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Será o trabalho infantil legítimo?

Luís Miguel Machado Abreu


Escola Secundária de Paços de Ferreira
10º Ano de Filosofia
Turma B

Neste ensaio filosófico pretendo refletir acerca do tema trabalho infantil, apresentado a
minha tesa à resposta ao problema filosófico “Será o trabalho infantil legítimo?” Durante a
justificação da minha tese alertarei para este grave problema apresentando argumentos a favor da
minha posição relativamente ao problema colocado bem como objeções à posição que defendo.
As crianças trabalham por que razão? A pobreza, a violência, a falta de perspetivas dadas
pela escola e a procura de mão-de-obra infantil são fatores que estimulam a entrada da criança ou do
adolescente no mercado de trabalho. Em cada realidade, os fatores têm diferentes pesos.
No mundo existem milhões de crianças em situação de exploração de trabalho infantil. Estas
crianças desenvolvem trabalhos que, pelo tipo, pelas condições em que se exercem e pela sua duração
são prejudiciais aos bons desenvolvimentos físico, psíquico e moral de cada criança que o executa.
De acordo com as características das crianças e dos respetivos agregados familiares, assim como dos
países onde o fenómeno tem maior incidência, percebeu-se a associação existente entre a exploração
do trabalho infantil, a pobreza e a exclusão social. Na maioria dos casos, essas crianças vivem em
países nos quais o trabalho infantil é proibido, mas isso não é impeditivo, devido à situação de
pobreza das suas famílias, à indisponibilidade de uma educação adequada, ao baixo custo ou a
normas sociais que consideram o trabalho infantil aceitável. Além disso, o trabalho infantil persiste
não apenas porque essas crianças oferecem o seu trabalho, mas também porque há procura por ele.
Para que o trabalho infantil seja efetivamente erradicado em todo o mundo, é necessário que esse
complexo conjunto de fatores relacionados à oferta e à procura do trabalho infantil seja
simultaneamente abordado.
Pessoalmente, acredito que o trabalho infantil traz consequências nefastas para as crianças
exploradas. Esse trabalho leva, por exemplo, à perda da infância, o que acarreta a privação de
desenvolvimento; criação de inúmeros problemas sociais, como a desigualdade; provoca baixo
rendimento escolar ou desistência; perpetua a noção de que criança pode (e deve) trabalhar; mão-de-
obra ineficiente e desqualificada; não permite ter acesso a uma boa educação, não podem realizar
atividades tão próprias da sua idade, causando nas crianças danos a níveis psicológicos e físicos bem
como ao aparecimento de doenças interferindo negativamente na formação e no desenvolvimento da
infância e que se poderá verificar igualmente na adolescência e na fase adulta.
Posto isto, algumas questões são levantas, como: Não terão todas as crianças os mesmos
direitos? Não terão todas direito a uma infância feliz? Não estão a ser violados artigos da
1
Declaração Universal dos Direitos Humanos? As crianças que são exploradas nunca irão crescer
porque nunca lhes deram essa possibilidade! Então não existem direitos de igualdade nas crianças.
De acordo com os princípios de justiça de John Rawls, a única hipótese é privar os indivíduos
da sua liberdade para passarem a ser controlados por alguém (o estado) que impeça situações
moralmente injustas, como o trabalho infantil. Como se promove a liberdade e a igualdade nessa
sociedade? Rawls defende a tese de que são necessários dois princípios que se destacam e que estes
devem seguir uma ordem serial/lexical. Esses princípios são os de liberdade e de igualdade como se
observa em seguida:
a) Todas as pessoas tem igual direito a um projeto inteiramente satisfatório de direitos e
liberdades básicas, iguais para todos projeto esse compatível como todos os demais; e, nesse
projeto, as liberdades políticas e somente essas deverão ter seu valor equitativo garantido.
b) As desigualdades sociais e económicas devem satisfazer dois requisitos: primeiro, devem
vinculadas a posições e cargos abertos a todos, em condições de igualdade equitativa de
oportunidades e, segundo, devem representar o maior benefício possível aos membros menos
privilegiados da sociedade. (Rawls, 2000, p. 47-48).

Rawls designa o primeiro princípio como o princípio “de igual liberdade”. Sendo este
princípio aplicado na vida prática, as pessoas teriam direito a um projeto pleno de direitos e
liberdades básicas iguais para todos. O segundo princípio subdivide em duas categorias - “o princípio
da igualdade equitativa de oportunidades” e o “princípio da diferença”.
Se Rawls afirma, no princípio da liberdade, a máxima liberdade para todos, é porque exige
igualdade na atribuição de direitos e deveres básicos, logo, as crianças têm o direito a ser protegidas
contra o abandono e à exploração no trabalho, o direito à especial proteção para os seus
desenvolvimentos físico, mental e social, entre outros estabelecidos.
No segundo principio, o da igualdade, na questão equitativa de oportunidade e o da diferença
observa-se que todos devem possuir oportunidade a cargos e a posições iguais, havendo uma
preocupação com a distribuição equitativa de rendas e de riqueza, pois as desigualdades económicas
e sociais são aceitáveis apenas se resultarem em vantagens favoráveis para todos, que é e deve ser a
base de qualquer fundamentação dos direitos humanos de forma a convencer a sua universalidade.
Tendo por base a teoria da justiça de Rawls, todas as crianças têm de ter os mesmos direitos,
passando a ter uma infância feliz.
Surge a questão de saber se as nossas ações são moralmente corretas? Se responder à questão
tendo por base as posições de Kant e de Mill, no que diz respeito ao tema da fundamentação da moral,
teremos outras respostas.
Para Kant, nunca devemos utilizar o Homem como um meio para se atingir determinados
fins, mas sempre como um fim em si próprio. De acordo com este filósofo o valor moral das ações
depende do respeito pelos princípios logo, leva ao cumprimento do dever por dever ou à
universalidade da máxima tomada como regra de ação. Infere-se que segundo a perspetiva de Kant,
o trabalho infantil é condenado moralmente, isto é, é uma ação contra o dever.

2
Mill, defendendo a tese de que uma ação é moralmente boa tendo em conta as consequências
da mesma, tem do de trazer felicidade (para o maior número de pessoas), conclui-se que o trabalho
infantil, para o filósofo, pode ser considerada uma ação moralmente correta, pois este ato irá
proporcionar felicidade para o maior número de pessoas, e na verdade o Homem irá desfruir a
infância de milhares de crianças1. Indubitavelmente não podemos ir pela posição de Mill que não
tem em conta a instrumentalização das crianças e a sua dignidade, só para proporciona maior
felicidade.
Que direitos é que as crianças e os jovens deste grupo vêm garantidos? O que é que
institucionalmente se fez, se faz e se fará para alterar esta situação, esta prática abusiva? O que fazer
para combater este flagelo? As crianças não deixam de ser seres humanos e como seres humanos que
são têm direitos. Para a criança não precisar de trabalhar é necessário lutar contra a exploração do
trabalho infantil, em defesa de uma sociedade mais justa.
O trabalho infantil viola direitos fundamentais das crianças, promove a concorrência desleal
a empresas e a organizações que cumprem a lei e que, muitas vezes, têm já boas práticas de
responsabilidade social em execução e tem consequências negativas para toda a sociedade. Para isso
devemos todos envidar esforços para proteger as crianças do trabalho infantil e outras formas de
exploração, as pessoas de todos os níveis sociais devem trabalhar individualmente e em conjunto
para aplicar leis de proteção, desenvolver os serviços necessários, proporcionar às crianças e a quem
trabalha com elas o acesso à informação e às competências de que precisam para evitar os maus
tratos, apoiar as crianças que deles são vítimas e combater todas as formas de discriminação.
Em Portugal a admissão de menores no mercado de trabalho sem que tenha concluído a
escolaridade obrigatória ou que não disponha das capacidades físicas e psíquicas adequadas ao posto
de trabalho constitui crime, por utilização indevida de trabalho de menor, punido com pena de prisão
até 2 anos ou com pena de prisão até 240 dias se outra mais grave não tiver lugar 2.
As crianças, não sendo consideradas como seres sociais plenos, são percecionadas como
estando em vias de o ser por efeito da ação adulta sobre as novas gerações. No sentido em que não
são verdadeiros indivíduos, quando muito são figurantes na sociedade, devido à sua dependência,
falta de vontade e racionalidade.
Concluo que neste contexto atual é muito difícil contrariar estes fatores de vulnerabilidade
extrema a que as crianças estão sujeitas, sobretudo porque não há vontade das autoridades e da
sociedade para o fazer. Só quando estas crianças forem valorizadas nas suas características mais

1
A Organização Internacional do Trabalho estima que 152 milhões de crianças são vítimas de exploração. Quase metade
– 73 milhões – executa trabalhos perigosos. https://www.amnistia.pt/trabalho-infantil-o-caminho-que-ainda-falta-
percorrer/

2
Cf. artigo 82º do Código do Trabalho revisto aprovado pela Lei 7/2009, de 12 de Fevereiro.
3
positivas é que será possível alterar os ciclos de pobreza extrema e de exclusão social e incluí-las no
contexto social onde vivem.

Bibliografia

CHANGEUX, J. (Org.). Uma ética para quantos? São Paulo: Edusc, 1999.
RAWLS, John. O Liberalismo Político. São Paulo: Ática, 2000

WEBGRAFIA

https://www.amnistia.pt/trabalho-infantil-o-caminho-que-ainda-falta-percorrer/, consultado em
24/04/2020, pelas 17h50m;
https://www.chegadetrabalhoinfantil.org.br/colunas/12-motivos-para-ser-contra-o-trabalho-infantil/
consultado em 30/04/2020, pelas 16:54;
https://www.tsf.pt/portugal/sociedade/ainda-ha-casos-de-trabalho-infantil-em-portugal-na-moda-
espetaculos-e-desporto-11001876.html, consultado em 30/04/2020, pelas 17h;
https://www.unicef.pt/o-que-fazemos/o-nosso-trabalho-em-portugal/influencia-politica-e-social/,
consultado em 04/05/2020 pelas 19h52