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Revista Observatório da Diversidade Cultural

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Políticas Culturais

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CONSELHO MUNICIPAL DE POLÍTICA CULTURAL DE BELO HORIZONTE:


Avanços e desafios da participação social na formulação da política de cultura

Caroline Craveiro 1

RESUMO

Este artigo busca apontar os principais avanços e desafios da atuação do Conselho Municipal
de Política Cultural de Belo Horizonte, a partir de considerações relativas aos atributos da
composição, natureza deliberativa, objetivos e funcionamento. Os Conselhos de Políticas
Culturais correspondem a instâncias de articulação, pactuação e deliberação, conforme o
MINC (2011) e a análise de sua eficácia e efetividade torna-se fundamental para a reflexão
sobre os espaços e mecanismos da participação social na formulação da política de cultura.

Palavras-Chave: Conselho de cultura. Participação social. Política cultural.

ABSTRACT

This article seeks to identify the main achievements and challenges of the work of the Municipal
Council for Cultural Policy of Belo Horizonte, from considerations relating to the attributes
of the composition, deliberative nature, objectives and operation. Councils Cultural Policy
correspond to joint instances, agreement and resolution as the MINC (2011) and the analysis
of their efficiency and effectiveness it is essential to reflect on the spaces and mechanisms of
social participation in cultural policy formulation.

Keywords: Council of culture. Social participation. Cultural policy

1 Técnica Nível Superior da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte- PBH. Mestranda em Geografia-Tratamento da
Informação Espacial PUC-Minas. Geógrafa pela UFMG e especialista em Estudos Ambientais PUC—MG e Gestão Pública PUC-
MG. E-mail: carolinecraveiro@yahoo.com.br /3277-4157

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1. INTRODUÇÃO

Um Conselho de Cultura, seja municipal, estadual ou nacional, corresponde a um dos


elementos constitutivos dos Sistemas de Cultura, também de âmbitos municipal, estadual ou
nacional, e baseado nos princípios da política nacional de cultura, corresponde a uma instância
de articulação, pactuação e deliberação (MINC, 2011). Enquanto uma instância colegiada
permanente, de caráter consultivo e deliberativo, o Conselho de Cultura deve integrar a
estrutura político-administrativa do Poder Executivo, ser criado por Lei e ser constituído por
representantes do poder público e da sociedade civil. A representação da sociedade civil deverá
ser de, no mínimo, 50% dos membros e deve ser eleita democraticamente pelos respectivos
segmentos. Segundo o MINC (2011), os Conselhos de Cultura têm como atribuições gerais
propor e aprovar diretrizes para os Planos de Cultura, acompanhar sua execução, apreciar as
diretrizes dos Sistemas de Financiamento à Cultura, além de fiscalizar a aplicação de recursos
e as ações do órgão gestor da cultura.

Segundo Teixeira (2005), a composição (principalmente no que tange à paridade), a natureza


deliberativa, os objetivos e o funcionamento dos conselhos são atributos fundamentais ara a
análise de sua eficácia e efetividade enquanto espaços de partilha de poder, explicitação de
conflitos, democratização da democracia e resultados de melhor gestão da política pública
de cultura.Para a autora, os Conselhos apresentam problemas e desafios vinculados a estes
atributos que devem ser superados com medidas que busquem olhar para os setores que não
estão presentes no conselho. Torna-se necessário estimular sua participação, criar e valorizar
arenas e espaços da sociedade civil para que esta se fortaleça para integrar o conselho. Além
disso, dentre estas medidas está a criação de mecanismos para a articulação entre conselhos
de políticas públicas da cidade, a produção de dados e o acesso a informações para subsidiar
as decisões do conselho (não se limitando aos dados do órgão gestor, mas incluindo estudos
de ONGs e universidades). Também são medidas importantes e que são grandes desafios, são
o desenvolvimento de estratégias de articulação entre os conselhos dos entes federados e a
articulação com outros espaços participativos da própria esfera (como por exemplo, os fóruns
de Orçamento Participativo). Por fim, a medida fundamental de viabilizar recursos para os
Conselhos e sua atuação nas deliberações orçamentárias.

O COMUC, como é chamado o Conselho de Política Cultural de Belo Horizonte, configura-


se como um espaço instituído legalmente, ordenado por meio de lei, decreto e Regimento
Interno, apresentando composição de 50% de membros da sociedade civil, eleitos por seus
pares e segmentos e que busca empreender o que dispõe o Ministério da Cultura em relação ao
papel do Conselho. No entanto, como apontou Teixeira (2005), ao avaliarmos sua experiência
desde 2011, verificamos que muitos problemas estão presentes e se colocam como desafios

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para a gestão pública municipal e para a própria sociedade.

Para Faria e Moreira (2005), a garantia, do ponto de vista legal e formal, a organização do
conselho, sua agenda periódica e atividades, a convocação de conferências, o estímulo aos
fóruns, nem sempre corresponde ao que chamam de cultura participativa. A Cultura, segundo
eles, é central para as práticas e reflexões da governança e é fundamental que se trabalhe
com a transversalidade. Assim, o estabelecimento de uma cultura participativa pressupõe ir
além da cultura como espaço de arte, abrangendo outras esferas da cidadania, tais como a
ambiental, a mobilidade, a cultura alimentar, valores éticos, os hábitos de saúde, a cultura
da paz, o que pressupõe, inclusive, outros formatos de gestão. Assim, segundo os autores, a
cultura participativa de uma cidade é mais abrangente do que a constituição de um conselho e
envolve outras dimensões para além do formal e institucionalizado. No entanto, neste artigo,
buscaremos, ainda que considerando tais limitações, reconhecer nos conselhos de cultura
espaços possíveis para a participação social.

Como aponta Teixeira (2005), os conselhos correspondem a espaços de partilha do poder, nos
quais alguns níveis de decisão são acessados a partir de interesses diversos que se confrontam,
posto que são também estes espaços de exposição de conflitos e nos quais a visibilidade das
tomadas de decisão já se mostram como um avanço diante daquelas tomadas em gabinetes
fechados. Para a autora, os conselhos também se constituem espaços para democratização
da democracia, o que segundo ela, corresponde à forma como os conselheiros aprendem a
escutar uns aos outros, respeitar divergências, perceber contradições e estabelecer acordos e
consensos. Outro ponto ressaltado por Teixeira (2005) é que os conselhos de cultura podem
promover melhorias na forma da gestão da política de cultura quando consolidam mecanismos
de avaliação, fiscalização, estabelecem diretrizes para atender a um número maior de pessoas,
otimizam recursos e evitam corrupção. Para Faria (2005), a partir da avaliação da atuação dos
conselhos, é necessário buscar compreender os novos rumos que deveremos tomar, a fim
de instituir novas dinâmicas participativas, avaliando os impasses na construção democrática
e na construção de uma nova cultura política que sirva à formação de cidadãos plenos e ao
desenvolvimento da vida nas cidades (Faria, 2005, 122).

2. CONSTITUIÇÃO DO CONSELHO MUNICIPAL DE POLÍTICA CULTURAL DE BELO HORIZONTE

O Conselho Municipal de Política Cultural de Belo Horizonte – COMUC, foi instituído pela
Lei 9.577, de 02 de julho de 2008, a partir de demandas da sociedade civil legitimadas por
conferências municipais de cultura e movimentos culturais da cidade. O decreto 13.825, de

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28 de dezembro de 2009 que o regulamentava, no entanto, dispôs uma composição que


fora ampla e intensamente questionada pela sociedade civil, posto que se configurava de
34 membros, dos quais 17 seriam indicados pelo poder público, representando pastas da
administração e 17 seriam representações da sociedade civil, das quais 06 dos setores artísticos
eleitos por entidades, 09 por representantes das regionais administrativas do município e 02
representantes de notório saber que seriam indicados pelo Prefeito. Esta composição e a forma
de indicação dos representantes da sociedade civil via entidade e via indicação do Prefeito
foram alvo de críticas e debates que resultaram na revogação deste decreto e sua substituição
pelo Decreto 14.424, de 18 de maio de 2011. Esta alteração foi resultado do trabalho de uma
comissão de estudos criada a partir de uma reunião pública, com membros do poder público
e da sociedade civil e instituída pela Portaria FMC 48, de 27 de dezembro de 2010. O trabalho
desta comissão resultou na realização de consultas públicas e na elaboração do novo decreto,
que dispôs nova composição para o Conselho a ser formado por 30 membros, dos quais 15
são do poder público indicados pelos respectivos órgãos e 15 da sociedade civil, sendo 06 dos
setores artísticos eleitos pelos seus pares e 09 representantes das regionais administrativas
eleitos pelos moradores destas áreas. Houve, portanto, a partir dos debates promovidos e pelo
trabalho da comissão, a retirada da indicação dos representantes artísticos pelas entidades
e dos 02 notórios saberes indicados pelo Prefeito, buscando-se assim, maior abertura à
participação do cidadão, não restringindo a inserção no conselho via entidade e eliminando a
tradicional indicação de notórios saberes pelos prefeitos, como se dá em conselhos tradicionais
do Patrimônio, por exemplo. A principal questão em pauta e ressaltada durante o processo de
reformulação foi a garantia da ampla e diversa participação do cidadão. A partir daí, com o
novo decreto, foi instaurado em 2011, o primeiro processo eleitoral para o então Conselho
Municipal de Cultura (a alteração do nome para Conselho Municipal de Política Cultural se deu
em 2014). Este momento foi importante para estabelecer o que foi disposto pelo MINC (2011)
relativo ao processo democrático na escolha dos membros do conselho de representantes
da sociedade civil e como aponta Faria e Moreira (2005), inibir conselhos que se estruturem
com características corporativistas, relacionadas às áreas que, de fato, não representam, sem
vínculos com as dinâmicas da sociedade civil e restritos a grupos que não abarcam a cidade,
mas que podem forçar a lógica das relações políticas para apoio de eventos ou espaços.

Em 2011, todas as representações da sociedade civil tiveram candidaturas e, após as eleições,


foi iniciado o trabalho do colegiado, com a instauração sistemática de seu funcionamento,
a partir da discussão do Regimento Interno, que durou cerca de seis meses e representou
um momento rico de debates que iam além das matérias regimentais, além da definição da
agenda de reuniões ordinárias. A partir de então, o Conselho veio atuando junto à Fundação
Municipal de Cultura na formulação do Plano Municipal de Cultura, finalizado em 2013 e
aprovado pela Câmara Municipal de Belo Horizonte em 2015, na colaboração para realização
da 3ª e 4ª Conferências Municipais de Cultura, em 2013 e 2015, respectivamente, além de

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promover debates em torno de temas pertinentes às representações setoriais e regionais,


como a revisão da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, os usos dos espaços públicos, a atuação
e manutenção dos equipamentos culturais públicos (Centros Culturais, Teatros, Museus, etc. ),
além de ações específicas como editais, festivais e outros projetos da gestão pública de cultura
da cidade.

3. ATUAÇÃO DO CONSELHO MUNICIPAL DE POLÍTICA CULTURAL – AVANÇOS E DESAFIOS

Durante os dois primeiros mandatos do Conselho Municipal de Política Cultural (2011-2013


e 2013-2015), destacam-se os trabalhos relacionados à formulação do Plano Municipal de
Cultura e a instauração dos debates em torno da revisão da Lei Municipal de Incentivo à Cultura,
tendo como referência a implantação do Sistema Municipal de Cultura. O Sistema Municipal de
Cultura também foi tema deste período resultando em sua instituição através da Lei 10.901, de
11 de janeiro de 2016. Estes resultados, mais a colaboração do conselho na realização da 3ª e 4ª
Conferências Municipais de Cultura, em 2013 e 2015, além da Conferência Extraordinária em
2013 com foco no Plano Municipal de Cultura, podem ser considerados resultados efetivos da
atuação do conselho na formulação da política. Durante todo o processo, houve a possibilidade
de inserção de questionamentos, sugestões e verificação de informações pelos conselheiros
que se destacaram também pelo perfil de indução de alguns procedimentos pela instituição,
tais como o aumento no número de realização de reuniões públicas para definição de projetos
e ações específicas, como festivais e editais. O acompanhamento do Conselho de Política
Cultural também em comissões de trabalho da instituição, como, por exemplo, na Comissão
do Edital Mestres da Cultura Popular (2014 e 2015) promoveu a inserção de conselheiros no
exercício mais próximo da execução da política, possibilitando um contato mais direto na
formulação do mecanismo e no processo de avaliação. Houve a inserção da participação de
conselheiros nas comissões de elaboração do Plano Municipal de Leitura, Livro, Literatura e
Bibliotecas, no Comitê de Acompanhamento da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, além
da constituição de grupos de trabalho específicos do colegiado com temas pertinentes às
discussões promovidas. Desta forma, buscou-se ampliar a participação do Conselho em vários
âmbitos de formulação das políticas no âmbito da Fundação Municipal de Cultura.

Muitos são os desafios que o Conselho Municipal de Política Cultural ainda tem a superar em
seu percurso. Um dos desafios atuais é a ampliação da atuação do conselho no processo de
acompanhamento na elaboração orçamentária definida pela Lei de Diretrizes Orçamentárias
(LDO) e pela Lei Orçamentária Anual (LOA), assim como no entendimento destes instrumentos

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na estrutura do Plano Plurianual de Ação Governamental (PPAG). Nos últimos anos, o


Conselho Municipal de Política Cultural foi consultado sobre as possibilidades de projetos
e avaliação das propostas, mas não consolidou proposições relativas ao tema nos prazos
estabelecidos. Verifica-se, portanto, a necessidade de definir as estratégias e mecanismos para
que esta atuação se efetive com mais qualidade e não se disperse ao longo do ano através de
resoluções ou recomendações fragmentadas. Como aponta Teixeira (2005), os conselhos que
não discutem o orçamento, as contas públicas e não acompanham o gasto público, podem se
perder em assuntos muito genéricos e se dispersarem do poder que teriam de fato.

Outro desafio é ampliar a capilaridade e mobilização dos conselheiros junto a seus setores
e regionais. Percebe-se uma fragilidade, em algumas representações, na interlocução com
seus pares a fim de consolidação de propostas, questionamentos e encaminhamentos.
Alguns conselheiros, nas eleições de 2015, foram eleitos com apenas um voto, o que revela
um esvaziamento do processo de participação e pouca articulação com os segmentos que
buscam representar. As ações de descentralização no território, através dos fóruns regionais e
setoriais, visam criar espaços para que coletivos se constituam e tenham representação com
base mais ampla e diversa.

A constituição dos fóruns consultivos setoriais e regionais, já pautado durante os últimos anos
pelo colegiado e por grupo de trabalho constituído para sua definição, ainda está em curso, o
que pressupõe o necessário investimento nos próximos anos a fim de efetivá-los nos moldes
descritos pela política nacional, para o âmbito municipal. Já foram realizadas reuniões para
incrementar fóruns já existentes, como os do Audiovisual, Música, Leitura, Manifestações da
Cultura Popular, além de se identificar, no âmbito das regionais, a realização de Comissões
Locais de Cultura pelos centros culturais. O conselho tem buscado, ao longo deste processo,
ressaltar a implantação do Sistema Municipal de Informações e Indicadores Culturais, com
a fundamental ação de Mapeamento Cultural como ferramenta para a gestão da política de
cultura. A visibilidade dos territórios culturais e artísticos é uma pauta constante no âmbito
do conselho e já resultou também na constituição de um grupo de trabalho voltado para a
interlocução com os centros culturais dispostos nas regionais da cidade, além de representação
no grupo institucional para implantação do Mapeamento cultural. Além disso, conforme
afirmam Faria e Moreira (2005), os conselhos devem descentralizar a ação no território,
capilarizando também as políticas públicas, buscando integrar espaços da cidade.

Outro grande desafio para o Conselho Municipal de Política Cultural, desde o segundo processo
eleitoral, realizado em 2013, é a ampliação e diversificação para sua composição. O aumento
das vacâncias de algumas representações, o baixo número de participantes do processo,
seja como eleitor ou como candidatos, aponta para um esvaziamento e desinteresse em ser
designado como conselheiro municipal de cultura. A principal justificativa para esta queda
no interesse de integrar o conselho está no impedimento do conselheiro em participar dos

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mecanismos de incentivo e fomento no âmbito municipal, dada sua condição como agente
público municipal pelo Decreto 14.635, de 10 de novembro de 2011. Estas restrições inibiram
a participação de muitos agentes culturais do município (artistas, produtores, técnicos de arte,
etc.) que concorrem no acesso, principalmente, à Lei Municipal de Incentivo à Cultura.

Também foi constatado outro ponto que reduz a potencialidade de participação social no
conselho referente aos critérios estabelecidos para os candidatos regionais que, diferentemente
do que ocorre em outros conselhos de políticas do município, impede a participação do
cidadão comum, do usuário da cultura, uma vez que requer comprovação, por meio formal, de
02 anos de atuação na área artística ou cultural de sua regional, em moldes do que é exigido
das representações artísticas. Este requisito tem impedido que o cidadão comum, usuário da
cultura, e também agente cultural no sentido mais abrangente e antropológico, insira-se como
candidato no processo de eleição do conselho e possa integrá-lo e formular, em conjunto com
as demais representações, a política cultural da cidade. Esta análise também vai ao encontro
do que propõe Moreira e Faria (2005) em relação à composição de um conselho para além das
linguagens artísticas, mas com a inclusão de outros e diversos atores que convivem na cidade.

O Conselho Municipal de Política Cultural também tem como desafio ampliar os instrumentos
de comunicação a fim de dar maior visibilidade aos seus trabalhos para a cidade. A Prefeitura
Municipal de Belo Horizonte, por meio da Secretaria Adjunta de Gestão Compartilhada, possui
um Portal para abrigar as informações de todos os conselhos e colegiados de políticas públicas
da cidade. Nele, estão dispostas as legislações, agendas, pautas, atas, integrantes, resoluções,
e outras informações gerais sobre os conselhos. No entanto, o Conselho Municipal de Política
Cultural já pautou a necessidade de buscar criar, junto à Fundação Municipal de Cultura,
outros canais de comunicação, inclusive, para superar outro grande desafio que é o de renovar
e inserir novos agentes culturais e cidadãos nos processos de participação.

Em relação ao papel e atuação, muitos conselheiros, tanto alguns representantes do


poder público como da sociedade civil, demandam ações de formação e capacitação para
a participação, debate político e sobre instrumentos da administração pública. No âmbito
da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, foram realizados cursos junto à ESAF – Escola
de Administração Fazendária, anualmente, a partir de 2013, a fim de contemplar todos os
conselhos de políticas públicas. Este tipo de ação, inclusive, é apontado por Teixeira (2005),
como um exemplo de medida para articular conselhos de políticas por meio de programas de
capacitação integrados. No entanto, a participação dos conselheiros municipais de cultura foi
pequena, justificada pela maioria, pela incompatibilidade de datas e horários. Cabe ressaltar
que a atuação do conselheiro municipal de cultura pelos representantes da sociedade civil
é caracterizada como uma atividade de interesse público, sem remuneração e que o tempo
dispendido para esta atuação concorre diretamente com o seu trabalho, fonte de renda,
além das atividades familiares. Isto remete a uma questão posta por Teixeira (2005) relativa

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à paridade que, formalmente existe, mas na prática é comprometida em função de condições


distintas e desiguais de participação entre os membros do poder público e os da sociedade
civil, visto o diferente acesso às informações e o tempo disponível para a participação. As
dificuldades dos membros da sociedade civil comprometem a efetividade da paridade como
um atributo do conselho. Outro ponto que também pode ser ressaltado é que muitos membros
do poder público não têm, de fato, um compromisso com o conselho, não se envolvendo nas
discussões, proposições ou encaminhamentos.

As ações de capacitação no âmbito da própria Fundação Municipal de Cultura foram realizadas,


esporadicamente, a partir dos temas relativos ao orçamento, aos Sistemas Nacional e Municipal
de Cultura, Agenda 21 da Cultura, além de seminários específicos para os quais o conselho
é convidado. Foram realizadas visitas técnicas aos equipamentos culturais do órgão gestor
para que os conselheiros tivessem conhecimento e acesso a informações diretas por parte
dos gestores e equipes. Estas ações promoveram um envolvimento maior também por parte
dos servidores da Fundação Municipal de Cultura com o conselho. Cabe ressaltar que uma das
demandas por parte dos servidores é a garantia de que 03 dos 07 membros representantes
do órgão sejam eleitos pelo conjunto dos servidores. Esta eleição já acontece desde 2011, no
entanto, sem ter sido incorporada na normativa do colegiado.

Dentre tantos desafios, o Conselho Municipal de Política Cultural também se depara com
a necessidade de desenvolver capacidades de gestão de tempo, de conflitos, de instituir
procedimentos para melhor definir prioridades num contexto complexo, heterogêneo e
diverso da Cultura, por meio da inscrição de suas pautas, proposições e deliberações.

Aliar o trabalho do conselho a outras instâncias da esfera pública também é um desafio para
efetivar proposições e encaminhamentos, como por exemplo, a necessária interlocução
com a casa legislativa, esta que, muitas vezes, tem receio da atuação de conselhos fortes e
incisivos. A elaboração do Plano Municipal de Cultura e da Lei do Sistema Municipal de Cultura
demonstrou a importância de um conselho que não restrinja o olhar ao poder executivo e que
saiba operar com as estruturas dos poderes da administração pública.

No entanto, há que se ampliar o suporte para que o conselho se muna de conhecimentos,


instrumentos e ferramentas que fortaleçam suas atribuições de análise, avaliação, formulação
e deliberação.

Ao analisar as atividades, proposições, resoluções e trabalhos do Conselho, é possível levantar


problemas e desafios relativos à eficácia e efetividade de alguns de seus atributos. Os resultados
efetivos, relativos à formulação do Plano Municipal de Cultura, outro elemento constitutivo do
Sistema de Cultura, além da instituição deste, representaram um avanço para consolidação da
política pública do município e concretizou também as demandas e proposições consolidadas
ao longo de 4 conferências municipais (2005, 2009, 2013 e 2015). É importante destacar que o
conselho passou a ser reconhecido como uma instância na estrutura da política pública, sendo
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solicitado para análise e pauta por parte de vários setores e grupos da cidade. As recomendações,
moções e resoluções aprovadas desde 2011, tiveram resultados naquilo que o órgão gestor
detinha governabilidade. A exemplo da Resolução aprovada em 2013 que pautava a diretriz de
equilíbrio na distribuição do recurso da Lei Municipal de Incentivo à Cultura nas regionais do
município, que gerou a formulação de um edital diferenciado denominado Descentra Cultura
a fim de possibilitar maior capilaridade do recurso, com maior possibilidade de acesso por
produtores de outras regionais da cidade. Este edital, no entanto, apontou que outras medidas
deverão ser tomadas, mas representou uma ação decorrente de deliberação do conselho.
A baixa de resultados efetivos pode, segundo Teixeira (2005), desestimular a participação
e gerar a sensação de frustração. No entanto, é necessário informar aos conselheiros quais
são as reais possibilidades orçamentárias disponíveis para o setor e para a execução pela
instituição. O entendimento dos trâmites administrativos e legais no âmbito da gestão pública
também são fundamentais para que o conselho compreenda o cenário orçamentário no qual
a cultura está inserida na cidade e os alcances de governabilidade do órgão gestor. Um ponto
importante a ressaltar é que, à medida que os elementos constitutivos do Sistema de Cultura
se consolidarem e se fortalecerem, o próprio Conselho terá maior possibilidade de ampliar
a eficácia e efetividade de sua atuação, a exemplo da implantação do Plano Municipal de
Cultura, agora uma referência para a política cultural da cidade para os próximos 10 anos,
com revisão a cada Conferência Municipal. Estes instrumentos reforçam-se e contribuem para
o fortalecimento de toda a estrutura sistêmica da política. Desta forma, o entendimento do
funcionamento do Conselho de Cultura passará pela compreensão e análise do funcionamento
dos demais elementos constitutivos do sistema e as deliberações do conselho devem abrangê-
lo, em especial, o acompanhamento do Plano de Cultura e do Fundo Municipal de Cultura.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir das leituras dos relatórios anuais do Conselho Municipal de Política Cultural de
Belo Horizonte, verificou-se que o colegiado, desde 2011, buscou constituir-se conforme as
prerrogativas do Ministério da Cultura, no contexto da adesão ao Sistema Nacional de Cultura
e implantação do Sistema Municipal de Cultura. Juntamente com a Conferência de Cultura
estabeleceu-se como instância de articulação, pactuação e deliberação. Estas três competências
que definem, inclusive, sua natureza, demandam constantes ajustes na gestão pública destes
conselhos para que se garanta o reconhecimento da diversidade, de conflitos, de invisibilidades,
para que se promovam espaços e tempos de pactuação, exposição de divergências, exposição
de interesses e para que se negocie, construam-se consensos, definam-se prioridades, enfim,
se efetivem os direitos de saber, falar, ouvir, perguntar, avaliar, duvidar, propor, decidir. Deste
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modo, espera-se que a articulação se constitua a partir de laços com as escalas do local e se
ampliem para alçar propósitos com outros níveis de governo; que a pactuação se institua a
partir de instrumentos democráticos, transparentes e éticos, envolvendo os contextos diversos
da Cultura e que a deliberação seja eficaz e efetiva, resultando em mudanças para o interesse
coletivo da cidade. Os conselhos, a partir de suas experiências, se deparam com a necessidade
constante de repensar seu funcionamento, seu formato, seus suportes, linguagens, o que
reflete uma dinâmica vívida da cidade, da sociedade, da cultura.

REFERÊNCIAS

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