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de teologia ao

alcance de todos
O D ESPER TA R PARA DEUS
Pa r t e

1
O Espírito de Deus

Tu crês que há um só Deus? Fazes bem; também os demônios o ciêem e estremecem.


Tiago 2.19

Mas, quando vier aquele Espírito da verdade, ele vos guiará em toda a verdade, porque
não falará de si mesmo, mas diú tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que há de vir.
Ek me glorifican, porque há de receber do que é meu e vo-b há de anunciar.
João 16.13,14

já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida
que agora vivo na carne vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a
si mesmo por mim.
Gálatas 2.20
O CRISTIANISMO PESSOAL

(O i
^ec====p=3 oda religião tem conteúdo intelec- Experience [As variedades da experiência reli­

. ! /( tual que seu seguidor presumida- giosa], de William James. Esse estudo clássico
0 mente busca saber. Com relação a da psicologia da religião tenta refletir uma vas­
isso, os cristãos enfrentam dois ta experiência, bem como proporcionar uma
perigos específicos ao aprofundarem-se nas análise imparcial. Quando as pessoas leem esse
doutrinas cristãs. livro, ou qualquer outro do gênero, podem
Por um lado, há o subjetivismo. O ensino achar erroneamente que não são cristãs, sim­
cristão envolve a natureza de Deus e como plesmente por nada tão intenso ter aconteci­
Ele nos salvou por meio da morte de Jesus do em sua vida.
Cristo. Contudo, por isso ser profundo e to ­ H á também outro grande perigo: uma fé
cante, em vez de os cristãos se esforçarem cristã totalmente objetiva. Muitos têm muito
para entender sua fé racionalmente, tentam conhecimento bíblico e consentem com a ver­
dar ênfase aos seus sentimentos e às suas expe­ dade da Palavra de Deus, mas, mesmo assim,
riências, muitas vezes ao ponto de tentarem, não mudam. H á fé, mas esta pode ser à que
até mesmo, desvincular estes tanto da obra de Tiago se referiu quando disse: Tu crês que há
Deus na história como das claras proposições um só Deus? Fazes bem ; também os demônios
bíblicas. Quando as experiências que buscam o crêem e estremecem (Tg 2.19). Esse perigo se
não ocorrem ou são diferentes do esperado, faz presente entre os cristãos conservadores.
eles tentam basear-se em sentimentos espiri­ Harold O. J. Brown, em The Conservative
tuais por Deus, lançando mão da autossuges- Option [A opção conservadora], alerta:
tão, das circunstâncias ou das maquinações do
diabo, que, segundo a Bíblia, pode até transfi­ Insistir como, com certa razão, nós o fazemos
gurar-se em anjo de luz (2 C o 11.14). quando se trata da natureza objetiva da expia-
Essa ênfase nem sempre é tão extrema as­ ção e de sua aplicação ao ser humano para a
sim. Às vezes, é meramente uma suposição, salvação gera o risco de dimensionar, no tempo
frequentemente impensada a fundo, de que e no espaço em que estamos inseridos, doutri­
experiências religiosas sejam necessárias para nas que são puramente históricas e judiciais.
que haja a salvação de uma alma. Isso é o que Não podemos esquecer que estamos em um
sugerem, por exemplo, certos tipos de encon­ processo de santificação em que o Espírito
tros de avivamento. Santo, que vai moldando nossa vida, deve con­
Podemos ter essa impressão também por tinuar em nosso meio. ( G u n d r y e J o h n s o n ,
meio de livros como The Varieties o f Religious 1976, p. 356)
Com o podemos evitar esses perigos? C o ­ devemos, de alguma forma, usufruir leva à auto-
mo solucionaremos o problema da coexistên­ exaltação e à autossuficiência. Quem pensa isso
cia de uma revelação objetiva de Deus na sobre o Espírito Santo e que, ao mesmo tempo,
história e de uma apropriação dessa salvação? imagina que o recebeu enche-se de “orgulho
Se dependesse de nós, não haveria respos­ espiritual”, como se pertencesse a uma ordem
ta a essa pergunta. Todavia, a Bíblia diz que superior de cristãos, e diz: “Sou uma pessoa do
Deus tem uma solução. Assim com o o Pai Espírito Santo!”. Porém, se virmos o Espírito
enviou Seu Filho para realizar a obra objetiva Santo como uma pessoa divina de infinita ma­
e histórica da expiação para nos salvar, Ele jestade, glória, santidade e poder, que se humi­
também enviou o Espírito Santo para aplicar lhou vindo fazer morada em nosso coração, to­
essa salvação a nós. mando e usando nossa vida, Ele nos porá no pó
Esse ato não foi único e indivisível, mas da terra e lá nos manterá. Não há coisa mais
envolve uma série de atos e processos: o cha­ humilhante que uma pessoa de divina majestade
mado de Deus, a regeneração, a justificação, a vir habitar em meu coração, dispondo-se a fazer
adoção, a santificação e a glorificação. Em uso até mesmo de mim. ( T o r r e y , 1970, p. 8,9)
cada caso, o Espírito Santo aplica a obra de
Cristo a nós. Essa distinção é ilustrada nas páginas do
A terceira seção deste livro lida com esses N ovo Testamento. Por um lado, há o caso do
processos, ou seja, com a obra do Espírito mágico Simão, cuja história pode ser lida em
Santo de Deus. C om o Calvino aporta na ter­ Atos 8.9-24. Simão era um cidadão de Sama-
ceira maior seção de Institutes o f the Christian ria, onde Filipe, um dos primeiros diáconos,
Religion [Institutas da religião cristã], essa tinha pregado o evangelho. Aparentemente,
obra implica: “a forma como recebemos a gra­ Simão creu em Cristo e foi salvo, tendo em
ça de Cristo, os benefícios que recebemos e os vista o que foi relatado:
efeitos disso” ( C a l v in o , 1960, p. 537).
E creu até o próprio Simão; e, sendo bati­
U m a p e s s o a o u u m p o d e r ?________________ zado, ficou, de contínuo, com Filipe e, ven­
Esse tema deve ser discutido tomando-se do os sinais e as grandes maravilhas que se
como base a natureza do Espírito Santo. A faziam, estava atônito.
primeira pergunta é: “Seria Ele uma pessoa Atos 8.13
cuja obra é salvar-nos e santificar-nos, ou um
poder que devemos usar a nosso favor?”. Se o Entretanto, Simão sabia pouquíssimo acer­
considerarmos um poder misterioso, podere­ ca do cristianismo. Logo, quando viu os mila­
mos perguntar-nos: “C om o posso ter mais do gres realizados, ficou maravilhado. Achou até
Espírito Santo?”. Se o considerarmos uma que o Espírito Santo era um poder que podia
pessoa, a pergunta mudará: “C om o o Espíri­ ser comprado. Mais tarde, quando Pedro e
to Santo pode ter mais de mim?”. O primeiro João foram inspecionar a obra em Samaria, fo­
pensamento não é bíblico, e o segundo, por ram usados por Deus para batizar no Espírito
sua vez, é neotestamentário. Santo. Simão ofereceu dinheiro aos discípulos
Sobre isso, Reuben A. Torrey observou o para que pudesse ter o mesmo poder (At 8.19).
seguinte: Pedro respondeu:

O conceito que sustenta que o Espírito Santo é O teu dinheiro seja contigo para perdição,
um poder ou uma influência divina da qual pois cuidaste que o dom de D eus se alcança
p or dinheiro. Tu não tens parte nem sorte exatamente isso o que é dito a respeito do
nesta palavra, porque o teu coração não é Espírito Santo.
reto diante de Deus. Arrepende-te, pois, Em João 14.16-18, Jesus disse:
dessa tua iniqüidade e ora a Deus, para
que, porventura, te seja perdoado o pensa­ E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro
mento do teu coração. Consolador, para que fique convosco para
Atos 8.20-22 sempre, o Espírito da verdade, que o m un­
do não pode receber, porque não o vê, nem
Podemos encontrar um exemplo contras­ o conhece; mas vós o conheceis, porque ha­
tante no início da obra missionária que envol­ bita convosco e estará em vós. Não vos
veu Paulo e Barnabé, quando, servindo eles ao deixarei órfãos; voltarei para vós.
Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo:
Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a Se o Espírito fosse apenas um poder, essa
que os tenho chamado (A t 13.2). N o primeiro promessa seria apenas uma compensação de
exemplo, um indivíduo quis usar a Deus. N o Jesus: “Eu vou embora, mas deixarei algo pa­
segundo, Deus usou dois indivíduos. ra compensar Minha ausência”. Todavia, o
N o entanto, é possível questionar: “N ão Espírito não é apenas um poder, mas uma
existem passagens e, até mesmo, seções intei­ pessoa divina, que tem personalidade e co­
ras da Bíblia em que a personalidade distinta nhece nossas necessidades. Ele é provido tan­
do Espírito Santo não está evidente?”. Esse é to de sentimentos, pois se identifica conosco
o caso do Antigo Testamento, no qual são em nossos problemas, como de vontade pró­
mencionados certos indivíduos a quem o Es­ pria, visto que decide consolar-nos em cum­
pírito do S E N H O R [Deus] revestiu (Jz 6.34; primento à promessa do Senhor.
2 C r 24.20), da mesma forma que, frequente­ As evidências do N ovo Testamento para a
mente, o Espírito de Deus é entendido como personalidade do Espírito Santo podem ser
em Gênesis 1.2b: E o Espírito de D eus se mo­ agrupadas nas seguintes categorias:
via sobre a face das águas.
Essas passagens dão a entender que o E s­ 1. As ações do Espírito Santo. U m exem­
pírito Santo tem uma personalidade distinta. plo de ação do Espírito é a última passagem
Entretanto, devemos admitir que, no Antigo bíblica citada, em que Ele deve consolar os
Testamento, há pouco espaço para os que de­ cristãos. O utro está em João 16.8, e refere-se
fendiam a ideia de que o Espírito Santo fosse à missão deste de convencer o pecador do p e ­
uma pessoa da Trindade divina. cado, e da justiça, e do juízo.
N o N ovo Testamento, por sua vez, o E s­
pírito Santo é revelado, de fato, como uma 2. A missão do Espírito Santo, diferente
pessoa da Trindade, totalmente equiparado da do Pai e do Filho. Jesus não deixa dúvidas
ao Pai e ao Filho, mas diferente deles. Porém, quanto a essa missão em Seu último discurso:
como vimos no Livro I desta obra, isso não Mas, quando vier o Consolador, que eu da
implica a existência de três deuses. H á três parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito
pessoas, mas, de uma forma que vai além de da verdade, que procede do Pai, testificará de
nossa plena compreensão, essas três formam mim (Jo 15.26).
um só Deus.
U m a pessoa é definida por seu conheci­ 3. A posição e o poder do Espírito Santo,
mento, seus sentimentos e sua vontade, e é iguais aos do Pai e do Filho. As várias maneiras
pelas quais os autores do N ovo Testamento dos milagres, da profecia, do discernimento
se referem à Trindade evidenciam essa igual­ de espíritos, de línguas e de interpretação de
dade entre a Trindade. E m Mateus 28.19, Je­ línguas, Paulo disse: Mas um só e o mesmo
sus disse aos Seus discípulos: Espírito opera todas essas coisas, repartindo
particularmente a cada um como quer.
Portanto, ide, ensinai todas as nações, bati­ Os dons do Espírito Santo se distinguem
zando-as em nom e do Pai, e do Filho, e do do próprio, o que implica o fato de Ele não ser
Espírito Santo. apenas um poder por trás desses notáveis dons.
Estes são seis argumentos que mostram
Em 2 Coríntios 13.13, Paulo fez a seguinte que o Espírito Santo é uma pessoa. Contudo,
oração: o problema para muitos de nós não é bem a
doutrina do Espírito, mas o que decidimos
A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor crer a respeito dela. Teoricamente, muitos
de Deus, e a comunhão do Espírito Santo creem que Ele é a terceira pessoa da Trindade.
sejam com vós todos. A m ém ! Mas será que realmente pensamos nele dessa
forma? Será que pensamos nele de qualquer
Pedro falou a respeito daqueles que foram outra forma?
eleitos segundo a presciência de D eus Pai, em
santificação do Espírito, para a obediência e O E s p ír it o é D e u s ?_________________________

aspersão do sangue de Jesus Cristo (1 Pe 1.2). H á algo que também precisa ser estudado.
Judas, por sua vez, recomendou que fôs­ Insistimos no fato de o Espírito Santo ser uma
semos edificados na fé cristã, orando no Es­ pessoa divina. Pois bem, Ele é divino no senti­
pírito Santo, e nos mantivéssemos na carida­ do de ser de Deus ou de ser o próprio D eus?
de de Deus, esperando a misericórdia de Um a das mais claras indicações da plena
nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna divindade do Espírito Santo está nas palavras
Qd 1.20,21). de Jesus, quando Ele prometeu enviá-lo aos
Seus discípulos como outro Consolador (Jo
4. As menções ao Espírito Santo. N o ba­ 14.16). Essa palavra outro em grego (texto
tismo de Jesus, o Espírito Santo desceu sobre original) pode ser traduzida de duas manei­
ele em form a corpórea, como uma pom ba; e ras: allos, que significa outro como o primeiro,
ouviu-se uma voz do céu, que dizia: Tu és ou heteros, que significa totalmente diferente.
m eu Filho amado; em ti m e tenho comprazido Com o é a palavra allos, e não a heteros,
(Lc 3.22). que aparece no texto, Jesus quis afirmar que
N o dia de Pentecostes, foram vistas por mandaria aos discípulos uma pessoa igual a
eles línguas repartidas, como que de fogo, as Ele, ou seja, plenamente divina. Quem foi o
quais pousaram sobre cada um deles (At 2.3). primeiro Consolador? Jesus, pois fortaleceu e
aconselhou os discípulos durante os anos de
5. O pecado contra o Espírito Santo. Isso Seu ministério entre eles. Como Jesus iria dei­
implica uma ofensa contra Sua pessoa (Mt xá-los, em Seu lugar ficaria um Consolador,
12.31,32). igual a Ele, outra pessoa divina que, dessa vez,
estaria no interior de quem estivesse em Cristo.
6 . Os dons do Espírito Santo. Em 1 C o ­ Essa não é a única prova dessa importante
ríntios 12.11, depois de enumerar os dons da doutrina. A divindade do Espírito Santo pode
sabedoria, do conhecimento, da fé, da cura, ser evidenciada nas seguintes categorias:
1. As qualidades divinas do Espírito San­ p o r nós f Então, disse eu: eis-me aqui, en-
to. O próprio termo Espírito Santo já via-me a mim.
fala por si, pois o termo Santo designa
a essência da natureza de Deus. Ele é Em Atos 28.25b, por sua vez, essa passa­
o Pai Santo (Jo 17.11) e Jesus é o Cris­ gem de Isaías é citada:
to, o Filho de D eus (Jo 6.69), o Santo
de D eus (Mc 1.24). O Espírito Santo é Bem falou o Espírito Santo a nossos pais
também onisciente (Jo 16.12,13; 1 Co pelo profeta Isaías.
2.10,11), onipotente (L c 1.35) e oni­
presente (Sl 139.7-10). Já tentei mostrar como é importante sa­
bermos, na prática, por que o Espírito Santo é
2. As obras de Deus atribuídas ao Espí­ uma pessoa. Agora, pergunto: E importante
rito Santo. O Espírito participou da sabermos que Ele é também Deus? Sim, pois
obra da criação (Jó 33.4) e inspirou se soubermos disso e, constantemente, reco­
homens santos de Deus para que es­ nhecermos Sua divindade, seremos capazes
crevessem a Bíblia (2 Pe 1.21). Além de confiar em Sua obra.
disso, Ele promove o novo nascimen­ J. I. Packer, em Knowing G od [Conhecen­
to, o que veremos mais a fundo no do a Deus], pergunta:
próximo capítulo (Jo 3.6), bem como
a ressurreição (Rm 8.11). Será que honramos o Espírito Santo, reco­
nhecendo e confiando em Sua obra, ou o me­
3. A igualdade do Espírito Santo com o nosprezamos, ignoramos e desonramos -
Deus Pai e o Deus Filho. As bênçãos não só a Ele, mas também ao Senhor que o
e as fórmulas acima citadas são exem­ enviou? Será que reconhecemos por meio da
plos disso. fé a autoridade da Bíblia - do profético An­
tigo Testamento e do apostólico Novo Testa­
4. O nome de Deus associado ao Espí­ mento que Ele inspirou? Será que lemos e
rito indiretamente. O exemplo mais ouvimos com a reverência e a receptividade
claro disso está em Atos 5.3,4, texto que são devidas à Palavra de Deus? Se não,
segundo o qual Pedro disse a Ananias: desonramos o Espírito Santo. Será que apli­
camos a autoridade da Bíblia em nossa vida e
Ananias, p o r qu e encheu Satanás o teu vivemos por ela, sem nos importarmos com
coração, para que mentisses ao Espírito o que os outros dizem contra, reconhecendo
Santo e retivesses parte do preço da her­ que a Palavra de Deus é a verdade e que o
d ad e? [...] Não mentiste aos homens, mas Senhor irá cumprir tudo o que prometeu ne­
a Deus. la? Se não, desonramos o Espírito Santo, que
nos deu a Bíblia. Será que nos lembramos de
Outros exemplos são as passagens do An­ que o testemunho do Espírito Santo autenti­
tigo Testamento citadas no N ovo nas quais ca o nosso? Será que olhamos para Ele? Será
Deus ou o Espírito está afirmando algo. Em que confiamos nele como Paulo, que renegou
Isaías 6.8, por exemplo, está escrito: a inteligência humana? Se não, desonramos o
Espírito Santo. Será que podemos duvidar de
Depois disso, ouvi a voz do Senhor, que que a “improdutividade” da vida da Igreja
dizia: A quem enviarei, e quem há de ir que se tem hoje seja juízo de Deus sobre nós
em função de desonrarmos o Espírito Santo? A personalidade e a divindade do Espírito
Nesse caso, que esperança podemos ter diante Santo são ensinos práticos, pois é pela ação desse
desse juízo, se não aprendermos a honrar o ser divino que o evangelho da salvação de Jesus
Espírito em nosso pensar, em nosso orar e em Cristo pode alcançar-nos e transformar nossa
nossa prática? (P a c k e r , 1973, p. 63) vida. Ele é o segredo da religião vital e verdadeira.
A obra do E s pír it o Sa n t o

o conhecermos alguém, geralmen­ humana. Qual seria a principal obra do Espí­


te perguntamos: “Quem é você?” e rito Santo?
“O que você faz?”; a pessoa, então, Alguns afirmam que é a santificação dos
responde algo como: “Sou Fulano, cristãos ou a inspiração da composição da Bí­
sou professor”. O u ainda: “Sou Sicrano, traba­ blia, enquanto outros destacam Seu papel na
lho para uma companhia aérea”. Pois bem, concessão dos dons espirituais à Igreja ou na
podemos fazer as mesmas perguntas acerca do indução de não cristãos à aceitação de Cristo.
Espírito Santo. Entretanto, apesar de o Espírito Santo fazer
N o capítulo anterior, vimos que o Espíri­ tudo isso, essas não são as melhores respostas
to Santo é uma pessoa divina com os mesmos para a pergunta, visto que a mais adequada
atributos do Pai e do Filho. Neste capítulo, definição de Sua obra encontra-se em João
precisamos analisar o que Ele faz. 16.13,14, bem como em passagens relaciona­
das a ela, com o podemos ler abaixo, nas pala­
G l o r if ic a r a C r i s t o _______________________ vras do próprio Cristo:
Ao questionarmos a função do Espírito San­
to, percebemos que não é fácil definir o que Ele Mas, quando vier aquele Espírito da ver­
realmente faz, pois, se Ele é Deus, então faz tudo dade, ele vos guiará em toda a verdade,
o que o Pai e o Filho fazem. Assim, repito o que porque não falará de si mesmo, mas dirá
afirmei no Livro I, ao sugerir o modo como de­ tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o
vemos lidar com a doutrina da Trindade. que há de vir. Ele m e glorificará, porque
Podemos dizer que o Espírito Santo: (1) há de receber do que é m eu e vo-lo há de
participou da criação do universo (Gn 1.2); anunciar.
(2) inspirou a composição da Bíblia (2 Pe
1.21); (3) direcionou o ministério terreno do Em João 15.26, o Senhor declara:
Senhor Jesus Cristo (Lc 4.18); (4) dá vida es­
piritual ao povo de Deus (Jo 3.6); e (5) chama Mas, quando vier o Consolador, que eu da
e guia a Igreja (A t 13.2; 16.6,7; 20.28). parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espí­
Contudo, em várias partes da Bíblia, a rito da verdade, que procede do Pai, testi­
obra do Pai, do Filho e do Espírito Santo é ficará de mim.
registrada de maneira individual. Por exem­
plo: o Pai participa mais da obra da criação, e A principal obra do Espírito Santo é levar-
o Filho participa mais da redenção da espécie -nos a glorificar a Cristo. Todas as outras
obras giram em torno dessa. Ora, se Ele não para nossa salvação e para o crescimento da
fala de si mesmo, mas de Jesus, podemos con­ Igreja, se perdesse.
cluir que qualquer ênfase dada à pessoa e à Com o esses homens, em grande parte pes­
obra do Espírito que não aponte para Cristo cadores analfabetos, poderiam ser os agentes
não pode ser vinda do Espírito de Deus. N a por meio dos quais nos seria transmitido o
verdade, é obra de outro espírito, o do anticris­ N ovo Testamento? O que garante a confiabili­
to, cuja obra é fazer com que a humanidade dade da fonte dos relatos da vida deles, bem
tire o foco de sua atenção de Jesus (1 Jo 4.2,3). como dos ensinos de Jesus? N ão é possível que
Apesar de Sua importância, o Espírito eles tenham registrado alguns fatos de forma
Santo não deve tomar o lugar de Cristo em incorreta, ou confundido alguma verdade?
nossa vida. A terceira pessoa da Trindade está A resposta a essas especulações é que, no
em ação onde quer que Jesus esteja sendo exal­ que tange ao registro dos fatos na Bíblia, os
tado e, nessa medida, podemos reconhecer a discípulos não cometeram erro algum, pois
presença do Consolador, sendo-lhe gratos. foram guiados pelo Espírito Santo. Alguns
dos eventos e ensinos registrados por eles se
E n s in a n d o so bre C r i s t o __________________
basearam em coisas que viram e ouviram, e
É possível questionar: de que maneira o que lhes foi relembrado pelo Espírito, sendo
Espírito Santo glorifica, especificamente, o tais relatos tão válidos quanto os do Antigo
Senhor Jesus C risto? Ele o faz de quatro Testamento.
formas. Segundo Pedro:
Primeiro, usando a Bíblia para ensinar so­
bre Jesus. O N ovo Testamento diz que o E s­ Porque a profecia nunca fo i produzida por
pírito Santo já fazia isso antes de Cristo vir ao vontade de hom em algum, mas os homens
mundo, por meio da inspiração do Antigo santos de D eus falaram inspirados pelo Es­
Testamento, mas a obra dele não parou ali. pírito Santo.
N o N ovo Testamento, além de haver rela­ 2 Pedro 1.21
tos sobre as ações de Jesus, há também a ex­
plicação de Seus motivos para agir da forma O Espírito Santo glorificou muito a Jesus
como agiu. A obra de Jesus serviu para in­ quando preparou o caminho para a vinda
fluenciar Seus discípulos, fato que é enfatiza­ dele por meio da inspiração do Antigo Tes­
do nas últimas conversas do Senhor com eles tamento, o qual se responsabilizou por reve­
(v e rjo 15.26; 16.12,13a). lar às pessoas que tipo de coisas deveriam
Os discípulos de Cristo sabiam que, no esperar, bem com o por quanto tempo espe­
período veterotestamentário, o Espírito San­ rariam. Assim, Ele preservou a história da
to havia se manifestado a certos profetas, reis vinda do C ordeiro, proporcionando, por
e outros líderes, a fim de falar por meio deles. meio dos livros do N ovo Testamento, a in­
Muitos podem até ter entendido que a mensa­ terpretação dela.
gem central do Antigo Testamento era apenas Essas passagens não somente sustentam
a promessa divina do envio de um Redentor; que uma nova revelação está a caminho, mas
contudo, mais adiante, os discípulos de Jesus sugerem a natureza dessa revelação.
entenderam que o mesmo Espírito não so­
mente se manifestaria a eles como também 1. Primeiro, a revelação é histórica.
passaria a estar neles, para que nada a respeito Em João 16.13, Jesus prometeu que o E s­
da obra ou dos ensinos de Cristo, necessários pírito Santo guiaria os discípulos em toda
verdade concernente a Ele. E m João 14.26, a Jesus declarou:
historicidade é ainda mais clara:
Ele m e glorificará, porque há de receber do
Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que é m eu e vo-lo há de anunciar.
que o Pai enviará em m eu nome, vos ensi­ João 16.14
nará todas as coisas e vos fará lem brar de
tudo quanto vos tenho dito. Mas aquele Consolador, o Espírito Santo,
João 14.26 que o Pai enviará em m eu nome, vos ensi­
nará todas as coisas e vos fará lem brar de
O s discípulos estavam sujeitos ao esqueci­ tudo quanto vos tenho dito.
mento de certos acontecimentos. Sendo as­ João 14.26
sim, o Espírito Santo lhes traria à memória os
eventos ligados à vida, morte e ressurreição Os resultados disso estão nas epístolas, a
de Jesus Cristo. O registro disso está nos começar por Romanos, texto no qual a dou­
Evangelhos e no livro de Atos. trina cristã é desenvolvida de maneira plena.
A natureza histórica do cristianismo tem As outras epístolas lidam com problemas es­
seu início de maneira dramática, diferente de pecíficos das igrejas, bem com o problemas
qualquer outra religião, mitologia ou filoso­ teológicos e de liderança ( l e 2 T m ; T t ; l , 2 e
fia. O s seres humanos veem a religião como 3 Jo; 1 e 2 Pe; e Jd).
um conjunto de ideias. A salvação, por sua Deus agiu na história, permitindo-nos co ­
vez, é vista como algo alcançável por meio do nhecer o porquê de Suas ações. Cristo veio ao
aprendizado de certas coisas ou de determi­ mundo para que o Pai pudesse revelar-se a
nadas atitudes. Convenhamos: o cristianismo nós. Agora, sabemos que Ele é amor e justiça
se traduz em ideias, mas estas se baseiam no por causa do Filho, e que tem compaixão, mi­
que Deus fez. Este é o fator determinante. sericórdia e muitos outros atributos também
A base histórica também exclui o cristia­ graças a Cristo. Jesus morreu, mas Sua morte
nismo do evolucionismo religioso, segundo o teve muitas implicações, as quais nos são ex­
qual as ideias primitivas acerca de Deus, até plicadas pela Bíblia.
então sustentadas pela Igreja, amadurecem à
medida que seu conhecimento sobre Ele au­ 3. Terceiro e último, a revelação de Deus
menta. Com o isso, em tese, aconteceria até é profética.
hoje, seria possível que deixássemos de crer em Jesus disse: Mas, quando vier aquele Espí­
certas coisas concernentes ao Pai, passando a rito da verdade, ele vos [...] anunciará o que
crer em outras que achássemos mais válidas. há de vir (Jo 16.13).
Contrário a isso, Jesus ensinou que, longe O resultado disso se vê ao longo de quase
de ser dispensável, a obra do Senhor na histó­ todo o N ovo Testamento: Mateus 24, Mateus
ria é a base de Sua revelação ao ser humano, o 25, Marcos 13, Romanos 11,1 Coríntios 15, e,
que pode evidenciar-se na cruz de Cristo, na particularmente, Apocalipse.
qual Deus não somente ensinou uma ideia, As profecias indicam que as operações
mas fez algo: expiou o pecado, revelou Seu de Deus ao longo da história, ainda reais
amor e mostrou Seu juízo. nos nossos dias, não acontecem de maneira
estática. L ogo, o presente não pode ser igual
2. Segundo, a revelação de Deus é dou­ ao passado ou ao futuro. O Senhor está fa­
trinária. zendo coisas sem igual com as pessoas,
colocando um plano em prática, de forma N ingu ém p od e vir a mim, se o Pai, que me
que cada um exerça um papel fundamental enviou, o não trouxer (Jo 6.44).
na sociedade. O que fazer então? O Espírito Santo é que
Todo esse trabalho culminará no dia do põe fim à cegueira espiritual para que alguém
retorno do Senhor, quando Deus levará para possa não apenas ver a verdade, mas com ­
si Seu povo e demonstrará a todos que o ca­ preender o que vê. Então, o próprio Espírito
minho dele é o único caminho para a vida. leva a pessoa a depositar sua fé em Cristo,
Diante de tudo isso, podemos concluir sendo Ele, portanto, responsável pela exis­
que o Espírito Santo nos deu a Bíblia para tência de todos os cristãos na terra. O u seja,
que Jesus fosse glorificado na história, na o Espírito Santo nos leva à salvação e glorifi-
doutrina e na profecia. ca a Cristo.

L evan do pesso a s a C r i s t o _________________ R e p r o d u z in d o o c a r á t e r d e C r is t o

A segunda maneira de o Espírito Santo O Espírito Santo glorifica a Jesus repro­


glorificar Jesus é levando homens e mulheres duzindo Seu caráter nos cristãos. Ele o faz de
a Ele, por meio da fé. Discorro sobre isso em três maneiras: levando os cristãos a vencerem
detalhes na seção deste livro intitulada Como a si mesmos e ao pecado; intercedendo por
D eus salva os pecadores. O que cabe dizer eles em oração e ensinando-os a orar; e reve­
aqui é que, sem a atuação do Espírito Santo, lando a vontade de Deus para a vida deles,
ninguém pode chegar a Cristo. possibilitando que a cumpram. Esses ministé­
Depois de afirmar que enviaria o Espírito rios combinados formam o fruto do Espírito,
Santo aos Seus discípulos para com eles estar que é a vida de Cristo em nós. Paulo falou a
para sempre, Jesus acrescentou: respeito desse fruto em Gálatas 5.22,23:

O Espírito da verdade, que o mundo não Mas o fruto do Espírito é: caridade, gozo,
pode receber, porque não o vê, nem o co­ paz, longanimidade, benignidade, bonda­
nhece; mas vós o conheceis, porque habita de, fé , mansidão, temperança. Contra es­
convosco e estará em vós. sas coisas não há lei.
João 14.17
Essas são as virtudes que formam, no mais
João chama de o mundo os homens e mu­ alto grau, o caráter de Jesus, devendo, por is­
lheres que não têm parte com Cristo. N ão so, formar também o caráter de todo cristão.
sendo por meio da obra do Espírito Santo, Comentaristas bíblicos sempre destacam o
ninguém pode ter acesso a Jesus, nem ver, co ­ fato de elas originarem apenas um fruto (sin­
nhecer ou receber coisas espirituais, visto que gular), e não frutos, sendo este o que precisa
é o Espírito quem dá visão espiritual. Com o estar evidente em todos nós.
Jesus destacou: N a verdade, na verdade te E importante diferenciar o fruto dos dons
digo que aquele que não nascer de novo não do Espírito, os quais serão analisados em de­
pode v er o Reino de D eus (Jo 3.3). talhes na última parte deste volume. Isto foi,
Sem a ação do Espírito Santo, ninguém basicamente, o que Paulo revelou: Mas um só
pode conhecer as coisas espirituais, pois es­ e o mesmo Espírito opera todas essas coisas,
tas se discernem espiritualmente (1 C o 2.14). repartindo particularmente a cada um como
Ninguém pode receber o Espírito Santo ou qu er (1 C o 12.11). Logo, independente de
Cristo, pois, com o também afirmou Jesus: que função ministerial seja exercida, seja ela a
de líder, pastor, evangelista, ou qualquer ou­ esta reinar no lar (1 C o 7.12-16), entre judeus e
tra, todo cristão deve ter o fruto do Espírito. gentios (Ef 2.14-17), na Igreja (Ef 4.3; Cl 3.15)
A virtude cristã mais importante é o amor e nos relacionamentos do cristão (Hb 12.14).
[em algumas traduções aparece como carida­ A longanimidade ou paciência se refere a
de], visto que Deus é am or (1 Jo 4.8 n t l h ). suportar os outros, mesmo quando provado.
Podemos confirmar isso também nas palavras Deus é o maior exemplo de paciência, haja
de Paulo: Portanto, agora existem estas três vista que inúmeras vezes teve [e ainda tem]
coisas: a fé , a esperança e o amor. Porém a misericórdia dos rebeldes. Esse é um dos m o­
maior delas é o amor (1 C o 13.13 n t l h ). tivos pelos quais devemos voltar-nos a Ele em
O amor de Deus é virtuoso, pois é imere­ arrependimento por causa de nossos pecados
cido (Rm 5.8), grande (Ef 2.4), transformador (J1 2.13; 2 Pe 3.9).
(Rm 5.3-5), e imutável (Rm 8.35-39). Foi com A benignidade ou gentileza é a atitude que
base nele que o Senhor enviou Cristo para o Senhor adota quando interage com as pes­
morrer por nossos pecados. Com o cristãos, soas. Por direito, Ele poderia exigir nossa ime­
temos o Espírito Santo habitando em nós, diata e total conformidade com Sua vontade,
sendo, portanto, nosso dever demonstrar esse sendo rígido no processo. Entretanto, Deus
grande amor à humanidade: Nisto todos co­ não é rígido, visto que se relaciona conosco
nhecerão que sois meus discípulos, se vos como um pai deve relacionar-se com um filho.
amardes uns aos outros (Jo 13.35).
O gozo é comum aos cristãos. Mas este Quando Israel era menino, eu o amei; e do
difere da alegria que depende das circunstân­ Egito chamei a m eu filho. Mas, como os
cias, as quais, se forem desfavoráveis, ela dei­ chamavam, assim se iam da sua face; sacri­
xa de existir. O gozo, por sua vez, baseia-se ficavam a baalins e queimavam incenso às
no conhecimento que alguém tem acerca de imagens de escultura. Todavia, eu ensinei
Deus e do que Ele fez por nós, em Cristo. a andar a Efraim ; tomei-os pelos seus bra­
Antes de ser preso e crucificado, Jesus fa­ ços, mas não conheceram que eu os curava.
lou a Seus discípulos sobre o gozo: Tenho-vos Atraí-os com cordas humanas, com cordas
dito isso para que a minha alegria permaneça de amor; e fu i para eles como os que tiram
em vós, e a vossa alegria seja completa (Jo o jugo de sobre as suas queixadas; e lhes
15.11). O mesmo tema é abordado nos capí­ dei mantimento.
tulos 14, 15 e, talvez, 16 do Evangelho de Oséias 11.1-4
João, tendo aparecido, também, em João
17.13: Mas, agora, vou para ti e digo isto no Esse deve ser nosso modelo. Devemos
mundo, para que tenham a minha alegria mostrar benignidade aos outros assim como
completa em si mesmos. Deus nos mostra.
P or conhecermos a ação de Deus a nosso
favor, podemos, como cristãos, alegrarmo- Irmãos, se algum hom em chegar a ser sur­
-nos mesmo em meio ao sofrimento, aprisio- preendido nalguma ofensa, vós, que sois
namento ou qualquer outra calamidade. espirituais, encaminhai o tal com espírito
A paz é o presente do Senhor à humanida­ de mansidão, olhando por ti mesmo, para
de, obtida por meio da cruz de Cristo. Antes que não sejas também tentado. Levai as
da cruz, éramos inimigos do Altíssimo. Ago­ cargas uns dos outros e assim cumprireis a
ra, devemos mostrar os efeitos dessa paz em lei de Cristo.
todas as circunstâncias (Fp 4.6,7), devendo
A bondade é com o a benignidade, mas fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá
revela-se principalmente em situações em que fruto, para que dê mais fruto. [ ...] Estai
não há merecimento. Tem a ver com genero­ em mim, e eu, em vós; como a vara de si
sidade. mesma não pode dar fruto, se não estiver
A fé , nesse contexto, caracteriza a dignida­ na videira, assim também vós, se não esti-
de ou a confiabilidade. Uma parte do caráter verdes em mim. E u sou a videira, vós, as
do próprio Deus está em jogo aqui. Servos fiéis varas; quem está em mim, e eu nele, este
de Cristo morrem por Ele, em vez de negá-lo; dá muito fruto, p orque sem mim nada po-
sofrem, mas mantêm seu título de cristãos. As­ dereis fazer.
sim é também Jesus, fiel testemunha (Ap 1.5), e João 15.1,2,4,5
Deus Pai, que sempre age em favor de Seus fi­
lhos (1 C o 1.9; 10.13; 1 Ts 5.24; 2 Ts 3.3). Para ser frutífera, a vara deve estar na vi­
A mansidão é vista naqueles que têm tanto deira, viva, e não morta. N o âmbito espiritu­
autocontrole que se iram somente quando al, isso significa que primeiro o indivíduo
realmente devem (contra o pecado, por exem­ deve ser cristão, pois, sem Cristo, somente as
plo). Este foi o caso de Moisés. A respeito obras da carne podem manifestar-se:
dele, está escrito: E era o varão Moisés mui
manso, mais do que todos os homens que ha­ Porque as obras da carne são manifestas, as
via sobre a terra (N m 12.3). quais são: prostituição, impureza, lascívia,
A última manifestação do fruto do Espíri­ idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias,
to é a temperança, que mortifica os desejos da emulações, iras, pelejas, dissensões, here­
carne e que está intimamente ligada à castida­ sias, invejas, homicídios, bebedices, gluto-
de, tanto da mente como do corpo. narias e coisas semelhantes a estas.
William Barclay, em Flesh and Spirit: A n Gálatas 5.19-21 a
Examination o f Galatians 5.19-23 [Carne e
espírito: uma análise de Gálatas 5.19-23], ob­ O fruto do Espírito só pode manifestar-se
serva que essa qualidade é a que vem àquele quando a vida de Cristo, por meio do Espíri­
que aceita a Cristo em seu coração, capacitan­ to Santo, flui no cristão.
do-o a viver no mundo sem deixar suas vestes O utro fato importante é que a videira de­
serem contaminadas por ele. ve ser podada. Isto é o que lemos nos versícu­
Todavia, o fato de essas nove virtudes se­ los iniciais de João 15, nos quais Deus é cha­
rem inerentes ao Espírito que habita e atua mado de lavrador, significando que Ele cuida
naqueles que aceitam a Jesus como Senhor de nós, expondo-nos ao sol de Sua presença,
nem sempre significa que todo cristão irá, au­ enriquecendo nosso solo e livrando-nos da
tomaticamente, possuí-las. E por isso que seca espiritual. Se desejarmos ser frutíferos,
somos exortados a andar em espírito, para deveremos estar ligados ao Senhor por meio
não ceder à concupiscência da carne (G 15.16). da oração, alimentando-nos de Sua Palavra e
O que diferencia um cristão frutífero de permanecendo sempre próximos a outros
um infrutífero é sua proximidade em relação a cristãos.
Cristo, bem como sua dependência dele. Jesus Muitas vezes, a poda é desagradável e, até,
ensinou isso na parábola da videira e das varas: sofrida, pois coisas que valorizamos podem
ser tiradas de nós. Contudo, o propósito dela
Eu sou a videira verdadeira, e m eu Pai é o é o que faz toda a diferença na vida de todo
lavrador. Toda vara em mim que não dá cristão: a frutificação.
O Espírito Santo chama homens e mulheres
para missões específicas, mas vai com eles à mis­
Outra maneira de o Espírito Santo glorifi­
são. E evidente que Ele não tem o mesmo cha­
car a Jesus é guiando Seus seguidores no ser­
mado para todos. Deve ser por isso que não há
viço cristão, sustentando-os. Com o indicam
na Bíblia detalhes acerca do modo pelo qual os
alguns capítulos anteriores, isso foi o que
discípulos de Jesus, em Antioquia, vieram a sa­
aconteceu com os discípulos: o Espírito os
ber que o Espírito Santo havia designado Bar­
guiava de acordo com a vontade de Cristo, e
nabé e Saulo para uma obra missionária.
Sua postura não é diferente com os cristãos
N o entanto, não é porque o Espírito cha­
atuais.
ma que não devemos buscar Sua direção. Em
Antioquia, Ele falou aos discípulos que ado­
E, servindo eles ao Senhor ejejuando, disse ravam e jejuavam ao Senhor, levando Sua
o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e obra a sério, dando tudo de si. E assim que
a, Saulo para a obra a que os tenho chama­ devemos proceder também.
do. Então, jejuando, e orando, e pondo Entretanto, antes de ponderar a vida cris­
sobre eles as mãos, os despediram. E assim tã, consideremos o processo de tornar-se um
estes, enviados pelo Espírito Santo, desce­ cristão. Melhor ainda, antes disto, por que
ram a Selêucia e dali navegaram para não analisamos a mais complicada doutrina
Chipre. bíblica acerca da união do cristão com Cristo,
Atos 13.2-4 por meio da obra do Espírito Santo?

SSS
A u n iã o c o m C r is t o

união com Cristo por meio do Es­ Santo de aplicar os benefícios da expiação de
pírito Santo não é um assunto peri­ Jesus ao cristão.
férico na teologia bíblica e, apesar
de amplamente negligenciado, é U n iã o p a s s a d a , p r e s e n t e e f u t u r a _______

um conceito chave para a compreensão dos Assim como a maioria dos ensinos neotes-
ensinamentos do Senhor, como pretendemos tamentários, as sementes dessa doutrina estão
mostrar neste capítulo. nas palavras de Jesus, registradas nas Escritu­
De acordo com o comentarista bíblico Ja­ ras quase sempre por meio de metáforas, en­
mes S. Stewart, esse tema é “o coração da reli­ tre elas a da videira e a das varas, a saber:
gião de Paulo” (S t e w a r t , p. 147), sendo, por­
tanto, muito importante para o mesmo. Estai em mim, e eu, em vós; como a vara
John Murray, por sua vez, afirmou que “a de si mesma não pode dar fruto, se não es­
união com Cristo é a verdade central de toda a tiver na videira, assim também vós, se não
doutrina da salvação” (M u r r a y , 1955, p. 170). estiverdes em mim. E u sou a videira, vós,
Seguindo a mesma linha de pensamento, as varas; quem está em mim, e eu nele, este
Calvino [em As Institutas] explicou a ques­ dá muito fruto, p orque sem m im nada po-
tão dizendo que somente essa união garante dereis fazer.
a veracidade do título de Salvador atribuído João 15.4,5
a Jesus.
A. W. Pink, comentarista que talvez seja o Em outra ocasião, Jesus se comparou a um
mais enfático de todos, declarou que a união pão que deve ser comido e à água da vida, que
espiritual é a questão mais importante, pro­ deve ser bebida:
funda e abençoada de todas as contidas nas
Sagradas Escrituras, embora, infelizmente, E Jesus lhes disse: E u sou o pão da vida;
seja a mais negligenciada (Pink, 1971, p. 7). aquele que vem a m im não terá fo m e; e
N a realidade, a própria expressão união quem crê em mim nunca terá sede.
espiritual é desconhecida por muitos cristãos. João 6.35
Quando empregada, seu significado muda
tanto que esta acaba reduzindo-se a um frag­ Jesus respondeu e disse-lhe: Se tu conhe-
mento da verdade que representa. ceras o dom de D eus e quem é o que te
Esse tema é, sem dúvida, indispensável diz: D á -m e de beber, tu lhe pedirias, e ele
para a compreensão da tarefa do Espírito te daria água viva. Disse-lhe a m ulher:
Senhor, tu não tens com que a tirar, e o po­ O apóstolo em questão ensinou que, em
ço é fu n do ; onde, pois, tens a água vivai Es Cristo, fomos eleitos antes da fundação do
tu maior do que Jacó, o nosso pai, que nos mundo (E f 1.4); fomos, também, chamados
deu o poço, bebendo ele próprio dele, e os (1 C o 7.22) e vivificados por Ele (Ef 2.5); jus­
seus filhos, e o seu gado ? Jesus respondeu tificados (G1 2.17) e santificados nele (1 C o
e disse-lhe: Q ualquer que b eb er desta 1.2); criados nele para as boas obras (Ef 2.10) e
água tornará a ter sede, mas aquele que enriquecidos nele, em toda a palavra e em todo
b eb er da água que eu lhe d er nunca terá o conhecimento (1 C o 1.5), bem como ressus­
sede, p orque a água que eu lhe d er se fará citados com Ele na Sua ressurreição (Rm 6.5).
nele uma fon te de água a jorrar para a Paulo sustentou ainda que, em Cristo,
vida eterna. encontram os redenção (Rm 3.24), vida eter­
João 4.10-14 na (Rm 6.23), justiça (1 C o 1.30), sabedoria
(1 C o 4.10), liberdade da Lei (G1 2.4) e todas
O mesmo está implícito no fato de que, ao as bênçãos espirituais (Ef 1.3). Baseando-se
recebermos ou rejeitarmos os seguidores de nisso, ele testemunhou o seguinte:
Cristo, estamos, igualmente, recebendo ou
rejeitando a Jesus: Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não
mais eu, mas Cristo vive em m im; e a vida
Q uem vos ouve a vós a mim m e ouve; e que agora vivo na carne vivo-a na f é do
quem vos rejeita a vós a m im m e rejeita; e Filho de Deus, o qual m e amou e se entre­
quem a mim m e rejeita rejeita aquele que gou a si mesmo p or mim.
me enviou. Gálatas 2.20
Lucas 10.16
Diante de tudo o que foi exposto, é possí­
N a oração de Jesus registrada em João 17, vel afirmar que a união com Cristo é um con­
essa união foi discutida explicitamente: ceito muito amplo, responsável por tratar não
somente de nossa experiência com Jesus no
Eu não rogo somente por estes, mas tam­ presente, mas também no passado e no futuro.
bém p or aqueles que, pela sua palavra, hão Em primeiro lugar, devemos considerar
de crer em m im; para que todos sejam um, que a fonte da salvação tem sua origem na
como tu, ó Pai, o és em mim, e eu, em ti; eleição realizada por Deus Pai, antes da fun­
que também eles sejam um em nós, para dação do mundo, por meio de Cristo:
que o m undo creia que tu m e enviaste.
[...] E u neles, e tu em mim, para que eles Bendito o D eus e Pai de nosso Senhor Jesus
sejam perfeitos em unidade, e para que o Cristo, o qual nos abençoou com todas as
m undo conheça que tu m e enviaste a mim bênçãos espirituais nos lugares celestiais
e que tens amado a eles como m e tens em Cristo, como também nos elegeu nele
amado a mim. antes da fundação do mundo, para que
João 17.20,21,23 fôssemos santos e irrepreensíveis diante
dele em caridade.
N os escritos de Paulo, essa doutrina foi Efésios 1.3,4
desenvolvida e enfatizada. Ele usou a expres­
são em Cristo e seus equivalentes 164 vezes Mesmo que não compreendamos o signi­
em suas epístolas. ficado dessa eleição divina em sua totalidade,
é possível entender que os propósitos do Se­ Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtu­
nhor para nossa vida envolvem a salvação, a de do Altíssimo te cobrirá com a sua som­
qual foi planejada desde o princípio. bra; pelo que também o Santo, que de ti há
Donald G. Barnhouse afirmou que a pri­ de nascer, será chamado Filho de Deus.
meira obra do Espírito Santo em nosso favor Lucas 1.35
foi eleger-nos membros do Corpo de Cristo
(B a r n h o u s e , 1958, p. 35). N ão nos tornamos seres divinos, como
Em Seus decretos eternos, Deus decidiu algumas religiões orientais creem, mas o E s­
que, dentre a multidão de filhos de Adão, pírito Santo passa a habitar em nós, para que
muitos se tornariam Seus filhos, os quais vi­ possamos ser chamados filhos e filhas de Deus.
riam a ter natureza divina, sendo feitos à ima­ Por termos nos identificado com Jesus no mo­
gem do Senhor Jesus Cristo. Estes, mediante mento de Sua morte na cruz, a redenção e a
a plenitude do Espírito que preenche tudo em remissão do pecado nos foram asseguradas.
todos, iriam tornar-se, por meio do novo nas­ Com o Paulo afirmou:
cimento, família de Deus e membros do C or­
po de Cristo. Ou não sabeis que todos quantos fomos
Em segundo lugar, no presente, estamos batizados em Jesus Cristo fom os batizados
unidos com Jesus em nosso novo nascimen­ na sua morte f
to. Ele falou sobre isso com N icodem os, di­ Romanos 6.3
zendo:
Em quem temos a redenção pelo seu sangue.
N a verdade, na verdade te digo que aque­ Efésios 1.7a
le que não nascer da água e do Espírito não
pode entrar no Reino de Deus. Quando Jesus foi crucificado, todos os
João 3.5. que, pela fé, uniram-se espiritualmente a Ele
também o foram. O Pai permitiu que o Filho
P or essa razão, Paulo disse: Assim que, se morresse em nosso lugar. Se somos um com
alguém está em Cristo, nova criatura é (2 C o Cristo, devemos identificar-nos com Ele em
5.17a). Sua morte, a fim de que, por meio de Seu sa­
A vinda de Jesus ao mundo aponta para o crifício, possamos ser libertos da escravidão
nosso novo nascimento. Quando Maria en­ do pecado.
gravidou, a vida imaculada e santa do Deus H á um hino, composto por H enry G.
Filho foi colocada em seu corpo material, Spafford, que expressa bem essa questão:
sujeito à corrupção pelo pecado. Assim, du­
rante a gestação, podemos dizer que a cor­ Meu pecado, oh, que glorioso pensamento!
ruptibilidade humana foi revestida da santi­ Meu pecado, não em parte, mas por completo
dade divina de Jesus, coexistindo no interior Foi pregado na cruz e não está mais comigo
da virgem. Glorie a Deus, Glorie a Deus, ó, minh’alma!
De forma semelhante, quando o Espírito
Santo faz morada em nosso coração, experi­ A união espiritual com Cristo nos garante
mentamos a vida divina em nós. Podemos até que somos um com Ele não só em Sua morte,
apresentar a Deus o mesmo questionamento mas também em Sua vida.
de Maria: Como se fará isso (L c 1.34)? Mas a N o sexto capítulo de Romanos, Paulo de­
resposta está nas palavras do anjo: clarou:

SSó'
D e sorte que fom os sepultados com ele pelo iguais a Ele. Essa união é a garantia da nossa
batismo na morte; para que, como Cristo salvação, devendo, portanto, ser eterna, para
ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, que sempre estejamos com Jesus (1 Jo 3.2).
assim andemos nós também em novidade Segundo Murray:
de vida. Porque, se fom os plantados junta­
m ente com ele na semelhança da sua mor­ A união com Cristo tem origem na eleição do
te, também o seremos na da sua ressurrei­ Deus Pai antes da fundação do mundo e tem
ção; sabendo isto: que o nosso velho sua fruição na glorificação dos filhos do Altís­
hom em fo i com ele crucificado, para que o simo. A perspectiva do povo de Deus não se
corpo do pecado seja desfeito, a fim de que limita a tempo e espaço. Seu limite é a eterni­
não sirvamos mais ao pecado. Porque dade. Ela tem dois focos: o amor do Deus Pai
aquele que está morto está justificado do que o levou a eleger-nos e a glorificação com
pecado. Ora, se já morremos com Cristo, Cristo na manifestação de Sua glória. O pri­
cremos que também com ele viveremos; meiro não tem princípio e o segundo não tem
sabendo que, havendo Cristo ressuscitado fim. ( M u r r a y , 1955, p. 164)
dos mortos, já não morre; a morte não
mais terá domínio sobre ele. Pois, quanto a Sem Cristo, encontramo-nos em um esta­
ter morrido, de uma vez m orreu para o do de profundo caos. Por outro lado, com Ele
pecado; mas, quanto a viver, vive para tudo é diferente, visto que Deus transforma a
Deus. Assim tam bém vós considerai-vos calamidade em paz e alegria incomparáveis.
como mortos para o pecado, mas vivos pa­
ra Deus, em Cristo Jesus, nosso Senhor. M i s t é r i o s d a u n iã o c o m C r i s t o _________

Romanos 6.4-11 Neste momento, você pode estar pensan­


do: “Mas com o posso unir-me com Cristo?
P or meio da crucificação, o poder do pe­ Em que sentido devo morrer com Ele? Essas
cado foi quebrado e fomos libertos para obe­ afirmações teológicas são incompreensíveis
decer a Deus e crescer em santidade. Nele te­ para mim”.
mos assegurada nossa ressurreição final e Esses são questionamentos válidos, pois
nossa glorificação: não é fácil entender tais conceitos, mas isso
não nos exime do dever de buscar entendê-
Porque, se fom os plantados juntam ente -los, pois, como afirmou o filósofo e teólogo
com ele na semelhança da sua morte, tam­ Anselmo, conhecido na Idade Média por seus
bém o seremos na da sua ressurreição. famosos argumentos ontológicos acerca da
Romanos 6.5 existência de Deus, fides quaerens intellectum
[a fé deve buscar o entendimento].
E, se nós somos filhos, somos, logo, herdei­ Quando privilegiamos essa ideologia, des­
ros também, herdeiros de D eus e co-her- cobrimos que, na Bíblia, há muitas respostas
deiros de Cristo; se é certo que com ele para perguntas com o essas, especialmente por
padecemos, para que também com ele se­ meio de metáforas.
jamos glorificados.
Romanos 8.17 1. Tomemos, por exemplo, a metáfora ex­
pressa pela união matrimonial, registrada em
O fato de estarmos unidos com Cristo im­ Efésios 5. Após comparar Cristo ao noivo e a
plica que devemos esforçar-nos para sermos Igreja à noiva, Paulo concluiu: Grande é este
mistério; digo-o, porém , a respeito de Cristo e necessidade de unirmo-nos espiritualmente a
da igreja (Ef 5.32). Cristo para sermos salvos, pois, por meio
O que garante o sucesso de um casamen­ dessa união, reconhecemos que nosso Noivo
to? Obviamente, o amor e a harmonia da fiel pagou o preço pelos pecados dos quais
união de dois pensamentos, de duas almas e éramos devedores.
de duas vontades. C om o seres humanos, em­ O casamento também provoca mudanças
bora devêssemos, nem sempre priorizamos psicológicas e sociais. Maria sabe que agora é
esse tipo de união em nossa relação conjugal. uma mulher casada, precisando, portanto,
Entretanto, esse é o modelo ideal que aprender a ver-se e a agir como tal. Ela reco­
aponta para nosso relacionamento com Jesus, nhece que necessita adotar uma nova postura
graças ao qual se torna possível que obedeça­ com relação aos outros homens, e entende que
mos ao maior mandamento dele: Amarás o terá de acostumar-se, inclusive, à companhia
Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de de novos amigos, bem como terá de adaptar
toda a tua alma, e de todo o teu pensamento seus sonhos ao seu novo relacionamento. Da
(Mt 22.37). mesma forma, quando nos unimos com Cris­
Em bora nem sempre tenhamos sucesso no to, nossos velhos relacionamentos mudam, e
cumprimento desse princípio divino, este é o Ele se torna o centro de nossa vida e existência.
alvo para o qual o Espírito Santo nos conduz.
Contudo, esse conceito de união não se limita 2. A segunda metáfora de nossa união com
apenas ao contexto do casamento, podendo, Jesus é a do corpo. Em Efésios 1.22,23, lemos:
portanto, ser concebido também fora dele.
A singularidade pertinente ao caráter da E [o Deus Pai] sujeitou todas as coisas a
união matrimonial deve-se, sobretudo, ao no­ seus pés [de Cristo] e, sobre todas as coisas,
vo conjunto de relacionamentos que ele cria. o constituiu como cabeça da igreja, que é o
O casamento geralmente traz mudança ao no­ seu corpo, a plenitude daquele que cumpre
me da mulher [quando ela adota o sobrenome tudo em todos.
do marido]. Digamos que uma mulher se cha­
me Mary Tower. Após se casar com um ho­ Em Colossenses 1.18a, Paulo diz que Je ­
mem chamado Jim Schultz, ela deixa o cartório sus é a cabeça do corpo da igreja.
como M ary Tower Schultz ou simplesmente O desenvolvimento dessa ideia se encon­
Mary Schultz. Nesse caso, ela se torna um com tra em 1 Coríntios 12.12-27:
seu marido por meio do casamento. Da mesma
forma, quem se entrega a Cristo e identifica-se Porque, assim como o corpo é um e tem
com Ele em Sua morte [recebe a vida espiritual muitos membros, e todos os membros, sen­
que Ele dá] passa de pecador a justo [uma pes­ do muitos, são um só corpo, assim é Cristo
soa justificada por Cristo diante de Deus]. também. Pois todos nós fom os batizados
Essa transformação traz algumas mudan­ em um Espírito, form ando um corpo, qu er
ças legais. Se a Maria de nosso exemplo tives­ judeus, qu er gregos, qu er servos, qu er li­
se um bem antes do casamento, ela poderia vres, e todos temos bebido de um Espírito.
tê-lo vendido antes de casar-se, contando [...] Ora, vós sois o corpo de Cristo e seus
apenas com sua própria assinatura no docu­ membros em particular.
mento. Após o casamento, porém, ela não po­
de mais fazer isso, pois passa a estar ligada le­ Essa ilustração indica, em primeiro lugar,
galmente ao seu marido. Esse fato nos remete à que nossa união com Cristo implica nossa
união uns com os outros, como corpo espiri­ Traçando um paralelo com isso, Jesus afir­
tual. C om o lemos nos versículos anteriores, a mou:
união é imprescindível.
E m segundo lugar, a afirmação que aponta Todo aquele, pois, que escuta estas minhas
Jesus como Cabeça [do corpo místico que palavras e as pratica, assemelhá-lo-ei ao
compõe a Igreja] denota Seu senhorio. Todos hom em prudente, que edificou a sua casa
nós somos membros do Corpo de Cristo, sobre a rocha.
mas o corpo pertence a Ele, que, como Cabe­ Mateus 7.24
ça, é o único responsável por determinar o
funcionamento apropriado desse corpo. De acordo com a mesma linha de pensa­
E m terceiro lugar, essa ilustração mostra a mento, Paulo nos chamou de edifício de Deus:
união da Cabeça com o Corpo como uma
união viva e crescente, alcançada não por meio Porque nós somos cooperadores de Deus;
da afiliação a uma instituição religiosa, mesmo vós sois lavoura de D eus e edifício de Deus.
que esta seja uma igreja verdadeira, mas sim [...] Porque ninguém pode p ôr outro fu n ­
quando o próprio Jesus passa [por intermédio damento, além do que já está posto, o qual
do Espírito] a viver num indivíduo. é Jesus Cristo. E, se alguém sobre este fu n ­
A ilustração da videira e das varas (Jo damento form ar um edifício de ouro, pra­
15.1-17) demonstra que a união de alguém ta, pedras preciosas, madeira, feno, palha,
com Cristo tem um objetivo: a frutificação, a obra de cada um se manifestará; na ver­
por meio da qual podemos ser úteis a Deus dade, o Dia a declarará, porque pelo fogo
neste mundo. será descoberta; e o fogo provará qual seja
Atente para o fato de que essa frutificação a obra de cada um. Se a obra que alguém
é alcançada pelo poder de Jesus, e não por edificou nessa parte permanecer, esse rece­
qualquer esforço nosso, pois, como Ele disse: berá galardão. Se a obra de alguém se
Sem mim nada podereis fa z er (Jo 15.5). Além queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será
disso, devemos ter em mente que Cristo é salvo, todavia como pelo fogo.
quem nos poda, preparando-nos para Sua 1 Coríntios 3.9,11-15
obra, a fim de que sejamos frutíferos da forma
como Ele deseja. Em cada um desses casos, a ideia central é a
mesma: a importância de nossa permanência
3. A última metáfora referente a esse tema em Cristo, que, por ser o fundamento de tudo,
fala sobre um templo espiritual composto por é imutável. Tudo o que for edificado sobre Ele
muitas pedras, sendo Cristo o fundamento será permanente como Ele é. Sendo assim,
sobre o qual todas as demais estão edificadas: quem for de Jesus não perecerá, mas resistirá.

Edificados sobre o fundam ento dos apósto­ O b a t is m o c o m o E s p ír it o S a n t o ________

los e dos profetas, de que Jesus Cristo é a C om o se dá o batismo com o Espírito


principal pedra da esquina; no qual todo o Santo? Vimos que a união com Cristo, fonte
edifício, bem ajustado, cresce para templo permanente do poder divino nos cristãos, por
santo no Senhor, no qual também vós ju n ­ ser um relacionamento vivo, traz mudanças.
tamente sois edificados para morada de Mas como passamos da condenação para a
D eus no Espírito. salvação e, assim, tornamo-nos filhos e filhas
de Deus? Com o deixamos nossa condição de
seres espiritualmente mortos, sem poder ou A té que se derrame sobre nós o Espírito lá
força, para assumirmos o novo caráter de se­ do alto; então, o deserto se tornará em
res vivos e fortes? Com o nós, que viemos do campo fértil, e o campo fértil será reputado
pó da terra e tornaremos ao pó (Gn 3.19), po­ por um bosque.
deremos viver eternamente? A resposta é: por Isaías 32.15
meio do Espírito Santo, que, ao vir habitar em
nós e unir-nos a Cristo, faz com que a vida di­ Porque derramarei água sobre o sedento e
vina flua em nós para a vida eterna (Jo 4.14). rios, sobre a terra seca; derramarei o meu
É isso o que eu e a maioria dos calvinistas Espírito sobre a tua posteridade e a minha
entendemos por batismo com o Espírito Santo bênção, sobre os teus descendentes.
(Mt 3 .11)1. E , embora hoje em dia esse conceito Isaías 44.3
se refira a experiências ligadas ao dom de falar
em línguas, ao de profecias e outros, discutirei, E há de ser que, depois, derramarei o meu
em detalhes, esses dons - incluindo o de línguas Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e
- no quarto e último livro deste volume. vossas filhas profetizarão, os vossos velhos
O uso do termo batismo com o Espírito terão sonhos, os vossos jovens terão visões.
Santo é impreciso, não sendo considerado Joel 2.28
[pela teologia calvinista e as derivadas] uma
segunda obra da graça divina. Essa impreci­ O diferencial das passagens acima é sua
são no uso do termo, porém, não diminui a conexão com o ministério de Jesus. Logo, em
importância das obras da graça de Deus na determinados textos bíblicos, com o é o caso
vida dos cristãos, que, sem dúvida, devem es­ do terceiro capítulo de Mateus, há o registro
tar, constantemente, buscando as coisas refe­ de João Batista dizendo:
rentes ao Espírito:
E eu, em verdade, vos batizo com água, pa­
Digo, porém : A ndai em Espírito e não ra o arrependimento; mas aquele que vem
cumprireis a concupiscência da carne. após mim é mais poderoso do que eu; não
Gálatas 5.16 sou digno de levar as suas sandálias; ele vos
batizará com o Espírito Santo e com fogo.
E não vos embriagueis com vinho, em que Mateus 3.11
há contenda, mas enchei-vos do Espírito.
Efésios 5.18 Em outro momento, Jesus disse a Seus
discípulos que, no Dia de Pentecostes, eles
O batismo com o Espírito Santo é uma deveriam esperar pela vinda do Espírito San­
questão muito abrangente, que nos revela, to em Jerusalém:
entre outras coisas, a maneira pela qual o cris­
tão verdadeiro identifica-se com o membro Porque, na verdade, João batizou com
do Corpo de Cristo. Para melhor entender­ água, mas vós sereis batizados com o Espí­
mos isso, devemos examinar as passagens ne- rito Santo, não muito depois destes dias.
otestamentárias nas quais esse batismo ocor­ Atos 1.5
re. Algumas delas têm natureza profética, e
apontam para o derramamento do Espírito de N o texto original, em grego, Jesus foi cha­
Deus sobre Seu povo, de acordo com o Anti­ mado de Batista ou A quele que batiza, por
go Testamento: batizar com o Espírito Santo com o João
batizava com água. Observe a seguinte passa­ todos os cristãos. Ainda nesse mesmo texto
gem registrada em Atos: está escrito que todos nós fomos batizados [...]
e todos temos bebido de um Espírito, e isto, ao
E lem brei-m e do dito do Senhor, quando meu ver, significa que o batismo no Espírito
disse: João certamente batizou com água, Santo não é uma experiência secundária e es­
mas vós sereis batizados com o Espírito pecial reservada a poucos, mas sim aquela que
Santo. nos define como cristãos. É por meio deste, e
Atos 11.16 também da fé em Jesus, que o Espírito p ro­
move nossa identificação com Cristo e com
Essa referência é significativa por mostrar Seu C orpo espiritual, que é a Igreja, unindo-
que, para Deus, tanto judeus com o gentios -nos, assim, à família de Deus.
podiam ser batizados com o Espírito Santo. John R. W. Stott resumiu esse fato da se­
Em outras palavras, não deveria haver duas guinte forma:
classes de cristãos na Igreja, mas uma só.
Seguindo essa mesma linha de pensamen­ O dom ou o batismo do Espírito é uma das
to, podemos dizer que é em 1 Coríntios 12.13 bênçãos da nova aliança de caráter universal,
que encontramos a mais importante de todas ou seja, acessível a todos, visto que é a bênção
as referências acerca desse tema. Essa impor­ inicial dessa nova era. O Senhor Jesus, Media­
tância se deve à sua didática, visto que o cará­ dor dessa nova aliança, é responsável por conce­
ter informativo, e não descritivo, dessa passa­ der não somente as bênçãos referentes a ela, mas
gem acaba colaborando para que ela contenha também o perdão de pecados e o dom do Espí­
a doutrina que serve de base para o entendi­ rito a todos que se aliam a Ele. Além disso, o
mento de todas as demais: batismo com água seria um sinal externo do
perdão de pecados e do batismo com o Espírito.
Pois todos nós fom os batizados em um Es­ Enquanto o primeiro é considerado o rito inicial
pírito, form ando um corpo, qu er judeus, do cristianismo, o segundo é visto como a pri­
qu er gregos, qu er servos, qu er livres, e to­ meira experiência cristã. (Sto t t , 1964, p. 28)
dos temos bebido de um Espírito.
Dito isso, será que, com base no relato da
Primeiro, note com o a unidade entre os vinda do Espírito Santo no Dia de Pentecos-
cristãos é enfatizada aqui. A Igreja em Corin- tes, devemos considerar a busca pelo dom de
to havia permitido que seu anseio por diver­ falar em línguas, bem como por qualquer ou­
sos dons espirituais a dividisse. Paulo, porém, tro dom, essencial à vida cristã?
escreveu que, na verdade, em vez de separa­ Essa questão requer muita atenção. Se o
rem-se, eles deveriam unir-se. Seu principal batismo no Espírito Santo for, de fato, a p ri­
argumento é que todos haviam sido batizados meira experiência cristã, com o afirmou Stott,
por um mesmo Espírito, unindo-se a um só e se falar em línguas ou fazer uso de qualquer
Corpo, o de Cristo. Assim, essa passagem outro dom similar for algo necessário para
serve a todos os que erroneamente usam a provar a efetividade desse batismo, então se­
questão do batismo no Espírito Santo com o ria possível afirmar que quem nunca teve essa
intuito de dividir os cristãos, destruindo a co ­ experiência não foi verdadeiramente salvo?
munhão que entre eles deve haver. N ão. Poucos chegam a essa drástica conclu­
E m segundo lugar, é preciso atentar para o são, pois a maioria das pessoas crê que a sal­
fato de essa experiência estar disponível a vação depende apenas da fé de que o Senhor
Jesus Cristo é o Salvador, não sendo impres­ operadores de milagres? Têm todos o dom
cindível, portanto, a manifestação do dom de de curar? Falam todos diversas línguas?
línguas ou de qualquer outro semelhante a ele. Interpretam todos?
Por outro lado, embora não haja respaldo 1 Coríntios 12.29,30
bíblico para que o batismo com o Espírito
seja considerado uma segunda obra da graça Segui a caridade e procurai com zelo os
divina, não deixa de ter sentido relacioná-lo à dons espirituais, mas principalmente o de
experiência do Pentecostes. Se observarmos profetizar. Porque o que fala língua estra­
as passagens bíblicas que tratam explicita­ nha não fala aos homens, senão a Deus;
mente dos dons e do batismo, descobriremos porque ninguém o entende, e em espírito
que o exercício do dom de línguas não foi ti­ fala de mistérios. Mas o que profetiza fala
do como algo negativo, pelo contrário: aos homens para edificação, exortação e
consolação. O que fala língua estranha
Portanto, irmãos, procurai, com zelo, pro­ edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza
fetizar e não proibais falar línguas. edifica a igreja. E eu quero que todos vós
1 Coríntios 14.39 faleis línguas estranhas; mas muito mais
que profetizeis, porque o que profetiza é
Ora, há diversidade de dons, mas o Espíri­ maior do que o que fala línguas estranhas,
to é o mesmo. E há diversidade de ministé­ a não ser que também interprete, para que
rios, mas o Senhor é o mesmo. E há diver­ a igreja receba edificação.
sidade de operações, mas é o mesmo Deus 1 Coríntios 14.1-5
que opera tudo em todos. Mas a manifes­
tação do Espírito é dada a cada um para o Os vários dons citados na primeira carta
que fo r útil. Porque a um, pelo Espírito, é de Paulo aos coríntios dão a entender que o
dada a palavra da sabedoria; e a outro, dom de línguas - mencionado por último -
pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência; tem, relativamente, menos importância que
e a outro, pelo mesmo Espírito, a fé ; e a os demais dons.
outro, pelo mesmo Espírito, os dons de Por que então Lucas teria enfatizado esse
curar; e a outro, a operação de maravilhas; dom em seu relato acerca do Pentecostes? Se­
e a outro, a profecia; e a outro, o dom de ria suficiente dizer que ele o fez apenas para
discernir os espíritos; e a outro, a variedade que se cumprisse a profecia em Joel 2.28 ?
de línguas; e a outro, a interpretação das Se buscarmos no Evangelho de Lucas um
línguas. Mas um só e o mesmo Espírito significado teológico para justificar a ênfase
opera todas essas coisas, repartindo parti­ dada pelo escritor ao dom de línguas, tendo
cularmente a cada um como quer. em vista que ele foi um historiador e cronista,
1 Coríntios 12.4-11 veremos que a maior ênfase foi no resultado
do Dia de Pentecostes: a proclamação do
Contudo, apesar de todos os cristãos te­ evangelho e a resposta a essa proclamação,
rem pelo menos um dom, nem por isso não que foi muito além da manifestação do dom
foram encorajados a buscar o dom de línguas de línguas2.
mais que os demais: Charles E . Hummel dedicou-se a tentar
preencher as lacunas entre as teologias pente-
Porventura, são todos apóstolos? São todos costais e as não pentecostais. Em um de seus
profetas? São todos doutores? São todos livros, ele negou a distinção que fiz entre as
passagens descritivas e as didáticas. Mesmo as­ Santo, a fim de que possa vivenciar essa experi­
sim, quando abordou a questão da ênfase teo­ ência da graça divina que se expressa no teste­
lógica de Lucas, focou não somente a experiên­ munho de Cristo.
cia do dom de línguas, mas a propagação do Contudo, não existe sequer um texto no
evangelho: “De acordo com a pregação de Lu­ N ovo Testamento obrigando os cristãos a fa­
cas, o batismo no Espírito para os discípulos de lar em línguas com o evidência do batismo
Jesus foi um fortalecimento para um testemu­ como o Espírito, haja vista que a salvação
nho profético” (H u m m e l , 1978, p. 182). operada por Cristo não depende da manifes­
A conclusão é que o batismo no Espírito tação de dom algum para ser validada. Entre­
Santo é algo que está disponível a todo cris­ tanto, o batismo no Espírito, bem como nos­
tão. Além de ser selado com o Espírito, o sa união com Cristo, são fontes básicas a
cristão deve também dar lugar ao Espírito partir das quais toda bênção espiritual flui.

N ota

1 O autor deste comentário, cuja linha é calvinista, defende a ideia de que o batismo com o Espírito Santo ocorre no
momento em que uma pessoa se converte e vai se deixando dominar por Ele, e não pela sua carnalidade. Essa ideia
não é contrária ao que é ensinado pelo pentecostalismo. A diferença reside no fato de que a interpretação pentecos-
tal identifica dois momentos na obra do Espírito: um inicial, quando o Espírito Santo passa a habitar no cristão e o
sela para a redenção; e um posterior, quando o Espírito reveste o cristão de poder e dons em prol da pregação do
evangelho e de um testemunho mais impactante e eficaz. As duas interpretações [a pentecostal e a calvinista] estão
corretas do ponto de vista bíblico, uma vez que ambas consideram a ação poderosa e regeneradora do Espírito, bem
como a capacitação para o ministério.
2 O dom de línguas, na verdade, possibilitou que os partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, e Ju -
déia, e Capadócia, e Ponto, e Ásia, e Frigia, e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos
(tanto judeus como prosélitos), e cretenses, e árabes, presentes em Jerusalém para a Festa do Pentecostes pudessem
ouvir em seu própio idioma sobre as grandezas de Deus (At 2.9-11).
Pa r t e

2
Como Deus salva os pecadores

Jesus respondeu e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de
novo não pode ver o Reino de Deus.
João 3.3

Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus. Não
vem das obras, para que ninguém seglorie.
Efésios 2.8,9

Mas, àquele que não pratica, porém crê naquele que Justifica o ímpio, a sua fé lhe é im­
putada como justiça.
Romanos 4.5

Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que
o gerou também ama ao que dele é nascido. Nisto conhecemos que amamos os filhos de
Deus: quando amamos a Deus eguardamos os seus mandamentos.
1 João 5.1,2

Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus. Porque
não recebestes o espírito de escravidão, para, outra vez, estardes em temor, mas recebestes
o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai.
Romanos 8.14,15

Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Não são do mundo, como eu
do mundo não sou. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.
O NOVO NASCIMENTO

nascimento de um bebê é algo tre­ O QUE SUCEDE À SALVAÇÃO?_________________


mendo, pois emociona o pai, a A regeneração é importante, mas não po­
mãe e até os médicos e as enfer­ de ser vista como um fim, e sim como um
meiras envolvidos no parto, visto meio de salvação.
que, apesar de acostumados, eles nunca deixam John M urray afirmou em um de seus li­
de maravilhar-se com esse milagre da vida. vros que, da mesma maneira que Deus fez a
N a maioria das vezes, quando pessoas fa­ terra cheia de coisas boas para satisfazer o ser
mosas têm filhos, a notícia é relatada nos jor­ humano, Ele nos abençoou com a salvação:
nais, nas revistas e na televisão. Entretanto,
nenhum desses casos pode comparar-se ao Essa superabundância se evidencia no eterno
nascimento sobrenatural do Filho de Deus. princípio de Deus a respeito da salvação. Ela
Em bora o mundo hodierno não tenha de­ aparece na conquista histórica da redenção hu­
monstrado interesse pelo evento, haja vista mana por meio da obra de Cristo, que foi úni­
que poucos se importaram com a chegada de ca, e também na aplicação contínua e progres­
C risto a terra, houve celebração dos anjos siva da redenção, até alcançar a consumação
no céu. na liberdade da glória dos filhos de Deus.
Da mesma forma, poucos valorizam hoje (M urra y , 1955, p. 79)
o chamado novo nascimento do ser humano,
que se dá após alguém reconhecer sua condi­ As palavras contínua e progressiva indi­
ção com o pecador, arrepender-se e aceitar a cam que o novo nascimento, apesar de fun­
Jesus como seu Senhor e Salvador, passando, damental, é apenas um dos passos de um
assim, a ser conhecido como nova criatura. processo de salvação que desemboca na eter­
N o entanto, Jesus assinalou que há alegria nidade.
diante dos anjos de D eus por um pecador que Apesar da conquista de nossa salvação pe­
se arrepende (Tc 15.10). la morte de Jesus ter sido única, sua aplicação
O novo nascimento é uma “ressurreição envolve uma série de atos chamados de ordo
espiritual”, a passagem de alguém que se en­ salutis ou passos da salvação [de Deus].
contrava m orto em delitos e pecados para Quais seriam esses passos? U m dos mais
uma nova e abundante vida. E quando wm fi­ óbvios é a escolha determinante de uma pes­
lho da ira se torna um filho do Pai celestial. soa por Deus realizada antes do novo nasci­
O termo teológico para esse novo nasci­ mento [a eleição], que pode ser lida em passa­
mento é regeneração. gens com o João 1.12,13, segundo a qual todos
aqueles que são feitos filhos de D eus [...] não a esses também justificou; e aos que justifi­
nasceram do sangue, nem da vontade da car­ cou, a esses também glorifcou.
ne, nem da vontade do varão, mas de Deus.
Em Tiago 1.18, essa ideia é ratificada: Se­ Nessa passagem, a onisciência e a presci-
gundo a sua vontade, ele [Deus] nos gerou ência de Deus respondem pela eleição/pre­
pela palavra da verdade, para que fôssemos destinação de alguém que é chamado e justifi­
como primícias das suas criaturas. cado por Cristo, sendo posteriormente glori-
H á também outros processos que envol­ ficado com o ápice da obra de redenção.
vem o novo nascimento. Em João 3.3b, le­ Tomando como base o ensino de Paulo,
mos: A quele que não nascer de novo não pode podemos dizer que a justificação pressupõe a
v er o Reino de Deus. Mais adiante, João 3.5 fé: Sendo, pois, justificados pela fé , temos paz
completou essa afirmação dizendo: A quele com D eus p or nosso Senhor Jesus Cristo (Rm
que não nascer da água e do Espírito não pode 5.1). Logo, é possível afirmar que a fé vem
entrar no Reino de Deus. antes da justificação, mas é acrescida depois
N ão podemos deixar de mencionar que o da regeneração. A santificação se sucede à
novo nascimento precede a entrada no Reino justificação e antecede a glorificação.
de Deus. Em 1 João 3.9, é dito: Q ualquer que Portanto, identificamos como elementos
é nascido de D eus não comete pecado; porque presentes no novo nascimento a onisciência de
a sua semente perm anece nele; e não pode p e­ Deus, a eleição/predestinação, Seu chamado a
car, porque é nascido de Deus. nós, a regeneração, a fé e o arrependimento, a
João não quis dizer, com isso, que somos justificação, a santificação e a glorificação.
perfeitos. Antes, sustentou que os cristãos Esses passos poderiam ser subdivididos e,
também pecam eventualmente. Se o negar­ até, combinados, sem alterar seu sentido ori­
mos, estaremos enganando-nos ou mentin­ ginal. Contudo, essa é a seqüência da salvação
do: Se dissermos qu e não temos pecado, en- apresentada na Bíblia, a qual nos ajuda a en­
ganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade tender o processo por meio do qual Deus nos
em nós (1 Jo 1.8). salva.
Dessa forma, João se referia à santificação, Antes de qualquer outra coisa está a eter­
que, sendo sucessora da regeneração, é o cres­ na soberania do Senhor, que lhe dá o direito
cimento progressivo em santidade de qual­ de livre escolha em todos os aspectos da vida
quer que tenha se tornado filho de Deus. [respeitando, é claro, o nosso livre-arbítrio].
Em Romanos 8.28-30, são mencionadas a Quanto à nossa experiência pessoal, o primei­
justificação e a glorificação no processo de ro passo é nossa regeneração espiritual.
salvação:
A in i c i a t i v a d i v i n a _________________________

E sabemos que todas as coisas contribuem O renascimento é uma metáfora do passo


juntam ente para o bem daqueles que inicial da salvação usada por Jesus para nos
amam a Deus, daqueles que são chamados mostrar a necessidade de um novo começo.
p or seu decreto. Porque os que dantes co­ Mas Ele não disse que precisamos renascer
nheceu, também os predestinou para se­ fisicamente, pois, como afirmou Nicodemos,
rem conformes à imagem de seu Filho, a isso não faria sentido:
fim de que ele seja o primogênito entre
muitos irmãos. E aos que predestinou, a Disse-lhe Nicodemos: Como pode um ho­
esses também chamou; e aos que chamou, m em nascer, sendo velho? Porventura,
pode tornar a entrar no ventre de sua mãe Foi para pessoas como essas, que se vanglo­
e nascer? [...] Nicodemos respondeu e dis­ riavam de suas origens, que Paulo escreveu
se-lhe: Como pode ser isso ? Filipenses 3.4-7:
João 3.4,9
Se algum outro cuida que pode confiar na
De fato, precisamos renascer espiritual­ carne, ainda mais eu: circuncidado ao oita­
mente para ter um novo começo, pois, com vo dia, da linhagem de Israel, da tribo de
nossos pecados, arruinamos o início que tive­ Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a
mos no Éden, com Adão. E essencial que lei, fu i fariseu, segundo o zelo, perseguidor
possamos dizer: As coisas velhas já passaram; da igreja; segundo a justiça que há na lei,
eis que tudo se fe z novo (2 C o 5.17). irrepreensível. Mas o que para mim era
A regeneração é obra de Deus, e não do ganho reputei-o perda por Cristo.
ser humano pecador. Assim com o um bebê
não pode nascer por vontade própria, visto Abraão recebera promessas de que Deus
que a concepção dele depende da fecundação estaria com ele e com seus descendentes,
de um óvulo por um espermatozoide, o re­ abençoando-os para sempre. Por conseguin­
nascimento espiritual se inicia pela vontade te, isso fez com que estes pensassem que sua
do nosso Pai celestial, fugindo, assim, de nos­ justificação estaria garantida somente com
sa alçada. base nessa herança genética e religiosa. Ante
N a primeira referência ao novo nascimen­ essa visão equivocada, Jesus explicou que
to no Evangelho de João podemos ler o se­ Deus está interessado em um relacionamento
guinte: espiritual, e, por causa da corrupção de suas
ações, aqueles que recusavam o Messias e
Mas a todos quantos o receberam deu-lhes mentiam acerca dele seriam considerados fi­
o poder de serem feitos filhos de Deus: aos lhos do maligno:
que crêem no seu nome, os quais não nasce­
ram do sangue, nem da vontade da carne, [Disse-lhes Jesus:] Vós tendes por pai ao
nem da vontade do varão, mas de Deus. diabo e quereis satisfazer os desejos de vos­
João 1.12,13 so pai; ele fo i homicida desde o princípio e
não se firm ou na verdade, porque não há
Nessa passagem, o apóstolo João ressal­ verdade nele; quando ele profere mentira,
tou que ninguém renasce espiritualmente por fala do que lhe é próprio, porque é menti­
vontade da carne, humana. Os que não nasce­ roso e pai da mentira.
ram do sangue, nem da vontade da carne, João 8.44
nem da vontade do varão, mas de Deus, são
os regenerados espiritualmente. Da mesma forma, muitos hoje se acham
H á quem considere aqueles que perten­ justos por terem nascido num lar ou país cris­
cem a uma linhagem de família rica como pes­ tãos. Todavia, a linhagem humana não garan­
soas de sangue nobre. Assim, no tempo de te a salvação de ninguém.
Jesus, milhares de judeus se consideravam A declaração de João de que o renasci­
justos perante Deus simplesmente porque mento não depende da vontade da carne (Jo
eram descendentes de Abraão: Somos descen­ 1.12,13) é mais difícil de interpretar. Agosti­
dência de Abraão, e nunca servimos a nin­ nho, assim como eu, compreendeu essa cita­
guém ; como dizes tu: Sereis livres? (Jo 8.33). ção da seguinte forma: a expressão não do
sangue seria uma referência ao nascimento do Altíssimo. Apesar de Deus não interferir
humano, sendo a frase não da vontade da, car­ em nosso livre-arbítrio no que se refere à de­
ne uma alusão à tarefa da mulher na reprodu­ cisão de crer em Jesus como nosso Salvador,
ção, enquanto a não da vontade do varão nos Ele gera em nós a fé para a salvação, visto que
remeteria à responsabilidade do homem nesse o próprio Senhor tomou a iniciativa de plan­
processo. tar Sua vida divina em nós.
Para Lutero, vontade da carne diz respeito
ao ato da adoção; para Frederick Godet, à ima­ O v e n t o e a á g u a ___________________________

ginação sexual; e para Calvino, à força de von­ A metáfora do novo nascimento também
tade. N o N ovo Testamento, a palavra carne se nos ajuda a entender o que acontece quando
refere ao nosso apetite natural, nossos desejos Deus toma a iniciativa da salvação.
sexuais e emocionais. Logo, aproximamo-nos Nicodemos foi a Cristo para tratar acerca
da forma como João articulou seu pensamento da realidade espiritual, mas Jesus respondeu
ao dizermos que ninguém pode tornar-se filho às indagações dele dizendo que ninguém po­
de Deus por meio de sentimentos ou emoções. de entender as coisas do Espírito sem nascer
H oje, muitos pensam que são cristãos de novo: N a verdade, na verdade te digo que
simplesmente porque se emocionam durante aquele que não nascer de novo não pode v er o
as reuniões na igreja ou porque, alguma vez, Reino de D eus (Jo 3.3).
já choraram após um culto evangélico. É cer­ A palavra traduzida como de novo é
to que a emoção pode acompanhar uma expe­ anõthen, que também significa do alto. O que
riência genuína de renascimento, mas este não Jesus queria que Nicodemos entendesse era
é produzido por aquela. que, para alcançar a compreensão das coisas
O terceiro term o, nem da vontade do de Deus, o líder religioso, primeiro, deveria
varão, é mais fácil de entender. Ninguém ser transformado pela graça:
pode tornar-se um filho de Deus por vonta­
de própria. Disse-lhe Nicodemos: Como pode um ho­
Nesta vida biológica, podemos interferir m em nascer, sendo velho? Porventura,
no crescimento de alguém, mas não podemos pode tornar a entrar no ventre de sua mãe
determinar o novo nascimento dessa maneira. e nascer? Jesus respondeu: N a verdade, na
E possível que alguém com poucos bens, verdade te digo que aquele que não nascer
poucos valores, pouca educação e poucos ta­ da água e do Espírito não pode entrar no
lentos, ao empenhar-se com dedicação, estu­ Reino de Deus. [ ...] O vento assopra onde
dando à noite e trabalhando em um emprego quer, e ouves a sua voz, mas não sabes
melhor, consiga até mesmo enriquecer um dia, donde vem , nem para onde vai; assim é
talvez entrando para a política para se tornar todo aquele que é nascido do Espírito.
um parlamentar e, quem sabe, até o próximo João 3.4,5,8
presidente. Sem dúvida, a história dessa pessoa
seria um exemplo de superação, de esforço e de Tendo identificado a fonte da regeneração
sorte. Mas nada a tornaria filho natural de pais espiritual, Jesus, então, falou sobre como ela
que não fossem os biológicos. ocorre. Mas o que significa nascer da água e do
D e modo semelhante, nada pode torná- Espírito ? E por que Jesus menciona o vento ?
-la um filho de Deus se o próprio Senhor Existem várias explicações para isso. Um a
não realizar esse novo nascimento. Somente delas sustenta que água representa o nasci­
pela graça divina podemos tornar-nos filhos mento físico, sob o argumento de que essa

SÓO
água mencionada estaria, de alguma forma, do alto, é difícil entender o sentido de João
relacionada ao líquido amniótico que protege 3.4-8 desta maneira, pois, em todo o N ovo
o bebê no útero da mãe. Essa teoria sustenta Testamento, a purificação e o poder do alto
também que a menção ao vento (spiritus) im­ aparecem como posteriores ao novo nasci­
plica uma referência ao Espírito Santo. mento, ao contrário do que acontece na pas­
De acordo com essa visão, Jesus quis dizer sagem em questão, na qual os termos água e
que a salvação de uma pessoa depende, pri­ vento são retratados como formas pelas quais
meiro, de seu nascimento físico e, depois, do este nascimento se dá. Além disso, nem a pu­
espiritual, o que é bastante lógico, visto que, rificação nem o poder têm relação com a me­
para nascer do Espírito e ser salva, é necessário táfora do nascimento.
que a pessoa esteja viva fisicamente. Contudo, Kenneth S. Wuest propôs uma quarta ex­
não parece ter sido este o argumento de Jesus. plicação para essa passagem, baseado no uso
Em primeiro lugar, o termo água não foi da água como referência ao Espírito Santo,
usado com esse sentido em nenhuma outra que, em geral, é bem comum no N ovo Testa­
parte da Bíblia, pois essa é uma visão moder­ mento (W u e s t , 1966, p. 55-57).
na acerca do assunto. Além disso, essa refe­ Em João 4, por exemplo, Jesus disse à mu­
rência à necessidade do nascimento físico pa­ lher de Samaria:
rece óbvia demais para ter sido feita por Jesus,
sendo difícil crer que Ele tenha desperdiçado A quele que b eber da água que eu lhe der
palavras dessa maneira. nunca terá sede, p orque a água que eu lhe
Em terceiro lugar, a palavra água não po­ der se fará nele uma fonte de água a jorrar
deria referir-se ao nascimento físico, pois, para a vida eterna.
como vimos em João 1.13, este não tem parte João 4.14
com a regeneração: Os quais não nasceram do
sangue, nem da vontade da carne, nem da Mais adiante, em João 7.37,38, a mensa­
vontade do varão, mas de Deus. gem de Jesus soa idêntica:
O utra interpretação dessa ideia seria que
essa água se trata da que é utilizada no batis­ E, no último dia, o grande dia da festa, J e ­
mo cristão, mas esse capítulo não trata de ba­ sus pôs-se em p é e clamou, dizendo: Se al­
tismo. N a verdade, é ensinado na Bíblia que guém tem sede, que venha a mim e beba.
ninguém pode ser salvo por meio de ritos re­ Q uem crê em mim, como diz a Escritura,
ligiosos (1 Sm 16.7; Rm 2.28,29; G1 2.15,16; rios de água viva correrão do seu ventre.
5.1-6). O batismo é, portanto, um importante
sinal de algo que já aconteceu, mas não um Ao que o apóstolo João acrescentou uma
meio pelo qual somos regenerados. explicação:
William Barclay, por sua vez, interpretou
os termos água e vento metaforicamente, E isso disse ele do Espírito, que haviam de
considerando a água um símbolo de purifica­ receber os que nele cressem; porque o Espí­
ção, e o vento, de poder, o que implica, então, rito Santo ainda não fora dado, p o r ainda
o fato de a pessoa dever ser purificada e cheia Jesus não ter sido glorifcado.
de poder ( B a r c l a y , 1956, p. 119). João 7.39
Apesar de os pecadores terem de purifi-
car-se de seus pecados e de, com o cristãos, Wuest também mencionou passagens no
sermos donos do privilégio de receber poder livro de Isaías que corroboram essa teoria:

Sâ/
[Disse Deus:] Porque derramarei água so­ da verdade, para que fôssemos como primícias
bre o sedento e rios, sobre a terra seca; der­ das suas criaturas.
ramarei o m eu Espírito sobre a tua posteri­ Quando analisamos as palavras de Cristo
dade e a minha bênção, sobre os teus a Nicodemos à luz dessas passagens, pode­
descendentes. mos ver Deus como Criador e Pai de Seus fi­
Isaías 44.3 lhos, e Sua Palavra como algo inspirado pelo
Espírito Santo, a qual funciona como meio
O vós todos os que tendes sede, vinde às pelo qual a nova vida espiritual pode ser pro­
águas, e vós que não tendes dinheiro, vin­ porcionada a nós.
de, comprai e comei; sim, vinde e comprai, Em outras palavras, quando, em João 3.5,
sem dinheiro e sem preço, vinho e leite. Jesus usou metaforicamente a água e o vento,
Isaías 55.1 o primeiro elemento estava relacionado à Pa­
lavra de Deus; o segundo, ao Espírito Santo.
E provável que ambas as passagens fos­ Jesus quis ensinar que, quando a Palavra é
sem do conhecimento de Nicodemos. Se es­ compartilhada, ensinada, pregada ou feita co ­
sa for a interpretação correta, da água e do nhecida de qualquer outra forma, o Espírito
Espírito serão termos redundantes, sendo o Santo a usa para trazer nova vida espiritual a
papel da conjunção aditiva e meramente en­ quem Deus estiver salvando. É por isso que
fático. C ontudo, embora a explicação de está escrito na Bíblia que aprouve a D eus sal­
Wuest seja boa, sempre esperei mais dessa var os crentes pela loucura da pregação (1 Co
passagem. 1.21; Rm 10.14,15).
Além de metáfora para o Espírito, a água é
também usada na Bíblia para se referir à Pala­ A c o n c e p ç ã o e s p i r i t u a l ___________________

vra de Deus. Em Efésios 5.26 está escrito que H á mais uma passagem bíblica que aborda
Cristo amou a Igreja e se deu por ela para a o novo nascimento de maneira mais clara:
santificar, purificando-a com a lavagem da
água, pela palavra. Sendo de novo gerados, não de semente
Em 1 João 5.8, o autor do quarto Evange­ corruptível, mas da incorruptível, pela pa­
lho disse que três são os que testificam na ter­ lavra de Deus, viva e que perm anece para
ra: o Espírito, e a água, e o sangue. Com o ele sempre.
começou a falar de algo que testifica o fato de 1 Pedro 1.23
a salvação estar em Cristo, o Espírito deve
referir-se ao testemunho divino no indivíduo; Nesse capítulo de 1 Pedro, o apóstolo afir­
o sangue, ao testemunho histórico da morte mou que só passamos a fazer parte da família
de Cristo; e a água, às Escrituras. de Deus por meio da morte de Cristo e da fé:
A mesma ideia está em João 15.3, onde
Jesus disse: Vós já estais limpos pela palavra Sabendo que não foi com coisas corruptí­
que vos tenho falado. veis, como prata ou ouro, que fostes resga­
Outra passagem bíblica importante é a tados da vossa vã maneira de viver que,
que, mesmo sem utilizar a palavra água meta­ p or tradição, recebestes dos vossos pais,
foricamente, cita a Palavra de Deus como o mas com o precioso sangue de Cristo, como
canal por meio do qual o novo nascimento de um cordeiro imaculado e incontamina-
acontece. Trata-se de Tiago 1.18: Segundo a do. [...] E por ele credes em Deus, que o
sua vontade, ele [Deus] nos gerou pela palavra ressuscitou dos mortos e lhe deu glória,
para que a vossa f é e esperança estivessem nós, visto que ela é dom de D eus (Ef 2.8).
em Deus. Depois, Ele manda a semente da Sua Palavra,
1 Pedro 1.18,19,21 que contém vida divina, para penetrar o
“óvulo da fé”. O resultado é a concepção da
A o afirmar que a Palavra de Deus exerce nova criatura, o ser regenerado.
uma ação fecundativa semelhante à do esper- Sendo assim, uma nova vida espiritual
matozoide, Pedro enfatizou que Deus é nos­ vem à existência, uma vida que tem sua ori­
so Pai. A Vulgata Latina deixa isso mais claro gem em Deus, sem nenhuma ligação com
que outras versões da Bíblia, pois a palavra nosso pecado. E por essa razão que agora po­
usada na passagem é sêmen. demos dizer: Se alguém está em Cristo, nova
Coloquemos os ensinos e as metáforas criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que
dessas passagens lado a lado. Deus primeiro tudo se fe z novo (2 C o 5.17).
planta em nosso coração o que podemos cha­ Jamais somos os mesmos depois que o E s­
mar de “óvulo da fé salvadora”, pois está es­ pírito Santo entra e implanta a vida de Deus
crito na Bíblia que nem mesmo a fé parte de em nós.
FÉ E ARREPENDIM ENTO

renascimento é a primeira forma Quando se trata de dinheiro, então, nem


pela qual a salvação de Deus nos se fala. N o mínimo, exigimos garantia. Isso
toca, mas, na matemática do Se­ acontece porque, apesar de cada parte envol­
nhor, a regeneração é inseparável vida querer acreditar na boa-fé do outro, to­
do que a sucede. Respeitando a seqüência es­ dos sabem que nem sempre as pessoas podem
tabelecida no capítulo anterior, estudaremos ser confiáveis, daí a necessidade de contratos
aqui sobre a fé e seu companheiro, o arrepen­ formais. É fácil, portanto, entender por que
dimento. há momentos em que titubeamos naquilo que
A fé é indispensável para que alcancemos afirmamos crer.
a salvação. Em Hebreus 11.6 está escrito que C om frequência, a fé é tida como algo
não é possível agradar a Deus sem ela. subjetivo. Essa é a fé religiosa, diferente da
Em Efésios 2.8,9, lemos: Pela graça sois verdade objetiva da revelação de Deus. Anos
salvos, p o r meio da f é ; e isso não vem de vós; é atrás, em uma longa discussão sobre religião,
dom de Deus. Não vem das obras, para que um jovem me disse que era cristão. Ao longo
ninguém se glorie. da conversa, descobri que ele não cria na ple­
Em João 3.16, que usou a forma verbal na divindade de Cristo, apenas sustentava que
crer, em vez de o substantivo fé , podemos ler Ele era filho de Deus da mesma forma como
algo parecido: Porque D eus amou o m undo todos nós somos. O rapaz não cria na ressur­
de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, reição, nem que Jesus havia morrido por nos­
para que todo aquele que nele crê não pereça, sos pecados e menos ainda que houvesse, no
mas tenha a vida eterna. N ovo Testamento, um relato preciso da vida
e do ministério de Cristo. Em outras palavras,
O QUE A FÉ NÃO É____________________________ ele não reconhecia Jesus como o Senhor de
Consideremos o que a fé não é. Existe mui­ sua vida.
ta confusão acerca desse tema simplesmente N o momento em que argumentei com es­
porque usamos a palavra f é de maneira equivo­ se jovem que todas as crenças que ele renega­
cada. Por exemplo, temos o costume de usar a va eram, na verdade, fundamentais para a de­
expressão agir de boa-fé, mas, no que tange às finição do cristianismo, ele disse que, mesmo
coisas mais importantes da vida, raramente assim, cria no fundo de seu coração que era
confiamos nas pessoas, fato que demonstramos cristão. Para ele, fé era sua forma de ver a vi­
ao exigir, diante de uma negociação, ações, con­ da, a qual estava profundamente ligada aos
tratos e outros tipos de garantia por escrito. seus sentimentos.
U m substituto bem comum para a fé é a intimamente ligada à fé que tem em seu em­
credulidade, a qual se define como a atitude prego e àquela que tem em Deus, sendo irre­
de alguém que aceita algo como verdadeiro, levantes, portanto, os objetos nos quais estas
mesmo não havendo provas, simplesmente são depositadas.
por desejar que esse algo seja real. Rumores John R. W. Stott explicou melhor o pro­
de curas milagrosas para doenças incuráveis, blema que essa visão equivocada pode causar:
às vezes, encorajam esse tipo de comporta­
mento. Entretanto, ao contrário do que mui­ Ele [Peale] recomenda em sua “fórmula de des­
tos creem, isso não condiz com a visão bíblica preocupação” que a primeira coisa que faça­
a respeito da fé. mos de manhã, ao acordar, seja dizer três vezes
O utro substituto é o otimismo, que con­ e em voz alta: “Eu creio”. Entretanto, não diz
siste em uma atitude mental positiva por meio em que exatamente devemos colocar, de forma
da qual a realização do que acreditamos tor­ tão confiante e insistente, a nossa fé. As últimas
na-se possível. U m exemplo disso são os re­ palavras de seu livro são simplesmente “creia e
presentantes de vendas que, por crerem com tenha sucesso”. Mas crer em que ou em quem?
tanta veemência que são bons em sua função, Segundo a opinião do Dr. Peale, fé é sinônimo
obtêm sucesso nela. de autoconfiança e de um otimismo sem fun­
N orm an Vincent Peale popularizou essa damento. ( S t o t t , 1972, p. 35,36)
ideia em um de seus livros que se tornou um
campeão de vendas: The Power o f Positive É claro que uma atitude mental positiva
Thinking [O poder do pensamento positivo]. tem seu valor, visto que pode ajudar-nos a vi­
Nele, o autor sugeriu que pegássemos algu­ ver melhor, mas esse não é o sentido bíblico
mas passagens bíblicas acerca da fé no N ovo da fé. Contra distorções assim devemos res­
Testamento e as memorizássemos, permitin­ ponder que a verdadeira fé não se baseia em
do que elas se enraizassem em nosso incons­ atitudes ou sentimentos pessoais, mas sim em
ciente e nos fizessem crer realmente em Deus Deus, que, sendo eterno e imutável, transmite-
e em nós mesmos. Se memorizarmos passa­ nos toda a confiança necessária para que nos­
gens como as citadas abaixo, poderemos rea­ sa fé se torne estável.
lizar o que antes pensávamos ser impossível:
FÉ: a e s c r i t u r a ______________________________

Se tu podes crer; tudo é possível ao que crê. Em Hebreus lemos que a f é é a certeza de
Marcos 9.23 coisas que se esperam, a convicção de fatos que
se não vêem (Hb 11.1 a r a ). Algumas pessoas
Se tiverdes f é como um grão de mostarda, sustentam que, embora ideal, essa definição
direis a este monte: Passa daqui para acolá de fé é intangível. N o entanto, na Bíblia é en­
— e há de passar; e nada vos será impossível. sinado o oposto.
Mateus 17.20b A o contrário do que sugerem algumas tra­
duções dos textos bíblicos, a palavra certeza
Peale concluiu dizendo o seguinte: “Você não substitui, nesse versículo, o termo evi­
irá até onde sua fé em si mesmo, em seu em­ dência. O valor que aporta, nesse caso, asse­
prego e em Deus permitirem, e esse será seu melha-se, de certa forma, ao da escritura de
limite” (P e a l e , 1952, p. 99). uma propriedade.
Aparentemente, segundo o ponto de vista Apesar de nenhum de nós já ter tomado
do autor, a fé que ele tem em si mesmo estaria posse da herança que nos foi dada por meio

Sóó
de Cristo, a fé é a escritura que nos garante Igualmente, sempre que compramos um
que a receberemos, visto que é a prova das ingresso para assistir a um evento esportivo,
coisas que ainda não se veem plenamente. temos fé que o evento acontecerá conforme
Se essa fosse uma escritura assinada por anunciado e que o ingresso nos garantirá a
seres humanos, ainda teríamos dúvidas acerca entrada no mesmo.
da mesma, mas, como se trata de algo que Em outras palavras, João quis dizer que,
vem de Deus, podemos confiar que Ele cum­ se podemos confiar em seres humanos, mes­
prirá Sua Palavra, pois o Senhor está acima de mo sabendo que todos são falhos, muito mais
qualquer suspeita. podemos confiar em Deus!
Servimos ao Deus da verdade. Logo, tudo
o que Ele declara é digno de confiança. Ele é A c i ê n c i a d a f é ______________________________

infalível, e, por isso, podemos confiar nele Calvino afirmou em As Institutas que a fé
sem pestanejar. Ele também é onipotente, e bíblica deve ser racional, e não irracional, e
nada pode frustrar o cumprimento de Sua que seu objeto deve ser Cristo. Disse ainda
vontade. Além disso, o Senhor é fiel: se Ele que esse racionalismo vem da Palavra de
promete algo, cumpre. Deus, sustentando que a fé deve envolver cer­
A coisa mais sensata que podemos fazer teza na Palavra:
na vida é obedecer à ordem que Deus nos deu
de crer em C risto, visto que Ele é o único Possuiremos uma definição correta de fé quan­
digno de nossa inteira confiança. Isso foi o do obtivermos certo conhecimento da bene­
que João quis dizer quando escreveu: Se re­ volência de Deus para conosco, fundamenta­
cebemos o testemunho dos homens, o teste­ do na verdade de Sua promessa em Cristo,
m unho de D eus é maior; porque o testemu­ revelada a nossa mente e selada em nosso co­
nho de D eus é este, que de seu Filho testificou ração por meio do Espírito Santo. ( C a l v i n o ,
(1 Jo 5.9). 1960, p. 551)
João comparou a confiança que deposita­
mos uns nos outros com a maneira como de­ Esse conhecimento, dado a nós pelo Espí­
vemos confiar em Deus. A verdade é que, rito Santo, envolve a identidade de Jesus (a
mesmo sabendo que não há sequer uma pes­ segunda pessoa da Trindade, nascido da vir­
soa totalmente confiável no mundo, confia­ gem Maria, feito homem, oferecido por nos­
mos nos outros todos os dias. sas transgressões e ressuscitado para nossa
Quando dirigimos sobre uma ponte, mes­ justificação), nossa identidade (pecadores que
mo não conhecendo ninguém que tenha tra­ precisam de um Salvador) e muito mais.
balhado na construção e na aprovação dela, Em João 16.8-11, Jesus declarou:
temos fé que a mesma se manterá firme, acre­
ditamos que o engenheiro que a projetou e a E, quando ele [o Espírito Santo] vier, con­
equipe que a ergueu fizeram um bom traba­ vencerá o mundo do pecado, e da justiça, e
lho e não duvidamos da precisão dos órgãos do juízo: do pecado, porque não crêem em
que garantem sua segurança. mim; da justiça, porque vou para m eu Pai,
D a mesma forma, quando pegamos um e não me vereis mais; e do juízo, porque já
ônibus, temos fé que ele nos levará em segu­ o príncipe deste mundo está julgado.
rança ao nosso destino, que o motorista é
qualificado para a função e que ele fará o iti­ O Espírito Santo convence o mundo do
nerário certo, sem desviar-se. pecado porque o mundo não crê em Jesus.

Sóf
Segundo Leon Morris, isso pode significar Ao responder a essa pergunta, Pedro ga­
que: nhou mais de três mil almas para Cristo. A
resposta dele foi excepcional, mas não por
Ele convence o mundo de suas ideias errôneas causa de seu brilhantismo ou de sua eloqüên­
acerca do pecado porque o mundo não crê; [...] cia. Se ele tivesse pregado esse sermão um dia
Ele convence o mundo de seu pecado porque, antes, nada teria acontecido, ninguém teria
sem essa convicção, não é possível ter fé; [...] crido e ele e os demais apóstolos teriam sido
ou Ele convence o mundo do pecado da incre­ motivo de piada.
dulidade. ( M o r r i s , 1971, p. 698) Contudo, o Espírito Santo veio no Pente­
costes e convenceu o povo de seu pecado. E
Qualquer uma dessas opções é plausível. por isso que eles compungiram-se em seu co­
Aliás, era costume de João buscar transmitir ração e perguntaram a Pedro e aos demais
mais de uma ideia em seus textos. Entretanto, apóstolos: Q ue faremos, varões irmãosf (At
se o tema dessa passagem for a convicção que 2.37). Com o a fé brotou em seu coração, o
visa à salvação, então a segunda interpretação arrependimento veio em seguida e, assim, as
seria a melhor, visto que o pecado coloca o pessoas quiseram ser libertas do pecado.
ego das pessoas no centro de sua vida, levan- N em todos creram que não podemos con­
do-as, assim, a desprezar a fé. Entender isso é vencer a nós mesmos ou aos outros do peca­
essencial para garantir que não percamos a do. Isso foi o tema central da controvérsia
salvação. entre Agostinho e Pelágio, e, mais tarde, entre
A terceira interpretação mostra o Espírito Armínio e os seguidores de Calvino.
Santo como um “prom otor” que atribui ao Embora Pelágio e Armínio não tenham
mundo o veredito de culpado, enquanto a negado que a salvação se dá pela graça divina,
segunda adiciona que Ele leva essa culpa à eles não acreditavam que tudo podia ser atri­
consciência humana para que nós, perturba­ buído a ela, ou seja, não podiam crer que cada
dos com o pecado, busquemos a libertação passo dado em direção a Deus dependesse,
do mesmo. primeiro, de que Ele nos convencesse de nos­
P or exemplo, no Dia de Pentecostes, os sos pecados e nos atraísse a si.
discípulos se juntaram para esperar a vinda do Pelágio disse que nossa vontade é livre e
Espírito Santo. Quando Ele veio, eles foram que sempre podemos, portanto, escolher ou
às ruas de Jerusalém e Pedro pregou que Sua rejeitar qualquer coisa. Assim, ele defendia
vinda havia sido o cumprimento da profecia que, embora o evangelho nos fosse oferecido
de Joel, cujo objetivo era chamar homens e pela graça de Deus, a maior responsável por
mulheres à salvação em Cristo. O apóstolo, nossa salvação ou condenação era nossa p ró­
então, pregou sobre Jesus, e concluiu seu ser­ pria vontade. C ontudo, Pelágio não enten­
mão dizendo: dia que, sem o Espírito Santo, tornava-se
impossível para o ser humano compreender
Saiba, pois, com certeza} toda a casa de Is­ o evangelho, reconhecer seus pecados e arre­
rael que a esse Jesus, a quem vós crucificas- pender-se deles.
tes, D eus o fe z Senhor e Cristo. Ouvindo Depois que Jesus subiu para junto do Pai
eles isto, compungiram-se em seu coração e (Jo 16.10), o Espírito Santo foi incumbido de
perguntaram a Pedro e aos demais apósto­ convencer as pessoas da justiça. Em outras
los: Q ue faremos, varões irmãos ? palavras, Ele assumiu a tarefa de revelar ao
Atos 2.36,37 homem em quem [Cristo] a justiça divina
pode ser encontrada, visto que a justiça huma­ Resta entornar dentro do coração o que a men­
na não é suficiente para garantir a nossa salva­ te absorveu, pois a Palavra de Deus não é rece­
ção. Com o sabemos, somos salvos por Cristo, bida pela fé quando ela fica apenas na mente.
que já não está entre nós, mas à direita do Pai. Somente quando se enraíza no fundo do cora­
Por fim, o Espírito nos convence do juízo, ção é que ela se torna uma defesa invencível para
visto que quem governa este mundo já está suportar e eliminar toda e qualquer tentação.
condenado (Jo 12.31), fato comprovado no [...] Da mesma forma, o Espírito sela em nosso
julgamento de Satanás por meio do poder do coração as promessas que já estão em nossa men­
sacrifício de Jesus na cruz. te e atua como uma garantia que as confirma e
Ninguém quer crer no juízo, pois é mais estabelece-as. ( C a l v in o , 1960, p. 583-584)
conveniente pensar que podemos fazer o que
bem entendermos sem enfrentarmos as conse­ Em outro trecho dessa obra, ele ressaltou
qüências de nossas decisões. O que nos enco­ que a fé está intimamente ligada à devoção.
raja a pensar assim é o fato de que, na maioria Por fim, a fé é também confiança, com ­
das vezes, Deus não nos julga imediatamente promisso. Deixamos de confiar em nós mes­
após nossas ações, o que nos dá a falsa impres­ mos para passar a confiar em Deus completa­
são de que o mal fica sempre impune. mente. Percebemos o valor e o amor infinito
Cultivar esse tipo de pensamento é, sem de Cristo, que se deu para nos salvar, e com-
dúvida, um equívoco. Deus evita julgar os prometemo-nos com Ele.
pecadores de maneira imediata porque é mi­ O casamento ilustra bem esse princípio,
sericordioso, mas isso não será assim por toda visto que nele culmina um processo de
a eternidade. O julgamento do Senhor no que aprendizado, de sensibilidade e de com pro­
se refere a Satanás é prova disso. metimento.
Pedro defendeu o mesmo ponto. Após Dentro dessa analogia, podemos compa­
mostrar que Deus julgou certos anjos, bem rar as primeiras fases de um namoro ao primei­
como o mundo nos tempos de N oé e as cida­ ro elemento da fé: a identificação. Nessa fase, o
des de Sodoma e Gomorra, ele afirmou: As­ casal dá um passo fundamental: o de conhecer-
sim, sabe o Senhor livrar da tentação os piedo­ -se, a fim de descobrir se o outro se qualifica
sos e reservar os injustos para o Dia de Juízo, como um bom cônjuge. Assim, por exemplo,
para serem castigados (2 Pe 2.9). se um dos dois descobrir que o outro não é dig­
no de confiança, haverá problema mais tarde.
O AMOR E O COMPROMETIMENTO__________ A segunda fase, por sua vez, é comparada
Sabemos o quanto é importante buscar ao segundo elemento da fé: a emoção, que
entender o cristianismo de forma racional, corresponde à paixão, sendo também funda­
mas isso não basta, pois o inimigo, bem mais mental. E por causa dessa emoção que um
ortodoxo do que nós, também sabe disso. L o ­ homem e uma mulher dizem sim um ao ou­
go, é necessário que a fé racional seja balance­ tro, prometendo conviver e amar-se em qual­
ada com um pouco de emoção, como a des­ quer circunstância. Da mesma forma, com-
crita por John Wesley em Aldersgate, quando prometemo-nos com Cristo, tanto nesta vida
disse que seu coração havia sido estranha­ como por toda a eternidade.
m ente acalentado.
Ainda tratando do mesmo tema, Calvino A f é d e A b r a ã o ____________________________

enfatizou a importância da influência das A fé não para aqui. Com o resultado do


emoções, além do intelecto: novo nascimento, ela não desaparece, mas se
faz presente ao longo da vida inteira, fortale­ dando glória a Deus; e estando certíssimo
cendo-se e revelando cada vez mais a nature­ de que o que ele tinha prometido também
za de seu objeto. era poderoso para o fazer.
Quando o Senhor ordenou que Abraão Romanos 4.20,21
deixasse sua parentela e fosse para uma terra
que lhe seria dada por herança, ele obedeceu, Ou seja, a fé de Abraão venceu a dúvida em
[...] e saiu, sem saber para onde ia (Hb 11.8). meio a todo o sofrimento emocional e à aparen­
Isto é fé: nada mais que a crença no poder de te contradição ante a tudo o que se cria antes:
Deus de cumprir o que lhe prometera.
Contudo, também podemos ler em H e­ Pela fé , ofereceu Abraão a Isaque, quando
breus: Pela fé , habitou na terra da promessa, fo i provado, sim, aquele que recebera as
como em terra alheia, morando em cabanas promessas ofereceu o seu unigênito. Sendo-
com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mes­ -Ihe dito: Em Isaque será chamada a tua
ma promessa (Hb 11.9). A fé de Abraão foi descendência, considerou que D eus era
maior aqui, pois ele confiou em Deus apesar poderoso para até dos mortos o ressuscitar.
da fome, do perigo e da demora do cumpri­ E daí também, em figura, ele o recobrou.
mento da promessa. Hebreus 11.17-19
Mais adiante, lemos sobre a imensa fé por
meio da qual Sara e Abraão puderam gerar C om o vimos, não havia limites para a fé
um filho, apesar da infertilidade e da idade já de Abraão, visto que ele creu que Deus podia,
avançada, fato que colaborou para que o até mesmo, ressuscitar seu filho.
Deus da promessa ficasse conhecido também Da mesma maneira, a fé cresce em nós.
como o Deus de milagres. Em referência a Você pode ter pouca ou muita fé, mas o im­
essa fé, Paulo escreveu: portante é confiar em Deus e em Cristo. O
Senhor não falha. Quanto mais você o conhe­
E não duvidou da promessa de Deus por ce, mais sua fé é fortalecida, assim como foi
incredulidade, mas fo i fortificado na fé, com a de Abraão.
J u s t if ic a ç ã o p e l a f é : a e s s ê n c ia d a salvação

'ãrtinho Lutero, que, devido às resposta do Senhor para a mais básica de to ­


suas considerações acerca da jus­ das as perguntas referentes à religião: como
tificação, deu início à Reforma pode uma pessoa justificar-se diante de Deus?
Protestante no século 16, escre­ Segundo a Bíblia, não podemos justificar a
veu o seguinte: nós mesmos. Esta é a doutrina do pecado.
Rebelamo-nos contra Deus e, se estamos
Quando nosso conhecimento sobre a justifica­ contra Ele, não há justificação para nós. So­
ção foi questionado, tudo o mais o foi também. mos todos transgressores e destituídos [esta­
[...] A justificação é a essência que dá origem a mos] da glória de D eus (Rm 3.23).
todas as outras doutrinas. Ela gera, nutre, edi- De acordo com a doutrina da justificação,
fica, preserva e defende a Igreja de Deus e, sem somente por intermédio da obra de Cristo,
ela, a Igreja do Senhor não pode existir. [...] Ela recebida pela fé, é possível que nos justifique­
está acima de qualquer outra doutrina. (P la ss, mos diante de Deus:
1959, p. 702-4, 715)
A justiça de D eus pela f é em Jesus Cristo
João Calvino, que seguiu Lutero no início para todos e sobre todos os que crêem ; [...]
do desenvolvimento da Reforma, defendia o sendo justificados gratuitam ente pela sua
mesmo que ele, referindo-se à justificação co ­ graça, pela redenção que há em Cristo
mo a essência da religião. Jesus.
Thomas Watson, por sua vez, fez a seguin­ Romanos 3.22-24
te observação:
Concluímos, pois, que o hom em é justifica­
A justificação é a essência e o pilar do cristia­ do pela fé , sem as obras da lei.
nismo, e os erros cometidos no que tange a esse Romanos 3.28
tema são muito perigosos. É como um defeito
em uma fundação. A justificação de Cristo é a Mas, àquele que não pratica, porém crê
fonte de água viva. Deixar o veneno das falsas naquele que justifica o ímpio, a sua f é lhe é
doutrinas contaminar essa fonte é uma atitude imputada como justiça.
condenável. (W a tso n , 1970, p. 226) Romanos 4.5

Essas declarações não são exageradas, mas C om o podemos ver, a justificação é obra
sim realistas, pois a justificação pela fé é a divina. Sabendo disso, Paulo afirmou: E Deus
quem os justifica. Q uem os condenará? (Rm mais santos. Entretanto, a justificação não
8.33b,34a). tem relação direta com a transformação de
caráter. O fato de um juiz absolver alguém
O VEREDITO ACERCA DO QUE D E U S FEZ não significa que este seja inocente. N a verda­
Dois pontos merecem destaque: o primeiro de, a opinião do juiz não implica nenhuma
é que, de acordo com a citação de Romanos, é mudança no réu, visto que sua declaração
Deus que nos justifica, e não nós mesmos. acerca da inocência do mesmo se refere ape­
Acerca desse tema, John Murray declarou: nas ao seu ponto de vista pessoal no que tange
à acusação que foi feita, e não ao caráter do
A justificação não é uma desculpa para os erros acusado em si.
humanos, nem um recurso autodefensivo. Se­ Assim, embora haja controvérsias quanto
quer é a confissão ou o sentimento que a confis­ ao uso do termo justificação com conotação
são traz. A justificação não é um exercício reli­ legal nas Escrituras, encontramos muitas ra­
gioso em que nos envolvemos, por melhor ou zões para entendê-lo dessa maneira:
mais nobre que este seja, e, se quisermos enten-
dê-la e apropriar-nos de sua graça, devemos vol­ 1 .0 Antigo Testamento se refere ao Senhor
tar nosso pensamento à obra de Deus, que busca como o Deus da Lei. De acordo com a mentali­
justificar o ímpio. (M u r r a y , 1955, p. 118) dade hebraica, esse título o distingue dos deuses
das nações vizinhas. Além disso, segundo essa
A imagem do triângulo da salvação apre­ visão, Ele é também o Deus do juízo, pojs em
sentada em uma discussão sobre expiação/ um universo governado por um Senhor sobera­
propiciação e redenção no Livro II desta obra no e moral o mal deve ser punido.
ajuda-nos a entender melhor esse princípio. Isso foi o que Abraão deu a entender
Expiação/propiciação, redenção e justifica­ quando o Senhor lhe falou acerca da destrui­
ção são palavras essenciais para a compreen­ ção que viria sobre Sodoma: Não faria justiça
são da morte de Cristo, e são elas que, ao co­ o Ju iz de toda a terra? (Gn 18.25b). Nesse
nectar Jesus, o Pai e os cristãos, formam o texto, no qual é retratado o início da história
triângulo anteriormente mencionado. de Israel, Deus é considerado um juiz. Em
Somos alvos da redenção e da justificação passagens posteriores, esse pensamento já se
e, portanto, não contribuímos em nada para mostra mais elaborado:
nossa própria salvação. Esta é dada a nós por
Cristo, por meio da realização de duas obras: O S E N H O R se levanta para pleitear e sai
a expiação/propiciação e a redenção. Deus, a julgar os povos. O S E N H O R vem em
por Sua vez, realiza a propiciação quando Je­ juízo contra os anciãos do seu povo e con­
sus aplaca Sua ira, iniciando, assim, a justifi­ tra os seus príncipes; é que fostes vós que
cação, por meio da qual os pecados dos ím­ consumistes esta vinha; o espólio do pobre
pios são perdoados. está em vossas casas.
O utro ponto que merece destaque é que a Isaías 3.13,14
justificação é apresentada a nós como um
pronunciamento legal, e não como algo que Mas o S E N H O R está assentado perpetua­
apenas nos tom a imediatamente mais santos. m ente; já preparou o seu tribunal para jul­
É claro que, quando Deus nos justifica e gar. Ele mesmo julgará o m undo com
realmente assume o controle de nossa vida, o justiça; julgará os povos com retidão.
processo natural é que nos tornemos cada vez Salmo 9.7,8
Com o podemos notar, a justificação está O apóstolo não quis dizer com isso que o
sempre ligada ao juízo: Senhor devia ser justificado, pois Ele é e
sempre será santo e justo. A intenção de
Não entres em juízo com o teu servo, por­ Paulo era ressaltar que, ao longo do nosso
que à tua vista não se achará justo nenhum processo de justificação, as palavras de Deus
vivente. são responsáveis por m ostrar-nos o quanto
Salmo 143.2 Ele é justo.
As passagens que traçam um paralelo com
Perto está o que m e justifica; quem conten­ essa são:
derá comigo ?
Isaías 50.8a Todo o povo que o ouviu e até os publica-
nos reconheceram a justiça de Deus, tendo
A mesma ideia aparece quando, em Deu- sido batizados com o batismo de João.
teronômio 25.1, é destacado o tema do juízo Lucas 7.29
humano:
Evidentem ente, grande é o mistério da
Q uando houver contenda entre alguns, e piedade: A quele que fo i manifestado na
vierem a juízo para que os juizes os jul­ carne fo i justificado em espírito, contem­
guem , ao justo justificarão e ao injusto con­ plado p or anjos, pregado entre os gentios,
denarão. crido no mundo, recebido na glória.
1 Timóteo 3.16
2. A justificação é contrastada com a con­
denação: 4. Da mesma maneira, existem trechos na
Bíblia que sustentam que algumas pessoas
O que justifica o ímpio e o que condena o acreditam ser capazes de justificar e salvar a si
justo abomináveis são para o S E N H O R , próprias. Entretanto, ao lermos essas passa­
tanto um como o outro. gens, percebemos que isso não é possível:
Provérbios 17.15
E disse-lhes: Vós sois os que vos justificais a
Tendo em vista que condenar alguém tam­ vós mesmos diante dos homens, mas Deus
bém não significa torná-lo ímpio, justificar uma conhece o vosso coração, porque o que en­
pessoa não pode significar que ela imediata­ tre os homens é elevado perante D eus é
mente se tornará justa. Ambos os termos se re­ abominação.
ferem a um decreto ou a uma declaração oficial. Lucas 16.15

3. O termo justificar é usado em diversas E eis que se levantou um certo doutor da


passagens bíblicas para se referir ao processo lei, tentando-o e dizendo: Mestre, que fa ­
de justificação. Por exemplo, em Romanos rei para herdar a vida eterna? E ele lhe
3.4, Paulo citou o Salmo 51.4, dizendo: disse: Q ue está escrito na lei? Como lês? E,
respondendo ele, disse: Amarás ao Senhor,
Sempre seja D eus verdadeiro, e todo ho­ teu Deus, de todo o teu coração, e de toda
m em mentiroso, como está escrito: Para a tua alma, e de todas as tuas forças, e de
que sejas justificado em tuas palavras e todo o teu entendimento e ao teu próximo
venças quando fores julgado. como a ti mesmo. [...] Ele, porém, querendo
t
justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E j assim, a justiça de Cristo a nós. Logo, não
quem é o meu próximo? precisamos mais pagar por nossos pecados, a
Lucas 10.25-27,29 despeito de o salário do pecado ser a morte, o
dom gratuito de D eus é a vida eterna, por
Ambas as passagens tratam de juízo. N o Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 6.23).
primeiro exemplo, embora os réus tenham Paulo desenvolveu esse pensamento em
tentado provar que eram justos, ficou claro Romanos 3.21-26:
que não o eram. Semelhantemente, no segun­
do exemplo, foi vã a tentativa do jovem de Mas, agora, se manifestou, sem a lei, a jus­
demonstrar que sua conduta correta era um tiça de Deus, tendo o testemunho da Lei e
indício de sua perfeição moral. dos Profetas, isto é, a justiça de D eus pela
H á outros textos que tratam do mesmo as­ f é em Jesus Cristo para todos e sobre todos
sunto, mas de maneira metafórica. De certa os que crêem; porque não há diferença.
forma, a ideia de juízo está sempre presente na Porque todos pecaram e destituídos estão
Bíblia. A respeito disso, Leon Morris afirmou: da glória de Deus, sendo justificados gra­
tuitamente pela sua graça, pela redenção
O caso em questão em nada se difere do que que há em Cristo Jesus, ao qual D eus pro­
acontece com os verbos julgar e absolver, que, pôs para propiciação pela f é no seu sangue,
embora sejam termos legais, podem ser usados para demonstrar a sua justiça pela remis­
fora do contexto jurídico sem sofrer alteração são dos pecados dantes cometidos, sob a
de sentido. Esse também é o caso do vocábulo paciência de Deus; para demonstração da
dikaioõ [justificar], que, mesmo sendo um ver­ sua justiça neste tempo presente, para que
bo essencialmente forense, é usado na Bíblia ele seja justo e justificador daquele que
com o sentido de sentença de absolvição. tem f é em Jesus.
( M o r r i s , 1956, p . 260)
H á alguns anos, um grupo de ateístas dis­
A JUSTIFICAÇÃO DE D EU S____________________ tribuiu um folheto contendo meia dúzia de
O juízo divino é feito sempre em nome da exemplos de pecados cometidos por persona­
verdade e da equidade. Sendo ímpios, como o gens do Antigo Testamento.
Senhor pode justificar-nos? Se fôssemos de­ U m deles foi Abraão que, apesar de ter se
clarar inocente um culpado, nosso ato seria disposto a sacrificar a honra de sua esposa pa­
uma afronta tanto a Deus como ao homem. ra salvar sua própria vida, foi chamado, por
N o entanto, isso é o que Deus faz. Com o Ele Deus, de amigo (2 C r 20.7; Is 41.8).
pode fazer isso? Jacó também foi usado como exemplo pa­
A doutrina cristã prega a justificação pela ra validar as dúvidas dos ateus em relação ao
fé. Com o vimos, justificar significa declarar caráter do Senhor. Eles não entendiam por
justo, mas não tornar justo, ou seja, a justifica­ que alguém que trapaceou e mentiu poderia
ção não necessariamente implica a santifica­ ser usado como referência para exemplificar a
ção imediata de alguém. Entretanto, quando fidelidade do Pai, fato comprovado pela rele­
Deus declara que o cristão é justo, Ele o justi­ vância dada a ele por meio da expressão Deus
fica não por causa de suas próprias obras, mas de Jacó (Êx 3.6,15,16; 4.5; Mt 22.32; Mc 12.26;
por meio do sacrifício de Jesus. L c 20.37; A t 3.13; 7.32).
O Pai aceitou o sacrifício de Seu Filho co­ Os mesmos questionamentos eram levan­
mo pagamento por nossas dívidas, imputando, tados com relação a Moisés, que cometeu um
assassinato, vivendo por um tempo como um Segundo o que está escrito em Romanos
fugitivo da lei egípcia, e Davi, que, apesar de 1.18-32, a primeira categoria é composta por
ter cometido adultério, seguido de assassina­ pessoas que chamamos de hedonistas:
to, foi chamado de homem segundo o cora­
ção de Deus (1 Sm 2.35; 13.14). Porque do céu se manifesta a ira de Deus
Assim, por meio desse material, o grande sobre toda impiedade e injustiça dos ho­
problema levantado pelos ateístas era o fato mens que detêm a verdade em injustiça;
de não entenderem que tipo de Deus aceita­ porquanto o que de D eus se pode conhecer
ria ter Abraão com o amigo, ou ainda, que neles se manifesta, porque D eus lho mani­
tipo de Deus se agradaria de um homem co ­ festou. Porque as suas coisas invisíveis, des­
mo Davi? de a criação do mundo, tanto o seu eterno
N a verdade, esse folheto apontava fatos p od er como a sua divindade, se entendem
que o próprio Senhor já havia reconhecido. e claramente se vêem pelas coisas que estão
Ele, apesar de justo e santo, por séculos re­ criadas, para que eles fiquem inescusáveis;
cusou-se a condenar a humanidade, pas­ porquanto, tendo conhecido a Deus, não o
sando a justificar homens e mulheres com o glorificaram como Deus, nem lhe deram
esses. graças; antes, em seus discursos se desvane­
Paulo esclareceu, com precisão, essa situa­ ceram, e o seu coração insensato se obscu-
ção em Romanos: receu. Dizendo-se sábios, tornaram-se
loucos. E mudaram a glória do D eus incor­
Ao qual D eus propôs para propiciação pela ruptível em semelhança da imagem de
f é no seu sangue, para demonstrar a sua homem corruptível, e de aves, e de quadrú­
justiça pela remissão dos pecados dantes pedes, e de répteis. Pelo que também Deus
cometidos, sob a paciência de Deus. os entregou às concupiscências do seu cora­
Romanos 3.25 ção, à imundícia, para desonrarem o seu
corpo entre si; pois mudaram a verdade de
Isso torna o Senhor injusto? N ão, pois, D eus em mentira e honraram e serviram
por meio da morte de Cristo, o nome e os mais a criatura do que o Criador, que é
propósitos de Deus foram vindicados. Graças bendito eternamente. A m ém ! Pelo que
ao sacrifício de Jesus, o Senhor justificou (e Deus os abandonou às paixões infames.
continua justificando) os ímpios. Porque até as suas mulheres m udaram o
uso natural, no contrário à natureza. E,
A sa lv a ç ã o d e C r i s t o é í m p a r ____________
semelhantemente, também os varões, dei­
É trágico quando as pessoas não aceitam a xando o uso natural da mulher, se inflama­
salvação que é oferecida gratuitamente em ram em sua sensualidade uns para com os
Cristo, para, em vez disso, tentarem, à sua outros, varão com varão, cometendo tor­
maneira, salvar a si mesmas. peza e recebendo em si mesmos a recom­
C om o sugeri na discussão sobre a expia- pensa que convinha ao seu erro. E, como
ção/propiciação, que se encontra no capítulo eles se não importaram de ter conhecimen­
13 do Livro II desta obra, nos dois capítulos to de Deus, assim D eus os entregou a um
que precedem os versículos-chave de Rom a­ sentimento perverso, para fazerem coisas
nos 3, Paulo classificou as pessoas em três que não convém; estando cheios de toda ini­
categorias, a fim de mostrar que todos preci­ qüidade, prostituição, malícia, avareza, mal­
sam de Jesus. dade; cheios de inveja, homicídio, contenda,
engano, malignidade; sendo m urm urado- um segundo as suas obras, a saber: a vida
res, detratores, aborrecedores de Deus, eterna aos que, com perseverança em f a ­
injuriadores, soberbos, presunçosos, in­ z er bem , procuram glória, e honra, e in-
ventores de males, desobedientes ao pai e corrupção; mas indignação e ira aos que
à m ãe; néscios, infiéis nos contratos, sem são contenciosos e desobedientes à verda­
afeição natural, irreconciliãveis, sem mi­ de e obedientes à iniqüidade; tribulação e
sericórdia; os quais, conhecendo a justiça angústia sobre toda alma do hom em que
de D eus (que são dignos de morte os que fa z o mal, prim eiram ente do ju d eu e tam­
tais coisas praticam), não somente as fa ­ bém do grego; glória, porém , e honra epaz
zem , mas tam bém consentem aos que as a qualquer que fa z o bem, prim eiramente
fazem . ao judeu e também ao grego; porque, para
com Deus, não há acepção de pessoas. Por­
Os hedonistas são pessoas cujos únicos que todos os que sem lei pecaram sem lei
padrões de conduta são os que criam para si. também perecerão; e todos os que sob a lei
Ou seja, são os que vivem para si mesmos, pecaram pela lei serão julgados. Porque os
buscando o prazer em tudo o que fazem. Pau­ que ouvem a lei não são justos diante de
lo disse que pessoas assim precisam do evan­ Deus, mas os que praticam a lei hão de ser
gelho, pois seu estilo de vida as conduz à justificados. Porque, quando os gentios,
condenação de Deus. que não têm lei, fazem naturalmente as
Elas podem ser justas aos próprios olhos, coisas que são da lei, não tendo eles lei, pa­
mas essa não é a justificação que conta. H á uma ra si mesmos são lei, os quais mostram a
lei moral estabelecida pelo Senhor, assim como obra da lei escrita no seu coração, testifi­
um Juiz moral. Se essas pessoas não forem jus­ cando juntam ente a sua consciência e os
tificadas pela fé em Jesus Cristo, se perderão. seus pensamentos, qu er acusando-os, qu er
A segunda categoria, considerada em R o­ defendendo-os, no dia em que D eus há de
manos 2.1-16, comporta aqueles que vivem julgar os segredos dos homens, p o r Jesus
uma vida eticamente superior: Cristo, segundo o m eu evangelho.

Portanto, és inescusável quando julgas, ó Diferente dos hedonistas, legalistas se­


homem, quem qu er que sejas, porque te guem padrões de moral mais elevados, o que
condenas a ti mesmo naquilo em que jul­ acaba fazendo com que eles não acreditem
gas a outro; pois tu, que julgas, fazes o que, para alcançarem a salvação de Deus, pre­
mesmo. E bem sabemos que o juízo de cisam arrepender-se de seus pecados.
D eus é segundo a verdade sobre os que tais Paulo discordou dessa teoria por dois m o­
coisas fazem . E tu, ó homem, que julgas os tivos. Primeiro, por mais altos que sejam os
que fazem tais coisas, cuidas que, fazendo- padrões dessas pessoas, eles passam longe dos
-as tu, escaparás ao juízo de D eus? Ou padrões do Senhor, visto que Ele exige uma
desprezas tu as riquezas da sua benignida­ perfeição que vai muito além de nossa imagi­
de, e paciência, e longanimidade, ignoran­ nação. N a verdade, de acordo com os crité­
do que a benignidade de D eus te leva ao rios divinos acerca da santidade, todos seriam
arrependim ento? Mas, segundo a tua du­ reprovados.
reza e teu coração impenitente, entesouras Em segundo lugar, os legalistas são repro­
ira para ti no dia da ira e da manifestação vados em seus próprios padrões. Veja o que
do juízo de Deus, o qual recompensará cada Paulo disse:

S fâ
Portanto, és inescusável quando julgas, ó não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas
homem, quem qu er que sejas, porque te que não se deve furtar, furtas? Tu, que di-
condenas a ti mesmo naquilo em que jul­ zes que não se deve adulterar, adúlteras ?
gas a outro; pois tu, que julgas, fazes o Tu, que abominas os ídolos, cometes sacri­
mesmo. légio f Tu, que te glorias na lei, desonras a
Romanos 2.1 Deus pela transgressão da lei? Porque, co­
mo está escrito, o nome de D eus é blasfe­
Qual é o seu padrão ético? Você pode di­ mado entre os gentios p or causa de vós.
zer: “Meu padrão é o Sermão do Monte (Mt Porque a circuncisão é, na verdade, pro­
5 .1 —7.29)”. Bem, será que é mesmo? Se ana­ veitosa, se tu guardares a lei; mas, se tu és
lisarmos a fundo constataremos que é huma­ transgressor da lei, a tua circuncisão se tor­
namente impossível seguir esse sermão como na em incircuncisão. Se, pois, a incircunci-
padrão de ética. U m exemplo disso é encon­ são guardar os preceitos da lei, porventura,
trado na declaração de Jesus, que, mesmo sa­ a incircuncisão não será reputada como
bendo que ninguém é perfeito, disse: Sede circuncisão? E a incircuncisão que p o r na­
vós, pois, perfeitos, como éperfeito o vosso Pai, tureza o é, se cumpre a lei, não te julgará,
que está nos céus (Mt 5.48). porventura, a ti, que pela letra e circunci­
Da mesma forma, se você disser que seu são és transgressor da lei? Porque não é
padrão ético se baseia nos Dez Mandamentos judeu o que o é exteriormente, nem é cir­
(E x 20.2-17), também já está condenado, pois cuncisão a que o é exteriormente na carne.
não adora a Deus com o deveria, não observa Mas é judeu o que o én o interior, e circun­
o sábado e cobiça as coisas dos outros. cisão, a que é do coração, no espírito, não
Apelar para a ética de Mateus 7.12 seria na letra, cujo louvor não provém dos ho­
igualmente condenável, visto que ninguém, mens, mas de Deus.
de fato, faz aos outros o que gostaria que lhe
fizessem. Até mesmo o menor de todos os N o contexto da experiência de Paulo, es­
padrões, o da honestidade, não pode ser men­ ses eram os judeus, cujo padrão ético era a Lei
cionado, já que nem sempre somos honestos de Deus. Eles se vangloriavam de sua ascen­
como deveríamos ser. dência, depositando sua confiança no cum­
Portanto, precisamos deixar esse pensa­ primento de preceitos religiosos. Defendiam
mento de que somos justos diante de Deus e que, por serem batizados, participarem da
de que merecemos ir para o céu, pois todos ceia e darem dízimos e ofertas, eram justos
necessitam ser justificados pelo Senhor. diante do Senhor.
A terceira categoria, citada em Romanos O apóstolo afirmou que essas pessoas pre­
2.17-29, é a das pessoas religiosas: cisavam do evangelho, pois defendiam teorias
totalmente inadequadas aos olhos do Senhor.
Eis que tu, que tens p or sobrenome judeu, A salvação é garantida somente por meio de
e repousas na lei, e te glorias em Deus; e Cristo e da aplicação da justiça que vem de
sabes a sua vontade, e aprovas as coisas Deus, e não do homem, por meio de um pro­
excelentes, sendo instruído por lei; e confias cesso de transformação interna.
que és guia dos cegos, luz dos que estão em O que o Pai vê quando olha para você?
trevas, instruidor dos néscios, mestre de Obras e religiosidade vãs ou Sua própria jus­
crianças, que tens a form a da ciência e da tiça, que, com base na soberania dele, age em
verdade na lei; tu, pois, que ensinas a outro, sua conduta?
Considere a conversão de Paulo. Ele não Paulo também havia adquirido vantagens
era um hedonista. Longe disso. Era uma pes­ para si. Segundo consta, foi fariseu (Fp 3.5),
soa religiosa e legalista, que confiava em sua ou seja, fez parte da seita religiosa mais zelosa
própria força para alcançar a salvação. Veja o quanto à Lei. E importante destacar que ele
que ele disse em Filipenses 3.4-8: não se contentava em apenas participar da sei­
ta, mas dedicava-se de maneira zelosa e dili­
A inda que também podia confiar na carne; gente a ela, o que se constata pela sua persegui­
se algum outro cuida que pode confiar na ção implacável à Igreja primitiva (At 8.1-3).
carne, ainda mais eu: circuncidado ao oita­ Sob o ponto de vista humano, esses eram
vo dia, da linhagem de Israel, da tribo de atributos bem consideráveis. Contudo, quan­
Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a do Jesus se revelou a ele na estrada de Damas­
lei, fu i fariseu, segundo o zelo, perseguidor co, como podemos ler no capítulo nove de
da igreja; segundo a justiça que há na lei, Atos, Paulo entendeu que, sob o ponto de
irrepreensível. Mas o que para mim era ga­ vista de Deus, seus atos de justiça não passa­
nho reputei-o perda por Cristo. E, na ver­ vam de trapos de imundícia (Is 64.6).
dade, tenho também por perda todas as Antes, ele dizia que era, segundo a justiça
coisas, pela excelência do conhecimento de que há na lei, irrepreensível (Fp 3.6b). N o en­
Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a tanto, depois de seu encontro com Jesus, pas­
perda de todas estas coisas e as considero co­ sou a dizer: Cristo Jesus veio ao mundo, para
mo esterco, para que possa ganhar a Cristo. salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal
(1 Tm 1.15). Assim, tudo o que havia acumula­
Antes de conhecer a Cristo, para Paulo, a do de ativos eram, na verdade, passivos que o
salvação dependia apenas do esforço e das mantinham longe de Cristo. Em outras pala­
obras dele. Isso, para o apóstolo, não era pro­ vras, a partir de então, em sua coluna de ativos,
blema, pois havia muitos atributos a seu fa­ passou a vigorar apenas Jesus Cristo.
vor, tanto herdados como adquiridos. Entre Essa verdade maravilhosa foi incorporada
os herdados, estavam: o fato de ter nascido a muitos hinos, incluindo o de Augustus M.
em berço judaico; ter sido circuncidado de Toplady:
acordo com a Lei, no oitavo dia de vida. Ele Rocha Eterna
era, portanto, um “bom judeu”. Além de nas- í 3.
cido de pais judeus, sendo hebreu de hebreus Nada trago a Ti, Senhor!
(Fp 3.5), ele era um israelita, membro do po­ ‘Spero só em Teu amor!
vo escolhido de Deus, pertencente à tribo de Todo indigno e imundo sou,
Benjamim, e um observador da Lei. Eis, sem Ti, perdido estou!
Após a morte de Salomão, o reino de Israel N o Teu sangue, ó Salvador,
foi dividido em Reino do N orte e do Sul. Ben­ Lava um pobre pecador.
jamim foi a única tribo que permaneceu com (Tradução: João Gomes da Rocha)
Judá no Reino do Sul. As dez tribos do norte
apostataram da fé e ergueram para si altares Concluímos, portanto, que Deus declara
nos quais sacrifícios de sangue eram ofereci­ nossos pecados pagos no Calvário e imputa a
dos violando, assim, o que está escrito em nós a justiça de Cristo somente quando nós,
Levítico 17. Contudo, a tribo de Benjamim e nascidos de novo, deixamos nossas obras, que
Judá haviam permanecido leais a Deus, e Pau­ só podem levar à perdição, para, então, pela
lo pertencia a uma destas duas tribos. fé, abraçarmos Jesus como Salvador.

s6y
A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ E O PAPEL DAS OBRAS

capítulo anterior observou que a fé, para eles, as obras são essenciais à justifica­
justificação é obra de Deus, total­ ção no sentido de que Deus nos justifica em
mente independente do que qual­ parte, produzindo boas obras em nós, para
quer indivíduo possa fazer. Isto é, sermos justificados pela fé e por boas obras.
ela não depende de boas obras nem de qual­ N ós, os protestantes, respondemos — ou de­
quer forma de melhoria ou de esforço por par­ veríamos responder — que somos justifica­
te do ser humano. dos somente pela fé em Cristo, e que as obras
O argumento usado para sustentar essa devem, necessariamente, existir, se fomos ver­
posição foi o da perspectiva de alguém que dadeiramente justificados.
ainda não é cristão. N o entanto, temos de A diferença pode ser representada em du­
pensar na questão sob o olhar de quem já creu as fórmulas:
em Cristo e foi justificado. A teologia católica declara: fé + obras =
A justificação se dá pela graça de Deus, justificação.
por meio da fé, não de obras. Já a protestante afirma: fé = justificação +
obras.
Porque pela graça sois salvos, p or meio da Calvino apresentou a visão protestante da
fé ; e isso não vem de vós; é dom de Deus. relação entre fé, justificação e obras quando
Não vem das obras, para que ninguém se disse:
glorie.
Efésios 2.8,9 Por que então somos justificados pela fé? Por­
que pela fé entendemos a justiça de Cristo,
Então, as obras não mais têm vez no cris­ pela qual nos reconciliamos com Deus. Não
tianismo hoje? Em caso afirmativo, o cristia­ poderíamos entendê-la sem entender também
nismo pode estar promovendo uma conduta a santificação, pois Ele para nós foi feito por
imoral. P or outro lado, se elas ainda têm vez, Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e re­
será que o sacrifício de Cristo pode não ter denção (1 Co 1.30). Por conseguinte, Cristo
sido o bastante para salvar-nos? não justifica pessoa alguma que também não se
Esse é o ponto em que a teologia da Igreja santifica. Esses benefícios se unem por meio de
Católica e a da Igreja Protestante discordam um laço eterno e indissolúvel, para que aqueles
mais radicalmente. Em bora muitos católicos que Ele ilumina por Sua sabedoria sejam redi­
concordem com os protestantes que a justifi­ midos. Aqueles que Ele redime são justifica­
cação se dá pela graça de Deus, por meio da dos, bem como aqueles que Ele justifica são
santificados. [...] Logo, fica claro que somos esse não é o papel da salvação. Deus justifica,
justificados não sem obras ou por meio de mas isso não é tudo o que Ele faz; Ele tam­
obras, pois, ao tomarmos nossa cruz e seguir­ bém regenera. N ão há justificação sem rege­
mos a Jesus, que nos justifica, a santificação é neração, assim como não há regeneração sem
tida como justiça. (C a lv in o , 1960, p. 798) justificação.
A regeneração é o termo teológico para o
O PAPEL DAS OBRAS___________________________ novo nascimento a que Jesus aludiu na con­
Em Efésios 2.8-10, lemos o ensino de Pau­ versa com Nicodemos: Necessário vos é nas­
lo, o grande defensor da justificação pela fé: cer de novo (Jo 3.7b). Jesus estava dizendo
que Nicodemos precisava de um novo come­
Porque pela graça sois salvos, p or meio da ço, como resultado da nova vida de Deus sen­
fé ; e isso não vem de vós; é dom de Deus. do dada a ele. Foi disso que Paulo falou nesse
Não vem das obras, para que ninguém se mesmo capítulo de Efésios, quando descre­
glorie. Porque somos feitura sua, criados veu com o D eus [...], estando nós ainda mortos
em Cristo Jesus para as boas obras, as quais em nossas ofensas, nos vivificou juntam ente
D eus preparou para que andássemos nelas. com Cristo (Ef 2.4,5).
Foi também o que Paulo indicou no versí­
Mais de um comentarista bíblico obser­ culo 10, pois essa passagem diz não somente
vou que há uma repetição da palavra obras que Deus nos manda praticar boas obras, mas
nos versículos 9 e 10. A primeira menção é também que fomos criados [...] para as boas
negativa; ela diz que, por sermos salvos pela obras, as quais Deus preparou para que an­
graça, por meio da fé, não somos salvos por dássemos nelas. Logo, se fomos criados pelo
obras — ou então seria possível que uma pes­ Altíssimo especificamente para realizar as
soa já salva se vangloriasse diante de quem boas obras, nós o faremos — sendo salvos
não pratica as mesmas obras e, portanto, não ou não.
é salvo. Em minha opinião, apesar de sua impor­
Esse versículo repudia a ideia de as obras tância, esse é um dos ensinos mais negligen­
nos favorecerem, de algum modo, para a nos­ ciados da Bíblia hoje, pelo menos nos Esta­
sa justificação. Quando pensamos assim, de­ dos Unidos. N o início deste capítulo, con­
positamos a nossa confiança em obras, e não trastei a teologia protestante com a católica
na obra completa do sacrifício de Cristo na tradicional, mostrando com o os protestantes
cruz. N a verdade, não podemos ser salvos de ensinam que fé = justificação + obras — o
graça em graça e pelas obras ao mesmo tempo. que defendo —, enquanto os católicos ensi­
Por outro lado, Paulo, logo após rejeitar a nam que fé + obras = justificação.
eficácia das obras na justificação, retoma o D iscordo da teologia católica, mas o que
tema, dizendo que fomos criados em Cristo dizer de uma teologia que predom ina hoje
Jesus para as boas obras, as quais D eus prepa­ que não deixa espaço para as boas obras?
rou para que andássemos nelas (Ef 2.10). Ou O que dizer de um ensinamento que exalta
seja, a ausência de boas obras evidencia a não a justificação, mas negligencia a santifica­
justificação do indivíduo. ção e o perdão, além de não evidenciar uma
Isso é uma contradição? De maneira ne­ mudança de vida? O que Jesus diria de tal
nhuma! E meramente uma forma de dizer teologia?
que, apesar de a justificação descrever um im­ Quando estudamos os ensinos de Cristo,
portante aspecto do que significa ser salvo, logo vemos que Ele insistia na mudança de
comportamento. Ele ensinava que a salvação que são justificados pela fé e confessam que
se dá pela Sua obra na cruz. Porque o Filho do não têm com o que contribuir para sua justi­
H om em também não veio para ser servido, ficação, não tiverem uma conduta melhor que
mas para servir e dar a sua vida em resgate de a das pessoas que se acham as mais pias (que
muitos (Mc 10.45). acham que são salvas pelas obras), não entra­
Porém, Jesus ainda declarou: rão no Reino de Deus, pois não são cristãos
verdadeiros”.
E dizia a todos: Se alguém qu er vir após Isso, para John H . Gerstner, foi o que ele
mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia chamou de apologética embutida, pois nin­
a sua cruz, e siga-me. guém, além de Deus, poderia criar uma reli­
Lucas 9.23 gião assim.

E por que me chamais Senhor, Senhor, e Ao encontrar uma pessoa que tem princípios
não fazeis o que eu digof Q ualquer que morais e boa conduta em alta estima, tenha cer­
vem a mim, e ouve as minhas palavras, e teza de que ela acha que pode justificar-se pelas
as observa, eu vos mostrarei a quem é se­ obras. Por outro lado, ao encontrar uma pes­
melhante. E semelhante ao hom em que soa que exalta a graça divina, que sabe o quão
edificou uma casa, e cavou, e abriu bem inútil é tentar justificar a si mesma e que não se
fundo, epôs os alicerces sobre rocha; e, vin­ contém ao falar sobre o sangue de Jesus e a sal­
do a enchente, bateu com ímpeto a corren­ vação plena e gratuita que Ele traz, ela não de­
te naquela casa e não a pôde abalar, por­ ve fazer o mínimo esforço para realizar boas
que estava fundada sobre rocha. Mas o obras. A primeira cai no erro da autossalvação;
que ouve e não pratica é semelhante ao já a segunda, no do antinomianismo [doutrina
hom em que edificou uma casa sobre terra, que nega ou diminui a importância da Lei de
sem alicerces, na qual bateu com ímpeto a Deus na vida do cristão]. Contudo, a religião
corrente, e logo caiu; e foi grande a ruína cristã, enquanto prega a graça pura e simples­
daquela casa. mente e exclui o mérito de qualquer contribui­
Lucas 6.46-49 ção de nossa parte, ao mesmo tempo requer de
nós as mais exigentes condutas. [...] Você não
A Seus discípulos falou: A quele queperse- pode, em momento algum, dizer algo diferente
verar até ao fim será salvo (Mt 10.22b). E aos disto: “Nada trago a Ti, Senhor! / ‘Spero só em
judeus de Seus dias: Porque vos digo que, se a Teu amor!”. Só podemos ser justificados pela
vossa justiça não exceder a dos escribas e fari­ fé. Portanto, se verdadeiramente esperarmos
seus, de modo nenhum entrareis no Reino dos no amor de Deus, abundaremos nas obras do
céus (M t 5.20). Senhor e viveremos um excelente padrão de
Essas passagens ensinam que o salvo deve conduta. ( G e r s t n e r , 1977, p. 43-44)
realizar boas obras até morrer. Ademais, esses,
textos deixam claro que nosso papel não é só E D e u s q u e m t r a b a l h a ____________________

demonstrar um comportamento genuina­ Isso pode parecer confuso ou, até mesmo,
mente transformado e realizar boas obras, contraditório, mas torna-se claro ao perce­
mas que nossas boas obras devem exceder as bermos que as boas obras que os cristãos são
boas obras dos outros. chamados — ou melhor, ordenados — a rea­
Eu parafrasearia Mateus 5.20 dizendo: “Se lizar são resultantes da obra de Deus neles.
vocês, que se dizem cristãos, que professam P or isso, em Efésios 2.10a, Paulo apresentou
sua exigência por boas obras: Porque somos muito mais os que recebem a abundância
feitura sua. da graça e do dom da justiça reinarão em
Por isso, o apóstolo também afirmou em vida por um só, Jesus Cristo. Pois assim co­
Filipenses: mo por uma só ofensa veio o juízo sobre
todos os homens para condenação, assim
D e sorte que, meus amados, assim como também por um só ato de justiça veio a gra­
sempre obedecestes, não só na minha p re­ ça sobre todos os homens para justificação
sença, mas muito mais agora na minha de vida. Porque, como, pela desobediência
ausência, assim também operai a vossa sal­ de um só homem, muitos foram feitos peca­
vação com temor e tremor; porque D eus é dores, assim, pela obediência de um, muitos
o que opera em vós tanto o qu erer como o serão feitos justos. Veio, porém, a lei para
efetuar, segundo a sua boa vontade. que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado
Filipenses 2.12,13 abundou, superabundou a graça; para que,
assim como o pecado reinou na morte, tam­
É por Deus operar em nós que tanto o nos­ bém a graça reinasse pela justiça para a vi­
so querer como o nosso efetuar lhe agradam. da eterna, por Jesus Cristo, nosso Senhor.
E m Efésios 2.10a, Paulo disse: Porque so­
mos [...] criados em Cristo Jesus para as boas Quando Deus criou o primeiro homem,
obras. Sem dúvida, ao fazer tal declaração, este era perfeitamente preparado para reali­
Paulo tinha em mente o contraste entre a no­ zar todo tipo de boa obra. N o entanto, Adão
va criatura em Cristo e a velha criatura em caiu em pecado, e, a partir de então, sob a
Adão, que deixou claro em Romanos 5.12-21: perspectiva de Deus, o melhor das boas obras
de Adão, bem como o das de seus descenden­
Pelo que, como p o r um hom em entrou o tes, não passa de boas obras, pois contamina-
pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, mo-nos com o pecado.
assim também a morte passou a todos os Isso significa que nossas obras não fluem
homens, por isso que todos pecaram. Por­ de um amor puro a Deus, mas, em vez disso,
que até a lei estava o pecado no mundo, de um desejo de melhorarmos nossa reputa­
mas o pecado não é imputado não haven­ ção ou posição. Todavia, a partir da recriação
do lei. No entanto, a morte reinou desde do homem, quando este se une a Jesus Cristo,
Adão até Moisés, até sobre aqueles que Ele traz à existência algo que não existia e
não pecaram à semelhança da transgressão que, agora, tem novas e animadoras possibili­
de Adão, o qual é afigura daquele que ha­ dades. Antes, quem não tinha Cristo, como
via de vir. Mas não é assim o dom gratuito disse Agostinho, non posse non peccare (não
como a ofensa; porque, se, pela ofensa de podia deixar de pecar). Agora, quem tem
um, m orreram muitos, muito mais a graça Cristo posse non peccare (pode deixar de pe­
de D eus e o dom pela graça, que é de um só car), e, também, realizar boas obras.
homem, Jesus Cristo, abundou sobre mui­ Nessa recriação espiritual, Deus nos con­
tos. E não foi assim o dom como a ofensa, cede novos sentidos. Antes, víamos com nos­
por um só que pecou; porque o juízo veio sos olhos físicos — éramos cegos espiritual­
de uma só ofensa, na verdade, para conde­ mente. Agora, vemos com olhos espirituais
nação, mas o dom gratuito veio de muitas — e tudo parece novo.
ofensas para justificação. Porque, se, pela A princípio, éramos surdos espiritual­
ofensa de um só, a morte reinou por esse, mente. Ouvíamos a Palavra de Deus, mas ela
não o fizestes a mim. E irão estes para o E a vida eterna é esta: que conheçam a ti só
tormento eterno, mas os justos, para a vida por único D eus verdadeiro e a Jesus Cristo,
eterna. a quem enviaste.
Mateus 25.31-46 João 17.3

U m a d o u t r i n a p r á t i c a ____________________ Quem conhece o Pai e Seu Filho, Jesus,


O ensino do papel e da necessidade das tem a vida eterna e espera pela volta deste, is­
boas obras na vida do cristão tem um sem- to é, persevera até o fim, usando os talentos
-número de conseqüências práticas. divinos da melhor forma que puder, e é fonte
Em primeiro lugar, faz jus a inúmeras pas­ de bênção para o faminto, o sedento, o desa­
sagens bíblicas, particularmente às do Mestre brigado, o nu, o enfermo e o cativo.
ensinando que enfatizam a realização das bo­ Em segundo lugar, o entendimento do que
as obras e parecem sugerir uma salvação base­ Deus faz ao produzir boas obras por meio da
ada nelas. vida transformada de cristãos glorifica a Deus
A última passagem citada (Mt 25.31-46) é por Sua graça e sabedoria.
um exemplo, assim com o as duas outras pará­ O Dr. Paul Brand, chefe de um centro de
bolas do mesmo capítulo. N a primeira, as reabilitação de um hospital público em Carville,
cinco virgens loucas são excluídas da festa de Louisiana, Estados Unidos, escreveu um livro
casamento simplesmente por terem deixado intitulado Fearfully and Wonderfully Made
de vigiar a fim de que não lhes faltasse azeite [Feito de maneira terrível e maravilhosa], no
para suas lâmpadas. E, tardando o esposo, tos- qual examina os intrigantes mecanismos do
quenejaram todas e adormeceram (Mt 25.5). corpo humano e admira-se com a grandeza do
Aquelas virgens conheciam o N oivo e espera­ Deus que pode criar tais maravilhas.
vam por Ele, mas não foram salvas porque Ele discorre sobre nossas células, nossos
negligenciaram o azeite. ossos, nossa pele e as complexidades dos m o­
N a segunda parábola, o terceiro servo não vimentos do corpo humano. Sua descrição
obteve o favor de seu mestre por ter falhado nos leva a maravilharmo-nos com ele. N o
na administração do único talento que lhe entanto, eu diria que muito mais maravilhoso
fora concedido. Ele não o roubou; em vez do que o corpo humano é a recriação do ho­
disso, guardou-o, enterrando-o e devolven­ mem por Deus — homem esse que, antes, era
do-o a seu mestre quando este retornou de espiritualmente m orto e, portanto, incapaz de
uma viagem. Mesmo assim, o servo foi rejei­ satisfazer o Senhor de qualquer maneira, e
tado: Lançai, pois, o servo inútil nas trevas que, agora, como resultado da própria obra
exteriores; ali, haverá pranto e ranger de divina, pode ser bom e fazer boas obras.
dentes (M t 25.30). Em terceiro lugar, o entendimento da obra
N a terceira parábola, as ovelhas são sepa­ de Deus em quem Ele conduz à fé em Cristo
radas dos bodes em função de suas obras. e faz realizar boas obras mostra quem real­
Essas e outras narrativas contadas por mente nasceu de novo. A mente humana é
Jesus parecem ensinar que o homem é salvo extremamente sutil e, devido ao pecado, per­
em função de sua perseverança, previdên­ versa. Se as virgens loucas da história de Ma­
cia, precaução ou beneficência. C ontudo, teus 5 pensassem que o N oivo iria admiti-las
por meio delas, Jesus mostra as conseqüên­ ao bater à porta; se o terceiro servo do mesmo
cias de crer nele com o Salvador. P or isso, capítulo pensasse que seu mestre iria considerar
Ele declara: o não investimento de seu talento aceitável; e
se os bodes ainda do mesmo capítulo não ti­ A resposta é simples: deve haver uma dife­
vessem ciência de sua falha em cuidar dos rença em nossa vida. Tornamo-nos novas
necessitados, como poderíamos ter certeza de criaturas intelectual, moral e relacionalmente.
que somos salvos? E aí que entra o próximo capítulo.
As PROVAÇÕES

v\ ualquer um que já tenha trabalha para servir aos outros e a Deus. Contudo, co­
| // do com recém-convertidos ao cris- mo será possível servirmos aos outros se não
,' tianismo sabe que, frequentemen- tivermos certeza de nossa própria salvação?
-v - > te, surgem dúvidas depois que a N a época em que Martinho Lutero lutou
pessoa aceita Cristo. com essa questão, ele era um monge que não
A experiência inicial do cristão é a de saía do monastério. Depois, quando soube
grande alegria. C om o se encontrava perdido que havia sido salvo por meio da morte de
nas trevas do pecado e da ignorância, ele passa Cristo e justificado por Deus, deixou o mos­
a estar na luz de Deus. Antes, encontrava-se teiro a fim de implementar a Reforma Protes­
distante do Senhor; agora, está perto dele. tante. Nesse sentido, como podemos lançar-
Entretanto, com o passar do tempo, o novo -nos para Deus estando trancados em um
na fé se pergunta se algo realmente mudou, se monastério de dúvidas ?
ele é realmente uma nova criatura, ainda que
pareça ser a mesma pessoa de antes. Ele é ten­ G a r a n t i a p a r a o c r i s t ã o __________________

tado do mesmo modo, ou pior; continua ten­ Toda a primeira epístola de João foi escrita
do os mesmos problemas de caráter e parece para responder a essa questão. As igrejas para
já não sentir mais a grande alegria de outrora. as quais João estava escrevendo haviam rece­
Nesse momento, o cristão em geral se ques­ bido um ensino apostólico, mas, antes de sua
tiona se é possível saber se foi salvo de verda­ primeira epístola ser escrita, membros de cer­
de ou não. Normalmente, ele faz a seguinte tas congregações estavam saindo do seio da
pergunta: “Com o posso ter certeza de que fui Igreja para fundar uma nova sociedade.
justificado?”.
O mesmo questionamento incomoda cris­ Saíram de nós, mas não eram de nós; por­
tãos mais antigos. Ele pode surgir ao longo de que, se fossem de nós, ficariam conosco;
sua vida espiritual como resultado de um p ro­ mas isto épara que se manifestasse que não
blema de saúde, de uma crise na carreira, da são todos de nós.
perda de alguém por meio da morte ou do 1 João 2.19
pecado, da depressão resultante de uma des­
sas crises etc. Sem dúvida, esses ex-membros sustenta­
Esse questionamento é preocupante, pois vam que suas próprias crenças eram superio­
pode afetar tremendamente a vida do cristão. res às dos cristãos. Pouco se sabe sobre essa
Com o seguidores de Cristo, somos chamados deserção. Obviamente, não mais do que o que
João mencionou a respeito em sua epístola. cristãos a fim de mostrar-lhes como podem
Todavia, certamente já era uma forma prema­ ter certeza de que foram regenerados.
tura do que hoje se chama gnosticismo.
Os gnósticos se consideram os detentores Estas coisas vos escrevi, para que saibais
da verdade. N a realidade, isso é o que signifi­ que tendes a vida eterna e para qu e creiais
ca gnóstico. Os que fazem parte desse grupo no nom e do Filho de Deus. Mas qualquer
insistem que a salvação se dá, principalmente, que guarda a sua palavra, o am or de
por meio do conhecimento, isto é, de uma D eus está nele verdadeiram ente aperfei­
iniciação em um conhecimento místico e su­ çoado; nisto conhecemos que estamos n e­
perior. Geralmente, o gnosticismo deprecia a le. Pais, escrevo-vos, p orque conhecestes
boa conduta moral, e seus adeptos dizem aquele que é desde o princípio. Jovens,
que não têm pecado, que nunca pecaram e/ escrevo-vos, porque vencestes o maligno.
ou que podem ter comunhão com Deus E u vos escrevi, filhos, p orque conhecestes
mesmo pecando. o Pai. E vós tendes a unção do Santo e sa-
Os gnósticos também creem que a maté­ beis tudo. Não vos escrevi porque não
ria, em essência, é má, mas que o espírito é soubésseis a verdade, mas porque a sabeis,
bom, e que é impossível haver união entre e p orque nenhum a mentira vem da ver­
as duas coisas, p or isso a depreciação da boa dade. Amados, agora somos filhos de
conduta moral. Para eles, a salvação se dá Deus, e ainda não é manifesto o qu e ha­
no espírito, que é bom. Isso produziu uma vemos de ser. Mas sabemos que, quando
religião filosófica à parte da história. Segun­ ele se manifestar, seremos semelhantes a
do os gnósticos, a encarnação do Filho de ele; p orque assim como é o veremos. Nós
Deus não aconteceu, pois seria impossível, sabemos que passamos da morte para a
uma vez que, se a matéria é má, Deus nunca vida, p orque amamos os irmãos; quem
poderia ter tomado uma forma humana. A não ama a seu irmão perm anece na mor­
encarnação deveria ter-se dado apenas na te. E nisto conhecemos qu e somos da ver­
aparência. dade e diante dele asseguraremos nosso
A princípio, muitos cristãos se confundi­ coração; E aquele que guarda os seus
ram com esse ensinamento; afinal, os novos m andamentos nele está, e ele nele. E nisto
mestres pareciam ser brilhantes. Estavam eles conhecemos que ele está em nós: pelo Es­
certos? Deviam as velhas práticas ser abando­ pírito que nos tem dado. Filhinhos, sois de
nadas? Será mesmo que a crença antiga dos D eus e já os tendes vencido, p orque maior
cristãos servia apenas para prepará-los para é o que está em vós do qu e o qu e está no
esse “cristianismo superior e mais autêntico”? m undo. Nisto conhecemos que estamos
João respondeu a essas perguntas, primei­ nele, e ele em nós, pois que nos deu do seu
ro, por meio de uma afirmação categórica de Espírito. Nisto conhecemos que amamos
que os cristãos podem e devem saber que têm os filhos de D eus: quando amamos a D eus
a vida eterna, e, segundo, por meio de uma e guardamos os seus mandamentos. Sabe­
apresentação de três testes práticos para re­ mos que todo aquele que é nascido de
solver a questão. D eus não peca; mas o qu e de D eus é gera­
do conserva-se a si mesmo, e o maligno
O CONHECIMENTO DO CRISTÃO_____________ não lhe toca. Sabemos que somos de D eus
Em sua primeira epístola, João disse, de e que todo o m undo está no maligno. E
maneira clara, que se propunha a escrever aos sabemos qu e já o Filho de D eus é vindo e
nos deu entendim ento para conhecermos de todas? Deus nos assegurou que, se crer-
o que é verdadeiro; e no qu e é verdadeiro mos em Jesus como o nosso Salvador, sere­
estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. mos justificados”.
Este é o verdadeiro D eus e a vida eterna. Segundo, podemos ter certeza no que
1 João 5.13; 2.5,13,20,21; 3.2,14,19,24; concerne a questões espirituais porque os que
creem em Deus estão convictos de que é con­
4.4,13; 5.2,18-20
fiável Aquele em quem eles depositam sua fé.
O mundo atual tem em grande estima o Os reformadores chamam essa obra do Espí­
conhecimento e a confiança que ele pode pro­ rito de Deus de testimonium Spiritus Sancti
porcionar. N o entanto, o conhecimento exce­ internum. Por outro lado, os que não creem
deu a capacidade humana de absorvê-lo, salvo no Altíssimo o fazem mentiroso. Neste caso,
em áreas bem específicas. Nessas circunstân­ a abominável natureza da incredulidade se
cias, pode alguém verdadeiramente ter co ­ evidencia.
nhecimento? Pode haver certeza? João disse
que pode haver, sim, certezas no que diz res­ A incredulidade não é um infortúnio digno de
peito a questões espirituais. pena, mas um pecado digno de lástima. É peca­
Primeiro, porque Deus prometeu justifi­ do, pois contradiz a Palavra do Deus verdadeiro
cação e vida eterna a todo aquele que crer em e lhe atribui a falsidade. ( S t o t t , 1964, p. 182)
Seu Filho. Podemos ter essa certeza, pois p o­
demos confiar em Deus. Se você tem dúvidas com relação à sua
João sustentou esse ponto, comparando o própria salvação, saiba que nem toda incredu­
testemunho dos homens com o de Deus. lidade é pecado. Por exemplo, crer em Cristo
e na Palavra de Deus e achar que Jesus pode
Se recebemos o testemunho dos homens, o voltar, mas não nos salvar, seria pecado. P o ­
testemunho de D eus é maior; porque o tes­ rém, a fé que salva não é mera aprovação inte­
temunho de D eus é este, que de seu Filho lectual a certas doutrinas; ela envolve com ­
testificou. Q uem crê no Filho de D eus em prometimento e confiança.
si mesmo tem o testemunho; quem em Deus H á pessoas que creem em Cristo de certa
não crê mentiroso o fez, porquanto não cr eu forma, mas não sabem se o fazem da maneira
no testemunho que Deus de seu Filho deu. adequada. Elas se perguntam: “Creio real­
E o testemunho é este: que Deus nos deu a mente em Cristo? Deixei mesmo de buscar a
vida eterna; e esta vida está em seu Filho. salvação por conta própria e abracei a justifi­
Q uem tem o Filho tem a vida; quem não cação de Jesus? Fui justificado de verdade?”.
tem o Filho de Deus não tem a vida. Em resposta a essas questões, João ofere­
1 João 5.9-12 ceu os três testes que mencionei. Eles se repe­
tem de diversas maneiras ao longo da epístola,
Obviamente, João tentou, nessa passa­ como o teste doutrinário (que avalia a crença
gem, deixar o assunto o mais claro possível, em Jesus Cristo), o moral (que avalia a justiça
afinal todos nós aceitamos o testemunho dos ou a obediência) e o social (que avalia o amor).
homens quando, por exemplo, assinamos um
contrato ou um cheque, ou compramos uma O TESTE DOUTRINÁRIO_______________________

passagem, pois ele tem valor legal. É como se Um a característica de nosso tempo, apon­
João estivesse dizendo: “Por que não acredi­ tada com frequência por cristãos apologistas
tar em Deus, cuja Palavra é a mais confiável contemporâneos, é que as pessoas não mais
creem estritamente na verdade, mas usam o de nós, mas não eram de nós; porque, se
termo com certa conotação coloquial, refe- fossem de nós, ficariam conosco; mas isto é
rindo-se a ele como o antônimo de falsidade. para que se manifestasse que não são todos
N ão é esse o sentido que muitos no século de nós. E vós tendes a unção do Santo e
20 deram ao usar esse termo, mas o de algo sabeis tudo. Não vos escrevi porque não
absoluta e eternamente verdadeiro. Hoje, essa soubésseis a verdade, mas porque a sabeis,
palavra é usada de maneira relativizada, ou e porque nenhum a mentira vem da verda­
seja, o que é verdade para uns pode não o ser de. Q uem é o mentiroso, senão aquele que
para outros, ou o que é verdade hoje pode nega que Jesus é o Cristo f E o anticristo
não o ser amanhã. Isso resulta em uma grande esse mesmo que nega o Pai e o Filho. Qual­
incerteza, bem como em um sentido de falta quer que nega o Filho também não tem o
de direção. Pai; e aquele que confessa o Filho tem tam­
O cristianismo segue dentro de um con­ bém o Pai. Portanto, o que desde o princí­
junto de pressuposições completamente dife­ pio ouvistes perm aneça em vós. Se em vós
rente. Nesse primeiro teste da presença da perm anecer o que desde o princípio ouvis­
nova vida, o doutrinário, as pessoas começam tes, também permanecereis no Filho e no
a ver os fatos de maneira distinta; antes, duvi­ Pai. E esta é a promessa que ele nos fe z : a
davam da existência da própria verdade. Ago­ vida eterna. Estas coisas vos escrevi acerca
ra, veem que Deus é verdadeiro, que Cristo é dos que vos enganam. E a unção que vós
a verdade e que a Bíblia contém proposições recebestes dele fica em vós, e não tendes ne­
reais. E claro que elas não entendem tudo, cessidade de que alguém vos ensine; mas,
mas realmente enxergam os acontecimentos como a sua unção vos ensina todas as coisas,
de outro modo. e é verdadeira, e não é mentira, como ela
Certo escritor afirmou: vos ensinou, assim nele permanecereis.
1 João 2.18-27
Todo homem em quem essa obra divina ocor­
reu experimenta novas visões da verdade divi­ Depois, ele retomou o assunto:
na. A alma vê nelas coisas nunca vistas. Ela
discerne na verdade de Deus uma beleza e ex­ Amados, não creiais em todo espírito, mas
celência das quais não tínhamos ideia. Seja qual provai se os espíritos são de D eus, p orque
for a diversidade na clareza da visão de cada já muitos falsos profetas se têm levantado
pessoa ou na verdade particular trazidas à me­ no m undo. Nisto conhecereis o Espírito
mória, todos concordam com isto: que há uma de D eus: todo espírito qu e confessa que
nova percepção da verdade, [...] uma realidade Jesus Cristo veio em carne é de D eus; e
abençoada, e muitas testemunhas de sã consci­ todo espírito que não confessa qu e Jesus
ência e veracidade inquestionável, prontas a Cristo veio em carne não é de D eus; mas
testemunhar disso. ( A l e x a n d e r , 1967, p. 64) este é o espírito do anticristo, do qual já
ouvistes que há de vir, e eis que está já no
João desenvolveu o teste doutrinário: mundo. Filhinhos, sois de D eus e já os
tendes vencido, p orq ue maior é o que está
Filhinhos, é já a última hora; e, como ou- em vós do que o qu e está no m undo. Do
vistes que vem o anticristo, também agora m undo são; p or isso, falam do m undo, e o
muitos se têm feito anticristos; p or onde m undo os ouve. Nós somos de D eus;
conhecemos que é já a última hora. Saíram aquele qu e conhece a D eus ouve-nos;
aquele que não é de Deus não nos ouve. que mencionei deram o título de Cristo ao Fi­
Nisto conhecemos nós o espírito da verda­ lho de Deus, apesar de considerarem-no um
de e o espírito do erro. mero homem. Outros, como Ário, seguiram o
1 João 4.1-6 mesmo raciocínio, pois o adornavam com o
nome de Deus, mas não criam em Sua divinda­
Naturalmente, João enfatizou os erros de eterna. Marciano o tinha como um fantas­
dos gnósticos, principalmente o de negarem o ma. Sabélio, como o próprio Deus. Todavia,
fato de Jesus ser o Cristo. Porém, ele mostrou todas essas pessoas negaram o Filho de Deus,
que esse erro pode ser cometido por qualquer haja vista que nenhuma delas verdadeiramente
um. O apóstolo o chamou de mentira, e quem reconhecia o Cristo bíblico, mas adulteravam a
a abraça recebe o título de mentiroso. Q uem é verdade sobre Ele, fazendo dele um ídolo, em
o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus vez de o Cristo. [...]
é o Cristo? E o anticristo esse mesmo que nega Agora, vemos que o Cristo é negado sempre
o Pai e o Filho (1 Jo 2.22). que as coisas que pertencem a Ele são tiradas
Quando João afirmou que Jesus é o Cristo, dele. E como Cristo é o fim da Lei e do evan­
ele não quis dizer meramente que Jesus é o gelho e tem nele mesmo todos os tesouros da
Messias pelo qual o Antigo Testamento espe­ sabedoria e do conhecimento, Ele é também o
rava. Se Ele o fosse, dificilmente os gnósticos alvo do ataque de todos os hereges. Logo, o
se oporiam ao evangelho. apóstolo tem bons motivos para chamar de os
João também apresentou Jesus como o maiores mentirosos os que lutam contra Cris­
Filho de Deus, bem como falou sobre conhe­ to, pois toda a verdade nos é revelada nele.
cer o Filho no Pai e o Pai no Filho. Em outras ( C a l v in o , 1961, p . 259-260)
palavras, ele professou que Cristo foi total­
mente Deus — Deus encarnou como Jesus. Confessar que Jesus é o Cristo é declarar
Os gnósticos, por outro lado, criam que o o C risto bíblico. N egar esse Cristo, da for­
Cristo divino, concebido como um enviado ma que for, é uma heresia, com terríveis con­
por um Deus superior, veio a um homem cha­ seqüências.
mado Jesus, enquanto este se batizava, e dei­ Em primeiro lugar, negar o Filho é negar o
xou-o antes de ser crucificado. Pai. Por esse motivo, os falsos mestres fin­
Esse tipo de pensamento não difere de al­ giam estar adorando ao mesmo Deus que os
gumas formas bíblicas de entendimento que cristãos. E ra com o se dissessem: “Só discor­
opõem o que chamamos de o Jesus histórico damos de vocês com relação ao que creem
ao Cristo da fé. sobre Jesus”. Porém , João disse que isso é
Essa confissão básica do apóstolo João impossível. Se Jesus é Deus, negar Jesus é
também inclui tudo o que o Pai falara acerca negar Deus.
de Jesus na Bíblia. Em segundo lugar, negar o Filho é negar a
Calvino disse: presença de Deus na vida de alguém ou não
ter parte com Ele. João usou a expressão ter o
Concordo com os antigos, os quais pensavam Pai. Q ualquer que nega o Filho também não
que aqui há uma referência a Cerinto e Carpó- tem o Pai; e aquele que confessa o Filho tem
crates. Contudo, a negação a Cristo vai muito também o Pai (1 Jo 2.23).
mais além, pois não basta confessar que Jesus é N a linguagem bíblica, isso eqüivale a di­
o Cristo, mas reconhecê-lo como o Pai nos zer que tais pessoas não foram regeneradas e
oferece no evangelho. As duas personalidades que estão sob a condenação divina. Já aqueles
que confessam Cristo encontram o Pai e são A quele que diz: E u conheço-o e não guar­
justificados por Ele. da os seus mandamentos é mentiroso, e
nele não está a verdade. Mas qualquer que
O t e s t e m o r a l _______________________________
guarda a sua palavra, o am or de Deus está
O teste moral, que faz alusão a outro pon­ nele verdadeiramente aperfeiçoado; nisto
to da mesma epístola, é este: conhecemos que estamos nele.
1 João 2.4,5
E nisto sabemos que o conhecemos: se
guardarmos os seus mandamentos. A quele Nessa passagem, João apresentou dois tipos
que diz: E u conheço-o e não guarda os seus de homem: o que diz conhecer Deus, mas não
mandamentos é mentiroso, e nele não está guarda Seus mandamentos, e o que obedece a
a verdade. Mas qualquer que guarda a sua Deus por amor a Ele. João usou palavras muito
palavra, o amor de D eus está nele verda­ ásperas para o primeiro tipo de pessoa. Ele o
deiramente aperfeiçoado; nisto conhece­ chamou de mentiroso, pois não é nem engana­
mos que estamos nele. A quele que diz que do por alguém nem confundido por algum fa­
está nele também deve andar como ele to, mas professa nele não está a verdade. Ele
andou. Q ualquer que comete o pecado pode também estar dando-nos um conselho:
também comete iniqüidade, porque o p e­ que não busquemos a verdade nele. Nesse caso,
cado é iniqüidade. E bem sabeis que ele se a expressão se aplica aos falsos mestres (de
manifestou para tirar os nossos pecados; e quem os verdadeiros seguidores de Deus de­
nele não há pecado. Q ualquer que perm a­ vem afastar-se) dos dias de João e dos nossos.
nece nele não peca; qualquer que peca não A verdade deve ser buscada não em quem
o viu nem o conheceu. Filhinhos, ninguém tem apenas qualificações intelectuais, mas em
vos engane. Q uem pratica justiça é justo, quem mostra ter conhecimento espiritual e
assim como ele é justo. Q uem comete o p e­ uma conduta justa.
cado é do diabo, porque o diabo peca desde O segundo tipo de homem, aquele que
o princípio. Para isto o Filho de D eus se obedece a Deus por amor, tem o amor divino
manifestou: para desfazer as obras do dia­ aperfeiçoado nele. Apesar de não fazer gran­
bo. Q ualquer que é nascido de D eus não des afirmações de que conhece Deus — como
comete pecado; porque a sua semente p er­ os gnósticos faziam —, ele conhece o Senhor,
manece nele; e não pode pecar, porque é segundo João.
nascido de Deus. Nisto são manifestos os H á alguns anos, quando a moralidade es­
filhos de D eus e os filhos do diabo: qual­ tava em seu auge, alguns teólogos se encontra­
qu er que não pratica a justiça e não ama a ram no Seminário Teológico de Princeton para
seu irmão não é de Deus. discutir o assunto. A maioria se pôs a favor do
1 João 2.3-6; 3.4-10 mesmo; por isso, a discussão se centralizou no
valor da liberdade de todas as regras e regula­
Para entendermos de modo simples, aque­ mentações, salvo algumas exceções.
les que conhecerem Deus viverão de maneira Lá, foi decidido que a única regra aceitável
cada vez mais justa. Isso não significa que não seria o amor. Tudo vindo do amor seria per­
pecarão, mas que seguirão em uma direção mitido, desde que isso não machucasse pessoa
marcada pela justiça divina. Quando isso não alguma. Nesse debate, um padre católico não
ocorre, esses indivíduos não são filhos de dizia uma palavra. A o pedirem sua opinião,
Deus. ele disse: “Vocês não concordam que o único
A S PROVAÇÕES

fator limitador em qualquer decisão ética é o te há de trairf Vendo Pedro a este, disse a
amor? Jesus disse: Se m e amardes, guardareis Jesus: Senhor, e deste que será? Disse-lhe
os meus mandamentos (Jo 14.15)”. Jesus: Se eu quero que ele fique até que eu
Dizemos ser cristãos? A quele que diz que venha, que te importa a ti? Segue-m e tu.
está nele também deve andar como ele andou João 21.20-22
(1 Jo 2.6). Somos chamados a imitar a condu­
ta do Senhor Jesus. Andar com o Cristo an­ N ão houve escapatória para a chamada ao
dou é viver não por regras, mas pelo exemplo. discipulado pessoal de Pedro.
E segui-lo, ser Seu discípulo. U m discípulo O discípulo que anda como. Cristo andou
pessoal, ativo e caro. é também ativo, pois o Senhor é ativo. Quem
Pessoal porque tal tarefa não pode ser de­ é inativo é deixado para trás.
legada a terceiros. Devemos encontrar-nos em Por último, tal discípulo é caro, pois o ca­
Cristo, como Pedro, após a ressurreição de minho em que Jesus andou, apesar de levar à
Jesus. Observe o que ocorreu naquela ocasião: vitória, primeiro leva à crucificação; ele só
pode ser percorrido por aqueles que m orre­
Mas tudo isso vos farão por causa do m eu ram para si mesmos e agora levam a cruz de
nome, porque não conhecem aquele que Cristo para segui-lo. Esses, seja nos dias de
m e enviou. Se eu não viera, nem lhes hou­ João, seja nos de hoje, terão sempre confiança
vera falado, não teriam pecado, mas, ago­ diante de Deus e certeza de que o conhecem.
ra, não têm desculpa do seu pecado. A qu e­ C. H . Dodd, ex-professor de N ovo Tes­
le que me aborrece aborrece também a tamento na Universidade de Cambridge,
m eu Pai. Se eu, entre eles, não fizesse tais declarou em As epístolas Joaninas:
obras, quais nenhum outro têm feito, não
teriam pecado; mas, agora, viram-nas e Nessa passagem, nosso autor não apenas refuta
m e aborreceram a mim e a m eu Pai. Mas é tendências perigosas na Igreja de seus dias, co­
para que se cumpra a palavra que está escri­ mo discute um problema de relevância eterna,
ta na sua lei: Aborreceram -me sem causa. o da validade da experiência religiosa. Pode­
Mas, quando vier o Consolador, que eu da mos achar que temos ciência de Deus ou união
parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espí­ com Ele, mas como podemos saber que tal ex­
rito da verdade, que procede do Pai, testifi­ periência corresponde à realidade? Clareza ou
cará de mim. E vós também testificareis, poder na experiência em si não garantem sua
pois estivestes comigo desde o princípio. validade — assim como um sonho que pareceu
João 21.15-17 algo real em uma noite de sono não passa de
um sonho. Se, entretanto, aceitarmos a revela­
Depois que Pedro se irritou com o fato de ção de Deus em Cristo, deveremos, então, crer
Jesus questioná-lo três vezes, ele quis colocar que qualquer experiência com Deus — o que é
o foco de Cristo sobre Seu discípulo mais válido — tem qualidade ética definida pelo que
amado, que, aparentemente, podia ser visto conhecemos de Cristo, o que carrega em si
ao longe. Veja, então, o que aconteceu: uma fidelidade renovada ao Seu ensino e exem­
plo. O autor não quer dizer que somente aque­
E Pedro, voltando-se, viu que o seguia les que obedecem perfeitamente a Cristo e se­
aquele discípulo a quem Jesus amava, e guem Seu exemplo têm uma experiência com
que na ceia se recostara também sobre o Deus. Isso seria afirmar uma ausência de pecado
seu peito, e que dissera: Senhor, quem é que na vida do cristão em um sentido de que ele o
repudiou. Se a experiência não incluir uma mis­ o princípio tivestes. Este mandamento an­
tura de afeição e vontade com relação aos prin­ tigo é a palavra que desde o princípio ou­
cípios morais do evangelho, não se trata de uma vistes. Outra vez vos escrevo um m anda­
experiência com Deus. (D o d d , 1946, p. 32) mento novo, que é verdadeiro nele e em
vós; porque vão passando as trevas, e já a
Claro que há mais a ser dito, mas não so­ verdadeira luz alumia. A quele que diz
bre o teste da experiência. O teste que prova que está na luz e aborrece a seu irmão até
se conhecemos ou não a Deus é o da justiça. agora está em trevas. A quele que ama a
seu irmão está na luz, e nele não há escân­
O TESTE SOCIAL_______________________________
dalo. Mas aquele que aborrece a seu irmão
Em meio a Seus últimos discursos — ante­ está em trevas, e anda em trevas, e não
riores à crucificação —, Jesus nos deu um sabe para onde deva ir; porque as trevas
novo mandamento: amar. lhe cegaram os olhos.
1 João 2.7-11
Um novo mandamento vos dou: Q ue vos
ameis uns aos outros; como eu vos amei a E o apóstolo repetiu essa ideia:
vós, que também vós uns aos outros vos
ameis. Nisto todos conhecerão que sois meus Porque a mensagem que ouvistes desde o
discípulos, se vos amardes uns aos outros. princípio é esta: que nos amemos uns aos
João 13.34,35 outros; não segundo Caim, que era do M a­
ligno e assassinou a seu irmão; e p or que o
O amor é a marca pela qual o mundo pode assassinou? Porque as suas obras eram
saber que os cristãos são verdadeiramente más, e as de seu irmão, justas. Irmãos, não
cristãos. vos maravilheis se o m undo vos odeia. Nós
Em 1 João, o mandamento é repetido, mas sabemos que já passamos da morte para a
com uma diferença: é pelo amor que os cris­ vida, porque amamos os irmãos; aquele
tãos (assim com o o mundo) saberão que são que não ama perm anece na morte. Todo
cristãos. aquele que odeia a seu irmão é assassino;
ora, vós sabeis que todo assassino não tem
Mas qualquer que guarda a sua palavra, o a vida eterna perm anente em si. Nisto co­
am or de D eus está nele verdadeiramente nhecemos o amor: que Cristo deu a sua
aperfeiçoado; nisto conhecemos que esta- vida p o r nós; e devemos dar nossa vida
. mos nele. pelos irmãos. Ora, aquele que possuir re­
1 João 2.5 cursos deste mundo, e vir a seu irmão pa­
decer necessidade, e fechar-lhe o seu cora­
Quando os cristãos começarem a amar, ção, como pode perm anecer nele o amor de
principalmente a demonstrar amor a todos D eus? Filhinhos, não amemos de palavra,
por quem Cristo morreu, poderão ter certeza nem de língua, mas de fato e de verdade.
de que conhecem a Deus. 1 João 3.11-18 ARA
João falou desse teste na seguinte passa­
gem bíblica: Amados, amemo-nos uns aos outros, por­
que o am or procede de Deus; e todo aquele
Irmãos, não vos escrevo mandamento no­ que ama é nascido de D eus e conhece a
vo, mas o mandamento antigo, que desde Deus. A quele que não ama não conhece a
Deus, pois D eus é amor. Nisto se manifes­ A quele que ama a seu irmão está na luz, e
tou o amor de D eus em nós: em haver nele não há escândalo.
D eus enviado o seu Filho unigênito ao
m undo, para vivermos por meio dele. Nis­ Assim como no teste moral, essa passa­
to consiste o amor: não em que nós tenha­ gem contém dois grupos específicos de pes­
mos amado a Deus, mas em que ele nos soas: o das que dizem estar na luz e aborre­
amou e enviou o seu Filho como propicia- cem (odeiam) seu irmão e o das que mostram
ção pelos nossos pecados. Amados, se D eus que estão na luz por amarem seu irmão.
de tal maneira nos amou, devemos nós O primeiro grupo está nas trevas. Com
também amar uns aos outros. N inguém certeza, nesse ponto, João está fazendo men­
jamais viu a Deus; se amarmos uns aos ou­ ção dos gnósticos, que se diziam “os ilumina­
tros, D eus perm anece em nós, e o seu amor dos”, mas o mesmo se dá com relação a todos
é, em nós, aperfeiçoado. Nisto conhecemos que professam ter sido regenerados, embora
que permanecemos nele, e ele, em nós: em não apresentem mudanças.
que nos deu do seu Espírito. E nós temos Em essência, Paulo fez a mesma declaração:
visto e testemunhamos que o Pai enviou o
seu Filho como Salvador do mundo. A q u e­ Ainda que eu tenha o dom de profetizar e
le que confessar que Jesus é o Filho de conheça todos os mistérios e toda a ciência;
Deus, Deus perm anece nele, e ele, em ainda que eu tenha tamanha fé , aponto de
Deus. E nós conhecemos e cremos no amor transportar montes, se não tiver amor, na­
que Deus tem por nós. D eus é amor, e da serei.
aquele que perm anece no am or perm anece 1 Coríntios 13.2 ara

em Deus, e Deus, nele. Nisto é em nós


aperfeiçoado o amor, para que, no Dia do Quanto ao segundo grupo, João disse que
Juízo, mantenhamos confiança; pois, se­ nele não há escândalo em sua conduta (1 Jo 2.10).
gundo ele é, tam bém nós somos neste Essa ideia pode ser aplicada àqueles que não so­
mundo. N o amor não existe medo; antes, o mente andam na luz, mas também não fazem
perfeito amor lança fora o medo. Ora, o qualquer outra pessoa ser motivo de escândalo.
medo produz tormento; logo, aquele que A ideia também pode ser aplicada àqueles
teme não é aperfeiçoado no amor. Nós que andam na luz e não tropeçam. O contex­
amamos porque ele nos amou primeiro. Se to praticamente exige essa segunda ideia, pois
alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu a questão dessas passagens não é o que acon­
irmão, é mentiroso; pois aquele que não tece aos outros, mas o efeito do amor e do
ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar ódio nos próprios indivíduos.
a Deus, a quem não vê. Ora, temos, da par­ O equivalente negativo disso ocorre em
te dele, este mandamento: que aquele que 1 João 2.11:
ama a D eus ame também a seu irmão.
1 João 4.7-21 ara Mas aquele que aborrece a seu irmão está
em trevas, e anda em trevas, e não sabe
O resumo do teste de João está em 1 João para onde deva ir; porque as trevas lhe ce­
2.9,10: garam os olhos.

A quele que diz que está na luz e aborrece Esse versículo apresenta o verbo andar, o
a seu irmão até agora está em trevas. qual pode ser aplicado à vida de amor. Ele
sugere passos práticos. O amor não é certo não sugere que devemos esperar até que os
sentimento benigno ou um sorriso, mas uma outros se arrependam para perdoar-lhes. So­
atitude que determina o que fazemos. É im­ mos chamados a ter um espírito perdoador
possível falar do amor cristão sem falar de assim que os outros nos ofendem. Podemos
ações decorrentes do mesmo, assim como não até dizer que o outro está errado, mas, mes­
se pode falar do amor divino sem mencionar mo dizendo isso, devemos liberar o perdão.
a criação, a revelação do Antigo Testamento, (S c h a e f fe r , 1970, p. 145)
a vinda de Cristo, a cruz e o derramamento
do Espírito Santo. João, conhecido como um dos filhos do
O que ocorreria se aqueles que professam trovão (Mc 3.17), já quis clamar por fogo do
a vida de Cristo amassem uns aos outros ver­ céu para queimar aqueles que rejeitaram Jesus.
dadeiramente? Francis Schaeffer sugeriu vá­
rios fatos. Primeiro, quando um cristão falha E os discípulos Tiago e João, vendo isso,
no amor a outro cristão e age de modo errado disseram: Senhor, queres que digamos que
com relação a essa pessoa, deve ir até ela e desça fogo do céu e os consuma, como Elias
desculpar-se. Esse gesto expressa amor e res­ também fe z ?
taura a singularidade que Jesus disse que flui­ Lucas 9.54
ria do amor cristão ao próximo. Além disso,
atesta seu cristianismo diante do mundo. Porém, ao conhecer mais de Deus, o após­
Segundo, quando alguém nos machuca, tolo clamou por amor.
devemos mostrar nosso amor, perdoando- Terceiro, devemos mostrar amor ainda
-lhe. Isso é difícil, especialmente quando esse que o preço seja caro. O amor custou ao sa-
alguém não se desculpa. maritano da parábola de Cristo tempo e di­
Schaeffer disse: nheiro (L c 10.30-37); ao pastor custou deixar
suas 99 ovelhas no aprisco para ir atrás de
Temos de reconhecer continuamente que não uma que se perdeu (M t 18.12-14; L c 15.4-7);
praticamos o perdão como deveríamos. Toda­ e, a Maria de Betània, uma libra de ungüento
via, nossa oração é: “Perdoa as nossas dívidas e de nardo puro, de muito preço (Jo 12.3-8).
as nossas ofensas como perdoamos as dos ou­ O amor custa caro a quem o pratica, mas o
tros!”. Devemos ter um espírito perdoador an­ que se compra com ele é de valor ainda maior.
tes mesmo de os outros mostrarem arrependi­ Ele é uma prova da presença da vida de Deus
mento por seus erros. A oração do Pai-Nosso a nós, cristãos, e ao mundo, que nos observa.
C A P ÍT U LO
<L.

U m a n o va f a m íl ia

I as primeiras páginas de A Placefor algo, a algum lugar ou a alguém. ( T o u r n i e r ,


/II j You [Um lugar para você], o notá- 1968, p. 12)
j %j vel psicólogo suíço Paul Tournier
t fala de um jovem que ele aconse­ N o nível espiritual, entretanto, o proble­
lhara, o qual crescera em um lar religioso, mas ma é detectado na alienação a Deus que senti­
infeliz. mos como resultado da Queda e de nossos
Esse rapaz vivenciou o divórcio dos pais, próprios pecados.
o que acarretou sintomas psicológicos preju­ Agostinho foi feliz ao dizer:
diciais, como um acentuado senso de fracasso.
Primeiro, por não ter conseguido reconciliar Tu nos form aste para Ti. [...] E nosso coração
seus pais; segundo, por não ter obtido um bom não descansará até encontrar descanço em Ti.
desempenho em seus estudos; e, terceiro, por (O a tes , 1948, p. 3)
não ter sido capaz de estabelecer-se e alcançar
sucesso em nenhuma área da vida. Quando, Deus lidou com esse grande problema da
então, conheceu Tournier, em uma de suas alienação por meio da adoção, levando certa
conversas, concluiu que estava sempre à pro­ pessoa de uma (ou nenhuma) família para a
cura do lugar certo. Sua família. As vezes, a adoção divina é consi­
A necessidade de um lugar certo é comum derada um mero aspecto da justificação ou
a todos. apenas outra maneira de dizer o que acontece
na regeneração, mas a adoção divina é muito
A criança que cresce harmonicamente em um mais que esses outros atos da obra do Senhor.
lar saudável encontra “boas-vindas” em qual­ John M urray distinguiu a adoção da justi­
quer lugar. Uma vara atravessada entre duas ficação e da regeneração, quando disse:
cadeiras já pode ser considerada um lar. Na
vida adulta, onde quer que vá, ela poderá fa­ A justificação divina significa nossa aceitação
zer dali seu lar, sem esforço algum. Para ela, a por Deus como justos e a concessão da vida
questão não será procurar, mas escolher um eterna. A regeneração é a renovação de nosso
lar. [...] Já quando a criança cresce em uma coração diante de Deus. Contudo, essas bên­
família que não a faz pertencer a ela, procura çãos em si, por mais preciosas que sejam, não
em todo lugar por outro lar, e nunca consegue indicam o que é conferido no ato da adoção.
estabelecer-se em local algum. A criança passa Por meio da adoção, os redimidos se tornam
a carregar em si a incapacidade de pertencer a filhos do Todo-poderoso, com direito a todos
os privilégios da família de Deus. (M u r r a y , e não a uma atitude ou disposição que não
1955, p. 132) nos possibilita reconhecer esse relaciona­
mento e cultivá-lo.
Somente a adoção divina sugere o novo 3. Quando Deus nos adota, recebemos o Es­
relacionamento familiar, o qual obtemos por pírito de adoção por meio do qual pode­
Cristo, e aponta para os privilégios desse rela­ mos reconhecer nossa família e exercitar
cionamento. os privilégios de pertencermos a ela. E,
porque sois filhos, Deus enviou aos nossos
Porque todos os qu e são guiados pelo Es­ corações o Espírito de seu Filho, que clama:
pírito de Deus, esses são filhos de Deus. Aba, Pai (G1 4.6). Compare com Roma­
Porque não recebestes o espírito de escra­ nos 8.15,16.
vidão, para, outra vez, estardes em te­ O espírito de adoção (Rm 8.15) é a conse­
mor, mas recebestes o espírito de adoção qüência; ele, em si, não constitui a adoção
de filhos, pelo qual clamamos: A ba, Pai. divina. Há uma relação de muita proximi­
O mesmo Espírito testifica com o nosso dade entre a adoção e a regeneração.
espírito qu e somos filhos de Deus. E, se (M u r r a y , 1955, p. 132-133)
nós somos filhos, somos, logo, herdeiros
também , herdeiros de D eus e co-herdei- A relação é explicada pela maneira como,
ros de Cristo; se é certo que com ele p a d e­ no passado, um pai adotava seu próprio filho
cemos, para que tam bém com ele sejamos oficialmente como seu representante legal e
glorificados. herdeiro. Esse era um momento muito im­
Romanos 8.14-17 portante na vida de um judeu, grego ou roma­
no. Antes, o filho era filho por meio de seu
Essa passagem fala da adoção divina como nascimento. Depois, ele se tornava filho legal,
uma obra separada do Espírito de Deus, por passando da dependência de seu responsável
meio da qual: (1) somos libertos da escravi­ para a idade adulta.
dão do pecado e do medo; (2) temos certeza Apesar de, na vida cristã, a regeneração e a
de nosso relacionamento com Deus; e (3) adoção acontecerem simultaneamente, a ado­
tornamo-nos herdeiros de Deus com Cristo. ção enfatiza o novo status de cristão, enquan­
Murray também afirmou: to a regeneração, o da novidade de vida.

1. Apesar de a adoção divina ser algo distin­ Novos RELACIONAMENTOS__________________

to, ela nunca se dará separada da justifica­ Talvez eu não me tenha expressado bem
ção e da regeneração. Quem for justifica­ utilizando o term o novo status. A adoção
do será sempre considerado filho de Deus. envolve, na verdade, novos relacionam en­
E todos que receberam o direito de tor- tos, tanto com Deus com o com os irmãos
narem-se filhos de Deus não nasceram do na fé.
sangue, nem da vontade da carne, nem da O novo relacionamento com o Altíssimo
vontade do varão, mas de Deus (Jo 1.13). não se dá automaticamente. Tendo nos justi­
2. A adoção divina é, assim como a justifica­ ficado, Ele poderia ter-nos deixado com um
ção, um ato judicial. Em outras palavras, status bem inferior e com bem menos privilé­
é a concessão de um status, não a geração gios. Contudo, em vez disso, adotou-nos em
em nós de uma nova natureza ou persona­ Sua própria família, dando-nos o status e os
lidade. Diz respeito a um relacionamento, privilégios de filhos e filhas dele. A bondade
de Deus foi tão grande com esse ato de ado­ ele fo i homicida desde o princípio e não se
ção que somos tentados a dispensá-lo. Por firm ou na verdade, porque não há verda­
isso, o Todo-poderoso buscou selar essas ver­ de nele; quando ele profere mentira, fala
dades em nosso coração. do que lhe é próprio, p orque é mentiroso e
C om o disse Paulo: pai da mentira.
João 8.32,33,37,39,42-44
Mas, como está escrito: As coisas que o olho
não viu, e o ouvido não ouviu, e não subi­ Nesse diálogo com os judeus, Jesus pôs
ram ao coração do hom em são as que D eus um fim à errônea doutrina de que Deus é Pai
preparou para os que o amam. Mas D eus de todos e de que todos são Seus filhos.
no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Todavia, não é apenas um novo relaciona­
Espírito penetra todas as coisas, ainda as mento (com Deus) o que nós, cristãos, ganha­
profundezas de Deus. mos com a adoção divina. Também adquiri­
1 Coríntios 2.9,10 mos um relacionamento com outras pessoas
(nossos irmãos e irmãs em Cristo), o que re­
H á certo sentido nos ditos populares “Deus quer que as amemos e que, com elas, traba­
é Pai” e “Eu também sou filho de Deus”, pois lhemos, pois isso condiz com nossos novos
Ele criou todas as coisas e é Ele quem sustenta laços de família.
nossa vida dia a dia. Porque nele vivemos, e nos Antes, não pertencíamos à família de
movemos, e existimos, como também alguns Deus. Ao contrário, cada um de nós vivia sua
dos vossos poetas disseram: Pois somos também própria vida, opondo-se e, às vezes, mostran­
sua geração (At 17.28). do hostilidade aos outros. Agora, somos dife­
Por essa razão, somos chamados de gera­ rentes. Assim que já não sois estrangeiros, nem
ção de D eus (A t 17.29). Contudo, Jesus decla­ forasteiros, mas concidadãos dos Santos e da
rou que alguns que se consideravam filhos de família de Deus (Ef 2.19).
Deus eram, na verdade, filhos do diabo. As atitudes que devem fluir desses novos
relacionamentos nem sempre se dão natural
E conhecereis a verdade, e a verdade vos ou facilmente. Justamente por esse motivo,
libertará. Responderam-lhe: Somos des­ precisamos tom ar posse dessa realidade e
cendência de Abraão, e nunca servimos a esforçar-nos para termos bons relaciona­
ninguém ; como dizes tu: Sereis livres? Bem mentos.
sei que sois descendência de Abraão; con­ John White assim descreveu essa tarefa:
tudo, procurais matar-me, porque a minha
palavra não entra em vós. Responderam e Vocês foram purificados pelo mesmo sangue e
disseram-lhe: Nosso pai é Abraão. Jesus regenerados pelo mesmo Espírito. São cida­
disse-lhes: Se fósseis filhos de Abraão, fa- dãos da mesma cidade, servos do mesmo Mes­
ríeis as obras de Abraão. Disse-lhes, pois, tre, leitores das mesmas Escrituras e adorado­
Jesus: Se D eus fosse o vosso Pai, certamen­ res do mesmo Deus. A mesma presença habita
te, me amaríeis, pois que eu saí e vim de silenciosamente em vocês. Logo, vocês têm
Deus; não vim de mim mesmo, mas ele me compromissos uns com os outros. Vocês são
enviou. Por que não entendeis a minha irmãos em Cristo. Gostando ou não, vocês
linguagem ? Por não poderdes ouvir a mi­ pertencem a Ele. Vocês têm responsabilidades
nha palavra. Vós tendes p or pai ao diabo e com relação um ao outro que devem ser cum­
quereis satisfazer os desejos de vosso pai; pridas com amor. Enquanto vocês morarem
neste mundo, serão devedores uns dos outros. pode murchar, guardada nos céus para vós.
Seus irmãos podem ter feito muito ou pouco 1 Pedro 1.3,4
por vocês, mas Cristo fez tudo por vocês. E
Ele ordena que essa eterna dívida de vocês seja E Paulo descreveu o Espírito Santo como
transferida a seus novos irmãos. (W h it e , 1976, o p enhor da nossa herança, para redenção da
p. 129-130) possessão de D eus (Ef 1.14).
A oração é o maior privilégio da adoção
Fazer parte da família de Deus não signifi­ divina que podemos desfrutar agora. P or ou­
ca que seremos insensíveis às falhas humanas. tro lado, ela é descrita como uma conseqüên­
N a verdade, deveremos ser sensíveis a elas se cia de nossa justificação.
quisermos eliminá-las e melhorar a qualidade
de nossos novos relacionamentos familiares. Sendo, pois, justificados pela fé , temos paz
N ão poderemos, entretanto, ser ultrassensí- com D eus por nosso Senhor Jesus Cristo;
veis às faltas de nossos irmãos e irmãs em pelo qual também temos entrada pela f é a
Cristo; tampouco deveremos criticá-los dire­ esta graça, na qual estamos firmes; e nos
tamente. O h! Quão bom e quão suave é que gloriamos na esperança da glória de Deus.
os irmãos vivam em união! (Sl 133.1). Romanos 5.1,2
Devemos ser comprometidos uns com os
outros, com a devida lealdade familiar, esfor­ O termo entrada, nesse caso, significa
çando-nos para que ajudemos uns aos outros acesso a Deus e baseia-se em nossa adoção.
a levar uma vida cristã. Temos também de Em função dela, podemos aproximar-nos do
orar uns pelos outros e servir uns aos outros. Altíssimo como um filho pode aproximar-se
Orai uns pelos outros (Tg 5.16b). Servi-vos de seu pai.
uns aos outros pela caridade (G1 5.13b).
Porque não recebestes o espírito de escravi­
P r iv il é g io s d e f a m í l i a _____________________
dão, para, outra vez, estardes em temor,
Nossos novos relacionamentos nos dão mas recebestes o espírito de adoção de fi­
novos privilégios. Alguns destes agora, nesta lhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai. O
vida, e outros depois, no céu. Os do céu são mesmo Espírito testifica com o nosso espíri­
descritos na Bíblia como nossa herança. N a to que somos filhos de Deus.
Sagrada Escritura não é dito exatamente que Romanos 8.15,16
privilégios serão os vindouros, apenas que
envolvem vida e bênçãos celestiais. Nossa he­ Somente pelo testemunho do Espírito San­
rança é definida com o riquezas da glória (Ef to em nós podemos ter certeza de que Deus é
1.18), galardão pelo serviço a Cristo (Cl 3.24) nosso Pai e de que Ele realmente ouve nossas
e herança eterna (H b 9.15). orações.
Pedro declarou o seguinte: Podemos chamar o nosso Deus de Pai,
pois Jesus disse: Portanto, vós orareis assim:
Bendito seja o D eus e Pai de nosso Senhor Pai nosso, que estás nos céus (M t 6.9a).
Jesus Cristo, que, segundo a sua grande Nenhum judeu havia chamado Deus de
misericórdia, nos gerou de novo para uma Pai nosso no Antigo Testamento. De fato, esse
viva esperança, pela ressurreição de Jesus modo de orar era inédito, original para a época
Cristo dentre os mortos, para uma herança de Cristo. Isso foi documentado pelo estudio­
incorruptível, incontaminável e que se não so alemão Ernst Lohmeyer no livro chamado
Pai-nosso, e pelo contemporâneo estudioso não desviarás. Deveras, como a m ulher se
da Bíblia Joaquim Jeremias em um ensaio in­ aparta aleivosamente do seu companheiro,
titulado A ba e um livreto chamado A oração assim aleivosamente te houveste comigo, ó
do Pai-nosso. casa de Israel, diz o S E N H O R .
De acordo com esses estudiosos, três coi­ Jeremias 3.19,20
sas são indiscutíveis: (1) Jesus foi o primeiro a
referir-se a Deus assim; (2) Jesus sempre orou N o tempo de Jesus, a distância entre as
tratando Deus dessa forma; e (3) Jesus autori­ pessoas e o Altíssimo parecia ser grande. Os
zou Seus discípulos a tratarem Deus do mes­ nomes de Deus eram constantemente citados
mo modo. em discursos públicos e orações, mas essa
É fato que o termo Pai para designar Deus tendência foi completamente derrubada por
é tão antigo quanto a religião. Homero escre­ Jesus, que sempre chamou Deus de Pai, e esse
veu acerca de um “Pai-Zeus que governa sobre fato deve ter impressionado de maneira extra­
os deuses e os mortais”. Aristóteles disse que ordinária Seus discípulos.
Homero estava certo em dizer que o governo O s quatro Evangelhos relatam que C ris­
do pai sobre seus filhos é como o do rei sobre to chamou Deus de Pai até mesmo em Suas
seus súditos. orações.
Nesse contexto, a palavra Pai significa Se­
nhor. E interessante notar, no entanto, que esse N aquele tempo, respondendo Jesus, disse:
termo é usado aqui como impessoal. N o pen­ Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da
samento grego, Deus era chamado de Pai no terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e
mesmo sentido que um rei o era. instruídos e as revelaste aos pequeninos.
O Antigo Testamento usa a palavra Pai Mateus 11.25
como uma designação à relação entre Deus e
Israel, mas, ainda assim, o uso é impessoal e E, indo um pouco adiante, prostrou-se so­
não é freqüente. N a verdade, ocorre 14 vezes bre o seu rosto, orando e dizendo: M eu
em todo o Antigo Testamento. Israel é cha­ Pai, se é possível, passa de mim este cálice;
mado assim pelo Senhor: m eu filho, m eu pri­ todavia, não seja como eu quero, mas co­
mogênito (E x 4.22). mo tu queres. E, indo segunda vez, orou,
Davi declarou: Como um pai se compade­ dizendo: M eu Pai, se este cálice não pode
ce de seus filhos, assim o S E N H O R se compa­ passar de mim sem eu o beber, faça-se a
dece daqueles que o temem (Sl 103.13). tua vontade.
Isaías disse: Mas, agora, ó S E N H O R , tu és Mateus 26.39,42
o nosso Pai; nós, o barro, e tu, o nosso oleiro; e
todos nós, obra das tuas mãos (Is 64.8). E disse: Aba, Pai, todas as coisas te são
Porém, em nenhuma dessas passagens um possíveis; afasta de m im este cálice; não
israelita chama Deus de Pai. A maioria delas seja, porém , o que eu quero, mas o que tu
diz que Israel não veio a ter o status de família. queres.
Jeremias afirmou: Marcos 14.36

Mas eu dizia: Como te porei entre os fi­ E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não
lhos e te darei a terra desejável, a exce­ sabem o que fazem . E, repartindo as suas
lente herança dos exércitos das nações? E vestes, lançaram sortes.
eu disse: Pai m e chamarás e de m im te
Tiraram, pois, a pedra. E Jesus, levantando Em todas as outras vezes, Jesus corajosa­
os olhos para o céu, disse: Pai, graças te mente assumiu com Deus um relacionamento
dou, p o r m e haveres ouvido. que muitos achavam desrespeitoso ou blasfemo.
João 11.41 Isso é muito importante para nossas ora­
ções: Cristo era o Filho de Deus em um sen­
Agora, a minha alma está perturbada; e tido único, assim como Deus era Seu Pai tam­
que direi eu? Pai, salva-me desta hora; bém em um sentido único. Ele orava a Deus
mas para isso vim a esta hora. com o Seu Filho único. Agora, revela que
João 12.27 todo aquele que nele crê tem essa mesma
relação com o Senhor — todo aquele cujos
Jesus falou essas coisas e, levantando os pecados foram perdoados por Seu sacrifício
olhos ao céu, disse: Pai, é chegada a hora; vicário. Todo o que nele crê pode ir a Deus
glorifica a teu Filho, para que tam bém o com o Seu filho.
teu Filho te glorifique a ti, e, agora, glori- Além disso, quando chamou Deus de Pai,
fica-m e tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com Jesus usou a palavra aramaica aba. Isso foi tão
aquela glória qu e tinha contigo antes que impactante para Seus discípulos que eles fize­
o m undo existisse. E eu já não estou mais ram menção do mesmo vocábulo, mesmo es­
no m undo; mas eles estão no m undo, e eu crevendo em grego.
vou para ti. Pai santo, guarda em teu no­ Marcos o utilizou em seu relato da oração
m e aqueles que m e deste, para qu e sejam de Cristo no Getsêmani: E disse: Aba, Pai,
um, assim como nós. Para qu e todos se­ todas as coisas te são possíveis; afasta de mim
jam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e este cálice; não seja, porém , o que eu quero,
eu, em ti; que tam bém eles sejam um em mas o que tu queres (Mc 14.36).
nós, para que o m undo creia qu e tu me E Paulo empregou a mesma palavra nas
enviaste. Pai, aqueles qu e m e deste quero passagens a que nos referimos:
que, onde eu estiver, tam bém eles este­
jam comigo, para que vejam a minha Porque não recebestes o espírito de escravi­
glória qu e m e deste; p orque tu m e hás dão, para, outra vez, estardes em temor,
amado antes da criação do m undo. Pai mas recebestes o espírito de adoção de fi­
justo, o m undo não te conheceu; mas eu te lhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai.
conheci, e estes conheceram que tu m e en­ Romanos 8.15
viaste a mim.
João 17.1,5,11,21,24,25 E, porque sois filhos, D eus enviou aos nos­
sos corações o Espírito de seu Filho, que
A única exceção tem um porquê: é o cla­ clama: Aba, Pai.
m or da cruz. Deus meu, Deus meu, por que Gálatas 4.6
m e desamparaste? (Mt 27.46b).
Essa oração adveio dos lábios de Cristo O que aba significa exatamente? Crisós­
no momento em que Ele foi feito pecado pela tomo, Teodoro de Mopsuéstia e Teodoreto de
humanidade e em que o relacionamento que Ciro, cristãos da Igreja primitiva vindos de
tinha com Seu Pai parece ter sido temporaria­ Antioquia (onde o aramaico era a primeira
mente quebrado. À quele que não conheceu língua), testificam unànimemente que aba era
pecado, o fe z pecado p or nós; para que, nele, como uma criança chamava seu pai ( J e r e ­
fôssemos feitos justiça de D eus (2 C o 5.21). m ia s , 1964, p . 19).
O Talmude é outra testemunha, pois afirma Se Deus for nosso Pai, cuidará de nós e
que em geral aba e ima (papai e mamãe, respecti­ nos abençoará abundantemente, pois assim
vamente) eram as primeiras palavras aprendidas como a lei dos Estados Unidos da América
pelas crianças. Isso é o que aba quer dizer, papai. diz que os pais devem cuidar de seus filhos, a
N o pensamento judaico, uma oração que Lei de Deus também declara o mesmo.
chama Deus de papai não somente seria im­
própria, mas também o pior dos desrespeitos. Eis aqui estou pronto para, pela terceira
Contudo, era como Jesus tratava Deus. Quan­ vez, ir ter convosco e não vos serei pesado;
do Cristo instruiu Seus discípulos a fazerem o pois que não busco o que é vosso, mas,
mesmo, estava propondo algo inédito. sim, a vós; porque não devem os filhos en-
tesourar para os pais, mas os pais, para os
C o n f ia n ç a e m n o s s o P a i __________________ filhos.
Isso nos dá certeza diante de Deus. Ao 2 Coríntios 12.14
aproximarmo-nos do Altíssimo, sendo ensi­
nados e levados a fazê-lo pelo Seu próprio Isso é verdade tanto no plano material co ­
Espírito, sabemos que estamos em um rela­ mo no espiritual.
cionamento seguro. Jesus disse:
Deus é nosso Pai? Em caso afirmativo, Ele
nos ajudará em nossa caminhada, mostrando- Por isso, vos digo: não andeis cuidadosos
-nos como andar espiritualmente e levantan- quanto à vossa vida, pelo que haveis de
do-nos quando cairmos. comer ou pelo que haveis de beber; nem
quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de
Todavia, eu ensinei a andar a Efraim; to­ vestir. Não é a vida mais do que o manti­
mei-os pelos seus braços, mas não conhece­ mento, e o corpo, mais do que a vestimenta?
ram que eu os curava. Atraí-os com cordas Mateus 6.25
humanas, com cordas de amor; e fu i para
eles como os que tiram o jugo de sobre as Deus, sendo nosso Pai, irá adiante de nós,
suas queixadas; e lhes dei mantimento. apontando o caminho para a vida.
Como te deixaria, ó Efraim ? Como te en­ Paulo fez essa declaração ao afirmar: Sede,
tregaria, ó Israel? Como te faria como A d- pois, imitadores de Deus, como filhos amados
m á? Pôr-te-ia como Zeboim ? Está muda­ (Ef 5.1).
do em mim o m eu coração, todos os meus Deus, como nosso Pai, garante-nos que
pesares juntam ente estão acesos. pertencemos a Ele eternamente e que, en­
Oséias 11.3,4,8 quanto formos guiados, ensinados e instruí­
dos para as tarefas da vida, nada interferirá em
U m Deus assim nos livra de cairmos e Seu propósito para nós em Cristo. Devemos,
apresenta-nos irrepreensíveis, com alegria, portanto, anelar por vê-lo e ser como Ele,
perante a sua glória (Jd 1.24). pois o veremos como Ele é.
O CAMINHO QUE LEVA PARA O ALTO

^
m dos primeiros sinais da obra perfeitos em nossos pensamentos e nossa
;
salvadora de Deus na vida de um conduta. É aí que entra a santificação. Paulo
^
indivíduo é a insatisfação com o era ciente disso quando fez a seguinte decla­
pecado e a busca pela santidade. ração por escrito aos filipenses:
Contudo, nem a insatisfação nem a busca se
assemelham à santidade em si, a qual é o alvo Não que já a tenha alcançado ou que seja
que devemos perseguir. perfeito; mas prossigo para alcançar aquilo
Se não entendermos a santidade bíblica, para o que fu i também preso p o r Cristo
poderemos imaginar que atingimos a perfei­ Jesus.
ção, tornando-nos, assim, complacentes com Filipenses 3.12
a vida cristã. Quando a compreendemos, en­
contramo-nos forçados a ter de depender do Três versículos depois, ele disse: Pelo que
poder do Espírito Santo em nós. todos quantos já somos perfeitos sintamos isto
A santificação, palavra apropriada para es­ mesmo (Fp 3.15a).
se aspecto da obra do Espírito no cristão, des­ Apesar de Paulo saber que seu histórico já
creve duas áreas de crescimento: (1) a separa­ havia sido esquecido por Deus pela obra de
ção para Deus e Seus propósitos, pois o Cristo e que ele já havia alcançado certa ma­
significado de santidade sugere uma separa­ turidade espiritual, o apóstolo também era
ção para Deus; e (2) a conduta que agrada a ciente da necessidade de crescer em santidade
Ele, que é a que imita a de Jesus. C om o tem­ e amor para atingir a estatura de Cristo.
po, passamos a pensar e agir como Cristo Todo cristão passa por essa experiência.
pensaria e agiria. Quando cremos em Jesus como nosso Salva­
Portanto, o alvo da santidade tem seu pa­ dor, a maioria de nós se alegra e dá graças a
drão moral em conformidade com a vontade Deus pela salvação. Sentimos que tudo mu­
e a mentalidade de Deus. Santificação é um dou. Somos libertos do pecado e feitos novas
desejo de crescer no caráter de Cristo. criaturas em Cristo. Todavia, ainda temos
nossas inclinações carnais, precisando melho­
P e r f e it o s , m a s se n d o a p e r f e iç o a d o s
rar nosso caráter e nossa conduta. Antes, tí­
Mesmo tendo sido regenerados e justifica­ nhamos maus hábitos. Agora, somos salvos.
dos aos olhos de Deus, continuamos sendo Porém, muitos desses maus costumes perma­
pecadores. Contudo, apesar de justificados necem por um tempo, enquanto somos trata­
diante do Senhor, estamos longe de sermos dos por Deus.
Podemos, então, duvidar da realidade da Sendo filhos de Deus, devemos ser como
salvação? N ão, pois o próprio fato de sermos Ele em santidade, assim como em outros as­
agora cientes dessas imperfeições comprova pectos de Seu caráter.
que a obra transformadora de Deus já se insta­ O texto de Romanos 7.15,21-23 é um
lou. Em vez de duvidar, devemos perceber que exemplo clássico do conflito existente na vida
entramos em uma nova vida, que em muito do cristão quando o pecado está presente (a
precisa ser mudada. À medida que Deus opera, segunda declaração de Murray).
ocorre uma crescente insatisfação com o peca­
do e uma crescente fome pela justiça divina. Porque o que faço, não o aprovo, pois o que
A santificação é um processo contínuo. quero, isso não faço; mas o que aborreço, isso
N o entanto, isso não significa que é menos faço. Acho, então, esta lei em mim: que, quando
importante ou dispensável. É tão importante quero fa zer o bem, o mal está comigo. Porque,
e necessária na salvação quanto a regeneração, segundo o homem interior; tenho prazer na lei
a justificação e a adoção. de Deus. Mas vejo nos meus membros outra lei
John Murray enfatizou a importância da que batalha contra a lei do meu entendimento
santificação com três declarações: (1) todo pe­ e me prende debaixo da lei do pecado que está
cado no cristão contradiz a santidade de Deus; nos meus membros (Rm 7.15,21-23).
(2) a presença do pecado na vida do cristão É inútil afirmar que esse conflito não é nor­
envolve conflito em seu coração; e (3) apesar mal. Quando há pecado na vida de quem tem
de o pecado ser passível ao cristão salvo, ele o Espírito de Deus, há uma contradição no
não o domina (M u r r a y , 1955, p. 144-145). coração da pessoa. Com efeito, quanto mais
A primeira declaração se baseia nas se­ santificada a pessoa for, mais conformada es­
guintes passagens: tará à imagem de seu Salvador e mais deverá
afastar-se do que não for santo. Quanto mais
Mas, como é santo aquele que vos chamou, profunda a apreensão da majestade de Deus,
sede vós também santos em toda a vossa maior a intensidade de seu amor por Deus,
maneira de viver, porquanto escrito está: mais persistente o seu desejo pelo chamado de
Sede santos, porque eu sou santo. Deus em Cristo Jesus, mais consciente ela se­
1 Pedro 1.15,16 rá da gravidade do pecado que permanece e
mais aguda será sua repulsa pelo pecado.
Porque tudo o que há no mundo, a concu- Quanto mais próxima ela estiver do Deus
piscência da carne, a concupiscência dos santo, mais pesará sua condição de pecadora,
olhos e a soberba da vida, não é do Pai, e dirá: Miserável homem que eu sou! (Rm
mas do mundo. 7.24). Não foi esse o efeito em todo o povo de
1 João 2.16 Deus em Isaías 6.5, ao aproximar-se da revela­
ção da santidade de Deus? Então, disse eu: ai
Amados, agora somos filhos de Deus, e de mim, que vou perecendo! Porque eu sou
ainda não é manifesto o que havemos de um homem de lábios impuros e habito no meio
ser. Mas sabemos que, quando ele se mani­ de um povo de impuros lábios; e os meus olhos
festar, seremos semelhantes a ele; porque viram o rei, o SE N H O R dos Exércitos! Como
assim como é o veremos. E qualquer que disse Jó, com o ouvir dos meus ouvidos ouvi,
nele tem esta esperança purifica-se a si mas agora te vêem os meus olhos. Por isso, me
mesmo, como também ele é puro. abomino e me arrependo no pó e na cinza (Jó
1 João 3.2,3 42.5,6). ( M u r r a y , 1955, p . 145)
O terceiro ponto de M urray é ensinado Senhor, somos transformados de glória
em Romanos 8.2-4: em glória, na mesma imagem, como pelo
Espírito do Senhor.
Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo
Jesus, m e livrou da lei do pecado e da mor­ Essas passagens falam de esvaziarmo-nos
te. Porquanto, o que era impossível à lei, e deixarmos Deus realizar a obra da santifica­
visto como estava enferm a pela carne, ção em nós.
Deus, enviando o seu Filho em semelhança Todavia, existem outras passagens que fa­
da carne do pecado, pelo pecado condenou lam do nosso papel na santificação, como: D i­
o pecado na carne, para que a justiça da lei go, porém : A ndai em Espírito e não cumprireis
se cumprisse em nós, que não andamos se­ a concupiscência da carne (G1 5.16).
gundo a carne, mas segundo o Espírito.
Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos
A santificação é importante sob a pers­ amados; revesti-vos de toda a armadura
pectiva de nossa própria realização como de Deus, para que possais estar firm es con­
cristãos. Porém , sua importância se eviden­ tra as astutas ciladas do diabo.
cia ainda mais quando vista sob essas três Efésios 5.1; 6.11
declarações de Murray. Se fôssemos dizer
que se tornar mais santo é desnecessário e Essas passagens tratam da nossa obrigação
que permaneceríamos no pecado, estaríamos de usar esses “meios da graça divina” que nos
declarando que Deus não é santo, que o pe­ são disponíveis.
cado não envolve uma contradição e um Devemos, então, esvaziar-nos no sentido
conflito em nós e que o Altíssimo não tem de deixar de lado o estudo da Bíblia, a oração,
vitória alguma para nós. Assim, estaríamos a comunhão com outros cristãos e a adoração
negando as Escrituras e chamando Deus de a Deus, para crescer na vida cristã? De manei­
mentiroso. ra nenhuma! Assim, iríamos estagnar na vida
N a verdade, devemos deixar o pecado e cristã e distanciar-nos do evangelho.
buscar a ajuda, a força e o encorajamento de Também estaremos errados se pensarmos
Deus para levarmos a vida de santidade de que fazer uso desses meios nos permite alcan­
que precisamos desesperadamente. çar nossa própria santificação automatica­
O que estou dizendo pode suscitar uma per­ mente. O entendimento correto seria uma
gunta bem complexa: Quem realiza a santifica­ combinação dos dois: Deus operando em nós
ção? Esse é um trabalho para o Espírito Santo. sendo diligentes e obedientes.
Lemos em 1 Tessalonicenses 5.23: Se já houve um momento de parar e ape­
nas se alegrar nas maravilhas do que Deus faz
E o mesmo Deus de paz vos santifique em em Cristo, ou seja, assistir passivamente à
tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo ação divina, este foi após o verdadeiro hino de
sejam plenamente conservados irrepreensíveis adoração a Jesus encontrado em Filipenses
para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. 2.5-11.

E em 2 Coríntios 3.18: D e sorte que haja em vós o mesmo senti­


mento que houve tam bém em Cristo J e ­
Mas todos nós, com cara descoberta, re­ sus, que, sendo em form a de Deus, não
fletindo, como um espelho, a glória do teve p o r usurpação ser igual a Deus. Mas
aniquilou-se a si mesmo, tomando a fo r­ temperança, a paciência, e à paciência, a
ma de servo, fazendo-se semelhante aos piedade, e à piedade, o am or fraternal, e
hom ens; e, achado na form a de hom em , ao am or fraternal, a caridade.
humilhou-se a si mesmo, sendo obediente 2 Pedro 1.3,5-7
até à morte e morte de cruz. Pelo qu e
tam bém D eus o exaltou soberanamente e John White disse:
lhe deu um nom e que é sobre todo o no­
me, para que ao nom e de Jesus se dobre Que ninguém se engane: sem o Espírito de
todo joelho dos que estão nos céus, e na Deus em nós, nossos esforços são em vão. N a­
terra, e debaixo da terra, e toda língua da bom pode vir da corrupção e da pecamino-
confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para sidade de nosso coração. Todavia, fomos redi­
glória de D eus Pai. midos, santificados e separados para o uso de
Deus. Que concordemos, então, com Deus
Contudo, Paulo não nos permite isso, haja nisso [...]. Que assumamos toda a armadura de
vista o que declarou: Deus e declaremos, por meio de força miracu­
losa, guerra a todo o mal que está em nós e à
D e sorte que, meus amados, assim como nossa volta. (W h i t e , 1976, p. 194)
sempre obedecestes, não só na minha p re­
sença, mas muito mais agora na minha Isso não é uma opção. Somos comissiona­
ausência, assim também operai a vossa sal­ dos por Deus, e é quando obedecemos a Ele
vação com temor e tremor; porque D eus é que ficamos mais cientes do poder do Espíri­
o que opera em vós tanto o querer como o to Santo que está em nós. N ão podemos espe­
efetuar, segundo a sua boa vontade. rar crescer espiritualmente, se não gozarmos
Filipenses 2.12,13 da comida e da bebida que o Altíssimo coloca
à nossa disposição.
O apóstolo não disse: “Trabalhem para a
sua própria salvação!”. Entretanto, é como se M e io s p a r a a l c a n ç a r as b ê n ç ã o s d e
dissesse: “Com o vocês são salvos, Deus já en­ D e u s ___________________________________________

trou em sua vida na pessoa e no poder de Seu A próxima parte deste livro discutirá os
Espírito, e está atuando em vocês, transfor- principais meios pelos quais podemos alcan­
mando-os à imagem do Senhor Jesus Cristo. çar as bênçãos de Deus: a oração, o estudo da
Vocês devem, agora, trabalhar com afinco Bíblia e o serviço cristão. Todavia, existem
para expressar a plenitude dessa grande rea­ também outros meios, pelo menos sete, e vale
lidade em sua conduta. Dessa forma, Deus a pena considerá-los:
operará”.
Pedro afirmou o mesmo: 1. Confiança. Já tocamos neste assunto no
capítulo sobre como podemos saber se fomos
Visto como o seu divino poder nos deu tu­ justificados. Ela é importante, pois pode aju-
do o que diz respeito á vida e piedade, pelo dar-nos a crescer na vida cristã.
conhecimento daquele que nos chamou Lutero discutiu esse tema da seguinte forma:
p o r sua glória e virtude, e vós também,
pondo nisto mesmo toda a diligência, Um coração duvidoso, que não crê firmemente
acrescentai à vossa f é a virtude, e ã virtu­ que receberá algo, não o receberá, tendo em
de, a ciência, e à ciência, a temperança, e à vista que Deus não pode dar coisa alguma nesse
caso. Tal coração é como um vaso que um 3. Estudo da Bíblia. A Sagrada Escritura é
homem segura movendo-o de um lado para o uma fonte de crescimento na vida cristã. Ela
outro. E impossível derramar algo nesse va­ proporciona confiança e conhecimento. C on ­
so, por mais que a pessoa queira. Deus quer tudo, esse meio de receber bênçãos é mais que
dar-nos o que desejamos, mas lá estamos, isso. Pelo estudo bíblico, buscamos conhecer
como um pedinte insensato, movendo nosso Deus pessoalmente. N a Bíblia, Ele revela a si
chapéu para cá e para lá, e querendo que al­ próprio e a Sua vontade para nós.
guma coisa seja colocada nele. ( P l a s s , 1959, C om o disse Jesus em oração: Santifica-os
p. 429) na verdade; a tua palavra é a verdade (Jo
17.17).
Confiar é o item primordial na santifica­ Davi escreveu:
ção, pois se trata de tomar posse da Palavra de
Deus e de saber entender que Ele já começou Bem-aventurado o varão que não anda
a obra da salvação em nós. Crendo no Senhor segundo o conselho dos ímpios, nem se de­
até aqui, podemos crer nele em outras ques­ tém no caminho dos pecadores, nem se as­
tões. Se estivermos confiantes de que, verda­ senta na roda dos escarnecedores. Antes,
deiramente, começamos nossa jornada, pode­ tem o seu prazer na lei do S E N H O R , e na
remos lidar com ela como deveríamos. sua lei medita de dia e de noite.
Salmo 1.1,2
2. Conhecimento. Saber de tudo não é es­
sencial para a santificação. Saber o mínimo, O salmista meditava na Lei de Deus de dia
entretanto, ajuda. e de noite? Ele precisava fazer isso, afinal ti­
Certo escritor disse: “Assim como a con­ nha imensas responsabilidades junto à nação
fiança é um fundamento prático [...], o conhe­ (como segurança, administração, justiça etc.).
cimento de nossa posição em Cristo é a estra­ Por essa razão, era levado a meditar na Lei de
da que leva à santidade” ( B a r n h o u s e , 1951, Deus constantemente.
p. 37). Quem agir da mesma forma será como a
O que os cristãos devem conhecer para árvore plantada junto a ribeiros de águas, a
crescer na vida cristã? A pessoa do Espírito qual dá o seu fruto na estação própria, e cujas
Santo e Sua obra; a iniciativa de Deus de folhas não caem, e tudo quanto fizer prospera­
conduzir-nos à fé em Cristo; o ministério do rá (SI 1.3).
Espírito de unir-nos a C risto, do qual vem Se alguém quiser realmente conhecer
nosso novo status diante de Deus; nosso Deus e a vontade dele para sua vida, o cami­
acesso ao Pai por meio da oração; e nossa nho principal deverá ser o estudo da Palavra.
segurança em Cristo (veja os primeiros capí­
tulos deste livro). 4. Oração e adoração. O estudo da Bíblia
Se você conhecer seu novo status, poderá é a maneira pela qual Deus fala a nós. Para
tomar posse de certos privilégios. Se souber haver um diálogo com Ele, portanto, precisa­
que o Altíssimo ouve suas orações, poderá mos falar com Ele. E aí que entram a oração e
ficar na dependência do Espírito Santo para a adoração.
orar e ter suas orações interpretadas. Se tiver Diferentes entre si, a adoração e a oração
segurança em Cristo, poderá até tropeçar ou estão intimamente ligadas. O rar é falar com o
cair, mas saberá que nada arrebatará você da Altíssimo por meio da adoração, da confis­
mão de Jesus. são, da ação de graças ou da intercessão. A
adoração é um ato de louvor. Pode dar-se por ser gratos pela comunhão que temos com eles
meio de canções e/ou da exposição da Palavra na Igreja.
de Deus. Por conseguinte, a adoração inclui Quando a Igreja do primeiro século se
oração e meditação. reunia em Jerusalém, seus membros perseve-
Tanto a oração como a adoração se ba­ ravam na doutrina dos apóstolos, e na comu­
seiam em nosso conhecimento de Deus por nhão, e no partir do pão, e nas orações (At
meio das Escrituras. A adoração, para ser em 2.42). A comunhão está em igualdade com
espírito e em verdade, como Jesus disse (Jo outro meio de receber as bênçãos divinas.
4.24), deve fundamentar-se nas verdades con­
cernentes ao Senhor, as quais são reveladas na 6. Serviço. Para que a vida cristã não seja
Bíblia. egoísta nem introvertida, deve haver serviço a
Ambas são, essencialmente, um encontro Deus e aos outros, por meio do evangelismo, da
com Deus, não um mero ato religioso. generosidade e de outros atos de compaixão.
Reuben A. Torrey falou a respeito da difi­ O livro de Atos trata disso explicitamente:
culdade que teve em relação à oração e sobre
como isso mudou. Todos os que criam estavam juntos e ti­
nham tudo em comum. Vendiam suas pro­
Um dia, percebi o que verdadeiramente a ora­ priedades e fazendas e repartiam com to­
ção significa. A oração é como uma audiência dos, segundo cada um tinha necessidade.
com Deus. É entrar em Sua presença e pedir e Atos 2.44,45
receber coisas dele. A percepção desse fato
transformou minha vida de oração. Antes, Isso não significa que eles vendiam tudo o
minha oração era como um dever, muitas ve­ que tinham, muito menos que todos os cris­
zes, fastidioso. Agora, um dos meus mais esti­ tãos devem fazê-lo. Com o o texto diz que
mados privilégios. Antes, meu pensamento aqueles irmãos partiam o pão em casa (At
era: “Quanto tempo devo passar orando?”. 2.46), provavelmente alguns não vendiam su­
Agora: “Quanto tempo posso passar orando as propriedades. Isso quer dizer que eram
sem prejudicar outros privilégios e deveres?”. extremamente generosos com o que possuí­
(T o r r e y , 1955, p. 77) am, que se preocupavam com as necessidades
uns dos outros.
O mesmo pode ser dito da adoração. Hoje, nosso papel deve ser compartilhar
Quanto tempo devo passar adorando a Deus nossos bens materiais, assim com o nosso
sem prejudicar os outros deveres que Ele me tempo, encorajando e ensinando os outros,
concedeu? evangelizando ou contribuindo com nossos
talentos ou habilidades para o crescimento da
5. C o m unhão. P or meio desse gesto, Igreja de Cristo.
expressamos o novo relacionamento com
outros cristãos, que discutimos no capítulo 9. 7. O retorno de Cristo. U m tipo de enco­
P or vezes, os cristãos pensam que o impor­ rajamento e crescimento na vida cristã é o re­
tante é o relacionamento com Deus, não com torno de Cristo, nossa bem-aventurada espe­
os homens. rança (Tt 2.13).
Pura ilusão. Todos nós devemos reconhe­
cer nossa necessidade dos outros, bem como Amados, agora somos filhos de Deus, e
os dons que eles têm. Além disso, precisamos ainda não é manifesto o que havemos de
ser. Mas sabemos que, quando ele se mani­ influenciado pelo pensamento do retorno
festar, seremos semelhantes a ele; porque de nosso Senhor p or sequer uma hora”.
assim como é o veremos. E qualquer que Nesse caso, a expectativa de encontrar-se
nele tem esta esperança purifica-se a si com o Senhor face a face foi uma das maio­
mesmo, como também ele é puro. res motivações por trás de seus programas
1 João 3.2,3 sociais.
Com o podemos purificar-nos? N ão o po­
Se somos cristãos, sabemos que Deus con­ demos. N o entanto, Deus o fará, se usarmos
tinuará Sua obra conosco até o dia em que esses meios para obter Suas bênçãos.
formos como Jesus (Fp 1.6), por meio da O poeta inglês Robert Herrick escreveu o
morte ou da Sua segunda vinda. Sabemos que seguinte sobre nossa purificação:
seremos como Cristo: puros, aperfeiçoados
no amor e virtuosos. Senhor, confesso que só Tu podes
João afirmou que, se crermos nisso, tenta­ purificar este coração,
remos ser como Ele o máximo que pudermos. Os oceanos podem ser a água, e a terra, o sabão,
Isso deve afetar todos os aspectos de nossa contudo, se Teu sangue não me lavar, esperança
vida pessoal: nossas orações, nossas escolhas não haverá.
profissionais, nossa ética, nosso uso do tem­
po livre e nossas preocupações sociais. N ão sendo pela graça de Deus, não há es­
O grande reform ador social inglês Lord perança para ninguém. Porém, Ele nos conce­
Shaftesbury, um cristão maduro, disse perto de os meios que nos possibilitam crescer na
do fim de sua vida: “N ão creio que, nos úl­ graça, no amor e no conhecimento do nosso
timos 40 anos, vivi ciente de que não era Senhor e Salvador Jesus Cristo.
A vida do cristão

Então, disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si
mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me.
Mateus 16.24

Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou e não tomeis a meter-vos de­
baixo do jugo da servidão.
Gálatas 5.1

E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso enten­
dimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
Romanos 12.2

Não estejais inquietos por coisa alguma; antes, as vossas petições sejam em tudo conhe­
cidas diante de Deus, pela oração e súplicas, com ação de graças. E a paz de Deus, que
excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em
Cristo Jesus.
Filipenses 4.6,7

Bem-aventurado o varão que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no
caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escamecedores. Antes, tem o seu
prazer na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite.
Salmo 1.1,2

Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus
preparou para que andássemos nelas.
Efésios 2.10
A brace a cruz

1) e os executivos da Avenida Madison, Que os anos de tua vida sejam agradáveis.


em Manhattan, Nova Iorque, Estados Que teus lindos sonhos se realizem.
Unidos, estivessem interessados em E que, em tudo o que planejas e praticas,
atrair pessoas para a vida cristã, enfa­ Bênçãos venham sobre ti.
tizariam seus aspectos positivos e gratificantes. Que tua vida tenha muito sucesso
Falariam do cristianismo como uma forma de E que traga muitas surpresas positivas!
plenitude de vida e felicidade. Que a memória de dias alegres
Isso porque nós, que vivemos no Ociden­ Apenas prove que mais dias assim virão. (A u­
te, infelizmente somos tão condicionados a tor desconhecido)
esse tipo de pensamento (mais especificamen­
te a esse modelo de evangelismo cristão ou Contudo, se formos honestos com a Pala­
marketing cristão) que nos chocamos quando vra de Deus, falaremos como Jesus:
aprendemos que o maior princípio do cristia­
nismo é negativo1. N ão é do tipo: “Venha a
Cristo, e todos os seus problemas desaparece­ Se alguém vier a mim e não aborrecer a
rão !”, mas, como o próprio Senhor declarou: seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos,
e irmãs, e ainda tam bém a sua própria vi­
Se alguém quiser vir após mim, renuncie- da, não pode ser m eu discípulo. E qual­
s e a si mesmo, tome sobre si a sua cruz e qu er que não levar a sua cruz e não vier
siga-me; porque aquele que quiser salvar a após mim não pode ser m eu discípulo. As­
sua vida perdê-la-á, e quem p erd er a sua sim, pois, qualquer de vós que não renun­
vida p o r amor de mim achá-la-á. Pois que cia a tudo quanto tem não pode ser m eu
aproveita ao hom em ganhar o m undo in­ discípulo.
teiro, se p erd er a sua alma ? Ou que dará o Lucas 14.26,27,33
hom em em recompensa da sua alm a?
Mateus 16.24-26 N a verdade, na verdade vos digo que, se o
grão de trigo, caindo na terra, não morrer,
Se eu estivesse escrevendo acerca do cris­ fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto.
tianismo da maneira como nossa cultura o vê, Q uem ama a sua vida perdê-la-á, e quem,
comporia um poema exatamente com o este, neste mundo, aborrece a sua vida, guardá-
encontrado na parede de uma sala de espera -la-á para a vida eterna.
no campus de uma universidade cristã:
Bem-aventurados os pobres de espírito, sacrifício vivo, santo e agradável a Deus,
porque deles é o Reino dos céus; bem-aven- que é o vosso culto racional.
turados os que choram, porque eles serão
consolados; bem-aventurados os mansos, Sobre esse assunto, Calvino - em seus co­
porque eles herdarão a terra; bem-aventu- mentários acerca de Romanos 12.1,2 - fez um
rados os que sofrem perseguição por causa dos apelos mais fortes em As Institutas\
da justiça, porque deles é o Reino dos céus;
bem-aventurados sois vós quando vos inju­ Portanto, se não somos de nós mesmos (1 Co
riarem, eperseguirem, e, mentindo, disserem 6.19), mas do Senhor, fica claro qual erro deve­
todo o mal contra vós, por minha causa. mos evitar e para onde devemos direcionar to­
Mateus 5.3-5,10,11 dos os atos de nossa vida. Não somos de nós
mesmos. Que nem nossa razão nem nossa von­
N ão há como negar a presença de hipér- tade interfiram em nossos planos ou nossas
bole semítica nas passagens bíblicas anterio­ ações! Não somos de nós mesmos. Que não
res. Aquele que nos mandou amar uns aos busquemos o que convém à nossa carne! Não
outros não está defendendo o cultivo de uma somos de nós mesmos. Na medida do possível,
animosidade literal para com os membros de que nos esqueçamos de nós mesmos e de tudo
nossa própria família apenas. o que for nosso! Somos de Deus. Por conse­
guinte, vivamos e morramos para Ele! Somos de
E m verdade vos digo que ninguém há, que Deus. Que Sua sabedoria e vontade governem
tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, nossas ações! Somos de Deus. Que todas as áre­
ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou as de nossa vida se empenhem em buscá-lo (Rm
campos, p o r amor de mim e do evangelho, 14.8)! Como é feliz a pessoa que, ao saber que
que não receba cem vezes tanto, já neste não pertence a si mesma, submete-se à vontade
tempo, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, de Deus! O fim de quem busca seus próprios
e filhos, e campos, com perseguições, e, no interesses é a destruição; já o de quem busca os
século futuro, a vida eterna. de Deus, a salvação. ( C a l v in o , 1960, p. 690)
Marcos 10.29,30
A ideia da morte em Jesus é repetida em
Finalmente algo positivo sobre o evange­ outras passagens nos Evangelhos2. Logo, vale
lho! N o entanto, repare o final do último ver­ considerar suas três etapas [da nossa mortifi­
sículo, que fala de recompensas, mas com cação]: (1) devemos negar a nós mesmos; (2)
perseguiçõesl precisamos levar a cruz de Cristo; e (3) temos
A questão não é lutar até a morte ou re­ de seguir Jesus.
nunciar a tudo. A o contrário, morrer e re­
nunciar a todas as coisas é o princípio da vida N e g a n d o a n ó s m e s m o s ____________________

com Deus! A abnegação - ou renúncia - do próprio


Em Romanos 12.1, Paulo aludiu a essa ego não pode ser considerada algo difícil para
verdade ao apresentar o autossacrifício como o cristão entender, pois isso é o que significa
o princípio da vida cristã em seu tratamento ser cristão. Ser de Cristo significa agradar a
mais formal: Deus, não mediante os nossos próprios méri­
tos ou esforços, mas aceitando, pela fé, o que
Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de o Altíssimo fez por intermédio de Jesus para
Deus, qu e apresenteis o vosso corpo em nos salvar.
Ninguém pode salvar a si mesmo. Por is­ ele. N a realidade, devemos renunciar a tudo
so, devemos rejeitar nossos próprios esforços aquilo que estiver entre Cristo e nós, seja al­
e receber a salvação divina gratuitamente. guma outra pessoa (o cônjuge, os filhos), um
A vida cristã é, portanto, somente uma negócio, uma ambição, a fama, o poder.
questão de confiar no Caminho que já havía­ Caso você queira conferir se há algo to ­
mos iniciado. Porém, isso não é fácil. Esse mando o lugar que deveria ser de Deus em
princípio é tão desfavorável que o cristão seu coração, observe os demais mandamentos
sempre tende a viver por seus próprios pa­ a seguir.
drões humanos, tendo em vista nossa nature­ Em Deuteronôm io 5.17, lemos: Não ma­
za e a cultura em que estamos inseridos. tarás. Devemos dizer não a qualquer desejo
de matar ou de acabar com a reputação de
Sempre fomos cercados por pessoas que não di­ alguém.
zem não a coisa alguma, vivemos num mundo Em Deuteronômio 5.18, está escrito: Não
onde tudo é julgado pelo tamanho, pela grandeza adulterarás. Temos de dizer não a todo desejo
e/ou pelo sucesso. Agora, de repente, aprende­ de possuir o cônjuge alheio.
mos que, na vida cristã, deve existir o não às coi­ Em Deuteronômio 5.19, é dito: E n ãofur-
sas e o não a si mesmo? Complicado! Se isso não tarás. E preciso que digamos não a qualquer
estiver soando difícil, é capaz de você não estar anseio de possuir um bem de alguém.
entendendo a questão. (S c h a e f f e r , 1971, p. 19) Se não dissermos não a essas vontades pe­
caminosas, não poderemos afirmar que esta­
Experimentar a morte e a renúncia implica mos vivendo a novidade de vida em Cristo.
estarmos dispostos a dizer não a qualquer coi­
sa que for contrária à vontade divina para nós, D e sorte que fom os sepultados com ele pelo
ou seja, a tudo o que fo r contrário à Bíblia. batismo na morte; para que, como Cristo
Jesus nos livrou da condenação na Lei de ressuscitou dos mortos pela glória do Pai,
Deus. Agora, não é mais um conjunto de re­ assim andemos nós também em novidade
gras que pode justificar-nos. Contudo, deve­ de vida.
mos, ainda assim, obedecer às Escrituras, pois Romanos 6.4
elas revelam a natureza do Altíssimo e mos-
tram-nos coisas em nossa vida às quais, por Para experimentarmos a mortificação e a
meio do poder divino em nós, devemos dizer renúncia, deveremos também dizer não a tu­
não para continuarmos em Cristo. do o que não for da vontade de Deus para
O primeiro dos Dez Mandamentos é um nós. Isso vai além do que falamos quando
exemplo do que é dizer não a tudo aquilo que tratamos da Lei. N em tudo permitido na Pa­
possa tirar Deus de Seu devido lugar em nos­ lavra do Senhor é da Sua vontade para o nos­
so viver: Não terás outros deuses diante de so viver.
mim (D t 5.7). Por exemplo, não há coisa alguma errada
Esses outros deuses podem ser tanto um com o casamento. N a verdade, o casamento
ídolo como o dinheiro. Recursos financeiros, foi algo estabelecido por Deus e tem a Sua
pessoas ou coisas, nada pode tomar o lugar de bênção. Contudo, pode não ser da vontade
Deus em nossa vida. divina para você casar com determinada pes­
De fato, é possível ser rico e seguir Jesus. soa em particular. Nesse caso, é preciso dizer
O problema é quando o dinheiro se torna um não a isso consciente e deliberadamente. O
deus. Então, temos de dizer não ao amor a mesmo se dá quanto a uma profissão, à nossa
ideia acerca de nós mesmos etc. E difícil? Sim, fazia de mim um prisioneiro. Esta era é a lei do
até mesmo para a pessoa mais santa. pecado, manifestada na força do hábito, pela
Atente para a luta pela qual passou Agos­ qual a mente é levada e feita cativa de tudo lon­
tinho: ge de nossa vontade própria — merecidamen-
te, é claro, caí no hábito por conta própria.
A nova vontade que havia brotado em mim e Como eu poderia libertar-me dessa condição?
me feito desejar a liberdade para adorar e rego- Só Tu, meu Deus, por meio de Jesus Cristo, o
zijar-me em Ti, Senhor, a única alegria verda­ meu Senhor, poderia ter me libertado. (W i r t ,
deira, ainda não era forte o bastante para tomar 1971, p. 108,109)
o lugar da antiga vontade, que se enraizara com
o tempo. Logo, houve em mim um conflito de Essas palavras de Agostinho revelam o
vontades — uma carnal e uma espiritual —, conflito de desejos que há no interior do cris­
que partiu meu coração em pedaços. tão, bem com o a dificuldade que é render-se à
Por experiência própria, sei exatamente o que vontade divina. Por outro lado, nelas há uma
Paulo quis dizer com a carne cobiça contra o declaração da bênção de negar a si mesmo em
Espírito, e o Espírito, contra a carne (G1 5.17). nome de Cristo.
Felizmente, eu estava mais no Espírito que na Como propôs Thomas à Kempis, em Imita-
carne. Quando fazia coisas que eu sabia serem tion o f Christ [Imitando Cristo], devemos orar:
erradas, eu não agia segundo a minha vontade.
Assim, por vezes, eu me encontrava em um Ó Senhor, conheces o melhor. Portanto, faze
lugar onde não gostaria de estar. Mas eu costu­ como quiseres. Dá-me o que quiseres, o quan­
mava desculpar-me dizendo que não sabia, ao to quiseres e quando quiseres. Age de maneira
certo, o que era a verdade e o que não era. En­ que Teu nome seja honrado. Põe-me onde qui­
tão, continuava seguindo os caminhos do seres e lida comigo da maneira que bem enten-
mundo, em vez de servir-te. deres. [...] O que poderá ser ruim para mim, se
Agora, entretanto, eu estava certo quanto à Tu estiveres presente? E melhor ser pobre e ter
verdade, mas, apesar disso, recusava-me a ser­ a Ti que ser rico sem ter a Ti. E melhor ser um
vir-te. Eu tinha mais medo de livrar-me de mi­ peregrino contigo que possuir o céu sem Ti.
nhas frustrações do que de frustrar-me! Por Onde estiveres, ali estará o céu. Onde não esti­
conseguinte, apesar de pressionado pelas veres, ali estarão a morte e o inferno. ( K e m p i s ,
opressões do mundo, eu não me preocupava. 1958, p. 125,213)
Quando pensava em Ti, procurava não ver o
quão real Tu és. Eu ficava sem ação quando Tu Com o, então, saber se estamos dizendo
me dizias: Desperta, ó tu que dormes, e levan- não a tudo o que não for da vontade de Deus
ta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá para nós? Quando não estivermos mais recla­
(Ef 5.14). Tu usavas todos os meios para me mando. Se agirmos como os israelitas, que
transmitir a verdade das Tuas palavras! Às ve­ murmuraram no deserto, não estaremos devi­
zes, eu me sentia tão culpado que não podia damente dando as costas ao Egito. Estamos
responder outra coisa, senão: “Sim, Senhor, já prontos [para fazer a vontade de Deus] quan­
vou! Não precisas insistir!”. Todavia, esse já do paramos de fazer queixas.
não era bem u m /i, mas um quando der.
Em meu interior, eu tinha prazer na Tua Lei, L evan do a cruz d e C r i s t o ________________

mas percebia que havia em mim outra lei, que A segunda expressão do princípio de m or­
lutava contra aquela que eu aprovava e que tificação e da renúncia é a própria morte em
si; aquela a que Jesus se referiu ao dizer que que, naquele instante, se Jacó pudesse ir em­
devemos tomar nossa cruz para servi-lo. Para bora, ele o faria. Contudo, a situação estava
entendermos isso, precisamos, primeiro, ob­ tão difícil com Labão que, àquela altura, recu­
servar o sentido desse tomarmos a nossa cruz ar era algo fora de cogitação. Agora, Jacó só
(Mt 10.38). poderia seguir adiante. Sendo assim, disse a
Hoje, quando as pessoas falam de levar ou seus servos que fossem bem à frente dele, a
suportar sua cruz, o que têm em mente é al­ fim de descobrirem que reação Esaú poderia
gum tipo de problema, como, por exemplo, esboçar.
certa doença, algum vício do cônjuge, um lo­ Logo aqueles mensageiros se depararam
cal de trabalho não muito agradável etc. N o com Esaú seguido por 400 homens. Então,
entanto, isso não é o que Cristo quer dizer voltaram dizendo a Jacó: Fomos a teu irmão
com tomarmos a nossa cruz. Esaú; e também ele vem a encontrar-te, e
N a época de Jesus, a cruz simbolizava a quatrocentos varões com ele (Gn 32.6).
morte porque era um meio de execução. L o ­ Se Jacó já tinha motivos para temer, agora,
go, o que Ele estava dizendo é que devería­ então, com essa notícia, sua situação piorava
mos morrer para nós mesmos. Trata-se de al­ ainda mais. O que deveria fazer? Jacó olhou à
go mais forte que uma simples renúncia. Ele sua volta e, engenhosamente, decidiu presen­
falou que devemos renunciar ao nosso eu tear o irmão com seus bens.
voluntária e continuamente. Acreditando que, de alguma forma, pode­
Tomarmos a nossa cruz seria algo mais ria quebrantar o coração de Esaú, Jacó enviou
forte que uma simples renúncia, haja vista ao irmão um rebanho de 200 cabras, 20 bo­
que é possível negarmos a nós mesmos diver­ des, 200 ovelhas, 20 carneiros, 30 camelas, 40
sas vontades, sem, contudo, renunciarmos ao vacas, 10 novilhos, 20 jumentas e 10 jumenti-
nosso eu. nhos (Gn 32.14,15) pela mão de três servos,
E possível estar entre a indecisão de Agos­ recomendando-lhes: “Quando Esaú vir vocês
tinho e a entrega total de Kempis. Com fre­ e lhes perguntar: ‘De quem vocês são servos?
quência, fazemos com o Jacó (Gn 32). Ele re­ Aonde estão indo? Quem é o dono desses ani­
gressou à Terra Prometida após 20 anos mais?’, digam: ‘Pertencem a teu servo Jacó. São
trabalhando para seu tio Labão. Jacó havia um presente dele para ti, senhor Esaú. Jacó
enganado seu irmão Esaú. Assim, teve de fu­ vem logo atrás de nós!’” (cf. Gn 32.17-20).
gir para a casa de seu tio, situada no outro la­ [Ao repartir o rebanho em três grupos e
do do deserto, porque Esaú havia jurado ma­ enviá-lo pela mão de três servos] E provável
tá-lo. P or isso, grande era o temor de Jacó. que Jacó tenha pensado: “Se Esaú não ficar
N o entanto, depois de duas décadas, este satisfeito com o primeiro presente, é melhor
acabou esquecendo-se de tal ameaça. que eu lhe dê também outros animais!”. As­
Vinte anos depois, ao aproximar-se cada sim, todos os bens de Jacó foram oferecidos ao
vez mais da terra de onde fugira e em que seu irmão na forma de uma extensa passeata.
Esaú ainda habitava, Jacó foi, de novo, toma­ Ao encontrarem Esaú, os servos de Jacó
do de pavor. Naquele momento, começou a deviam apenas dizer: “Isto é um presente do
lembrar-se das ameaças feitas por seu irmão. teu servo Jacó para ti, senhor E saú!”.
Cada passo que dava na direção deste torna­ Em certo momento, Jacó se viu sem bem
va-se mais e mais árduo. algum. Ao perceber que lhe restavam, ainda,
A o chegar ao vau de Jaboque, Jacó olhou suas esposas e seus filhos, deve ter pensado:
para o lugar onde sabia que Esaú vivia. Creio “Também terei de dá-los a Esaú?”. [Temendo
perder toda a família, Jacó] enviou na frente norteadores do discipulado da vida cristã, que
Léia, a esposa por quem tinha menor apreço, precisam ser adotados durante todo o nosso
e os filhos que teve com ela. Já Raquel, aquela viver.
de quem mais gostava, foi enviada depois Mas, em termos práticos, como renunciar a
com os dois filhos do casal. P or último, atrás nossos planos e interesses? H á somente uma
de todos eles, iria Jacó. forma de isso acontecer: seguindo Cristo, fixan­
Isso remete ao que fazemos quando o Al­ do nosso olhar nele, que é o maior exemplo de
tíssimo se aproxima de nós, e nós o tememos. renúncia. O Mestre disse não inclusive à Sua
Então, pensamos: “Para acalmá-lo, darei a Ele glória celestial para se tornar um homem de car­
meu dinheiro!”. Porém, embora não entenda­ ne e osso e morrer para nos salvar (Fp 2.5-11).
mos o porquê disso, Deus parece não se satis­ O autor de Hebreus, logo após redigir
fazer apenas com nossos recursos financeiros. aquele maravilhoso texto sobre os heróis da
Propomos: “Darei a Ele o meu tempo! Vou fé, escreveu:
servi-lo na igreja! Lecionarei na escola bíblica
dominical”. Além disso, entregamos a Ele a Portanto, nós também, pois, que estamos ro­
nossa família, mas não o nosso próprio ser. deados de uma tão grande nuvem de teste­
Então, quando nos encontramos nus perante munhas, deixemos todo embaraço e o pecado
os Seus olhos, o Senhor envia o Seu anjo, a que tão de perto nos rodeia e corramos, com
fim de que “lute” conosco e, com isso, apren­ paciência, a carreira que nos está proposta,
damos a submeter-nos a Ele. olhando para Jesus, autor e consumador da
O único problema dessa ilustração é que, fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto,
nesse caso, morrer para si mesmo e levar a suportou a cruz, desprezando a afronta, e
cruz parece um simples ato de rendição, quan­ assentou-se à destra do trono de Deus.
do, na verdade, trata-se de todo um processo Hebreus 12.1,2
de obediência e disciplina diária, durante o
qual pode haver momentos de crise e de deci­ Jesus também nos transmitiu esse ensina­
sões importantes. Entretanto, a batalha não é mento. N ota-se isso quando estudamos minu­
ganha nesse ponto, uma vez que nossas escolhas ciosamente as passagens acerca da morte e re­
devem ser seguidas de decisões diárias pelo não núncia em que Ele tratava de si mesmo, de Seu
à nossa própria vontade e o sim à de Deus. sofrimento e de Sua morte de cruz. Marcos 10
Isso é indicado pelo texto original grego é o exemplo mais claro disso. Nele Jesus ensina
em Mateus 16.24, que faz uso do verbo no sobre o discipulado, indicando que Seus discí­
tempo presente. U m a melhor tradução da pulos deviam: (1) apegar-se à revelação das Es­
passagem bíblica seria: “[Sempre] tome sobre crituras (v. 1-12); (2) aproximar-se de Deus com
si a sua cruz e siga-me”. a fé simples de uma criança (v. 13-16); e (3) saber
que bens frequentemente formam uma verda­
O DISCIPULADO DIÁRIO_____________________ ; deira barreira para o discipulado (v. 17-31).
Esse assunto leva-nos ao próximo ponto: o Nesta última passagem, Ele introduziu a ques­
discipulado. Quando Jesus falou que devería­ tão da perda da família e de bens, que pode
mos renunciar a nós mesmos e tomar a nossa ocorrer quando seguimos Jesus e Seu evange­
própria cruz, Ele, obviamente, não afirmou lho. Eis a passagem subsequente:
que deveríamos ser crucificados no sentido li­
teral. O que está em jogo nessas duas ordenan­ E iam no caminho, subindo para Jerusa­
ças [tomar a cruz e segui-lo] são os princípios lém ; e Jesu s ia adiante deles. E eles
maravilhavam-se e seguiam-no atemori­ Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não
zados. E, tornando a tomar consigo os do­ mais eu, mas Cristo vive em m im; e a vida
ze, começou a dizer-lhes as coisas que lhe que agora vivo na carne vivo-a na f é do
deviam sobrevir, dizendo: Eis que nós su­ Filho de Deus, o qual m e amou e se entre­
bimos a Jerusalém, e o Filho do H om em gou a si mesmo p o r mim.
será entregue aos príncipes dos sacerdotes e Gálatas 2.20
aos escribas, e o condenarão à morte, e o
entregarão aos gentios, e o escarnecerão, e N a ordem bíblica, a m orte é sempre se­
açoitarão, e cuspirão nele, e o matarão; guida de vida; e é para conquistar essa vida
mas, ao terceiro dia, ressuscitará. que devemos estar dispostos a m orrer [para
Marcos 10.32-34 nós mesmos e nossa vontade]. E quando
deixamos de viver para nós mesmos e abri­
C om essa instrução, Jesus pediu a devoção mos mão daquilo que achamos precioso e
completa de Seus seguidores. Seus seguidores indispensável a nós que encontram os a ver­
devem renunciar a tudo pela causa do evange­ dadeira felicidade: a de adotar a vida cristã,
lho. Porém, Cristo não pediu algo que Ele livre de qualquer obsessão que outrora cos­
mesmo não faria, mas Ele próprio deu o tumava aprisionar-nos de alguma forma.
exemplo do que deveria ser feito com a vida. Essa é a maior diferença entre uma vida cris­
O Mestre também falou acerca de Sua res­ tã feliz e vitoriosa e uma infeliz e fracassada: a
surreição e ensinou que o caminho para a morte e a ressurreição. Cristãos infelizes po­
morte e a renúncia, apesar de doloroso, leva a dem ter morrido e renascido em Cristo, tor-
uma vida abundante. Sobre essa questão, nando-se, assim, novas criaturas em Jesus. N o
Paulo escreveu: entanto, certamente nunca experimentaram a
vida abundante que Ele nos disponibiliza.
Porque, se fom os plantados juntam ente Cristãos felizes são os que encontraram satisfa­
com ele na semelhança da sua morte, tam­ ção em tudo o que Deus lhes dá e que disseram
bém o seremos na da sua ressurreição. não a tudo o que pudesse afastá-los de uma
Romanos 6.5 nova vida abençoada na presença de Deus.

N otas

1 O autor fala de marketing negativo referindo-se ao convite de Jesus: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si
mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me.
2 Sobre essa ideia, veja Mateus 10.34-39; Marcos 8.34-38; 10.21,29-31; Lucas 9.23-25; 14.26,27,33; João 12.24-26.
Outros escritores do Novo Testamento também evocam essa ideia em seus escritos, como Paulo em Romanos 6.3-
11; Gálatas 2.20; 6.14 e o autor de Hebreus, em Hebreus 12.1,2.
L ib er d a d e, l ib e r d a d e !

I/*% ° último capítulo, vimos o aparen- Altíssimo e gratos a Ele. A dificuldade que
/1 / te paradoxo no âmago da vida cris- muitos enfrentam é o fato de quererem ser o
/ 1/ tã: morrer para si mesmo, para vi- que não são e o que nunca poderão ser. Quem
f ver para o Altíssimo. Pois bem, deseja isso está condenado à frustração.
existe também outra aparente contradição: A liberdade pode ser definida com o “a ha­
devemos tomar-nos servos de Cristo, a fim de bilidade da realização do maior objetivo de
sermos verdadeiramente livres. alguém” ( N i c o l e , 1976, p. 23). Hoje, pelo me­
Contudo, não há paradoxos nas Escritu­ nos em nossa cultura, a liberdade é tida como
ras. Ainda que a doutrina da Trindade seja autonomia. Todavia, ninguém pode ter uma
considerada paradoxal, ela não o é. Deus, sen­ autonomia total, pois vivemos em um univer­
do um, manifesta-se em três pessoas distintas. so criado e mantido por um Deus soberano.
Da mesma forma, quando falamos que preci­
samos ser servos de Jesus para sermos livres, 1. A busca pelo enriquecimento pode ser
isso quer dizer que podemos ser servos em uma tentativa de alcançar a liberdade fora dos
um sentido e livres em outro; livres para ser­ padrões de Deus ou, até mesmo, dentro,
mos tudo o que Deus quer que sejamos. quando se espera dele riqueza. Essa busca, a
A liberdade cristã é como a desfrutada por qual é provavelmente o maior objetivo no
alguém em relação a seu cônjuge. Apesar de Ocidente, está tornando-se uma realidade ca­
serem duas pessoas distintas, os cônjuges es­ da vez mais comum também no Oriente.
tão ligados um ao outro, são um casal, e como A maioria das pessoas que buscam enri­
tal nenhum dos dois é livre para ter relações quecimento negaria que seu interesse é ape­
amorosas com qualquer outra pessoa, a não nas o dinheiro ou que ela é materialista, se
ser um com o outro. Ambos estão livres do questionada. N o entanto, grande parte delas
medo da rejeição em função de seu com pro­ considera a autonomia financeira a verdadeira
misso pessoal um com o outro. E , é claro, liberdade. Por sinal, muitos buscam essa au­
continuam livres para amar os outros com tonomia para irem aonde querem e realiza­
qualquer outro tipo de amor [que não seja o rem seus desejos quando tiverem vontade.
conjugal], como o fraternal, por exemplo. Ninguém quer ater-se à rotina de um empre­
go ou de uma determinada causa por motivos
A BUSCA DA LIBERDADE______________________ financeiros.
A chave para a liberdade é sermos o que Os cristãos não têm nada contra quem lu­
fomos criados para ser: servos obedientes ao ta por boas condições de vida; afinal, a miséria
não é boa para ninguém. Mas engana-se quem os outros fizeram ou assumiram no passado,
pensa que muito dinheiro traz liberdade, pois principalmente quando se trata de ética.
essa é uma questão de mente e de alma. A ri­ Contudo, a lei não é anulada pelo simples
queza pode, quando muito, mudar para me­ fato de discordarmos dela. Tampouco nossa
lhor nosso estilo de vida. Entretanto, muitas consciência. Isso só seria possível se fôssemos
vezes, a riqueza é justamente o fator que apri­ nosso próprio criador, ou seja, autônomos e
siona as pessoas, principalmente quando lhes responsáveis apenas por nós mesmos. Porém,
proporciona o medo de serem roubadas. não somos nossos próprios criadores nem au­
tônomos ou totalmente independentes.
2. A busca pelo descompromisso é outra Todos nós temos de prestar contas a al­
tentativa de encontrar a liberdade fora dos guém — nossos pais, nosso chefe, nossos lí­
padrões divinos. Muitos casais vivem juntos deres, nosso governo, a Deus etc. Logo, a so­
sem serem casados, pois querem continuar lução não está ná rejeição do passado e de
sendo “livres” para poderem separar-se quan­ seus padrões, mas na liberdade da mente e
do bem entenderem. num propósito que nos permita reter o que o
Já li, em um adesivo automotivo, a seguin­ passado tem de melhor, adaptando-o à con­
te frase: “Ser feliz é ser solteiro”. N os Estados duta que devemos ter diante do Senhor e dos
Unidos, muitos chegam ao ponto de declarar, homens.
em entrevistas de emprego, que não ficarão
na empresa por mais tempo que o período 4. A rejeição de toda autoridade é outra
probatório para não ficarem presos a ela. grande tentativa, nos dias atuais, de buscar a
A questão é que a liberdade só é liberdade liberdade fora dos padrões divinos. Funda­
quando posta em prática. Quem não se com ­ mentalmente, isso é uma rejeição a Deus, pois
promete não faz, na verdade, coisa alguma. O as autoridades humanas vêm dele (Rm 13.1,2).
comprometimento com alguém ou alguma Muitos buscam ser sua própria autoridade.
coisa é o que traz liberdade. A filosofia de Friedrich Wilhelm Nietzsche1,
N o cristianismo, um compromisso com por exemplo, prega a total autonomia do indi­
Cristo traz, por exemplo, libertação do peca­ víduo. Todavia, a insanidade desse filósofo,
do, da alienação, da culpa, da vaidade e da no fim da sua vida, testemunhou a futilidade
morte, por meio da ressurreição. Mas aten­ de sua ideologia.
ção: os cristãos não são livres para pecar, e sim Qualquer tentativa de estabelecer uma li­
para servir a Deus. N ão são livres para odiar, berdade fora dos padrões divinos está fadada
mas para amar. Os cristãos são livres para se­ ao fracasso, haja vista que fica dependente da
guirem o caminho que Deus tem para eles. capacidade humana, a qual não é suficiente.
Reinhold Niebuhr, num ensaio intitulado
3. A rejeição do passado é outra tentativa A individualidade cultural na m odernidade
de buscar a liberdade. Hoje em dia, os pa­ [no livro A natureza e o destino do hom em ],
drões morais, bem como quaisquer outros analisou esse fracasso expondo a destruição
modelos do passado, estão sendo rejeitados da liberdade individual - que diz advir do
simplesmente por serem considerados obso­ cristianismo - por meio de três filosofias: o
letos. Em outras palavras, tudo o que for no­ naturalismo, o idealismo e o romantismo.
vo está sendo considerado melhor que tudo o Para esse autor, o naturalismo fracassou
que for antigo. Isso se dá porque ninguém na liberdade individual, pois inferiorizou o
mais quer prender-se por qualquer coisa que ser humano, equiparando-o a uma máquina.
O idealismo, por sua vez, apesar de apontar N a verdade, perdemos nossa capacidade de
para a capacidade superior, espiritual e racional obedecermos-lhes; assim, perdemos nossa
do homem, encontrou-a apenas em um “espí­ liberdade.
rito” ou “eu universal”, em que a pessoa se
perde. N o romantismo, o eu é tudo. Entretan­ Desde a queda de Adão e Eva no paraíso, toda
to, no fim das contas, poucos como Nietzsche a humanidade foi acometida de uma terrível
foram forçados a voltar atrás e a deixar a pre­ rebeldia, corrupção e escravidão. Isso quer di­
tensão da autoglorificação individual. zer que, mesmo por vezes desejando agir cor­
Niebuhr resumiu essas vãs tentativas para retamente, somos constantemente prejudica­
estabelecer a liberdade fora dos padrões divi­ dos. Então, dizemos a nós mesmos: Miserável
nos da seguinte forma: homem que eu sou! Quem me livrará do corpo
desta morte? (Rm 7.24). “Como conquistar
O fato é que os valores universais da história minha libertação? Sem liberdade, meu destino
- tanto os parciais e únicos como os suposta­ é a morte!” ( N i c o l e , 1976, p. 27,28)
mente universais - podem ser apreciados ou
julgados em termos de fé religiosa, o que revela O evangelho da graça divina em Jesus
que o centro e a fonte da vida são históricos, Cristo diz que podemos ser libertos a fim de
mas vão muito além da história. Esse é o Deus cumprirmos o destino para o qual Deus criou
que é tanto o Criador como o Juiz revelado na cada um de nós.
Bíblia. [...] Sem as pressuposições da fé cristã, o Primeiro, o evangelho nos livra da con­
indivíduo ou é nada, ou torna-se tudo. Na fé denação eterna por meio da Lei de Deus,
cristã, a insignificância do ser humano como dando-nos, assim, liberdade de consciência
criatura, inserida em um tempo e um espaço, ( C a l v in o , 1960, p. 310). A liberdade deve
passa a ter significância por meio da misericór­ começar a partir daí. Qualquer outro tipo de
dia e do poder do Deus que sustenta a vida hu­ liberdade é vão se não formos libertos dessa
mana. Contudo, sua relevância como um espíri­ condenação. Essa liberdade pode ser obtida
to livre é tida como subordinada à soberania por meio da fé em Cristo Jesus, que morreu
divina. A inclinação humana para abusar de sua em nosso lugar e, dessa forma, sofreu a con­
liberdade, superestimar seu poder e sua impor­ denação que merecíamos.
tância e tornar-se “tudo” é entendida como o Ao olharmos para nós mesmos, devemos
pecado original. Em função do envolvimento admitir, como no artigo IV da Confissão da
do homem com esse tipo de pecado, seu destino Evangelical Free Church [Igreja evangélica li­
é ter seu primeiro encontro pessoal com Deus vre] de Genebra, Suíça, em 1848: “Todo homem
como Juiz, que humilhará o orgulhoso e reduzi­ nasce pecador, incapaz de fazer o bem aos olhos
rá sua vaidade a nada. ( N i e b u h r , 1949, p. 91,92) de Deus, inclinado para o mal, e é digno de con­
denação e morte, se julgado justamente”.
T r ê s l i b e r d a d e s _____________________________
Todavia, ao olharmos para Cristo, vemos
O que Deus diz sobre liberdade? Que, se nossa libertação da sentença que merecemos,
não for por intermédio da graça divina revela­ pois Ele morreu pelo perdão dos nossos peca­
da em Cristo Jesus, não podemos ser livres. dos, pagando toda a pena exigida pela Lei di­
O próprio Cristo disse: Todo aquele que vina para punir nossas transgressões. Assim,
comete pecado é servo do pecado (Jo 8.34b). A deu-nos condições de pertencermos ao Altís­
liberdade se dá pela obediência às Leis de simo, como se nunca nos houvéssemos envol­
Deus. Infelizmente, desobedecemos a elas. vido com o pecado.
A Lei de Deus não mais é uma ameaça a A passagem de Gálatas 5 leva a uma dis­
nós. E fato que, eventualmente, infringimo- cussão da vida do Espírito, que resulta da
-la, mas Jesus já reverteu essa situação. Agora, justificação. Sendo libertos da condenação
podemos entrar na presença do Todo-pode- pela Lei e tendo agora uma nova natureza, os
roso sem culpa alguma. cristãos são libertos de seus antigos desejos e
Essa liberdade impressionou muito o rebeldias. Então, podem obedecer só a Deus.
apóstolo Paulo. Antes de Cristo em sua vida, Quando Jesus falou aos judeus sobre a
Paulo acreditava obedecer piamente à Lei de fonte e a natureza de Seus ensinos, muitos
Deus, que era muito dura de ser cumprida creram nele, mas de maneira vaga. Ao consta­
(Fp 3.6), mas, aos olhos de Deus, o apóstolo tar isso, Cristo os encorajou a permanecerem
não era justo, como achava ser (A t 26.14). O com Ele para continuarem aprendendo dele,
que fazer? Foi por meio do evangelho de dizendo: Se vós perm anecerdes na minha pa­
Cristo que Paulo descobriu um meio de al­ lavra, verdadeiramente, sereis meus discípulos
cançar a justiça divina que não advinha do e conhecereis a verdade, e a verdade vos liber­
cumprimento da Lei, conforme ele aponta em tará (Jo 8.31b,32).
Romanos 8.1-4: Essa declaração enfureceu alguns ouvintes
- talvez, incrédulos - , apesar de o texto não
Portanto, agora, nenhum a condenação há dizer isso de maneira clara. P or essa razão,
para os que estão em Cristo Jesus, que não eles responderam: Somos descendência de
andam segundo a carne, mas segundo o Abraão, e nunca servimos a ninguém ; como
espírito. Porque a lei do Espírito de vida, dizes tu: Sereis livres? (Jo 8.33).
em Cristo Jesus, m e livrou da lei do pecado C om o podemos constatar, isso lhes pare­
e da morte. Porquanto, o que era impossível cia ridículo. Por anos, os judeus foram escra­
à lei, visto como estava enferma pela carne, vos no Egito. Durante o período dos juizes,
Deus, enviando o seu Filho em semelhança houve, pelo menos, sete ocasiões em que a
da carne do pecado, pelo pecado condenou o nação esteve sob o domínio de estrangeiros.
pecado na carne, para que a justiça da lei se Só o cativeiro babilônico durou 70 anos. Du­
cumprisse em nós, que não andamos segun­ rante esse diálogo com Jesus, sob os olhos dos
do a carne, mas segundo o Espírito. soldados romanos, os judeus levavam em seus
bolsos moedas que exibiam o governante ro­
Da mesma forma, em Gálatas 5.1, após mano da Palestina. E foi justamente a percep­
uma tremenda defesa da justificação pela fé, ção de todo esse contexto que os fez sensíveis
Paulo aconselha: Estai, pois, firm es na liber­ ao tema da liberdade.
dade com que Cristo nos libertou e não torneis Jesus não tentou mostrar quão iludidos eles
a meter-vos debaixo do jugo da servidão. estavam em suas próprias ideias acerca da liber­
Ambas as passagens bíblicas levam à liber­ dade política. Em vez disso, Cristo respondeu:
dade de obediência. Cada uma é parte de um
argumento que trata não somente da liberta­ E m verdade, em verdade vos digo que to­
ção da condenação segundo a Lei, mas tam­ do aquele que comete pecado é servo do
bém de outro tipo de liberdade. Romanos 8 pecado. Ora, o servo não fica para sempre
sucede um capítulo que relata detalhadamente em casa; o Filho fica para sempre. Se, pois,
a luta pessoal de Paulo ao deparar-se com os o Filho vos libertar, verdadeiram ente,
desejos de sua nova natureza e os desejos pe­ sereis livres.
caminosos de sua velha natureza.
A liberdade decorre da nova natureza in­ A terceira área da liberdade cristã tem re­
terior de quem está em Cristo. Consequente­ lação com as outras duas: a liberdade de co­
mente, agora este deseja fazer o que agrada a nhecimento.
Deus - não por força da Lei, mas pelo simples P or meio do (re)conhecimento de nosso
desejo de agradar ao Altíssimo. Porventura, a pecado e do (re)conhecimento da pessoa de
Lei perdeu seu valor? Muito pelo contrário, Deus e do que fez em Cristo para a nossa sal­
ela nos mostra o que agrada ao Senhor. vação, somos salvos da condenação pela Lei e
A importância explica diversos questiona­ iniciados na vida cristã.
mentos, como, por exemplo: o que fazer aos Tendo conhecido o Altíssimo da maneira
domingos, quais profissões são as mais indi­ como Ele se revela em Jesus, surte em nós o
cadas para um cristão, fumar ou não fumar, desejo de continuarmos aprendendo sobre
consumir bebidas alcoólicas ou não, jogar ou Ele. Além disso, damos início a um cresci­
não, assistir a determinado filme ou não, etc. mento na verdadeira liberdade que o conheci­
Porém, a Bíblia não tem resposta a todas essas mento divino nos propicia. E conhecereis a
perguntas específicas. Se buscarmos esclareci­ verdade, e a verdade vos libertará (Jo 8.32).
mentos para cada questionamento que tiver­ Para uma pessoa sem estudo, o mercado
mos, perderemos a liberdade à que Jesus nos de trabalho está de portas fechadas, e ela se­
concede direito. quer pode ser capaz de encontrar um trabalho
Com o observou Calvino: rentável. Sendo analfabeta, então, nem se fala.
Alguém assim arrumará, no máximo, um tra­
Com efeito, quando as consciências uma vez se balho braçal com o meio de subsistência. Por
enrodilham em laço, entram em um longo e conseguinte, talvez não tenha acesso à arte,
inextricável labirinto de onde já não é fácil por exemplo, pois sua cultura será insuficien­
mostrar a saída. te para entender muito de música, dramatur­
Se alguém começa a duvidar se porventura lhe gia, obras de arte etc.
é lícito usar linho nos lençóis, camisas, lenços, Da mesma forma, quem não conhece os
guardanapos, depois não estará seguro se pode ensinos da Palavra do Senhor não pode de­
usar cânhamo, e, por fim, começará inclusive a senvolver-se espiritualmente. Essa pessoa irá
duvidar se é lícito usar estopa — pois consigo ater-se a enganos acerca da natureza divina,
revolverá se porventura pode jantar sem guar­ superstições e preconceitos. Apenas quem
danapos ou se pode prescindir de lenços. busca conhecer e amar a Sagrada Escritura
Se a alguém parecer ilícito alimento um pouco pode crescer em liberdade.
mais refinado, por fim, nem pão ordinário e C erta vez, alguns cristãos em H ong
iguarias comuns comerá tranqüilo diante de Kong conversaram com uma senhora de 80
Deus, enquanto vem à mente que pode susten­ anos de idade que havia acabado de ser li­
tar o corpo com víveres ainda mais baratos. berta de um cativeiro chinês. Ela era cristã,
Se nutre escrúpulos de beber vinho mais suave, mas seu discurso era carregado de palavras
nem vinho estragado beberá com boa paz de comunistas.
consciência e, por fim, nem ousará tocar em Perguntaram a ela: “Quando a senhora
água mais doce e mais limpa que outras. Final­ voltou à China, teve liberdade para juntar-se
mente, chegará a tal ponto que, como se diz, a outros cristãos com o propósito de adorar a
julgará ser ilícito caminhar por sobre uma pa­ D eus?”. Ela respondeu: “N ão, desde que fo­
lha atravessada no caminho. ( C a l v i n o , 1960, mos libertos, ninguém pôde reunir-se para
p. 839) realizar cultos ao Senhor”. Questionaram-na:
“E quanto a reunir-se em grupos pequenos finalizou: “Também não podemos ler a Bí­
apenas para discutir a fé cristã?”. Ela retru­ blia”.
cou: “Depois de nossa libertação, qualquer Com o vemos, a liberdade não consiste em
reunião de cristãos foi proibida”. Insistiram palavras, mas na realidade que o cristianismo
eles: “E liberdade para ler sua Bíblia?”. Ela traz.

N ota

1 Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 1844, numa família luterana. Apesar disso, rejeitou a fé cristã. Crítico da
cultura ocidental, das religiões e da moral judaico-cristã, ele é, juntamente com Marx e Freud, um dos autores mais
controversos na história da filosofia moderna, devido aos paradoxos e desconstruções dos conceitos de realidade ou
verdade como nós ainda hoje os entendemos.
Friedrich Nietzsche quis ser o grande “desmascarador” de todos os preconceitos e ilusões do gênero humano. A
moral tradicional, principalmente a esboçada por Kant, a religião e a política não eram para Nietzsche nada mais
que máscaras que esconderiam uma realidade inquietante e ameaçadora, cuja visão seria difícil de suportar. (Fonte:
wikipedia)
C o n h ecen d o a vontade de D eus

I /'*®|ão há’ questionamentos mais co- perfeitos sintamos isto mesmo-, e, se sentis al­
, /muns entre os cristãos do que os gum a coisa doutra maneira, também Deus
/ 1/ seguintes: “Qual o plano divino vo-lo revelará.
r para minha vida? Com o vou ter Encontramos esse tema nos Salmos mui­
conhecimento dele? Com o posso ter certeza tas vezes, particularmente nos de Davi, que
de que eu sei qual é?”. Essas dúvidas surgem necessitava muito da orientação de Deus. N o
naturalmente para os filhos de Deus e, ainda Salmo 25.4,5, por exemplo, o autor pediu:
que não surgissem, elas nos seriam impostas
pelo ensino bíblico de que o Senhor quer que Faze-me saber os teus caminhos, SE N H O R ;
saibamos Sua vontade e que a aceitemos com ensina-me as tuas veredas. Guia-me na tua
gratidão. verdade e ensina-me, pois tu és o Deus da
Essa é a conclusão de Romanos 12.1,2, minha salvação; por ti estou esperando todo
versículos que já lemos muitas vezes em ou­ o dia.
tros contextos:
Depois, declarou:
Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de
Deus, que apresenteis o vosso corpo em sa­ Bom e reto é o S E N H O R ; pelo que ensi­
crifício vivo, santo e agradável a Deus, nará o caminho aos pecadores. Guiará os
que é o vosso culto racional. E não vos con­ mansos retamente; e aos mansos ensinará o
form eis com este mundo, mas transformai- seu caminho.
-vos pela renovação do vosso entendim en­ Salmo 25.8,9
to, para que experimenteis qual seja a boa,
agradável e perfeita vontade de Deus. Da mesma forma, o autor do Salmo 16.7a
afirmou: Louvarei ao S E N H O R que me
Devemos negar a nós mesmos e amadure­ aconselhou. E , no Salmo 73, Asafe disse: To­
cer no caráter cristão por meio de uma trans­ davia, estou de contínuo contigo; tu m e segu-
formação interior, para que possamos enten­ raste pela mão direita. Guiar-me-ás com o teu
der a perfeita vontade de Deus para nossa vida. conselho (SI 73.23,24a).
Em Filipenses 3.15, após Paulo ter falado Esses versículos não significam que nós
sobre o objetivo da vida cristã e seu próprio sempre conseguiremos compreender tudo
desejo de prosseguir nessa direção, ele tam­ na vida cristã. Eles sequer significam que, de
bém escreveu: Pelo que todos quantos já somos algum modo, poderemos enxergar adiante.
Contudo, certamente podemos entender que Seus conselhos, buscamos conhecer o que
Deus tem um plano para nós e que promete lhe apraz.
levar-nos até ele, revelando os passos necessá­ Se buscamos conhecer o que agrada ao Se­
rios para que o alcancemos à medida que ca­ nhor, muito pode ser aprendido, pois Ele já o
minhamos. tem revelado a nós.
Sobre este assunto, R. C. Sproul afirmou:
As VONTADES DE DeUS____________________ “Deus deseja nossa justiça e nossa obediência.
É preciso esclarecer uma coisa antes de E a Lei de Deus claramente reflete algo sobre
continuarmos. Quando falamos sobre conhe­ Sua vontade de forma perceptível, no sentido
cer a vontade de Deus, comumente pensamos de Sua disposição” (S p r o u l , 1977, p. 106,107).
naquela que Ele não promete revelar e geral­
mente não revela. O Senhor não revela Seus A n o ssa v o n ta d e e a d e D e u s _____________

propósitos secretos ou escondidos (D t 29.29). Mas com o vou saber o que agrada a Deus
O que Ele, de fato, revela é o tipo de vida e de em circunstâncias específicas da minha vida?
caráter que lhe agradam. C om o vou saber se devo seguir uma carreira
Portanto, já vimos que há diferentes senti­ acadêmica ou de negócios? Com quem devo
dos atribuídos à palavra vontade. N a Bíblia, casar-me? De qual igreja devo fazer parte?
temos a vontade soberana e eficaz do Senhor. Com o devo gastar meu tempo? N o trabalho?
Esta vai além do nosso entendimento. N a Em atividades cristãs? Em diversão e relaxa­
verdade, ela provê a origem de todas as coisas mento? De que maneira devo gastar meu di­
e ordena-as. nheiro?
A vontade de Deus é absoluta e ilimitada, H á inúmeras questões parecidas que nos
sendo determinada apenas por Ele mesmo. O confrontam, e, embora algumas delas possam
Altíssimo não precisa consultar ninguém para ter a ver com os propósitos secretos de Deus,
formular Seus planos, e não necessita da ajuda nem todas elas têm. Excluindo revelações so­
de ninguém para executá-los. Sua vontade é brenaturais da vontade divina, as quais o Pai,
soberana e invariável. Devido à Sua onipotên­ às vezes, concede, mas com as quais Ele não
cia, Deus não precisa adaptar-se às circuns­ nos encoraja a contar, há três princípios que
tâncias, que, constantemente, modificam-se. devemos seguir.
Esse é o sentido de João 6,40a, texto no qual O primeiro é uma precondição que pode,
Jesus disse: Porquanto a vontade daquele que com frequência, resolver um problema ins­
me enviou é esta: que todo aquele que vê o tantaneamente: devemos estar dispostos a fa­
Filho e crê nele tenha a vida eterna. zer a vontade do Senhor mesmo antes de sa­
A vontade divina nas Escrituras está re­ ber qual ela é.
lacionada, também, à disposição de Deus Em João 7.17, Jesus afirmou: Se alguém
ou ao que lhe agrada. Quando, na oração quiser fa z er a vontade dele [de Deus], pela
do Pai-N osso, pedimos ao Pai que seja feita mesma doutrina, conhecerá se ela é de Deus
a vontade dele (Mt 6.10), na verdade, esta­ ou se eu falo de mim mesmo. Aqui, Ele está
mos pedindo para que o que lhe agrada pos­ combatendo a falsificação de Sua doutrina,
sa ser cada vez mais realizado em nossa vida e que havia sido desafiada pelos líderes judeus.
na de outros. Contudo, ao responder isso, Cristo ensinou
Assim, a questão é: quando falamos so­ um princípio mais abrangente segundo o qual
bre nosso desejo de conhecer a vontade do conhecer a vontade do Pai consiste muito
Senhor, pedimos a Ele o conhecimento de mais em estar disposto a fazê-la.
A dificuldade que a maioria de nós en­ problemas semelhantes. Após conversar­
contra é que, apesar do que professamos, na mos, independente de tê-las levado a conside­
verdade, queremos fazer a nossa própria rar relevantes passagens das Sagradas Escritu­
vontade. E , ao buscar orientação, esperamos ras, todas sempre fazem objeções. Segundo
que Deus se convença da nossa maneira de elas, os versículos em questão não se aplicam
pensar. à sua situação, ou não são razoáveis, ou não
Eis um exemplo de um homem que era um podem ser obedecidos, ou algo assim. Em ge­
líder importante em sua igreja. Ele me disse ral, isso simboliza que a dificuldade não é sa­
que estava muito preocupado com a área pro­ ber o que Deus deseja, e, sim, o fato de não
fissional que estava seguindo, e que, apesar de querermos obedecer-lhe.
sentir-se seguro em fazer o que estava fazendo, C om o podemos estar dispostos a fazer a
não tinha certeza de ter escolhido corretamen­ vontade do Senhor? Primeiro, precisamos re­
te o local para fazê-lo, visto que, mesmo ainda conhecer nossa falta de disposição. Depois,
sem oferta de trabalho em outro estado, sentia buscar desafios por meio dos quais somos
desejo de mudar de região. transformados de dentro para fora pela reno­
Certa ocasião, abaixando-se ao lado de vação de nossa mente, para que possamos
sua mesa, ele se ajoelhou e, de maneira muito experimentar qual seja a [...] vontade de Deus
específica, orou mais ou menos assim: “Q ue­ (Rm 12.2).
rido Deus, estou com muitas dúvidas em rela­ A oração é um desses desafios, pois, me­
ção a isso. N ão sei o que fazer. O que eu real­ diante tal ato, fazemos uma pausa no corre-
mente preciso é de um sinal vindo de ti. -corre do nosso cotidiano, pensamos em
Necessito que alguém do estado em que estou Deus e em Seus caminhos, examinamos nossa
interessado me telefone e me ofereça uma vida sob essa luz e, depois, pedimos perdão
oportunidade de trabalho”. ao Senhor por pecados antigos, recorrendo à
Enquanto ele ainda estava de joelhos, o Sua orientação para o futuro.
telefone ao seu lado tocou. Era uma ligação O convívio cristão é outro desafio. Preci­
interurbana, e a pessoa do outro lado da linha samos do apoio, do interesse e da correção
ofereceu-lhe um emprego precisamente no amorosa de outros, e o mais importante: ne­
estado pelo qual ele estava orando. U m sinal cessitamos de um programa regular de estudo
claro? Talvez. Contudo, ele não aceitou a da Bíblia.
oferta, tendo ficado onde estava, e até hoje ele O segundo princípio para conhecer a von­
diz: “Talvez eu devesse ter tomado outra ati­ tade do Senhor é essencial. Ele revelou isso
tude quando tive aquela chance”. em Sua Palavra. O plano secreto de Deus, que
N ão estou dizendo que meu amigo deve­ envolve elementos sobre nossa vida e nossa
ria ter aceitado o novo trabalho, mas aquela futura profissão, não está revelado em lugar
pode ter sido a maneira de Deus de mostrar- algum, nem nas Escrituras Sagradas. Assim,
-lhe que sua dificuldade de saber a vontade do ninguém pode usar a Bíblia, de maneira mági­
Pai era que ele não queria realmente fazê-la, a ca, para ver se deve casar-se com João ou An­
despeito de suas orações ou das respostas que tônio, Aline ou Maria. Entretanto, o que o
recebesse. N a maioria dos casos, nossa difi­ Altíssimo deseja aparece muito claramente
culdade de entender a vontade do Senhor re­ em Sua Palavra.
side nesse ponto. N a Bíblia, nossas opções são limitadas.
Quando aconselho pessoas sobre esse Pode não estar escrito nela o nome da pessoa
assunto, constantem ente me deparo com com quem devemos casar-nos, mas, certamente,
está escrito que não devemos m orar com nos­ servindo á vista, como para agradar aos
so futuro cônjuge antes do casamento, pois o homens, mas como servos de Cristo, fa z en ­
Senhor condena a fornicação. do de coração a vontade de Deus.
De igual maneira, pode não estar escrito
na Palavra de Deus se devemos ser médicos Essa orientação serve, em especial, para
ou advogados, porém está claro que não po­ aqueles que têm um chefe temperamental ou
demos ser ladrões nem prostitutas, nem nos é um professor difícil de lidar. Segundo a B í­
lícito realizar qualquer trabalho que prejudi­ blia, a vontade de Deus é que evitemos falar
que os outros. dele ou dela, esforçando-nos para ser o me­
Também encontramos na Bíblia orienta­ lhor naquilo que fazemos. Devemos fazer is­
ções com base nas quais podemos agir. Uma so não apenas quando nosso chefe estiver
está declarada nos versículos anteriormente observando-nos, mas também [e principal­
mencionados: Romanos 12.1,2. Neles, lemos mente] quando ele não estiver. Devemos rea­
que o Pai deseja nossa santificação. Qualquer lizar nossas tarefas como se estivéssemos tra­
coisa que contribua para nossa santificação é balhando para Deus, e não para os homens.
um aspecto da vontade divina para nós, assim Em outros versículos, aprendemos que
como qualquer coisa que a impeça não faz par­ devemos fazer uma análise sóbria de nossos
te do plano de Deus para nós. Acima de tudo, dons, a fim de descobrirmos de que maneira
o Altíssimo está interessado em que nos torne­ poderíamos servir melhor, além de buscar a
mos como Jesus Cristo: Porque esta é a vonta­ orientação de nossos irmãos na igreja. É as­
de de Deus, a vossa santificação (1 Ts 4.3a). sim que, frequentemente, descobrimos o cha­
E m Colossenses 3.23, conhecemos a von­ mado para nossa vocação (At 13.1-3).
tade do Pai para nossa vida profissional: E,
tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o cora­ S it u a ç õ e s q u e s t i o n á v e i s __________________

ção, como ao Senhor e não aos homens Esse N ão podemos negar que, em certos aspec­
princípio se aplica, particularmente, a estudan­ tos da vida, não há clareza com relação à for­
tes ou àqueles cuja carreira esteja começando. ma como devemos agir. Posso trabalhar em
Certa vez, um membro de minha igreja uma empresa que produz material bélico?
comentou que, de maneira muito freqüente, Posso tomar bebidas alcoólicas? Posso in­
jovens cristãos interpretam as dificuldades gressar na política? E errado um cristão tor-
que enfrentam em seu trabalho ou seus estu­ nar-se ator?
dos com o um indicativo de que não estão Para responder essas perguntas, precisa­
cumprindo a vontade de Deus para sua vida, mos começar pela graça. Em Romanos 6.14
quando, na verdade, elas provavelmente são lemos: Porque o pecado não terá domínio so­
indicações divinas de que eles devem esfor­ bre vós, pois não estais debaixo da lei, mas
çar-se mais. Nesse versículo, lemos que o A l­ debaixo da graça. Esse versículo está inserido
tíssimo deseja que façamos com excelência em um contexto de vida santa. Logo, o cami­
tudo o que nos vem às mãos. nho para a santidade nunca será encontrado
U m a direção que está muito relacionada a organizando um corpo de cristãos para deter­
isso se encontra em Efésios 6.5,6: minar se devemos, ou não, ir ao cinema, inge­
rir vinho, jogar cartas, ir à guerra ou coisas do
Vós, servos, obedecei a vosso senhor segun­ gênero. Devemos sempre lembrar que o Se­
do a carne, com temor e tremor, na sinceri­ nhor nos disse: não estais debaixo da lei, mas
dade de vosso coração, como a Cristo, não debaixo da graça.
Estar livre da Lei significa ter liberdade bebida, sexo, drogas, carros, casas, ações ou
para fazer o que bem entender? Devemos pe­ qualquer outra coisa (1 C o 6.12).
car para que a graça superabunde? Claro que Mais adiante, ainda na mesma carta, Paulo
não! Pelo contrário: Mas, agora, libertados do nos revelou uma segunda razão pela qual nem
pecado e feitos servos de Deus, tendes o vosso todas as coisas convêm: a liberdade de um cris­
fruto para santificação, e p o r fim a vida eterna tão pode ferir o crescimento espiritual de ou­
(Rm 6.22). N a verdade, viver pela graça leva à tro. Ele afirmou: Todas as coisas m e são lícitas,
santidade, por causa do nosso desejo de agra­ mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas
dar Àquele que nos salvou. m e são lícitas, mas nem todas as coisas edificam
Para determinar a vontade do Senhor em (1 C o 10.23). Nos versículos posteriores, le-
questões duvidosas, devemos compreender mos que ele está pensando no bem-estar e no
que, embora todas as coisas sejam permitidas crescimento de seus irmãos em Cristo.
para cristãos - porque não estamos debaixo da Levar esse versículo ao extremo significa­
Lei, mas debaixo da graça - , ainda assim nem ria moldar seus padrões de conduta a partir
todas as coisas convêm. Isso é verdade. Como do que outros cristãos dizem ou pensam. Se
Paulo nos advertiu, não devemos permitir que fizermos isso, passaremos a ser hipócritas,
a situação nos domine: Todas as coisas m e são esquizofrênicos ou malucos. Contudo, o ver­
lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas sículo, na verdade, significa que há situações
as coisas me são lícitas, mas eu não m e deixarei em que teremos de evitar certas coisas, embo­
dominar p or nenhuma (1 C o 6.12). ra elas não sejam erradas em si mesmas, a fim
Paulo sabia que Deus não o havia liberta­ de não prejudicarmos os outros.
do do pecado para que, então, ele fosse domi­ Suponha que você tenha evangelizado
nado por coisas sem importância. A pergunta uma amiga sua que tem enfrentado muita di­
a ser feita é: “Estou usando as coisas ou as ficuldade para superar uma disposição a co ­
coisas estão usando-me?”. meter pecados na área sexual. Apesar de ter se
Vejamos a comida, o primeiro dos exem­ convertido, ela continua atraída por esses de­
plos de Paulo (1 C o 6.13,14). N ada pode ser sejos carnais.
tão obviamente bom para uma pessoa do que De acordo com esse texto bíblico, Deus
comida: ela é necessária para fortalecer o cor­ ensina, por exemplo, que é melhor você não a
po e também a saúde mental. Entretanto, é levar para assistir a filmes com nenhum apelo
possível que uma pessoa fique viciada em co­ sexual. Além disso, é até melhor que você mes­
mida a ponto de comprometer sua saúde, sen­ ma não vá, pois ela poderia ser prejudicada
do necessário, portanto, que certos hábitos pela sua liberdade.
alimentares sejam evitados. O utra coisa: devemos ser consistentes em
O segundo exemplo do apóstolo refere-se nossa abstinência por um longo período, a
ao sexo (1 C o 7.5-20). A vida sexual é um pre­ fim de não parecermos hipócritas. Paulo es­
sente de Deus. Dentro dos limites do casa­ creveu: Pelo que, se o manjar escandalizar a
mento, é algo que fortalece o lar e é também m eu irmão, nunca mais comerei carne, para
uma expressão de união íntima. Mas ela tam­ que m eu irmão não se escandalize (1 C o 8.13).
bém pode tornar-se destrutiva, visto que po­ Essa consideração foi feita pelo mesmo após­
de controlar a pessoa em vez de a pessoa tolo que defendeu, de modo bem-sucedido, a
controlá-la. causa da liberdade cristã em relação à Lei pe­
A Bíblia ensina que os cristãos nunca se rante os apóstolos de Jerusalém (At 15.1-29;
devem deixar dominar por nada, seja comida, G 12.1-10).
Sem dúvida, é muito difícil observar o N a primeira parte do texto está escrito: O
efeito que nossa conduta pode ter em outros que também aprendestes, e recebestes, e ou­
cristãos. N o entanto, ao decidirmos como li­ vistes, e vistes em mim, isso fazei. Até aí, p o­
dar com assuntos questionáveis, devemos es­ deríamos pensar que a presença de Deus está
colher a melhor opção possível. Isso está de­ atrelada ao autor.
clarado, de maneira nítida, em Filipenses 4.8: N a verdade, com o, p or causa da sintaxe
grega, Paulo repetiu a expressão tudo o que
Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é ver­ é por todo o versículo oito e, depois, no ver­
dadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que sículo nove, ela apareceu atrelada ao ante­
é justo, tudo o que é puro, tudo o que é rior, podemos entender que a promessa é:
amável, tudo o que é de boa fam a, se há Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verda­
alguma virtude, e se há algum louvor, nis­ deiro, tudo o que é honesto, tudo o que é
so pensai. justo, tudo o que ép u ro , tudo o que é am ável
[...] nisso pensai. [...] e o D eus de paz será
Embora nem todos os comentaristas e teó­ convosco.
logos assinalem, nesse versículo Paulo cita ba­ Assim, quando buscarmos as melhores
sicamente as virtudes exaltadas pelos filósofos virtudes, tanto diante de Deus como dos ho­
e moralistas gregos. Ao mencioná-las, Paulo mens, o Deus de paz estará conosco, e pode­
estava, na verdade, admitindo uma moralidade remos ter a confiança de que, enquanto prio­
aceita pela sociedade da sua época. Sua inten­ rizarmos agradar-lhe, Ele vai abençoar-nos e
ção era afirmar que, embora a busca do melhor guiar-nos.
pelos cristãos inclua coisas espirituais, ela não
implica a exclusão dos melhores valores que o O lh a n d o para J e s u s ________________________

mundo também aceita como corretos. Isso nos leva ao terceiro dos três princípios
As coisas que são honradas pelas melhores mencionados anteriormente neste capítulo.
pessoas em todas as partes também são dignas C om o já vimos, o primeiro é que deve­
de serem cultivadas pelos cristãos. Assim, os mos estar dispostos a fazer a vontade de
cristãos podem amar tudo o que é verdadeiro, Deus antes mesmo de saber qual ela é, e o
honesto, justo, puro, amável e de boa reputa­ segundo aponta para o fato de que devemos
ção, onde quer que encontre tais atributos. buscar essa orientação nas Escrituras. O ter­
Podemos alegrar-nos no melhor da arte e ceiro, por sua vez, é o princípio que se ba­
da boa literatura. Podemos emocionar-nos ao seia na importância de estar em comunhão
som de ótima música. Podemos deleitar-nos com o Senhor todos os dias, e mesmo de
com uma bela arquitetura. Podemos também hora em hora.
agradecer a Deus por dar às pessoas, mesmo N o Salmo 32.8, o Senhor nos ensina isso,
em seu estado decaído, a habilidade de criar ao dizer: Instruir-te-ei e ensinar-te-ei o cami­
tanta beleza. nho que deves seguir; guiar-te-ei com os meus
Tenha confiança na promessa da presença olhos. Se Ele vai guiar-nos com Seus olhos,
do Senhor que acompanha as palavras de primeiro precisará chamar nossa atenção, o
Paulo. Ele frequentemente escrevia de modo que significa que devemos olhar para Ele re­
paternal e foi assim que o fez nesse texto. O gularmente durante o dia.
resultado disso é que a primeira metade do Sem dúvida, devemos realmente ansiar pe­
versículo nove distorceu, parcialmente, o sig­ la comunhão com Aquele que sabe o que de­
nificado da sentença. vemos e como devemos fazer. Precisamos de
mais do que um mero manual de instruções. mesmo” (W h i t e , 1976, p. 154). O que Deus
John White disse: “Você deve buscar orienta­ realmente nos deu é um guia. Devemos, portan­
ção, mas Deus deseja dar-lhe algo melhor: Ele to, ficar junto dele e seguir Sua direção.
Falando com D eus

*%. or meio do estudo bíblico, Deus 5. Porque a oração é o elemento mais impor­
f fala conosco, e, por meio da ora- tante do ministério atual de Jesus, já que Ele
/ ção, falamos com Ele. Ambos os agora intercede por nós (Hb 7.25).
atos são necessários para desenvol­ 6 . Porque a oração é o meio pelo qual Deus nos
ver um relacionamento pessoal que seja genuí­ concede Sua misericórdia e graça, a fim de
no como uma conversa entre duas pessoas. ajudar-nos na hora da necessidade.
Entretanto, a oração é ainda mais do que 7. Porque a oração é o meio de obter a plenitu­
um bate-papo. E um privilégio. Ao colocar- de da alegria divina.
mo-nos no centro da vontade do Senhor da 8. 'Porque a oração, com ações de graça, é o
melhor maneira que sabemos, aproximamo- meio de obter livramento da ansiedade e, no
-nos dele com o crianças se aproximam de lugar dela, ter acesso à paz que excede todo
seus pais, e pedimos o que precisamos, sa­ entendimento.
bendo que seremos atendidos. Assim, a ora­ 9. Porque a oração é o método indicado para
ção é uma resposta à promessa de Cristo: E obter a plenitude do Espírito Santo.
tudo quanto pedirdes em m eu nome, eu o 10. Porque a oração é o meio pelo qual nos man­
farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. temos vigilantes e atentos à volta de Cristo.
Se pedirdes alguma coisa em m eu nom e, eu o 11. Porque a oração é usada por Deus para
fa re i (Jo 14.13,14). promover nosso crescimento espiritual, dar
Reuben A. Torrey, em um de seus livros, poder a nossas obras, levar outros à fé em Cris­
fez uma lista de 11 razões pelas quais a oração to e trazer outras bênçãos para Sua Igreja.
é importante: (T o r r e y , 1900, p. 7 -3 1)1

O PROBLEMA DA ORAÇÃO____________________
1. Porque o diabo existe, e a oração é o meio
indicado por Deus para resistir a ele. Apesar da importância óbvia da oração, a
2. Porque a oração é a maneira pela qual obte­ maioria das pessoas não a entende com muita
mos do Senhor o que precisamos dele. clareza. O problema pode ser originado no
3. Porque os apóstolos, que devemos ter como fato de que poucos cristãos conhecem bem a
modelo, consideravam a oração como a coisa Deus, visto que, se nenhum de nós o conhece
mais importante. plenamente, a oração é, pelo menos em parte,
4. Porque a oração ocupava um lugar proemi­ confusa.
nente e tinha um papel crucial na vida terrena Será ela responsável por mudar as coisas
de nosso Senhor. ou as pessoas? Deus muda de ideia por causa
de uma oração de fé? A o orarmos, fazemos fraqueza. Contudo, entendemos que mesmo
com que o Senhor aja ou Ele age em nós para o cristão mais zeloso tem dificuldades.
que oremos ? O que significa orar sem cessar? Calvino cria na providência divina, mas,
Quem pode orar? C om o se deve fazê-lo? Em em seu capítulo sobre a oração, que precede o
qualquer segmento do povo de Deus, muitas que aborda a questão da eleição, ele refutou
dessas questões recebem respostas diferentes os que diziam que Deus se incomoda com
e, às vezes, até mesmo contraditórias. nossas orações “supérfluas” ( C a l v i n o , 1960,
N ão são apenas as pessoas comuns que p. 853). Em vez disso, o autor comentou so­
têm dificuldade com a oração. Isso também bre a necessidade de “desenterrarmos, pela
acontece com os teólogos. oração, os tesouros que Deus tem para
Certa vez, no decorrer de seus longos e in­ nós”(CALViNO, 1960, p. 851).
fluentes ministérios, George Whitefield, o cal- Fomos ensinados a reconhecer, pela fé,
vinista, e John Wesley, o evangelista arminiano, que tudo quanto nos é necessário e nos falta
pregaram juntos. Após dirigirem vários cultos está em Deus e em nosso Senhor Jesus Cristo,
durante o dia, retornavam, toda noite, exaustos em quem, de fato, o Pai quis que habitasse
ao quarto que dividiam em uma pensão. toda a plenitude de Sua liberalidade [Jo 1.16;
U m a noite, depois de um dia particular­ Cl 1.19], a fim de que dele, como de uma fon­
mente extenuante, os dois chegaram e prepa­ te inesgotável, todos bebamos, buscando, em
raram-se para dormir. Quando se apronta­ súplicas, tudo o que aprendemos nele residir.
ram, cada um se ajoelhou ao lado de sua cama De outra sorte, embora conheçamos a
para orar. Whitefield orou assim: “Senhor, Deus como Senhor e Administrador de todas
agradecemos a ti por todos aqueles com os as coisas boas, não devemos pedir-lhe nada
quais falamos neste dia e regozijamo-nos para proveito exclusivamente pessoal, como
porque a vida e o destino deles estão inteira­ no caso das pessoas que enterram e escondem
mente em tuas mãos. H onra nossos esforços embaixo da terra o tesouro que lhes foi reve­
de acordo com a Tua perfeita vontade. lado com o propósito de edificar a muitos
Amém”. Dito isso, deitou-se na cama. ( C a l v i n o , 1960, p. 850).
Wesley, que mal tinha começado a invocar Contudo, embora orar seja o mesmo que
a Deus em sua oração nesse curto espaço de desenterrar os tesouros de Deus, esse não é
tempo, levantou os olhos e perguntou-lhe: um modo básico de receber coisas dele, pois o
“Sr. Whitefield, é até aí que seu calvinismo o tesouro mencionado por Calvino inclui as ri­
leva?”. Em seguida, abaixou a cabeça outra quezas da graça e da glória que estão em Cris­
vez e continuou a orar. to Jesus.
Whitefield ficou na cama e dormiu. Cerca
de duas horas depois, ele acordou e lá estava A oração é a D e u s _________________________

Wesley, ainda de joelhos, ao lado da cama. Ele Muitas de nossas dificuldades referentes à
levantou, foi até onde Wesley estava ajoelha­ oração podem ser removidas ao esclarecer­
do e tocou-o, constatando que o mesmo esta­ mos a quem estamos orando e o que foi feito
va dormindo. Whitefield, então, questionou- para tornar a oração possível. Esse foi o pon­
-o: “Sr. Wesley, é até aí que seu arminianismo to de partida do ensino de nosso Senhor so­
o leva?”. bre o tema em questão.
Essa história não serve para dizer que cal- N o Sermão do Monte, Ele ressaltou que a
vinistas ou arminianos inevitavelmente fa­ única oração válida é aquela dirigida cons­
lham ao orar apenas em decorrência de alguma ciente e explicitamente a Deus Pai:
E, quando orares, não sejas como os hipó­ que entramos na presença de Deus e estamos
critas, pois se comprazem em orar em p é orando a Ele. (T o r r ey , 1955, p. 76)
nas sinagogas e às esquinas das ruas, para
serem vistos pelos homens. E m verdade A oração está relacionada com o cresci­
vos digo que já receberam o seu galardão. mento espiritual de cada pessoa. À medida
Mas tu, quando orares, entra no teu apo­ que a alma amadurece, a vida de oração se
sento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai, aprofunda, e vice-versa. Quando as crianças
que vê o que está oculto; e teu Pai, que vê começam a orar, por exemplo, frequentemen­
o que está oculto, te recompensará. te só fazem petições: “Papai do céu, agora
Mateus 6.5,6 vou dormir, guarda o meu sono”; “Papai do
céu, abençoa o papai e a mamãe e ajuda-me a
Jesus não estava pregando contra o valor e ser uma boa menina. Am ém ”.
a prática de orar em público, pois Ele mesmo U m pouco depois, quando crescem, elas
orava assim (Jo 11.41,42). N a verdade, Ele se são ensinadas a agradecer ao Pai pelas coisas:
preocupava com a nossa tendência de orar “Papai do céu, obrigada pela comida, pelas
não para Deus, mas para nós mesmos, ou para minhas brincadeiras e por todas as coisas bo­
os outros. A oração deve ser feita com a cons­ as...”. A o longo dos anos, a criança é levada a
ciência de que o Senhor está sempre mais considerar as necessidades dos outros, pen­
pronto a responder-nos do que nós a orarmos sando e louvando ao Senhor.
a Ele. O mesmo deve acontecer na vida de cada
Muitos pensam que todas as orações são filho de Deus: devemos sair do estágio no
oferecidas a Deus, mas não é assim. Talvez qual nossas orações se centralizam apenas em
fosse possível até argumentar que, entre mil nós mesmos, para passar a pensar nos outros
orações, nenhuma é realmente direcionada ao e, depois, no Senhor, crescendo e amadure­
Senhor. cendo na fé.
N o mundo, de modo geral, milhões de Existe um hino de Frederick W. Faber
orações são oferecidas a ídolos e deuses fal­ que, assemelhando-se a uma grande oração,
sos. N o catolicismo, muitas são oferecidas menciona a plena capacidade espiritual que só
aos santos. N o protestantismo, há pessoas será viável no céu:
que se preocupam tanto com a eloqüência de
suas orações que se esquecem de que o obje­ Meu Deus, como és maravilhoso,
tivo delas é aproximar-nos de Deus, e não Tua Majestade como refulge!
impressionar a congregação. Quão belo é Teu trono de misericórdia
Será que minhas orações me levam à pre­ N o profundo da luz abrasadora!
sença de Deus? Quando oro, estou, na verda­
de, importando-me muito mais com meus Ó, como temo ao Senhor, Deus vivo,
amigos, minha vida atarefada e meus interes­ Com sentimentos mais profundos e ternos
ses pessoais do que com a necessidade de E louvo-te com trêmula esperança,
aproximar-me do Senhor? Sobre esse dilema, E lágrimas de penitência
Torrey afirmou:
Contudo, posso amar-te, ó, Senhor
Nós nunca devemos proferir uma sílaba de Poderoso como és,
oração, seja em público ou em particular, até Pois desceste para pedir
que estejamos definitivamente conscientes de O amor de meu pobre coração
Pai de Jesus, recompensa do amor! H á um acrônimo para a oração, que mui­
Que êxtase será tos têm achado útil: ACTS. A letra A significa
Prostrar-me diante de Teu trono para ali ficar, adoramos; C quer dizer confessamos', T, te
E pôr-me a olhar e a fitar a Ti agradecemos, e S, suplicamos. Conhecer a
Deus verdadeiramente implica que teremos
Nessas palavras finais, Faber parece ter-se de confessar nossos pecados, agradecer a Ele
apaixonado por Deus, visto que quer apenas por Seu perdão e por todas as outras bênçãos,
ficar com seu Amado e fitar os olhos nele. e interceder uns pelos outros.
Essa dinâmica da oração - de nós mesmos
para os outros e, depois, para o próprio Deus Por in t e r m é d io d e J esu s C r i s t o _________

- não para nele, mas, inevitavelmente, volta Eu oro, mas com o isso é possível? Uma
do Pai para nossas necessidades e as dos ou­ vez que Deus é santo, com o eu, um ser huma­
tros. Ela é gerada por um renovado reconhe­ no pecaminoso, posso aproximar-me dele? A
cimento de nossas transgressões e de nossa resposta é que a verdadeira oração é oferecida
fraqueza, que sempre vivenciamos quando ao Pai com base na morte de Jesus Cristo.
olhamos para o santo e onipotente Senhor, o O autor do livro de Hebreus colocou a
qual nos leva à confissão do pecado. Nossa questão da seguinte forma: Tendo, pois, irmãos,
preocupação com os outros é nutrida pela ousadia para entrar no Santuário, pelo sangue
descoberta de que, em Sua graça, Deus se im­ de Jesus, cheguemo-nos com verdadeiro cora­
porta com eles da mesma forma que se im­ ção, em inteira certeza de f é (Hb 10.19,22a).
porta conosco, e isso nos leva à intercessão. Jesus ensinou a mesma coisa quando disse:
Essa ideia é sugerida nas palavras do Pai- E u sou. o caminho, e a verdade, e a vida. N in­
-N osso. A oração começa com o deve ser, guém vem ao Pai senão p or mim (Jo 14.6). Se
com Deus e Seus interesses. Somo ensinados tivéssemos de aproximar-nos de Deus com
a orar da seguinte forma: Portanto, vós ora- base em nosso mérito, Ele nos rejeitaria. Se
reis assim: Pai nosso, que estás nos céus, san­ não fosse por Jesus, o Senhor nunca ouviria
tificado seja o teu nome. Venha o teu Reino. oração de ser humano nenhum. Entretanto,
Seja feita a tua vontade, tanto na terra como podemos ser purificados a Seus olhos por
no céu (M t 6.9,10). meio da fé em Seu Filho, cujo sacrifício torna
Essa é uma oração para a honra de Deus. possível nossa aproximação dele.
Mas, pouco depois de os pedidos serem esbo­ Isso significa, é claro, que a oração é só
çados, a oração continua: O pão nosso de cada para aqueles que creem em Jesus, não servin­
dia dá-nos hoje. Perdoa-nos as nossas dívidas, do para os pagãos nem para os ateus. Também
assim como nós perdoamos aos nossos devedo­ não é privilégio de pessoas idôneas que consi­
res. E não nos induzas á tentação, mas livra- deram Cristo apenas um modelo de homem
-nos do mal (Mt 6.11-13a). comum ( C a l v in o , 1960, p. 876).
Em contraste com a primeira parte da ora­ Em bora Deus normalmente não atenda à
ção, essas são preocupações humanas ou oração dos que não creem em Seu Filho como
mundanas. Além disso, os pronomes não es­ Salvador, também é verdade que Ele não es­
tão no singular {eu, m im ou m eu), mas no cuta aquelas oferecidas por muitos cristãos,
plural {nosso, nos, nossas, nós). A o contemplar quando eles se apegam a algum pecado. Por
o Senhor em nossa adoração, vamos, sem dú­ isso Davi disse: Se eu atender à iniqüidade no
vida, voltar-nos para orar pelos nossos seme­ m eu coração, o Senhor não m e ouvirá (SI
lhantes. 66.18). E Isaías escreveu:
Eis que a mão do S E N H O R não está en­ Esse fato é sugerido pela palavra grega
colhida, para que não possa salvar; nem o prosagõgê, que, no versículo anterior, é tra­
seu ouvido, agravado, para não p od er ou­ duzida com o acesso, e que, literalmente, sig­
vir. Mas as vossas iniqüidades fazem divi­ nifica apresentação. O Espírito Santo nos
são entre vós e o vosso Deus, e os vossos apresenta a Deus, tornando-o real para nós
pecados encobrem o seu rosto de vós, para enquanto nos instrui sobre com o devemos
que vos não ouça. orar:
Isaías 59.1,2
E da mesma maneira também o Espírito
Esses versículos descrevem sua vida de ajuda as nossas fraquezas; p orque não sa­
oração? Então, você deve confessar seu peca­ bemos o que havemos de p ed ir como con­
do aberta e francamente, sabendo que Deus é vém , mas o mesmo Espírito intercede por
fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos nós com gemidos inexprimíveis. E aquele
purificar de toda injustiça (1 Jo 1.9). que examina os corações sabe qual é a in­
Se eu fui desonesto com um amigo, é difí­ tenção do Espírito; e é ele que segundo
cil falar sobre qualquer coisa com ele. Posso D eus intercede pelos santos.
conseguir forçar a barra falando sobre o cli­ Romanos 8.26,27
ma, meu trabalho, ou nossas famílias, mas
não vou puxar assuntos pessoais. Apenas Alguma vez, ao orar, você teve a sensação
quando a poeira assentar, depois que o per­ de que Deus estava longe? Se isso já lhe acon­
dão tiver sido pedido e concedido, poderei, teceu, pode ser que seu pecado e desobediência
outra vez, abrir-me com meu amigo. estejam afetando sua comunhão com Ele. Con­
O mesmo acontece em nosso relacionamen­ tudo, essa interferência pode ocorrer apenas
to com Deus. Se o pecado me afasta do Senhor, porque outras coisas têm ocupado sua mente,
então Ele é como um estranho e, embora eu ou preocupações têm obscurecido o entendi­
creia em Jesus, minha oração flui de maneira mento que você deve ter da presença divina.
lenta. Em vez disso, devo confessar meu pecado O que você deve fazer nesse caso? O rar de
e aprender a passar tempo a sós com meu Pai novo em outro momento? Certamente, não,
celestial. Quando faço isso, minha oração tor- pois é possível que esse seja o momento em
na-se tão íntima quanto as conversas que tenho, que você mais precisa interceder. Pare um
em comunhão, com meus amigos íntimos. pouco e peça ao Pai que, por intermédio do
Espírito Santo, Ele se torne real para você,
No E s p í r i t o S a n t o _________________________ levando-o à Sua presença.
A oração é o meio pelo qual desenvolve­ Muitos cristãos consideram que seus mais
mos comunhão com Deus por intermédio do maravilhosos momentos de oração são aque­
Senhor Jesus Cristo e do Espírito Santo. Em les nos quais eles começam sem um senso
Efésios 2.18, é dito: Porque, p o r ele, ambos claro da presença de Deus, mas chegam a ela
temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito. mediante a intercessão.
Assim, orar é chegar até o Pai mediante a
fé em Seu Filho e a intercessão do Espírito S e ja p e it a a T ua v o n t a d e __________________

Santo. Isso significa que é o agir do Espírito Quando nos aproximamos de Deus como
que nos leva à presença do Senhor, fazendo devemos, podemos ter ousadia na oração, co ­
com que, por meio da oração, o contato com mo Wesley, Whitefield, Calvino, Torrey e
Ele se torne mais íntimo. outros grandes guerreiros da oração tiveram.
Isso foi o que Deus nos encorajou a fazer diziam “se for da Tua vontade”, pois não es­
no versículo citado no início deste capítulo: E tavam esperando uma resposta do alto.
tudo quanto pedirdes em m eu nome, eu o f a ­ Enquanto intercediam, Pedro chegou à
rei (Jo 14.13a). porta e bateu. Um a criada foi ver quem era e
N ão quer dizer que podemos pedir ao Se­ ficou tão perplexa que voltou para o grupo de
nhor qualquer coisa tola ou pecaminosa e rece­ oração sem deixar o apóstolo entrar. Eles, por
bê-la. Pedir algo em nome de Jesus significa que sua vez, saíram-se pior do que ela, pois, quan­
nosso desejo deve estar de acordo com a vonta­ do souberam que era Pedro, disseram-lhe:
de dele. Quando agimos dessa forma, podemos Estás fora de ti. A história continuou:
ficar confiantes de que seremos atendidos.
Entretanto, para ser fiel a esse texto, é preci­ Mas ela afirmava que assim era. E diziam:
so dizer que há cristãos que atribuem um senti­ E o seu anjo. Mas Pedro perseverava em
do equivocado à noção de vontade de Deus, bater, e, quando abriram, viram-no e se
visto que a usam para justificar seus próprios espantaram. E, acenando-lhes ele com a
pecados. Muitos oram com tão pouca confian­ mão para que se calassem, contou-lhes co­
ça que Deus lhes responderá que, em cada uma mo o Senhor o tirara da prisão e disse:
de suas petições, constantemente, dizem “Se Anunciai isto a Tiago e aos irmãos. E, sain­
for da sua vontade”, como se soubessem, de do, partiu para outro lugar.
antemão, que as coisas que eles estão pedindo Atos 12.15-17
não acontecerão. Grande parte dessas pessoas
fica muito surpresa quando o Senhor, de fato, Muitas de nossas orações são como as des­
responde a alguma de suas orações. ses cristãos. E m grande parte de nossas igre­
Quando Herodes Antipas governava a jas, a intercessão se tornou uma obrigação, e os
Palestina, o apóstolo Pedro estava preso em filhos de Deus passaram a orar sem expectativa
Jerusalém. Os cristãos estavam preocupados. da resposta divina. Que pena que é assim!
Pedro já havia sido preso antes e libertado, Em contraste, Jesus ensinou que podemos
mas Herodes tinha acabado de matar Tiago, o viver e orar de acordo com a vontade de Deus,
irmão de João, sendo muito possível que ele sendo ousados ao ponto de dizer: “Seja feita a
decidisse executar Pedro também. Tua vontade”. Podemos pedir com confiança,
Diante dessa situação, os cristãos começa­ sabendo que os desígnios do Senhor irão
ram a orar. À medida que oravam em uma cumprír-se em nossa vida e nossa igreja.
área de Jerusalém - na casa de Maria, mãe de Foi a compreensão de estar no centro da
João Marcos - , Deus operava em outra parte vontade de Deus que deu a Lutero sua grande
da cidade, libertando Pedro da prisão. Os ousadia em oração. Em 1540, o grande amigo
portões foram abertos, e um anjo guiou o e assistente de Lutero, Frederick Micônio, fi­
apóstolo até as ruas da cidade, enquanto os cou doente e tinha a expectativa de morrer em
moradores ainda estavam dormindo. pouco tempo. Em seu leito de morte, ele fez
N ão sabemos o que estava passando pela um esforço para escrever um bilhete de des­
cabeça dos cristãos na casa de Maria. E possí­ pedida para Lutero. Este recebeu o bilhete e,
vel que estivessem orando para que o Senhor no mesmo instante, enviou-lhe uma resposta:
confortasse o coração de Pedro, ou impedisse
a decisão de Herodes, ou ainda, o que é mais Eu ordeno que, em nome de Deus, você viva,
provável, para que Deus livrasse o apóstolo porque eu ainda preciso de você na Reforma da
da prisão. Contudo, tenho certeza de que eles Igreja. [...] O Senhor não me permitirá ouvir que
estás morto, mas lhe permitirá sobreviver. Por de Lutero chegou, em curto espaço de tempo,
isso, eu oro; essa é a minha vontade, e que minha ele reviveu, recuperando-se completamente e
vontade seja feita, porque busco glorificar o no­ vivendo mais seis anos.
me de Deus. ( H a l l e s b y , 1960, p. 131-132) N ós nunca somos tão ousados em oração
como quando olhamos na face de Deus e di­
Essas palavras podem parecer-nos prepo­ zemos: “Pai, não oro por mim sobre isso e não
tentes, visto que vivemos em uma época de quero que seja feita a minha vontade. Quero
mais cautela, mas, sem dúvida, elas vieram de que Teu nome seja glorificado. Glorifica-o
Deus. Isso porque, embora Micônio já tivesse nessa situação, na minha vida, e faze-o de tal
perdido a habilidade de falar quando a carta forma que todos saberão que veio de Ti”2.

N otas

1 Um livro mais abrangente de Torrey é The Power o f Prayer [O poder da oração]. Mas aqueles que desejam um es­
tudo sobre oração além do que este capítulo fornece devem ler Prayer and the M odem Man [A oração e o homem
moderno], de Jacques Ellul; Prayer [A oração], de Hallesby; With Christ in the School o f Prayer [Na escola da oração
com Cristo], de Andrew Murray; e As Institutas, de Calvino.
2 Escrevi sobre oração de maneira mais extensa em vários outros livros. Veja Phillipians: An Expositional Commentary
[Filipenses: um comentário expositivo]; Is Prayer a Problem? [A oração é um problema?]; The Sermon o f the Mount
[O Sermão do Monte]; e H ow to Live the Christian Life [Como viver a vida cristã].
D eus f a l a n d o c o n o s c o

erta vez, Dwight L. M oody disse: Toda Escritura divinamente inspirada é


“Quando oramos, falamos com proveitosa para ensinar, para redargüir,
Deus. Ao estudarmos a Bíblia, Ele para corrigir, para instruir em justiça, para
fala conosco, e é melhor que o dei­ que o hom em de D eus seja perfeito e p er­
xemos falar mais” ( T o r r e y , 1975, p. 49). feitam ente instruído para toda boa obra.
As Escrituras Sagradas ressaltam a impor­ 2 Timóteo 3.16,17
tância do estudo bíblico, o qual, segundo o
primeiro Salmo de Davi, é fonte essencial de O mau u so das E s c r it u r a s Sa g ra d a s

bênçãos na vida religiosa: Infelizmente, os seres humanos sempre


dão um jeito de usar os dons de Deus da ma­
Bem-aventurado o varão que não anda neira errada.
segundo o conselho dos ímpios, nem se de­ O bispo John C. Ryle, de Liverpool, disse:
tém no caminho dos pecadores, nem se as­
senta na roda dos escarnecedores. Antes, A cristandade como um todo negligenciou a
tem o seu prazer na lei do S E N H O R , e na Bíblia e abusou dela. N a minha época, apesar
sua lei medita de dia e de noite. Pois será de ter havido mais vendas de Bíblias do que em
como a árvore plantada junto a ribeiros de qualquer período da história do cristianismo,
águas, a qual dá o seu fruto na estação pró­ muitos, senão a maioria dos que a possuíam,
pria, e cujas folhas não caem, e tudo quan­ simplesmente não a liam. ( R y l e , 1959, p. 70)
to fizer prosperará.
Salmo 1.1-3 Entretanto, isso não é característica exclu­
siva da sociedade inglesa que viveu na segun­
N o Salmo 119, o autor se referiu ao estu­ da metade do século 19, visto que também se
do da Bíblia como o segredo de uma vida san­ aplica aos nossos dias. Temos bilhões de Bí­
ta: Como purificará o jovem o seu caminho? blias em um considerável número de tradu­
Observando-o conforme a tua palavra. Es­ ções, mas, mesmo assim, são raras as pessoas
condi a tua palavra no m eu coração, para eu que, de fato, leem a Palavra de Deus. A maio­
não pecar contra ti (SI 119.9,11). ria, em vez disso, permite que outras ativida­
N o N ovo Testamento, Paulo falou da lei­ des preencham a vida delas e enfraqueçam-
tura bíblica com o a chave necessária para -lhes a alma.
que o cristão se equipe para as batalhas espi­ H á outros momentos em que a Bíblia é
rituais: utilizada erroneamente. É equivocado de
nossa parte, por exemplo, considerá-la como aguce nosso interesse, pouco faz para, de fato,
um fim em si mesma e, assim, impedir que ela aprofundar-nos nos princípios da Palavra de
cumpra seu propósito principal: levar-nos a Deus e produzir obediência a eles. Assim, as
um conhecimento de Deus por meio da fé em pequenas variações entre diferentes textos se
Jesus Cristo. Às vezes, isso acontece nos tornam mais interessantes do que o ensino de­
meios acadêmico e teológico. les, o que relega ao segundo plano a obediência
O movimento que defendia uma visão a Cristo e o desejo de conhecê-lo melhor.
histórica de Jesus, ocorrido no século 19, é Acredito que não haja necessidade de ou­
um exemplo. Essa corrente foi uma tentativa tra tradução contemporânea para o nosso
que, por um século, teve com o alvo desmere­ idioma. Já existe uma infinidade delas à nossa
cer o Jesus do N ovo Testamento, considerado disposição, de acordo com as nossas prefe­
um produto da fé da Igreja primitiva, substi- rências. Creio que muito do nosso interesse
tuindo-o por um Jesus histórico verdadeiro, atual por traduções tenha suas origens nas
destituído de todos os elementos sobrenatu­ editoras, que estimulam isso com um propó­
rais “não comprovados cientificamente”. sito comercial. Os esforços despendidos ao
Esse esforço foi notável, mas não produ­ produzir tais versões seriam muito melhor
ziu nada duradouro. P or não conseguirem ser utilizados se gastos em traduzir a Bíblia para
levados pela Bíblia ao Jesus genuíno do N ovo o idioma de homens e mulheres que nunca
Testamento, os eruditos produziram apenas viram qualquer versão das Escrituras.
um Cristo à imagem deles. À luz desses problemas, a exortação de
Os racionalistas descobriram que o C ar­ Jesus para os judeus de Sua época é bem rele­
pinteiro de Nazaré foi um grande professor vante. Ele disse: Examinais as Escrituras, por­
de ética. Os socialistas o viram como um re­ que vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são
volucionário. Radicais, como o jovem hege- elas que de mim testificam. E não quereis vir a
liano Bruno Bauer, negaram até mesmo a mim para terdes vida (Jo 5.39,40).
existência de Cristo. Ninguém poderia criticar os judeus pelo
P or fim, Albert Schweitzer pôs fim a essa seu meticuloso estudo das Escrituras Sagra­
busca com sua crítica avassaladora em The das. Os escribas, cujo trabalho era copiar os
Quest o f the Historical Jesus [A busca pelo pergaminhos, sujeitavam as páginas da Bíblia
Jesus histórico]1. A Academia transformou os ao escrutínio mais detalhado. Eles davam
Evangelhos em algo com um fim em si mes­ atenção a cada sílaba e até mesmo contavam
mo, e a Bíblia, em vez de ser um livro crido e as palavras e as letras para que soubessem
obedecido, havia se tornado para eles um ma­ quais vinham no meio da página e quantas
terial a ser avaliado e manipulado. letras determinada página deveria ter.
Vemos algo semelhante no uso das tradu­ De certa forma, devemos ser gratos por
ções pelos evangélicos. N ão podemos negar esse cuidado, já que o resultado é a precisão
que elas sejam necessárias, já que poucos cris­ dos textos de nosso atual Antigo Testamento.
tãos sabem grego e hebraico, as línguas origi­ Contudo, na maioria dos casos, a relação do
nais da Bíblia, o que faz com que uma boa, escriba com a Palavra de Deus era apenas co-
precisa e moderna tradução seja de grande valia piá-la. Assim, aqueles que usavam seus tex­
em qualquer programa sério de estudo bíblico. tos, possuindo a mesma mentalidade, deti-
Entretanto, às vezes, há uma preocupação nham-se nos menores detalhes, mas deixavam
tão exagerada com a “melhor”, “mais recen­ escapar a mensagem da Bíblia. As palavras
te” ou “mais moderna” tradução que, embora eram precisas,, porém qual é o valor delas se
desconsiderarmos seus ensinamentos? Qual é seus defeitos. Somente a Bíblia é absolutamente
o valor das letras se elas não são gravadas em perfeita. D o começo ao fim, ela é a Palavra de
um coração obediente? Deus. ( R y l e , 1959, p. 71)
Muitos que estão lendo este livro têm um
alto grau de conhecimento bíblico. Conhe­ Contudo, as Escrituras não contêm infor­
cem o nome dos 12 apóstolos, das cidades que mações distantes, impessoais, que despencaram
Paulo visitou e talvez até dos reis hebreus. N o do “espaço sideral”. O Deus vivo continua a
entanto, deixam passar o que as Escrituras falar com Seu povo por meio delas. Assim,
têm a ensinar sobre pecado (o seu pecado), chegamo-nos à Bíblia de modo devocional, co­
justificação (a sua justificação), a vida cristã (a mo se ela fosse um lugar santo onde encontra­
sua vida cristã) e obediência (a sua obediên­ mos o Senhor e temos comunhão com Ele.
cia). Deus fala nas Escrituras por intermédio
do Espírito Santo. E por isso que retomamos
E stu d a n d o a B íb l ia ________________________ essa questão no terceiro livro deste volume,
A importância da Bíblia advém de sua pró­ em vez de tê-la esgotado no primeiro, no qual
pria essência, visto que ela é a Palavra de Deus. analisei o papel do Espírito Santo, principal­
Dizer que ela é inspirada por Deus (2 Tm 3.16) mente na inspiração da Bíblia. Neste capítulo,
torna-a completamente diferente de qualquer por sua vez, discuto Seu papel de ensinar o
outro livro jamais escrito. Embora as Escritu­ que Ele inspirou.
ras Sagradas sejam também um produto hu­ Paulo escreveu em 1 Coríntios que, com
mano, o Senhor ensinou aos escritores o que base em nossa sabedoria, não temos a capaci­
dizer e guiou-os em seus textos. O resultado? dade de compreender verdades espirituais,
Exatamente o que o Altíssimo desejou que mesmo quando elas estão registradas na Pala­
fosse escrito. vra de Deus. Mas o Espírito da verdade fala
Quando lemos o texto bíblico, não nos conosco mediante as páginas dela para trazer
deparamos com os pensamentos de homens e entendimento:
mulheres com o nós, que poderiam ou não ser
verdadeiros, mas sim com a Palavra de Deus Mas, como está escrito: As coisas que o olho
revelada a nós. Justamente por isso, não po­ não viu, e o ouvido não ouviu, e não subi­
demos ser indiferentes a ela. Sobre isso, Ryle ram ao coração do hom em são as que Deus
escreveu: preparou para os que o amam. Mas Deus
no-las revelou pelo seu Espírito; p orque o
Quando você lê [a Bíblia], não está lendo as Espírito penetra todas as coisas, ainda as
obras autodidatas de homens falhos como vo­ profundezas de Deus. Porque qual dos ho­
cê, mas as palavras do Deus eterno. Quando mens sabe as coisas do homem, senão o es­
você a ouve, não está ouvindo opiniões vaci­ pírito do homem, que nele está? Assim
lantes de mortais efêmeros, mas sim a imutável também ninguém sabe as coisas de Deus,
opinião do Rei dos reis. Os homens que foram senão o Espírito de Deus. Mas nós não re­
incumbidos de escrever a Bíblia não falaram cebemos o espírito do mundo, mas o Espí­
deles mesmos. Falaram à medida que foram rito que provém de Deus, para que pudés­
inspirados pelo Espírito Santo (2 Pe 1.21). To­ semos conhecer o que nos é dado
dos os outros livros do mundo, por mais que gratuitamente por Deus. As quais também
sejam bons e úteis, são mais ou menos imperfei­ falamos, não com palavras de sabedoria
tos. Quanto mais você olha para eles, mais vê humana, mas com as que o Espírito Santo
ensina, comparando as coisas espirituais que são novos na fé ou que têm um horário
com as espirituais. apertado, esse tempo pode ser mais curto,
1 Coríntios 2.9-13 chegando a ser de 10 a 15 minutos. Indepen­
dente da duração desse momento de estudo,
Qual é a maneira correta de estudar o tex­ o importante é que ele seja fixo em nossa
to sagrado? Existem aqueles que confessam rotina, estabelecido em um determinado pe­
que a Bíblia é a Palavra do Senhor e querem ríodo do dia.
conhecer o Deus vivo em suas páginas, mas, Quando deve ser? Isso também é variável.
talvez, não saibam muito bem com o fazer is­ Muitos descobriram que o melhor período
so. Abaixo, seguem cinco respostas para essa para dedicar-se a essa tarefa é o início do dia.
importante questão: Sobre isso, Torrey escreveu:

1. Estude a Bíblia todos os dias (At 17.11). Sempre que possível, o melhor horário para
Apesar de ser possível que nos voltemos para esse estudo é logo após acordarmos. O pior é
a Bíblia mais do que uma vez ao dia, há tam­ deixar que essa seja a última atividade da noite.
bém ocasiões em que preocupações legítimas É claro que é bom passar um pouco de tempo
consomem o tempo diário que, normalmente, lendo a Bíblia antes de recolhermo-nos, para
passaríamos estudando. Contudo, devemos que a voz de Deus seja a última que ouvimos,
disciplinar-nos para incluir um período diário mas a maior parte de nosso estudo bíblico deve
de estudo bíblico em nossa rotina, assim co ­ ser feita em uma hora que nossa mente esteja
mo nos disciplinamos para ter um horário mais alerta e disposta. Qualquer que seja o ho­
regular de dormir, escovar os dentes, fazer as rário separado para o estudo bíblico, ele deve
refeições e assim por diante. ser consagrado a esse propósito. ( T o r r e y ,
N a verdade, essa comparação com os ho­ 1975, p. 50)
rários regulares de refeições é muito adequa­
da, já que estamos falando de necessidades 2. Estude a Bíblia sistematicamente. Algu­
vitais para que nosso corpo fique saudável e mas pessoas leem a Bíblia de maneira aleató­
possamos exercer um bom trabalho. Às ve­ ria e, embora muitos adotem essa postura no
zes, embora não seja o ideal, pulamos uma que tange à maioria de suas atividades, ela é
refeição, e isso nos enfraquece. D a mesma bastante prejudicial, visto que leva a uma falta
forma, precisamos sempre nos alimentar da de harmonia e profundidade, característica
Palavra de Deus se queremos ficar espiritual­ dos cristãos de hoje. Muito melhor é realizar
mente fortes e manter-nos assim. um estudo regular e disciplinado de certos li­
O que acontece quando negligenciamos vros da Bíblia ou mesmo dela com o um todo.
esse estudo bíblico diário? Tornamo-nos in­ Cristãos com pouco tempo de convertidos
diferentes a Deus e relaxados com as coisas poderiam começar por um dos Evangelhos,
espirituais. Ficamos vulneráveis à tentação, e talvez o Evangelho de João ou de Marcos. De­
o pecado pode, com facilidade, enredar-nos. pois disso, eles poderiam prosseguir com Atos,
O horário regular que separamos para Efésios, Gálatas, Romanos ou um livro do An­
dedicar-nos a conhecer a Bíblia pode ser lon­ tigo Testamento, como Gênesis. É sempre vá­
go, em especial para aqueles que são maduros lido também ler e meditar nos Salmos.
na fé e para quem tem tempo para um estudo Certos procedimentos devem ser seguidos
assim, os quais talvez necessitem de uma ou durante o estudo. Primeiro, o livro em si deve
duas horas para tal. Entretanto, para aqueles ser lido cuidadosamente umas quatro ou cinco
vezes; talvez uma dessas vezes em voz alta. A encontrar versículos importantes de acordo
cada vez, algo novo irá surpreendê-lo. com seus temas.
Segundo, divida o livro em partes princi­ Suponhamos que você estivesse estudan­
pais, assim como dividimos os livros moder­ do Romanos 3.21-26 e quisesse aprender mais
nos em capítulos (não necessariamente os sobre a importante palavra justiça, com a qual
mesmos capítulos como aparecem na Bíblia), a passagem começa. U m versículo chave é o
subseções e parágrafos. Nesse estágio, o obje­ 10.3, no qual a justiça de Deus é distinguida
tivo é descobrir que versículos formam um da nossa. Também, Romanos 1.17 diz que ela
todo, que assuntos são cobertos e qual é a se­ se torna conhecida no evangelho. A o todo,
qüência do assunto. essa palavra é usada 35 vezes somente nessa
Terceiro, esses elementos devem relacio- carta, e esses usos, em sua maioria, esclarecem
nar-se uns com os outros. Quais são as partes uns aos outros.
ou assuntos principais? Quais são introdutó­ Nesse ponto, você também pode observar
rios? Quais são digressões? E quanto às apli­ o uso dessa palavra em outros livros da Bíblia,
cações? Nesse ponto, o leitor já estará elabo­ talvez usando o sistema de referências cruza­
rando um esboço para o livro e deverá estar das que algumas Bíblias oferecem. Você tam­
apto a responder perguntas como: “O que bém pode usar o dicionário. Alguns, de maior
aprendemos com a leitura desse livro? Para tamanho, contêm as derivações das palavras,
quem foi escrito? P or que foi escrito?”. o que também esclarece seus significados.
Se você estiver estudando Romanos, por Normalmente, só depois de um sistema de
exemplo, deve estar apto a dizer: “Este livro estudo bíblico pessoal e indutivo como esse
foi escrito para a Igreja em Roma, mas também os comentários de outros sobre o texto de­
para as de todos os lugares e de todas as épo­ vem ser considerados. Quando estes forem
cas. Nele, Paulo afirmou que a humanidade usados, bons comentários acerca de livros in­
está perdida no pecado e que a resposta a esse dividuais da Bíblia serão geralmente mais
pecado é a justiça de Deus revelada em Jesus úteis do que os mais restritos em um único
Cristo. Seu propósito é explicar o evangelho. volume sobre todo o Antigo Testamento e
U m propósito menor seria alertar os romanos também acerca do N ovo.
sobre o desejo de Paulo de visitá-los a caminho
de seu futuro ministério na Espanha”. 3. Estude a Bíblia de modo abrangente.
Assim, já é possível prosseguir com um Paralelamente a um estudo sério e profundo
estudo mais detalhado das seções individuais. de um livro ou de parte das Escrituras, deve
Qual é o propósito principal de cada seção? haver uma tentativa de tornar-se familiariza­
O que é dito nelas? P or que é dito? Para do com a Bíblia como um todo. Isso significa
quem? Quais são as conclusões que se seguem que a devemos ler de modo abrangente.
a partir delas? É útil, nesse estudo, prestar É verdade, muitas partes da Bíblia não são
atenção a pequenos conectivos como: mas, atrativas para nós de imediato. Isso é natural.
porque, então, e, já que e portanto. Mas, se nunca tentarmos familiarizar-nos
P or fim, você pode estudar as palavras- com elas, limitaremos nosso crescimento e
-chave, observando outras passagens do mes­ poderemos até deformar nossa compreensão.
mo livro nas quais elas aparecem. Você pode Foi por isso que Paulo disse a Timóteo: Toda
encontrá-las por meio de sua leitura ou usando Escritura divinamente inspirada é proveitosa
listagens com o as que aparecem nas páginas para ensinar, para redargüir, para corrigir, pa­
finais de muitas Bíblias, nas quais podemos ra instruir em justiça (2 Tm 3.16).
O testemunho de Ryle a esse respeito é o 5. Estude a Bíblia em obediência. Inicial­
seguinte: mente, sugeri algumas questões que devem
ser consideradas se queremos compreender
Começar a estudar a Bíblia pelo Antigo e pelo determinada passagem das Escrituras. Entre­
Novo Testamento ao mesmo tempo, lendo cada tanto, naquela lista, deixei de fora algumas
um até o fim e, depois, começando de novo é, de das perguntas mais importantes. C om o esta
longe, o melhor plano de estudo bíblico. Apesar passagem e seu ensino se aplicam a mim? Ela
de essa ser uma questão de preferência individu­ me instrui sobre alguma coisa que eu devo ou
al, posso dizer que esse tem sido meu plano há não fazer? O que ela me diz acerca da vontade
quase 40 anos, e nunca encontrei sequer uma de Deus e de com o posso agradá-lo mais,
razão para alterá-lo. ( R y l e , 1959, p. 96) servindo-lhe melhor?
Tiago tinha isso em mente quando ins­
4. Estude a Bíblia em espírito de oração. truiu aqueles para quem ele estava escreven­
A oração é o remédio contra a tendência que do: E sede cumpridores da palavra e não so­
alguns têm de estudar a Bíblia p or estudar, a m ente ouvintes, enganando-vos com falsos
qual foi discutida anteriormente neste capí­ discursos (Tg 1.22).
tulo. P or meio dela, podemos evitar o mero Deus exige obediência. Se Ele nos instrui,
formalismo dos escribas. N o estudo bíblico é para que lhe obedeçamos e cresçamos. O
verdadeiro, primeiro pedimos que o Espíri­ que devemos fazer?
to Santo abra nossa mente para que com pre­
endamos a verdade e, assim, possamos obe­ Cultive uma obediência imediata, exata, sem
decer-lhe à medida que Ele a aplica à nossa questionamentos e alegre em todo o manda­
vida. mento que ficar evidente pelo contexto que se
O autor do Salmo 119 demonstrou uma aplica a você. Fique atento às novas ordens de
atitude correta quando escreveu: Faze bem ao seu Rei. As bênçãos estão na direção da obedi­
teu servo, para que viva e observe a tua pala­ ência a essas ordens. O s mandamentos de Deus
vra. Desvenda os meus olhos, para que veja as são, na verdade, placas que sinalizam a estrada
maravilhas da tua lei (SI 119.17,18). que leva ao sucesso, às bênçãos e à glória eter­
O que uma oração como essa pode fazer? na. ( T o r r e y , 1975, p. 60)
Ela nos toma conscientes de que estamos, de
fato, encontrando-nos com Deus em nossa lei­ Se não estivermos dispostos a obedecer a
tura, e não meramente cumprindo um ritual Deus, não vamos nem mesmo entender o que
religioso prescrito. lemos 0 o 7.17), e o estudo bíblico irá tornar-se
Após orarmos, precisamos pensar: “Ago­ pesaroso, opressivo e sem sentido. N ós ire­
ra, Deus vai falar com igo”, e, assim, devemos mos, até mesmo, afastar-nos do Senhor e aca­
ler a Palavra para ouvir o que Ele dirá. E pro­ baremos criticando Sua Palavra. Ficaremos
vável que não haja nada que possa tornar o suscetíveis a teorias críticas que a menospre­
estudo bíblico mais emocionante do que isso, zam. Contudo, se estivermos dispostos a obe­
visto que nada é melhor do que saber que, decer, o Pai irá ajudar-nos a entender Sua ver­
enquanto lemos, o Senhor está falando co ­ dade, levando-nos a [pregar a] outros também.
nosco pessoalmente, ensinando-nos Seus Diante de tudo isso, foi afirmado:
princípios. Isso faz do estudo bíblico e da
oração que o acompanha um momento de O estudo sério da Bíblia não consiste mera­
comunhão pessoal com Ele. mente em aprofundar-se na Palavra, mas exige
uma tradução dela para a nossa vida e o mun­ então, compreenderemos o caminho para as
do. Temos de ser epístolas [vivas] de Deus, li­ verdadeiras bênçãos espirituais e seremos
das para todos os homens. [...] Se levarmos bem-sucedidos em tudo o que fizermos para
nosso estudo bíblico a sério, a ponto de obede­ nosso Senhor Jesus Cristo. ( B o i c e e K e i p e r ,
cer ao Senhor em qualquer circunstância, 1977, p. 29)

N ota

1 O movimento que defendia o Jesus histórico é discutido de modo mais detalhado nas páginas 81 e 82 do primeiro
livro desta obra. Recentemente, tem havido um renovado interesse na busca pelo Jesus histórico, mas, dessa vez, em
um tom muito mais sensato. Ver BO ICE, James M. N ew Vistas in Historical Jesus Research [Novas perspectivas
sobre a pesquisa do Jesus histórico], p. 3-6.
A busca pelo Jesus histórico iniciou-se com o trabalho de Hermann Samuel Reimarus. Jesus histórico é uma
tentativa de reconstrução da figura de Jesus de Nazaré feita pelos historiadores pelo método histórico. Exegetas
usam a alta crítica para analisar os textos evangélicos, principal fonte para a biografia de Jesus, com textos fontes não
canônicos para reconstruir o contexto histórico do primeiro século. Esse método não inclui axiomas teológicos ou
religiosos, nem pressupõe a infalibilidade bíblica. Embora as reconstruções variem, elas geralmente concordam so­
bre estes pontos básicos: Jesus foi um judeu que atraiu um pequeno grupo de galileus e, após um período de minis­
tério, foi crucificado pelos romanos na Palestina durante a governo de Pôncio Pilatos.
Por outro lado, para certos pesquisadores que exigem fontes de confirmação independentes, a virtual ausência de
referências arqueológicas e históricas a Jesus fora dos relatos místicos é consistente com a hipótese de que Jesus
possa ter sido apenas um personagem construído mitologicamente, e não um personagem histórico real.
A investigação histórica das fontes cristãs sobre Jesus exige a aplicação de métodos críticos que permitam discer­
nir as tradições que remontam ao Jesus histórico daquelas que constituem adições posteriores, vindas das comuni­
dades cristãs. Durante a segunda metade do século 19, a principal contribuição dos historiadores cristãos foi a
crítica literária dos Evangelhos. Os principais critérios para a interpretação de fontes cristãs são: o da dissimilarida-
de, o da plausibilidade histórica, o de múltiplos atestados, o critério textual e o lingüístico e a análise do objetivo do
autor. (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jesus_hist%C3%B3rico)
Se r v i n d o

erta vez, um jovem me escreveu para Se você quiser ser um cristão feliz, firme e po­
pedir conselhos sobre como perma­ deroso em oração, comece de uma vez a traba­
necer fiel a Deus durante seus anos de lhar para o Mestre e nunca deixe que se passe
faculdade. Ele estava no primeiro ano um dia sem que você faça um trabalho especí­
da Universidade de Harvard, para a qual havia fico para Ele. ( T o r r e y , 1975, p. 83)
ido, tendo saído do meio-oeste norte-americano.
Ele estava preocupado que as pressões dos estu­ F u g in d o d a o b r i g a ç ã o ____________________

dos e o ponto de vista dominantemente secular Apesar de Efésios 2.10 aparecer no final
em muitas áreas pudessem enfraquecer sua fé. de uma série de versículos bastante conheci­
A esse respeito, três coisas vieram à minha dos que explicam como somos salvos pela
mente. Assim, respondi que ele organizasse seu graça de Deus por meio da fé, e não das obras,
horário de modo a conter três elementos: (1) nessa passagem também foi afirmado que so­
um período diário de estudo bíblico e oração; mos feitura sua, criados em Cristo Jesus para
(2) comunhão regular e adoração com outros as boas obras, as quais D eus preparou \orde­
cristãos, os dois com colegas de faculdade (tal­ nou,, segundo a versão bíblica inglesa King
vez em um estudo bíblico no dormitório ou em James] para que andássemos nelas.
algum outro encontro cristão de universitários) Deus tem um propósito para cada cristão,
e em um culto semanal na igreja; e (3) alguma e as boas obras fazem parte desse plano. C on­
forma regular de serviço a outros. tudo, nossa insensibilidade em relação aos
Disse ainda que esse último ponto poderia planos divinos e nossa preguiça são tão gran­
assumir várias formas: uma doação para não des, que nós sempre tentamos escapar dessa
cristãos, um projeto de tutoria para os menos obrigação.
favorecidos ou um trabalho de assistência so­ Alguns tentam fugir disso por meio da
cial, por exemplo. Somente dedicando-nos a teologia. Eles ressaltam a justificação pela
esse tipo de atividades é que conseguimos graça mediante a fé, separadamente das obras,
desviar o foco de nós mesmos para os outros a tal ponto que nossa obrigação de fazer as
e seus problemas, segundo fomos biblica- boas obras desaparece.
mente aconselhados a fazer, se quisermos ser P or exemplo, um dos mais meticulosos
discípulos de Cristo (Fp 2.4) estudos atuais sobre o segundo capítulo de
Se negligenciarmos tais obras, é inevitável Efésios consiste em uma análise de 400 páginas,
que fiquemos empobrecidos. dentre as quais 24 são dedicadas à análise dos
De acordo com Reuben A. Torrey: versículos de 8 a 10. Mas essa expressão-chave,
que lida com o mandamento de fazer boas de grande porte, o que, então, faz com que
obras, dispõe apenas de um parágrafo de ex­ elas, erroneamente, negligenciem o impacto
posição. positivo que suas ações com o indivíduos po­
Embora a justificação pela fé e não por dem ter.
obras seja um ensino bíblico fundamental, Para termos uma vida cristã e um ministé­
como vimos no capítulo sete deste Livro III, rio saudáveis, é preciso, além de boa teologia,
isso não significa que, se alguém está justifica­ recorrer à oração, ao estudo bíblico e a outros
do, inexista lugar para boas obras. Isso está elementos. E necessário estabelecer e dar su­
claro na própria Bíblia, em Efésios 2.8-10, porte a programas de ação social que sejam,
porque a palavra obras aparece duas vezes: de fato, eficientes. Contudo, é importante
primeiro, com o aquilo que Deus amaldiçoa e, entender que eles não substituem o ato de fa­
depois, como o que Ele abençoa. zer boas obras de maneira individual.
N o versículo 9, foi-nos ensinado que a Depois da vida e do ministério do próprio
salvação não vem das obras, para que nin­ Jesus, os cristãos devem ser a melhor coisa
guém se glorie. N o entanto, logo depois, Pau­ que já apareceu no mundo. Devemos ser fon­
lo falou não das obras de nossa própria natu­ te constante de bondade, de unidade, de amor
reza, mas das que Deus indicou que fossem e de serviço, a fim de que o mundo possa ser
feitas por aqueles que estão justificados. abençoado e muitos possam ser alcançados e
Algumas pessoas, por entenderem essas salvos pelo amor de Cristo.
obras apenas como algo espiritual que, como O Senhor m ostrou essa necessidade no
cristãos, devemos fazer - orar, ler a Palavra, Sermão do M onte, quando cham ou Seus
evangelizar - , buscam desculpas para fugir da seguidores de sal da terra e luz do mundo
responsabilidade de trabalhar para o Senhor (M t 5.13,14). O sal é bom , e a luz, valoriza­
iia terra. da. Assim, Ele ordenou: “Deixe que seu sal
Em bora esses aspectos da vida cristã sejam seja provado, e sua luz, vista”. Façam os isso
de grande valor, eles não são as boas obras das para que o mundo veja as nossas boas obras
quais Paulo falava, visto que, se ele estivesse e glorifique o nosso Pai, que está nos céus
pensando em evangelismo, por exemplo, teria (M t 5.16).
dito que Deus ordenou que evangelizássemos.
A terceira desculpa que certos cristãos dão A c o m p a ix ã o d e C r is t o ____________________

para não obedecer à ordenança de Efésios Quando Jesus pregava, Ele o fazia com
2.10 é de natureza organizacional. É comum excelência. Tendemos a focalizar Seu ensino
enfatizar a importância de programas e pla­ e maravilharmo-nos com ele, como as pesso­
nos sociais no meio evangélico, mas, por mais as também faziam naquela época (Mt
estranho que possa parecer, essa ênfase, que é 7.28,29). Entretanto, quando lemos os Evan­
muito necessária e tem sido menosprezada gelhos tendo em mente o tema das boas
atualmente, pode, na verdade, reprimir a rea­ obras, ficamos imediatamente impressiona­
lização de boas obras. dos com a grandeza do ministério de Cristo
A justificativa para essa afirmação é sim­ em fazer o bem.
ples. Diante da magnitude dos problemas que Esse foi o tom com o qual Jesus, ao ler o
a sociedade enfrenta, as pessoas, impressiona­ pergaminho de Isaías na sinagoga em Nazaré,
das, concluem que a única maneira adequada começou Seu ministério. Haviam pedido a
por meio da qual é possível ajudar uns aos Ele que participasse do culto, lendo uma lição
outros é apelar para um esforço organizacional para o dia. Então, Ele se voltou para a parte
da profecia de Isaías relacionada à vinda do do servo do sumo sacerdote que tinha ido
Messias: prendê-lo no jardim do Getsêmani, o qual
havia sido atacado por Pedro em uma tentati­
O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que va impensada deste de proteger Jesus (Lc
me ungiu para evangelizar os pobres, en­ 22.50,51).
viou-me a curar os quebrantados do cora­ Assim, Cristo, ao lembrar-nos de que
ção, a apregoar liberdade aos cativos, a dar Deus fa z que o seu sol se levante sobre maus e
vista aos cegos, a pôr em liberdade os opri­ bons e a chuva desça sobre justos e injustos
midos, a anunciar o ano aceitável do Senhor. (Mt 5.45b), ensinou-nos que devemos fazer o
Lucas 4.18,19 bem até aos nossos inimigos.
N a parábola do bom samaritano, apren­
Isso leva-nos a pensar em um ministério demos que devemos ser bondosos até com
espiritual, pois pessoas foram libertas do pe­ aqueles que são culturalmente desprezados
cado pela verdade. Mas, como o restante do (Lc 10.30-37).
capítulo indica, o assunto não se limita so­ Jesus não realizou apenas milagres. Se isso
mente a esse aspecto. A segunda metade do fosse verdade, poderíamos concluir que boas
capítulo quatro de Lucas registra o início dos obras estão além da nossa capacidade. Aparen­
milagres de Cristo: a expulsão de demônios e temente, o Senhor e Seus discípulos manti­
a cura da sogra de Pedro. Depois, lemos: E, ao nham um fundo do qual retiravam contribui­
pôr-do-sol, todos os que tinham enfermos de ções para ajudar aos necessitados (Jo 13.29).
várias doenças lhos traziam; e, impondo as Cristo também encorajava outros a serem
mãos sobre cada um deles, os curava (Lc 4.40). bondosos com seus semelhantes. N em mes­
Da mesma forma, quando, na prisão, João mo uma viúva pobre podia passar despercebi­
Batista começou a duvidar sobre a identidade da a Seus olhos. Ele notou quando ela, como
de Jesus como Messias, ele enviou discípulos oferta, colocou duas moedinhas na arca do
para questioná-lo acerca disso. Cristo, então, tesouro do templo.
referiu-se a essa mesma passagem e orientou
João a considerar a cura dos cegos, dos aleija­ Esta pobre viúva depositou mais do que
dos, dos surdos e dos leprosos, obras que Ele todos os que depositaram na arca do te­
tinha realizado em cumprimento à profecia. souro; p orque todos ali depositaram do
Contudo, Jesus não fez tais milagres com qu e lhes sobejava, mas esta, da sua p obre­
o principal objetivo de levar as pessoas a cre- za, depositou tudo o que tinha, todo o seu
rem nele, pois, na verdade, era movido pela sustento.
compaixão que tinha daqueles que estavam Marcos 12.43,44
doentes, famintos ou necessitados. [Mas esses
milagres eram um sinal de que Ele era o Mes­ O Senhor também apreciou a generosidade
sias, profetizado em Isaías 61.] de Maria, da cidade de Betânia, a qual que­
N em todos os que Ele curou creram, pelo brou um frasco de um unguento muito caro
menos não nos foi dito nas Escrituras que tal para ungir Seus pés pouco antes de Sua prisão
coisa aconteceu. N em todos ficaram ao Seu e crucificação. Judas foi contra aquela de­
lado, nem mesmo os amigos. Mas Jesus, sen­ monstração de amor, mas Ele respondeu-lhes:
do tão misericordioso, preocupava-se até
mesmo com os que o perseguiam. Exemplo Deixai-a, para que a molestais? Ela fez -
disso foi o fato de Ele ter restituído a orelha -m e boa obra. Porque sempre tendes os
pobres convosco e podeis fazer-lhes bem, diáconos, com o eram chamados, era cuidar
quando quiserdes; mas a m im nem sempre dos doentes e dos pobres, e distribuir bens
m e tendes. para eles de acordo com suas necessidades (At
Marcos 14.6,7 6.1-6). Estêvão, o primeiro mártir cristão, es­
tava entre eles.
Da mesma forma, quando Zaqueu se con­ Em um capítulo posterior de Atos, falou-
verteu e prometeu dar metade de seus bens aos -se de D orcas, que estava cheia de boas
pobres, restituindo, quatro vezes mais, a qual­ obras e esmolas que fazia (A t 9.36). Quando
quer um que ele tivesse roubado, Jesus respon­ ela m orreu, houve grande lamentação, e to ­
deu: Hoje, veio a salvação a esta casa (Lc 19.9). das as viúvas a quem ela havia ajudado vie­
[A salvação operou a mudança em Zaqueu.] ram chorando e mostrando as túnicas e ves­
tes que Dorcas fizera quando estava com elas
O s a l d a t e r r a ______________________________ (A t 9.39).
Os irmãos das comunidades cristãs primi­ Mediante a autoridade espiritual que Deus
tivas chamavam a atenção por serem genero­ lhe dera, Pedro se voltou para Dorcas e disse:
sos e preocupados uns com os outros e com Tabita, levanta-te (A t 9.40), e ela ressuscitou.
os pobres. Depois que, por meio do sermão O utra pessoa conhecida por suas boas
de Pedro no Pentecostes, cerca de três mil obras foi Simão, o curtidor, o que morava em
pessoas foram salvas, ficamos sabendo que Jope (At 9.43). Ele deixou sua casa disponível
todos os que criam estavam juntos e tinham para Pedro quando este estava na cidade.
tudo em comum. Vendiam suas propriedades N o capítulo 10, Cornélio, um centurião
e fazendas e repartiam com todos, segundo romano, é elogiado como alguém que fazia
cada um tinha necessidade (A t 2.44,45). muitas esmolas ao povo e, de contínuo, orava
Depois que a Igreja cresceu ainda mais, a Deus, mesmo antes de sua conversão (At
está registrado que: 10.2).
Fom os apresentados também à Maria, a
Não havia, pois, entre eles necessitado al­ mãe de João Marcos, que disponibilizava sua
gum ; porque todos os que possuíam herda­ casa para encontros cristãos; nesse caso, ela
des ou casas, vendendo-as, traziam o preço cedeu seu lar a uma reunião de oração que
do que fora vendido e o depositavam aos durou a noite inteira (At 12.12).
pés dos apóstolos. E repartia-se a cada um, E muito comum ler, no livro de Atos, refe­
segundo a necessidade que cada um tinha. rências a donativos que eram levados para
Atos 4.34,35 ajudar os pobres. Em uma ocasião, isso foi
feito em resposta a uma fome em Jerusalém
Essa venda de bens e posse de todas as coi­ (At 11.27-30). Em outra, foi uma oferta das
sas em comunhão não subverte o direito à igrejas gentias aos pobres da mesma região (At
propriedade privada, o qual é reconhecido em 24.17; compare com 1 C o 16.1-4; 2 C o 8.1-9).
Atos 5.4, mas, de qualquer forma, aquela era Aparentemente, a tendência à caridade da
uma igreja generosa. Outras o eram de ma­ Igreja primitiva continuou no período dos
neira diferente. apologistas, pois eles com frequência aponta­
N o capítulo seis de Atos, foi narrada a es­ vam para a bondade dos cristãos com o parte
colha dos primeiros obreiros da igreja, além de sua defesa da fé.
dos apóstolos que haviam sido escolhidos e O filósofo ateniense Aristides escreveu
comissionados por Cristo. As tarefas daqueles sobre esses cristãos a Adriano:
Eles não cometem adultério ou imoralidade; hospitais e orfanatos. O status dos menos
eles não dão falso testemunho nem fraudam, favorecidos melhorou. O progresso nem
nem cobiçam o que não é deles. Eles honram o sempre foi constante, porém a direção geral
pai e a mãe, e fazem o bem àqueles que são seus era essa.
próximos. Sempre que são juizes, julgam com As mesmas preocupações eram evidentes
equidade. Eles não adoram ídolos feitos à ima­ durante a Reforma e o movimento missioná­
gem de homens. O que quer que eles não dese­ rio moderno. Este estabeleceu hospitais e es­
jam que os outros façam com eles, por sua vez, colas, literalmente, pelo mundo. Mesmo hoje,
não o fazem, e eles não comem a comida sacri­ muitos líderes em quase todas as nações inde­
ficada a ídolos. Eles exortam aqueles que os pendentes da África reconhecem ter recebido
oprimem e os tornam amigos. Eles fazem o treinamento inicial e motivação para servir a
bem a seus inimigos. Suas esposas, ó rei, são seus países em escolas de missões.
puras como virgens, e suas filhas são recatadas. E hoje? A situação está confusa por causa
Seus homens se abstêm de todo contato sexual da proliferação de serviços governamentais.
ilegítimo e da impureza. Todos esperam a re­ Previdência, assistência médica, seguro-de-
compensa que está por vir no mundo vindouro semprego e vários outros programas sociais
[...]. Eles amam uns aos outros; as necessidades repetem o que muitos cristãos faziam no pas­
das viúvas não são ignoradas, e eles resgatam os sado, podendo até ser considerados melhores
órfãos da pessoa que lhes inflige violência. em recursos totais, mas não sendo necessaria­
Aquele que tem dá a quem não tem, sem mur­ mente superiores em compaixão ou em cui­
múrio nem vangloria. dado individual. Contudo, há muitas oportu­
Quando os cristãos encontram um estrangeiro, nidades para aqueles que estão atentos à
eles o trazem para suas casas e se regozijam necessidade das boas obras.
com ele como um verdadeiro irmão. Eles não Grupos de cristãos, tais com o os que pro­
chamam de irmãos aqueles que são ligados movem encontros semanais para estudos bí­
apenas por laços de sangue, mas aqueles que blicos nos lares, são particularmente eficien­
são irmãos no Espírito e em Deus. Quando um tes. Tenho visto grupos com o esses em minha
dos pobres falece, cada um ajuda no sepulta- igreja ajudarem pessoas a mudar-se de um apar­
mento de acordo com sua possibilidade. Se eles tamento para outro ou para um lar de idosos.
ficam sabendo que alguém do seu grupo está Alguns se revezam para passar a noite em
aprisionado ou oprimido por causa do nome do um lar onde há alguém doente ou que precisa
Messias, eles proveem suas necessidades, e, se é de cuidado. Eles têm arrecadado alimentos
possível redimi-lo, eles o libertam. Se encon­ para os necessitados, incluindo alguns traba­
tram pobreza em seu meio e eles não têm comi­ lhadores cristãos da periferia, bem como rou­
da sobrando, jejuam por dois ou três dias para pas. Têm também doado sangue, limpado
que os necessitados possam ser supridos em to­ apartamentos, transportado doentes para
das as suas necessidades. (W i r t , 1968, p. 29,30) hospitais e outras coisas semelhantes. Muitos,
simplesmente, trabalham duro em seus em­
Quando o cristianismo abriu seu caminho pregos por meio dos quais outros são benefi­
no mundo romano, o impacto de sua compai­ ciados.
xão foi sentido. Os esportes cruéis da arena A o longo da história, diversos cristãos
foram revistos. Leis tramitaram para proteger têm assumido mesmo seu papel de sal da ter­
escravos, prisioneiros e mulheres. A explora­ ra, precisamente da maneira que seu Senhor
ção de crianças foi proibida. Foram fundados tinha previsto quando os instruiu a fazer
boas obras. Todavia, isso não tem sido sem­ tive fom e, e destes-me de comer; tive sede,
pre assim. e destes-me de beber; era estrangeiro, e
Para ser sincero, nós, em nossa geração, hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me;
estamos muito aquém de atitudes como as adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e
que citei. Os cristãos não são mais conheci­ fostes ver-me.
dos como aqueles que fazem o bem aos ou­ Mateus 25.34-36
tros. Alguns de nós raramente fazemos qual­
quer coisa particularmente boa para alguém. Agradamos a Jesus por meio de nossa de­
E mais fácil servirmos a nós mesmos, é claro. dicação aos irmãos e, se o alegramos dessa
Mas não devemos pensar dessa forma. maneira, também o fazemos com o próximo.
Em primeiro lugar, a presença de boas Por fim, Deus é glorificado pelas nossas
obras na vida cristã é uma evidência da salva­ boas obras. Somente por intermédio dele e de
ção. N ós pensamos de forma diferente da que Sua graça podemos fazê-las. Alguns podem
pensávamos antes de nossa conversão e bus­ perguntar: “Se a justificação não é pelas
camos servir aos outros de uma maneira que, obras, que valor elas têm? E por que a Bíblia,
no passado, nunca teria passado por nossa às vezes, fala de ‘recompensas’ pelas boas
mente. Nisso, temos a evidência de que so­ obras se elas não são um m érito?”. A estes,
mos novas criaturas em Cristo. Calvino respondeu:
N o capítulo oito, eu disse que uma expres­
são de amor prática para outros é uma prova Não há dúvida de que tudo que há de louvável
da nova vida apresentada pelo apóstolo João: nas obras deve-se à graça de Deus e que nenhu­
Nós sabemos que passamos da morte para a ma gota há que devamos atribuir a nós mes­
vida, porque amamos os irmãos (1 Jo 3.14a). mos. Se deveras e seriamente reconhecemos
Em segundo lugar, fazer boas obras é um isso, desvanece-se não apenas toda e qualquer
meio de crescer na vida cristã. Se desejamos confiança de mérito, mas ainda a própria no­
isso, devemos servir aos outros fielmente. O ção. Afirmo que não dividimos, como fazem
que acontece se não o fizermos? N ós nos tor­ os sofistas, o louvor das boas obras entre Deus
naremos introvertidos, egoístas, insensíveis e e o homem; pelo contrário, nós o conservamos
mesquinhos. Quando fazemos o bem aos ou­ todo, inteiro e isento ao Senhor. Ao homem,
tros, nossos horizontes se ampliam, cresce­ apenas atribuímos isto: que, com sua impure­
mos espiritualmente e tornamo-nos mais e za, polui e contamina essas mesmas coisas que
mais parecidos com Jesus. eram boas, pois nada procede do homem, por
Por fim, boas obras são uma bênção para mais perfeito que seja, que não seja maculado.
aqueles que servem. E difícil colocarmo-nos Portanto, convoque o Senhor a juízo acerca do
no lugar dos outros, principalmente quando que há de melhor nas obras humanas: por certo
eles são necessitados, e nós estamos bem de que nelas reconhecerá Sua justiça; do homem,
vida. Entretanto, o que nos ajuda nesse aspec­ porém, a ignomínia e o opróbrio. Consequen­
to é lembrar-nos de que servir aos nossos se­ temente, as boas obras agradam a Deus, e não
melhantes é servir ao nosso Senhor: são infrutíferas a seus autores; mais ainda: rece­
bem os mais amplos benefícios do Senhor à
Então, dirá o R ei aos que estiverem à sua guisa de galardão, não porque assim mereçam,
direita: Vinde, benditos de m eu Pai, possuí mas porque de si mesma a benignidade divina
p o r herança o Reino que vos está prepara­ lhes atribui esse valor. ( C a l v i n o , 1960, p.
do desde a fundação do m undo; porque 790,791)
Se nosso maior propósito é glorificar a valorizar o ato de fazer boas obras, visto
Deus e regozijar-nos nele, com o sugere o que este é um dos meios para atingirmos es­
Catecismo B reve de Westminster, devemos sa meta.
Pa r t e

4
O trabalho de Deus

E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam
a Deus, daqueles que são chamados por seu decreto. Porque os que dantes conheceu,
também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele
seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também cha­
mou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses tam­
bém gloríficou.
Romanos 8.28-30

Tendo por certo isto mesmo: que aquele que em ws começou a boa obra a aperfeiçoará até
ao Dia de jesus Cristo.
Filipenses 1.6

Do SENHOR vem a salvação.


Jonas 2.9
C hamados po r D eus

ressaltado com frequência que Cal- ele não queria fazer: a evangelização de Níni-
vino não discutiu a doutrina da elei­ ve. Deus perseverou com Jonas, apesar das
ção, pela qual ele é conhecido, no tentativas rebeldes do profeta de fugir.
início de sua obra As Institutas, Em bora a chamada de Jonas tenha sido
mas, sim, no final do volume três, isto é, após para um ministério particular, e não para a
cerca de três quartos da obra. salvação [o tema discutido aqui], o princípio
Calvino não começou com uma precon- é o mesmo, pois nada pode acontecer espiri­
cepção rígida de como Deus deve ter traba­ tualmente na vida de uma pessoa até que
lhado para salvar a humanidade. Em vez dis­ Deus, com base em Sua decisão, chame a pes­
so, ele começou por um estudo teológico, soa para Ele.
ensinando o que Deus de fato fez. Só depois Seria tolice um pregador chegar a um en­
disso, voltou-se para analisar o assunto em terro e encorajar os cadáveres a levar uma vi­
sua perspectiva mais completa: de que a sal­ da reta. Para que as palavras pudessem fazer
vação começa na eternidade, na decisão de algum efeito, os cadáveres teriam de reviver.
Deus de salvar um povo para si mesmo, a Só assim poderiam responder. D a mesma for­
qual continua sendo manifesta pela perseve­ ma, o chamado para o discipulado deve co ­
rança final de Deus com Seus santos. meçar com o ato de Deus ao ressuscitar espi­
Vou seguir o mesmo procedimento neste ritualmente uma pessoa. A escolha a ser feita
capítulo e no próximo. não está em quem está espiritualmente morto,
mas em Deus somente, que tem a capacidade
O D e u s q u e t o m a a i n i c i a t i v a ___________ de dar vida.
N o livro de Jonas, no final da grande ora­ Isso é o que significa novo nascimento.
ção de livramento do profeta, temos a frase: do Antes da conversão, diz o Senhor que estáva-
S E N H O R vem a salvação (Jn 2.9). Essa frase é mos mortos em nossos pecados e ofensas.
simples e profunda. A origem, o fim e, com Estávamos vivos física e intelectualmente,
efeito, a única fonte de salvação possível é mas não espiritualmente. N ão conseguíamos
Deus. A salvação começa com Deus nos esco­ responder a estímulos espirituais.
lhendo, ou seja, antes de nossa escolha por Ele, A Palavra de Deus fala dos mistérios ocul­
e ela nos conduz a uma bem-sucedida conclu­ tos em Deus desde os séculos (Ef 3.9; 5.12).
são, pois o Altíssimo persevera por nós. Porém, o Senhor nos toca. Ele suscita vida
O caso de Jonas é um exemplo perfeito. O onde havia morte. N ós cremos em Jesus Cris­
Eterno o elegeu para fazer um trabalho que to e começamos a entender a Bíblia. Isso é o
que significa ser chamado por Deus, e isso A Bíblia continua o relato: Então, Sam uel
precisa acontecer antes que possa haver um tomou o vaso do azeite e ungiu-o no meio
discipulado verdadeiro. Jesus disse: Não me dos seus irmãos; e, desde aquele dia em
escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a diante, o Espírito do S E N H O R se apoderou
vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, de D a vi (1 Sm 1 6 .10-13). Foi Deus quem
e o vosso fruto perm aneça (Jo 15.16a). chamou Davi.
Abraão foi chamado. Ele não escolheu N o N ovo Testamento, o Senhor já havia
Deus. Aparentemente, ele estava muito satis­ escolhido João Batista antes mesmo de ele
feito vivendo próximo ao vale de um rio da nascer.
Mesopotâmia em uma cultura pagã. Mas Deus Jesus chamou Seus discípulos quando ain­
o chamou e enviou à Palestina. da eram pescadores.
Moisés foi escolhido por Deus mesmo an­ O Senhor chamou Paulo quando ele ainda
tes de ser um bebê flutuando no rio N ilo em perseguia os cristãos.
uma cesta. Deus disse: “Livrarei meu povo do Em todos os casos, o chamado divino foi
Egito e farei isso por intermédio de Moisés. primordial, e, por sua vez, baseado na decisão
Vou protegê-lo do faraó. Darei a ele o melhor do próprio Deus de salvar e usar as pessoas.
treinamento e a melhor educação, e, depois,
eu o enviarei ao faraó para ordenar que liberte O p r o p ó s it o d e D e u s ______________________

meu povo”. N ão são apenas os exemplos que nos aju­


O mesmo se deu com Davi. Deus pôs um dam a entender o chamado de Deus. Temos
selo no futuro rei enquanto Davi ainda estava também o ensino específico das Escrituras
no campo, protegendo algumas ovelhas. O Sagradas. U m a passagem-chave, de fato uma
Altíssimo enviou o profeta Samuel à casa de das passagens mais importantes, é Romanos
Jessé para ungir um de seus filhos com o futu­ 8.28-30, na qual a eleição e o chamado de
ro rei, mas, quando Samuel chegou, estava Deus são colocados em uma seqüência de
faltando Davi. O pai chamou todos os seus ações expressa cuidadosamente.
filhos, menos Davi. Eles estavam lá em ordem.
Samuel olhou para os rapazes e pensou E sabemos que todas as coisas contribuem
que o filho mais velho daria um bom rei. Seu juntam ente para o bem daqueles que
nome era Eliabe. Mas, antes que Samuel pu­ amam a Deus, daqueles que são chamados
desse ungi-lo, o Senhor disse que não era ele. por seu decreto. Porque os que dantes co­
Depois, cogitou-se Abinadabe, que também nheceu, também os predestinou para se­
não seria o futuro monarca. Em seguida, Sa- rem conformes à imagem de seu Filho, a
má, e daí por diante, até que todos os sete fi­ fim de que ele seja o primogênito entre
lhos de Jessé foram apresentados. muitos irmãos. E aos que predestinou, a
Samuel disse: O S E N H O R não tem es­ esses também chamou; e aos que chamou,
colhido estes. Depois, perguntou a Jessé: a esses também justificou; e aos que justifi­
A cabaram -se os jov en st Jessé lhe respon­ cou, a esses também glorificou.
deu: A inda falta o m enor, e eis qu e apascen­
ta as ovelhas. Samuel lhe disse: Envia e Esses versículos não contêm todos os pas­
m anda-o chamar, porquanto não nos assen­ sos que poderiam ser listados no tocante à
taremos em roda da mesa até qu e ele venha maneira com o Deus lida com uma pessoa.
aqui. Q uando Davi chegou, o Senhor disse: Nada se diz sobre a regeneração, a adoção ou
Levanta-te e unge-o, p orq ue este mesmo é. a santificação. Contudo, embora seja uma lista
truncada, é uma lista ordenada que mostra Seus distinguidos favores (At 13.48) e, portan­
uma seqüência própria dos atos de Deus. to, escolheu conferir-lhes o dom da fé. ( P in k ,
N a Parte 2 deste livro, analisei a aplicação p. 20)
da salvação pelo Espírito Santo. Porém, essa é
apenas a segunda metade do trabalho divino. O debate pode ser encerrado ao respon­
Um a decisão anterior do Altíssimo precede dermos à seguinte pergunta: O que a palavra
nosso despertar e nosso crescimento espiritu­ presciência significa nas Escrituras? Se digo
al. Isso está expresso nas palavras seu decreto, que tive uma presciência, quero dizer que ti­
dantes conheceu e predestinou. O próximo nha informações, de antemão, sobre alguma
termo na seqüência, chamou, é o ponto no coisa que estava prestes a acontecer. De posse
qual Sua decisão eterna torna-se a experiência disso, eu poderia tomar alguma providência
do indivíduo. em particular. Porém, Deus não é uma criatura
O termo geral é decreto, um propósito temporal como nós. Ele vê o fim antes do iní­
eterno expresso primeiro em conhecimento cio, e a razão pela qual o Senhor vê as coisas
anterior e predestinação (v. 29), e, depois, em como são é porque Ele é eterno. Toda a histó­
seguimento a isso, em chamado, justificação e ria está diante de Seus olhos.
glorificação. O restante da passagem mostra Também devemos observar que o verbo
que a obra de Deus, com certeza, será com ­ conhecer é usado no Antigo Testamento e no
pletada, pois nada nos poderá separar do amor N ovo para significar olhar para alguém com
de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Se­ fav or ou, até mesmo, amar.
nhor! (v. 39).
O uso da expressão dantes conheceu levou Então, disse o S E N H O R a Moisés: Farei
alguns a argumentarem que a eleição é basea­ também isto, que tens dito; porquanto
da em uma presciência, no sentido de que achaste graça aos meus olhos; e te conheço
Deus previu que certas pessoas seriam mais p o r nome.
receptivas ao evangelho do que outras e, por­ Êxodo 33.17
tanto, não resistiriam ao Espírito Santo. C o ­
mo conseqüência, Ele as predestinou a entre- D e todas as famílias da terra a vós somen­
garem-se à salvação. Contudo, a passagem de te conheci; portanto, todas as vossas injus­
Romanos não começa com a ideia de uma tiças visitarei sobre vós.
presciência, mas, sim, de uma afirmação do Amós 3.2
propósito de Deus em salvar.
Arthur W. Pink disse: E, então, lhes direi abertam ente: Nunca
vos conheci; apartai-vos de mim, vós que
[Esse pensamento] defende que há algo bom praticais a iniqüidade.
em alguns homens; tira a independência de Mateus 7.23
Deus, pois faz com que Seus decretos se
apoiem naquilo que Ele descobre na criatura. E u sou o bom Pastor, e conheço as minhas
Vira completamente ao avesso as coisas, por­ ovelhas, e das minhas sou conhecido.
quanto, ao dizer que Deus previu que certos João 10.14
pecadores creriam em Cristo e, por isso, pre-
destinou-os para a salvação, é o inverso da ver­ Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhe­
dade. As Escrituras afirmam que Deus, em Sua cido dele.
soberania, escolheu alguns para serem alvo de
O fundam ento de D eus fica firm e, tendo que Deus conheceu previamente os atos de
este selo: O Senhor conhece os que são seus, certas pessoas, a saber, o seu arrependimento e
e qualquer que profere o nom e de Cristo a sua fé, e que, devido a esses atos, Ele as elegeu
aparte-se da iniqüidade. para a salvação? A resposta é: absolutamente
2 Timóteo 2.19 nenhuma. As Escrituras nunca falam de arre­
pendimento e fé como tendo sido previstos ou
A palavra presciência em si nunca é usada conhecidos previamente por Deus. Na verda­
em referência a eventos ou ações, isto é, co ­ de, Ele sabia, desde toda a eternidade, que cer­
mo um conhecimento antecipado do que al­ tas pessoas se arrependeriam e creriam; entre­
guém faria ou poderia fazer, porém sempre a tanto, não é a isso que as Escrituras se referem
pessoas cuja vida é afetada por essa presciên­ como objeto da presciência de Deus [...]. Deus
cia mais do que da maneira contrária. conhece de antemão o que será porque Ele de­
À parte de Romanos 8, há apenas três pas­ cretou o que há de ser. Portanto, afirmar que
sagens nas Escrituras em que a ideia de pres­ Deus elege pessoas porque as conhece previa­
ciência é utilizada, e todas envolvem a ideia de mente é inverter a ordem das Escrituras; é pôr
eleição. “o carro na frente dos bois”. A verdade é esta:
A primeira é Atos 2.23: A este que vos foi Ele as conhece antecipadamente porque as ele­
entregue pelo determinado conselho e presciên­ geu. ( P i n k , s.d., p. 24)
cia de Deus, tomando-o vós, o crucificastes e
O CHAMADO DE D E U S_______________________
matastes pelas mãos de injustos. Neste versículo,
vemos que a ênfase recai não sobre a presciência, O propósito eterno eletivo de Deus —
mas sobre o fato de que o Pai tinha determinado salvar para si mesmo um povo escolhido den­
um plano do qual resultaria a nossa salvação e a tre todas as nações — não fica no passado. Ele
eleição de Jesus para implementar esse plano. também tem uma expressão no presente, co ­
Romanos 11.2 é a segunda passagem: Deus mo descrito em Romanos 8.30: E aos que p re­
não rejeitou o seu povo, que antes conheceu. destinou, a esses também chamou.
Novamente, o que é declarado objeto da Em teologia, o chamado de Deus é geral­
presciência de Deus é um povo, não as ações mente nomeado com o um chamado efetivo,
dele. Apesar do que aparenta ser o caso em para distingui-lo de um chamado humano,
alguns exemplos, nenhum dos que foram elei­ que poderia ou não ser efetivo.
tos por Deus irá perder-se. A situação nesse caso é paralela à que en­
O terceiro texto é 1 Pedro 1.2: Eleitos se­ volve a palavra presciência. Em nível humano,
gundo a presciência de D eus Pai, em santifica­ significa conhecimento antecipado, enquanto,
ção do Espírito. Esses eleitos são os estrangei­ em relação a Deus, para o qual referências de
ros dispersos, mencionados no versículo ante­ tempo não funcionam, quer dizer favor eleti­
rior. Deus elegeu esses para a salvação. vo ou escolha.
É a mesma coisa em Romanos 8.28-30, Semelhantemente, um chamado, em nível
Pessoas são conhecidas previamente, e o re­ humano, pode tornar alguma coisa possível,
sultado é o seu chamado efetivo, a sua justifi­ mas, na verdade, não a realiza.
cação e a sua glorificação. Em contraste, no caso do Senhor, é reali­
Pink argumentou: zada.
Tomemos, por exemplo, uma intimação
Ora, em vista dessas passagens (e não há outras para comparecer a um tribunal. Um a intima­
mais), que base bíblica há para alguém dizer ção é um tipo de chamado; é uma convocação.
Ela tem a autoridade da lei e o poder do Estado chamado apressa/aviva aqueles que foram
endossando-a. Contudo, mesmo esse chama­ escolhidos por Deus para ser Seu povo. E que
do extremamente sério não tem, na verdade, o ninguém deixe de ser apressado/avivado! C o ­
poder de levar a pessoa intimada ao tribunal. mo disse Jesus: As minhas ovelhas ouvem a
Ela pode esconder-se, fugir à ação da justiça, minha voz, e eu conheço-as, e elas m e seguem
fugir do país ou, da mesma forma, opor-se à (Jo 10.27).
ação judicial. N ão é assim com Deus. N o caso
divino, o chamado verdadeiramente efetua a O S BENEFÍCIOS DA DOUTRINA_______________

resposta daquele que foi intimado. Algumas pessoas creem que a eleição é
Muitos versículos mostram esse significa­ uma doutrina inútil ou, até mesmo, pernicio­
do da palavra, mas nenhum de forma tão clara sa. Dizem que ela encoraja a irresponsabilida­
quanto Romanos 8. de e o pecado. N a verdade, ela não faz nada
John M urray escreveu: disso. As pessoas são responsáveis diante de
Deus pelo que fazem, a despeito de Deus tê-las
Nada encerra o argumento para o tema do cha­ escolhido para a salvação ou não. Elas não são
mado mais claramente do que Romanos 8.28- julgadas pelo Senhor por deixarem de fazer
30, em que se afirma que o chamado está de aquilo que não conseguem fazer, mas por dei­
acordo com o propósito de Deus e encontra-se xarem de fazer o bem que podem fazer e por
no centro da indestrutível cadeia de eventos fazerem o mal. Deus proíbe tal conduta e esta­
que teve seu início na presciência divina e sua beleceu leis de causa e efeito para impedi-la
consumação na glorificação. Isso significa, (Rm 1.24-32). A eleição não afeta esses fatos.
simplesmente, dizer que o chamado efetivo Olhando de modo positivo, há muitos be­
assegura perseverança porque é baseado na se­ nefícios para os cristãos. Primeiro, a eleição
gurança do propósito e da graça de Deus. elimina o ato de gabar-se com certo status.
(M u r r a y , 1 9 5 5 , p . 9 1 ) N ão cristãos ou aqueles que não entendem a
eleição frequentemente supõem o contrário, e
Aqueles que foram escolhidos por Deus e aqueles que creem na eleição, às vezes, pare­
atraídos à fé em Cristo pelo poder de Seus cem presunçosos. Mas isso é uma caricatura.
chamados são aqueles chamados para serem Deus nos diz, explicitamente, que escolheu
de Jesus Cristo (Rm 1.6). São chamados para salvar um povo para si mesmo pela graça, to ­
serem santos (Rm 1.7), isto é, separados para talmente à parte de qualquer mérito ou recep­
Deus. Eles devem viver em santidade. Esse é tividade nele, precisamente para que o orgu­
o ponto da advertência de Paulo aos cristãos lho fosse eliminado.
em Efeso: Rogo-vos, pois, eu, o preso do Se­
nhor, que andeis como é digno da vocação Porque pela graça sois salvos, p o r meio
com que fostes chamados (Ef 4.1). da f é ; e isso não vem de vós; é dom de
Lázaro estava m orto antes de Cristo cha­ Deus. N ão vem das obras, para qu e nin­
má-lo do túmulo. Ele estava inatingível a gu ém se glorie.
qualquer chamado. Se eu e você estivéssemos Efésios 2.8,9
presentes, poderíamos ter gritado, de modo
persuasivo e eloqüente, mas, mesmo assim, A salvação é pela graça, para que a glória
Lázaro não teria respondido. Quando Jesus o seja de Deus.
chamou, foi diferente. Seu chamado tem o Segundo, essa doutrina encoraja o amor
poder de ressuscitar. Da mesma forma, Seu a Deus. Se tivéssemos uma participação na
salvação, nosso amor a Deus seria diminuído meios pelos quais Ele chama, e a Bíblia, expli­
por causa disso. Se o mérito é do Senhor, citamente, diz-nos que a proclamação do
nosso amor por Ele deve ser ilimitado. N ós evangelho pelos cristãos é um desses meios
não o buscamos; Ele nos buscou. Quando (1 C o 1.21; Rm 1.16,17).
nos buscou, fugimos. Quando veio na pes­ Ademais, é somente isso que nos dá espe­
soa de Seu Filho, nós o matamos. Contudo, rança de sucesso quando proclamamos o
mesmo assim, Ele veio; ainda assim, elegeu evangelho. Se o coração é tão duro e tão con­
um grande número de rebeldes recalcitran- tra Deus e Seus caminhos como a Bíblia de­
tes para a salvação. clara ser, e se Deus não elege essa pessoa, que
esperança podemos ter em compartilhar a fé?
Mas D eus prova o seu amor para conosco Se Deus não chama efetivamente, nós, com
em que Cristo m orreu p o r nós, sendo nós certeza, não podemos fazê-lo. Entretanto, se
ainda pecadores. Ele tem realizado tal obra no mundo, pode­
Romanos 5.8 mos ir de modo ousado, sabendo que todos os
que o Eterno decidiu salvar irão a Ele.
Por fim, a doutrina da eleição traz também N ós não sabemos quem eles são. A única
este benefício: encoraja-nos ao evangelismo. forma de conhecer um eleito é mediante a res­
Em geral se pensa o oposto. Se Deus só vai posta dele ao evangelho e a maneira com o se
salvar algumas pessoas, então vai salvá-las, e comporta no dia-a-dia da vida cristã que se
não há finalidade em ter alguma coisa a ver segue ao chamado. Mas nós podemos chamá-
com isso. Porém, não é dessa forma que fun­ -los com intrepidez, sabendo que aqueles que
ciona. A eleição de Deus não exclui o uso de são chamados certamente virão.
O PO D ER PROTETOR DE D E U S

Há dois pontos em religião em que o ensino da E representa a eleição, a doutrina analisa­


Bíblia é muito claro e distinto. Um deles é o da no capítulo anterior. Significa que a salva­
perigo amedrontador dos ímpios; o outro é a ção começa com Deus nos escolhendo, e não
perfeita segurança dos justos. Um é a felicida­ o contrário.
de daqueles que são convertidos; o outro é a P representa propiciação, a doutrina de
penúria daqueles que não se converteram. que a m orte de C risto foi uma propiciação
Um é a bênção de estar a caminho do céu; o real pelos pecados específicos de Seu povo,
outro, a tristeza de ir para o inferno. ( R y l e , resultando em que este se torna verdadeira­
1977, p. 476) mente salvo. N ão foi pura e simplesmente
uma propiciação geral que torna a salvação
Essas palavras do bispo Ryle, da Inglater­ possível, mas que, na verdade, não salva
ra, introduzem o assunto da perseverança de ninguém.
Deus em relação aos Seus santos e une este G representa a graça irresistível, a doutri­
capítulo ao último. A doutrina da perseveran­ na a que nos referimos no capítulo anterior
ça significa que o Pai, que começou um bom como chamado efetivo.
trabalho ao eleger e depois chamar um indiví­ P representa a perseverança dos santos.
duo à salvação, de acordo com Seu bom pro­ Esta perseverança [em seguir o Senhor] é o
pósito, certamente guardará esse propósito que [junto aos elementos anteriores], assegu­
até que a pessoa eleita e chamada seja levada ra que nenhum dos que foram chamados por
para o lar celestial e desfrute das bênçãos que Deus e redimidos pelo Senhor Jesus Cristo
estão preparadas para ela. irão perder-se. Um a vez que Deus está no iní­
A perseverança é o quinto dos cinco pon­ cio e no meio de Seu plano de salvação, Ele
tos defendidos pelo calvinismo; está ligada também está no fim.
aos outros pontos e extrai sua força deles. Essas doutrinas não foram inventadas
Esses pontos são, às vezes, expressos pela por Calvino nem são características apenas
sigla DEPGP, embora as palavras sugeridas de seu pensamento durante o período da R e­
por essas letras não sejam necessariamente a forma. Elas são verdades bíblicas ensinadas
melhor expressão das doutrinas. por Jesus e confirmadas por Paulo, Pedro e
D representa a depravação total, a doutri­ todos os outros escritores do Antigo e do
na de que os não regenerados jamais poderão N ovo Testamento.
fazer alguma coisa para satisfazer os padrões Agostinho as defendia contra as negações
de justiça de Deus. de Pelágio. Lutero cria nelas. Zuínglio também.
Eles acreditavam na mesma coisa que Calvi- Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou,
no, a qual, mais tarde, ele sistematizou em sua porque não são do mundo, assim como eu
obra As Institutas. não sou do mundo. Não peço que os tires do
Os puritanos eram calvinistas; foi por in­ mundo, mas que os livres do mal.
termédio deles e de seus ensinamentos que am­ João 17.11,14,15
bas, Inglaterra e Escócia, experimentaram os
maiores e mais difundidos avivamentos nacio­ Essas palavras tem um tom de tristeza no
nais que o mundo jamais viu posteriormente. contexto do Evangelho de João, pois o malig­
Seguindo essa linha, temos os herdeiros de no estava, naquele momento, entrando em
John Knox: Thomas Cartwright, Richard Judas, e o “mundo” ia condenar Cristo à
Sibbes, Richard Baxter, M atthew Henry, morte antes que amanhecesse. Esse era o am­
John Owen, entre outros. N os Estados U ni­ biente fatal onde os discípulos seriam deixa­
dos, outros foram influenciados por homens dos. Abandonados à própria sorte, eles pere­
como Jonathan Edwards, C otton Mather e, ceriam. Mas Cristo orou por eles. Em bora o
mais tarde, George Whitefield. perigo fosse grande, eles foram guardados
E m épocas mais recentes, o movimento pelo poder de Deus.
missionário moderno recebeu, praticamente, Segundo, a perseverança não significa que
toda a sua orientação e todo o seu ímpeto da­ os cristãos estão livres de cair em pecado só
queles dentro da tradição calvinista. A lista porque são cristãos. Poderíamos raciocinar
inclui William Carey, John Ryland, Henry assim com base na oração de Cristo em João
Martyn, Robert Moffat, David Livingstone, 17, mas isso seria errado, pois aqueles por
John G. Paton, John R. M ott, entre outros. quem Ele ora certamente pecam, embora não
Para todos esses, as doutrinas da graça não pequem de modo a afastar-se do Mestre para
eram um apêndice do pensamento cristão, sempre.
mas, na verdade, ideias centrais, ardorosas e O Senhor disse a Pedro, por exemplo, que
formadoras de seus esforços proclamadores e ele pecaria a ponto de negá-lo, e que o faria
missionários. três vezes seguidas: Simão, Simão, eis que Sa­
tanás vos pediu para vos cirandar como trigo
O QUE NÃO É PERSEVERANÇA________________ (Jo 13.38). Porém, Cristo acrescentou: Mas eu
Antes de examinarmos o ensino bíblico roguei por ti, para que a tua f é não desfaleça;
relativo à perseverança, consideraremos o e tu, quando te converteres, confirma teus ir­
que essa doutrina não é. Primeiro, a perseve­ mãos (L c 22.31,32).
rança não significa que os cristãos estão livres Nesse incidente, Jesus previu a negação de
de perigos espirituais só porque são cristãos. Pedro, mas também anteviu sua recuperação.
Pelo contrário, o risco que correm é ainda Ele assegurou Pedro acerca de Sua intercessão
maior, pois o mundo e o diabo serão seus para que a fé de Seu discípulo não fracassasse.
opositores ativos. N oé ficou bêbado. Abraão mentiu duas
Observe a oração de Cristo pelos Seus vezes sobre sua esposa, Sara, dizendo que ela
discípulos antes da crucificação: era sua irmã, pondo, assim, em risco a honra
dela para salvar a própria pele. L ó escolheu
E eu já não estou mais no m undo; mas eles Sodoma. Jacó enganou seu irmão, Esaú, e en­
estão no mundo, e eu vou para ti. Pai san­ ganou seu pai, Isaque. Davi caiu em adultério
to, guarda em teu nome aqueles que me com Bate-Seba e, depois, tentou encobrir is­
deste, para que sejam um, assim como nós. so, fazendo com que Urias fosse morto.
N o Getsêmani, os discípulos abandona­ eliminada; embora as virgens prudentes tenham
ram Jesus para se proteger. Paulo e Barnabé descansado, suas lâmpadas não foram totalmen­
brigaram por causa de João Marcos e tiveram te apagadas. (W atson , 1970, p. 279,280)
de separar-se. Paulo insistiu em voltar para
Jerusalém com a oferta dos gentios, mesmo A perseverança significa que, uma vez que
quando o próprio Senhor apareceu a ele e o alguém entra para a família de Deus, estará
proibiu de fazê-lo. sempre nessa família.
Todos eles pecaram. Contudo, não se per­ A Bíblia é clara ao afirmar que Deus cui­
deram. N a verdade, não há uma única histó­ dará para que aqueles que foram justificados
ria, em toda a Bíblia, de alguém que foi um não se percam. Davi escreveu no Salmo 138.8:
verdadeiro filho de Deus que se tenha perdi­
do. Muitos foram dominados pelo pecado, O S E N H O R aperfeiçoará o que me con­
mas nenhum pereceu. cerne; a tua benignidade, ó S E N H O R , é
Terceiro, a perseverança não significa que para sempre; não desampares as obras das
aqueles que meramente professam Cristo, tuas mãos.
sem ter nascido de novo, estejam seguros.
Advertências específicas são dadas àqueles O autor de Hebreus (10.14) declarou: Por­
que ouvem o evangelho e parecem ter fé em que, com uma só oblação, aperfeiçoou para
Cristo, mas que não são verdadeiramente sal­ sempre os que são santificados.
vos. Por exemplo, Jesus disse: Se vós perm a- Paulo escreveu:
necerdes na minha palavra, verdadeiramente,
sereis meus discípulos (Jo 8.31). E m tudo somos atribulados, mas não an­
Isso parece m ostrar que a perseverança gustiados; perplexos, mas não desanima­
por parte do cristão é a prova cabal de que dos; perseguidos, mas não desamparados;
ele é ou não nascido de novo. N osso Se­ abatidos, mas não destruídos; sabendo que
nhor disse: A q u ele qu e p ersev era r até ao o que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressus­
fim será salvo (M t 10.22). Pedro escreveu: citará também p o r Jesus e nos apresentará
Portanto, irmãos, p rocurai fa z e r cada v ez convosco.
mais firm e a vossa vocação e eleição (2 Pe 2 Coríntios 4.8,9,14
1.10). É possível estar bem próxim o de co i­
sas cristãs e, mesmo assim, não ser de fato A perseverança pode ser observada pelas
regenerado. imagens que a Bíblia aplica aos cristãos: árvo­
res cujas folhas não caem (SI 1.3); cedros do
A qu ele q u e guarda I s r a e l _______________ Líbano que florescem a cada ano como se-
A perseverança na graça, na verdade, sig­ quoias da Califórnia (SI 92.12); uma casa
nifica, com o Thomas Watson apontou: construída sobre a rocha (Mt 7.24); o monte
Sião, que não pode ser movido (Sl 125.1).
A herança celestial está guardada para os san­ O Antigo Testamento fala especificamen­
tos, e eles são guardados para a herança [...]. te do poder de Deus para guardar-nos. N o
Embora os santos possam chegar àquele mo­ Salmo 121.3-8, o Senhor é comparado a uma
mento em que nada têm a não ser um pouco de sentinela divina, cuja preocupação é zelar so­
fé, não ficam sem fé. Embora a graça possa es­ bre Seu povo durante sua vida terrena. Soma­
tar sendo puxada lá de baixo, ela não está seca; dos, o verbo guardar e o substantivo guarda
embora a graça possa estar abatida, não está são usados seis vezes nesse contexto.
Não deixará vacilar o teu p é; aquele que te N aquele dia, haverá uma vinha de vinho
guarda não tosquenejará. Eis que não tos- tinto; cantai-lhe. Eu, o S E N H O R , a guar­
quenejará nem dormirá o guarda de Isra­ do e, a cada momento, a regarei; para que
el. O S E N H O R é quem te guarda; o SE­ ninguém lhe faça dano, de noite e de dia a
N H O R é a tua sombra à tua direita. O sol guardarei.
não te molestará de dia, nem a lua, de
noite. O S E N H O R te guardará de todo Jesus se aproveitou dessas imagens em Seu
mal; ele guardará a tua alma. O S E ­ ensino. Ele comparou Seu Pai e a si mesmo às
N H O R guardará a tua entrada e a tua figuras de vigia, pastor e senhor de terras, pa­
saída, desde agora e para sempre. ra encorajar Seus discípulos. O perigo era
muito grande exterior e interiormente. Os
Outra passagem importante é Ezequiel discípulos possuíam uma velha natureza, que,
34.11-16. Deus falara contra aqueles que ha­ com certeza, iria arrastá-los para o pecado
viam sido pastores em Israel que, como Ele várias vezes. Porém, Cristo proclamou que
diz, não haviam feito seu trabalho. Eles deve­ havia U m que era maior até mesmo do que o
riam ter zelado pelas ovelhas, mas abandona- perigo, e que iria preservá-los assim com o ha­
ram-nas. Agora, disse Deus, farei o que aque­ via preservado e guardado Israel.
les líderes infiéis não fizeram.
Q u a tro t e x t o s- ch ave pa ra a
SEGURANÇA DO CRISTÃO_____________________
Porque assim diz o Senhor JE O V Á : Eis
que eu, eu mesmo, procurarei as minhas N o N ovo Testamento, há quatro grandes
ovelhas e as buscarei. Como o pastor busca textos que, mais do que quaisquer outros, en­
o seu rebanho, no dia em que está no meio sinam sobre a segurança do cristão. Dois fo­
das suas ovelhas dispersas, assim buscarei ram proferidos por Jesus. Dois partiram de
as minhas ovelhas; e as farei voltar de to­ Paulo.
dos os lugares por onde andam espalhadas O primeiro é João 6.37-40:
no dia de nuvens e de escuridão. E as tira­
rei dos povos, e as farei vir dos diversos Tudo o que o Pai me dá virá a mim; e o
países, e as trarei à sua terra, e as apascen­ que vem a mim de maneira nenhum a o
tarei nos montes de Israel, junto às corren­ lançarei fora. Porque eu desci do céu não
tes e em todas as habitações da terra. Em para fa z e r a minha vontade, mas a vonta­
bons pastos as apascentarei, e nos altos de daquele que m e enviou. E a vontade do
montes de Israel será a sua malhada; ali, se Pai, que m e enviou, é esta: que nenhum de
deitarão numa boa malhada e pastarão em todos aqueles que m e deu se perca, mas
pastos gordos nos montes de Israel. Eu que o ressuscite no último Dia. Porquanto
apascentarei as minhas ovelhas, e eu as fa ­ a vontade daquele que m e enviou é esta:
rei repousar, diz o Senhor JE O V Á . A per­ que todo aquele que vê o Filho e crê nele
dida buscarei, e a desgarrada tornarei a tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no
trazer, e a quebrada ligarei, e a enferm a último Dia.
fortalecerei; mas a gorda e a forte destrui­
rei; apascentá-las-ei com juízo. Tendo declarado que todos os que foram
dados a Ele pelo Pai irão, de fato, até Ele, o
Em Isaías 27.2,3, Deus é comparado ao Senhor continuou a ressaltar que guardará
vigia de uma vinha: aqueles que efetivamente fizerem isso. Em
grego, essa frase contém uma negativa dupla fora do lado de trás. Depois, com um golpe
que poderia ser traduzida assim: E o que vem de seu martelo, ele empurra a ponta do prego
a mim eu nunca,, nunca lançarei fora. lateralmente, incrustando-o na madeira. Isso
Se a passagem parasse nesse ponto, seria é chamado de fazer o rebite. Essa atitude tor­
possível argumentar que a negativa dupla re­ na o encaixe um pouco mais justo porque o
fere-se apenas ao fato de Cristo receber aque­ prego não consegue sair da posição.
le que vai a Ele inicialmente — o qual Ele Foi o que Jesus fez nesses versículos. Ele
nunca, nunca rejeitará —, porém essa pessoa estava tão interessado em fazer com que a
pode, não obstante, decidir abandonar Cristo doutrina se fixasse na mente dos discípulos
por sua própria iniciativa. que empurrou não somente um prego, mas
Com o Jesus deixou claro nos versos se­ dois, e fez o rebite em ambos.
guintes, todos os que foram dados a Ele pelo Primeiro, Cristo ensinou que aqueles que
Pai e que, portanto, vão a Ele e são recebidos são dele receberam a vida eterna. Dou-lhes a
por Ele serão ressuscitados no último dia. Jesus vida eterna. Esse é o “prego”. Só isso já fixa a
não perderá nada daquilo que Deus lhe deu. verdade, pois a vida eterna é a que nunca se
O segundo grande texto sobre perseve­ pode perder. Se ela pudesse ser perdida após
rança é João 10.27-30, que segue a mesma alguns anos ou mesmo após muitos anos, não
estrutura dos versículos de João 6. Mas, nes­ seria eterna. Entretanto, Jesus sabia que mui­
se caso, o Senhor está respondendo a um tos tentariam minimizá-la. P or isso, Ele disse:
pedido de Seus ouvintes para falar de modo E nunca hão de perecer. Esse é o “rebite” pelo
mais claro. qual a doutrina da perseverança se fixa.
É óbvio que a dificuldade não estava no U m prego, embora bastante apertado,
que Jesus falava, e, sim, no entendimento da­ nem sempre faz uma boa junção. Assim, Jesus
quelas pessoas. Entretanto, Ele respondeu: prosseguiu, empurrando um segundo prego
As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu para fazer o rebite com ele também. Seu se­
conheço-as, e elas m e seguem ; e dou-lhes a gundo prego: N inguém as arrebatará das mi­
vida eterna, e nunca hão de perecer, e nin­ nhas mãos. O rebite: M eu Pai, que mas deu, é
guém as arrebatará das minhas mãos (v. maior do que todos; e ninguém pode arreba­
27,28). Eis a eleição, o chamado efetivo e a tá-las das mãos de m eu Pai (v. 29).
perseverança! Podemos imaginar-nos semelhantes a uma
Alguém poderia dizer: “Eu sei que nin­ moeda presa em Seus dedos. Essa é uma posi­
guém jamais nos arrebatará das mãos de C ris­ ção segura para qualquer objeto, mas, espe­
to, mas suponha que escolhamos desviar-nos cialmente, para nós, considerando as mãos
por nossa própria conta”. Jesus disse: “Eles que nos seguram. Porém, Jesus acrescenta
nunca perecerão”. “N unca?”, poderíamos que a mão de Deus está sobre a dele. Estamos
perguntar-lhe. “N unca”, Cristo responderia. seguros por duas mãos, ou seja, duplamente
“Eles jamais perecerão, e ninguém os arreba­ seguros. Se nos sentirmos inseguros, podere­
tará de minhas mãos.” mos lembrar que, mesmo quando somos se­
Em alguns momentos, pensei que o que gurados dessa forma, o Pai e o Filho ainda
Jesus fez ao proferir essas palavras fosse se­ terão duas mãos livres para nos defender.
melhante ao que um carpinteiro frequente­ O terceiro texto importante sobre perse­
mente faz. Às vezes, em carpintaria bruta, um verança foi escrito por Paulo. Trata-se de R o­
carpinteiro empurra um prego longo por lâ­ manos 8.33-39. É uma continuação dos versí­
minas mais finas até que a ponta fique para culos estudados no capítulo anterior e parte
da mesma seqüência dos atos de Deus para a Esse padecimento é real. Ele deve ser es­
salvação que eles introduzem. perado, como Paulo indicou em sua citação
do Salmo 44.22 em Romanos 8.36. Mas o so­
Quem. intentará acusação contra os esco­ frimento não triunfará. Ele não nos pode se­
lhidos de D eus f E D eus quem os justifica. parar do amor de Deus.
Q uem 05 condenará f Pois é Cristo quem A terceira causa potencial da separação do
morreu ou, antes, quem ressuscitou dentre amor de Deus é a existência de poderes sobre­
os mortos, o qual está à direita de Deus, e naturais (v. 38,39), mas Paulo disse que nem
também intercede p o r nós. Q uem nos se­ mesmo esses triunfarão. Paulo conhecia a ex­
parará do amor de Cristo? A tribulação, tensão da maldade espiritual neste mundo, e
ou a angústia, ou a perseguição, ou a fom e, ele mesmo havia lutado contra isso.
ou a nudez, ou o perigo, ou a espada ? Co­ O apóstolo escreveu em Efésios 6.12:
mo está escrito: Por am or de ti somos en­
tregues á morte todo o dia: fom os reputa­ Porque não temos que lutar contra carne e
dos como ovelhas para o matadouro. Mas sangue, mas, sim, contra os principados,
em todas estas coisas somos mais do que contra as potestades, contra os príncipes
vencedores, p or aquele que nos amou. Por­ das trevas deste século, contra as hostes es­
que estou certo de que nem a morte, nem a pirituais da maldade, nos lugares celestiais.
vida, nem os anjos, nem os principados,
nem as potestades, nem o presente, nem o Porém, por mais assustadoras que tais for­
porvir, nem a altura, nem a profundidade, ças possam parecer, elas não podem triunfar
nem alguma outra criatura nos poderá se­ sobre nós, porque Jesus foi vitorioso sobre elas.
parar do amor de Deus, que está em Cristo Aos colossenses, Paulo escreveu: E, des­
Jesus, nosso Senhor! pojando os principados e potestades, os expôs
publicamente e deles triunfou em si [Cristo]
Paulo listou três causas possíveis de sepa­ mesmo (Cl 2.15).
ração do amor de Deus nesses versos, mas, O texto final é Filipenses 1.6: Tendo p or
depois, ele as pôs de lado. certo isto mesmo: que aquele que em vós co­
Primeiro, o pecado (v. 33,34). Os cristãos meçou a boa obra a aperfeiçoará até ao Dia
sabem que, embora sejam justificados por de Jesus Cristo.
Deus, ainda são pecadores e erram diariamente Isso é uma afirmação condensada de um
por meio de pensamentos, palavras e atos. “E princípio declarado, de modo mais extenso,
daí?”, perguntou Paulo. “Cristo morreu pelo em outros lugares: Deus termina o que Ele
pecado. Portanto, aos olhos de Deus, o pecado começa. Contudo, também sugere outro pen­
se foi para sempre.” E supondo que alguém samento. Literalmente, o grego diz que Deus
nos acuse? “Deus é o Juiz”, Paulo respondeu. irá continuar aperfeiçoando seu trabalho até o
Os cristãos já foram absolvidos diante do júri Dia de Cristo. Dito de forma mais direta, Ele
da Suprema Corte, e ninguém está autorizado fará isso quer queiramos, quer não.
a reabrir esse caso. O versículo fala de uma boa obra que
Segundo, nos versos 35 a 37, Paulo falou Deus completará. Que boa obra é essa? Ela
de sofrimento externo (tribulação, fome, nu­ não está bem explicitada em Filipenses 1.6,
dez, perigo) e interno (a angústia da alma co­ mas em Romanos 8.29: Porque os que dantes
nhecida por aqueles que enfrentam persegui­ conheceu, também os predestinou para serem
ção por causa de seu testemunho). conformes á imagem de seu Filho.
Isso é algo que vai acontecer somente no Por vezes, achamos desanimador o ato de
céu? N ão. O plano de Deus é que vivamos evangelizar. As pessoas não querem o evange­
isso hoje. E m Filipenses 1.6 está escrito que o lho. Elas odeiam o Deus que o deu. Ainda
Pai não desistirá de Seus esforços para tornar- assim, insistiremos nisso, sabendo que o mes­
-nos semelhantes a Cristo, mesmo em caso de mo Deus que é capaz de guardar-nos é capaz
não querermos que Ele o faça. Cristo é o San­ também de salvar outros deste mundo.
to de Deus; assim, esse plano envolve nosso Nossa família é uma área de responsabili­
crescimento em santidade. dade especial. Muitas vezes, ficamos deprimi­
Sabemos que pecamos como cristãos. O dos quando um filho, uma filha, um irmão,
que acontece quando pecamos? O Eterno nos uma irmã ou nosso cônjuge não trilha os cami­
ignora? Poderíamos desejar que Ele o fizesse nhos de Deus. Em dadas ocasiões, a situação
porque nós, às vezes, ainda que por um mo­ parece perdida. Mas o Senhor não permite
mento, gostamos do pecado. Porém, Deus não que fiquemos desesperançados. Ele não de­
permite que continuemos em nosso caminho sistirá nem renunciará. Deus é o nosso Guar­
erroneamente. Ele nos disciplina quanto a isso. da fiel. C om Ele, todas as coisas são possíveis.
O Senhor nos persuade e, às vezes, até Vivemos em uma época que é tão fraca
permite que sejamos infelizes para que possa­ em proclam ar a doutrina de C risto que mes­
mos sair do caminho de destruição e voltar mo muitos cristãos não conseguem ver por
para a estrada que Ele mapeou para nós. Deus que tais verdades devem ser pregadas, ou
pode até permitir que um cristão passe por com o eles podem ser usados pelo Senhor
muitos percalços, se isso for necessário para para salvar os pecadores. Isso nem sempre
tirá-lo do pecado e conduzi-lo de volta à co­ foi assim.
munhão. O Eterno usou a doutrina da perseverança
Por isso, a doutrina da perseverança não é para salvar Charles Spurgeon, um dos maio­
o ensinamento perigoso que alguns imagi­ res pregadores que já existiram. Quando ele
nam. “A perseverança pode ser verdadeira”, tinha apenas 15 anos, observou como amigos
diz alguém, “mas, com certeza, ensiná-la é seus que tinham começado bem a vida destru-
perigoso. íram-se ao cair em vícios terríveis.
Se as pessoas crerem que nada pode arre- Spurgeon tinha medo de que ele mesmo
batá-las da mão de Deus, com certeza irão pudesse sucumbir. “Quaisquer boas resolu­
sentir-se à vontade para pecar. Essa doutrina ções que eu possa tom ar”, ele pensou, “a pro­
nos encoraja a viver de qualquer jeito”. babilidade é que não servirão para nada quan­
O conhecimento da grandeza do amor di­ do a tentação me atacar. Serei como aqueles
vino que persevera por nós, na verdade, tende de quem se diz: ‘Eles veem o anzol de Satanás
a manter-nos fiéis. Conhecer tal amor é dese­ e, mesmo assim, não conseguem deixar de dar
jar, acima de qualquer outra coisa, não fazer uma mordidinha na isca’. Eu me desgraçarei e
nada contra Ele. me perderei”.
Além disso, o conhecimento da perseve­ Isso foi quando ele ouviu que Cristo guar­
rança divina ensina-nos a também perseverar. daria da queda os Seus santos. Esse fato teve
N osso trabalho é frequentemente desestimu- um encanto particular para ele, que se viu di­
lante. Em geral, vemos poucos resultados. zendo: “E u me voltarei para Jesus e receberei
Mas nos manteremos nele porque o Pai no-lo dele um novo coração e um espírito reto. A s­
deu, e precisamos ser como Ele, cumprindo sim, ficarei seguro contra aquelas tentações
fielmente essa responsabilidade. em que os outros caíram. Serei preservado
por E le”. Foi essa verdade, somada a outras, ou possibilidades. É um evangelho certo. É o
que conduziu Spurgeon ao Salvador. anúncio de nossa completa ruína no pecado,
O cristianismo não tem um fundamento va­ mas, também, do remédio perfeito de Deus
cilante. N ão é uma mensagem de porcentagens em Cristo.