A CONVERSÃO DO DIABO - por Leonid Andreiev - Quem não ama o bem ?

Uma vez, um diabo, já entrado em anos e a quem tinham apelidado, no inferno, de Na rigão, sentiu, inesperadamente, certa inclinação à virtude. Entregara-se na sua mocidade , como todos os diabos, a insignificantes proezas diabólicas, mas, com a idade, já u m tanto cansado do seu oficio, tornara-se comedido.. Embora gozasse de ótima saúde, os excessos juvenis quebraram-lhe um pouco as forças e ele não sentia entusiasmo algum pelas tolices da mocidade. Cada vez sentia mais ac entuada propensão para a ordem (virtude esta muito comum entre os diabos); dotado de espírito firme e esclarecido, embora um tanto metafísico, gostava de filosofar. Acabou por perder a fé na perfeição do inferno e nos costumes diabólicos. Enfadava-se pr incipalmente nos dias festivos, quando não tinha nenhuma tarefa a desempenhar e não sabia como matar o tempo, tanto mais que era celibatário. Para lutar contra essa s ituação que tanto lhe perturbava o espirito, entregou-se ao trabalho, mudando várias v ezes de ofício. De inicio, instalou-se como diabo tentador em uma igrejinha católica de Florença. Ali, segundo suas próprias palavras, saboreou pela primeira vez o repouso de espir ito. Ali, também principiou sua conversão. A igreja, era muito pequena, e ele tinha pouco trabalho. As míseras velhacadas que tanto agradavam que diabos jovens - apagar as velas, fazer com que o sacristão tr opeçasse ou que as velhinhas, enquanto rogavam a Deus, pensassem coisas escabrosas - não o agradavam; ao contrário, chegavam a lhe causar engulhos. Quanto às tataranhad as importantes, não se oferecia oportunidade para elas. Todos os paroquianos eram pessoas modestas, que dificilmente se deixavam tentar. Nem ouro, que nunca haviam visto; nem o amor passional, que jamais conheceram; nem os orgulhosos sonhos de ambição, completamente estranhos a sua natureza, podiam turvar a paz de suas almas superficiais, razão pela qual todos os esforços do diabo eram inúteis. Quanto aos pecados insignificantes, os fieis entregavam-se a eles de-per-si, sem necessidade de serem tentados pelo diabo, e este não precisava quebrar a cabeça par a inventar coisa alguma, mesmo porque o numero dos pequenos pecados muito reduzi do. A principio quis tentar o pároco em pessoa, mas todas suas tentativas fracassaram; o pároco era um velho já desdentado, um tanto volvido a infância novamente, e puro co mo uma donzela. Somente conseguia faze-lo esquecer, algumas tardes, as palavras de sua oração, substituindo-as por outras, ou comer carne nos dias de jejum, ou entôo dormir até muito tarde, faltando a missa da madrugada. Mas o diabo sentia muito be m que tudo isso não passava de pecadilhos exteriores e que semelhantes meios não bas tam para a perdição da alma de um crente. Pouco a pouco começou a cansar-se do seu oficio, pondo no trabalho cada vez mais i ndiferença ou formalismo. Por descargo de consciência, ocasionalmente contava, a alguma velha ajoelhada dian te da Virgem, uma anedota escabrosa, cuspia duas ou três vezes num canto da igreja , ou fazia com que o velho sacerdote confundisse as palavras da missa sempre no mesmo ponto. Depois de haver cumprido o seu dever, apressava-se a sentar no se l ugar favorito, a sombra de uma coluna, para acompanhar, devotadamente, num breviár io furtado, as palavras do santo oficio. Mas esse passatempo, embora agradável, er a contrario a natureza ativa do diabo. Para não permanecer ocioso começou paulatinamente a trabalhar. Tornou-se, por vontad e própria, uma espécie de sacristão-ajudante, da igreja. Varria-a de manha, limpava o metal das portas, ativava os candeeiro durante a missa e, junto aos demais paroq uianos, acompanhava o coro, cantando em voz de falsete o "Ora pro nobis." Se lhe acontecia entrar na igreja pela porta da rua, molhava suas garras na água b enta, benzendo-se com ela. Quando todos os crentes se acercavam do pároco para que os abençoasse, acompanhava a multidão, atropelando as pessoas, conforme seus hábitos diabólicos. Durante as raras visitas ao inferno, onde precisava apresentar informes acerca d e suas atividades (os quais, por sua vez, eram arqui-falsos, como todos os infor

exclamando: . Quando d espertou. então. nosso diabo sentia aumentar cada vez mais seu asco pel o inferno. Que coisa tão extraordinária ! Um diabo que conhece o Evange lho ! . Após uma de suas visitas ao inferno.Vim para arrepender-me . e o nosso diabo.Um pouco . Com curiosi dade perfeitamente infantil. foste tu quem me sugeriste essa idéia pecadora ? Ai meu Deus ! Vai-te . vai-te . . . . . Eu não po sso viver sem praticar a virtude. chamarei o sacristão.Interrogue-me e vera. . Não te quero ver mais ! Põe teus cornos na cabeça. nariz grande. conservava sua dignidade. . porem não sei como faze-lo. pôs-sé a interroga-lo sobre as coisas do inferno.perguntou o padre. . Aquilo não é viver. tentar-me. Via-se logo que era um diabo sério. não se humilhava. E. . . Não convém que continues neste santo lugar. renuncio a eles para sempre. ansioso por sair dali. . E com um sorriso levemente irônico acrescentou: . nem mostrava demasiada afetação.Meu padre.respondeu orgulhosamente o diabo. O velho sacerdote ficou estupefato. e por seus costumes. . . ali te examinarei. que procuravam inutilmente livrar suas vassouras de tal aperto.. e o sacerdote acabou por acreditá-lo. sua barulheira infernal. vai-te . com o fito de confirmar suas palavras. para respirar um pouco..O sacerdote ficou inquieto.Então. cada palavra era um embuste. ou para arrepender-te ? Se julgas que me tentas. Durante toda a noite o pároco.Eis uma surpresa ! Vamos a minha casa. . mas onde estão os teus cornos e os teus cascos ? .Pois apesar de tudo. curio samente. po is não lhe agradava que o tratassem com demasiada familiaridade e perguntou insist entemente e com melancólica entonação na voz: . As bruxas gritadeiras. e o senhor me escorraça ! . Sinto grande desejo disso. se divertia prendendo-lhes as vassouras com a porta . . .perguntou-lhe o padre. esta escrito no Evangelho que se uma ovelha desgarrada . O diabo. .o que desejas ? . . .Porventura as est udaste ? . disfarçou-se de homem.páro co.Tu es um verdadeiro sábio em questões religiosas ! Realmente ! .Afinal. vai o Senhor ensinar-me a praticar a virtude ? .Faz hoje quinze dias. . apresentou-se como diabo. Se não fiz eres. sentia-se en fermo. não lhe inspiravam agora senão aversão. já idoso. meu padre. em sua casa.respondeu modestamente o diabo. ponderado e judicioso. .perguntou o assombrado sacerdote. . Não se orgulhava dos seus conhecimentos. . . . Recorda-se da carne que comeu no ultimo dia de jejum ? . dirigindo-se ao confessionário.No entanto. logrei faze-lo cair em tentação muitas vezes. Mas este lhe jurou.Impossível ! . meu caro senhor não me deixo tentar ! . voltou com particular satisfação à tranqüila igrejinh a e durante dois dias e duas noites dormiu como um justo atrás da coluna.E para que vieste aqui ? Para.Ai ! meu padre. sua sujeira e desordem. . previno-te de que não o conseguiras. que já havia perdidos hábitos do ambiente. .diabo e cada vez mais se as sombrava.O senhor pode examinar-me .mes dos diabos de Satanás). Apesar dessa modéstia.que desejas ? Então o diabo caiu de joelhos. Vamos para casa ! .exclamou tristemente o di abo. não mostrou desejo de querer falar nelas. Satanás mentia mais do que to dos juntos.Ensine-me. . . . este afastou-se um pouco. observando depois o terror e as torturas dessas desventuradas. porém. onde se achava o. examinou o.Afinal. O pároco. é um verdadeiro inferno . que antigamente lhe pareciam tão cativantes e belas. bateu amigavelmente no ombro do diabo.Que carne ? . de expressão triste e aborrecida. a praticar a virtude.Eu.Bem. Quanto ao Satanás e a todos os misteres diabólicos. quando este senhor desconhecido. lábios finos e enrugados.perguntou-lhe o padre . . No inferno todo o mundo mentia e re-mentia sem cessar.. e por isso agradava mais ainda ao velho sacerdote. conheces tu o Evangelho ? . pois era hora das confissões. o diabo cuspiu desdenhosamente três veze s seguidas.Mas.

. Comparou os textos. De um lado. Salva-me. Com tudo isso a saúde do nosso abnegado diabo começou a ressentir-se sensivelmente. sim . Tens um aspecto estranho . . . meu padre ! . e os seus livros es tão cheios delas . Ensinar-me-a o senhor ? . . meu padre ! Eu não posso viver assim ! . Não encontro nesses livros senão c ontradições. por exemplo. não teria aquela filha. Mas o diabo não lhe quis dizer a verdade. .Já o veremos ! Antes de mais nada. . gritou-lhe: . apesar de tudo. .Sim. .. possuíram mulher. os antigo s patriarcas. . que consideram o matrimonio como um pecado mortal. não fazes outra coisa senão criti car e procurar contradições.Li todos os seus livros e continuo tão ignorante como antes a respeito de tudo q ue se refere ao bem. . no próprio original. Por exemplo: para começar dignamente uma nova vida. . . O senhor. Se São Joaquim não se tivesse casado. .Que diz o senhor ? . .perguntou o sacerdote espantado. mostra-me .Aquele que se sente capaz . Vai passear um pouco . Em vez de crer. . . O sacerdote. já não sei se o matrimonio é um bem ou é um mal. meu padre ! Agora mesmo terminei o ultimo. Satanás te incita a isso. É realmente perigoso falar contigo.Não ! Estou sempre assim . . Desgraçadamente. . . e que me indique como devo proceder para não . . . . . e ate muitas m ulheres cada um. . . .Ouve. . . . que eram tão santos como os senhores.O que mais me interessa e aprender a praticar a virtude. ainda te falta muito . Pois olha: vai dar uma voltazinha. Tu con heces bem a Bíblia. . . .disse o velho sacerdote. paramim. . como todos os sacerdotes c atólicos.Que posso fazer ? Não posso ser de outra maneira. . . Despertando-o em plena noite.Não é isto que espero do senhor. .Verdade ? . para todos os casos da vid a. não pôde encontrar resposta ao problema que tanto o pre ocupava. far-te-ei uma lista do que deves ler. . . Acabou por desesperar-se. . torna-se mau noutro. Enquanto pa sseias. Obriga-nos a incorr er em heresias . Ao fim de dois longos anos de sofrimento e trabalhos. Não tenhas medo . . afim de praticar o bem ao seu l ado. . para pod er ler os livros religiosos não traduzidos. . O que aconteceu ? . esforçando-se por encontrar neles resposta à pergunta que o perturbava: N o que consiste bem e como fazê-lo para que não se transforme no mal? Há muito tempo que conhecia a língua hebraica e agora estudou também o grego. . Se podes tomar outra forma. tudo é proibido de outro. meu amigo. tenh o um espírito curioso.Leras muitos livro s e aprenderas tudo . . pecador ! . . . apresentou-se em casa do s acerdote. tudo é permitido. que era uma santa também . é preciso começar ler as obras dos Santos. . mas isso só não basta . embora seja eu velho. Emagreceu e. que encerre em si nenhuma contradição. .. . . muito . tinha a intenção de me casar com uma mulher honrada. embora tivesse dito que es sábio.Vamos vamos !. diabólico e incapaz de suportar contradições. enquanto eu trabalho para o teu bem . .Todos. Mas depois de ter lido todos esses livros. Durante dois anos o diabo estudou de cabo a rabo todos os livros que o sacerdote lhe dera. Estas sempre assim ? .Está certo de que lestes todos os livros? Tens tão pouca paciência ? . tranqüilizando-o. . fez vários descobrimentos e c hegou mesmo a criar novos esquemas religiosos.Que esperas então ? . nun ca vi outros diabos . . moveu a cabeça num gesto de reprovação.Isso é mau ! . . na realidade. meu amigo. celibatário.Cala-te.Falo da tua aparência . .Salva-me. procurando os erros que tinham escapado aos outros. muito mau . casa-te.Não se trata disso.Preciso de uma resposta que me possa servir sempre. . Dir-se-ia que comes p ouco e te entregas sempre a tristes reflexões . . . Se te parece bem. .Que te s ucede agora ? . o que é bom segundo u m livro. No entanto. . Tanto melhor .foi a resposta. Ou talvez não estejas sempre ass im ! . .

declarou com voz pesarosa ! . Isto é o que desejo que o senhor m e ensine. posso fazer-lhe algum mal. . Ama. sorrindo. compreendendo seu estado de alma. algum grande mal. como não tenho press a. meu padre. . . . Além disso. dá-a.Não ! O caso é que eu briguei. Esper o que não tenhas nenhuma dificuldade em adota-los. chamou o diabo. ao invés. passeando pela cida de. . Logo veremos o resultado. Irei para o in ferno ! Passaram-se outra vez os sete dias. mas ao mesmo tempo não quero fazer mal. Bem vês que não pode ser mais claro. Não sei como lhe agradecer . como ? Não te havia dito: "Se alguém te dá uma bofetada na face direita. como os anjos. Olha teu nariz . me vi na impossib ilidade de cumprir o santo preceito. mas como ignoro em que consiste o bem. Se não encontrar o senhor nenhum meio de salvar-me. transcorrido este prazo. à procura de alguém que me esbofeteasse. mas como ninguém o fez. não posso me sentir como um anjo.Por isso quero lutar contra minhas inclinações natu rais. Isso e o que necessito. depois. Mostrava-se mais triste do que nunca: estava com o rosto cheio de manchas de sangue e de cicatrizes. reflita. . até mesmo arremessa-lo ao inferno. dizendo-lhe: -Es um diabo inteligente e. não é verdade ? . sem nenhum esforço de tua parte . Concedo-lhe. Preciso que o senhor me ajude. e não como a ti mesmo. escapou-te uma coisa muito importante. Não quero ser condenado ao inferno para toda a eternidade.cometer erros. Estive durante quinze dias. Será a tua primeira prova. Hás de convir que é muito sim ples ! O diabo refletiu um pouco. O sacerdote tinha um ar triunfal. . principiarás a praticar o bem. que sendo diabo por n atureza. . Está escrito no Evangelho: "Se te pedem a camisa. . não se zangou ao ouvir suas g rosseiras palavras e começou a refletir.Sim. no entanto. Mas o diabo não parecia nem um pouco entusiasmado. O sacerdote respondeu-lhe tristemente: . recordo-mo perfeitamente.Isto sim ! Agora já sei o que é o bem. e o senhor não me vera nunca mais. ao contrário. . . Para provar o amor do próximo. Concedo-lhe o prazo de se te dias. Então compreenderás tudo. Mas logo este voltou a sua casa. tu possues uma alma abominável.perguntou assustado o sacerdote . .Que dizes ? Que te aconteceu ? ." Segue estes mandament os. te entregaste a brigas . De que man eira quer o senhor que um diabo ame ? Compreenda-me padre. voltarei ao inferno.Amar ? Como se isto fosse tão fácil ! É precisamente o que não posso fazer. novamente. Refletiu seis dias seguidos. Olha aqui: vê o que esta escrito: "Ama a teu próximo como a ti me smo". o senhor não me puder dar uma resposta clara e decisiva. Brilhava no seu c orpo escuro uma camisa complemente nova.confirmou o diabo. .Não ! Isso não está claro. .Depois de largas reflexões. E teus olhos ? . . No sétimo. .Mas. é preciso fazer-lhe algum bem." Outro preceito ordena: "Se te dão uma bofetada na face direita. Se. .Por desgraça. e respondeu: . esperarei um pouco. O velho sacerdote estava certo de que havia encontrado o meio de salvar a alma d o diabo. alegremente: . . oferece igualmente a esquerda. um prazo de sete d ias. Quanto ao matrimonio. ao leres os livros.Claro ! . O sacerdote chamou novamente o diabo e lhe disse: . Espero que os anjos não sejam os únicos candidatos ao céu. acabou-se.Como és exigente ! Pois bem: ama o teu próximo simplesmente.Mas não disseste que andaste a brigar ? . .Isto não dá resultado ! . pois aspiro ao céu.é de se acred itar que brigaste com alguém. oferec e igualmente a esquerda ?" Não te recordas ? . Ou será que alguém te feriu ? . Transcorreram outras duas semanas. A isto se reduz tudo. a ntes. embora não tenhas outra. pretendo somente fazer o bem. Ai ! meu D eus ! Tinhas a intenção de praticar o bem e. Estava furioso o pobre diabo ! Como se apaixonara pela causa do bem ! O velho sacerdote. por causa da tua natureza. Entretanto. não é nada difícil isso de dizer que d evemos amar ao próximo como a nós mesmos . encontrei para ti dois preceitos muito práticos.

Desgraçado ! Mil vezes desgraçado ! . Esperava que me pedissem a camisa . e até mesmo r egular erudição.Nem eu mesmo o sei. O diabo. não foi um só que me bateu.E tu. e sim cumpri-los ao pé da letra !. Pediram-me tudo que o senhor possa im aginar. disse com voz assustada. percebeu que a cabeça do diabo estava coberta de sangue s eco. disse ao diabo: . Triste e abatido. . homem ! Eu te havia dito "Se te esbofeteiam a face direita . com ar pensativo.. entre os pobres. se me engano ao procurar o caminho do bem.Sim. Depois suspirou e. . o senhor mesmo disse que não se deve interpretar os santos preceitos . e não te desesperes. . os dias e as n oites sobre os livros.Isto é outro caso. para acautelar-te sobre os erros . Com todo o meu coração. qualquer um o entende melh or. atraiu-o para perto de si.Eu digo ao senhor que não me deram na cara.Sim. para descansar um pouco e restaurar as força s. .Ai meu Deus ! Como és estúpido ! Geralmente mostras grande habilidade. Se o s enhor quer saber a verdade. ele já devia ter-se afogado. perguntando a mim mesmo como era possível que ele se mantives se à tona da água quando. Tive uma disputa com certo senhor. infeliz ? . De repente vi que um homem se afogava no rio.Eu ? Contemplei-o. acudiu uma porção de gente.Qual ! Comprei-a para dar ao primeiro que ma pedisse. . . Nos seus esforços desesperados pa ra se salvar. menos a camisa. Se se tratasse do rosto . . devo informar ao senhor que ele não foi sem uma lembra nça minha: quebrei-lhe duas costelas. pão ? . Não me repreenda o senhor.Tenho medo. Diz-me. O diabo fez um ar de dúvida. .Tu és um desgraçado ! Que vou fazer agora contigo ? Não posso seguir-te por toda a p arte. . . . . gritando: . E qu e quer dizer esta camisa nova ? Ganhas-te-a. mas no que se refere ao conceito do bem. ignorando o que é o bem. A coisa ocorreu da seguinte forma: depois de longos passeios pel a cidade. como a to dos os seus prazeres. cansado e desesperado. . porém. depois de um largo si lêncio. depois de haver recebido o beijo. . Como não compreendeste que as palavras do Evangelho devem ser interpretadas nu m sentido mais amplo ? . . por exemplo.No entanto. cheio de feridas e cicatrizes. Por algum motivo passei. . . O pobre sacerdote ficou completamente desnorteado. teria sabido como fazer . Quero e ncontra-lo. Durante quinze dias esti ve passeando pela cidade. Não consigo compreender como podem viver as pessoas na terra.Não. Sem me ufanar disso. meu padre. mas na cabeça. Este contemplava-o atentamente. Vou ensinar-te ainda umas tantas coisas . atraída pelos seus gritos. beijando-lhe a fronte. Veja. meu padre.exclamou furioso o sacerdote. .Espera . durante dois anos. Mas o di abo o interrompeu. Naturalmente eu lhe devolvi a pancada.Pediram-te. Vi no inferno horrores sem nome. o diabo permaneceu de pé ante o s acerdote. . custe o que custar.E não lhes deste ? . . mas agora já não sei mais nada. tenho piedade delas ! . . . de presente ? . segundo todas as leis da física. . O velho sacerdote fez um gesto de desesperação: . Antes. Agora vejo que não existe salvação para mim . Não há nada mais terrível do que aspirar apaixonadam ente o bem e não saber como ele é. nesse caso. Ao fazer isso. . por que deu aquele homem uma bengalada na tua cabeça ? Talvez sejas u ma vitima inocente e. É preferível que não saias à rua . . . . . ele me deu uma bengala na cabeça. chegou muitas vezes perto de mim. mas ainda cheio do mais ardente desejo de fazer o bem. sentei-me margem do rio Arno. Provavelmente ignoram o caminho do bem . devorando-os. Afinal. uma parte dos teus pecados poderá ser perdoada. mas jamais me senti tão perturbado e inquieto como agora..Mas.Mas não acabas te de dizer que te pediram muitas coisas ? . A discussão acabou numa verdadeira ba talha. Por algum motivo renunciei ao inferno. que não faço senão asnei ras. Enquanto assim refletia. também acreditava ser uma vítima inocente. mas inúmeros . aproximando-se dele. .

como tu. apesar de tudo. Agora. Ensinar-lhe-ei as leis ger ais. mas tenho medo de revela-la. se realiza esse mesmo bem. Já que o senhor pe rmite que eu comente os preceitos. Se um pobre lhe pedia alguma coisa de forma não prevista pelo sacerdote. tal como os compreendia. mas também o servo de Deus não conseguia compreender nada daquilo. aprendeu ate a chorar. que jamais vira uma só lagrima. o senhor pode ficar tranqüilo a meu respeito.Só Deus o sabe ! Isto vai alem dos nossos conhecimentos . novamente. e ele se enganava a cada instante. Quanto a ti. . .pensava quebrando a cabeça. Quando o sacerdote anunciou ao diabo que daquela data em diante lhe seria dado c omentar os preceitos e adapta-los a vida real.. soltando suspiros dolorosos . Diga-me qual a lei mais importante e mais grave da vida. que o próprio sacerdote principiava a desanimar-se. respondeu o sacerdote. Não só o diabo. ele sent iu-se cheio de alegria e foi com certo orgulho que declarou : . que som ente por suas lagrimas e por seu fervoroso desejo de encontrar o caminho do bem merecia ser inscrito no numero dos santos. as p ancadas não faziam mais do que sobrecarrega-lo de novos pecados. por sua vez. Alias. atras das empoeiradas colunas. e ele que as comente depois tratando de adapta-las as circunstancias. Eu não te abandonarei. vai lavar as feridas da cabeça. pois os que lhe b atiam tinham sobradas razoes para se enfurecerem contra ele. que eles inutilmente buscavam. Não o bstante. Chorava tanto. precisamente no momento de beijar o sacerdote a fronte abom inável do diabo. foi a c ausa de uma nova série de aborrecimentos para ambos. curava as feridas. mas em vez de acontecer isso. e tudo caminhava bem enquanto estas se apresentavam justamente sob o mesmo aspecto. Isto." Com suma docilidade o diabo se aveio com este novo sistema. há muito tempo que não bebo álcool.Agora. Tu es um diabo muito impulsivo. mas não se de ve perder a esperança. nem que escondesse em si tantos e tão obscuros mistérios. "De onde provem tudo isto ?" . Depois soltou um suspiro de consolo e disse: . negava-o. assim como o sacerdote que o protegia. sem se preo cuparem com estes graves problemas. senta do atras de uma coluna da igreja.Vivem. não te desesperes. O diabo encerrou-se na igreja. O sacerdote foi a procura de novos caminhos que conduzissem ao bem . e estou certo de não mais me enganar . Dava o bom padre a seu discípul o ensinamentos pormenorizados para as diferentes circunstancias da vida. o caminho do bem e da virtude. e esforçar-se por compreender os grandes e misteriosos pr oblemas do bem e do mal. Assim terminou a conversa entre o diabo e o sacerdote. e tantos e tão inesperados problemas. a ensinar o bem ao dócil diabo. Tenho espirito firme e idéias positivas. inventam preceitos saudáveis e vivem perfeitamente c om eles. . E o velho padre continuava pensando: "não haverá mais remédio a não ser que lhe permita comentar os preceitos. O velho sacerdote pôs-se a procurar na sua memória e a consultar tudo quanto havia l ido e aprendido durante a sua vida. e n a mesma ordem prevista pelo professor. embora seja um tanto perigoso. porem. Somente lhe peço que não me oculte nada. ao mesmo tempo que este. crendo have rem encontrado o bom caminho. pois é perigos . Principiaremos por esta e depois o senhor me ensinara as outras. e te ensinarei ainda algumas coisas mais. meu padre. procedendo bem num caso e portando-se mal noutro. Outros.Uns. tudo quanto lhe era ordenado. que só isto bastaria para fazer dele um mártir. como animais. Eram tão freqüentes estes casos. para ali se rest abelecer dos ferimentos. não farei mais tolices. O pobre di abo. quase sem energias. O diabo executava.Não me f altara tempo nem paciência para tanto. Até então todos os seus sacrifícios não lhe haviam servido para nada. e sofrem porque não conseguem encontra-lo. Sentia-se alquebrado. Batiam-lhe tanto . Não suspeitava que a vida tivesse tantos e tão variados aspectos. . O sacerdote começou. enquanto o diabo. e sem nada compreender. dando provas de uma vontade de ferro. outros procuram. Ambos ignoravam que. mas estava pronto a todos os sacrifícios .E essa gente se salva ? .perguntou o diabo.Existe uma lei como a que tu queres. o débil engenho humano não podia prever todas as complicações da vida. ainda. se compadecia dos que desco nheciam o bem. . Separaram-se. ele mesmo o reconhecia. desconfiado. não só zelosamente. mas co m abnegação.

Com o que ? Antes do acontecido me haviam roubado até meu bastão. . O sacerdote também estava assustado.Feriu com ela a infeliz mulher. sem deixar os demais fazerem contigo o q ue bem quiserem. grandes e misteriosas: * * * NÃO TE OPONHAS AO MAL * * * Ao ver estas terríveis palavras. E ambos. Este. Tenho. com voz comovida.perguntou.respondeu tristemente o diabo. . a todo momento. o diabo ficou assustadissimo.Procedi de acordo com a lei que o senhor me ensinou sem me opor ao mal. meu padre. .. Estava faminto e sed ento. .Talvez o que fiz. o sacerdote. . o sacerdote mostrou ao diabo estas palavras. atirou-a contra as pedras . Permita-lhes procederem a vontade e submete-te repetindo sempre esta frase: "Perdoai-os. Olha ! . Não fizeste nada para defender a mãe e o filho ? DESGRAÇADO ! COM O NÃO ATACASTE OS BANDIDOS ?? . confiança na ajuda de Deus.Achava-me deitado. Estava todo coberto de cicatr izes. que está escrito: NÃO TE OPONHAS AO MAL ? . o servo de Deus e o de Satã. . onde encontrara um refugio sossegado e desandou a chorar. novamente.E o que fez ? .O senhor se esquece.Não cometi nenhum . mas agora sofro infinitamente. Eis aqui o que lhe acontecera por ultimo : . a quem amava com todo o corarão e a vel ha igreja. saqueado e mal tratado. .. Deus Onipotente. meu padre ! Antigamente não sofria. vinha uma mulher com um embrulho nos braços que parecia de valor. .Apesar de tudo. por que choras. se contemplavam reciprocamente. experimenta ! . e lhe conta rei tudo. Ela caiu. O velho sacerdote sentiu certa alegria: tudo testemunhava que seu discípulo não se h avia oposto ao mal. podias haver encontrado um meio d e lutar contra eles. juntamente com o precioso fardo que levava nos braços. perdidament e. . trêmulo. .Estas palavras são importantíssimas.a. seja verdadeiramente o bem. tu ? . partindo-lhe a cabeça. o padre. porem. O senhor mesmo vera onde esta o bem e o que tenho feito.disse. cheios de terror. . E abrindo um livro sagrado. Os bandidos correram para ela e gritaram: "Da-nos isso !" Mas a mulher negou-se. . . No entanto. Presta atenção para não cometeres nenhum er ro. o que estava com a espada. . Não as esqueça ! O diabo se foi. a procura do caminho do bem." . . . segurou a criança por uma das perninha. Passaram-se dois meses sem que aparecesse. Do outro lado da estrada e na mesma direção. O sacerdote se pôs a gritar: . meu padre disse ele. olhou para o velhinho.exclamou.O que há de bom nesta lei é que tu mesmo não deveras fazer nada. mas por que não me cau sa ele nenhuma alegria ? E impossível que aquele que pratique o bem. O sacerdote pôs-se a chorar também adivinhando que sucedera qualquer coisa de mui to grave. Devia ataca-los c om os teus cornos ! Na tua qualidade de diabo. . Se o senhor soubesse quanto eu sofro ! Sente-se. meu padre. .Mas tu. Uma vez que tu és diabo. .Então. Então um dos bandidos tirou sua espada . Finalme nte ele regressou. respirando com dificuldade e escarrando sangue.Ah !. . o sacerdote. Estou quase certo de cometer erros com isto. . não sinta alegr ia de espécie alguma. . . batido. .Tenho medo. Tudo quanto possuía lhe havia sido arrebatado. impressionava-o dolorosamente a expressão de temor e de angustia que se lia nos olhos do diabo. porque não sabem o que fazem. deves ter cornos. perdendo todo o seu habitual orgulho: . Durante esse tempo o velho cura esperava o ansiosamente. Quando os bandidos o abriram viram que. o tesouro da assassinada era uma criança. atras de uma grande pedra a beira da estrada e v i a aproximação de dois bandidos. única arma que pos suía.Vamos ! Conta-me os erros que acaso cometeste. . Havia emagrecido horrivelmente e todo ele era apenas ossos.Como? . fazendo-me também chorar ? . E o diabo contou minuciosamente como o haviam perseguido. por fim.. Os bandidos puseram-se a rir e um deles. . seguindo suas indicações. alçou-a no ar e .Vamos ver ! .

Poderias criar algo d e belo ? .Como ? Não existe o bem ? Então. existe a obrigação moral de fazer o bem. Espera um pouco meu amigo: vou rogar a Deus que perd oe nossos pecados. meu amigo. ainda o castigam. e disse cheio de remisão: . vou faze r-te uma pergunta: tu és um diabo curioso de saber tudo. . . ou te porei na rua. replicou: . . basta. com grande assombro. Suponhamos. que o diabo dormiu. porém. Não me restará outro remédio senão voltar ao inferno. por esse crime. outras não. ninguém me obriga a pintar quadros. não é o bem isto de ocupar-me de ti há tanto tempo ?.Muito bem.Nada mais posso fazer ! Para que te enganes outra vez e me faças pecar ? Não. Depois o diabo disse: .disse. agora. com um gesto de a mizade. Estava tão enfurecido. Se eu pinto um mau quadro. falando contigo. .Pois não me fale mais do talento. tanto. Quanto ao problema do bem. que alguma vezes é preciso odiar.O que o senhor me ensinou é bem pouca coisa. meu amigo. .Eis ai ! Mas então. nem lei s. Vejo bem claro. Do contrario. devo sofrer eternamente as penas infernais.Faça-o. sem talento para ele ? Requer-se mais talento para o bem do que para a beleza.Perdoa-me que te haja ofendido. O bem exige um eno rme talento. Depois o sacerdote pálido como um cadáver. . O assassino fui eu . . Em geral. O diabo contemplava. . No entanto .Cala-te. . meu padre.E ouviste falar que existem leis para a beleza ? . Acabaram-se as regras ! Já não existem mais regras que valham ! O diabo ficou furioso. o sacerdote. De-me regras ou leis.A culpa é minha ! Não foste tu. Perdi a cabeça. V ai-te ! És um ingrato ! Mas o diabo. . por força. não me mandarão.Reinou um demorado silêncio. Mandam faze-lo e não indicam de que maneira .É difícil ensinar o diabo. . . . . ao passo que se quebro a cabeça a meu próxim o. a mim. não e isso ? O sacerdote fez um gesto desesperado dizendo: .Não basta conhecer as leis. caiu de joelho s. .Hei de regressar. que aprendeste essas leis.Não sei. E se alguém se engana. lhe falou: . meu amigo. Dize-me: agradaram-te? O diabo refletiu um pouco. já não será a mesma coisa. .Naturalmente.E no caso de não o possuir. ao inferno. . ó animal. . Este é o verdadeiro sentido do bem ! . . Não tem do que se ufanar. meu padre? Sua voz era tão triste e comovida.Ótima saída ! . que o sacerdote se condoeu e.Não te dizia eu que para fazer o bem é preciso talento ? . Em algumas ocasiões convém deixar -se bater. que parecia sumir-se no mais profundo desespero. não é verdade? . ao inferno. .Se o senhor não possui forças para ensinar o diabo. muito já se escreveu sobre isso. não se necessitam palavras. provavelmente visitaste i números templos e museus e viste muitas obras de arte. . que ameaçou ir a casa de outro sacerdote.Mas o que apreciaste foi por sua beleza.Nesse caso estou perdido .disse resolutamente o diabo.O senhor exagera. Alem disso. desgraçado. pretendes praticar o bem.O senhor pode fazer por seu lado o que lhe agrade. Desejo fazer o bem e o s eu dever é ensinar-me como devo faze-lo. dê-me leis para seguir. Reinou novamente o silêncio. é porquê o seu bem vale muito pouc o.Estas grandes palavras não são para nós. necessita-se também ter talento e isso me falta.Mas se não existem regras é que tampouco existe o bem? . e respondeu: . com uma triste entonação n a voz.Umas sim. por que. . nem foram os bandidos quem assassinou a mãe e o filh o. O sacerdote o despertou dizendo-lhe: . A oração durou muito tempo. mas há circunstâncias em que se torna necessário maltratar os demais.Sim.

uma espécie de agenda para todo o ano. . é espera um pouco. meu amigo ? Aborreceste ? perguntava-lhe o velho sacerdote ao trazer-l he a comida. auxilia um pouco o sineiro. conserva-la serena. Estas vendo? Agor . Não te posso deixar dessa maneira . me lhor será que nada facas. O sacerdote temia essas reflexões. Não te movas e fica sossegado. Isto. Cada dois ou três dias. mas farei todo o esforço possível para concluir o trabalho antes de minh a morte.Ficas imóvel ? Não fazes nada. pareceu não perceber coisa alguma. vendo nelas . . . batem-se umas contra as outras. s em respirar sequer. entr e os sinos. . esperei trazer-te ao bom caminho como a ovelha desgarrada. Ontem matei uma mosca. . sem se mover. Breve terminarei meu trabalho.Oh ! santo Deus ! Como es difícil de te contentares ! Cada conversa contigo me f atiga enormemente e acabo com dor de cabeça. . O bem possui tantas formas . para a gloria de Deus ! O velho sacerdote entregou-se ao trabalho com afinco.uma espécie de ação. não poderei acabar o trabalho que estou fazendo. . O c oitado já esta. nela enco ntraras tudo quanto deves fazer diariamente . O principal não é o espirito. Toca o. pois assim. . . Se não te parece mal. Naturalmente ! .Mas. se co ntradiz. muito mal comigo. Qual é pois a "verdade verdadeira" ? Ou. .o v elho sacerdote levava ao diabo um pouco de comida. Hoje mesmo principiarei a trabalhar e tu subiras no alto da igreja e permaneceras ali. Eu também tenho amor próprio e não é justo que o firas. se todas são verdades. meu padre. as cordas e os trastes velhos. cometeras novos erros. se se vive com a consciên cia tranqüila ! . Devo. ou tiveres duvida a propósito de qualquer detalhe. pelo menos.Portas-te mal. com o distingui-las e encontrar a que possa servir melhor ? Tais pensamentos quase enlouqueciam o diabo inspirando-lhe mesmo certo terror. não deixando que ele pens asse em nada. Instalara-se num pequeno desvão situado na torre da igreja. tapa os ouvidos. para ti. tão somente porque me aborrecia demasiado ! . . sempre descontente. Isto. Este prometia obedecer-lhe.Moscas ?. procura a lógica em tudo. . e começarei a trabalh ar imediatamente. Parece que se contradizem. do contrario. não sei se é ou não permitido matar moscas . O diabo ouviu-o. quietinho. em lugar dessas regras gerais.e razão tinha ele . no bem. a expor-te a novas desventuras. Tenho muito tempo de sobra. . enquanto o diabo principio u a não fazer nada. vou traçar-te uma linha. sentando-se um instante ao se u lado. Tornava-se dificílimo não pensar no que havia visto e ouvido. que.Sim. . Paciência ! Não deves fazer nada ! prosseguia ele. Se te aborreceres. porem isso era mais forte do que a sua vontade. O próprio Deus diz tão depressa uma coisa como.Contradições por toda a parte ! murmurou com os olhos cheios de espanto. velho e se esquece de tocar os sinos. . .outra ! Ha inumeráveis verdades que se cruzam. É verdade que a minha saúde me traz cada vez mais apreensivo. Caso contrario. Fecha os olhos. durante horas inteiras. .. isto e. . absolutamente nada ? . P ermanecia. e então começaras a viver. Mas não deveras te afastar um mi límetro sequer do que estiver escrito nela. entr echocam-se.Que ha. es um diabo muito desagradável l Confessa-me. a que deves t e submeter-te-ter todos os dias. impelindo-o a cerrar hermeticamente o espirito do diabo. perigosas não somente para um dia bo mas também para um homem. Onde encontras tantas contradições ? As cont radições não existem senão no espirito. tão absorto estava e m suas reflexões. de procedimento. . a fim de conversar com ele. mas a consciência. estarás livre de dar mau passo. . . pois.Como ? exclamou alarmado o sacerdote. porem.O velho pároco sentiu-se ofendido. Uma das paredes da torre tinha na sua parte superior uma janelinha cheia de teias de aranha. Se esqueceres alguma coisa. mas na re alidade não é assim. e disse num tom de censura: . Farei. no entanto. pois.Em que ? . No entanto. Para dizer a verdade. no que consi stia sua idéia fixa. principiei a querer-te como a um filho e t u pretendes agora me atraiçoar. por acaso a consciência não é guiada pelo espirito ? O senhor. com franqueza se obedeces exatamente as minhas ordens . imóvel no seu canto empoeirado. Sofri em tua companhia. muitas vezes. O resto do tempo o diabo não via ninguém e não faz ia outra coisa senão refletir.

Mas se o queimaram ! . e todo o seu semblante parecia. . assumia m posturas provocadoras. e nos divertirá um pouco. mataram um. Agora . tranqüilamente. não disse uma palavra ao sacerdote e aceitou gostosamente a proposta. também eu matei seres v ivos ! Quão pecador sou ! . . Revirou os olhos. . Isto nos agradará. por causa de sua debilidade. matava moscas . tremiam-lhe as mãos. sem nada c ompreender. meu padre. que concluísse quanto antes o seu trabalho.Não tenhas medo. Vem comigo para assistir o espetáculo. . . de regresso à casa. O sacerdote não levava muito a serio essas contradições. e quebrava a cabeça para explicar-se esta nova contradição. No inferno. nos seus olhos brilhavam lágrimas de felicidade. e não percas o ânimo. e s eu rosto expressou. é licito ou não é licito matar moscas ? .Quisera saber. estav a pálido de emoção. esque cia-se delas e punha-se. . Sentia-se a todo o instante tão cansado. com olhares estúpidos. com freqüência. homem. pouco mais ou menos. O dia bo experimentava. Tais palestras perturbavam os dois.Quem o duvida ? . iluminado por uma divina alegria.a. tal era a sua emoção. metiam-se-l he nas suas peludas orelhas. .Então. a qual não se atreveu a matar. está escrito nas Santas Escrituras: "Não matarás" . Escrituras: "Não matarás ?". os pecadores. O diabo não se pôde conter e entabulou conversa: . foi obrigado a se meter no leito. . que procurava soluções claras e precisas. meu padre ! . . meu amigo ! Queimaram-no. mas durante essa oper ação seus rostos jamais exprimiram tão grande felicidade.Provavelment . Ambos acabavam confusos e.Moscas ? . com sua ampla e peluda garra. .disse o diabo com triste acento. como a de uma criança. Não atormentava mais o professor com as suas contradições. permane cia indeciso ante as moscas que o picavam e . suplicav a-lhes somente. .. uma beatitude tão cândido e inocente.Esquece o senhor que está escrito nas Santas.Ninguém o matou.Em resumo.A mosca e um ser vivo .Não obstante.não sabia de que mo do portar-se com elas. eu mesmo ignoro se pode ou não matar moscas. . mantendo-se de pé a custa de grandes sacrifícios. Cheio de forças diabólicas. No entant o. graças a Deus. . Há três anos que o diabo estava encerrado no canto da torre da igreja. desafiavam-no . sobretudo po rque se aborrecia terrivelmente na solidão.respondeu comovido o sacerdote. . . . . capaz de mover montanhas. não sabiam de que maneira prosseguir. deliciado.Pois é muito natural: acabam de queimar um herege . mirando-se recipr ocamente. O sacerdote estava louco de alegria. a trabalhar. Ficou estonteado. Segundo os meus cálcu los. os diabos queimavam.pensou o diabo porém.Claro. da mosca. . Ma s lembrou-se. amigo ! Não morrerei sem concluir minha obra. faziam cocegazinhas nos seus lábios cerrados. de regresso a sua casa. Como se as moscas compreendessem seu estado de alma parec iam zombar e caçoar dele: zumbiam insolentemente ao redor de sua cabeça. mas todos estes ódios não era nada comparado s ao ódio feroz que nutria pelas débeis e insignificantes moscas . também. jamais havia pensado nisso e. Há muito tempo já que estavam queimando o herege e o povo se divertia a valer. Grande acontecimento ! Antes que m e fizesses tal pergunta. . O diabo. Regozijou-se tanto com o espetácu lo que. Sim. Vim precis amente para te anunciar uma boa notícia: hoje vão queimar vivo um herege. condenado a u ma magoa absoluta. a desassossega-lo outra vez Olhou o velho sacerdote e viu que este. O sacerdote estava cada vez mais fraco: a saúde declinava e as poucas forcas dimin uíram cada vez mais . . esperando pacientemente o programa do bem. repentinamente. e as contra dições começaram. O diabo esfregava a fronte enrugada. O diabo havia odiado muito em sua vida. também eu.respondeu o padre com doce a cento na voz.Apresse-se. "Não entendo nada pensava. por que se regozija o senhor desse modo.como uma criança . perguntou-lhe: . ainda me restam seis meses de vida. porque aquilo lhe recordava o inferno. que o sacerdote lh e havia prometido. . e o senhor se alegra ! . Mas para o diabo elas consti tuíam verdadeiro martírio. . . seis meses ! Meu trabalho está quase terminado. Continua tranqüilo. que era obrigado a se deitar um pouco. certa alegria.

o Bem e a Virtude. Talvez tenha perdido a razão. Ajoelhado ante o sacerdote moribundo. arranjava-lhe o aposen to. Este deu tais mostras de cólera. mas tornaram-se as mais q ueridas para o diabo. pala vra por palavra e letra por letra. Nunca. Mas. encaminhou-se diretamente ao inferno. lhe rasgaram o manuscrito. . . . o manuscrito ficou pronto.Estás contente ? . alegre com esta nova diversão. depois de conseguir livrar-se das mãos de um grupo de bruxas ébrias. . . ficou quase louco de dor.Em tudo isto . vencendo sua crescente debilidade. Onde pensas ir ? . conforme o programa elaborado pelo velho sac erdote. Corria com toda a .dizia . . Ah ! se o senhor soubesse como estou ansioso para fazer o bem ! Que lastima que o senhor não possa ver-me trabal har ! O diabo partiu. se assentava à mesa para es crever. O sacerdote já não podia se levantar da cama. . eu sei que porás muito zelo nisso. pelo amor de Deus ! não percas o manu scrito. agora me agrada . A menos que o s enhor haja cometido algum erro . precisamente por serem as ultimas. Vieram depois cenas de obscenidade. morrendo de rir. Todos eram especialistas na arte de mentir. Por que o fez ? Não se sabe.não pode haver o menor pecado. mas eis aqui o que lhe aconteceu: Em lugar de começar sua obra com juízo. . A vida de seu autor parecia acabar-se com ele . apresentou-se no inferno. limpava-lhe a roupa e varria o solo. . e beijou com verdadeiro amor a mão esquelética que a entregara. Eram irregulares e pouco legíveis. Mas não voltou ao seu cantinho. Algumas bruxas. Aquele trabalho era a sua única e ultima esperança. as ultimas linhas. . no curso da luta. Quando o sacerdote. Servia-lhe a comida. O caso foi q ue mal abandonou a casa do sacerdote. ou talvez tivesse se ntido a imperiosa necessidade de visitar o lugar de seu nascimento. teu nariz parecia-me muito feio. temeroso de que seu professor cometesse o menor erro. . acabaram brigando uns com os outros. velhas e repelentes. de alegria. era maltratado e batido como nenhum outro. tudo o que esta escrito aqui. cheias de gestos impudicos e. O m ais triste de tudo. . sem a mínima hesitação. ate então.Agora estou seguro de mim . . O senhor devia viver ainda seis meses. porque não encontrarias outro . tornaram-se em abomináveis opróbrios. nem nos dias de maiores festivais. . t eve o inferno um aspecto tão infernal. Qual foi o resultado da visita ? Apenas abriu a boca para pregar um sermão e os demais diabos plantaram-se diante d ele e começaram também a pronunciar sermões acerca da necessidade do bem. com o coração opresso. Onde pensas ir ? Se não te distanciares muito. foi que. representavam comédias cujos assuntos eram a Verdade. E Satanás. seguindo o trabalho com o ol har. como criado. Todo o inferno se encheu de predicadores e de santos.Pois eu também estou. entoava cânticos re ligiosos com voz fanhosa. . talvez movido pelo orgulho e pela vaidade e quisesse exibir-se perante os demais diabos. Mas tem cuid ado. . que o infeliz discípulo do velho sacerdote se apressou a fugir. por ultimo. se pôs diante de todos e. gritadas por aqueles lábios impuros e desavergonhados. Sentirei falta de ti. pelo meno s.respondeu alegremente o diabo.e tudo dependerá de como se faça o bem. Acostumei-me tanto a v er-te ! Antes. para nele propagar o bem. o diabo esticava o busto largo e musculoso. No seu desespero chegou a insultar o próprio Satanás.respondeu o diabo. ate com mais energia e eloquência do que ele.Pena que o senhor morra logo. para não praticares nenhuma tolice ! .Vou cumprir. deitou sobre o pobre manuscrito um olhar e o viu completamente roto. resolveu ter paciência e esperar que o sacerdote concluísse o trabalho. o diabo recebeu de suas mãos aquela preciosa dádiva. Nosso diabo. deitad o.Sim. Num instante toda a verdade se transformou numa mentira e as mais santas palavra s.perguntou-lhe o sacerdote. per maneceu junto ao padre. Afinal. . Assim poderia lhe contar muitas e boas coisas. vem ver-me de vez em quando." E. que ha muito tempo havia perdido o costume da vida infernal. e soltou longos e queixosos gemidos. porem. nela foi obrigado a escrever. Quando. O que é o ha bito ! .Vou percorrer o mundo ! . assim como a forca física e a habilidade.

mas. . este abriu. Após um prolongado silencio.Eu nasci atras dessas montanhas. Desesperado. penosamente. Durante inúm eros anos não pude me esquecer dela. As sombra s crepusculares perdiam-se entre as montanhas . espalhadas aqui e ali. Corria a casa do velho professor. meu padre. distinguiam-se alguns ciprestes negros. quando se anda pela terra setenta anos.continuou o sa cerdote. o diabo esforçava-se por desperta-lo. p areciam diáfanas e fantásticas. porque és . ao campanário. Não te desesperes. nos confins do horizon te. . . esforçou-se por tranqüilizar-se e deixando de lado o manuscrito. . . . ajoelhando-se diante de sua cama. que pareciam prontos a perfurar o sol mortiço com suas copas agudas. aos suaves reflexos azulados do entardecer. esperar mais um dia. . perguntando com voz débil: . da qual se descortinava o admirável panorama da cidade e dos campos circu nvizinhos. . . E assim o fez. Mas o velho sacerdote estava moribundo. falando-lhe com voz rude e áspera : . Os povoados longínquos. meu amigo.Não suspires. E aqui es tas ! . . Toda a formosa cidade estava como que rodeada de gig antescas grinaldas de flores perfumadas. O sacerdote se pôs a contempla-la com alegria . meu amigo. nem da aldeia e muitas vezes olhei na direção das montanhas. Faça o favor de levantar a cortininha da janel a.Agradava-me sentir sob meus pés as pedras tépidas de suas calcadas. Puseram-se.Espera ! Acabam de rasgar o meu manuscrito ! Durante dez minutos pelo menos. Ontem fiz os meus preparativos para a grande viag em. Aqui se aprecia u ma vista mais ampla e mais bela. . meu amigo ! Ali esta minha aldeia natal. . meu padre. O diabo soltou um suspiro. o sacerdote.. . Mas pela janela somente se via um cantinho de telhado vermelho e um pedacinho de céu. pareciam florezinhas rosadas. . Ah !.Espere o senhor um momento ! . . É muito possível meu amigo. O velho sacerdote extinguiu-se com o sol. . abandonando sua querida Florença e todas aquelas terras. a olhar. meu amigo ! . . Será porventura a nuvem que lhe causa tanta felicidade ? . Na outra margem do rio. . . . ocultou-lhe a verdade. senão que vê-lo assim me enche de pesar.Não é nada. sentiu-o. . . esta formosa cidade. O sacerdote moribundo olhava cheio de alegr ia a seu redor e se entregava a suas recordações. E isto que estou di zendo será ainda mais certo ali.Amo também Florença.Nem um só dia mais. c ompreendeu a dor do diabo e lhe disse com moribunda entonação: . que também vás ao Para . apertando ao peito o manuscr ito despedaçado. o diabo gritou. . com muitas precauções. estendiam-se as montanhas que. . . aproximou-s e ainda mais da cama do velho sacerdote. . suspirando saudosamente. para não afligir o mor ibundo. O sol já estava quase escondido. que tanto amava. Graças. que continuava em seus braços. Na margem oposta do rio Arno. É verdade que o senhor vai morrer ? Ou o senhor vivera ainda um pouco ? . enquanto o diabo pensava: "O que olha ele ? Não ha nada a ver: o telhado e um pe dacinho do céu . para que este lhe desse outro. porem. Ali amei uma linda criaturinha. . muito bom . quero olhar os arredores pela última vez. .Fizeste alguma nova tolice ? O diabo lançou um olhar triste ao manuscrito esfacelado. rogando que lh e trocassem por outro o manuscrito rasgado. Depois. um diabo . . situados nas enco stas da montanha. O sol verteu manchas sangrentas pelo céu. cheios de admiração. " E teve uma idéia. gemeu e implorou. ambos. mas renunciei ao amor para servir a Deus. sobre uma elevada c olina. . onde pairava uma nuvem vagarosa.Agora olhe. empurrando o horizonte extinguindo-se. segurou em seus braços musculosos o corpo frágil e extenuado deste e levou-o. com a ilusão de tornar a ver-te. . onde vou agora . decidi.suplicava-lhe o diabo. os lábios ressequidos. Isto é melhor do que olhar pela janela. "Vou leva-lo ao alto do campanário: dali verá todas as nuvens que passam no céu e todos os telhados de sua Florença .velocidade que lhe permitiam suas pernas cansadas. . . esta se torna em alguma cois a assim como nossa mãe e ate suas pedras perdem a dureza . Sem nada perguntar ao sacerdote.. O sol desaparecia pouco a pouco. Morreu. em que vivi tanto tempo . sobre uma pequena pla taforma.

e que seu amigo e protetor estava bem morto. . Mas não pusera uma que fosse. nada encontrou absolutamente nada. O que mais dolorosamente impressionou o diabo foi não ver em todo o manuscrito nem uma só das formosas verdades que a humanidade recolheu durante milhares de anos e que estão destinadas a embelezar o bem. Subitamente um raio de esperança iluminou seu coração. que apanhando seu único tesouro . Todo o manuscrito. neste inst ante. Rasgado. Copiava. o que o diabo teria de fazer. as r egras do bem. semana por semana. maltratad o. talvez trabalhasse p ara a humanidade. com as folhas engorduradas pelas garras dos demônios que o tocaram. não compreendia que. nem nos momentos mai s difíceis de sua vida. nem um só principio. atribuindo grande importância as coisas mais insig nificantes. À medida que ia lendo. perdido o juízo nos seus últimos dias. nem uma verdade concludente. De qualquer forma ele via. . mas as vezes dizia consigo com certo orgulho. e mergulhou largo tempo no estudo das linh as cuidadosamente escritas. agora se recordava o diabo. e vai projetar. " Uma dor profunda apoderou-se da alma do diabo. dia por dia. esse bem intangível e misterioso. que o velho sacerdote que tanto estudara. precisamente naquele mesmo instant e. esperava . Julgar-se-ia sua obra. na primeira pagina. que conduzia ao bem. uma única vez. Não e ra ambicioso. quando. Se o fio se quebrava. Perdeu sua ultima esperança e sentiu-se furioso. que diziam. comprovava comparando os textos. Enquanto o levava em seus braços . . Nem uma idéia geral. Ele mesmo conhecia inúmeras delas. es tava fora de si. de tão surpreso e assustado. A palavra "Bem".o atirou a um canto. . e olhe ! Suplico-lhe . esperando sempre chegar a conclusões necessárias. O diabo pôs-se a trabalhar. uivava como um animal feroz. era mencionada. balbuciava. esforçava-se por juntar as extremidades.o manuscrito despedaçado . No entanto. se realizava o bem. meu padre ? O senhor não admirou ainda as estrelas ! O senhor não v iu ainda a lua. achava-se a nte os tristes olhos do nosso diabo.. que esta quase a surgir no horizonte. com a gravidade de uma criança que diz când ida simplicidade. reconheceriam o muito do seu trabalho e seria erigido um templo novo e magnifico em sua homenagem !. indiscutível : . pensava: "Subi com ele vivo ao campanário e o desço morto ! . transportou-o para baixo. nunca. o sacerdote havia. Abra os olhos. com um livro de receitas. Aquele precioso manuscrito tinha um aspecto muito desagradável. Ao terminar. regras que iriam servir para todos os povos e a todas as épocas. com razão.. .E as estrelas. da primeira à ultima pagina. Não havia nele uma só lei geral. porque. Havia-o feito calculadamente o velho sacerdote. Também. hora p or hora. clara. Não se cansava nem se irritava. colocasse grande quantidade destas verdades em sua obra. . Ate então. gemia. . repelando os cabelos: não estava acostumado dor humana. Nele figurava simplesmente a descrição minuc iosa do que se devia fazer em tal dia e a tal hora. O manuscrito parecia-se. que o haviam enganado. Impossível descrever o seu desespero e o seu horror. teve o diabo um ar tão estúpido e assombrado. letra por letra com minu cioso cuidado. Agitava-se. que envelhecera muitos anos num só dia. para que o diabo deduzisse por si mesmo as conclusões gerais ? O velho sacerdote era muito malicioso. claramente. depois de terminado o trabalho. seus olhos exprimiam espanto e incompreensão. Abriu -o com mão tremula. E não o compreendeu em toda a sua vida. com certeza. chorava. Tão grande era seu desespero. coisas néscias. estav a composto de curtas prescrições. por tanto mais do que qualquer outra coisa. O manuscrito inteiro lhe parecia uma pilhéria de mau gosto. ao fazer isto. que ele procurara com tan to afã e a custa de tantos e tão grandes sofrimentos. e manifestava-a de forma ridícula. Quando compreendeu que tudo estava findo. sua pálida luz sobre as lajes da sua amada Florença. Examinou palavra por palavra. nem uma só regra. para sua alcova. Dir-se-ia que o velho sacerdote zombava do bem e do pobre diabo que tão ansiosamente aspirava pela virtu de. esforçando-se por se apod erar do fio sutil e apenas perceptível. meu padre. tampouco.

interrompia-se e o diabo ficava sem saber o que havia de fazer em tal ou qual dia. porem. Encolhido num canto. de pensar no bem. porém. é ele . dias inteiros. na velha igreja de Florença. Quase não havia uma só prescrição do manuscrito. e me perdeu para sempre. Ao vê-lo quieto e inerte. sempre imóvel. sem que ele fizesse o mínimo movimento. Instint ivamente uma idéia medonha passou por sua cabeça. quando era p reciso matar. E ali continuava. Mas Satanás não apareceu e a porta continuou silenciosa. de acordo com o manuscrito. Sabendo de que eu procurava o bem com todo o meu coração. os ouvidos tapados p ara não ouvir. tr atar-se de qualquer vetusta coluna. Em seus esforços para chegar a conclusões gerais e claras. . acreditar-se-ia. algumas vezes. . o s assassínios e as mentiras. algumas vezes. mente. Imaginou que o sacerdote fora um g rande pecador.Quer dizer que sempre esteve a me enganar ! exclamou o diabo pesaroso. *FIM* . Apesar da certeza de estar maldito para todos os séculos. Suas mãos. que não fosse desmentida páginas adiante. ainda que. prescrevendo mesmo em alguns casos. ." Não mataras." E assim por diante. aquele pobre diabo velho. chegou até a sentir certa alegria. um pó cinzento cobria-lhe todo o corpo. a rigor. como eu me disfarce i em homem. . precisava salvar alguém. jamais compr eenderei o que é o bem. por situações difíceis. As moscas passeavam no seu rosto e metiam-se-lhe pelos ouvidos e pela boca. Os olhos fechados para não ver. Satanás o perdoaria e o convidaria a voltar com ele para o inferno. . condenado ao sofrimento. Cumprindo ao pé da letra tudo o que ordenava o manuscrito. Porventura fora Satanás em pessoa que havia querido achincalhar o d iabo ? ! . condenadas à impotência. à qual ninguém até esse momento. tivesse prestado atenção. ninguém diria ser aquele mesmo diabo um ser vivo. Foi envelhecendo cada vez mais. mal se desgost ava com isso. " " Não mentiras. sem fazer nada. Desgraçado e maldito ! . Transcorriam assim as horas e os dias. . Deixou. . . estavam cruzadas sobre o peito. . Sua abundante cabeleir a tornara-se completamente branca. Passava. tão amante do bem. em tudo o mais. mesmo. Isso acontecia quando o ma nuscrito. dizia para si. sem saber jamais o que é o bem ! Estou maldito para todo o sempre ! . o diabo encontrava a cada passo mil contradições. ao campanário e ali permanecia horas e horas. Quando. capazes de derrubar montan has. permanecia imóvel como uma estátua. no entanto. se for necessário mata. se for preciso. . porem. num a inércia absoluta." " Não cometas adultério.Viverei no desespero fazendo o que ordena este manuscrito. tranqüilizando-se. salvava. seu escravo e seu boi. Esperou que a porta se abrisse e que Satanás nela se mostrasse com a boca escancar ada no seu riso alegre e ruidoso. é Satanás ! . mais facilmente. Não conhecerei jamais a verdade. podes tirar-lhe sua ulher. com uma serenidade desconcertante. O mais terrível era que o sacerdote admitia.Sim . " " Da tudo que tens ao próximo. possas comete-lo " " Não cobices a mulher do teu próximo. . Subia. sim . . tira-lhe o que possua. porem. em plena vagabundagem. meio destruído. cheio de terror: . o diabo disse com seus botões: . matava. se não há outro remédio. . . disfarçou-se em sacerdote. Depois de haver refletido. Serei desgraçado para todo o sempre. então. as aranhas teciam suas teias sobre sua cabeça . Pouco a pouco se habituou a isso.

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