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O sarau literário no Teatro da Trindade

Motivação:
espectáculo de beneficiência para homenagear as
vítimas das inundações noRibatejo.

Espaço social:
participam no evento, descrito como a «festa da
Inteligência» ou «sport da Eloquência», a alta
burguesia e a aristocracia nacional - «… a gente do
Grémio, da CasaHavanesa, das Secretarias» -, bem
como os representantes da classe política – o Conde
deGouvarinho, Sousa Neto, entre outros.

Aspectos da crítica de costumes desenvolvidos


no episódio:c1. a oratória, emblematizada em
Rufino.Rufino
– um deputado, um bacharel, um inspirado.
Caracterizado, na página 584, como um«ratão de
pêra grande», é especialista no
gorjeio
e um justo representante do gosto nacional
pelo«palavreado mavioso».O seu discurso, repleto dos
clichés
do lirismo sentimental e provinciano que
interpreta,recriados, no texto, através do
discurso indirecto livre
, caracteriza-se pela presença de umaretórica
sentimental, desacompanhada de qualquer vigor ou
profundidade intelectual, revelando-se nele a mesma
incapacidade de leitura da realidade envolvente que
atinge outras personagens,entre as quais Gouvarinho.
Personifica o intelectual burocrata e demissionário
, o que se manifesta no seu
discurso bajulatório
, facto notado, inclusivamente, por Alencar (p. 591).
Através dele, denuncia-se
não só o imobilismo do tempo cultural português, como
adeformação do gosto do público,
que goza, até ao desfalecimento, as imagens
simplistas eestereotipadas com que o gratifica (vd. pp.
589-591; 603).Claro suporte da
denúncia do provincianismo do gosto literário nacional
é também aintervenção de Alencar, que, sob o título «A
Democracia», articulando a vertente melodramáticae
sentimental do ultra-romantismo com a «severa ideia
social da poesia», encarna a vertente doromantismo
social em que se refugiara para combater o naturalismo.
Destaca-se, no contexto da página 607, a recuperação de
estilemas previamente empregues na sua caracterização
– o «olhocavo», a «grenha inspirada», a «aparência
sombria», o «olhar encovado e lento» - e que reforçama
artificialidade dos seus gestos, a sua atitude teatral e
declamatória, bem como, sob o ponto devista temático, a
proposta da República como panaceia social, alicerçada
no humanitarismo e nafraternidade.Reagindo, a princípio,
com suspeição, face à proposta revolucionária contida
nos versosdo poeta, o público logo a ignora e cede ao
lirismo cantante
dos versos (vd. pp. 610-611).
A incultura e ignorância do público que participa no
evento, manifestada em aspectoscomo:
o desinteresse pelo evento literário, evidente na
canseira que às senhoras desperta a ideia deuma
noite toda de «poesia e literatura» (p.595), e pelo debate
ideológico (vd. p. 604);♦ o desconhecimento da
música de Beethoven, cuja «Sonata Patéti ca» é
equivocamente designada de «Sonata Pateta»;♦ o
desinteresse ruidoso com que os presentes agraciam a
actuação de Cruges, músico de talento,que o país
ignora. É notório o desrespeito pela sua figura e
pela música que interpreta, de talmodo que a
progressiva desordem que se vai instalando o faz tocar as
«notas em debandada» e écom alívio que o público
assiste ao fim da sua actuação;♦ a lassidão, a monotonia e
a sonolência que se vão apossando do público e o fazem
debandar,quando Prata, outro dos oradores do serão, se
dispõe a falar sobre «o estado agrícola da provínciado
Minho» (vd. pp. 599, 601 e 605);

O atropelo dos valores morais


, uma vez que o sarau é também o microcosmo
onde se projecta a imoralidade da
sociedade contemporânea, em que esposos
e a m a n t e s s e cumprimentam cortesmente, no
âmbito daquilo que Ega, ironicamente, designa de
«bonitomundo» (vd. p. 604);
O provincianismo e a falta de requinte na organização
do espaço
(vd. pp. 601: « […] Umcartão em grossas letras … anuncia
um “intervalo de dez minutos” como num circo.»)