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A NECESSIDADE DE RACIONALIZAÇÃO

Reportagem de Maria Fernanda Derntl

DESDE SEU TRABALHO NA CONSTRUÇÃO DE BRASÍLIA, LELÉ VEM


PESQUISANDO E APLICANDO TECNOLOGIAS DE PRÉ-FABRICAÇÃO EM
OBRAS VOLTADAS PARA O SETOR PÚBLICO. ACOMPANHANDO SUA
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL, É POSSÍVEL VER A ELABORAÇÃO DE UMA
LINGUAGEM ORIGINAL A PARTIR DO EMPREGO DE COMPONENTES
INDUSTRIALIZADOS. NESSA BUSCA POR SOLUÇÕES RACIONAIS E
ADEQUADAS ÀS CONDIÇÕES CLIMÁTICAS LOCAIS, A ARQUITETURA DE
LELÉ RETOMA A PLASTICIDADE QUE MARCOU UMA TRADIÇÃO DO
MODERNISMO BRASILEIRO.

A produção industrializada de componentes para residências foi bastante discutida


como recurso para se reconstruir a Europa no pós-guerra. No Brasil, na década de 60,
fizeram-se experiências de pré-fabricação, por exemplo, no conjunto habitacional
Zezinho Magalhães Prado (1967), no Parque Cecap, em Guarulhos, SP, projeto de
Vilanova Artigas, porém sem maior continuidade. Um dos riscos associados ao
emprego de elementos padronizados e produzidos industrialmente é a criação de formas
monótonas. Yves Bruand lembra disso no final de seu clássico Arquitetura
Contemporânea no Brasil, ao perguntar se, quando fosse alcançado o estágio de
industrialização da arquitetura, a inventividade formal que até então teria caracterizado
o modernismo brasileiro seria substituída por uma "uniformidade esclerosante". O
desenvolvimento da obra de João Filgueiras Lima, o Lelé, oferece uma resposta a essa
questão.

Em 1957, aos 25 anos de idade, apenas dois anos depois de ter se formado na Faculdade
Nacional de Arquitetura do Rio de Janeiro, cidade onde nasceu, Lelé foi para Brasília a
serviço do Instituto de Aposentadoria dos Bancários dirigir a construção de prédios em
superquadras. Diante da necessidade de implantar rapidamente os alojamentos de
madeira para mais de dois mil operários sob sua responsabilidade, Lelé fez suas
primeiras experiências de racionalização da construção. De 1957 até 1971, ele
desenvolveu e construiu vários projetos de Oscar Niemeyer, a quem ainda hoje
considera como mestre. O trabalho em Brasília estimulou-o a desenvolver sistemas
construtivos pré-fabricados e lhe deu oportunidade para começar a criar elementos de
um repertório formal próprio.

Ainda no fim de 1961, Lelé tomou parte na organização da Universidade de Brasília


(UnB), onde lecionou técnica e tecnologia da construção. Seus primeiros projetos
empregando pré-fabricação de concreto, de 1962 e 1963, foram prédios de apartamentos
para professores e galpões de serviços gerais da UnB. Nessa época, o entusiasmo pela
criação de um centro de construções pré-fabricadas na Universidade, estimulado por
Niemeyer e Darcy Ribeiro, levou Lelé a viajar para conhecer as experiências nessa área
no leste da Europa e na então União Soviética. Mais tarde, em 1969, viajou para a
Finlândia, motivado pelo interesse nas obras de Alvar Aalto.

No ano seguinte ao golpe de 64, Lelé foi demitido da UnB e, ainda em 65, projetou a
sede da concessionária de veículos Disbrave/Volkswagen em Brasília. A expressividade
dessa obra deriva da repetição regular de elementos de concreto aparente. Os painéis
shed - nesse caso, pré-moldados em Y - ou os jardins separando setores viriam a ser
constantes em sua arquitetura posterior. Também se vê aí a contribuição do artista
plástico Athos Bulcão, autor dos painéis de azulejos ou de elementos de concreto
incorporados a projetos de Lelé desde 62.

No Hospital Distrital de Taguatinga, de 1968, já se definem diretrizes que viriam


orientar sua arquitetura no campo hospitalar, como a flexibilidade para atender à
evolução nas técnicas de tratamento médico e a possibilidade de ampliar a construção
para acompanhar um possível aumento de demanda. Na fachada desse hospital, caixas
pré-moldadas de concreto servem como elementos de vedação e de esquadrias, atuando
também como pequenos pórticos. Elementos semelhantes comporiam as fachadas dos
edifícios das Secretarias do Centro Administrativo da Bahia (CaB), de 73, e do
escritório em Brasília da Camargo Corrêa, de 74.
Os projetos de Lelé para residências unifamiliares em Brasília apresentam técnicas e
composições variadas. Por exemplo, a fachada principal da residência para Ministro de
Estado, de 65, é composta por uma viga do tipo vierendeel com aberturas sextavadas. A
residência Aloysio Campos da Paz, de 69, construída inicialmente de pedra, tem um
traçado sinuoso que sugere paralelismos com a Casa de Niemeyer na Gávea, no Rio de
Janeiro, de 53. Por sua vez, na residência Nivaldo Borges, de 75, o concreto foi
associado aos arcos de tijolos. Entretanto, em O Que é ser arquiteto: memórias
profissionais de Lelé (João Filgueiras Lima), o próprio arquiteto afirma que sua vocação
é mesmo para a arquitetura pública e que prefere não atuar no setor de iniciativa
privada, onde considera mais difícil manter uma postura ética e de integridade
profissional.

O aperfeiçoamento da pré-fabricação

Entre 1973 e 1975, Lelé projetou alguns edifícios para o Centro Administrativo da
Bahia, cujo plano urbanístico, de 1971, é de Lucio Costa. Logo no acesso principal, o
edifício do Centro de Exposições surpreende pela forma escultórica, apelidada de
balança. A igreja, de contorno em espiral, é coberta por peças de concreto em forma de
pétalas, descrevendo um helicóide ascendente.

Foi também em Salvador que Lelé pôde aprimorar o emprego da tecnologia então
pioneira de pré-fabricados em argamassa armada, depois aplicada de modo mais
complexo em edifícios. No programa de melhorias públicas conduzido pela Companhia
de Renovação Urbana de Salvador (Renurb), criado em 1979, componentes pré-
fabricados de concreto armado foram desenhados por Lelé e sua equipe para terminais e
abrigos de paradas de ônibus, postos de polícia, peças para contenção de encostas, etc.
No entanto, essa tecnologia apresentava problemas para se adaptar a intervenções em
assentamentos de baixa renda, como favelas, onde a maquinaria pesada exigiria
remoção de grande parte da população. Experimentou-se então o uso de argamassa
armada, em 1980, no vale do Camurugipe, em peças de um sistema construtivo unitário
para drenagem, circulação de pedestres e esgoto sanitário.

A argamassa armada é um material mais leve, flexível e homogêneo do que o concreto


armado, permitindo também espessuras menores. Além disso, suas peças podem ser
dimensionadas para serem transportadas e montadas manualmente. Embora a pré-
fabricação da argamassa armada possibilite construir em prazos menores, por outro
lado, é necessária uma organização industrial para produzir os moldes metálicos para as
peças. Já na década de 1940, o engenheiro italiano Pier Luigi Nervi (1891-1979) deu
impulso às experimentações com ferro-cimento, material mais concentrado em ferro,
que precedeu a argamassa armada. Lelé estudou o trabalho de Nervi, a quem faz
referência em carta a Lina Bo Bardi, que trabalhou com Nervi, sobre os elementos de
sustentação dos sobrados no Centro Histórico do Pelourinho. No trabalho na Renurb de
Salvador, Lelé teve a assessoria do engenheiro Frederick Schiell, que também trabalhou
com Nervi, e era ligado ao grupo da Universidade Federal de São Carlos envolvido na
pesquisa com argamassa armada.

Na pequena cidade de Abadiânia, em Goiás, entre 82 e 84, Lelé pôde desenvolver o uso
de peças de argamassa armada em pontes, escolas e equipamentos rurais. Essa
experiência-piloto precedeu as aplicações em maior escala no Rio de Janeiro, Salvador
e, mais recentemente, em Ribeirão Preto. A fábrica estabelecida no Rio de Janeiro entre
1984 e 1986 chegou a produzir duzentas escolas, sobretudo em áreas onde não havia
condições de implantar as instalações de maior porte dos Cieps (Centros Integrados de
Educação Pública). Mais tarde, Lelé viria a ser envolvido na criação dos Ciacs (Centros
Integrados de Apoio à Criança), muitos deles construídos, segundo ele, com total
desrespeito aos projetos originais. Ainda entre 1985 e 1989, em Salvador, Lelé dirigiu a
Fábrica de Equipamentos Comunitários (FAEC), idealizada como um grande
laboratório de reexame de problemas urbanos. Essa fábrica foi inovadora na utilização
de um sistema misto das tecnologias do aço e da argamassa armada, experimentado nas
coloridas passarelas de Salvador.

A pré-fabricação em aço foi também usada em um edifício polêmico: a sede da


prefeitura de Salvador, de 1986, situada na sua praça municipal, sobre uma garagem
subterrânea, onde antes havia uma biblioteca pública. Lelé propôs um edifício que
respeitasse a volumetria original da praça e pudesse ser desmontado, considerando que a
garagem poderia ser destruída no futuro para se construir um edifício funcionalmente
mais adequado para a prefeitura. Sua obra já foi acusada de destruir a praça, mas
também foi defendida com veemência por arquitetos como Nuno Portas e Oriol
Bohigas.

A liberdade na industrialização

Foi na arquitetura hospitalar, com suas complexas exigências funcionais, que Lelé pôde
aperfeiçoar o emprego da industrialização de aço, plástico e argamassa armada, ao
mesmo tempo em que parece ter desenvolvido formas mais leves e maleáveis. A criação
da rede Sarah Kubitschek de hospitais do aparelho locomotor foi incentivada pelo
médico especialista em ortopedia Aloysio Campos da Paz. A partir de discussões com
Campos da Paz, em 1976, Lelé projetou o primeiro hospital da Rede Sarah, construído
em Brasília. Seguiu-se a construção dos hospitais de São Luís, Salvador, Fortaleza, Belo
Horizonte, Rio de Janeiro, Belém e Macapá. Também foram feitos projetos ainda não
executados para Curitiba, Recife e Natal. Em 1992 foi criado o CTRS (Centro de
Tecnologia da Rede Sarah), instalado em Salvador e coordenado por Lelé até hoje. O
CTRS é responsável por projetar, executar e manter os edifícios da rede Sarah e seus
equipamentos, treinar mão-de-obra e divulgar pesquisas na área. As oficinas do CTRS
nos setores de aço, plásticos, argamassa armada, carpintaria e marcenaria produzem um
amplo vocabulário de componentes integráveis entre si, que são depois transportados
para a montagem dos edifícios nas diferentes cidades.

A maior parte dos ambientes dos hospitais da rede Sarah têm iluminação e ventilação
naturais, consideradas mais eficazes para evitar infecções hospitalares do que os
tradicionais ambientes herméticos. Lelé compara os sheds à solução engenhosa da
cumeeira da cabana dos índios e lembra que podem permitir economia de energia e
ambientação agradável. Lelé e sua equipe também criaram móveis e equipamentos para
esses hospitais, como, por exemplo, a cama-maca, que incorpora em sua própria
estrutura o contrapeso auxiliar na recuperação de problemas ortopédicos e proporciona
maior mobilidade ao paciente, facilitando, por exemplo, o contato com áreas externas
ajardinadas.

Nos projetos de hospitais, a arquitetura de Lelé parece ter adquirido maior plasticidade.
No hospital de Salvador, construído em 1991, sheds e marquises feitas de aço já
apresentam curvas mais livres e suaves. Além disso, também comparecem de modo
mais evidente as cores vivas, marcando ritmos da arquitetura, ressaltando elementos
isolados ou compondo motivos geométricos nos painéis de Athos Bulcão. Em 1998 esse
hospital recebeu o primeiro prêmio na Bienal Ibero-Americana que, em 2002, premiou
Lelé pelo conjunto da sua obra.

O CTRS também produziu componentes industrializados para uma série de edifícios de


tribunais de contas da União erguidos entre 1995 e 1998 em várias capitais. Esses
edifícios de estrutura metálica também são animados pelas ondulações dos sheds, que
proporcionam, sempre que possível, ventilação e iluminação exclusivamente naturais.
Entre os projetos em desenvolvimento pelo escritório de Lelé estão as creches do
programa Nave-mãe para a cidade de Campinas. Essas creches irão contar com uma
ampla área central de socialização para as crianças, assim como espaços para atividades
voltadas para mães, como cursos e atendimento pré-natal.

Para Lucio Costa, Lelé teria vindo mesmo preencher uma "grave lacuna" na nossa
arquitetura ao empregar as novas tecnologias dos pré-moldados e enfrentar complexos
programas sociais. Sua obra também mostra que as possibilidades criativas da
arquitetura brasileira não estão necessariamente vinculadas à construção artesanal. Já se
pode afirmar que a industrialização da arquitetura não precisa implicar prejuízo da
liberdade.

Agradecimentos: arquiteto João Filgueiras Lima e Salomão C. Adorno (setor de foto e


imagem CTRS)

Maria Fernanda Derntl é mestre e graduada pela Faculdade de Arquitetura e


Urbanismo da Universidade de São Paulo.

Bibliografia
 BRUAND, Yves. Arquitetura Contemporânea no Brasil. São Paulo: Perspectiva,
1981.
 FERRAZ, Marcelo Carvalho (coord.).
LATORRACA, Giancarlo (org.). João Filgueiras Lima: Lelé. São Paulo: Blau/Instituto
Lina Bo Bardi.
 GUIMARÃES, Ana Gabriella Lima. João Filgueiras Lima: o último dos
modernistas. Dissertação de mestrado, Escola de Engenharia de São Carlos,
Universidade de São Paulo, 2003.
 LIMA, João Filgueiras. O que é ser arquiteto: memórias profissionais de Lelé (João
Filgueiras Lima) em depoimento a Cynara Menezes. Rio de Janeiro: Record, 2004.
 PEIXOTO, Elane Ribeiro. Lelé: o arquiteto João da Gama Filgueiras Lima.
Dissertação de
mestrado, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, 1996.
 SEGAWA, Hugo. Tecnología con sentido social. In: Segawa, Hugo. Arquitectura
Latinoamericana contempoánea. Barcelona: Gustavo Gili, 2005, p. 58-61.

http://www.revistaau.com.br/arquitetura-urbanismo/140/imprime22257.asp