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Título: Ladra De Corações

Autor: Amanda King


Título Original: Still my Heart
Dados da Edição: NOVOPRINT, 1985
Género: romance
Digitalização: Dores Cunha
Correcção: Edith Suli
Estado da Obra: Corrigida.
Numeração de página: rodapé
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente
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Ladra de corações de Amanda King Quando Audrey Daves decidiu


valer-se do roubo para salvar o asilo dos velhinhos onde foi criada, ninguém foi
capaz de ficar contra ela. Porém, Audrey não pertence ao ramo e decide pedir
ajuda a Kevin Hawks, ladrão por profissão, além de ser um fascinante ladrão de
corações. Mas Kevin não apenas discorda, como também pretende defender, à
qualquer preço, sua reputação. Apesar de tudo, decide ajudá-la. Mas, que
aconteceria se, enquanto planejam o golpe, Cupido
lhes roubasse o coração...?

LADRA DE CORAÇÕES
Amanda King
Coleção BLUETANGO
Título original: Still my Heart de Amanda King
(c) 1998 Edizioni Lê Onde (c) 2001 Ediciones Scorpio
Todos os direitos estão reservados,
incluídos os de reprodução total
ou parcial em qualquer formato.
Todos os personagens deste livro são fictícios.
Qualquer semelhança com pessoas reais
é mera coincidência.
ISBN: 84-89485-28-3 Depósito legal: B-52000-2001
Impresso e encadernado por NOVOPRINT
c/. Energia, 53
08740 Sant Andreu de la Barca (Barcelona)
Distribuidores exclusivos para Portugal:
Midesa Portugal, Rua Republica da Coreia, 34
Ranholas - 2710 SINTRA
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A madre Rosário olhou a parede rachada e disse: "Qualquer hora, esse
teto vai cair na nossa cabeça." Audrey Daves, que estava junto dela, concordou:
"Também acho.
Temos que chamar um encanador para consertar isso. Pela mancha de
umidade, deve ser um cano furado." "É", respondeu a monja, "mas não acho que
só o trabalho de pagar
um pedreiro." Audrey, assustada, interveio: "A situação está assim tão
grave?" "Pior ainda! É desesperadora... nos restam apenas uns poucos dólares."
"Mas, madre,
hoje deveria chegar o dinheiro que a senhora Corbin nos prometeu."
"com esse dinheiro só podemos manter por mais um mês nossos internados.
Acho que
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chegou a hora de procurar um outro
lugar para acomodá-los. Não temos outro remédio." Audrey mexeu a
cabeça dizendo que não. "Mas madre, não podemos fazer isso! E quem vai
abrigá-los?
Nenhum deles tem assistência médica nem aposentadoria. Eles não
têm nada e..." "Eu sei, minha filha, eu sei..." A madre segurou a mão de Audrey.
"Nós não podemos
fazer um milagre. Já fizemos tudo que estava ao nosso alcance. E sem
dinheiro como vamos manter um asilo para idosos abandonados, mesmo que eles
estejam muito necessitados.
E neste mundo tão moderno e frenético, parece que a caridade cristã
morreu", suspirou. "Também não nos ajuda a política austera que adotou o
governo." Audrey recostou
na cadeira e pôs as mãos no rosto. Não suportava a ideia de ver todos
os seus avós, abandonados pelas ruas, sem um sustento e sequer um teto onde
se abrigar... "Não
posso acreditar", exclamou. "Deve haver uma maneira de juntar o
dinheiro que precisamos." A freira se aproximou dela e lhe acariciou os cabelos
negros, que levava
presos num rabo de cavalo. "Querida, devemos ser realistas. Além
disso será melhor para você. Você vai ter que procurar um trabalho fora
destas velhas paredes, e
assim, poderá levar uma vida
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mais adequada a uma moça de vinte e um anos. Até agora, você esteve
muito sozinha, só em companhia das freiras e dos velhinhos.
Isto não é normal?" "Eu me sinto muito bem aqui!" "Isso é o que você
pensa. Há vinte anos, quando te encontramos na porta do convento, coberta
com uma manta cor-de-rosa
e por baixo só uma fralda, nós fomos egoístas pensando que
poderíamos te oferecer uma família. Perdoe-nos: éramos e ainda somos freiras
e não sabíamos como se criava
uma menina e pecamos por presunção. Espero que Deus nos perdoe. Já
não somos capazes de entender todas as necessidades de uma jovem. Se algum
dia nós também fomos
jovens, já não recordamos. Ontem estava falando em você com as
outras freiras e numa coisa todas concordamos: que assim não podemos
continuar. Se pelo menos você
tivesse vocação para ser esposa do Senhor, mas infelizmente..."
Audrey levantou o olhar e com seus preciosos olhos azuis observou a freira. "E
assim mesmo, acho
que..." "Por favor Audrey, seja realista. Você não tem a índole
contemplativa nem o caráter tranquilo. Você não foi feita para o convento. O
fato de que você, nestes
anos que passou aqui conosco, tenha se preocupado com
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o asilo e por nossos internos, nos alegra muito, pois são uma
demonstração dos teus sentimentos mais nobres.
Mas agora chegou o momento de pensar em você mesma, no seu
futuro. Você tem um diploma de contabilidade e a possibilidade de encontrar
um bom trabalho. Além disso,
mais cedo ou mais tarde, você vai encontrar um rapaz encantador com
quem formar sua própria família." A freira sorriu. "E seguramente vai ter
crianças adoráveis,
assim todas nós aqui nos sentiremos avós!" "Eu não quero me casar
nem ter filhos. Já tenho os meus velhinhos para cuidar", respondeu Audrey.
"Chega, Audrey, não
seja cabeça dura como sempre. Sei que você não está acostumada com
o mundo lá fora e que talvez esteja assustada, mas o asilo nós teremos que
fechar em breve e você
vai ter que seguir a sua vida." Audrey suspirou. Como poderia explicar
àquela bondosa freira que não tinha medo do mundo lá fora, mas simplesmente
se sentia bem
ali? "Estou certa de que deve haver uma maneira da gente não perder
tudo; nós trabalhamos tanto...", disse. "Eu sei, parece injusto, mas lembre-se
sempre que acontece
o que Deus determina. Ele, com a sua sabedoria infinita, já decidiu
nosso futuro, e nós devemos aceitá-lo com alegria
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e resignação, seja qual for, entende Audrey?"
A moça concordou, ainda que as palavras da religiosa não a tivessem
convencido. Audrey tinha crescido no convento e ali foi educada, mas ela não
aceitava as adversidades
de forma passiva, lutava para superá-las. A madre Rosário tinha razão
quando dizia que o caráter de Audrey não tinha a tolerância e a mansidão. Na
verdade, era rebelde,
nunca estava disposta a dar a outra face e não esperava demais das
obras da divina providência... Sorria, e no seu interior já sabia que se houvesse
uma maneira
do asilo permanecer aberto, ela a encontraria... A madre a conhecia
muito bem; podia ler o seu pensamento. "Audrey, desta vez espero que você se
controle um pouco,
está bem? Contenha os seus impulsos. Falei com a senhora Corbin e ela
me prometeu que vai te ajudar a encontrar um bom trabalho. O resto
resolveremos eu e as outras
irmãs." Audrey observava a madre Rosário enquanto ela se afastava
pelo corredor estreito. A religiosa sabia o que dizia mas ela não abandonaria os
seus propósitos.
Gostava muito dos quinze velhinhos que alojavam no asilo como se
fossem seus parentes e lutaria por eles até o fim. Não, ela não era desse tipo
de mulher que entregava
as armas antes de
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ter perdido a batalha... encaminhou-se para a sala de reuniões. Nela


também se notava, nas paredes descascadas, nas manchas de umidade dos
cantos, nos móveis quebrados, que o dinheiro sempre havia sido pouco
na Casa de Caridade, a residência para idosos que tinha sido fundada por uma
freira da ordem
do Sagrado Coração de Jesus. E agora, depois de tantos anos de
trabalho estavam a ponto de ter que renunciar a tudo e pôr na rua os quinze
velhinhos que tinham
alojados na instituição. Audrey dizia não com a cabeça e achava que
aquilo era inaceitável. Entrou na sala e viu o senhor Bennett que jogava damas
com o senhor Hasting.
Numa outra poltrona estava sentado o senhor Gibson, o velhinho
preferido de Audrey. Ela se aproximou e sentou ao seu lado. O ancião tentava
completar um quebra-cabeça
ao que ainda faltavam muitas peças. Audrey começou a ajudá-lo.
"Alguma coisa vai mal?", perguntou o senhor Gibson, depois de alguns minutos.
tom Gibson deveria ter
ao menos oitenta anos. com uma cabeleira rala e branca, seu rosto era
formado por um emaranhado de rugas e seus olhos vivos e profundos
aparentavam uma idade inferior
à verdadeira. Fazia já muito tempo que ele vivia no asilo e nin-
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guém sabia de onde ele tinha vindo. Parecia ter um sexto sentido, já
que percebia tudo o que
acontecia ao seu redor. Audrey o achava muito simpático e gostava
muito dele. Ela o olhou e perguntou: "Por quê? Por que o senhor acha que alguma
coisa vai mal?"
Ele então sorriu com uma expressão de astúcia. "O seu rosto diz muita
coisa e os seus olhos se expressam melhor que os seus lábios." "O senhor
acha?" "Eu acho que
sim. Você aprontou alguma das suas e aborreceu aquela santa mulher,
a madre Rosário?" "Não senhor! E o que o senhor acha que eu poderia ter
feito?" "Não sei... sair
escondida do convento no meio da noite para ajudar um gatinho que
estava em dificuldades ou decidir dedicar-se à redenção das prostitutas do
bairro, ou teria sido
capaz de desafiar uma banda de marginais para salvar um velho de
roubo." "Senhor Gibson, como o senhor pode pensar uma coisa assim? E mesmo
que fosse assim, seriam
gestos nobres." "Vamos lá, Audrey, fora de brincadeira. Estas
respeitáveis freiras te educaram, mas você não é uma noviça, nem pretende ser
algum dia. Muito pelo
contrário, você tem um talento enorme para se meter em confusões."
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Audrey brincava com um detalhe do seu casaco. "A madre Rosário
também pensa o mesmo de mim",
respondeu sem levantar os olhos. "Ela quer que eu procure um
emprego e que..." Então levantou os olhos e observou o velhinho. "Vão ser
obrigadas a fechar o asilo.
Estão sem dinheiro e ninguém está disposto a ajudálas." tom Gibson
concordou. "Eu já intuía alguma coisa assim...Há pelo menos uns dois anos se
nota a falta de dinheiro.
Está tudo caindo aos pedaços... ontem quebrou a cadeira de rodas do
senhor Brown e o pobrezinho, a partir de hoje não poderá mais sair da cama."
"E a situação está
cada vez mais crítica." "Mas não desanime Audrey, você vai encontrar
o seu caminho nesta vida, pode acreditar. Você é uma ótima moça." "Eu não me
preocupo por mim.
Sei que sou forte e trabalhar fora daqui não me assusta. Mas e vocês
todos, o que vão fazer?" "Você acha que nós somos velhos tontos?" "Não foi o
que eu quis dizer!"
"Eu sei, mas é exatamente o que nós somos, não é mesmo? Somos
velhos que estão chegando ao ponto final de suas vidas, incapazes, e alguns
completamente dependentes.
E nenhum de nós tem seu próprio meio de sustento, vivemos da
caridade alheia.
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Aproximam-se tempos difíceis, ainda que eu não possa me queixar, já
que os cinco
anos que eu passei neste centro foram os melhores da minha vida."
"Os melhores?", perguntou Audrey. O velho ficou pensativo. "Não, não foram os
melhores, mas aqui
eu não tive problemas, e antes..." Audrey apoiou os cotovelos na mesa.
"Senhor Gibson, o senhor nunca quis falar do seu passado." "Por que você está
dizendo isso,
você tem interesse em conhecê-lo?" "bom, eu sinto um pouco de
curiosidade. Todos os outros estão sempre contando histórias de suas vidas e
até gostam de fazer isso.
Acho que as recordações do passado, quando se chega a uma certa
idade..." "... São a única coisa que nos resta. É, é isso mesmo, a não ser que você
tenha uma família
ou alguém que lhe dê carinho de verdade." "E o senhor nunca teve uma
família?" "Nunca." "Por quê? O senhor não achava uma boa ideia?" "Na verdade
passei muito tempo
sem pensar nisso e depois, quando decidi que deveria montar uma
família, já era tarde demais."
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"Nunca é tarde demais, inclusive a madre Rosário sempre diz
isso." "Por acaso ela esteve fechada vinte anos num presídio de
máxima segurança?" "Audrey ficou muito assustada. Por quê? O senhor
esteve?" Ela achava impossível
que aquele velhinho bondoso, dócil e de estatura pequena pudesse ser
um ex-delinquente. Mas o senhor Gibson ainda guardava outras surpresas. "Eu
sim, estive." "É
mesmo? E que delito o senhor cometeu?" "Delito? Querida eu não
cometi nenhum crime." "O que é que o senhor está dizendo? Não posso
acreditar!" Ele sorriu ironicamente.
"Minha querida Audrey, houve um tempo em que este velho tonto era o
ladrão mais perseguido do país. Da Califórnia até Maine, a polícia oferecia
milhares de dólares
de recompensa pela minha captura." "Igual ao Arsenio Lupin?" "Ele é
um personagem de novela; eu faço parte da realidade. Ainda que reconheço que
apesar de ladrão
eu sempre fui um cavalheiro. Durante toda a minha carreira, nunca
recorri à violência nem usei armas. E nunca me arrependi."
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"E então, por que esteve vinte
anos num presídio?" "Já te disse, não me limitei a roubar apenas em
galinheiros, roubei também jóias de damas riquíssimas e famosas, casas de
personagens notórios
e um ou outro museu..." "Então o senhor também deveria ser muito
rico!", concluiu Audrey, bastante otimista. "Infelizmente não. As mulheres e os
cavalos sempre foram
minha paixão e não combinam nada com economia. No entanto, ao sair
da cadeia teria algum dinheiro, se não fosse por um homem que eu considerava
um amigo... Pus
todos os meus bens nas mãos dele e ele gastou tudo. Morreu um ano
antes de que eu saísse da prisão e quando me vi em liberdade, me vi também na
miséria." "E o senhor
não pensou em voltar ao seu antigo... trabalho?" "Você acha que esta é
uma pergunta apropriada para uma moça que cresceu em um asilo e foi educada
por freiras?"
Gibson sorriu e piscou um olho. "Audrey, como você é matreira, hein?"
Ela ficou vermelha de vergonha. "Eu falei isso por falar..." "Claro que a
pergunta é sensata
e talvez eu tivesse retomado às minhas atividades, mas em vinte anos
as coisas mudam. Eu já não tinha
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a agilidade de um jovem e para certas coisas é preciso
estar em boa forma física. Além disso, em tantos anos os sistemas de
segurança evoluíram muito. Se eu tentasse voltar a me dedicar àquilo, teria
sido capturado
em pouco tempo. E vim parar aqui... e nunca me arrependi. Aqui posso
contar com as irmãs e também contigo, que é muito bondosa." "Obrigada." "Não
tem de quê." Audrey
permaneceu um momento em silêncio, depois, de repente, disse:
"Senhor Gibson, o senhor acha que roubar por uma razão nobre é um pecado
muito grave?" Ele franziu
a testa. "Do que é que você está falando, menina? Eu não estou
gostando nada dessa tua expressão." Ela desviou o olhar até a rachadura que
havia na parede. "bom,
eu me pergunto se roubar de quem possui coisas supérfluas para
ajudar a quem não tem nada, seria um roubo de verdade." "Para a lei,
seguramente sim! E de qualquer
maneira, tire essas ideias da cabeça. Elas são perigosas." A moça se
apoiou sobre a mesa, baixou o tom da voz. "Escute aqui, senhor Gibson, o
senhor não acha que
poderia ser uma solução?" "Que loucura é esta que você está me
dizendo?"
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Ela deu uma olhada ao redor e quando se certificou de que ninguém os
escutava, retomou
a conversa: "Eu sou jovem e ágil e o senhor é um experto. Nossas
capacidades unidas poderiam..." "Te mandar correndo para a prisão, Audrey.
Você ficou louca?" "Absolutamente.
Não vou permitir que o asilo feche. É injusto." "Audrey, roubar é, além
de pecado, um delito." "Neste caso seria diferente." "Isso você é quem diz!
Mas um juiz,
num tribunal, não estaria de acordo contigo. Você não é Robin Hood e
Nova Iorque não é o condado de Nottingham." "E quem disse que a polícia me
descobriria?" "Porque
é o que acontece com os ladrões, principalmente aos amadores." "Mas
eu não seria uma amadora, já que posso contar com o senhor!" "Eu já te disse
que os tempos mudaram
muito desde que eu me dedicava a isso... e o que você está dizendo é
um absurdo que nem merece comentário." "Se o senhor não me ajuda, eu vou
trabalhar sozinha."
"Você não vai fazer isso porque eu vou falar com a madre Rosário e
vou contar tudo."
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"E onde fica a sua honra, senhor Gibson? Me trair assim..." "O quê?"
"A
sua honra. Todos os ladrões cavalheiros guardam um código de honra.
Eu sei!" "Minha filha, eu acho que você andou vendo muitos filmes de má
qualidade." "O senhor
não pode me trair, seria um gesto indecoroso..." O velhinho suspirou.
"Você não vai roubar nada." "Só o que seja necessário para reformar o asilo, os
quartos, comprar
uns móveis e equipamentos novos e colocar alguns dólares no cofre
para as despesas do futuro. Não quero nada para mim." "Aprecio suas boas
intenções, mas continua
sendo uma loucura. Além disso eu não sei como poderia te ajudar..."
Audrey sorriu, certa de que o velhinho a ajudaria. "O senhor pode me ajudar
muito!" Ele olhou
para o teto onde o seu olhar se perdeu e pareceu melancólico.
"Quando jovem eu era o mais astuto entre todos. Me chamavam O Gato...
Ninguém podia me imitar e quando
a polícia me prendeu, demorou muito para que alguém se igualasse a
mim. A Sombra! Um ladrão muito esperto. Roubou coisas preciosas e nunca o
capturaram. Faz cinco
anos que ele resolveu deixar a profissão
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ainda muito jovem. Nunca entendi porquê. Era tão competente, mas
renunciou a tudo. bom, vai ver que é mais esperto
que eu e soube parar a tempo... ele sim poderia te ajudar. Era um
verdadeiro especialista em sistemas modernos de segurança. Alarmes
programados, caixas fortes...
não havia porta nem sistema anti-roubo que resistisse." Audrey não
estava interessada nas qualidades de um ladrão famoso. Queria encontrar a
maneira de evitar que
o asilo fosse fechado e que os quinze velhinhos perdessem o abrigo.
"O senhor vai me ajudar, senhor Gibson?" "Nem morto, é melhor você esquecer
este assunto, ou
eu conto tudo à madre Rosário..." Infelizmente parecia que o assunto
se encerrava naquele momento. Gibson se levantou com dificuldade da cadeira
e se dirigiu ao
seu quarto. Ao sair, virou-se para trás e disse: "Além do mais eu não
saberia para que alvo apontar. Já faz muitos anos que estou afastado desse
mundo."
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2

- Um ponto de mira! Isso era o que ela necessitava. Audrey preferia


imaginar que aquilo não era na verdade um roubo. E não se sentia umacriminosa.
Além do mais, neste
mundo tão louco, que tolera tantas crueldades, sua ação seria apenas
uma maneira para financiar uma causa. No fundo ela gostava da imagem de um
novo Robin Hood de
saia... Ela achava que era possível. Quem quer que fosse a vítima,
graças a ela, ganharia o paraíso. Nosso Senhor compreenderia sua atitude e
consideraria, no momento
de justiça, suas intenções... Decidiu começar na manhã seguinte. Saiu
do asilo com uma desculpa. Pegou o metro e foi ao centro da cidade. A Quinta
Avenida pareceu
o lugar ideal para o que se propunha fazer. Ali estavam as lojas mais
elegantes e
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luxuosas dos Estados Unidos: joalherias famosas mundialmente,
butiques. Mas
pensando bem, inclusive um banco seria interessante... Ela caminhava
entre a multidão elegante. Estava usando um casaquinho já um pouco curto, uma
saia preta surrada
e sapatos sem salto, como os que usavam as freiras no convento.
Todos a ignoravam. Por todos os lados passavam jovens elegantes, usando
trajes chiques e exibindo
jóias resplandecentes, como as das grandes estrelas. Talvez bastasse
um daqueles colares para resolver os problemas da Casa de Caridade, mas já
que ela tinha decidido
fazer aquilo, preferia algo melhor. Finalmente encontrou o que
procurava. O edifício tinha uma enorme fachada branca de mármore cheio de
colunas e capitéis esculpidos.
Tinha vitrines muito amplas, luminosas e com acabamentos em metal.
Levantou os olhos e viu o letreiro Reynolds & Co. Parou diante da vitrine e
observou o interior.
Fixou a vista... suntuosos colares de brilhante eram exibidos erh
mostradores de veludo azul. Anéis preciosos com rubis cintilavam contrastando
com o verde das
esmeraldas e o azul das safiras. Quanto custaria cada uma daquelas
jóias?, se perguntava Audrey, suspirando. Mil, dez
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mil, cem mil dólares? E todas juntas, um
milhão... com um milhão de dólares estaria resolvido o futuro da Casa
de Caridade. O senhor Gibson e os outros velhinhos poderiam terminar os seus
dias em paz,
e depois muitos outros se salvariam da desgraça da miséria e da
solidão. O asilo seria confortável e moderno. Exatamente, Reynolds era
perfeito. Audrey se aproximou
a porta e a empurrou. Estava trancada. Abriram desde dentro e ela
pode entrar. O porteiro, que vestia um uniforme cheio de adornos dourados, a
olhou com perplexidade.
Não parecia uma das jovens que normalmente vão à joalheria, mas ela
precisava obter a informação para o senhor Gibson. Precisava adaptar-se
àqueleambiente. Parou
diante de uma umade cristal que continha dezenas de pulseiras
maravilhosas. Um senhor de meia-idade, muito elegante, com um terno cinza
escuro, se aproximou a ela.
"Posso ajudar a moça?", perguntou delicadamente. No entanto a olhava
com bastante desprezo. "Eu só estou olhando." "Reynolds não é um museu." "É
proibido olhar?",
insistiu ela sem se envergonhar, mas aborrecida. "Não, claro que não."
"Muito bem."
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Audrey voltou a observar aquela uma, esquecendo-se do vendedor que
decidiu
ocupar-se com outra tarefa, pois seguramente não valia a pena ficar
ali olhando para ela. Deu a volta e se dirigiu à senhora que acabava de entrar.
Ainda bem, pensou
Audrey, assim podia olhar tranquilamente. Logo se deu conta que havia
várias câmaras de vídeo. Seria parte do sistema anti-roubo. Tinha que voltar
para o asilo e
pedir mais informações ao senhor Gibson. Encontrou-se na sala onde
estava a televisão. Ela não funcionava mas ele parecia que não tinha se dado
conta, porque continuava
olhando para a tela com bastante interesse. Audrey se sentou ao lado
dele. "Encontrei o lugar perfeito." "O quê?" Parecia que ele não sabia do que ela
estava falando.
"Claro, o alvo para onde apontar, para o nosso trabalho." "Para o nosso
trabalho?" "Senhor Gibson, o senhor não se lembra da nossa conversa ontem de
manhã?" "Você
e eu conversamos ontem de manhã? Não me recordo..." "O senhor está
brincando comigo?" O velhinho suspirou. "Se eu te levasse a sério já teria
contado tudo às freiras
que a criaram. Você é injusta com elas."
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"O que eu vou fazer é para ajudá-las. Elas são a minha única família e
se forem obrigadas a fechar o asilo vão morrer
de tristeza." "E você acha que se elas te virem na cadeia vão sentir o
quê, alegria?" "Se o senhor me ajudar, eu não vou para a cadeia." "Você é mais
teimosa que
uma mula." "Talvez sim... Então o senhor não quer saber o que eu
descobri?" O velho se encolheu. "Não sei porque eu estou te dando ouvidos."
Mas estava disposto
a escutá-la. Ela sorriu. "Um lugar fantástico. Jóias maravilhosas.
Brilhantes, rubis, safiras... conseguindo algumas daquelas jóias resolveríamos
todos os nossos
problemas." "E onde fica essa caverna de Ali Babá?" "Não fica muito
longe. Entre a Quinta Avenida e a Avenida Parque. No letreiro põem Reynolds."
"Reynolds? Reynolds!"
tom Gibson deu um salto e ficou de pé. "Você sabe do que está
falando?" "Estou falando de uma joalheria." "Não me parecia uma quitanda."
"Muito
engraçado." "O que
é que há com a tal joalheria?" "Esta loja é mais protegida que o Forte
Knox."
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"E o que é o Forte Knox?" "É um depósito de reservas e tesouros dos
Estados Unidos.
Audrey, basta de loucuras." "Está bem, então eu vou fazer tudo
sozinha." "O que você pretende fazer?" "Limpar a joalheria Reynolds... Não é
assim que se diz?" "Nossa!
Você tem a típica feminina." "É isso mesmo. E já que o senhor
percebeu isso, porque não é um pouco mais racional?" "Eu é que não estou sendo
racional?" "Parece um
papagaio repetindo tudo o que eu digo. O senhor sabe tão bem quanto
eu que precisamos salvar o asilo. Ninguém vai nos dar o dinheiro que
precisamos. Acabaremos
todos na rua. Pense no senhor Brown, que sequer pode andar. Vão
internálo num asilo horrendo, onde doentes malvados o maltratarão. E o senhor
Hastings, com quem
vai jogar xadrez?" "Nem me fale!" "Nós devemos ajudá-los." "Parece
que você não entende que eu não posso fazer nada por ninguém, nem por mim
mesmo. Sou um velho
de oitenta anos, que quase não se aguenta em pé. Um ex-ladrão que
com os sistemas de segurança de hoje em dia, não saberia fazer nada. Mas eu
conheço uma pessoa
que poderia te ajudar..."
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"Me diga, senhor Gibson, de quem se trata?" "De um ladrão conhecido
como A Sombra." "Aquele que nunca foi capturado e que agora já
não se dedica a isso?" "É, ele." "Bem, senhor Gibson! Como ele se
chama e onde vive?" "Audrey, nada do que eu diga vai fazer mudar de ideia, não
é mesmo?" "Não.
Agora eu vou até o fim." "Que Deus me perdoe... Ele se chama Kevin
Hawks, mas eu não sei onde ele mora. Descobri por acaso que A Sombra era
ele, mas não o conheço
pessoalmente. Há sete anos atrás ele vivia aqui em Nova Iorque, mas
agora quem sabe onde andará." "Pois eu vou encontrá-lo mesmo que ele esteja
na lua", comentou
Audrey decidida. O velho tom Gibson ficou observando enquanto ela
saía, orgulhosa, altiva, segura de si mesma... Estava completamente louca, era
uma ótima moça,
e em breve se converteria em uma mulher maravilhosa... Se não a
metessem na cadeia. A vida na prisão é muito dura, ele o sabia bem. Talvez
fosse melhor contar tudo
a madre Rosário, mas com a idade ele tinha se tornado um pouco
covarde e Audrey era sua última esperança.
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"Cruzou os dedos na esperança de que a moça não encontrasse
A Sombra." Audrey se perguntava se a lista telefônica poderia ser
útil. Mas como um ex-ladrão, considerado por todos inalcançável, iria colocar o
seu número de telefone
na lista? Era absurdo. No entanto, ela ficou extasiada ao ler com
clareza: Senhor Kevin Hawks, 78 Balmoral Road, em Richmond, na State
Islanda. Ele vivia longe
do centro, numa zona luxuosa. Seria o Kevin Hawks que ela estava
procurando? Procurou não se preocupar muito. Era melhor afrontar aquela
situação e ir conhecer
o senhor Hawks. Quando estivesse diante dele pensaria em alguma
coisa... Na manhã seguinte saiu do asilo bem cedo com a desculpa de ir comprar
algumas coisas. Pegou
um trem e depois de uma hora e meia chegou a Balmoral Road. Era uma
rua residencial, com edifícios antigos perfeitamente restaurados e parecidos
entre si; detrás
dos muros se viam jardins maravilhosos. Audrey subiu a escada que
levava à entrada do edifício e parou diante do interfone. Lá estava,
apartamento 7 B.Chegava a
hora de chamar... Ela estava preocupada, mas decidiu não pensar em
nada que a pudesse desanimar. Ela tinha que ser corajosa e determinada. Então
apertou o botão
do interfone.
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Esperou um momento e quando já estava pensando que ele não estava
em casa, ouviu uma voz masculina, profunda e melodiosa, que dizia: "Sim? Quem
é?" "O senhor Hawks está?" "Sou eu. E a senhora, quem é?" Ela soltou
a primeira loucura que lhe ocorreu: "Sou da tinturaria." "Ah! Ainda bem. Suba,
por favor." Ela
tinha conseguido e não sabia muito bem como. Tentou se controlar
recordando que ainda faltava muito para salvar a Casa de Caridade. Audrey
pegou o elevador e chegou
ao sétimo andar. Notou de entrada que era um apartamento muito
especial. O chão de tábua, corrida tinha um tom elegante e uma enorme planta
dava a um canto do hall
um toque de vida. Numa parede lateral havia dois quadros de estilo
moderno, iluminados por focos direcionados por "spots" discretos mas
requintados. Audrey viu
a porta do apartamento que procurava, o 7 B. Antes de tocar a
campainha a porta se abriu. Apareceu um homem de uns. trinta e cinco anos.
Era bastante alto e seu
corpo era vigoroso e esbelto ao mesmo tempo, como de um bailarino...
ele tinha os cabelos castanho escuros, lisos e meio compridos; as sobrancelhas
bem desenhadas
sobre os olhos de um verde intenso e bem delineados
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pelos cílios. Tinha o nariz perfeito e a boca sorridente. Eles se
olharam um instante e ele então, como
que retornando à realidade disse: "A moça não trouxe as minhas
camisas?" Audrey abriu um sorriso discreto. "Houve um pequeno engano. Por
isso eu vim falar com o
senhor." "Entre, por favor", respondeu ele convidando-a a entrar e
depois fechou a porta. O apartamento era maravilhoso. A decoração discreta
era detalhada com objetos
antigos que aparentavam ter muito valor. O piso era de tábua corrida
e as paredes tinham um tom bege pastel. Tudo parecia muito requintado. "É
linda a sua casa,
parabéns!", disse Audrey encaminhando-se para o salão de visitas.
"Obrigado... a moça não parece a típica funcionária de lavanderia." "O senhor
tem razão. Eu não
vim da tinturaria." "Então eu espero que me explique o mais depressa
possível o motivo de sua visita porque eu estou com pressa." Ele acabava de se
arrumar e naquele
momento estava colocando umas abotoaduras de ouro. Seriam
roubadas? Quem sabe... "Serei breve senhor Hawks."
31
"Ótimo. Onde estão as minhas camisas? Deveriam ter
trazido ontem à tarde." "Eu não sei absolutamente nada das suas
camisas." Ele parou um instante e a olhou fixamente. Era fascinante! "Desculpe,
eu não entendi bem...
a moça não veio da tinturaria?" "Não." "Então quem é, e o que quer?"
"Me chamo Audrey Daves." "Escute uma coisa, se a moça vende enciclopédias
ou coisas assim, não
perca o seu tempo. Eu já tenho uma biblioteca completa, não tenho
crianças pequenas. Nem sou casado." "Melhor." "Melhor? Por quê? O que a moça
tem a ver com isso?"
Ele estava cada vez mais confuso, mas ainda não estava aborrecido.
"Assim será mais fácil conseguir que o senhor atenda ao meu pedido. Não
precisará dar explicações
a ninguém, principalmente para uma esposa." Hawks soltou uma
gargalhada. "Moça, não sei o que pretende, mas sou obrigado a lhe dizer
decididamente que não é o
meu tipo ideal de mulher. As mulheres com quem saio escolho eu
mesmo e contigo me prenderiam
32
por corrupção de menores. Quantos anos você tem? Dezessete...
dezoito?" "Tenho vinte e um", respondeu ela com um tom grave. "De
qualquer maneira o senhor me entendeu mal." Ele então segurou delicadamente
o braço e a conduziu
até a porta. "Como eu já lhe disse estou com pressa. Tenho uma
entrevista de trabalho e estou um pouco atrasado..." "Está planejando um
assalto." Ele a olhou assustado.
"Você está se sentindo mal? Quer telefonar para que algum parente
venha te buscar?" "Não pense que me engana Sombra. Eu sei tudo sobre a sua
vida!" Hawks sorriu.
"... É mesmo?" "É. Sei coisas muito importantes a seu respeito." "Está
bem. Agora vá para casa. Está ficando tarde e uma boa moça volta para casa
antes do almoço,
principalmente quando estão com algum problema psíquico." Voltou a
conduzi-la para a saída, desta vez com mais determinação.

33
3

- Audrey percebeu que estava perdendo o controle da situação e não


queria ir assim. Hawks poderia estar preocupado porque, alguém descobriu seu
segredo.
Mas a única coisa que parecia importante naquele momento era mandá-
la embora de sua casa. Ela se apoiou na porta e decidiu permanecer ali. "Não vai
se livrar de
mim assim tão facilmente, Sombra." Ele voltou os olhos para o alto.
"Esperava não ouvir isso", reclamou. "Olha aqui, Audrey! É este o seu nome, não
é?" A jovem
permaneceu calada e muito séria, depois respondeu. "É." "Não sei
quem é você nem o quer de mim e não entendo porque me chama de Sombra. O
meu nome é Kevin Hawks...".-

34
"Você já me disse o seu nome e eu conheço o grande segredo da sua
vida." "Não tem nenhum grande segredo na minha vida, por enquanto... quem
sabe um dia. Terei
escondido o cadáver de uma mocinha num baú, se você não vai embora
imediatamente." "Não adianta tentar me assustar porque o senhor Gibson me
disse que você nunca
recorre à violência." "É mesmo? Você realmente sabe muito sobre
mim... e quem é o senhor Gibson?" "tom Gibson. Você deve ter ouvido falar dele,
porque vocês eram
colegas. Ele era o melhor, mesmo antes de você se dedicar a roubar.
Depois o prenderam e ele teve que abandonar essa atividade." "Internaram ele
num hospício? Foi
onde vocês se conheceram? "Muito engraçado, Sombra. Se você não
escuta o que eu tenho a dizer não vou embora desta casa." "Ele novamente
olhou para cima e disse:
"Senhor, que pecado eu cometi para ser castigado desta maneira?"
Audrey acrescentou. "Você.adivinhou. Foi ele quem me mandou." "Ele quem?" "O
senhor, quem vai ser?"
"Não tinha sido o tal senhor Gibson? A que senhor você está se
referindo?"
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"A Deus." "Você é uma maníaca religiosa?" "Não diga loucuras,
Sombra. Por favor sente-se
e me escute." "Se eu fizer isso você promete que vai ser rápida e que
depois vai embora?" "Prometo, Sombra." "Está bem. vou te escutar. Mas, por
favor poderia me
chamar de Kevin? As sombras sempre me incomodaram. Quando era
pequeno tinha medo do escuro." Audrey sorriu. "Eu entendo." "Eu queria saber
como é que você faz, porque
eu não estou entendendo nada." "Sei que você deve ter cuidado. Eu
poderia ser uma policial a paisana e ter vindo para te prender." "com esses
sapatos?", perguntou
Hawks, olhando para os pés dela. "Na instituição temos pouco
dinheiro." "Ah, então eu tinha razão; há uma instituição?" "Claro, se não o que
eu estaria fazendo aqui?"
"Sei... suponho que hoje seja seu dia livre." "Não, eu saio quando
quero." "Isso deve significar que você não é perigosa; ainda bem." "Mas eu vou
ser. E você vai
me ajudar." "Talvez amanhã, está bem? Se você não tem mais nada
para me dizer..."
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"Eu ainda tenho que começar!" "Audrey, se você já vai, me deixa o
endereço
da instituição. Quero te mandar uma caixa de bombons, está bem?"
"Bombons? Eu preciso de outra coisa." "O que você precisar, está bem."
"Preciso de algumas jóias:
brilhantes, rubis, safiras, esmeraldas... e alguma prata se cabe na
bolsa. Seria muito bom também um ou outro lingote de ouro." "Você está louca,
mas não é boba!
Eu não sou um milionário gastador." "Sei que você não é rico. Você é..."
Ele a interrompeu. "Não diga nada! Deixe eu adivinhar. A Sombra?" "Viu como
eu tinha razão?"
"Claro..." "Agora", suspirou ela, "falemos de negócios..." Kevin olhou
discretamente o Rolex de ouro e aço que luzia no pulso. "bom, já é tarde demais
para chegar
a tempo à minha entrevista." Ele então se sentou em uma poltrona e
disse: "A roupa que você está usando te dão na instituição?" "É claro, quem me
daria?" "Você
não tem família?" "Infelizmente não. Não cheguei a conhecer os meus
pais." "E nessa instituição te tratam bem?" "Claro! O que é que você pensa?"
37
"Está bem. Então
me explique o que é que está acontecendo. Mas vamos conversar
enquanto comemos alguma coisa. Você gosta de comida mexicana?" "Não sei,
nunca provei." "Pois eis a
oportunidade de provar." Kevin vestiu o paletó. Tinha os ombros largos
e um porte atlético. Audrey ficou impressionada, e entendeu porque o Senhor
Gibson dizia que
para certos trabalhos era necessário ter uma boa forma física. Kevin
era robusto e também por isso deve ter sido um dos melhores ladrões. E
mesmo depois de ter
abandonado o crime continuava se cuidando. "Vamos", disse ele.
"Aonde?" "A um restaurante, comer." "Mas temos que falar de um assunto
muito delicado. Se alguém
nos escuta poderia chámar a polícia." "Não se preocupe, falaremos
baixo." " "Boa ideia." O "Você está com fome?" - "Esta manhã eu não tomei
café. Escapei
o mais cedo possível. Não queria dizer o que vinha fazer." "E não
estarão preocupados contigo?" "Não, já estão acostumados." "Imagino que
sim..." Audrey lhe caía bem.
Além do mais era tão jovem... delicada. Se
38
estivesse usando um bonito vestido e um bom penteado, seria muito
atraente: morena com os olhos azuis. Kevin gostaria
de poder fazer algo por ela. Meia hora depois estavam sentados à
mesa de um bonito restaurante mexicano chamado Mendozas. Um garçom com
um traje típico levou-lhes
a carta e esperou que eles escolhessem. "O que você gostaria de
comer?", perguntou Kevin. Era a primeira vez que Audrey ia a um restaurante e
ela estava muito emocionada.
Olhou ao redor e disse: "Comer aqui deve custar muito dinheiro." O
garçom que estava ao seu lado, tossiu meio desconcertado com o comentário.
Kevin apenas sorriu.
"Custa muito menos do que você imagina." "Bem, necessitaremos
muitas coisas para realizar o nosso trabalho." Ela se calou como se
interrompida porque um rapaz tinha
se aproximado da mesa. Ela deveria ter cuidado, assim Sombra
confiaria nela. Kevin lhe mostrou o menu. "O que você vai pedir?" "Não sei."
"Você quer que eu escolha
por nós?" "Quero. Obrigada."
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Enquanto Kevin pedia a comida, Audrey o observava meio abobada. Ele
era muito bonito e ela sentia uma estranha sensação ao seu lado.
Tinha uma feição máscula e os olhos verdes como as esmeraldas da
Reynolds. Não era casado mas seguramente tinha uma namorada ou uma noiva.
Aquela sensação inexplicável
ia aumentando e seu coração batia agora num ritmo descompassado.
Quando ela voltou a si, ele a estava observando. "Audrey, por que você não me
diz o que quer de
mim?" Ela olhou ao redor com cuidado. "É muito simples", disse.
"Trata-se do asilo. Está em péssimas condições e precisa de uma reforma
urgentemente. Mas nós não
temos dinheiro para as obras. Não temos dinheiro nem para comer. A
madre Rosário disse que teremos que fechar no mês que vem. Eu não me
preocupo comigo, mas sim
pelos nossos internos. São todos muito velhinhos e desamparados! Se
nós os abandonamos, eles vão morrer!" "Você está falando de um asilo?" "Claro!
Você não tinha
entendido?" "Não... E o que é que você tem a ver com um asilo?"
"Quando eu tinha uns seis meses, me abandonaram na porta da Casa de
Caridade, é assim que se chama
a instituição. As freiras decidiram me criar. São a minha família. E o
asilo é a minha casa."
40
"Está bem", disse Kevin metendo a mão no bolso e retirando um
talão de cheques e uma caneta tinteiro. "O que você acha de dez mil
dólares?", perguntou enquanto preenchia um cheque. Audrey o interrompeu.
"Te agradeço muito
mas dez mil dólares não dá para muita coisa." "Espero que você se dê
conta de que também não é uma quantia irrisória. Além do mais, dar todo esse
dinheiro a uma
linda mulher que acabo de conhecer, me parece uma loucura." "Eu se...
acontece que a Casa de Caridade precisa de uma solução definitiva." "Eu não
sou milionário.
Trabalho para viver. Mas com um pouco mais de tempo posso falar com
alguns amigos e fazer uma coleta." "Você não está me entendendo!" Naquele
momento chegou o garçom
com o que tinham pedido e eles se calaram. "Omeletes, pimenta e
frango com pimentão", disse o garçom, enquanto servia Audrey. "bom apetite."
Audrey respondeu com
um sorriso. Ela estava começando a gostar dos restaurantes. Para
Kevin trouxeram uma salada de tomate, alface e milho. Audrey perguntou:
"Você não está com fome?"
"Como pouco para não engordar."
41
"Entendo. Para você é muito importante se manter em boa forma e
ágil, não é mesmo? Acho que o senhor Gibson estava enganado
quando dizia que você já não roubava." "Roubar?" Ele ficou com o
garfo levantado, no meio do caminho entre o prato e a boca, que permaneceu
aberta. "De que roubo
você está falando?" "Dos que você fazia. O senhor Gibson disse que
você era um experto." "Eu acho é que esse tal senhor Gibson está mal da
cabeça. Eu sequer o conheço
e..." "Eu sei, mas ele ouviu falar muito de você e te admira bastante.
Você precisa ver como ele te elogia." "Agradeço que ele me elogie mas acho quê
eu não mereço."
"Não seja modesto, Sombra." Kevin apoiou o garfo no prato. "Não me
chame de Sombra, por favor!" "Como você quiser, mas isso não muda nada!"
"Audrey, eu não consigo
entender certas coisas que você diz." Audrey o olhou. Estava ficando
cansada da atitude escorregadia daquele homem. "Kevin, não tente me
convencer do contrário,
porque eu sei toda a verdade!" "Como assim?"
42
Audrey deu de ombros o olhou fixamente, encarando aqueles olhos
verdes tão bonitos. "Porque se você insiste em se
comportar assim eu serei obrigada a te ameaçar. Eu preferiria não ter
que chegar a esse ponto, mas..." Kevin sorriu. Algumas pessoas que estavam em
outras mesas
se viraram para olhálos. Audrey, então, ficou corada de vergonha.
"Você é bonita e simpática e as tuas ameaças não me assustam." "Pare com isso.
Não vê que todos
já estão olhando para nós?" "E daí?" "Não quero ser o centro das
atenções." "Por quê?" "Porque você é A Sombra, um ladrão famoso que a polícia
nunca conseguiu prender..."
"Começo a te entender. A Sombra seria um ladrão..." "É, A Sombra é
um ladrão ou para ser mais precisa você é um ladrão!" "Você está louca." ( -
Audrey provou um
pedaço do frango e achou delicioso. "Como você quiser. Eu compreendo
que seja difícil para você admitir essas coisas, não tem importância." "Então
podemos deixar
essa discussão."
43
"Como deixar essa discussão se eu vim falar contigo justamente por...
suas especialidades." "E quais são as minhas especialidades?" "Os modernos
sistemas de alarme e as caixas-fortes." "Audrey, eu na realidade..."
"Pelo amor de Deus, Sombra, você não pode se recusar. O futuro da Casa de
Caridade está nas
suas mãos." Kevin suspirou desconsolado. "Eu vou te acompanhar até o
asilo e contarei às monjas as loucuras que você me pediu. Talvez elas façam
você raciocinar."
"Se você fizer isso, eu escrevo para um jornal dizendo quem você é na
realidade." Ela não queria amaçá-lo, mas se viu obrigada. "Eu sou Kevin Hawks,
um agente de
seguros!", exclamou ele com o pânico que invadiu o seu olhar. Aquela
situação começava a preocupá-lo. Aquela moça poderia se tornar um grande
problema. Ele então
decidiu ter cuidado e tomar o controle da situação. "Você é um ladrão,
mas se me ajuda, te juro que ninguém vai saber de nada." "Eu me dedico a
venda de seguros.
Se você não acredita vou te mostrar o meu escritório." "Claro que
você deve ter um escritório para disfarçar, não é mesmo?"
44
Ele já não sabia o que fazer nem
o que dizer. "Olha, Audrey, presta atenção, você está enganada." "Não
adianta, que você não vai me convencer. Além do mais, o que é que eu estou te
pedindo, apenas
um pouco do teu tempo livre e que você faça por beneficência o que
você antes fazia para enriquecer. Eu vou te dar sorte. E fazer um gesto
humanitário vai ser bom
para você." "Você está completamente louca!", respondeu ele, já
aborrecido. "Você é A Sombra", respondeu Audrey, num tom muito dócil. "E vai
me ajudar, porque se
não..."
45
4

- Kevin Hawks estava sentado numa poltrona de seu confortável


apartamento e tinha o olhar perdido no parque que havia em frente. Estava
preocupado.
Quem seria, na realidade a encantadora Audrey Daves? Algun inimigo
seu a teria mandado. Ele precisava descobrir. Ele suspirou e tomou um gole do
uísque. Não sabia
o que devia fazer com ela. Audrey poderia ser como uma bomba... e se
fosse assim, como iria desativá-la? Ele não sabia. Antes de mais nada precisava
saber se ela tinha
mentido. Levantou-se, vestiu um sobretudo e foi à Casa de Caridade...
Chegou logo depois do café da manhã. Estacionou o carro diante da porta e
observou
46
o mau estado em que se encontrava o asilo. Ao menos sobre isso
Audrey tinha dito a verdade. Subiu as escadas e tocou a campainha. Se deu
conta de que não funcionava.
Estava tudo caindo aos pedaços... Empurrou a porta e entrou. Notou
que o piso estava em perfeitas condições, mas as paredes estavam cheias de
manchas de umidade
e rachaduras. Uma freira deu com ele e suspirou assustada. "bom dia",
cumprimentou ele. "Tentei chamar à porta, mas..." "A campainha não funciona.
Como nunca vem
ninguém... Posso ajudá-lo em alguma coisa?" "Me chamo Kevin Hawks,
queria falar com a Madre Superiora, se é possível." A freira concordou. "A
madre Rosário o receberá.
O senhor é do departamento de restauração do município? Veio pelo
assunto do asilo?" "Não exatamente." A freira pareceu decepcionada e disse:
"bom, me acompanhe,
por favor." Os dois atravessaram um corredor estreito e chegaram a
uma sala pequena, onde havia apenas uma mesa velha, duas cadeiras e um
telefone de um modelo
tão antigo que parecia o de Graham Bell. Havia um crucifixo pendurado
na parede.
47
"Sente-se", disse a freira, "vou chamar a Madre Superiora." Ele se
sentou. Quando
ficou sozinho, olhou ao redor: não era um lugar bonito, onde pudesse
viver uma moça de vinte e um anos. Não era um lugar bonito para ninguém...
"Senhor Hawks, bom
dia. O senhor queria falar comigo?" Uma freira bastante idosa entrou
na saleta. Kevin se levantou e lhe estendeu a mão. Ela o cumprimentou e lhe
pediu que se sentasse
e fez o mesmo. "Eu sou a madre Rosário, a superiora da Casa de
Caridade, em que posso ajudá-lo?" "Madre, vive aqui uma órfã chamada Audrey
Daves?", ele perguntou.
A freira se assustou. "O senhor é da polícia?" "Da polícia? Não." A
freira então suspirou aliviada. "Me desculpe. Por um instante pensei que... Que
tonta que eu
sou." Passou a mão na testa enrugada, como se quisesse apagar um mau
pensamento. "O senhor me perguntava por Audrey... Sim ela vive aqui. O senhor
a conhece?" "Conheço.
Nos conhecemos outro dia." A freira voltou a aparentar apreensão.
"Audrey não me disse nada." Pelo menos até agora Audrey tinha dito a verdade.
Isso o tranquilizava.
48
"Madre, trata-se de um assunto bastante delicado..." Pensava em
inventar alguma história para que eles vigiassem mais Audrey. "Um assunto
delicado!", exclamou
a freira ruborizada." A porta atrás deles se abriu de repente. "Madre,
o senhor Bennett disse que..." Audrey ficou em pé na porta paralisada. Quase
desmaia ao ver
Kevin Hawks. De seus olhos azuis saíam chispas de raiva. "Ah, é você?
Este senhor disse que te conhece. Por que você não me disse nada?" Audrey
entrou bastante
desconcertada. Olhou para Kevin com raiva e lhe disse "bom dia" de
má vontade. "Audrey, você pode me dar uma explicação?", disse a madre num
tom zangado. Audrey
então se refez e respirou fundo como se fosse desafiá-los. "Madre eu
queria que fosse uma surpresa..." "Uma surpresa?" Kevin a olhou assombrado.
"O que você quer
dizer com isso?", perguntou a freira. Audrey se aproximou à cadeira
de Kevin, olhou para ele e sorriu friamente. "O senhor Kevin quer fazer uma
doação para o asilo."
"O quê?", perguntou Madre Rosário. "Como?", exclamou Kevin. "O
cheque de dez mil dólares que o senhor queria me dar para a Casa de Caridade,
no
49
outro dia." E dirigindo-se à freira, continuou:
"mas eu lhe disse que seria melhor vir falar com a Madre Superiora."
"No outro dia eu..." "Oh, senhor Hawks, o senhor é para nós
como um raio de luz na escuridão da noite!", interrompeu a freira.!
Kevin não resistiu e começou a rir. Aquela mocinha de aspecto ingénuo sabia
bem como sair de
qualquer situação. Parecia que a sua especialidade eram as mentiras.
"Madre, por que a senhora não pergunta a Audrey como nos conhecemos?" A
freira ficou novamente
séria e obedeceu. "Audrey, como você conheceu este senhor? E por
que você não tinha me contado nada?" "Porque, como eu já disse, queria que
fosse uma surpresa.
Madre, é uma história bastante complicada... eu explico uma outra
hora, está bem?" "Não. Agora!" Kevin queria ver como Audrey sairia daquela
situação. Ela lançou-lhe
outro olhar assassino e suspirou profundamente. "Conheci-o por
casualidade, madre. Outro dia saí para comprar um pente e decidi ir ao centro
para encontrar um preço
mais em conta. Então eu ia pela rua quando de repente vi um menino
que saía correndo de uma porta como se o demônio o perseguisse. Levava
50
uma pasta preta e parecia que tentava fugir.
Eu achei aquilo um pouco estranho. Então pus o pé na frente dele e ele
caiu. A pasta foi parar debaixo de um carro que estava estacionado.
O menino se levantou muito assustado e saiu correndo... foi então que
o senhor Hawks saiu para a rua. A pasta era dele. Por isso ele quer me
recompensar. Na pasta
havia documentos muito importantes, sabe?" Era incrível! A mocinha
tinha uma fantasia infinita. Kevin permaneceu congelado e sequer pode explicar
a verdade à madre.
"É verdade o que Audrey está dizendo?", perguntou a freira a Kevin.
O olhar dele se cruzou com o de Audrey. Ele viu que ela estava desesperada.
"É", respondeu ele
e suspirou. Deixou-se convencer por aquele rosto ingénuo. Meteu a
mão no bolso e tirou o talão de cheque. "Vim aqui por isso, madre. Quero
demonstrar meu agradecimento.
Em nome de quem devo fazer o cheque?" "Da Casa de Caridade...",
respondeu a madre. Kevin assinou o cheque e o entregou à madre. "com todo o
meu agradecimento",
disse ele. "Se a senhora me permite, gostaria de lhe dar um
conselho..." "Claro!"
51
"No outro dia, Audrey correu um risco muito grande, com aquele
ladrãozinho.
Ele não estava armado, e além disso estava muito assustado, mas isso
ela não podia saber. Se aquele rapaz fosse outro tipo de delinquente, não se
sabe como poderia
ter reagido." "O senhor tem toda razão." A madre segurou o braço de
Audrey. "Nossa menina às vezes não pensa muito. Mas não se preocupe, eu vou
conversar com ela
e ela não vai mais fazer esse tipo de coisa. Eu vou ficar de olho nela."
Kevin sorriu. Tinha sido mais fácil do que ele imaginava. Provavelmente tinha se
livrado
de Audrey De vês. Estendeu a mão para cumprimentar a monja. "Foi
um prazer conhecêla, madre. Desejo boa sorte a todas pela obra que fazem."
"Nós é que temos que
agradecer ao senhor, não é mesmo, Audrey?" A jovem permaneceu em
silêncio. Tinha a cabeça baixa, não levantou os olhos e nem disse uma palavra. A
madre comentou:
"Nossa Audrey é muito envergonhada." "Se ela promete que vai se
comportar bem, nós a perdoamos", disse Kevin, sorrindo. Depois encaminhou-se
para a saída. A madre
Rosário pediu que Audrey se sentasse e sentou-se também diante da
jovem.
52
"Querida, o dinheiro do senhor Hawks foi como um presente de Deus
neste momento tão
crítico, mas eu quero que você me prometa que não vai mais se
arriscar assim, poderia ser muito perigoso e a sua vida é muito mais importante
que qualquer outra
coisa." Audrey permaneceu calada. Odiava aquele homem... "Está bem,
madre", disse. "Você me promete que vai ter mais cuidado?" Chegaria a hora de
ajustar as contas!,
pensava Audrey, furiosa. "Sim senhora, madre." "Agora posso ir?"
"Aonde é que você vai?" "Soube que inauguram no centro uma exposição de
pintura do século passado
e a entrada é grátis. A senhora sempre diz que devemos ser cultas,
então pensei que..." "Está bem, mas não volte muito tarde." "Não senhora,
chego antes do jantar."
"Bem então você pode ir. Além disso você hoje merece um prêmio!"
Audrey concordou. Kevin Hawks também merecia um prêmio e ela tinha muita
vontade de levá-lo... À
tarde chegou ao edifício onde ele vivia. Tinha que ser rápida para
voltar para o asilo. De qualquer maneira, para o que pretendia fazer não
precisava de muito tempo...
Estava diante da porta do edifício e justamente quando
53
ia tocar o interfone a porta se abriu. Kevin, elegantíssimo em seu
smoking, uma camisa branca de seda
e um paletó de casimira sobre os ombros, saía de braço com uma
mulher fantástica. Uma loura atraente também muito elegante. Parecia uma
atriz de cinema. Usava um
vestido branco que ressaltava as curvas de seu corpo e a pele
bronzeada. Nos ombros levava um xale e usava sapatos altos... Depois de
observá-la com interesse lembrou-se
do motivo pelo qual estava ali. Kevin a reconheceu. "Audrey, o que você
está fazendo aqui?" "Você conhece esta mocinha?", perguntou a loura meio
surpresa. "Olá Kevin.
Você pensava que tinha se livrado de mim?", disse Audrey. Depois
sorriu. "Vejo que você não entendeu bem." "Quem é esta fedelha?", voltou a
interromper a loura.
Kevin suspirou. "Jane, querida, você me espera no carro? Eu já vou." A
mulher olhou com muita raiva e saiu resmungando. Kevin olhou para Audrey
furioso. "Você quer
me deixar em paz, por favor?" "Nem morta. Antes você tem que
ajudar a conseguir o que eu necessito", disse ela. Antes de chegar ali já estava
com raiva, e agora
que
54
o tinha visto com aquela mulher tão fascinante, estava ainda mais
nervosa. Nem ela mesma sabia por que se sentia assim. "Estou te dizendo pela
última vez,
Audrey, afaste-se de mim. Esta tarde não contei a verdade à madre
Rosário, mas vou contar. Fiz uma doação de dez mil dólares e acho que me
comportei como um cavalheiro.
Mas você não abuse da minha paciência, porque ela está acabando."
"Meu caro bandido, é você quem deve ficar preocupado, não eu." "Volte para
casa, Audrey." "Não
quero." "Te disse que vá embora!", repetiu enquanto descia a escada.
Estava furioso. "Está bem. Mas antes de voltar para a Casa de Caridade vou a
outro lugar." Talvez
tenha sido o tom doce e cativante com que ela pronunciou a frase, ou
quem sabe as palavras. Kevin ficou paralisado no segundo degrau e se virou
lentamente. Olhou
então para ela e perguntou: "O que você quer dizer com isso?" "Você
sabe muito bem o que eu quero dizer! Ou você me ajuda ou vou aos jornais.
Amanhã no New York
Times você vai ler um certo senhor Hawks, que se diz agente de
seguros, na realidade é um ladrão famoso e procurado."
55
Kevin não pôde conter a gargalhada. "Você
continua louca! Pois você necessita ler se você já conhece a história.
Eu já não sei o que fazer para que você compreenda que eu não sou quem você
está pensando."
"Se você não é quem eu estou pensando, também vai te importar que
eu te denuncie. Os jornais publicarão a história, a polícia vai investigar, e então
o que for verdade
será esclarecido. E então, se você quiser, poderá me denunciar. Eu sei
perfeitamente o que acontece." Kevin não poderia se permitir um escândalo
com uma mocinha.
Comentário público seria muito desagradável, seria fatal. De forma
alguma... Ele não podia acreditar que aquilo estivesse acontecendo, história de
extraterrestre
passeando no Central Park, mas realmente aquela mulher tinha
conseguido colocá-lo contra uma parede. Mudou a expressão do rosto. Estava
com vontade de estrangular.
E no princípio, mesmo com aquela trama que tinha montado, parecia
uma moça simpática. "Maldição!", resmungou Kevin e se aproximou um pouco
mais. Num arrebato ela
pensou que tinha decidido ceder: "Parece que você está começando a
raciocinar melhor." "Cale a boca, por favor!"
56
"É melhor nós pararmos de brigar, precisamos
cooperar um como outro. Temos que começar a trabalhar
imediatamente. Eu escolhi a..." "Este não é o momento adequado. Talvez você
não tenha percebido, mas eu estava
acompanhado de uma senhora. Ela está me esperando no carro e
imagino que já esteja preocupada." Estas palavras despertaram Audrey que
neste instante se deu conta
do que aquela mulher significava para ele. "É a sua mãe?", perguntou
Audrey tentando parecer natural. "Minha mãe?", disse Kevin tentando conter a
voz. "Você está
definitivamente desequilibrada. Além de louca você ficou cega."
"Parece um pouco velha." Ela continuava tentando manter o ar de ingenuidade
natural. "Ela tem apenas
vinte e nove anos e aparenta muitíssimo menos." Kevin estava no limite
do controle daquela situação. "Se você gosta... como se diz, gosto não se
discute." "Exatamente.
Eu gosto e isso é um problema meu." Ele quase não se dava conta do
tom ao que tinha chegado. "Pode ir. Nos veremos amanhã de manhã." "Amanhã
de manhã eu trabalho!",
respondeu ele subindo um outro degrau e se aproximando ainda mais.

57
"Deixa de fazer o gênero complicado, entendeu?" "Deus do céu, me
ajude a manter o controle!" Ele estava furioso. "Virei amanhã, na parte da
manhã!" Ele que
já estava de costas seguindo para o carro, parou, virou-se e encarou
Audrey. Deu novamente as costas e ela voltou a chamá-lo. "Kevin, eu sinto
muito mas a madre
Rosário me pediu que eu fosse pontual para o jantar." "E o que eu
tenho a ver com isso?" Ele tem tou ser o mais indiferente possível. "Se eu volto
de metro, vou
demorar uma hora e meia para chegar em casa. E se a madre Rosário
se aborrece amanhã não me deixará sair de casa." "Isso é problema seu,
Audrey. Um proble ma seu!"
Ela sorriu como um anjo malicioso. "Não, é um problema seu também
porque se eu não posso sair nós não poderemos nos falar. E se nós não nos
vemos não organizaremos
nunca o nosso plano para salvar a Casa de Caridade." "Que pena! Sinto
muito!" "Eu também, mas você sabe que os jornalistas do New York Times
teriam paciência e não
publicaram um bom artigo sobre a sua vida?", Ela voltou a ser
ameaçadora com ele.
58
Desta vez ele teve que voltar segurando o braço de Audrey com
firmeza e disse:
"Para quem foi criada num convento de freiras tão santas, você nos
saiu uma tremenda sem-vergonha e chantagista." "Eu estou fazendo tudo isso
por uma causa muito
importante. Nosso Senhor é testemunha!" "Então, se eu te estrangulo,
ele me perdoará! Vamos, eu te levo, rápido por favor!" Ele tinha se complicado
ainda mais. Ela
então o seguiu até o carro. Era um modelo Porsche incrível, que estava
estacionado a poucos metros, antes da esquina. Jane, que ainda esperava
recostada no carro,
olhou surpresa e com raiva. "Ainda bem que você não demorou nada...
estava chamando um taxi e ia embora agora mesmo!" Jane estava
completamente histérica. "Me perdoe,
querida", disse Kevin, abrindo rapidamente a porta para que ela
pudesse sentar no assento aconchegante e luxuoso, de couro preto. Pela outra
porta, sem que Jane
conseguisse entender por que, entrou Audrey sob o olhar furioso da
loura. No fundo Audrey se sentia contente de incomodar aquela arrogante. "Ela
vem com a a gente?"
"Não, querida, a levamos até o convento onde ela vive."
59
"O quê? E onde é que fica isso?" "No Queen..." "No Queen! Mas, você
ficou maluco. com esse tráfego tardaremos
quase uma hora em chegar." "Não, um pouco menos", disse Kevin. "A
mulher continuava furiosa e sem querer escutá-lo. "Eu acho que você perdeu a
cabeça. Por que você
me chamou para sair, se tinha que ficar de babá para esta fedelha?"
"Escuta aqui, eu não sou nenhuma fedelha. Se você me chama assim outra vez
eu vou te dar um murro
no nariz." Tanto Jane quanto Kevin ficaram paralisados. "Você ouviu o
que ela me disse, Kevin? Ela me ameaçou!" "Por favor, Jane, tenha um pouco de
paciência..."
"Não! Eu tinha vários convites e decidi sair com um irresponsável e
uma mocinha violenta. Você se engana, Kevin. Está tudo acabado!" Ele não teve
tempo de dizer
nada. Jane desceu do carro e se afastou rapidamente. "Jane!", voltou
a chamá-la desesperado. "Deixa ela ir", disse Audrey do banco de trás. "Eu a vi
bem de perto
e é muito velha para você. "Está cheia de rugas nos olhos e além disso
é muito antipática." "Cala a boca e pede a Deus que eu me esqueça que você
está aqui, senão
esta noite
60
você volta para o asilo com um olho roxo. Estou farto de você!" "Eu
dizia pelo teu próprio bem..." "Cala a boca!" Desta vez Audrey se assustou.
Encolheu-se
no banco e se calou. Desde que o tinha conhecido, era a primeira vez
que via Kevin tão zangado. Estava vermelho como um pimentão e o rosto e os
lábios tensos...
só faltava sair fumaça pelas orelhas. "Maldição, maldição!", repetia
enquanto dava murros no painel do carro. Depois disse uma coisa que Audrey
não entendeu. "Ela
se foi. Em cinco minutos perdi seis meses de trabalho! vou ter que
começar tudo de novo!" Quem ele pensa que enganava. Audrey não podia
acreditar que Jane fosse
uma cliente... e desta vez tinha certeza.
61
5

- Audrey chegou às dez horas em ponto e tocou a campainha. Abriram


a portaria e logo depois estava no sétimo andar.
Kevin abriu a porta e ficou ali, no portal, olhando. Estava usando um
roupão branco que ressaltava o seu bronzeado e os seus cabelos escuros.
Estava descalço...
e respingando água. "Você chega sempre no momento mais inoportuno.
Você faz de propósito!", disse ele resignado. Audrey entrou e olhou ao redor,
satisfeita. Ela
estava gostando cada vez mais daquele apartamento. "Te incomodo?",
perguntou. "Não, imagina! Ontem você me estragou a noite e outras coisas...
agora eu tenho que
sair do banho cheio de sabão!" "Devemos ser pontuais!"
62
"Como pontuais? Eu não marquei nada contigo e não entendo o que
você veio fazer aqui. Senta aí e espera
enquanto eu me seco." Ele desapareceu no corredor e Audrey começou
a olhar ao redor. Ela gostaria de ter uma casa como aquela. Ampla, luminosa,
decorada com bom
gosto além de prática e confortável. Observou algumas fotografias
que estavam sobre uma bancada de mármore.
Aproximou-se... Kevin saía em quase todas elas, mas sempre
junto a outras pessoas. Mocinhas elegantes, homens jovens de
aparência agradável, senhores já de idade e interessantes. E estava sempre em
cidades diferentes. Londres,
Paris, Roma, Rio de Janeiro... Devia ser uma dessas pessoas que viajam
muito. Quem seriam todas aquelas pessoas? Provavelmente futuras vítimas de
um roubo... Audrey
pegou uma foto para olhar mais de perto e ele, de repente, arrancou o
porta-retratos das mãos dela. "Por que você não cuida da sua vida?", disse ele
repondo a foto
no lugar. "Eu não estava fazendo nada de mais", respondeu ela. Às
vezes A Sombra era
bastante antipático. "Você já tomou café?" "Não, eu saí muito cedo e
não
comi nada." "Me dá a impressão de estar falando com uma menina."
63
"Eu não estou te pedindo nada." "Não, só que eu cometa um delito e
passe uns dez anos
na cadeia... pois bem, siga-me." Eles entraram na cozinha que era
imensa e muito moderna. Os móveis eram todos brancos e os acessórios de
cobre brilhante; também
ali se notava o bom gosto de Kevin. Não se pareciam em nada às velhas
panelas de alumínio, todas amassadas, que havia na Casa de Caridade. Quem
sabe quanto custaria
decorar um apartamento daquela maneira. E ele insistia em que vivia
de seguros! "Sente-se enquanto preparo o café", disse Kevin. "Se você quiser
eu preparo o café."
"Não se preocupe. Aprendi a não confiar em você. Não sei do que você
é capaz." Ela se ofendeu, mas decidiu ficar calada. Sentou-se e ficou olhando
enquanto ele ligava
a cafeteira elétrica. Ainda bem que ela não precisou fazer nada,
porque
ela não saberia como usar a cozinha. Kevin tirou de um armário alguns
brioches e os colocou
no microondas. Em dois minutos estava tudo preparado. Pães
quentinhos e um café que tinha um aroma delicioso. Isso era o progresso:
Audrey estava perplexa. "Você
quer leite e açúcar?", perguntou Kevin. "Quero, obrigada."
64
Ele a olhou, sacudiu a cabeça e perguntou: "Você não tem medo de
engordar?" "O quê?" "Engordar...
você tem medo de engordar?" "Eu não. Posso comer tudo o que quiser
que eu não engordo nem um quilo. A madre Rosário diz que eu como um
elefante." Kevin sorriu. "Coitada
da freira, deve ter sofrido muito contigo." "Na verdade eu nunca fiz
nada de mau." "Até agora..." "Como assim?" "Você deveria saber. Toma o café e
me diz o que é
que você queria de mim." "O que eu queria, não, o que eu quero!" "É o
que eu quero dizer; é óbvio." Ela começou a comer com todo apetite o terceiro
brioche, fez
uma pausa e disse: "Posso falar?" "Pode, mas não com a boca cheia.
Audrey engoliu depressa e quase se engasga. "Então", começou, "como você já
deve ter entendido,
trata-se de roubar para financiar a Casa e Caridade." "Não se poderia
resolver o problema de maneira legal e honesta? Por exemplo com subvenções
estatais..." "Nós
já tentamos e foi inútil. com o que eu pretendo fazer, resolveremos de
uma vez todos os problemas do asilo."
65
"Quanto você acha que é necessário?" "Eu acho que
precisamos de pelo menos um milhão de dólares." Kevin quase se
engasga. Tossiu forte e tomou um gole de café. "Um milhão de dólares?" "Se
fosse mais, seria ainda
melhor, mas nos contentamos com um milhão. Você não acha?" Ele não
podia acreditar. Ele estava discutindo com uma menina sobre o roubo de um
milhão de dólares. Como
se fosse um passeio de barco. "E onde vamos encontrar esta
quantidade de dinheiro?" Audrey sorriu, satisfeita. "Não tem problema, eu já
tenho o nosso objetivo."
"Meu Deus, você me assusta! Se Hitler tivesse um conselheiro como
você, teria ganhado a guerra!" "Você podia parar com isso. Eu estou falando
sério." "Está bem.
Como você quiser..." Audrey não queria ficar ali perdendo tempo e
disse: "Reynolds", convicta, sabendo o que dizia. "Reynolds?" "É. Uma joalheria
importante que
fica na Quinta..." Ele a interrompe bruscamente: "Eu sei
perfeitamente onde fica a joalheria Reynolds!" "Pois é essa joalheria onde
vamos atuar para conseguir o
dinheiro."
66
Kevin soltou uma gargalhada, uma daquelas do auge do descontrole,
quando ela soltou um daqueles absurdos, que só ela pode imaginar. "Agora não
tem
mais jeito, você está começando a ficar perigosamente louca."
"Quando você fala assim, nem parece A Sombra." "Você vai começar, de novo,
com essa loucura da Sombra?"
"Tudo bem. Mas você pára de colocar dificuldade em tudo. Eu estive lá
dando uma olhada e essa joalheria é perfeita para o que necessitamos." "Você é
muito esperta!
Todos os ladrões já se sentiram atraídos por essa joalheria. Os mais
antigos e experimentados." "Ela já foi saqueada?" "Que eu saiba não." "Então
por que você está
dizendo isso?", reclamou Audrey. "Porque eu acho que ela deve ser
muito vigiada; deve ser inacessível." "Isso para outros ladrões. Não para A
Sombra; o melhor de
todos..." "Estou ficando com dor de cabeça." "Você quer uma
aspirina?" "Não. Quero uma serra!" "Você acha que vai ser necessário para o
assalto?"

67
"Para o assalto, não sei, mas eu poderia cortar você. Eu te corto em
pedacinhos, ninguém vai saber e eu fico livre de você." Audrey sorriu. "Muito
engraçado!",
disse. "... E de que mais você vai precisar Kevin?" Kevin não entendia
como ela podia estar tão tranquila e contente. Era louca e perigosa. "Vamos
Audrey, pensa
um pouco..." "Não comece, por favor! Você é mais chato que uma
solteirona. Nenhum dos velhinhos do asilo é tão insosso como você!" "Por que
você não pede ajuda a
um deles?" "Eu pensei nisso, e achei que tinha encontrado a pessoa
certa. Mas o senhor Gibson..." "Você pode me explicar de uma vez, quem é esse
senhor Gibson?"
"É um dos nossos hóspedes. Tem oitenta e dois anos, e foi um ladrão
famoso. Passou vinte anos na prisão." "Que gente você conhece, hein! E é esse o
tipo de conselho
que um avô dá à sua neta!" "Deixa o senhor Gibson em paz, por favor. É
um velhinho muito simpático e eu o quero muito. Além do mais, quem é você
para falar dele?"
Kevin não teve resposta. Para que discutir com uma pessoa que não
tem cérebro? "E foi ele que te mandou aqui?" "Foi. Ele te conhece e sabe bem é
você."
68
"Talvez tenha se enganado de pessoa. Você já pensou nisso?"
"Pensei, mas você tirou todas as dúvidas." "Eu? Como assim?" "Claro, é
só olhar para você para se saber quem
você é. Tem um corpo atlético, uns músculos rígidos e bem formados e
deve ser muito forte." "Faço ginástica." "Imagino qual é a tua ginástica." "...
Como milhões
de outros americanos." "É, mas o que te motiva é outra coisa." Kevin se
levantou
e foi para a sala. Audrey esperou um pouco e como ele não voltava, foi
buscá-lo.
Estava quieto, sentado no sofá, olhando pela janela as árvores do
parque. "Está acontecendo alguma coisa com você?" Ele observou Audrey como
se fosse a primeira
vez que a via. "Audrey, o que você está me pedindo é impossível." Ela
ficou decepcionada. "Não posso mais!" Sentou-se na poltrona e suspirou. Depois
de todos os
esforços que tinha feito, depois de tantas ameaças, Kevin não queria
ajudá-la. Era inútil insistir. Ele tinha conseguido. Se ele não quisesse, ela não
poderia obrigá-lo
a cometer um crime... "Contigo não tenho a menor possibilidade, não é
mesmo? Nunca tive." "Acho que você está começando a voltar à realidade."
69
"Paciência..."
"Você vai aos jornais." "Claro que não. Eu dizia isso para te
pressionar." Kevin suspirou aliviado."Te agradeço muito, mas não pelo que você
está pensando. vou levar
para madre Rosário um cheque maior que o outro. O que você acha?"
"Não se sinta obrigado a fazer isso..." "Eu sei, mas quero ajudá-los. E você, o
que é que vai fazer?
Espero que..." Ela não o deixou continuar. "Encontrarei outra pessoa
que me ajude. O senhor Gibson deve conhecer outros ladrões." "Audrey!"
"Sombra, eu não tenho
outra saída." "Você quer ir para a cadeia?" "Nosso Senhor me ajudará.
Se ele quisesse, eu poderia entrar naquela joalheria em plena luz do dia, pegar
o que eu necessito
e sair sem que ninguém se desse conta." "Duvido." Ela se levantou e
pegou a bolsa. "Se você quiser, depois eu te explico como foi o assalto..."
"Espera um momento,
senta aí, me deixa pensar."! "Você mudou de ideia!?" - "Não... quer
dizer... não sei... Meu Deus,? você está louca e eu vou acabar no hospício.; Não
em uma prisão
de máxima segurança."
70
"É uma obra muito boa, Kevin." "Eu sei, mas Reynolds é mais vigiada
que o Forte Knox!" "O mesmo disse o senhor Gibson. Mas na Reynolds
nós temos segurança de que o que queremos está lá. Sabemos que eles
têm as jóias. Eu as vi." Kevin continuava pensando. "Quais serão as medidas de
segurança da joalheria...?"
"Tem câmaras de vídeo." "E como é que você sabe?" "Vi quando estive
lá na loja." Kevin se levantou. "vou me vestir e depois sairemos." "E aonde é que
nós vamos?"
"Primeiro a uma butique e depois a uma sapataria." "Para quê?" "Você
precisa de um vestido e um par de sapatos." "Já tenho esses." "Não são
adequados para uma mulher
que vai a Reynolds, com um homem..." Os olhos de Audrey se
acenderam. "Então você decidiu me ajudar?" "Acho que sim...", respondeu ele,
com ar de desconsolado. Audrey
o abraçou e, na euforia da notícia e sem se dar conta, beijou-o nos
lábios.
71
Kevin se afastou. Os olhos deles se encontraram e Audrey ficou rubra
de vergonha.
As mãos de Kevin ainda estavam na cintura dela. "Desculpe, sou uma
idiota. Foi um impulso...", disse, afastando-se dele. Kevin tossiu. "Você é uma
moça muito ardente...",
disse em tom de brincadeira. Audrey desviou o olhar. Seu coração
batia disparado. "Desculpe, não voltará a acontecer. Eu te prometo." Ele a
olhou.
"É melhor!" Ele
então saiu e Audrey ficou sozinha. Sentou no sofá e cruzou os braços.
Por que estava tão nervosa? Naquele momento deveria estar alegre e feliz. A
Sombra a ajudaria
e isso queria dizer que a Casa de Caridade poderia continuar aberta.
Mas... um pensamento apareceu em sua mente: tinha beijado um homem! Era a
primeira vez em sua
vida que beijava alguém que não era uma freira ou um velhinho de
oitenta anos! As bochechas lhe ardiam e ela pôs as mãos no rosto para esfriá-
las. O que diria a
madre Rosário se soubesse o que ela tinha feito? Teria um enfarte.
Audrey...! A pequena Audrey beijando um homem! Além do mais na boca! Foi
uma sensação muito agradável...
Não. Agradável não é a palavra adequada. E qual seria? Ela não sabia...
com o que se poderia comparar aquela experiência? Poderia comparar com uma
vez
72
que madre Rosário a levou a um parque e elas
deram uma volta na montanha russa. Medo e arrepios por todo o
corpo, mas também muita alegria e vontade de continuar até o infinito.
O coração batendo forte e os músculos tensos... Excitante! Foi
exatamente o que sentiu ao beijar Kevin. E queria beijá-lo outra vez! "Audrey...
vamos?" Ela teve
um sobressalto, porque ele a arrancou de um devaneio, do fundo dos
seus pensamentos mais íntimos. Ficou ruborizada novamente e se levantou sem
encará-lo. O que
desejava fazer era uma loucura, mas a tentação era muito grande.
Quase incontrolável. Kevin a olhou surpreso. "Algum problema, Audrey?" "Não...
posso te pedir um
favor?" "Outro? Você não acha que já é demais? "Talvez sim, mas
desta vez não se trata do que você está imaginando." "Como é que você sabe o
que eu estou imaginando?"
"Eu quero dizer que não tem nada que ver com o assalto. É uma coisa
pessoal." "E o que é?" "Por favor..." "Está bem, o que é que você quer?" Audrey
se levantou o
rosto e o olhou fixamente. Seus olhos azuis tinham um brilho
73
muito especial. "Você... me daria um beijo daqueles profundos, entre
um homem e uma mulher?" "O que foi que você disse?" Ele se afastou com um
movimento tão brusco
que esbarrou na mesinha e derrubou todas as figuras de porcelana. As
figuras se partiram em mil cacos, mas eles sequer perceberam. Audrey
encolheu os ombros e disse:
não me parece um pedido tão estranho... "Eu acho!", respondeu Kevin
com um tom de aborrecido. "Seria como uma experiência." "Nem pensar! "Você
sente nojo
de mim?" - Kevin respirou fundo. "Claro que não, desculpe a minha
reação, Audrey, eu não queria te ofender." "Então, posso provar?" "Olha aqui, a
madre Rosário
não te explicou nunca que... Ou seja, você nunca conversou com ela
sobre... como nascem as crianças?" "E o que é que isso tem a ver?" Ele colocou
a mão na cabeça.
"Eu quero dizer... bom Audrey, o que é que você sabe sobre o sexo?"
"Eu não sou uma troglodita. Fui à escola ainda que fosse uma escola de freiras.
Conheço muito
bem as coisas da vida. Só que... nunca experimentei."
74
"E você tem que começar neste exato momento? E comigo?" "Você é o
primeiro homem que eu conheço, que tenho
confiança e que ainda não tem oitenta anos. É um favor que eu te peço
como amiga." Ele continuou olhando para Audrey. Mexeu a cabeça em sinal
negativo. "Não me parece
uma boa ideia." "Você está com medo?" "Um pouco." "Vamos Kevin, eu
não mordo." "Isso nós ainda veremos." "Por quê? É necessário para um beijo?"
"Não,
mas..." Audrey parou diante dele. "Vamos, me deixa provar..." Percebeu
que ele estava nervoso e
seus olhos pareciam dois poços sem fundo. Kevin permaneceu calado.
Suas mãos fortes agarraram a cintura dela. Ao baixar a cabeça uma
mecha de cabelo lhe caiu pela testa. Seus lábios estavam muito perto. Audrey
fechou os olhos...
E um universo de sensações desconhecidas invadiu seu coração. Era
maravilhoso...
75
6
- Audrey manteve os olhos fechados. Apenas suspirou. "É melhor a
gente sair."
Kevin a soltou e quando Audrey abriu os olhos ele já se encaminhava
para a porta. "Vamos? Não podemos perder tempo." Parecia nervoso. Só então
Audrey voltou à realidade.
Sentia as pernas fracas e o coração continuava disparado. Um beijo!
Foi lindo.;
"Audrey!" "Já vou..." com o olhar sonhador, chegou junto dele e os dois
saíram.
Kevin trancou a porta. "Temos que encontrar um lugar onde nós
possamos nos ver." "Por quê, não pode ser na sua casa?" "Não fica bem, uma
moça frequentando a casa
de um solteirão que vive sozinho."
76
"Você parece a madre Rosário falando." "Aquela freira é muito
inteligente..." "Você ficou aborrecido, Kevin?" "Por que eu
ficaria aborrecido?" "Não sei..." "Eu não estou aborrecido." A
discussão terminou aí. Entraram no carro e se meteram no trânsito. "Aonde
você está me levando?",
perguntou Audrey. "A uma butique." "Mas eu não tenho dinheiro." "Sou
eu quem financia este trabalho, não é mesmo?" Ela concordou. "Não quero me
sentir culpada por
ter envolvido você nesta história." "Ainda está em tempo. Pensa
bem..." "Eu não posso desistir agora, você sabe que..." "Então fique calada, por
favor." "Se você
se aborreceu...", murmurou Audrey com uma voz triste. "Não estou
aborrecido." "Então por que nem olha para mim e me responde com esta
rispidez?" "Audrey, por favor!"
"Me diga, por favor, o que foi que eu fiz, e então eu juro que não abro
mais a boca."

77
Kevin se aproximou da calçada e freou. Desligou o motor e se virou
para Audrey. "Audrey, como é que você não entende?" "Não sei do que você
está falando,
te juro!" "Audrey, talvez você não tenha percebido mas eu sou um
homem!" "Claro que eu me dei conta. Se não, eu não pediria que você me
beijasse." "Por favor, Audrey,
não me confunda ainda mais!" "Por quê, vamos me explique! Por quê? O
que é isso, um jogo?" "Eu às vezes não te entendo. Você está desesperado só
porque me deu um
beijo. E eu que pensava que não era sua a primeira vez." "E não foi, é
claro!" "Então qual é o problema?" "Eu... Você... Você é uma menina." "Tenho
vinte e um anos,
você já sabe." "Mas não parece!" "Porque eu não estou usando sapato
alto e não estou maquiada como índio?" "Não é só por isso. Quero que você
entenda uma coisa:
o que aconteceu antes, lá em casa, não deve se repetir." "Não se
preocupe... Para mim também não foi a coisa mais fantástica da minha vida..."
"Está bem!", respondeu
Kevin, meio insatisfeito. Ligou o carro e continuou dirigindo.
78
Audrey respirou fundo. Tinha mentido sobre as sensações que tinha
provado. Estava muito triste.
Era como se ele estivesse incomodado porque a beijou. Talvez ela não
fosse atraente para Kevin... Jane era muito melhor. É o tipo de mulher que
agrada a todos os
homens. Os cabelos compridos e soltos, os olhos maquiados, os lábios
vermelhos... e o corpo cheio de curvas perfeitamente modeladas. Audrey nunca
seria assim. Era
muito magra e tinha o peito pequeno como o de uma adolescente. Além
disso não sabia se vestir com elegância nem se maquiar. Aos vinte e um anos
ainda parecia uma
menina de dezesseis. Nenhum homem ia querer beijá-la... e por que
estava preocupada com isso? Antes isso não tinha a menor importância. Achava
que nunca iria se
apaixonar. Já tinha os seus velhinhos com os quais se preocupar... Isso
seria o bastante para ela? Até que ponto? E daqui para frente? Não sabia. Se
imaginou uma
mulher fascinante... iria a um salão de beleza. Um desses em plena
Quinta Avenida. Talvez fosse ao Elizabeth Arden. Queria vestir uma capa, lisa
e vaporosa. Depois
a maquiariam, uma maquiagem que não ressaltasse muito, é claro. Um
pouco de sombra para evidenciar a cor azul dos olhos,
rimel para alongar os cílios. Um pouco
de ruge de um tom claro. Depois umas gotas de
79
Chanel ne 5 detrás dos lóbulos da orelha. Então escolheria um vestido
elegante, não muito sexy, mas que não fosse
uma velha saia ou um casaco surrado, como o que costumava usar. E
para arrematar uns sapatos de salto alto. Queria que fossem vermelhos.
Vermelhos como o fogo...
Talvez assim Kevin gostasse de beijá-la. Ela queria outro beijo.
Apenas um. Mas que dessa vez Kevin não demonstrasse constrangimento. "Você
está dormindo? Vai descer
ou eu tenho que te carregar no colo?" A voz de Kevin, soou forte nos
ouvidos dela que despertou da sua imaginação. Ficou vermelha como um tomate.
Era como se ele
pudesse ver o que ela pensava e que acharia graça de tudo. Sem olhar
para ele, Audrey abriu a porta. Não tinha se dado conta de que já estavam no
centro. A calçada
estava cheia de gente, e por alguns instantes se sentiu sozinha e
perdida. "O que está te acontecendo? Você parece que está em transe. Você
dormiu mal esta noite?"
Não tinha dormido muito bem e tinha sonhado com ele. Kevin a
segurou pelo braço e começaram a caminhar. Audrey notou os olhares bastante
perplexos de algumas pessoas.
O que havia de tão raro? Eles dois pareciam ridículos.
80
Ela não teve tempo de encontrar uma resposta lógica. Kevin parou
diante de uma loja, empurrou a porta
de vidro. Audrey nunca tinha estado num lugar como aquele. Olhava
tudo com muita curiosidade. Se sentia como Alice no país das maravilhas. A loja
era pequena em
comparação com os grandes mercados, onde a madre Rosário a levava
uma vez por ano para comprar algumas coisas. Aqui não havia prendas
amontoadas em oferta... Não,
tudo estava muito bem arrumado em prateleiras transparentes e nas
vitrines; havia acabamentos em metal e grandes espelhos que refletiam todo o
movimento da loja.
"Posso ajudar em alguma coisa?" Audrey olhou assustada aquela
mulher elegante, já uma senhora, que estava ao seu lado. "A mim?", perguntou
Audrey um pouco atontada.
Kevin interrompeu. "A moça precisa de um." "Um tailleur ou um vestido
inteiro? Um robe-manteau também poderia cair bem... Algo juvenil e de uma
cor clara." A vendedora
olhou para Kevin e tinha um olhar de incómodo, como se não estivesse
gostando de alguma coisa. Depois se dirigiu novamente a Audrey: "Será fácil
encontrar
81
alguma coisa para ela. A sua filha tem uma silhueta
de dar inveja. Como uma modelo." Audrey sorriu. "Ele não é meu pai, é
um amigo." "Ah é!?" A vendedora olhou para Kevin
e não fez nenhum comentário mas quase se podia ouvir o que ela
pensava. Kevin suspirou: "Por favor, nós estamos com um pouco de pressa..."
"Naturalmente, senhor..."
A mulher pronunciou aquela palavra com um tom debochado e depois
saiu. Audrey estava assustada. "Parece que a vendedora não foi muito com a
sua cara." "É, eu já
notei." "Por que será? Vocês já se conheciam?" "Não. Eu nunca tinha
visto esta moça. Está satisfeita?" "Então o que é que está acontecendo?" "Você
não percebeu,
Audrey?" "Não. Não percebi, porque você não me explica. Você está
sempre me tratando como se eu fosse uma retardada mental, e eu estou
ficando cansada disso." "Como?",
perguntou Kevin enquanto olhava ao redor e baixava o tom da voz. "O
que é que você acha que a vendedora pensou de nós?" Audrey parou para
pensar, depois se aproximou
dele e disse: "Você acha que ela desconfia do que nós vamos fazer?
Como ela
82
pode ter adivinhado? Então ela te conhece. Você contou tudo a ela,
não é mesmo?"
"Audrey, você não sabe o que está dizendo. Ela nem imagina que nós
pretendemos assaltar Reynolds. Se ela tivesse pensado nisso, não teria se
escandalizado tanto!"
"Continuo sem entender. Se ela não sabe de nada por que se
escandalizou?" "Porque ela primeiro pensou que nós éramos pai e filha, mas
você fez questão de comentar
a verdade e decepcioná-la." "E o que é que ela tem a ver com isso?"
"Nada. Ela pensa que você é minha amante e que eu sou um corruptor de
menores. Entendeu agora?"
"Mas se eu não sou menor de idade." "Mas parece. Entendeu?"
"Quando eu colocar o vestido novo, os sapatos de salto e uma maquiagem, você
vai ver." "Sapatos vermelhos
de salto? De onde você tirou essa ideia?" Ela ficou um pouco
semgraça. "Bem, eu pensei que como temos que comprar os sapatos para o
vestido novo, eu gostaria que
eles fossem vermelhos." "Audrey, eu acho que vou passar o resto da
vida frequentando um psicanalista. O próprio Freud se ainda fosse vivo!" Ela se
irritou. "Vê como
você é? O que há de mau nos sapatos vermelhos de salto alto?
83
Você tem sempre que dar o contra. De manhã, em sua casa, você
estava mais compreensivo..." A vendedora
reapareceu naquele momento, escutando exatamente as últimas
palavras de Audrey. Desta vez o olhar que a mulher dirigiu a Kevin era de
desprezo total. "Eu lhe trouxe
algumas peças. Se você quiser experimentar, ali estão os provadores."
Audrey sorriu. "São lindas as roupas. Quero provar sim." E seguiu a vendedora,
desaparecendo
no interior da loja. De repente parou como se tivesse lembrado de
alguma coisa importante, e disse: "Senhora, não se preocupe comigo. Eu já fiz
vinte e um anos.
Não sou menor de idade." A mulher ficou assombrada e voltou a olhar
Kevin que procurava um lugar onde se sentar enquanto esperava. Que pecado
ele teria cometido?
Talvez a madre Rosário tivesse razão ao dizer que Audrey passou
tempo demais longe do mundo, e agora, fora do convento não entendia nada.
Depois de algum tempo,
e sem que a vendedora perdesse aquele ar de desaprovação,
compraram um vestido, uma saia e uma camiseta Quando eles saíram da loja,
Audrey estava no sétimo
céu e Kevin continuava calado. Audrey já tinha posto o vestido. Era
uma túnica azul copiada de um modelo de
84
Givenchy, com a gola e os botões brancos, o os sapatos
da mesma cor. Pela primeira vez em sua vida se sentia atraente e
estava feliz. Kevin a observava com cuidado. "Agora eu deveria ir a um
cabeleireiro, se não quando
cheguemos à Reynolds vão pensar que eu não sou o que tento
aparentar." "E o que você pretende aparentar?", perguntou Kevin. "Quero
parecer uma mulher moderna junto
a um homem rico, que quer comprar um presente... Não é o que você
queria?" Kevin passou a mão pelos cabelos e parecia confuso. "Cada vez te
desconheço mais. Às vezes
você parece a menina mais ingênua do mundo. No entanto, em outras,
você entende mais do que devia... Você não está brincando comigo?" "Eu?!
Imagina, Kevin. Como
eu iria fazer uma coisa dessas? Você está me ajudando e eu te
agradeço muito... Posso ir ao cabeleireiro agora?" "O que é que você vai dizer à
madre Rosário quando
voltar para o asilo esta noite com um penteado de cabeleireiro?" "Não
sei ainda. O vestido eu posso mudar em sua casa, mas... bom, eu posso dizer que
encontrei dez
mil dólares na rua e que decidi cortar o cabelo."

85
"Muito razoável...", disse ele com tom de deboche. "Claro que sim. Se a
madre Rosário engoliu a história do ladrãozinho que eu detive, por que não
acreditaria
que eu encontrei dinheiro?" "bom. Você é quem sabe..." "Não se
preocupe. Eu sempre quis ir a um salão de verdade, em vez de cortar o cabelo
com a madre Conceição.
Ela não enxerga muito bem e..." "Está bem, você já me convenceu."
Kevin viu um salão de beleza. "Ali tem um salão. Vamos. Enquanto você corta o
cabelo eu vou fazer
algumas coisas que tenho pendentes. Depois vamos almoçar e em
seguida vamos à Reynolds." Ele começou a andar, mas Audrey ficou parada. "O
que foi?" ví "Elizabeth
Arden..." "O quê?" "Eu queria ir a um Elizabeth Arden. Sei que deve
ser um salão de beleza caro, mas eu vou te devolver todo o dinheiro, assim que
nós fizermos o
assalto. Combinados?" "Você aceitaria uma resposta negativa?"
"Aceitaria, mas me sentiria muito mal." "Vamos ao maldito salão Elizabeth
Arden... Por que eu nunca
consigo te dizer não?" "Você quer uma resposta?"
86
"É uma pergunta retórica... por que você acha que pode responder a
essa pergunta?" "Você me diz sim porque se
diverte tanto quanto eu." "Eu!?" "Claro! Pode ser que você goste do
teu trabalho como corretor de seguros, mas cá entre nós..." "... Cá entre nós, o
quê Audrey?"
"Eu te ofereço uma desculpa perfeita para você voltar a sua paixão
principal." "E que desculpa é essa?" "Um roubo bem feito. No fundo você
sempre será A Sombra,
o inalcançável ladrão que enganou a polícia de cinquenta estados. O
novo Arsenio Lupin, o homem que transformou o roubo em uma arte..."
"Entendo. E acho que não
vale a pena que eu te diga que não sou A Sombra, não é mesmo?"
Audrey o olhou de rabo de olho. "Mais cedo ou mais tarde você vai ter que
confiar em mim." Kevin não
respondeu. Limitou-se a suspirar. Desde que tinha conhecido Audrey
Daves, o que ele mais fazia era suspirar. Suspirar e planejar um roubo em uma
joalheria famosa
em todo o mundo, e mais vigiada que um banco...
87
7

- O Elizabeth Arden atendiam apenas os clientes que tinham


reservado hora, mas Kevin sabia que a Audrey não
se podia dizer não. Ela falou durante meia hora com a recepcionista,
disse que não podia voltar outro dia, e ao final lhe disseram que sim. Kevin lhe
deixou cem
dólares e foi resolver seus assuntos. Durante três horas pelo menos,
não tinha que cuidar de Audrey. Para ela aquele era o dia mais bonito de sua
vida. Nunca tinha
pensado que se cuidar, melhorar de aspecto e estar junto de pessoas
bonitas, fosse tão gratificante. Sabia que aquele não era o seu ritmo de vida, e
que não seria;
nunca, mas o que havia de mau em sonhar um pouco? Entregou-se a um
cabeleireiro francês, bastante extravagante e fechou os olhos.
88
E não os abriu até que lhe
disseram que podia se olhar no espelho, para ver se gostava do
resultado. Ela gostou muito... Era ela mesma aquela moça sofisticada que ele
estava vendo refletida?
O seu cabelo sempre foi assim, tão brilhante e sedoso? Até os seus
olhos pareciam maiores e mais azuis, com aquele rímel que ela estava usando. A
maquiagem fez
a sua pele ficar mais lisa e os lábios mais grossos com o batom. Agora
ninguém a confundiria com uma menina. Estava certa que não. Pagou, sem
regatear, uma quantidade
que lhe pareceu um absurdo. Depois saiu e ficou esperando por Kevin.
Ele pediu que ela esperasse no salão de beleza, mas ela queria saber como as
pessoas reagiriam
ao seu novo look. Os rapazes a olhariam interessados? Mal Audrey
parou na calçada, um rapaz se aproximou, disse olá e disse que se chamava
Edward. Parou diante dela
e perguntou, com ar de bestifiçado, onde ela tinha se escondido até
aquele momento... Audrey não o entendia. "Por quê? Nos conhecemos de algum
lugar?" "Não. E exatamente
por isso temos que recuperar o tempo perdido", disse o rapaz dando a
mão a Audrey. "Eu me chamo Edward Foller, muito prazer." "Audrey Daves",
respondeu ela.
89
"Você pode jantar comigo, minha adorável e fascinante Audrey?"
"Na verdade, eu..." "Você não pode me dizer que não. Uma amiga minha
vai dar uma festa em homenagem a um
novo pintor existencialista. Vai ser maravilhosa. Um bom uísque,
ostras, caviar e se você quiser, um pozinho para nos animar um pouco..."
"Pozinho? Em Nova Iorque
as pessoas se divertem com pó?" Na Casa de Caridade tem toneladas.
"Olha Edward, eu acho que não..." Mas ele não a deixava falar. "Vai ter gente
muito chique! Universitários,
advogados, engenheiros, juizes..." "E não tem nenhum médico?", disse
uma voz detrás deles. Audrey e o rapaz se viraram e aí estava Kevin com cara
de poucos amigos.
"Um médico?", murmurou Audrey, perplexa. "É", replicou Kevin. "Um
médico porque é o que o seu amigo vai precisar se não se manda daqui agora
mesmo." Kevin tentou
segurar o rapaz pelo braço mas ele se esquivou e saiu. Audrey mal
teve tempo de fazer um aceno, e já estava dentro do Porsche. Depois de
fechar a porta de golpe,
Kevin deu a volta e entrou no carro.
90
"Então?", perguntou ele furioso. "Como é que você vai falando assim
com o primeiro que passa?" Ele não disse nem uma palavra
sobre como ela estava, seu novo aspecto, o corte de cabelo, a
maquiagem. Nada. Ela não esperava muito, mas pelo menos ele poderia ter dito
você ficou muito bem.
E além do mais ela era livre e podia falar com quem quisesse... "Era
simpático", começou a falar de Edward. "Simpático! Se é a primeira vez que
você vê esse cara,
como é que você sabe?" "bom eu conversei com ele e..." "Você
conversou com ele? Escuta aqui, Cinderela, Nova Iorque não é o país das
maravilhas. Você tem que ter
cuidado e não deve dar confiança a um desconhecido que passa na
rua." "Você também era um desconhecido há três dias, e no entanto não me fez
nada." "Eu ainda tenho
tempo. Além do mais, você teve sorte." "É mesmo? Eu não tenho tanta
certeza disso." Ele a olhou com severidade e disse: "Olha aqui, se você quiser
eu te deixo onde
você estava e você pode ir com aquele bonitão para onde ele quiser."
Ela baixou o olhar. "Eu disse que ele era simpático, mas não quero ir
com ele a lugar
91
nenhum.
Ele queria me convidar para umafesta! Me disse que aqui em Nova
Iorque as pessoas se divertiam com pó." Kevin a olhou assombrado. "Que pó!?"
"Não sei. Parece um
jogo, sei lá." "Te disse que eles brincam com o pó?" "Ele disse que na
festa haveria muitas coisas boas de comer e beber, e também um pozinho"
para animar. Eu até
disse que no asilo tinha muito pó, mas..." "Audrey, você nunca ouviu
falar de droga?" Ela ficou muito surpresa. "Droga!?" "É, droga." "Meu Deus!" "É
por isso que
você não deve dar confiança a estranhos." Ela suspirou. "Sou uma
idiota..." "O que acontece é que você viveu tempo demais fechada num asilo,
mas se você tiver cuidado,
não vai ter problema." Ele arrancou o carro e se meteu no tráfego. Ela
passou a mão pelo braço dele: "Kevin..." "O quê?" "Obrigada. Obrigada por
tudo." Ele
não respondeu e desviou o olhar. Não entendia porque se sentia tão
bem perto dela. Passaram quase uma hora na Reynolds. Kevin falou com o
senhor que Audrey encontrou
na primeira vez que foi à loja.
92
Felizmente o vendedor não a reconheceu, pediram para ver algumas
pulseiras valiosas. Depois, como tinham combinado, Audrey disse
que não gostava de nenhuma delas. Disseram ao vendedor que
voltariam outro dia para ver as últimas novidades. Quando chegaram à casa de
Kevin, Audrey ainda estava
deslumbrada. "Que maravilha!", disse enquanto se deixava cair no sofá
do salão. "É. Uma mercadoria não estava nada mal. Aquele mostrador de
pulseiras deve custar
pelo menos dois milhões de dólares." "Dez braceletes, dois milhões de
dólares!?" "Talvez valham mais." "É mesmo? Então bastaria para resolver todos
os problemas
da Casa de Caridade, e o resto para você..." Kevin colocou uma dose de
uísque num copo de cristal e ficou de pé, ao lado da lareira, observando
Audrey. "E para você,
Audrey? Você nunca pensa no seu futuro?" "Suponho que continuarei
cuidando dos meus velhinhos e depois de outros como eles." "Você é uma moça
muito estranha, sabia?"
"Se você me repete isso continuamente..." De repente, sem que ela
esperasse, Kevin se aproximou e disse: "Você está linda com esse vestido e o
penteado novo." Audrey
ficou encabulada. "Você está falando sério?"
93
"Te juro." "Pensei que você nem tinha se dado conta, que continuava
me vendo como uma menina feia." "Eu nunca achei
isso de você." Fora, o céu de Nova Iorque escurecia rapidamente,
enquanto o pôr do sol, incendiava o horizonte e marcava a silhueta dos grandes
edifícios. "Eu...
então, agora, se eu te pedisse um beijo, você não o recusaria como de
manhã?" Kevin colocou o copo numa mesinha e se sentou ao lado dela, no sofá.
Pegou na mão
dela e com o polegar lhe acariciava o pulso. "Não. Eu não recusaria...
Audrey, você é muito jovem e ingênua. Pura como a água. Se eu me aproveitasse
disso me sentiria
como um bastardo." "O que há de mau num beijo?" "Nada, mas eu acho
que um beijo não seria o suficiente..." Audrey sentia o rosto ardendo, estava
ruborizada. Então
se levantou e deu alguns passos. "Está ficando tarde. Tenho que mudar
de roupa e ir para o asilo." "É uma boa ideia. Você pode se trocar no meu quarto
e não se esqueça
de lavar o rosto, senão você vai ter que explicar à madre Rosário
porque você se maquiou..." Audrey fechou a porta e se recostou nela. Fechou os
olhos e pôs a mão
no coração. Ele
94
batia a mil por hora. O que era cada vez mais frequente quando estava
junto a Kevin. Ela não podia se comportar como uma tola, porque não queria
parecer ridícula. Mas por que seria ridículo estar apaixonada? O amor!
O que ela sabia sobre o amor? O que se lê nas revistas ou aparece na televisão.
Era muito
pouco para entender o que estava acontecendo. Mas estava segura de
que amava aquele homem. Claro! Estava apaixonada por Kevin. Um dia não se
sabe que existe um
sentimento assim, e no dia seguinte se descobre que estava no fundo
do seu coração. Uma coisa mágica. O sangue circula mais rapidamente pelas
veias e se vê a vida
cheia de promessas doces... Tudo parecia ótimo! Tinha vontade de
cantar e dançar. Queria explicar a todos o que estava sentindo. Compartilhar
aquela emoção com
os demais., por que, então, tinha se afastado de Kevin? Por que não
esperou para descobrir o que passaria depois dos beijos? Sentou-se na beira
da cama e olhou ao
seu redor. Aquele quarto era lindo. Decorado em tons de verde e
marrom, aparentando a elegância inata que possuía Kevin. Sentia-se o aroma
suave da sua colônia,
um coquetel de musgo e sândalo, que se espalhava pelo ar... Kevin! Ela
estava apaixonada por ele,
95
mas tinha medo. Medo de não estar à altura de um homem moderno.
E medo de que ele não a achasse atraente. Se tivesse alguém com
quem conversar alguém a quem pedir um conselho. Uma conhecida, uma amiga, a
mãe... a madre Rosário
não a entenderia... ou talvez sim? Voltou a fechar os olhos. Não podia
se arriscar. Antes tinha que conseguir o dinheiro necessário para salvar a Casa
de Caridade.
Kevin bateu na porta. "Audrey, está ficando tarde, se você não andar
rápido vai chegar atrasada." Ela se aproximou e acariciou a porta com a ponta
dos dedos. Atrás
daquela barreira sutil estava Kevin, e ela o amava com todo o coração.
"Você não vai me acompanhar?" "vou, mas com o trânsito chegaremos tarde do
mesmo jeito." "Já
estou terminando." "Está bem." Audrey esperava que ele abrisse a
porta e entrasse. Depois ouviu os passos dele se afastando. Suspirou. Quem
sabe se ele um dia a
amaria como ela o amava... Kevin dizia que não sabia negar nada a ela.
Seria um bom pedido... e deu asas à sua imaginação. E se via naquele
apartamento, casada
com Kevin e preparando jantares românticos. Acordando-o todas as
manhãs, recebendo os
96
seus amigos como uma boa dona de casa. Mas ela nunca tinha tido uma
casa de verdade..- bom, aprenderia. Kevin se sentiria orgulhoso dela e
feliz com seu amor. Naquela noite, quando voltou ao asilo, viu a madre Rosário
que a esperava
na porta. "Se pode saber onde você esteve durante todo o dia,
Audrey? E o que é que você fez no cabelo?" "Cortei." "Isso eu já vi, mas onde
você arranjou dinheiro?
E você ainda não me disse onde passou o dia todo." "Encontrei dez
dólares, na rua..." "E você não imaginou que com esses dez dólares poderíamos
pagar a comida de
um dos nossos internos?" Audrey ficou envergonhada e se sentiu
muito culpada. Abaixou a cabeça porque não podia encarar a madre Rosário. A
madre Rosário se aproximou
e acariciou a cabeça de Audrey. "Desculpe, Audrey. Às vezes me
comporto como uma velha egoísta esquecendo que você não é uma freira, e sim
uma
moça, e que tem o
direito de ser feliz... você fez bem em cortar o cabelo; ficou muito
bonito." "Madre Rosário, a senhora acha que um homem poderia se apaixonar
por mim?" "Por que
você está me perguntando isso, Audrey?"
97
"Porque para mim é muito importante." A madre estava assombrada.
"Você está me escondendo alguma coisa?" "Não. Nada."
Audrey não gostava de dizer mentiras à madre Rosário, mas às vezes
era necessário. "Você tem certeza?", insistiu a madre. "Claro. É que hoje,
enquanto estava no
cabeleireiro li uma revista que falava de amor. Do amor entre um
homem e uma mulher." "E o que dizia a revista?" Ela pensou durante um
momento. "bom, falava de desejo
e de... excitação..." A freira ficou ruborizada. "A venda de algumas
revistas deveria ser proibida e ninguém devia ler." "A senhora não respondeu a
minha pergunta."
"Claro que um homem poderia se apaixonar por você. E quando chegar
a hora certa, você vai perceber." "E quando vai chegar essa hora?" E "Não
sei..." "Será
que ainda falta muito?" "Isso ninguém sabe. Será quando Deus quiser.
Você vai conhecer um jovem
maravilhoso que te levará ao altar e você será mãe ee uma esposa
feliz."A senhora acha mesmo?"
98
"Acho, claro... mas agora vamos deixar esse assunto. Lave as mãos e vá
para o refeitório. Está quase na hora de jantar." "Madre
Rosário, não se deve fazer amor antes de se casar?" "Audrey, como
você tem coragem de fazer uma pergunta dessa?" "Mas se duas pessoas se
amam. Não tem nada de mau.
Deus não pode condená-los..." "Meu Deus, o que foi que você leu
naquela revista pecaminosa? A obra do demônio, parece. Você não deve nem
pensar nessas coisas. Antes
do corpo devemos cuidar da alma." "Mas como pode ser pecado o
amor?" "Chega, Audrey. Este assunto já está ficando absurdo. Vamos jantar."
Era inútil esperar que
a madre Rosário a compreendesse e ajudasse. E quem poderia fazer
isso? Talvez o senhor Gibson... Mas ela tinha vergonha de falar com ele sobre
essas coisas. Saiu
com a cabeça baixa, sem saber bem o que pensar, mas uma pergunta
da madre Rosário a fez parar-. "Você ainda não me disse onde é que esteve o
dia todo..." Tinha uma
desculpa preparada. "Eu decidi procurar um emprego." "Não precisa.
Eu falei com a senhora Corbin e ela me disse que..." "Madre, acho que já está na
hora de que eu
comece a viver como uma pessoa adulta.
99
Não quero que os outros decidam por mim Tenho vinte e um anos. Sou
maior de idade ainda que pareça que ninguém se deu
conta." "Audrey, você hoje está muito estranha." "Estou, sim. Foi um
dia diferente." Uma ruga de preocupação apareceu no rosto da monja.
"Aconteceu alguma coisa
contigo, Audrey?" "Não madre. Não me aconteceu nada e eu não quero
ser mal-educada nem ingrata, mas já não sou uma menina." Uma estranha
melancolia invadiu os olhos
da freira. A madre Rosário suspirou. "Você tem razão. Ainda que eu
custe admitir, você é uma moça sensata e inteligente; tem personalidade e
coragem, e chegou a
hora de tomar suas próprias decisões. Eu não fui mãe, mas acho que o
que sinto neste momento é o que sentiria a sua verdadeira mãe. Se ela tivesse
podido estar
contigo, te vendo crescer..." "Pois ela não quis. Me abandonou", disse
Audrey. Era a primeira vez que falavam daquele assunto. "Você não sabe se foi
exatamente assim,
Audrey. Você não sabe que motivo levou sua a mãe a te deixar em
nossas mãos. A vida às vezes é muito dura." "Eu sei, mas cada um deve aceitar
suas responsabilidades."

100
"As pessoas cometem muitos erros." "Isso é normal. Errar é humano.
Talvez seja a essência da vida. Graças aos nossos erros aprendemos a
melhorar, não é mesmo?"
"É mas, se podemos evitar..." "Madre Rosário, se todos nós
pensássemos assim, estaríamos sempre tristes." "O que você quer dizer com
isso?" "Que quando eu ficar
velha e recordar o passado espero poder dizer que fiz coisas boas
para os outros e para mim. Mas, se por acaso não for assim, pelo menos vão
saber que eu tentei.
É melhor do que depois arrepender-se de não ter feito o que queria..."
101
8

- Era noite, e Kevin Hawks estava sentado no sofá da sala. A casa


estava às escuras
e pelas janelas entravam as luzes da cidade. Nova Iorque, uma
metrópole gigantesca, onde todos os dias milhares de pessoas se aproximam, se
encontram, se distanciam
e se perdem para sempre... E criam histórias que às vezes deixam
marcas que não se podem apagar de suas vidas, mudando o presente e o futuro.
Era o que estava acontecendo
com ele desde que Audrey Daves entrou em sua vida... Kevin girava o
copo de uísque entre as mãos. Tentava descobrir o que estava acontecendo. Por
que estava ali,
no escuro, pensando? Perguntas do tipo aonde vamos? e, quem somos?,
nunca o interessaram muito. O que é que tinha acontecido nos
últimos
102
três dias para que ele sentisse aquela necessidade urgente de
respostas?
Audrey Daves... a imagem daquela mulher voltou à sua mente, tão
nítida, que pensou por um instante que
ela estava ali, junto dele e se ele esticasse o braço poderia tocá-la...
"Idiota!", disse em voz alta. Fechou os olhos. Audrey ainda era quase uma
menina. Talvez
um pouco louca, com vontade de roubar para salvar um asilo... Mas
quase uma menina. Tem vinte e um anos, lhe disse uma voz interior. com essa
idade a maioria das
moças já tiveram vários namorados e algumas até amantes. É, mas
Audrey não. Ela acreditava que os bebês vinham de Paris. Como poderia ser tão
perverso e tomar em
consideração, ainda que só por um momento, a ideia de... Caramba!
Audrey o estava enlouquecendo. Só havia uma forma de estar com Audrey e
era casando-se com ela.
O matrimónio era uma coisa que estava excluída dos seus planos de
vida. Não tinha nada contra o fato de que os outros se casassem; seus amigos,
os familiares...
Inclusive foi padrinho de casamento de seu irmão! Mas ele? Se casar?
Acordar todas as manhãs e encontrar sempre a mesma mulher na cama,
durante anos... Durante
décadas! Ter que renunciar aos caprichos de solteiro, como comer
vendo o jogo de futebol na televisão, ou ler na cama até muito tarde... Molhar o
chão
103
do banheiro quando toma banho, ou sujar
toda a cozinha de molho de tomate para preparar um espaguete tarde
da noite... Enquanto tomava outro trago de uísque decidiu que ele
não tinha nascido para o casamento. Audrey era perigosa, e não só por
que ele poderia ir parar na cadeia por culpa dela... Levantou-se e foi ao estúdio.
Sentou-se,
ligou o computador. Os raios verdes da tela espalharam sua luz
surrealista pelo escritório. Assaltar Reynolds... Incrível. Quase impossível. E
mesmo assim... A
ingênua Audrey tinha razão em uma coisa: ele gostava daquela ideia.
Era um desafio. Muito perigoso, mas terrivelmente excitante. Começou a
armazenar as informações
que obteve na tarde anterior. "Vamos ver se existe algum ponto
fraco...", dizia em voz baixa. Pelo menos enquanto pensava naquele problema,
não se lembrava de Audrey.
Câmaras de vídeo, células fotoelétricas em cada entrada, alarme de
contato sobre os vidros dos mostradores, que tinham quase um centímetro de
espessura. Presume-se
que o alarme principal esteja conectado diretamente com a delegacia
policial mais próxima. Se disparasse, quanto tempo a polícia demoraria em
chegar? Três minutos?
Cinco...? Kevin estava pensativo. Havia um aparelho perto da porta
principal, graças ao qual se podia desligar
104
o anti-roubo. Uma fechadura eletrônica. Talvez
aquele fosse o único ponto fraco do sistema de segurança... onde
estaria conectado? com algum computador de controle. Kevin sorriu. Já tinha
encontrado um aparelho
assim em Los Angeles, há dez anos... começou a procurar num arquivo
que estava ao lado do computador e tirou um disquete. Talvez nele encontrasse
alguma informação
sobre aquele sistema, e quem sabe assim poderia limpar uma das
joalherias mais importantes
do mundo. Ele ainda tinha muitas possibilidades... Na manhã seguinte,
Audrey chegou cedo. Tocou a campainha e ele foi abrir a porta de
pijama, bocejando e com os olhos sonolentos. "Preguiçoso! Você ainda estava na
cama? Já são nove
e meia; se continuamos nesse passo, nunca conseguiremos roubar
aquelas jóias." Kevin a fez entrar e foi para a cozinha. "Ontem eu fui dormir às
quatro e meia." "E
por que você foi dormir tão tarde?" "Não te ocorre nada?", disse
enquanto ligava a cafeteira elétrica e providenciava os outros detalhes do café
da manhã. Estava
muito bonito, assim à vontade, recém-saído da cama, com uma mecha
de cabelo caíd por sua testa.Parecia um bicho de pelúcia, grande e viril, que se
devia acariciar
e mimar. "Suponho que você ainda não tomou café, não é mesmo?",
disse ele com um tom irónico.
105
"Ainda não..." "bom... Você pode me ajudar a passar manteiga
nas torradas?" Audrey pegou uma faca e começou a ajudá-lo. "Você já
planejou o roubo, Sombra?" "Eu já pedi a você para não me chamar assim!"
"Desculpe... me desculpe...
você fica muito suscetível de manhã cedo. Talvez você não descanse
bem. Sabe o que eu acho...?" Kevin a olhou de lado. "Por que será que alguma
coisa me diz que
é melhor que você não saiba?" "Eu acho... que você precisa de uma
mulher. É isso! Quer dizer, uma mulher que cuide de você." "Eu me cuido
sozinho desde os dezoito
anos e faço isso muito bem." "Não parece." "Por quê?" "Você está
sempre mal-humorado." Ela tinha terminado de passar manteiga nas torradas e
pegou o vidro de geléia
de framboesa. Manteiga com geléia! Ela adorava... "Fora o fato de que
você não sabe se eu tenho uma mulher, por que você acha que se eu vivesse com
ela, o meu humor
melhoraria?" "Você já tem uma mulher...?", perguntou Audrey com os
olhos arregalados. "Como?"
106
"Uma mulher!" "Uma não, tenho muitas..." Ela sorriu. "Então eu
tenho razão." "Por que você não toma o seu café e me deixa comer
tranquilo?" Audrey sequer levantou os olhos do prato. "Ter muitas mulheres
não é o mesmo que ter
uma só." "Caramba; e você demorou muito a chegar a esta conclusão?"
"Kevin, você não está me entendendo." "Nisso eu estou de acordo contigo."
"Você se esconde atrás
da ironia porque não se atreve a reconhecer que eu tenho razão."
"Audrey, por favor me deixe tranquilo. Acabo de me levantar, dormi apenas
cinco horas e ainda não
tomei o café nem tomei banho. Se você quiser, eu te dou razão em
tudo, mas você tem que me prometer que vai ficar calada." "Eu não quero ter
razão sempre. Eu gosto
de dialogar. Sou uma pessoa razoável." "Eu não!" Kevin se levantou da
cadeira e saiu da cozinha. Não se livraria dela assim tão facilmente. Audrey o
seguiu, ainda
com uma torrada na mão. "Você vai atrás de mim até o banheiro?",
perguntou ele. "Se assim você me escuta, sim."

107
Kevin se calou e sorriu com sarcasmo. "Está bem." Abriu a porta do
banheiro e começou a desabotoar a camisa do pijama. Ele tinha um tórax
musculoso e recoberto
de um pelo suave e escuro. Era muito viril. Audrey ficou vermelha e
saiu depressa do banheiro. Kevin começou a rir. "Você já mudou de ideia? Não
quer passar sabão
nas minhas costas? Que pena!" "Engraçadinho!", respondeu ela indo se
sentar no sofá da sala. Olhou para a torrada mordida. Já não tinha fome...
Quando estavam no
banheiro e ele começou a tirar a roupa, ela sentiu vontade abraçá-lo e
beijá-lo... Por que não fez isso? Por que a madre Rosário dizia que não se podia
fazer amor
antes de se casar? Audrey tinha medo de parecer ridícula. Kevin
voltou à sala, envolto num roupão preto. Estava com os cabelos molhados e
parecia mais tranquilo
que antes. Olhou um instante para Audrey e apontou para a torrada
que ela tinha deixado na mesinha de cristal. "Onde é que foi parar aquele
apetite incrível?" "Não
sei... perdi a fome." "Pensei que você não viesse esta manhã." "Temos
que preparar o plano para o assalto..." "Acho que por enquanto não vou precisar
da sua ajuda.
Nem depois. vou tentar limpar a Reynolds, mas vou fazer isso
sozinho."
108
"Você sozinho? Você está louco?" "Estaria louco se deixasse você vir
comigo." "Nem pensar.
Ou fazemos o assalto juntos, ou não fazemos nada." "Perfeito. Não
fazemos nada! Adeus Audrey, foi um prazer te conhecer." Audrey decidiu
mudar de tática. Percebeu
que com Kevin era mais fácil obter as coisas com docilidade, sem
ameaças nem chantagens. Levantou-se do sofá e foi sentar-se no braço da
poltrona onde ele estava
sentado. Ele ficou surpreso. "O que é que você quer?" "Kevin, querido,
você não acha que é uma bobagem a gente brigar? Você não acha que
conversando nós podemos
chegar a alguma conclusão?" "Volte e se sente lá no sofá", pediu Kevin.
"Ah! Não banque o durão agora..." Audrey deslizou a mão pela manga do roupão
acariciando
o braço e Kevin. "A ideia do roubo é minha e quero te ajudar."
"Audrey, por favor..." Ele tinha a voz meio rouca e perturbada. "Kevin, vai ser
um assalto incrível.
Você vai entrar para a história como o melhor ladrão de todos os
tempos. O roubo dessa joalheria vai ser a consagração da tua carreira e ao
mesmo tempo uma obra
de caridade, graças
109
à qual os teus pecados serão todos perdoados." Ainda sentada ao seu
lado acariciou-lhe o rosto e depois foi descendo pelo pescoço até alcançar o
decote
do roupão. Depois brincou com algumas mechas do seu cabelo ainda
úmidos. O coração dele batia disparado... "Audrey, por favor!" Talvez ele não
esperasse uma atitude
assim, ou talvez ele a desejasse muito. Ele pegou em sua cintura e
Audrey deslizou para o seu colo. Ela abraçou seu tórax musculoso e apoiou o
rosto no pescoço
dele; sentia o calor que subia de seu corpo e o cheiro viril da colônia
que ele usava... Os lábios de Kevin começaram a deslizar pelo rosto dela
desenhando pequenos
círculos que a excitavam muito. De repente seus lábios se
encontraram. Quase com violência e ao mesmo tempo dóceis como ela os
recordava. O beijo tornou-se profundo,
lânguido, enquanto a língua de Kevin invadia sua boca numa lenta e
persuasiva exploração. Foi, de novo, um momento encantador. Audrey fechou os
olhos, desejando
não pensar em nada. Sentia as batidas fortes do coração e o calor do
corpo dele junto ao seu, enquanto sensações que ela nunca tinha experimentado
a aprisionavam
e faziam seu
110
corpo queimar... Não havia mais nada ao seu redor. Como um náufrago
que se agarra à última madeira frágil para não se afogar. Ela então o abraçou
com força e gemeu de prazer. Foi um instante de satisfação... Kevin a
jogou sobre o sofá. Ela caiu em cima das almofadas e tinha os olhos arregalados
de susto.
"O que foi?..." Kevin se pôs de pé e a olhava como se a quisesse matar.
Os cabelos despenteados caíam por sua testa. Tinha os olhos obscuros e
perturbados.
"Audrey, fique longe de mim." Ele a advertiu com uma dureza
incompreensível para ela. Ela empalideceu. "Eu...?", murmurou temerosa Audrey
com vontade de chorar.
Parecia que ele a detestava. " Kevin passou os dedos entre os cabelos
jogando-os para trás e suspirou profundamente. "Você está brincando com uma
coisa muito perigosa,
menina" disse num tom sério, com o dedo em riste. Não! Ele não podia
maltratá-la assim, mudando de humor de uma hora para outra, irritando-se com
ela sem sequer
explicar o porquê. Era injusto! Na noite anterior ele tinha dito que a
achava bonita e demonstrou sentir-se atraído por ela. E no entanto agora a
rejeitava como
se ela lhe desse nojo... Audrey
111
o olhou furiosa. Devia estar louco, devia ir a um psiquiatra contar as
suas incompreensíveis mudanças de humor. "Acho que você
devia - tratar dos seus nervos, Kevin Hawks!" "Os meus nervos sempre
estiveram muito bem. E ainda estão, pelo menos conseguem te manter longe
dos perigos, ainda
que você insista em se arriscar." "Perigos? Que perigos?" "Audrey, eu
não quero complicações. Por isso, de hoje em diante você não deve mais vir aqui.
Se queremos
nos encontrar o faremos em um parque ou num bar, onde você quiser,
menos em minha casa." "Você tem medo que eu estrague alguma coisa?" "Não
brinque comigo, Audrey.
Você pode se dar mal." "Agora chega!" Audrey ficou em pé porque
queria encará-lo. "Você diz coisas que eu não consigo compreender, como um
enigma. E tem ataques
de nervos como uma solteirona amargurada. Você está neurótico." "Eu
queria saber quem não estaria neurótico se estivesse no meu lugar. Talvez você
não tenha se
dado conta, mas eu não sou de ferro. Dentro deste roupão tem um
homem que por acaso está vivo: carne, sangue, ossos e... tudo mais." "O que é
isso? Uma aula de
anatomia?"
112
-"Eu acho que há muitas partes do corpo humano que você não
conhece. Principalrnente do corpo masculino!" "Eu era a melhor aluna em
ciências,
sempre tirei ótimas notas." "Ah, é? E o que você estudava? As
abelhas? Os peixinhos coloridos?" "Não estou te entendendo, Kevin." Então
abriu-se no rosto dele um
sorriso debochado. "Se você insistir eu vou acabar te dizendo, mas
depois você não reclame." "Reclamar de quê; não, eu não vou reclamar. Diz!"
"Está bem. Audrey,
você é uma jovem..." "Que intuição! É a descoberta do século!" "... E eu
sou um homem." "Ah é? E isso é um problema?" Ele não aguentava mais. "É sim."
"E por quê?"
"Porque eu já superei a fase dos beijinhos. Não sou um menino. Tenho
trinta e seis anos e acontece que quando me excito, não me satisfaço brincando
de namoradinhos
e... pare de me olhar com essa carinha de cordeiro indefeso. Isso me
deixa louco!" Ainda que sua atitude fosse violenta, Audrey não se zangou. Kevin
acabava de dizer
uma coisa que ela gostou muito. "É verdade que eu te excito, Kevin?",
perguntou orgulhosa e surpresa.
113
9

- "Você me acha excitante Kevin?", perguntou ela outra


vez. "Acho. Está contente agora?" Parecia que ele a estava acusando
de alguma coisa, mas Audrey se sentia tão feliz que não queria estragar aquele
momento. "bom...
Eu também... eu acho você muito atraente. Eu gostaria de transar com
você...", atreveu-se a dizer aquelas palavras que arrancou do fundo de si. Então
olhou para
ele que parecia encabulado e surpreso. Kevin fechou os olhos. Estava
muito perturbado. "Audrey, eu acho que é melhor para todos nós..." Estava
tremendo. Ela então
se aproximou e acariciou o rosto dele. "O que foi que você disse...
querido?" "Meu Deus!"
114
"Kevin, o que é que você tem? Parece que está assustado." "Estou
aterrorizado.
Volte a se sentar no sofá, por favor!" "Kevin, quando você me beija e
me abraça é maravilhoso. Eu não quero me sentar no sofá... você sabe o que eu
quero dizer,
ainda que não o reconheça." Audrey o abraçou novamente. Kevin
resistiu um pouco no princípio, mas logo depois Audrey estava em seus braços e
eles se beijaram profundamente.
De repente ele perdeu o controle. Audrey sentia as mãos carinhosas
dele explorando todo o seu corpo com ousadia. Aferrada ao seu peito, ouvia o
seu coração pulsar
disparado. O que é que eles estavam fazendo? O que pensaria a madre
Rosário...? Não importava. Fazia aquilo porque estava loucamente apaixonada.
Ha seguramente
o queria muito e com o que há de sublime no amor entre um homem e
uma mulher, se Deus não o consentisse, não nos daria a possibilidade de nos
apaixonarmos. Ela
percebia que o melhor era que cada um fizesse o que desejasse sem
sentir culpas. Era melhor do que se arrepender por não ter feito. E se perdeu
nas sensações maravilhosas
que seu corpo oferecia na descoberta da sexualidade. Kevin estava
abraçado a ela e demostrava um desejo também intenso. Seus

115
braços musculosos a envolviam e davam segurança... Ele lentamente a
deitou na cama, olhando-a fixamente nos olhos e Audrey já não tinha nenhuma
dúvida.
Queria chegar até o final, porque sabia que seria maravilhoso e
inesquecível. Ele segurou o rosto de Audrey entre as mãos e disse: "Sei que
depois me odiarei pelo
que estou fazendo, mas te juro que não posso resistir." Por que
deveria resistir? Para Audrey o importante era que eles estavam ali e ela se
sentia muito feliz.
Kevin tirou a camiseta que ela estava usando... seus dedos deslizavam
com delicadeza. Audrey fechou os olhos e gemeu de prazer. Ele a beijou na
testa, nos olhos,
nos lóbulos das orelhas. Depois no pescoço e escorregou os lábios até
os mamilos eretos. "Oh!...", murmurou Audrey enquanto se estremecia e
pronunciava coisas incompreensíveis.
Guiada por seu instinto, passou os dedos pelos cabelos de Kevin e lhe
acariciou a nuca, enquanto estava em seus braços. Depois de alguns minutos
percebeu que os
dois estavam nus. O corpo de Kevin era robusto, vigoroso e sua pele
ardia. Era incrível saber que nada os podia separar... "Audrey, você é
maravilhosa", sussurrou
Kevin. A sua voz parecia distante, inebriada de prazer. "
116
"Por favor, ajuda-me a parar. Ajuda-me Audrey!" Parar agora, por
quê? Eles se amavam ainda que Kevin
não soubesse. Mas ele o descobriria. Desta vez foi ele quem gemeu.
Então ele a segurou pela cintura e a colocou sobre seu corpo. "Você sabe o que
nós estamos fazendo?"
Audrey nunca poderia imaginar que ele fosse tão indeciso. Talvez
fosse escrupuloso demais. Claro que ela sabia o que eles estavam fazendo.
"Sei...", murmurou olhando-o
nos olhos. "E você está decidida...?" Audrey não queria continuar
conversando. Queria que ele a abraçasse, beijasse, tocasse... tinha o olhar
ardente de desejo.
Kevin pegou uma de suas mãos e a aproximou aos lábios. Acariciou a
palma da mão com a ponta da língua. Depois, lentamente, enquanto a olhava
diretamente nos olhos,
a colocou sobre seu pênis ereto e latejante. Audrey, estava surpresa.
Ela já sabia como eram os homens. Mas na realidade eram diferentes do que
diziam os livros.
Mas ela não estava assustada. Sentia uma excitação quase
incontrolável. Acariciava o corpo dele com a ponta dos dedos e se sentiu
inebriada quando o ouviu gemer
de prazer, com os olhos fechados, indefeso diante dela.

117
Sentir que ele gozava com seus carinhos era maravilhoso. Dava a ela
uma sensação de poder inexplicável. Audrey era quem dominava a situação.
Kevin lhe
pertencia e desfrutava com ela... Ela continuou com carícias cada vez
mais atrevidas... quando ele arfava quase a ponto de perder o controle, então
ela parava.
E recomeçava... Quanto tempo durou este jogo sensual? Nem mesmo
Audrey sabia. Era como se o tempo tivesse parado, como se estivessem dentro
de uma bola de cristal,
perambulando pelo cosmo. Acariciou-lhe o tórax com os lábios. Kevin a
segurou pela cintura e mudando de posição, ficou em cima dela. "Vem aqui...",
murmurou com
uma voz profunda. Audrey também já não podia aguentar mais de
desejo. Kevin lhe acariciava o corpo, detendo-se nos seios, no ventre, descendo
até a delicada penugem
do púbis. Depois com a ponta dos dedos tocou suas partes mais
sensíveis e ardentes. Acariciou-lhe a vulva enquanto eles se olhavam e ele
observava cada expressão,
cada gemido de Audrey. "Querida... Audrey você não sabe o prazer
que pode dar a um homem... a mim!" com um gesto delicado lhe abriu as pernas,
olhando fixamente
nos olhos. Penetrou devagar, mas com decisão. Um movimento final e
Audrey sentiu seu pênis enorme e
118
quente preenchendo todo seu ventre. A primeira sensação
foi uma dor que explodiu dentro dela como uma flecha incandescente.
Ela pensou que não aguentaria. Tinha todos os músculos tensos. "Não, Audrey.
Assim não...",
murmurou Kevin, beijando-a no pescoço, nos lábios. "Relaxa... meu
amor, e a abraçou com força e ela sem saber por que, se foi pelo significado de
suas palavras
ou pelo tom de sua voz, mas a dor foi desaparecendo e deixando
apenas o prazer como uma onda do mar arrasta tudo o que encontra. Um oceano
de paixão, incontrolável.
"Sim, Audrey, assim...", sussurrava Kevin, se mexendo dentro dela. A
princípio devagar e depois cada vez mais rápido, adaptando o ritmo até que os
dois estavam unidos
num só movimento. O prazer aumentava e culminou com um
estremecimento que brotou de suas almas. Audrey não teve um orgasmo e
gemia profundamente. Kevin, com as mãos
em suas cadeiras, estava explodindo e a encheu de um calor úmido.
Ficaram abraçados por mais algum tempo. Kevin lhe acariciava a testa com
beijos suaves. Pouco a
pouco sua respiração voltou ao normal. Audrey estava com frio. Kevin
como se tivesse lido o seu pensamento a cobriu com um lençol. "Como você se
sente?", perguntou
ele meio tímido.

119
"Bem", respondeu ela. "Perfeito..." Kevin suspirou. "Suponho que eu
deveria te dizer que sinto muito, que não queria fazer isso." Ela não entendeu
bem. Por
que ele lamentava? Kevin se levantou da cama. Estava nu, parecia uma
estátua grega. "Audrey, eu não sei exatamente o que você espera de mim,
mas..." Teve pena dele.
Estava muito nervoso. "Não se preocupe, Kevin. Eu queria fazer isso,
porque nos amamos. Quando a gente conseguir o dinheiro e resolver a situação
da Casa de Caridade
nos casaremos. Sei que você é bem mais velho que eu mas não me
importa." Kevin pôs a mão no rosto e balançou a cabeça. "Audrey, temos que
conversar." "Está bem,
fica tranquilo. Eu nunca sonhei com um casamento em grande estilo.
Pelo contrário, não queria me casar. Queria passar toda a minha vida com os
velhinhos, cuidando
deles e vivendo no asilo. Mas agora que eu te conheço, mudei de ideia...
e olha que no princípio eu náo fui com a sua cara." Sorriu. "Só Deus conhece o
nosso destino...
nunca pensei que me apaixonar fosse tão bonito; formaremos uma
família maravilhosa, Sombra", disse piscando um olho para Kevin. Kevin olhou
para o alto, abriu os
braços num gesto de desconsolo. "Meu Deus, o que é que eu
120
faço com ela?" Deu as costas e foi para o banheiro. Do quarto onde ela
ainda sonhava com o que acabava
de acontecer e com o futuro que os esperava, podia ouviar o barulho
do chuveiro. Audrey ficou na cama, como uma gatinha. Sentia-se no céu. Fechou
os olhos. O amava...
muito. Sua vida com ele seria magnífica. Ela gostava muito daquele
apartamento. Só faltava um baú antigo para guardar as peças íntimas... Kevin
voltou ao quarto
muito bem vestido, mas com a mesma expressão de antes. "Se arruma
que nós vamos sair", disse. "Quero tomar um pouco de ar." Ela também estava
com vontade de andar.
Foi ao banheiro, tomou banho e vestiu o vestido que Kevin tinha
comprado no dia anterior. Depois olhou-se no espelho. Estava contente com a
sua imagem. Vestida
daquela maneira parecia outra... Ou se via diferente porque já era
mulher...? E Kevin! Onde estava? Foi para a sala e ele estava lá, olhando pela
janela. "Estou
pronta...", avisou. Depois lhe perguntou: "Eu estou bem?" Ela esperava
receber um elogio mas ele a decepcionou. "Está usando um vestido." E foi para
a porta. Na
rua ele lhe deu o braço e começaram a caminhar pela calçada. Era um
lindo dia. O ar estava limpo. O sol brilhava e
121
as pessoas estavam contentes. Ou pelo menos
era o que Audrey imaginava. "Aonde vamos?", perguntou ela. "Não
sei..." Coitado, ainda estava emocionado! "Por que não vamos comer fora como
no dia em que nos conhecemos?"
Ele olhou para ela e perguntou: "Você está com fome?" "Já é quase
meio-dia. Você não está com fome?" "Não. Para dizer a verdade sinto uma
estranha sensação no estômago."
"É mesmo? Por quê?" Kevin ia dizer mas ficou calado como se não se
atrevesse a dizer o que estava pensando. "Por nada...", murmurou. Deus do céu,
em que confusão
tinha se metido? Como ia explicar a ela que não queria se casar? Teria
que encontrar um jeito. Foram comer num restaurante muito bonito que havia
perto do escritório.
Audrey comeu tudo, inclusive um bom pedaço de torta. Kevin não
entendia como uma mulher tão magra podia comer tanto. Lembrou-se de suas
amigas que viviam fazendo
regime. Morreriam de inveja se conhecessem Audrey. Saíram do
restaurante às duas da tarde. "Aonde vamos?", perguntou Audrey. E antes de
ouvir uma resposta disse:
"Eu gostaria de
122
ir ao parque de diversões de Coney Island... o que é que você acha?"
"Não posso, Audrey. Tenho que trabalhar. Faz três dias que não vou ao
escritório
e já devem estar preocupados comigo. Por que você não volta para
casa?" "Vestida assim? Primeiro tenho que ir à sua casa mudar de roupa. Senão
a madre Rosário...
Falando nisso, posso contar a ela sobre nós dois?" "Não. Pelo amor de
Deus, não!" "Você tem razão. Depois eu conto", ponderou Audrey. "Se você
quiser, eu te deixo
as chaves de casa. Você pode deixá-las embaixo do capacho." "Que
ingenuidade. Você não sabe que este é o primeiro lugar que os ladrões olham
quando vão roubar? Às
vezes, eu não te entendo Sombra." Kevin balançou a cabeça. "Está
bem. O que você acha que nós podemos fazer?" "Eu te acompanho até o
escritório..." "Audrey, eu tenho
muito trabalho, tenho que conversar com meus assistentes e..."
"Imagino que haja uma sala de espera, não? Eu te espero." "Você já decidiu
tudo sozinha." "É a melhor
solução, Kevin!" Na verdade ela queria ver onde ele trabalhava, queria
conhecer seus assistentes. Ele
123
era o homem de sua vida e Audrey queria saber tudo sobre
ele. O escritório ficava no vigésimo terceiro andar de um edifício, no
centro. Tomaram o elevador e ao chegarem Kevin abriu uma grande porta de
vidro onde se lia
General Seguradora Ltda. Havia uma sala muito grande e uma dezena
de secretárias trabalhando. Kevin e Audrey passaram entre as mesas,
cumprimentando as funcionárias.
Percorreram um longo corredor onde havia muitas portas, e ao final,
entraram numa sala ampla e bem decorada. Havia uma secretária em uma mesa.
Havia também um sofá
e ele disse a Audrey que se sentasse. A secretária se levantou, disse
boa tarde com um sorriso simpático e dirigindo-se a Kevin disse: "Chefe, Max
está procurando
pelo senhor desde ontem. Ele está muito preocupado com..." Calou de
repente e olhou para Audrey,"... Como vão as coisas." Kevin olhou os envelopes
que estavam em
cima da mesa. "Está bem. Eu vou esperar por ele no meu escritório.
Localize-o e diga que eu preciso falar com ele." Dirigiu-se novamente à
secretária."Por favor",
disse. "Ofereça um café à moça." E desapareceu detrás de uma outra
porta.
124
A secretária se sentou, fez uma série de chamadas telefônicas para
localizar o tal
Max e depois ocupou-se de Audrey. Olhou-a como meio perplexa e
sorriu. "Você quer um café...?" Audrey se assustou. Estava distraída olhando ao
redor e já tinha esquecido
da secretária. "Não obrigada", respondeu sorrindo. Ela gostou do
escritório de Kevin. Quando eles não estivessem juntos pensaria que ele estava
ali. "É enorme este
escritório...", exclamou. "É verdade." "Trabalha muita gente aqui?"
"Contando com os de fora, são quase trinta." "E o que fazem os de fora?" A
secretária olhou-a
fixamente: "É a primeira vez que você vem aqui, não é?" "É mas daqui
para frente vamos nos ver com frequência." "Por que, você vem trabalhar aqui?
É uma nova funcionária?"
"Não! Eu sou a noiva do senhor Hawks." A secretária ficou de boca
aberta e deixou cair a caneta da mão. "Você é a noiva do...? E desde quando?"
Kevin Hawks tinha
caído na rede do amor! Ela não podia acreditar! Era o solteirão mais
cobiçado de Nova Iorque... "Faz pouco tempo..." Audrey estava feliz de poder
falar com alguém
do seu amor. "Foi
125
à primeira vista. Nos conhecemos por casualidade e..." A secretária
apanhou a caneta. Estava atónita. Olhou para Audrey com respeito.
Um homem entrou na sala. "Boa tarde. Lucy, o chefe está?", perguntou
apontando para a porta de Kevin. A secretária disse que sim. "Está. Está aí
dentro, mas...
você já conhece a noiva dele?" "A noiva de quem?!" "Do senhor
Hawks", respondeu ela. Max a olhou como se estivesse vendo um marciano.
Estendeu-lhe a mão e disse:
"Muito prazer. Eu sou Max Voller." Era um rapaz de uns trinta anos
com um aspecto simpático e um corpo muito bonito. "Muito prazer. Eu me
chamo Audrey Daves." Ele
permaneceu ali olhando com um sorriso meio idiota que começou a
incomodar Audrey. Naquele exato momento Kevin saiu de seu escritório. "Max,
estava te esperando..."
Depois, como se tivesse se dado conta de alguma coisa, olhou
fixamente para o jovem. A expressão de seu rosto se fez mais severa. "Quer
fazer o favor de andar logo,
ao invés de ficar aí perdendo tempo."
126
10

Kevin se sentou numa poltrona vermelha que havia perto da mesa, de


frente para a janela. Podiam ver os enormes edifícios
de Nova Iorque que brilhavam com o sol. Max se sentou. "Chefe temos
que falar de alguns problemas, mas..." "Mas o quê?", perguntou Kevin, sem olhar
para o rapaz.
"Você não acha perigoso trazer aqui a sua noiva?" Kevin levantou o
olhar. "Minha noiva?!" Max ficou surpreso. "E aquela moça que está aí fora,
Audrey..." "E por
que você está dizendo que ela é minha noiva?" "Lucy me apresentou
como sua noiva."

127
Kevin balançou a cabeça: "Lucy está ficando louca." "Pois a moça me
cumprimentou como se fosse verdade", insistiu Max. Audrey sempre tinha que
ir além do
que devia. Kevin não sabia o que dizer. Max estava achando que Kevin
não respondia nada porque era verdade. "Pensei que você nunca cairia na
armadilha do amor. Mas
isso é um problema seu. Já imaginou se chegasse aqui Mary Jane? Iria
por água abaixo todo o trabalho dos últimos seis meses." Kevin sorriu com
sarcasmo. "Não se
preocupe porque esse trabalho nós já perdemos. Mary Jane me
deixou, faz alguns dias." "Não acredito! Estava louca por você." "Ah, sim?" "E
por que ela te deixou?"
"Estávamos saindo de casa e..." O que é que ele estava dizendo? Que
Audrey tinha estragado tudo? Não, preferiu ficar calado e pensar no problema
principal. "Max,
você se lembra do trabalho que fizemos há dez anos, no departamento
de jóias do Banco Central Europeu?" "Foi um sucesso!", respondeu Max. "Pois eu
preciso de um
aparelho daqueles que usamos naquela ocasião. Os projetos ainda
devem estar arquivados." "Uma chave magnética?"
128
"É, uma pequena." "Você sabe o código de acesso?"
"Não." "E a sequência do programa?" "Também não..." "Tem algum
contato novo que você não
me falou?" "Não. Trata-se de um assunto pessoal. E é melhor para
você não
saber muito." "Você está me deixando preocupado!" "É bom você ter
muito cuidado." "Chefe, faz tanto tempo que nós trabalhamos juntos e você
agora não confia em mim."
"Claro que eu confio em você, mas esta é uma história muito especial."
Max sabia que era melhor não insistir. "Está bem, mas se eu não tenho as
informações necessárias
não posso preparar o decodificador." "Siga o projeto e acrescente um
microcomputador no painel de controle. Do resto me encarrego eu mesmo. Que
tamanho tem?" "Mais
ou menos como uma televisão portátil e pesa uns oito quilos." "Quando
fica pronto?" "Hoje é quinta-feira... sábado à tarde. O que você quer fazer,
assaltar um banco?"
Kevin olhou para Max, mas não disse nada.
129
Depois de alguns minutos saiu do escritório com Audrey. Seu humor
estava piorando. Foram ao seu apartamento e ela
mudou de roupa. Depois ele a levou até o asilo. Antes de sair do carro
Audrey acariciou o rosto de Kevin. "Tchau. Até amanhã." "Não, Audrey. Amanhã
não." "Por quê?"
"Porque amanhã eu tenho trabalho." "E Reynolds?" "Sábado à noite."
"Você já planejou tudo? Você é maravilhoso; o senhor Gibson tinha razão!"
"Deve ser um velhinho
simpático." "Audrey, eu não sei se vai funcionar e não quero que a
polícia me apanhe." "Não se preocupe. Se não funcionar encontraremos outro
lugar." Kevin queria
se livrar dela. "Está bem, tchau." "Espera. Como combinamos para o
sába do?" "Você fica aqui no asilo." "Quero estar contigo.", "Está bem." Chegou
mais perto e lhe
deu um beijo no rosto. Depois desceu do carro e entrou no asilo. Kevin
esperou que ela entrasse. Depois suspirou com alívio e foi embora. Audrey era
130
um tormento!
Mas no fundo ele gostava. Dirigia pensando nela e não sabia por quê.
Não a suportava, mas quando ela não estava ele sentia a sua falta... Audrey!
Conseguia tudo
o que queria. Aterrorizava-o a ideia de se converter em marido. Não,
nem pensar. Ele era um solteirão e gostava disso. Queria ser livre. Imaginou o
seu apartamento
cheio de crianças, porque Audrey seguramente ia querer uma família
muito grande. Um monte de coisas espalhadas pelo chão e ela cozinhando com
um bebê nos braços.
"Você comprou os remédios das crianças...? Vamos ter que vender o
Porsche para poder pagar o dentista das crianças..." Era horrível pensar
naquilo. Ele gostava
muito de Audrey. Balançou a cabeça pensativo e despertou quando um
taxi o ultrapassou buzinando. O taxista fez um sinal para dizer que ele estava
dirigindo mal.
Kevin não deu atenção e continuou distraído pensando em Audrey.
Admitiu que tinha se apaixonado por ela no momento que a tinha visto. Mesmo
ela não sendo o seu
tipo ideal até então. Era magra e muito jovem. Tinha os peitos
pequenos e as cadeiras estreitas. Mas quando estava com ela se excitava muito!
Queria acariciá-la
o tempo todo... Na manhã em que Audrey se sentou no braço da
poltrona e o olhou nos olhos ele

131
ficou paralisado e seu coração batia a mil por hora. Fez uma curva e
foi até a ponte. Afrouxou o nó da gravata. Pensava em Audrey e sentia calor...
E a desejava.
Pensava em sua boca, em seu corpo... Freou de repente e um homem de
meia-idade o xingou. Quase atropela o pobre pedestre. Onde estava com a
cabeça? Em Audrey. Sonhava
com ela de dia e de noite. Precisava se concentrar no assalto para
poder salvar o asilo e voltar à sua vida normal. Será que conseguiria? A rua
estava deserta. Kevin
olhou o relógio. Era a hora de atuar. A polícia ainda ia demorar
cinquenta minutos em passar por Reynolds. Se não houvesse nenhum imprevisto
poderia sair bem aquela
primeira parte do trabalho. Parou a uma certa distância, pegou os
equipamentos no carro e se dirigiu à joalheria caminhando pegado à parede,
com muito cuidado.
Apenas se via sua sombra. Estava todo de preto e usava uma jaqueta
de couro. Corria o risco de ser visto mas, com um pouco de sorte... chegou à
fachada principal
da joalheria. Ninguém por perto; nem bêbados, nemt vagabundos...
Tudo saía como o previsto. Kevin arriou os instrumentos. Abaixou para pegar o
que necessitava, quando
de
132
repente ouviu um ruído. Levou um susto e um suor frio escorria por
suas costas. Esperava que fosse um animal, talvez um gato... ouviu novamente o
mesmo barulho.
Era uma pessoa e vinha do final da rua como se estivesse se
aproximando. Ele se virou devagar... "Olá, querido!", disse Audrey. "Audrey!?"
Ele não acreditou no que
via. "Você pensou que eu te deixaria sozinho? Este trabalho é nosso."
"Você está louca. É irresponsável, uma..." "Assim, vão acabar nos escutando!"
Kevin teve vontade
de dar um soco nela. Estava furioso. "Como você saiu do asilo no meio
da noite?" "Pulei uma das janelas laterais." "Você está..." "Foi fácil. Todos
dormem como pedras."
Ela olhou para um lado e outro da rua e perguntou: "Bem, por onde
começamos?" "Por lugar nenhum. Se você não vai embora eu não vou fazer
nada." "Kevin, pare com
isso! Eu vim te ajudar." "Olha aqui, isso para você é uma brincadeira,
mas se nos apanham, vamos apodrecer na cadeia, entendeu?" "Sei
perfeitamente que isso não
é uma brincadeira. Por isso quero estar contigo. A
133
ideia foi minha e você precisa da minha ajuda. Eu também não quero
acabar na cadeia, mas se continuamos discutindo,
é o que vai nos acontecer. E você dar para trás agora que eu não vou
deixar, entendeu?" "Muito bem!..." Pouco lhe importava se Audrey for parar na
cadeia! Se fosse
presa seguramente a soltaria em dois dias, porque senão ela
revolucionaria todo o presídio. Pegou uma espécie de tubo flexível e pediu que
ela o segurasse. "Toma,
e faça o que eu mandar sem reclamações." "Está bem Sombra..." Kevin
tinha vontade de apertar o seu pescoço. Mas talvez fosse melhor ser
condenado por roubo que por
homicídio. Colocou um cinturão de couro cheio de ferramentas.
"Espere aqui", disse. "Aonde é que você vai?" Ele a olhou com uma cara muito
séria e disse: "vou para
o inferno, Audrey, para o inferno..." E dirigiu-se até a porta principal
do edifício. Audrey ficou observando se alguém se aproximava. Kevin forçou a
fechadura
da porta que era de vidro e aço. Depois de uns cinco minutos voltou
para junto de Audrey. Ela estava muito nervosa. "Por que você está forçando a
porta principal?
Não tem uma porta de emergência ou uma janela? Aqui tem muita luz,
poderia te descobrir."
134
"Se você não calar a boca eu te levo de volta para o asilo a ponta-pés,
daqui até o QueenL." "O senhor Gibson não entendia porque você tinha
deixado de roubar, mas agora eu já sei... A Sombra já não serve para nada!"
Kevin devia se concentrar
no que estava fazendo, e não dar atenção a Audrey. Forçou as três
fechaduras da porta principal. Agora deveria cuidar das células fotoelétricas
que estavam sobre
a porta. Audrey não sabia o que era aquilo. "São espelhos? O que você
vai fazer com estes espelhos? Nunca vi um ladrão que utiliza espelhos para
roubar." Kevin continuava
indiferente. "Por que você não me responde?" Ele finalmente
conseguiu abrir a porta principal. Era um momento muito delicado e tiveram
sorte de que ninguém passou
por ali naquele momento. com uma espécie de arco metálico que tinha
vários espelhos colados, Kevin contornou o portal por baixo. Depois voltou para
perto de Audrey.
Ainda que não parecesse um trabalho pesado, o fazia suar muito.
"Você deixou a porta aberta. Se alguém passa, vai perceber e chamar a polícia."
Kevin, concentrado
no que estava fazendo, quase não deu atenção: "Duvido", respondeu.

135
No final da rua apareceram as luzes de um carro. Kevin segurou o
ombro de Audrey
e os dois se abaixaram ocultando-se na sombra. "Não se mexa", disse
ele. Ela
obedeceu. O carro passou muito rápido e Kevin respirou fundo,
aliviado. "Será que eles não viram nada?" "Acho que não." "Por que você está
tão seguro?" "Não estou
seguro, mas espero pelo meu bem que não tenham visto." "Você é
muito hábil, mas se eu soubesse teria trazido meu ursinho de pelúcia para nos
dar sorte." Kevin saiu
rapidamente levando uma espécie de caixa, grande, preta, com uns
aparelhos e pequenas luzes de várias cores. Ele usava também uma espécie de
cabo que parecia mover-se
sozinho. Era uma profusão de aparelhos e ferramentas. Audrey se
esforçava em acompanhar os movimentos de Kevin mas não conseguia. Tentou
se aproximar um pouco e
Kevin levou um susto enorme quando a viu tão perto. "Volta para onde
você estava...!" "Quero ver..." "Não!" O cabo que já estava no chão, dentro da
loja levantou-se
e começou a se mover como em um número de circo...
136
"Já que a porta está aberta, por que não entramos e pegamos o que
queremos?", perguntou ela, assombrada e
completamente confusa. "... E em menos de três minutos toda a policia
de Manhattan estará aqui." "Então o que vamos fazer?" "Tentaremos desligar
os sistemas de alarme."
Audrey viu o cabo com vida subindo como uma serpente por uma das
paredes da galeria da entrada, a uns quatro metros da porta. Depois continuou
deslizando até uma
espécie de placa transparente. Kevin suspirou. "Audrey, agora reza, já
que você sabe." Ela obedeceu. Kevin começou a manipular um painel luminoso
que havia na caixa
preta. Mexia em pequenos botões e alavancas. Era como se o tempo
estivesse parado. Estavam ali, numa calçada, ocultos numa sombra,
encurralados junto a uma espécie
de televisão e diante de uma das joalherias mais famosas do mundo...
Ouviram um clic. O ruído pareceu altíssimo, no silêncio da noite. "Pronto", disse
Kevin. Ele
então se levantou e entrou na joalheria. "Vem, mas não toque em
nada", disse a ela. Ele tinha conseguido. As jóias da Reynolds estavam ao seu
alcance...

137
Kevin se aproximou de um dos mostradores e apontou uma espécie de
controle remoto sobre quatro pontos da base. Retirou com cuidado a tampa de
cristal e passou
a outro mostrador. E assim, abriu vários. Jogou para Audrey um saco
de tecido preto e lhe disse: "Toma. Enche a sacola, mas com cuidado." Depois
foi para o fundo
da loja. Audrey estava encantada em estar manipulando aquelas jóias
tão bonitas. Era fantástico poder tocá-las... Kevin voltou correndo à sala e
disse: "Rápido.
Vamos embora..." "Eu não acabei. Ainda falta um mostrador cheio; os
anéis e..." Ele a agarrou pelo braço. "Maldição! O alarme disparou e em poucos
minutos estarão
aqui. Vamos!" Ela não estava ouvindo nada mas imaginou que devia
obedecer. Kevin recolheu depressa os equipamentos e saíram correndo até o
carro. Mal entraram no
carro começaram a ouvir as sirenes da polícia chegando à joalheria. O
carro estava estacionado numa esquina transversal e Kevin saiu disparado e
derrapando.
Durante os primeiros quilómetros ele corria como um louco. Depois foi
a uma velocidade normal, como se já estivessem livres do perigo. Cruzaram com
a polícia que

138
passou em vários carros disparados. Giraram à esquerda e entraram
em uma rua cheia de carros e locais noturnos, onde puderam se camuflar. Kevin
estava mais
tranquilo. Sorriu como uma criança contente. "Conseguimos!" O desejo
de Audrey tinha se cumprido. Ela quase não acreditava. Era uma ladra quase
profissional,
mas o importante era que a Casa i de Caridade poderia seguir
funcionando.
139
11

Entraram no apartamento de Kevin e Audrey olhou para o relógio da


parede. Eram
quase três e meia da manhã. Ela tinha que voltar para o asilo, senão as
freiras se dariam conta de que ela não estava. Bem que Audrey gostaria de
contar que passou
a noite com seu namorado... Kevin foi direto ao bar e tomou uma dose
tripla de uísque. "E a mim, você não vai oferecer nada?", perguntou ela. "Na
geladeira deve
ter laranjada." "Eu quero alguma coisa mais forte, com álcool..." "Você
é muito jovem e eu já te corrompi bastante." "Deixa de ser moralista."
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Kevin a olhou assustado. "Está bem..."
Abriu o frigobar e tirou uma garrafa de champanhe, cinco graus, como
ele gostava. "Vem aqui", disse. Abriu a garrafa... pegou duas taças
de cristal e serviu a bebida. "Brindemos pela Reynolds e pela Casa de
Caridade... e por você." "Por nós dois", disse ela. Aquele champanhe era muito
bom mas a fez
espirrar. Kevin balançou a cabeça. "Saúde." "Obrigada... é muito bom.
Põe um pouco mais?" Estendeu o braço aproximando a taça já vazia. Kevin a
encheu novamente.
"Você adora a boa vida." "E isso não é bom?" "Não sei... bem, vamos
ver o que conseguimos." Pegou a sacola preta, abriu-a e derramou as jóias. Uma
cascata de luz
se espalhou sobre a mesa de vidro... "Nossa!", disse Audrey. Kevin
acariciou as jóias. "Que maravilha!..." "Quanto você acha que tem aí?" "Uns três
ou quatro milhões
de dólares", respondeu Kevin sem tirar os olhos das jóias. "E olha que
não pegamos todas, senão..." "Não seja avarenta, Audrey." "E como você
percebeu que o alarme
disparou?"
141
"Porque fui retirar a fita de vídeo do equipamento de gravação. As
câmaras estão conectadas a um vídeo que grava tudo o que acontece dentro da
loja.
Se eu não o tivesse desligado a polícia nos teria visto roubando,
porque tudo estaria gravado. A sala de controle também estava protegida com
células fotoelétricas,
e quando eu entrei, o alarme disparou e foi quando vi uma pequena luz
vermelha que piscava. Ainda bem que eu me dei conta do que era." "Me
desculpe por ter duvidado
de você. Eu estava muito nervosa e não entendia porque tínhamos que
entrar justamente pela porta principal." "Tínhamos que entrar por ali porque
era o único ponto
fraco do sistema de segurança." "E como você sabia disso?" "Porque
não é a primeira vez que trabalho com este tipo de sistema." "E depois você diz
que não é A Sombra..."
Kevin a olhou fixamente. "Vamos, te levo ao asilo. Como é que você vai
fazer para entrar?" "Pelo mesmo lugar por onde saí!" "Não se preocupe, eu
posso abrir a fechadura
da porta da frente." Ela passou a mão pelo braço dele e disse: "Está
bem, Sombra."
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Kevin estava louco para beijá-la e tê-la em seus braços. Não. Ele não
podia
fazer isso. Devia se conter. "Vamos, já é tarde." No carro, a caminho
do asilo Audrey comentou: "Temos que vender as jóias." "Isso é fácil. Conheço
uma pessoa que
vai se interessar muito." "O teu atravessador é de confiança?" Audrey
continuava pensando que ele era A Sombra. "Podemos chamá-lo assim." "Quanto
você acha que ele
vai nos pagar?" "Quase a metade do que elas valem." "A metade!? Isso
é um roubo." Kevin a olhou e ela desviou o olhar e se calou. "Será suficiente
para salvar o
asilo." "E você poderá ficar com alguma coisa." "Não. Não é
necessário." Chegaram ao asilo. Kevin forçou a fechadura e ela pôde entrar.
Antes de fechar a porta virou-se
para ele e disse: "Foi uma noite muito excitante." "Para mim também."
"vou ficar uns dias sem procurar você. A madre Rosário está desconfiada de
mim, por eu estar
muito tempo fora. E eu quero que ela esteja tranquila até que eu possa
contar tudo sobre nós. Está velha e não quero que tenha mais preocupações."
143
"Está bem. De acordo." "Nos vemos na semana que vem." "Quando você
vier eu já terei o dinheiro. Como você pretende explicar às freiras?" "vou dizer
que alguém
deixou uma bolsa no jardim. Elas vão pensar que é um presente do
Senhor. Se Ele não nos ajudasse nós não teríamos conseguido."
"É mesmo." Audrey o abraçou com força
e o beijou na boca. Kevin teve que se esforçar para não arrastá-la de
volta com ele. Quando chegou em casa, tomou outro uísque. As jóias estavam
em cima da mesa.
Aquele seria o roubo do ano. Eles acabavam de roubar uma das
joalherias mais famosas do mundo. Ele, um experto em assaltos milionários, era
também o chefe de uma
companhia de sistemas de segurança anti-roubo. Era o responsável
pela espionagem industrial, pelos empregados desonestos e de interpretar os
sistemas de segurança.
Por isso não podia se expor a um escândalo nos jornais, como o tinha
ameaçado Audrey. Ele poderia perder to-dos os contratos que tinha... Agora já
não havia perigo.
No princípio não acreditava no sucesso de uma operação na joalheria
Reynolds. Provavelmente os proprietários lhe pediriam
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que ele melhorasse os sistemas de
segurança. Ele achou graça. Sentou-se na cama e riu. Estava
contente... sentia-se como uma criança. Abraçou o travesseiro e fechou os
olhos. Queria que Audrey estivesse
ali com ele! Ela voltou depois de seis dias. Ainda não eram dez da
manhã. Parecia muito bonita e jovem... Ele tinha pensado muito nela e também
no dinheiro que tinham
conseguido com as jóias... "Você leu os jornais?", perguntou Audrey
enquanto eles iam para a cozinha. "Li. Hoje também falam de nós na segunda
página." Audrey se
sentou e Kevin começou a preparar o café. Ela passava manteiga e
geléia nas torradas. "O roubo do ano... E ninguém suspeitou de você, Sombra!"
"Ainda bem", respondeu
ele. "Eu já estou com o dinheiro." "Quanto?" "Dois milhões e
quinhentos mil dólares. Pegamos as jóias mais valiosas." "Nossa! A Casa de
Caridade vai se transformar
num castelo. Todos os velhinhos pobres desta cidade terão uma casa."
"Não exagere, Audrey. Há mais desabrigados em Nova Iorque do que você
imagina."
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Ela suspirou.
"Acho que deveríamos repetir o roubo uma vez por ano. Não na
Reynolds senão em outras joalherias, ou bancos, e com o dinheiro subvencionar
obras beneficentes. Roubar
dos ricos para ajudar os pobres." "Pode ir tirando isso da cabeça. Eu
não me arrisco outra vez por sua causa." Audrey se levantou e lhe acariciou a
nuca. "Senti
muita saudade de você", murmurou beijando suavemente o lóbulo de
sua orelha." Esperava ansioso por aquele momento. Estava louco para estar com
Audrey outra vez,
na cama, e se amarem perdidamente. Abraçou-a com ternura, depois a
beijou com força. Pegou-a nos braços e foram para o quarto. Depois tirou-lhe a
roupa, peça por
peça e em silêncio, admirando a sua beleza. "Você sentiu saudades de
mim, Kevin?" "Chiiiiii..." Ele fez um sinal pedindo que ela ficasse em silêncio. Ele
tinha jurado
que não voltaria a fazer amor com ela. Não queria recordar que ela era
quase uma menina. Queria amá-la como se ela fosse uma mulher adulta. A
mulher que ele amava
e desejava com paixão. Ela era excitante e delicada. Tinha a pele
suave e quente... Ele acariciou seus peitos e brincou com os mamilos tesos de
Audrey, mordiscando
e beijando-os. Ela não sabia exatamente por que ela o excitava tanto.
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Ela também participava daquele jogo erótico. Dominava-o sem fazer
nada. Kevin se sentia
um adolescente diante de seu primeiro amor, escondidos num campo
de trigo... Penetrou com um único movimento, quase feroz. Penetrou
profundamente nela e não parou
nem mesmo quando a sentiu tremer entre seus braços e gemer
devagar. Ela expressava uma mistura de prazer e dor... era uma perda de
controle total e maravilhosa...
ele então gozou, movendo-se com força, pronunciando seu nome e
apertandoa em seus braços, como se tivesse medo de perdê-la. Depois não se
atreveu a olhar Audrey
nos olhos. Perguntava a si mesmo por que tinha se comportado assim.
Não tinha coragem de falar. Audrey o abraçou, apoiando a cabeça em seu peito.
"Foi maravilhoso,
Kevin...", disse. Tocaram a campainha. Ele olhou o relógio e viu que era
meio-dia. Não tinha ido ao escritório. Seria um colega? Max? Quem seria?
"Estão tocando
a campainha. Você não vai abrir?", perguntou Audrey. "Não. Não estou
com vontade. Não estou esperando ninguém. Deixa que pensem que não tem
ninguém em casa..." Mas
continuaram tocando.

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"Você quer que eu abra?", disse Audrey. Ela o olhou, ela estava nua.
Era linda. E a campainha continuava tocando. "Vejamos quem é que vem
incomodar...", disse
levantando-se da cama. Vestiu um roupão e saiu do quarto. Esperava
que pelo menos fosse alguma coisa importante. Abriu a porta. "O que foi que
aconteceu contigo?",
disse a mulher. Kevin ficou pálido de susto. "Mary Jane!" Era a
própria. E no momento mais inoportuno. "Que cara é essa, Kevin?", perguntou já
se acomodando, arriando
o casaco e a bolsa. "Você está doente? Procurei por você durante toda
a manhã no escritório, mas ninguém sabia onde é que você estava." "Mary Jane,
eu..." "Kevin,
eu fiquei esperando que você ligasse para mim. Eu queria me desculpar
pela outra noite, mas você vai entender que era uma situação muito estranha."
"Mary Jane, eu..."
"Não foi culpa sua. E por falar em culpa, posso saber quem era aquela
histérica vestida de mendiga? Onde é que você a encontrou? Não te dava
vergonha falar com ela
na rua?" "Mary Jane, eu queria te explicar uma coisa..."
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O que ele deveria dizer? A verdade? Que não queria vê-la e que ela
desaparecesse de sua vida? Ele tinha
trabalhado durante seis meses investigando um assunto de
espionagem industrial, e estava a ponto de obter as provas contra Mary Jane
Watson, colaboradora pouco
fiel de uma importante indústria química. Ela facilitava as fórmulas
secretas aos concorrentes, mas ele ainda precisava de mais provas para
denunciá-la, precisava
de mais alguns dias... O que ele poderia fazer? Ela agora estava ali e
Audrey estava no quarto!" "Mary Jane. Que bom que você veio." Ela começou a
fazer carícias
em seu braço. "Eu também estou muito contente de te ver." Ela estava
mais perto e começava a explorar o decote do roupão de Kevin, brincando com
os pelos do seu
peito. Ele se sentia meio desconsertado mas precisava ter cuidado.
"Sou uma mulher muito só, querido. Necessito um homem que esteja ao meu
lado. Eu preciso muito
de você..." Ele sorriu. "Eu também senti muito a tua falta." "Devemos
começar a planejar nosso futuro, Kevin..." "Claro, eu também acho." "Eu vou
receber uma boa
quantidade de dinheiro, uma herança! Então faremos uma viagem. Só
eu e você."

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Provavelmente seria o pagamento pelos serviços de espionagem. Ele
precisava saber quando e como receberia o dinheiro. "E quando você vai
receber esta herança,
Mary? Quero sair de viagem contigo o mais rápido possível." "Logo
logo..." Ela rodeou o pescoço de Kevin com os braços e encostou seu rosto ao
dele. "Mary Jane,
hoje eu não me sinto muito bem, estou resfriado e não quero que você
pegue." "Não me importa..." "A mim sim. Estou esperando o médico... ele
conhece toda a minha
família e eu prefiro que ele não te veja aqui." "Que bobagem, Kevin!"
"Para mim não. Ele me conhece desde que eu sou menino e nós temos uma
relação muito formal.
Você poderia voltar mais tarde e..." Ela o olhou meio desconfiada.
"Você está me escondendo alguma coisa, Kevin?" "Claro que não. Eu te amo
Mary Jane." Ela sorriu.
"Então eu vou agora, vou fazer umas compras e volto à tarde." "Não.
Vamos jantar fora." "Mas você não está doente? Como vamos sair?" "É. Vamos
ao Bristot, está bem?"

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Ela concordou e saiu. "Me liga antes de me buscar." Kevin suspirou
aliviado e se deu conta de que as coisas iam bastante bem. Tinha conhecido
Audrey, tinha
limpado a Reynolds sem problemas e o trabalho que ele pensava que
tinha perdido, estava totalmente sob controle. Voltou para o quarto
assobiando. Audrey estava
vestida e tinha os olhos cheios de lágrimas... "O que foi que aconteceu,
querida...?" "Você já sabe", murmurou ela. "Não. Eu..." Depois ele percebeu
porque ela estava
chorando. Audrey ouviu tudo o que ele tinha dito a Mary Jane. Ele
queria dar uma explicação, mas... "Não chore, Audrey." Chegou perto dela, mas
Audrey se afastou.
"Não me toque!", disse furiosa. "Você me dá nojo." "Audrey, querida,
deixa eu te explicar. Eu..." "Não precisa dar nenhuma explicação! Você é um
sem-vergonha e se
aproveitou de mim!" "Não. Se você me deixar falar..." "Não. Eu pensei
que você me amava e que se casaria comigo." Ele achava injusto que ela sequer
o deixasse dar
uma explicação. "Para começar eu nunca te disse isso! Você pensa e
faz sempre o que bem entende, sem consultar ninguém!"

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"Está bem", disse ela entre soluços. "Agora também eu vou fazer o
que quero. Me dá o dinheiro que me corresponde. Está tudo terminado entre
nós." Ela que
fosse para onde bem quisesse! Desde que a tinha conhecido estava
ficando doido. Chegou, inclusive a pensar em se casar com ela. Ainda bem que
as coisas tinham tomado
aquele rumo! Pegou a maleta com o dinheiro e jogou em cima da cama.
"Toma pode ir", respondeu num tom muito aborrecido. "É isso mesmo o que eu
vou fazer", disse
Audrey. Pegou a maleta e se dirigiu à porta sem olhar para trás...
Chegou ao asilo e se sentou diante da janela do seu quarto. Sentia-se arrasada.
Estava apaixonada
por Kevin, mas ele saía com outra mulher. com a atraente Mary Jane...
Se soubesse que ele seria assim não teria se envolvido tanto. Mas ele era
maravilhoso... único!...
e a tinha traído. E dizia que queria explicar alguma coisa... O que
seria? Por que disse a outra mulher que a amava, se tinha acabado de transar
com ela? Sentiu
vontade de ir e ouvir a desculpa que ele inventaria. Iria com a cara
erguida e todo o seu orgulho.
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Kevin estava sentado no salão. Quieto, junto à mesinha de
cristal olhando a caixa branca que tinha diante de si. Suspirou. Estava
com saudades de Audrey... mas ela o odiava... Foi embora sem sequer olhar para
ele e depois
de uma semana ainda não tinha dado sinal de vida. Colocou a mão na
tampa da caixa. Tinha vontade de quebrar tudo... os quadros valiosos, os
móveis... sem Audrey
nada tinha importância. Estava desesperado. Tocaram a campainha...
Ele não queria abrir. E se não fosse ela? Não queria ver ninguém. Abriu a porta.
Era Audrey...
No momento em que ela o viu, compreendeu que não podia viver sem
ele. "Olá...", disse. Ele não respondeu. Pensou que deveria fechar a porta na
cara dela... No entanto,
deixou que ela entrasse. "São dez horas da manhã... eu ainda não tomei
café e..." Ela se encaminhou para a cozinha e ele a seguiu. Por que ele não dizia
nada? Sentou-se
no lugar de sempre enquanto ele preparava o café. "Kevin, sobre o
outro dia... eu queria te dizer que..."

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Ele a interrompeu apenas com o olhar. Saiu da cozinha e voltou depois
de uns instantes e entregou a ela uma caixa branca... Audrey, com as mãos
tremendo,
abriu a caixa. "Que lindos!" Ela não esperava. "Kevin..." "Não! deixa eu
falar." "Está bem, te escuto." "Está claro para mim que eu te amo e que não
posso viver
sem você. Você quer se casar comigo?" Audrey adorava criança. Ele
queria comprar uma casa muito grande para ela. "Kevin, eu quero ter uma
família enorme." "Já sei,
meu amor", respondeu ele pegando-a nos braços. Desta vez não a
deixaria escapar. Por ela assaltaria inclusive o Fort Knox. 154

FIM