Você está na página 1de 42

1

2
PREVENÇÃO CONTRA O
ASSÉDIO SEXUAL NO
TRANSPORTE PÚBLICO

3
Departamento Executivo Nacional- DEX
Coordenação de Desenvolvimento Profissional
Educação Presencial

Prevenção contra o Assédio Sexual no Transporte Público

Material do aluno

junho/2018

Fale conosco 0800 728 2891


www.sestsenat.org.br

Prevenção contra o Assédio Sexual no Transporte Público: material


do aluno.
– Brasília: SEST/SENAT,
2018. 42 p. : il.

1. Violência contra a mulher. 2.Assédio sexual.


I. Serviço Social do Transporte. II. Serviço
Nacional de Aprendizagem doTransporte.

4
Prevenção contra o Assédio Sexual no
Transporte Público
Unidade 1 – Violência contra a mulher: origens, conceitos e caracterizações .....08
1 Violência ou violências: entender bem para atender melhor ...................... 09
1.1 Um pouco de história da nossa história ................................................ 12
2 Violência de gênero: isso não é normal!.................................................... 15
2.1 Mas o que é gênero .............................................................................. 15
2.2 Tipos de identidade de gênero ............................................................. 15
2.3 Orientação sexual .............................................................................. 16
3 Violência contra a mulher ........................................................................ 17
4 Assédio, abuso ou importunação ofensiva ao pudor: o que acontece dentro do
transporte coletivo de passageiros? ................................................................ 20
5 O que diz a lei? ........................................................................................ 21
6 Consequências sociais do assédio sexual ........................................................ 24
6.1 Consequências do assédio para a vítima .............................................. 24
6.2 Consequências institucionais do assédio sexual para as empresas do
transporte público de passageiros e as estratégias de enfrentamento da
questão .................................................................................................... 25
6.3 Estratégias para as Empresas ..................................................................... 25
6.4 Estratégias para a Sociedade ..................................................................... 26
Resumindo .............................................................................................. 28
Consolidando Conteúdos ......................................................................... 29

Unidade 2 – Manual de Boas Práticas ............................................................ 30


1 Manual de Boas Práticas ........................................................................... 31
1.1 Dicas para condutores e cobradores ...................................................... 31
1.2 Dicas para os condutores no momento do assédio ................................. 33
1.3 Dicas para Empresa.............................................................................. 34
1.4 Dicas para passageiros e passageiras ........................................................... 34
1.5 Canais de denúncia .............................................................................. 36
Resumindo............................................................................................... 38
Consolidando Conteúdos ......................................................................... 39

Referências ......................................................................................................40

5
Comprometido com o desenvolvimento do transporte no Brasil, o SEST
SENAT oferece um programa educacional que contribui para a valorização
cidadã, o desenvolvimento profissional, a qualidade de vida e a
empregabilidade do trabalhador do transporte, por meio da oferta de
diversos cursos que são desenvolvidos nas Unidades Operacionais do SEST
SENAT em todo o país.
Sempre atento às inovações e demandas por uma educação profissional de
qualidade, o SEST SENAT reestruturou todo o portfólio de materiais
didáticos e de apoio aos cursos presenciais da instituição, adequando-os às
diferentes metodologias e aos tipos de cursos, alinhando-os aos avanços
tecnológicos do setor, às tendências do mercado de trabalho, às perspectivas
da sociedade e à legislação vigente.
Esperamos, assim, que este material, que foi desenvolvido com alto padrão
de qualidade pedagógica, necessário ao desenvolvimento do seu
conhecimento, seja um facilitador do processo de ensino eaprendizagem.
Bons estudos!

6
APRESENTAÇÃO
Prezado (a) Aluno(a),

Seja bem-vindo (a) ao curso Assédio Sexual no Transporte Público! Vamos


trabalhar juntos para desenvolver novos conhecimentos e aprofundar as
competências que você já possui!

O objetivo geral do curso é desenvolver nos alunos uma atitude de reflexão e


ação em situações de violência de gênero e assédio sexual, ocorridas dentro
do transporte público de passageiros, considerando questões como
acolhimento da vítima, a contenção do agressor e a segurança dos
passageiros.

O curso está dividido em duas unidades de aprendizagem para facilitar seu


aprendizado. No início de cada unidade, você será informado (a) sobre o
conteúdo abordado e os objetivos que se pretendem alcançar. Conheça
abaixo a estrutura do curso:

Unidade Carga horária


1. Violência contra a mulher: origens, conceitos e 4 horas-aula
caracterizações
2. Manual de boas práticas 4 horas-aula

Total 8 horas-aula

Esperamos que este curso seja muito proveitoso para você! Nosso intuito
maior é o de lhe apresentar dicas, conceitos e soluções práticas para ajudá-
lo a resolver os problemas encontrados no seu dia a dia detrabalho.
Bons estudos!

7
UNIDADE 1
VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: ORIGENS,
CONCEITOS E CARACTERIZAÇÕES

8
UNIDADE 1 – Violência contra a mulher: origens,
conceitos e caracterizações

Fonte: SEST SENAT/ NTU

O que é violência para você? O que é violência


de gênero? Você sabe a diferença entre abuso
sexual, assédio sexual e importunação ofensiva
ao pudor? Já pensou sobre as implicações na
vida das pessoas que passam por situações de
violência?

ligação com a formação da nossa cultura. Vamos conhecer a diferença entre abuso
sexual, assédio sexual e importunação ofensiva ao pudor e aprender mais sobre os
impactos da violência na vida das pessoas.

1. VIOLÊNCIA OU VIOLÊNCIAS: ENTENDER BEM PARA


ATENDER MELHOR
Todos os dias, quando abrimos um jornal, assistimos à televisão ou mesmo quando
conversamos com amigos e familiares, o tema “violência” está presente. Esse
problema faz parte de muitas dimensões da vida das pessoas, como: violência

9
urbana: assaltos; violência no trânsito: atropelamentos; violência na família: maus
tratos a crianças e idosos; violência no trabalho ou na escola: bullying e assédio
moral; violência institucional: falta de médicos nos postos de saúde, má prestação de
serviços de segurança pública, etc.
Cada um desses tipos de violência tem suas causas e consequências, mas o que não
se pode negar é que a violência faz parte da vida humana desde suas origens.
Como um fenômeno sócio-histórico, a violência acompanha a história da
humanidade. Podemos nos lembrar de que o relato bíblico sobre a origem do
homem fala de uma disputa entre irmãos (Caim e Abel). Caim mata Abel por inveja
da relação do irmão com Deus. Abel, por ser pastor de animais, os oferecia a Deus
como forma de agradecimento pela vida e por suas conquistas, o que causou
sentimentos de inveja no irmão Caim.
O importante a se considerar é que, independentemente da época ou dos tipos de
violências que se infringem ao outro, todas elas têm como consequências lesões,
mortes, traumas ou cicatrizes emocionais.
A própria origem da palavra violência, que vem do latim "violentia”, “veemência,
impetuosidade”, de “violentus”, “o que age pela força”, provavelmente relacionada
ao verbo “violare”, “tratar com brutalidade, desonrar, ultrajar, profanar,
transgredir”, significa a imposição de constrangimentos e de uso, muitas vezes, de
força física sobre outra pessoa.
Alguns autores também buscaram definir o que é violência:

“Há violência quando, em uma situação de interação, um


ou vários atores agem de maneira direta ou indireta,
maciça ou esparsa, causando danos a uma ou várias

seja em sua integridade moral, em suas posses, ou em suas

10)”

10
Mas o que podemos concluir é que o fenômeno da violência é democrático! Pode
atingir as pessoas indistintamente, independentemente de gênero, cor, classe social
ou idade. Não desconsiderando que alguns grupos populacionais estão mais
vulneráveis a situações de violência, como é o caso das mulheres.
A violência contra a mulher é um fenômeno social também com origens muito
antigas, mas, apenas a partir dos anos 1960, começou a ser estudado no mundo e, no
Brasil, apenas em meados dos anos 1980. A partir desse período, a violência contra
a mulher saiu de dentro de casa e passou a ser investigada como uma questão social.
A dura realidade dos altos índices de violência cometidos contra as mulheres no
mundo levou nações a realizarem encontros internacionais e a assinarem tratados,
convenções e criarem marcos legais, visando à proteção aos direitos das mulheres.
Essa movimentação em torno de conhecer e agir sobre o fenômeno da violência
contra a mulher teve a importante influência dos movimentos feministas, que
denunciaram os problemas relacionados à degradação da dignidade das mulheres
por meio da violência. Foram esses movimentos que iniciaram um forte debate sobre
os papéis sociais que cada um – homens e mulheres – deve cumprir na vida em
sociedade.
Em pesquisa recente, a Organização das Nações Unidas – ONU apontou sobre o
tema da violência contra a mulher que 41% das jovens brasileiras disseram já ter
sofrido algum tipo de violência física; e, ainda, 79% já sofreram violências, como
cantadas ofensivas, desrespeitosas ou com abordagem agressiva em festas ou locais
públicos. O estudo segue indicando que 90% das jovens mulheres entre 14 e 24 anos
já deixaram de fazer alguma coisa (como sair à noite, usar determinada roupa ou
responder a uma cantada) por medo da violência (ONU, 2016).

1
1
Para compreender esse crítico contexto, vamos iniciar nosso curso com algumas
perguntas: o que mobiliza a violência contra a mulher? Existem tarefas tipicamente
femininas e masculinas? Por que meninos vestem roupas azuis e meninas vestem
roupas rosa? Quantas vezes já ouvimos ou dissemos para alguém: “Isso é coisa de
mulher”, “Mulher no volante, perigo constante”, “Tinha que ser mulher! ”, “Chora
feito mulherzinha”, “Mulher sozinha de madrugada na rua, boa coisa não é! ”?
Vamos refletir um pouco...
Mas o que vem a ser coisa de mulher? Como e por que foi criada essa separação entre
os papéis dos homens e das mulheres na sociedade?

1.1 Um pouco de história da nossa história


Para entender melhor, vamos recorrer à história da humanidade:
Era uma vez, as primeiras sociedades primitivas. Lá, não havia famílias como as que
conhecemos hoje. Todas as atividades, dentro de casa ou fora de casa, eram
realizadas por homens e mulheres. Todos viviam juntos e dividiam todas as tarefas.
As relações eram o que podemos chamar de horizontais, ou seja, de cooperação.
Ninguém mandava em ninguém.
Com essa estrutura, a sociedade se formava em torno do parentesco pela linhagem
feminina, em que os filhos eram ligados à mãe, e as famílias iam se formando. Nesse
modelo familiar, as crianças ignoravam quem eram os seus pais, e a sociedade era
matriarcal. Eles sobreviviam da caça e, aos poucos, começaram a cultivar a terra.

Ainda hoje, existem sociedades matriarcais, nas quais podemos citar a cultura EDE, no
Vietnã, em que as mulheres possuem destaque e poder de mando e decisão. Nesse povo,
são as mulheres que devem pedir seus maridos em casamento, e eles adotam o nome das
esposas após o casamento. A tribo indígena americana “Hopi” ou “pessoas pacíficas” se
organiza em volta de uma matriarca, e é ela quem ocupa a maior parte do poder, mesmo
que o trabalho seja dividido igualmente. Na Índia, no estado de Meghalaya – o lugar mais
chuvoso da Terra –, sua população é matrilinear, as mulheres são as donas da terra e das
propriedades, e é a filha caçula quem herda os bens da família e cuida dos pais idosos e
dos irmãos solteiros.

12
Pouco a pouco, se percebeu que os animais poderiam ajudar no trabalho e no
deslocamento. Assim, começaram a domesticar os animais e a utilizá-los nas tarefas
do cotidiano para substituir a mão de obra feminina, que, até então, se dividia
igualitariamente nas tarefas com os homens. A partir de então, se iniciava uma nova
divisão do trabalho e uma nova organização familiar. As mulheres ficaram
responsáveis pelo trabalho doméstico e aos homens ficou destinado o cuidado com
a terra e os animais. Nessa nova organização social, a mudança também se estabelece
pelo parentesco, só que agora por via paterna, o que deu origem ao patriarcado.
Nesse período, houve ainda a ampliação da agropecuária, e consolidou-se a noção
de propriedade privada, com a posse do gado, dos escravos e, finalmente, das terras
para cultivo, que passam a ter um proprietário, um administrador.
Assim, nascem as desigualdades baseadas nos meios de produção e na divisão do
trabalho: poucas famílias tomaram posse das melhores terras, dos maiores rebanhos
e dos escravos, enquanto os demais empobreciam ou apenas obedeciam aos
proprietários. Erguem-se o que conhecemos hoje como categorias sociais: os
homens livres e os escravos e, ainda, ricos e pobres.
Com o advento da nova divisão social, formaram-se as sociedades baseadas em
classes sociais e fundamentalmente se estruturaram as relações hierárquicas entre
homens e mulheres, o que permitiu o controle dos homens sobre a vida das
mulheres, tanto na vida pública como na vida privada.
Consolidava-se o sistema patriarcal, em que a autoridade era garantida pelo pai,
existindo, assim, uma relação de dominação inquestionável do poder paterno.
O Brasil é herdeiro direto desse pensamento social – o patriarcado, resultante da
cultura colonialista da coroa portuguesa. Vamos lembrar que as terras brasileiras
foram divididas em capitanias hereditárias, entregues aos “donatários” – patriarcas
(homens/nobres) que detinham o poder administrativo, econômico e social do
território brasileiro e que estavam submetidos à metrópole: Portugal.

de satisfação sexual dos homens, reprodutoras de


herdeiros, reprodutoras de força de trabalho e
reprodutoras de novas reprodutoras. Portanto,

sujeição das mulheres, também enquanto grupo,


envolve prestação de serviços sexuais aos seus
dominadores/opressores. ”

1
3
Se procurarmos a definição de “patriarcado” no dicionário de sociologia, vamos
encontrar o seguinte (https://www.dicionarioinformal.com.br/patriarcado):
É importante ressaltar que a família patriarcal da qual estamos falando foi se
modificando ao longo do tempo, inclusive pelas transformações por que passou e
passa a humanidade.
Não é mais possível caracterizar a divisão de classes entre o “homem provedor” e a
mulher “dona de casa”, pois ambos assumem hoje múltiplas funções dentro das
famílias, mesmo que recaia sobre a mulher a maior parte do trabalho doméstico.
O que estamos chamando a atenção é em relação às nossas ideias sobre o que é
“tipicamente masculino e feminino”, que ainda hoje são muito influenciadas por
esse pensamento da tradição patriarcal.
Nossa história está chegando ao final, mas sem terminar. Ela continua e se renova a
cada dia. Finalmente, após esse passeio pela história, podemos perceber que as
relações entre homens e mulheres, como se configuram hoje, não acontecem por
acaso, nem ao menos possuem causas naturais.

O reconhecimento do que é “coisa de homem” e do que é “coisa de mulher” foi


criado a partir da concordância com as funções sociais e econômicas, que são
necessárias à sociedade. Ou seja, o nascimento da dominação dos homens sobre as
mulheres é um produto da história da humanidade, é uma construção sócio
histórica. Dessa forma, se é uma construção humana, pode ser transformada,
visando a uma sociedade mais justa, igualitária e segura e sem violência para todos:
homens e mulheres.

14
2. VIOLÊNCIA DE GÊNERO: ISSO NÃO É NORMAL!
É simples! É apenas compreender que a maior parte das coisas da vida não acontece
por causas naturais, e, sim, por uma história, por um processo que levou essas
mesmas coisas a serem como são hoje.
Como assim? Quando estamos acostumados a ver o mundo de uma determinada
maneira, por um determinado ângulo, acabamos por acreditar que nossa visão
pessoal é a expressão da verdade. Esquecemos que um “ponto de vista” é apenas “a
vista de um ponto”.
Por exemplo: existem pessoas que acreditam que a casa é responsabilidade única e
exclusiva das mulheres e que o espaço público (bar, trabalho, transporte coletivo,
festas, etc.) é espaço de homem, mas será que os espaços devem ser divididos dessa
forma?
Existem músicas de homens e músicas de mulheres?
Quem pensa que azul é cor de menino e rosa é cor de menina já pensou que “cor” é
apenas “cor” e que, nas cores, não está embutida uma questão de gênero?

2.1 Mas o que é gênero?


Para compreender essa questão, a princípio, vamos pensar que existe uma diferença
entre o sexo biológico e o sexo social/gênero. O sexo biológico está ligado a questões
anatômicas e fisiológicas, que são diferentes entre homens e mulheres. Assim, de
forma simples, identificamos a pessoa como macho e fêmea, pois, nessa perspectiva,
é o sexo que a pessoa nasce e se refere a sua genitália. É aquele que é identificado
quando nasce um bebê e vem a pergunta para o médico: é menino ou menina?
O sexo social, também chamado de identidade de gênero, é o sexo com o qual a
pessoa se identifica e se apresenta em sociedade. O que determina essa identidade é
a forma como a pessoa se reconhece – homem ou mulher –, se sente e se percebe no
mundo, e como ela gostaria de ser reconhecida por outras pessoas.
Existem três principais tipos de identidade de gênero: transgêneros, cisgêneros e não
binários. Vamos entender melhor essas diferenças?

2.2 Tipos de identidades de gênero


1. O cisgênero consiste no indivíduo que se identifica com o seu "gênero de
nascença". Por exemplo: um indivíduo que possui características biológicas
típicas do gênero masculino e que se identifica (socialmente e
psicologicamente) como um homem. Dessa forma, pode-se dizer que se trata

1
5
de um homem cisgênero. Ou indivíduos que nascem com características
biológicas típicas do gênero feminino e que se identificam socialmente e
psicologicamente como mulher são classificados como mulheres cisgêneros.
2. O transgênero é o indivíduo que se identifica com um gênero diferente
daquele que lhe foi atribuído no nascimento. Por exemplo: uma pessoa que
nasce com características masculinas, nasce com pênis (do ponto de vista
biológico), mas que se sente do gênero feminino; ou o indivíduo que possui
características físicas femininas, nasce com vagina, mas que se identifica
como um homem.
Antigamente, achávamos que a transgeneridade era um distúrbio mental, mas, hoje,
sabemos que não é. Tratar uma pessoa transgênero como uma pessoa doente, de
forma violenta ou com qualquer outro tipo de discriminação pode representar uma
violação dos direitos humanos desse indivíduo.

3. Não binário é a classificação que caracteriza a mistura entre masculino e


feminino, ou a total indiferença entre ambos. Os indivíduos não binários
ultrapassam os papéis sociais que são atribuídos aos gêneros, criando uma
terceira identidade que foge do padrão "homem-mulher". São pessoas que
não se identificam com nenhum dos dois gêneros.
Talvez pareça complicado compreender essas divisões, mas elas nos ajudam a
perceber que não há um modelo ou um jeito único de ser “gente”.
Além da identidade de gênero, é importante compreendermos o que é “orientação
sexual”.

2.3 Orientação sexual


A orientação sexual das pessoas era antes conhecida como “opção sexual”. Após
muitos estudos, chegou-se à conclusão de que a pessoa não faz uma opção por quem
ela vai se sentir atraída sexualmente. Ela simplesmente sente a atração. Essa não é
uma escolha deliberada e consciente, como: sou homem e escolho gostar de mulher.
Essa atração simplesmente acontece. A atração sexual tem a ver com o sentimento
de uma pessoa em relação a outra.
Dessa forma, a orientação sexual refere-se à capacidade de cada pessoa de sentir
atração emocional, afetiva e/ou sexual por outra pessoa. A orientação é intrínseca à
pessoa. Por isso, o termo “opção sexual” é inapropriado.
Alguns estudos apontam que a atração sexual está relacionada a questões
psicológicas, sociais, econômicas e, até mesmo, a questões genéticas. Mas, até hoje,
não existe estudo conclusivo que possa afirmar que “me sinto atraído por essa ou

16
aquela pessoa, porque ela é baixinha/ porque ela é extrovertida/ porque ela tem
trabalho fixo/ porque ela tem cheiro de frutas.”. A atração sexual ainda é um campo
misterioso para nós, seres humanos. Sobre esse assunto, podemos construir apenas
algumas hipóteses.
Nesse campo, há três orientações sexuais preponderantes: homossexualidade,
heterossexualidade e bissexualidade.
1. A heterossexualidade é a atração sexual afetiva por pessoas do gênero oposto
ao seu. O fato de uma pessoa ser heterossexual não quer dizer que ela sinta
atração por todas as pessoas do gênero oposto. Será que as pessoas aprendem
ou escolhem ser heterossexuais?
2. A homossexualidade é a atração sexual e afetiva por pessoas do mesmo
gênero. O termo “homossexualismo” é equivocado e preconceituoso devido
ao sufixo “-ismo”, que denota doença ou anormalidade, e deve ser evitado.
Atribuem-se as identidades “gay” para homens homossexuais e “lésbicas”
para mulheres homossexuais. O fato de uma pessoa ser homossexual não
quer dizer que ela sinta atração por todas as pessoas do mesmo gênero. Será
que as pessoas aprendem ou mesmo escolhem ser homossexuais?
3. A última orientação sexual de que vamos falar é a bissexualidade, que é a
atração sexual e afetiva por pessoas de ambos os gêneros. A pessoa bissexual
pode ser homem ou mulher, e a sua orientação não quer dizer que ela sinta
atração por todas as pessoas. Será que é possível uma pessoa aprender ou
escolher ser bissexual?

Enfim, homens e mulheres são


socialmente iguais, independentemente
de sua identidade de gênero ou de sua
orientação sexual.

3. VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER


A violência contra a mulher pode enquadrar-se em várias categorias amplas, que
incluem a violência realizada tanto por "indivíduos", quanto pelo "Estado".
A violência contra as mulheres inclui maltratos físicos e abusos sexuais, psicológicos,
econômicos e institucionais. Podemos afirmar que a violência baseada no gênero
desenvolve-se como resultado da condição de subordinação da mulher na
sociedade.
Entre tantos tipos de violência, há a prevalência da violência intrafamiliar. São

1
7
muitos os fatores de risco que estão associados a esse fenômeno e relacionados
intrinsecamente a aspectos sociais e culturais, tais como: valores autoritários e
patriarcais, aceitação da violência como forma de resolver problemas, valorização
da violência no desenvolvimento do papel masculino, aceitação de castigo como
forma de resolver conflitos entre os casais, valorização da impulsividade, consumo
de álcool e drogas e, ainda, as vivências das pessoas com situações de violência.
Vamos refletir? http://sindpdpr.org.br/artigo-saude-do-trabalhador/assedio-sexual
O Sindicato dos Trabalhadores em Informática e Tecnologia da Informação do
Paraná apresenta algumas definições sobre as formas de violência perpetradas por
indivíduos contra mulheres:
Violência de gênero: consiste em qualquer ação ou conduta, baseada no gênero, que
cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto no
âmbito público, quanto no privado.
Violência intrafamiliar: é toda ação ou omissão que prejudique o bem-estar, a
integridade física, psicológica ou a liberdade e o direito ao pleno desenvolvimento
de outro membro da família. Pode ser cometida dentro ou fora de casa por algum
membro da família.
Violência doméstica: distingue-se da violência intrafamiliar por incluir outros
membros do grupo, sem função parental, que convivam no espaço doméstico.
Incluem-se aí empregados (as), pessoas que convivem esporadicamente, agregados.
Violência física: ocorre quando uma pessoa que está em relação de poder diante de
outra cause ou tente causar dano não acidental por meio do uso da força física ou de
algum tipo de arma que possa provocar ou não lesões externas, internas ou ambas.
Segundo concepções mais recentes, o castigo repetido, não severo, também se
considera violência física. Essa violência pode se manifestar de várias formas: tapas,
empurrões, socos, mordidas, chutes, queimaduras, cortes, estrangulamentos, lesões
por armas ou objetos, obrigar a tomar medicamentos desnecessários ou
inadequados, álcool, drogas ou outras substâncias, inclusive alimentos, tirar de casa
à força, amarrar, arrastar, arrancar a roupa, abandonar em lugares desconhecidos,
gerar danos à integridade corporal decorrentes de negligência (omissão de cuidados
e proteção contra agravos evitáveis, como situações de perigo, doenças, gravidez,
alimentação, higiene, entre outros).
Violência sexual: compreende uma variedade de atos ou tentativas de relação sexual
sob coação ou fisicamente forçada no casamento ou em outros relacionamentos. A
violência sexual é cometida, na maioria das vezes, por autores conhecidos das
mulheres envolvendo o vínculo conjugal (esposo e companheiro) no espaço
doméstico, o que contribui para sua invisibilidade. Esse tipo de violência acontece

18
nas várias classes sociais e nas diferentes culturas. Diversos atos sexualmente
violentos podem ocorrer em diferentes circunstâncias e cenários. Dentre eles,
podemos citar: estupro dentro do casamento ou namoro; estupro cometido por
estranhos; investidas sexuais indesejadas ou assédio sexual, inclusive exigência de
sexo como pagamento de favores; abuso sexual de pessoas mental ou fisicamente
incapazes; abuso sexual de crianças; casamento ou coabitação forçados, inclusive
casamento de crianças; negação do direito de usar anticoncepcionais ou de adotar
outras medidas de proteção contra doenças sexualmente transmitidas; aborto
forçado; atos violentos contra a integridade sexual das mulheres, inclusive mutilação
genital feminina e exames obrigatórios de virgindade; prostituição forçada e tráfico
de pessoas com fins de exploração sexual; estupro sistemático durante conflito
armado.
Violência psicológica: é toda ação ou omissão que cause ou vise causar dano à
autoestima, à identidade ou ao desenvolvimento da pessoa. Ela inclui: insultos
constantes; humilhação; desvalorização; chantagem; isolamento de amigos e
familiares; ridicularização; rechaço; manipulação afetiva; exploração; negligência
(atos de omissão a cuidados e proteção contra agravos evitáveis, como situações de
perigo, doenças, gravidez, alimentação, higiene, entre outros); ameaças; privação
arbitrária da liberdade (impedimento de trabalhar, estudar, cuidar da aparência
pessoal, gerenciar o próprio dinheiro, brincar, etc.); confinamento doméstico;
criticas pelo desempenho sexual; omissão de carinho; negação de atenção e
supervisão.
Violência econômica ou financeira: são todos os atos destrutivos ou omissões do (a)
agressor (a) que afetam a saúde emocional e a sobrevivência dos membros da
família. Inclui: roubo; destruição de bens pessoais (roupas, objetos, documentos,
animais de estimação e outros) ou de bens da sociedade conjugal (residência, móveis
e utensílios domésticos, terras e outros); recusa de pagar a pensão alimentícia ou de
participar nos gastos básicos para a sobrevivência do núcleo familiar; uso dos
recursos econômicos da pessoa idosa, tutelada ou incapaz, destituindo-a de gerir
seus próprios recursos e deixando-a sem provimentos e cuidados.
Violência ou abuso digital: são os chamados namoros abusivos online. Caracteriza-
se quando existe a utilização de tecnologias, como mensagens de texto e as redes
sociais, para a prática de cyberbullying, assédio, perseguição ou intimidação de
parceiros. Muitas vezes, esse comportamento é uma forma de abuso verbal ou
emocional perpetrada de forma online.

1
9
Em relações saudáveis, toda a comunicação é respeitosa, seja pessoalmente, online ou
por telefone. Nunca está certo alguém fazer ou dizer coisas que façam o outro se sentir
mal, que diminuam sua autoestima ou que manipule a pessoa.

Violência institucional: é aquela exercida nos/pelos próprios serviços públicos por


ação ou omissão. Pode incluir desde a dimensão mais ampla da falta de acesso até a
má qualidade dos serviços. Abrange abusos cometidos em virtude das relações de
poder desiguais entre usuários e profissionais dentro das instituições, até por uma
noção mais restrita de dano físico intencional. Essa violência pode ser identificada
de várias formas: peregrinação por diversos serviços até receber atendimento; falta
de escuta e tempo para a clientela; frieza, rispidez, falta de atenção, negligência;
maus-tratos dos profissionais para com os usuários, motivados por discriminação,
abrangendo questões de raça, idade, opção sexual, deficiência física, doença mental;
violação dos direitos reprodutivos (descrição das mulheres em processo de aborto,
aceleração do parto para liberar leitos, preconceitos acerca dos papéis sexuais e em
relação às mulheres soropositivas [HIV], quando estão grávidas ou desejam
engravidar); desqualificação do saber prático, da experiência de vida, diante do saber
científico e, finalmente, omissão de socorro diante de situação de violência em que
um “agente representante do Estado” falha ou falta, não cumprindo corretamente
com sua obrigação de acolher a vítima e “conter” o agressor, também é violência
institucional e é aqui que se enquadra o tema do nosso curso: Prevenção ao Assédio
Sexual no Transporte Público.
Vamos, então, diferenciar assédio, abuso e importunação ofensiva ao pudor!

4. ASSÉDIO, ABUSO OU IMPORTUNAÇÃO OFENSIVA


AO PUDOR: O QUE ACONTECE DENTRO DO
TRANSPORTE COLETIVO DE PASSAGEIROS?

O Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher, da Defensoria


Pública de São Paulo, aponta que o assédio sexual é uma manifestação sensual ou
sexual, alheia à vontade da pessoa a quem se dirige.

Situações como abordagens grosseiras, ofensas e propostas inadequadas que


constrangem, humilham ou amedrontam são consideradas assédio. É essencial que

20
qualquer investida sexual tenha o consentimento da outra parte, o que não acontece
quando uma mulher é assediada.

Paquerar é diferente de constranger. Uma paquera acontece com o consentimento de


ambas as partes, é uma tentativa legítima de criar uma conexão com alguém que você
conheceu e estima, com quem “pintou” um clima. Paquera não causa medo nem
angústia. O mais importante é buscar o consentimento e, quando o NÃO for a
resposta, aceite: NÃO É NÃO!

É importante saber que, só porque a vítima não disse “não”, isso não significa que ela
tenha dito "sim". Quando uma pessoa não resiste a um avanço sexual indesejado, não
significa que ela consentiu.

Algumas pessoas pensam que, se a vítima não resistiu, isso não pode ser considerado
como abuso. Isso não é verdade! Qualquer gesto ou ato de caráter sexual indesejado
é abuso. Inclusive, em muitos casos, resistir fisicamente pode fazer com que a vítima
corra o risco de sofrer mais abuso sexual ou físico.

5. O QUE DIZ A LEI?

O termo “abuso sexual” é utilizado de forma ampla para categorizar atos de violação
sexual em que não há consentimento da outra parte. Faz parte desse tipo de violência
qualquer prática com teor sexual que seja forçada, como a tentativa de estupro,
carícias indesejadas, sexo oral forçado, restrição ao acesso a anticoncepcionais e
camisinhas, etc.

No Brasil, a Lei 12.015/2009, que integra o Código Penal, protege as vítimas nos casos
dos chamados “crimes contra a dignidade sexual”.

De forma mais comum, segundo o Ministério Público, reconhecemos como abuso


situações em que uma criança ou um adolescente é invadido em sua sexualidade e
usado para gratificação sexual de um adulto ou mesmo de um adolescente mais velho.
O abuso pode incluir desde carícias, manipulação dos genitais, mama ou ânus,
voyeurismo, exibicionismo ou até o ato sexual com ou sem penetração. Muitas vezes,
o agressor pode ser um membro da própria família ou pessoa com quem a criança
convive, ou ainda alguém que frequenta o círculo familiar. O abuso sexual deturpa as
relações socioafetivas e culturais entre adultos e crianças ou adolescentes ao

2
1
transformá-las em relações genitalizadas, erotizadas, comerciais, violentas e
criminosas.

ASSÉDIO SEXUAL

O assédio, de forma geral, é a insistência impertinente, a perseguição e/ou a


abordagem velada que violam a esfera moral do indivíduo. O assédio sexual
diferencia-se do assédio moral interpessoal pela conotação sexual presente nos meios
utilizados ou nos fins pretendidos. Um bom exemplo disso são: constrangimentos e
ameaças com a finalidade de obter favores sexuais feitos por alguém de posição
superior à vítima.

De acordo com o Código Penal, assédio sexual é aquele que ocorre quando há relações
hierárquicas entre a vítima e o assediador (e que, em regra, é o que ocorre envolvendo
relações de trabalho — o assediador é o empregador ou chefe e o empregado é o
assediado). O Código Penal Brasileiro, em seu artigo 216- A, define que assédio sexual
consiste em:

Constranger alguém com o intuito de obter vantagens ou favorecimento sexual,


prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência
inerentes ao exercício do emprego, cargo ou função. Prevê pena de um a dois anos de
detenção, sendo possível a expansão de até um terço da pena caso a vítima seja menor
de idade.

Em relação ao assédio sexual direcionado à mulher, existe também a proteção pela


Lei nº 11.340/06, denominada Lei Maria da Penha, em que seu artigo 7º afirma que
violência contra a mulher pode se manifestar nas formas física, sexual, patrimonial,
moral e psicológica.

Podemos, então, concluir que, pela lei, só são caracterizados como assédio sexual os
atos cometidos dentro dos ambientes de trabalho.

Mas observe atentamente que as situações de constrangimento e violência que


ocorrem em espaços públicos, inclusive dentro do transporte público de passageiros,
costumam ser chamadas popularmente de assédio sexual, mas não o são segundo a
lei.

22
No transporte público, “o assédio” é configurado por outros tipos de
comportamentos ilícitos, em que a denominação correta e “legal” é “importunação
ofensiva ao pudor”.

IMPORTUNAÇÃO OFENSIVA AO PUDOR

A prática consiste em qualquer ato que cause prazer sexual ao agressor e resulte no
constrangimento da vítima, como os casos de homens que ejaculam em mulheres no
transporte público. É também o assédio verbal, quando alguém diz coisas
desagradáveis ou faz ameaças. Essas condutas também são formas de agressão e
devem ser coibidas. A importunação ofensiva ao pudor antes era configurada como
contravenção penal, o que resultava em apenas multa para o agressor.

Contudo no dia 24 de setembro de 2018 ano foi sancionada a Lei nº


13.718/2018 que cria o crime de importunação sexual. Com a nova
tipificação, a pena é de reclusão de um ano a cinco anos de prisão.

ESTUPRO

Tocar as partes íntimas de alguém sem permissão, constranger mediante violência,


ameaçar, praticar ou permitir que com ele se pratique qualquer ato sexual não
consensual. É tipificado no Código Penal brasileiro como crime, com pena de seis a
30 anos de reclusão.

ATO OBSCENO

É quando alguém pratica uma ação de cunho sexual (exibir seus genitais, por
exemplo) em local público a fim de constranger ou ameaçar alguém com pena de
detenção de três meses a um ano ou multa.

Quando o tema é violência contra mulher, conhecer a questão favorece a


possibilidade de intervenção na situação de violência. Aqui cabe a frase:
“conhecimento é poder!” visto que será o conhecimento da questão que nos dará

2
3
fundamentos para realizar um melhor acolhimento da vítima e uma ação mais
assertiva em relação à contenção do agressor.

6. CONSEQUÊNCIAS SOCIAIS DO ASSÉDIO

Qualquer ato de violência resulta em consequências de múltiplas dimensões.


Podemos citar brevemente algumas consequências:

 Prejuízos nas relações familiares: desestruturação familiar.


 Custos para tratamento e reabilitação das vítimas e dos agressores.
 Despesas com Previdência Social.
 Custas judiciais com processos.
 Prejuízos para as vítimas: problemas psicopatológicos, psicossomáticos,
comportamentais.

6.1 Consequências do assédio para a vítima

Muitos estudos apontam que casos de violência contra a mulher são caracterizados
por distúrbios físicos, psicológicos e emocionais que influenciam sobremaneira a
integridade da saúde da mulher e que podem chegar a graves estados de degradação
da autoestima e da capacidade de independência e funcionalidade. No quadro a
seguir, a Organização Mundial da Saúde sintetizou e apresentou os principais
problemas relacionados à violência contra a mulher:

24
6.2 Consequências institucionais do assédio sexual
para as empresas de transporte público de passageiros
e as estratégias de enfrentamento da questão

Para as empresas, o resultado de situações de violência dentro do transporte público


de passageiros pode acarretar muitas consequências. Entre as mais prejudiciais à
empresa, estão:

 Custas judiciais, pois as empresas podem responder por sua responsabilidade


civil em casos de violência ocorridos dentro do transporte público de
passageiros, de acordo com o Código de Defesa do Consumidor, onde estão
previstos ainda os direitos à segurança, à prevenção de danos e, finalmente, o
direito que o consumidor tem à reparação dos danos causados à integridade
física e psíquica das passageiras.
 Pagamentos de indenizações.
 Exposição negativa da marca, que pode acarretar diminuição da produtividade
da empresa; enfraquecimento da marca no mercado de transporte;
“viralização” de comunicação negativa sobre a empresa; deterioração da
relação estabelecida entre a empresa e o consumidor, que passa a ser de
suspensão e, principalmente, de desconfiança.
 Diminuição dos lucros da empresa, que, dependendo do impacto financeiro,
pode gerar demissões de colaboradores.

6.3 Estratégias para as empresas

As estratégias para o enfrentamento de situações de violência contra a mulher dentro


do transporte coletivo de passageiros podem se utilizar de:

 Treinamento dos profissionais (cobradores e motoristas), uma vez que eles são
os representantes das empresas concessionárias de transporte mais próximas
das vítimas e dos agressores.
 Estruturação de uma cultura da importância do controle social: a violência
contra a mulher atinge a todos e seu combate deve ser um compromisso de
todos os cidadãos, não somente da empresa prestadora de serviços de

2
5
transporte.
 Criação de “Procedimento Operacional Padrão” para universalizar o
tratamento da questão.
 Criação de sistemas de monitoramento por câmeras.
 Campanhas educativas no intuito de repelir ações de violência.
 Encorajamento da formalização de denúncias pelas vítimas e testemunhas,
visando evitar novos casos e permitir o mapeamento das situações.
 Acolhimento e proteção das vítimas.
 Prevenção de danos e reparação, quando for o caso.
 Sigilo.
 Educação e comunicação continuada.
 Mediação: intervenção na resolução dos conflitos.
 Botão de pânico.
 Aplicativo para denúncia por parte de usuários.

6.4 Estratégias para a sociedade

 Campanhas publicitárias de prevenção à violência, promoção do bom


convívio social e de estímulo à denúncia.
 Programas de conscientização sobre assédio e violência sexual.
 Desenvolvimento de legislação para o enfrentamento à violência e ao assédio
sexual.
 Criação de uma cultura de controle social em relação à violência contra a
mulher. Esse controle social se refere a práticas sociais de vigilância e controle
sobre a ação dos cidadãos. É a criação de uma cultura de que “estamos todos
no mesmo barco”, fazemos parte da mesma sociedade e sofremos todos com
as situações de violência.

Um bom exemplo de controle social é quando, em alguma situação de violência, a


pessoa que testemunha não se cala, chama a política, faz anotações de informações
importantes, acolhe a vítima, fotografa, filma, se compromete com as providências,
pois compreende que somos responsáveis pela criação de uma sociedade mais
igualitária e segura para todos e todas.

26
O controle social passa a ser uma ferramenta que estabelece a ordem social,
submetendo os indivíduos a determinados padrões sociais e princípios morais,
visando assegurar a conformidade de comportamentos dos indivíduos a um conjunto
de regras e princípios prescritos e sancionados.

Finalmente, consideram-se controle social ações exercidas pelas pessoas de forma a


integrar todos em um pensamento e uma práticas comuns, com vistas à solução de
problemas sociais e à diminuição das deficiências em relação às ações do Estado. Em
situações de violência, caso não haja um agente público de segurança para intervir,
ficaremos de braços cruzados?

7.

2
7
RESUMINDO

O fenômeno da violência e a sua ligação com a formação da nossa cultura


acompanham a história da humanidade. Independentemente da época ou do
tipo de violência, esse problema tem como consequências lesões, mortes,
traumas ou cicatrizes emocionais.

Há diferença entre abuso sexual e importunação ao pudor. A violência contra


as mulheres inclui maltratos físicos, abusos sexuais, psicológicos, econômicos e
institucionais. Podemos afirmar que a violência baseada no gênero se
desenvolve como resultado da condição de subordinação da mulher na
sociedade.

Os impactos da violência na vida das pessoas, em casos de violência contra a


mulher, são caracterizados por distúrbios físicos, psicológicos e emocionais.
Esses aspectos impactam a integridade da saúde da mulher, que pode chegar a
graves estados de degradação da autoestima e da capacidade de independência.

28
1) Assinale a alternativa incorreta:

( ) A violência de gênero consiste em qualquer ação ou conduta,


baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual
ou psicológico.

( ) A violência intrafamiliar é toda ação ou omissão que prejudique o


bem-estar, a integridade física, psicológica ou a liberdade e o direito ao
pleno desenvolvimento de outro membro da escola.

( ) A violência doméstica distingue-se da violência intrafamiliar por


incluir outros membros do grupo, sem função parental, que convivam
no espaço doméstico.

( ) A violência sexual compreende uma variedade de atos ou tentativas


de relação sexual sob coação ou fisicamente forçada, no casamento ou
em outros relacionamentos.

2) Assinale (V) quando a alternativa for verdadeira e (F) quando a


alternativa for falsa:

( ) A heterossexualidade é a atração sexual afetiva por pessoas do


gênero igual ao seu.

( ) A homossexualidade é a atração sexual e afetiva por pessoas do


mesmo gênero.

( ) A bissexualidade é a atração sexual e afetiva por pessoas de ambos


os gêneros.

2
9
UNIDADE 2
MANUAL DE BOAS PRÁTICAS: Como se portar
diante de situações de violência contra a mulher dentro do
transporte coletivo de passageiros?

1. MANUAL DE BOAS PRÁTICAS

30
UNIDADE 2 – MANUAL DE BOAS PRÁTICAS:
Como se portar diante de situações de assédio
dentro do transporte coletivo de passageiros?

Fonte: SEST SENAT/ NTU.

Você sabe como se portar em uma situação de


violência contra a mulher, quando acontecer
dentro do seu veículo? Como proceder com a
vítima? Como agir com relação ao agressor?

violência contra a mulher e conhecer algumas orientações de como proceder em


relação ao agressor.

1. MANUAL DE BOAS PRÁTICAS


Para começar, lembre-se: a passageira do transporte público é sua cliente!

1.1 Dicas para condutores e cobradores

1. Decotes ou minissaias não são convites para nada: todos e todas têm o direito
de decidir que roupas querem usar.

3
1
2. Não olhe intensamente para o corpo das passageiras: elas podem se sentir
expostas e assediadas.

3. Mantenha o contato visual pelo retrovisor: você, nessa condição, é um


profissional.

4. Não trate sua cliente por apelidos, diminutivos ou afins. A usuária não é da sua
família. Fale: senhora ou senhorita.

NÃO USE:

Bom dia, minha linda!


Quer que ligue o rádio, querida!

5. Não elogie características físicas das usuárias. Isso pode configurar assédio,
poder ou tentativa de intimidação.

6. Não faça perguntas sobre a vida pessoal das passageiras: fale sempre o mínimo
possível com seus clientes e mantenha-se discreto.
7. Não peça que uma usuária mude de lugar: deixe que a pessoa escolha onde
quer se sentar, quando não for passageira com deficiência, se estiver usando o
lugar indevidamente.
8. O contato físico com a usuária deve ser sempre estritamente profissional: não

32
peça telefone ou qualquer outro tipo de contato: além de isso não ser um
comportamento profissional, demonstra seu interesse e pode ser considerado
como assédio.
9. Ao final da viagem, não se despeça com comentários em tom pessoal, não beije
ou pegue na mão.
10. Não convidar a passageira para sentar na tampa do motor.
11. Não se aproveite de situações de vulnerabilidade.
12. Em caso de embriaguez de usuária, lembre-se que transportar pessoas nessa
condição é uma situação delicada, pois a pessoa pode não estar em condições
de cuidar de si. Evite comentários que possam parecer ofensivos ou

desrespeitosos.

13. Jamais filme, grave áudios ou fotografe as passageiras. Fazer imagens sem
consentimento é ilegal e pode acabar em processo judicial.
14. Seu coletivo deve ser um ambiente seguro.
15. Cantadas e gentilezas são coisas diferentes.

1.2 Dicas para os condutores no momento do assédio

1. Siga o protocolo dos Procedimentos Operacionais Padrão, estipulado por sua


empresa, em casos de assédio dentro do coletivo.
2. Caso o assédio tenha ocorrido dentro do seu coletivo e você receba da vítima
uma reclamação, não hesite! Cumpra os procedimentos operacionais padrão
estipulados por sua empresa e conduza a passageira até os canais de denúncia
apropriados.
3. Conheça bem os canais de denúncia (telefones, sites e locais) para poder
encaminhar bem uma situação no seu coletivo.

3
3
4. Não estimule as testemunhas à prática de violência, tais como: linchamentos,
socos ou pontapés.
5. Oriente a vítima de assédio dentro do transporte público a denunciar o
agressor nos canais corretos.
6. Oriente a vítima a buscar a rede de proteção social existente no seu
munícipio, para a colhimento e tratamento adequado: CAPS, Postos de
saúde.
7. Contenha a multidão, para que não ocorra mais situações de violência em
meio ao tumulto que se forma.

1.3 Dicas para empresas

1. Produza um documento onde constem os procedimentos operacionais padrão


sobre prevenção e contenção de situações de assédio sexual no transporte
público.
2. Coloque em todos os veículos da empresa os contatos dos canais de denúncia
em casos de assédio.
3. Dissemine os procedimentos operacionais entre os seus empregados.
4. Capacite seus colaboradores quanto ao tema “Prevenção de Assédio Sexual no
Transporte Público”.
5. Contate as autoridades locais para verificar quais os melhores procedimentos
para resolução de situações de assédio sexual no transporte coletivo.

1.4 Dicas para passageiras e passageiros

O transporte coletivo, em horários de grande movimento, é um excelente local para


pessoas mal-intencionadas. O ambiente apertado e pouco acolhedor favorece o
contato físico entre os usuários de ambos os sexos, mas fragiliza ainda mais quando
se trata das mulheres. Esse tipo de assédio pode acontecer em ônibus, metrôs, trens e,
até mesmo, em táxi com lotação.

O que fazer em caso de assédio dentro do transporte público?

1. Peça ajuda a quem estiver por perto.


2. Chame a atenção dos demais passageiros.
3. Acione o canal de denúncias ou procure um empregado do transporte para
que ele tome as providências necessárias.

34
4. Verifique se o empregado está
devidamente identificado (ex.:
crachá visível com o nome).
5. Registre o máximo possível de
informações referentes às
circunstâncias do assédio: anote o
dia, horário e local, nome e contato
de testemunhas, características do
agressor, tire fotos, filme, se possível.
6. Não esqueça de anotar o nome
da empresa e o número da linha, o
nome do cobrador e do motorista
que possam ser testemunhas, caso
haja necessidade.

7. Se você passar por situações em que a pessoa que sentar ao seu lado ou que
estiver em pé muito perto de você tente alguma forma de assédio, mencione
alto para que a pessoa se envergonhe e pare (preferencialmente falando
educadamente). Isso irá despertar a atenção de outras pessoas e pode inclusive
fazer com que outros saiam em sua defesa.
8. Afastar as tentativas com seus braços e cotovelos pode servir como um “eu sei
o que você está tentando fazer e não irei permitir”.
9. Não seja agressiva ou violenta, mas também não se mantenha em posição de
fragilidade. Certifique-se para não cometer equívocos.
10. Não fique calada durante o assédio: fale alto, vá até uma pessoa como se você
estivesse acompanhada.
11. Avalie se é um esbarrão ou assédio mesmo! Claro que nem todo esbarrão é
necessariamente um abuso, então, cabe usar o bom senso.
12. Mostre claramente a sua insatisfação! A ausência de reação, no caso de uma
pessoa mal-intencionada, poderá ser interpretada como uma concordância.
13. Ao primeiro sinal de assédio, vire-se para a pessoa, encare-a sem sorrir, olhe-
a bem nos olhos e diga: “Por favor, se afaste! ”. Mas, se a situação estiver muito
constrangedora, diga: “O senhor poderia se afastar ou prefere que eu chame a
polícia? ”.

3
5
14. Se você presenciar uma situação de assédio, não a
ignore! DENUNCIE! Acolha a vítima e reaja,
falando alto que você viu o que o agressor está
fazendo. Essa atitude pode frear a continuidade da
intimidação ou agressão.

1.5 Canais de denúncia

CENTRAL DE ATENDIMENTO À MULHER: DISQUE-DENÚNCIA

180

O serviço é gratuito e funciona todos os dias, inclusive nos finais de semana. O


atendimento acontece 24 horas por dia. Esse serviço ajuda vítimas de violência
quanto aos encaminhamentos e procedimentos legais cabíveis de acordo com cada
situação e gravidade.

EMERGÊNCIA DA POLÍCIA MILITAR:

190

DISQUE-DENÚNCIA DA POLÍCIA CIVIL:

197 (Opção 0)

DELEGACIA DE ATENDIMENTO À MULHER – DEAM:

PLANTÃO - 3207-6172
PLANTÃO - 3207-6195
PLANTÃO - CELULAR - 98362-5673

EQS 204/205 – Asa Sul, Brasília DF

Denuncia197@pcdf.gov.br

www.pcdf.df.gov.br

36
CENTRAL DE ATENDIMENTO À MULHER DO GDF:

156 (Opção 6)

CASA DA MULHER BRASILEIRA- CMB


Espaço físico com serviços especializados para o atendimento à violência:
acolhimento, triagem, apoio psicossocial, delegacia, juizado, Ministério
Público, Defensoria Pública, Promoção de Autonomia Econômica.

SGAN 601, Lote J – L2 Norte- Brasília DF

(61) 3226-5024/ 3224-3393/ 3224-6221

CENTROS ESPECIALIZADOS DE ATENDIMENTO À MULHER- CEAM

102 Sul- Estação do Metrô, Plano Piloto

(61) 3223-7264

CEAM Ceilândia QNM 2- Conjunto F Lotes 1/3

(61) 3373-6668

CEAM Planaltina – Jardim Roriz, AE 1/2

(61) 3389-8189

OUVIDORIA DO GDF:

162

NÚCLEOS DE ATENDIMENTO AS FAMÍLIAS E AOS AUTORES DE VIOLÊNCIA


DOMÉSTICA-NAFAVD

Brasília: 3214-4420

Brazlândia: 3479-6506

3
7
Gama: 3384-7469

Núcleo Bandeirante: 3552-2064

Santa Maria: 3394-3006

Samambaia: 3358-7476

Sobradinho: 3591-3640

Paranoá: 3369-6850

Planaltina: 3388-1984

SITES:

Campanha do Laço Branco: www.redesaude.org

CFEMEA: www.cfemea.org.br

RESUMINDO

Nesta unidade, estudamos dicas para os diversos usuários do transporte


público de passageiros, estejam na condição de motorista, cobrador, passageiro
ou passageira.

Conhecemos os contatos dos canais de atendimento em caso de denúncia de


assédio sexual no transporte público.

38
1) Assinale a alternativa incorreta:

a) ( ) Em nenhuma hipótese, peça a uma usuária que mude de lugar.


b) ( ) O contato físico com alguma usuária deve ser sempre
estritamente profissional.
c) ( ) Ao final da viagem, não se despeça com comentários em tom
pessoal, não beije ou pegue na mão.
d) ( ) Não convide alguma passageira para sentar na tampa do motor.

2) Assinale (V) quando a alternativa for verdadeira e (F) quando a


alternativa for falsa.

a) ( ) Não há necessidade de a empresa de transporte público de


passageiros desenvolver o seu próprio manual de procedimentos
operacionais, pois ela pode contar com os serviços de segurança
pública em situações de assédio.
b) ( ) Há necessidade de a empresa capacitar todos os seus
colaboradores para lidar com situações de assédio sexual dentro do
transporte público.
c) ( ) O transporte público costuma ser um lugar seguro para todos e
todas.
d) ( ) Diante de uma situação de assédio, se você for a vítima, a
primeira iniciativa é pedir ajuda de quem estiver por perto.
e) ( ) Nunca filme, fotografe ou grave o assediador.
f) ( ) Em situações de assédio, o condutor pode deixar a situação
ocorrer naturalmente, pois as testemunhas se encarregarão de
resolver a questão.
g) ( ) Se você for um condutor, deve sempre avaliar a veracidade do
depoimento de uma “vítima”.

3
9
REFERÊNCIAS

AGUIAR, NEUMA. Patriarcado, Sociedade e Patrimonialismo. A mulher na forma


de trabalho na América Latina. Rio de Janeiro, Vozes, 1984.
BRASIL. CASTRO, Izabelle Alessandra; JUNIOR, Cecílio Argolo. A responsabilidade
civil dos coletivos urbanos referente aos assédios sexuais sofridos por mulheres
brasileiras.
CASIQUE, Letícia; FUREGATO, Antônia Regina Ferreira. Violência contra as
mulheres: reflexões teóricas. Revista Latino-Americana de Enfermagem, 2006.
Cartilha Assédio Moral e Sexual no Trabalho: Prevenção e enfrentamento na
FIOCRUZ, Ministério da Saúde, Rio de Janeiro, 2014.
Cartilha Sinttel- DF, Respeita as Minas: Assédio Sexual é caso de Polícia.
Cartilha do Programa Pró- Equidade de Gênero e Raça: Assédio Moral e Sexual.
Senado Federal, Diretoria – Geral.
Cartilha Eletrobrás – Eletronuclear. Prevenção e Combate ao Assédio Moral e Sexual
no Ambiente de Trabalho.
Manual de Conduta contra o assédio: Claudia, UBER. ONU Mulheres.
Cartilha Assédio Sexual no Trabalho: Perguntas e Respostas. Ministério Público do
Trabalho, Brasília- DF, 2017.
Cartilha Cantada não é elogio: Campanha contra o assédio sexual e a opressão de
gênero. FUNDACENTRO e Ministério da Previdência Social, São Paulo- SP, 2016.
DIAS, Ana Rita Conde; MACHADO, Carla. Amor e Violência na Intimidade: da
Essência à Construção Social. Red. de Revistas Científicas da América Latina y el
Caribe, Espanha e Portugal.
MINAIO, Maria Cecília de Souza. Violência e Saúde. Fiocruz, 2006.
MICHAUD, Ives. A Violência. Ática, 1989.
NASCIMENTO, Elaine Ferreira do; GOMES, Romeu; REBELLO, Lucia; SOUZA,
Emília Figueiredo de. Violência é Coisa de Homem? A Naturalização da Violência
nas Falas de Homens Jovens. Departamento de Ensino. Instituto Fernandes Figueira.
FIOCRUZ, 2008.

40
SAFFIOTI, Heleieth I. B. Contribuições Feministas para o Estudo de Violência de
Gênero. Cadernos Pagu, 2001.
SANTOS, Simone Alves. Assédio Sexual nos Espaços Públicos: Reflexões Históricas
e Feministas. Centro Universitário Fundação Santo André. História, Histórias.
Brasília, vol. 3, n. 6, 2015.
TOLEDO, Cecília. O Gênero nos une, a classe nos divide. São Paulo: Sudermann,
2008.
Zaluar, Alba. Um Debate Disperso – Violência e Crime no Brasil da
Redemocratização (PDF). São Paulo. São Paulo em Perspectiva (1999).
http://sindpdpr.org.br/artigo-saude-do-trabalhador/assedio-sexual. Acesso em
março de 2018.

4
1
42