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Etnia

Grupo: André Alvarenga Baptistella RA : 015461, Cibele Santieff RA : 962083, Cristiane G.


de Oliveira RA : 993890, Maria Isabel Donnabella Orrico RA: 009339, Rafaela da Silva
Santos RA : 017158, Rosineide Santos da Silva RA : 017324

O presente trabalho se propõe a discutir a questão da etnia dentro da


visão histórico cultural proposta por Vygotsky, analisando a constituição
deste conceito a partir de valores e vivências sociais. Para tanto,
explicitaremos primeiramente os conceitos e depois discutiremos a
implicação destes no meio social.

Raça:

Conjunto de indivíduos cujos caracteres físicos, tais como a cor da pele, a


conformação do crânio e do rosto, o tipo de cabelo, etc., são semelhantes
e se transmitem por hereditariedade, embora variem de indivíduo para
indivíduo. Antropologicamente este conceito é considerado como a
definição de cada uma das grandes subdivisões da espécie humana, e que
supostamente constitui uma unidade relativamente separada e distinta,
com características biológicas e organização genética próprias, a saber,
raça negra, branca e amarela. Raça também pode ser entendido como o
conjunto dos ascendentes e descendentes de uma família, uma tribo ou
um povo, que se origina de um tronco comum. Ascendência, origem,
estirpe, casta. O conjunto dos indivíduos com origem étnica, lingüística ou
social comum. Categoria, classe, espécie.

Etnia:

População ou grupo social que apresenta relativa homogeneidade cultural


e lingüística, compartilhando história e origem comuns, considerado como
unidade dentro de um contexto de relações entre grupos similares ou do
mesmo tipo, e cuja identidade é definida por contraste em relação a estes.
Termo também usado a partir do início do século XX, em substituição a
termos como nação, povo e raça.

Os conceitos acima foram retirados do dicionário Aurélio e a partir da


discussão proposta mostraremos que o conceito de raça não pode ser
considerado somente a partir de elementos biológicos, pois o homem não
é formado apenas por reações e características biológicas, ele é um ser
histórico-cultural, resultado de seu meio social e cultural e que constitui-se
ao longo de sua história e a partir das relações sociais e culturais
estabelecidas com os outros homens, o homem produz e reproduz a si
mesmo, aos indivíduos que o cercam e a realidade vivida, estando assim,
mais predisposto á caracterizações sociais do que biológicas. Portanto, o
homem deve ser considerado como um ser ativo, social e histórico e deve-
se levar em consideração que as condições sociais são fundamentais para
a sua formação e muito mais importantes do que sua condição genética,
pois é esta realidade interpessoal (social e histórica) que é transformada
em intrapessoal, em particular, através de uma maneira dialética, que
constrói o meio social, as pessoas ao seu redor e a ele próprio, através de
trocas e transformações (trabalho).

De acordo com os textos lidos e a teoria abordada, não existe raça


biológica; o que existem são raças sociais; biologicamente os seres
humanos só se diferenciam em suas características externas.
Internamente, não há como distinguir nossos organismos em raças, sua
fisiologia é igual; portanto, o conceito de raça é uma construção social, ela
é referente às características físicas e não biológicas, que determinam por
construir as diferenças étnicas entre determinados povos, entendendo por
etnia grupos de culturas e praticas sociais iguais.

" nada que possa ser classificado a partir de critérios científicos e


corresponda ao que comumente chamamos de ‘raça’ tem existência real
(...) o que chamamos de ‘raça’ tem existência nominal, efetiva e eficaz
apenas no mundo social, e portanto, somente no mundo pode ter realidade
plena" (Guimarães, 2001, p.50).

A construção social da identidade e da diferença

     A sociedade brasileira caracteriza-se por uma pluralidade étnica, sendo


esta produto de um processo histórico que inseriu num mesmo cenário três
grupos distintos: portugueses, índios e negros de origem africana. Esse
contato favoreceu o intercurso dessas culturas, levando à construção de
um país inegavelmente miscigenado, multifacetado, ou seja, uma
unicidade marcada pelo antagonismo e pela imprevisibilidade.
           Apesar do intercurso cultural descrito acima, esse contato
desencadeou alguns desencontros. As diferenças se acentuaram, levando
à formação de uma hierarquia de classes que deixava evidentes a
distância e o prestígio social entre colonizadores e colonos. Os índios e,
em especial, os negros permaneceram em situação de desigualdade
situando-se na marginalidade e exclusão social, sendo esta última
compreendida por uma relação assimétrica em dimensões múltiplas –
econômica, política, cultural. Sem a assistência devida dos órgãos
responsáveis, os sujeitos tornam -se alheios ao exercício da cidadania.

           O estudo da interface racismo e educação oferece uma


possibilidade de colocar num mesmo cenário a problematização de duas
temáticas de inquestionável importância. Ao contemplarmos as relações
raciais dentro do espaço escolar, questionamo-nos até que ponto ele está
sendo coerente com a sua função social quando se propõe a ser um
espaço que preserva a diversidade cultural, responsável pela promoção da
eqüidade. Sendo assim, aguardamos mecanismos que devam possibilitar
um aprendizado mais sistematizado favorecendo a ascensão profissional e
pessoal de todos os que usufruem os seus serviços.

             A escola é responsável pelo processo de socialização infantil no


qual se estabelecem relações com crianças de diferentes núcleos
familiares. Esse contato diversificado poderá fazer da escola o primeiro
espaço de vivência das tensões raciais. A relação estabelecida entre
crianças brancas e negras numa sala de aula, por exemplo, pode
acontecer de modo tenso, ou seja, segregando, excluindo, possibilitando
que a criança negra adote em alguns momentos uma postura introvertida,
por medo de ser rejeitada ou ridicularizada pelo seu grupo social. O
discurso do opressor pode ser incorporado por algumas crianças de modo
maciço, passando então a se reconhecer dentro dele: "feia, preta,
fedorenta, cabelo duro", iniciando o processo de desvalorização de seus
atributos individuais, que interferem na construção da sua identidade de
criança.

              A exclusão simbólica, que poderá ser manifestada pelo discurso


do outro, parece tomar forma a partir da observação do cotidiano escolar.
Este poderá ser uma via de disseminação do preconceito por meio da
linguagem, na qual estão contidos termos pejorativos que em geral
desvalorizam a imagem do negro.

Essas mensagens ideológicas tomam uma dimensão mais agravante ao


pensarmos em quem são seus receptores. São crianças em processo de
desenvolvimento emocional, cognitivo e social, que podem incorporar mais
facilmente as mensagens com conteúdos discriminatórios que permeiam
as relações sociais, aos quais passam a atender os interesses da ideologia
dominante, que objetiva consolidar a suposta inferioridade de
determinados grupos. Dessa forma, compreendemos que a escola tanto
pode ser um espaço de disseminação quanto um meio eficaz de
prevenção e diminuição do preconceito.

Porém, nessa perspectiva da diversidade, a identidade e a diferença


parecem ser neutralizados, ao invés de trabalhados no interior da escola.
Ou seja, segundo SILVA (2000), a escola ensina simplesmente a "tolerar"
as diferenças e não explica como surgem e quem as constrói. Afinal,
alguém só torna-se diferente na medida em que a sociedade estipula o
que é "ser normal".

É possível compreendermos que as diversidades existentes entre os


grupos étnicos se tornaram pontos de conflito, pois de um lado existe um
eu que pensa igual, acredita nos mesmos deuses, vive de modo "estável"
e, de repente, percebe que existe um outro que não compartilha das
mesmas crenças. Esse contato com o que se mostra de modo distinto do
padrão ocorre, em geral, de modo turbulento: perturba e ameaça
desintegrar a identidade "estável" da sociedade do eu. A imposição da
presença do outro é vivida como a negação dessa aparente ordem. A
palavra ordem está vinculada ao desejo de manter a estabilidade, o
estágio de constância que é determinado pela manutenção do mesmo
esquema social.

              É atribuído à sociedade do eu tudo o que for mais elaborado ou


civilizado. Já a sociedade do outro é marcada pela reificação de idéias
etnocêntricas. Caracterizando-se como primitivo, não-humanizado, ele é
percebido como um "intruso" que trará a desordem. A palavra desordem,
nesse sentido, é percebida como algo ruim. A conotação que lhe é
atribuída é de destruição. Para que essa destruição não ocorra, busca a
sociedade do eu uma forma de proteger-se desse efeito desestabilizador,
mediante a neutralização do desconhecido. Portanto, para evitar o possível
caos, busca manter o status quo, para o que é necessário calar o outro,
mantendo-o excluído e dominado a fim de permanecer a ilusão do
equilíbrio e da ordem vivida na ausência da diferença.

Nesse sentido, ao outro é negado o direito de viver a sua identidade


étnica, pois o padrão do eu prevalece, e ele o percebe sob uma ótica de
estranhamento, desprestígio e não-reconhecimento. Dessa forma, a
sociedade do outro passa a ser percebida como ameaçadora, inferior; é
vivida de modo odioso, sendo a própria possibilidade da guerra.

A coexistência do eu e outros instaura a dimensão do desconhecido,


desestabilizando as estruturas vigentes e formando outras novas com
direções imprevisíveis. Essa incerteza leva a uma sensação de desordem
que, se acolhida de modo satisfatório, poderá ser um momento de grandes
transformações e cooperação para a construção de uma nova ordem
social. Para que isso ocorra, é necessário reconhecer a relação dialógica
entre esses termos, pois eles fazem parte do mesmo processo de
construção histórica. Viver apenas uma ou outra seria viver de modo
pobre, mutilado. Se houvesse apenas a ordem, não haveria espaço para o
novo, o ousado, o criativo. Se houvesse apenas desordem, não haveria
capacidade de manter a evolução e o desenvolvimento.

Trabalhar na dimensão da incerteza, que é suscitada pela presença do


outro, é elevar o pensamento ao complexo, considerando o múltiplo, o
certo e o incerto, o lógico e o contraditório. Mas a sociedade do eu se
apresenta de modo totalitário. Nela não há espaço para o novo. Existe a
impossibilidade de uma relação dialógica, pois ela não percebe essas
diferenças como transitórias e remediáveis pela ação do tempo, ou
modificáveis pelo contato cultural. Há uma cristalização de pensamentos
em idéias estereotipadas, o que pode deflagrar um mal-estar diante do
outro, demarcando uma distância de reconhecimento e prestígio entre
sociedades distintas. Tal comportamento é denominado preconceito.

A conseqüência dessas construções preconceituosas é a manifestação da


discriminação, uma ação que pode variar desde a violência física —
quando grupos extremistas demonstram todo o seu ódio e intolerância pelo
extermínio de determinada população — até a violência simbólica,
manifestada por rejeições provenientes de uma marca depreciativa
(estigma) imputada à sua identidade, por não estar coerente com o padrão
estabelecido (branco/europeu).

A conseqüência dos atos discriminatórios é a fragilização e a denegação


da identidade coletiva, na qual estão contidos toda uma historicidade e
valores culturais. Essa apropriação do discurso social é possível, pois a
estrutura subjetiva — identidade — é relacional, formada a partir da
relação progressiva e dialética entre "eu" e os "outros". Mediante as
semelhanças e diferenças, ou seja, os contrastes, passamos a distinguir o
sou/somos e não sou/não somos. O referencial externo passa a ser
condição fundamental para a elaboração da imagem individual. A nossa
identidade responde ao discurso alheio. O entendimento que tenho de mim
está diretamente ligado à minha compreensão do outro, algo que está fora,
mas, ao mesmo tempo, fornece condições para que o sujeito exista. Nesse
sentido, a construção da identidade, assim como sua manutenção, se
constituirá dentro do processo social, quando o olhar do outro poderá ou
não proporcionar o reconhecimento ou sentimento de pertença ao grupo
social (Woodward, 2000).
A condição acima citada parece estar resumida em uma afirmação enfática
do sociólogo Berger (1991): "A dignidade humana é uma questão de
permissão social". A princípio, ela nos causa um certo impacto, mas, ao
analisarmos as conseqüências do preconceito racial, percebemos que se
encontra coerente com a afirmação citada, pois o preconceito inviabiliza o
reconhecimento da dignidade do sujeito, comprometendo a sua inclusão
social.

Esse estado de não-permissão social concretiza-se quando percebemos a


falta de pertença, uma invisibilidade na participação dos negros no poder
político e uma limitada inserção na sociedade. Os negros se vêem
descartados dos principais centros de decisão política e econômica,
sofrendo desvantagens no processo competitivo e em sua mobilização
social e individual. Isso significa "simbolicamente" um corte de poder e
uma exclusão social, levando à alienação e à depreciação da identidade
pessoal e étnica (d’Adesky, 2001).

Para Vygotsky (1984), o psiquismo humano existe por uma apropriação


dos modos e códigos sociais. Com a internalização, toda criança vai
tornando sua o que é compartilhado pela cultura; o discurso social passa a
ter um sentido individual. Por exemplo, no caso do negro: a mensagem
transmitida é que, para ele, negro, existir, ele tem de ser branco, ou seja,
para se afirmar como pessoa precisa negar o seu corpo e sua cultura,
enfim, sua etnicidade. O resultado dessa penalização é o desvirtuamento
da identidade individual e coletiva, havendo um silenciamento do
preconceito por parte da criança e do cidadão ao longo da vida.

Nesse sentido, a escola também possui um papel essencial: poderá


"silenciar" as crianças negras, intensificando o sentimento de coisificação
ou invisibilidade, que pode gerar uma angústia paralisante, de modo que
seus talentos e habilidades se tornem comprometidos por não acreditarem
nas suas potencialidades, ambicionando pouco nas suas atividades
ocupacionais futuras. Mais adiante, essa experiência leva a criança a se
questionar sobre o que é preciso para ser olhada, reconhecida. Nesse
momento, poderá dar início ao processo de embranquecimento e auto-
exclusão de suas características individuais e étnicas. Tais conseqüências
na identidade infantil passaram a ser preocupação e foco de estudo de
alguns teóricos que citaremos a seguir.

A cultura do negro, do índio e de outros grupos, poderá acabar por


negligenciar a sua tradição cultural em prol de uma postura de
embranquecimento que lhe foi imposta como ideal de realização. Esse
posicionamento foi decorrente da internalização de que "embranquecer"
seria o único meio de ter acesso ao respeito e à dignidade. Esse ideal de
embranquecimento faz com que a criança deseje mudar tudo em seu
corpo. Ou seja, a sociedade constrói a identidade buscando alcançar seus
interesses e a criança discriminada é quem vai carregar o estigma de ser
excluída por ser "diferente".

Enfim, segundo SOUZA (2000), podemos concluir que a identidade não é


uma essência, um dado, um fato - nem da natureza, nem da cultura.
Também não é fixa, estável, coerente, unificada, permanente, homogênea,
definitiva, acabada, idêntica, transcendental. Mas é sim uma construção,
um efeito, um processo de produção, uma relação, um ato performativo. É
instável, contraditória, fragmentada, inconsistente, inacabada. Está ligada
a estruturas discursivas e narrativas e a sistemas de representação. A
identidade tem estreita conexões com relações de poder.

Significações constituídas com relação à cor da pele.

O título deste tópico refere-se à dissertação de mestrado defendida por


Ana Gabriela Pedrosa Andriani em agosto do corrente ano, na Faculdade
de Educação da Universidade Estadual de Campinas. O foco de seu
estudo centrava-se no significado e sentido dado à negritude e o que é ser
negro para um grupo de crianças que frequentavam a quarta série do
ensino fundamental de uma escola Estadual, localizada na periferia da
cidade de São Paulo.

O significado e o sentido que eram atribuídos à questão, pelas crianças,


era delineado nos encontros entre a pesquisadora e as mesmas, em sua
maioria, marcadas pelas características pertencentes à etnia negra.

As atividades propostas, ora pela pesquisadora e posteriormente pelas


crianças, auxiliavam no estudo, no ponto de vista histórico, para
compreendê-lo em um contínuo processo de mudança.

 
A questão do corpo

Em um dos encontros, a pesquisadora levou revistas de moda e esporte,


como por exemplo a Marie Claire, com predominância de modelos
brancas, a Revista Raça, em oposição à anterior e a Placar, com maior
espaço reservado aos jogadores de futebol (maioria negros, que viam no
esporte uma forma de ascensão social e econômica).

Certos aspectos começaram a chamar a atenção, como o grande


desconforto, incômodo e agressividade por parte das crianças ao
folhearem a revista que tinha predominância de modelos negras. Para as
crianças negras, o excesso de maquiagem das modelos as deixava feias,
sexuais, pareciam mulheres oferecidas, levianas e promíscuas.

A concepção do que era bonito, baseava-se em ter um cabelo liso e preto,


o que era feio, ter características étnicas que marcavam fisicamente os
negros, como por exemplo: cabelo (crespo), boca (carnuda), pele (escura).
As crianças sentiam vergonha de seu próprio corpo, por possuírem
características não valorizadas socialmente, em razão disso, suas
características eram tratadas com menosprezo e hostilidade.

Ao que parece, para as crianças, a tonalidade da cor de pele mais clara


possibilitaria uma libertação das situações de discriminação, de ofensa,
humilhação e violência, as quais estavam submetidas. O corpo era fonte
de descontentamento e as características étnicas negras tornavam-se um
sofrimento.

Para o grupo, cabia aos negros a utilização de maquiagens com


tonalidades claras, que não chamasse a atenção e aos brancos, é aceita
socialmente a utilização de maquiagens e roupas escuras; para eles é
permitido um lugar de destaque, enquanto ao negro, apenas cabe uma
posição oculta (limitada).

Para a pesquisadora, o negro sofre por estar aprisionado a um corpo


discriminado e violentado socialmente, ao mesmo tempo que o repudia e
desqualifica.

Uma transformação de significação histórica é notada, a questão referente


à religião -MACUMBA- antes uma tradição afro que perdeu o sentido de
unificação, identificação e resistência que representava no passado, agora
é entendida como algo ruim, demoníaca, vinculada a forças prejudiciais às
pessoas.
 

Sentimentos Contraditórios

Atividade 1 - DESFILE

Foi proposto como atividade um desfile e depois uma dança. As crianças


negras experimentaram várias maquiagens, prevalecendo as com
tonalidades escuras, e apresentavam-se de forma sensuais quando
dançavam.

Tanto na montagem, quanto na preparação do desfile, elas eram mais


ativas, completamente diferente das crianças brancas que estavam com
vergonha durante a apresentação.

Toda a atividade foi filmada e depois mostrada para as crianças, a fim de


que vissem a atividade.

Ao se verem na filmagem, as crianças negras agrediam-se física e


moralmente, a ponto de pedirem para parar a transmissão da
apresentação do desfile. Estavam envergonhadas de suas ações: afinal,
viam-se sentindo prazer em usar maquiagens escuras e dançar
sensualmente, ações antes tão criticadas por elas mesmas na atividade
das revistas antes mencionada.

Uma das meninas disse ser reprimida pela avó, que em razão da religião
prega o discurso de não permitir o uso de maquiagens, o direito de
namorar, de sair à noite ou mesmo demorar para chegar em casa; para
ela, tais atitudes são de pessoas que não prestam. O seu discurso
internalizado, desqualifica seus desejos de se libertar, de ocupar um lugar
de destaque social.

As crianças negras possuíam sentimentos contraditórios com relação à


sua cor, ao mesmo tempo que sofriam por serem discriminadas
(desejando não serem negras) e apresentavam as marcas da
discriminação em suas falas.

Atividade 2- PEÇA DE TEATRO: AS CRIANÇAS ENTRAM EM CENA.


 

O tema escolhido para a construção da história era a violência, o racismo e


as drogas, o local a favela, os personagens, divididos entre os bons
(brancos) que eram os policiais e os maus (negros) que representavam os
traficantes e assaltantes.

Toda a construção da peça ficou por conta das crianças: o enredo, a


distribuição de papéis e os personagens. No entanto, novamente
verificava-se que as crianças brancas não se sentiam à vontade em
participar da peça, queriam ocupar posições que significasse não se expor,
o que de nada adiantou, pois as crianças negras é que tinham voz, era
quem decidiam o que cada um faria na peça. Assim, as crianças brancas
acabavam acatando as ordens das outras.

Nesta posição, inverte-se o sentido social, pois as crianças negras


assumem decisões e papéis de liderança, enquanto que as crianças
brancas se calam, silenciam seus comentários.

O elemento " do mal" da peça tem relação com : ser traficante, morar na
favela, ser negro, ter tatuagem. São estereótipos internalizados pelas
crianças em razão da condição social e econômica. Já o "bem", é marcado
pela pessoa que está do lado da justiça, ao policial branco.

Verifica-se pela escolha do tema da peça -seus personagens, a linguagem


dos participantes- que tudo representa uma realidade próxima do cotidiano
das crianças e de suas respectivas famílias, que moram naquela periferia.
A peça nada mais é que um retrato de suas vidas, das vivências familiares
e significações de cada um deles.

Ao final da peça, uma questão é levantada, já que uma das personagens,


viciada e negra, assassina o pai policial depois que este mata o namorado
traficante da filha em uma troca de tiros: Quais as saídas possíveis para
uma mulher viciada e negra na sociedade atual, tão marcada por
preconceitos?

O final da peça choca a platéia, quem encontra-se estática: falar o que


diante de tal situação? O que fazer com o drama relacionado com a
violência, discriminação e exclusão social e econômica daqueles
pertencentes a uma condição étnica discriminada?

Para a pesquisadora, a escola não tem ouvidos para o drama apresentado


pelo grupo, perceptível pela atitude de uma das professora, que pede para
tocar uma música para as crianças dançarem; na realidade, nada mais é
que uma forma de "esquecer o assunto".
A escola, acaba tornando-se uma instituição que reproduz a dinâmica da
exclusão social, através de discursos e práticas inclusivas que não
intenciona uma aproximação com a realidade vivida pela criança e suas
famílias.

Os professores não sabem da vida de seus alunos, como vivem suas


famílias e atribuem o fraco desempenho escolar dos alunos a causas
familiares como problemas estruturais no interior da família, à carência
cultural e desinteresse por parte dos pais, enquanto que os pais, atribuem
à escola o poder de dar um veredicto ao futuro de seu filho, a partir da
valorização (ou não ) de seu desempenho.

O século XIX foi bastante rico para discussões sobre diferenciação e


valorização de diferentes culturas, onde o argumento racial passou a
constituir-se em uma construção histórica e política e a definição biológica
se realizar através de interpretação social que foi alterando-se e adquirindo
diferentes significados.

Alguns fatores que ainda dificultam a democratização racial se constituem


nos fatos de não se constar a cultura e a história africana nos currículos
escolares, nem nos cursos de formação de educadores, aliados ao
processo de ocidentalização da cultura onde a cultura branca européia
prevalece (população não é branca, mas se considera branca), gerando
com isso uma negação da historicidade dos negros, dificulta e dificultando
a construção da identidade.

Identidade

No bojo destas discussões ocorridas sobre a importância do conhecimento


e respeito das diferentes etnias e culturas, surgiu necessidade de um
conceito que permitisse essa construção.

O conceito de raça é substituído por etnia, pois o primeiro carrega


manipulações cristalizadas e indutoras de racismo, produzindo explicações
biologizantes das relações sociais e dificultando, assim, abordagens
histórico-sociais.

Surgiu o conceito de identidade que envolve toda a existência do negro


como pessoa, como sujeito social, como grupo.
A identidade negra, branca e indígena sempre foi considerada como
estanque, sem levar em consideração suas complexidades que precisam
ser consideradas

Por este motivo o conceito de etnia veio substituir o de raça e,


conseqüentemente, foi se ampliando a visão sobre esta questão e
nascendo a identidade étnica.

Identidade Étnica

A identidade étnica não existe como algo natural e eterno, pois emerge
das relações construídas entre as pessoas: uma construção mutável já
que as pessoas não nascem com identidade pronta e acabada.

Dentro da identidade étnica existe espaço para contrastes já que a


diferença é uma marca da identidade.

Em termos de grupo, a identidade se constitui de maneira diferenciada,


pois as pessoas não são iguais, porém há também uma coesão em que
certos aspectos comuns fazem com que o grupo tenha existência própria
( não é só diferença que define os grupos mas também a semelhança).

Construção de identidade

A construção da identidade é um processo diverso, histórico-social, situado


em espaços específicos de condições determinadas.

O tempo todo estamos mudando, porque a sociedade e as relações que


nos determinam também estão mudando.

Por ser moldadas pelo processo histórico, as identidades variam de acordo


com interesses e necessidades dos diferentes grupos, por isso não são
definitivas nem definidas.

A identidade não é cristalizada, as representações construídas sobre


essas identidades é que cristalizam visões e criam estereótipos
(atendendo aos interesses dos processos de dominação). Por exemplo, a
idéia de que o índio é selvagem e o negro descendente de escravos, que
faz serviços braçais, são identidades definidas pelos brancos e assumidas
ou não pelos índios ou negros.

Nessa construção de estereótipos, anulam-se as mudanças que podem


ocorrer e igualam-se todos nas mesmas características.

Caráter ideológico

Pelo fato da identidade étnica sofrer mutações e acrescentarem-se novas


relações, consideramos que elas tenham seu caráter ideológico, onde elas
modificam-se até para continuar existindo.

Falar de uma identidade estanque, significa atribuir um pensamento


deturpado ou construção ideológica.

A identidade é claramente percebida quando observam-se seus


contrastes, ou seja, a necessidade de se contrapor a outra etnia que se
mostra superior (dominante).

As diferenças étnicas e culturais existem independente do julgamento do


branco (que se atribui como cultura dominante). O grupo dominante é
quem se preocupa com essas diferenças e as utiliza para se sobrepor.

No entanto, as identidades negras e indígenas não existem só em função


da oposição ao outro grupo. Elas têm uma forma própria e diferenciada de
ser, valores e histórias diferenciadas, ritmos e comportamentos distintos. A
identidade negra existe independentemente da sua explicitação ou
verbalização. Por exemplo, cidades em que prevalece o número de
pessoas negras e elas não sentem necessidade de falar sobre suas
especificidades culturais.

São os próprios negros que constroem suas identidades (e não os


brancos); contudo surge um conflito entre o que se deseja ser o que se
deve ser, por causa da situação de preconceito e exclusão que afetam
esta construção. Isto é agravado pela autonegação das origens negras e
indígenas e a falta de visão cultural dos grupos, ausência de solidariedade
e organicidade; todavia, muitas comunidades já superaram essas
dificuldades e o movimento negro tem inúmeras contribuições para a
reversão desta situação.
A construção da identidade em certos grupos é uma resposta à negação
dos seus direitos; portanto, identidades são conjuntos de representações
que os grupos constroem de si mesmos a partir de representações
construídas pelo outro.

O que é explicitado pelo grupo dominante é transformado em algo positivo,


sendo uma maneira de se afirmar e integrar-se socialmente. A diferença é
a marca e é através desta marca que se busca igualar-se ao outro.

A sociedade, através de suas mudanças, também interfere na construção


da identidade; por exemplo, os índios que deixaram de andar nus; o
acesso à internet; deslocamento do campo para cidades, mudanças de
hábitos e costumes.

Processo educativo

A escola, local em que muitos costumes diferentes convergem, pode ser


uma espaço rico de troca, que influencia muito no processo identitário.

Nas relações interétnicas pode haver dominação e oposição à dominação,


ou dominação e submissão, mas pode haver também respeito, troca,
aprendizagens mútuas.

Crise da modernidade

A questão da identidade é bastante discutida hoje em dia, por autores que


atribuem uma crise da modernidade.

Esta crise da modernidade considera que as identidades, antes tidas como


coesas e estáveis, estão em declínio, fazendo surgir novas formas de
identidade.

Esta crise trouxe, neste final de século XX, a fragmentação das dimensões
de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça, nacionalidade e alterou nossas
identidades pessoais como sujeitos integrados e estáveis.
Este processo produz o sujeito pós-moderno, ou seja, sem identidade fixa,
essencial ou permanente.O sujeito é composto por várias identidades às
vezes contraditórias e não resolvidas.

A identidade torna-se uma celebração móvel, formada e transformada


continuamente em relação às formas pelas quais somos representados, ou
interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam.

O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos. Dentro


de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções,
de tal modo que nossas identidades estão sendo continuadamente
deslocadas. Se sentirmos que temos a mesma identidade do nascimento
até a morte é porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos.

Várias identidades marcam modos de ser do sujeito, mas se interagem


mutuamente (gênero, classe, sexo, profissão). Ser mulher, negra e
professora é diferente que ser homem branco e professor; ser professora é
diferente de ser professor. Ser mulher, nordestina, dá uma visão de mundo
e uma identidade diferente.

A linguagem é usada pelas crianças do grupo étnico economicamente


dominante para discriminar áquelas racialmente diferenciadas. A
linguagem humana pode possuir vários significados. Ela difere da
linguagem animal porque o homem possui a capacidade mental de reter
esses significados e atribuir-lhes diferentes interpretações, conforme o
contexto da fala. Logo, o sentido da fala está diretamente relacionado aos
sentimentos, emoções. Por possuir linguagem, o homem é capaz de
socializar-se, ou seja, de conviver com outros homens. a partir dos seis
anos, ele já possui uma linguagem orientada para a vida em sociedade,
dando significado às coisas, podendo compreender e ser compreendido
através do processo de comunicação. Conseqüentemente,o homem
elabora suas visões de mundo e de sua classe social, o que leva a criança
a assumir determinados papéis sociais quando adulto.

Por esses motivos, podemos perceber o quanto pode ser prejudicial à


construção da identidade um processo de comunicação em que as
mensagens verbais expressam o domínio de uma pessoa sobre a outra,
como ocorre na atribuição de apelidos e posturas autoritárias dentro da
escola, em relação à sua estrutura hierárquica ou em relação a
preconceitos étnicos.

Em pesquisa realizada por SILVA (1995), são freqüentes as queixas de


alunos negros em relação aos apelidos que recebem e sobre sua interação
com alunos brancos.
Ao discriminar seu colega negro, o aluno branco, na realidade, transmite
ao outro a mensagem de que ele acredita pertencer a uma raça superior, a
branca, que é o estrato dominante da sociedade.

Segundo a Psicologia Social, a auto-estima, ou seja, o grau em que


alguém gosta de si; depende das origens sociais do indivíduo, daí a
importância dessas origens na construção da identidade pessoal. As
origens sociais da auto-estima, como vimos, relacionam-se com a
atratividade que uma pessoa exerce sobre a outra. Crianças oriundas de
grupos étnicos discriminados possuem uma baixa auto-estima, porque
através da interação, terminam por se auto-perceberem como acreditam
que os outros as percebem.(MC DAVID E HARARI, 1980 apud SILVA
1995).

Em outras palavras, "identidade não é uma coisa pré-existente; é atribuída


em atos de reconhecimento social. Somos aquilo que os outros crêem que
sejamos".(BERGER, 1991, apud SILVA, 1995).

No trabalho de SILVA, (1995), observa-se que a discriminação racial


existente na sociedade se reproduz no universo escolar, sendo que relatos
de crianças demonstram que as professoras nenhuma atitude tomam em
relação ao problema. A partir disto, SILVA levanta a hipótese de que o
silêncio pode ser um sinal de despreparo das educadoras para lidar com a
heterogeneidade, tanto de raça quanto de classe. Por pertencerem à etnia
e classe diferentes da maioria de seus alunos, as professoras podem
compactuar, inconscientemente, com a situação de opressão exercida por
um grupo sobre o outro.

Na sociedade brasileira, a identidade do negro está vinculada aos papéis


que lhe são atribuídos socialmente e às relações sociais que estes
estabelecem com outras raças. Podemos perceber que os apelidos dados
aos sujeitos confirmam estereótipos veiculados pela ideologia dominante
sobre o grupo étnico não branco:

o Associando a cor negra à música: Neguinha da beija-flor,


neguinha da viola, Xuxa preta
o Desvalorizando as características raciais negras:
o A cor: carvão, urubu
o As feições e forma corporal: Kiko do chaves, beiçudo,
bunduda, Maria Sapuda
o Os cabelos: palha de aço, cabelo de bombril.

 
A classificação de indivíduos é um dos fatores que interferem na
construção de seu auto-conceito. Segundo a Psicologia, o eu físico
funciona como um pré dado, pois já nascemos com ele. A criança, quando
tateia o próprio corpo e explora o ambiente, experimenta vários estímulos
sensoriais, que a levam a diferenciar-se do resto do mundo. Assim ela
aprende os limites do seu eu físico. A seguir, constatando não ser somente
um corpo, mas um outro ser com comportamento próprio, a criança
adquire um eu social. Na construção desses dois eus, a criança elabora
sua representação mental ou um auto retrato: a imagem daquilo que ela é.
E, desse modo, adquire seu auto-conceito. Através da sua inserção no
mundo, a criança constrói seu auto-conceito com base nos julgamentos e
comparações às quais é submetida.

"Cada pessoa está constantemente sendo categorizada por outras,


aprende a prever como será categorizada e acaba por se ver nesses
termos: isso é a auto-imagem(...) Há, com freqüência, um elemento de
auto-apresentação no comportamento por meio do qual as pessoas tentam
induzir os outros os outros a classifica-la da maneira desejada." (SILVA,
1995).

De acordo com SOUZA (1990), os modelos de estética e de beleza física


são determinados culturalmente. Na sociedade brasileira, há uma
variedade de grupos étnicos e, apesar disto, as características raciais
consideradas como protótipo de beleza são os olhos azuis, os cabelos
louros e lisos, a pele branca. Sendo assim, na visão de muitas crianças e
adolescentes negros, o embranquecimento é imprescindível à sua
aceitação social: "eu queria ser branco com cabelos castanhos. Por que é
bom ser branco, para os meninos não me chamar de queimadinho, com
cabelos pretos".

Para a Psicologia, a criança adquire consciência de seu eu físico, de suas


características raciais, a partir da infância; as avaliações a que é
submetida se referem a estes atributos visíveis. Portanto, se a criança não
se enquadra no modelo estético considerado como belo, ela percebe a sua
pouca atratividade para os grupos nos quais se insere, desenvolvendo,
conseqüentemente, um complexo de inferioridade, passando, em seguida,
a se envergonhar de suas características raciais. As pessoas constroem
um eu ideal, um tipo de pessoa, no qual elas gostariam de se transformar.

 
Segundo APPLE (1990), indivíduos de grupos étnicos não brancos podem
construir a sua identidade, através de mecanismos de resistência. Assim, o
primeiro passo a ser dado pelo negro na descoberta de si mesmo, de sua
identidade, é a busca de sua imagem refletida nos sujeitos de seu grupo,
reconhecendo-os, primeiramente, como seus iguais. O segundo passo é
conscientizar-se de seu valor, através da crítica à sua representação
social. Em seguida, esse negro deve ocupar, de fato, o lugar que lhe
pertence por direito na sociedade: o lugar de um sujeito histórico que se
constrói passo a passo, a cada dia.

Partindo da idéia de que a representação social é um juízo formulado


socialmente, consideramos que quando se auto-representa, o sujeito
expõe a representação que socialmente construiu de si mesmo.

Ao analisar a representação do negro no livro didático, SILVA (1995)


percebe que sua imagem está relacionada a estereótipos e preconceitos
sociais. (v. p. 81). Dentro de seu estudo, SILVA observa que muitas falas
de crianças e adolescentes negros sobre si mesmos já incorporam tais
representações: "mas o que interessa é que eu sou bonita por dentro" (fala
de criança) "...sou morena clara, me cabelo é crespo". A cor da pele é um
dos atributos que categorizam o indivíduo, determinando sua localização
social. Assim, deduz-se que a aluna, ao escamotear a própria cor, pode
estar querendo livrar-se de estereótipos negativos atribuídos à cor negra,
ficando evidente que ela possui uma percepção negativa de sua imagem
corporal. Além disso, percebemos que os sujeitos tentam encobrir-se, em
suas interações, devido ao receio da não aceitação social.

"Primeiro o ferro marca

a violência nas costas

depois o ferro alisa

a vergonha nos cabelos

Na verdade o que se precisa

É jogar o ferro fora

É quebrar todos os elos

Dessa corrente de desespero" (Cuti, In SILVA, 1995)

 
 

Alguns conceitos da teoria sócio-histórica

De acordo com a teoria de Vygotsky, o processo de internalização de


signos se dá através do contato com o outro. Primeiro, seria necessário
esclarecer que o signo é uma representação mental de um objeto ou
evento pertencente à determinada cultura. O signo trás, dentro de si,
significados para todos os objetos e eventos da cultura, e, por isso, trás a
leitura do real que esta determinada sociedade possui sobre a sua vida.
Assim, objetos semelhantes podem possuir diferentes significados em
diversas sociedades. Uma faca, por exemplo, significa a chave da
sobrevivência numa sociedade ligada a caça ou, ser um simples objeto
para uma dona-de-casa dentro de uma sociedade urbana e industrial como
a nossa. Este exemplo mostra a diferença de relacionamento com o objeto
e que varia de cultura para cultura e, por isso, mudam-se os significados.

Estes significados se constituem com o passar do tempo e não se tornam


estáticos. Os sujeitos que fazem parte da cultura, uma vez internalizando
os signos, os reconstroem de acordo com as suas experiências pessoais e
percepções. Pode-se dizer que o signo é carregado de tantas
interpretações e profundidade quanto sujeitos existirem. Cada significado é
atribuído a certo objeto, além daquele que a palavra generaliza, provém da
sua releitura e re-elaboração feita pelo sujeito.

Essa re-elaboração de conceitos leva a teoria sócio-histórica a afirmar que


o sujeito é ativo em sua interação com o meio em que vive. Ao ter algum
conceito ou signo internalizado, através dos indivíduos que o cercam, o
sujeito faz a sua releitura e, com isso, pode vir a mediar esta nova releitura
ou signo "carregado de novos atributos" com outras pessoas. Para
Vygotsky, a cultura não é vista como algo estático:

 
um palco de negociações", onde seus indivíduos estão em constante
movimento de reinterpretação e recriação de informações, significados e
conceitos. A vida social é um processo dinâmico, onde cada sujeito é ativo
e onde acontece a interação entre o mundo cultural e o mundo subjetivo
de cada um. ( Oliveira, 1997, pág. 38)

Assim, um sujeito ativo, não apenas internaliza novos signos, mas os re-
elabora e os media com os seus, nunca se tornando algo estático e sem
as marcas pessoais dos sujeitos:

O cotidiano é a matéria básica para a composição da biografia, porque


todo homem está imerso nele ou seja, vive a vida no cotidiano e é dele que
retira tanto os elementos de sua singularidade como os elementos que
vivem em comum com outros homens. A história pessoal cruza a história
do grupo social, a história de um sujeito cruza a história de uma época.
( Mello, 1994, p-26)

Dentro do assunto "etnia", podemos pensar os conceitos de mediação,


signo, cultura e internalização de acordo com os pressupostos
vygotskyanos.

A questão da construção dos signos, relacionados às etnias "branco e


negro", podem ser abordadas como sendo vistas a partir do personagem
histórico dos "brancos". Segundo estudos feitos por Neusa Maria Mendes
de Gusmão, o significado atribuído aos negros foram sempre pejorativos.
Este estudo, feito com crianças de escolas em Garça, Marília e Santos,
relaciona o negro com sujeira, desonestidade, pobreza e incapacidade
intelectual. Estes significados, construídos em conjunto, dentro da
sociedade brasileira,se tornaram parte integrante da nossa cultura.A
palavra "negro", vem, então, atribuída de várias características construídas
ao longo do desenvolvimento da sociedade. Com certeza, vista mais com
os olhos dos "brancos" do que dos "negros".

Porém, fica claro neste estudo que os próprios "negros" entrevistados


compartilhavam dos mesmos signos sobre a sua etnia. Não podemos
pensar, então, que o significado pejorativo que os "negros" carregam,
sejam fruto apenas dos "brancos" , lembrando que a cultura não é algo
estático. Ocorre sempre a internalização e transmissão de signos. Todos
os sujeitos participam da cultura em que estão inseridos.

Dentro da escola e da própria sociedade a autora considera que existe um


silenciamento pedagógico sobre este assunto. Porém, pensar que por isso
não está ocorrendo a propagação do racismo é um erro. A mediação
ocorre sempre, seja de forma sutil ou não. Não é necessário que um
professor ou qualquer outro porta-voz da sociedade diga que os "negros"
são isso ou aquilo. Basta a convivência com os colegas ou algo mais sutil
como capas de revistas trazendo garotas "brancas" ( visto que se alguém
está na capa de alguma revista, ela é tida como bonita ou importante).

A situação está dada e o silêncio permite que a cultura continue a ter um


signo pejorativo para este grupo étnico. Por isso, a intervenção pedagógica
é importante na tarefa de se desconstruir este estigma social e deve ser
vista como um caminho possível na direção de se re-elaborar
conscientemente o signo em questão.

Referências Bibliográficas

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constituídas nas relações.

Dissertação de mestrado, Unicamp,2003

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