jurado", no número de 16 de
abril, voltou a atacar o sacerdote. Êste respondeu pelo número de 25, con-
firmando e reforçando as alegações de sua missiva. Fritz Mueller, por sua
vez, passou a atacar o "Immigrant" e Vi. Friedenreich.
1859 - dia 4. A lei n.o 164, de 1859, desmembrou o território da
freguesia do Santíssimo Sacramento do ltajaí da jurisdição de Pôrto Belo
para constituir município autônomo. A jurisdição do novo município se
estendia sôbre o território dos atuais municípios de ltajaí, Brusque, Blu-
menau, Gaspar, Indaial, Rodeio, Timbó, Ibirama, Presidente Getúlio, Rio
do Sul, Taió, ltuporanga e Vidal Ramos. O primeiro da nova vila deli-
mitava-se pela extrema das terras de Dona Felícia Alexandrina Leão Cou-
tinho ao sul e pelo ribeirão de Joaquim José da Silva, ao norte e quarenta
braças para o centro, contadas da beira-mar.
1936 - dia 2. Deixa o cargo de prefeito do município de Itajaí o
Sr. Arno Bauer, destacado comerciante e industrial e grande propulsor do
progresso do município.
1947 - dia 26. Exonera-se das funçÕes de prefeito municipal de
ltajaí, o Sr. Abdon Foes.
1884 - dia 6. À noite, foi observado um interessante fenômeno
celeste: entre duas nuvens carregadas de eletricidade, fronteiras uma à
outra, e distanciadas por uma estreita faixa, viu-se um globo, da lumino-
sidade de Vênus, ir e vir, com espantosa velocidade, de uma para outra
nuvem centenas de vêzes.
1884 - dia 18. Teve início mais uma sessão do júri. Entraram em
julgamento vários réus, quase todos êles condenados. Um certo Carlos
Teske, acusado de homicídio, foi condenado às galés perpétuas.
1884 - dia 21. Os bugres atacaram a residência do colono G.
Mastellotti, no Caminho dos Tiroleses. Diz-se que aos bugres haviam se
juntado alguns caboclos que, assim, tinham mais probabilidades de roubar
impunemente os colonos.
1885 - dia 8 Com 91 anos de idade falece um dos mais an-
tigos colonos de Blumenau , Benjllmin Schenke.
120
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