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INTRODUÇÃO

O período que vai de 1920 a 1945 é, sem contestação, o mais


denso e tenso de toda a história da língua portuguesa no Brasil, de
tal sorte que não constitui tarefa simples sistematizar-lhe a produção.

DENOMINAÇÃO DA VARIANTE BRASILEIRA

No entanto, investigações e estudos específicos sobre questões


de nomenclatura não são de relevo na época.
Mesmo entre os especialistas em assunto de língua não é rara
a imprecisão, que trai, freqüentemente, uma atitude de reserva, de
fuga ao compromisso de designar taxativamente como português a
língua do Brasil, ou, ao contrário, ao compromisso de assumir clára-
mente a defesa da língua brasileira. As meias-tintas garantiríam, assim,
uma indefinição pelo menos provisória. Vejam-se, a propósito, as
teses. apresentadas ao Primeiro Congresso da Língua Nacional Can­
tada, reunido em São Paulo, em 1937: sob a capa de expressões
como língua nacional, linguajar nacional, nosso linguajar, eludia-se o
problema, equacionado para outros em termos de dialeto.
Note-se, porém, que esta última designação tanto se aplicava,
de maneira geral, ao português do Brasil, quanto a uma de suas
variedades regionais, como a do Nordeste; ou ainda a uma subvarie-
dade local, como o caipira; correlatamente, a expressão subdialeto ora
designava (por parte dos que chamavam dialeto à língua geral do
Brasil) uma das variedades regionais, ora uma de suas subdivisões,
como a da Ribeira, em relação ao caipira.(2)
Se os autores que assim viam a realidade lingüística brasileira
não se preocupavam com problemas de conceituação, mais justificada-
mente os ignoravam os que defendiam a vigência da língua portuguesa
no Brasil.
Por outro lado, entre aqueles que, no outro extremo, pugnavam
pela existência de uma língua brasileira autônoma, a imprecisão não
era menor. Enquanto as tentativas de batismo da nova entidade, como
a brasilina, de MONTEIRO LOBATO,(3) ou o brasiliano, de RO-
QUETE PINTO, w correspondiam a uma incisiva tomada de posição,
a expressão o brasileiro tanto podia aplicar-se àquela mesma entidade,
quanto à variante brasileira de língua portuguesa, paralelamente a
o argentino, o americano, como variedades do castelhano e do inglês,
uso este já sancionado por LEITE DE VASCONCELOS(8) e, na
época, ratificado por MÁRIO DE ANDRADE: “A língua é brasi­
leira pelo simples fato de ser a língua do País.” (6)
Em conseqüência de tanta ambigüidade de nomenclatura, que
dava margem a interpretações pessoais quanto à posição deste ou
daquele autor, foi que JOÃO RIBEIRO mais de uma vez veio a pú­
blico para frisar que língua nacional era a língua portuguesa, fato que
JOAQUIM RIBEIRO ainda se sentiu na obrigação de reiterar.<T)
Evidentemente, expressões como língua nacional, idioma nacio­
nal, língua pátria, língua vernácula, que por essa época invadem
os manuais escolares, convinham particularmente aos que desejavam,
por diversos motivos, evitar a tomada de posição, embora ocorram
igualmente em obras nas quais esta se ache perfeitamente definida,
justificando-se, então, apenas a título de moda, ou pela necessidade
de batizar diferentemente os incontáveis manuais escolares publi­
cados na época.(8)
Da mesma forma, para os defensores da língua brasileira, trata­
va-se de sinônimos, como se pode verificar através da obra de
EDGARD SANCHES, composta exatamente para defender-lhe a exis­
tência, <9) ou nas já referidas teses apresentadas ao Primeiro Con­
gresso da Língua Nacional Cantada, cuja Conclusão, de acentuado
cunho nacionalista, encarece a pujança e a riqueza da “língua brasilei­
ra”, “para a qual reivindica direito à vida e movimentos”.(10)
Para os partidários deste modo de ver, o problema era apenas
de “oficialização”. Campanha neste sentido se acendeu sobretudo
a partir de 1935, <U) quando foi apresentado à Câmara dos Depu­
tados o Projeto n.° 136, pelo qual se determinava que a língua falada
no Brasil fosse denominada “língua brasileira”, denominação que de­
veria constar em todo livro didático, como condição essencial para
sua adoção. Endossavam o Projeto cerca de 150 assinaturas, entre
as quais a de EDGARD SANCHES, encarregado de arrolar fatos
capazes de justificarem satisfatoriamente a proposta.(12) Note-se que
Projeto semelhante já fora aprovado, apesar do veto do prefeito, pela
Câmara Municipal do Distrito Federal.(13)
A apresentação do Projeto despertou celeuma, com repercussão
até em Portugal, razão pela qual a Câmara oficiou ao Ministério das
Relações Exteriores, indagando do Governo se tivera notícia de um
artigo publicado em Lisboa pelo Diário de Notícias, que atacava a
proposição brasileira. O Ministério respondeu que já tomara as
devidas providências para protestar contra conceitos desairosos sobre
o Brasil, manifestando, simultaneamente, ao Ministério de Negócios
Estrangeiros de Portugal sua desaprovação.
A essa altura, as correntes de opinião, no âmbito da Câmara,
já estavam definidas. À frente dos que se opunham ao Projeto, e ante­
cipando-se à própria discussão da matéria, AURELIANO LEITE (14)
argumentava longamente, dos ângulos político, lingüístico e senti­
mental, insistindo em que não cabia ao Congresso Nacional a prerro­
gativa de denominar a língua. Aliás, este foi justamente o argumento
que prevaleceu quando se firmou o Parecer da Comissão de Edu­
cação, desfavorável ao Projeto.
Com a dissolução do Congresso, em 1937, fica temporariamente
adiada a solução do caso, já que os defensores da “língua brasileira”,
constituindo corrente ainda bastante apreciável, dela não abriam mão.
Mas em 1946, ao se reabrirem os trabalhos legislativos, voltam à
carga e são definitivamente derrotados em todas as suas investidas.(15)
Pela Emenda n.° 1378, estabelecia-se que “a Nação incentivará,
por todos os meios, a universalização da língua portuguesa, com o
objetivo de assegurar a unidade lingüística, sintática e ortográfica”.
E pela Emenda n.° 3663, propunha-se uma Comissão constituída de
escritores, professores e jornalistas, para opinar sobre a denominação
da “língua nacional”.
A essa altura já havia muitas defecções entre os antigos de­
fensores da língua brasileira, inclusive a de ARTUR NEIVA, signatá­
rio do antigo Projeto, a que, como agora alegava, dera apenas “apoia-
mento”. '
As mudanças de posição estavam plenamente justificadas ante
as inúmeras e bem fundamentadas críticas que erodiam o Projeto,
em seus vários aspectos, inclusive o jurídico, de que se ocupou
PONTES DE MIRANDA, ao comentar o Art. 168 do Projeto da Cons­
tituição de 46, referente ao Idioma Nacional”: “De nome não mu­
dam as línguas, senão quando elas mesmas se transformam. Falada
em Portugal ou no Brasil, a língua portuguesa é uma só. Atrás dos
nossos dias, estão duas literaturas que se fundiram e cada dia se
fundirão mais. Não há duas línguas, há uma só. Como há uma
só língua inglesa, falada na Grã-Bretanha, na Irlanda, nos Estados
Unidos da América, no Canadá, na Austrália, na África do Sul. A
Comissão discutirá o nome. Mas que outro nome poderia ter senão
o de língua portuguesa? Aí não é lugar para que o nacionalismo se
manifeste. Há outros mais próprios.”(,6)
De fato, embora a Constituição de 46 ainda designasse a língua
do Brasil indefinidamente como “língua nacional”, instituía Comissão
encarregada de especificar essa língua e assim encerrar o problema. <17>
Não obstante o parecer da Comissão segundo o qual a “língua
nacional” era a “língua portuguesa”, aquela designação, assim como
“idioma nacional” e “língua pátria” continuaram largamente divulga­
das, acabando por cimentar, nas classes menos cultas, a ignorância a
respeito da língua do Brasil. Se os próprios entendidos, não só
pouco preocupados com o rigor da denominação, mas até às vezes
empenhados em manter a situação de controvérsia, evitavam o emprego
da expressão “língua portuguesa”, a conseqüência era previsível.
Outro aspecto que a esse respeito deve ser lembrado refere-se à
posição dos portugueses, muitos deles favoráveis ao reconhecimento
da variante brasileira, se não como língua, pelo menos como norma,
o que estabelece contraste com a atitude de um PINHEIRO CHAGAS
no passado. Das obras sobre o assunto, devidas a portugueses, que
então se publicaram, basta citar as de ANTÔNIO SÉRGIO (18) e
MOTA ASSUNÇÃO (lt>) para documentar o novo modo de ver a ques­
tão. MOTA ASSUNÇÃO é francamente defensor da “língua brasileira,
designação que lhe parece sensivelmente melhor que “português falado
no Brasil ou indefinidamente e ambiguamente língua nacional e idio­
ma nacional”.(20) Seu raciocínio, na defesa dessa doutrina, segue
o paralelo tradicional, ainda em voga na época: tal como o português
saiu do latim, daquele saiu o brasileiro. Assim, pois, a denominação
“língua brasileira”, “feita pelo bom senso”, “acha-se perfeitamente
escudada na ciência da linguagem”, pois “sendo a língua do Brasil
um dialeto da língua portuguesa, e esta, a respeito daquela, nas
mesmas circunstâncias em que está o latim relativamente ao portu­
guês” — por que é que se diz “língua portuguesa” e não se há de
dizer “língua brasileira?” (21)
Esta manifestação dos portugueses em favor da norma brasileira,
embora nem sempre em apoio de uma “língua brasileira”, posterior­
mente se reforçaria com a opinião de verdadeiros especialistas, como
M. DE PAIVA BOLEO e J. G. HERCULANO DE CARVALHO; mas
não impediu, no período em questão, o surgimento de instituições de
caráter lusófobo, alimentadas pelo nacionalismo vigente sobretudo nos
anos 30-40. Ê o caso da Liga de Defesa do Idioma Falado no Brasil,
fundada naquele decênio, em conseqüência do antagonismo aos por­
tugueses, suscitado pela questão ortográfica, ou, mais precisamente,
pelas tentativas de adoção da reforma portuguesa de 1911.(22)
O Instituto de Língua Brasileira, que apareceu no decênio se­
guinte, em São Paulo, por inspiração de CASSIANO RICARDO e
com aplauso de HERBERT PARENTES FORTES, (23> assim explicava
sua razão de ser: “Um Instituto para o fim especial de reunir e coorde­
nar todos os estudos particulares em que se possa dividir o tema geral
de “língua brasileira”, eis uma idéia feliz nascida de bom clima —
São Paulo, e de uma inspiração magnífica — a intuição poética de
CASSIANO RICARDO — O Instituto de Língua Brasileira — deverá,
pois, reunir debaixo de sua bandeira todos os que andam por aí a
trabalhar, — isolados, distantes uns dos outros, dispersos e, portanto,
perdulariamente, — este ou aquele aspecto da nossa cultura literária,
— friso bem a expressão, para salvaguardar o valor imenso do seu
sentido exato e necessário.” (24)
Embora a argumentação, no caso, seja frágil, HERBERT PAREN­
TES FORTES desenvolveu, durante grande parte de sua vida (de
1928 a 1951, aproximadamente) intensa campanha, em artigos pela
imprensa (depois reunidos em livro) em trabalhos com os quais con­
correu a prêmios (e os obteve) e a cátedras de português (com menos
sucesso).

A REVISÃO DA LÍNGUA

No plano mais geral de abordagem da língua, assiste-se, no


período 1920-1945, a uma discreta, porém paulatinamente sempre
mais decisiva opção pelo enfoque dialetológico, em detrimento do
filológico,(2B) até então predominante, ainda em trabalhos de pes­
quisa tópica, como o de MACEDO SOARES. TRISTÂO DE ATA1DE,
porta-voz das novas concepções que se vão firmando, declara, em
1930, que o tempo da filologia já havia passado.(26)
Como indício claro da nova orientação, entra a circular, embora
nem sempre com propriedade, o vocabulário próprio da Geografia
Lingüística e da Dialetologia, que surge até em títulos de obras, co­
mo as de JOSÉ A. TEIXEIRA, FRANKLIN C. DA SILVA e EUGÊ­
NIO DE CASTRO, aliás, neste último caso muito abusivamente.<27)
Os grandes pioneiros dessa renovação dos estudos lingüísticos
eram AMADEU AMARAL. (O dialeto caipira, divulgado desde 1916,
e publicado em livro em 1920)(28) e SOUSA DA SILVEIRA (Trechos
seletos, 1919 e, principalmente, “A língua nacional e o seu estudo”,
1920): ambos davam relevo à língua falada em detrimento da língua
literária, e valorizavam, para fins de estudo daquela, a documentação
dos fatos vigentes, colhidos "in loco”.
O dialeto caipira, a esse respeito, especifica, explica e exem­
plifica a nova abordagem; escassamente interessado em etimologia e
documentação de caráter histórico, AMADEU AMARAL, voltado para
o presente, procurava disciplinar, em gramática e em glossário, traços
da fala corrente no interior de São Paulo.
Um aspecto importante da obra, este negligenciado por quase
todos os que lhe recolheram o modelo e o aplicaram a outras regiões
do Brasil, era a metodologia de pesquisa, negligência que acabou
por conferir a tais obras um grau de fidedignidade muito inferior
ao do modelo inicial.(20)
O propósito de AMADEU AMARAL e de todos os que com ele se
dispuseram a seguir o rumo indicado por LEITE DE VASCONCELOS,
era obter "a posteriori”, a partir de monografias parciais, como peças
de um mosaico, o retrato do dialeto brasileiro. Se isto não ocorreu,
o motivo deve ser identificado tanto na impossibilidade de cobrir
com tais monografias todo o território nacional, quanto na superfi­
cialidade e no impressionismo que as caracterizavam, à falta da
formação dialetológica de seus autores.
Mais pertinentemente no campo dos estudos dialetológicos si-
tua-se o projeto de CÂNDIDO JUCÁ (Filho), divulgado em 1973,(80)
e pormenorizado em 1941, pela Revista Filológica.(âl) Pretendia o
autor levantar por correspondência, tal como PAIVA BOLEO, em Por­
tugal, no mesmo decênio, dados de léxico, de fonética e de gramá­
tica, a fim de dar corpo à grande ambição da época: uma gramática
e um dicionário brasileiros da língua portuguesa.
A pesquisa tópica, bem ou mal conduzida, visava, em primeira
instância, ao levantamento de regionalismos, destinados, em cômputo
final, a configurar brasileirismos. Eis por que o interesse, antigamente
centralizado nestes, entra aparentemente em desativação.cs2)
Dessa forma, a tarefa que a seguir se impunha era a da orga­
nização dos traços regionalmente levantados, que permitisse a visão
do todo — o dialeto brasileiro ou a língua brasileira — superior ao
matizado regional.

PERIODIZAÇÃO

A mesma atitude impressionista, característica dos trabalhos so­


bre a língua do Brasil no século passado, ainda está presente na
maioria das obras do período 1920-45, como a de RENATO MEN­
DONÇA (33) que propõe, para a dialetologia brasileira (?), uma di­
visão histórica em três etapas: 1. fase pré-histórica, de 1826 a 1879,
cuja principal característica são notas avulsas sobre o “acento brasi­
leiro” e as primeiras coletas de brasileirismos; 2. fase histórico-etno-
gráfica, de 1879 a 1920, caracterizada pelo estudo do “dialeto brasi­
leiro”; 3. fase dialetológica, a partir de 1920, quando começam os
estudos dos “dialetos da língua portuguesa no Brasil”.
Evidentemente aqui não cabe a crítica dessa doutrina, mas salta
à vista, como senão só explicável pela ótica da época, a pressuposição
da existência de Dialetologia no Brasil a partir de 1920. No entanto,
a proposta de RENATO MENDONÇA tem sido endossada por muitos
autores, alguns dos quais a tomam, o que é mais grave, como divisão
da história do português no Brasil, que, dessa forma, teria sua pré-his­
tória situada entre 1826 e 1875.
As tentativas que, no âmbito do período, se esboçaram visando
à periodização da história do português no Brasil, evidenciam a ati­
tude de revisão e sistematização estimulada pelo centenário da Inde­
pendência. Ê o caso de ANTENOR NASCENTES, que estabeleceu a
data política de 1822 como divisória entre uma etapa de intensas
modificações fonéticas, morfológicas e sintáticas, pela qual passou
a língua e, a partir daquela data, um estágio correspondente à sua
estabilização.(34) Aliás, RENATO MENDONÇA, referindo-se ao
assunto, afirma que em 1822 deveria ter sido proclamada também a
independência da língua.(85)
Essas tentativas de periodização, feitas à margem de estudos
mais aprofundados da língua do Brasil, então ainda em início de
desenvolvimento, ficaram isoladas entre as muitas preocupações do
período, para só ganharem relevo com SERAFIM DA SILVA NETO,
no limiar dos anos 50.(36)
ÁREAS DIALETAIS

A falta de metodologia para pesquisas dialetológicas, que ga­


rantisse recolha fidedigna e registro preciso dos dados, impediu que
o material apresentado pelas monografias, então abundantes, fosse
aproveitado para demarcação de áreas lingüísticas — uma das preo­
cupações que se esboçavam na época.
As primeiras tentativas nesse sentido remontavam ao século
passado e se baseavam em fatores geográficos (JÚLIO RIBEIRO,
1891), ou histórico (JOÃO RIBEIRO) ou ambos (RODOLFO
GARCIA).
A hipótese que ANTENOR NASCENTES formulou em 1922 <37>
seria revista pelo próprio A. cerca de trinta anos depois,(38) embora
continuasse bastante insatisfatória. O A. propõe, por exemplo, o
próprio idioleto como representativo da fala carioca.(39) No entanto,
freqüentemente extrapola, aludindo a outros testemunhos e a vários
estratos sociais (“classe culta”, “classe inculta”), e alargando, além
disso, seu ângulo de visão para todo o Brasil, contrastivamente com
Portugal.
Em resumo, conquanto de cunho apriorístico, a contribuição do
período 20-45, para a demarcação de áreas dialetais no Brasil foi
positiva, e consistiu na tentativa de trabalhar com os dados do pre­
sente. Deste ângulo, evidentemente, não havia, como ainda não há,
elementos que permitissem esboçar um retrato aproximado da distri­
buição dos falares brasileiros, verdade que seria reconhecida, no
decênio seguinte por autores mais propensos ao rigor, como SERAFIM
DA SILVA NETO, que, por esse motivo, se escusa de qualquer ten­
tativa nesse campo.(40)
TRATAMENTO DOS REGIONALISMOS

Paralelamente à organização geográfica dos traços regionais, im­


punha-se, evidentemente, a lexicalização e a descrição dos fatos le­
vantados, isto é, um dicionário e uma gramática expositiva, sonho
herdado de JOSÉ DE ALENCAR, embora interpretado diferentemente,
conforme quem o pretendesse pôr em obra.
A primeira proposta de organização de uma gramática e de
um dicionário brasileiro da língua portuguesa fora apresentado por
MÁRIO DE ALENCAR, à Academia Brasileira de Letras, em 1910;
no que se refere ao dicionário, postulava, como primeira etapa, um
Dicionário de Brasileirismos, e só posteriormente o Dicionário da
Língua.
Foi, porém, somente no período em foco que a proposta ganhou
realmente impulso: em 1924, LAUDELINO FREIRE apresentou novo
projeto nesse sentido, logo aprovado pela Academia, e publicado
entre 1928 e 1934. Finalmente, em 1940, ANTENOR NASCENTES,
que já havia publicado um Dicionário Etimólógico,(41) recebeu a
incumbência de retomar o Dicionário (então apenas da língua por­
tuguesa), cujos quatro volumes, compreendendo cem mil vocábulos,
terminou em 1943, embora a edição só fosse tirada em 1956.(42>
Simultaneamente às tentativas de disciplinação do vocabulário bra­
sileiro no léxico português — ficando a gramática brasileira (43)
sepultada nos projetos, ou em títulos de compêndios — os regiona­
lismos, em grande voga, alimentavam fartamente ensaios,(44) mono­
grafias (destinadas a obtenção de cátedras de português,(45) a con-
gressos(48) e concursos (47)) e glossários,(48) inclusive como apêndices
a obras literárias.<49)
Invadindo a literatura, os regionalismos encontram adeptos e
opositores.
Enquanto aqueles buscavam na fala regional os alicerces do
que tinham como língua literária autenticamente brasileira, estes
alinhavavam diferentes argumentos para os rejeitar. TRISTÃO DE
ATAlDE, apreciando a questão pelo mesmo prisma nacionalista, via,
contudo, no recurso aos regionalismos, uma “quebra da unidade na­
cional” e uma “mutilação literária”;<50) GRAÇA ARANHA, conside­
rando todo primitivismo como “um ato de vontade”, condena-o, por
artificialismo; (61) MÁRIO DE ANDRADE considera o localismo co­
mo barreira ao universalismo,(62) enquanto SUD MENNUCCI, em
posição oposta, o acusava justamente de ser um ideal importado, “à
boa maneira européia”, de volta ao campo, uma vez esgotado o
fascínio das grandes cidades.(B8)

NEOLO GISMOS

A discussão sobre a autonomia da língua brasileira, ou, como


entendiam outros, sobre a autonomia brasileira em termos de língua,
remete à velha questão do purismo e dos modelos clássicos, pois se
trata de reconhecer ou não a legitimidade de um vocabulário espe­
cífico do Brasil, para o qual inexiste abonação na história da língua
portuguesa.
No período 20-45, certos ângulos desta contenda já se estavam
esbatendo. Pouco se discutiam, por exemplo, os galidsmos, ainda
evitados pelos mais ortodoxos, mas não mais perseguidos a ferro e
fogo. Já havia, mesmío, quem considerasse cômica a tarefa dos “cis-
cadores de galicismos”.(B4)
Os neologismos, ao contrário, estavam em plena voga, sobretudo
aqueles que, por sua ressonância regional, a literatura acolhia e di­
vulgava.
Note-se que a preocupação, a este respeito, não se referia, como
no passado, à quantidade, ao desejo de ostentar riqueza de léxico
em confronto com Portugal. As vozes locais, levantadas em mono­
grafias, glossários e obras literárias destinavam-se a configurar reali­
dade linguísticas típicas, a que não era estranho o sabor do pitoresco.
Deste ângulo, dois pontos merecem reparo: a credibilidade dos
escritores não lingüístas era plena, tomando-se um autor de obra
literária como testemunho fidedigno de uma dada fala local; e essa
fala local se confundia com folclore. Assim se explica a afirmação
de MÁRIO MARROQUIM, de que Menino de engenho é um docu­
mento literário dialetal; (B8) a de RENATO MENDONÇA, que con­
sidera “o folclore como documentação dialetológica”;<B6) e a de
MÁRIO DE ANDRADE, a respeito dos romances de VALDOMIRO
SILVEIRA, de que a fala das personagens é “folclórica”.(57)
Se por um lado, como já ficou dito, os regionalismos não eram
de aceitação unânime, os brasileirismos, ou neologismos denomina-
tivos, já não sofriam qualquer espécie de restrição.
Por outro lado, os neologismos estilísticos, embora muito con­
trovertidos, já não levavam seus autores a polêmicas como as de
ALENCAR. MÁRIO DE ANDRADE, um dos raros autores que se
preocuparam em explicar alguns dos seus, em correspondência com
SOUSA DA SILVEIRA chegou a declarar que nunca pretendera
criá-los.(B8)
De fato, criou-os, tal como o fizeram alguns de seus contemporâ­
neos, sobretudo no momento modernista — OSVALD DE ANDRADE,
CASSIANO RICARDO e tantos outros hábeis manipuladores da lín­
gua que ainda estão à espera de quem empreenda o levantamento e a
sistematização da neologia modernista.
Só a presença deste fato, que caracteriza muito acentuadamente
o período 1920-45, já bastaria para endossar a independência da
variante brasileira da língua portuguesa, que, como dizia MÁRIO DE
ANDRADE, consiste não em combater, mas em esquecer Portugal.(59)
Independência que significava autonomia na política da língua e não
autonomia política da língua.
ORTOGRAFIA (80)

A organização do léxico brasileiro, a partir do levantamento de 65 * 67 68


vocabulários regionais, em que se empenhavam estudiosos de todo
o País, levava, correlatamente, à questão ortográfica.(61)
Como é sabido, a querela ortográfica instalara-se desde o pri­
meiro decênio do século, quando MEDEIROS E ALBUQUERQUE C62)
(1907) apresentou o seu projeto de reforma dita sônica. A polê­
mica que se seguiu durou cinco anos, ao cabo dos quais pouco
restava já da proposta inicial, naquela que a Academia Brasileira de
Letras aprovou em 1912, e que vigorou, sem nunca ter sido san­
cionada, até 1915. Nesta data, por iniciativa de SILVA RAMOS, foi
substituída pelo projeto português de reforma ortográfica, baseado
nos estudos de fonética de GONÇALVES VIANA e oficializado em
Portugal desde 1911. Daquela data (1915) até 1919 foi cada vez
mais difícil a convivência das três correntes de opinião: os que de­
fendiam a reforma, brasileira de 1912, aliás, pouco diferente da
reforma portuguesa; os que, por isso mesmo, preferiam esta; e os
que não renunciavam à chamada ortografia etimológica. Em 1919,
venceram provisoriamente os etimologistas, com a aprovação da pro­
posta de OSÓRIO DUQUE ESTRADA, pela qual se aboliam todas as
reformas anteriores.
Em 1920, portanto, ao abrir-se o período em foco, que seria
decisivo em matéria ortográfica, estava-se aparentemente na estaca
zero. Aparentemente, porque os espíritos já trabalhados, a opinião
pública já sensibilizada e informada, tudo propiciava uma tomada de
atitude conclusiva, o que só podería ocorrer quando as esferas ofi­
ciais viessem em apoio da Academia Brasileira de Letras.
Enquanto isso não ocorria, LAUDELINO FREIRE (1924) apre­
sentava um projeto de reforma ortográfica, como parte de seus tra­
balhos para a elaboração do já referido Dicionário Brasileiro da
Língua Portuguesa, proposta debatida dentro e fora da Academia,
ao longo de cinco anos, por todos os entendidos, isto é, todos os
brasileiros alfabetizados... O resultado foi que a Academia Brasi­
leira de Letras, em 1929, voltou, mais uma vez à proposta de 1912,
sob protestos generalizados, razão pela qual o Governo (1931) to­
mou afinal as rédeas do problema e proclamou o Acordo estabelecido
entre a Academia Brasileira de Letras e a Academia de Ciências de
Lisboa; Acordo repelido pela opinião pública, que, ao mesmo tempo,
rejeitou também o Formulário Ortográfico, de LAUDELINO FREIRE,
saído no mesmo ano. No ano seguinte (1932), porém, o Acordo era
corporificado no Vocabulário Ortográfico e Ortoépico da Língua Por­
tuguesa, elaborado pela Academia Brasileira de Letras; e em 1933
o Governo tornou obrigatório o seu uso. Obrigatoriedade transitória,
porque, em 1934, a nova Constituição (63) revogava tudo, para voltar
à ortografia vigente 1891, isto é, nenhuma. Tal situação durou até
1937, quando o Governo, sob pressão dos interessados, nomeou uma
Comissão encarregada de elaborar nova proposta ortográfica. Quando,
porém, esta foi entregue, arquivou-se, ao mesmo tempo em que se
ratificava o Acordo de 1931, com ligeiras alterações (1938). Esta
“ortografia de 1938” vigorou até 43, quando, nomeada outra Comissão,
nova ortografia, resultante de Acordo com Portugal, era elaborada e
divulgada pelo Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portugue­
sa. Investidas destinadas a reimplantar a ortografia de 1931 foram
descartadas com a intervenção pessoal do Presidente da República.
Estabilizava-se, assim, a ortografia brasileira. Até 1945. Nessa data,
novo Acordo com Portugal, destinado a eliminar discrepâncias entre
o Pequeno Vocabulário brasileiro de 43 e o Vocabulário Ortográfico
português de 1940, resultou, de fato, em nova reforma; tão mal su­
cedida, que a própria Constituição de 1946, redigida conforme a
ortografia de 43, ignorou-a.
Estava, enfim, liquidado o assunto. Durante mais de trinta anos
não se cuidou de ortografia, admitindo-se, apenas, em 71, pequena
simplificação das regras de acentuação.
Assim, um dos frutos realmente apreciáveis do período 1920-45
foi a liquidação da questão ortográfica, com a derrota definitiva dos
etimologistas.
No entanto, a reforma ortográfica pouco serviu à finalidade
maior a que então se visava, — a transcrição mais fiel da fala
brasileira, conforme reivindicação expressa por AMADEU AMARAL:
“O que os reformistas desejavam era justamente essa briga, e, vol­
tando à tradição dos primitivos escritores, pôr a ortografia de acordo
com a realidade idiomática.(fl4) O próprio AMADEU AMARAL, po­
rém, acabaria por renunciar a essa pretensão, em benefício da unidade
gráfica da língua, relativamente a Portugal e Brasil. Em boa hora
o fez, porque não seria realmente possível, considerando-se a si­
tuação dos estudos lingüísticos brasileiros na época, estabelecer cri­
tério gráfico senão para a língua literária.
De fato, a realidade fônica brasileira nem mesmo superficial­
mente estava descrita. Neste sentido cabe ressaltar a contribuição
de AMADEU AMARAL, ao estabelecer critério para registro de formas
recolhidas em pesquisa tópica,(85) e ao alertar para a urgência dos
estudos de fonética no Brasil, a fim de que não se confundissem coi­
sas tão diversas como “letra” e “som”, e se atentasse para a insu­
ficiência do alfabeto como notação fonética; e ainda se considerasse
a importância da tarefa de levantar os fatos que compõem a “gra­
mática natural” da língua falada.(68)
Nenhuma dessas conclamações, contudo, obteve resposta dos que,
seguindo seu modelo de trabalho, no que representava de mais geral,
se dedicaram à recolha de formas regionais. Com raríssimas exceções,
acomodaram-se todos perfeitamente à notação alfabética.(87) E não
foi entre eles que o problema ortográfico constituiu matéria de cogi­
tação e debate, mas entre literatos e até entre leigos. Daqueles,
destacou-se MÁRIO DE ANDRADE, que chegou a sistematizar alguns
fatos de uma grafia pessoal, capaz de refletir a sua realização da
fala (pra e prâ; se e si; milhor etc.); destes, BERTOLDO KLINGER,
que se empenhou numa verdadeira aventura ortográfica.(68)

A PRONUNCIA
O debate em tomo da ortografia refletia o desejo de registrar
graficamente a pronúncia brasileira. Todavia, para essa finalidade,
a formação lingüística no Brasil era bastante deficitária, como se
depreende das denúncias de AMADEU AMARAL, já em 1925.
Com poucas exceções, os trabalhos, nesse campo, continuavam apresen­
tando caráter impressionista, tal como o de PEDRA BRANCA, um
século antes.(T0) Até fins dos anos 30 eram quase exclusivamente os
portugueses os teóricos seguidos no Brasil.
No entanto, não são poucas as tentativas de descrição da pro­
núncia brasileira, tanto no âmbito das monografias gerais sobre o
português do Brasil, em que se cotejam as diferenças, relativamente
a Portugal, quanto naquelas que exploram um só aspecto regional.
A característica mais comum a estes trabalhos era a sua finalidade
prática, conforme se pode verificar na obra dos autores que mais se
distinguiram no tratamento do assunto: JOÃO RIBEIRO, ANTENOR
NASCENTES, CÂNDIDO JUCÁ (Filho).
Em 1916, JOÃO RIBEIRO, como relator da Comissão de Ins­
trução Pública, recomendava a pronúncia carioca como “padrão ortoé-
pico normal” (71), parecer que reitera em 1927, ao tratar da fixação da
pronúncia para o canto erudito — assunto que seria retomado dez
anos depois, em São Paulo, no Primeiro Congresso da Língua Na­
cional Cantada, em que prevaleceu essa opinião. Note-se, de passa­
gem, que, não obstante ser aquela a finalidade do Congresso, as
teses apresentadas focalizavam fatos de pronúncia regional, no caso,
pouco pertinentes.(72) Finalmente, em 1929, JOÃO RIBEIRO, voltou
ao assunto, na Academia Brasileira de Letras, que então cogitava
da organização de uma “gramática geral brasileira”.(78)
ANTENOR NASCENTES, preocupado com a questão desde os
tempos de O linguajar carioca em 1922, tratou de pôr em prática suas
idéias em 1930, quando sugeriu ao então Diretor Geral da Instrução
Pública do Distrito Federal, professor FERNANDO DE AZEVEDO, a
constituição de uma comissão destinada a fixar uma pronúncia-pa-
drão para o ensino nas escolas primárias, profissionais e normais.
Acolhida a sugestão, iniciaram-se os trabalhos da Comissão, de que o
próprio ANTENOR NASCENTES era parte. Começou-se por recolher
os “votos de seus membros quanto à natureza dos fonemas existentes
na fala do Distrito Federal e o modo de pronunciá-los”, “para
depois ir a diversos estabelecimentos de ensino ouvir estes mesmos
fonemas pronunciados de modo espontâneo”.(74) Dessa forma, “de­
pois de várias reuniões semanais ficou estabelecido o quadro geral
dos fonemas e, ouvindo cerca de cem crianças cariocas e filhas de
pais cariocas, de todas as classes ( . . . ) ” , encerrou-se a coleta do
material.<75)
Como relator dos trabalhos, ANTENOR NASCENTES, ciente das
deficiências da pesquisa, lamentava a impossibilidade de “conseguir
a gravação em discos” e o caráter precário dos resultados: “mais
tarde, também, quando estiver montado o Gabinete de fonética ex­
perimental do Colégio Pedro II, estes resultados poderão ser apre­
ciados a fim de que possam ser corrigidos nas falhas que apre­
sentarem”. (76)
Quanto à finalidade imediata da pesquisa, que visava ao en­
sino, os acontecimentos políticos de 1930 impediram que as con­
clusões fossem postas em prática imediatamente. Só na gestão de
ANÍSIO TEIXEIRA, em 1933, é que ANTENOR NASCENTES con­
seguiu reviver a questão, fixando-se, então, “nas escolas do Distrito
Federal um padrão de pronúncia o qual possa orientar o ensino da
leitura”.(77)
Esse padrão de pronúncia é essencialmente o que ANTENOR
NASCENTES descreve em O idioma nacional, 1937.(78)
Quanto à atuação de CÂNDIDO JUCÁ (Filho), destaque-se além
do trabalho apresentado no Primeiro Congresso da Língua Nacional
Cantada (“Problemas de fonologia carioca”), a tese que desenvolveu
no Congresso das Academias de Letras e Sociedades de Cultura Li­
terária, 1936.(79) No parecer em que se aprovava a tese, pode ler-se:
“Prosódia da língua: Vantagens de ser fixada uma prosódia literária
da língua, o qual será adotada no teatro, nas escolas de canto e de
declamação, e ensinada nas escolas públicas do país”.(80) Segue-se
uma observação digna de atenção; “ ( . . . ) os foneticistas reconhecem
geralmente quatro tipos de pronúncia: familiar rápida, familiar lenta,
cuidada e solene”.(81) O A., porém, nada explicita do ângulo sodo-
cultural.
Todavia, por essas tentativas, fica bastante clara a necessidade,
já sentida na época, de instituirem-se estudos experimentais de foné­
tica. Para tomar contato com essa atividade, CÂNDIDO JUCÁ (Filho)
fez várias visitas ao Instituto de Fonética de Paris e chegou mesmo
a encarregar um amigo, OSVALDO SERPA, de fazer a revisão da re­
ferida tese no Laboratório Experimental de Londres, sob controle
de um técnico, ocasião em que algumas das observações do A. foram
confirmadas, outras corrigidas.(82)
Importa notar que, na exposição que faz da pronúncia brasileira,
CÂNDIDO JUCÁ (Filho) utilizou o alfabeto da Associação Fonética
Internacional, por considerá-lo mais fácil do que os demais, para o
leitor comum.(88) Em todo caso, já era um passo além do emprego
acomodado da notação alfabética, então corrente em trabalhos de
fonética no Brasil.
No desenvolvimento de sua tese, CÂNDIDO JUCÁ (Filho) enca­
rece as vantagens da pronúncia que descreve, para: 1. garantir a uni­
dade nacional, através do teatro, da declamação, da oratória, da
cátedra e do rádio; 2. estabelecer estalão livre de regionalismos,
para o ensino de estrangeiros. Com vista ao bom resultado dessa
prática, aconselha que, nos exercícios escolares de leitura, os mes­
tres se esforcem para que seus alunos: 1- “pronunciem LL finais
com o som de L; qualquer que seja”; 2. “articulem RR finais com
clareza, de preferência com o som de R intervocálico”; 3. “sibilem
os SS que ocorrem em fim de frase ou antes de pausa”. Além disso,
1. “devem trabalhar no sentido de impedir o aparecimento de fo-
nemas artificiais entre os vocábulos, qual seja a articulação desse NH
tão freqüente entre o ditongo EM e uma voz, como na frase “Quem
nh-é?”; 2. “devem ainda ensinar a boa articulação do T, do D,
do N e do L, os quais em conexão com o E, e sobretudo com o I
soem ouvir-se um tanto palatizados, aproximando-se defeituosamente
do CH, do DJ e do LH”.(84)
O A., que se vangloria de não ter recorrido, em seu trabalho,
nem à Estatística, nem à Geografia Lingüística, apresenta, pois, uma
pronúncia brasileira ideal.
Desse ângulo, o período 1920-45 corresponde, portanto, a ten­
tativas armadas de boa vontade, mas não de fundamentação sufi­
ciente. para enfrentar a tarefa que já se afigurava básica para a
caracterização da variante brasileira. Nesse sentido, os anos 50 tra­
riam alguns avanços,(85) ficando, porém, os primeiros frutos real­
mente apreciáveis para o decênio seguinte.(86)
A par dos trabalhos mais avançados, como os já referidos, de
ANTENOR NASCENTES e CÂNDIDO JUCÁ (Filho), que abordavam
aspectos da prosódia brasileira descritivamente, e com finalidade social,
continuam a proliferar aqueles que procuravam caracterizar comparati-
va-contrastivamente as diferenças entre Portugal e Brasil. Tais estu­
dos ocupavam-se mais com as causas do que com os fatos. Dentre
aquelas, são invariavelmente apontadas a “deturpação” devida ao
uso da língua por aloglotas indígenas e africanos, e aos efeitos do
clima. A única inovação, nos trabalhos deste tipo, consistia na in­
clusão, entre os aloglotas, do contingente dos imigrantes, segregados
ou não em núcleos, mas alimentados por contínuas levas de falantes
da mesma origem, como os portugueses no Rio de Janeiro,(8T) fato
de que resultam “condições e estímulos novos de crescimento não
só de gente como de culturas”.(88)
A esse propósito, observe-se, à guisa de curiosidade, que, se­
gundo depoimento de JOÃO RIBEIRO, nos meios teatrais do Rio de
Janeiro era prestigiado o sotaque português, que os atores nacionais
procuravam imitar.(89)
A GRAMÁTICA

De uma gramática brasileira da língua portuguesa ocupou-se


longamente a Academia Brasileira de Letras. JOÃO RIBEIRO traçou-
lhe o plano,<90) dando realce, com grande clarividência, à sintaxe. Con­
tudo, o projeto não chegou à realização. Nada se pode concluir, pois,
sobre o que, no caso significava brasileira.
De gramática também, e com tão pouca autoridade quanto
ALENCAR e seus contemporâneos, ocuparam-se os literatos do período,
razão por que não são raras em seus escritos explicações gramaticais
falsas ou defeituosas a propósito de uso particular de cada um ou
do uso corrente na época.
Uma das reivindicações então mais gerais era a de uma gramática
moldada diretamente na realidade lingüística brasileira, ou, pelo
menos, de uma adaptação da velha gramática portuguesa. MÁRIO
MARROQUIM defende o direito dos brasileiros de traçarem seus ru­
mos gramaticais. <91> HERBERT PARENTES FORTES, na sua tese de
1927, “Do critério atual de correção gramatical”, pretendia que as
autoridades fixassem tal critério em relação à “língua brasileira”, de
cuja existência não duvidava. E MÁRIO DE ANDRADE, embora não
partisse do mesmo pressuposto, também sugeria que o Governo in­
dicasse “uma comissão de batutas” para “elaborar uma gramática
mais larga, pra uso das escolas”,C92) gramática que fosse “uma reali­
dade lógica do discurso, essa gramática virtual que todos usamos
sem conhecer as regras da gramática”; (98) achava, por exemplo, que
sobre colocação pronominal “se deve um pouco legislar”.(94) Ele pró­
prio, embora negando repetidamente que pretendesse a sério escrever
a tão comentada “gramatiquinha da fala brasileira”, tentou siste­
matizar alguns fatos gramaticais(95) — (por exemplo, o uso de “a gen­
te” e “você”, como impessoalizadores).
Por seu lado, MONTEIRO LOBATO, que teve rusgas e amores
intermitentes com a gramática, acabou por tomar-se ele próprio um
gramático; para crianças, é fato, o que era uma compensação muito
compreensível para quem jamais se esquecera de uma reprovação
em português, na juventude;(9G) o que é menos compreensível é
ter-se revelado, como gramático, muito mais ortodoxo do que seria
de esperar de tão ardoroso defensor da “brasilina”. De fato, porém, o
antigo admirador de CAMILO CASTELO BRANCO, já exordsado da
gramática, voltaria a manifestar-se na idade madura, em conselhos
sobre correção gramatical.(97>
Conselhos semelhantes aos de LOBATO, dirigidos especialmente a
quem pretende ser escritor, são dados por GRACILIANO RAMOS/98)
No entanto, apesar de muito se discutirem fatos gramaticais, seja
para contestar, por princípio, a ortodoxia, seja para reivindicar üm
código mais ajustado à fala brasileira, o núcleo dà questão jamais
foi claramente enfocado. A maioria dos autores não gramáticos con­
tinuava a apegar-se a questiúnculas extragramaticais, de léxicó ou pro­
sódia. Raros, os que, como SILVIO JÚLIO, entravam no cerne da
questão, considerando a sintaxe como o verdadeiro arcabouço da
língua — concepção a partir da qual só podería concluir pela inexis­
tência de língua brasileira.(99)
Da sistematização de fatos gramaticais gerais, excluídos, por­
tanto, os autores que se empenhavam em levantamentos regionais.
como AMADEU AMARAL, ANTENOR NASCENTES, MÁRIO
MARROQUIM, poucos trataram. A elaboração de um plano desse
tipo — um plano, porque a execução seria uma falácia — que se
esperaria de um papa da “língua brasileira”, como HERBERT PA­
RENTES FORTES, — deveu-se, no entanto, a CÂNDIDO JUCÁ
(Filho), que partiu daquilo que, com muito critério, julgava impres­
cindível: a investigação tópica. Planificou trabalhos de Geografia
Lingüística, nas modestas dimensões das possibilidades brasileiras da
época.(100)
Enquanto alguns assim se preocupavam em recolher material
vivo, visando a uma futura sistematizáçãOj para atender à mais insis­
tente das reivindicações da época, a linha ortodoxa se mantinha em
plena pujança, a julgar pelas inúmeras gramáticas normativas publi­
cadas na época.<101)
Assim, pois, em que pese à atitude irreverente dos modernistas
da primeira fase, ante a gramática, as sucessivas tiragens de obras
já consagradas, normativas e históricas, além do aparecimento de no-
Vll, noi mesmos moldes, comprovám a manutenção e até o flores-
Olmento dos estudos de gramática, para os quais muito contribuiu
I ImtalMlO • g subieqüente atuação das Faculdades de Filosofia de
Ma Piufo • Rio de faneiro, nos anos 30.
Na «Minta, numa época em que se tentou a revisão da língua
em todos os seus aspectos, a da gramática tradicional, ainda que
diicretomente, também se fez. Isto ocorreu não só com respeito à
dosagem das lições gramaticais, para servirem mais didaticamente
á seriação escolar, mas também quanto ao seu aspecto conceituai.
A mais superficial dessas alterações consistiu em aligeirar o
estilo do texto gramatical e em concretizar ás noções, com recursos
visuais, sobretudo na parte de Fonética (que, tradicionalmente, era
a primeira, na maioria das gramáticas), com apresentação do “apa­
relho fonador”, em suas diferentes posições, correspondentes à arti­
culação dos diversos fonemas.
As partes tradicionais da gramática, expositiva ou normativa,
eram, além da Fonética, a Morfologia, a Sintaxe, a Lexicologia e,
às vezes, também a Estilística, a Versificação e a História da Língua.
Quanto à pertinência dessas partes e sua disposição no âmbito
gramatical, ocorreu, no período, incisiva renovação. Talvez a mais
feliz das tentativas neste sentido, baseada em nova interpretação
da matéria gramatical, seja a SOUSA LIMA,(102) cuja obra, no en­
tanto, teve escassa repercussão na época.
Fundamentado sobretudo em K. BRUGMANN, e para “que as
primeiras noções preparassem as seguintes”,(10S> o plano da Gramá­
tica expositiva de SOUSA LIMA compreendia quatro livros. 1. Dos
modos gerais de expressão do pensamento. 2. Das partes do dis­
curso e suas funções. 3. Da constituição e variações das palavras.
4. Da construção do período.(1#4)
Obedecendo a esse plano, o autor pretendia: 1. “ ( • • • ) compor
um trabalho que fosse realmente um todo e não uma justaposição
de partes. E para isso tivemos sempre presente ao espírito a unidade
da linguagem, que não é a palavra isolada, mas a frase, ou seja, a
expressão linguística de uma representação global considerada em seu
conjunto";(105> 2. partir, portanto, do geral para o particular, pois
“ ( . . . ) o ensino da gramática em vez de começar separadamente
pela Fonética, ou pela Morfologia, deverá considerar de início a pro­
posição, dela descer às diferentes partes do discurso, mostrando como
estas vivem em conjunto, se limitam e se completam”; 3. dessa for­
ma, o estudo da gramática só se pode fazer através da interrelação
das noções de Morfologia e Sintaxe.
Esta visão dos fatos gramaticais seria parcialmente adotada, nos
anos 40, pelas autoridades do ensino, corporificando-se nas obras
que saíram logo a seguir à Reforma Capanema (1942), como a de
CÂNDIDO JUCÁ (Filho), o qual, no entanto, parece não se sentir
muito a seu gosto ante a nova sistemática. Ê o que se percebe no
“Prefácio” à Gramática Brasileira do Português Contemporâneo: “A
distribuição das noções gramaticais obedece rigorosamente à ordem
estabelecida no programa oficial, cujos parágrafos copiamos a se­
guir”. “Não raro o autor sacrificou as suas próprias idéias, em -
benefício da unidade do ensino que se preceitua no País.” <108)
Em suma, em relação à gramática, o período 1920-45, apesar do
movimento de iconoclastia inaugurado pelos modernistas da primeira
geração e praticamente circunscrito aos próprios círculos literários,
não correspondeu a um real declínio desses estudos. Antes, o pe­
ríodo foi muito fértil, em quantidade e qualidade, apresentando-se,
através das inovações que então se instalaram, para promover, a
partir dos anos 50, um reajustamento desses estudos a um padrão
mais propriamente lingüístico de gramática.

O ENSINO DA LÍNGUA

O espírito de renovação dos anos 20-45 refletiu-se também no


ensino da língua, cujos métodos, tão dolorosamente criticados por
GRACILIANO RAMOS,(l07) relativamente à época da sua meninice,
consistiam, até então, pouco mais ou menos, em pôr nas mãos da
criança apenas alfabetizada uma gramática portuguesa e uma seleta
clássica, esta destinada a oferecer CAMÕES à imolação da análise
dita lógica, e aquela a proporcionar regras para tal finalidade.
Ai reformas de que foi objeto o ensino, em geral, quer no âm­
bito estadual,(10,) quer no federal, (1°°) alteraram grandemente esse
panorama.
Em São Paulo, por exemplo, no intuito de renovar a literatura
didática, dando-lhe rumos mais consentâneos com os ideais da época,
foi nomeada uma comissão encarregada de elaborar um “padrão de
livro didático”, levado a cabo pelo professor A. DE SAMPAIO DÓ-
RIA. A isso se refere SUD MENNUCCI, ao comentar o livro Saudade,
de TALES DE ANDRADE, tirado em 1920, saudando-o por não
apresentar, do ângulo literário, nenhum desleixo, nem ser “afeiado
por torturadas frases-feitas”, nem se parecer “à lagoa morta e sem
brilho dos estilo “paçoca” em que fazem prodígios tantos didatas e
prosadores”. (no)
Note-se que, além de refletir os ideais da época em matéria de
língua, TALES DE ANDRADE ainda trabalhava no mesmo sentido em
que se empenhavam os regionalistas: considerando as cidades, “esses
paraísos terrestres cheios de automóveis, de chaminés e de gasoli­
na”, <U1> um malefício, valorizava a beleza e a utilidade da vida no
campo. Tentava-se, dessa forma, além de proporcionar à criança do
interior textos inspirados na sua vivência, incentivar também o amor
à terra e romper o fascínio que a cidade exerce para o campo.(112)
Quanto ao ensino de gramática, os autores de livros didáticos
do período, a exemplo de ANTENOR NASCENTES, passam a seriar a
matéria, e apresentá-la dosada, em função dos textos.
Esse esforço de atualização, estimulado pelo Governo, sobre­
tudo a partir dos anos 30, era fiscalizado pelo Ministério da Edu­
cação, do qual dependia a aprovação de obras didáticas.(113) Um
desses estímulos consistia em prêmios, destinados a atrair escritores
para a literatura didática,(114) a exemplo do que haviam feito OLA­
VO BILAC e COELHO NETO, no passado. Em 1938 GRACILIANO
RAMOS obteve um desses prêmios, com A terra dos meninos pelados.
Já MARQUES REBELO fora contemplado no ano anterior, com
Aventuras de Barrigudinho, ilustrado por SANTA ROSA, seu par­
ceiro também num álbum impresso pela Nestlé, em 500.000 exem­
plares distribuídos gratuitamente,(U5) tal como procedera o Labora­
tório Fontoura, com o Jeca Tatu, de MONTEIRO LOBATO. Assim
se empenhavam, na época, as multinacionais, em participar do esforço
do Governo na campanha de educação.
«*»

Enquanto no campo do ensino primário e secundário, reformas


e incentivos diversos, que visavam à atualização, à eficácia e à di­
fusão, eram medidas postas em prática, sobretudo a partir dos anos
30, no plano do ensino superior criavam-se, no Rio e em São Paulo,
as primeiras Faculdades de Filosofia, destinadas a preencher um va­
zio cultural, traduzido, no que concerne à língua, na deficiência de
formação específica em letras e ciências sociais; ademais, ainda em
função do ensino primário e secundário, propiciava-se a formação de
profissionais capazes de sustentar a nova política educacional.
i
Em São Paulo, o primeiro diretor da Faculdade de Filosofia,
visando de fato a essa “reformulação integral”, atribuía, aos professo­
res então contratados, “plena liberdade de crítica à organização da
Faculdade e ao ensino geral, sendo-lhes solicitada uma apreciação,
cm que se expusessem as falhas observadas no ensino secundário e
pré-universitário, e se apresentassem sugestões quanto aos meios para
corrigi-las”.(116)
Correspondendo a esse apelo, tal como fizeram outros mestres,
0 professor REBELO GONÇALVES recomendava, em seu relatório,
que o português ensinado nas escolas secundárias fosse “rigorosamen­
te científico, sem deixar de ser simples, mas exato e meticuloso”.
Dentre as conseqüências da nova política educacional, de con­
vergência de esforços públicos e privados, que no campo da língua
consistia na sustentação da ortodoxia, porém mediante a renovação
das metas, dos métodos e dos processos, ressalta o esvaziamento de­
finitivo, ao fim do período 20-45, da velha questão da língua
brasileira.

FORMAÇAO E INFORMAÇÃO LINGUÍSTICA

O tratamento dos assuntos relativos à língua do Brasil, de for­


ma não especializada, cm livros e através da imprensa, se foi excelente
via de acesso ao público, dava também a medida da formação lin­
guística no Brasil, permitindo ainda avaliar a sua rápida transfor­
mação a partir de fins dos anos 30.
Até então, quase todos os que se dispunham a abordar o assunto
da língua do Brasil, em artigos ou ensaios, condimentavam velhos
conceitos sempre repetidos e já exauridos, e ainda arrolamentos de
traços característicos da variante brasileira, com divagações extra-
1 ingüísticas. O forte da maioria desses autores era a formação gra­
matical, (m> o que, aliás, já lhes fornecia o plano para aqueles
trabalhos.
Conhecimentos de Dialetologia e de Lingüística, assim como das
relações língua-sociedade, língua-indivíduo (campo atual da Socio-
lingüística e da Psicolingüística), refletidos em citações, nem sempre
pertinentes, constituíam, com raras exceções, apenas informação.
A formação propriamente lingüística se iniciou nos anos 30.
Em 1938, MATOSO CÂMARA JR. ministrou, na Faculdade de Filo­
sofia e Letras do Distrito Federal, o primeiro curso de Lingüística no
Brasil, aliás logo suprimido com o desaparecimento daquela Faculdade.
Do currículo da Faculdade Nacional de Filosofia, que então se criou,
não constava a matéria.
Essas lições de MATOSO CÂMARA, divulgadas também pela Re­
vista de Cultura, constituiríam, em 1942, os Princípios de Lingüística
Geral, que, como bem dizia o subtítulo, eram de fato um “funda­
mento para os estudos superiores de língua portuguesa”.(n8)
E o eram, quer pela divulgação da teoria dos mais notáveis
lingüístas europeus e norte-americanos, quer pela organização didá­
tica da teoria lingüística mais em voga.
Destinada, pois, expressamente, aos cursos superiores da matéria,
constituía também indispensável subsídio para todos quantos se dis-
pusessem a caracterizar a língua do Brasil. A estes, proporcionava
mais do que isso, oferecendo também um modelo de estilo e de
abordagem adequados a ensaios de língua.
No entanto, a repercussão do livro, devido à inexistência de
curso regular de Lingüística nas Faculdades de Filosofia do Rio de
Janeiro e de São Paulo, ficou muito aquém do que seria desejável
para a renovação desses estudos no Brasil.
For isso foi muito lento o processo de esgotamento de velhas con­
cepções, como o evolucionismo histórico-comparativo, de SCHLEGEL,
BOPP e outros. O declínio do etnocentrismo da teoria de SCHLEGEL,
por exemplo, com sua hierarquização das línguas, que tinha levado
ALENCAR e seus contemporâneos a filiar o português ao grego e até
ao sânscrito, tidas como as línguas “mais perfeitas”, está patente na
ausência, durante o período em foco, de discussões desse tipo, refe­
rentes à supremacia da variante brasileira, ou da portuguesa.
Da bibliografia estrangeira de Linguística, à disposição na época,
a obra mais citada talvez seja Le langage, de VENDRYES (1921). No
entanto, conforme já observou NELSON ROMERO,(Ufl) a deficiência
de assimilação das teorias lingüísticas estrangeiras responde pela im­
precisão e até pela inexatidão de certas afirmações de nossos autores,
postas até, às vezes, a serviço de propósitos tendenciosos.
A visão cultural de SAPIR, que tão bem justificaria a especifici­
dade da nossa variante — paralelamente à configuração de uma
cultura brasileira, define-se uma linguagem brasileira, mas não uma
língua brasileira — não era igualmente bem conhecida; no entanto,
teria sido um bom sustentáculo, com suas perspectivas, histórica e
difusionista, para as interpretações intuitivas da natureza da língua
do Brasil.
Abordagens racionalistas, como as de SAUSSURE, ou funcionais,
como as de JERPERSEN e BALLY, estavam também, talvez com ex­
clusão apenas de MATOSO CÂMARA JR. e SERAFIM DA SILVA
NETO, fora do campo de reflexão dos ensaístas brasileiros.(120)
Em suma, no entanto, em que pese à defasagem, — que é ha­
bitual dos estudos lingüísticos no Brasil, em relação a centros mais
ayançados — o período 1920-45 deixou um saldo bem positivo:
assistiu à passagem de nível, do secundário para o superior. Como
símbolo desse progresso, a colimação da carreira de um profissional
das letras, que tinha sido uma cátedra no Colégio Pedro II, numa
escola normal de renome ou instituição equivalente, passou a ser a
carreira universitária, o grau de doutor, a função de livre docente
ou de catedrático de uma Faculdade de Letras.
. Concomitantemente a essa passagem de nível, as obras sobre
língua vão perdendo aos poucos o tom literário, o timbre adequado
à divulgação para um público indiferenciado, em benefício de um
rigor e de uma atualização cada vez mais buscados.
Da nova mentalidade lingüística resultaria, a partir do ano-mar-
co de 1945, a liqüidação da “língua brasileira”.
*
* *

Extrapolando o âmbito da língua, mas com clara repercussão


no seu domínio, pode-se afirmar que o grande legado do período
1920-45, com respeito à cultura nacional, foi, pois, sem dúvida,
a formação do espírito científico. Isto transparece, desde 1936, na
visão crítica de SERAFIM DA SILVA NETO: “Preocupados em ex­
cesso com disputas de cunho patriótico, temos deixado o trabalho ci­
entífico muito de parte”. (121)
No verso dessa denúncia de uma atitude em vias de extinção,
ganhava relevo a presença de uma geração formada durante o pe­
ríodo, e já preparada para assumir o compromisso que lhe parecia
essencial, segundo o depoimento de ANTÔNIO CÂNDIDO, uma de
suas mais altas e legítimas expressões: “Estamos assistindo em São
Paulo à formação de tuna geração que encara a atividade intelectual
como um estudo e um trabalho que sejam instrumentos de vida, sendo
esta concebida como uma necessidade permanente de revisão e um
ataque sem dó a. tudo que signifique individualismo narcisístico e
hipertrofia do próprio eu”.(122)

FORMAÇAO DA OPINIÃO PÜBLICA — A FUNÇÃO METALINGÜÍSTICA

O nacionalismo característico dos anos 20-45 manifesta-se, em


assuntos lingüísticos, não só diretamente, pela campanha em favor
da autonomia da variante brasileira, mas também obliquamente, em
várias frentes de atuação, pelo esforço de firmar e comprovar essa
autonomia. Nessas condições, dar-lhe uma forma gráfica mais ajus­
tada à prosódia brasileira era uma necessidade básica; e outra a
emergência de uma expressão literária sui generis — mais evidente no
campo do léxico, quer pelo recurso ao regional, quer pela experi­
mentação neológica.
Isso significava, ao mesmo tempo, a desmitificação dos ideais até
então cultuados, rompendo-se alguns dos laços que prendiam a tra­
dição literária brasileira à portuguesa, e uma abertura propícia às
trajetórias individualistas que precederam a nova reordenação alcan­
çada no fim do período.
Como é sabido, a aventura contestatória dos anos 20 foi rui­
dosa, mas cumpriu seu desígnio de sensibilizar a opinião pública.
A divulgação das novas propostas, paralelamente à tarefa de
disciplinação, empreendida em todos os níveis a partir dos anos 30,
valeu-se do alargamento da varredura de um velho canal — a im­
prensa — e o advento de outro — o rádio.
Tratados e manuais de língua e literatura são de tal abundância,
na época, que chegam a dificultar a seleção para fins de exemplifi-
cação; por seu lado, jornais e revistas reservavam invariavelmente
espaço para tais assuntos, incluindo-se um consultório de língua, pre­
sente até em publicações mais leves como a Careta. E a clientela era
tão apreciável, que as estações de rádio, a partir dos anos 30, passam a
incluir programa semelhante. Em 1930, SILVEIRA BUENO, pioneiro
dessa atividade em São Paulo, e então professor da Escola Normal
Modelo (posteriormente catedrático de Filologia Portuguesa na Fa­
culdade de Filosofia, Ciências e Letras), responde a consultas três
vezes por semana, pela Rádio Educadora Paulista, e, depois de 1936,
pela Rádio Difusora de São Paulo.(m) Já então CID FRANCO man­
tinha, desde 33, pela Rádio Cruzeiro do Sul, o “Programa do Livro”,
que duraria mais de trinta anos, passando, subsequentemente, para a
Rádio Cultura (1952-1965) e para a Rádio Marconi (1966).
Some-se a isso a grande freqüência e o sucesso das conferências
— não mais frívolas, como no começo do século — sobre língua e
literatura, feitas por membros das academias de letras, por professo­
res nacionais e estrangeiros e por escritores; e ainda a discussão
desses assuntos no âmbito do Legislativo e seu refluxo nos jornais.
Ter-se-á, dessa forma, um índice de como eram alimentados o inte­
resse e a participação do grande público. Finalmente, coroando o
fruto de toda essa campanha de divulgação e incentivo, uma farta
distribuição de prêmios de língua e de literatura.
É o que acentua GRACILIANO RAMOS em 1939: “Estamos num
tempo de concursos literários, parece que nunca houve tantos prê­
mios: Tivemos os prêmios de literatura infantil do Ministério da
Educação, os da Sociedade Felipe de Oliveira, os da Fundação Graça
Aranha”.(124) E não mencionava os prêmios de há muito concedidos
pela Academia Brasileira de Letras e pelas congêneres estaduais, nem
os instituídos por entidades de vária natureza. À guisa de exemplifi-
cação, ao Prêmio Francisco Alves, destinado a obras sobre língua por­
tuguesa, concorreram, em 1937, dez autores, sendo premiados, pela
ordem, JOAQUIM RIBEIRO, por Estética da Língua Portuguesa;
RENATO MENDONÇA, O português do Brasil; SERAFIM DA SIL­
VA NETO, Do latim às línguas românticas e Fontes do latim vulgar;
e ARTUR DE ALMEIDA TORRES, Regência verbal. <125>
Estavam, dessa forma, postos a serviço da divulgação dos assun­
tos de língua todos os veículos de comunicação da época, que levaram
a informação, dos círculos especializados para o grande público,
mantendo-o atualizado, sem o ônus do estudo sistematizado.
A importância da imprensa, nesse contexto, assume o maior
relevo. Primeiro, por dar conta minuciosa de qualquer notícia ou fato
referente à língua; e, depois, por orientar, desse ângulo a opinião
pública. Para isto, cada periódico contava, senão com um ou mais
especialista, pelo menos com alguns nomes de importância. No caso
do Correio Paulistano, por exemplo, os artigos sobre língua deviam-se
a GALEÃO COUTINHO, LELLIS VIEIRA, FRANCISCO PATI,
além de colaboradores eventuais.
Em vista disso, a imprensa refletia rapidamente o rumo da polí­
tica da língua, o que faz dos jornais um precioso documento para
quem pretenda historiar o assunto. Sirva de exemplo o mesmo
Correio Paulistano,(126) que, em 1935, combate, em editoriais, a
“língua brasileira” e, em 1939, refere a criação de órgãos controla­
dores da ‘‘pureza da língua” nos veículos de comunicação de massa —
na época, o rádio — assunto que despertou o interesse geral.(127)
A este propósito, verifica-se que era exigência para quem pretendesse
ser locutor, não apresentar “sotaque caipira” — o que já constituía
uma tentativa no sentido de estabelecer uma norma brasileira para
essa finalidade, então fundamentada na crença na missão cultural do
rádio.
Quando ALENCAR anexava a seus romances, à guisa de prefácio,
(Sonhos de ouro) ou de posfácio (2a ed. de Diva e de Iracema), um
apêndice a respeito de língua, tentava mais um canal de comunicação
para veicular uma doutrina sobre o seu uso da língua, procurando
assim pressionar o público leitor de ficção, dificilmente inclinado a
elucidar tais questões em livros especializados.
Ora, no período 1920-45, sobretudo no primeiro decênio, uma
das novidades foi o aproveitamento, com idêntico propósito, da
função metalingtiística, em prosa e verso.
MENOTTI DEL PICCHIA, PINHEIRO MACHADO, BASTOS
TIGRE,(128) em verso, aqueles a sério, este jocosamente, aproveitam
o tema “língua brasileira”, enquanto em prosa MÁRIO DE ANDRA­
DE satiriza o purismo dos modelos clássicos<129) e MONTEIRO LO­
BATO, talvez o pioneiro e certamente o mais feliz explorador da
função metalingtiística, com o conto “O colocador de pronomes”,(130)
consegue, por via mais adequada que a de ALENCAR, levar ao
público leitor de ficção suas idéias sobre a língua do Brasil.
Em resumo, todos os agentes capazes de servirem à disseminação
educativa da língua eram conjurados, no período, para essa função,
e assim mantiveram, possivelmente pela última vez na história da
língua no Brasil, o calor do interesse público pelo assunto.
Com a formação de especialistas, que passaram a atuar social­
mente nos fins dos anos 30, o grande público foi paulatinamente
afastado dessas questões, cada vez mais inacessíveis aos não iniciados.
Assim, um homem de cultura superior, de qualquer ramo de ativi­
dade, lería — e lia — com interesse e proveito uma obra como O
dialeto caipira, de AMADEU AMARAL; um leitor de hoje, nas mes­
mas condições, recuaria ante uma obra sobre o mesmo assunto,(181) nos
moldes atuais. O enfoque, por assim dizer, literário, característico
daquela e outras obras da época, funcionava como fator de divulgação.
O que se perdia em rigor, ganhava-se na abrangência da informação.
Alternativa de que, por motivos opostos, não se tinha, como não se
tem escapatória.

AS VARIANTES SOCIAIS DE LÍNGUA


Se praticamente desaparece com os anos 40 a campanha pela
“língua brasileira”, nem por isso perde relevo, o interesse pelos traços
regionais da fala, arrolados, seja como documentação, para finalidade
lingüística, seja com vistas ao aproveitamento literário, que em decor-
rêncià das preocupações sociais dos anos 30-40, muitas vezes se orien­
tava nesse rumo.
O ângulo de apreciação das variantes regionais deixa, pois, dé
sér exclusivamente histórico, ou geográfico, ou ambos, para ser predo1
minantemente cultural. É o que diz GILBERTO FREYRE: “creio que
o critério na análise dò assunto deve ser menos rigidamente intelectual
e mais social. Ou cultural, no sentido sociológico da palavra”.(1S2)
Essa abordagem, pretendí damente cultural, estava, porém, longe
de ser sociológica, de modo que tanto as explicações quanto as
soluções propostas permaneciam na órbita do apriorismo.
No entanto, visões mais realistas ocorriam ocasionalmente, desde o
início do período em foco. Em 1920, SOUSA DA SILVEIRA acentua
as diferenças entre, língua literária e língua falada, vulgar e familiar,
como variantes sociais.(1S3) Por sua vez, XAVIER MARQUES, no
decênio seguinte, também opunha língua escrita a língua falada,
língua literária a língua comum, c, nesta, distinguia a familiar e a
popular.(184) E MÁRIO MARROQUIM, nos anos 40, considerava
dialeto a língua falada, e língua portuguesa a escrita, a qual, segundo
previa, acabaria por ceder àquela, pois o dialeto já estava forçando
ás portas da literatura.(135)
Vendo os fatos de outro ângulo, JOÃO LEDA é de parecer que
a fala das classes médias deveria ser considerada a língua-padrão
brasileira.(186) Na mesma linha de cogitação, MÁRIO DE ANDRADE;
que, embora não especialista, foi quem mais tratou desse aspecto dâ
questão, emitiu, a propósito, uma série de reflexões muito sensatas;
preocupado com a normalização da fala brasileira e não em lhe
discutir a existência, questão a seu ver superada,(137) distinguia, não
só “estilo português” e “estilo brasileiro”, mas também “diferentes
estilos brasileiros”; além disso, ressalta a diferença entre “escrever pra
público e escrever pra amigos”,(138) frisando que “toda língua inclui
dentro do seu conceito uma infinidade de línguas”,(139) das quais
muitas variedades orais, de que trata especialmente em “Língua radio­
fônica” e “Língua viva”.(H0)
A atenção dispensada às variedades sociais e problemas corre-
latos incluía o interesse pela gíria, qué vinha, com muitas soluções de
continuidade, desde o século XIX. O tratamento do assunto se res­
tringia, porém, sempre, ao trabalho de coleta e lexicalização, chegan­
do, às vezes à investigação histórica do grupo social produtor da gíria.
Os autores de tais obras não demonstram conhecimento teórico do
assunto, nem mesmo através de citações: Les argots, de DAUZAT,
obra 1929, só é citada por HERBERT PARENTES FORTES, mais
à guisa de erudição que por pertinência, pois a gíria não era preocu­
pação especial do autor.
Historicamente, os primeiros estudos de gíria no Brasil focaliza­
vam a linguagem de ciganos, ladrões e malfeitores,<14I) aspectos que
predominavam ainda no período 1920-45, quando, porém, começou
a diversificar-se o objeto do estudo; simultaneamente, e coerente^
mente com o interesse despertado pelo pitoresco dos grandes aglo­
merados urbanos, começam a surgir, em alguns pontos do País,
compilações que constituem os primeiros retratos da gíria brasileira
lato sensu ou da língua vulgar urbana.141 (142) 143
Destas, as obras mais representativas,(148) no âmbito do período
em questão, talvez sejam, em 1922, no Rio, Geringonça carioca, de
RAUL PEDERNEIRAS,(144) e A vida ladra, de LINCOLN DE ALBU­
QUERQUE, em São Paulo. Em 1924, GASTÃO PENALVA, no seu O
mundo literário, vols. 7 e 8, incluia “A gíria maruja”; em 1927 saiu
Vocabulário da gíria dos militares, de LUCAS BARBARROXA, e -Á
gíria dos ladrões, de PÂNFILO MARMO, ambos de São Paulo. De
1931 a 1933, MANUEL VIOTTI, que desde 1896 (Gíria policial)
se dedicava ao assunto, publicou no Diário Popular de São Paulo seu
“Glossário de gíria”, núcleo do Dicionário de gíria brasileira, compila­
ção tirada em 1945. Antes disso, em 1934, saem as Achegas para o es­
tudo do calão brasileiro, de NELSON DE SENA; em 1940, O lingua­
jar da malandragem, de EDMILSON PERDIGÃO, e, em artigós-para
o Diário de Notícias, “O linguajar esportivo”, de JOSÊ BRÍGIDO,
evidenciando a tentativa de diversificação do objeto destes estudos,
que seria acentuada nos anos seguintes.(145) •■*
Como um dos saldos apreciáveis do período 1920-45, destaca-se,
pois, o interesse pela língua vulgar urbana e pelas linguagens especiais
que ela abriga. Os dialetos sociais, até então descurados, em vista de
serem exclusivamente os dialetos geográficos rurais considerados au­
tenticamente brasileiros, assumem, a partir daí, a importância que
lhes cabe no âmbito dos estudos da língua do Brasil, embora as obras
de então excluíssem a interpretação e a fundamentação teórica."''

LÍNGUA LITERÁRIA

Correspondentemente à instalação dos estudos sociais e literá­


rios, em nível superior, nos anos 30, as formas escritas da língua
começam a receber tratamento diferenciado.
De fato, no tocante ao primeiro decênio do período em foco,
pouca diferença se verificava entre a língua literária e a língua da in­
formação. Esta situação no decênio seguinte começará a alterar-se,
só se mantendo em certos autores cuja posição teórica a esse respeito
consistia exatamente em defender a indiferenciação, não só relativa­
mente àquelas duas manifestações, mas também entre qualquer delas
e a oralidade.
O mejhõr' 'exemplo da progressiva deferenciação das espécies
língualiterária e língua informativa talvez seja o de MÁRIO DE AN­
DRADE, tomado nos anos 20 e, depois, nos anos 40, quando já esta­
vam perfeitamente definidos o literato e o ensaísta. O estudo das ca­
racterísticas próprias destas duas cristalizações está por fazer-se; no
entanto, é possível discernir até à primeira vista o amadurecimento
reflexivo do autor, que, na intimidade prolongada com o ofício das
letras, acabou por conhecer alguns segredos que lhe renderam juros.
Ê fato notório que o Modernismo descobriu o veio da oralidade,
apenas suspeitado pelos românticos, e que dele a língua literária se
nutriu, a ponto de isto chegar a constituir item programático dos
romancistas nos anos 30.(146)
No entanto, MÁRIO DE ANDRADE, tratando de língua literária,
em mais de uma oportunidade declarou que se metera na aventura
de estilizar o “brasileiro vulgar”,(147) frisando, porém, que se tratava
de estilização “culta” da “linguagem popular”,(148) isto é, a velha
receita de Gonçalves Dias, manipulada em outras circunstâncias e,
evidentemente, com outros ingredientes.
Essa elaboração, a partir do material vivo da oralidade, era a
bandeira de uma das correntes de opinião da época. GALEÃO COUTI-
NHO, através da imprensa, faz-se um de seus porta-vozes, quando
aplaude a pregação da Semana de Arte Moderna em favor da atua­
lização do estUo, mas não quando isso significasse escrever como se
fala, porque ninguém, em parte alguma, afirma ele, assim procede.
E MONTEIRO LOBATO o lamenta, mas reconhece o fato de que é
impossível escrever como se fala.(148)
Eis porque BARBOSA LIMA SOBRINHO, na mesma linha de
pensamento, expõe sucinta e incisivamente: “Em todos os idiomas é
permanente a luta entre a língua escrita, corporificadora das tradi­
ções e das tendências conservadoras, e a língua falada, que expressa
as correntes de renovação, de modismos e as peculiaridades dos dia­
letos e das línguas especiais”.(180)
Ê a partir dessa distinção tácita que MÁRIO DE ANDRADE
afirma não estar pretendendo criar tuna nova língua, mas um estilo
literário, culto, moderno e brasileiro.(181) E é esse direito, o de ex­
pressar-se como bem lhe aprouver, que MÁRIO DE ANDRADE se
arroga, na sua qualidade de artista — o que jamais ocorrera a
ALENCAR, cuja defesa de seus meios de expressão se baseava nos
recursos tradicionais, a gramática, os clássicos, inadequados para a
finalidade de justificar suas inovações.
A essa corrente, de posição teórica bem definida, a que se filiava
MÁRIO DE ANDRADE, opunha-se aquela que pretendia assimilar a
oralidade em bruto, segundo a velha tese romântica de que a legitimi­
dade da expressão não admite retoques, sob pena de comprometer-se.
Posição típica de JOSÉ LINS DO REGO, que, em vista disso, man­
tém paralelismo de recursos estilísticos em suas duas formas de ex­
pressão, a literária e a informativa.
Essa indiferenciação não se assemelha, porém, à que assinalamos
relativamente aos anos 20, quando ambas as manifestações, a literária
e a informativa, eram elaboradas. Situa-se, ao contrário^ em extremo
oposto: em JOSÉ LINS DO REGO, por exemplo, ambas não o são, ou
o são minimamente (1R2), em virtude mesmo de sua posição anti-
retórica; por isso, tanto nos romances quanto nas crônicas, nos livros
de viagem e nas conferências, seu estilo está sempre marcado pelos
mesmos torneios de frase e maneiras de dizer.
As relações desses dois tipos principais de língua literária com a
gramática são bem diferentes. A elaboração de MÁRIO DE ANDRADE
baseia-se numa posição gramatical, isto é, de plena consciência de um
corpo organizado de regras que se contesta ou se pretende modificar,
pela constituição de outro corpo da mesma natureza. Atitude norma­
tiva, que se opõe à de JOSÉ LINS DO REGO, cuja escassa consciên­
cia das prescrições da língua lhe permite refletir, ainda que desorde­
nadamente, a gramática imanente da fala brasileira, de tal forma que
esta emerge e pode ser descrita a partir de seus textos.
Dessa maneira, MÁRIO DE ANDRADE, assim como LOBATO,
ou como ALENCAR, no passado, situa-se na linha da inovação lin­
guística dirigida, e, pois, na linha da tradição literária luso-brasileira,
enquanto JOSÉ LINS DO REGO tentou corporificar uma nova língua
literária fora dessa tradição. Evidentemente, uma análise mais íntima
de seus textos também podería revelar mais desvios de grau que de
natureza, em relação à gramática tradicional — o que não significa­
ria necessariamente a inexistência de uma gramática subjacente da
fala brasileira, mas, possivelmente, um aproveitamento deficitário de
seus traços.
De qualquer forma, JOSÉ LINS DO REGO tentou veicular o
coletivo, mas coletivo regional, o que, num domínio linguístico extenso
como o brasileiro, tem pouca ressonância fora da faixa em questão.
Pretendendo fazer pressão sobre a língua literária da época, atuou,
pois, de baixo para cima, considerando-se “cima” as formas literárias
como produto supremo do uso de uma língua.
Em contrapartida, as propostas de MÁRIO DE ANDRADE fun­
dam-se mais muna seleção individual, mais num gosto do que no uso
coletivo, procedendo, assim, de cima para baixo; daí as censuras à
artificialidade do seu uso, sob alegação de que essa língua não se
fala em parte alguma do Brasil, Verdade. E verdade também o fato
de que a pressão assim exercida, de uma língua criada sobre as formas
de língua vigentes de fato, só a longo prazo e muita depuração, se
faz sentir.
Em suma, a rigor, não é possível falar genericamente em “língua
do Modernismo”, a não ser como referência à presença do coloquial
— tratado, no entanto, diferentemente, segundo os grandes pa­
radigmas que os anos 20-45 legaram à literatura brasileira; ao lado
deles, porém, outros podem ser identificados, como, por exemplo, os de
ANTÔNIO DE ALCÂNTARA MACHADO e JUÓ BANANÊRE(1B3)
(Alexandre Ribeiro Marcondes Machado), com sua estilização da fala
urbana de certos estratos sociais.
Evidentemente, a evolução das posições teóricas acompanhou a
formação da consciência nacional em novos moldes, o que se fez em
detrimento do nacionalismo ingênuo. Do vanguardismo radicalizante
dos anos 20, que defendia a “língua brasileira” 153 (154) chega-se à refle­
xão crítica dos anos 40, quando o empenho geral se dirigia ainda que
discretamente, para a institucionalização das normas brasileiras.