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SOCIEDADE ORGANIZADA: EDUCAÇÃO, DESENVOLVIMENTO E JUSTIÇA SOCIAL

MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

Vamos então convidar para compor a nossa mesa e para mediar os


trabalhos de hoje, o gerente do SESC –Santos, professor Antônio Porto Pires, por favor
(aplausos da plateia). E também para a conferência, o professor mestre e doutor Mário
Sérgio Corte-la, por favor (aplausos da plateia). Gostaria desde já agradecer ao professor
por ter aceito o convite para abrilhantar certamente este congresso, e um último aviso, eu
gostaria de reforçar para que todos por favor desliguem os celulares, e que nesta sala é
absolutamente proibido mesmo fumar, por favor. Então com a palavra o professor Porto
Pires.
Muito boa tarde a todos, eu gostaria antes de iniciar a apresentação do
professor Mário Sérgio Corte-la, fazer um aviso e alguns agradecimentos. O aviso é dizer
a todos, que os certificados de vocês estarão à disposição logo após o término da
conferência do professor Corte-la, e eu pediria que vocês conferissem a grafia, para que
se houvesse algo a ser corrigido, a gente possa fazê-lo imediatamente
Gostaria de também de fazer alguns agradecimentos, aos nossos parceiros,
em especial, a Universidade Católica de Santos e a TV Tribuna, a todos os outros
parceiros que participaram da feira, e participaram também da preparação deste evento, o
nosso muito obrigado.
Gostaria de me congratular, com a equipe do SESC, por mim aqui do SESC-
Santos, pela competência e dedicação que tiveram a este evento, desde outubro do ano
passado, a equipe soube realmente interpretar a vontade e a preocupação da nossa
instituição, com o trabalho de “Educação para a Cidadania”, logrando fazer este
programa, que nós hoje estamos a ponto de encerrar (palmas da plateia). Obrigado!
Finalmente gostaria de agradecer a todos vocês, que nos prestigiaram com a sua
inscrição neste evento, que vieram de todos os lugares do Brasil, e nós nos sentimos
muito honrados, porque sentimos que essa participação foi muito interativa, foi muito viva,
em todas as conferências, em todas as mesas redondas, em todos os relatos de
experiência, houve uma troca de ideias, crescemos juntos nesse evento, agregamos
conhecimentos, agregamos amizades, conhecemos novas experiências juntos, então eu
gostaria de agradecer e parabenizar a todos vocês ( palmas da plateia ).
O professor Mário Sérgio Corte-la que fará a nossa conferência, ele é mestre
e doutor em Educação. O trabalho de doutorado em Educação do professor Mário Sérgio
Corte-la foi orientado pelo professor doutor Paulo Freire, de quem o professor Corte-la
depois foi chefe de gabinete na Secretaria Municipal de Educação em São Paulo, e onde
nesta mesma Secretaria, foi secretário durante o biênio 1991 e 1992. O professor Corte-
la também é apresentador e debatedor no nosso programa na STV que é transmitido a
cabo pela Net ao vivo, e pelas outras empresas de cabo (?) também, para todo Brasil, e o
professor Cortella hoje está nos honrando com a sua presença. Eu passo a palavra ao
professor Corte-la, a quem agradeço pela presença. (Palmas da plateia)

MÁRIO SÉRGIO CORTELLA


Boa tarde a todas e a todos, é uma satisfação imensa imaginar que num
sábado à tarde, do último dia, do último feriado do ano, que haja tanta gente, que ocupe
parte do seu dia, parte da sua vida, para ajudar a cuidar, para ajudar a lidar com
educação e com cidadania. Talvez outras pessoas que não fossem da área de Educação,
como muitos e muitas que não estão aqui, achariam curioso que tipo de gente nós somos,
que utiliza parte do nosso tempo para pensar educação e cidadania. Que tipo de gente
nós somos, que é capaz num final de sábado, vir para ouvir uma reflexão sobre sociedade
organizada, cidadania, educação, justiça social.
Nesta hora eu me lembro sempre, não me canso de repetir, uma frase, que
eu gosto demais, aproveitando que nós estamos na orla marítima, do grande Padre
Antônio Vieira. Padre Antônio Vieira tem uma frase, um sermão, que se inicia como uma
expressão que eu acho fundamental, ele diz: “O peixe apodrece pela cabeça”. Não sei se
vocês já viram um peixe apodrecendo, ele apodrece da cabeça para o restante do corpo.
Provavelmente, numa tarde de sábado, como hoje, depois de alguns dias de
atividade discussão e debate, todas e todos aqui estão para impedir o apodrecimento da
cabeça. Para impedir que a gente seja vitimada por talvez, a mais forte das doenças dos
tempos atuais que é o fatalismo, que é o estilhaça mento da esperança. É o fato de
muitas e muitos acharem, que as coisas como são é o único modo delas serem, que o
modo como a realidade está organizada é o modo possível de nós, humanos e humanas
a deixarmos. Acharmos, inclusive, que a área de Educação faz o possível, mas que é
impossível fazer o que precisa ser feito. Eu insisto neste ponto de partida, eu farei uma
reflexão de sessenta minutos, de uma hora, exatamente em torno dessa ideia: “o peixe
apodrece pela cabeça”, e é tarefa, sim, da área da Educação, não é só nossa, mas é
também nossa, não admitir esse apodrecimento. E o que impede o apodrecimento de
algo, vocês sabem, é a capacidade de oferecer vitalidade, a capacidade de manter a
renovação, a capacidade de não impedir a circulação do novo, e, portanto, a capacidade
de vida gerando vida.
Vocês sabem, uma das coisas mais pesadas no nosso campo, na área
educacional especialmente, é o fato de que muitas e muitos, hoje em Educação, são
acometidos de uma grande descrença, acharem que não há outro modo das coisas
serem, e eu falo em vários lugares e eu queria retomar aqui. Muita gente talvez em
Educação até ache que nós não devemos mais comemorar o Dia do Professor no dia 15
de outubro. Muita gente acha que talvez o dia mais adequado, para ser o dia do
professor, é o dia 02 de novembro. Porque é no dia de Finados que muitas e muitos
encontram, aquilo que seria o jeito de pensar em Educação.
Eu tenho participado, vocês também, de muito eventos, não tem sido
incomum nesses eventos, quando se vai analisar o lugar e o papel da Educação, as
pessoas ficarem indicando a “causa mortis”. Aliás, mais por exemplo, do que aproveitar
dias como este, e pelo que me contaram, vocês aproveitaram positivamente, para fazer
aquilo que é importante demais quando se pensa em prosseguir a vida, que é uma
biópsia, muita gente se restringe a fazer uma necropsia. Ao analisar as coisas dizer:
“morreu por isso”, “não deu certo por isso”, “não funcionará por isso”. Em Educação é
importante demais que a gente seja capaz de fazer biópsia. Biópsia é possibilidade de
olhar alguma coisa viva, dela extrair um estudo, uma análise, um pedaço, para ver o que
está necrosando, para ver o que está degradando, mas para manter vivo basta em muitos
locais se fazer, exclusivamente necropsia. É preciso pegar o organismo vivo, que é a
sociedade, que é o fenômeno educativo dentro dela, ver sim o que há de deslize, o que
há de equivocado, mas para mantê-lo vivo, e não como fazem algumas e alguns, na
nossa área e fora dela, conformar-se.
É interessante até esta expressão, quando nós colocamos água no copo, a
água se conforma ao copo, isto é, ela ganha a forma do copo, ela fica aprisionada pelo
copo, ela se conforma. Muitas pessoas estão hoje conformadas em relação ao modo
como a sociedade está organizada, estão aprisionadas dentro de determinado continente,
determinado tipo de prisão, é preciso estilhaçar essa conformidade, é preciso transbordar,
ir além da borda. É por isso que num sábado, quase final da tarde, quase no final de um
feriado prolongado, eu fico absolutamente animado, cheio de “anima”, cheio de alma,
quando a gente vem e encontra aqui tantos homens e tantas mulheres que querem
transbordar, isto é, ir além da borda, conformar-se, sair daquilo que é o ficar refém de um
desespero.
Há pessoas hoje, por exemplo, que olham a sociedade brasileira, olham a
nossa vida e diz assim:
“Faz parte da vida, violência, faz parte da vida”. Não faz, violência não faz parte da vida,
violência faz parte da morte. O que faz parte da vida é a proteção da vida, é a capacidade
da vida nas suas múltiplas faces, ir adiante. “Desemprego, desemprego faz parte da vida”.
Não faz! Desemprego faz parte da morte! Um homem e uma mulher impedidos de ganhar,
sustentar com um mínimo de dignidade a sua família, são homens e mulheres que se
aproximam da morte. Faz parte da vida, imagine!
Eu vou contar uma coisa que você talvez mais jovem, não suponham. Há
vinte anos nesta cidade, a cidade de Santos, ou a cidade de São Paulo onde eu moro, ou
em Salvador, ou Belo Horizonte, ou Porto Alegre, ou Ribeirão Preto, ou Curitiba, tanto faz,
há vinte anos, você saia da escola às 11:00 da noite, da escola, do trabalho, da igreja, do
bar, ia andando sozinho para casa, você ouvia passos de outra pessoa, sabe o que você
sentia? Alegria! Você dizia assim: “Graças a Deus vem vindo outra pessoa”! Sabe do que
é que a gente tinha medo? De defunto! A gente passava longe do cemitério, a gente tinha
medo de alma penada, de gente viva a gente não tinha tanto medo. Hoje, você sai às
11:00 da noite do trabalho, da escola, da igreja, do bar, vai andando para casa e ouve
passos de outra pessoa, você pensa assim: “Meu Deus do céu, vem vindo outra pessoa”.
Olha que coisa interessante! A violência faz parte da vida? De jeito nenhum, a violência
faz parte da morte. O desemprego faz parte da vida? De maneira alguma! Vou lembrar
algo, que talvez só os mais idosos, como eu, se lembrem.
Há vinte anos, aqui em Santos, na sua cidade também, na Rodoviária, você
descia, a polícia vinha e te parava e pedia a sua carteira de trabalho. Se você não
trabalhasse, você era detido, porque não trabalhar era considerado uma contravenção
penal, prevista no código, aliás um delito tipificado como sendo vadiagem, você era preso
se não trabalhasse. Aliás, qual era o nome que a gente dava, a quem não trabalhava, há
vinte, vinte e cinco anos? “Vagabundo”! Você tinha às vezes um na família, um cunhado
que não trabalhava, um irmão, era chamado de “vagabundo”. Aliás uma pessoa te parava
na rua e pedia dinheiro, você olhava para ela e dizia:
“Mas você é tão forte, por que você não vai trabalhar”? Hoje, cada um e cada uma de
nós, tem próximos, pessoas que não tem trabalho. O que aconteceu nesses 20, 30 anos?
O que aconteceu nos últimos 10, 15 anos? Talvez, nós tenhamos no conformado. Talvez
nós tenhamos admitido a ideia que as coisas são como são. No dia 19 de abril de 1997,
lembram-se? Dia do Índio! No dia 19 de abril de 1997, na cidade de Brasília, uma
comunidade de índios pataxós foi a Brasília reivindicar a demarcação das terras deles.
Olha que coisa interessante, quase 500 anos depois dos europeus terem chegado aqui,
os donos daquela terra estavam sem a propriedade daquela terra que era deles.
Em 1997 uma comunidade de pataxós, entre eles um dos caciques pataxó, chamado
Galdino Jesus dos Santos, lembram-se? foi a Brasília reivindicar a demarcação das terras
deles. Por ironia os pataxós foram os primeiros índios a receberem os portugueses aqui.
Quando a esquadra de Cabral encostou naquilo que hoje é a área de Porto Seguro,
aquela belíssima região na Bahia, os pataxós foram os primeiros a acolhe-los. Quase 500
anos depois eles estavam no centro do poder buscando o reconhecimento da terra.
Houve uma festa, um dos índios, entre eles, esse que eu mencionei agora, o Galdino
Jesus dos Santos, foi a festa só que ele voltou às duas da manhã da festa. Claro, ao
chegar no albergue em que a FUNAI houvera feito a reserva já estava fechado. Que
decisão ele tomou? Galdino Jesus dos Santos, alguns de nós diríamos “tão inocente”!
Sabe qual decisão ele tomou? Ele olhou e disse assim:
“Bom se eu estivesse na selva ainda eu correria risco, eu vou ter que dormir
na rua. ” Na selva tem risco porque lá tem cobra, tem aranha, tem onça. “Aqui não tem
perigo, aqui só tem gente”.
E ele tomou a decisão, deitou-se sobre uma marquise de ponto de ônibus e dormiu.
Quatro horas da manhã, passaram cinco rapazes, filhos nossos, todos estudados, alguns,
dois deles em escolas religiosas. Passaram por lá, gente que passou pela escola, que
pode ter sido nosso aluno um dia. E aí que o nosso papel é forte também, não é só nosso,
mas ele é forte. Viram aquele ser e resolveram atirar combustível sobre aquele corpo e
incendiá-lo. Escaparam, rindo! Provavelmente Galdino Jesus dos Santos, a última coisa
que disse, se não disse pensou, antes de morrer, a morte não é agradável, mas morrer
queimado é menos agradável ainda, provavelmente a última que ele disse antes de
falecer foi olhar para eles e fazer uma pergunta fundamental: “ Por que”? “Por que”?
Eles escaparam, mas alguém viu a chapa do carro, e os rapazes foram detidos, foram
julgados, vocês sabem, que três deles ainda estão cumprindo pena em prisão. E eles ao
serem pegos usaram dois argumentos inesquecíveis. E ele terá que ser inesquecível
porque nós temos que o repetis sempre para ninguém esquecer.
A primeira coisa que eles disseram foi: ” a gente não fez por querer, a gente
só queria se divertir um pouco. ”
E essa ideia, de divertir-se com outro ser humano, não é uma ideia da qual a escola tenha
conseguido afastá-los. Talvez nós tenhamos, na educação escolar, até alguma
responsabilidade, em função dos exemplos que utilizamos, do tipo de ensinamento que
fizemos. Ou, nós dissemos: “não, isso não é conosco isso é a família”! Talvez! Mas o
outro argumento deles é que foi importante, eles disseram: “ a gente não fez por querer, a
gente não sabia que era um índio, a gente pensou que era um mendigo! ” Onde que eles
aprenderam que mendigo não é gente? Talvez em casa, talvez na escola. Talvez em
casa, quando o pai ou a mãe disseram assim: “você não vai estudar? Se você não
estudar, você vai ver uma coisa, você não vai ser nada na vida, você vai ser um
mendigo”. “Você não vai estudar? Você vai ver o que vai te acontecer! Sabe o que você
vai ser se você não estudar? Você vai ser empregada doméstica”! E essa criança vai
aprendendo um pouco, que tem gente que vale e tem gente que vale menos. “Você não
vai estudar? Você vai ver o que eu faço com você! Se você não estudar eu vou te colocar
na escola pública, aí você vai ver o que é bom! Você vai ser castigado, vou te colocar na
escola pública e você vai ver com que tipo de gente que você vai conviver”!
E essa criança vai aprendendo isso. Vou fazer um parêntese. Num dos meus
livros, a “Escola e o Conhecimento”, nesse a “Escola e o Conhecimento” da Editora
Cortez, eu conto uma história que eu queria retomar agora, que nós estamos no mês de
junho. Veja como é que a cidadania passa por estas coisas. Mês de junho, em muitos
lugares tem festa junina, que é uma coisa deliciosa. Eu gosto demais, mas fico
irritadíssimo com algumas festas juninas que vejo em algumas escolas. Como eu sou
caipira, eu sou de Londrina, no Paraná - e quem é daquela região, como eu, é chamado
de “pé vermelho” em função da cor da terra. Eu sou caipira, portanto me acostumei a
conviver com gente que trabalha na terra, gente fundamental para nós existirmos.
Vocês já viram festas juninas em algumas escolas, como é que ela é? Ela é
agora nessa época do ano. Professoras e professores treinam crianças durante dois, três
meses, para que mais ou menos no final desse mês de junho, no sábado ou no domingo,
junte um monte de criança na quadra, com um monte de pai em volta com máquina digital
fotográfica e máquina de filmar. E aí essas crianças saem de casa naquele dia
fantasiadas de caipira. E como é que elas são fantasiadas pela família? Veste uma
criança com a roupa cheia de remendo, como se pobreza fosse algo bonito e que o
remendo fosse algo a ser mostrado para se dar risada, porque vestir alguém de caipira é
vesti-lo para que ele fique engraçado, e aí se coloca remendo na roupa. Na sequência se
coloca na criança um chapéu todo esgarçado e aí se pinta de forma ridícula, com lápis de
sobrancelha, uma sobrancelha feia, um bigode horroroso e um cavanhaque, mas,
atenção, porque é aí que está a cidadania. No cuidado que a gente tem com o conjunto
das pessoas, cidadania é cuidar de todas, é não descuidar de ninguém. Para culminar
isso, a família faz, e a escola admite, que para a criança ficar mais engraçada ainda, aí se
pinta um dente falhado e a criança vai para escola fantasiada de caipira. Isso é uma
violência inacreditável, e não é porque eu sou caipira. O dente falhado não é uma coisa
engraçada, o dente falhado é sinal de miséria, ele é uma forma de mostrar a miséria. A
ausência do dente, jamais pode ser utilizada como coisa engraçada, aquilo é sinal de
miséria. É ridículo, esse ridículo significa que é risível, isso humilha quem não tem. A
primeira coisa que qualquer um e qualquer uma de nós faz, se perder um dente da frente,
é nem sair de casa, ou se você sai, você fica o tempo todo com a mão na frente da boca.
Ou você vai e tenta arrumar de algum jeito. Aliás sabe o que faz o pobre, quando ele
consegue por um dente aqui? Põe um dente de ouro, coisa que nenhum e nenhuma de
nós faria, porque aquilo é ridículo, brilhando para nós. Ele põe de ouro para brilhar, para
você perceber que ele tem dente.
Na festa junina a gente viu o que é que é cidadania. Claro que dá para fazer
a festa, dá para brincar, cantar, dançar, coisa maravilhosa! Mas será que o jeito de fazer
isso, desqualificando outro ser humano? Depois a criança cresce e se quer que ela
respeite o Movimento dos sem Terra, ou trabalhador rural, ou o homem do campo, ela
não respeita.
“A gente não sabia que era um índio, a gente pensou que fosse um mendigo”! Onde ele
aprendeu isso? Aprendeu na família, na escola, na igreja, no trabalho, na praça. Pobre
são gente? Mais ou menos. Os humanos são de um determinado tipo, ora que coisa! Tem
humano que vale e humano que não vale. Há anos e anos que uma grande
multinacional, uma das maiores do mundo, na área de medicamentos, faz uma
propaganda, dizendo assim: “use o curativo tal que ele é cor da pele”. Cor da pele de
quem? Num país que só tem 42% de pessoas indo-europeias com a pele da cor da
minha. Cor da pele de quem? Ah, não, é porque ter a pele da cor do curativo é ter a pele
normal. Você já foi comprar meia cor da pele? Você já saiu daqui hoje, entre essa
conferência e o delicioso show da noite, você vai fazer supermercado, ou vai à farmácia,
aí você vai comprar xampu, hoje é sábado. Você vai lá e tem xampu para cabelos secos,
cabelos oleosos e cabelos normais. Alguém me explica, do ponto de vista científico, o que
é um cabelo normal? É o que não é seco, como dos afrodescendentes, ou não é oleoso
como dos índios e asiáticos? Você diz: “ah, propaganda safada! Ela faz discriminação, a
escola não?
Pegue teu livro didático, livro de Ciências 5ª série. Eu sou colunista da revista
Educação, faço uma coluna chamada Panorâmica. A coluna desse mês de junho é
exatamente sobre isso, livro de Ciências ,5ª série, o corpo humano, olha que palavra
bonita, o corpo humano. Você pega, olha para o desenho, o desenho é um sujeito alto,
forte, louro, de olhos azuis, um sueco. A criança brasileira olha para aquilo, olha em volta
ela não tem identidade com aquilo. Cidadania você conversa, não só falando dos partidos
do governo, cidadania você conversa falando do material didático. Cidadania você
conversa com o tipo de exemplo que se dá, com o tipo de festa junina que se monta. Ah,
mas sabe o que é que é? Sociedade em que homens e mulheres são entendidos como
valendo menos ou mais.
Eu fui alfabetizado com uma cartilha ótima, chamada “Caminho Suave”.
Claro que, como qualquer livro, não é sempre bom em qualquer lugar para qualquer
pessoa. A “Caminho Suave”, que é dos anos cinquenta, do século passado - aliás a
grande autora, Branca Alves Lima, faleceu, há três anos com noventa e tantos anos de
idade - mas ela serviu naquele tempo, ela serve ainda hoje, se você souber lidar com ela
de vários modos. Mas na “Caminho Suave”, lá pelas tantas, tinha o desenho da família, e
o desenho da família era o pai sentado na poltrona lendo um jornal, atrás em pé, a mãe
com avental, uma bandeja e um cafezinho em cima. Homens leem, mulheres servem.
Atenção: aquilo é dos anos cinquenta, aliás mais precisamente 1952. Nós estamos em
2003, a criança vai aprendendo isso, e talvez, quando ela cresça, ela vai achar estranho,
uma presidenta, uma prefeita, uma chefa. Ela não vai estranhar na área de Educação,
porque na área de educação supõe, que seja um mundo feminino por excelência. Há um
número maior de fato, 90% do corpo docente brasileiro é composto de mulheres. Mas é
por uma dupla razão, uma é positiva, mulheres tem de fato, não por serem mulheres, mas
por serem capazes de não descuidar, tem uma força maior na área de Educação, mas há
uma segunda razão, é uma profissão altamente desprestigiada na história do ponto de
vista de remuneração. Portanto, é o segundo trabalho, o trabalho principal era o do
homem. Ora, sem entrar nesse detalhe, já imaginou? O corpo humano, é um corpo, a
família, o homem lê a mulher serve. Aí você diz assim: “Ah, mas isso é no passado”!
Nada! Olha nos meios de comunicação. O jornal “O Estado de São Paulo”, que é um dos
melhores jornais do mundo, quando ele sai hoje, no sábado para o domingo, ele tem no
início do século XXI, o que é uma coisa inacreditável, que é um suplemento feminino. Já
imaginou? Um jornal estupendo tem um suplemento feminino. A suposição, quando o
jornal tem um suplemento feminino, é que jornal é coisa de homem, e aos domingos as
mulheres tem direito a alguma coisa. Então o “Estadão” chega no fim do sábado, começo
do domingo, desse tamanho, o marido vai tirar o suplemento feminino, quase com uma
pinça e põem de lado. E ele sai com política, economia, literatura, esporte, coisas de
homem e para ela fica coisa de mulher, como tomar conta de criança, como tirar mancha
de ferrugem, como cuidar de criança rebelde, como agarrar o seu marido pelo estômago,
e assim por diante.
Você ri? O jornal com suplemento feminino é cidadania de um determinado
jeito, é política de um determinado jeito. A escola com o desenho da família, branca, é um
tipo de cidadania e política que se compreende, muitas vezes fraturada.
Professora de educação infantil, olha que coisa. Professora de educação infantil, quase
sempre é mulher nessa área, termina o intervalo, ela vai colocar as crianças para dentro
da sala o que ela fala? “Formem duas filas”! Que é uma coisa ótima, porque fila é para
organizar. Na sequência ela diz: “Meninos de um lado e meninas de outro”. Já mudou a
função da fila. A função de uma fila não é separar por sexo, é organizar. Se não cresce,
depois tem fila para homens e para mulher. Caixa para homens e caixa para mulher no
banco, fila para homens e fila para mulher no supermercado. Onde você vai encontrar
isso? Em três lugares: escola, penitenciária e hospício. O curativo cor da pele é normal.
Cuidado hein! Leonardo Boff, o grande teólogo catarinense costuma dizer e a gente não
pode esquecer: “Um ponto de vista, é a vista a partir de um ponto”.
E pensar em cidadania é pensar em pontos de vista que possam ser
múltiplos. A construção da cidadania, eu vou trabalhar isso em breve, é o conceito, a
construção da cidadania passa, especialmente por prestar atenção. Prestar atenção no
que falamos, como pensamos, no material utilizado na propaganda que é feita. Eu sou um
apreciador de cerveja, conversava com isso com o Porto, não é à toa que nós dois somos
lateralmente expandidos, mas tem uma cerveja que eu não tomo no momento, embora eu
a aprecie, porque ela faz uma propaganda safada. Porque ela compara e identifica mulher
com garrafa de cerveja, como se mulheres e cervejas fossem a mesma coisa. Então a
mulher vem saindo da água e o menino está com uma garrafa na mão e ele gira e a
menina mexe, ele mexe, ela mexe também, e ele prefere abraçar a geladeira no final.
Como se mulheres fossem “onde a”, descartáveis que você pega, depois que você
consome, você atira, isso é uma coisa séria (palmas da plateia). E atenção, não é só para
você bater palma, eu gosto também, mas é para você bater palma e não tomar (risos e
palmas da plateia), certo? É bater palma e levar adiante, senão não adianta. Se eu não
gosto, eu consumidor, só tem um jeito: quando em não aprecio um programa de TV eu
tenho que boicotar o patrocinador do programa. Se eu não aprecio uma publicidade, tu
tens que sentir o tranco nessa área. Você pode dizer: “A gente não tem forca para isso! ”
Claro que tem!
Por exemplo, tem uma propaganda agora, safada, de carro, em que se
mostra a criança chegando na escola, com o pai levando ou a mãe. Eu jamais compraria
um carro daquele. Por quê? Porque as crianças pedem para o pai parar um quarteirão
antes da escola, para não pagar o “mico”, porque o carro não é o carro “x”. Isso é uma
violência. É uma publicidade execrável, começar a trabalhar com a ideia de que um pai só
vale se ele tiver aquele carro, senão a família passa vergonha. Isso tem a ver com
cidadania.
A cidadania é importante, no que foi aqui discutido pelo Carlos Rodrigues Brandão,
discutido sempre muito bem pelo Renato Janine, ou pelo Jaime Pink. Claro, mas a
cidadania passa por prestar atenção nas coisas do dia-a-dia, e no nosso modo de agir. Já
comprou xampu? Xampu para cabelos normais. Eu tenho um colega na PUC São Paulo -
sempre que eu posso conto essa história, porque ela é ótima e verdadeira. Eu tenho um
colega na PUC São Paulo, Farias, que é negro, e na minha sala de trabalho, tem uma
mesa comprida, como essa aqui, e um dia eu estava aqui nesse canto da mesa,
trabalhando com uma pessoa, e o Farias estava sozinho lá no outro canto, sozinho.
Entrou uma pessoa aqui e falou: “ por favor, o professor Farias ... A pessoa que estava
comigo virou e falou: “ É aquele professor de cor, lá! ” É uma frase idiota, porque você não
precisa identificar alguém que está sozinho, menos ainda pela cor da pele. Se fosse eu a
ser procurado, a pessoa não diria “ aquele professor branco lá”. A questão é que se
identifica para diminuir. A questão é que o Farias também é um homem inteligente, olhou,
viu aquilo, saiu de lá. “ Espera um pouquinho só, você me chamou de homem de cor,
deixa eu te explicar uma coisa, que acho que você não entendeu ainda. Eu nasci negro,
quando cresci continuei negro, quando eu vou à praia eu negro permaneço, se eu tomar
um susto, negro eu continuarei, se eu ficar doente negro eu estarei, se eu tomar um chute
na canela, negra ela permanecerá, e quando eu morrer negro eu estarei ainda. Você
nasceu rosado, quando cresceu ficou branco, vai à praia fica vermelho (risos na plateia),
se tomar um susto fica amarelo (continuam os risos na plateia), se ficar doente fica verde,
se tomar um chute na canela fica roxo e quando morrer vai ficar cinza. Quem é o homem
de cor, entre nós dois? (Risos e aplausos da plateia)

Você bate palma e eu gosto, mas não basta bater palma! (Risos na plateia) não basta
bater palma, precisa prestar atenção nisso na escola! Precisa prestar atenção nisso em
casa!
Precisa prestar atenção para não usar alguns verbos que são discriminatórios, como por
exemplo, “denegrir”. “Eu não queria denegrir a sua imagem”, já o fez! Porque o verbo tem
uma origem ligada a ideia: “a coisa aqui está preta”. Cuidado, palavras não são neutras,
palavras carregam cidadania ou estilhaça mento de cidadania. É bom bater palma, eu
gosto, mas a gente precisa ir além da palma, o mesmo movimento que nos levou a bater
palma, tem que nos levar a apoiar ações afirmativas à nossa sociedade. A mostrar que é
inaceitável, é inaceitável que um país como o nosso, com 503 anos de história, só agora,
e felizmente, pode ter um juiz no Supremo Tribunal Federal, que não é branco. 503 anos
de história, felizmente, um juiz, o primeiro, mas um juiz. Porque não se imaginaria, valeu
destaque para todo lado e tinha que sê-lo.
Um ministério hoje, felizmente, com vários ministros e ministras com o
sobrenome “Silva”, que era um sobrenome largamente utilizado no país pelas camadas
populares, especialmente pelos descendentes dos escravos, e vários ministros que não
são brancos e que são mulheres. Eu não estou dizendo, não faria isso porque seria tolice,
que este é o único modo de fazer e nem estou dizendo que este governo será o único e é
o único que pode fazê-lo, mas podendo faz. Porque não poder e não fazer, cai numa
frase do grande François Rabelais. Anote esta frase mentalmente, eu vou dizê-la duas
vezes, para você perceber a profundidade que ela carrega. François Rabelais que foi um
monge beneditino do século XVI, escreveu “Garganta”, “Pantagruélica”. François
Rabelais diz o seguinte, atenção: “Conheço muitos que não puderam, quando
deviam, porque não quiseram quando podiam”. De novo, devagar, (risos na plateia) então
vou dizer três vezes: “Conheço muitos que não puderam, quando deviam, porque não
quiseram quando podiam”, de novo e última, essa frase é muito forte, é para ser meditada
muitas vezes no nosso dia-a-dia. François Rabelais, para quem não estudou francês,
escreve-se Rabelais, quem não sabe, não é obrigado a saber. Às vezes um aluno não lê
o nome de um autor, quando você está pedindo uma leitura, porque o nome está escrito
em outro idioma. O que você tem que insistir com ele, é que ele leia do jeito que ele sabe,
e depois se alguém sabe a pronuncia correta, diga como é, nenhum de nós domina o
conhecimento e nem todos os sotaques. Você não tem que ter vergonha de não falar
outros idiomas, se você não teve chances de fazê-lo. Fazendo um parêntese dentro disso,
depois eu digo a frase de novo.
Há brasileiros que chegam nos Estados Unidos e ficam envergonhados de
seu inglês não ser assim tão bom, mas você tem que lembrar que você é um ser que está
dominando um idioma e meio, conversando com outro que só domina um. E quantas
vezes, principalmente, em cidades turísticas como Santos, vem alguém de fora e ele tenta
conversar em inglês com você, e nem sempre você sabe e você fica envergonhado,
quando, evidentemente, ele deveria dominar um pouco do teu idioma. É óbvio que eu não
estou dizendo que não se deva estudar línguas, eu seria tonto, o que estou dizendo é que
você não tem que ter vergonha se não teve chance de não conhecer outro idioma, se teve
e não fez, volta à frase “Conheço muitos que não puderam, quando deviam, porque não
quiseram quando podiam”. Cor da pele, mulheres, meninos de um lado e meninas do
outro. Sexta-feira, está naquele livro “A escola e o Conhecimento”, também que eu
mencionei, sexta-feira, fim de tarde, a professora dá uma tarefa para as crianças, numa
cidade como São Paulo, como Rio de Janeiro, como Salvador, como Fortaleza, eu quero
lembrar uma coisa, hoje, atenção no que eu vou dizer : 40% das famílias nas periferias
das grandes cidades são comandas por mulheres, de novo, 40% das famílias nas
grandes cidades nas áreas periféricas são comandas pelas mulheres, o que significa, que
não há nenhuma figura masculina ali. Isso significa também que a criança não conhece o
pai, ou ela tem irmãos de pais diferentes, ou pai migrou, ou pai saiu, ou o pai morreu, foi
assassinado, seja que for. E um segundo momento disso, final de sexta-feira, não ontem
que não teve aula quase, mas aí vai e a professora dá tarefa para as crianças. Uma
tarefa ótima, na área de conhecimento do meio, da sociedade, aquilo que antigamente
chamava de Estudos Sociais, qual é a tarefa que ela dá? “Pergunte ao seu ao pai” está lá
no livro didático, “pergunte ao seu pai como era a cidade, quando ele nasceu”? Hoje não
só crianças pobres, mas no meio da classe média, você tem um monte de crianças de
pais separados, a criança chega em casa, na sexta à noite para fazer a tarefa para
entregar na segunda e fala assim: “Mãe a professora falou para perguntar para o meu pai
a tarefa que eu tenho que fazer, como é que era? ”. Se ela é filha de pais separados, e
eles não se dão bem, vocês imaginem a encrenca, a mulher fala assim: “Não vai falar
com aquele canalha de jeito nenhum, porque ele nunca aparece” aquela criança que não
tem nada a ver com a história, de repente a escola, por que não prestou atenção no que
está à volta?
Mas vamos pegar com as crianças pobres, que infelizmente, mas não para
sempre, são a maioria. Ela vai, chega em casa para fazer a tarefa, qual é o resultado?
Não tem como fazer, ela não conhece o pai, o pai não está lá. Sabe qual é a
consequência? Na segunda-feira ou ela não vai à escola, de vergonha porque não fez
tarefa, ela tem tanta vergonha, uma criança de nove e dez anos quando ela não pode
fazer uma tarefa, quando ela morre de vergonha quando ela não pode fazer um passeio
que a escola montou, ou uma excursão. Quando a escola monta um passeio, uma viagem
de estudos extracurriculares, e ela não tem como usar o dinheiro, porque ela não pode, e
ela fica. Não sei se você já passou por uma situação aqui dessas na vida, de um dia na
escola ter “ficado”, enquanto outros iam para uma excursão, alguma coisa. Aquilo é
mortal, a vergonha é inacreditável, não é que a criança, você vai aproveitar e ela vai
aprender, que há muitos modos de viver, é verdade, mais é ali, às vezes, a escola,
atenção: descuidou, porque ela criou de novo a ideia de quem pode vai, quem não pode,
fica! Aliás isso vale para trabalho, para comida, vale para lazer, vale para moradia, vale
para médico bom, vale para tudo, quem pode vai, quem não pode, fica.
E atenção: cidadania não é só e é também, mas não é só olhar política partidária, os
governos, os direitos humanos, é isso também, mas tem que olhar no miúdo, no que está
ali, porque senão a gente fala em justiça social de um jeito meio frouxo.
Aí a menina não vai para a escola, ou se vai, vai sem fazer a tarefa. Consequência: o que
é que ela faz naquele dia? Senta lá no fundo, quieta, orando, para que nós os
professores, não a chamemos. E a gente, com a nossa capacidade persecutória infinda,
levanta e fala assim: “Você ...” Ela fala assim: “Eu não fiz a tarefa”. “ O que é que foi”? “Eu
não fiz a tarefa”. “Fala alto, eu não estou ouvindo”. “Eu não fiz a tarefa”. “Vagabunda, eu
já falei, você não faz as coisas, se você continuar assim, sabe o que você vai ser na vida?
Você não vai ser nada, você vai ser faxineira”! Que é o que a mãe da menina é. “Você
não vai ser ninguém na vida, sabe o que você vai ser? “Você vai ser empregada
doméstica! ”. Que é o que a mãe da menina é.
Cidadania, olha que coisa, quero aproveitar este tempo, esses vinte e cinco
minutos de desespero que você ainda tem, para pensar o seguinte:
Cuidado com o mito que circula fortemente por aí. O mito da ideia de construção, a ideia
de “resgate da cidadania”, que é uma frase que se usa para todo lado, e ela é uma frase
que precisa ser tirada da nossa frente. Uma das coisas que eu mais ouço hoje em dia,
“nós precisamos colocar a educação a serviço do resgate da cidadania”. Cuidado, resgate
é inapropriado usar, resgate pressupõe que alguma coisa já existiu e você vai lá buscar e
traz de novo. Nós nunca tivemos cidadania, porque cidadania implica no conjunto dos
cidadãos e não para alguns. Se alguns têm, ninguém tem. Se só alguns têm, ninguém
tem. Numa democracia, qualidade tem que ser marcada pela quantidade; aliás, o
conceito de qualidade na educação, na saúde, no que for, tem que ser o conceito de
qualidade social, senão não há justiça. E só existe, atenção no que eu vou dizer: só existe
qualidade social se houver quantidade total. Enquanto houver uma criança, o analfabeto o
adulto, nós não temos qualidade social na Educação. Enquanto houver um homem ou
uma mulher sem atendimento médico, nós não temos qualidade na área de Saúde.
Porque a gente não pode confundir uma coisa, qualidade sem quantidade não é
qualidade, é privilégio. Repito, qualidade sem quantidade não é qualidade, é privilégio.
Eu moro na cidade de São Paulo há trinta e tantos anos. São Paulo, a gente
costuma dizer, e é verdade, é uma cidade na qual se come muito bem. É verdade! Quem
come? Quem come, o quê?
São Paulo tem um parque de atendimento de saúde inacreditável; vou dizer algo que
talvez você não saiba. Só a área da avenida Paulista, o chamado “espigão” da Paulista,
que pega a avenida Paulista e todas as alamedas laterais, que tem uma altíssima
concentração de hospitais públicos e privados, como por exemplo, o estupendo complexo
Hospital das Clínicas, você tem o Sírio Libanês, o Nove de Julho, o Osvaldo Cruz, O
Hospital do Coração e todas as clínicas e laboratórios. Vou dizer algo que você não vai
acreditar: naquela região do “espigão” da Paulista, em São Paulo, tem mais tomógrafos,
aparelhos de tomografia, do que em todo o Canadá. Eu vou repetir o dado, só naquela
área do “espigão” da Paulista, contando os hospitais e clínicas de exames particulares,
tem mais aparelhos de tomografia do que em todo o Canadá. Se eu for olhar por esse
dado, que conclusão eu chego? Que a nossa saúde pública é estupenda! Mas não é! Por
que onde ele está? Concentrada! O Canadá é um país que tem uma das três melhores
condições de qualidade de vida do planeta. Se você for olhar por esta quantia, você vai
dizer: “o Brasil tem mais”. Ao contrário, não é isso, é que eles estão concentrados,
adensados.
Qualidade social sem quantidade total, não é qualidade, é privilégio. É por isso que
muitos, quando se fala em desenvolvimento e justiça social, esquecem que para haver
desenvolvimento é preciso atingir o conjunto da sociedade, porque do contrário é
privilégio. Pior ainda, naquilo que eu dizia há pouco, quando se fala em resgate da
cidadania, porque ao resgatar se pressupõe que nós vamos ao passado em busca da
cidadania e nós nunca tivemos.
Há 30 anos nós tínhamos milhões de analfabetos adultos, hoje nós temos 18
milhões de analfabetos totais, no nosso país, ainda, mas não para sempre. Num mundo
que já está discutindo o analfabetismo digital, nós ainda temos 18 milhões de analfabetos
totais e 25 milhões de analfabetos funcionais. São 43 a 45 milhões de pessoas, insisto, 43
a 45 milhões de pessoas que não tem acesso completo a escolaridade primária. Aí você
diz: “mas em compensação nós temos ótimas estruturas universitárias”, é verdade, mas
qualidade sem quantidade não é qualidade, é privilégio. No Brasil apenas 1,8% dos
brasileiros estão na universidade. Tem menos gente no Brasil na universidade do que o
número de pessoas que tem carro importado. Aí você diz: “Mas nós estamos avançando”.
Sim, mas nós somos a décima economia capitalista do planeta, o que significa, claro, que
nós temos que ter uma condição que é diferenciada em relação a isso. Resgate da
cidadania, construção da cidadania, e a Educação tem uma tarefa nisso, é a Educação
como ferramenta da cidadania, e, portanto, atenção de novo: como ferramenta da política.
Porque tem uma conversa mole que circula aí por alguns locais, que afasta cidadania de
política, quase que colocando política como sendo uma coisa menos pura e menos nobre
e a cidadania como sendo uma coisa nobre. Cuidado, quem é da área de língua
portuguesa, que sabe muito bem, não existe nenhuma diferença entre cidadania e
política, a não ser que um veio do grego e a outra do latim. A palavra cidadania, é uma
palavra que veio do latim, e a palavra política é uma palavra que veio do grego, ambas
significam: a ação daquele que mora na cidade, ou seja, a ação daquele que vive em
sociedade. Um veio de “polis”, que é cidade, em grego, a outra veio de “Civitatae”, que é
cidade em latim. Parece, para muitos, que política é uma coisa suja e cidadania é uma
coisa limpa. Não confunda política com partido. Partido é um dos jeitos de fazer política e
isso você escolhe, agora atenção no que eu vou dizer: fazer política você não escolhe,
sabe por que? Porque quando você escolhe não fazer já está fazendo. Quando você
escolhe ser neutro, está fazendo política. Quando você escolhe não interferir, está
fazendo política. Porque política ou cidadania é qualquer ação ou omissão que você tenha
na comunidade onde vive. Fica claro? Política ou cidadania é qualquer tipo de ação ou
omissão que se tem na comunidade onde você vive. Tem gente que diz: “Eu não quero
saber, a escola não tem que lidar com política, ela tem que lidar com cidadania”. A
primeira que tem que fazer é fazer um curso de etimologia, para entender um pouco do
que está falando. A segunda coisa que tem que fazer é perceber o seguinte: “Não se
confunda”, como eu disse agora, “política com partido”. Partido é um dos jeitos de fazer
política, e você tem ou não, é uma opção sua, agora a política você faz no dia-a-dia, na
hora que escolhe o conteúdo, na hora que dá a tarefa, você está fazendo política. Ao
invés de perguntar “pergunte ao seu pai como era a cidade” eu posso dizer, “pergunte a
um adulto”. Eu, ao invés de usar uma cartilha, que coloca o homem lendo e a mulher
servindo café, eu estou fazendo política ao fazer isso. Quando eu faço a festa junina, e
admito as crianças pintarem a “filhinha” no dente, eu estou fazendo política. Quando eu
bebo a cerveja, que anuncia que mulher e cerveja são a mesma coisa, quando eu bebo a
cerveja, eu estou fazendo política, porque eu estou sustentando aquele tipo de
argumento. Quando eu compro xampu vendido para cabelos normais, eu estou fazendo
política, portanto, estou fazendo cidadania.
No dia 19 de abril de 1997, o índio Galdino Jesus dos Santos, foi
assassinado. Naquela semana saíram análises para todo o lado, a mais brilhante, que eu
vi, foi a do Roberto Pompeu de Toledo, da Veja, naquela coluna da última página que ele
faz. Ele não fez uma análise sociológica, política, estética, filosófica, antropológica, ele
fez uma coluna inteira com uma pergunta, uma só pergunta, ele fez. A pergunta era: por
que é que assassinaram Galdino Jesus dos Santos?
Porque pode!
Por que é que assassinaram Galdino Jesus dos Santos?
Porque pode!
Pode, mas não deve, pode, mas não precisa, pode, mas não será. É aí que entra a
educação, quando nós utilizarmos a reeducação como uma ferramenta de construção da
cidadania, portanto, da política. Quando nós fizermos o nosso trabalho, um trabalho
cuidadoso, um trabalho que passe, entre outras coisas, por algo que está nos faltando
ultimamente, que é a humildade pedagógica. Que a gente perceber que tem uma série de
coisas que a gente não sabe fazer, que nós não conhecemos muito essa juventude que
está chegando. Nós não sabemos deles direito, nós estamos nos assustando com eles, e
estamos assustando a eles. Nós estamos fazendo algo que eu chamo de saque
antecipado do futuro, nós estamos tirando o futuro, aliás nós somos a primeira geração, a
primeira geração na história, que não cuida da geração seguinte, deles terem condições
de vida. Nós não estamos preocupados com emprego que virá, o meio ambiente, com a
segurança, só agora. Sabe o que nós estamos falando para o menino e para a menina,
para os jovens, nós estamos dizendo para eles: não haverá futuro, não haverá meio-
ambiente, não haverá trabalho, não haverá segurança, tu não tens futuro. E estamos
dizendo para eles, tu não tens passado, porque infância tive eu, isso que vocês viveram
não é vida, eu tive infância, e vocês não tem presente, porque isso que vocês comem,
não é comida é porcaria, isso que vocês ouvem, não é música é barulho, isso que vocês
usam não é roupa é andrajo, tu não tens história. E sabem o que é que nós estamos
empurrando parte da juventude? A acreditar em uma coisa fundamental: quem não tem
história, não tem projeto, e quem não tem projeto vive o momento, e vive na mais alta
intensidade, por isso é o seguinte: “Eu quero namorar esse cara, pai! “Não vai namorar”!
“Sabe o que eu faço? ” “Você é um engenheiro, diretor da Dersa, e sou de uma família
estudada”, fazia PUC, universidade que eu dou aula há 27 anos. “Eu pego um revólver
com o meu namorado e pinho”! “Você não vai impedir”! Jamais se imaginaria alguém
matando o pai ou a mãe, supondo ainda mais por causa do namorado. Qual é a lógica?
Eu quero, eu quero. Eu quero o teu relógio! Eu quero o teu relógio, você não me dá,
pinho! Eu quero a droga, eu quero a bebida!
E nós na escola, às vezes falando de algumas coisas sem entender. Por isso
eu quero ir amarrando, pensando o seguinte: talvez seja necessário para nós uma virtude
cidadã, humildade pedagógica. Perceber que nós temos que aprender uns com os outros,
conversar mais, trocar ideias, porque o máximo que alguma pessoa tem feito em
educação, e isso fratura a cidadania, é dizer assim: “Os alunos de hoje não são mais os
mesmos, o que é uma coisa absolutamente óbvia”. Alguém que fala uma coisa dessas só
está demonstrando insanidade mental. Loucura, aí é doença, é alguém que diz: “Os
alunos de hoje não são mais os mesmos! ” E continua dando aula do mesmo jeito que
dava há 10 anos atrás ou há 20 anos atrás. Por que é que assassinaram Galdino Jesus
dos Santos? Porque pode. Pode, mas, não deve, pode, mas não precisa, pode, mas não
será. Para isso a educação precisa colocar-se nessa virtude da humildade, de que temos
que aprender com os outros se conhecer melhor, para fazer bem. Conhecer melhor para
fazer o Bem. Conhecer melhor para ter justiça social. Olha que coisa! Sabe o que é que é
justiça? Justiça é uma palavra que não pode andar separada da palavra paz. Alguns anos
os cristãos, especialmente no Brasil, os católicos usaram numa das campanhas da
fraternidade esse lema “Justiça e Paz se Abraçarão”! Tem uma força, uma coisa
belíssima, do livro dos, aliás isto está no livro dos judeus e absorvido pelos cristãos e
islâmicos. “Justiça e Paz se abraçarão”, que é um dos salmos.
Algumas vezes se pergunta o que é paz? O que é paz? Paz é estar bem.
Mas o que é estar bem? Estar bem é não ser vítima da fome, estar bem é não ser
impossibilitada de ter socorro médico, estar bem é não ter o desemprego, estar bem é ter
um lazer sadio, estar bem é ter uma sexualidade saudável, estar bem é poder ter a sua
religiosidade não alienada, estar bem é poder conviver, estar bem é não ser humilhado, é
não ser envergonhado pelas condições sociais. O que é paz? Paz é estar bem. E o que é
justiça social? É todos terem paz. Não há paz individual. Hoje nós vivendo um nível de
violência inédito, e ele continuará crescendo, se nós não começarmos a acreditar que não
há paz individual, assim como não existe liberdade individual. Cada dia menos você tem
liberdade de sair, de fazer, etc., é verdade sabe por que? Porque não há liberdade
individual, e algumas pessoas estão começando a acreditar nisso, e até dizendo uma
coisa horrorosa, que a regra básica hoje é: “cada um por si e Deus por todos”. Jamais na
história humana, em qualquer nação, em que a regra passou a ser “cada um por si e
Deus por todos”, tudo desabou. Porque o único modo que existe, de possibilidade de
sustentação da vida coletiva é: eu vou dizer uma palavra correta, solidariedade. Agora
atenção: a palavra solidariedade não vem de solidão, vem de sólido. Solidário é aquele
que deixa sólido, que não admite fratura, que não aceita fissura, exatamente na nossa
cidadania a ser construída. Solidariedade. Há pessoas hoje que dizem o seguinte:
“Se eu ganhar hoje à noite, sábado, na sena acumulada, na mega-sena, sei lá, se eu
ganhar 20 milhões de reais sozinho, sabe qual é a primeira coisa que eu faço? Eu sumo!
Não quero ver ninguém, falar com ninguém, encontrar ninguém, eu sumo”! Atenção: não
há paz individual, não há justiça individual, não há liberdade individual.
.
Para ir amarrando isso nesses sete minutos ainda, de pânico que você tem.
Construir a cidadania nos obriga a uma sociedade que se organiza em torno
da ideia de solidariedade, da ideia de justiça social, e da ideia de qualidade social, que é
aquela que obriga a quantidade total. Para isso, a educação carece, necessita, precisa
colocar-se como ferramenta dessa condição. “Não é a escola que vai mudar a sociedade”
dizia Paulo Freire, mas sem a sociedade a escola não muda. Não é a escola por si que
vai mudar o mundo, mas sem a escola o mundo não muda. Sociedade organizada
significa acreditar numa coisa, que sempre que posso repito: há pessoas que olham as
coisas e dizem: “Ih, do jeito que a coisa está se ficar o bicho come e se correr o bicho
pega”. Falta a terceira parte, insisto, repito e digo sempre, lema que nós professoras e
professores usamos muitas vezes, inclusive no trabalho sindical: “se ficar o bicho come e
se correr o bicho pega, mas se juntar o bicho foge”. A ideia de justiça social é todos terem
paz, e paz não é individual, assim como liberdade não é. Tem uma frase que circula por aí
há anos, que é uma frase ultra maléfica que diz: “A minha liberdade acaba, quando
começa a do outro”. Isso é impossível, a minha liberdade acaba quando acaba do outro.
Se algum ser humano não for livre ninguém é livre. Ser humano é ser junto, se alguma
mulher não for livre da discriminação, nenhum homem, nem uma mulher o são. Se
alguma pessoa não for livre da discriminação racial, ninguém é. Se alguma criança não
for livre da falta de escola, ninguém é livre da falta de escola, inclusive quem tem escola.
Se alguma mulher ou algum homem não forem livres do desemprego, ninguém é livre do
desemprego. A minha liberdade não acaba quando começa a do outro, a minha liberdade
acaba quando acaba a do outro. Se algum ser humano não for livre, ninguém é livre,
porque o conceito mais importante além da solidariedade, é a ideia de fraternidade, e esta
palavra vem se desgastando. Fraterno meu irmão, confraternizar, é por isso que esses
dias que vocês aqui estão, ele também é uma confraternização, com os fraternos, com os
irmãos. Hoje tem gente dizendo: “o outro não é meu irmão ele é o meu inimigo”. Que
pena! Não haverá futuro se a gente não tiver confraternidade.
Por isso eu perguntei no ponto de partida, alguém de fora diria: o que fazem
estes, todos e todas, num sábado à tarde, entre feriados, estudando, pensando,
raciocinando? Estão confraternizando. Desde o dia que se iniciou, até agora, e hoje à
noite, a gente dança, a gente ouve, a gente ri, nós estamos confraternizando.
Solidariedade, confraternização, paz e justiça social. Eu sempre termino toda análise que
faço desse tipo, quero fazer isso agora, contando uma história, que algumas pessoas aqui
já ouviram, eu a digo sempre, não até que a gente se canse, mas até que a gente se
convença. Eu sempre que posso conto, e vou contá-la agora, nesses meus minutos
restantes.
Às vezes eu também estou desanimado, às vezes também acho que está difícil fazer as
coisas, às vezes fica difícil ter esperança, mas Paulo Freire dizia sempre que “é preciso
ter esperança” mas lembrava ele, “esperança de o verbo esperançar”, que tem gente que
tem esperança do verbo esperar, e esperança do verbo esperar não é esperança, é
espera. Eu espero que dê certo, eu espero que resolva, eu espero que funcione, isso não
é esperança é espera. Esperançar é ir atrás, é se juntar, é não desistir. Às vezes estou
meio desesperado ou desesperançado, depende do dia, e é nessa hora, e é isso que eu
vou contar agora, que eu sempre conto quando posso, algumas pessoas aqui já ouviram.
Nessa hora lembro, de um outro grande homem que eu conheci na vida, além de Paulo
Freire, que foi Nelson Mandela. Em 1991 Mandela veio visitar o Brasil, e eu tive a honra
de poder conversar com ele. Quando me encontrei com Nelson Mandela, aquele homem
de 70 anos de idade, 1,90 de altura, cabelos brancos, negro, digno, bonito, quando eu
apertei a mão do Nelson Mandela, as minhas pernas bambearam. E olha que eu sou
paranaense, para bambear a perna apertando a mão de homem não é fácil (risos na
plateia). As minhas pernas bambearam sabe por que? Porque eu não estava apertando a
mão de um homem, eu estava apertando a mão da esperança. Mandela ficou 27 anos
preso, 18, em uma solitária, na África do Sul, não em Miami. 27 anos preso, o tempo às
vezes de carreira, para a gente se aposentar. 27 anos preso em uma cela de 1,60 por
1,60, e ele tem 1,90 de altura, por 18 anos ele não ficou em pé ou se esticou. 27 anos
preso, em nome de uma ideia desse “tamanho”, a de que as pessoas não são diferentes
por causa da cor da pele. E não desistiu. Talvez tenham chegado para ele depois de 5
anos e dito assim: “Nelson deixa, espera, aqui é assim, o que nós podemos fazer o
”apartheid” é normal”. Ele não desistiu.
“Nelson faz 15 anos que você está aqui, assina os papéis. Para que isso?
Nós não vamos conseguir, espera. Uma hora acaba o “apartheid”, as coisas são desse
jeito, é parte da vida”. Ele não desistiu. “Nelson faz 25 anos que você está nessa cadeia,
faz um quarto de século que você está aqui, deixa, deixa, outro vem, o que é que nós
podemos fazer, faz parte da vida”. Ele não desistiu. Ele ficou 27 anos preso e agora nós já
temos o segundo governo na África do Sul e começou a destruição, de um dos maiores
nojos da história humana, que é a discriminação de qualquer tipo, sexual, política, étnica,
religiosa, econômica, de gênero. Qual a nossa tarefa na vida, se a gente quiser construir
a cidadania? A nossa tarefa na vida para educação como sendo ferramenta de cidadania.
A nossa tarefa como capacidade política, e, portanto, cidadã. A nossa tarefa a partir de
uma virtude, que é humildade pedagógica, é um desenvolvimento social que atinge a
justiça e para haver justiça tem que haver paz e só há paz se todos tiverem justiça e essa
justiça se constrói a partir do nosso esperançar. Qual que é a nossa tarefa da vida?
Transformar em verbo, os homens e as mulheres que não desistiram. A nossa tarefa na
vida é “Mandela”. Tu Mande-lo, tu Mande-las, Ele Mandela, Nós Mandel amos. Eu Paulo
Freire, Tu Paulo Freiras, Ele Paulo Freira, Nós Paulo Feiramos. Eu Chico Xavier, Tu
Chico Xavier as, Ele Chico Xavier, Nós Haveríamos. Eu Jesus Cristo, Tu Jesus Cristos,
Ele Jesus Cristo, e Nós Jesus Crestamos. Eu Madre Tereza de Calcutá a, Tu Madre
Tereza de Calculei-as, e Nós Calcetamos. Eu Zumbi de Palma re, Tu Zumbi de Palmareis,
Ele Zumbi de Palma re, e Nós Palmaríamos. Eu Martinho Lutero, Tu Martinho Lutera, Ele
Martinho Lutera, e Nós Luteranos. Qual é a nossa tarefa da vida? Esperançar, não admitir
de maneira alguma que se frature a nossa capacidade e que a gente seja capaz, também,
de imaginar que as coisas são como são e não há outro modo.
Concluo agora nesse minuto, lembrando, exatamente aquela frase do ponto
de partida. O que nós estamos fazendo aqui nesses dias? Não admitindo o
apodrecimento da cabeça. O que nós estamos fazendo aqui? Confraternizando e quem
confraterniza ri, pensa, chora, dança. Não é casual, e nisso o SESC é sempre mestre.
Não é casual e nisso o SESC é especial na sua trajetória. Não é casual que hoje o Porto,
aqui, em nome dessa comunidade SESC, tenha nos acolhido com os seus parceiros
dentro desta atividade e que isso conclua com show, com música, porque assim somos
nós porque só com a música a gente transborda, a gente vai além da borda, só com a
música nós somos capazes de compreender o quanto que a gente pode confraternizar.
Por isso não é só hoje à noite que tem uma confraternização, todos esses dias, nós
tivemos vivendo isso.
Concluo agora, a última frase. Uma frase do Albert Schweitzer, grande médico europeu
do século XX, que jovem ainda, recém-formado, podia pegar a vida dele e usar só para
ele, aliás ele ganhou o Nobel da Paz em 1952. Schweitzer, médico europeu, sabe o que
ele fez, jovem, em vez de usar a vida dele só para ele, a capacidade dele só para ele, a
competência dele só para ele, podia faze-lo. Ele pôs a serviço do mundo, da vida. Ele foi
para África, e ficou 50 anos lá, meio século, num lugar onde se dizia que não tinha saída,
o que é que nós podemos fazer? O que muitos falam hoje em relação à África. Que não
tem jeito, o que nós podemos fazer? E gentes morrem, tem doenças e falecem de fome, o
que nós podemos fazer? Schweitzer foi lá e ficou 50 anos lá. Ele tem uma frase, que eu
acho que é algo fundamental para nós, ele diz, e eu sempre penso em Paulo Freire, que
nos deixou em maio de 1997, uma semana depois do incidente com o índio pataxó e
deixou um texto belíssimo sobre a morte do índio pataxó, que foi publicado a posteriori.
Paulo Freire, sempre lembro dele quando penso essa frase do Schweitzer. Schweitzer
diz o seguinte: “A tragédia não é quando um homem morre, a tragédia é aquilo que morre
dentro de um homem, enquanto ele ainda, está vivo”. E o que não pode morrer? A
esperança, a possibilidade de fazer de outro modo, a possibilidade de reinventar, a minha
liberdade, a minha justiça, a minha paz, não acabam quando começa a do outro, a minha
liberdade acaba quando acabar a do outro. Enquanto não houver nenhum homem ou
algum homem, alguma mulher que não sejam livres, ninguém é livre. E eu fico
absolutamente animado, quando eu vejo o desespero do Porto com 53 questões aqui na
frente (risos na plateia), e fico mais feliz ainda de estar ao lado do Porto seguro, que aqui
produziu tantas coisas, para pensar que homens e mulheres, num sábado à tarde, no
meio de um feriado, viemos todos, de vários lugares, aqui repartir um pouco a nossa vida,
para transbordar. Obrigado (palmas da plateia). Eu gosto de falar sábado à tarde. Na
hora em que termino, tudo mundo levanta.

Mário Sérgio Corte-la, é graduado (Licenciatura Plena) em Filosofia, mestre em


educação pela PUC/SP com a dissertação A Filosofia como produção histórica
(proposta para o ensino de Filosofia no 2º Grau), sob a orientação do Prof. Dr.
Moacir Gadotti, doutor em Educação pela PUC/SP com a tese A Escola e o
Conhecimento: reflexão sobre fundamentos epistemológicos e políticos dessa
relação, sob a orientação do Prof. Dr. Paulo Freire, professor do Departamento de
Teologia e Ciências da Religião da PUC/SP desde 1977, professor da Pós -
Graduação (Mestrado e Doutorado) em Educação (Currículo) da PUC/SP,
professor "Honoris Causa" da Faculdade de Ciências Econômicas de São Paulo
(FACESP), Chefe de Gabinete do Prof. Paulo Freire na Secretaria Municipal de
Educação de São Paulo (1990), Secretário Municipal de Educação de São Paulo
(1991/1992), colunista (Panorâmica) da revista mensal Educação (desde outubro
de 2000) e apresentador e debatedor do programa Modernidade pela STV (Rede
Sesc-Senac), transmitido ao vivo semanalmente, em rede nacional, pela NET (Ctv.
A cabo), (desde maio de 1997).

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