Você está na página 1de 5

EXCELENTÍSSIMO SENHOR MINISTRO PRESIDENTE DO SUPREMO TRIBUNAL

FEDERAL

CNTS- Confederação Nacional dos Trabalhadores da Saúde, entidade de direito privada,


CNPJ n…, com sede no endereço…, representada por… vem por seus procuradores in fine que
esta subscreve (procuração em anexo) respeitosamente, à presença de Vossa Excelência, com
fulcro no art. 102 § 1º e 103, inciso VIII da Constituição Federal, Art. 1º da Lei Federal n
9.882/99,Art. 3º da Lei Federal nº 9.882/99ajuizar a presente:

AÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO FUNDAMENTAL COM PEDIDO


DE CONCESSÃO DE MEDIDA LIMINAR

contra os artigos 124 e 126 do Código Penal, que instituem a criminalização da interrupção
voluntária da gravidez, pela ordem normativa vigente de natureza pré-constitucional e indica
como preceitos constitucionais vulnerados o art. 5º da Constituição que sustenta a dignidade da
pessoa humana, a cidadania, a não discriminação, a inviolabilidade da vida, a liberdade, a
igualdade, a proibição de tortura ou o tratamento desumano e degradante, a saúde e o
planejamento familiar das mulheres e os direitos sexuais e reprodutivos.

1. ATO DO PODER PÚBLICO

A presente ADPF insurge-se contra os artigos 124 e 126 da Código Penal cuja publicação
ocorreu em 7 de dezembro de 1940 através do decreto-lei nº2.848, que estabelece as condutas
definidas como aborto pelo poder público passíveis de punibilidade.

2. LEGITIMAÇÃO ATIVA
Como depreende-se do Art. 2º da Lei 9.882/99 os legitimados à proposição de argüição
de descumprimento de preceito fundamental constam no rol taxativo do artigo 103, inciso VIII,
da CRFB/88.

Tendo a CNTS- Confederação Nacional dos Trabalhadores da Saúde natureza jurídica de


entidade de classe de âmbito nacional, depreende-se ser esta legitimada ativa para a propositura
de tal ação.

No entanto, sendo esta uma legitimada especial, é imprescindível a demonstração de


interesse na propositura da ação, ao contrário dos legitimados universais. Como a CNTS
representa os trabalhadores da saúde, a mesma tem pleno interesse nesta ADPF acerca do aborto
pela preocupação da classe com a saúde e a vida das mães e seus familiares.

Caracterizada a legitimidade ativa, são demonstrados os requisitos de cabimento da


ADPF, consoante legislação de regência.

3. CABIMENTO DA ADPF

A Arguição de Preceito Fundamental está prevista no art. 102, § 1º, da Constituição


Federal, regulamentada pela Lei nº 9.882/99 e aplicável contra atos comissivos ou omissivos dos
Poderes Públicos que importem em lesão ou ameaça de lesão aos princípios e regras mais
relevantes da ordem constitucional.

Por conseguinte, a ADPF exprime a preocupação do constituinte em aperfeiçoar a rede de


ações, recursos e garantias que visam preservar a supremacia constitucional. Nessa ótica, a
ADPF deve colmatar lacunas e não substituir garantias e ações existentes ou concorrer com elas,
para evitar que se torne mais complexo e instável o sistema de controle de constitucionalidade.

No entanto, cabe aqui ser destacada a escolha pela AÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE


PRECEITO FUNDAMENTAL.

Nas palavras de Dimitri Dimoulis, cabe sempre ADPF contra:

a) atos normativos oriundos de autoridades municipais, por estarem excluídos da ação direta de
inconstitucionalidade, conforme o art. 102, I, a, da CF.

b) atos normativos anteriores à entrada em vigor da Constituição, contra os quais, conforme


jurisprudência assentada do STF, não cabe ação direta de inconstitucionalidade nem Ação direta
de Constitucionalidade. (art. 1.º, parágrafo único, I, da Lei 9.882/1999).
Por ser a ação em questão sobre instrumento normativo anterior à Constituição de 1988,
fica constatada o uso apropriado da mesma.

4. NO MÉRITO: DOS PRECEITOS FUNDAMENTAIS VIOLADOS

No mérito, pugna pela procedência desta arguição de descumprimento de preceito


fundamental, a fim de que seja declarada “a não recepção, pela ordem constitucional vigente, dos
artigos 124 e 126 do Código Penal, para excluir do seu âmbito de incidência a interrupção da
gestação induzida e voluntária realizada nas primeiras 12 semanas (…) de modo a garantir às
mulheres o direito constitucional de interromper a gestação, de acordo com a autonomia delas,
sem necessidade de qualquer forma de permissão específica do Estado, bem como garantir aos
profissionais de saúde o direito de realizar o procedimento”.

Além do mais, fica identificada a impossibilidade de se imputar o estatuto de pessoa


constitucional ao embrião ou feto. Este é reconhecido apenas o valor intrínseco de pertencimento
à espécie humana e, por conseguinte, a incidência de uma proteção legislativa gradual na
gestação, que encontra limites no respeito à dignidade da pessoa humana, à cidadania, à
promoção de não discriminação e aos direitos fundamentais das mulheres.

Argui-se a desproporcionalidade da criminalização do aborto como medida estatal


adequada de tutela ao valor intrínseco do humano no embrião ou feto, uma vez “que não coíbe a
prática nem promove meios eficazes de prevenção da gravidez não planejada e,
consequentemente, do aborto, que exigem educação sexual integral, acesso a métodos
contraceptivos adequados, combate à violência sexual e fortalecimento da igualdade de gênero.”

5. DO PEDIDO LIMINAR

Com efeito, a Lei nº 9.882/99 prevê a possibilidade de concessão de medida cautelar na


arguição de descumprimento, mediante decisão da maioria absoluta dos membros do Tribunal.
Em caso de extrema urgência ou de perigo de lesão grave, ou ainda durante o período de recesso,
a liminar poderá ser concedida pelo relator ad referendum do tribunal Pleno (art. 5º e § 1º).

Precipuamente, deve-se observar que, por tratar-se de situação em que o perigo na


demora para a concessão da tutela definitiva satisfativa pode ocasionar danos irreparáveis, resta
caracterizada a possibilidade do pleito da tutela de urgência satisfativa em caráter antecedente,
conforme o nosso novo Código de processo Civil brasileiro nos oportuna em seu art. 294, §
único, in verbis:

Desta forma, observa-se que o novo Código Processual Civil estabeleceu alguns
requisitos para que a tutela provisória de urgência satisfativa seja concedida, notadamente, a
demonstração da probabilidade do direito e do perigo de dano ou ilícito.Por seu turno, a
probabilidade do direito a ser provisoriamente satisfeito ou realizado é a plausibilidade de
existência desse mesmo direito. O bem conhecido fumus boni iuris (ou fumaça do bom direito).

Assim, a tutela provisória de urgência pressupõe, também, a existência de elementos que


evidenciem o perigo que a demora no oferecimento da prestação jurisdicional (periculum in
mora) representa para a efetividade da jurisdição e a eficaz realização do direito.

Portanto, está nítido o direito que a Requerente possui em ter seu pleito de tutela cautelar uma
vez que a cada dia mais de demora a vida e a saúde de mulheres queda exposta de forma a
desrespeitar a sua dignidade humana, sendo forçadas a seguirem com gestações a mando do
Estado sem comprovação de que estes fetos nasceram e cresceram vivos ou sadáveis.

6.DOS PEDIDOS

Diante do exposto, requer:

a) a oitiva do Procurador Geral da República com fulcro no art. 7º, lei. 9.882/99.

b) O deferimento da liminar e o julgamento definitivo de procedência da ADPF.

d) Sustação da eficácia do mencionados artigos do Código Penal.

e) Que seja declarada a inconstitucionalidade dos Artigos 124 e 126 do Código Penal em face da
Constituição da República por incompatibilidade material à Constituição.

Para prova dos alegados, instrui a presente exordial com cópia dos dispositivos legais ora
impugnados, consoante art. 3º da Lei 9.882/99.

Dá-se à causa o valor de … para fins procedimentais

Termos em que,

Pede deferimento
Local…

Data...

ADVOGADO...OAB/ UF