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ÓRGÃO OFICIAL PAN-AFRICANO DEDICADO AOS POVOS PRETOS DO MUNDO INTEIRO

Ano I - Nº 01cccccccccccccccccccccccccccccccccccccccccccccccccccccccccccccccccccc ,, cccccccccccccccccccccccccc 25 de maio de 2020

Devaneios da democracia hipotecada


raquellima
A democracia é uma ideia transformada em bem ou serviço,
Comprada com as poupanças, comprada por quase nada.
Comprada a acreditar que era uma transacção sem juros
Fidedigna, irreversível e de garantia ilimitada.

Afinal era um empréstimo, a crédito, ao capitalismo,


Temporário, inflacionável e com juros até ao abismo.

O capital gerava lucro acumulado e reinvestido,


Enquanto as massas confiantes na segurança social:
Contribuíam, tributavam, contribuíam, tributavam,
E tinham direitos humanos mas duma forma maquinal.

O sistema democrático era o mais justo e coerente.


Criou-se todo um circo jurídico com essa bandeira içada
E nós, seguíamos confiantes face à solução encontrada,
Sem sonhar que a democracia fosse mais tarde hipotecada.

A casa grande foi montada com diversas prateleiras


Dos direitos, economias, letras, artes e asneiras
Humanidades, sociologias, ciências, educação
E em todas garantem que existe liberdade de expressão.

Negros no campo, gritam há tempos, que não há democracia


Não são tidos como humanos mas recursos e mercadoria
Então na casa acharam por bem fazer mais umas prateleiras:
biologias, recursos humanos e antropologias na dianteira

Mas vender democracia era um grande investimento


Vender-nos a ilusão de auto-controle a todo momento
E ao mesmo tempo abolir a ideia da emancipação
Então bancos, fronteiras e igrejas serviram como salvação

Porque a casa da repressão era ao pé da casa do fascismo


E ambas serviam a grande mansão já montada do capitalismo
Hipotecar a democracia foi só pintar com quatro de mão,
Mudar portas, fechaduras e encafuar gavetas no sótão.

A empreitada da fachada foi a mais difícil de pintar


Até vieram republicanos e democráticos para ajudar!
Mas como as belas fatiotas davam sempre nas vistas
Foram entre esquerda e direita para entreter-nos com listas.

Enquanto isso as casas cresciam tão democraticamente


Que poucos sentiram o cheiro a podre no ambiente
Cheirava a genocidio judaico, indígena, negro e cigano
Mas lá na casa dançavam com fado, flamenco e tango

A democracia… uma ideia transformada em bem ou serviço,


Comprada com as poupanças, comprada por quase nada.
Comprada a acreditar que era uma transacção sem juros
Fidedigna, irreversível e com garantia ilimitada.

Afinal era um empréstimo, a crédito, ao capitalismo,


Temporário, inflacionável e com juros até ao abismo.

E toda a gente já sabia que a Ganância e a Ostentação


Eram só as irmãs mais novas da Dona Colonização
Ainda assim continuavam a comprar democracia
Por ingenuidade, inocência, ignorância ou teimosia.

E se alguém ousasse falar sobre aquecimento global


“Mas ora essa, que tolice, isso faz parte, é natural”
Cheira a dióxido de carbono, gases e efeitos de estufa
Queimadas de combustíveis fósseis e da floresta tropical
Mulher africana da Costa do Marfim, 1970.
Anos de vozes caladas: anos de democracia

É PRECISO REPUDIAR E COMBATER O


Anos de vidas ceifadas: anos de democracia
Anos de mulheres estupradas, refugiadas, escravizadas:
anos de democracia

Anos de espionagem sobre os rebeldes da libertação


Cheirava a guerrilhas, a denúncias e teorias da revolução RACISMO CONTRA OS IMIGRANTES
AFRICANOS NA CHINA
E quando a clandestinidade deu buraco orçamental
Então um génio megalómano inventou a rede social

Porque num mundo democrático vamos poder partilhar


A nossa vida realizada, ou sobre o que estamos a sonhar
Ideologias, partidos políticos, bem como o destino de férias
Artes, carros, estilos de vida e tudo o que queremos comprar Diante da discriminação e ataques que africanos tem sofrido em algumas regiões da China, nós pretos e
pretas da diáspora e do continente africano nos pronunciamos para expressar nossa indignação. Iremos
Nada como sermos nós próprios a oferecer de bandeja
O que as massas reflectem e o que o povo almeja nos utilizar de todas as formas para combater essas violências, seja por meio de boicotes, denúncias,
Cereja no topo do bolo sem grande consternação: retaliação, xingamentos, danos materiais. Utilizaremos de todos os meios disponíveis. Os governos, os
As redes agora ditam o que é verdade, história ou ficção empresários e a sociedade civil precisa dar uma resposta e se retratar diante dessa situação inaceitável.
A democracia… uma ideia transformada em vírus,
Se a China possui alguma questão contra os pretos, então deveria imediatamente abandonar o solo
Comprada com as poupanças, comprada por quase nada africano. É importante que se fale que nem todos os pretos têm uma postura individual, egoísta e se
Comprada a acreditar que era uma transacção genial sentam para negociar com inimigos. Por meio desse manifesto nos colocamos a disposição de todos os ir-
Mas os juros?… eram a terceira guerra mundial. mãos africanos que sofreram essa terrível situação, para prestar todo o tipo de apoio necessário. Pág. 03
Página 2 – Editorial e Opinião,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,25 de maio de 2020 ,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, ,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, Yanda PanAfrikanu

EDITORIAL
Esta primeira edição do jornal Yanda PanAfrikanu, ao jornal. As várias línguas nacionais africanas como
nasce da vontade comum de manter vivas as rotas Kimbundu, Umbundu, Forro, Kabuverdianu, Yorubá, EXPLICANDO O CONCEITO DE YANDA
ancestrais de comunicação e solidariedade entre a Áfri- Fon, Swahili, entre outras, têm aqui um espaço de
ca e a sua Diáspora, assim como do compromisso de imaginação e formulação a partir das suas próprias
construir as condições necessárias para o Renascimen- matrizes e raízes.
to Africano, que levou um conjunto de pessoas e orga- O jornal terá uma periodicidade bimestral e será trans-
nizações pretas, de partes distintas da África e da Diás- disciplinar no que diz respeito às temáticas que irão
pora Africana, a se reunirem pela primeira vez em São desde políticas, ciências, espiritualidades, filosofias,
Paulo, em outubro de 2019, para formar uma rede. A tecnologias, línguas e artes, em suma, culturas e cos-
Yanda PanAfrikanu é, assim, esta rede que retoma os movisões que permeiam a dimensão pan-africana.
caminhos já antes percorridos na busca do reconheci- Neste número em particular, encontrarão entrevistas,
mento de pistas para formar novas rotas de fuga, de li- análises políticas sobre os principais acontecimentos
bertação e de aquilombamento. da atualidade, divulgação de eventos, informações so-
É durante o contexto da pandemia do Covid-19, cuja bre jogos, poemas, informações sobre livros, entre ou-
mandíbula política não cessa de nos dilacerar, que a tros assuntos.
Yanda toma forma, com duas propostas concretas: criar “Quando poderemos falar de um renascimento afri-
um conjunto de debates regulares sobre diversas temá- cano?”, perguntava Cheikh Anta Diop num texto da-
ticas e intervenientes pan-africanos; criar um jornal tado de 1948, publicado pela Presence Africaine. O
que toma o nome da própria rede e que segue o percur- lançamento deste jornal acontece no dia em que se YANDA quer dizer REDE em kimbundu,
so do anterior Filhos da África, jornal criado no final comemora os 57 anos da fundação da Organização da língua bantu concentrada no noroeste de
da década de 1990, por Alaru Jagunjagun, e que foi Unidade Africana e questão levantada por Diop man- Angola, nomeadamente nas províncias de
uma das instituições que deu origem a União dos Co- tém-se ainda atual. Pensado numa futuridade que é
Luanda, Bengo, Malanje e Kwanza Norte, e
letivos Pan-Africanistas (UCPA), em agosto do ano calcada na nossa ancestralidade, a Yanda PanAfrikanu
2000, no Brasil. se propõe como um espaço para pensar e visibilizar as falada pelo povo Ambundu. A ideia para o
O objetivo deste jornal é resgatar, produzir e partilhar várias formas possíveis de imaginar essa renascença nome YANDA PANAFRIKANU partiu de
conhecimentos sobre as nossas realidades e visões de africana, e de existir renascendo em África. Respon- diferentes imagens de rede, tanto pela nossa
mundo, no sentido de divulgarmos referências funda- dendo ao desafio deixado por Fanon, esta é uma das missão de uma construção política em rede,
mentais para a continuidade de uma formação política formas da nossa geração cumprir a sua missão. entre filhos e filhas no continente africano e
comum, desde o reconhecimento das nossas diversas A linguagem buscada é a objetiva, sendo a mais trans- na sua diáspora, para fortalecermos diálogos
situações político-sociais, e fortalecendo a solidarieda- lúcida com o nosso povo, por isso se elenca aqui as e ações, como também na perspectiva de
de para com a grande família africana espalhada entre organizações políticas que sustentam essa publicação: uma rede que é lançada ao mar, buscando a
territórios distintos.
autonomia para pescarmos as nossas ideias,
Se esta primeira edição surge na língua portuguesa, no União dos Coletivos Pan-Africanistas – Brasil.
Papyrus PanAfrikanu – Cabo Verde, Angola e Portu- identidades, culturas e alimentos. YANDA é
que respeita aos textos publicados, este é um espaço de
partilha aberto a todas as pessoas e organizações pan- gal. simultaneamente trabalho colectivo e traba-
africanas de outros contextos linguísticos afrodiaspóri- Muxima na Diáspora – Angola e Brasil. lho autônomo numa luta comum da negritude.
cos, como se pode constatar pelo próprio nome dado Kilombo Favela Rua – Brasil.

Organização e Ideologia
Alaru Jagunjagun Oniluap*

A realidade fornece os pontos para um cia e o valor dessa organização estarão e realização. proteger a “elite”, proteger os herdeiros
pensamento, dessa forma surge uma dispostos a fazer um pacto de compro- Ao contrário da ordem e progresso, pro- dos escravocratas, manter a paz dos
constatação, e o sentimento de não estar metimento com a mesma, e consecutiva- posta pela bandeira brasileira, a organi- brancos.
satisfeito com a situação. mente estarão ligados a uma causa tão zação que propõem mudanças, propõem Nossa ideologia busca a nossa união,
Somente no momento que fizermos nos- sagrada e nobre. a desordem, para estabelecer a derruba- nosso amor por nós mesmos e nossa
so próprio estudo, veremos as coisas Em vez de cruzar os braços e chorar, te- da do velho e a manutenção de nossa co- paz.
com nossos próprios olhos, perseguindo mos que trabalhar, devemos organizar o munidade. E nós, temos uma cultura au-
leituras e ideias. Nesse sentido, o resul- que temos, e com competência usar da tossuficiente para essa manutenção. Salve a Amada Mãe África, Salve a Sa-
tado é o ideal que é o conjunto das situa- melhor forma a benefício de nossa co- Com o grupo fortalecido através da grada e Gloriosa Mãe África.
ções citadas. munidade. competência, a comunidade dará passos
A organização é fruto disso, com o obje- Não devemos nos preocuparmos, se em firmes para uma imponência e sobera-
tivo de se tornar um gigante, porém para casa os nossos pais, irmãos ou cônjuges nia.
isso devemos ter pessoas competentes nos colocam como o subversivo, deve- O Estado utiliza livros e aparelhos re-
do nosso lado. Ou seja, a organização mos sim assumir o papel de revolucio- pressivos para propagar sua ideologia.
preci-sa dar exemplo, precisa apresentar nários. Pegar a avenida Paulista e transformar
resul-tados, e mostrar que é competente. A relação, entre pessoas competentes, em cartão-postal é manipular os fatos,
E aqueles membros da comunidade, que resulta no crescimento, e alcance de res- para uma realidade inexistente.
observam isso, e que possuem uma sen- ultados satisfatórios. Na prática, o Estado com sua ideologia *Ativista pan-africanista e fundador da UCPA,
sibilidade capaz de perceber a importân- Nosso exercício será pela transformação luta para manter a “ordem”, ou melhor, falecido em 20 de dezembro de 2019.

Lembrar o genocídio negro na era da Covid-19


Alexssandro Robalo*

Emmett Till. Mississippi, 1955. No mês mãe, foi abordado agressivamente por a supremacia branca e a sua profunda li- as nossas vidas sempre estiveram amea-
de agosto completará sessenta e cinco um segurança, que lhe aplicou um “ma- gação ao projeto genocida. As três his- çadas, independente de qualquer situa-
anos do brutal assassinato de um rapaz ta-leão”, por alguns minutos, enquanto tórias demonstram, também, a fragilida- ção epidemiológica que o mundo estiver
negro de catorze anos, no Estado de ia perdendo a capacidade de respirar. de das nossas vidas no contexto de do- enfrentando, uma vez que a máquina ge-
Mississippi, nos EUA. Emmett Till, de- No último dia do ano passado morreu minação branca. Estados Unidos para nocida sempre nos viu como o alvo
pois de acusado por uma mulher branca, um jovem negro de vinte e um anos, na Till. Brasil para Gonzaga. Portugal para principal. Numa situação de pandemia,
seria sequestrado, barbaramente tortura- cidade do Porto, em Portugal. Giovani Rodrigues. Fundamentos continuam os o que acontece é que as nossas vidas, já
do, assassinado e lançado ao rio Tallaht- Rodrigues, juntamente com mais três mesmos, não obstante a diferença do fragilizadas pelo sistema de supremacia
chie. Três dias depois, seria encontrado amigos, todos cabo-verdianos, foram tempo e do espaço. Portanto, o genocí- branca e as suas instituições de controle,
neste rio num estado praticamente irre- atacados violentamente por um grupo dio continua em curso… continuam sendo as mais afetadas. Basta
conhecível. armado de quinze pessoas. Giovani, de- A questão da vida e da morte parece pensar nos números de pessoas infecta-
A catorze de fevereiro do ano passado, vido ao ataque que sofreu, acabou por estar na ordem do dia, considerando a das e mortas pela Covid-19 no Brasil,
um jovem negro de dezenove anos foi morrer, depois de ter resistido duramen- rápida propagação e os estragos causa- nos Estados Unidos, assim como a for-
brutalmente assassinado, depois de ser te por um período de dez dias. dos pela Covid-19. Muita gente vem fa- ma como temos sido tratados na China.
asfixiado por um segurança no super- Estes três casos possuem vários elemen- lando da necessidade de as vidas serem
mercado Extra, no Rio de Janeiro, Bra- tos comuns. O modo como foram ceifa- protegidas e defendidas. Contudo, não *Pan-Africanista de orientação cabralista, edu-
sil. Pedro Gonzaga, acompanhado pela das estas três vidas diz-nos muito sobre podemos esquecer, de modo algum, que cador anticolonial e pesquisador independente.
Yanda PanAfrikanu ,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, ,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,25 de maio de 2020 ,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,Página 3

MANIFESTO CONTRA O IMPERIALISMO CHINÊS NA ÁFRICA E CONTRA O RACISMO ANTI-AFRICANO NA CHINA

Diante da discriminação e ataques colonial da relação sino-Africana. tamento humilhante com castigos físi- demonstrar de forma inequívoca que
que africanos tem sofrido em algu- Osagyefo Dr. Kwame Nkrumah, hoje cos inclusos e remuneração muito nosso povo foi traído por suas lideran-
mas regiões da China, nós pretos e ancestral, nos ensina em Neo-colonia- abaixo daquela paga ao chinês comum ças, e cada aspecto de sua condição
pretas da diáspora e do continente lism, the Last Stage of Imperialism para o desempenho da mesma função; decadente, inclusive os episódios re-
africano nos pronunciamos para (1965): “O resultado do neo-colonia- o terceiro é a degradação do meio-am- centes no território chinês, é um refle-
expressar nossa indignação. Ire- lismo é que o capital estrangeiro é biente, sobretudo em locais próximos xo direto dessa traição. Uma maioria
mos nos utilizar de todas as formas usado para a exploração em vez de à “indústria da poluição” (mineração, de jovens estudantes que, pra começar,
para combater essas violências, se- desenvolver as partes menos desen- vidros, cimento, curtume, carvoarias), precisam buscar o conhecimento no
ja por meio de boicotes, denúncias, volvidas do mundo. Investimentos, sob e além disso, com o descarte de lixo exterior porque os governos Africanos
retaliação, xingamentos, danos ma- o neo-colonialismo, aumentam mais tóxico no litoral e nos rios, prática imi- não investiram satisfatoriamente no
teriais. Utilizaremos de todos os do que diminuem o abismo entre as tada dos nossos inimigos europeus e desenvolvimento educacional do povo,
nações ricas e pobres do mundo […] árabes, tornando a vida dos Africanos não merecem sofrer ainda mais com as
meios disponíveis. Os governos, os
O neo-colonialismo é ainda a pior for- vizinhos de suas instalações cada vez humilhações que os chineses estão im-
empresários e a sociedade civil pre-
ma de imperialismo. Para quem o mais difícil e mesmo insustentável. pondo.
cisa dar uma resposta e se retratar
pratica significa poder sem responsa- O terceiro trecho culmina na união dos A nós cabe a conscientização, a pre-
diante dessa situação inaceitável. bilidade, e para quem sofre, significa dois anteriores, mas com um elemento venção e a retaliação.
Se a China possui alguma questão exploração sem contrapartida. No à parte que deve ser considerado: o in- É necessário identificarmos as nossas
contra os pretos, então deveria tempo do velho colonialismo, o poder vestimento chinês na África é específi- possibilidades de ação, assim como é
imediatamente abandonar o solo imperial tinha, pelo menos, que expli- co, metódico e visa o lucro. Portanto, necessário o entendimento de que ape-
africano. É importante que se fale car e justificar em casa as ações que os portos, hotéis, aeroportos, represas, lar aos chefes de estado protozoários
que nem todos os pretos têm uma estava realizando no exterior. Na co- indústrias de processamento de metais de nossa terra não é uma delas. Estes,
postura individual, egoísta e se lônia, aqueles que serviram ao poder e rodovias que a china financia e tam- se dignos, deveriam ter rescindido
sentam para negociar com inimi- imperial dominante podiam pelo me- bém constrói no continente não pos- imediatamente o acesso chinês aos
gos. Por meio desse manifesto nos nos se precaver para sua proteção suem nenhum propósito altruísta ou seus interesses no nosso continente no
colocamos a disposição de todos os contra qualquer movimento violento vinculado ao projeto nacional de de- primeiro linchamento noticiado. Não o
irmãos africanos que sofreram essa de seus oponentes. Nada disso ocorre senvolvimento específico de cada na- fizeram e não o farão, e todos nós sa-
terrível situação, para prestar todo no neo-colonialismo […] O neo-colo- ção Africana, mas sim pautado na faci- bemos a razão. Estes párias devem ser
o tipo de apoio necessário. nialismo é baseado no princípio de di- litação de suas próprias necessidades derrubados.
vidir antigos grandes territórios colo- comerciais para a importação e expor- A prevenção se dá no bojo das ações
niais unidos em vários pequenos esta- tação das riquezas adquiridas e extraí- coletivas para abrigar, resgatar e ali-
dos inviáveis, incapazes de desenvol- das quase de graça. Na teoria, essas mentar nossos irmãos presos no impé-
25 de maio de 1963. Dia da África. vimento independente e que devem obras permanecerão para os países rio chinês. Aguardar as autoridades
Um dia determinado por trinta e dois contar com o antigo poder imperial Africanos e serão de pleno uso do po- Africanas ou a boa-fé chinesa é con-
chefes de estados Africanos indepen- para defesa e até segurança interna”. vo. Na prática, essas obras serão tão dená-los à miséria, discriminação, se-
dentes como um marco temporal em À luz dos fatos, as palavras de Nkru- “úteis” a nós quanto as capitais de ar- gregação e, eventualmente, a morte.
direção à união futura do nosso povo, mah desenham com exatidão o cenário quitetura europeia são úteis aos nossos Só temos a nós mesmos e isso terá que
tomando como objetivo irredutível a das nossas relações modernas. irmãos e irmãs que vivem nas favelas bastar.
libertação do nosso continente e do O primeiro trecho desmascara a falsa ao redor. A fragmentação da soberania A retaliação deve ocorrer em todo o
nosso povo que sofria com a experiên- afirmativa de que a china é a principal e o mergulho na dependência, previs- mundo. Os formatos são variados: boi-
cia da dominação colonial. parceira comercial do continente em tos por Nkrumah, se dá nessa batuta: cote ao comércio chinês; execração
O tempo passou. A Organização da volume tanto quanto em relações sa- se uma dívida é contraída sem qual- que atinja a mídia de massa, alterna-
Unidade Africana, outrora composta dias de mútuo benefício, quando a re- quer previsão de retorno financeiro tiva e informal; constrangimento aos
em grande medida por líderes revolu- lação comercial entre china e África que a justifique, é lógico, esperado e seus parceiros comerciais e boicote a
cionários, foi sendo carcomida por obedece ao modelo neo-colonial orto- inevitável que essa nação em breve estes; danos materiais e humanos aos
golpes de estado orientados por forças doxo de importação da matéria-prima não terá nenhuma condição de honrá- interesses chineses.
internas e externas. Aos poucos as li- a preço de banana em troca de alguns la e, com isso, terá de ceder cada vez Racistas sádicos e assassinos não têm
deranças honestas e irredutíveis foram presentes a setores do poder político mais o conteúdo de sua soberania ins- qualificação alguma para arbitrar so-
sendo mortas, depostas ou detidas, e Africano, e exportação de manufatura- titucional, como no caso da Zâmbia, bre nossas decisões e medidas de reta-
grande parte daqueles que não tiveram dos desses insumos a preços exorbi- que está em vias de ceder sua compa- liação aos seus atos demoníacos. O
tal destino mostraram uma face per- tantes para essas mesmas nações. Ou- nhia elétrica estatal para a china a fim que vocês podem fazer, se é que vossa
versa e despótica em seus governos, tro dado, provavelmente o mais alar- de abater uma parcela de seu débito moral de esgoto é capaz de aceitar
semelhante ao colonizador europeu mante, é a contração de dívidas impa- monstruoso. uma sugestão de decisão inteligente a
que substituíram, mas agora distantes gáveis de nações Africanas com a chi- Outro evento que escancara o signifi- ser tomada, é que deixem nosso povo
da massa Africana silenciada e aterro- na. A pobre e pequena Zâmbia, por cado prostituído da relação suposta- quieto e procurem outro bode expia-
rizada. O tempo passou, e a OUA, já exemplo, detentora de indicadores so- mente bilateral Africano-chinesa, e tório para seus problemas, ou devol-
desviada de seu sentido original, muda ciais terríveis, possui uma dívida ex- que hoje volta para assombrá-los, é o vam nossos irmãos para a nossa terra,
seu nome para União Africana em terna que em 2018 era de 8.7 bilhões, episódio ocorrido em 2019, onde 17 e neste caso, aproveitem também para
2002. Uma mudança que, embora tar- dos quais 7.4 bilhões eram oriundos da estadistas Africanos endossaram publi- retirarem-se de nossa terra e nunca
dia quando observamos a história de relação “fraterna” entre Zâmbia e chi- camente a postura chinesa de enclau- mais colocar as suas patas sujas em
relações degradantes entre lideranças e na. Agora, com a china despejando ca- surar e torturar a minoria étnica nosso solo.
as potências do mundo branco no pas- da vez mais dinheiro na Zâmbia, essa uyghur em campos de concentração O dia é 25 de maio. O dia da nossa
sado, eliminou talvez para sempre dívida externa saltou para 11.6 bilhões em xinjiang. Diante de relações tão Sagrada Mãe-África. Este dia testemu-
qualquer esperança popular em lide- em 2020. degradantes e da completa falta de nha seus filhos e filhas em todo o
ranças oriundas dos processos eletivos O segundo trecho também encontra dignidade dos estadistas Africanos mundo determinados à retomada da
dos estados neocoloniais modernos, sua imagem refletida nas relações en- frente aos seus mestres imperialistas nossa terra, à reunião do nosso povo
pois até então a chefia de estados Afri- tre china e a África. A invasão chinesa por tantos anos, sendo a china apenas sob o propósito superior de nosso Re-
canos ainda estava relacionada ao que do continente possui três grandes pro- mais um entre tantos, o racismo anti- nascimento, e que ninguém, de pele
era compreendido por revolução, cora- blemas nesse sentido: o primeiro é a Africano em sua face xenofóbica que preta, será abandonado à tirania de
gem e independência popular – mas demolição da ainda minúscula capaci- vimos em guangzhou não deveria es- monstros em seus covis.
tornou-se, a partir daí, sinônimo para dade industrial Africana, agora total- pantar ninguém, já que essas parcerias
prostituição moral, medo e servidão. mente incapaz de competir ou desen- comerciais patéticas são de conheci- Salve a Amada Mãe África, Salve a
Evidência cabal dessa realidade é a re- volver-se adequadamente diante das mento público. Sagrada e Gloriosa Mãe África.
lação Africano-chinesa do nosso tem- empresas locais ou multinacionais que Contudo, isso não significa nem de
po, que, sob o pretexto de estabelecer a china atracou no nosso continente; o longe que devemos permitir ou aceitar
relações comerciais bilaterais de co- segundo é a relação degradante entre bovinamente que tais abusos sejam co-
mum benefício, carrega consigo gra- as empresas chinesas e os trabalhado- metidos contra o nosso povo de forma
ves contradições e problemas nessas res Africanos, páreo à ética laboral dos tão covarde e vil, seja por parte da chi-
relações superficialmente harmonio- tempos da escravidão e colonialismo na, dos estados unidos da américa ou
sas. euro-semita. São vários os relatos de da europa. Este entendimento dos pro-
Sem medo, apontamos o caráter neo- condições de trabalho desumanas, tra- cessos, em sua plenitude, serve para
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Jogos africanos de tabuleiro: Patrimônio milenar e recurso educacional


Kwesi Ta Fari*

A prática dos jogos de tabuleiro é uma revela-se como um sinal de desafricani-


tradição milenar africana, que pode ser zação patrimonial. Bao é o nome de um
facilmente observada em vilas, praças, jogo tradicional de tabuleiro na Tanzâ-
esquinas, mercados e roças agrícolas nia e uma expressão popular em Kiswa-
das cinco regiões geográficas do conti- hili para jogos desse gênero. O Kiswa-
nente. No tempo e no espaço histórico hili é uma língua africana de origem
africano, esses jogos tradicionais com- Bantu falada por mais de 50 milhões de
partilham um mesmo universo de signi- pessoas no território continental, pensa-
ficados míticos, utilização jurídica e mos que “Bao” poderia ser um termo
funcionalidade matemática. A ocasião comum empregado para a família dos
de uma partida é capaz de envolver uma jogos africanos de tabuleiro.
comunidade inteira! Existe uma contí- O uso pedagógico dos jogos africanos
nua e diversificada prática cultural que de tabuleiro deve receber uma atenção
imprime nos jogos de tabuleiro um cará- especial dos programas educacionais
ter genuíno de patrimônio material da autônomos, especialmente os de proce-
unidade africana. der Pan-Africanista. Por esse ângulo, é
A arqueologia no continente africano importante que os investigadores desses
identificou jogos de tabuleiro em grava- jogos sejam os fabricantes, que os fabri-
ções rochosas no Sudão, inscrições hie- Presidente Julius Neyrere da Tanzânia (segundo da direita para a esquerda, entre o casal) durante uma
cantes sejam os investigadores e que a
roglíficas (Medu Neter) oriundas do an- partida de Bao, jogo de tabuleiro tradicional do país. A Tanzânia foi um dos centros do movimento Pan- comunidade consuma essas produções,
tigo Egito (Kemet), afrescos Malgaxe Africanista na África das décadas de 1960-1970. Segundo a história oral, Julius Neyrere desenvolveu possibilitando a formação de uma uni-
na ilha de Madagascar, esculturas ini- estratégias políticas anticoloniais praticando o Bao. dade econômica local. Os jogos tradi-
ciáticas na Nigéria e em ruínas do Reino ganhado destaque, conforme observado Tournament, um campeonato de jogos cionais de tabuleiro são um bem maior
de Mutapa. em Moçambique, Nigéria, Brasil e Ja- que objetiva incentivar a arte educacio- na composição dos esforços pela restau-
Nas cidades africanas contemporâneas, maica. nal africana em consonância ao ensino ração da nossa consciência histórica no
é muito comum adquirir jogos tradicio- Em Moçambique, a Associação Provin- de habilidades matemáticas dentro e fo- continente africano e na diáspora.
nais em feiras de artesanato, existe um cial dos Jogos Tradicionais promove in- ra da sala de aula.
vestigações, intercâmbios e torneios Entretanto, no sentido geral do mundo Referências:
mercado desses artefatos sendo abaste- CUNHA Jr., Henrique; PEREIRA, Rinaldo
cido por fabricantes de Moçambique, voltados à preservação patrimonial dos africano, os jogos tradicionais de tabu-
Pevidor. Mancala: o jogo africano no ensino da
Etiópia, Gana, Nigéria, Senegal, Tanzâ- jogos de tabuleiro. Na Nigéria, a em- leiro ainda são subestimados no campo matemática. Curitiba: Apris, 2016.
nia, Guiné-Bissau e outros países. Estu- presa KayCee Games organiza encon- da investigação e das práticas educacio- CUNHA Jr., Henrique; FARI, Kwesi Ta. SE-
dos realizados pelas universidades de tros internacionais sobre jogos (The nais. Essa situação problemática gerou NET: Introdução ao jogo ancestral africano.
African Boardgame Convention) e in- equívocos que se tornaram normas, a Praia: Addis Fetha, 2019.
Putra (Malaysia), Pensilvânia (EUA),
Pedagógica (Moçambique) e Ulm (Ale- veste na criação de protótipos inovado- exemplo da utilização do termo árabe https://theconversation.com/why-african-board-games-
manha) demonstram que a prática dos res, como o do extraordinário Ukubuwa. Mancala como categoria para todos os should-be-introduced-into-the-classroom-88139
http://jamaica-
jogos de tabuleiro é um recurso eficaz No Brasil, professores engajados no jogos africanos de tabuleiro. Uma vez gleaner.com/gleaner/20121117/news/news7.html
para o ensino de línguas, matemáticas e Movimento Negro inseriram jogos afri- que existe uma variedade de nomes para Foto: https://mancala.fandom.com/wiki/Bao_la_Kiswahili 9

até para o tratamento do mal de Alzhei- canos de tabuleiro em programas de ma- esses jogos, como Omweso (Uganda),
mer, grave doença neurodegenerativa. temática nos estados do Espírito Santo, Oril (Cabo Verde), Morabara (Botswa- *Kwesi Ta Fari – Historiador membro de inicia-
Em alguns países africanos e da diás- São Paulo, Bahia e Ceará. Na Jamaica na), Oware (Gana), Ntxuva (Moçambi- tivas Pan-Africanistas e do Movimento Rasta-
pora, a popularidade desses jogos tem está em curso o St. Elizabeth Oware que) e Ayo (Nigéria), o termo Mancala fari.

O candomblé e o retorno à África


Juliana Olatunji*

A O candomblé no Brasil pode ser considerado um dos pestades, Oxumarê as chuvas, Oxóssi e Ogum as matas
caminhos para a reconstrução das famílias pretas, e das etc. Portanto, os orixás e os elementos da natureza es-
próprias comunidades africanas, que foram completa- tão intrinsecamente ligados e só se pode entender as
mente esfaceladas pelo processo de escravização e pelo forças que criaram e mantêm o mundo (orixás) com-
racismo contemporâneo. O fenômeno de irmãos e ir- preendendo a sua relação com os quatro elementos da
mãs de diversas etnias reunidos fez ressurgir o panteão natureza.
dos orixás nagôs (iorubás), agora, concentrados em um Do equilíbrio entre os quatro elementos é que surgiram
único espaço geográfico. os seres humanos. Não há dúvida de que cada ser guar-
Do início do século XVI até meados do século XIX, da em sua essência uma parcela de água e outra de
foram trazidos para o Brasil milhões de irmãos e irmãs terra, uma de fogo e outra de ar; além do desejo de es-
de origens africanas, e com eles vieram os seus deuses tar em meio à natureza, em meio as florestas. A fusão
e as suas visões do sagrado. Os nossos irmãos escravi- entre a água e a terra formou o barro, com o qual
zados vieram de diversas regiões do continente africa- Obatalá moldou os corpos das mulheres e dos homens,
Agô às minhas mais velhas… no e pertenciam a muitas etnias distintas. Contudo, os o fogo serviu para assar esses corpos, dando a eles ri-
Agô aos meus mais velhos… grupos que foram as principais vítimas do tráfico ne- gidez e cor… depois, o sopro de Olodumaré infundiu-
Laroyê Exu! greiro foram os bantos, os iorubás (aqui no Brasil cha- lhes o ar da vida.
Epa Babá, meu pai Oxalá! mados de nagôs) e os jejes. Nós precisamos entender que a nossa convivência com
Os nagôs que foram levados para as regiões do Nor- a natureza relaciona-se com a nossa vivência plena, por
Axé, Mãe Aninha! Axé, Mãe Menininha! deste, principalmente para Salvador e Recôncavo Baia- exemplo, não devemos matar um animal se não formos
“No chão, vejo muitas folhas, são folhas verdes e no, criaram, apesar de toda a violência física e psíquica nos alimentar dele ou oferecer ele em sacrifício a uma
de cores vibrantes. Na atmosfera, sinto o cheiro da que sofreram, formas e espaços próprios para cultua- divindade, buscando o equilíbrio espiritual, psíquico e
rem os seus deuses, cantarem as suas músicas, dança- um bem maior. Não devemos arrancar as folhas das ár-
comida que é feita com energia, dedicação e amor, rem as suas danças, tocarem os seus instrumentos, vores sem necessidade, não devemos abrir caminhos
e que alimentam a cabeça, o corpo, o espírito e a cozinharem as suas comidas, vestirem as suas roupas, nas florestas por onde jamais passaremos etc. Devemos
alma. Com os olhos fechados, silenciosamente falarem as suas línguas e assim sentir como se ainda entender que a destruição da natureza é a nossa própria
chorando, em uma comunhão repleta de amor, estivessem na terra dos seus ancestrais. Assim foi destruição, pois nossa essência é a natureza… dela vie-
mesmo imersa numa espécie de transe poético, criado o candomblé, um pedaço da África no Brasil. mos e para ela retornaremos.
pude ver a minha avó, mãe, irmãs, tias e primas… Para os nagôs, os orixás são as forças vivas da natureza Para além de nos levar de volta para casa, a África, e
todas ali, diante de mim… e nas minhas sensa- e é por meio das pessoas pretas e desses elementos na- nos apresentar a necessidade de equilíbrio com a natu-
ções, todas elas giravam… e todas estavam vestin- turais que eles se manifestam; expressando o domínio reza, o candomblé representa um refúgio de sentimento
do roupas brancas, ostentavam turbantes na cabe- sobre a cabeça dos seus filhos, eles oferecem força, e saudade, também de memória. Portanto, no terreiro,
ça e alguidares nas mãos… todas elas dançavam, amor, cuidado e poder de realização em diversas esfe- na roça ou no ilê, é onde temos a possibilidade de nos
giravam e sorriam lindamente. Mesmo sabendo ras da existência humana. E segundo a tradição dos ori- reconectarmos com a nossa ancestralidade divinizada e
xás, a criação do mundo deu-se da relação entre Olodu- ter o privilégio de sentir, tocar e abraçar energias trans-
que elas estavam longe dali, ao menos em maté-
maré e os orixás, e assim foram criados os elementos cendentais e atemporais; e com essas energias e por
ria… a sensação causada pelos cânticos, tambo- da natureza: o ar, a terra, a água, o fogo, as florestas e elas a gente dança, sorri, canta, chora e comunga den-
res, danças e a alegria de todos, fez a energia de- tudo que habitam nelas. E cada orixá passou a ser as- tro destas pequenas (porém grandes) Áfricas, que são
las quase que se materializar dentro daquele ter- sociado a um destes elementos, por exemplo: Obatalá os candomblés no Brasil.
reiro de candomblé. E aquela foi a primeira vez ao ar, Xangô ao fogo, Oxum e Iemanjá as águas, Omo-
que eu estive diante dos deuses africanos”. lu e Oduduwa a terra, Nanã aos pântanos, Oiá as tem- *Pedagoga, arte-educadora, pan-africanista e membro da UCPA.
Yanda PanAfrikanu ,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, ,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,25 de maio de 2020,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,Página 5

Representações de África em tempos de pandemia


Entre discursos paternalistas e vaticínios “malthusianistas”, “a biblioteca colonial do coronavírus”
Apolo de Carvalho*
A COVID19, após devastar o Estado de Wuhan na Chi- A própria OMS em várias declarações tem avisado os o racismo daquele que abomina negro é tão racista co-
na, propagou-se de forma galopante por todos os conti- países africanos a “prepararem-se para o pior” uma mo daquele que o deifica. É sem muita surpresa que de
nentes levando a OMS a decretar o novo coronavírus vez que, estes podem vir a ser o “novo epicentro da “naturalmente” imunes, os africanos passaram a ser
como uma pandemia. O epicentro do contágio deslo- pandemia”. Todos esperam por uma vaga de destruição vistos como portadores do vírus e logo ameaças à se-
cou-se da China para a Europa onde o número de mor- anunciada, que teima em não chegar. O que explicaria gurança pública. É o que se verifica hoje, por exemplo,
tos ultrapassa as outras regiões do mundo. Em África a esta anomalia? Perguntam-se tecendo todo o tipo de ar- na China, particularmente em Guangzhou, onde vários
“chegada” do coronavírus foi recebida com uma série gumentos onde as linhas de continuidade colonial, não casos de negrofobia têm sido denunciados, levando a
de médias governamentais drásticas como o fechamen- cessam de se recompor e robustecer. União Africana a convocar o embaixador Chinês em
to das fronteiras e o confinamento obrigatório em vá- No início de Abril passado por exemplo, o Centro de Adis Abeba. Embora esses casos de negrofobia não se-
rios países. Junto com a Oceânia, o continente regista Estratégia (CAPS) do ministério das relações externas jam recentes nem esporádicos, têm-se acelerado nos
um número de casos menor comparado com as outras da França produziu uma polêmica nota de conjuntura últimos meses agravando as nossas vulnerabilidades
regiões do mundo. Se o futuro desta pandemia é incer- intitulada “L’effet pangolin: la tempête qui vient en várias por todo o mundo. Na verdade, quer estejam ou
to, a verdade é que, com um longo e duro histórico de Afrique?”. O documento foi redigido pelo especialista não infetados, as pessoas negras africanas parecem ser
epidemias mortais, os países africanos têm à disposição do famoso “reseau Foccart” e da Françafrique o histo- as mais afetadas por esta pandemia devido uma série de
todo um arsenal próprio, forjado nas lutas contra doen- riador Jean-Pierre Bat. Em quatro páginas afirma-se fatores que antecedem este vírus e que têm a ver com a
ças como o Ébola, para fazer face a esta a pandemia. que a crise do COVID19 mostraria a “Incapacidade própria estrutura política, econômica e social que orga-
Contudo, parece que para uma parte do mundo, o oci- dos Estados a proteger os seus próprios cidadãos” lev- nizam o mundo em que vivemos. A colonialidade de
dente particularmente, as experiências de África não ando a “desestabilização e fim dos regimes frágeis, ao um vírus prende-se a isso. A sua letalidade está numa
contam e deste “lugar-problema” só se pode esperar o descrédito das instituições estatais face as suas popu- capacidade de desdobrar a omnipresença. Ele mata até
falhanço total e nunca soluções a partilhar. lações, as crises políticas, econômicas e securitárias”. o corpo que não toca.
Desde o primeiro momento desta pandemia, várias são Face a tal cenário o CAPS recomenda que: “Antecipar É nestes momentos de crise, em que o sistema capita-
as vozes de “especialistas” (instituições internacionais, o descrédito das autoridades políticas significa acom- lista, racista patriarcal e colonialista se articula para
mídias, centros de estudo, gabinetes diplomáticos, inte- panhar com urgência o surgimento de outras formas de acelerar a nossa morte, que urge operacionalizar o vasto
lectuais, acadêmicos etc.) que vem se pronunciando so- autoridades africanas credíveis para se dirigir ao po- legado de luta que possuímos e agir com consequência.
bre o continente, vaticinando uma catástrofe iminente vo, a fim de enfrentar as responsabilidades da crise po- Importa registar que desde o início desta pandemia, em
que estaria prestes a devorar os seus 55 países. O cená- lítica que surgirá do choque provocado pelo Covid-19 vários lugares, diversos movimentos de cariz pan-afri-
rio de catástrofe é compulsivamente desenhado por vá- na África”. cano, pese embora as restrições às suas ações têm esta-
rios jornais que, quais arautos da desgraça, não poupam Ainda em relação a França e passando de uma autorida- do na linha da frente para garantir a sobrevivência das
caracteres para nos informar das várias vulnerabilida- de estatal para “autoridades médicas”, as continuida- nossas gentes.
des do continente africano. Vulnerabilidades estas que des são cada vez mais notórias e nos relembram a me- Numa carta aberta dirigida às líderes do continente, cer-
o transformariam num incubador de doenças. “Catás- dicina colonial. Igualmente em abril, fomos surpreendi- ca de 100 intelectuais africanos assinalaram a impor-
trofe, Desastre, Crise, Bomba relógio” são alguns dos dos com um alucinante diálogo entre dois médicos tância de envolver a sociedade civil africana na luta
termos que aparecem nos títulos de vários artigos que franceses no canal LCI, onde propunham com toda a contra a pandemia, apelaram ao rompimento com as
por aí pululam, sugerindo que face a esta pandemia, naturalidade, usar os africanos como cobaias para testar dependências externas, à ação concreta, a mudar radi-
“l’Afrique (noire) est mal partie” (África ainda tratada uma vacina, a BCG que poderia ser eficaz contra a Co- calmente de direção, e tomar em mãos o nosso destino.
como se fosse um país ou uma entidade homogênea). vid19. Assumindo a “provocação” os dois profissio- As vozes são múltiplas e cada vez mais sonoras, são lu-
É o “retorno” de um afropessimismo marcado pela in- nais da saúde, explicam que, “não havendo máscaras, tas que continuam e não fazem quarentena. O momento
confundível condescendência ocidental. Condescendên- nem tratamentos ou possibilidade de reanimação”, o é de continuar a construir esta África ainda vindoura.
cia e também paternalismo que estruturam discursos continente seria um laboratório ideal para experimentar Superar as representações coloniais sobre o continente
como os do Alto-Representante para a Política Externa uma vacina. A elegibilidade dos africanos e de África passa pelo compromisso com esta missão e, pela plena
da UE, Josep Borrell, para quem a “África é motivo de enquanto cobaias e laboratório, é ainda justificada por- consciencialização das nossas potencialidades enquanto
particular preocupação”. O líder da diplomacia euro- que na verdade “é a prática corrente como se faz nos africanos que têm papéis a desempenhar no futuro deste
peia com particular benevolência afirma, que é do inte- estudos com doentes do SIDA ou com as prostitutas, mundo também nosso.
resse da UE “ajudar África”, porque o vírus “pode re- uma vez que, estão mais expostos às doenças e não se
gressar à Europa”. Não deixa de ser interessante esta protegeriam”. 1. Segundo os dados da European Centre for Disease Pre-vention
preocupação quando se sabe que os casos de contágio Esta histórica associação do continente e das pessoas and Control à data.
que se espalharam por África foram em grande medida, negras às doenças é algo que se tem verificado desde o
importados de países europeus. Por outro lado, a funda- início da pandemia e bem antes do registo dos primei-
mentação deste “imperativo” de ajudar o “desgraçado” ros casos no continente. Veja-se por exemplo as várias
continente revela a forte securitização das políticas da fakenews que circularam nas redes sociais, a dizer que (*Estudante na grande universidade da palavra ensinada à som-
UE no que respeita as suas relações com África. a pele negra era imune ao vírus. Fanon nos lembra que bra dos Baobás.)

Morre mais um Filho da África: Elhadj Momo Bangoura memória de luta


Mutuh Nyaneka*

Elhadj Momo Bangoura Presidente Ho- dida para o site Africanguinee, sempre dos, o filho do presidente Sékou Touré e
norário do PDG-RDA, o reitor, compa- com o entusiasmo que lhe caracterizava, secretário-geral do PDG-RDA, Moha-
nheiro fiel de luta do falecido presidente Elhadj Momo Bangoura lembrava da- med Touré, enviou suas condolências à
Ahmed Sekou Touré, com quem lutou queles dias gloriosos, com satisfação, e família do falecido em sua página do Fa-
pela independência da Guiné Conakry, contava incansavelmente as armadilhas cebook aos 05 de maio de 2020. Qua-
aos 22 anos de idade teve o prazer de que a França preparava para destruição lifica além de que “homem de convic-
ouvir o “Apelo aos Africanos” de Fanon daquela nação, e, mesmo assim, a Guiné ção, humanista e revolucionário na al-
e com toda convicção votou NÃO ao re- aparentemente frágil ainda servia de ma é um homem do paraíso”. E conti-
ferendo de De Gaulle de 1958, tornando quartel-general das tropas de elite para nua com os elogios, dizendo: “Elhadj
assim a Guiné Conakry uma Nação au- libertação do continente, como soldados Momo Bangoura, um homem de Deus
tônoma, livre e independente para cami- irreverentes conseguiram desferir golpes porque um homem do Povo […]”.
nhar com seus próprios passos mesmo a ponto de derrubar mais dois coloniza-
sob várias ameaças de destruição, ao la- dores, a Alemanha Federal pelo simples “Para lembrar a história da luta de
do de seu eterno líder, gritou: “Preferi- facto da Guiné reconhecer as duas Ale- libertação dos povos colonizados da
mos a liberdade na pobreza à opulência manhas na época e Portugal pelo facto África, a Guiné teve a glória de ter sido
na escravidão”. do PAIGC fazer da sua base aquele país- o portador da tocha.
Elhadj Momo Bangoura, companhei- Dizer que Fanon se sentiu honrado e irmão. Nessa entrevista, com muita tris- De fato, a votação de 28 de setembro de
ro do falecido Ahmed Sékou Touré no contemplado uma vez que depois de fa- teza abriu o seu coração pela situação 1958 resultou no deslocamento do
PDG-RDA, morreu na segunda-feira zer o apelo, lançou a seguinte profecia: política do país, apelando pela união dos império colonial francês. A Guiné
04/05/2020, aos 84 anos de idade, em “Para dar início à libertação nacional filhos da Guiné: “O que eu quero é a causou mais danos à França do que o
Conakry, no hospital Ignace Deen, ví- da África Negra era preciso de uma coi- união dos filhos da Guiné”, e concluiu Vietnã e a Argélia.”
tima de doença não relacionada a Co- sa: que, pelo menos, um território dis- dizendo: “Devemos, por exemplo, evitar
vid-19, segundo a fonte. Foi um líder sesse não à constituição de De Gaulle. criar uma formação política com cono- Elhadj Momo Bangoura
político histórico. Um grande lutador A Guiné, conduzida por Sekou Touré tação étnica. Se houver um partido polí-
de resistência, enfrentou não apenas o tornou-se independente. […] E virou tico, ele deve ser representativo de todos
colonialismo francês, mas também o ponta de lança da liberdade”. os componentes da nação guineense”. *Pan-Africanista e membro do Colectivo Mu-
neocolonialismo. Numa entrevista do ano passado, conce- É com essa lógica que, dos Estados Uni- xima na Diáspora e da UCPA.
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Cerrar Fileiras
Ammit Garvey*

Saudações, meu amado povo!


Inicialmente, gostaria de registrar aqui os respeitos
devidos a um grande Ancestral e mentor político,
cujo nascimento completa exatos 208 anos neste dia
em que escrevo. Mukuiu, Major-Doutor Martin Ro-
bison Delany! Homem Preto Orgulhoso, considera-
do o pai do Nacionalismo Preto por ter sintetizado
nossas urgências e necessidades em um programa
político soberano para a nossa gente.
Estamos passando por tempos difíceis. tampouco desenvolveu uma vacina capaz (Cerras Fileiras). Diferente deste, que neutralidade da base de adesão entre as
Lamentavelmente essa afirmação não soa de eliminar o vírus em qualquer dos está- instava os pretos dos estados unidos de partículas da matéria” (Delany, 1870).
como novidade para pretos em parte algu- gios do contágio. Tudo o que todos têm seu tempo a “abandonar suas questões
ma do mundo, já que os tempos difíceis são medidas preventivas resumidas na particulares” – como linchamento, as leis *Intelectual e ativista pan-africanista,
são uma constante infeliz para nós desde restrição de atividade social, higienização de Jim Crow e cidadania de segunda clas- membro da UCPA.
muito tempo, de modo que somente os constante das mãos e objetos, a utilização se – para cerrar fileiras com o caipira ra-
livros de história podem contar quando e de máscaras protetoras das mucosas da cista do sul e europeus colonialistas na lu-
como era a vida do nosso povo nos tem- boca e nariz e protetores para as mucosas ta contra os impérios centrais na primeira
pos de paz, prosperidade e relativa segu- dos olhos. guerra europeia, o que pode ter ajudado a
rança. Apesar desse passado longínquo re- Se você não atropelou simplesmente as vencer a guerra europeia, mas manteve os
gistrado nos livros ter sido real e glorioso, palavras até aqui, deve estar se questio- pretos de lá na desgraça total por mais al-
se faz necessário prestar maior atenção ao nando sobre como um povo sem organi- gumas décadas, tenho como proposta um
período contínuo dos eventos que demoli- zação social e política, sem poder econô- procedimento bem diferente: cerremos fi-
ram nosso modo de vida, nos privaram da mico e distante de ser uma referência por leiras entre nós, apesar das nossas dife-
nossa terra e reduziram nosso corpo e sua capacidade de prevenção e tratamento renças e particularidades internas! Pense-
existência a uma simples extensão mecâ- de doenças enfrentará mais esse desafio mos em como resolver os nossos proble-
nica de enxadas, pás, marretas, fogões, que se apresenta. A restrição da atividade mas acima de qualquer coisa.
vassouras, alavancas e afins. social requer uma independência finan- Uma concepção simples, mas que muda
A história reza que Mansa Musa I, do Im- ceira para sustentar o confinamento por tudo. Somos pouco competitivos indivi-
pério do Mali, foi o homem mais rico de semanas, e nós não temos isso enquanto dualmente na concorrência para obter
todos os tempos, representado na carto- povo; a prevenção com o uso de álcool itens de primeira necessidade higiênica,
grafia de sua época como um grande ho- gel, máscaras N95 e proteção para os mas uma comunidade preta organizada
mem preto no centro do mapa da África olhos demandam dinheiro ou capacidade pode pleitear a compra desses itens junto
segurando um grande pedaço de ouro em produtiva autônoma, e nós não temos isso aos fornecedores a um preço considera-
uma das mãos. Hoje, no entanto, há uma enquanto povo; o tratamento que ameniza velmente reduzido. Uma família de traba-
legião sem fim de descendentes seus que os efeitos devastadores da síndrome respi- lhadores sozinha pode não conseguir sus-
dependem de doações ou “garimpos” em ratória aguda grave utiliza respiradores, e tentar as necessidades alimentares de uma
aterros sanitários para vestirem-se mini- comprá-los, ou produzi-los e operá-los, família vizinha com adultos desemprega-
mamente, e que passam muitos dias sem requer recursos monetários, infraestrutura dos, mas uma comunidade organizada po-
ter uma única refeição. Do mesmo modo, e recursos humanos capacitados, e nós de alimentar essa família diariamente a
produzimos as melhores mentes militares não temos isso enquanto povo. partir da partilha. Uma família sozinha
da história. Amílcar, Asdrú-Baal, Haní- O quadro é sério. No entanto, perceber pode não ter condições de bancar a inter-
Baal, Amanirenas, Dahia al-Kahina, Sha- essa condição não responde ao questiona- nação de um familiar com sintomas gra-
ka, Ramsés II, Ahmose I, Taharka, Nzum- mento. Não há nenhuma razão para acre- ves oriundos do coronavírus, mas uma co-
bi, Dessalines, entre outros grandes co- ditar em destino selado e na total impo- munidade organizada pode se reunir e
mandantes, organizadores, criadores de tência de um povo inteiro diante dos sustentar total ou parcialmente os custos Martin Robison Delany (EUA, 1812-
estratégias e movimentos estudados pelas acontecimentos históricos, por mais im- médicos. Há campanhas de arrecadação e 1885) foi um intelectual, abolicionista,
escolas de guerra de todas as grandes po- previsíveis e duros que sejam. Como o distribuição de itens de necessidade higiê- jornalista, médico, soldado e escritor en-
tências militares do mundo até hoje. Po- aniversariante Martin Delany nos ensina: nica e alimentar que podemos somar, e gajado e profícuo; além de estudioso das
rém, como todos vocês devem saber por “Todo povo deve ser o criador de seus criar outras frentes aonde elas não exis- questões pretas na América e da história
experiência própria, nosso povo utiliza o próprios projetos, o realizador de seus tem. e cultura africana; como defensor do po-
pouco poder de fogo que possui na atua- próprios projetos e criador dos eventos Não será fácil conceber respostas adequa- vo preto, Delany é considerado o pai do
lidade para fragmentar-se em facções ca- que conduzem ao seu destino – a consu- das e menos ainda proceder a elas, mas nacionalismo preto, pois ele defendia, já
da vez mais fechadas em si mesmas, ater- mação de seus desejos” (Delany, 1852). aos dignos não resta outra escolha. Para no século XIX e durante o regime escra-
rorizando quem permanece sob sua in- Essa é uma verdade que a história susten- estes, dedico as palavras inspiradoras de vagista norte-americano, a ideia de que
fluência nefasta e matando seus rivais ta repetidas vezes na experiência de povos Delany: “Então, para sermos bem-suce- os pretos jamais seriam livres dentro dos
pretos nessa contenda do terror presente que já sofreram em demasia, mas que, didos, nossa atenção deve estar voltada EUA e, portanto, deveriam construir uma
em todo o mundo particularmente preto. relutantes em aceitar a derrota, encontra- em direção àqueles lugares onde o ho- nação fora dos limites geográficos dos
Soma-se a essas discrepâncias a nossa frá- ram um meio de se reerguer. Esse vírus mem preto e de cor se compõem, por po- EUA, possivelmente na América Central,
gil capacidade atual de cuidados para a dará um golpe poderoso em todos os po- pulação, e constituem por necessidade de Caribé ou América do Sul. Em muitos es-
saúde e bem-estar geral do nosso corpo e vos do mundo, mas nós, assim como ou- números, o elemento dominante do corpo
tudos, Martin Delany é considerado um
mente, quando no passado figurávamos tros, teremos sido terminantemente derro- político. E onde, quando a ocasião exigir,
como detentores de um vasto repositório tados somente quando permitirmos que o assunto poderá ser realizado e mantido pan-negrista, pois defendia ele a unidade
de métodos de prevenção e cura de enfer- tudo permaneça como está, e que novas por esta base. Onde o nosso centro polí- das pessoas pretas de várias partes do
midades e necessidades médicas de toda hecatombes se sobreponham as já exis- tico e a edificação nacional poderão ser mundo, principalmente da diáspora afri-
ordem. tentes, aumentando a bola de neve da nos- criados, estabelecidos, murados, e orgu- cana. Dentre as suas obras, destacam-se
Hoje nós testemunhamos o mundo ajoe- sa desgraça. É preciso coragem para reco- lhosamente defendidos neste grande prin- seguintes: The Condition, Elevation,
lhado diante da pandemia causada pelo nhecer que cada fel que experimentamos cípio elementar de identidade original. Emigration and Destiny of the Colored
COVID-19. Esta mazela foi declarada agora é resultado direto de uma derrota Sobre esta base sólida descansa o tecido People of the United States (1852), The
pandemia no dia 11 do mês de março pela específica que aceitamos no passado, e é de cada substancial estrutura política no Origins and Objects of Ancient Freema-
OMS. Desde então, as mortes chegaram a sob estes termos que construiremos um mundo, e que não poderiam existir sem sonry: Its Introduction into the United
centenas de milhares, e até o momento os legado para os que estão por vir. Teremos ela; e tão cedo quanto as pessoas ou na- States and Legitimacy among Colored
curados são pouco mais de um milhão, de escolher entre o enfrentamento do nos- ções perderem suas identidades originais, Men (1853), Political Destiny of the Co-
enquanto os casos de infectados ainda ati- so desafio e a rendição vergonhosa, e essa tão cedo essas nações ou essas pessoas lored Race on the American Continent
vos somam mais de dois milhões. Núme- escolha ressoará pelo tempo não como serão extintas. Por mais poderosos que (1854), Principia of Ethnology: The Ori-
ros que, infelizmente, já estarão larga- narrativa, mas em condições de sobrevi- possam ter sido, eles devem cair. Porque gin of Races and Color, with an Archaeo-
mente defasados quando este jornal esti- vência favoráveis ou não para as próximas o núcleo que até então os mantinha uni- logical Compendium of Ethiopian and
ver em suas mãos. No momento o mundo gerações. dos, tornando-se extinto, já não sendo Egyptian Civilization (1879) e Political
não conta com um tratamento eficaz para Há cento e dois anos atrás, W. E. B. Du mais um centro de atração ou base para Destiny of the Colored Race on the Ame-
reverter o quadro de síndrome respiratória Bois publicava um editorial no jornal pre- a união das partes, deve resultar natural-
rican Continent (1854).
aguda grave que o coronavírus causa, to The Crisis entitulado “Close Ranks” mente na dissolução, como resultado da
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Pandemia, racismo e necessidade de dados étnico-raciais em Portugal


Raquel Lima*

À medida que nos fomos aproximando sociais racializados? E não conseguin- nas 26% deste município. Quanto a meros para explicar por que as pessoas
da declaração do estado de emergên- do, o que podemos nós fazer sobre o Chicago, o WBEZ informou que “70% negras, asiáticas e das “minorias étni-
cia, decretado em Portugal no dia 18 assunto? das mortes de Covid-19 são negras” e cas” (BAME – Black, Asian, Minority
de Março de 2020, com o confinamen- Têm sido várias as campanhas de soli- apontou sobre o Condado de Cook: Ethnic) podem estar mais em risco.[3]
to social como estratégia central, fo- dariedade, de apoio popular e imediato “Enquanto os residentes negros repre- Em Portugal, como numa série de ou-
ram muitas as contradições e inquieta- pelo país, porque é preocupante a não- sentam apenas 23% da população do tros países, é cada vez mais necessário
ções que surgiram imediatamente, ao existência de uma estratégia a longo- condado, eles representam 58% dos as analisar as disparidades gerais nos re-
pensarmos nas especificidades de de- prazo de redistribuição de bens e re- mortes de Covid-19.” O Detroit News sultados de saúde através de um recor-
terminados contextos de vulnerabilida- cursos considerando as desigualdades informou: “Pelo menos 40% dos mor- te racial, para garantir que as nossas
de de comunidades racializadas. sociais e raciais em Portugal, e consi- tos pelo novo coronavírus em Michi- comunidades possam ter acesso aos
derando que o distanciamento social é gan até agora são negros, uma per- cuidados de que precisam e garantir
• Como é que são possíveis medidas de centagem que excede em muito a pro- que os recursos sejam direcionados pa-
higiene para pessoas que vivem em
realmente uma opção para os mais pri-
vilegiados, e que vai rapidamente pro- porção de afro-americanos na região ra onde são mais necessários.
acampamentos sem acesso garantido a
var ser economicamente insustentável e no estado de Detroit. Os negros tam- Além disso, a pandemia permitiu-nos
sabão, água, máscaras, luvas, álcool
gel, e uma série de outros produtos re- e politicamente inviável para uma série bém representam 41% das 274 mortes reflectir em potenciais soluções a lon-
comendados? de pessoas, principalmente estas pes- relacionadas ao coronavírus de Illi- go prazo com vista a minimizarmos os
• Como é possível garantir o distancia- soas que têm que escolher entre morrer nois, em comparação com 106 ou qua- impactos desiguais em situações de
mento social entre pessoas que vivem de fome ou morrer do vírus. se 39% dos brancos que morreram emergência e calamidade como a que
em bairros e apartamentos sobrelota- É urgente obter dados comparáveis da após testes positivos para o vírus”.[1] se apresenta hoje, nomeadamente a ur-
dos. Como sabemos de casos de famí- situação das comunidades racializadas Em duas semanas, a quantidade de gência de um sistema de saúde uni-
lias da comunidade cigana de 15 pes- no contexto da pandemia do Covid-19 pessoas negras que morrem por Covid- versal, a necessidade de repensar mo-
soas a viver em apartamentos T3? em Portugal, para que as políticas pú- 19 no Brasil cresceu cinco vezes mais. delos de soberania alimentar, o reco-
• Como é que as pessoas podem ficar De 11 a 26 de abril, mortes de pacien- nhecimento e compreensão do trabalho
blicas sejam ajustadas às realidades e
em casa e os seus movimentos serem tes negros confirmadas pelo Governo informal dentro dos sistemas laborais
monitorizados, se vivem daquilo que contextos específicos das nossas co-
munidades. Federal foram de pouco mais de 180 e, finalmente, a necessidade de cons-
conseguem ganhar estando na rua? Não
Ainda mais pertinente, na área da saú- para mais de 930. Além disso, a quan- truir movimentos radicais transnacio-
tendo poupanças, não tendo acesso a
substituições de renda, e arriscando de, se considerarmos a possibilidade tidade de brasileiros negros hospitali- nais e interseccionais (seja através de
perder as suas fontes de rendimento du- do número de trabalhadores e trabalha- zados por Síndrome Respiratória Agu- organizações mulheristas, feministas,
rante este processo? doras de baixa qualificação infectadxs da Grave (SRAG) causada por corona- anti-racistas, anti-capitalistas, para a
• Mesmo que o estado introduza a (ou seja, assistentes de enfermagem, vírus aumentou para 5,5 vezes. Já o au- habitação, ambientalistas, entre ou-
substituição salarial e subvenções de profissionais de limpeza, encarregadxs mento de mortes de pacientes brancos tras), com o principal objectivo de evi-
apoio via segurança social, como é que de transporte de doentes etc.) ultrapas- foi bem menor: nas mesmas duas se- tar genocídios históricos, como o ge-
isso irá funcionar para pessoas que sar o número de médicxs e enfermeirxs manas, o número chegou a pouco mais nocídio negro, o genocídio cigano e o
exercem trabalho informal não declara- que o triplo. E o número de brasileiros genocídio indígena. Este contexto re-
infectadxs, nos hospitais e nos lares
do? brancos hospitalizados aumentou em lembra-nos também que a criação e o
• Se o confinamento está conectado
portugueses.
Se observarmos o staff dos hospitais na proporção parecida.[2] fortalecimento de redes pan-africanis-
com uma estratégia de isolamento, tes-
região de Lisboa, compreendemos que No Reino Unido tem vindo a ser discu- tas são caminhos emancipadores no
tes e tratamento, o que significa o con-
finamento onde não existe uma estraté- grande percentagem de trabalhadorxs tida a necessidade dos funcionários ne- sentido de uma autonomia real da Áfri-
gia desta natureza? Estou a pensar con- hospitalares é oriunda de comunidades gros, asiáticos e de outras “etnias mi- ca e das suas diásporas, porque as vi-
cretamente em acampamentos de ciga- cujas condições de vida e de doença noritárias” do Serviço Nacional de das, amargamente traduzidas em nú-
nos no Alentejo com 100 pessoas em costumam a ser omitidas nas cons- Saúde do Reino Unido serem afastados meros, têm vindo a comprovar que a
que 33 já estavam infectadas em Abril. truções estatísticas generalizadas para da linha de frente nos planos para re- pandemia do coronavírus é parte de
• Também se levantam questões de au- contornar a realidade numa sociedade duzir a taxa de mortalidade despropor- uma crise multifacetada do capitalismo
toritarismo: será possível que militares dividida também numa linha racial, cionalmente alta do Covid-19. O The racial.
e polícia cumpram de facto o seu papel além da classe. Guardian revelou na semana passada
de segurança e protecção pública num que os grupos minoritários estavam su- [1] Dados de várias fontes consultados em
Nos Estados Unidos da América, no Abril de 2020.
contexto em que corpos pobres, negros per-representados em até 27% no nú-
e ciganos foram historicamente desu- Brasil e no Reino Unido, recentes evi- [2] Notícia consultada em Maré de Notícias
dências de cidades e estados já mos- mero total de mortos em Covid-19. Online, a 7 de Maio de 2020.
manizados e violados pelo estado e o
tram que os negros são desproporcio- Além disso, 63% dos 106 primeiros [3] Notícia consultada em Guardian News, a 1
capital?
• Por um lado, o coronavírus recentra- nalmente afetados pelo vírus de manei- funcionários de saúde e assistência so- de Maio de 2020.
lizou o Estado como um actor impor- ras devastadoras. Conforme o relatório cial que morreram devido ao vírus
tante, mas por outro lado, será que ele ProPublica, no Condado de Milwau- eram negros ou asiáticos, de acordo
*Raquel Lima é poeta, arte-educadora, inves-
consegue realmente realizar essa fun- kee, Wisconsin, 81% das mortes eram com o Health Service Journal. Dife- tigadora de estudos pós-coloniais e integrante
ção de forma imediata para os grupos de negros. Os negros representam ape- rentes repórteres têm analisado os nú- do Núcleo Antirracista de Coimbra.

Mais um inimigo que o povo preto tem que encarar


Cledja Silva*
O mundo está passando por um momen- Sul, o resultado não seria diferente, com
to muito delicado, e nações estão em muitas mortes, hospitais superlotados e
alerta contínuo, depois da chegada do um crescente número de pessoas infecta-
novo coronavírus (COVID-19). Vários das e vindo ao óbito; com isso, a preocu-
países agiram com arrogância diante pação e o medo haveriam de se instalar.
dessa doença, que antes estava somente No Brasil, onde a maioria da população
no seu país de origem: a China. A Euro- é negra (pretos e pardos), já imagináva-
pa, em especial a Itália e Espanha, tive- mos que o caos seria ainda maior no in-
ram um grande destaque perante essa terior de nossa comunidade. No dia 30 racismo, enfrentam desigualdades que os diariamente; para dificultar mais as coi-
Pandemia, mas não um destaque positi- de abril, os dados do boletim epidemio- matam tanto física quanto psicologica- sas, o Brasil sofre com a presença de um
vo, pois eles passaram por um momento lógico da Prefeitura de São Paulo apon- mente. Não é necessário ser nenhum presidente que está mais preocupado
muito delicado e com muitas mortes; o taram que o risco de morte de negros por cientista para saber que somos os mais com a economia, do que em seguir as
sistema de saúde entrou em colapso, COVID-19 é de 62% maior em relação afetados e vulneráveis a todos os tipos recomendações da OMS (Organização
com hospitais superlotados; idosos, devi- aos brancos, e que entre os pardos o ris- de doenças, isso devido às condições Mundial da Saúde). Um governo racista
do a sua situação mais delicada, foram co é 23% maior.¹ precárias que o nosso povo vive nas que pouco se importa com a nossa saú-
um dos grupos de risco que mais chega- O coronavírus (COVID-19) não faz dis- periferias, com saneamento básico pre- de, afinal o número maior de mortes pe-
ram a óbito. tinção de etnia, raça, gênero ou classe cário, má alimentação, grande dificulda- lo COVID-19 é da população negra; o
Não tínhamos dúvidas de que no mo- social. Contudo, não podemos deixar de de para ter acesso à saúde e piores con- que para eles deve ser um alívio, já que
mento em que essa doença chegasse ao dizer que no mundo os negros são os dições de trabalho. Sofremos com um estão tentando nos exterminar há mais
continente Africano e na América do mais oprimidos e, por serem vítimas do governo neoliberal que nos descrimina de 300 anos.
Página 8 ,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,25 de maio de 2020 ,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, Yanda PanAfrikanu

Muitos dos nossos irmãos não têm con- população nas áreas urbanas, ou 258 mi- cil, e a única opção é a de contar com risco, e um dos motivos é o pouco aces-
dições para seguirem com as orientações lhões de pessoas, não tem acesso à la- um pequeno auxílio do governo, o que so à saúde, o saneamento básico precá-
e medidas de proteção e prevenção que a vagem das mãos. Cerca de 47% dos sul- não é o suficiente. As mulheres que mui- rio, as condições sociais e econômicas
OMS orienta, mesmo aquela mais sim- africanos que vivem em regiões urbanas tas das vezes são o sustento da família, quase que escassa, além da má alimen-
ples, que é lavar as mãos com água e sa- (cerca de 18 milhões de pessoas) care- tem que ir para o trabalho doméstico, tação e do descaso do governo.
bão – medida esta fundamental na luta cem de instalações básicas para lavar as onde correm risco de contaminação pe- Não só no Brasil, mas em todo o mundo,
contra o novo coronavírus. Isso porque mãos em casa, tendo os moradores urba- gando condução. De acordo com a revis- o povo preto é quem mais sofre perante
milhões de pessoas no mundo não tem nos, por exemplo, 12 vezes menos chan- ta Exame, no Brasil em 2018 6,2 mi- as crises que surgem, seja uma crise na
acesso à água potável, muito menos um ces de ter acesso as instalações para la- lhões de pessoas tinham como ocupação saúde, como a que estamos enfrentando
local adequado para lavar as mãos e fa- varem as mãos. Esses dados só nos mos- os serviços domésticos remunerados, is- agora, como se já não tivéssemos outras
zer a higiene básica. tram o quanto o povo preto é negligen- so assumindo variadas formas (diaristas, coisas para nos preocupar, seja uma crise
De acordo com a UNICEF, somente três ciado pelos governos e devido à falta de babás, jardineiros e cuidadores). No to- econômica, onde a primeira opção do
em cada cinco pessoas em todo o mundo estrutura, seja econômica ou social, ele é tal, 92% (5,7 milhões) eram mulheres, Governo é a de cortar ou reduzir os in-
tem instalações básicas para lavar as automaticamente o alvo mais fácil para das quais 3,9 milhões eram negras vestimentos com as minorias, temos aí
mãos e 40% da população mundial, ou 3 vir a óbito. (Agência Brasil/Revista Exame). Ou se- mais um inimigo para combater: o CO-
bilhões de pessoas, não tem lavatório Outra preocupação que damos atenção é ja, ficamos de mãos atadas, porque pre- VID-19. Neste sentido, precisamos nos
com água e sabão em casa. Quase três a questão do isolamento social, que no cisamos nos proteger, mas também pre- unir e ajudar os nossos, praticando mais
quartos das pessoas nos países menos momento é essencial na luta contra esse cisamos alimentar nossas famílias, e, em a filosofia do UBUNTU.
desenvolvidos não têm instalações bási- novo inimigo: o COVID-19. Mas se por meio a esta decisão, muitos dos nossos
cas para lavar as mãos em casa. Esses um lado temos que nos proteger ficando irmãos arriscam as suas vidas indo ao 1. Informações extraídas do jornal Estadão.
dados nos mostra que essas pessoas es- em casa, por outro lado precisamos ir trabalho.
tão especialmente em eminente risco de para o trabalho para ganhar o sustento de Em meio a toda essa Pandemia, o povo
contaminação. Ainda de acordo com a nossas famílias. Para os trabalhadores preto é quem paga o maior preço, pri- *Professora de história, intelectual pan-afri-
UNICEF, na África subsaariana, 63% da informais a situação está ainda mais difí- meiro por estar sempre nos grupos de canista e ativista da UCPA.

TRABALHADORES DA SAÚDE PRETOS EM TEMPOS DE COVID-19

Nesta edição o Jornal YANDA PANAFRIKANU entrevistou a


Dra. Lucinda Pedro, fisioterapeuta hospitalar, que atua em Uni-
dade de Terapia Intensiva (UTI), de nacionalidade Angolana, re-
side no Brasil, na cidade de São Paulo, desde 2013.
Ao nos responder sobre questão racial entre os trabalhadores
pretos na área da saúde em tempos de Covid-19, ela afirma que:
“[…] nessa fase de Covid, eles só querem mãos de obra, nem estão
se importando com quem você é…”, talvez isso nos faz entender a
dimensão do estrago que esta pandemia está a fazer neste país,
onde todo projeto de construção de nação, deu-se na base estru-
tural de racismo.
Jornal Yanda PanAfrikanu: Na qualidade de mulher, estrangeira, africana,
considerando todo histórico de preconceito e racismo que existe neste país, teve
alguma dificuldade em conseguir emprego? Acha que o Covid-19 foi um fator
importante para tal?
Dra. Lucinda Pedro: No meu caso em particular, acho que a Covid-19 não foi
um fator para conseguir o emprego, pois quando comecei ele ainda não tinha se
espalhado pelo mundo e nem tinha casos aqui no Brasil. Consegui por in-
dicação de uma colega que fiz enquanto fazia a pós-graduação, então fica di-
fícil ter certeza ou saber, até porque não cheguei a procurar. Mas nessa fase de
Covid eles só querem mão de obra, nem estão se importando com quem você é.
JYP: Dentre as diferentes equipes que compõe o grupo de trabalho, desde a
limpeza, enfermeiros, fisioterapeutas, médicos etc., quais, a teu ver, estão mais
propensos ao contato com o vírus e qual o percentual quanto as raças? Lucinda Pedro, Angolana e Fisioterapeuta.
Dra. L. P.: Dentre os citados, a meu ver, são os técnicos de enfermagem, não
saberia dizer ao certo a porcentagem, mas de olhos e de longe sem sombras de
dúvida a maior parte são pretos. JYP: Segundo o COFEN (Conselho Federal de Enfermagem), o Brasil chegou
JYP: Segundo dados oficiais, nos Estados Unidos, os afro-americanos e latinos a 98 profissionais da saúde mortos, vítimas dessa pandemia, na última quarta
são os mais atingidos em relação aos brancos, no Brasil, principalmente no teu feira (07/05), superando a marca de mortos dos Estados Unidos, que hoje é
local de trabalho, o que tem visto? considerado o epicentro, sendo 1/3 do total de mortos do mundo. Uma vez que
Dra. L. P.: No Brasil é aquilo que as notícias falam, e tudo indica que os pretos trabalha em estreita colaboração com as fisioterapeutas, nos diga qual a tensão
são os mais acometidos, por vários motivos que já conhecemos. Nos meus lo- e a carga psicológica em seu ambiente de trabalho?
cais de trabalho, num, sou contratada e noutro plantonista, ambos hospitais par- Dra. L. P.: É muita cobrança, seja moral ou mesmo profissional, tem gente
ticulares, o índice de pessoas pobres é muito baixo, porém conforme o status adoecendo por conta disso, alguns se afastando do trabalho, outros só estão se
social do hospital dá pra saber entre os atingidos qual grupo mais perde a vida, arrastando pelo dever que tem.
exemplo, onde sou contratada é um hospital em que os convênios médicos são Estou com fé que quando tudo isso acabar seremos fortes candidatos a fazer
mais acessíveis, sendo assim já vi uma preta que até agora foi dado como terapia.
suspeita de corona morrer, suspeita porque até agora não tivemos acesso ao JYP: Conhece algum colega de trabalho infectado? Fala um pouco sobre
resultado dos seus exames, pois foi bem no início do surto e vi outro preto mor- cuidado, tratamento, assistência, como fica depois do afastamento, qual a raça
rer, já este foi testado positivo, fiquei sabendo de mais alguém que foi vítima, mais afetada?
mas como não atendi, não fiquei sabendo de qual origem étnica era. Dra. L. P.: Num dos hospitais em que trabalho, conheci uma fisioterapeuta que
Já no outro hospital onde faço plantão é de alto padrão, onde o número de leitos testou positivo, e felizmente se recuperou, ela é preta, tal como eu, noutro, co-
são três vezes maior em relação ao primeiro e a taxa de ocupação bem mais alta nheço um casal de fisioterapeutas que testaram positivo e que também estão
em termos de proporção entre infectados e mortos foi bem menor o de morte, bem. Fiquei sabendo ainda de um médico de origem asiática contaminado e ele
até onde eu me apercebi, foram cinco, como os diagnósticos são mais rápido, a foi a óbito. Estes três últimos citados, no hospital de alto padrão.
velocidade do tratamento também é e, entre os pacientes, não me lembro de ter Algo a salientar nesse trecho é que a preta trabalha, mas não tem convênio mé-
visto um único preto. dico, quando se recuperou foi procurar trabalho em outro local de trabalho, pois
JYP: Quais as condições de trabalho, falando precisamente de segurança e durante o tempo de afastamento os empregadores não deram a mínima pra ela,
equi-amentos de proteção? já no outro, o casal têm convênio, inclusive o hospital em que trabalham cobre,
Dra. L. P.: Depende do hospital. Os com mais recursos estão disponibilizando falando nisso, um deles já está de volta. O médico que foi a óbito foi atendido
mais EPI’s e mais respiradores mecânicos. no mesmo hospital, nenhum preto.
Yanda PanAfrikanu ,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,25 de maio de 2020,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,Página 9

“Mensagem para o Povo Preto”


O texto que é entregue e circula de mãos em mãos
Jomo Akanni*

Foi pela violência, ausência de escrúpu- inimigos, que os envenenavam, que se a partir da organização e da luta coletiva Apesar de toda a importância dos pre-
los e de qualquer respeito a tradições recusavam a ajoelhar para seus deuses do povo preto é possível alterar o estado tos o estado brasileiro sempre nos per-
milenares, que os brancos nos apresen- brancos, ou que criavam suas estratégias em que nos encontramos. seguiu, criando leis e outras formas de
taram suas visões de mundo. Nos envol- e formas de luta nas mais remotas con- A reprodução do texto é feita por meio atacar nossas tradições, nossa religião
veram em conflitos a partir de suas ideo- dições. de impressões ou xerox, de acordo com e tudo que está relacionado ao nosso
logias e dos seus conceitos morais, os É preciso que isso seja levado a todos a capacidade de cada irmã ou irmão da povo. Foram criadas até teorias dizen-
quais eles mesmos não vivenciavam ou nossos irmãos para que ao menos sai- organização, e assim nos dirigimos as do que os pretos eram inferiores e que o
sequer acreditavam. Tudo isso resultou bam e queiram descobrir mais sobre es- vielas, aos becos, aos terminais de ôni- Brasil precisava clarear sua população.
no maior dano a um povo que é o de ne- se incrível legado. A partir desse objeti- bus, as escolas de samba ou quaisquer Nosso povo travou muitas lutas e por
gar suas tradições. vo, e movidos por esse mesmo senti- outros locais que nosso povo esteja reu- isso conseguimos chegar até os dias de
nido. Os textos são distribuídos a famí- hoje, mas o racismo e a perseguição
lias, idosos e jovens pretos, de mãos em continuam. Porém nosso pior problema
mãos, olhando nos olhos e com o esfor- é que assimilamos muitas das ideias ra-
ço e preocupação que possam atingir sua cistas que foram criadas para nos des-
atenção. truir e nos manter numa situação de
Dessa maneira acreditamos que estamos submissão e confusão mental.
contribuindo para aquilo que julgamos Fizeram-nos acreditar que tudo que
ser um dos aspectos mais importantes vem do preto é ruim e muito dos nossos
para uma organização Preta – Dialogar e problemas atuais vem de um sentimento
estar nos espaços em que nosso povo se de ódio que temos contra nós mesmos.
encontra. Não precisamos odiar nossa cultura e
Por vezes somos criticados e incom- valores africanos, ter vergonha dos nos-
preendidos por alguns irmãos quando sos traços, da nossa aparência. Não de-
percebem que o texto é dirigido exclu- vemos imitar e querer se parecer com
sivamente a eles, pois se sentem inco- aqueles que são racistas, não precisa-
modados por aquilo que acreditam ser mos buscar sua aceitação. Não precisa-
“uma discriminação a pessoas bran- mos arriscar nossas vidas e nossa liber-
cas”, ou até mesmos corremos riscos, dade para ter produtos e artigos caros
em determinados territórios, quando que trazem uma falsa sensação de feli-
questionamos o uso das drogas e as cidade, não precisamos nos tornar vi-
armadilhas que a criminalidade oferece. ciados ingerindo drogas e outros vene-
Ainda assim todos os meses realizamos nos, em busca de prazer e alívio.
essa ação, com recursos limitados e as É possível mudar nossa atual situação,
vezes contando com 10, 5 ou 2 irmãos. é possível nos organizarmos sem objeti-
De qualquer maneira sempre pautados vos partidários e pessoais, é possível
pela nossa autonomia e com o mais puro nos unirmos enquanto povo, cuidar uns
sentimento de irmandade, e com a con- dos outros, resgatarmos nossos valores
fiança de que aquelas folhas serão lidas, e não permitir que nenhuma crença ou
guardadas, repassadas e possam servir ideologia seja mais importante que nos-
como um convite para trilhar esse ideal sa origem africana – esses são os fun-
de luta e emancipação do nosso povo. damentos do PAN-AFRICANISMO –,
tivemos muitos líderes que praticaram
“Mensagem para o Povo Preto” esses ideais de libertação, pesquise so-
bre ASSOCIAÇÃO UNIVERSAL PARA
“Nós pretos chegamos ao Brasil por
A perpetuação dos nossos inimigos no mento de outrora, a U.C.P.A elabora um O PROGRESSO DO NEGRO (U.N.I.A),
volta do ano de 1530, fomos retirados
poder, difundindo e renovando seus va- pequeno texto com o objetivo de que a MARCUS GARVEY, BEATRIZ NASCI-
do continente Africano e forçados a tra-
lores, potencializou esse estrago, até que partir de um registro o mais simples e MENTO, ASSATA SHAKUR, LELIA
balhar aqui por mais de 350 anos sem
a maioria do nosso povo não fosse capaz agradável possível, possa haver um des- GONZALEZ, MALCOLM X, EUGENIA
receber qualquer quantia. Trouxemos
de se desvincular de suas lógicas até pertar de um sentimento de rebeldia e ao ANNA DOS SANTOS, STEVE BIKO,
muitos conhecimentos da África e nosso
mesmo para tentar combatê-los. mesmo tempo de libertação. PARTIDO DOS PANTERAS PRETAS,
trabalho foi responsável pelo enriqueci-
Mas sempre houve aqueles que foram O texto ocupa a metade de uma folha LUIZ GAMA, THEREZA SANTOS.”
mento de muitas famílias brancas e até
além, que estavam dispostos a tirar suas padrão A4, e se trata de uma reflexão pelo desenvolvimento da economia de *Ativista pan-africanista e integrante da UCPA
próprias vidas para não servir aos seus sobre o passado/presente, propondo que outros países. (União dos Coletivos Pan-Africanistas).

Invista no trabalho de pessoas pretas e fortaleça a economia da comunidade africana


Página 10 ,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,25 de maio de 2020 ,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,, Yanda PanAfrikanu

No dia 10 de julho de
1994, há exatamente Você conhece a KWANZAA?
24 anos, Lélia Gonzalez
partia para o Orun e Kenyatta Mugo*
nos deixava. Lélia foi
uma intelectual, antro-
póloga e militante do
movimento negro brasi-
leiro, com uma impor-
tante trajetória marcada
por compromisso, amor
e ousadia na luta an-
tirracista. Além disso,
teorizou e desenvolveu
um pensamento próprio
para analisar a realida-
de social brasileira, es-
pecialmente a cultura,
as relações raciais e de
gênero. Formulou con-
ceitos centrados nas ex-
periências pretas nas
Américas como a ame- Kwanzaa não é Natal Africano, mas sim uma celebração pensada e baseada em princípios Africanos, organizada e celebrada pelas comunidades pretas em qualquer lugar do mundo.
fricanidade e o preto-
guês. O nome “Kwanzaa” deriva da expressão querda, três velas verdes à direita, e uma (honrar os ancestrais, as tradições e celebrar
Para manter viva suas
“matunda ya kwanza”, que significa “primei- vela preta ao centro representando os se- os triunfos do passado sobre as adversidades).
contribuições e fazer
circular seu pensamen- ros frutos” em Swahili, a língua africana mais guintes princípios: É importante que se diga que a celebração da
to, a UCPA – União dos falada entre as centenas que existem no Con- 1º Dia – Umoja: significando união (estar Kwanzaa não é Natal Africano, mas sim uma
Coletivos Pan-Africanis- tinente Africano. A ideia de criar uma cele- unido como família, comunidade e raça); 2º celebração pensada e baseada em princípios
tas – tem a honra de bração pan-africanista para celebrar as primí- Dia – Kujichagulia: significando autodeter- Africanos, organizada e celebrada pelas co-
lançar o livro: Prima- cias, ou primeiros frutos, é atribuída ao profes- minação (responsabilidade em relação a seu munidades pretas em qualquer lugar do mun-
vera para as rosas ne- sor de estudos africanos Maulana Karenga. A próprio futuro); 3º Dia – Ujima: signifi- do. Se você é uma pessoa preta, celebre a
gras: Lélia Gonzalez, Kwanzaa foi celebrada pela primeira vez na cando trabalho coletivo e responsabilidade Kwanzaa em sua comunidade com uma mesa
em primeira pessoa… O Diáspora Africana (Estados Unidos da Améri- (construir juntos a comunidade e resolver farta de alimentos saudáveis, em gratidão aos
livro reúne de forma ca) de 26 de dezembro de 1966 a 1 de janeiro quaisquer problemas como um grupo); 4º frutos colhidos durante o ciclo, ano que se en-
inédita a obra textual
de 1967, sendo que em cada dia foi celebrado Dia – Ujamaa: significando economia coo- cerra e ano que se inicia, e sem a intervenção
de Lélia Gonzalez, con-
tendo seus principais um princípio. Posteriormente à celebração foi perativa (a construção e os ganhos da comu- ou participação de pessoas brancas, essa cele-
textos, entrevistas e de- levada para outras regiões da Diáspora Afri- nidade através de suas próprias atividades); bração é nossa. Furaha Kwanzaa e que o
poimentos. Trata-se de cana como Caribe, Canadá, Inglaterra e Brasil, 5º Dia – Nia: significando propósito (o ob- Nguzo Saba repouse sobre a vida de cada
uma edição pioneira, nosso objetivo com este pequeno texto é que a jetivo de trabalho em grupo para construir a pessoa preta!
uma vez que não há, no Kwanzaa também seja conhecida e amplamen- comunidade e expandir as culturas africa-
mercado editorial brasi- te celebrada tanto na Diáspora Africana como nas); 6º Dia – Kuumba: significando cria-
leiro, nenhum livro com *Um preto em Diáspora Africana militando na
Continente Africano. Os sete princípios da tividade (usar novas ideias para criar uma UCPA (União dos Coletivos Pan-Africanistas) pe-
suas publicações. Kwanzaa, conhecidos como Nguzo Saba, são comunidade mais bonita e mais bem-suce- la emancipação econômica, política e cultural das
Este livro é uma impor- representados por três velas vermelhas à es- dida); 7º Dia – Imani: significando fé pessoas pretas em qualquer lugar do mundo
tante contribuição para
o maior conhecimento
do pensamento de inte-
lectuais pretas/os, com- Um clássico da nossa contemporaneidade
batendo o que sabemos Abisṣogun Oṣlátúnjí Odùduwà*
ser uma das facetas da
dominação racial: a co- Várias são as definições para um clás- feita por Cuti a José Correia Leite; se- com a própria história de luta dos afri-
sico. Aqui, vamos nos ater aquela que leção dos principais artigos do Jornal canos neste país durante o século XX.
lonização do pensamen-
diz que as características de um livro O Clarim d’Alvorada e do Jornal Al- Um dos fundadores da Frente Negra
to e o apagamento da clássico são: a sua condição universal vorada e uma novela inacabada escrita Brasileira, Correia Leite, que era auto-
história preta no Brasil. e atemporal; uma fonte inesgotável de por José Correia Leite, intitulada de O didata, se destacou como fundador,
Raquel Barreto ensinamentos e prazer, a sua capacida- alvorecer de uma ideologia. Apesar de editor, repórter, redator, gráfico e colu-
[Julho de 2018] de de transformar os leitores e mudar a o livro ter sido lançado no início da nista dos seguintes jornais: O Clarim,
____________________ cultura de uma comunidade, nação etc. década de 1990, os depoimentos (es- rebatizado como O Clarim d'Alvorada
A produção de um clássico não é mo- pecificamente entre março de 1983 a (1924-1932), A Chibata (1932-1937) e
O lançamento do livro nopólio deste ou daquele povo, mas fevereiro de 1984) e sua organização Alvorada (1945-1948). Além disso, foi
ocorreu no dia 22 de uma condição universal do ser huma- deram-se durante a década de 1980. fundador e ativista do Clube Negro de
julho de 2018 às 17hs no. Assim, a comunidade africana Cuti é um dos principais intelectuais, Cultura Social e colaborador da As-
na Biblioteca Mário de mundial deve compreender que tam- poetas, contistas, críticos literários e sociação dos Negros Brasileiros. Em
Andrade em São Paulo. bém possui os seus clássicos, não ape- conferencistas que a comunidade preta 1956, Correia Leite foi um dos prin-
nas na literatura, mas essencialmente produziu no Brasil. Além de Doutor cipais idealizadores e fundadores da
O evento contou com
nela, como: Autobiografia de Malcolm em Letras pela UNICAMP, Cuti é au- Associação Cultural do Negro. Em
presença da Doutoran- X, de Malcolm X e Alex Haley, Es- tor de mais de duas dezenas de livros 1960, ajudou na elaboração da revista
da em história, pesqui- crevo o que eu quero, de Steve Biko, publicados, que incluem produções na Niger. Pela sua atuação dentro do mo-
sadora e especialista em Um defeito de cor, de Ana Maria Gon- área acadêmica, poética, ficcional e vimento negro, Correia Leite foi cons-
Lélia Gonzalez, Raquel çalves, Triste Fim de Policarpo Qua- dramaturgia, além de contos, ensaios e tantemente consultado por pesquisado-
Barreto, autora do estu- resma, de Lima Barreto, Homem invi- biografias. Segundo o autor, a ideia e o res, acadêmicos brasileiros e estran-
do que traçou um com- sível, de Ralph Ellison, Filho Nativo, objetivo de recolher os depoimentos, e geiros, cineastas, artistas e ativistas do
parativo das trajetórias de Richard Wright, A cor púrpura, de depois ter organizado e lançado o li- movimento negro.
políticas e intelectuais Alice Walker, Amada, de Toni Morri- vro, E disse o velho militante, esteve Correia Leite viveu 89 anos, destes
entre Angela Y. Davis son, Um fuzil na mão, um poema no relacionado a “necessidade de preser- anos, quase 70 foram dedicados à ten-
(1944) e Lélia Gonzalez bolso, de Emmanuel Dongala, Zenzele, varmos a nossa memória”. Ainda sobe tativa de preparo e elevação da raça
(1935-1994). de J. Nozipo Maraire, Primavera para a importância do livro, Cuti relata: preta. Isso, por si só, já é suficiente pa-
as rosas negras, de Lélia Gonzalez, “Senti que alguém como José Correia ra fazer de sua história de vida um
GONZALEZ, Lélia. Beatriz Nascimento: Possibilidade nos Leite, tendo escrito tanto na Imprensa clássico da narrativa universal.
dias da destruição, de Beatriz Nasci- Negra e lutado para elevação de seu Concluiremos dizendo ser impossível
Primavera para as rosas
mento, Quarto de despejo, de Carolina povo, deveria ter o seu discurso regis- conhecer a história de luta dos pretos
negras: Lélia Gonzalez Maria de Jesus, Abutre, de Gil Scott- trado num trânsito livre como flui a no Brasil, sem antes ter explorado as
em primeira pessoa… Heron; etc. Porém, neste momento, conversa. Liguei o gravador e come- páginas da obra E disse o velho mili-
Diáspora Africana: vamos discorrer sobre um clássico au- cei a fazer perguntas. Não eram ne- tante; assim como é mais do que im-
Editora Filhos da África, tobiográfico da nossa contemporanei- cessárias muitas. Eu estava diante de possível conhecer a história de luta
2018. 476 páginas. 1ª dade, E disse o velho militante José uma pessoa interessada em contar o dos pretos nos EUA, sem antes ter per-
Edição. Correia Leite, de José Correia Leite e que se passou, comprometida com a corrido as páginas da Autobiografia de
Cuti, que, a nosso ver, preenche todos sua função de depositária de um co- Malcolm X. Além das semelhanças em
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os requisitos. nhecimento prático, vivido, mas tam- contextos, concepções e significados,
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…E disse o velho militante foi lançado bém fundamentado em leituras contí- esses dois livros são essenciais tam-
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pela primeira vez na cidade de São nuas e variadas”. bém em conteúdo, informação, capital
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Paulo, em 1992. O livro possui 301 Mas quem foi José Correia Leite? Cor- cultural e sentimentos de amor e uni-
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páginas e estrutura-se da seguinte ma- reia Leite (1900-1989) foi sem dúvida dade aos africanos de todo o mundo.
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neira: apresentação do editor; prefácio nenhuma o militante mais emblemáti-
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do colaborador e um dos autores do co, determinado, íntegro e perseveran-
ucparbg@gmail.com livro, Cuti; depoimentos autobiográfi- te que atuou no movimento negro bra- *Pan-africanista por essência e membro da
cos de José Correia Leite; entrevista sileiro e a sua história de vida funde-se UCPA.