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Tradução: Seraph Wings

Revisão: Seraph Wings


Leitura Final: Aurora Wings
Formatação: Aurora Wings

*Não falar nas redes sociais que leu o livro em português*

03/2020
Aviso
A tradução foi efetuada pelo grupo Wings Traduções (WT), de
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Sinopse
A primeira vez que Cassio encontra sua noiva, ela o chama de
“senhor”.
Depois de perder a esposa, Cassio fica para cuidar de dois filhos
pequenos enquanto tenta estabelecer seu domínio sobre a Filadélfia.
Agora ele precisa de uma mãe para seus filhos e alguém que possa
aquecer sua cama à noite.
Mas em um mundo tão tradicional quanto o dele, escolher sua
esposa é dever, não prazer.
Regras precisam ser seguidas, tradições atendidas.
É assim que ele acaba com uma mulher, uma menina, que
acabou de atingir a maioridade. Ela pode não ser o que ele e seus filhos
precisam, mas é adorável e uma doce tentação à qual ele não consegue
resistir.
Giulia sempre soube que se casaria com o homem que seu pai
escolheria para ela, mas nunca esperou ser dada a alguém muito mais
velho. De repente, ela deveria ser mãe de dois filhos pequenos quando
nem sequer segurou um bebê antes.
Giulia rapidamente percebe que Cassio não está interessado em
um relacionamento em pé de igualdade. Sua mãe avisou que homens de
poder, como Cassio, não toleram insolência. Cansada de ser tratada
como babá e noiva sem noção, Giulia decide lutar por sua versão de
uma família feliz.
Prólogo
Cassio
Eu olhei para minhas mãos cobertas de sangue e depois para o
corpo sem vida da minha esposa. Fechei a porta devagar, caso Daniele
aparecesse. Ele não precisava ver mais disso. As rosas vermelhas que a
criada comprara para Gaia como presente pelo nosso oitavo aniversário
estavam amassadas ao lado do corpo mole. Rosas vermelhas para
combinar com o sangue que manchava os lençóis e seu vestido branco.
Pegando meu telefone, liguei para o pai. — Cassio, você não tem
uma reserva para jantar com Gaia?
— Gaia está morta.
Silêncio. — Você pode repetir isso?
— Gaia está morta.
— Cassio...
— Alguém precisa limpar isso antes que as crianças vejam. Envie
uma equipe de limpeza e informe Luca.
1
Cassio
Quando sua esposa morreu, tristeza e desespero eram as emoções
esperadas, mas eu só sentia raiva e ressentimento enquanto observava
o caixão ser baixado em seu túmulo.
Gaia e eu estávamos casados há oito anos. No dia do nosso
aniversário, a morte terminou nosso casamento. Um final adequado
para um vínculo que estava condenado desde o início. Talvez fosse o
destino que hoje fosse o dia mais quente do verão. O suor escorria pela
minha testa e têmpora, mas as lágrimas não se juntaram.
Pai apertou o meu ombro. Era para se firmar ou a mim? Sua pele
estava pálida desde o terceiro ataque cardíaco, e a morte de Gaia não
ajudou em nada. Ele encontrou meu olhar, preocupado. Cataratas
nublaram seus olhos. Cada dia que passava o fazia desvanecer ainda
mais. Quanto mais fraco ele ficava, mais forte eu precisava ser. Se você
parecesse vulnerável, a máfia o comeria inteiro.
Eu dei-lhe um pequeno aceno de cabeça e depois virei para a
sepultura, minha expressão de aço.
Todo submundo da Famiglia estava presente. Até Luca Vitiello,
nosso Capo, veio de Nova York com sua esposa. Todos eles tinham seus
rostos solenes, máscaras perfeitas, como a minha. Eles logo me deram
suas condolências, sussurrando palavras falsas de segurança, quando
rumores sobre a morte precoce de minha esposa já estavam circulando.
Fiquei feliz por nem Daniele nem Simona terem idade suficiente
para entender o que estava sendo dito. Eles não perceberam que sua
mãe estava morta.
Mesmo Daniele, aos dois anos de idade, não conseguiu entender a
finalidade da palavra “morta”. E Simona... ficou sem mãe com apenas
quatro meses de idade.
Uma nova onda de fúria correu pelo meu corpo, mas eu a afastei.
Poucos dos homens ao meu redor eram amigos; a maioria deles
procurava um sinal de fraqueza. Eu era um jovem Underboss, jovem
demais para muitos olhos, mas Luca confiava em mim para governar a
Filadélfia com um punho de ferro. Eu não falharia com ele ou meu pai.
Após o funeral, nos reunimos em minha mansão para o almoço.
Sybil, minha empregada, entregou Simona para mim. Minha filha
chorou a noite toda, mas agora dormia profundamente em meus
braços. Daniele agarrou-se à minha perna, parecendo confuso. Foi a
primeira vez que ele procurou minha proximidade desde a morte de
Gaia. Eu podia sentir todos os olhares compassivos. Sozinho com dois
filhos pequenos, um jovem Underboss... eles estavam procurando por
qualquer pequena rachadura na minha fachada.
Mamãe veio com um sorriso triste e tirou Simona de mim. Ela se
ofereceu para cuidar dos meus filhos, mas ela tinha sessenta e quatro
anos e tinha meu pai para cuidar. Minhas irmãs se reuniram ao nosso
redor, murmurando para Daniele. Mia o pegou e o pressionou contra o
peito. Minhas irmãs também ofereceram sua ajuda, mas cada uma
delas tinha seus filhos pequenos para cuidar e não moravam perto,
exceto Mia.
— Você parece cansado, filho, — disse o pai em voz baixa.
— Não dormi muito nas últimas noites. — Desde a morte da mãe,
nem Daniele nem Simona dormiram mais de duas horas por vez. A
imagem do vestido ensanguentado de Gaia passou pela minha cabeça,
mas eu a afastei.
— Você precisa procurar uma mãe para seus filhos, — disse o pai,
apoiando-se pesadamente na bengala.
— Mansueto! — Mãe exclamou baixinho. — Nós enterramos Gaia
hoje.
Papai deu um tapinha no braço dela, mas olhou para mim. Ele
sabia que eu não precisava de tempo para lamentar Gaia, mas
precisávamos manter o decoro em mente. Sem mencionar que eu não
tinha certeza se queria outra mulher na minha vida. O que eu queria
era irrelevante, no entanto. Todos os aspectos da minha vida eram
ditados por regras e tradições rígidas.
— As crianças precisam de uma mãe e você precisa de alguém
que cuide de você, — disse o pai.
— Gaia nunca cuidou dele, — Mia murmurou. Ela também não
perdoou minha falecida esposa.
— Não aqui, não hoje, — eu cortei. Ela fechou a boca.
— Suponho que você já tenha alguém em mente para Cassio, —
disse minha irmã mais velha, Ilaria, ao pai, revirando os olhos.
— Todo capitão e Underboss com uma filha em idade de casar já
entrou em contato com o pai — disse Mia calmamente.
Papai ainda não tinha conversado comigo sobre isso, porque
sabia que eu não teria ouvido. No entanto, Mia provavelmente estava
certa. Eu era uma mercadoria quente, o único Underboss solteiro na
Famiglia.
Luca e sua esposa Aria se aproximaram. Dei à minha família um
sinal de silêncio. Luca apertou minha mão novamente, e Aria sorriu
para os meus filhos. — Se você precisar se afastar de suas funções por
um tempo, me avise, — disse Luca.
— Não, — eu disse imediatamente. Se eu desistisse da minha
posição agora, nunca a recuperaria. Filadélfia era minha cidade, e eu a
dominaria.
Luca inclinou a cabeça. — Eu sei que não é um bom dia para
discutir assuntos, mas meu tio Felix me procurou.
Papai assentiu, como se soubesse o que Luca ia dizer. — É uma
ideia razoável.
Fiz um gesto para que eles me seguissem até o jardim. — O que
é?
— Se eu não soubesse das circunstâncias da morte de sua
esposa, não teria abordado o assunto hoje. É desrespeitoso. — Luca só
sabia o que eu lhe disse.
Pai balançou a cabeça. — Não podemos esperar o ano previsto.
Meus netos precisam de uma mãe.
— O que você tem que discutir? — Perguntei a Luca, cansado de
meu pai e ele saberem o que estava acontecendo e me deixar no escuro.
— Meu tio Felix tem uma filha que não foi prometida. Ela pode se
tornar sua esposa. Uma união entre Filadélfia e Baltimore solidificaria
seu poder, Cassio, — disse Luca.
Felix Rizzo governou como Underboss sobre Baltimore. Ele
ganhou a posição casando com uma das tias de Luca, não porque ele
era bom no trabalho, mas era um homem tolerável. Não me lembrava
da filha dele.
— Por que ela não é casada ainda? — Como filha de um homem
feito de alto escalão, ela teria sido prometida a alguém da Famiglia por
anos... a menos que houvesse algo errado com ela.
Luca e papai trocaram um olhar que despertou meus alarmes. —
Ela foi prometida ao filho de um capitão, mas ele foi morto durante um
ataque de Bratva no ano passado.
Reconhecendo rapidamente minha expressão perturbada, meu
pai acrescentou: — Ela não o conhecia. Só o encontrou uma vez quando
tinha doze anos.
Havia mais.
— Você poderia se casar com ela no início de novembro. Dessa
forma, o casamento não seria muito próximo do funeral de Gaia.
— Por que novembro?
— É quando ela faz dezoito anos, — disse Luca.
Eu olhei para ele e meu pai. Eles perderam a cabeça? — A menina
é quase quatorze anos mais nova que eu!
— Dadas as suas circunstâncias, ela é a melhor opção, Cassio, —
disse o pai, implorando. — Todas as outras filhas disponíveis de
Homens Feitos de alto escalão são ainda mais jovens, e duvido que você
esteja disposto a se casar com uma viúva, dadas as suas experiências
passadas.
Minha expressão endureceu. — Hoje não é o momento certo para
discutir isso.
Luca inclinou a cabeça. — Não espere muito. Felix quer encontrar
um pretendente para Giulia o mais rápido possível.
Eu dei um aceno conciso e voltei para dentro. Mamãe estava
tentando acalmar Simona, que começou a chorar, e Mia estava saindo
da sala de estar com Daniele em meio à birra. Eu precisava de uma
esposa. No entanto, hoje não tinha capacidade mental para tomar esse
tipo de decisão.
***
Faro me entregou um martini antes de afundar na poltrona em
frente à minha no meu escritório. — Você parece uma merda, Cassio.
Eu dei-lhe um sorriso tenso. — Outra noite sem dormir.
Tomando um gole de sua bebida, ele me deu um olhar de
desaprovação. — Diga sim a Rizzo. Você precisa de uma esposa. Você
pode ter uma em menos de quatro meses. Ele quer desesperadamente
você em sua família, salvando seu traseiro, ou então não teria esperado
todas essas semanas para você se decidir. Tenho certeza de que ele
poderia ter encontrado outro marido para a filha até agora.
Bebi metade do meu martini em um gole. — Quase catorze anos
entre nós. Você percebe que terei que esperar a garota completar
dezoito anos.
— Então você terá que se casar com uma viúva. Você realmente
quer uma mulher que já esteve ligada a outro homem depois da coisa
com Gaia? — ele perguntou baixinho.
Eu fiz uma careta. Na maioria dos dias, tentei esquecer Gaia, e
até Daniele parou de perguntar sobre sua mãe, percebendo que ela não
voltaria. Ele ficou muito quieto desde então, nunca dizendo uma única
palavra.
— Não, — eu disse severamente. — Nenhuma viúva. — Não só eu
não queria arriscar uma repetição, mas todas as viúvas do mercado
tinham filhos e eu não queria que meus filhos tivessem que
compartilhar sua atenção. Eles precisavam de todo o cuidado e amor
que pudessem receber. Eles estavam sofrendo, e não importa o quanto
eu tentasse, não era a pessoa que poderia dar-lhes o que precisavam.
— Pelo amor de Deus, ligue para Rizzo. Qual é o problema? A
garota terá idade em breve.
Eu olhei para ele.
— Outros homens matariam por uma chance de ter uma jovem
sexy em sua cama mais uma vez, mas você joga o ‘pobre de mim’
quando uma lhe é oferecida em uma bandeja de prata.
— Se não fôssemos amigos de infância, eu tiraria um dos seus
dedos por esse tom, — eu disse.
— Ainda bem que somos amigos, — disse Faro, erguendo o copo.
***
Depois de mais uma noite cheia de choros, liguei para Felix de
manhã. — Olá, Felix. É Cassio.
— Cássio, que prazer. Suponho que você tenha tomado uma
decisão sobre um vínculo com minha filha?
— Eu gostaria de casar com ela. — Isso não era exatamente a
verdade. Ela era a única opção para salvar minha sanidade. — Mal
posso esperar. Você sabe que tenho dois filhos pequenos que precisam
de uma mãe.
— Claro. Giulia é muito atenciosa. Poderíamos organizar o
casamento para o início de novembro, um dia após o décimo oitavo
aniversário de Giulia?
Eu cerrei os dentes. — Tudo certo. Isso é razoável.
— Gostaria que você a encontrasse antes, para que possamos
discutir os detalhes do banquete. Vai ser muito trabalho organizar um
grande casamento em tão pouco tempo.
— Você insiste em uma grande festa?
— Sim. Giulia é nossa única filha, e minha esposa quer organizar
algo especial para ela. Com o nosso filho, ela não pode realmente
planejar tanto quanto gostaria. Sem mencionar, considerando nosso
status, será uma importante reunião social, Cassio.
— Não posso me envolver no planejamento. Eu tenho o suficiente
no meu prato, então sua esposa teria que fazer tudo.
— Isso não será um problema. Vamos discutir os detalhes quando
você vier, certo? Quando você pode fazer isso?
Sybil planejava passar o fim de semana em minha casa para ficar
de olho nas crianças. — Em dois dias, mas não posso ficar muito
tempo.
— Perfeito. Você tomou a decisão certa, Cassio. Giulia é
maravilhosa.

Giulia
Papai estava agindo de forma estranha durante o jantar. Ele ficou
me encarando como se estivesse prestes a dizer algo, mas nunca o fez.
Mamãe parecia ter recebido um convite para uma promoção exclusiva
de verão da Chanel.
Quando terminei o jantar, esperei meu pai me dar licença. Eu
queria terminar a pintura que comecei esta manhã. Agora que havia
terminado o ensino médio, usava meu tempo livre para melhorar
minhas habilidades de pintura.
Ele limpou a garganta. — Precisamos conversar com você.
— Tudo bem, — eu disse lentamente. A última vez que papai
iniciou uma conversa assim, ele me disse que meu noivo havia sido
morto durante um ataque da Bratva. Não me atingiu como deveria,
considerando nosso futuro planejado, mas eu só o encontrei uma vez e
isso foi há muitos anos atrás. Mamãe foi a única que chorou lágrimas
amargas, principalmente porque sua morte significava que eu havia
ficado sem noivo aos dezessete anos. Isso era um escândalo.
— Nós encontramos um novo marido para você.
— Oh, — eu disse. Não era que eu não esperava me casar logo,
mas, dada a minha idade, esperava que eles me envolvessem no
processo de encontrar meu futuro marido.
— Ele é um Underboss! — Minha mãe explodiu quando sorriu
para mim.
Minhas sobrancelhas se levantaram. Não é à toa que ela estava
entusiasmada. Meu falecido noivo era apenas filho de um capitão, nada
para se animar muito, na opinião de mamãe.
Eu pesquisei no meu cérebro por um Underboss próximo da
minha idade, mas saí de mãos vazias. — Quem é ele?
Papai evitou meus olhos. — Cassio Moretti.
Minha boca caiu aberta. Papai sempre falava comigo sobre
negócios, se precisava desabafar, porque mamãe não estava interessada
nos detalhes. O nome Moretti vinha circulando há meses. O mais cruel
Underboss da Famiglia havia perdido sua esposa e agora estava criando
seus dois filhos pequenos sozinho. Especulações sobre como e por que
sua esposa havia morrido eram galopantes, mas apenas o Capo sabia
os detalhes. Alguns disseram que Moretti matou sua esposa em fúria,
enquanto outros disseram que ela ficou doente vivendo sob seu estrito
domínio. Havia até pessoas que especularam que ela se matou para
escapar de sua crueldade. Nenhum boato me fez querer conhecer o
homem, muito menos casar com ele.
— Ele é muito mais velho que eu, — eu disse eventualmente.
— Treze anos, Giulia. Ele é um homem em seu auge — mamãe
advertiu.
— Por que ele me quer? — Eu nem o conhecia. Ele não me
conhecia. E o pior: eu não fazia ideia de como criar filhos.
— Você é uma Rizzo. A união de duas famílias importantes é
sempre desejável, — disse mamãe.
Eu olhei para o papai, mas ele estava olhando para o copo de
vinho. A última coisa que ele me disse sobre Cassio Moretti foi que Luca
o fez Underboss porque os dois eram parecidos, ambos
irrevogavelmente cruéis, impiedosos e construídos como touros.
E agora ele estava me dando para um homem assim.
— Quando? — Eu perguntei. Dada a excitação de mamãe, todos
os detalhes já devem ter sido decididos.
— Um dia depois do seu aniversário, — disse mamãe.
— Estou surpresa que você tenha esperado que eu atingisse a
maioridade. Não é como se fossemos uma sociedade cumpridora da lei
em geral.
Mamãe apertou os lábios. — Espero que você se livre desse mal
humor antes de conhecer Cassio. Um homem como ele não vai tolerar
sua insolência.
Minhas mãos se fecharam em punhos debaixo da mesa. Mamãe
provavelmente era a força motriz por trás do casamento. Ela estava
sempre tentando melhorar nossa posição na Famiglia.
Ela sorriu e se levantou. — É melhor eu começar a procurar um
local. Este será o evento do ano.
Ela deu um tapinha na minha bochecha como se eu fosse um
poodle fofo que ganhou um troféu em uma exposição de cães.
Percebendo minha expressão azeda, ela franziu a testa. — Não tenho
certeza se Cassio aprovará seu mal humor... ou sua franja.
— Ela parece bem, Egidia, — disse papai com firmeza.
— Ela parece bonita e jovem, não sofisticada e elegante.
— Se Cassio quer uma dama, ele deve parar de roubar berços, —
murmurei. Mamãe ofegou, batendo a mão no coração como se eu fosse
prontamente colocá-la em uma sepultura precoce. Papai tentou
mascarar uma risada tossindo.
Mamãe não foi enganada. Ela apontou um dedo para ele. —
Converse com sua filha. Você conhece Cassio. Eu sempre disse para
você ser mais rigoroso com ela. — Ela se virou e saiu com um swoosh
de sua saia longa.
Papai suspirou. Ele me deu um sorriso cansado. — Sua mãe só
quer o melhor para você.
— Ela quer o melhor para a nossa posição. Como é bom me casar
com um velho cruel, pai?
— Vamos lá, — disse papai, de pé. — Vamos dar uma volta no
jardim.
Eu o segui. Ele estendeu o braço e eu o peguei. O ar estava
quente e úmido e me atingiu como uma bola de demolição. — Cassio
não é tão velho, Giulia. Apenas trinta e um.
Tentei pensar nos homens da idade dele, mas nunca prestei
atenção nos homens. Luca não tinha mais ou menos a idade dele?
Pensar no meu primo não era um consolo; ele me assustava sem
sentido. Se Cassio fosse assim...
E se ele fosse um bruto gordo nojento? Eu olhei para o papai.
Seus olhos castanhos se suavizaram. — Não olhe para mim como um
traidor. Tornar-se esposa de Cássio não é tão ruim quanto você
imagina.
— Irrevogavelmente cruel. Foi assim que você o chamou. Você se
lembra?
Papai assentiu com culpa. — Para os homens e o inimigo, não
você.
— Como você pode ter certeza? Por que sua esposa morreu?
Como? E se ele a matou? Ou abusou tanto dela que ela tirou a própria
vida? — Respirei fundo, tentando me acalmar.
Papai empurrou minha franja para fora do meu rosto. — Eu
nunca te vi tão assustada. — Ele suspirou. — Luca me garantiu que
Cássio não teve nada a ver com a morte de sua esposa.
— Você confia em Luca? Você não me disse que ele está tentando
estabelecer seu poder?
— Eu não deveria ter lhe contado tanto.
— E como Luca pode ter certeza do que aconteceu com a Sra.
Moretti? Você sabe como é. Mesmo um Capo não se envolve em
assuntos de família.
Papai agarrou meus ombros. — Cassio não colocará uma mão em
você se souber o que é bom para ele.
Nós dois sabíamos que papai não poderia fazer nada uma vez que
eu me casasse com Cássio. E se fôssemos honestos, ele não era alguém
que arriscaria entrar em um conflito que perderia. Luca preferia Cássio
ao meu pai. Se ele tivesse que escolher entre os dois, papai encontraria
um final rápido.
— Ele virá conhecê-la amanhã.
Dei um passo para trás, chocada. — Amanhã?
2
Giulia
Mamãe tinha sido muito clara que eu não encontraria Cassio até
a apresentação oficial durante o jantar. Eu deveria ficar no meu quarto
a tarde toda, enquanto meus pais e meu futuro marido discutiam meu
futuro como se eu tivesse dois anos de idade e sem opinião.
Usando meu vestido jeans favorito e, por baixo, uma blusa branca
com girassóis, saí do meu quarto quando ouvi a campainha. Com os
pés descalços, não fiz barulho enquanto andava na ponta dos pés em
direção ao patamar superior, evitando todas as tábuas rangentes.
Ajoelhei-me para ficar menor e espiei através do corrimão. Pelo
som das vozes, meus pais estavam trocando gentilezas com dois
homens. Papai apareceu, mostrando seu sorriso oficial, seguido pela
mãe que irradiava alegria. Então dois homens entraram no meu campo
de visão.
Não foi difícil adivinhar qual era Cassio. Ele se elevou sobre papai
e o segundo homem. Agora eu entendia porque o comparavam com
Luca. Ele era largo e alto, e o terno de três peças azul escuro o fazia
parecer ainda mais imponente. Sua expressão era de aço. Nem minha
mãe batendo os cílios provocou um sorriso nele. Pelo menos seu
companheiro parecia que queria estar aqui. Cassio não parecia velho, e
definitivamente não era gordo. Seus músculos apareciam através das
camadas de tecido que ele usava. O rosto dele era todo anguloso e a
barba cerrada escura. Era uma barba intencional, não aquela que
gritava falta de tempo ou cuidado.
Cassio era um homem crescido, um homem muito imponente e
poderoso, e eu tinha acabado de terminar o ensino médio. Sobre o que
ele e eu deveríamos conversar?
Eu adorava arte moderna, desenho e Pilates. Eu duvidava que
alguma dessas coisas importasse para um homem como ele. Tortura e
lavagem de dinheiro provavelmente eram seus passatempos favoritos, e
talvez uma prostituta ocasional. A ansiedade apertou minhas
entranhas. Em menos de quatro meses, eu teria que dormir com esse
homem, com esse estranho. Com um homem que poderia ter levado sua
esposa à morte.
Um lampejo de culpa me encheu. Eu estava fazendo suposições.
Cássio havia perdido a esposa e ficou sozinho para cuidar dos filhos. E
se ele fosse um homem de luto? Ele não parecia, no entanto.
Ainda assim, considerando que os homens em nosso mundo
aprenderam a esconder seus verdadeiros sentimentos desde tenra
idade, sua falta de emoção não significava nada.
— Por que não vamos ao meu escritório tomar um copo do meu
melhor conhaque e conversar sobre o casamento? — Papai apontou
para o corredor.
Cassio inclinou a cabeça.
— Vou garantir que tudo corra bem na cozinha. Nosso chef está
preparando um banquete para esta noite — disse mamãe com
entusiasmo.
Cassio e seu companheiro deram à minha mãe um sorriso de
boca fechada. Esse homem realmente sorria com os olhos e o coração?
Esperei até que todos desaparecessem de vista antes de me
apressar escada abaixo e deslizar para dentro da biblioteca, que ficava
ao lado do escritório. Eu pressionei meu ouvido contra a porta de
conexão para ouvir a conversa.
— Essa união será boa para você e para mim, — disse papai.
— Você já contou a Giulia sobre o vínculo?
Ouvir meu nome na voz profunda de Cássio pela primeira vez fez
meu coração acelerar. Eu o ouviria dizer isso pelo resto da minha vida.
Papai pigarreou. Mesmo sem vê-lo, eu sabia que ele estava
desconfortável. — Sim, ontem à noite.
— Como ela reagiu?
— Giulia está ciente de que é uma honra se casar com um
Underboss. — Revirei os olhos. Eu realmente queria poder ver seus
rostos.
— Isso não responde à minha pergunta, Felix, — Cassio lembrou
meu pai com uma pitada de irritação em sua voz. — Ela não será
apenas minha esposa. Eu preciso de uma mãe para meus filhos. Você
percebe isso, certo?
— Giulia é uma mulher muito carinhosa e responsável... — A
palavra não saiu facilmente dos lábios do meu pai, e demorei um
momento para perceber que ele estava falando sério. Ainda não me
sentia mulher. — Ela cuidou do filho do irmão de vez em quando e se
divertiu.
Eu brincava com o bebê de meu irmão por alguns minutos
quando eles visitavam, mas nunca havia trocado uma fralda ou
alimentado uma criança.
— Posso garantir que Giulia irá satisfazê-lo.
Minhas bochechas esquentaram. Houve um momento de silêncio.
Cassio e seu companheiro não entenderam as palavras de papai como
eu?
Papai pigarreou novamente. — Você já contou a Luca?
— Ontem à noite, depois da nossa ligação, sim.
Eles começaram a discutir uma próxima reunião com o Capo, o
que me levou a me afastar um pouco, me perdendo em pensamentos.
— Eu preciso ligar para casa. E Faro e eu gostaríamos de relaxar
um pouco antes do jantar. Tivemos um longo dia — disse Cassio.
— Claro. Por que você não passa por aquela porta? A biblioteca é
tranquila. Ainda temos uma hora até eu lhe apresentar a minha filha.
Eu tropecei para longe da porta quando passos ecoaram atrás
dela. A maçaneta se moveu, e eu rapidamente corri para trás de uma
das estantes de livros, pressionando-me contra ela. Eu olhei para a
porta. Cassio e Faro entraram. Papai lhes deu outro sorriso falso,
depois fechou a porta, me trancando com eles. Como eu sairia da
biblioteca e subiria as escadas com Cassio e seu companheiro?
— E? — Perguntou Faro.
Cassio se moveu mais para dentro da sala e perto de mim. Ele
estava franzindo a testa, mas parte da vigilância havia desaparecido. —
Exaustivo. A Sra. Rizzo em particular. Espero que a filha dela não seja
igual.
Eu franzi meus lábios em indignação. Mamãe era cansativa, é
verdade, mas suas palavras me irritaram.
— Você viu uma foto dela? — Faro pegou um dos porta retratos
da mesa lateral, rindo.
Espiando pela brecha nos livros, meus olhos se arregalaram de
horror. Ele levantou para Cassio ver. Eu tinha nove anos naquela foto e
sorria amplamente, exibindo meu aparelho. Dois girassóis pequenos
estavam presos nas laterais das minhas tranças, e eu estava usando
um vestido de bolinhas com botas de borracha vermelhas. Papai amava
essa foto e se recusou a removê-la, apesar da insistência de mamãe.
Agora desejei que ele a tivesse escutado.
— Foda-se, Faro. Largue isso — disse Cassio bruscamente, me
fazendo estremecer. — Eu me sinto como um pedófilo do caralho
olhando para essa criança.
Faro largou o porta retrato. — Ela era uma criança fofa. Poderia
ser pior.
— Espero sinceramente que ela tenha se livrado desse aparelho e
franja horrível.
Minha mão voou para minha franja. Uma mistura de raiva e
mortificação tomou conta de mim.
— Combina com o visual de estudante, — disse Faro.
— Eu não quero foder uma maldita colegial.
Eu me encolhi e meu cotovelo colidiu com um livro. Caiu na
prateleira. Ah não. O silêncio desceu sobre a sala.
Eu olhei em volta freneticamente por uma fuga. Abaixando minha
cabeça, tentei entrar no corredor seguinte. Muito tarde. Uma sombra
caiu sobre mim e eu colidi com um corpo duro. Eu tropecei de volta
contra a prateleira. Meu cóccix bateu na madeira dura, fazendo-me
gemer de dor.
Minha cabeça disparou, minhas bochechas em chamas. — Sinto
muito, senhor, — eu soltei. Maldita seja minha educação adequada.
Cassio olhou para mim, com raiva. Então a realização se
estabeleceu em seus traços.
No que dizia respeito às primeiras impressões, isso poderia ter
sido mais suave.

Cassio
— Sinto muito, senhor.
Eu olhei para a garota diante de mim. Ela me olhava com
enormes olhos azuis e lábios separados. Então percebi quem era a
garota. Giulia Rizzo, minha futura esposa.
Eu a encarei. Ao meu lado, Faro estava segurando o riso, mas eu
não estava nem perto de achar divertido. A mulher, a garota, que se
tornaria minha esposa em menos de três meses havia acabado de me
chamar de ‘senhor’.
Meus olhos percorreram seu corpo, observando seus pés
descalços, pernas finas, vestido jeans feio e a atrocidade florida que ela
usava como blusa. Finalmente, meus olhos pousaram em seu rosto. Ela
ainda tinha franja, mas o resto do cabelo era longo e ondulado,
descendo pelos ombros nus.
Ela levantou os olhos quando não fiz um movimento para deixá-la
passar e endureceu, obviamente surpresa com a minha atenção
inabalável.
Eu tive que admitir que a franja não parecia tão ruim. Ela era
muito bonita. Uma garota adorável. Esse era o problema. Vestida como
estava, ela parecia uma adolescente, não uma mulher, definitivamente
não uma esposa e mãe.
Ela tocou sua franja com os dedos trêmulos, um rubor rastejando
sobre as bochechas.
Ela deve ter ouvido tudo o que dissemos.
Suspirei. Esta foi uma má ideia. Eu sabia desde o início, mas as
coisas haviam sido acordadas e agora não havia como voltar atrás. Ela
se tornaria minha esposa e esperava que nunca mais me chamasse de
senhor.
Ela deixou cair a mão e se endireitou. — Com licença, senhor, não
pretendo ofendê-lo, mas você não deve ficar sozinho comigo sem
supervisão, e muito menos ficar tão perto de mim.
Faro me deu um olhar que deixou claro que ele estava quase se
mijando. Eu estreitei os olhos para Giulia, sem recuar, mas tive que
admitir que gostei de como ela me enfrentou apesar do poder que eu
tinha. — Você sabe quem eu sou?
— Sim, você é Underboss na Filadélfia, mas eu pertenço ao
domínio de meu pai, não seu, e mesmo que o fizesse, a honra me proíbe
de ficar sozinha com um homem com quem não sou casada.
— Isso é verdade, — eu disse calmamente. — Mas em menos de
quatro meses você será minha esposa.
Ela levantou o queixo, tentando parecer mais alta. A atuação dela
era impressionante, mas os dedos trêmulos e os olhos arregalados
traíam seu medo.
— Como eu vejo... você estava nos espionando. Estávamos tendo
uma conversa confidencial que você ouviu sem permissão — falei em
voz baixa.
Ela desviou o olhar. — Eu estava na biblioteca quando você
entrou e me assustou.
Faro começou a rir ao meu lado. Eu o silenciei com um olhar e
soltei um suspiro. Eu não tinha paciência para drama. Por semanas,
mal dormi a noite toda. As empregadas tiraram a maior parte do
trabalho das minhas mãos, mas o choro de Simona me acordou de
qualquer maneira. Eu precisava de uma mãe para meus filhos, não de
outro filho para cuidar.
— Faro, você pode nos dar um minuto?
Giulia me olhou com incerteza, ainda apoiada naquela prateleira.
Eu dei um passo para longe dela, dando-lhe o espaço apropriado. Faro
saiu e fechou a porta.
— Isso é inapropriado, — disse ela em sua voz suave.
— Eu quero ter uma rápida conversa com você. Mais tarde, seus
pais estarão por perto e não teremos tempo para conversar.
— Minha mãe monopolizará a conversa. Ela é cansativa assim. —
Ela estava me provocando? A expressão dela era curiosa e cautelosa.
— Isso não foi feito para seus ouvidos. — Fiz um gesto em direção
às poltronas. — Você pode conversar comigo?
Ela inclinou a cabeça como se tentasse me entender. — Claro.
Esperei que ela se sentasse antes de me sentar. Ela cruzou as
pernas, depois alisou a franja novamente, mas corou quando me viu
assistindo. O nariz dela se contraiu. — Eu apreciaria se o senhor não
contasse à minha mãe sobre isso...
— Não me chame de senhor, — eu rosnei.
Ela estremeceu, atordoada. — Como devo chamá-lo?
— Que tal me chamar de Cassio? Serei seu marido em breve.
Ela soltou um suspiro trêmulo. — Novembro.
— Sim. Depois que você completar dezoito anos.
— Isso faz diferença? Como mais alguns meses me tornam uma
esposa viável quando não sou agora?
— Você é muito jovem de qualquer maneira, mas me sentirei mais
confortável em casar com você quando for maior de idade.
Ela apertou os lábios e balançou a cabeça.
— Tenho dois filhos pequenos que precisam de cuidados. Daniele
tem dois, quase três agora, e Simona fará dez meses quando nos
casarmos.
— Você pode me mostrar fotos? — ela perguntou, me
surpreendendo.
Peguei meu telefone e mostrei a ela meu pano de fundo: uma foto
tirada pouco antes da morte de Gaia, mas ela não estava nela. Daniele
estava segurando sua irmã de quatro meses nos braços.
Eu assisti o rosto de Giulia. Sua expressão se suavizou e ela
sorriu, um sorriso honesto e desprotegido. Não como os sorrisos que eu
estava acostumado das mulheres em nossos círculos. Isso também
mostrou como ela era jovem. Ainda não estava cansada e cautelosa.
— Eles são adoráveis. E como ele a está segurando. — Ela sorriu
para mim e ficou séria. — Sinto muito pela sua perda. Eu...
— Eu não quero falar sobre minha falecida esposa, — eu cortei.
Ela assentiu rapidamente e mordeu o lábio. Porra, por que ela
tinha que parecer fofa e inocente. Havia tantas adolescentes que
engessavam o rosto com maquiagem suficiente para adicionar dez anos
à sua verdadeira idade, não Giulia. Ela parecia ter dezessete anos e
milagrosamente não pareceria mais velha em quatro meses quando
completasse dezoito anos. Eu teria que pedir à mãe dela para colocar
muita maquiagem em seu rosto para o dia do casamento.
Ela colocou o cabelo atrás da orelha, revelando um brinco de
girassol.
— Você sempre se veste assim? — Fiz um gesto para o traje dela.
Ela olhou para seu corpo com uma pequena carranca. — Eu
gosto de vestidos. — O rubor em suas bochechas escureceu quando ela
olhou para mim.
— Eu também gosto de vestidos, — eu disse. — Vestidos
elegantes, adequados para uma mulher. Espero que você se vista mais
elegante no futuro. Você tem que transmitir uma certa imagem para o
exterior. Se você me der suas medidas, mandarei alguém comprar um
novo guarda-roupa para você.
Ela me encarou.
— Entendido? — Perguntei quando ela permaneceu em silêncio.
Ela piscou e assentiu.
— Bom, — eu disse. — Não haverá uma celebração oficial de
noivado. Não tenho tempo para isso e não quero que sejamos vistos
juntos em público antes que você atinja a maioridade.
— Vou conhecer seus filhos antes de nos casarmos? Ou ver sua
mansão?
— Não. Não nos veremos até novembro, e você conhecerá Daniele
e Simona no dia seguinte ao nosso casamento.
— Você não acha que seria bom se nos conhecêssemos antes de
nos casarmos?
— Não vejo como isso importa, — disse bruscamente.
Ela desviou o olhar. — Há mais alguma coisa que você espera de
mim, exceto por uma mudança no guarda-roupa?
Pensei em lhe pedir para tomar anticoncepcional porque não
queria mais filhos, mas não conseguia falar sobre isso com uma garota
da idade dela, o que era ridículo, considerando que teria que dormir
com ela na noite de núpcias.
Eu levantei. — Não. Agora você provavelmente deve sair antes que
seus pais percebam que estávamos sozinhos.
Ela levantou me olhando por um momento, colocando os
cotovelos nas palmas das mãos. Ela se virou e saiu sem outra palavra.
Depois que ela saiu, Faro entrou novamente.
Ele ergueu as sobrancelhas. — O que você disse? A garota parecia
que ia chorar.
Minhas sobrancelhas se uniram. — Nada.
— Eu duvido, mas se você diz.
3
Giulia
Eu ainda estava tremendo quando entrei no meu quarto depois
do meu primeiro encontro com Cassio. Ele tinha sido intenso e frio,
para não mencionar dominante. Mandando que eu troque meu guarda-
roupa? Como ele ousa?
— Aí está você! Onde você esteve? — A mãe perguntou,
conduzindo-me até o meu closet. — Precisamos prepará-la. Pelo amor
de Deus, Giulia, o que você está vestindo?
Ela puxou minhas roupas até eu começar a me despir, ainda em
transe. Mamãe me deu um olhar curioso. — Que há com você?
— Nada, — eu disse calmamente.
Mamãe virou-se para a seleção de vestidos que ela deve ter se
espalhado no banco antes de eu chegar. — Não acredito que você não
possui um único vestido decente.
Eu sempre evitei ir a eventos oficiais porque odiava a atitude
insincera de bajulações e traições daqueles que os frequentavam. — O
que há de errado com os vestidos que tenho?
Mamãe escolheu os três vestidos menos peculiares da minha
coleção. Todos eles eram no meu estilo Audrey Hepburn retrô favorito.
Mamãe pegou um vestido azul-celeste com pontos brancos. — Você não
tem nada de uma cor só?
— Não, — eu disse. Ela nunca prestou atenção nas minhas
roupas?
Eu pedi ao meu pai pela liberdade de vestir o que gostava.
Enquanto ele era conservador, tinha problemas em me dizer não.
Mamãe não teve escolha senão se curvar ao seu comando.
Mamãe suspirou e me entregou o vestido azul. — Isso combina
com seus olhos. Vamos torcer para que Cassio não se deixe levar pelo
estilo ridículo.
Coloquei o vestido sem dizer uma palavra, lembrando as palavras
de Cassio sobre minhas roupas e minha franja.
— Coloque maquiagem, Giulia. Você precisa parecer mais velha.
Eu lhe lancei uma expressão exasperada, mas ela já estava
saindo. — E use saltos!
Respirando fundo, pisquei para impedir que as lágrimas caíssem.
Eu tive sorte até agora. Eu preferia fechar os olhos para as realidades
da vida da máfia, mas sabia o que acontecia a portas fechadas. Nosso
mundo era cruel. Papai tinha sido bom comigo, mas eu tinha visto
quantos dos meus primos haviam sido abusados por seus pais, como
meus tios tratavam suas esposas.
Meu último noivo tinha quase a minha idade, um garoto quieto,
quase tímido, que meu pai havia escolhido para me proteger. Eu
poderia ter mantido minha posição contra ele em um casamento. Essa
seria uma tarefa difícil com Cassio. Não gostava de ceder a emoções
negativas, mas meu medo era uma dor aguda no peito.
Pegando meus sapatos de salto azuis, fui até para a minha
penteadeira. Meus olhos estavam vidrados quando verifiquei meu
reflexo. Coloquei mais maquiagem do que o normal, mas ainda muito
menos do que mamãe e Cássio provavelmente esperavam.
Enquanto descia para as apresentações oficiais, consegui me
acalmar. Meus olhos ainda pareciam arder por quase chorar, mas meu
sorriso não vacilou quando desci as escadas em direção a papai, Cássio
e seu companheiro Faro.
Papai pegou minha mão, apertando-a enquanto me guiava em
direção ao meu futuro marido. A expressão de Cássio era uma obra-
prima de polidez controlada enquanto ele me observava. Seus olhos
eram de um azul escuro, como a profundidade do oceano, e davam a
impressão de que podia engolir você tão facilmente quanto o mar
infinito. Desaprovação brilhou em seu rosto quando ele notou meu
vestido.
— Cassio, conheça minha filha, Giulia. — Um toque de aviso
ecoou na voz de papai, que ricocheteou no comportamento estoico de
Cássio.
— É um prazer conhecê-la, Giulia. — Sua boca se abriu em um
sorriso quase inexistente quando ele pegou minha mão e a beijou. Eu
tremi.
Olhos azuis escuros brilharam nos meus e endireitei minha
coluna. — O prazer é todo meu, s-Cassio.
Papai olhou entre Cassio e eu, preocupado. Talvez ele finalmente
tenha percebido que tinha me jogado a um lobo. Papai tentou intimidar
meu futuro marido com um olhar sombrio, mas uma ovelha não se
tornava um predador usando pele de lobo, e papai nunca fora mais que
presa entre os monstros sedentos de sangue em nossos círculos.
Cássio se endireitou, ignorando o pai, e fez um gesto em direção
ao companheiro. — Esse é o meu braço direito e Consigliere, Faro.
Estendi minha mão, mas Faro não a pegou e apenas
educadamente inclinou a cabeça. Baixando meu braço, me aproximei
de papai, que examinou meu rosto. Ele parecia dividido, e senti uma
satisfação doentia por seu conflito óbvio.
— Vou mandar um novo guarda-roupa para Giulia. Por favor,
diga à sua esposa para tirar as medidas da sua filha — disse Cassio. —
Eu preciso de uma mulher ao meu lado, não de uma menina.
Isso foi demais para o papai. — Talvez isso tenha sido um erro, e
eu deva cancelar nosso acordo.
Cassio se moveu na frente do meu pai, olhando para ele de um
jeito que revirou meu estômago. — Apertamos as mãos sobre o noivado,
Felix. Nós resolvemos o assunto com Luca. Tudo foi acordado. Dado que
decidimos contra um noivado separado, isso faz de Giulia minha noiva,
e estou lhe dizendo agora que ninguém, muito menos você, impedirá
esse casamento.
Talvez Cassio não me quisesse, mas certamente não permitiria
que ninguém me afastasse dele.
Prendi a respiração. Este era o lar de papai, e ele governava esta
cidade. Ele só se curvava para Luca, certamente não para outro
Underboss.
Pelo menos, era assim que deveria ter sido.
No entanto, papai pigarreou e baixou os olhos. — Não tenho
intenção de cancelar nosso acordo. Eu estava apenas fazendo um
ponto.
Que ponto?
A expressão de Cassio também questionava isso. Mamãe entrou
nesse momento, completamente alheia ao que estava acontecendo. — O
jantar está pronto!
O sorriso dela sumiu quando nos viu.
Cassio estendeu o braço para eu pegar. Olhei para papai, mas ele
evitou meus olhos. A mensagem era clara: a partir de hoje, Cassio
lideraria o caminho.
Coloquei minha mão no braço forte do meu noivo. Se papai não
pudesse mais me proteger, isso significava que eu teria que me
proteger. Cassio me levou para a sala de jantar, seguindo mamãe, que
estava falando sobre possíveis esquemas de cores para o nosso
casamento. Cassio provavelmente não se importou nem um pouco.
Como homem, ele nem precisaria fingir, ao contrário de mim, a feliz
futura noiva.
Quando chegamos à mesa de jantar, ele puxou a cadeira para
mim.
— Obrigada. — Eu afundei, alisando meu vestido.
Cássio sentou na minha frente. Seus olhos se demoraram na
minha franja antes de passarem para os meus brincos de flores,
provavelmente decidindo que novo corte de cabelo ordenaria e quais
joias compraria.
Queria me transformar na esposa que ele queria, me moldar como
barro. Talvez ele achasse que a minha idade me fazia uma marionete
que se curvaria ao seu mestre ao menor puxão de suas cordas.
Eu encontrei seu olhar. Aprendi a arte sutil de conseguir as
coisas com um sorriso e bondade, a única maneira de uma mulher
conseguir o que queria em nosso mundo. Funcionaria com Cassio?
Papai sempre derretia quando eu batia meus cílios, mas tinha a
sensação de que Cassio não seria facilmente influenciado.
***
Uma semana depois, dois pacotes cheios de vestidos, saias e
blusas chegaram à nossa porta. Mamãe mal conseguiu conter sua
excitação ao desembalar as roupas de Max Mara, Chanel, Ted Baker e
muitos de seus designers favoritos. Os vestidos eram bonitos e
elegantes. Eles não eram eu.
Eu entendia a necessidade de Cassio de retratar certa imagem em
público e, eventos oficiais, definitivamente não usaria meu vestido de
girassol, só desejei que tivesse me pedido para comprar algumas roupas
elegantes, não às comprasse para mim como se não valorizasse minha
opinião, o que era, é claro, o caso.

Cassio
Os quatro meses até novembro voaram, uma fileira interminável
de noites sem dormir, birras chorosas e dias de trabalho difíceis.
Na manhã da minha despedida de solteiro, agachei-me na frente
de Daniele. Ele estava olhando para o iPad, assistindo a uma série que
gostava. Seu cabelo estava despenteado na frente e emaranhado nas
costas, mas ele se recusou a deixar Sybil pentear. Não tive paciência
para segurá-lo enquanto ela fazia isso. Nós teríamos que cortá-lo assim
que o casamento terminasse. — Daniele, eu preciso falar com você.
Ele não olhou para cima. Eu peguei o iPad, mas ele se virou. —
Me dê isto.
Seus pequenos ombros se curvaram. Foi sua única reação. Peguei
o dispositivo e o afastei. — Logo alguém virá morar conosco. Ela será
sua nova mãe. Ela cuidará de você e Simona.
O rosto de Daniele enrugou, e ele se atirou em mim, batendo nas
minhas pernas com seus pequenos punhos. — Basta, — eu grunhi,
agarrando seus braços.
Minha raiva desapareceu vendo lágrimas escorrendo pelo seu
rosto. — Daniele.
Eu tentei abraçá-lo contra o meu peito, mas ele se afastou.
Eventualmente, o soltei. Nos dias após a morte de Gaia, Daniele
procurou minha proximidade; agora voltou a me ignorar. Eu não tinha
certeza do que Gaia havia lhe dito antes de sua morte, mas estava claro
que isso fez Daniele se ressentir de mim.
Coloquei o iPad na frente dele e me endireitei. Sem outra palavra,
saí e subi para o quarto de Simona. A babá saiu apressada. Em alguns
dias, eu finalmente seria capaz de me livrar das babás, e Giulia cuidaria
de Simona. Inclinei-me sobre o berço. Simona olhou para mim e abriu
um sorriso desdentado. Deslizei minhas mãos gentilmente sob seu
corpo minúsculo e a levantei em meus braços. Apoiando-a no meu
peito, acariciei sua cabeça loira escura. Daniele e ela herdaram a cor do
cabelo e dos olhos da mãe. Pressionando um beijo na testa de Simona,
lembrei-me da primeira vez que o fiz dois dias depois que ela nasceu.
Gaia se recusou a me ter presente enquanto dava à luz a nossa filha e
só me permitiu chegar perto dela no segundo dia. A raiva ressurgiu
como sempre fazia quando me lembrava do passado. Simona balbuciou,
e beijei sua testa novamente. Ela chorava quando alguém que não fosse
minha irmã, mãe ou eu a segurávamos. Eu só esperava que ela se
acostumasse rapidamente à presença de Giulia.
Eu a coloquei de volta, mesmo que seus gritos rasgassem meu
coração. Eu precisava me preparar para uma reunião com Luca e
depois para minha despedida de solteiro.
Uma hora antes do início oficial da minha despedida de solteiro,
que Faro havia organizado, me encontrei com Luca no meu escritório.
Ele e sua esposa Aria chegaram um dia antes para ver como estavam os
negócios na Filadélfia. Ele não encontraria motivos para se preocupar.
Deixei de dormir para garantir que tudo funcionasse perfeitamente na
minha cidade. Luca e eu nos acomodamos nas poltronas do meu
escritório. Fiquei surpreso que ele concordou em ir à minha despedida
de solteiro. Desde seu casamento com Aria, ele se afastou um pouco.
— Minha tia foi com tudo no planejamento do casamento, — disse
Luca, enquanto descansava na poltrona. — Ela pensou em tudo, desde
pombas e esculturas de gelo a roupas de cama de seda.
Roupa de cama de seda branca. Roupa que eu deveria manchar
com o sangue da minha jovem esposa na nossa noite de núpcias.
Tomei um gole do meu uísque e o abaixei. — Não haverá uma
apresentação dos lençóis porque não vou dormir com Giulia.
Luca abaixou o copo lentamente, seus olhos cinzentos se
estreitando. Ele sabia que não era por causa de Gaia, mesmo que eu
não estivesse com outra mulher desde a morte dela. — É tradição. Já
faz séculos.
— Conheço e honro nossas tradições, mas desta vez não haverá
uma apresentação de lençóis. — Essas palavras poderiam muito bem
significar minha queda. Não era minha escolha ignorar nossas
tradições. Somente Luca poderia tomar essa decisão, e estava claro que
ele não faria. Eu pensei em dormir com Giulia. Ela era bonita, mas não
conseguia tirar a imagem de seus inocentes olhos arregalados da minha
cabeça ou de quão jovem ela parecia em suas roupas ridículas sem um
pingo de maquiagem. As mulheres do meu passado tinham a minha
idade, mulheres adultas que aguentavam o que eu dava.
— No seu primeiro casamento, você não teve problemas em seguir
nossa tradição. Não é algo que você pode fazer como achar melhor —
disse Luca bruscamente.
— A última vez que me casei, a mulher tinha quase a minha
idade. Tenho quase quatorze anos mais que minha futura esposa. Ela
me chamou de “senhor” na primeira vez em que me viu. Ela é uma
menina.
— Ela é maior de idade, Cassio. Hoje é o aniversário dela.
Eu assenti. — Você sabe que eu faço o que me pede. Sabe que
domino a Filadélfia sem piedade, como você espera que eu faça, mas até
eu tenho certas linhas que não estou disposto a cruzar e não vou me
forçar sobre uma menina.
— Ela é maior de idade e ninguém disse que você precisa usar a
força, — Luca repetiu e eu perdi a cabeça.
Bati o copo em cima da mesa. — Ela é, mas ainda me sinto como
se a estivesse manipulando. Você não pode acreditar honestamente que
ela virá voluntariamente para a minha cama. Talvez ela se submeta
porque sabe que é sua única opção, mas não de boa vontade. Tenho
uma filha, Luca, e não gostaria que ela estivesse com um homem treze
anos mais velho.
Luca me olhou por um longo tempo, talvez pensando em colocar
uma bala na minha cabeça. Ele não tolerava desafios. — Você vai
apresentar os lençóis após sua noite de núpcias, Cassio. — Abri minha
boca para recusar novamente. — Sem discussão. Como você cria
lençóis ensanguentados é com você.
Eu me recostei, cauteloso. — O que você está sugerindo?
— Não estou sugerindo nada, — disse Luca. — Estou apenas lhe
dizendo que quero ver lençóis ensanguentados, e eu e todos os outros
os levaremos como prova da honra de sua esposa e de sua
implacabilidade, como é esperado.
Talvez eu estivesse errado, mas tinha certeza de que Luca estava
sugerindo que eu forjasse os lençóis ensanguentados. Tomei outro gole
do meu uísque, me perguntando se Luca teve experiência forjando
manchas de sangue. Eu estava na apresentação dos lençóis depois da
noite de núpcias dele com Aria, mas mesmo que tentasse, não
conseguia imaginar Luca poupando ninguém. Eu o tinha visto
arrancando a língua de um homem por desrespeitar Aria e estava lá
quando ele esmagou a garganta de seu tio. Talvez ele estivesse me
testando. Talvez estivesse sugerindo algo assim para que pudesse ver se
eu era fraco demais para dormir com minha esposa. Crescendo em
nosso mundo, aprendi a ver os sinais de alerta. Se eu falhasse em um
teste dado pelo meu Capo, o resultado final seria inevitável. Eu seria
removido da minha posição da única maneira aceitável, pela morte.
Embora eu não tivesse medo de morrer, detestava a ideia do que isso
significaria para Daniele e Simona. Eles cruelmente perderam a mãe. Se
eu também os abandonasse, causaria um trauma horrível aos meus
filhos.
Mostrar qualquer tipo de fraqueza nessa situação seria fatal. Eu
não arriscaria a saúde de meus filhos nem minha posição como
Underboss.
Eu tomei um gole. — Farei o que você pede, Luca, como meu pai e
eu sempre fizemos.
Luca inclinou a cabeça, mas a tensão permaneceu entre nós. Eu
teria que ficar de olhos abertos até me provar novamente.
4
Cassio
Faro me entregou um frasco. — Para você.
Arrumei minha gravata antes de pegar o presente. — Não vou
tomar bebidas destiladas hoje.
— Achei que você poderia usá-la para bater na sua cabeça, se
considerar algo tão estúpido como recusar a tradição dos lençóis
ensanguentados novamente.
Enfiei o frasco no bolso dentro da minha jaqueta. — Não comece
de novo.
Faro parecia furioso. — Só prometa que não vai tentar essa merda
de manchas de sangue falso. Luca estava te provocando. Confie em
mim, ele fodeu a esposa dele na noite de núpcias, mesmo que ela tenha
chorado lágrimas amargas. É quem ele é e quem ele espera que você
seja. E, Cassio, você é esse homem, então pare de tentar ser um homem
melhor apenas porque se sente culpado por Gaia.
Eu agarrei sua garganta. — Somos amigos, Faro, mas também
sou seu chefe, então mostre algum respeito.
Faro engasgou, seus olhos castanhos lacrimejando. — Estou
tentando mantê-lo vivo. Giulia é uma mulher adulta pela idade. É tudo
o que importa.
— Eu vou transar com ela, então saia do meu pé, — eu disse,
liberando-o.
Eu não a via desde o nosso primeiro e único encontro, quatro
meses atrás, mas sabia que ela ainda pareceria jovem, mais jovem do
que eu desejaria. Alguns meses não mudariam isso. Eu só podia
esperar que a mãe dela tivesse seguido minhas instruções e colocado
maquiagem suficiente no seu rosto para fazê-la parecer mais velha.
Faro sorriu. — Faça-me um favor e aproveite, sim? Hoje à noite,
você terá uma boceta apertada em volta do seu pênis.
Ele saiu da sala antes que eu pudesse agarrá-lo novamente.

Eu esperei na frente do altar por Giulia. Faro estava à minha


direita e em frente a ele esperava uma das amigas de Giulia, que
parecia muito jovem. Um lembrete da idade da minha futura esposa.
Quando a música começou, voltei minha atenção para a porta da
igreja onde Felix entrou com Giulia ao seu lado. Ela estava usando um
elegante vestido longo branco com um corpete de renda de mangas
compridas. Seu cabelo estava puxado para cima, exceto por sua franja.
Ela estava sorrindo levemente enquanto seu pai a conduzia em
minha direção, mas sua tensão era inconfundível. Quando ela chegou
na minha frente, notei os pequenos girassóis entrelaçados nos cabelos e
no buquê de noiva. Seus olhos encontraram os meus, e por um
momento peguei o toque de desafio neles, me surpreendendo. Então seu
pai a entregou para mim, e Giulia ficou mais tensa, seu sorriso
vacilante.
Ela parecia um pouco mais velha, graças à maquiagem e ao
vestido elegante. Ainda assim, sua mão fina e úmida na minha e a
inocência em seus olhos me lembraram de sua idade.
Apesar da juventude, ela manteve a cabeça erguida, parecendo à
vontade com a situação. Só eu podia senti-la tremendo. Seu “sim” foi
firme, como se esse vínculo fosse realmente sua escolha.
Enquanto trocávamos os anéis, Giulia continuava lançando
olhares incertos para mim. Eu não tinha certeza do que ela procurava.
Talvez melancolia ou até tristeza. Lembrei-me do meu primeiro
casamento. Tristeza não fazia parte dos meus sentimentos quando
pensei em Gaia.
— Você pode beijar a noiva, — disse o padre.
Os olhos de Giulia se arregalaram, como se essa parte da
cerimônia fosse uma surpresa. Centenas de olhos nos observavam, um
par pertencente ao meu Capo. Eu peguei a parte de trás da cabeça dela
e me abaixei. Ela permaneceu congelada, exceto por seus olhos que se
fecharam um momento antes de eu pressionar firmemente minha boca
contra a dela. Até esse momento, a proximidade física com Giulia
parecia algo que eu teria que me forçar a permitir, uma luta esquecendo
sua idade e a bagagem que eu carregava comigo. Agora, quando seus
lábios macios tocaram os meus e seu doce perfume me atingiu, um
desejo profundamente enterrado acendeu dentro de mim.
Reivindicá-la esta noite não seria um problema. Ser um homem
melhor definitivamente não estava no meu futuro.
Afastei-me, fazendo Giulia abrir os olhos. Ela segurou meu olhar,
um rubor subindo por suas bochechas. Então ela me deu um pequeno
sorriso tímido. Inocente pra caralho.
Eu me endireitei, olhando para longe de seu rosto bonito e jovem.
Pelo canto do olho, vi sua expressão confusa antes de levá-la pelo
corredor e sair da igreja para os cumprimentos.
Faro, é claro, foi o primeiro a me parabenizar. Ele bateu no meu
ombro com um sorriso desafiador. — E como foi o primeiro gosto da sua
jovem esposa? — Ele perguntou em voz baixa.
Eu fiz uma careta. Ele sabia muito bem que eu raramente
compartilhava informações assim. Isso não o impedia de perguntar, é
claro. Ele deu um passo atrás e encarou Giulia, fazendo uma pequena
reverência. Seu sorriso em resposta foi do tipo de simpatia desprotegida
que provava sua idade. Como minha esposa, ela teria que aprender a
ser mais contida. Gaia tinha sido a anfitriã e esposa perfeita,
equilibrada e uma mestra em etiqueta social, uma mentirosa rápida,
alguém que sorria para você um momento só para apunhalá-lo pelas
costas no próximo. Giulia não era assim. Ela teria que crescer
rapidamente, aprender os meandros de ser a esposa de um Underboss.
Meus olhos se demoraram nos pequenos girassóis em seu
penteado. Esses teriam que ir primeiro. Muito alegre, muito peculiar.
Nada que eu apreciava. Os brincos de girassol eram ainda piores. Ela
deveria ter usado as joias que enviei. Eu me inclinei para ela. — Por que
você não usou os brincos de diamante que te comprei?
Giulia
Eu pulei com a desaprovação fria em sua voz.
Mamãe e papai vieram em nossa direção para nos parabenizar, o
que não me deu muito tempo para responder. —Eles não combinavam
com o arranjo de flores.
Eu briguei com mamãe por semanas para ter girassóis como parte
das minhas flores no casamento. Eventualmente, papai havia resolvido
o assunto a meu favor, como costumava fazer.
— Você não deveria ter escolhido girassóis. Da próxima vez que
eu enviar algo para você usar, espero que o faça.
Eu pisquei, atordoada demais para responder. Ele se endireitou.
Para ele, esse assunto estava resolvido. Ele deu uma ordem e
naturalmente esperava que eu obedecesse. Não havia dúvida em sua
mente que eu faria. Sua expressão era de aço quando apertou a mão de
papai.
Mamãe me puxou para um abraço, arrastando meus olhos para
longe do meu marido. Uma carranca apareceu em seu rosto. — Pareça
feliz, Giulia, — ela sussurrou. — Você não percebe como tem sorte? Eu
nunca pensei que conseguiríamos casá-la com um Underboss,
considerando que todos já estavam casados. Isso é um golpe de sorte.
Meu sorriso estava tenso. O que foi um golpe de sorte? Que Gaia
Moretti morreu, deixando duas crianças pequenas para trás? Que eu
estava casada com o homem que poderia ser responsável por sua
morte?
A expressão da mamãe alterou. — Pelo amor de Deus, tente
parecer mais feliz. Não estrague isso para nós.
Mamãe nem percebeu o quão cruel estava sendo.
Felizmente, papai se aproximou de mim e me abraçou. Eu afundei
nele. Ele e eu sempre fomos mais próximos, mas recentemente meu
ressentimento obscureceu nosso relacionamento. — Você está bonita.
— Eu não acho que Cassio concorda, — eu murmurei. Papai se
afastou, examinando meu rosto. Sua culpa e preocupação adicionaram
outro peso ao meu coração já pesado.
— Tenho certeza que ele aprecia a sua beleza, — disse o pai em
voz baixa.
Eu beijei a bochecha de papai, e ele relutantemente se afastou
para dar espaço aos pais de Cássio. Eu nunca conversei com eles e só
os vi de longe em algumas funções sociais. O Sr. Moretti compartilhava
os olhos azuis escuros de Cássio, mas os dele estavam nublados e seu
tamanho impressionante diminuiu pelo fato de ele suportar seu peso
em uma bengala. A mãe de Cássio era elegante e bonita, com cabelos
loiros escuros presos em um coque perfeito. Atrás dela, as irmãs de
Cassio esperavam, não menos graciosas e equilibradas. Era assim que
eu deveria ser. Cassio não me queria por mim. Ele queria que eu me
tornasse alguém que precisava. Acessório em sua vida.
Eu mal consegui forçar a comida pela minha garganta apertada
durante o jantar. Cássio não falou comigo, apenas com seu pai e Luca.
Eu sentei ao lado dele como uma acompanhante.
Talvez tenha sido o melhor. Cada vez que ele falou comigo até
agora, só me ordenou e intimidou ainda mais. Considerando que eu
teria que compartilhar uma cama com ele hoje à noite, preferi o seu
silêncio. As chances de eu desmaiar eram altas de qualquer maneira.
Eu olhei para Cassio. Suas feições faciais eram atraentes de uma
maneira ousada. Maçãs do rosto angulosas, mandíbula forte e barba
por fazer. Eu nunca o tinha visto em menos do que um terno de três
peças, mas seus músculos eram evidentes.
— Meu irmão jogava futebol no ensino médio, — Mia sussurrou,
me surpreendendo. Eu não tinha dito muito a ela ainda. Éramos
estranhas, apesar de sermos cunhadas, sem mencionar que ela tinha
dez anos a mais que eu.
O calor subiu para minhas bochechas, percebendo que ela deve
ter me notado observando Cassio. Eu não conseguia imaginar Cassio
frequentando o ensino médio.
— Você terminou este verão, certo? — Mia perguntou.
Eu balancei a cabeça com um pequeno sorriso. — Sim. Pensei em
ir para a faculdade, mas...
— Mas você teve que se casar com meu irmão.
— Eu teria que me casar de qualquer maneira, mas como esposa
de um Underboss, ir para a faculdade está fora de questão, — eu disse
calmamente. Minha mãe teria sofrido um ataque cardíaco se tivesse me
ouvido sendo honesta com a irmã de Cássio, mas eu estava cansada de
tentar fingir.
— Isso é verdade. Você estará ocupada criando seus filhos, então
não ficará entediada.
Meu coração acelerou como sempre pensando em ser responsável
por dois humanos minúsculos. Eu não tinha absolutamente nenhuma
ideia sobre crianças. Eu tinha lido incontáveis artigos sobre a criação de
filhos nos últimos quatro meses, mas ler e fazer eram duas coisas muito
diferentes. Na maioria das vezes me sentia uma menina, não uma
mulher, muito menos uma mãe.
Mia tocou minha mão. — Você vai ficar bem. Eu moro perto.
Posso ajudar se você não souber o que fazer.
Cassio deve ter ouvido porque franziu a testa. — Você tem dois
filhos pequenos e um terceiro a caminho. Você terá suas mãos cheias.
Giulia pode lidar com tudo.
Ele parecia me conhecer melhor do que eu. Ou talvez apenas
ordenasse que eu fosse uma boa mãe?
Mia suspirou, mas não respondeu. Meu estômago deu um nó
ainda maior.
Fiquei tão tensa quando chegou a hora da primeira dança que
mal notei Cassio me levando ao centro do salão de baile. Os convidados
se reuniram ao redor, assistindo. Meu sorriso estava em vigor. Se tinha
aprendido alguma coisa com minha mãe, era sorrir diante da
adversidade.
Com a nossa diferença de altura, dançar não foi fácil. Se fossemos
um casal de verdade, eu poderia ter descansado minha bochecha contra
seu esterno. No momento, éramos conhecidos casuais, na melhor das
hipóteses. Cassio me conduziu pela pista de dança sem problemas,
certo em sua liderança, como em todos os outros aspectos da nossa
vida. Minha mente estava girando cento e sessenta quilômetros por
hora, imaginando o nosso futuro, imaginando esta noite.
— Por que você está tremendo? — Cassio perguntou, me
assustando.
Eu observei seus olhos sem emoção. Ele realmente não sabia? —
Por que você não me manda parar? Talvez meu corpo obedeça ao seu
comando.
A expressão de Cássio endureceu. — Espero que você escolha
suas palavras com mais cuidado em público. Eu sou seu marido e você
deve me respeitar.
Baixei os olhos para o peito dele, o sorriso ainda congelado no
meu rosto.
A boca de Cassio pressionou no meu ouvido quando a dança
terminou.
— Entendido?
— Entendido, senhor.
O aperto de Cassio sobre mim aumentou, mas ele não teve a
chance de dizer mais nada, porque era a vez de papai dançar comigo.
Ele continuou perguntando o que estava errado, mas eu realmente não
vi nenhuma razão para lhe dizer. Não havia nada que pudesse fazer,
nada que ele faria. Os lábios da mamãe estavam se movendo sem parar
durante sua dança com meu marido. Pela sua expressão encantada,
você pensaria que ela era a noiva feliz.
— É a minha vez, — disse Christian.
Meu sorriso ficou menos rígido quando meu irmão assumiu. Ele
me deu um sorriso rápido quando começamos a dançar. Eu raramente
o via desde que ele se mudou há cinco anos, aos dezoito anos. Ao
contrário de muitos filhos de Underbosses, ele optou por não trabalhar
com o pai em Baltimore até herdar o título. Christian queria fazer seu
nome e foi trabalhar com os Morettis.
— É tão bom te ver, — eu disse, abraçando-o com mais força.
Ele deu um aceno conciso. — É sim.
— Você não parece feliz por eu morar na mesma cidade que você
em breve.
Christian balançou a cabeça. — Não a esse preço.
— Você quer dizer estando casada com Cassio?
Christian olhou em volta, mas Cássio estava dançando com uma
de suas irmãs a uma boa distância. — Ele não é o homem certo para
você.
— Porque ele é velho demais.
Christian soltou uma risada irônica. — Isso é apenas uma
pequena parte do por que.
— Você sabe o que aconteceu com Gaia? — Eu não tinha visto
meu irmão desde que descobri que me casaria com Cassio. Fazer esse
tipo de pergunta por telefone era muito perigoso. Você nunca sabia se o
FBI estava ouvindo.
— Somente Luca, Mansueto e Cassio sabem. — Ele hesitou.
— E?
— A equipe de limpeza. Os dois morreram pouco depois de um
trágico acidente de carro.
Por um momento, tive certeza de que não o tinha ouvido direito.
Minha visão estava começando a estreitar. — Papai disse que Cássio
não teve nada a ver com a morte de sua esposa.
Raiva passou pelo rosto de Christian. — Papai precisa do apoio de
Cassio para permanecer no poder. Papai é um chefe fraco. É apenas
uma questão de tempo até que os outros tentem removê-lo. Com Cassio
na família, as pessoas hesitarão. Se eu já estivesse no poder, não teria
te dado a ele. Eu mesmo teria controlado nossos homens.
Jogos de poder. Não era algo que eu queria fazer parte, mas sem
meus próprios esforços, me tornaria o peão nesse jogo mortal.
— Você trabalhou com Cassio nos últimos anos. Ele é realmente
tão ruim assim?
A expressão de Christian tremulou com arrependimento. — Eu
não deveria ter dito nada.
Eu enterrei meus dedos em seu braço. — Diga-me, por favor. Eu
preciso me preparar. — No entanto, como você pode se preparar para
isso?
— Ele é eficaz e brutal. Ele não tolera desobediência. Tem seus
homens sob controle. Poucos homens em nossos círculos são tão
respeitados quanto ele. Ele é o melhor Underboss que a Famiglia tem no
momento. — Christian balançou a cabeça. — Eu deveria falar com ele.
— Não, — eu sussurrei, aterrorizada. Se o que Christian havia
dito fosse verdade, Cassio não permitiria que meu irmão se envolvesse.
Christian era um homem corajoso, e seria um bom Underboss um dia,
mas arriscar sua vida por mim? Eu não permitiria isso. — Prometa que
você não dirá nada. Prometa.
— Eu quero ajudá-la.
— Então me diga o que fazer para que esse casamento funcione.
Ele riu sem alegria. — Como eu saberia? — Nossa dança
terminou, e ele ficou em silêncio, com a boca torcida em desgosto. —
Obedeça a ele.
O desespero pesou sobre mim. Quatro meses atrás, minha
principal preocupação era que tipo de curso de Pilates eu faria e se
encontraria tempo para terminar uma pintura. Hoje, tinha que me
preocupar em como agradar um marido, que poderia ter matado sua
esposa e provavelmente os homens que limparam a cena depois.
5
Giulia
Depois da dança com o meu irmão, eu não queria nada mais do
que encontrar um canto tranquilo para me recompor, mas o pai de
Cassio mancou em minha direção.
Eu sorri para ele quando meu irmão se afastou depois de um
breve aceno de cabeça. O Sr. Moretti estendeu a mão. — Você dará a
esse velho a honra de dançar com a noiva?
— Claro, Sr. Moretti, — eu disse com uma pequena reverência.
— Mansueto, por favor. Somos uma família agora.
Eu balancei a cabeça e peguei sua mão, imaginando como isso
iria funcionar com sua bengala. Ele sorriu melancolicamente. — Nós
teremos que dançar em um só lugar, se você estiver bem com isso,
mocinha.
Mais uma vez, assenti e me aproximei um pouco. Ele entregou
sua bengala a um homem que eu não conhecia e tocou levemente
minhas costas. Então começamos a balançar ao som da música.
— Você está muito quieta. Pelo que ouvi, você não é uma garota
quieta.
Minhas bochechas esquentaram, imaginando quem havia lhe
dado essa informação. Christian? Definitivamente não minha mãe.
Os olhos de Mansueto eram gentis, mas, como seu filho, sua
reputação era arrepiante. — A reputação do meu filho me deixa
orgulhoso, — ele começou como se pudesse ler minha mente, o que me
assustou. — Eu sei que ele governará a Filadélfia sem problemas,
mesmo quando eu partir. Mas é uma reputação que pode perturbar
uma jovem, especialmente tão nova quanto você.
Eu não tinha certeza do que dizer. Senti que deveria contradizê-lo
porque a tradição ditava que eu fingisse não estar perturbada pelo meu
marido, mas isso teria sido uma mentira e, infelizmente, eu era uma
péssima mentirosa, para grande desgosto de mamãe.
— Minha esposa e eu criamos meu filho para respeitar as
mulheres e, pelo que sei, ele o faz.
Pelo que eu sabia, as apostas dele matando sua esposa em uma
fúria desenfreada estavam ganhando. Ele não parecia alguém que
perderia o controle dessa maneira, mas havia conquistado sua
reputação como um dos líderes mais cruéis em nossos círculos por um
motivo, e as palavras de Christian só confirmaram meus medos.
— Obrigada por me contar, — eu disse, porque tinha que dizer
alguma coisa. Não me senti consolada. A música terminou e paramos
de balançar. Faro estava com sua última parceira de dança à minha
esquerda. Eu encontrei seu olhar, achando que, como padrinho e
Consigliere, ele iria querer dançar.
Ele balançou a cabeça com um sorriso de desculpas. — Se eu me
cansar da vida, pedirei essa dança. — Ele se virou e convidou a outra
mulher.
Espantada, olhei para Mansueto.
Ele riu. — Vamos lá, vamos voltar para a mesa.
— O que foi isso? — Eu perguntei enquanto seguia seu lento
progresso em direção à mesa onde Cassio ainda estava conversando
com Luca como se fosse uma reunião de negócios e não nosso
casamento.
— Meu filho é um pouco territorial, eu receio. Você pode dançar
com a família, mas evite se aproximar de outros homens. Detestaria
testemunhar um conflito no seu casamento.
Eu esperei sua risada, algo que indicava que ele estava
brincando. Ele não o fez. Eu parei e ele também. — Acho que vou me
refrescar.
Ele assentiu, mas sua expressão mostrou que sabia que eu queria
fugir. Com um pequeno sorriso, dei meia-volta e corri para fora do salão
de baile.
Passei correndo pelos banheiros e virei um canto para um
corredor deserto, onde encostei-me à parede e afundei lentamente. Meu
vestido se amontoou ao meu redor como uma bolha branca pura.
Não era digno, e se alguém me encontrasse, seria um escândalo
pelo qual mamãe nunca me perdoaria. Eu não me importava. Essa era
a minha vida.
Eu não tinha certeza de quanto tempo fiquei assim, considerando
minhas poucas opções, quando passos ecoaram pelo corredor. Com
meu vestido, não tinha a chance de me levantar rapidamente, então não
me incomodei.
Mia virou a esquina e, ao me ver, seguiu em minha direção com
um olhar preocupado. Ela me surpreendeu quando afundou ao meu
lado no elegante vestido longo e barriga protuberante.
— Cássio é um homem difícil, Giulia. Eu não vou mentir.
Eu ri. Difícil eu poderia lidar. Eram os traços de caráter além do
difícil que me preocupavam.

Cassio
Durante toda a noite, fiquei de olho em minha esposa. Ela não
estava confortável com a minha proximidade. Seu tremor durante a
nossa dança deixou isso claro. Essa reação não era um bom presságio
para esta noite.
Depois de dançar com meu pai, Giulia saiu apressadamente do
salão, e meu pai se aproximou de mim. — Você poderia nos dar licença
por um momento, Luca? Preciso conversar com meu filho.
— Eu vou dançar com Aria. — Luca nos deu um breve aceno de
cabeça antes de ir até sua esposa.
— Qual é o problema?
— Sua menina está aterrorizada. Ela está tentando mostrar uma
fachada corajosa, como foi ensinada, mas posso ver nos olhos dela.
Meu olhar repousou na porta pela qual Giulia havia desaparecido.
— Não a chame de minha menina, pai. Isso me faz sentir ainda mais
velho.
Pai riu. — Talvez seja bom que você o faça. Que se lembre de que
recebeu uma esposa que era uma criança há pouco tempo, que precisa
ser bom com ela.
Eu fiz uma careta. — Não tenho intenção de não ser bom para ela.
— Ser bom para ela seria difícil, sem dúvida.
— Talvez você deva lhe dizer, falar com ela antes desta noite.
Seria sensato afastar alguns de seus medos com antecedência.
Minha boca se apertou. — Pai, eu não vou discutir minha noite de
núpcias com você.
Pai sorriu. — Eu vou agradecer por isso. Vá falar com ela, Cassio.
Faça ao seu velho esse pequeno favor.
— Quando ela voltar, terei uma rápida conversa com ela.
— A crueldade tem um lugar, Cassio. Casamento não é esse
lugar.
Eu já estava farto. — Você quer ter outra conversa sobre Gaia?
Hoje?
— Minha preocupação é que você esqueça que Giulia não é Gaia.
— Parece que você conhece minha esposa melhor do que eu.
Eu saí, mesmo que fosse desrespeitoso, mas o pai não era mais o
Underboss. Eu não precisava da orientação dele a esse respeito, nem no
meu casamento. Mia me deu uma olhada dura do outro lado do salão e
saiu também.
Giulia estava sumida há um tempo...
Suspirando, fui até a minha jovem noiva. Andei em direção ao
banheiro e segui o som de vozes femininas baixas em outro canto. Eu
parei. Mia e Giulia estavam sentadas no chão, seus vestidos caros
espalhados ao redor delas. Ao vê-las uma ao lado da outra, a idade de
Giulia tornou-se mais aparente novamente. Minha irmã era mais nova
que eu e ainda assim parecia muito mais velha que minha esposa. Foi
uma realização preocupante.
No momento em que Giulia me viu, a tensão se espalhou em seus
ombros estreitos. Eu me aproximei. — Deixe-me falar com minha
esposa, — pedi a Mia.
Ela olhou entre Giulia e eu antes de estender a mão. Eu a ajudei
a se levantar. — Seja marido, não mafioso pela primeira vez, que tal
isso? — Ela sussurrou baixinho.
Eu a ignorei. Depois que ela virou a esquina, estendi minha mão.
— Que tal tomar um pouco de ar fresco?
Giulia colocou a mão na minha. Seus dedos esbeltos e trêmulos
estavam úmidos. Puxei-a de pé e coloquei minha mão nas suas costas.
Ela não disse nada enquanto eu a levava de volta ao salão de baile e em
direção às portas francesas que levavam ao terraço do hotel. Os olhos
de sua mãe se arregalaram e ela olhou para o relógio como se eu fosse
atacar sua filha do lado de fora no jardim antes da hora de dormir
programada. Os convidados do lado de fora imediatamente entraram
para nos dar espaço. Parei a uma boa distância das janelas e olhei para
minha esposa. Com a franja, ela parecia muito fofa e bonita, o que seria
ótimo se não a fizesse parecer inocente e jovem.
— Meu pai me disse que você está com medo. — Talvez eu
devesse ter encontrado uma maneira mais delicada de abordar o
assunto, mas esse não era um dos meus pontos fortes.
Seus olhos se arregalaram, os lábios vermelhos se abrindo. —
Eu... eu não estou... eu... — Ela mordeu o lábio inferior e desviou o
olhar. O luar destacava sua pele macia, sem manchas e de aparência
suave.
— Você pode me olhar?
Ela levantou os olhos. Passei meu polegar sobre os dedos dela até
o anel, e ela estremeceu um pouco. — Este anel faz de você minha.
Ela ficou tensa e percebi que deveria ter escolhido palavras
diferentes, algo que não parecesse um Neandertal prestes a reivindicá-
la, não que isso não fosse verdade. Eu a reivindicaria hoje à noite, só
para seguir as tradições que não podíamos escapar, e ela era minha,
mas não era isso que eu queria dizer. Eu não tinha certeza do que dizer
para deixá-la à vontade. Gaia e eu não conversamos muito. Ela gritava
ou chorava e às vezes falava docemente quando queria algo.
— A tradição nos liga, Giulia. Não só você, mas também eu.
Eu jurei protegê-la, como um marido deve proteger sua esposa, e
faria o possível para fazer um trabalho melhor desta vez.
— Conheço nossas tradições, — disse ela rapidamente,
envergonhada.
— Eu não estou falando sobre os lençóis ensanguentados.
Ela engoliu em seco. — Do que você está falando, então?
— Que, como minha esposa, você também tem direito à minha
proteção.
Giulia inclinou a cabeça, olhando-me com curiosidade. — OK.
Eu não tinha certeza se havia transmitido a mensagem, mas
nunca fui homem de muitas palavras quando os sentimentos estavam
envolvidos. Eu faria o meu melhor para tratá-la bem.
O silêncio caiu sobre nós. Eu poderia dizer que Giulia queria falar
alguma coisa, talvez até quisesse que eu dissesse mais, mas fiquei em
silêncio. Não conhecia minha jovem esposa e não tinha ideia do que ela
fazia o dia inteiro, exceto compras e encontrar outras mulheres. Ela era
adolescente e eu não. Eu nem agi como um quando tinha a idade dela.
— Vamos voltar. Nossos convidados estão esperando. É quase
meia-noite.
Ela ficou tensa, mas me seguiu para dentro.
6
Cassio
Os tios de Luca, meus companheiros Underbosses que eu não
suportava, foram os primeiros a exigir que eu levasse minha esposa
para cama.
Giulia e eu estávamos com minhas irmãs e seus pais quando o
primeiro grito cortou a música.
Rugidos apreciativos e palmas se seguiram e, em seguida, um
coro de “leve-a para a cama” veio da maioria dos homens.
O pai e o irmão de Giulia não participaram. Christian me deu um
olhar que parecia ameaçador. Em outro momento, eu teria reagido de
acordo com esse tipo de desrespeito. Agora não era a hora, no entanto.
Ele era um homem mais corajoso que o pai. Eu tinha que admitir.
Giulia segurou sua taça de vinho e deu à minha irmã Mia um
sorriso envergonhado.
Mia me abraçou com força. — Não me faça chutar sua bunda,
irmão mais velho. Seja bom para essa garota. Ela é uma gracinha.
Eu me desvencilhei da minha irmã. Não discutiria minha vida
sexual com ela.
Felix me lançou um olhar duro, mas ambos sabíamos que o que
aconteceria hoje à noite não era mais sua responsabilidade. Ele
certamente amava sua filha, mas também amava o poder, e se tivesse
que escolher entre os dois...
Virei-me para minha esposa, cansado de todo mundo enfiar o
nariz em nosso casamento. Giulia me deu um olhar tímido, com as
bochechas vermelhas. Estendi minha mão e ela a pegou sem hesitar.
Suas mãos estavam suadas. — Você está pronta para subir? — Eu
murmurei, abaixando-me para que apenas ela pudesse me ouvir.
Ela engoliu em seco, mas assentiu.
Eu me virei para nossas famílias. — Se vocês nos derem licença?
Antes que Giulia e eu pudéssemos nos despedir, Egidia abraçou a
filha mais uma vez e sussurrou algo em seu ouvido que causou um
rubor feroz nas bochechas da minha esposa.
Ainda segurando a taça de vinho na mão, ela me permitiu levá-la
embora. Mais uma vez, não conversamos. Pensei em dizer algo
tranquilizador, mas a verdade era que não havia nada a dizer, e eu não
era homem para esse tipo de palavras.
Giulia tomou um gole de vinho. Ela estava em seu quinto copo, no
mínimo.
— O que sua mãe disse? — Perguntei para preencher o silêncio
tenso entre nós quando pegamos o elevador até a nossa suíte para a
noite. A porta se abriu e saímos.
Outro gole. Parei e peguei o copo dela. Se ela estivesse intoxicada,
teria que forjar aquelas malditas manchas de sangue, afinal. — Já
chega.
— É refrigerante.
Tomei um gole da taça, surpreso.
Giulia mexeu na pequena bolsa branca pendurada no ombro. —
Só tomei uma taça de vinho espumante na recepção. Eu não queria
estar bêbada. — Aqueles grandes olhos azuis me atingiram.
— O que sua mãe disse? — Perguntei novamente, conduzindo-a
pelo resto do caminho até a suíte. Eu destranquei a porta.
Giulia apertou os lábios. — Que eu deveria agradá-lo e tentar
mascarar minha inexperiência. — Ela soltou um bufo. — No momento,
estou apenas tentando não desmaiar de medo.
Os olhos dela se arregalaram.
Abri a porta e girei para Giulia entrar. A segui e ficamos sozinhos
em nossa suíte. A sala de estar era vasta, com dois sofás e uma mesa
de jantar, onde deixei seu copo. Não era um ambiente que usaríamos,
mas era costume pegar a maior suíte do hotel, mesmo que tudo o que
precisássemos fosse um quarto. Olhei para minha jovem esposa, que
acabara de ser vulnerável e honesta comigo.
— Você não precisa ter medo, Giulia. Temos a noite toda.
Giulia olhou em volta, seus olhos demorando na porta à esquerda
levando ao nosso quarto. — Você acha que externar vai melhorar?
Eu não tinha certeza do que ajudaria Giulia. — Diga-me o que
ajudaria a aliviar seus medos.
Ela considerou isso. — Se parecesse que tenho uma escolha.
— Você tem uma escolha, — eu disse, aproximando-me dela.
— Tenho? — Ela sussurrou, olhando para mim. — Você
realmente me permitirá uma escolha?
Eu queria que ela tivesse uma escolha. Mas não mostraria
fraqueza, não perante Luca, não depois de já ter mostrado isso durante
a nossa reunião. Ele não teria motivos para duvidar de mim. Nem
mesmo o rosto bonito da minha esposa e seu sorriso fofo poderiam
suavizar minha determinação. Mas uma escolha inexistente ainda pode
parecer uma escolha.
— Eu sei o que é esperado, Cassio. Sei o que significaria para
você e meu pai se não apresentarmos lençóis pela manhã. — Ela
engoliu em seco.
Toquei seu braço, sentindo seu calor penetrar através do tecido
fino.
— Então faça a sua escolha.
Ela procurou meus olhos. — Tudo bem, — ela disse calmamente.
O alívio me encheu com a razoabilidade dela. Pelo menos isso a
distinguia da minha falecida esposa. Ela me surpreendeu quando foi
para o quarto sem avisar. Eu segui alguns passos atrás dela. Pela
primeira vez, me permiti vê-la como uma mulher, algo que eu tinha
evitado a todo custo até agora, mas era uma necessidade para esta
noite.
O vestido acentuava sua cintura estreita e a bela curva de seus
quadris e bunda. Chegando ao quarto, Giulia parou e olhou por cima do
ombro. Apesar de seu nervosismo óbvio, ela sorriu antes de colocar a
bolsa no banco em frente à cama king-size. Seus olhos pousaram nela
por um momento, seu rubor se aprofundando, depois ela limpou a
garganta.
Eu me aproximei dela. Seu perfume de morango flutuou no meu
nariz, me fazendo pensar se ela teria um sabor tão doce quanto sugeria
sua escolha no perfume. Peguei o laço intrincado de seu corpete de
mangas compridas, persistindo no inchaço de seus seios.
— Eu tenho que cortá-la do seu vestido, — eu disse enquanto
desembainhava minha faca do coldre no meu peito. Outra tradição da
qual não poderia fugir.
Ela olhou a lâmina com uma pequena carranca antes de assentir.
Virando-se, ela inclinou a cabeça para o lado para que seu cabelo não
cobrisse a parte superior das costas. Sua garganta era longa e elegante,
perfeitamente impecável, e tive que resistir ao desejo de pressionar
minha boca nela e marcá-la como minha. Poupá-la parecia mais fácil
quando ainda não estávamos casados. Que eu já considerara uma
opção ridícula agora. Ela virou o rosto e olhou para mim através de
cílios longos, nervosismo nos olhos.
— Tudo certo? — Ela perguntou baixinho.
— Claro, — eu disse, minha voz mais dura do que o pretendido,
porque estava irritado comigo mesmo. Ela desviou os olhos e enrijeceu.
Um pedido de desculpas provocou a ponta da minha língua.
Nunca pronunciado. Deslizei meu dedo abaixo da renda para afastá-la
de sua pele. Arrepios cobriram cada centímetro de seu corpo quando
toquei sua pele macia. Abaixei a faca e cortei o tecido sem dúvida caro.
O silvo resultante fez Giulia pular. Recuei no momento em que a faca
alcançou sua saia.
Giulia puxou o vestido lentamente, de costas para mim, e eu não
conseguia desviar o olhar enquanto ela revelava centímetro a centímetro
de suas costas macias. Ela estava sem sutiã e usava apenas uma tanga
de renda branca muito pequena. Meus olhos descansaram em sua
bunda perfeita, globos redondos nos quais eu queria afundar os dentes
e enterrar meu pau, um pau que estava ficando duro de observá-la.
— Está tudo bem se eu me refrescar?
Sua voz rasgou minha excitação crescente. — Claro.
A rudeza na minha voz fez Giulia arriscar um olhar para o meu
rosto. Então ela correu para o banheiro. Aterrorizar minha jovem
esposa antes que tivesse que reivindicá-la era uma coisa estúpida de se
fazer.
Afrouxando minha gravata, fui até o banco e afundei. Meu anel de
casamento, semelhante ao meu último, parecia zombar de mim.
Coloquei minha gravata ao meu lado, ouvindo o som da água corrente.
Giulia precisaria de paciência e cuidado. Eu nunca tive muito de
qualquer um dos dois para começar. Desde a bagunça com Gaia, ainda
menos do que antes. Apoiei meus braços em minhas coxas, tentando
alcançar um estado de espírito que me permitisse tratar bem minha
jovem esposa. Não queria que ela se ressentisse comigo.
A porta se abriu, chamando minha atenção para ela e Giulia. Ela
usava uma camisola de seda azul escura que chegava aos joelhos e
abraçava seu corpo esbelto. Os cabelos caíam sobre os ombros em
cachos castanhos e macios, livres dos girassóis muito fofos. Giulia não
se moveu de seu lugar no batente da porta e nervosa alisou a franja, em
seguida, traçou o chão com o pé descalço.
— E agora?
Eu encontrei seu olhar. Ela me olhava em busca de orientação, e
essa era a única coisa que não tinha problemas em lhe dar. Endireitei-
me em toda a minha altura e estendi a mão. — Venha aqui.
Respirando fundo visivelmente, ela se aproximou até ficar bem na
minha frente. Sem os sapatos de salto, só alcançava meu peito. Seu
aroma de morango estava mais proeminente do que antes, e mesmo que
nunca tivesse sido um homem para as coisas doces da vida, de repente
desejei.
Estendi a mão e segurei sua cabeça. Ela prendeu a respiração.
Por um momento, olhei o seu rosto bonito antes de me inclinar e
pressionar um simples beijo em sua boca para ver como ela reagiria.
Ela ficou quieta. Correndo meu polegar sobre sua bochecha, repeti o
movimento. Ela amoleceu contra mim.
— Por que você ainda está usando o casaco? — Ela perguntou
depois do terceiro beijo simples.
Recuando, tirei o casaco e o joguei sobre o banco. Os olhos de
Giulia me observavam.
— E o colete?
Abafando um sorriso, comecei a desabotoar o colete. Ela não agia
como eu temia, não como Gaia agiu. O último botão me deu problemas,
mas antes que minha frustração pudesse aumentar, Giulia afastou
minha mão e abriu com seus dedos elegantes. Larguei o colete no banco
também.
Giulia soltou um pequeno suspiro. — Você parece muito forte. —
Ela estendeu a mão como se para sentir meu bíceps, em seguida,
vacilou. Agarrei sua mão e pressionei-a contra o meu braço, depois,
flexionei meu bíceps.
Giulia soltou uma pequena risada, e meus próprios lábios se
contraíram. Ela olhou para cima e lançou seu olhar para trás de mim.
Tomando a mão dela novamente, a conduzi para mais perto da cama.
— Deite-se.
Ela se reclinou na cama, ficando visivelmente mais tensa. Tirei os
sapatos e me estiquei ao lado dela, ainda quase completamente vestido.
Agarrando seu quadril, a arrastei para mais perto de mim e me inclinei
sobre ela.
Uma pitada de nervosismo atravessou seu lindo rosto. Eu me
concentrei em seu corpo, não em seu rosto, e dei um beijo em seu
pescoço. Ela estava imóvel, prendendo a respiração. Não era uma ótima
reação, mas não era tão ruim. Eu pressionei outro beijo no local logo
abaixo da sua orelha, e ela me surpreendeu se contorcendo e soltando
uma risadinha.
Uma risadinha adolescente. Fiz uma pausa e levantei os olhos.
Ela mordeu o lábio inferior, sua expressão presa entre vergonha e um
sorriso incerto.
Ela parecia uma maldita menina. Maior de idade, minha bunda.
Ela tinha a idade legal, mas suas palhaçadas, sua reação, sua
expressão... não eram de uma mulher adulta, mas de uma menina a
caminho de se tornar uma mulher.
Eu me afastei, sufocando um suspiro.
— Sinto muito, — disse ela rapidamente. — Eu não queria rir.
Tenho cócegas. — Ela me olhou com incerteza, seus olhos de repente
cheios de ansiedade.
Isso não estava indo como eu esperava. A maquiagem e o vestido
elegante a fizeram parecer mais velha. Agora, sem um pingo de
maquiagem e usando sua camisola, ela parecia a adolescente que era.
Eu fiz o que era necessário. Ameacei, torturei, matei, então dormir
com minha esposa deveria ser um pedaço de bolo.
Eu ignorei seu pedido de desculpas e me levantei. Quanto mais
rápido acabasse com isso, melhor. Tirei minha camisa, seguida por
minhas calças e meias. Quando peguei minha boxer, notei o olhar de
Giulia. Seus olhos estavam enormes, o que a fazia parecer ainda mais
jovem e inocente, e me encarava com uma mistura de fascínio e medo.
Soltei minha cintura, decidindo que era melhor se mantivesse
meu pau coberto por enquanto. Se ela soltasse um grito aterrorizado ao
vê-lo, eu mandaria Luca se ferrar pelos malditos lençóis e então meu
sangue definitivamente os tingiria de vermelho.
Empoleirado na beira da cama, peguei seu joelho, tocando-o
levemente.
Ela se contorceu novamente e mordeu o lábio, tentando segurar
outra risadinha.
— Tenho certeza de que sei de um lugar onde você não sente
cócegas, — eu disse sardonicamente.
Ela apertou os lábios. — Você não pode saber... — Os olhos dela
se arregalaram. — Você quer dizer... — Ela respirou fundo. Pelo menos
ela entendeu meu comentário. Se tivesse me encarado
inexpressivamente, eu estaria perdido.
Ajoelhei-me na cama. Eu queria relaxá-la o suficiente para
manter sua dor mínima. Minha primeira esposa chorou durante a
nossa primeira vez, uma experiência que eu realmente não queria
repetir.
Empurrei sua camisola o suficiente para alcançar sua calcinha, e
meu pau pulsou de uma maneira familiar, vendo o vale entre suas
coxas. Passei meus dedos em seus quadris, deslizando-os na cintura de
sua calcinha.
Ela estava perfeitamente imóvel, me observando com os lábios
entreabertos e aquela maldita inocência que ia me matar. — Posso tirá-
la?
Era uma pergunta retórica, ambos sabíamos o que era esperado.
— E se eu disser não? Importa? — Ela perguntou com uma pitada
de insolência.
— Faria você se sentir melhor se eu continuasse, apesar de você
dizer não? Isto certamente não vai me ajudar.
— Duvido que você se importe. Certamente não vai machucá-lo
tanto quanto eu.
A raiva emergiu através de mim. Pairei sobre ela, me apoiando ao
lado de seus ombros. Suas mãos levantaram como se quisessem me
afastar, palmas macias pressionando contra o meu peito. Seus olhos se
arregalaram e ela os lançou aos meus peitorais, seus dedos tremendo
contra mim.
— Ouça. Você está certa, você será a única que sentirá
desconforto, mas posso garantir que ser malcriada por isso não ajuda.
Se você trabalhar comigo, será melhor.
— Não é apenas a dor. Até esse momento, os homens podiam
beijar minha mão ou dançar comigo em reuniões sociais, nada mais. E
agora você está aqui, em cima de mim, seminu, e eu seminua, e logo
estaremos nus, e você vai... — Ela respirou fundo.
— Eu sei, — eu disse calmamente. — Não comece a chorar.
Ela prendeu o lábio inferior entre os dentes. Depois de um
momento, ela disse com firmeza. — Eu não vou chorar. — Então olhou
para mim. — Por que você se importa? Você já viu pior do que alguém
chorando.
Eu tinha visto. Muito pior, e não dei à mínima. Mas Giulia era
jovem, muito jovem, e minha esposa, a mulher que deveria ser mãe de
meus filhos. Porra. Isso era uma bagunça.
Ela estava mordendo o lábio, sem olhar para mim, mas para algo
que só ela podia ver.
— Giulia, — murmurei, e seu olhar se fixou em mim. — Me ajude
com isso. — Ela olhou para mim com aqueles olhos grandes e assentiu
lentamente.
Alívio me encheu. Abaixando minha cabeça, beijei seus lábios
levemente. Então de novo. No terceiro beijo, os lábios de Giulia se
moveram hesitantes contra os meus e chupei seu adorável lábio inferior
gordo na minha boca. Ela fez o menor som e fechou os olhos. Minha
língua a acariciou e mergulhou, provando minha esposa pela primeira
vez. Inferno, tão incrivelmente doce que ia me matar. Sem parar o beijo,
descansei minha mão em sua caixa torácica.
Seus olhos se abriram e ela se encolheu um pouco. Eu me afastei
de sua boca, observando-a enquanto passava minha palma pela lateral
e depois para cima, um toque suave, a promessa de que a trataria com
cuidado. — Você vai me deixar te despir?
Mais uma vez, o silencioso aceno de cabeça. Recostei-me e ajudei
Giulia a ficar sentada. Então coloquei meus dedos sob a bainha da
camisola dela e a puxei para cima. Ela levantou os braços para que eu
pudesse tirá-la sobre sua cabeça. Descartei a coisa frágil no chão e
voltei minha atenção para Giulia. Os braços dela estavam frouxamente
cruzados sobre o peito. Mordendo o lábio de maneira fofa, ela os
abaixou lentamente, me dando uma visão perfeita de seus seios.
Deus, ela era adorável.
Eu estendia a mão e gentilmente corri meus dedos pelo vale entre
os seios bonitos. Giulia se contraiu, o nariz enrugando, segurando uma
daquelas risadinhas. Suas bochechas ficaram vermelhas. — Eu sinto
muito.
— Não sinta, — eu disse com a voz um pouco mais baixa. Preferia
que ela risse que chorasse, e agora, felizmente, ela não parecia estar
prestes a chorar.
— Você é muito bonita, — eu disse. Porque era a verdade e
porque não queria que ela fosse autoconsciente. Isso apenas a deixaria
mais tensa.
— Obrigada.
— De nada, — murmurei enquanto traçava a parte externa do seu
peito com as juntas dos meus dedos. Seus mamilos endureceram, e o
rubor nas bochechas se espalhou por todo o rosto. Fiquei feliz por não
ter ouvido a minha consciência e pedido a Luca para cancelar o
casamento porque ela era jovem demais para mim. Nesse momento, eu
sabia que ela seria minha para sempre.
Passei o polegar sobre o mamilo e Giulia respirou fundo. Eu repeti
o movimento, sufocando um gemido ao sentir seu nó perfeito.
— Você gosta disso?
— Sim. Isso é bom.
Corri minha mão até a calcinha dela. — Deite-se. — Ela o fez e
seu corpo ficou visivelmente mais tenso. Os músculos de sua barriga se
flexionaram e ela prendeu a respiração. — Isso não é motivo para ficar
tensa. Só vou puxar sua calcinha.
Lentamente, arrastei-a para baixo e o alívio, seguido pelo desejo,
me inundou. A maioria das mulheres era completamente depilada
durante a noite de núpcias e, enquanto eu gostava disso, com Giulia só
enfatizava sua idade. Felizmente, ela tinha um pequeno triângulo de
cabelos castanhos escuros no monte.
— Eu sei que não é isso é tradição, mas eu não queria...
— Está perfeito, — eu murmurei.
Ela me olhou timidamente, as pernas fechadas. Eu me permiti
admirá-la, em seguida, me abaixei e dei um beijo em sua barriga
enquanto respirava fundo, sentindo o cheiro da loção de morango que
ela deve ter aplicado mais cedo. Doce por toda parte, minha esposa.
— Separe suas pernas para mim.
— Por quê?
Eu olhei para cima, sufocando minha impaciência com a teimosia
dela quando vi a ansiedade em seu lindo rosto. — Giulia.
Ela separou as pernas, mas apenas um pouco, e eu tive que
afastá-las mais para poder subir entre elas e me esticar. Então apreciei
a boceta da minha esposa. Porra. Meu desejo retornou com força total.
Inclinei-me para frente, mas Giulia ficou tensa e sua mão disparou,
pressionando contra minha testa, me parando. Por um momento, tive
certeza de que começaria a rir. Essa situação era demais, mesmo para o
meu controle.
— O que você está fazendo?
— Estou tentando ajudá-la a relaxar.
Ela olhou para mim. — Mas por quê?
— Porque a maioria das mulheres gosta muito disso. Acho que
você também gostará.
O nariz dela enrugou como se eu fosse fazer algo desagradável. —
Então você vai me beijar lá em baixo?
Eu ri, não pude evitar. — Sim, eu vou te beijar lá em baixo,
lamber e chupá-la, e espero que você goste tanto quanto eu.
As sobrancelhas dela se ergueram. Abaixei minha cabeça em sua
coxa, sufocando outra risada. Sua pele era macia contra minha
bochecha, e meus olhos encontraram sua vagina perfeita mais uma vez.
Envolvi meus dedos em torno de sua mão e afastei-a da minha testa.
— Eu vou te beijar agora.
Eu me apoiei e me inclinei para perto. Giulia prendeu a
respiração, seu corpo ficando tão tenso que tinha certeza que ela se
partiria ao meio a qualquer momento. Meus lábios roçaram suas dobras
aveludadas, e ela se contorceu, respirando fundo.
Meu olhar disparou para ela. — Isso fez cócegas? — Eu
murmurei.
Os olhos de Giulia estavam fechados, e ela estava muito quieta. —
Não.
Eu beijei o mesmo lugar, aplicando um pouco mais de pressão.
Sua boceta cheirava ainda mais doce e absolutamente irresistível. Mais
uma vez, uma forte inspiração. Eu plantei beijo após beijo por toda sua
boceta, dando-lhe tempo para se acostumar com a minha atenção. Ela
não respondeu de maneira alguma, exceto por sua respiração irregular.
Eu não tinha certeza se ela estava gostando. Escovei minha palma ao
longo de sua coxa e apliquei uma leve pressão, querendo separá-la para
que eu tivesse melhor acesso, mas ela resistiu. Minha frustração
aumentou mais uma vez, mas a afastei. Dezoito. Jovem e inexperiente.
— Giulia, deixe-me.
Eu podia sentir suas pernas cedendo e, finalmente, a abri toda. A
sugestão de excitação cobriu sua abertura e alívio me encheu. Eu
mergulhei minha cabeça e corri minha língua pelas suas dobras
sensíveis. A mão de Giulia disparou novamente, mas desta vez ela não
empurrou; apenas segurou minha cabeça, seus dedos trêmulos. Eu
pairava sobre ela e usei a ponta da minha língua para circular seu
clitóris. Ela ofegou, os dedos se contraindo. Levei meu tempo tentando
descobrir o que ela gostava, mas ela estava muito quieta e tensa, o que
dificultou. Quando passei minha língua sobre seu clitóris
definitivamente funcionou. Sua respiração se aprofundou e seu corpo
respondeu à minha ministração, mas depois de quinze minutos, ficou
claro que ela estava nervosa demais para gozar. Beijei a parte interna
da sua coxa.
— Você acha que pode gozar?
Ela balançou a cabeça. — Não me desculpe. — Um
constrangimento agudo apareceu em seu rosto.
— Não se desculpe. Leva tempo. — Fiz uma pausa, sabendo o que
teria que acontecer a seguir. — Você está pronta?
Eu sabia que ela não estava, e não porque não tinha gozado. Ela
estava molhada, definitivamente tão molhada quanto a deixaria hoje à
noite, dadas as circunstâncias. Giulia engoliu em seco e deu um
pequeno aceno de cabeça.
Saí da cama e tirei minha cueca. Meu pau estava definitivamente
pronto. Cheirar, provar, vê-la enviara uma inundação de sangue direto
para ele.
— Oh merda, — Giulia sussurrou.
Minhas sobrancelhas se ergueram e, por um segundo, tive certeza
de que começaria a rugir de tanto rir. Eu sufoquei o impulso e me
ajoelhei na cama. — Você vai se alongar.
Sua expressão permaneceu duvidosa e pior... temerosa. Foda-se.
Nós tínhamos que acabar logo com isso. Se ela começasse a se
preocupar com todas as maneiras que isso machucaria, ela só ficaria
mais tensa.
7
Cassio
— Você toma a pílula? — Eu perguntei. Não era a coisa mais
romântica a se dizer em uma situação como essa, mas antes de hoje
não consegui fazer essa pergunta à minha esposa adolescente.
Um aceno rápido.
Eu subi em cima dela e guiei meu pau para sua abertura, mas ela
se encolheu. Eu queria rugir de frustração. — Giulia, — eu disse
implorando.
— Você pode me abraçar?
Meu coração pulou uma porra de batida. Eu balancei a cabeça e
me abaixei até os cotovelos, em seguida, coloquei um braço sob as
omoplatas da minha esposa e a abracei contra o meu peito. — Assim?
— Eu murmurei.
Seu rosto estava a centímetros do meu, e ela olhou para mim,
buscando minha ajuda, minha proteção, minha proximidade. Eu beijei
o canto da sua boca e depois o lábio inferior e superior quando movi
meus quadris para que minha ponta cutucasse sua entrada. Ela
prendeu a respiração. Acariciei sua franja da testa suada.
— Expire.
Ela o fez, e eu empurrei cerca de dois centímetros.
Seu rosto irradiou desconforto, e ela agarrou meu bíceps.
— Se for demais, diga, e daremos um jeito, — eu me ouvi dizer, e
queria me chutar, mas ela deu um pequeno sorriso agradecido, e pude
sentir suas paredes relaxar um pouco. Lentamente, deslizei mais fundo
nela, mesmo quando ela fechou os olhos e exalou. Ela era muito
apertada, e eu sabia que essa parte doía mais. Beijando sua têmpora,
avancei e deslizei todo o caminho. Ela se encolheu debaixo de mim e
ofegou, sua respiração irregular.
Estremeci, tentando ficar parado, e muito certo de que suas
paredes iam ordenhar meu pau a qualquer segundo. Porra, ela era
apertada. — Giulia? Como você está?
Ela olhou para mim. — Tudo bem, — ela disse trêmula. — É
estranho... senti-lo dentro de mim. Realmente cheia.
Eu sorri com a análise dela.
— Estou falando bobagem, não estou?
Eu balancei minha cabeça e acariciei sua bochecha, em seguida,
comecei a me mover, pequenas investidas superficiais que se tornaram
gradualmente mais fortes. Ela ficou tensa todas às vezes, mas não
chorou, não choramingou ou soluçou, e fiquei agradecido por isso. Não
demorou muito para eu chegar ao meu ponto de inflexão, e não me
incomodei em segurar, sabendo que ela ficaria feliz quando terminasse.
Meu corpo enrijeceu, minhas bolas se expandiram, e então atirei
meu esperma nela. Ela respirou fundo, e eu parei acima dela. Então
pressionei minha testa no travesseiro ao lado da sua cabeça. Ela estava
muito quieta debaixo de mim, e esperei por um soluço, choro, e
novamente o alívio me encheu quando não ouvi nada. Eu tirei muito
lentamente e saí de cima dela, mas fiquei perto. Ela virou de lado, de
frente para mim.
— Obrigada, — ela sussurrou.
Eu examinei seu rosto corado. — Pelo que? — Não poderia ser por
lhe dar um orgasmo porque eu definitivamente não o fiz, mas daria em
breve. Muitos deles.
— Por ser paciente e cuidadoso.
Eu fiz uma careta. — Por que eu não seria?
Gaia gostava de jogar a cartada da culpa, chorava muitas vezes
para me fazer sentir mal, mesmo quando eu tentava fazer tudo para ser
decente.
— As mulheres falam. Alguns homens não, porque isso lhes dá
uma sensação de domínio, outros porque gostam de machucar, e
alguns só querem ter certeza de que a mancha de sangue é grande para
que possam impressionar...
Surpresa me encheu com suas palavras. Ela parecia menos uma
menina então. — Eu não preciso mostrar meu domínio te machucando
durante o sexo. Eu sou Underboss, domino as pessoas diariamente. E
embora goste de machucar quando é necessário, não gosto de magoar
mulheres ou crianças. Quanto à última razão, talvez alguns homens
achem que uma grande mancha de sangue faz o público acreditar que
tem um pau enorme, quando na verdade isso mostra apenas que eles
não têm ideia de como trabalhar com esse pau.
Giulia riu. Então o sorriso dela se tornou provocador. — Você
sabe?
Uma risada baixa retumbou no meu peito. — Sei como trabalhar
meu pau? — Ela corou, mas assentiu.
— Eu acho que sei. Sei que hoje não foi agradável para você, mas
em breve será.
Ela inclinou a cabeça em consideração. — OK.
Olhei para o meu comprimento. Meu pau estava manchado de
sangue. Sentei-me e estendi minha mão para Giulia. — Você pode se
sentar por um momento?
Com uma pequena carranca, ela o fez. — Por quê? — Então seus
olhos se arregalaram e seu olhar disparou por seu corpo. — Oh.
— Só espere alguns segundos.
O nariz dela enrugou. — Isso é meio nojento.
— Eu sei. Mas é tradição. — Afastei os cabelos do seu rosto
novamente e Giulia me olhou com curiosidade. Seus olhos eram de um
azul surpreendente como um céu claro de verão e o nariz era levemente
arrebitado, o que lhe dava uma aparência tímida.
— Você me acha bonita? — Ela perguntou, prendendo o lábio
inferior rechonchudo entre os dentes.
— Sim eu acho. — Meu polegar acariciou as costas da mão dela,
que eu nem percebi que ainda estava segurando.
— Oh, — disse ela. — Eu não tinha certeza. Você não pareceu se
importar muito.
Era uma coisa boa eu ter aperfeiçoado meu rosto de pôquer ao
longo dos anos e um mal necessário na minha linha de trabalho. — Eu
me importo e te acho muito atraente.
— Hmm. Normalmente sou boa em perceber essas coisas. A
maioria dos homens é realmente óbvia quanto ao seu interesse. Eles
têm aquela aparência intensa como se quisessem te devorar.
Algo irritado e sombrio se enrolou no meu peito. — Isso acontecia
com frequência... dos homens te olharem assim? Como se quisessem te
devorar? — Apesar da minha melhor intenção, minha voz tinha uma
aspereza que não tinha antes.
Giulia inclinou a cabeça, me observando daquele seu jeito quieto.
— Ocasionalmente. Às vezes, homens que visitavam meu pai, às vezes
estranhos quando eu saía com meus guarda-costas. Não é como se
alguém já tivesse se aproximado de mim.
— Bom, — eu rosnei.
As sobrancelhas dela se ergueram. — Você é ciumento?
— Possessivo. Eu não compartilho. Em absoluto.
Ela riu.
— Isso é engraçado para você? Estou falando sério.
Ela revirou os olhos. Revirou. Seus. Olhos. Eu nem conseguia me
lembrar da última vez que alguém se atreveu a revirar os olhos para
mim.
— Você tem ciúmes dos homens que me observam de longe,
sabendo muito bem que me deu meu primeiro beijo na igreja hoje? Você
nunca teve que me compartilhar, nem vai.
— Você já deu a um homem esse olhar? — Eu questionei.
— Não, — ela disse sem hesitar.
— Uma educação protegida não te faz cega.
Ela apertou os lábios. — Eu nunca olhei para homens por tempo
suficiente para pensar sobre eles. Não parecia sensato, considerando
que não seria eu quem escolheria meu marido.
Isso era verdade. Ela não tinha poder nessa decisão.
Giulia
Cássio lançou as pernas para fora da cama. — Eu vou me limpar.
Meus olhos percorreram seu corpo musculoso, hipnotizados pelos
planos duros, pelos cumes de seu tanquinho e pelo V estreito de seus
quadris. Eu estava atraída pelo seu corpo, o que foi um alívio. Meu
olhar desceu ainda mais, e o sangue em seu pênis aqueceu minha
cabeça. Eu desviei o olhar. Eu estava observando por muito tempo de
qualquer maneira. Olhando para mim mesma, me encolhi ao ver
minhas coxas manchadas, uma mistura nojenta de sangue e esperma.
Deslizei para fora da cama, absorvendo a bagunça na roupa de cama.
Um pequeno som mortificado escapou de mim.
— Você está bem? — Cássio retumbou em algum lugar atrás de
mim.
Eu me virei, fazendo uma careta. — Nós realmente temos que
mostrar esses lençóis?
— Esse era o ponto de dormirmos juntos.
Ai. — Então, você só dormiu comigo por causa da apresentação
dos lençóis?
Agora que estávamos casados, eu queria que Cassio se sentisse
atraído por mim. Parecia um destino horrível passar a vida com alguém
que não suportava tocar em você. Eu definitivamente gostei da visão do
seu corpo. Seu toque ainda não era familiar e o sexo tinha sido
doloroso, mas não tinha sido o calvário que minha mãe e algumas de
minhas tias haviam feito parecer. Eu poderia imaginar apreciar muito,
especialmente a boca de Cassio entre as minhas pernas.
Cassio me olhou estranhamente, como se eu fosse uma criatura
desconhecida. Então ele balançou a cabeça com uma risada. — Eu sou
um homem.
Fui em direção a ele, também precisando de um banho. Eu me
sentia pegajosa e dolorida entre as minhas pernas. — Isso é uma
resposta? — Eu perguntei curiosamente.
Cassio entrou no banheiro e eu o segui. Seus olhos viajaram pelo
meu corpo, enviando um arrepio desconhecido pelas minhas costas.
Agora que ele me viu nua, realmente não vi motivo para me cobrir, e ele
não parecia se importar. Pelo contrário.
Acelerei quando senti algo escorrendo de mim e praticamente
pulei dentro do chuveiro. Suspirando, relaxei, feliz por ter evitado uma
bagunça.
— Você pode tomar banho primeiro, — disse Cassio.
— Podemos tomar banho juntos. — Eu corei. — Quero dizer, por
que desperdiçar água? Há espaço suficiente para nós dois.
Os cantos da boca de Cássio se contraíram. — Economizar água,
certo? — Ele entrou no chuveiro. Com ele lá dentro, não havia tanto
espaço quanto eu pensava, e de repente percebi que, apesar do que
havia acontecido, ainda éramos estranhos. Eu me concentrei no gel de
banho, tentando ignorar a presença de Cassio enquanto ensaboava meu
corpo. Era impossível. Cassio estava em todo lugar. Seu calor
chamuscou minhas costas. Seu cheiro viril ainda se agarrava a mim,
dominando o gel de banho.
Ele não disse nada, apenas se lavou. Pelo canto do meu olho, eu o
vi esfregar meu sangue do seu pau. Logo a água aos nossos pés era de
um rosa suave. Enquanto me limpava entre as pernas, estremeci com a
sensibilidade e dor.
— Deve melhorar em alguns dias, — disse ele.
Eu me virei um pouco para que pudesse olhar para o rosto dele,
sem esbarrar nele, o que nem fazia sentido, considerando que
estávamos muito mais próximos apenas alguns minutos antes. — Tanto
tempo? Achei que estaria bem amanhã.
A sombra do passado cruzou seu rosto, seus olhos oceânicos se
tornando tumultuados. O que havia acontecido entre sua esposa e ele?
— Veremos, — foi tudo o que ele disse e depois desligou a água. Ele
pegou uma toalha e me entregou antes de pegar uma para si. Ele saiu
do chuveiro e se secou.
Eu o observei enquanto envolvia a toalha a minha volta.
Fisicamente, tínhamos estado o mais perto possível para duas pessoas,
mas emocionalmente estávamos separados por mundos. Dividiríamos a
cama novamente, porque eu tinha visto o desejo no olhar de Cassio e
porque eu queria. Em um nível emocional, porém, seria difícil me
aproximar do meu marido, eu já sabia.
Ele foi para o lavatório e escovou os dentes. Observá-lo fazendo
isso parecia mais íntimo do que ficar nua na frente dele. Sua expressão
era reservada. Apenas brevemente durante o sexo foi qualquer outra
coisa. Saí do banheiro, dando-lhe privacidade. Eu já tinha passado pela
minha rotina noturna. Consegui manter meu cabelo seco durante o
banho e não queria escová-lo com ele no quarto. Como todas essas
atividades mundanas pareciam pessoais demais depois do que
acabamos de fazer?
Soltando a toalha no banco, peguei minha camisola do chão e a
puxei sobre a cabeça. Tentando ignorar a mancha no lençol, e ainda
vendo, porque simplesmente não tinha como não vê-la, deslizei para
debaixo das cobertas.
Eu estava cansada antes. Não agora. Meu corpo ainda estava
cheio de adrenalina. Quando Cassio surgiu dez minutos depois, usando
um pijama preto curto, meus olhos viajaram por ele. Muitos homens
ganhavam peso uma vez casado, não o suficiente para serem
desaprovados pelo Capo, mas o suficiente para encobrir todos os
músculos pelos quais trabalharam duro na juventude. Cássio não.
Cada centímetro dele era puro músculo. Nada de suave sobre este
homem, não seu corpo, expressão ou olhos. Se ele notou meu escrutínio
silencioso, não comentou. Em vez disso, ele se deitou, mas deixou
espaço suficiente para acomodar outra pessoa entre nós.
Não íamos nos aconchegar um contra o outro? Era algo que eu
desejava de um casamento.
Nos últimos anos, o aconchego estava ausente na minha vida. Eu
não tive permissão para ter um namorado, que poderia ter me dado, e
era velha demais para procurar esse tipo de proximidade com meu pai.
Minha mãe nunca foi do tipo que demonstrava afeto em nível físico,
para começar.
Eu esperava que o casamento abrisse portas para o carinho que
ia além do sexo. Eu queria ser abraçada e acariciada. Talvez tivesse sido
tola em pensar que Cassio era alguém que aceitaria isso.
Cassio virou a cabeça para mim, mas permaneceu de costas. — O
que foi? Você não precisa ter medo de eu te procurar novamente.
Cumprimos nosso dever.
Dever.
Honra. Dever. Eu tinha perdido a conta do número de vezes que
ouvi essas duas palavras na minha vida.
— Não é isso, — eu sussurrei. — Eu só... eu...
As sobrancelhas escuras de Cássio se uniram. — Eu não sou um
leitor de mentes, Giulia, e não tenho paciência para adivinhar seus
pensamentos.
Sua voz era áspera.
Lágrimas arderam nos meus olhos por sua rejeição.
Ele soltou um pequeno suspiro, se apoiou no cotovelo e olhou
para mim. — Você está com dor? Eu te machuquei mais do que
imaginei?
Claro que ele pensaria que tinha algo físico me incomodando.
— Giulia? — Sua mão forte tocou meu ombro nu, e eu estremeci
sob o toque gentil. Entendendo mal minha reação, ele afastou a mão,
mas eu a segurei.
— Podemos... — Eu não poderia pedir a um homem como Cássio
que se aconchegasse. Em vez disso, me aproximei até sentir seu calor,
meus dedos ainda segurando a mão dele. — Ficar próximos assim por
um tempo?
Por um momento, ele não reagiu, apenas me olhou com aqueles
olhos azul-oceano. Então, sem uma palavra, ele se deitou, mas desta
vez levantou o braço, abrindo um espaço para mim. Eu deslizei ainda
mais perto até que estava pressionada contra ele, meu rosto em seu
peito forte, uma das minhas pernas jogadas sobre sua coxa musculosa.
Ele cheirava bem, muito bem. Forte, quente e viril. Eu segurei minhas
mãos desajeitadamente pressionadas contra meus seios, sem saber
onde colocá-las. Cassio enrolou o braço em volta do meu corpo,
vagamente no início, mas depois com mais força quando soltei um
pequeno suspiro. Reunindo minha coragem, descansei uma mão em
seu peito. Logo meus dedos ficaram inquietos, curiosos.
Até este dia eu não tinha permissão para tocar em um homem,
para descobrir seu corpo. Eu preguiçosamente tracei o punhado de
cabelo em seu peitoral, percebendo que gostava da sensação disso. Na
mídia, eu só tinha visto caras com peitos lisos e tentei imaginar como se
sentiriam. Cassio era todo homem, forte e com pelos no corpo. Não que
ele fosse excessivamente peludo... não era. Meus dedos deslizaram mais
abaixo, sobre as cristas de seu estômago, seguindo a trilha de cabelos
até que cheguei a sua cintura.
Cassio agarrou minha mão. — Giulia. — Foi baixo, sombrio e
quase dolorido. Ele se afastou e inclinou a cabeça ao mesmo tempo em
que eu levantei a minha. Ele examinou meu rosto.
O que eu fiz de errado? Ele não gostava de ser tocado assim?
Eu senti o gemido mais do que ouvi. Estava à beira de uma risada
torturada. Eu pisquei, tentando desvendar meu marido. Ele levantou
minha mão e pressionou-a firmemente, com a palma contra o seu
esterno. — Ela fica aqui.
Ele abaixou a cabeça para o travesseiro e apagou as luzes.
— Me desculpe se fiz você se sentir desconfortável. Eu não quis te
fazer sentir assim.
Cassio grunhiu, quase uma risada. — Não me sinto
desconfortável e sei que você não pretendia me fazer sentir do jeito que
sinto. Esse é o problema. Agora durma. — O último foi uma ordem.
Desisti de tentar entender o significado de suas palavras. Eu
também não era uma leitora de mentes. Bocejando, me acomodei mais
firmemente contra ele e fechei os olhos. O silêncio se apossou de nós e
minha respiração finalmente diminuiu quando o cansaço me dominou.
Cassio ficou tenso. — Você vai adormecer assim?
— Você queria que eu dormisse.
— Eu quero. Do seu lado, não no meu braço.
Meu estômago revirou. Isso não deveria ter doído tanto quanto
doeu. Cassio era meu marido, mas apenas no nome. Eu não tinha
sentimentos fortes por ele ou sequer o conhecia. Sem dizer nada, com
medo de dar mais do que pretendia, me afastei o mais longe que pude.
Meu lado da cama estava frio, não quente como o de Cassio.
Engoli minha dor e meu desejo, tentando respirar uniformemente.
Ainda assim, lágrimas caíram dos meus olhos.
Eu podia ver o contorno da cabeça de Cássio e sabia que ele
estava me observando. O conhecimento de que a escuridão escondia
minha expressão dele me dava pouco consolo, porque eu tinha a
sensação de que ele sabia que eu estava chorando pela maneira como
minha respiração soava.
— Eu não consigo dormir com alguém perto de mim. Com
ninguém — ele murmurou.
Eu assenti, porque as palavras estavam fora de questão.
— Acho que é apropriado que minha segunda noite de núpcias
termine da mesma maneira que a primeira, com minha esposa
chorando na cama ao meu lado.
8
Cassio
Eu não era fã de contato físico à noite e muitas vezes nem sequer
compartilhei a cama com minha falecida esposa. Não que ela quisesse
me ter perto à noite. Ela nunca se preocupou em esconder sua
relutância em me ter perto dela, muito menos quando dormimos juntos,
a menos que houvesse algo que ela quisesse de mim.
Giulia pediu minha proximidade e eu a neguei.
A luz da manhã iluminou seu rosto inchado. Seus cílios
grudaram na pele com lágrimas secas. Ela estava perto, se aproximou
durante o sono até que estávamos quase nos tocando. Senti o desejo
irracional de tocá-la, e não de uma maneira sexual. Apoiado no meu
cotovelo, a observei dormir em paz. Como em muitas noites anteriores,
o corpo coberto de sangue de Gaia havia assombrado meus sonhos. Eu
quase nunca sonhei com as pessoas que havia matado, e ainda assim
minha esposa morta enchia minhas noites.
Giulia se mexeu, os lábios se abrindo em um suspiro suave.
Levantei-me e joguei minhas pernas para fora da cama, virando as
costas para ela.
A cama mudou. Olhei por cima do ombro para Giulia, que estava
sentada, esfregando o rosto emoldurado por cabelos bagunçados.
Percebendo minha atenção, seus olhos encontraram os meus. Ela
sorriu hesitante. A luz da manhã não foi gentil comigo, porque Giulia
parecia absolutamente adorável de uma maneira muito adolescente.
Dane-se tudo.
Eu fiquei de pé. — Precisamos nos preparar. As mulheres virão
pegar os lençóis em breve.
Giulia pegou meu relógio na mesa de cabeceira. — São apenas
oito horas. Você realmente acha que vão nos atrapalhar tão cedo depois
da noite de núpcias?
Provavelmente não, mas eu não tinha intenção de perder tempo
na cama. Marquei várias reuniões ao longo do dia, a mais importante
com Luca no almoço. Eu precisava aproveitar a oportunidade de tê-lo
na cidade. Peguei meu telefone na mesa de cabeceira e enviei a Mia
uma mensagem de que elas poderiam pegar os lençóis em trinta
minutos. Sua resposta intrometida chegou imediatamente.
Você nem vai dormir depois da noite de núpcias?
Fique fora do meu negócio, foi tudo o que escrevi de volta.
Desliguei o telefone, ignorando a avaliação de Giulia. Eu a peguei
me observando ontem à noite e agora esta manhã. A reação dela me
surpreendeu. Claro, foi uma surpresa agradável que ela parecesse
atraída pelo meu corpo e não horrorizada como Gaia.
— Mia e as outras chegarão em trinta minutos. Você quer tomar
banho primeiro? Enquanto isso, posso me barbear.
Giulia mordeu o lábio, olhando para longe antes de assentir. —
Tudo bem. — Ela afastou as cobertas e se levantou. Meus olhos a
observaram e, por um momento, pensei em dizer a Mia que elas
poderiam esperar, afinal. Giulia era incrivelmente linda, e a ideia de me
enterrar em sua boceta apertada mais uma vez era muito atraente, mas
a mancha de sangue nos lençóis me lembrou do por que isso não
aconteceria.
Quinze minutos depois, Giulia estava banhada e vestida, e fui em
direção ao chuveiro. Ela escolheu um dos vestidos que enviei para seus
pais, uma elegante peça vermelha de mangas compridas até os joelhos
que abraçava o corpo esbelto de Giulia. Ainda não a fazia parecer
próxima da minha idade, mas pelo menos não exatamente a
adolescente que ela era.
— Devo cobrir meus olhos inchados com maquiagem ou você quer
que as pessoas saibam que chorei?
Fiz uma pausa, um pé dentro do chuveiro. Virando para minha
esposa pairando na porta do quarto, eu fiz uma careta. — Eu não
queria que você chorasse. Por que eu gostaria que as pessoas
soubessem que você o fez?
Ela deu um pequeno encolher de ombros, analisando meu rosto.
— Eu achei que talvez você quisesse que as pessoas pensassem que me
machucou o suficiente para me fazer chorar.
Eu considerei isso. Os homens do andar de baixo tirariam
conclusões erradas e me temeriam por isso. Não era uma coisa decente
a considerar, mas os homens no andar de baixo não eram decentes, e
eu também não. — Eu sou temido pelo que é... e por uma boa razão. Eu
não quero minhas irmãs no meu pé como, sem dúvida, ficarão se virem
que você chorou, então cubra com maquiagem.
Ela me olhou por mais um momento, e eu não sabia por quê. Era
enervante.
— OK. Eu não quero atrapalhar seu banho. Sei que você estará
ocupado hoje.
A sugestão de desaprovação ecoou em sua voz. Ela não reagiu
quando eu lhe disse que passaria o dia em reuniões de negócios até
irmos para minha mansão e filhos no final da tarde. — Eu trabalho
muito, Giulia, e não vou me explicar para você. Como mulher, seu
único trabalho é criar meus filhos, mas não posso me permitir esse
luxo.
A raiva brilhou em seus olhos, mas ela se virou e saiu.
Eu não estava com disposição para considerar suas travessuras
adolescentes. Era melhor ela se livrar delas logo.
Quando saí completamente vestido com outro terno escuro de três
peças, quinze minutos depois, encontrei Giulia no sofá da sala de estar
da nossa suíte, digitando em seu telefone. Ela estava sorrindo
suavemente. Eu fui até ela. — Com quem você está falando?
Ela levantou a cabeça, as sobrancelhas se unindo. — Desculpe?
— Com quem você está falando?
Ansiedade cruzou seu rosto, mas não me importei se ela estava
incomodada comigo me elevando sobre ela. — Quem? — Eu rosnei.
— Sua irmã Mia.
Peguei o telefone e Giulia o liberou sem protestar.
Peço desculpas pela grosseria do meu irmão, porque sei que
ele nunca fará isso. Eu diria que é porque ele é um homem, mas sua
cabeça-dura não tem nada a ver com o cromossomo Y.
Giulia se levantou. — Eu te disse a verdade.
Examinei as mensagens anteriores para ver o que Giulia havia
dito à minha irmã, mas ela só escreveu que ainda precisava se
acostumar comigo depois que Mia perguntou se ela estava bem.
Giulia balançou a cabeça e suspirou. — A confiança é a base de
um casamento.
— Como você sabe? — Ela estava realmente tentando me dizer
algo sobre relacionamentos? —Eu acho que sei mais sobre o
funcionamento de um casamento do que você, garota.
Sua expressão brilhou com mágoa. — Gostaria de saber se Gaia
concordaria. — Ela fechou os lábios, os olhos arregalando-se.
A fúria explodiu em mim ao mesmo tempo em que uma batida
soou. Engolindo minha raiva, fui até a porta, feliz pela distância que
isso colocava entre Giulia e eu. Abri a porta, sentindo meu pulso
disparar nas têmporas.
O sorriso de Mia desvaneceu quando ela me viu. Seus olhos
dispararam para algo atrás de mim. — Tudo certo? — Ela sussurrou.
Abri a porta. Atrás de Mia, Ilaria, a mãe de Giulia, Aria e outras
mulheres esperavam a recuperação cerimonial dos lençóis. — Entre.
Pegue os lençóis. Eu não tenho a manhã toda.
— Rude como sempre, — Ilaria disse enquanto passava por mim.
Mia hesitou, o que também foi bom. Eu a puxei para o lado. — Vi o que
você escreveu para minha esposa.
Mia bufou. — Você a está espionando?
— Você ficará fora do meu casamento, Mia. Só direi isso uma vez.
Lembre-se do seu lugar. E acima de tudo, não fale com Giulia sobre
Gaia, entendeu?
Ela se afastou do meu aperto, depois assentiu. — Claro.
Giulia sorriu para as mulheres que lhe deram olhares
compassivos. Fui até minha jovem esposa antes que uma das mulheres,
especialmente Mia, pudesse envolvê-la em uma conversa intrometida.
Giulia tocou meu antebraço levemente. — Sinto muito por
mencionar sua falecida esposa, Cassio. Eu não quis aborrecê-lo.
Surpresa me encheu. Seus olhos e expressão eram sinceros.
Eu dei um breve aceno e coloquei minha mão na parte inferior
das costas dela. — Vamos. Vamos para a sala de banquetes, onde o café
da manhã será servido.
— Não devemos esperar que elas terminem? — Ela assentiu em
direção à porta do quarto. As vozes das mulheres eram um zumbido
baixo de fofocas.
— Eu não preciso ver isso.
Ela sorriu timidamente. — Você está certo.
Hesitei, a ponto de dizer mais, e levei Giulia para fora da nossa
suíte. Nossa descida de elevador se passou em silêncio, mas a tensão de
Giulia era palpável.
— O pior já passou, — eu disse.
Sua cabeça disparou e seus lábios tremeram. — Você está falando
sobre a nossa noite de núpcias?
Inclinei minha cabeça, considerando-a. Ela estava obviamente
lutando com diversão. — Você não precisa fingir que a noite não
abrigou grandes medos para você. Eu senti seu tremor.
— Isso me assustou, é verdade. Mas acabou e não foi tão
desagradável quanto achei que seria.
Minhas sobrancelhas se ergueram, sem saber o que fazer com a
honestidade da minha esposa. Mesmo que estivéssemos casados,
demorei a me acostumar com a maneira desprotegida que ela falava
comigo. — Isso é bom, suponho.
Ela se inclinou para mim com uma pequena risada. — Sim, eu
também acho.
As portas do elevador se abriram, interrompendo nossa estranha
conversa. Levei Giulia para a maior sala de banquetes, que já estava
cheia dos homens da minha família e de Giulia, bem como dos
membros mais importantes da Famiglia.
— Que comece o espetáculo da carne — Giulia disse baixinho.
Apertei o lado dela em aviso, mesmo tendo que reprimir um
sorriso. — Agora você é minha esposa e precisa agir de acordo. Não
posso me dar ao luxo de sujar minha imagem em público.
Ela ficou tensa. — Eu sei.
Eu não precisava me preocupar. Giulia havia herdado o talento de
sua mãe para conversar com as pessoas, até estranhos, mas, ao
contrário de Egidia, ela era encantadora e adorável, envolvendo todos
em torno de seu dedo com facilidade. Muitos homens a observavam de
uma maneira que me deixava tenso, mas nenhum se atreveu a apertar
sua mão.
Faro piscou para mim enquanto conversava com alguns de
nossos capitães. Eu ignorei e voltei minha atenção para a porta onde
minha mãe e a mãe de Giulia entraram com o lençol entre elas. Elas
foram para o lado da sala e colocaram o tecido sobre duas cadeiras.
Giulia soltou um pequeno som sufocado e suas bochechas
assumiram uma tonalidade vermelha no momento em que as avistou.
— Isso é humilhante.
Olhei para baixo. Eu não estava envergonhado, mas também não
gostava de mostrar esse vislumbre de nossa vida privada ao público.
Com Gaia, eu não tinha me importado, talvez porque era jovem e
ansioso para impressionar. — É um sinal de sua honra, nada para se
envergonhar.
— E um sinal de sua crueldade, não? — Houve uma pequena
contração na boca e um brilho surpreendente nos olhos, como se ela
tivesse feito uma piada secreta.
— Suponho que sim. Dada a sua idade, eu deveria ter tido
escrúpulos. Não ter tido é um sinal da minha natureza.
Depois que a primeira comoção e aplausos terminaram, Giulia e
eu fomos para a mesa com nossa família mais próxima, além de Luca e
sua esposa. A mãe de Giulia imediatamente a abraçou. Papai deu um
tapinha no meu ombro, observando meus olhos. O que quer que
estivesse preocupado em ver, não estaria presente em uma sala com
conhecidos.
Mia me abraçou, apesar da minha relutância em demonstrações
públicas de afeto. — Eu realmente espero que você tenha sido um ser
humano decente para essa garota.
Eu não tinha certeza de que minhas habilidades fossem decentes.
Não era da minha natureza, mas não tinha sido impaciente ou rude
com Giulia. — Não é da sua conta. — Ela estreitou os olhos. Eu tinha
perdido a conta das vezes que lhe disse isso, mas ela não cumpriu
meus desejos.
— Tudo bem? — Giulia sussurrou quando nos sentamos à
cabeceira da mesa.
Eu me inclinei mais perto. — Minha irmã está preocupada que eu
não tenha sido decente com você.
— Por causa dos lençóis? — O horror ecoou nas palavras de
Giulia.
— Por causa da minha natureza.
Giulia inclinou a cabeça de maneira curiosa. Seu cabelo cheirava
a um campo de morango no verão, e a vontade insana de pressionar
meu nariz nele se levantou dentro de mim. — Você foi decente. — Ela
tocou minha mão descansando na minha coxa com as pontas dos
dedos. Sentindo os olhos em mim, virei para a mesa. Christian, Felix e
meu pai assistiam com curiosidade. Minha expressão ficou tensa.
Giulia
Cássio obviamente se sentia desconfortável com qualquer tipo de
demonstração de afeto em público. Ele logo conversava com Luca e
colegas Underbosses, deixando-me à mercê de minha mãe intrometida.
Eventualmente, consegui me livrar dela e de minhas tias e me escondi
em um reservado nos banheiros.
Foi aqui que Mia me encontrou vinte minutos depois. — É
esmagador, não é? — Ela disse depois que saí e nós duas retocávamos a
maquiagem.
— É.
— Você está bem? Pode me dizer se não estiver. Cassio é meu
irmão, mas sou uma mulher antes de tudo.

Concordei, lembrando as palavras de Cassio e sua relutância em


envolver outras pessoas em nossa vida privada.
— Estou bem, mas obrigada.
Ela deu um pequeno sorriso. — Não deixe ele te transformar em
algo que não é. Nosso mundo precisa de garotas como você.
Dei-lhe um abraço rápido e, ao contrário de seu irmão, ela não se
importou e me abraçou de volta. Fiquei feliz por tê-la do meu lado, mas
precisava encontrar meu lugar na vida de Cassio sozinha. Ele não
toleraria mais nada.
***
Eram quase oito da noite quando finalmente chegamos à entrada
da mansão de Cássio, uma magnífica casa de três andares com colunas
brancas apoiando a varanda, caixilhos de janelas brancas e velhas
árvores tortas no gramado da frente. Cassio estacionou em uma das
garagens duplas à esquerda.
Ele saiu e abriu a porta para mim. Meu estômago vazio de
nervosismo. Esta era minha casa agora, e logo encontraria os filhos que
criaria. A mão de Cássio encontrou seu lugar na minha região lombar
novamente, enquanto me conduzia em direção à magnífica porta branca
da frente. Alguém de sua equipe reuniu meus pertences de manhã e os
trouxe para casa.
Eu soltei um suspiro trêmulo quando Cassio colocou a chave na
fechadura. Seus olhos direcionados para mim. — Esta é a sua casa.
Eu lhe dei um sorriso trêmulo, sabendo que ele estava falando
sério. No entanto, a julgar pela maneira como ele tinha lidado com tudo
até agora, suas regras seriam as únicas que ele gostaria que fossem
seguidas dentro dessas paredes. Eu teria que lutar por cada pedaço de
poder e liberdade, ele não entregaria livremente.
Ele abriu a porta e fez um sinal para eu entrar. Eu o fiz, tentando
descobrir o que estava cheirando enquanto examinava o chão de granito
branco e cinza. Latidos estridentes quase me deram um ataque
cardíaco, e uma pequena bola de pelo marrom avermelhado invadiu o
corredor e se prendeu na perna da calça de Cássio. Rosnando, o cão
pequeno começou a puxar o tecido. Pisquei e mordi meu lábio,
sufocando uma risada. Era uma visão ridícula demais para não ser
divertida.
— Porra! — Cassio rosnou. — Sybil, não lhe disse para manter o
maldito cachorro trancado?
Meu sorriso morreu. Ele se abaixou e tentou agarrar o pescoço do
cachorro, mas a pequena coisa arreganhou os dentes e mordeu seu
dedo. Fúria cintilou em seu rosto, e ele finalmente conseguiu agarrar o
cachorro e erguê-lo no ar. O cachorro ganiu uma vez e depois ficou em
silêncio nas mãos de Cassio. Meu marido parecia estar pensando matá-
lo com sua arma ou estrangulá-lo com as mãos fortes.
Toquei seu braço, apavorada pelo animal indefeso. — Não o
machuque. — Os olhos de Cassio se voltaram para os meus, ainda com
a mesma raiva neles, e afastei minha mão, mas permaneci firme.
Passos ecoaram e uma mulher alta e morena de cinquenta e
poucos anos veio correndo, depois parou abruptamente e xingou em
italiano, olhando para o chão. Ela pisou em cocô de cachorro, o que
explicava o cheiro que senti. Seus sapatos pretos agora estavam
cobertos com ele.
— É isso aí, — Cassio rosnou. — Amanhã essa coisa se foi.
— Sinto muito, Sr. Moretti. Entrei no quarto para limpar e ele
escapou. Tentei pegá-lo o dia todo, mas é muito rápido. E Daniele se
escondeu de mim novamente. Não sei... — Ela olhou na minha direção e
ficou em silêncio.
Cassio a ignorou e se afastou. Eu segui hesitantemente para uma
magnífica sala de estar com parquet espinha de peixe, depois observei
meu marido abrir a porta do terraço e largar o cachorro do lado de fora
antes de fechar a porta. O cachorro espiou pelo vidro.
— Você não pode fazer isso, — eu disse horrorizada.
Sybil me deu um olhar que dizia que eu deveria ficar de boca
fechada. Cassio, no entanto, ignorou completamente o meu comentário.
— Limpe a merda do cachorro, — ordenou Cassio a Sybil
enquanto se movia para um armário de bebidas, servia uma bebida e
afundava no sofá de couro cor de conhaque. Eu não conseguia desviar
os olhos do cachorro pequeno parado no frio de novembro com o nariz
pressionado na janela. Sybil se apressou a atender a ordem de seu
mestre.
Eu fiquei no meio da sala, sem saber o que fazer. Uma coisa era
certa: eu não deixaria esse cachorro morrer de frio lá fora. Cassio era o
dono desta casa, aos olhos da nossa sociedade, meu mestre.
Fui até a porta do terraço. — Não.
A palavra, não dita em voz alta, possuía autoridade absoluta.
Cássio estava acostumado a dar ordens em todas as áreas de sua vida e
esperava obediência inabalável.
Eu não olhei para ele. Se visse seus olhos afiados e rosto
poderoso, poderia perder minha coragem. Isso não iria acontecer. Este
era o começo de uma nova vida, e se eu o deixasse pisar em mim,
estaria condenada.
— Giulia, não. — O aviso ecoou em sua voz. Ou o que? Ele saiu
do sofá quando abri a porta e peguei a bola trêmula de pelo. O cachorro
permaneceu quieto enquanto eu o pressionava no meu peito. Eu podia
sentir pelos emaranhados de meses de negligência.
Cassio se elevou sobre mim, barrando meu caminho. Inclinei
minha cabeça para encontrar seu olhar furioso. — Essa coisa fica do
lado de fora. — Seus olhos eram duros, mas eu não desviei o olhar. —
Eu te dei uma ordem.
Uma ordem? — Parece que sou tão mal treinada quanto seu
cachorro. — As palavras de advertência da minha mãe sobre insolência
ecoaram na minha cabeça. Era tarde demais, não que eu tivesse feito
algo diferente.
O rosto de Cassio exibiu surpresa e raiva. — Coloque-o lá fora.
Não vou permitir que você o traga para dentro.
Permitir. Ordem. Eu era sua esposa, não sua escrava. Mas,
novamente, ele era Underboss e provavelmente não entendia a
diferença. — Se o cachorro não pode entrar, ficarei do lado de fora com
ele. Podemos nos manter aquecidos. — Eu me virei seguindo até uma
das espreguiçadeiras, mas o braço de Cassio disparou, me parando.
Eu estremeci. Pai nunca me bateu. Mãe o fez duas vezes. Não foi
propriamente a experiência que me fez estremecer, mas eu tinha visto
homens baterem em mulheres e crianças. Meus tios, em particular,
eram do tipo violento. Isso acontecia com frequência em nossos
círculos.
Cassio franziu a testa e seus dedos se fecharam gentilmente em
volta do meu cotovelo. Eu o olhei com curiosidade. — Esse
estremecimento foi desnecessário, e não quero que isso aconteça
novamente, certo?
— Você não quer que eu reaja dessa maneira ou não terei motivos
para reagir dessa maneira?
Um leve sorriso cruzou o rosto de Cássio antes que o olhar severo
voltasse. Ele se inclinou para que ficássemos ao nível dos olhos. — Você
nunca terá motivos para isso.
— Tem certeza disso? — Eu disse mais para incomodá-lo do que
qualquer outra coisa, mas minhas palavras foram suavizadas por um
pequeno sorriso.
— Absolutamente.
— Bom.
Sua expressão transmitia confusão. Eu era um enigma para ele?
— Agora coloque o cachorro no chão.
Meu sorriso aumentou. — Não.
Ele parecia incrédulo. Soltando meu cotovelo, ele segurou meu
queixo entre o polegar e o indicador e aproximou ainda mais nossos
rostos. Dessa vez não vacilei e pude ver que isso o agradou. — Eu te dei
uma ordem. Sou seu marido e minha palavra é lei.
— Eu sei. E se você insistir que o cachorro fique do lado de fora,
eu também o farei.
Cássio estreitou os olhos. Sua respiração continha a sugestão do
licor apimentado, e senti o desejo louco de prová-lo em seus lábios. —
Você realmente acha que eu acredito que você passará a noite no frio
por um cachorro?
Eu o encarei teimosamente.
Ele deu uma risada. — Eu acho que você pode realmente fazer
isso. Seus pais não mencionaram sua veia teimosa quando a
negociaram.
— Eles estavam muito ansiosos em me casar com o mais cruel
Underboss da Famiglia, — murmurei.
— O Underboss mais cruel, hein? É assim que eles me chamam?
— Eles o fizeram, e outras pessoas também.
— Por que seus pais lhe disseram algo assim sobre seu futuro
marido?
— Para me colocar na linha. Minha mãe temia que você me
espancasse até a morte se eu fosse insolente.
Algo no rosto de Cassio mudou, uma sombra do passado. — Eles
não deveriam tê-la assustado antes do nosso casamento.
— É uma mentira, então? — Eu sussurrei. Por alguma razão, sua
boca parecia ainda mais perto do que antes.
— Não há escala para julgar a crueldade de alguém.
— Isso significa que é verdade. — Ele não me contradisse. Eu não
conseguia ler o olhar em seu rosto. Agindo por impulso, eu me inclinei
para frente e escovei meus lábios nos dele, em seguida, joguei minha
língua para fora, saboreando o licor preso à sua boca. Fumegante e
doce.
Cássio ficou rígido, mas o olhar em seu rosto se tornou ainda
mais intenso do que antes. — O que foi isso? — Sua voz estava tão
rouca que eu podia sentir em todos os lugares.
— Um beijo? — Eu não tinha muita experiência, mas duvidava
que alguém pudesse estragar um simples beijo.
— Você está tentando me influenciar com seu corpo?
Meus olhos se arregalaram. — Não. Eu pude sentir o cheiro do
licor no seu hálito e fiquei curiosa sobre o sabor.
Cassio riu. — Você é uma garota estranha. — Sua boca torceu. —
Mulher.
Ele olhou para o cachorro nos meus braços. Ele estava
aconchegado contra mim pacificamente. Sem uma palavra, Cassio se
virou e voltou para o copo de uísque em cima da mesa. Entrei e fechei a
porta. Acariciando o cachorro, eu segui meu marido. — Qual o nome
dele?
— Loulou, — disse Cassio, um tom estranho em sua voz.
Eu parei ao lado dele. — Posso tomar um gole do seu uísque?
Os olhos de Cassio me perfuraram. — Você nunca tomou uísque
antes?
— Não. Meu pai não me permitia beber álcool. Tomei meu
primeiro copo no nosso casamento.
— Muitas estreias para um dia. — Um pequeno arrepio percorreu
minha espinha com o grunhido contemplativo. — Você não tem idade
suficiente para beber álcool.
Meus lábios se separaram em indignação. Ele estava falando
sério?
Ele bebeu o restante de sua bebida, e antes que eu pudesse dizer
algo sarcástico, ele segurou a parte de trás da minha cabeça e
pressionou seus lábios nos meus. Delicadamente a princípio, seus olhos
procurando os meus. Agarrei seu bíceps e fiquei na ponta dos pés, sua
permissão. Então ele realmente me beijou, sua língua acariciando a
minha, descobrindo minha boca. O sabor do uísque rodou na minha
boca, intoxicante, não tanto quanto o beijo. Deus, seu beijo me deixava
em chamas.
Quando ele se afastou, fiquei atordoada. Apenas Loulou se
contorcendo no meu outro braço me trouxe de volta à realidade.
Cassio olhou por cima da minha cabeça. — O que houve, Sybil?
Eu me virei. Sybil estava parada na porta, torcendo as mãos e
olhando para qualquer lugar, menos para mim. Ela deve ter nos pegado
nos beijando, e mesmo que não estivéssemos fazendo nada indecente
ou proibido, considerando que éramos casados, um forte
constrangimento tomou conta de mim.
— As crianças estão dormindo e já limpei. Precisa de mais alguma
coisa de mim?
— Não, você pode ir.
Sua voz mordaz me afetou de maneira errada. Mesmo que Sybil
trabalhasse para ele, isso não significava que ele tinha que soar como
um sargento. Sybil assentiu e com um sorriso fugaz para mim, ela saiu.
— Posso ver seus filhos?
As sobrancelhas de Cassio franziram. — O cachorro fica aqui e
temos que ficar quietos. Não quero que eles acordem.
— Onde devo colocar Loulou?
— Nós o trancamos em uma sala porque essa coisa não pode se
comportar.
Apertei meus lábios, seguindo Cássio, quando ele me levou para o
saguão e acenou para uma porta.
Abri e meu coração se apertou. Antes deveria ter sido um
depósito, a julgar pela pequena janela e prateleiras que revestiam as
paredes. Uma cesta rasgada, uma caixa de areia e duas tigelas vazias
eram a única indicação de que um cachorro morava aqui. Não havia
brinquedos. Peguei uma das tigelas e entreguei a Cássio. — Você pode
enchê-la com água?
Cassio olhou a tigela, depois para mim.
— Por favor. — As condições de vida de Loulou tinham que
mudar, e mudariam, mas hoje era apenas o meu primeiro dia. Eu teria
que ser inteligente sobre minhas batalhas contra o meu marido. Ele
pegou a tigela e desapareceu. Fui até a cesta rasgada e coloquei Loulou
no chão. Ela se enrolou em si mesma. Ela deve ter soltado sua
frustração na cesta se seu estado destruído fosse uma indicação. Não
era de admirar, considerando que ela provavelmente passava a maior
parte de seus dias sozinha neste quarto. O que aconteceu nesta casa?
Acariciei sua cabeça quando Cassio voltou com a tigela de água. Ele
largou e, no momento em que recuou, Loulou correu até ela e bebeu.
Eu me endireitei. Eu não aguentava mais. — Há quanto tempo ela
está trancada dentro desta sala?
A expressão de Cássio ficou tensa. — O cachorro está fora de
controle. Não quero merda e xixi em todos os lugares, para não
mencionar morder meus filhos e todo mundo.
— Como você espera que Loulou se comporte se ninguém cuida
dela? Ela não é uma máquina, é um ser vivo e, pelo que vejo, não foi
tratada como deveria. Se você tem um animal, precisa cuidar dele e não
tratá-lo como algo que pode colocar em um canto e retirar quando lhe
apetecer.
— Eu não queria o cachorro! Gaia quis, e então fiquei para lidar
com isso como todo o resto. — Ele fechou a boca como se tivesse dito
mais do que queria, respirando com dificuldade. Loulou se escondeu em
sua cesta com a explosão dele.
Eu me mantive firme. — Então por que você não deu Loulou a
pessoas que a querem? — Eu mantive minha voz calma. Rebater a raiva
de Cássio com a minha parecia uma escolha imprudente.
Cássio balançou a cabeça. — Vamos lá para cima. Eu tenho um
dia ocupado amanhã.
— Por quê? — Eu toquei seu antebraço.
— Porque Daniele perdeu a mãe. Ele não precisa perder isso
também!
— Eu achei que Loulou o mordesse.
— Ela morde, — disse Cassio. — E ela não tem permissão para se
aproximar dele.
— Então por que...
— Já chega. — A voz de Cassio poderia ter cortado o aço. Ele
acenou com a cabeça em direção à porta. Saí da pequena sala. Cássio
fechou, trancando Loulou mais uma vez.
— Sybil passeia com ela?
Cassio rangeu os dentes enquanto me guiava pelas escadas. —
Não. Tem aquela caixa de gatos no quarto.
— Ela precisa passear. Não é um gato.
Cassio me lançou um olhar que deixou claro que esperava que eu
calasse a boca neste momento.
— Eu vou passear com ela então. Você tem uma guia, certo?
Ele parou no patamar do segundo andar, uma veia em sua
têmpora pulsando. — Você não terá tempo para passear com o
cachorro. Você tem meus filhos para cuidar.
Os filhos dele. Ele fazia parecer que eu seria sua babá, com o
bônus adicional de dormir com ele.
— As crianças também precisam de ar fresco.
Ele me lançou um olhar condescendente, como se eu fosse uma
criança ilusória que precisava de repreensão. Ele não achava que eu
seria capaz de lidar com seus filhos, muito menos um cachorro, além
disso.
Talvez ele estivesse certo, mas um de nós tinha que tentar. Tinha
a sensação de que, por mais que Cassio controlasse seus soldados, sua
cidade e vida, parecia que sua própria casa e sua família haviam
escapado de suas mãos. Ele era incapaz de corrigir isso; talvez até
tenha desistido da esperança de que isso pudesse ser corrigido. E agora
aqui estava eu, sem um pingo de conhecimento sobre cães ou crianças
além do que eu havia lido nos livros, deveria lidar com tudo isso.
Nos meses desde o nosso noivado, eu temia nossa noite de
núpcias. Agora, parecia ingênuo que o simples ato sexual tivesse me
despertado tanta ansiedade. Compartilhar uma cama com Cassio era a
menor das minhas batalhas. Corrigir essa família, transformá-la na
minha família, era o desafio mais assustador que eu poderia imaginar.
Olhando nos olhos exaustos e cautelosos de Cássio, prometi a
mim mesma corrigir isso.
9
Cassio
Um incômodo zumbia sob minha pele. Giulia me olhava
calmamente, achando que sabia tudo. Era o beneficio da juventude,
acreditar que você sabia como o mundo corria e convicto de que poderia
moldá-lo aos seus ideais. Ela logo perceberia que os ideais eram apenas
tolices da adolescência.
— Vamos lá, — eu disse, não querendo liberar a frustração dos
últimos meses nela. Em ultima analise, foi minha culpa permitir esse
casamento, pensar que uma garota de dezoito anos poderia ser esposa e
mãe. A ideia de que Giulia poderia se tornar Gaia 2.0 revirou meu
estômago.
Giulia abriu a boca como se quisesse dizer mais, mas lancei-lhe
um olhar de advertência. Ela precisaria aprender quando calar a boca.
Ela franziu os lábios, mas permaneceu quieta.
Eu a levei ao quarto de Daniele primeiro. Abri a porta, mas não
acendi as luzes. A cama de Daniele estava vazia.
— Onde ele está? — Giulia sussurrou, preocupada, enquanto
atravessava o quarto em direção à cama.
Meu coração apertou. Girando nos calcanhares, saí e avancei pelo
corredor. Passos me seguiram, e Giulia apareceu ao meu lado.
— Cassio?
Eu não disse nada, não consegui.
A porta do último quarto à esquerda estava entreaberta, como eu
sabia que estaria. Eu a empurrei. A luz derramando iluminava a
pequena forma de Daniele na enorme cama king-size. Ele estava
encolhido em cima do edredom, meio coberto por seu próprio cobertor.
Respirei fundo, odiando a sensação de culpa murchando minhas
entranhas. Raiva em relação a era uma emoção que eu lidava melhor.
Eu podia sentir os olhos de Giulia em mim, a miríade de
perguntas que ela queria fazer. No silêncio do quarto, mesmo suas
palavras não ditas me frustraram. Ela deu alguns passos hesitantes em
direção a Daniele. Minha mão disparou, apertando seu braço com mais
força do que o pretendido. Ela estremeceu, olhando para mim de uma
maneira ferida que não tinha nada a ver com o meu aperto duro. Eu a
soltei imediatamente e passei por ela em direção à cama. Por um
momento, observei o rosto manchado de lágrimas do meu filho. Ele
tinha apenas dois, três em um mês, uma idade em que as lágrimas
ainda estavam de acordo. Em breve, elas não seriam mais.
Inclinei-me e o peguei cuidadosamente, tentando não acordá-lo.
Sempre que o acordava, ele se contorcia e começava a chorar
novamente. Ele não acordou, no entanto. Sua cabecinha inclinou-se
contra o meu peito enquanto o embalava contra meu corpo, o cobertor
envolvendo-o.
Giulia me seguiu sem dizer uma palavra enquanto eu saía do
quarto e carregava Daniele de volta para seu próprio quarto. Coloquei-o
em sua cama, o cobri e depois acariciei seus cabelos levemente.
Sentindo Giulia me observando da porta, me endireitei e fui até ela. Ela
deu um passo atrás para que eu pudesse fechar a porta.
Giulia examinou meu rosto, sua expressão cheia de compaixão. —
Ele sempre vai ao seu quarto à noite?
— Não é meu, — pressionei. — Era o de Gaia. Eu durmo no
quarto principal.
— Oh. — Confusão surgiu no rosto de Giulia. — Você não dividia
um quarto com sua falecida esposa?
Eu cerrei os dentes, tentando abafar minha raiva e pior, aquela
sensação pesada de tristeza. — Não. — Fui para o quarto de Simona.
Giulia correu atrás de mim. Ela não podia deixar para lá. Ela era muito
curiosa. — Porque você não queria dividir um quarto?
Eu olhei. — Não. Porque Gaia não queria dividir uma cama
comigo. Agora chega de perguntas. — Minha voz era áspera,
ameaçadora, um tom destinado a soldados que me desagradavam,
definitivamente não a minha esposa.
Virei-me da expressão magoada de Giulia. Minha mão esmagando
a maçaneta quando abri a porta. Sem esperar por Giulia, atravessei o
quarto e fui em direção ao berço. Simona dormia profundamente. Um
pouco da escuridão no meu peito se esvaiu, mas nunca toda. Eu não
conseguia me lembrar de uma época em que meus pensamentos não
eram dominados pela escuridão. Acariciei a bochecha gordinha da
minha filha com o polegar, em seguida, inclinou-me e beijei sua testa.
Eu estava me afastando quando Giulia falou.
— E o monitor de bebê?
Eu congelei. Ela estava certa. Esta noite era a primeira vez que
Sybil ou uma das empregadas não passaria a noite. Elas sempre
levavam o monitor durante a noite. O choro de Simona ainda me
acordava, e ela só se acalmava quando eu a consolava. Voltando ao
berço, peguei o monitor do aparador. Quando voltei para o corredor e
fechei a porta, disse: — Como você sabia?
Giulia deu de ombros. — Eu li sobre babás eletrônicas e, quando
vi ali, achei que precisaríamos. — Ela mordeu o lábio. — Você nunca
levou isso com você antes?
Eu olhei para o pequeno dispositivo. — Não. Gaia ou Sybil
ficavam com ele à noite... — Parei e estendi o monitor para Giulia. Ela
pegou com uma pequena carranca.
— Ele deve captar o mínimo som, mas, a menos que Simona
comece a chorar, você não precisa se levantar.
Giulia apenas assentiu, sem dizer nada quando eu podia dizer
que ela queria. Fiquei feliz por seu silêncio. Eu acenei com a cabeça
para o corredor. — Vamos para a cama. Preciso acordar cedo, e Simona
provavelmente nos acordará algumas vezes hoje à noite.
Guiei Giulia em direção ao quarto principal, me perguntando
quanto tempo ela iria querer dormir nele antes de se mudar para um
dos quartos de hóspedes. Acendi as luzes e acenei para Giulia entrar.
Ela passou por mim no enorme quarto. Ela olhou em volta, curiosa.
Suas três malas aguardavam ao lado da porta do closet.
— Eu disse a Sybil que você provavelmente iria querer arrumar
suas roupas.
— Sim, obrigada. Dessa forma, saberei onde tudo está — disse
ela, distraída, enquanto caminhava em direção à janela, olhando para
fora.
Estava escuro demais para ver muita coisa além do contorno
geral dos jardins. Ela parecia pequena, e tive que resistir ao desejo de
caminhar até ela e tocar seus ombros. Na noite passada, ela teve que
aceitar minha proximidade, mas não a forçaria novamente.
Limpei minha garganta, fazendo Giulia se virar. Seu olhar caiu na
cama king-size de madeira escura à esquerda. Sua expressão franziu
um pouco.
— Vou me trocar, — eu disse e fui para o banheiro.
Eu nem tinha certeza do que me deixava nervoso esta noite. Eu
fui muito machucado há quase um ano. Estava ficando cada vez mais
difícil suprimir o fluxo de emoções. Apenas uma vez soltei minha
frustração, e isso foi bom, muito bom. Isso levou a esse ponto, acabou
custando aos meus filhos à mãe deles. Tentando parar essa perigosa
linha de pensamento, comecei a escovar os dentes e me arrumar para
dormir. Uma cama que eu teria que compartilhar com outra mulher que
não me queria.
Giulia ainda escondia melhor seu ressentimento do que Gaia. No
entanto, ela não podia sentir nada além de ressentimento, considerando
que foi forçada a se casar comigo. Seus sentimentos em relação a dividir
uma cama comigo novamente esta noite estavam claros como o dia.
Apreensão. Ela não precisava se preocupar. Apesar da fome sombria
pela boceta adorável da minha jovem esposa, eu era um homem que
podia se controlar. Eu detestava a ideia de dormir com uma mulher que
não me queria novamente. Os anos com Gaia tinham sido ruins o
suficiente. Mesmo quando ela se aproximava de mim para fazer sexo, o
que só acontecia quando ela tinha segundas intenções, ela nunca quis
dormir comigo. Ela nem sequer pensava em mim quando eu a fodia.
Uma nova onda de fúria torceu meu interior. Cuspi a pasta de
dente na pia, depois lavei o rosto e vesti a calça do pijama. Minha raiva
não diminuiu quando voltei para o quarto. Giulia havia colocado uma
camisola de seda com minúsculos girassóis por toda parte. Ela estava
olhando para uma foto da areia branca tirada da minha casa de verão
em Long Beach Island em um lindo dia de primavera. Uma foto que
deveria chamar a calma dentro de mim.
Em vão. Não era razoável ficar furioso com sua escolha de
guarda-roupa, especialmente quando ela estava excepcionalmente
bonita em sua camisola, mas eu estava. — Eu não disse para você se
livrar dessas atrocidades de girassol?
Giulia deu um pulo e se virou. Os cabelos estavam em cachos
macios nos ombros nus. Seus olhos arregalados, tão azuis quanto o céu
na foto acima de sua cabeça.
— Perdão?
Mais raiva, que nem sequer era direcionada a Giulia, ainda rugia
alto dentro do meu peito desde que eu tinha visto Daniele na cama de
sua mãe. Toda noite ele ia lá, não importava quantas vezes eu lhe
pedisse para não ir.
— Enviei roupas novas para você. Espero que você as use.
Giulia levantou o queixo. — Embora compreenda sua necessidade
de eu parecer uma dama em público, não consigo entender por que não
posso usar as roupas que amo em particular. Só porque sou sua esposa
agora não significa que não sou mais eu. Não vou me tornar outra
pessoa apenas porque você não gosta de quem eu sou. Você escolheu se
casar comigo. Não pode me moldar na esposa que você quer. Não pode
controlar tudo, mesmo que ache que precisa.
O que ela sabia?
Eu andei em direção a ela.
Ela jogou a cabeça para trás para encontrar o meu olhar furioso.
Arrepios se espalharam por sua pele e seus mamilos endureceram,
pressionando contra o tecido fino de sua camisola.
— É assim mesmo? Eu controlo centenas de homens e uma
cidade inteira, mas você acha que eu não posso controlá-la? — Cheguei
mais perto, fazendo Giulia recuar contra a parede.
— Pare de me intimidar, — disse ela, tentando passar por mim.
Eu estiquei meu braço, apoiando minha palma contra a parede ao lado
de sua cabeça, enjaulando-a.
— Você vai me obedecer.
Ela olhou para o meu braço e depois olhou para cima. Ela se
aproximou até quase nos tocarmos, me tirando do sério.
— O que você fará se eu não obedecer ?
O maldito aroma de morango encheu meu nariz. Envolvendo um
braço em volta de sua cintura, eu a puxei em minha direção e abaixei
minha cabeça para um beijo duro. Ela enrijeceu em meu abraço, ofegou
em minha boca. Que porra eu estava fazendo?

Giulia
Eu congelei, pega de surpresa por sua súbita proximidade. Como
ele podia me beijar quando estava com raiva?
Ele se virou com uma expiração aguda e recuou alguns passos
antes de me lançar um olhar cauteloso. — Você não precisa ter medo.
Não vou te forçar a nada. A noite passada foi necessária, mas não vou
procurá-la novamente até que você queira que eu faça.
Ele parecia cansado de novo e como se estivesse certo de que eu
nunca iria querer. O que havia acontecido entre sua esposa e ele?
Empurrei o pensamento dela para o fundo da minha mente, e com ele o
desconforto que o acompanhava.
Eu deveria dizer alguma coisa, mas fiquei impressionada, pela
situação, pelo beijo que ainda ecoava em meus lábios, pela expressão
nos olhos de Cássio. Eu senti como se estivesse presa a uma corrente,
que girava cada vez mais rápido, me deixando desorientada. Ontem de
manhã eu era eu, uma garota de dezoito anos que amava arte e Pilates.
Agora eu era esposa, madrasta, a dama da sociedade ao lado do
Underboss. Com todos os meus novos papéis, ainda havia espaço para
mim?
Cássio olhou para mim, balançando a cabeça lentamente, como
se minha expressão lhe desse uma resposta para uma pergunta que ele
nem tinha feito. Ele foi até a cama e sentou. Seus ombros largos e
costas eram cobertos por longas e finas cicatrizes verticais que eu não
havia notado antes. Muitas delas.
Eu me aproximei dele para ver melhor. Cassio não disse nada,
apenas olhou para mim. Apontei para uma das cicatrizes e a toquei
levemente, mas afastei minha mão depois de um momento.
— Você pode tocá-las, — disse Cassio calmamente, mas sua voz
tinha uma nota mais ousada. Passei a ponta dos dedos sobre as
cicatrizes nas omoplatas e nas costas. Alguns pais torturavam seus
filhos para fortalecê-los. Cássio era forte e brutal. Seu pai era o motivo
disso? — Quem fez isto? Seu pai?
Cássio balançou a cabeça. O jeito que ele estava me olhando me
fez corar. Eu nem tinha certeza do por que. — Quando eu tinha mais ou
menos a sua idade, alguns dos meus homens e eu fomos capturados
pela Bratva. Eles me açoitaram antes de passarem para outros métodos
de tortura.
Minha boca ficou seca com o tom clínico dele. — Meu Deus, isso é
horrível. — Afundei-me ao lado dele na beira da cama. Seu cheiro
almiscarado me fez querer me inclinar para mais perto, passar o nariz
ao longo de sua pele e prová-lo. Que pensamento ridículo.
— Por que você achou que meu pai fez isso?
— Porque é assim que o Homem Feito fortalece seus filhos. Você
conhece meus tios... abusar dos filhos é o esporte favorito deles.
Os olhos de Cassio se demoraram na pequena cicatriz no meu
joelho, em seguida, subiram para aquela na minha coxa e uma no meu
braço. Elas não eram proeminentes, mas sentados tão perto quanto
estávamos, não podiam ser perdidas.
— Tenho uma no meu ombro também, — eu disse, torcendo para
mostrar a cicatriz lá. — Quatro cicatrizes. Não é muito em comparação
com as suas.
Algo em seu olhar fez meu pulso acelerar, algo escuro à espreita
em sua profundidade. — Essas cicatrizes, — ele murmurou. — Seu pai
as criou?
Oh. Agora entendi o olhar. — Não, — eu disse rapidamente e sem
pensar, coloquei minha mão na dele. Seus olhos cortaram para nossas
mãos e depois voltaram para mim. — Ele nunca me bateu. Ele não faria
isso. Ele me adora. — Isso soou fútil, mas era a verdade. Meu pai
certamente era um homem violento, mas não em casa, não comigo e
com minha mãe.
Cassio riu. — Eu posso ver por que ele o faz. — Mordi o lábio,
surpresa com as palavras dele. — Quem te deu essas cicatrizes então?
— Quando eu era criança, adorava escalar árvores. Tínhamos
algumas árvores altas e velhas em nosso jardim. Eu adorava escalá-las.
Eu não deveria, mas escapava o tempo todo. Uma vez, não prestei
atenção suficiente e caí. Eu quebrei alguns ossos e me cortei em um
arbusto de espinhos embaixo da árvore. É isso aí. Papai cortou todas as
árvores depois disso.
— Você faz parecer que Felix é um bom pai, o que contradiz a
opinião que reuni sobre ele como um ser humano em geral.
Não fiquei ofendida por suas palavras. Papai não tinha o respeito
de seus colegas Underbosses. Christian se queixou disso mais de uma
vez. — Ele também não gosta muito de você.
Cassio riu, uma risada profunda, o que me fez sorrir. — Ele me
deu você. Que maneira estranha de me mostrar seu desdém.
Nossos braços roçaram levemente. Ele era tão quente, tão alto,
tão forte. Com a barba por fazer, a mandíbula quadrada e as maçãs do
rosto afiadas, ele era o epítome da masculinidade. Eu sempre me
considerei uma garota que gostaria do tipo hipster, o nerd de óculos, o
sofisticado jogador de xadrez. Eu estava tão errada porque o corpo de
Cassio apertou todos os botões certos. Meus olhos se demoraram na
tatuagem da Famiglia em seu peito, bem em cima de seu coração.
Nascido em sangue, jurado em sangue.
Entro vivo e saio morto.
Eu tracei as intrincadas letras, nem mesmo pensando nisso. Seu
cabelo do peito fez cócegas nas pontas dos meus dedos e enviou uma
emoção a cada extremidade nervosa do meu corpo. Cassio congelou ao
meu toque, mas seus olhos me queimavam. Eu o queria, queria sentir
seu corpo forte em cima de mim novamente, sua barba por fazer
arranhando minhas coxas, seus lábios quentes entre minhas pernas.
O calor me inundou.
Eu olhei para cima. O peito de Cássio arfava. Ele não se mexeu.
Ele estava esperando eu dizer algo, fazer algo, mas não sabia como.
Mais uma vez, essa sensação de estar sobrecarregada me atingiu.
Eu deixei cair minha mão.
Cássio pigarreou. — Eu tenho que levantar cedo. Deveríamos
dormir.
— Sim, — eu disse rapidamente, depois fiquei de quatro para
rastejar para o meu lado da cama.
A expiração aguda de Cássio me fez estremecer, percebendo meu
movimento impensado. Eu praticamente projetei minha bunda e me
ajoelhei de quatro ao lado dele. Eu praticamente podia ver a restrição de
Cassio se rompendo. Com um gemido, ele passou um braço em volta do
meu quadril e deu um beijo na minha nádega antes de me puxar em
cima dele. Meus lábios já estavam abertos com surpresa quando a
língua dele mergulhou na minha boca. Sua mão grande cobriu a parte
de trás da minha cabeça, me segurando no lugar.
Meu pulso palpitava bem entre minhas pernas no calor ardente
do beijo de Cassio, na sensação de suas coxas musculosas sob minha
bunda e na crescente pressão de seu desejo por mim.
Um grito estridente estourou nossa bolha. Nós nos separamos.
Cassio olhou para o monitor do bebê.
— Simona.
Eu saí do seu colo. Minhas pernas pareciam borracha e minha
calcinha grudava em meu centro.
Minha excitação evaporou no momento em que percebi que era
meu trabalho consolar o bebê chorando e fazer o que mais fosse
necessário em uma situação como essa.
10
Cassio
Giulia olhou para mim com os olhos arregalados. Meu cérebro
estava trabalhando mais devagar que o normal. Seu gosto permaneceu
na minha língua, e minhas coxas ainda estavam quentes da sua linda
bunda. Apesar da minha promessa de manter distância, eu
praticamente a arrastei para o meu colo na primeira chance que tive.
Ela não resistiu. Porque ela me queria, ou porque temia me recusar?
Os gritos de Simona cresceram em intensidade. — Ela
provavelmente está com fome.
— OK? — Giulia parecia um cervo nos faróis.
Suspirei e levantei, reorganizando meu pau para que não fosse
tão óbvio. — Vamos lá, eu vou te mostrar tudo. — Giulia colocou uma
túnica e me seguiu. Eu estava descendo as escadas para preparar a
mamadeira, mas Giulia congelou. — Não devemos consolá-la antes de
descer para a cozinha?
Eu considerei isso, então assenti devagar. Sybil sempre preparava
a mamadeira enquanto eu cuidava de Simona. Depois que Sybil a
alimentava, eu voltava para a cama.
Giulia e eu fomos para o quarto de Simona e entramos. Acendi as
luzes. O rosto de Simona estava enrugado com seus gritos, sua pele já
ficando vermelha. Seus gritos me rasgaram. Ela sempre foi uma
chorona, mas desde a morte de Gaia, ficou pior. Agora, cada um de
seus gritos parecia soar com um tom de acusação, e a culpa pesava nos
meus ombros.
Fui até o berço e peguei Simona, segurando-a em meus braços.
Ela se aquietou apenas brevemente. Suspirando, voltei para a porta
onde Giulia estava pairando com uma expressão incerta. — Você não
sabe nada sobre crianças, certo?
Ela hesitou. — Apenas o que eu li.
Era disso que eu suspeitava. Seus pais fizeram parecer que ela
era uma babá experiente, mas é claro que tinha sido tática. Balançando
Simona suavemente, desci as escadas, Giulia logo atrás de mim. Eu só
esperava que Daniele não acordasse também. Não poderia confortar os
dois, não que ele me deixasse confortá-lo.
Abafando minha frustração, entrei na cozinha. Fazia um tempo
desde que preparei uma mamadeira, mas Sybil já havia organizado tudo
para a preparação.
Eu balancei a cabeça em direção às mamadeiras e à fórmula. —
Você tem que preparar a mamadeira.
Os olhos de Giulia se voltaram para mim. — Eu nunca fiz isso.
Suspirei e estendi Simona para ela. — Então você terá que
segurá-la enquanto mostro como fazê-lo.
Giulia olhou para minha filha, engolindo em seco. O
constrangimento encheu seu rosto quando ela encontrou meu olhar, e
eu sabia o que ela diria antes dela falar. — Eu nunca segurei um bebê
na minha vida.
Por um momento, senti o desejo de atacá-la verbalmente, mas o
afastei. Giulia tinha ainda menos a dizer sobre casar comigo do que eu.
Não era culpa dela não saber algo sobre ser mãe. — Não é difícil.
Apenas estenda os braços e a pegue.
— E se eu a deixar cair? Ou machucá-la? Ou...
— Giulia, vai ficar tudo bem. Você não a derrubará e não a
machucará.
Giulia assentiu e finalmente estendeu os braços. Coloquei Simona
neles, e Giulia imediatamente a embalou no peito. — Oh, ela é mais
pesada do que eu pensava.
Eu pairei ao seu lado para ver se ela poderia lidar com isso, mas
Giulia só tinha olhos para Simona. Ela parecia aterrorizada e um pouco
perdida. Então Simona fez o que sempre fazia quando alguém, menos
eu, minhas irmãs ou mãe a segurava; ela começou a berrar, seus
pequenos braços e pernas se debatendo enquanto tentava se afastar da
estranha.
Os olhos de Giulia se arregalaram, assustados, enquanto ela
procurava meu olhar por ajuda.
Suspirando, fui até as mamadeiras. — Tente consolá-la. Ela
precisa se acostumar com você. — Simona nunca havia aceitado Sybil
ou as outras criadas. Se o mesmo acontecesse com Giulia, meses de
noites sem dormir se tornariam anos e minha filha ficaria sem uma
figura materna em sua vida. Era uma opção que eu não queria
imaginar.
— Shh... Shh. — Giulia balançou Simona, mas mesmo de longe
pude ver sua ansiedade, e Simona provavelmente também podia sentir.
O choro não cessou. Se possível, ficou ainda mais intenso. Eu me movi
mais rápido, preparando a mamadeira, tentando não deixar os gritos
estourar minha paciência. Eu queria ligar para Felix agora e lhe dizer
que ele se arrependeria de mentir para mim, que encontraria uma
maneira de fazê-lo pagar. A melhor maneira, é claro, de cobrá-lo seria
anular nosso casamento, porque ele me enganou com a promessa de
uma figura materna. Com a mamadeira, fui até Giulia, que parecia
estar quase chorando. Mas seria absolutamente desonroso cancelar o
casamento neste momento, e não apenas isso. Nada neste mundo me
faria desistir de Giulia agora que a tinha. Talvez ela não fosse a mãe que
meus filhos precisavam, mas porra, ela era o que eu ansiava.
No momento em que tirei Simona de Giulia, seus ombros
relaxaram em alívio. Simona se acalmou em meus braços e aceitou a
mamadeira, me olhando com olhos marejados, as bochechas gordinhas
manchadas.
— Sinto muito, — disse Giulia. A culpa enchendo sua expressão.
Eu não disse nada. Lentamente, voltei para o quarto de Simona.
Giulia ficou quieta. Eu deveria dizer algo, dizer-lhe que melhoraria, mas
não tinha certeza se era verdade.
Giulia me observou o tempo todo em que eu alimentei minha
filha. Simona estava calma enquanto a embalava contra meu peito. —
Devo tentar segurá-la novamente? — Ela perguntou, incerta.
— Não, — eu disse. Eu não aguentaria outro ataque de choro.
Giulia assentiu lentamente, olhando para o outro lado. O silêncio
se apossou de nós, só perturbado pelos sons de Simona tomando sua
mamadeira. Quando ela finalmente terminou, meus olhos ardiam de
exaustão. Tentei colocar Simona de volta no berço, mas no momento em
que o fiz, ela começou a lamentar novamente.
Com um pequeno suspiro, fui até a cadeira de balanço no canto e
sentei. A coisa gemeu guinchou com o meu peso. — Você pode ir
dormir. Eu não preciso de você.
Giulia estremeceu como se eu tivesse lhe estapeado. Ela se virou,
saiu e silenciosamente fechou a porta.
Eu balancei, olhando minha filha que parecia bem acordada. Esta
seria outra noite sem dormir.
***
Simona finalmente adormeceu, então consegui dormir duas horas
antes que meu alarme tocasse às seis. Gemendo, sentindo-me cansado,
endireitei-me na cama. Giulia sentou-se também. Assim como após a
nossa primeira noite juntos, seus olhos estavam inchados de tanto
chorar. Talvez nosso vínculo estivesse condenado da mesma forma que
meu vínculo com Gaia.
— Bom dia, — disse ela, colocando uma mecha de cabelo atrás da
orelha e endireitando a franja. — Eu não ouvi você vir para a cama.
— Era tarde. Simona não adormecia.
Giulia mordeu o lábio. — Sybil vai estar aqui hoje, certo?
Eu assenti. — Você não precisa se preocupar. Você não terá que
ficar sozinha com meus filhos ainda. Sybil mostrará como cuidar deles
até que você saiba o que fazer. Mas o principal trabalho de Sybil é
limpar e cozinhar.
— Tudo bem, — ela disse suavemente.
— Eu vou me arrumar. Seus guarda-costas chegarão as sete para
que eu possa apresentá-los antes de sair para o trabalho.
— Eles foram guarda-costas da sua falecida esposa?
A fúria ardeu no meu peito. — Não. — O que era principalmente a
verdade.
Giulia saiu da cama, mas seus olhos estavam em mim. — Quando
você estará em casa hoje à noite?
— Eu não sei. — Entrei no banheiro e fechei a porta. O banho
quente não fez nada para dissipar o pesado sentimento de exaustão.
Enquanto Giulia se arrumava, vesti meu traje de três peças
habitual antes de ir para o quarto de Daniele. Como esperado, ele não
estava lá dentro. Eu o encontrei na cama de Gaia, ainda de pijama,
olhando para o tablet. — Daniele, você sabe que não deveria estar aqui.
Ele não reagiu, exceto por endireitar os ombros pequenos e
projetar o queixo. Fui até ele e o peguei. Ele se contorceu no meu
abraço, mas não o coloquei no chão.
— Já chega, — eu grunhi. Minha paciência havia acabado depois
da noite passada. Ele só se debateu mais. Meu peito se apertou em uma
mistura de desespero e frustração. — Daniele, pare agora!
Ele congelou e Giulia também, que estava assistindo do ponto
dela na porta do nosso quarto.
Simona começou a chorar no quarto. Segundos depois, o
cachorro começou a latir uma tempestade no andar de baixo. Parei e,
por um momento, com certeza me perdi. Engolindo em seco, fui até
Giulia e coloquei Daniele na frente dela.
— Ajude-o a se vestir e não permita que ele passe o dia todo no
tablet. Eu cuido da Simona. — Não esperei pela resposta dela.
Dando as costas para o rostinho acusador do meu filho, fui até
minha filha. Uma vez no quarto dela, descansei minha testa contra a
porta fria por alguns segundos antes de finalmente me sentir em um
estado de espírito para consolar minha garotinha.
Giulia
Eu fiquei congelada, olhando para o menino. O que acabara de
acontecer? Daniele lutou contra o aperto de Cássio como se estivesse
com medo dele. E por um momento, Cassio parecia como se estivesse
prestes a perder o controle.
Loulou continuou latindo no andar de baixo, mas Simona
finalmente se acalmou, provavelmente porque Cassio a havia tirado do
berço. Lembrando-me da bagunça da noite passada, ergui meus ombros
e me agachei diante do menino.
— Olá, Daniele. Eu sou Giulia.
Daniele olhou para mim com olhos miseráveis chocolate ao leite.
Seu cabelo loiro caramelo era uma bagunça emaranhada e parecia ter
nós em alguns lugares, como se não fosse penteado adequadamente há
muito tempo.
— Que tal prepará-lo para o dia?
Ele não reagiu, apenas me olhou. Meu estômago apertou. Esse
garoto estava sofrendo. Sua mãe havia morrido apenas alguns meses
atrás e seu pai estava obviamente oprimido pela situação. Eu não sabia
o que tinha acontecido, não sabia a extensão do trauma de Daniele,
mas era óbvio que ele precisava de ajuda. Ele parecia magro também.
Eu me endireitei e estendi minha mão. — Você vai me mostrar o
seu quarto? — Nada. Ele olhou para o tablet na mão e o ligou. Uma
espécie de jogo com balões coloridos apareceu. Eu não queria carregá-lo
à força até seu quarto como Cassio teria feito. Isso não me ajudaria a
conseguir a confiança do garoto.
— Daniele, por favor, me ajude? Eu sou nova aqui e preciso que
você me mostre seu quarto. Você pode me ajudar? — Eu esperei com a
mão estendida.
Daniele não pegou minha mão ou levantou os olhos do tablet,
mas foi em direção ai seu quarto. Eu o segui para dentro. Ele afundou
na cama, o tablet no colo.
Olhando em volta, vi um guarda-roupa no lado direito. Tudo era
em tons neutros: as paredes, os móveis, os tapetes, exceto os
dinossauros coloridos de pelúcia nas prateleiras e em sua cama. Eu
teria que fazer algo sobre isso. Na minha pesquisa sobre crianças,
encontrei imagens de belos desenhos à mão para creches.
Depois de alguma procura, finalmente encontrei uma calça jeans
e um moletom. A maioria das roupas dentro das gavetas era para
temperaturas mais quentes e a maior parte das roupas de inverno que
achei parecia pequena demais para Daniele. Voltei para ele e me
ajoelhei na sua frente, inclinando a cabeça para ver seu rosto. Ele
estava focado na tela, mas brevemente seus cílios tremeram. — Você
pode se vestir?
Eu não sabia quando as crianças aprendiam coisas assim.
Quando Daniele não reagiu, peguei seu tablet. Ele soltou um grito de
raiva e se virou. — Daniele, precisamos vesti-lo.
Peguei o tablet e Daniele se jogou em mim, me pegando de
surpresa. Da maneira que eu estava ajoelhada, não tive chance de me
preparar. Eu me desequilibrei e caí de costas com Daniele em cima de
mim enquanto lutava comigo pelo tablet. Suas unhas arranharam
minha bochecha.
— Chega! — Cassio rugiu e o peso de Daniele saiu de cima de
mim. Puxei para uma posição sentada, ainda atordoada. Cássio estava
em cima de mim, segurando Daniele contra o seu lado, restringindo os
braços trêmulos do menino. — Eu disse chega! — Daniele congelou no
aperto de Cassio. A expressão de Cássio era estrondosa. Engoli em seco
e me levantei lentamente. Os olhos de Cassio se lançaram para minha
bochecha, que latejava. Toquei o local e as pontas dos meus dedos
estavam manchadas de sangue.
— Maldição, — Cassio disse severamente, sua voz tremendo com
uma emoção que não pude entender. Ele olhou para o garoto agora
imóvel em seus braços. Daniele não era o único que estava sofrendo.
Ele foi até uma mesa de troca que eu nem tinha notado antes e colocou
Daniele sobre ela. Peguei o tablet do chão e coloquei na cama antes de
me aproximar de Cassio. Estendi as roupas que havia escolhido para
Daniele.
Cassio assentiu com a cabeça para a mesa. Coloquei as roupas
em cima dela enquanto observava Cassio despir Daniele, que ainda
usava fraldas. Surpresa tomou conta de mim. Ele não deveria ser
treinado no penico com quase três anos?
— Você consegue trocar uma fralda? — Cassio perguntou, mas
sua voz tinha um tom que sugeria que ele sabia que a resposta era não.
Eu balancei minha cabeça. — Eu posso aprender.
A boca de Cassio se afinou em uma linha. Ele trocou a fralda
rapidamente, e Daniele não se contorceu, apenas teimosamente olhou
para o lado. Depois disso, Cassio vestiu o filho. Como eu suspeitava, as
roupas estavam prestes a serem muito pequenas. Não muito largas
porque ele era magro, mas definitivamente muito curtas. Cássio colocou
Daniele no chão e o garoto foi até o tablet imediatamente.
— Por um tempo ele não precisou de fralda, então... — Cassio
ficou em silêncio.
Então Gaia morreu.
— É por isso que ele está tão magro e não fala?
Cassio engoliu em seco e sua expressão endureceu. — Sim. Veja
se você pode fazê-lo comer mais do que algumas migalhas de comida.
Cassio examinou meu rosto, seus olhos demorando na minha
bochecha arranhada mais uma vez. — Isso foi um erro.
Eu. Ele quis dizer que eu era um erro, porque não era o que ele
esperava. Mas ele e sua família também não eram o que eu esperava.
Tantas coisas precisavam ser consertadas nesta casa. Daniele, o
menino com um trauma por causa da morte de sua mãe e possível
envolvimento de seu pai. Simona, que chorou no segundo em que a
toquei. Loulou que nunca havia aprendido a ser um cachorro de família.
E Cassio, que lidava com demônios que eu não tinha ideia.
Cassio esfregou a mão sobre a barba por fazer e suspirou. — Este
não é um dos vestidos que comprei para você. Você não pode usar isso
quando encontrar seus guarda-costas.
Eu olhei para baixo. Eu usava meia-calça preta, uma minissaia
preta plissada com suspensórios e um suéter de cashmere amarelo. Não
era chique, mas certamente bom o suficiente para um dia em casa. —
Não vejo por que preciso me arrumar para eles.
Os olhos de Cassio brilharam. — Giulia, não teste minha
paciência. Não agora. Eu não me casei para ter outro filho teimoso para
lidar.
Cerrando os dentes contra uma resposta rápida, eu me virei. Eu
não queria brigar com Cássio, mas não mudaria para um daqueles
vestidos esnobes quando não havia absolutamente nenhuma razão para
fazê-lo. Eu não fui longe. Um braço envolveu meu estômago e me puxou
bruscamente para trás, então fui pressionada contra um corpo duro. A
palma de Cássio pressionou contra minha barriga, me segurando no
lugar enquanto ele se inclinava. — Você vai se trocar agora.
O baixo comando vibrou através do meu corpo de uma maneira
que me emocionou e assustou.
— Qual é o seu problema?
— Meu problema é que você continua me desobedecendo e que
sua saia é muito curta quando não estou por perto.
Eu ri. Eu não pude evitar. Nem minha mãe considerava minhas
roupas muito ousadas ou sexy, e ela era conservadora. A minissaia
podia ser curta, mas as meias eram opacas, e meu suéter certamente
não gritava sexy.
— Eu não estou brincando, — Cassio rosnou.
Eu ri de novo. — Você está sendo irracional.
Cassio me virou, um braço em volta da minha cintura, o outro
segurando a parte de trás da minha cabeça. Não era um gesto íntimo e
amoroso. Era domínio. — Não lute comigo sobre isso. Não nisso. Não
quero você perto de homens nessa saia quando eu não estiver com você.
Entendido?
Seus olhos ardiam com possessão furiosa. Eu provavelmente teria
dito mais, mas o som do jogo de Daniele me lembrou de que ele estava
no quarto atrás de nós.
— Entendido, — eu disse. — Agora me solte.
Ele deu um passo atrás. Eu me virei e entrei no nosso quarto
para me trocar.
Quando desci de calça comprida e uma blusa folgada enfiada na
cintura, Cassio assentiu satisfeito. Eu senti como se estivesse usando
uma fantasia. As roupas eram desconfortáveis. Elas não eram eu. —
Meus homens estão esperando no meu escritório para conhecê-la.
— E Simona? Onde ela está?
— Com Sybil na cozinha. Depois que eu te apresentar seus
guarda-costas, você precisa trazer Daniele para cá. Ele não pode ficar
no quarto o dia todo.
— Eu preciso ir comprar roupas. Nada serve nele.
— Então faça isso. Domenico e Elia vão acompanhá-la.
Com a mão nas minhas costas, ele me levou pelo corredor até
uma enorme porta de madeira. Quando passamos pela sala em que
Loulou estava trancada, ela latiu, fazendo com que a expressão de
Cássio se apertasse mais uma vez.
Seu escritório oferecia uma vista deslumbrante dos jardins,
belamente conservados como se pertencessem a uma mansão no
interior da Inglaterra e não a uma casa de família. Não parecia que o
jardim fosse usado. Dois homens estavam sentados em poltronas largas
em frente a uma elegante mesa de carvalho. Ambos levantaram no
segundo que Cassio e eu entramos na sala. Cássio manteve a mão nas
minhas costas enquanto apontava para o homem mais velho. — Este é
Domenico. — O homem parecia estar na casa dos sessenta anos, com
cabelos grisalhos curtos. Parecia ter servido nas forças armadas, costas
retas, camisa perfeitamente passada, expressão vazia. — É um prazer
conhecê-la, senhora Moretti.
Sra. Moretti. Olhei para Cassio, meu marido. A ficha realmente
não havia caído, ainda não. — E esse é Elia. — Meu olhar seguiu o do
meu marido, em direção ao segundo homem, e ele era o completo
oposto de Domenico. Primeiro, ele era jovem. Em torno dos vinte anos.
Ele tinha cabelos castanhos claros e ondulados, com um estilo
descontraído. Suas roupas acentuavam um corpo musculoso e seu
sorriso era fácil. Era descontraído, quase charmoso, mas ainda com o
respeito necessário.
— Prazer em conhecê-la. — Cassio olhou para mim.
— Prazer em conhecê-lo também, — eu disse rapidamente. Eu
estava surpresa. Domenico era exatamente como eu esperava que meus
guarda-costas parecessem, considerando o quão ciumento Cassio
parecia ser. Elia definitivamente não era. Talvez isso explicasse por que
Cassio não queria que eu usasse a minissaia. No entanto, parecia
improvável que ele escolhesse um homem como meu guarda-costas em
que não confiava absolutamente. Cassio amava o controle. Ele tinha
certeza de seu poder. Ou talvez quisesse confirmar a extensão de seu
controle, e esse era o seu teste. A pergunta era: quem ele estava
testando? Elia ou eu.
11
Giulia
Cassio saiu logo depois de me apresentar aos meus novos guarda-
costas. Eu achei que ele iria tomar café da manhã com as crianças e eu,
mas aparentemente ele nunca tomou. Ele me assustou quando se
inclinou para um beijo de despedida. Não achei que ele fosse o tipo de
homem de demonstrações públicas de afeto, mas talvez esse beijo fosse
para mostrar domínio. Ainda assim, seus lábios nos meus pareciam
agradáveis.
Quando a porta da frente se fechou atrás dele, fiquei no saguão,
me sentindo um pouco perdida. Eu podia sentir os olhos de Elia e
Domenico em mim enquanto pairavam alguns passos ao meu lado,
esperando ordens.
Eu era a dona desta casa agora, responsável por duas crianças
pequenas e um cachorro. Tentando não entrar em pânico, sorri para
meus guarda-costas. Um sorriso quase sempre salvava a situação. —
Eu vou tomar café da manhã com as crianças. Depois disso, podemos ir
às compras. Gostariam de se juntar a nós no café da manhã ou vocês
tem uma sala onde preferem descansar até que eu precise dos seus
serviços?
Domenico assentiu. — Há um posto de guarda no local...
— Gostaríamos de acompanhá-los no café da manhã — Elia o
interrompeu. Domenico franziu a testa, mas não disse nada. Elia
estabeleceu contato visual comigo. Ele era amigável e aberto. Domenico
definitivamente agia como o guarda-costas mal-humorado.
— Tudo bem. Por que vocês não vão em frente... — eu parei. —
Vocês sabem onde o café da manhã geralmente é servido?
Elia sorriu.
Domenico apenas balançou a cabeça.
Eu dei um sorriso envergonhado. — Ok, então, vou para a
cozinha encontrar Sybil.
Gaia costumava comer na sala de jantar, mas a sala era grande
demais, formal demais para o meu gosto. A cozinha, no entanto, tinha
um estilo de casa de campo, clara com grandes janelas e uma longa
mesa de madeira que mostrava traços de uso.
Simona rolava pela cozinha em seu andador, enquanto Sybil fazia
uma espécie de café da manhã com ovos e linguiça. Simona me olhou
criticamente, mas estava ocupada girando rodas coloridas na bandeja
na frente de seu andador.
— Por que vocês não vão em frente e sentam enquanto encontro
Daniele? — Eu disse. Domenico e Elia afundaram nas cadeiras ao
mesmo tempo.
— Ele não toma café da manhã. Ele geralmente se esconde
quando tento pegá-lo.
Virando-me para Sybil, eu disse: — Vou trazê-lo até aqui, não se
preocupe. Você já passeou com Loulou?
— Não, eu nunca faço. Ela tem uma caixa.
— Vou deixá-la no jardim até ter tempo de acompanhá-la mais
tarde.
Sybil virou-se para mim, de olhos arregalados. — O mestre não
quer o cachorro no jardim.
— Ele colocou Loulou lá ontem à noite então não parece se
importar.
— Não, não. Aquilo foi para punir o cachorro, mas ele não deve
fazer xixi no jardim.
— Bem, isso vai mudar agora. — Elia e Domenico me encararam
com curiosidade. Eu lhes dei outro sorriso antes de subir.
Tinha a sensação que sabia como tirar Daniele do quarto. Quando
entrei, ele havia sumido. Também não o encontrei no antigo quarto de
sua mãe, mas ouvi um som debaixo da cama. — Daniele? Vou deixar
Loulou sair para o jardim para que possa correr um pouco. Você quer
se juntar a nós?
Eu esperei e depois de alguns minutos, uma cabeça loira escura
apareceu debaixo da cama. Ele levantou e me olhou desconfiado, o
tablet apertado contra o peito.
Estendi minha mão. — Venha. Tenho certeza que Loulou mal
pode esperar para ver o jardim.
Ele não pegou minha mão, mas me seguiu escada abaixo. Eu
parei na frente dele quando abri a porta da prisão de Loulou. Ela estava
parada bem na frente dela. O chão atrás dela estava coberto de xixi e
cocô. Suspirando, me abaixei e a peguei.
Daniele me observou, de boca aberta. Acariciei o pelo de Loulou e
seu rosto se encheu de saudade. Lembrando as palavras de Cassio
sobre ela morder, decidi não deixá-lo tocá-la por enquanto. Ambos
precisavam se curar antes de realmente se tornarem amigos.
Daniele deu um passo ao meu lado enquanto eu atravessava a
sala até as portas francesas. O ar frio de novembro atingiu meu rosto.
Ficando do lado de dentro, coloquei Loulou no terraço. Por um
momento, ela não se mexeu, apenas levantou o nariz e deixou o vento
tocar seu pelo. Então ela partiu. Meu coração pulou uma batida
pensando que ela estava tentando fugir. Em vez disso, ela apenas
correu, torcendo e girando como uma lebre. Ela correu e correu e
correu, como se estivesse delirando com sua nova liberdade.
Daniele ficou perto de mim, seguindo tudo com admiração
infantil. Agachei-me ao lado dele, mesmo com o tecido desconfortável da
minha calça dificultando. — Ela está feliz, viu?
Ele assentiu, mas não tirou os olhos de Loulou. Daniele e eu
ficamos assim por quase dez minutos, e Loulou só parou uma vez para
fazer xixi antes de correr novamente. Mas eu estava ficando com frio.
Levantando, enfiei dois dedos entre os lábios e assobiei. A cabeça de
Daniele se virou para mim, sua boquinha aberta.
Eu assobiei novamente, mesmo que Loulou já estivesse trotando
na minha direção. — Você quer aprender a assobiar assim?
Daniele assentiu lentamente.
— Então eu vou te ensinar.
Loulou abanou seu rabo, hesitante, mas manteve alguns passos
entre Daniele e ela. Eu não sabia se alguma coisa havia acontecido ou
se ela nunca havia aprendido a lidar com crianças, mas esperava poder
consertar ambos.
Daniele e eu entramos na cozinha. O ambiente cheirava a bacon e
café recém-feito, e meu estômago se contraiu imediatamente. Eu não
tinha comido muito ontem à noite, muito nervosa antes de vir para
minha nova casa. Agora estava morrendo de fome. Loulou parou alguns
passos atrás de nós, com o rabo entre as pernas, obviamente
sobrecarregada. Eu sabia como era isso...
Sybil balançou a cabeça. — Isso não é bom. O mestre não vai
gostar.
Eu apenas sorri. — Obrigada por nos fazer café da manhã. —
Simona já estava sentada em uma cadeira alta, mas havia uma
segunda ao lado.
Sybil colocou a travessa sobre a mesa e pegou Daniele, que
começou a gritar. Apesar de sua luta, ela pegou o tablet dele e tentou
empurrá-lo em sua cadeira alta. Domenico levantou-se como se para
ajudar a contê-lo.
— Não, — eu disse com firmeza. Ambos me olharam. Elia
permaneceu me observando.
— Ele não come se não estiver confinado à cadeira, — disse Sybil.
Tirei Daniele dela, o que não foi fácil devido a sua luta, então o
coloquei em uma cadeira. — Você quer uma cadeira de menino grande?
Ele se aquietou. Então seus olhos dispararam para o tablet.
— Não, — eu disse suavemente. — Você pode pegar seu tablet
depois do café da manhã, mas nenhum de nós está jogando enquanto
come. Você é um garoto grande, Daniele. É por isso que você não pode
brincar durante as refeições e por que está autorizado a sentar em uma
cadeira de adulto.
Seus olhos encontraram os meus e por um momento. A tristeza
neles parecia grande demais para alguém tão pequeno. Engoli. Sem
pensar, acariciei sua cabeça. Ele parou. Limpando a garganta, eu me
endireitei e empurrei a cadeira um pouco mais perto da mesa. — Você
pode pegar uma almofada? — Eu pedi a Domenico. Ele desapareceu e
voltou alguns minutos depois com uma almofada.
— Eu tenho que levantá-lo para que Domenico possa colocar a
almofada na cadeira para que você fique mais alto, ok?
Daniele deu um pequeno aceno de cabeça. Agarrei-o debaixo dos
braços e o levantei, depois rapidamente o coloquei na almofada. Agora
sua cabeça estava nivelada com a mesa.
Sentei-me ao lado dele. Sybil me deu um pequeno aceno
agradecido antes de se voltar para Simona, que se recusou a ser
alimentada com a colher.
— Comam, — eu disse aos meus guarda-costas antes de pegar
um pouco da travessa e colocar no meu prato. — Você quer
compartilhar um prato comigo? — Eu perguntei a Daniele, estendendo
um garfo para ele. Após um momento de consideração, ele aceitou.
Perfurei uma fatia de linguiça e a enfiei na boca. — Está bom. Prove.
Daniele só cutucou a comida com o garfo. Logo Loulou pairou
debaixo da mesa, obviamente esperando por restos. Antes que eu
pudesse detê-lo, Daniele jogou uma fatia de salsicha no chão, que
Loulou devorou de uma vez.
— Daniele! — Sybil exclamou, mas eu levantei minha mão.
Daniele projetou o queixo e um vislumbre de seus olhos me disse
que ele estava prestes a recuar para si mesmo se eu não fizesse algo.
— Se você quer alimentar Loulou, também precisa comer. O que
acha disso? Para cada mordida que você der a ela, você precisa comer
uma também?
Daniele considerou isso por um momento antes de dar um rápido
aceno com a cabeça, depois pegou a menor fatia de linguiça do prato e a
empurrou na boca. Ele mastigou e engoliu, depois jogou outro pedaço
para Loulou.
Sybil suspirou. — O mestre não vai gostar disso. O cachorro não
deveria estar na cozinha, muito menos pegar comida da mesa.
Não era o ideal, mas se essa barganha fizesse Daniele comer, eu
aceitaria até descobrir por que ele agia dessa maneira e poder corrigir
isso. Eu quase ri. Como eu corrigiria crianças traumatizadas? Um
cachorro negligenciado?
Tentando. Era tudo o que eu podia fazer, e tentaria, porque
Simona, Daniele e Loulou, e talvez até Cassio precisassem de mim.
***
Depois do café da manhã, Loulou, saciada por mais linguiça e
ovos do que um cachorro pequeno deveria, enrolou-se debaixo da mesa
para dormir. Domenico e Elia foram em frente para preparar os carros
para a nossa viagem de compras enquanto Sybil estava ocupada
limpando o quarto de Loulou, que não serviria para isso a partir de
hoje. Queria que ela fizesse parte dessa família.
Fiquei sozinha na cozinha com Daniele, ainda empoleirado na
almofada, agora com o tablet no colo, e Simona, que se contorcia na
cadeira alta. Essas duas crianças agora eram minhas para cuidar. O
peso da minha responsabilidade estava diretamente sobre meus ombros
enquanto eu os observava. Não me sentia mãe. Será que eles me
aceitariam? Talvez eu devesse diminuir minhas expectativas e começar
a me tornar amiga delas. Esse era o primeiro passo.
Aproximei-me de Simona e sorri. Ela me olhou com curiosidade.
— Olá, Simona, eu sou Giulia. — Um pouco da aveia de banana que
comera no café da manhã estava grudada em sua bochecha. Peguei um
pano de prato e o molhei com cuspe antes de limpar a pele de Simona.
Deus, eu estava me transformando em minhas tias. Eu sempre odiei
quando elas limpavam algo com sua própria saliva. Agora era eu.
Simona se contorceu, mas não chorou. Marquei isso como uma
pequena vitória.
— Pronto, — declarei. — Agora precisamos tirá-la desta cadeira e
nos aprontar para uma viagem de compras. — Agarrei-a por baixo dos
braços, tirei-a de dentro da cadeira, depois a balancei no meu quadril
como eu tinha visto outras pessoas fazerem. Simona ficou calada, mas
seus olhos se arregalaram; ela ainda não estava certa sobre mim. Pela
primeira vez, Daniele não estava olhando para a tela. Seu olhar intenso
estava fixo em mim e Simona.
— Você não precisa se preocupar com sua irmã, Daniele. Eu vou
cuidar de vocês dois.
Sybil suspirou da porta. — Eles são pequenos demais para
entender tudo o que você está lhes dizendo. Talvez você deva explicar
menos. Você é a adulta e não precisa justificar suas ações para eles.
Eu fiz uma careta. Era óbvio que ela achava que eu era outra
criança para cuidar. Eu era jovem e inexperiente no que se tratava das
crianças, mas também deveria ser a nova patroa da casa e um modelo
para essas crianças. Eu tinha que ser firme. — Obrigada por sua
contribuição, Sybil. Mas como criamos Daniele e Simona é apenas da
minha conta e de Cassio.
Após um momento de silêncio atordoado, Sybil deu um breve
aceno de cabeça. — Claro. — A desaprovação ainda escorria de todos os
poros dela, e realmente não a culpava. Devia ser estranho ter alguém
tão jovem quanto eu como sua patroa.
— O café da manhã estava absolutamente delicioso. Obrigada por
isso, — eu disse como uma oferta de paz. Não queria Sybil como minha
inimiga. Eu precisava de toda a ajuda que conseguisse.
Surpresa cruzou o rosto de Sybil. Então ela assentiu, e uma
pitada de orgulho cintilou em seus olhos.
Com Simona no meu quadril, estendi minha mão para Daniele. —
Venha, vamos fazer compras. Vamos comprar sapatos novos e
camisetas legais. — Daniele olhou de volta para o tablet.
Procurando uma maneira de convencê-lo, meus olhos se fixaram
em Loulou, que dormia embaixo da mesa. — Nós vamos comprar coisas
novas para Loulou também. Você não quer me ajudar a escolher os
melhores brinquedos para ela?
A cabeça de Daniele se levantou e ele pulou do banquinho
imediatamente.
— O tablet tem que ficar aqui. Você precisa realmente prestar
atenção para poder conferir todos os brinquedos.
Daniele hesitou, o tablet pressionado contra o peito. Então,
lentamente, ele o colocou na cadeira e veio em minha direção. Simona
estava puxando minha franja com curiosidade. Daniele não pegou
minha mão, mas me seguiu até o hall de entrada onde Elia estava
esperando por nós.
— Você precisa de ajuda? — Ele apontou para Simona.
— Na verdade sim. Não posso calçar os sapatos e ajudar Daniele
com a jaqueta dele quando a estou segurando.
Elia sorriu e veio em minha direção. Quando ele pegou Simona de
mim, seus dedos roçaram minha mão. Por alguma razão, não parecia
um acidente. Simona começou a choramingar no momento em que ele a
segurou, e mesmo que seu choro me incomodasse, eu estava
secretamente feliz por ela não ter chorado enquanto estava em meus
braços. Eu rapidamente me vesti e encontrei uma jaqueta para Daniele
antes de finalmente partirmos.
Eu estava presa entre as duas cadeiras de criança na parte de
trás do Cadillac, enquanto Elia e Domenico estavam sentados na frente.
Quando fui às compras no passado, levou duas ou três horas no
máximo, mas com duas crianças pequenas, as coisas eram muito
diferentes. Acabei desistindo de experimentar e apenas segurei as peças
na frente delas, esperando que servissem. Apesar do choro, foi muito
divertido comprar roupas de criança. Havia tantas peças fofas que até
meus ovários explodiram. Eu mal podia esperar que Cassio visse,
mesmo que estivesse um pouco preocupada com a reação dele aos
bonitos vestidos que comprei para Simona. Um deles tinha botões de
girassol.
Para Daniele, comprei alguns moletons com citações de irmão
mais velho que, quando lhe contei o que diziam, o fizeram sorrir um
pouquinho.
Seis horas, dez ataques de choro, três fraldas trocadas (que
provaram ser extraordinariamente complicadas) e dez sacolas de
compras depois, voltamos para casa. As duas crianças adormeceram no
caminho para a mansão e nem acordaram quando as carregamos para
dentro. Simona nos meus braços e Daniele nos de Elia.
Depois que os colocamos na cama, Elia me seguiu de volta para
baixo. — Você tem um talento especial com crianças.
— Obrigada, — eu disse. Eu ainda não tinha certeza se ele estava
sendo amigável... ou mais. Definitivamente algo estava errado.
— Loulou! — Gritei. Um arranhão soou atrás da porta do depósito
seguido de latidos. Suspirando, eu abri a porta. Sybil deve tê-la
trancado novamente. Já era muito mais tarde do que eu havia
planejado. Talvez Loulou tivesse feito xixi dentro de casa novamente. Eu
precisava descobrir um cronograma que me permitisse cuidar das
crianças e de Loulou. Eu a deixei sair para o jardim, Elia sempre ao
meu lado. Eu lancei-lhe um olhar curioso. — Você trabalha para a
Cassio há muito tempo?
— Como guarda-costas? Menos de um ano. Mas tenho feito
outros trabalhos para ele por quase dez anos.
— Você também era segurança de Gaia?
O rosto de Elia se fechou de uma vez. Ele acenou com a cabeça
em direção ao jardim. — O cachorro deveria cavar um buraco?
Minha cabeça girou. — O que? — Loulou estava realmente
cavando um buraco, metade do seu pequeno corpo já desaparecendo no
chão.
Eu corri para fora. — Não! Loulou, não.
Ela olhou para cima e continuou como se nada tivesse
acontecido. Eu a peguei, fazendo uma careta quando vi como ela estava
suja, e agora eu também estava.
Voltei para casa. Choveu terra no piso e em mim. O pelo de
Loulou estava além da salvação, isso estava claro. — É hora do banho.
Para minha surpresa, Loulou não brigou comigo quando a
coloquei na banheira. Ela apenas ficou lá e deixou acontecer. Depois do
banho e da secagem com a toalha, peguei a tesoura que comprei e me
acomodei no chão do hall de entrada com Loulou no colo. Era o
ambiente que parecia mais fácil de limpar. Não havia tapetes. No
começo, quando levei a tesoura para perto de seu corpo, ela se
contorceu, mas eventualmente, quando percebeu que eu estava
tentando ajudá-la, relaxou e me deixou cortar o pelo. O pelo
emaranhado tinha que deixá-la com coceira. Quando terminei, ela tinha
metade do tamanho anterior e parecia incrivelmente adorável. — Feito,
— eu disse e a soltei.
Por um momento, ela não se mexeu. Então ela correu em direção
a sua nova cesta que eu havia montado na sala e se jogou para dentro
antes que começasse a se remexer alegremente, as pernas minúsculas
no ar enquanto desfrutava da sensação de ar em sua pele. Apenas uma
polegada de pelo permaneceu, mas eu tinha a sensação de que logo
cresceria.
Olhando para as minhas roupas, cobertas de pelo e sujeira, decidi
me limpar também.
Subi correndo as escadas e vesti roupas mais confortáveis. Meias
pretas acima do joelho , saia plissada e o suéter amarelo.
Imediatamente, me senti mais como eu.

Cassio
Depois de verificar nosso mais novo laboratório de drogas e um de
nossos cassinos subterrâneos, fui para a casa dos meus pais porque
meu pai havia me pedido uma reunião. Claro, eu sabia do que se
tratava.
Giulia.
Antes de sair do carro, enviei uma mensagem para Elia. Ele me
ligou logo depois. — Como tá indo?
— Ela está insegura ao meu redor. Ela parece perceber que algo
está errado, mas acho que ainda não sabe o que fazer comigo. Ela é boa
com as crianças e o cachorro.
— Ela é?
—Muito paciente. Simplesmente adorável.
Todo mundo usava essa palavra para minha esposa e, caramba,
ela era realmente adorável. — Hmm. Não dê em cima dela muito rápido.
Isso pode fazê-la desconfiar.
— Tudo bem, chefe.
Desliguei e saí do carro. A porta da casa dos meus pais se abriu
antes que eu tivesse a chance de tocar a campainha. Eu olhei para
minha mãe. — Você está olhando pela janela?
Ela encolheu os ombros. — Eu só estava me perguntando o que
você estava fazendo no carro.
— Trabalhando, mãe. Eu estou sempre trabalhando.
— Mesmo agora, pouco depois de se casar com aquela garota?
— O nome daquela garota é Giulia e pare de chamá-la de garota.
Isso me faz sentir velho.
Mamãe tocou minha bochecha. — Você não é velho.
Eu saí do alcance dela. — Onde está o pai?
— No salão de charutos. Ele não me ouve. Você não pode lhe dizer
para largar esse péssimo hábito? Ele já teve três ataques cardíacos.
Fumar não ajuda.
— Pai também não vai me ouvir. — O salão de charutos estava
cheio do aroma densamente doce dos charutos cubanos. O pai estava
sentado na poltrona em frente à lareira, um copo com uísque em uma e
um charuto na outra mão.
Ele sorriu, as rugas em seu rosto se aprofundando. — Prazer em
vê-lo, Cassio. Sente-se.
Afundei-me na poltrona ao lado dele e balancei a cabeça quando
ele me ofereceu um charuto. Eu nunca gostei muito do sabor. — O que
você queria discutir?
— Como estão as coisas em casa com Giulia?
Eu dei a ele um olhar exasperado. — É disso que se trata esta
reunião? Aconselhamento matrimonial?
O pai se inclinou para frente, colocando o charuto na bandeja. —
Nossos homens a admiram. Eles também temem você. Alguns podem
até te odiar. Se o seu segundo casamento terminar lamentavelmente
como o seu primeiro, então o ódio e o medo podem se tornar
dominantes demais.
Eu me afastei da cadeira, mas meu pai colocou uma mão
enrugada no meu braço. — Fique. Eu sou um homem velho. Estou
autorizado a dizer a verdade ao meu filho.
— É a verdade como você vê, pai. — Ele esperou.
Suspirando, afundei-me e recostei-me. — As coisas estão tão bem
quanto podem ser, considerando a idade de Giulia e a situação como
um todo. Nada sobre isso é ideal. Estou tentando exercer controle de
danos.
— Controle de danos, — o pai zombou. — O casamento é uma
questão de emoção. Se você espera o pior, o pior é o que terá.
— Se você espera o pior, está preparado para o pior. Não serei
pego de surpresa nunca mais.
— Talvez você devesse dar a Giulia o benefício da dúvida. Ela é
uma garota adorável. Ela não é como Gaia.
— Eu não sei que tipo de mulher Giulia é.
— E de quem é a culpa? — Pai perguntou.
Eu balancei minha cabeça. — Essa conversa serve a outro
propósito que não seja criticar a maneira como manejo meu casamento?
— Estou preocupado com você, Cassio, — disse o pai em voz
baixa, os olhos cheios de tristeza. — Você é tudo que eu queria em um
filho. Você é forte, é justo, nunca se coíbe de decisões difíceis. Nunca
duvidei da sua capacidade de governar a Filadélfia.
— Mas agora você duvida?
Os ombros do pai caíram. Embora sua sala estivesse pálida, ele
pegou o charuto novamente. — Um templo precisa de mais de um pilar
para permanecer. Há mais na vida do que trabalho.
Eu olhei para as chamas da lareira. — O trabalho é a única
constante na minha vida agora. — Foi uma confissão de que me
arrependi no momento em que falei.
Papai se inclinou para frente e deu um tapinha na minha perna.
— Então mude.
Olhei para o meu relógio. — Preciso ir agora. Vou me encontrar
com Christian para discutir suas descobertas sobre essa nova vertente
do MC Tartarus. Eles estão aparecendo como ervas daninhas.
Eu levantei e desta vez, o pai não tentou me impedir.
Mamãe me seguiu até a porta, tentando me convencer a almoçar,
mas eu não estava mais no clima de novas interferências. Eu beijei sua
bochecha e corri para o meu carro.
Christian e eu nos encontramos em um pequeno local italiano
que servia o melhor risoto da cidade. Christian já estava sentado em
nossa cabine habitual quando entrei. Eu dei-lhe um breve aceno
quando deslizei no assento em frente a ele. — Alguma notícia sobre a
vertente?
Christian não disse nada por um tempo. — Como está Giulia? —
Eu não gostei nem um pouco do tom de aviso em sua voz.
— Ela está bem. Ela é minha esposa agora, Christian. Ela não é
da sua conta. Ela é minha.
— Eu posso aceitar isso, desde que você prometa que ela não vai
acabar como Gaia.
Eu me levantei e me inclinei sobre a mesa, segurando-o pela
garganta e empurrando-o de volta contra o banco. Seu rosto ficou
vermelho, mas ele segurou meu olhar. — Cuidado, Christian. Nesta
cidade, minha palavra é lei. A proteção de seu pai, e mesmo isso é
limitada, termina nas fronteiras de Baltimore.
— Eu não preciso da proteção do meu pai ou não estaria aqui,
trabalhando com você, — ele pressionou. — Giulia é minha irmã mais
nova. Vou tentar protegê-la o melhor que puder.
Eu apertei meus dedos em sua garganta. — Giulia está segura
comigo. Ela não precisa da sua proteção. — Soltei-o e sentei-me,
empurrando a gravata para dentro do colete e alisando o casaco.
Christian massageou a garganta. — Não é de admirar que Luca
goste tanto de você. Você e ele têm tiques muito semelhantes.
— Os motociclistas estão planejando algo. Veja o que eles fizeram
em Nova Jersey e Nova York. Teremos que ficar de olho neles.
— Estou fazendo isso. Não é fácil estabelecer contatos.
Conversamos apenas sobre negócios depois disso, mesmo que
fosse claro que Christian não estava feliz com isso. Muitas pessoas
estavam tentando se intrometer no meu casamento, e eu não gostei
nem um pouco.
Era quase meia-noite quando abri a porta da frente e entrei no
hall de entrada. A luz da sala chamou minha atenção. Elia não estaria
esperando lá. Os guardas tinham sua própria pequena casa nas
instalações onde podiam passar a noite.
Algo disparou em minha direção. Levei um momento para
entender que era o cachorro. Ela latiu, e me preparei para agarrá-la
novamente antes que ela destruísse outra calça minha.
— Não, Loulou. Venha aqui! — Giulia ordenou. Ela apareceu na
porta da sala, usando apenas uma camisola de seda. Ela estava com os
pés descalços e os cabelos despenteados, como se tivesse adormecido
no sofá.
Para minha surpresa, o cachorro parou o ataque e correu para
minha jovem esposa. Ela se abaixou e deu um tapinha. Foi quando
percebi que a maior parte do seu pelo tinha sumido.
— Você a levou para um cabeleireiro?
Giulia riu, seus olhos brilhando de alegria quando ela se
endireitou. — Não, eu não conheço estilistas de cães. Eu cortei o pelo
dela. Ela tinha muitos nós. Eu não consegui escová-los.
Eu balancei a cabeça, não muito interessado no cachorro. Se não
fosse por Daniele, eu o teria dado há muito tempo. Toda vez que eu
olhava para a coisa, imagens que eu não precisava lembrar surgiam na
minha cabeça. Giulia encostou-se ao batente da porta, parecendo
adorável.
O cachorro estava sentado obedientemente ao lado de sua perna,
olhando para mim como se eu fosse um intruso em minha própria casa.
Eu olhei em volta, procurando o motivo pelo qual ela estava acordada.
— O que você está fazendo acordada?
Giulia franziu a testa. — Eu estava esperando você voltar para
casa.
Dei de ombros e tirei o casaco antes de me voltar para ela. —
Aconteceu alguma coisa?
Giulia balançou a cabeça e veio em minha direção. Eu olhei para
baixo. Com os pés descalços e em suas roupas de dormir finas, o
contraste entre nós se tornou ainda mais aparente.
Ela colocou a mão no meu peito e estremeceu. — Deus, está
congelando lá fora. — Arrepios surgiram em sua pele pálida, e meus
olhos os seguiram até a abertura de seu roupão e o mergulho de sua
camisola.
— É inverno. — Era uma coisa absolutamente supérflua de se
dizer, mas era tarde e a proximidade de Giulia embaçou meu cérebro. —
Responda à minha pergunta, aconteceu alguma coisa?
Ela sorriu incerta. — Nada aconteceu, Cassio. Mas eu quero estar
aqui quando você voltar do trabalho. Não é assim que deveria ser?
Eu olhei. Desde que me mudei da casa dos meus pais, ninguém
esperou por mim, e se Gaia já o fez, era apenas o prenúncio de más
notícias. — Você não precisa se sentir obrigada a esperar por mim. Eu
trabalho longas horas.
Pressionei minha palma na parte inferior das suas costas e a
empurrei em direção à escada. — Vamos levá-la para a cama.
— Eu não sou criança, Cassio.
O cachorro nos seguiu quando Giulia pisou na escada. Eu barrei
seu caminho. — Por que ela não está trancada em seu quarto? Não é
permitido subir as escadas.
— Ela não ficará mais naquele quarto.
Minhas sobrancelhas se levantaram. Giulia parou no primeiro
degrau, então estava quase no mesmo nível de mim. — Eu não sabia
que havia tomado essa decisão.
— Você não tomou, mas eu tomei.
Eu agarrei seu quadril. — Eu sou o dono da casa. — Deus, esse
doce aroma de morango estava me deixando louco.
— Você espera que eu lhe peça permissão para cada coisinha? Eu
posso lidar com Loulou, então me deixe lidar com ela.
— Ela não vai subir, — eu disse com firmeza.
Ela assentiu e deu uma ordem ao cachorro. Para minha surpresa,
Loulou voltou à sala de estar. — Ela tem sua cesta lá. Deveria ser o seu
porto seguro.
Balançando a cabeça, subi as escadas. Eu estava exausto demais
para essa bobagem. Giulia seguiu em silêncio, mas eu praticamente
senti sua necessidade de falar. Entramos no quarto e fechei a porta. —
Como foram as coisas com meus filhos?
— Boas. Eu fui fazer compras com eles. Estamos nos conhecendo.
Estou tentando me tornar amiga deles...
— Eles não precisam de uma amiga. Eles precisam de uma figura
materna. Eles precisam de orientação e de alguém que lidere o
caminho.
— Se isso era tudo o que eles precisassem, você não precisaria de
mim, porque é muito bom em liderar, — disse ela.
Fiz uma pausa em sua insolência. A maioria das pessoas me
mostrava respeito sem que eu precisasse fazer alguma coisa, mas Giulia
continuava me desafiando da maneira mais irritante possível. — Vou
tomar banho. Vá para a cama e tente dormir. — Não esperei pela
resposta dela e desapareci no banheiro. Demorei a me preparar para
dormir, esperando que Giulia estivesse dormindo até lá. Ela queria me
conhecer. Eu não tinha certeza se queria que ela o fizesse.
Quando saí, Giulia estava na frente da janela. Eu sufoquei um
suspiro. — Por que você não está na cama?
Ela soltou uma risada pequena e incrédula. — Porque acho que
precisamos conversar. Nós somos casados.
— Não vejo o que precisamos conversar.
Ela avançou na minha direção, parando tão perto que o cheiro de
morango inundou meu nariz novamente. — Muito. Quero que esse
casamento funcione, mas isso não acontecerá se não passarmos tempo
juntos. Você costuma voltar para casa tão tarde?
— Sim, frequentemente. Eu sou Underboss, Giulia.
— Meu pai é Underboss, assim como muitos dos meus tios, e
confie em mim, eles têm mais do que tempo suficiente para gastar em
campos de golfe ou em cima de suas amantes.
Uma risada se prendeu na minha garganta, mas eu a reprimi. —
Minha ética de trabalho é muito diferente da deles.
— Como sua esposa, tenho o direito de fazer exigências para que
esse casamento funcione, e estou pedindo que você esteja em casa para
jantar, para que as crianças e eu possamos passar um tempo com você.
Minha raiva aumentou novamente, mesmo quando uma pequena
parte de mim ficou satisfeita por ela querer passar um tempo comigo. —
Este casamento é de conveniência.
Os olhos de Giulia brilharam. — Suponho que é muito
conveniente que você me tenha como babá e para seu prazer pessoal,
sem o ônus de ter que falar comigo.
Ela era irritante. Puxei-a contra mim, minha boca tão perto da
dela, por um momento, quase me esqueci. — Já fizemos sexo uma vez,
menina, então o fator prazer em nosso casamento foi muito limitado e,
no que diz respeito às suas qualidades de babá, não estou convencido.
O nariz dela se levantou. — Então me devolva aos meus pais, se
eu não sou satisfatória. Você não estipulou algum tipo de retorno no
acordo?
— Sobre meu cadáver, — eu rosnei e a puxei contra mim. Eu a
beijei severamente, perdendo-me naquela doçura esquecida por Deus
que me roubava os sentidos. Eu não conseguia me controlar ao redor
dela. Eu não queria.
Lembrando-me da minha promessa, me afastei dela e cambaleei
alguns passos para trás. Eu não a forçaria. — Isso não era para
acontecer.
O rosto de Giulia estava vermelho. — Por que não?
Sua pergunta me desconcertou. — Eu disse que não vou dormir
com você até que você queira.
Giulia engoliu em seco e sorriu timidamente. E eu sabia o que ela
diria pela expressão de desejo em seus olhos antes de pronunciar as
palavras. — E se eu quiser que você faça? — Sua voz era baixa e
hesitante.
Meu pulso palpitava em minha têmpora por causa de nossa briga.
Isso me excitou mais do que um pouco, mas suas palavras explodiram
os últimos fragmentos da minha compostura.
Apesar da verdade em suas palavras, eu não podia acreditar
nelas. Meus músculos ficaram tensos. Quando saí do banheiro, senti
uma cautela exaustiva. Agora, qualquer cansaço foi substituído por
ansiedade, mas minha suspeita permaneceu. — Você me quer?
Minha voz estava baixa, encharcada de desejo e aviso. Eu dei um
passo mais perto. Giulia estremeceu e seus mamilos enrugaram. Ela
estava excitada ou assustada? Provavelmente ambos.
Ela assentiu. — Eu quero.
Outro passo mais perto. Sangue acumulou no meu pau com suas
palavras. Ainda assim, minha dúvida permaneceu. — Por quê? A última
vez foi dolorosa para você.
— Nem tudo, — ela admitiu, corando. — Não a sua boca.
Meus olhos dispararam para o ápice de suas coxas, escondido por
sua camisola, lembrando seu gosto, seu perfume. — Porra.
12
Giulia
— Porra. — Ele parecia ter perdido uma batalha consigo mesmo.
Ele vagueou em minha direção, segurou a parte de trás da minha
cabeça e me apoiou na janela. — Você quer minha boca?
O desejo em seus olhos, em sua voz, me abrasou com sua
intensidade. Minha boca ficou seca. — Sim.
Ele se abaixou e me beijou. Sua boca, sua língua, exigiu minha
rendição como o resto dele. Ele queria controle e eu cedi, deixei o beijo
me consumir até que ele arrastou a boca para longe, ofegando. —
Assim?
Eu estava atordoada e não pude seguir suas palavras. Sua boca
se abriu em um sorriso dominante. — Você quer minha boca assim? Ou
em outro lugar?
— Em outro lugar, — consegui dizer, mesmo que as palavras não
fossem mais do que uma expiração.
— Na sua boceta? — Ele murmurou antes de me impedir de
responder me beijando novamente. Talvez a luta tenha abaixado suas
paredes protetoras, eu não me importei porque Cassio dizendo essa
palavra era incrivelmente sexy. Ele me levantou em seus braços e
carregou para a cama, onde me deitou com cuidado e seguiu o exemplo,
seu corpo forte me pressionando contra o colchão.
Ele continuou me beijando com urgência silenciosa enquanto
suas mãos empurravam minha calcinha. Minha camisola foi a próxima.
Ele parou o beijo para arrastar a roupa sobre a minha cabeça. Deitei,
permitindo que ele me admirasse, e ele o fez. Seu olhar faminto deslizou
sobre o meu corpo. Ele já estava duro na calça do pijama, e seu
estômago musculoso pesava a cada respiração. Senti o desejo irracional
de seguir a trilha de cabelos desaparecendo em sua cintura com a
minha língua. Eu admirei garotos atraentes de longe e os apreciei de
uma maneira abstrata e curiosa. Nenhum deles deixou impacto
suficiente para aparecer em minhas fantasias quando me tocava. A
reação do meu corpo a Cassio era em outro nível. Apesar de sua idade,
ou talvez por causa disso, a visão de seu forte corpo enviou emoções de
desejo através do meu corpo antes mesmo de ele me tocar.
— Você é adorável, — ele gemeu antes de pairar sobre mim, me
envolvendo com seu perfume viril. O aroma quente e reconfortante era
como uma droga para o meu sistema. Seus lábios encontraram os meus
em um beijo possessivo antes que ele descesse. Eu assisti quando sua
boca se fechou em torno do meu mamilo e, no primeiro puxão, ofeguei,
minha mão voando para agarrar sua cabeça.
— Sim! — A palavra saiu sem intenção.
Ele olhou para cima, segurando meu olhar enquanto chupava.
Sua boca era quente ao redor da minha pele sensível. Senti a onda de
choque entre minhas pernas e apertei.
— Eu deveria ter feito isso ontem à noite.
Deus, ele deveria ter. Isso era incrível. Ele se abaixou entre
minhas pernas, e eu as abri para seu corpo forte sem hesitação,
amando a sensação de seu corpo poderoso e quente em cima de mim.
Ele segurou meus dois seios com as mãos grandes, apertou levemente,
nunca tirando os olhos de mim, nem tirei os meus dele. A visão desse
homem me tocando me excitou.
Amassando meus seios suavemente, ele esbanjou meus mamilos
com atenção, beijos, lambidas e chupadas até que eu estivesse ofegante.
Sem pensar, envolvi minhas pernas em torno dele e empurrei meu
centro contra seu estômago, precisando de fricção. Minha umidade
cobriu os músculos firmes e fez Cassio gemer baixo. Seus olhos
brilharam com triunfo e fome. Sua boca trabalhou meus seios com
ainda mais fervor até que eu estava quase perdendo a cabeça com a
necessidade de gozar. Eu continuava me esfregando no abdômen de
Cássio quase desesperadamente, mas não era o suficiente. Eu precisava
de mais, mas não sabia ao certo como dizê-lo.
Eu soltei um pequeno som impaciente no fundo da garganta,
meus dedos agarrando o ombro de Cassio, tentando lhe dizer sem
palavras.
Seus olhos pareciam escurecer com a realização. — Agora eu
desejo algo doce.
Eu fiz uma careta até perceber o que ele queria dizer, e então
poderia ter chorado de alívio. Ele se apoiou nas palmas das mãos e eu
abaixei minhas pernas das costas dele. Olhando para baixo, ele passou
os dedos pelos meus abdominais inferiores brilhando com meu desejo
por ele. Então os levou aos lábios. — Tão doce quanto eu me lembro.
Perfeita.
Eu só pude concordar. Mas queria dizer a visão dele, desse
homem forte e musculoso olhando para o meu corpo como se fosse uma
revelação.
Ele desceu até seu rosto pairar sobre a minha boceta. Na última
vez, isso me fez sentir insegura porque não sabia o que esperar. Agora
me fez sentir nervoso por outro motivo. — E se eu não... gozar? — A
última palavra foi sussurrada. Cassio passou quinze minutos entre as
minhas pernas na noite do casamento e, embora tenha sido agradável,
eu não estive perto do orgasmo.
Ele se abaixou até os cotovelos e deslizou as palmas das mãos sob
as minhas coxas. Ele segurou minhas nádegas, me assustando.
Afastando os olhos do meu centro, ele olhou para mim, e a fome em seu
rosto quase me fez gozar. — Não pense sobre isso. Apenas relaxe e
deixe-me levá-la até lá. Não se apresse. Apenas deixe acontecer. —
Então ele me puxou em direção à sua boca esperando e... Santo Deus,
praticamente beijou de língua minha boceta. Eu arqueei e soltei um
gemido embaraçosamente alto. Fechei minha boca, me lembrando das
crianças.
— Desculpe.
— As paredes são grossas e nosso quarto fica do outro lado do
corredor. Não se preocupe — ele murmurou enquanto esfregava a barba
por fazer sobre a pele macia da minha coxa. Seus lábios e queixo
estavam brilhantes. Eu não conseguia parar de olhar. Eu não deveria
fechar os olhos ou encarar o teto? Não era isso que as mulheres
deveriam fazer?
Cassio arrastou a língua ao longo da minha fenda, segurando
meu olhar, e eu também senti isso. Agarrei seu cabelo, segurando-o no
lugar, mesmo que parecesse que ele não tinha intenção de ir a qualquer
lugar. Ele me comeu como se eu fosse sua última refeição.
— Você gosta disso? — Ele sussurrou entre furtos de sua língua.
— Sim, — eu sussurrei. Isso estava muito melhor que da última
vez. Talvez porque a pressão tenha saído dos meus ombros, eu não me
importava. — E você? — Suspirei. — Você gosta disso? — Onde essa
ousada, criatura sexual se escondeu toda a minha vida?
Cassio sorriu sombriamente, sem parecer se importar. Ele
apertou minha bunda com força e me levantou mais alto, enquanto
pressionava seus ombros contra minhas coxas, então minha boceta
estava praticamente sufocando-o. Minhas pernas inúteis descansavam
em suas costas. — Gosto muito. Seu gosto. — Ele mergulhou a língua
em mim e eu gemi. — Seus gemidos. — Ele levantou a cabeça. — A
visão de sua linda boceta. Bonita pra caralho.
Ele abaixou a cabeça e vi sua boca se fechar sobre mim. Seus
olhos me queimavam quando ele chupou levemente no início, depois
mais firme, enviando ondas após ondas de choque para o meu centro.
Eu estava cada vez mais perto, sempre no limite, mas ainda não estava
pronta para cair. Enfiei minha mão no cobertor, desesperada por me
libertar e muito perto, mas algo ainda estava me segurando. Como se
um nó estivesse muito apertado dentro de mim e não pudesse se
desenrolar. — Por favor, — eu choraminguei.
Cassio puxou uma das mãos de baixo de mim. A ponta do dedo
roçou minha entrada e, no próximo puxão de seus lábios, ele empurrou
para dentro. Contraí em desconforto e depois com prazer. Sem tirar os
olhos de mim, ele começou a mover o dedo dentro de mim enquanto
chupava meu clitóris. De repente, o nó se desenrolou, meus olhos se
arregalaram, minha barriga esvaziou enquanto o prazer irradiava
através de mim. Eu gritei, meus dedos raspando a cabeça de Cassio
enquanto pressionava contra sua boca, procurando mais de sua língua
e o dedo provocando minhas sensíveis paredes internas. Eu meio que
chorei, meio que engasguei, me contorcendo sob Cássio pela força da
sensação. Eu já tinha me tocado e até enfiado o dedo por curiosidade,
mas o resultado nunca foi tão satisfatório quanto isso. Isto era
incrivelmente enlouquecedor.
— Maldição, sim, assim mesmo, querida, — ele rosnou, e eu gozei
novamente. Ele acabou de me chamar de querida?
Cassio levantou a cabeça, parecendo despenteado e brilhando
com o meu desejo. Ele continuou colocando o dedo dentro e fora de
mim, o que era maravilhoso e como se ele estivesse tentando desvendar
outro nó mais apertado que eu nem sabia que estava lá. Dessa vez não
era sangue escorrendo de mim. Não tive tempo de me envergonhar pela
minha excitação, porque estava me dirigindo para outro orgasmo.
Cassio acrescentou um segundo dedo e, enquanto estremeci
inicialmente, a sensação logo se tornou cada vez melhor. Movi meus
quadris no ritmo do seu bombeamento. Cassio massageou minha
bunda com a mão grande enquanto observava seus dedos deslizarem
para dentro de mim. — Tão bonita, — ele rosnou.
Minhas paredes internas explodiram, mas antes que eu pudesse
gozar, Cassio retirou os dedos.
Eu respirei fundo. — Eu quero gozar.
Cassio sorriu sombriamente quando se apoiou nos cotovelos
antes de tirar a calça do pijama. — Você vai, com meu pau dentro de
você.
Ele separou minhas pernas e se ajoelhou entre elas. Apoiando-se
em um braço musculoso, ele agarrou sua ereção e correu a ponta ao
longo da minha fenda. Eu ofeguei com a pressão firme contra meu
clitóris. Hipnotizada pela visão da cabeça vermelha e grossa deslizando
sobre mim, coberta de meus sucos, levantei-me nos cotovelos para ter
uma visão melhor.
O olhar de Cassio se fixou em mim. Primeiro com confusão,
depois com realização. Ele gemeu, e seu pau deu uma pequena
contração. — Porra. — Ele engoliu em seco. — Você quer ver como meu
pau dá o que sua boceta precisa?
Eu balancei a cabeça porque minha boca estava seca. Ele pegou
um travesseiro e o enfiou sob minha bunda, me aliviando para que eu
pudesse ver. Ele olhou para baixo também e guiou sua ponta grossa
aos meus lábios. Ele esfregou para cima e para baixo lentamente, sua
respiração se aprofundando como a minha. Era uma visão tão
estranha. A mão forte de Cássio em seu longo eixo brilhava com a
minha luxúria enquanto ele se esfregava sobre mim. Eu estava
chegando mais perto de novo, o nó dentro de mim tentando desvendar.
Cassio levou o pau para a minha abertura e empurrou um pouco.
Eu apertei com a intrusão, mesmo quando meu corpo implorava por
mais. Observando-me, Cassio lambeu o polegar e pressionou-o no meu
clitóris, começando a fazer pequenos círculos enquanto empurrava em
mim com movimentos suaves e curtos.
Havia uma pequena cicatriz no polegar me acariciando. Rodando
e rodando seu dedo girou, puxando aquele nó dentro do meu núcleo.
Meu olhar desceu para onde o pau de Cassio afundava na minha
boceta. Ele já estava no meio do caminho e se aprofundava a cada novo
impulso até que finalmente me encheu completamente. Sem pensar,
agarrei sua bunda firme, sentindo-a flexionar a cada impulso. A
sensação disso e a visão desse ato primordial, da pelve de Cássio
pressionando a minha, seus quadris me separando para ele, seu
abdômen tenso e a luxúria dura em seu rosto lindo explodiram meu nó
em pedaços. Eu gritei quando o prazer irradiou através de mim com
uma força que me fez apertar com tanta força que Cassio exalou
bruscamente do aperto da minha boceta nele. Ele bateu mais forte em
mim quando afundei minhas unhas em suas costas, levantando meus
quadris quase freneticamente para encontrar seus impulsos. Cassio
agarrou meus quadris em um aperto contundente, me puxando mais
rápido contra ele até que os tapa de nossos corpos e seus grunhidos
encheu o quarto enquanto ele me fodia. O incomodo zumbia através de
mim, lutando com o baixo zumbido de prazer.
Cássio caiu para frente, apoiando-se em um cotovelo. Ele agarrou
minha perna, a levantou e dirigiu mais forte em mim. Eu ofeguei e gemi.
Seus olhos queimavam em mim enquanto ele respirava com dificuldade.
Seus movimentos ficando descoordenados, seus olhos selvagens. Eu
segurei suas costas desesperadamente, dominada pelas sensações de
dor e prazer, pela sensação de seu peso pesado me pressionando na
cama, pelo cheiro de nosso suor e sexo misturados.
— Quem está te fodendo?
Eu ofeguei, confusa com a pergunta dele.
— Quem? — Ele rosnou, acentuando a palavra com um impulso
forte que atingiu um local delicioso dentro de mim.
Meus olhos quase reviraram com a sensação. — Você, — eu disse.
— Você, Cassio.
— Sim. — Ele empurrou com mais força e depois ficou tenso com
uma expiração aguda. Eu também congelei com a sensação de
plenitude absoluta, sem saber se iria quebrar ou ter outro orgasmo. Eu
senti sua libertação profundamente dentro de mim e gemi. Isso era tão
bom. Cassio beijou minha boca, depois minha garganta, ofegando. —
Sim, você é minha, querida. Seu corpo, mas o mais importante essa
cabeça bonita. — Ele deu um beijo na minha têmpora, depois rolou de
cima de mim e de costas.
Tentei recuperar o fôlego e entender as palavras dele. Inclinando
minha cabeça para o lado, eu o observei. Seu corpo brilhava com suor,
e os cabelos de suas coxas fortes estavam manchados de suor e de
nossos orgasmos. Ele olhava para o teto, o peito arfando.
Não estávamos mais nos tocando e lentamente surgiu uma
parede, tornamo-nos estranhos mais uma vez. Toquei meu abdômen,
saboreando o brilho de sua presença.
— Fui muito forte? Eu não queria te foder assim tão pouco depois
da sua primeira noite.
Eu olhei para ele. A sugestão de preocupação em sua voz rouca
aqueceu meu coração de uma maneira que eu não conseguia explicar.
— Não. Estou bem. — Eu sorri. — Eu realmente gostei disso.
Cassio soltou uma risada curta. — Eu percebi. — Ele balançou a
cabeça como se isso fosse uma impossibilidade. Ele se virou de lado e
passou a palma da mão na minha lateral, em seguida, passou o polegar
sobre o meu mamilo. — Por que uma garota tão adorável desejaria um
homem velho cruel? — Ele disse isso sarcasticamente, mas peguei a
verdade subjacente.
Eu bufei. — Você não é um homem velho. — Eu não mencionei
sua crueldade. Eu não o conhecia o suficiente para dar testemunho
disso. — E você é sexy.
Ele riu, seus olhos examinando o meu rosto. Lentamente, o
sorriso desapareceu e ele afastou a mão. Eu não queria que nos
tornássemos estranhos novamente.
Por que estranhos podiam ser próximos durante o sexo, sentir-se
conectados e até mesmo cuidados, quando logo depois nada havia entre
eles? Eu queria esse sentimento de conexão o tempo todo. Eu rolei,
mais perto de Cássio e pressionei a palma da mão no peito dele, depois
lentamente deslizei para baixo, descendo pelo estômago musculoso,
seguindo a trilha de cabelos para a pélvis até que as pontas dos meus
dedos roçaram sua base.
Cassio soltou um gemido baixo que poderia estar à beira do riso.
— Eu não tenho a virilidade de um adolescente, Giulia.
Eu olhei para cima. Sua expressão contradizendo suas palavras,
assim como seu pênis meio ereto. — Para mim, parece que você é viril o
suficiente, — eu disse provocando. A barreira que ele começou a
construir entre nós apenas alguns segundos atrás, eu podia senti-la
caindo novamente. Encorajada, eu o toquei. Seu estômago se encolheu
com uma respiração profunda, aqueles abdominais deliciosos se
tornando mais proeminentes.
Ele me olhou, um braço atrás da cabeça, com uma expressão
como se não pudesse me entender. Eu me elevei e montei em sua coxa,
delirando pela maneira que ele admirava meu corpo. Sua coxa forte e
peluda pressionou contra o meu centro ainda sensível, e me enterrei
contra ele, mordendo meu lábio com a sensação.
Cassio balançou a cabeça lentamente, incrédulo, mas o brilho em
seus olhos me estimulou. Eu enrolei meus dedos em torno de sua base,
sentindo-o se encher de sangue sob o meu toque.
Cássio não queria abrir mão do controle, mas eu desejava que ele
quisesse, queria vê-lo desistir e entregar para mim, pelo menos por um
momento. Inclinei-me e peguei a ponta dele na minha boca. Ele sibilou
entre os dentes e segurou a parte de trás da minha cabeça, passando os
dedos pelos meus cabelos. Como em todo o resto, eu havia feito minha
pesquisa sobre esse assunto. A internet oferecia infinitas possibilidades
para as mentes curiosas. Esvaziei minhas bochechas enquanto o
chupava levemente, tentando acomodar sua espessura em minha boca
enquanto minha mão trabalhava sua base. Ainda foi mais complicado
do que os movimentos praticados, mas obteve os resultados desejados.
Cassio ofegou, seus quadris se movendo, seus dedos flexionando contra
o meu couro cabeludo. Eu levantei meus olhos, encontrando-o
assistindo, sua expressão gloriosamente desprotegida. Sim.
Algo mudou. Seus dedos se apertaram no meu cabelo, não
puxando, mas empurrando, enquanto ele guiava minha cabeça para
baixo. Seus quadris levantaram. Ele estava recuperando o controle. Eu
cedi às investidas dele, pegando o máximo que ele exigia, com a mão
firme na minha cabeça. Ele não foi fundo, nunca batendo na minha
garganta, perfeitamente controlado. A cada impulso ascendente, eu me
apertava contra sua coxa, buscando minha própria satisfação. Eu não
tinha certeza por que não me sentia constrangida. Não havia espaço
para isso. Eu estava muito excitada, muito bêbada pela expressão
faminta de Cássio. — Chega, — ele rosnou. Ele agarrou meus quadris e
me levantou em cima dele. Não tive tempo de me orientar antes que ele
me puxasse para o seu pau.
Se eu achava que sentar em cima de Cassio me permitiria
controlá-lo, estava muito enganada. Cassio me usou como um mestre
controlava sua marionete. Suas mãos apertando meus quadris, ele me
segurou enquanto batia em mim por baixo rapidamente, forçando-me a
pegar o que dava. Cada impulso foi mais profundo do que o anterior,
cutucando um ponto que eu não sabia que existia. Eu desisti de minha
luta pelo controle, me rendi às demandas de Cássio. Hoje ele
conseguiria isso. Ainda havia amanhã.

Cassio
Fiquei acordado muito tempo depois que Giulia adormeceu,
encolhida de lado, de frente para mim. Desta vez, ela aceitou
silenciosamente quando eu me afastei depois do sexo para dormir. Eu
ainda podia sentir seu calor, sentir seu doce aroma, sentir sua
proximidade e, brevemente, considerei puxá-la para mim. Em vez disso,
olhei para o escuro. Giulia me surpreendeu novamente hoje, em mais
de um aspecto. Ela era teimosa e gentil. Ela se impôs sem ser mal-
intencionada.
E o sexo... me pegou completamente desprevenido. Eu esperava
que ela evitasse o aspecto físico do nosso casamento o máximo de
tempo possível, até que finalmente me aproximasse dela, porque meu
desejo não podia mais ser suprimido. Eu não queria trair, e não iria. O
desastre com Gaia... tinha estragado tudo. Eu não queria que algo
assim acontecesse novamente e não aconteceria.
Eu não permitiria isso.
Eu não conhecia Giulia e ela não me conhecia, mas na cama
trabalhamos bem juntos. Quando ela finalmente gozou pela primeira
vez, foi o triunfo mais doce que pude imaginar.
Comer sua boceta doce foi maravilhoso e gratificante à sua
maneira. Gaia não queria que eu fizesse isso com ela, então não o fiz.
Giulia foi a primeira mulher que fiz oral em quase dez anos, e prometi a
mim mesmo comê-la todas as noites, se ela deixasse. No curto período
de nosso casamento, eu já me sentia mais jovem. Nos últimos meses,
senti-me velho além da minha idade, exausto e cauteloso. Essa alegria
do inicio desapareceria, no entanto. Era uma ilusão que eu não poderia
considerar.
Como se para me lembrar desse fato irrefutável, o choro de
Simona ecoou no monitor de bebê, destruindo qualquer esperança de
adormecer logo.
Giulia se mexeu ao meu lado, um gemido suave escapando
daqueles lábios doces. Acendi as luzes e me sentei. Outra noite sem
dormir.
Giulia piscou contra o brilho, obviamente desorientada. — O que
está acontecendo?
— Simona quer mamadeira.
Giulia assentiu devagar e saiu da cama. Eu também levantei.
— Você pode dormir. Eu dou conta disso. Eu sei que você tem que
trabalhar amanhã.
Fiz uma pausa, assistindo quando ela saiu do nosso quarto.
Depois de um momento, eu a segui. Giulia não tinha experiência com
crianças, como ficou aparente na noite anterior. Eu não tinha certeza
de que ela poderia lidar com Simona. Especialmente à noite, minha
filha era exigente e seus gritos eram absolutamente estressantes. Giulia
tinha a calma necessária para lidar com ela?
Eu não achava que ela machucaria meus filhos, ela não parecia
do tipo, mas era jovem. Sentir-se oprimida pode ser perigoso.
Os gritos de Simona não pararam, mas diminuíram em
intensidade. Eu pairei na porta do quarto dela, atordoado com o que vi.
Giulia havia comprado uma espécie de suporte de bebê que lhe permitia
carregar Simona contra o peito e estava tentando fechá-lo nas costas.
Obviamente era a primeira vez que ela tentava fazer isso. Fui em
direção a ela e a ajudei. Eu nunca tinha visto uma coisa dessas, então
levamos algumas tentativas para fechá-lo.
— Obrigada, — disse Giulia. — Comprei hoje. A vendedora me
disse que isso ajuda a acalmar os bebês, então pensei em experimentar.
Isso permite que a criança se sinta conectada à mãe... — ela parou.
Simona olhou para mim, a cabeça apoiada no peito de Giulia.
— Vamos pegar algo para você comer, certo? — Giulia disse
suavemente e acariciou a cabeça de Simona. Então ela sorriu para mim.
— Você pode voltar a dormir. Minhas mãos estão livres para preparar a
mamadeira. Vê? — Ela levantou as mãos.
Eu assenti lentamente. Giulia pressionou a palma da mão na
bunda de Simona e seguiu para o corredor, o tempo todo conversando
baixinho com minha filha cujos gritos se tornaram menos frequentes.
Continuei seguindo-as até lá embaixo. O cachorro correu atrás de nós
até a cozinha e sentou-se ao lado de Giulia quando começou a preparar
a mamadeira. Ela balançava suavemente de um lado para o outro,
cantarolando, o que parecia ter um efeito calmante em Simona, mesmo
que ainda choramingasse de vez em quando.
Giulia lançou um olhar por cima do ombro para mim. — Você não
confia em mim para lidar com isso ainda, certo? — Ela não parecia
zangada, apenas resignada.
— Não é uma questão de confiança. — Mas era. Eu nunca confiei
muito, e agora minha capacidade para isso era quase completamente
torcida.
O sorriso de Giulia foi triste. — Tudo bem. Eles são o seu mundo
inteiro. Você quer protegê-los. — Ela testou a temperatura do leite e, em
seguida, abriu uma tira da tipoia para poder dar a mamadeira a
Simona, que a agarrou de uma só vez. — Eu farei o meu melhor para
cuidar deles.
Eu acreditei nela.
Juntos, voltamos para o andar de cima. Notei a porta aberta do
antigo quarto de Gaia. Giulia seguiu meu olhar. — Simona e eu
estamos bem, sério.
Fui até o quarto. Como era de se esperar, Daniele estava
encolhido nas cobertas da cama, com um novo pijama com escudos do
Super-Homem por toda parte. Meu coração parecia pesado ao ver sua
pequena forma. Sempre que olhava para esta cama, tudo que via era
sangue, mas ele buscava conforto aqui. Eu o peguei. Ele se aconchegou
contra o meu calor, e eu o segurei mais apertado. Eu gostaria que ele
permitisse essa proximidade quando estivesse acordado também, como
costumava fazer no passado. Levei-o para a cama antes de ir para o
berçário de Simona mais uma vez. Giulia estava sentada na cadeira de
balanço e alimentava Simona.
Sua expressão se tornou severa quando ela me viu na porta. —
Vá para a cama, Cassio. Estou falando sério. Posso lidar com isso.
Recuei lentamente e fui para a cama. Não demorou muito tempo
para eu adormecer. Só acordei brevemente quando Giulia voltou para a
cama mais tarde, mas não tinha certeza de que horas eram. Ela se
deitou tão perto de mim que pude sentir seu calor, mas não me
importei. Eu já estava adormecendo de novo quando as pontas dos seus
dedos roçaram minha mão levemente.
***
Simona acordou mais uma vez, mas Giulia insistiu que eu ficasse
na cama enquanto ela cuidava disso.
Talvez tenha sido por isso que me senti mais relaxado nesta
manhã do que em muito tempo. Apesar de sua falta de sono, Giulia
levantou-se quando terminei no banheiro e deslizou para dentro.
Entrei no quarto de Daniele. Ele estava acordado, como sempre
naquele momento, já curvado sobre o tablet. No começo eu escondia
isso dele, mas quando ele brincava com aquela coisa, era o único
momento que parecia remotamente feliz, então sempre lhe devolvia. Ele
não olhou quando entrei, mas seus pequenos ombros se curvaram. Eu
me sentei ao lado de sua cama para ficar ao nível dos olhos dele. Nada
ainda.
— Daniele, vamos lá. Ponha isso de lado. — Nenhuma reação.
Tirei-o e ele começou a gritar, mas coloquei-o em uma prateleira. Eu o
peguei apesar de sua luta. Sua recusa em estar perto de mim era pior
do que aquelas chicotadas muitos anos atrás.
Engoli em seco e o coloquei sobre o trocador. Era nosso ritual que
eu o despertasse. Foi assim desde que ele era muito pequeno. Ele
sempre amou nosso tempo de manhã... não mais.
Seus olhos marejados se desviaram para algo atrás de mim. Eu
me virei, encontrando Giulia na porta, com os olhos cheios de emoção e
o cachorro no braço.
Ela entrou. — Loulou ouviu você chorando e veio verificá-lo.
Daniele se aquietou, olhando o cachorro com olhos grandes.
Giulia parou ao lado do trocador para que o cachorro pudesse
olhar para Daniele e Daniele para ele. Eu o despi e pela primeira vez ele
não lutou. Seus olhos arregalados estavam fixos no cachorro enquanto
eu trocava sua fralda. Giulia tirou as roupas do guarda-roupa e as
colocou ao meu lado. Jeans, meias que pareciam tênis e um suéter com
as palavras “Irmão mais velho”.
— Você pode usar sua camisa do irmão mais velho hoje, — disse
ela, sorrindo.
A boca de Daniele tremeu em um pequeno sorriso, e tive que
desviar o olhar por um momento. Limpando a garganta, eu disse: —
Você é um bom irmão mais velho. Simona precisa de você ao lado dela.
Daniele assentiu devagar e me deixou vestir sua roupa. Ele podia
se vestir mais ou menos, mas, como em muitas outras coisas, ele se
recusava a fazê-lo desde a morte de sua mãe. Eu o levantei da mesa,
mas não o coloquei no chão para que ele pudesse andar como
normalmente faria. Eu o pressionei no meu corpo. Seus olhos
continuaram em Loulou, mas pelo menos ele não tentou se afastar de
mim.
— Vamos verificar Simona, — eu disse.
Fomos juntos para o quarto de Simona, e Giulia colocou Loulou
no chão para que ela pudesse pegar Simona. O cachorro saiu correndo
da sala para fazer o que tinha em mente, provavelmente xixi nos tapetes
caros. No momento em que desapareceu, Daniele ficou inquieto. Eu o
coloquei no chão antes que ele começasse a chorar. Ele se afastou
imediatamente, provavelmente para procurar seu tablet. Giulia
segurava Simona, mas estava olhando para mim. A compaixão em sua
expressão não me enfureceu esta manhã. Isso só me fez sentir
melancólico. Com Simona no braço, ela veio até mim e tocou meu peito.
— Ele voltará. Dê tempo a isso. Leva tempo para curar.
Ela seria tão otimista se soubesse o que tinha acontecido?
Olhei para o meu relógio. — Preciso ir agora. — Em seguida, e
não tinha certeza do por que segurei sua bochecha e dei um leve beijo
em sua boca. — Eu apreciei seus esforços.
Surpresa cruzou o rosto dela. A mesma surpresa que senti desde
o primeiro momento do nosso casamento. Ela não era como eu
esperava. Ela poderia ter cedido à histeria adolescente, mas, em vez
disso, tentou lidar com as tarefas de sua nova vida.
Ela lidou com isso de uma maneira gentil e adorável. Ela parecia
boa demais para ser verdade.
Afastei-me e desci as escadas. Elia esperava por mim na frente do
meu carro para obter mais instruções. Lembrando a noite passada e
esta manhã, uma pitada de relutância me encheu quando pensei no
meu acordo com Elia, mas não foi suficiente para me fazer abandonar a
questão. Giulia não fez nada para merecer isso, mas eu precisava de
certeza antes que sua beleza me envolvesse em torno de seu dedo e me
deixasse cego para uma verdade dolorosa.
Meus filhos não sobreviveriam à repetição da morte de sua mãe.
13
Giulia
Meu peito doía ao pensar no encontro matinal de Cássio com
Daniele. Eu poderia dizer que Cássio sofria pela reação do filho a ele.
Eu precisava ajudar de alguma forma, mas primeiro precisava descobrir
por que Daniele agia dessa maneira. Por alguma razão, eu não
conseguia imaginar Cássio machucando o filho de alguma forma.
Cássio era certamente capaz dos atos mais depravados que se possa
imaginar. Os rumores de suas práticas comerciais chegaram até meus
ouvidos em Baltimore, mas pela maneira como ele olhava para seus
filhos, estava claro que os amava. Não, havia algo mais entre eles. Tive a
sensação de que tinha algo a ver com Gaia, o que era um problema,
porque Cassio se recusava a falar sobre ela. Daniele não falava nada, e
eu não tinha certeza se era sensato mencionar sua mãe ao seu redor.
Fui para a cozinha com Simona nos braços e Daniele na ponta dos pés
atrás de mim. Seu rosto manchado de lágrimas porque ele não
conseguiu encontrar o tablet. Eu tinha visto na prateleira do quarto
dele, mas decidi não lhe entregar. Ele precisava aprender a ficar sem
isso. Não era saudável como ele estava fixado em tecnologia.
Sybil já estava fazendo waffles. A cozinha cheirava a baunilha e
massa quente.
Elia e Domenico ainda não estavam lá, mas eu sabia que estavam
em algum lugar da casa ou Cássio não teria partido. Loulou deslizou
por baixo da mesa, provavelmente esperando repetir a experiência, mas
doces definitivamente não eram bons para um cachorro. Aproximei-me
de Sybil quando Daniele se ajoelhou na frente da mesa para observar
Loulou. — Deixe-a vir até você, Daniele. Ela é tímida. Eventualmente,
ela virá. Dê tempo a ela, ok?
Ele assentiu distraidamente, mas não se moveu. — Você pode
fazer um pouco de bacon também?
— Para o cachorro? — Sybil adivinhou.
— Eu não quero forçá-lo a comer. Não quando ele não confia em
mim ainda. Esta é a única maneira de ele tomar café da manhã.
Ela assentiu. Ela ainda não parecia ter aprovado, mas pegou
bacon na geladeira.
— Obrigada.
Elia logo se juntou a nós, mas Domenico ficou longe. Para minha
surpresa, ele se sentou ao meu lado. Como ontem, seu sorriso foi
rápido, seu contato visual um pouco íntimo demais e seu braço roçou o
meu duas vezes, por acidente.
Eu não fui a única que percebeu porque Sybil lançou-lhe um
olhar penetrante. Eu ignorei, sem saber o que mais fazer. Meu plano de
fazer Daniele comer funcionou como ontem. Loulou ganhou um
pedacinho de bacon por cada pedaço de waffle e banana que Daniele
comia. Foi uma situação de ganho mutuo, até onde eu sabia, e Loulou
definitivamente estava de acordo.
— Pensei que pudéssemos caminhar juntos, para que Loulou
visse algo novo? — Eu disse para Daniele. Seu aceno foi rápido e sua
excitação óbvia despertou a minha.
— Isso parece bom. O tempo está bom e não está muito frio.
Conheço um belo parque não muito longe — disse Elia.
— Ótimo. — Eu levantei. — Por que você não vai em frente e
prepara tudo enquanto falo com Sybil.
Elia olhou entre Sybil e eu antes que ele se levantasse e saísse.
Levando a louça para a pia onde Sybil estava esfregando a panela,
eu disse: — Você trabalha aqui desde o primeiro dia do casamento de
Cassio com Gaia, certo? — Eu disse em voz baixa para que as crianças
não me ouvissem. Eu não sabia disso, mas o olhar no rosto de Sybil
confirmou minha suposição.
— Sim.
Ela evitou meus olhos colocando a louça na máquina de lavar
louça.
— Como ela era?
Meus pais a encontraram em funções oficiais, é claro. Ela era
uma dama, sempre com estilo perfeito, mas isso não significava nada.
Aparências externas e o que acontecia atrás de portas fechadas eram
duas coisas muito diferentes. — Eu só trabalhava para ela. Eu não a
conhecia.
Eu lancei-lhe um olhar incrédulo. — Como você pode trabalhar
para alguém há anos e não conhecê-lo?
Sybil fechou a máquina de lavar louça e depois se ocupou em
limpar os balcões. — Ela mantinha distância. Ela nunca tomava café da
manhã na cozinha. Preferia que eu terminasse minhas tarefas o mais
rápido possível para que eu pudesse sair. — Ela balançou a cabeça. —
Se você quiser saber mais, precisará conversar com o mestre. Mas acho
que não deveria.
***
Com Simona amarrada na minha frente e Daniele em seu
carrinho, passeamos pelo parque em direção a uma área cercada para
cães. Domenico manteve distância, fingindo ser um andarilho casual,
mas Elia ficou ao meu lado. Para um estranho, parecia que éramos um
casal. Elia definitivamente fingia esse papel, considerando o quão perto
andava ao meu lado. Loulou saiu correndo no momento em que a soltei
e logo foi atrás de outros cães.
— Deve ser estranho, — começou Elia, sentando-se ao meu lado
no banco. — Viver em uma cidade estranha com um homem que você
mal conhece.
Daniele seguia os cachorros brincando com os olhos. Esse olhar
fascinado geralmente só aparecia em seu rosto quando ele olhava para
a tela. Simona também assistia com olhos enormes.
— Eu fui preparada para esse tipo de vida desde pequena. As
regras em nosso mundo são as mesmas há muito tempo.
— Elas são, mas isso não significa que é sempre fácil cumpri-las.
Eu me virei para Elia. A maneira como ele olhou para mim, como
se quisesse ver o que seria necessário para me fazer reagir, levantou
minhas paredes protetoras. — Você tem o hábito de violar as regras?
Ele sorriu como se fosse me contar um segredo. — Pode ser
libertador.
Ele estava flertando comigo. Loulou ganiu e latiu. Minha cabeça
virou. Um cachorro maior estava tentando montá-la. — Você pode
ajudá-la?
Elia não hesitou. Ele pulou e correu em direção aos dois cães. O
dono do outro cachorro, um jovem hipster de óculos e barba fez o
mesmo. Eles conseguiram separar os cães. Para minha surpresa, eles
começaram a conversar.
Elia tinha o mesmo sorriso que me lançou o dia todo, mas esse
era menos expectante, menos desafiador. Era naturalmente
galanteador, algo que ele não precisava forçar. O cara hipster riu, ainda
segurando seu pequeno bulldog pela coleira.
Elia sorriu, mas então ele notou meu olhar e seu comportamento
mudou. Ele disse alguma coisa e voltou correndo para mim com Loulou
nos braços.
Eu examinei seu rosto. Por um momento, lá atrás, parecia que eu
o pegara. Talvez Elia estivesse violando as regras, mas não de uma
maneira que insinuou. Agora fazia sentido o motivo de Cassio ter
escolhido um homem tão atraente para me proteger. Elia não era um
perigo aos seus olhos. Eu provavelmente poderia desfilar nua o dia todo
e Elia não se importaria nem um pouco.
Voltamos para casa muito mais cedo do que o planejado, porque
Simona teve um ataque interminável de choro. Ela não me deixou
acalmá-la, não importa o que eu fizesse. Daniele também ficou irritado
por causa disso, mas a presença de Loulou impediu seu colapso, pelo
menos. Quando finalmente consegui que Simona se acomodasse para
tirar uma soneca depois do que pareceram horas, eu me sentia
esgotada. Eu pensei em ligar para Cassio para pedir sua ajuda, porque,
ao contrário de Daniele, Simona se acalmava assim que seu pai estava
perto. Agora estava feliz por ter conseguido sem ligar para ele.
Eu não queria que ele achasse que eu não podia lidar com a
situação. Minhas roupas estavam encharcadas de suor quando afundei
no sofá minutos depois de Simona adormecer. Daniele estava sentado
no chão, com o tablet no colo. Eu cedi e lhe devolvi. Se ele também
tivesse começado a chorar como Simona, eu também teria chorado.
Elia veio na minha direção, carregando duas xícaras. — Parece
que você precisa de um café.
— Eu preciso de uma bebida e um banho. — Apesar da minha
falta de experiência com álcool, de repente entendi por que as pessoas
almejavam uma bebida depois de dias como esse.
Ele riu e me entregou a xícara. — O café é um começo, você não
acha?
Ele se sentou ao meu lado, mais perto do que era apropriado.
Dessa vez não me incomodou, porque agora eu sabia a verdade. Tomei
um gole de café preto. Geralmente eu bebia o meu com leite e açúcar,
mas isso era bom agora. Eu olhei para Elia abertamente, sem me
preocupar em esconder minha atenção. Ele usava uma camisa branca
apertada que acentuava seus músculos e um coldre de arma preto
sobre ela. Eu me perguntei se ele era bom com armas, se isso era pelo
menos parte da razão pela qual Cassio o havia escolhido, ou talvez sua
presença fosse apenas uma armadilha.
Cássio havia preparado Elia para fazer isso. Eu não tinha dúvida
sobre isso. Cassio era ciumento. Ele próprio admitira, e Faro e
Mansueto também confirmaram. Eu não esperava que ele sentisse
ciúmes o suficiente para me enganar assim, no entanto. Isso me
enfureceu, e, além disso, me deixou muito triste. Se Cassio confiava tão
pouco em mim, tínhamos um longo caminho a percorrer para que esse
casamento funcionasse.
Coloquei a xícara na mesa e encarei Elia. Eu me inclinei mais
perto, avaliando sua reação. — Eu tenho me feito uma pergunta ...
Seus olhos se tornaram cautelosos, mas o sorriso permaneceu
estampado em seu rosto. — Cassio sabe? — Eu murmurei.
Seu sorriso se tornou menos honesto. — Sabe o que?
— Que você gosta de homens.
Por um instante, a expressão de Elia deslizou antes que ele
pudesse controlá-la novamente. — Eu não sei do que você está falando.
— Oh sim? — Eu disse. — Vi como você checou aquele cara no
parque de cães. Você estava flertando com ele como esteve fingindo
flertar comigo. Eu não sou cega. Talvez os homens do nosso mundo não
notem porque preferem ver o que querem, mas não me importo se você
gosta de homens ou mulheres. Amor é amor.
Elia sacudiu a cabeça. — Eu não chequei ninguém. Você não
pode sair por aí dizendo algo assim. Você sabe o que aconteceria comigo
se esses rumores se espalhassem.
— Não tenho absolutamente nenhuma intenção de contar a
ninguém. Isso é da sua conta — falei. Oficialmente, não havia nenhum
homem feito gay. Era ridículo. Os meninos aprendiam a esconder que
gostavam de outros meninos ou eram mortos. Essa era a única razão
pela qual não havia homens gays em nossos círculos. — Mas Cassio
sabe.
Eu praticamente podia ver os pensamentos de Elia correndo
enquanto ele tentava me despistar. — Se ele imaginasse que sou gay,
me mataria. A máfia não tolera bichas.
Eu sorri. O insulto foi um toque agradável. Não deu certo. — Não,
a menos que você não torne público. E às vezes é útil ter soldados gays,
especialmente se alguém é tão ciumento quanto Cássio parece ser.
Elia não disse nada. Pude ver que ele estava completamente
perdido. — Isso é...
— Ridículo? Sim, isso é. Cassio pediu para você dar em cima de
mim para ver se eu cairia?
Elia passou a mão pelos cabelos. Eu o encurralei. Era óbvio que
nem ele nem Cassio esperavam que eu os pegasse. Isso me deixou
ainda mais furiosa do que o fato de eles tentarem esse truque.
— Eu sou seu guarda-costas. Eu tenho que te proteger. Você
deveria conversar com Cassio se acha que estou fazendo um mau
trabalho.
Revirei os olhos. — Talvez você deva ir para a sala dos
funcionários agora. Eu realmente não estou com disposição para ser
enganada no momento.
Elia inclinou a cabeça e saiu. Ele ligaria para Cassio no segundo
em que estivesse na sala dos fundos. Recostei-me no encosto do sofá,
fechando os olhos brevemente, me sentindo exausta. Minha camisa
grudava nas minhas costas suadas. Um focinho quente cutucou meu
braço. Abri os olhos para encontrar Loulou no sofá ao meu lado. Ela
estava tentando me consolar? Eu tinha lido que os cães podiam captar
emoções humanas, mas não esperava que Loulou agisse sobre isso.
Ela provavelmente não era permitida no sofá, mas não me
importei se Cassio aprovaria ou não. Dei um tapinha no meu colo e ela
se enrolou sobre ele.
Daniele largou o tablet e se aproximou de mim. Ele subiu no sofá
e sentou-se ao meu lado. Suas perninhas nem chegaram à borda. Eu
sorri para ele. Seus olhos transmitiam perguntas que ele não
expressou.
— Estou bem, apenas cansada. Loulou está tentando me
consolar, porque pode sentir que estou cansada.
Daniele assentiu lentamente. Acariciei sua cabeça com cuidado,
vendo se ele se afastaria, mas não o fez. Eu senti os nós nos cabelos
dele. Eu tinha visto como ele lutava quando Sybil ou Cassio tentavam
pentear seus cabelos. Pelo jeito que parecia, duvidava que pentear
funcionaria. — Loulou parece fofa com seu cabelo curto, certo?
Daniele assentiu.
— Você me deixa cortar um pouco o seu cabelo? Não muito, só
um pouquinho, então Loulou não se sentirá sozinha com o cabelo
curto?
Um aceno ainda menor foi sua resposta. Coloquei Loulou
gentilmente no sofá e fui pegar a tesoura. Quando voltei, Loulou estava
encolhida no sofá e Daniele estava sentado muito perto, mas não a
estava tocando, embora eu pudesse ver que ele queria.
— Você pode sentar no meu colo enquanto corto seu cabelo? —
Acenei com a cabeça.
Eu levantei Daniele e o posicionei sobre meu joelho quando me
sentei. Acariciei sua cabeça suavemente antes de começar a cortar o
cabelo na parte de trás de sua cabeça. Ele não se mexeu, apenas olhou
para Loulou. Também diminuí o cabelo dos lados, deixando apenas o
cabelo por cima. — Você parece muito legal agora.
Daniele permaneceu sentado na minha perna e eu continuei
acariciando sua cabecinha. — Espero que você fale comigo um dia. Eu
adoraria ouvir sua voz. Você pode falar comigo sobre tudo. Eu posso
guardar segredos se você precisar. OK?
Ele olhou por cima do ombro, realmente me olhou nos olhos e,
nesse momento, ele parecia muito mais velho do que seus quase três. —
Seu pai te ama. — Daniele desviou o olhar e deslizou da minha perna.
Ele afundou no chão com o tablet mais uma vez.
***
Cassio não estava em casa a tempo do jantar. Passava um pouco
das oito quando me acomodei na poltrona confortável em frente à
lareira na sala de estar, lendo um dos meus livros favoritos. Eu tinha
pensado em fazer Pilates ou terminar minha pintura recente, mas não
havia encontrado energia para fazê-lo. Meu telefone estava na mesinha
lateral, esperando uma mensagem de Cassio. Amigas da escola haviam
me enviado uma mensagem, mas eu já podia sentir que nossa amizade
não sobreviveria à distância. Nós nunca fomos as amigas íntimas com
quem você compartilhava seus segredos mais sombrios. Talvez eu
devesse enviar uma mensagem para Cassio para perguntar quando ele
estaria em casa, mas mesmo que tivesse o número dele, ainda não
tínhamos mandado mensagens. Eu pensei em mandar uma foto para
ele do parque de cães, mas nunca fiz isso.
Uma ideia passou pela minha cabeça. Levantei-me e fui até o
armário de bebidas à esquerda da lareira de mármore. Estava cheio de
várias garrafas de uísque, gim, bourbon e todos os tipos de bebidas
alcoólicas que eu não conhecia. Lembrando as palavras de Cassio que
eu não deveria beber, peguei a garrafa uísque mais cara com um nome
que eu nem conseguia pronunciar: Laphroaig, uma edição limitada. Eu
me servi de uma quantidade generosa e a levei de volta para a cadeira
comigo. Recostando-me, respirei fundo e tossi, surpresa com o aroma
de fumaça do álcool. Tomei um gole e depois tossi ainda mais, lágrimas
brotando nos meus olhos. — Oh Deus.
Por que alguém beberia isso por escolha? Talvez fosse uma coisa
de homem. Depois de me recompor, peguei meu telefone, levantei o
copo aos meus lábios, sorri desafiadoramente e tirei uma selfie. Enviei
para Cassio.
Laphroaig está me fazendo companhia enquanto você
trabalha.
Ele visualizou minha mensagem quase que instantaneamente. Ele
não respondeu.
Irritada, larguei o copo e meu telefone.
Quinze minutos depois, a porta da frente se abriu e fechou.
Loulou, que estava enrolada em sua cesta, invadiu o saguão, seguida
pela voz de desaprovação de Cássio.
— Loulou! — Eu chamei, pegando o copo e tomando outro gole
maior. Loulou correu para a sala e se aconchegou na cesta mais uma
vez. Eu rapidamente joguei minhas pernas sobre o apoio de braço, para
que Cassio visse minhas meias acima do joelho que ele odiava tanto.
Então Cassio apareceu na porta, sombrio e imponente, parecendo o
empresário mortal que ele era. Ele me examinou da cabeça aos pés,
persistindo no copo ainda pressionado nos meus lábios, no meu vestido
florido e nas meias pretas.
Sua raiva veio rápida, transformando seu rosto em uma máscara
de arestas ainda mais nítidas. Rapidamente, meu estômago se apertou
de medo, com o conhecimento de que eu não sabia nada sobre a morte
de Gaia, mas não permiti que essa emoção assumisse o controle. Cássio
não tinha feito nada comigo. Ainda assim, quando ele fechou a porta,
minha adrenalina aumentou. Ele avançou em minha direção, mas eu
não me mexi e tomei outro gole do uísque. Queimou uma trilha na
minha garganta, e o calor começou a florescer na minha barriga, não
apenas do álcool. Algo sobre a desaprovação primordial no rosto de
Cassio despertou meu corpo de maneira que eu não precisava nesse
momento. Nós tínhamos que conversar sobre Elia, e eu não deixaria o
sexo atrapalhar.
— Não tenho tempo para jogos, Giulia. Essa foto deveria me
provocar? — Ele parou em frente à poltrona, alto e sinistro. Ele parecia
de tirar o fôlego e aterrorizante.
— Não, — eu disse levemente. — Eu só queria mantê-lo
atualizado sobre minhas atividades noturnas, considerando o quanto
você está ansioso para controlar todos os aspectos da minha vida.
Ele se inclinou sobre mim, seus braços musculosos apoiados nos
braços da poltrona. O tecido caro de seu casaco roçou minhas
panturrilhas, e o atrito, embora distante, me arrepiou. Talvez tenha sido
o álcool que me fez tão sensível à aura de Cássio. Ele transbordava
domínio e sensualidade primordial. Seus olhos deslizaram sobre
minhas pernas cruzadas, permanecendo na faixa de pele nua na minha
coxa. Então ele olhou para cima. Engoli em seco com a intensidade de
sua expressão, como se ele não tivesse certeza se queria me devorar ou
me bater. — O que isto quer dizer?
— Elia. Não me diga que ele não te ligou hoje. Aposto que você
espera atualizações de status de sua missão a cada hora.
A palma da mão forte de alguma forma encontrou o caminho para
a pequena faixa de pele nua entre a barra da minha saia e minhas
meias acima do joelho . Senti o toque entre minhas pernas, queria que
seus dedos se movessem mais alto, mas me contive. Ele pegou o copo
de mim e bebeu o uísque. — Eu disse que não quero que você tome
bebidas destiladas.
— Porque eu não tenho idade suficiente.
Cassio colocou o copo sobre a mesa, inclinando-se ainda mais. —
Giulia. — A palavra era um rosnado baixo, cheio de aviso. Eu não me
importei. Sua mão deslizou mais alto na minha perna, debaixo da
minha saia, e seus lábios caíram nos meus. Por um instante, meu corpo
arqueou em direção a ele, ansioso pelo toque, pelo beijo e pelo que
prometia. Mas eu não ia deixar Cassio me distrair com sexo furioso, não
importa o quão desesperadamente meu corpo o quisesse. Eu empurrei
contra seu peito, arrancando minha boca da dele. — Não. Pare.
Os dedos de Cassio roçaram minha calcinha, encharcada de
nossa discussão. Ele gemeu. — O que você esta fazendo comigo?
Eu? O que eu estava fazendo?
Eu pressionei mais forte contra ele. — Cassio, pare.
Seus olhos focaram em mim e sua expressão suavizou, tornando-
se cautelosa e distante. Ele se endireitou, me roubando seu calor, seu
toque, seu perfume. — Precisamos conversar sobre Elia, — eu disse.
Cassio deu um passo atrás e alisou as rugas do casaco como se
nada tivesse acontecido. — Não há nada para conversar. Você deixa sua
imaginação correr livre.
A raiva me atingiu. Abaixei minhas pernas e me levantei. Desde
que ele era mais do que uma cabeça mais alta, isso realmente não teve
o efeito que eu queria. — Quão estúpida você acha que sou?
Cássio ergueu as sobrancelhas. — Eu não sei do que você está
falando.
Eu bufei, lembrando exatamente das mesmas palavras de Elia.
— Você sabe exatamente do que estou falando Cassio, porque no
momento em que confrontei Elia, ele ligou para você.
O rosto de Cássio continuava sendo uma máscara de calma
estoica, e isso me enfureceu ainda mais.
— Você está sendo irracional e infantil.
Sempre que eu tentava falar com ele ou fazê-lo renunciar ao
controle, ele me acusava de ser criança. Mas quando queria dormir
comigo, esse fato não lhe passava pela cabeça.
— Como sua esposa, eu mereço a verdade. Eu não mereço ser
enganada e espionada. Qual foi o propósito dessa farsa? Você achou
que eu me jogaria no primeiro homem atraente que sorrisse para mim?
Cássio estreitou os olhos. — Então, você o acha atraente.
Eu tinha cansado. Fui até ele e olhei para cima. — Você está
falando sério?
Cassio não se dignou a me responder. Ele desabotoou a camisa
com indiferença irritante.
— Olhe para mim.
Ele levantou a cabeça, mas seus olhos estavam duros. Nenhum
sinal de culpa. Ele achou que suas ações eram boas?
— Não acredito que você usou Elia como uma armadilha para ver
se eu trairia você. Estamos casados.
— O casamento nunca parou ninguém.
— É mesmo? — Eu perguntei curiosamente, tentando descobrir
se ele estava se referindo a si mesmo.
— Eu nunca trairia.
— Oh, então devo aceitar sua palavra, mas você pode usar meu
guarda-costas para me testar? Você não percebe como isso é errado?
— Eu faço o que é necessário.
— Necessário? Então, você admite que mandou Elia flertar comigo
para ver como eu reagiria? Você deveria confiar em mim. Dor surgiu na
minha voz.
— Eu não confio em ninguém.
Meu primeiro impulso foi reagir com raiva, com um comentário
rápido, porque esse dia havia sido difícil e eu não tinha um ombro para
descarregar, apenas um marido que me tratava como criança e não
confiava em mim. Mas minha raiva não mudaria nada. Isso só levaria a
mais ressentimento. — Eu não sei o que aconteceu entre Gaia e você.
Talvez você se preocupe que eu seja como ela. Eu não a conheci, então
não posso prometer que não sou. O que sei é que, se você não se
permitir conhecer-me, nunca confiará em mim e, se não confiar em
mim, esse casamento fracassará de qualquer maneira. — Engoli em
seco, me afastando de sua expressão dura. — Talvez você precise de
mais tempo. Você obviamente não quer minha proximidade, exceto
quando fazemos sexo. Não vou pressioná-lo, mas não tenho certeza se
posso fazer isso. Não agora. Vou lhe dar o quarto que você precisa e irei
para o quarto ao lado do de Simona. Dessa forma, você terá a cama
para si.

Cassio
Giulia saiu da sala de estar. Eu estava congelado, não porque
Giulia havia pego Elia. Não, porque ela queria sair do nosso quarto.
Desta vez foi definitivamente minha culpa. Eu não tinha reagido quando
Gaia insistiu em seu próprio quarto há muitos anos. Eu aceitei. Eu não
cometeria o mesmo erro, não apenas porque temia repetir a experiência.
Eu queria Giulia na minha cama, perto de mim.
Eu a persegui e a encontrei na escada. Segurando seu cotovelo, a
virei para mim. Ela quase perdeu o equilíbrio e teve que agarrar meus
ombros para se firmar. Os olhos dela estavam cheios de lágrimas. Era a
terceira vez que fazia minha jovem esposa chorar. O casamento não era
lugar para a crueldade. Foi o que o pai disse, e eu tinha certeza de que
não era culpado disso. No entanto, a crueldade vinha em diferentes
formas e aspectos. Giulia não fez nada para merecer minha suspeita,
minha frieza, e ainda assim estava sendo punida pelo crime de outra
pessoa.
— Não deixarei você sair do nosso quarto, Giulia. Você ficará.
Giulia examinou meu rosto. — Por quê? Você nem quer me
abraçar à noite.
Porra. O brilho de mágoa em seus olhos me fez desejar aquelas
chicotadas novamente. — Fique. — Eu peguei sua bochecha. Ela se
inclinou para o toque. Eu escovei sua bochecha.
— Por quê?
— Porque estou dizendo.
Ela balançou a cabeça. — Me dê outro motivo.
— Porque te quero perto. Porque gosto de adormecer com seu
aroma de morango à noite.
A boca dela se contraiu. — Aroma de morango?
Inclinei-me, pressionando meu rosto no local delicioso onde sua
garganta encontrava seu ombro, absorvendo aquele aroma doce antes
de pressionar um beijo na sua pele. — Como um maldito campo de
morango. Eu nem gosto de morangos.
Ela riu, se contorcendo sob a minha boca. — Quem não gosta de
morangos?
— Eu. São embalagens falsas. Eles prometem doçura, mas na
maioria das vezes são azedos e aguados.
Giulia tentou se afastar dos meus lábios e eu os corri por sua
garganta, saboreando suas risadas sufocadas. — Cassio, isso faz
cócegas.
Eu levantei minha cabeça.
Seus olhos estavam iluminados com diversão, e só de olhar para
sua alegria desprotegida dispersou um pouco do peso da minha alma.
— Ninguém pode resistir a um doce morango.
— Sim, — eu murmurei. — Eu posso ver isso.
Giulia balançou a cabeça. — Não posso cheirar a morangos. Meu
xampu é cereja.
Eu ri. — É morango para mim.
— Certo. Se você pedir que a cereja seja um morango, é isso que
será.
Eu a calei com um beijo, não os duros atraídos pela raiva. Um
beijo gentil. Ela manteve os olhos abertos, não me deixando escapar. —
Você me quer perto a noite?
— Eu quero.
— OK. — Sem joguinhos, apenas um simples ok.
Eu a levantei em meus braços e a carreguei para cima. —
Cassio...
— Shhh... conversaremos depois. — Ela não discutiu. No
momento em que a deitei na cama, ela moldou seu corpo no meu. Eu
me cansaria de seu cheiro e gosto?
Ela estava esparramada em cima de mim depois, minhas mãos
espalhadas em sua bunda firme. Sua franja grudada na testa suada. —
Agora nós conversamos, — disse ela quando eu nem sequer havia
recuperado o fôlego.
— Giulia...
— Você prometeu, — disse ela, e seus olhos pararam qualquer
protesto que eu poderia ter.
— Prometi. — Ela esperou. Por uma admissão, por minha
alegação de culpa. — Você está certa. Pedi a Elia para testar sua
lealdade.
Giulia se sentou, montando em meu estômago. Eu adorava que
ela não fosse tímida sobre seu corpo, e adorava admirá-la. Sua
expressão deixou claro que ela não estava tentando outra rodada. Ela
queria essa posição mais alta para se sentir no controle. Eu lhe daria
isso. Agarrei seus quadris, precisando tocá-la.
— Testar minha lealdade? Você pediu a outro homem que desse
em cima de mim para ver se eu estava disposta a trair.
A amargura torceu meus pensamentos. — Eu não confio em
ninguém, não só em você.
— Sou sua esposa, Cassio. Temos que confiar um no outro. Eu
não quero que sejamos estranhos vivendo sob o mesmo teto. Quero que
esse casamento funcione, não apenas por nós, mas também por Simona
e Daniele. Eles precisam de uma família feliz.
— Família feliz, — repeti. Meus filhos nunca experimentaram uma
família feliz. Por um tempo, Gaia e eu conseguimos esconder nosso
ressentimento um pelo outro, mas nos últimos dois anos, as coisas
haviam piorado.
— Eu quero isso, — ela sussurrou ferozmente, abaixando-se até
que seu rosto pairou sobre o meu.
— Eu também, — eu disse. Mas eu era realista e, em alguns anos,
Giulia seria também.
— Mas você não acredita nisso.
Olhando para o rosto esperançoso e gentil de Giulia, eu realmente
queria uma família feliz. — Não é uma questão de crença.
— É sim. Se você não acredita, se não trabalha para isso, não se
tornará realidade.
Eu sorri melancolicamente, me perguntando se eu já tinha sido
tão otimista.
— Não culpe isso por eu ser jovem, — ela alertou, os olhos
brilhando com irritação. — Ser positiva não é uma característica dos
jovens. Você está sendo um velho rabugento por opção.
Uma risada saiu de mim. Giulia sorriu. Então ela tornou-se
desconfiada e esperançosa. — Cassio, eu quero ser feliz. Quero que
todos sejamos felizes.
— O que você quer que eu faça? — Eu perguntei sem pensar.
Giulia era jovem. Eu não seria responsável por sua infelicidade, pelo
menos não de propósito. Eu não tinha muita certeza se tinha uma
escolha no assunto. Com Gaia, achei que tinha feito tudo que podia
para fazê-la feliz. Em retrospectiva, não tinha sido suficiente, mas eu
estava enfrentando um desafio impossível.
— Permita-se confiar em mim.
Eu corri minha palma pelas costas dela ao longo dos solavancos
suaves de sua coluna antes de pegar sua cabeça, puxando-a para baixo
para um beijo. — Vou tentar.
— Você poderia começar me dizendo o que aconteceu com Gaia e
por que Daniele age da maneira que faz.
Eu balancei minha cabeça. — Esse é passado e não tem nada a
ver conosco.
Giulia sorriu tristemente. Ela sabia tão bem quanto eu que tinha
tudo a ver conosco, mas o passado com Gaia não era algo que eu
compartilharia com ela. Não serviria a nenhum propósito, a não ser
destruir qualquer tentativa de vínculo que estivesse se formando entre
Giulia e eu. Ela era jovem. Talvez fosse por isso que eu estivesse
disposto a tentar. Eu não queria ser o único a destruir sua beleza.
— OK. — Não estava. A linguagem corporal de Giulia deixou isso
claro.
— O quê mais?
— Passe algum tempo comigo e com as crianças. Tempo em
família. Estar em casa para jantar, estar em casa no domingo. Quero
conhecê-lo, o que você gosta de fazer no seu tempo livre, o que você
gosta de fazer em geral.
Tentei me lembrar da última vez que fiz algo que gostava de fazer
que não envolvesse minha linha de trabalho. Não consegui.
— Não me diga que não há nada que você goste de fazer, exceto
trabalhar. Deve haver algo que você gosta além de tortura e
assassinato.
Tão desinibida com suas palavras. Era uma lufada de ar fresco.
Eu cantarolei, segurando sua cabeça com mais força. — Eu sou bom
em ambos.
— Eu não duvido, — ela sussurrou, tremendo. — Adoro pintar e
fazer Pilates.
Meus dedos em seu pescoço se afrouxaram. — Pintar?
— Sim, telas. Natureza morta, paisagens, animais. Eu não sou
tão boa com o corpo humano, mas estou tentando melhorar. Era isso
que estava no pacote enorme. Minhas telas.
Eu não tinha prestado muita atenção aos pertences de Giulia.
Talvez eu devesse ter demonstrado interesse básico na vida de minha
esposa antes de arrastá-la para a bagunça que era minha.
— E o Pilates me ajuda a ficar em forma, e é bom para minha
saúde mental também. — Ela ficou calada. — Você olha para mim como
se eu estivesse falando bobagem.
— Você não está, — eu disse. — Você continua me
surpreendendo.
— De um jeito bom ou ruim?
— Bom.
Ela encolheu os ombros. — Isso é bom.
Isso era. Mas as coisas boas sempre vinham com um preço. —
Você pintou desde que chegou aqui?
— Não, eu estava ocupado me instalando, e as crianças e Loulou
me mantêm na ponta dos pés. — Ela inclinou a cabeça, pensativa. — E
eu precisaria de um quarto para pintar. O vapor precisa ser contido.
— Há um quarto vazio ao lado do meu escritório. Tem uma bela
vista do jardim e acesso direto ao terraço.
O rosto de Giulia se iluminou. Ela se abaixou e apoiou o queixo
nos braços cruzados no meu peito. — Obrigada.
— Como estão as coisas entre você e meus filhos?
Sua boca afinou, mas eu não tinha certeza do por que. — O que
há de errado?
— Nada, — disse ela, mesmo que obviamente houvesse. — As
crianças e eu estamos nos conhecendo. Acho que posso ganhar a
confiança de Daniele através de Loulou, e hoje Simona me deixou
carregá-la sem chorar.
— Sobre o cachorro...
Giulia retornou à posição sentada. — Não quero dar Loulou e não
a trancarei dentro de um quarto. Não é justo com ela. Qual é o seu
problema com ela, afinal?
— Além do fato de que ela não foi treinada muito bem?
— Isso não é culpa dela. Gaia nunca a treinou?
Eu fiquei tenso. — O cachorro chegou em um momento difícil.
— Eu acho que Loulou é boa para esta família, e realmente gosto
dela.
— Então fique com ela, mas a treine.
— Elia vai continuar como meu guarda-costas?
— Claro, ele é uma boa escolha.
— Porque ele não está interessado em mulheres.
Eu estreitei os olhos, me perguntando como exatamente ela
descobriu. Ela não entendeu minha expressão. A preocupação apertou
seu rosto. — Você sabia, certo?
— Claro, é por isso que ele pode ser seu guarda-costas.
Giulia bufou. — Confiança?
Eu sorri sombriamente, em seguida, molhei meu polegar e o
pressionei no pequeno botão rosa, que me provocou de seu local
privilegiado entre aqueles lábios carnudos.
— Vamos trabalhar nisso. Mas mesmo que eu confie em você, isso
não significa que vou confiar em qualquer homem ao seu redor. —
Mergulhei meu polegar entre suas dobras, reunindo sua umidade antes
de passar o dedo sobre seu clitóris novamente.
Giulia recostou-se, apoiando-se com as mãos nas minhas coxas,
me dando um melhor acesso e uma bela vista. Seu sorriso se tornou
provocante quando meu pau roçou suas costas. — Não é um homem
tão velho, afinal, hmm?
Eu circulei meu polegar mais rápido, gostando de como os
quadris de Giulia se moviam, perseguindo meu dedo. Eu tinha trinta e
poucos anos, definitivamente não era velho, mesmo que sentisse isso
nos últimos meses e especialmente em comparação com Giulia. — Eu
tenho muito que compensar.
A curiosidade brilhou em seu olhar, me fazendo lamentar as
minhas palavras. — Me chupe, — pedi antes que ela pudesse
perguntar. Ela levantou uma sobrancelha, a boca contraída em fingida
indignação. Porra, ela era adorável demais.
— Diga-me algo que você gosta de fazer primeiro. Um hobby.
— Além de comer sua boceta?
Ela balançou a cabeça, abrindo a boca para um retorno
indubitavelmente insolente, mas a agarrei pelas coxas e a virei. Ela
gritou de surpresa, sua respiração quente no meu pau e sua bunda
apoiada na minha frente. Eu bati na sua nádega em advertência e
mordi. Giulia estremeceu com um suspiro engasgado.
— Eu faço as regras nesta casa, querida, especialmente nesta
cama.
Um calafrio percorreu sua espinha. Eu massageei sua bunda,
apreciando a visão de sua excitação.
Ela agarrou meu pau e me chupou bruscamente em sua boca,
fazendo-me tremer com um gemido. Tão inesperadamente como me
chupou, ela me soltou. — Diga-me uma coisa, — ela exigiu suavemente
antes de me chupar profundamente em sua boca novamente.
Apertei sua bunda com força em aviso. — Me chupa. Não fale. —
Eu atrai os lábios da sua boceta na minha boca. Seu gemido vibrou
contra minhas bolas antes que ela as chupasse em sua boca. — Uma
coisa. — Ela deslizou o braço entre os nossos corpos. Escovou meu
peito e seus dedos esbarraram no meu queixo. Eu me afastei para
assistir Giulia deslizar dois dedos nela mesma. Eu quase gozei nesse
momento. Sua língua disparou, lambendo meu pré-sêmen.
— Quid pro quo1.
Eu ri e exalei bruscamente enquanto seus dentes roçavam a parte
inferior sensível do meu pau e seus dedos continuavam bombeando sua
boceta.
— Eu costumava jogar sinuca, — rosnei. Eu estava tão
desesperado por sua boca, tão desesperado por seus dedos continuarem
fodendo aquela boceta doce que teria lhe contado tudo nesse momento.
Ela lançou um sorriso triunfante por cima do ombro. Eu não
aceitaria isso. Eu pressionei minha boca contra sua boceta, minha
língua lutando contra seus dedos pelo domínio. Ela gemeu alto, que
morreu quando empurrei sua boca de volta no meu pau, meus dedos
emaranhados em seus cabelos sedosos. Empurrei, mais profundo do
que antes. Ela lutou para me aceitar, mas não recuou. Seus dedos
bombearam sua vagina e minha língua os provocou e suas dobras, seu
clitóris, cada centímetro delicioso que eu poderia alcançar. Ela começou
a estremecer em cima de mim, gemendo ao redor do meu pau. Eu
continuei empurrando em sua boca. Eu queria prolongar isso, mas com
o corpo dela se desintegrando em cima de mim, seus dedos perseguindo
seu orgasmo, seu gosto na minha língua, eu não consegui segurar.

1 Quid pro quo é uma expressão latina que significa "tomar uma coisa por outra".
Enrijeci, meus dedos em seu pescoço se contorcendo e meus
impulsos se tornando espasmódicos quando gozei mais do que nunca. A
sensação de sua boca quente ao redor do meu pau enquanto tentava
engolir era perfeita. Giulia caiu em cima de mim, seus dedos ficando
frouxos, e eu também, estava drenado no colchão, meu coração
acelerado no peito. Depois de um momento, Giulia se afastou e tossiu.
Porra. Eu a segurei quando gozei em sua boca. Eu nem tinha
perguntado se ela estava bem com isso. Sentei-me um pouco, mas
Giulia só ficou lá com a bochecha contra a minha coxa, respirando com
dificuldade. Eu escovei seu cabelo para o lado para poder ver seu rosto.
Os olhos dela estavam fechados, as bochechas vermelhas. — Você está
bem?
Suas pálpebras se abriram e o canto da boca subiu. — Sim e
você?
Olhei para a garota em cima de mim, a mulher, minha esposa,
maravilhado com sua singularidade. Não era algo que já apreciei, e aqui
estava eu, incapaz de resistir ao seu corpo e charme. Esfreguei meu
polegar nos lábios de rubi. Ela cutucou minha pele com os dentes e me
deu um olhar tímido. — Você precisa me ensinar a jogar sinuca.
— Eu tenho uma mesa de sinuca no salão de charutos.
— Por favor, não me diga que você fuma charuto. Meu pai e tios
sim, e meu avô também. Vou me lembrar deles se sentir o cheiro em
você.
Essa era a última coisa que eu queria, lembrar minha deliciosa
jovem esposa dos velhos homens assustadores de sua família, e eu
tinha quase certeza de que ela sabia. Ainda bem que eu não gostava de
charutos. — Se você não gostar do cheiro, não vou fumar.
Ela estreitou os olhos e sorriu. — Por que sinto que você nunca
gostou deles para começar?
Ela se levantou e se arrastou de volta para mim, aninhando-se no
meu peito, com a bochecha no meu ombro. — Você vai me ensinar?
— Não será a primeira coisa que ensinarei a você, então por que
não? — Eu disse com uma voz baixa e possessiva.
Ela revirou os olhos. Eu gostaria de poder dizer que isso me
incomodava. — Podemos jogar uma partida agora?
— Está tarde. Eu preciso acordar cedo.
— Vamos. Não são nem onze. Divirta sua jovem esposa.
— Tudo bem, — eu disse para minha própria surpresa. Giulia
estava jogando as cartas certas, e ela sabia disso, e ainda assim não me
senti enganado por ela. Ela não estava fazendo isso para ter o melhorar
ou por razões ainda menos nobres, ela era apenas... seu eu peculiar. Eu
me arrastei, levando Giulia comigo. Ela deu um beijo agradecido na
minha boca e saiu da cama, tão cheia de energia que era admirável. Era
difícil resistir ao seu entusiasmo. Eu pulei da cama e me endireitei,
reprimindo um sorriso com a avaliação dela. Giulia nunca tentou
esconder que gostava do meu corpo. Peguei minha calça do pijama do
chão e a puxei pelos meus quadris.
Giulia vestiu a camisola e pegou o monitor de bebê e correu em
direção à porta, estendendo a mão. Balançando a cabeça com uma
risada, peguei a mão dela e a deixei me arrastar para baixo. Eu não
conseguia lembrar se já tinha sido tão espontâneo. Talvez na
adolescência, mas esse tempo parecia uma vida atrás.
Os olhos de Giulia se arregalaram quando entramos no salão de
charutos, que raramente era usado, somente quando meu pai ou
conhecidos de negócios insistiam nos charutos. O cheiro desbotado da
fumaça persistia, mas não era muito proeminente, porque Sybil sempre
trabalhava sua mágica com o purificador de ar.
No começo, eu ocasionalmente jogava sinuca sozinho ou com
Faro, mas até isso parecia uma eternidade atrás. O trabalho enchia
cada segundo dos meus dias recentemente, enquanto tentava impedir
as pessoas de falar sobre Gaia criando novos incidentes para
comentarem. Mas minha brutalidade no trabalho dificilmente chamou a
atenção necessária para afastar as fofocas em torno da morte de minha
esposa, afinal , eram velhas notícias.
Giulia absorveu tudo. Além das quatro poltronas em frente à
lareira, havia uma mesa de sinuca profissional. Giulia correu para os
tacos e pegou uma. — Mostre-me?
Foda-se sim. Sofri noites sem dormir com coisas menos divertidas
do que ensinar Giulia a jogar sinuca.
***
Giulia estava curvada sobre a mesa, tentando acertar a bola oito.
Sua língua estava entre os lábios em concentração. Meu peito estava
pressionado contra suas costas. Eu mandei a maioria das bolas para as
respectivas caçapas e, novamente, minha mão guiou a de Giulia quando
enviamos a bola oito para dentro da caçapa. Giulia sorriu, torceu o
rosto e deu um beijo entusiasmado nos meus lábios.
O grito de Simona ecoou nos alto-falantes, lembrando-me que
nossa vida não podia ser apenas preenchida com noites de sinuca e
sexo. Eu me endireitei, o peso de minhas responsabilidades retornando
aos meus ombros e com isso a preocupação de que isso não durasse.
Giulia pegou o monitor do bebê e fomos para o quarto de Simona.
Como sempre, os gritos de Simona aumentavam a cada momento
que passava, e quanto mais ela chorava, mais difícil seria acalmá-la.
Giulia acendeu as luzes e entrou no quarto, mas esperei na porta,
querendo ver como ela agia.
Giulia se inclinou sobre o berço e levantou minha filha,
embalando-a no peito. Sempre era eu quem a tirava da cama quando
ela chorava.
Simona ficou em silêncio e estava olhando para minha jovem
esposa. Esperei a explosão inevitável, um choro ainda pior do que
antes, mas Simona soltou um pequeno grito. — Shh. Você é a coisinha
mais fofa que eu já vi. — E então Giulia se inclinou e beijou a bochecha
esquerda da minha filha e depois a direita. — Com as bochechas mais
fofas que posso imaginar.
Meu coração bateu forte no peito, um staccato desigual que eu
podia sentir nos meus ouvidos. Não consegui me mexer. Simona pegou
a franja de Giulia e puxou, mas minha esposa apenas riu e soprou,
fazendo seu cabelo subir e com que os olhos de Simona se
arregalassem. Então ela riu.
Simona riu.
Giulia olhou para cima e sorriu, desprotegida, feliz, esperançosa.
Eu me virei e saí. — Vou preparar a mamadeira, — forcei. Mesmo que
eu desejasse que ela não fizesse, Giulia me seguiu escada abaixo. Ela
me observou o tempo todo enquanto eu preparava a mamadeira. Eu
podia sentir suas perguntas pairando na sala entre nós. Ela não
perguntou, apenas continuou arrulhando para minha filha.
Quando a mamadeira estava pronta, fui até ela. Ela se inclinou
para mim. — Por que você não a alimenta enquanto eu a seguro?
Eu olhei fixamente naqueles olhos azuis, me lembrando do jeito
que me senti quando estava nas dunas em frente à minha casa de
praia, olhando em direção ao oceano.
14
Giulia
Cassio manteve sua promessa. No dia seguinte, ele chegou em
casa na hora do jantar. Para ser sincera, fiquei surpresa. Eu não achei
que ele manteria sua promessa que tinha feito com meu corpo nu em
cima dele. Talvez eu tivesse meus próprios problemas de confiança para
resolver.
Ele pareceu surpreso quando entrou na cozinha, onde jantamos
nos últimos dias. Sybil se levantou de onde estava sentada, obviamente
sem saber como agir. Elia também se levantou e inclinou a cabeça
antes de ele pegar o prato e atravessar a porta dos fundos,
provavelmente em direção à casa da segurança. Ele e eu esclarecemos
as coisas pela manhã depois que Cassio o informou que eu sabia o que
estava acontecendo. Elia ficou embaraçado depois disso, obviamente
envergonhado, mas eu lhe disse que ele havia feito seu trabalho e que
não estava com raiva. Ele não poderia ter se negado a Cassio, afinal.
— Por que você não come na sala de jantar? — Ele perguntou.
Simona sorriu quando viu o pai. Seus dedos e bochechas estavam
manchados de ervilhas esmagadas, mas Cássio não parecia se
importar. Ele caminhou até ela, deu um beijo em sua testa e mal
escapou de suas mãos sujas antes que ela pudesse arruinar seu terno.
Daniele não reagiu de forma alguma, apenas apertou o garfo com
a fatia de cenoura no seu punhozinho. Por um momento, peguei o
desejo em seus olhos, no entanto. Ele queria estar perto de seu pai, mas
algo o impedia. Cassio virou-se para Daniele e beijou o topo de sua
cabeça antes de se aproximar de mim. Daniele nos observou
atentamente. Cassio tocou meu ombro e apertou levemente antes de se
sentar à minha frente. Eu não pude negar. Estava desapontada. Eu
gostaria que ele tivesse me beijado. Talvez ele estivesse preocupado com
a reação de Daniele. Afinal, sua mãe havia morrido há apenas seis
meses.
— Prefiro comer na sala de jantar, — disse ele simplesmente.
Eu odiava que houvesse uma distância entre nós quando não
estávamos sozinhos. — Eu não sabia que você estaria em casa para
jantar.
— Eu te disse que estaria, e continuará assim. Se eu não puder
chegar para o jantar, ligo para você.
Sybil colocou um prato com carne de porco assada, purê de
batatas e couve de Bruxelas a vinagrete que eram deliciosas na frente
dele. Ele deu um breve aceno de cabeça.
— Vou checar a roupa — disse ela e saiu, deixando seu prato
meio comido.
— Podemos comer na sala de jantar a partir de agora, — eu disse.
Daniele pegou um pedaço de carne de porco e jogou-o embaixo da
mesa. A expressão de Cassio mudou para raiva, mas rapidamente
balancei a cabeça e disse a Daniele: — Agora é sua vez de comer alguma
coisa.
Daniele espetou um pedaço de carne de porco e enfiou na boca,
mastigando obedientemente.
As sobrancelhas de Cassio franziram. — O que está acontecendo?
— Sua voz era moderadamente calma, mas eu podia dizer que ele não
aprovava a situação.
— Daniele e eu temos um acordo. Ele pode alimentar Loulou de
restos se comer alguma coisa.
Cassio soltou um suspiro. Simona começou a gemer, esticando os
braços em direção a ele. Ele se levantou, limpou seu rosto e as mãos
com um pano de prato molhado e a colocou no colo antes de continuar
o jantar. Eu sufoquei um sorriso. Era uma visão adorável: Cassio
usando seu terno de três peças, parecendo impressionante e poderoso,
com a pequena Simona no colo, em seu vestido de girassol. Ele nem se
queixou das flores. Mais uma vez, os olhos de Daniele se inclinaram
para Cássio, que estava encarando Simona e não percebeu.
Acariciei sua cabeça gentilmente. Ele olhou para mim, seu
pequeno rosto tão triste e desamparado que virou meu estômago. Se ao
menos ele falasse comigo.
Sentindo os olhos de Cassio em mim, peguei meu garfo e comi um
pedaço da minha carne de porco. — Como foi o seu dia? — Ele não
tinha me dito nada sobre o que fez durante o dia até agora, mas não
estava exatamente em casa cedo o suficiente para conversar.
— O de sempre.
Talvez eu devesse esperar uma resposta evasiva assim. Afinal,
Simona e Daniele estavam na sala. Falar sobre esse tipo de negócio ao
seu redor poderia assustá-los ainda mais do que a morte da mãe.
— O que você fez?
— Fomos ao parque de cães novamente, certo? — Eu disse a
Daniele, que deu um pequeno aceno antes de deixar cair um pedaço de
carne de porco no chão. — E Elia me ajudou a montar minha sala de
pintura. — Eu mal podia esperar para pintar novamente, para me
perder na minha arte.
O olhar de Cássio traçou meu rosto de uma maneira que me fez
sentir constrangida. Eu endireitei minha franja, me perguntando se ele
ainda a odiava. Ela fazia parte de mim, sempre fez.
— Eu estava pensando que poderíamos passar o fim de semana
na minha casa de praia. — Meus olhos se arregalaram. Fazia um tempo
desde que estive na praia.
Cássio tentou chamar a atenção de Daniele. O garoto
definitivamente se animou ao ouvir sobre a praia. — O que você acha,
Daniele? Podemos construir castelos de areia como da última vez.
Daniele deu um pequeno encolher de ombros, o que era alguma
coisa.
Cassio e eu levamos as crianças para a cama depois do jantar.
Cassio colocou Simona no berço enquanto eu ajudava Daniele a se
trocar. Era mais fácil desse jeito. Daniele não ficava tão chateado e,
pouco antes de ele dormir, isso era o melhor. Eu o cobri com seu
cobertor quando ele estava deitado na cama e despenteei seus cabelos.
— Loulou vai adorar a praia.
A boca de Daniele se abriu em um pequeno sorriso. Então seu
olhar disparou para algo atrás de mim. Ele mordeu o lábio inferior. Uma
sombra caiu sobre nós e um momento depois, Cassio se inclinou e
beijou a testa de Daniele. — Durma bem.
Levantei-me e, com um último aceno para Daniele, apaguei as
luzes e fechei a porta. Eu segui Cassio pelo corredor, mas antes que
pudéssemos chegar à escada, ele se virou para mim, agarrou meu
pescoço e me beijou profundamente, roubando meu fôlego. Meu corpo
ganhou vida imediatamente quando ele me pressionou contra a parede,
sua grande palma no meu peito, amassando, seus quadris contra mim.
Ele estava duro, cavando minha barriga insistentemente.
— Cama, — eu sussurrei.
— Foda-se não.
Eu pisquei, mas Cassio não me permitiu me orientar. Sua boca
na minha, ele agarrou minhas coxas e me levantou. — Bem aqui.
Contra esta parede.
Meus olhos se arregalaram. Cassio mordeu minha garganta e
depois acariciou o local com a língua. — E Sybil?
— Se foi. — Seu rosnado vibrou contra a minha pele. Segurando-
me com um braço musculoso e a pressão de seu corpo forte, ele
deslizou a mão entre nossos corpos. O assobio do zíper enviou um
arrepio na minha espinha um momento antes de ele empurrar minha
calcinha para o lado e entrar em mim em um golpe duro. Eu arqueei,
meio com dor, meio com prazer. Foi a primeira vez que ele me levou sem
muita preparação.
Sua boca pressionou contra a minha orelha. — Eu não lhe disse
para parar de usar aquelas meias acima do joelho e vestidos ridículos?
Eu encontrei seu olhar, me contraindo contra ele, perseguindo o
prazer enquanto meu corpo lutava para acomodar o comprimento de
Cássio. — Este é o meu castigo? — Meus lábios o provocaram com um
sorriso desafiador.
O domínio de Cássio sobre mim aumentou quando ele empurrou
novamente, me pressionando contra a parede. Eu enterrei meus
calcanhares na parte inferior das costas dele. — Não, querida, — ele
murmurou, e essa palavra me aqueceu como chocolate quente. — É um
aviso.
Eu ri. Não foi uma boa ideia. As palavras nunca saíram dos meus
lábios porque Cassio começou a bater em mim, mais forte e mais
profundo do que antes, forçando meu corpo a ceder a ele, e o fez. Logo
eu estava tão escorregadia ao seu redor, o som molhado de nossos
corpos se unindo enchendo o corredor. O beijo severo de Cássio engoliu
meus gritos de libertação quando gozei com um arrepio violento. Ele me
abaixou no chão e minhas pernas quase cederam. — Para baixo, — ele
ordenou.
Meus olhos brilharam indignados com a ordem, mas sua
expressão dominante e a fome primitiva em seus olhos falaram com
uma parte de mim que definitivamente não se importava com sua
atitude dominante. Caí de joelhos.
Seus dedos emaranharam no meu cabelo quando ele tomou a
minha boca.
Eu mantive meus olhos em seu rosto, adorando vê-lo relaxado.
Depois, ele me levantou, inclinando minha cabeça. — Ok ou
muito duro?
Fiquei na ponta dos pés e pressionei meu rosto na curva de seu
pescoço, tocada pela consideração em sua voz. Eu estava um pouco
dolorida e provavelmente continuaria me sentindo assim até amanhã,
mas me sentia bem de uma maneira impertinente, como se Cássio
tivesse deixado sua marca dentro de mim.
— Giulia? — O estrondo baixo de sua voz penetrou nos meus
pensamentos. — Muito duro?
Eu balancei minha cabeça com um pequeno suspiro. Ele pegou a
parte de trás da minha cabeça e deu um beijo na minha testa. O gesto
foi tão amoroso que me despertou emoções que eu estava com medo de
permitir. Afinal, este era um casamento de conveniência antes de tudo.
Eu não queria amá-lo antes que ele me amasse.
Que coisa boba de se pensar. Como se você pudesse adiar seu
amor até que fosse conveniente. Afastei-me e permiti que ele me levasse
para o quarto.
Mais tarde na cama, me aconcheguei contra Cássio, minha
bochecha em seu peito, seus dedos traçando meu braço. Já tínhamos
apagado as luzes e estávamos tentando adormecer. Pelo estado de
alerta persistente no corpo de Cassio, eu sabia que ele não estava nem
perto de dormir. — Você não consegue comigo em seus braços, certo?
Não queria parecer magoada, mas estava.
Cassio parou de me acariciar, sua caixa torácica se expandindo
sob a minha cabeça em um suspiro. — Vamos ver. Prometi que
tentaria.
— OK. Como você vai tentar confiar em mim.
O silêncio se seguiu. Ele estava tentando. Eu não poderia pedir
mais.
— Daniele já disse alguma coisa?
— Não, — eu disse. — Ele se comunica com assentimentos. O
aniversário dele é daqui a duas semanas, certo?
— Sim. Três anos. Ainda me lembro de quando o segurei pela
primeira vez.
— Vi uma foto de um recém-nascido. Eles não parecem muito
fofos com toda a sujeira neles.
— Ele já estava limpo quando eu o segurei pela primeira vez
algumas horas depois que ele nasceu.
— As enfermeiras não entregam o bebê aos pais logo após o
nascimento?
— Eu não estava lá quando Daniele nasceu.
— Ah, trabalho? — Imaginei.
A tensão irradiava de Cássio, e eu sabia que não tinha sido isso.
— Gaia preferiu dar à luz sozinha.
Fiquei feliz que a escuridão escondeu minha expressão. Por que
uma mulher não iria querer o marido quando dava à luz seu filho? —
Oh.
O silêncio encheu a escuridão. — E Simona?
Cássio balançou a cabeça.
— Não é injusto para você não deixá-lo experimentar o milagre do
nascimento? — Não era assim que todos chamavam, mesmo que eu não
pudesse ver a mágica em espremer algo tão grande da minha vagina.
— Eu tenho uma manhã movimentada na sexta-feira, mas quero
que a gente vá para a minha casa de praia à tarde, então teremos todo o
sábado para aproveitar nosso tempo lá.
— Por que você não fala comigo sobre o passado? — Eu disse
suavemente.
Cassio mudou, sua boca quente contra a minha orelha. — Pare
de bisbilhotar, Giulia. Você não vai gostar do que encontrará. Agora
durma.
Suas palavras doíam. Comecei a rolar para lhe dar espaço para
que ele pudesse dormir, o que obviamente não iria acontecer comigo
perto, mas seu braço em volta da minha cintura apertou. Ele me alojou
contra seu corpo mais uma vez. Engoli em seco.
— Você é jovem, — disse ele. — Eu me preocupo com todas as
maneiras pelas quais vou machucá-la antes que você se torne uma
adulta cansada para sobreviver em nosso mundo e ao meu lado.
— Eu não acredito nisso.
— Eu sei, mas eventualmente você vai.

Cassio
Eu não estive na minha casa de praia há três meses. A última vez
que fui, ansiava por paz e sossego após o funeral de Gaia. Eu vim
sozinho sem Simona e Daniele porque cada olhar para eles me lembrava
da mulher que eu queria esquecer.
Os olhos de Giulia se arregalaram quando paramos em frente ao
esplêndido bangalô branco na praia. Mia era dona da casa ao lado, mas
raramente visitávamos esse lugar ao mesmo tempo, mesmo que ela
insistisse em férias em família há algum tempo. Simona adormeceu em
seu assento, mas o rosto de Daniele brilhou em reconhecimento. Ele
amava esse lugar no passado. Eu me preocupei que isso tivesse
mudado.
O vento agitou nossas roupas. Novembro não era a melhor época
para passar o tempo por aqui, mas eu queria mostrar a Giulia esta
casa. Eu nem tinha certeza do por que. Teria sido mais impressionante
na primavera ou no verão.
Outra rajada arrancou o chapéu de cowboy preto de Giulia da
cabeça. Minha mão se ergueu, pegando a coisa do ar.
Giulia soltou uma risada atônita. — É uma demonstração
impressionante de reflexos.
Eu segurei o chapéu para ela, e ela o pegou com um sorriso doce.
— Reflexos rápidos são necessários para sobreviver se você tiver tantos
inimigos quanto eu. Mas não sei por que peguei essa coisa. É feio. —
Giulia mais uma vez escolheu uma roupa que eu decididamente não
tinha escolhido para ela. Botas de caubói, bermuda preta com
suspensórios, um suéter rosa brilhante e um casaco grande demais que
caberia em mim também. Era um pesadelo da moda.
A preocupação apertou seu rosto, a mão congelada na porta. —
Quantas tentativas a sua vida você sobreviveu?
Eu tentei lembrar. Era difícil dizer. Foram tantas. Apenas duas
chegou perto.
Giulia balançou a cabeça. — Não importa, se você tem que pensar
nisso por tanto tempo, eu provavelmente não quero saber. Apenas
prometa ter cuidado, ok?
Eu contornei o carro e abri a porta de trás e levantei Simona para
fora. Giulia e eu já tínhamos caído em uma espécie de rotina no que
envolvia meus filhos. Ela lidava com Daniele e eu lidava com
Simona. Isso tornou nossa vida mais fácil, mesmo que transformasse
meu coração em gelo porque meu filho se recusava a estar perto de
mim.
— Você pode pegar a caixa de transporte de Loulou?
Peguei no porta-malas. Giulia insistiu que trouxéssemos o
cachorro conosco, mesmo que eu tivesse preferido deixar Sybil
cuidando dele. Dizer não a Giulia era mais difícil do que deveria ser.
Pressionando Simona protetoramente no meu peito para protegê-
la do frio, conduzi Giulia em direção à porta da frente. Ela teve
problemas para carregar Daniele no quadril. Mesmo sendo um garoto
magro, ele era alto para a idade e Giulia era pequena. Teria feito mais
sentido eu carregá-lo.
Ela o colocou no chão no momento em que entramos e olhou em
volta, maravilhada. O interior, como o exterior da casa, era branco. A
parte de trás da casa de frente para a praia era quase inteiramente feita
de janelas de vidro, com vista para as dunas e o oceano. A grama
marram2 curvava-se sob a força da natureza, e nuvens escuras
pairavam baixas sobre a água. Mesmo em dias instáveis como esse, o
branco dos móveis iluminava a casa sem eletricidade.
Giulia correu em direção às janelas, espiando. Seus olhos
flutuaram para a esquerda, onde um balanço oscilava suavemente ao
vento. A varanda o protegia da chuva. Ela pegou a maçaneta.
Larguei a caixinha do cachorro e carreguei Simona para o berço
branco. Ela ainda estava dormindo. — Está muito tempestuoso.
Podemos sair amanhã.
Giulia fez beicinho, parecendo a adolescente que tentei fingir que
não era. Às vezes eu conseguia esquecer, principalmente quando ela
cuidava das crianças e na cama, mas nem sempre era bem-sucedido.
Daniele ficou ao lado dela. Ela estendeu a mão e ele a pegou. Eu
congelei, meu coração apertando um pouco mais. Com um sorriso, ela o

2 Ammophila é um gênero de plantas com flores que consiste em duas ou três


espécies muito semelhantes de gramíneas. Os nomes comuns para essas gramíneas
incluem grama de marram, grama dobrada e grama de praia. Essas gramíneas são
encontradas quase exclusivamente na primeira linha de dunas costeiras.
levou em direção à caixa e soltou o cachorro. Ele se arrastou
lentamente, olhando em volta.
— Se mijar nos tapetes brancos, vai dormir lá fora. — Giulia
revirou os olhos como se achasse que eu estava brincando.
O cachorro começou a cheirar tudo. Pelo menos, não atacou mais
as pernas da minha calça.
Daniele seguiu o cachorro como se ele fosse um filhote perdido.
— Vou pegar nossa bagagem, — eu disse antes de voltar para o
frio. Quando voltei com nossas duas malas, Giulia estava na geladeira
aberta. Levei-as para o nosso quarto no corredor antes de me juntar a
Giulia na cozinha. — Eu disse à minha governanta para abastecer a
geladeira.
— Você tem uma governanta para sua casa de praia?
— Mia e meus pais têm casas na mesma praia. A governanta
cuida das três.
— E Ilaria.
— Muito longe.
Giulia assentiu. — Então... você sabe cozinhar?
Eu levantei uma sobrancelha. — Claro que não.
— Claro que não — Giulia disse baixinho, olhando para a
geladeira como se fosse sua sentença de morte. — Acho que vou ter que
tentar a sorte, então.
Eu a observei colocar uma variedade de legumes, arroz e frango
no balcão. — Você gosta de asiático?
Inclinei-me contra o balcão, cruzando os braços sobre o peito. —
Depende.
— Você gosta de picante?
Minha boca curvou. Giulia me deu um olhar indignado antes de
olhar para Daniele, que estava agachado na frente da janela, o cachorro
ao lado dele.
Fui em direção a ela, tocando seus quadris. — Eu posso lidar com
a ardência, não se preocupe.
Giulia engoliu em seco.
Fui em direção à janela quando ela começou a preparar o jantar
que tinha em mente. Daniele levantou os olhos brevemente quando
parei ao lado dele e do cachorro antes de se concentrar no oceano mais
uma vez.
— Amanhã podemos passar a tarde na praia.
Ele não respondeu, mas eu não esperava que respondesse, então
apenas olhei para fora como ele.
Depois do jantar, levamos Daniele e Simona, que acordaram no
meio do caminho, para a cama. Eles dividiam o quarto ao lado do
nosso, mesmo que houvesse mais dois quartos na casa.
— Podemos sentar no balanço? — Giulia perguntou quando
passei meus braços em volta dela.
— Está frio.
— Você pode me manter aquecida. Por favor?
— Tudo bem.
Ela sorriu e pegou nossos casacos da prateleira enquanto eu
recolhia dois cobertores grossos de lã. O vento havia se acalmado, mas
estava frio quando pisamos na varanda. Apesar do casaco, Giulia
estremeceu quando nos aconchegamos no balanço. Eu a envolvi nos
cobertores antes de abraçá-la. Ela se enrolou como um gato ao meu
lado.
No passado, passei muitas noites na varanda sozinho, buscando
a solidão. Gaia nunca se juntou a mim. Ter Giulia ao meu lado não
parecia uma intrusão, no entanto. — Você não é o que eu esperava.
— Não como?
Nossa respiração enevoou o ar da noite e o rugido das ondas
chegou até nós. — Eu pensei que teria que coagi-la a fazer sexo, que
você evitaria o lado físico do nosso casamento.
Ela levantou a cabeça. — Eu realmente gosto de dormir com você.
— A luz da lua iluminou seus olhos. — Você me faz sentir muito bem.
Eu ri. — É assim que deveria ser.
— Eu te faço se sentir bem também? — Seu tom era brincalhão,
mas eu peguei uma pitada de incerteza.
— Sim você faz. — Puxei-a para mais perto para um beijo
lânguido. Não apenas por causa do sexo. Como se quisesse me lembrar,
deslizei minha mão sob os cobertores e suas roupas, roçando meus
dedos ao longo do lado dela. Sua contração e risada resultantes
iluminaram meu interior.
— Você já...
— Nenhuma conversa sobre o passado.
Ela ficou em silêncio e nós olhamos para o oceano.
Não conseguia me lembrar da última vez que me senti quase em
paz, mas neste momento estava perto.
15
Cassio
Apesar do tempo frio, fizemos um passeio ao longo da praia no dia
seguinte. Simona estava amarrada à frente de Giulia na tipoia,
enquanto Daniele e Loulou corriam ao longo da beira da água. O
cachorro latia para as ondas, tentando agarrar a água espumada.
Que coisa estúpida, mas fez Daniele e Giulia sorrir, então podia
ficar por agora. Gaivotas voaram sobre nossas cabeças. Giulia estendeu
a mão e eu liguei nossos dedos depois de um momento de hesitação,
preocupado com a reação de Daniele, mas ele não parecia se importar.
Sua atenção estava no cachorro e no oceano.
Meu telefone vibrou no meu bolso. Peguei-o para encontrar uma
mensagem de Faro.
Ligue para mim o mais rápido possível.
Franzindo a testa, empurrei o telefone de volta no bolso. O vento
rugia alto demais para uma conversa por telefone.
— O que foi? — Giulia perguntou.
— Precisamos voltar para casa. Eu preciso ligar para Faro.
Seu rosto entristeceu e, por meio segundo, pensei em ignorar a
mensagem de Faro, mas eu lhe avisei para não me incomodar, a menos
que fosse importante. — Oh, certo.
Apertei a mão dela. — Podemos sair amanhã de manhã
novamente.
Ela assentiu e chamou: — Loulou, Daniele, venham aqui!
O cachorro e meu filho se viraram para ela e saltaram em nossa
direção. Por um momento, o rosto de Daniele me lembrou do passado,
quase tão infantilmente inocente como naquela época.
No momento em que estávamos de volta à casa de praia, liguei
para Faro enquanto Giulia limpava a areia do cachorro e Daniele.
Simona rastejava no chão, perseguindo uma bola que
chacoalhava da maneira mais irritante. — O que houve? Espero que
seja importante. Eu não queria ser incomodado.
— Enquanto você estava ocupado transando com sua jovem
esposa, Luca enfureceu. Ele matou seus tios Gottardo e Ermano, e
aquele primo dele cujo pescoço do irmão ele esmagou.
Recostei-me, chocado. — O que diabos aconteceu?
— Ninguém realmente sabe. Matteo não divulgou muitas
informações. Há rumores de que Luca também cortou toda a nova
vertente do Tartarus MC em Jersey.
Simona puxou minhas calças e lentamente se levantou. Estendi a
mão para firmá-la enquanto ela sorria sem dentes para mim.
— Há rumores de que ele está em busca de traidores... alguns
suspeitam que tenha algo a ver com sua esposa. Isso é confidencial,
mas ela foi para Chicago, onde encontrou Dante fodido Cavallaro.
Eu firmei minhas coxas, meus pensamentos girando fora de
controle. — Você acha que Aria o estava traindo?
— Ela ainda está viva.
Luca e Aria pareciam felizes do lado de fora, ou tão felizes quanto
um casamento em nosso mundo, especialmente se o marido fosse um
homem como Luca... ou eu.
Giulia apareceu na sala, a preocupação nublando seu rosto
enquanto olhava para mim. Lentamente, ela se aproximou.
— Volto hoje à noite. Organize uma reunião. Meu pai precisa
estar lá também. — Se Luca realizou uma grande matança como essa,
eu precisava garantir que minha cidade estivesse mais do que limpa.
— Farei isso. — Eu desliguei.
Giulia afundou ao meu lado. — O que há de errado?
— Nada para você se preocupar.
— Seu rosto diz outra coisa.
— São negócios. Luca matou dois Underbosses. Seus tios
Gottardo e Ermano.
Ela estremeceu, os olhos se enchendo de choque. Eu percebi o
quão imprudente eu tinha sido. Eles também eram tios dela, mas
nunca tive a impressão de que ela gostasse muito de ambos, o que não
era surpreendente. Eles eram egomaníacos sádicos.
— Você está triste pelos seus tios?
Parecia como se eu tivesse puxando-a para fora de seu torpor e
depois sacudido sua cabeça. — Estou preocupada com você. E se Luca
se livrar de mais Underbosses?
— Ele não vai se livrar de mim. Não, a menos que eu lhe dê razão,
e não dou.
Ela assentiu devagar, depois arregalou os olhos novamente. —
Kiara!
— Quem?
— Minha prima Kiara. Ela é filha de Ermano. E ela e minha tia?
— Eu não sei. Faro não mencionou nada.
Ela agarrou meu braço. — Cassio, por favor, descubra. Kiara tem
apenas doze anos. E se ela está machucada?
— Duvido que Luca machuque uma criança.
Sua expressão preocupada me obrigou a pegar meu telefone
novamente. Normalmente, eu teria chamado Luca diretamente, mas
isso parecia imprudente na situação atual. — Faça as malas e prepare
Simona e Daniele. Precisamos sair em trinta minutos. Vou perguntar ao
meu pai sobre Kiara.
Pai atendeu de imediato. — Faro te contou?
— Contou. Isso pode esperar até a nossa reunião. Preciso de
informações sobre a filha e esposa de Ermano.
— A menina está viva, mas Ermano atirou em sua esposa.
A voz do pai continha uma nota que me deixou nervoso. — Certo.
Estive conversando com amigos em Nova York, tentando sentir o humor
atual de Luca, se ele acabou de matar...
— Tudo vai ficar bem.
— Você deveria ter contado tudo a ele, Cassio.
— Pai, vai ficar tudo bem. Passado é passado. Contar a Luca
agora seria definitivamente minha sentença de morte.
Desliguei e fui para o quarto onde Giulia estava fazendo as malas.
Seus olhos estavam temerosos quando ela encontrou meu olhar.
— Kiara está viva, mas a mãe dela está morta.
Giulia cobriu a boca com a palma da mão. — O que vai acontecer
com ela?
— Luca ainda tem alguns parentes a quem poderia pedir para
ficar com a menina. — Peguei as malas dela. — Vamos. Eu realmente
preciso voltar.
Ela assentiu devagar, ainda parecendo um pouco atordoada. Fui
até ela, segurando sua bochecha. — Tudo vai ficar bem.
***
A viagem de volta passou em relativo silêncio. Giulia estava
perdida em pensamentos e Simona adormeceu como costumava fazer
no carro.
Elia e Domenico já estavam em minha casa quando chegamos.
Eles ajudaram a levar tudo para dentro. Giulia me seguiu enquanto eu
vestia meu traje de negócios habitual.
— Onde será a reunião?
Eu coloquei minha gravata. — Você não conhece o lugar. É uma
boate.
Eu sabia que Giulia queria fazer mais perguntas, mas não queria
falar de negócios com ela. Eu beijei seus lábios levemente. — Não espere
hoje à noite. Chegarei muito tarde.
Ao sair de casa, liguei para Faro novamente. — Tudo
configurado?
— Sim, todo mundo está a caminho.
— Nossos observadores disseram alguma coisa sobre movimento
na sede do clube?
— Eles parecem estar em reunião. Todas as motos estão na frente
do clube.
Agora que Luca havia destruído uma seção inteira a sangue frio, a
retribuição do MC era apenas uma questão de tempo. Eles eram
voláteis, limitados por menos regras do que nós. Era uma parte da
minha vida que eu não queria que Simona, Daniele ou Giulia fizessem
parte. Eu faria o meu melhor para protegê-los disso.

Giulia
Depois que Cassio se foi, peguei meu telefone e afundei no sofá.
Simona estava ocupada com um livro de figuras que simulava ruídos de
animais, e Daniele estava sentado no cobertor ao lado dela, apenas
metade focado em seu jogo, enquanto continuava lançando olhares para
o livro de sua irmã.
Loulou se enrolou ao meu lado e comecei a acariciar seu pelo
macio imediatamente, esperando que me acalmasse. Desde que Cassio
me contou sobre meus tios, meu coração estava batendo mais rápido
que o normal. Na máfia, perder o respeito geralmente significava a
morte. Eu não estava triste pela morte dos meus tios. Eles eram
homens maus, mesmo para nossos padrões muito distorcidos, mas
estava preocupada com o que isso significava para Cassio, para nós, e
não conseguia parar de pensar em minha pobre prima, Kiara, que agora
era órfã.
Liguei para o número do meu pai. Ele não atendeu após os
primeiros toques, o que era incomum para ele. Ele sempre tinha tempo
para mim. E se Luca tivesse decidido se livrar dele também? Não era
segredo que papai não era o favorito dele. Casar-me com Cassio deveria
garantir a posição de papai, mas Cassio realmente o protegeria? Eles
não se gostavam muito. Talvez por mim, Cassio pudesse falar bem
sobre meu pai.
Finalmente, papai atendeu e eu caí de alívio. — Giulia, hoje não é
o melhor momento para uma ligação.
— Você está bem? Eu ouvi o que aconteceu.
Papai suspirou. — Estou bem. Não posso negar, tem sido
perturbador saber que Luca derrubou um membro da família após o
outro, mas nunca fiz nada que pudesse ser interpretado como traição.
— O que vai acontecer com Kiara? Você ouviu alguma coisa?
— Matteo entrou em contato conosco e perguntou se estaríamos
dispostos a criá-la.
A voz do pai deixou claro que ele não gostava da ideia. — Ela
precisa de uma casa e somos uma família.
— Sua mãe e eu trabalhamos duro para melhorar a posição de
nossa família, aceitar a filha de um traidor pode arruinar todos os
nossos esforços.
— Pai, — eu disse, chocada. — Ela tem doze anos. Ela é inocente.
Por favor, não me diga que você se recusará a aceitá-la por causa de
algo que o pai dela fez. Isso seria extremamente cruel.
Papai ficou em silêncio por um momento. Não era que eu não o
considerasse capaz de crueldade, mas ele preferia não parecer assim
aos meus olhos. — Luca pode não nos dar muita escolha de qualquer
maneira. Do jeito que as coisas estão indo, desapontá-lo pode ser muito
arriscado.
— Então não arrisque e dê a Kiara uma casa.
— Como estão as coisas entre Cassio e você?
— Boas.
— Elas estão? — Papai perguntou como se não confiasse em seus
ouvidos. Isso me entristeceu, sabendo que ele esperava o pior de Cássio
e ainda tinha me dado a ele.
— Elas estão. Prometa me ligar assim que souber mais sobre
Kiara, ok?
— Eu vou. Sua mãe quer conversar com você.
Eu sufoquei um suspiro. Conhecendo a mãe, ela provavelmente
estava alarmada com o fato do recente desenvolvimento com Kiara
poder matar sua posição social, e isso significava que ela já estava
planejando como tomar medidas defensivas, aquelas que geralmente
envolviam eu ou Christian.
— Giulia, como vai? — A alegria forçada em sua voz confirmou
minhas suspeitas.
— Tudo bem. Um pouco preocupada com Kiara.
— Quando seu pai e eu podemos esperar um neto de você?
Certo. Esse era o plano dela. — Simona e Daniele são jovens.
Cuidar deles ocupa todo o meu tempo e energia.
— Eles não são seus, Giulia. Você tem que tomar decisões
inteligentes. Ter seu próprio filho solidificará sua posição,
especialmente se você tiver um menino que possa se tornar um
Underboss.
— Daniele será Underboss, mãe. E se eu quiser um filho, não será
para fins táticos. — Cassio e eu ainda não tínhamos discutido crianças.
Ele insistiu que eu tomasse pílula, o que eu teria feito de qualquer
maneira, porque definitivamente não queria engravidar no momento. Eu
queria ser a melhor mãe de Daniele e Simona, e um terceiro filho não
facilitaria a tarefa.
— Agora que você é uma esposa, não pode se dar ao luxo de ser
ingênua.
Suspirei. — Eu tenho que desligar agora. Simona precisa de mim.
— Não esperei pela resposta dela. Baixando o telefone, vi Daniele
empurrar as imagens dos animais no livro de figuras ao lado de
Simona. A cacofonia de miados, mooohs e woof-woofs os fez rir.
Recostei-me com um sorriso. Todos os dias, eles capturavam mais do
meu coração.
***
Tentei esperar Cassio, mas acabei adormecendo, enrolada
desajeitadamente na poltrona em frente à lareira.
Eu não tinha certeza de que horas eram quando mãos frias
tocaram meu braço, me tirando do meu sono. Estava escuro na sala,
exceto pelas brasas morrendo na lareira dançando diante dos meus
olhos cansados. Cássio pairava sobre mim, cheirando a pólvora, fumaça
e uísque. — Eu disse para você não esperar por mim.
— Que horas são? — Eu murmurei, minha língua e músculos
pesados.
— Tarde.
Tentei distinguir o rosto de Cássio para associar a nota tensa em
sua voz à sua expressão, mas a escuridão ocultava suas feições.
Estendendo a mão, toquei seu braço. O tecido engomado da camisa
preso a pele. Estava rígido contra as pontas dos meus dedos, coberto de
alguma coisa. Cassio saiu do meu alcance com uma ingestão
acentuada.
Eu estava instantaneamente bem acordada. — Cassio?
Sentei-me e Cássio deu um passo atrás, fora do meu alcance. —
Vá para a cama, Giulia. Agora.
Eu levantei, me movendo em direção a ele. As brasas moribundas
não emitiam luz suficiente para ver muita coisa, mas parte de sua
camisa branca estava escura. — O que aconteceu? Você está
machucado?
— Giulia, para a cama. Agora.
— Não. Não sou criança, sou sua esposa e não vou a lugar
nenhum até saber que você está bem.
— Sua insolência está me levando ao limite.
— Eu acho que você gosta da minha insolência.
Ele suspirou e saiu. Eu o segui. O hall também estava escuro.
Minha preocupação aumentou a cada passo e ao silêncio contínuo de
Cassio. Quando finalmente chegamos ao nosso quarto, liguei o
interruptor da luz. Meu coração caiu, vendo o sangue na camisa branca
de Cassio. A maior parte havia secado, apenas uma pequena mancha
no braço parecia mais fresca. Cássio continuou no banheiro sem dizer
uma palavra, mas sua expressão transmitiu sua desaprovação
enquanto eu o seguia. — O que aconteceu?
Cássio desabotoou a camisa e a tirou dos ombros, mas uma das
mangas estava presa ao braço. Encolhi-me quando vi a ferida na qual
estava presa. Eu agarrei uma toalha e a molhei na água morna e afastei
a mão de Cássio. Molhei o tecido ensanguentado de sua manga,
esperando que se soltasse do corte longo para que não houvesse mais
danos.
Cassio me olhou com curiosidade, nenhum sinal de que alguém
obviamente tivesse usado seu antebraço como uma tábua de carne. Eu
cuidadosamente desabotoei a camisa dele, e Cassio deu a menor
contração, mas não emitiu nenhum som. — Não é sua estreia, hmm? —
Eu precisava tornar superficial a situação antes que minha
preocupação com meu marido me levasse a um ataque de pânico. E se
algo acontecesse com ele? O que eu faria com dois filhos pequenos, uma
casa enorme e um cachorro ligeiramente torcido?
— É apenas um corte raso. Vou sobreviver.
Eu ri, mas parecia forçado. Depois que o ferimento foi libertado
dos limites de sua camisa, Cássio jogou a roupa arruinada no chão. —
Consigo lidar com isso. — Ele pegou um kit de primeiros socorros em
um armário embaixo da pia.
— Você não vai me dizer o que aconteceu?
Ele limpou o ferimento, mas quando não desviei o olhar, ele
suspirou. — Não tenho certeza de que você deva saber os detalhes dos
meus negócios.
— Eu faço parte da sua vida, então deixe-me fazer parte disso.
A hesitação permaneceu em seus olhos. Ele olhou para o
ferimento e o remendou com pontos de borboleta3. — Luca tem lidado
com traidores e também com um MC que está nos causando problemas.
Com o olhar confuso no meu rosto, ele acrescentou: — Clube de
motociclistas. Eles são mais fortes no sul, especialmente no Texas, Novo
México e Flórida, mas as seções estão surgindo por aqui. Luca me pediu
para ver o que a seção local estava fazendo. Nós capturamos um, um
lutador forte. Ele me atingiu com a faca.
— Por que você se envolveu nisso? Por que não envia seus
homens para lidar com isso? Meu pai nunca arriscaria sua vida em um
ataque.

3Pontos de borboleta são tiras adesivas estreitas que ajudam a fechar as bordas de
uma pequena ferida e incentivam a cicatrização da pele.
Cassio sorriu ironicamente. — É por isso que seu pai não é o
melhor Underboss. Se você quer a lealdade de seus homens, precisa
mostrar-lhes que está disposto a lutar ao lado deles.
Eu balancei minha cabeça. — É assim que as pessoas são
mortas.
— Você está preocupada comigo?
Envolvi meu braço em torno de sua cintura e pressionei minha
bochecha em seu peito. — Prometa-me ter mais cuidado.
— Eu sempre sou cuidadoso.
— A ferida conta uma história diferente.
— Vamos para a cama agora. Está...
O grito de Simona ecoou nos alto-falantes. — Sem cama para
mim.
Cassio pressionou a palma da mão na parte inferior das minhas
costas e me cutucou em direção à cama. — Você vai dormir e eu
cuidarei de Simona.
— Você precisa descansar...
— Não. Deixe-me lidar com ela.
Eu percebi que ele precisava fazer isso, segurar sua filha
pequena. Talvez fosse sua maneira de se lembrar do bem neste mundo.
— Tudo bem. — Afundei-me na cama, sentindo-me
completamente esgotada. Cassio me beijou brevemente antes de ir para
o berçário.
Eu cresci no mundo da máfia. Morte e perigo eram companheiros
constantes, mas papai nunca havia voltado para casa ferido. Ele sabia
como ficar longe de problemas e permitir que outros arriscassem suas
vidas por ele. Eu admirava Cássio por sua bravura. No entanto, ao
mesmo tempo, desejei que ele fosse um covarde como papai, para que
ele estivesse seguro. Para os filhos dele... e eu.
16
Giulia
Daniele e eu nos acomodamos no chão. Era tempo de criar laços,
não apenas entre ele e eu, mas também com Loulou, enquanto Simona
tirava uma soneca à tarde. Nas últimas duas noites, Cassio tinha
chegado tarde em casa novamente, e eu esperava que isso não se
tornasse permanente. Por enquanto, concentrei minha atenção
principal em Daniele, Simona e Loulou. Eles me mantinham distraída o
suficiente.
Loulou se aproximou com uma bola na boca, como costumava
fazer quando me sentava no chão. Peguei a bola dela e a rolei pelo chão.
Daniele seguia tudo com olhos curiosos. Depois de dois arremessos, eu
segurei a bola para ele. Ele pegou e atirou para longe e sorriu
amplamente quando Loulou perseguiu seu brinquedo. Fizemos isso por
alguns minutos antes de eu guardar a bola e bater no local na minha
frente. Loulou se aproximou, sua língua rosada pendendo
adoravelmente. Acariciei-a gentilmente, depois cruzei as pernas e fiz um
sinal para que Loulou se aproximasse ainda mais. Ela se enrolou no
meu colo, e eu acariciei suas orelhas gentilmente, espantada com o
quão sedosa essa parte dela era ao toque.
Daniele se aproximou até seus joelhos baterem contra a minha
coxa. Eu poderia dizer o quanto ele queria tocar Loulou. Eu a observei
por um tempo para ver se ela estava pronta para mais proximidade. Nos
últimos dias, ela não tentou mais evitar Daniele. Agora, ela parecia
completamente relaxada, com os olhos semicerrados enquanto
observava Daniele. — Você quer tocá-la?
Daniele assentiu rapidamente.
— Tente se mover devagar, para que ela possa se acostumar com
a sua presença, certo? — Outro aceno agudo.
— Ela é tímida. Ela precisa conhecê-lo e ver que você é amigo
dela.
Peguei a mão de Daniele e coloquei nas costas de Loulou. Suas
orelhas tremeram de curiosidade e seus olhos se abriram um pouco
mais. Lentamente, movi a mão de Daniele para o lado dela, afastando-
me da cabeça por enquanto, porque li que os cães se sentiam
ameaçados por um toque lá. Os olhos de Loulou fecharam mais uma
vez enquanto ela apreciava as carícias. — Viu? Você tem que ter
cuidado. Loulou é pequena. Não puxe suas orelhas ou rabo, está bem?
Daniele assentiu, observando a mão no pelo, hipnotizado.
Eu me afastei, permitindo que ele fizesse isso por conta própria.
Talvez estivéssemos no caminho certo. Até Cassio parou de reclamar de
Loulou. Simona me permitia acalmá-la à noite com frequência agora, o
que dava a Cassio a chance de dormir mais.
Eu sorri, sentindo uma onda de otimismo.
***
Eu estava meio adormecida quando Cassio voltou para casa
naquela noite. Uma semana se passou desde os assassinatos, e as
crianças e eu mal o vimos.
Eu o vi se trocar para dormir. Então ele se esticou ao meu lado. —
Quando você voltará a jantar em casa?
Cassio tocou meu quadril, me puxando para mais perto. Seus
lábios encontraram os meus, mas apesar da onda de calor, eu me
afastei. Nossas únicas interações além de algumas palavras trocadas
era sexo. Ele suspirou. — O trabalho é importante. Eu tenho muito que
fazer. Estou cansado. Eu só quero me esquecer das coisas quando
chego em casa e não discutir com você. — Ele me beijou novamente e
desta vez eu o empurrei para trás, com raiva.
— Você me trata como babá e prostituta, Cassio. Eu mereço mair.
— Eu nunca te trataria como uma prostituta, — ele rosnou. —
Você é minha esposa e eu te quero. Se bem me lembro, você sempre
aprecia.
Eu apreciava. Cassio se certificava de que eu gozasse antes e
durante a relação sexual. — Isso não significa que não preciso que
formemos um vínculo emocional também. Eu achei que estávamos na
direção certa, mas agora você está se afastando novamente. É
realmente só por causa da sua carga de trabalho ou é outra coisa?
Ele ficou em silêncio por um momento. — Estou tentando
garantir que você e meus filhos estejam seguros. Eu preciso estar no
controle absoluto da minha cidade para garantir sua segurança. — Ele
me beijou de novo, mais suave desta vez, mas eu podia sentir a
urgência à espreita logo abaixo. — Vou tentar chegar em casa na hora
do jantar.
Era para me apaziguar? Eu permiti que ele aprofundasse o beijo,
deslizasse minha camisola e despertasse meu corpo com seus lábios.
***
No dia seguinte, procurei temas de festas para aniversários de
três anos. O dia especial de Daniele era em uma semana, e eu queria
surpreendê-lo com um bolo e uma festa de aniversário temática.
Agarrando a beira do sofá, Simona se colocou de pé ao meu lado,
sorrindo orgulhosa.
— Bom, — eu murmurei enquanto mantinha um olho em Daniele
e Loulou. Ele estava jogando sua bola, e ela a largava na frente dele
toda vez. Era lindo e eu queria que Cassio pudesse ver.
Meu telefone apitou com uma mensagem. Surpresa correu
através de mim quando vi que era de Christian, dizendo que estava na
área e queria me visitar. Eu não o via desde o casamento. No passado,
eu o via apenas a cada dois meses porque morávamos em cidades
diferentes, mas agora isso havia mudado, pelo menos até ele voltar a
Baltimore para governar ao lado de papai, quando quer que isso
acontecesse. Corri para a cozinha para dizer a Sybil para preparar
alguns sanduíches e café.
Quinze minutos depois, seu carro parou na frente da casa. — Seu
tio está vindo visitar, — eu disse a Daniele, que vinha acompanhando
todos os meus passos o dia todo. Eu carregava Simona no meu braço,
apesar de sua contração. Ela queria engatinhar, mas era rápida e era
difícil ficar de olho nela na vasta casa.
Os olhos de Daniele se arregalaram, uma mistura de choque e
esperança marcando seu rosto. Sua reação me surpreendeu. Cássio só
tinha irmãs. Gaia tinha um irmão? Eu não lembrava. A campainha
tocou. Loulou saiu da sala, latindo. Ela parou na frente da porta,
arranhando-a.
— Estou abrindo a porta! — Gritei antes que Sybil pudesse sair
da cozinha. Elia e Domenico podiam ver o degrau da frente pelas
câmeras de vigilância ao redor da casa para que soubessem que era
apenas meu irmão.
— Não, Loulou, — eu disse com firmeza enquanto a empurrava
cuidadosamente para o lado com o pé antes de abrir a porta. Loulou
tentou me passar novamente, mas eu a cutuquei de novo.
Christian usava um casaco grosso contra o ar frio de dezembro e
me deu um olhar curioso. — Claro que você ficaria com o cachorro.
Daniele olhou para meu irmão, então se virou e correu para o
andar de cima. Confusa, sorri para Christian enquanto mantinha
Loulou longe com o pé. Ela rosnou para Christian. Nós realmente
precisávamos trabalhar no tratamento dela com as visitas.
— O que há com a criança?— Ele perguntou, indicando Daniele
que desapareceu de vista.
Dei de ombros e abri a porta para que ele pudesse entrar.
Christian entrou e me abraçou com um braço, tentando não
esmagar Simona, que fez um som de protesto por sua proximidade. O
frio agarrou-se ao seu casaco e penetrou em mim.
Eu rapidamente me afastei e fechei a porta. Por um momento,
não prestei atenção, e Loulou passou correndo por mim, pulando em
Christian com um latido de raiva. Ele olhou para baixo, não
impressionado. — Vá embora, — disse ele, empurrando-a com menos
gentileza do que eu.
— Loulou! — Ela finalmente parou e trotou alguns passos
adiante.
— Como você está? — Christian perguntou enquanto tirava o
casaco e pendurava no cabide. Era óbvio que ele já tinha estado aqui
antes e sabia onde estava tudo. A preocupação em sua voz era
inconfundível.
Eu toquei seu braço. — Estou bem.
Os olhos dele se estreitaram. — Eu posso dizer que você está
mentindo.
— Eu estou bem, sério. Um pouco sobrecarregada. Daniele não
fala e mal come. Estou tentando romper as paredes dele, descobrir o
que aconteceu, mas não sei como.
Eu conduzi Christian para a sala, mesmo que me preocupasse
com Daniele. Eu o verificaria mais tarde se ele não descesse logo.
Loulou seguiu logo atrás, nunca deixando Christian fora de vista. Ela
era corajosa, eu tinha que admitir isso.
Nós nos acomodamos no sofá onde Sybil preparara bolos,
sanduíches e biscoitos, além de café. — O garoto perdeu a mãe. Claro
que ele está traumatizado.
— Eu sei, mas é mais do que isso. Ele está evitando Cassio.
— Talvez você deva deixar o passado para trás, Giulia. — A
maneira como ele falou foi mais um aviso do que um conselho, e sua
expressão preocupada apenas confirmou minha suspeita.
Coloquei Simona no chão quando ela se contorceu demais. Ela se
arrastou imediatamente, indo para o cobertor com seus brinquedos. —
O que você sabe que não está me dizendo?
A boca de Christian afinou. — Eu sei que Cassio não quer que as
pessoas vasculhem seu passado, especialmente no que diz respeito a
Gaia, e acho que você deve respeitar o desejo dele.
— Para protegê-lo ou a mim?
Christian pegou um biscoito e o mordeu, obviamente ganhando
tempo. — Ambos... e essas crianças também. — Ele apontou para
Simona, que apertava um unicórnio de pelúcia que ria estridentemente
toda vez que ela fazia isso, fazendo-a rir também. Seus olhos brilhavam
de alegria enquanto ela olhava para mim.
— Como posso ajudar Daniele se não sei o que aconteceu?
— O garoto mudará. Ele será Underboss um dia. A morte de sua
mãe não será o último trauma que ele sofrerá. — Meu estômago apertou
com a avaliação fria do meu irmão.
— Você está preocupado que Cassio me machuque se eu tentar
descobrir o que aconteceu com Gaia.
Christian pegou sua xícara de café e tomou um gole,
contemplando suas próximas palavras se sua expressão fosse uma
indicação.
— Eu não acho que você precise se preocupar. Cássio tem sido
bom para mim até agora, e ele é bom para seus filhos.
Christian tocou minha mão, olhando para mim da mesma
maneira que Cássio às vezes, como se eu fosse uma criança ingênua. —
Deixe-me contar uma coisa que sei sobre homens como Cassio porque
sou esse tipo de homem. Como ele, eu serei Underboss. Como ele,
sobrevivi e fiz coisas horríveis para me tornar forte o suficiente para
essa tarefa. Para assumir uma posição de poder na máfia, você precisa
de um lado sombrio. Quanto mais forte o lado sombrio, maior a
probabilidade de conseguir uma posição de poder e permanecer lá.
Ninguém ameaça o poder de Cássio.
— Eu sei que todos vocês têm um lado sombrio. Você, pai, Cassio,
mas nenhum de vocês jamais me machucou, nem acho que farão.
Christian riu amargamente. — Às vezes a escuridão sai quando
não deveria.
Elia apareceu na porta. — Está tudo bem?
Minhas sobrancelhas se uniram. — Claro. — Eu olhei para o
relógio. Eram quase cinco horas. — Por que você não sai mais cedo?
Você tem trabalhado longas horas nessas últimas semanas. Christian
vai ficar e me proteger.
Elia olhou para o meu irmão. Eu não conseguia ler o olhar em
sua expressão, mas definitivamente tinha uma pitada de suspeita. —
Cassio ordenou que eu ficasse de olho em você.
A maneira como ele disse parecia menos proteção e mais
vigilância. Eu precisava ter outra conversa sobre confiança com Cassio?
Christian estreitou os olhos. — Eu posso proteger minha irmã ,
não se preocupe.
— Vá, — eu ordenei.
Elia assentiu, mas era óbvio que não gostou da ideia. Ainda
assim, ele se virou e saiu. Depois de um momento, a porta da frente se
abriu e fechou. Ele se reportaria a Cássio novamente?
Christian balançou a cabeça. — Cassio mantém você em uma
coleira curta.
Eu não podia falar sobre meu casamento com ele. Só provaria a
Cassio que ele tinha razão ao confiar em mim.
— Como está a mãe em seu novo papel de estrela em ascensão em
nossos círculos?
Christian zombou, mas aceitou minha oferta de mudança de
tópico. — Ela vê isso em perigo agora que tiveram que acolher Kiara.
— Nossa prima não fez nada de errado. O pai dela é o traidor, não
ela.
— Você sabe como é. Ela sofrerá pelos pecados dele de qualquer
maneira. Os filhos sempre sofrem pelos pecados de seus pais.
Ele estava se referindo à reputação medíocre de papai, o que
levava muitas pessoas a acreditarem que Christian também não seria
um bom Underboss um dia? Ou ele estava se referindo a Cássio e
Daniele?
— Eu vou ligar hoje e conversar com Kiara. Eu quis lhe dar
alguns dias para se recuperar do que aconteceu.
— Duvido que você possa se recuperar de ver sua mãe sendo
morta por seu próprio pai.
— Ainda estamos falando do nosso tio, ou você está tentando
sugerir outra coisa? Se você está tentando me dizer sutilmente algo, não
está funcionando.
Christian pegou outro biscoito. — Eu não sei o que você quer
dizer.
— Claro que você sabe. Eu achei que você não sabia o que
aconteceu com Gaia? Isso era mentira?
— Não. Só acho estranho que Daniele evite Cassio e não fale. Esse
tipo de trauma geralmente requer um forte catalisador.
— Perder a sua mãe de alguma forma nessa idade é um forte
catalisador.
Christian deu um sorriso tenso. — Pelo menos, papai ainda está
feliz com o seu vínculo com Cassio. — Depois disso, conversamos
apenas sobre papai, que já estava colhendo os frutos do meu casamento
com Cássio. Menos pessoas falavam sobre ele pelas costas, com muito
medo do meu marido. Eu duvidava que Cassio fosse ajudar o pai, a
menos que talvez eu pedisse a ele.
Simona torceu o rosto.
Suspirei. — Essa expressão significa que eu preciso trocar a
fralda dela. Você quer ficar aqui embaixo?
Christian balançou a cabeça. — Eu dou conta disso. Eu já vi
coisas piores.
Peguei Simona e subimos para o quarto dela. No caminho, notei
que a porta do antigo quarto de Gaia estava entreaberta. Coloquei
Simona em cima do trocador. Eu verificaria Daniele depois.
O rosto de Christian torceu com nojo quando eu abri a fralda. Ele
definitivamente nunca trocou a fralda de seu filho.
— Eu achei que você poderia lidar com isso? — Eu provoquei,
mesmo que meu próprio nariz se contorcesse com o cheiro,
especialmente quando Simona comia qualquer tipo de carne antes,
como hoje.
— Isso não significa que eu goste.
— Eu também não gosto, mas alguém tem que fazer, — eu disse,
depois fiz cócegas na barriga de Simona, fazendo-a sorrir. — Certo?
— Papai nunca deveria ter te forçado a essa posição. Você é jovem
demais para cuidar de duas crianças pequenas, que nem são suas.
Estava começando a me irritar que todo mundo continuasse
dizendo isso. Mãe, agora Christian, e até mesmo Cassio continuava
chamando-os de seus filhos. Nós não estávamos casados há muito
tempo, mas eu queria que ele visse o quanto já me importava com eles.
— Eu posso lidar com isso, Christian, — eu rebati. — Não é fácil, mas
sou persistente.
— Verdade.
Lancei-lhe um olhar indignado, mas não consegui ficar brava com
ele vendo o sorriso que acompanhou minha infância. Quando terminei
com Simona, coloquei-a no berço. Eu poderia dizer que ela estava
cansada. Tinha se recusado a tirar um cochilo ao meio-dia. Ela chorou
quando recuei, então me inclinei sobre ela e balancei o berço até que
seus olhos fechassem mais uma vez. Mas no momento em que tentei
sair, ela começou a chorar novamente. Dessa vez não fui até ela,
esperando que se acalmasse. Algumas pessoas diziam que você
precisava deixar as crianças se acalmarem e chorarem, mas achava isso
incrivelmente difícil de fazer.
— Ela é realmente exigente, — comentou Christian, encostado na
porta com os braços cruzados.
Peguei Simona, tentando descobrir o que estava errado. Ela
continuou chorando e sem aviso vomitou em mim e em si mesma.
— Eca, — disse Christian.
Com um suspiro, troquei sua roupa antes de colocá-la no berço
novamente. Dessa vez, ela se acalmou depois de alguns minutos. Fiz
um gesto para que Christian ficasse em silêncio enquanto saímos e
fechamos a porta. Ele olhou o vômito na minha camisa e no meu
cabelo. — Você não vai se trocar?
Eu bufei. — Não. Eu gosto de cheirar como um bar no domingo de
manhã.
— Como se você soubesse como um bar cheira.
Eu não sabia. Nunca me permitiram ir a um, e não
necessariamente por causa da minha idade. Cássio provavelmente não
me deixaria pôr o pé em um quando fizesse vinte e um também. Entrei
no quarto, tentando não prestar muita atenção à minha camisa
arruinada. O cheiro era ruim o suficiente. Christian olhou em volta,
curioso. Cassio ficaria bravo por eu ter trazido alguém para seus
aposentos particulares? Ele e Christian haviam trabalhado juntos por
anos, mas certamente não eram amigos.
— Eu preciso tomar um banho rápido. Você pode verificar Simona
se ela começar a chorar de novo? Estou preocupado que ela vomite
novamente.
— Claro. Vou esperar no corredor enquanto você se prepara. Não
posso deixar você fora de vista sem um guarda-costas, afinal.
Revirei os olhos e fui para o banheiro. Não foi fácil tirar minhas
roupas sem deixar vômito na pele. Colocando um roupão de banho,
corri para a lavanderia para colocar as roupas sujas na máquina de
lavar, apesar do olhar interrogativo de Christian. Soltei um suspiro de
alívio quando a água quente finalmente escorreu pelo meu corpo,
dispersando o cheiro persistente de vômito.
Eu estava secando meu cabelo quando ouvi comoção. Desligando,
escutei. Uma voz masculina distorcida chegou até mim. Eu dei um
passo mais perto da porta do quarto.
— Que porra você está fazendo aqui? — Cassio rosnou.
Coloquei o secador no balcão e saí correndo do banheiro, apenas
enrolada na minha toalha, meu cabelo ainda úmido. O que vi no quarto
enviou uma onda de choque através de mim. Cassio havia empurrado
Christian contra a parede, o antebraço preso na garganta do meu
irmão.
O olhar de Cassio me encontrou. Lentamente, seus olhos
deslizaram sobre o meu estado seminu, e sua expressão se transformou
em pura raiva.
Ele jogou Christian no chão, puxou a faca do coldre e se ajoelhou
no peito do meu irmão. Meu sangue congelou. Cassio pressionou a
lâmina brilhante contra a garganta de Christian. O sangue brotou de
uma só vez. O que estava acontecendo aqui?
Eu avancei e agarrei seu braço, tentando puxá-lo para longe. —
Cassio, o que você está fazendo? Pare com isso! Pare por favor!
Cassio se abaixou, aproximando seu rosto de Christian,
ignorando minhas tentativas fúteis de detê-lo. — Que porra você está
fazendo sozinho com minha esposa?
Foram necessários alguns segundos para que suas palavras
passassem pela névoa do meu terror. — Cassio, você enlouqueceu? Este
é meu irmão! Solte-o agora!
Christian tentou se libertar, mas com o peso de Cassio no peito e
a faca contra a carótida, ele estava preso. Ele também não conseguia
falar. Seu rosto estava ficando cada vez mais vermelho e seus olhos
estavam frenéticos.
— Por favor, eu imploro, deixe-o ir. O que você acha que está
acontecendo, não está!
Cássio não reagiu.
Barulho soou no corredor. Olhei para a porta, mas não vi nada.
Cássio congelou seguindo meu olhar. Tinha que ser Daniele. Cassio
soltou Christian abruptamente e se levantou, escondendo a faca atrás
das costas um momento antes de Daniele aparecer na porta. Seus
cabelos estavam despenteados e o rosto sonolento. Ele olhou de
Christian no chão para mim, ajoelhada ao lado dele até Cássio.
Christian estava pressionando a palma da mão na garganta sangrando
para que Daniele não pudesse ver nada.
Cássio manteve a mão com a faca atrás das costas enquanto se
aproximava de Daniele. A fúria aterrorizante anterior estava escondida
atrás de uma máscara agradável. Ele se agachou diante do filho.
Daniele me olhou, obviamente sem saber o que estava acontecendo.
Isso fazia dois de nós. Meu coração disparou no peito e o terror ainda
entupia minha garganta, mas consegui sorrir.
— Por que você não vai para o seu quarto e joga algum jogo. Vou
colocá-lo na cama em breve — Cassio murmurou com uma voz forçada
e calma. Daniele agarrou seu tablet e lentamente se afastou. Ouvi a
porta do quarto dele alguns segundos depois e Cassio voltou-se para
nós, fechando a porta. Christian ficou de pé, com o corpo tenso. Eu me
posicionei entre meu irmão e meu marido, determinada a impedir
Cassio de outro ataque.
Os olhos de Cássio enviaram uma pontada de medo frio através
de mim. Ele apenas olhou para Christian. Pelo canto do olho, vi meu
irmão puxar sua própria faca.
— Vou perguntar uma última vez. O que. Vocês. Estavam.
Fazendo. Aqui?
— Foi por isso que Andrea desapareceu? — Christian pressionou.
Cássio cambaleou para frente. Eu tentei afastá-lo, mas ele era
muito forte. Os homens começaram a lutar. — Cassio, por favor!
Uma dor feroz queimou meu braço e eu gritei. Cassio recuou, os
olhos arregalados enquanto olhava para mim. Sangue escorria de um
corte longo e raso no meu antebraço. — Você... — ele rosnou para
Christian.
— Foi você, Cassio. Você me machucou com sua raiva cega — eu
menti. Eu não tinha certeza de quem havia me cortado, e não era tão
ruim, mesmo que queimasse ferozmente. Apertei a ferida com a palma
da mão, tremendo.
Cássio deu um passo atrás. Ele olhou para a lâmina, que estava
manchada de sangue. Poderia muito bem ser de Christian. Meu irmão
embainhou a faca, mas não tirou os olhos do meu marido quando me
perguntou: — Devo levá-la ao médico?
A mandíbula de Cássio ficou tensa.
— Não, — eu disse com firmeza. — Saia agora.
— Giulia...
— Saia!
Cassio respirava com dificuldade, suas narinas dilatadas
enquanto observava o sangue se esvaindo entre meus dedos.
Christian se afastou lentamente, sem dar as costas para Cássio.
— Eu te ligo em trinta minutos.
Eu dei um pequeno aceno de cabeça, atordoada com o que tinha
acontecido e completamente sem entender por que Cassio reagiu dessa
maneira.
Antes que meu irmão pudesse escapar, Cassio disse em voz baixa:
— Não há onde se esconder se eu descobrir que me traiu, Christian.
Nem Baltimore será seu refúgio se eu o quiser morto.
— Se você machucar Giulia, eu vou te encontrar e matar, Cassio.
Cassio lançou um olhar sombrio para o meu irmão. Christian
desapareceu.
De repente, não tinha certeza se havia sido uma boa ideia mandá-
lo embora. Cassio tinha perdido a cabeça minutos atrás, sem motivo
aparente. Sua esposa morreu... ou foi morta, e ninguém sabia nada
sobre isso.
Nossos olhos se encontraram e a fúria aterradora diminuiu. O que
restou foi flagrante desconfiança e uma pitada de culpa. Ele embainhou
a faca e depois se aproximou. Fiquei tensa, sem saber o que esperar
depois do que testemunhei.
— Eu não vou te machucar, — ele murmurou, a voz cheia de
arrependimento.
Ele gentilmente afastou minha mão do meu corte e o inspecionou.
Estremeci quando ele cutucou a área dolorida. Suas sobrancelhas se
apertaram com preocupação. — Eu fiz isso?
— Isso importa? Você foi quem iniciou a luta. Você perdeu o
controle. Você me disse que eu nunca teria motivos para hesitar com
você. Hoje você provou que suas próprias palavras estavam erradas.
— Eu não queria te machucar.
— Somente a Christian.
Cássio rangeu os dentes. — Venha. Eu preciso cuidar da ferida.
Eu o segui até o banheiro. Cássio não disse nada quando me
levantou na penteadeira e começou a limpar meu ferimento.
— O que aconteceu lá? — Eu sussurrei.
Cassio colocou um curativo no meu braço e deu um beijo na
minha palma. Quando ele se endireitou, não parecia mais o marido
atencioso, mas o policial mau que começava o interrogatório. — O que
Christian estava fazendo aqui em cima sozinho com você?
Eu fiz uma careta. — Ele veio nos visitar. Eu não o vejo há
semanas. Enviei Elia para casa porque Christian era capaz de me
proteger.
Cassio segurou meu pescoço. — Por que você tomou banho antes
de eu chegar em casa?
Ele estava falando sério? — Eu não sabia que tinha que pedir
permissão para tomar banho.
Ele parecia furioso. — Por que você tomou banho? Responda-me.
— Não. Isto é ridículo.
— Se você não me disser o porquê, vou assumir que teve que
lavar a prova do que fez antes.
Eu me encolhi, depois fiz uma careta quando percebi o que ele
estava insinuando. Eu empurrei contra seu peito. Ele não se mexeu.
— Você está realmente dizendo o que eu acho que está dizendo?
— Fiquei tão horrorizada com a mera ideia que não sabia ao certo como
lidar com a situação.
Cassio agarrou minhas coxas. — Então responda minha
pergunta.
Eu olhei para ele. Ele estava falando sério. — Simona vomitou em
cima de mim, foi por isso que tomei banho. Se você não acredita em
mim, verifique a máquina de lavar. Ainda não tive tempo de ligá-la. —
Ele me soltou e desapareceu de vista. Eu não podia acreditar nele. Pulei
do balcão e minhas pernas quase cederam. O choque caiu pesadamente
em mim. Ver Cassio perder o controle assim, sobre algo tão ridículo, me
abalou completamente. Entrei no quarto, sem saber se queria passar a
noite aqui. Quando Cassio voltou, ele estava visivelmente calmo.
Eu balancei minha cabeça lentamente. — Não acredito que você
pensou que eu te traíra com meu irmão. Foi o que você pensou, certo?
Sua expressão era dura. Ele desabotoou a camisa, algo que fazia
muitas vezes para evitar uma resposta.
— Você deveria confiar em mim, Cassio, mas, em vez de fazer
isso, fica tão cego de ciúmes que suspeita até que meu irmão tenha um
caso comigo. Quão doente é isso? Você está cercado por belas mulheres
dispostas em seus clubes o tempo todo, e eu nunca o acuso de dormir
com elas, muito menos de dormir com suas irmãs pelo amor de Deus!
— Por que eu te trairia com alguma dessas mulheres? Tudo o que
consigo pensar é em você.
Eu congelei. — Você pensa em mim? — Eu nunca tinha
considerado a possibilidade de que ele desperdiçasse um único
pensamento comigo quando estava no trabalho.
Cassio me observava, uma batalha travando nos olhos dele.
— Por que você continua me afastando, então? Por que você me
machuca por não confiar em mim?
Cassio pegou sua gravata, afrouxando-a com um puxão forte. A
tensão permaneceu em seu corpo, e se Christian ainda estivesse aqui,
ele provavelmente o teria atacado novamente. Cássio parecia estar no
controle, então foi um choque que ele abrigasse tanta agressão
irrestrita. Claro, isso só solidificou que eu estava tentando ignorar esse
lado dele. Sua reputação existia por uma razão.
— Eu não te afasto. Dividimos a cama e passamos um tempo
juntos.
— Nós fazemos sexo juntos, conversamos sobre o que as crianças
fizeram, mas sempre que tento vislumbrar a sua máscara, você me
bloqueia e agora quase mata meu irmão com raiva ciumenta. Diga-me o
que aconteceu.
Sua mandíbula travou no lugar. Virei às costas para ele,
precisando de um momento sem o seu olhar intenso. Soltando a toalha,
peguei uma camisola em uma gaveta. Os passos de Cassio ecoaram
atrás de mim. — Não. Não me toque. Agora não. Eu preciso de
respostas Se você se recusar a me dizer a verdade, não posso fazer sexo
com você. — Eu lancei um olhar por cima do meu ombro.
Cássio começou a desabotoar a camisa, com tanta calma e
precisão que, por um momento, também quis rugir e ficar com raiva.
Fiquei feliz quando ele se moveu para a porta.
— Vou colocar Daniele na cama.
Eu afundei na cama. Prometi a Cassio que não me mudaria para
outro quarto, mas agora não tinha certeza se queria manter essa
promessa. Eu não tinha certeza se poderia ficar, não enquanto ele me
deixasse no escuro sobre o que aconteceu. Eu não queria ter medo do
meu marido, mas agora estava.
Os gritos de Daniele soaram, e me levantei correndo
apressadamente até seu quarto. Cássio tentava colocar seu pijama, mas
Daniele lutava com ele. Eventualmente, Cassio o soltou, e Daniele
correu em minha direção, abraçando minhas pernas.
Cássio parecia um animal ferido quando se endireitou. — Você
pode...? — Sua voz era áspera, sua mandíbula apertada.
Eu balancei a cabeça e levantei Daniele em meus braços. Cassio
assistiu com olhos tristes enquanto eu colocava o pijama em Daniele e o
deitava na cama. Cassio deu um breve beijo na testa de Daniele antes
dele e eu sairmos e apagar as luzes.
O silêncio se fechou ao redor de Cássio e eu enquanto estávamos
no corredor. — Diga-me a verdade. Se você quer que esse casamento
funcione, se eu significo algo para você, me conte o que aconteceu —
implorei.
Cassio olhou para o meu braço enfaixado. Sua camisa estava
meio desabotoada, e ele parecia exausto. — Eu preciso de uma bebida.
Você se juntará a mim? — Ele estendeu a mão.
Hesitei, mas vendo o olhar torturado em seu rosto, peguei sua
mão e o segui escada abaixo.
Sybil estava no saguão, sua expressão preocupada. — Eu
preparei minestrone. Está na cozinha. Eu não tinha certeza se vocês
iriam jantar... — Ela parou. Ela provavelmente ouviu as lutas e viu
Christian fugir da casa.
— Nós não estamos com fome. Vá para casa — Cassio cortou.
Sybil procurou meus olhos. Eu sorri. — Obrigada por nos fazer o
jantar. Tenha uma noite agradável com seu marido.
Ela hesitou, então pegou sua bolsa e casaco antes de sair. Cassio
apertou minha mão e me puxou para a sala de estar. O fogo ardia na
lareira como todas as noites. Normalmente, a visão me aquecia por
dentro, agora não fazia nada para dissipar a sensação fria de pavor. Ele
me soltou para ir ao armário de bebidas. Eu afundei em uma das
poltronas, esticando minhas pernas nuas, saboreando o calor que a
lareira emitia. — Me prepare uma bebida também.
Cassio fez um som baixo, expressando seu descontentamento,
mas depois de alguns minutos, ele estendeu um copo com cerca de dois
dedos de um líquido âmbar. Eu peguei e tomei um gole.
Cassio afundou na poltrona ao lado da minha, rolando o cubo de
gelo em torno do seu copo. Seus olhos estavam em mim. — Eu sabia
que chegaria a isso. Não poderia ser de outra maneira. Tinha que
acabar assim.
— Isso não é o fim de nada, — eu disse. — Não se você não
deixar. Você quer me perder?
Cássio tomou um gole e sorriu amargamente. — Eu já não perdi?
— Não, mas vai se não parar de esconder a verdade de mim. O
que aconteceu hoje... Eu não posso superar isso, a menos que você me
diga o que te fez agir dessa maneira. Ajude-me a entender.
Cássio tomou o resto de sua bebida. Ele olhou para as chamas e
sorriu amargamente.
Meu telefone tocou, me fazendo pular. A expressão de Cássio
escureceu, mas eu atendi. Não precisei verificar a tela para saber quem
era. — Eu estou bem, Christian.
— Entrei em contato com alguns dos homens leais a mim em
Baltimore. Papai não vai interferir, mas eu vou, se você precisar.
Apenas diga e eu vou libertá-la dele.
Isso era traição. Considerando como as coisas estavam ruins na
Famiglia no momento, e quão volátil Luca estava, eu não podia permitir
que Christian cogitasse essas ideias. — Não. Estou bem, honestamente.
Nós podemos conversar amanhã.
— Giulia...
— Amanhã. — Eu desliguei. — Esse olhar precisa ser explicado,
Cassio.
Ele levantou uma sobrancelha como se não soubesse do que eu
estava falando. Eu não acreditei nisso por um segundo. Seus olhos
praticamente queimavam de ciúmes enquanto eu conversava com
Christian. Era algo que eu nem conseguia começar a entender.
— Como você pode considerar que eu teria algo com meu próprio
irmão? — Tomando metade da minha bebida, levantei-me e me ajoelhei
diante dele, tocando seu punho cerrado apoiado em sua coxa. Ele abriu
para que eu pudesse unir nossos dedos. Por trás da raiva e suspeita em
seus olhos, havia uma profunda dor e vulnerabilidade. Foi a última que
silenciou minha própria fúria sobre o que ele havia feito. — Por favor,
me diga a verdade.
Cassio se inclinou e me beijou docemente.
Eu fiz uma careta. Este não era o momento para a proximidade
física. Eu queria respostas.
— Eu precisava desse último beijo antes que você olhasse para
mim do jeito que me olhou quando ataquei Christian. — Ele se inclinou
para trás, olhando para as chamas mais uma vez. — Eu matei minha
primeira esposa.
O chão se abriu sob os meus pés. Lentamente, afastei minha mão
da dele, desejando tê-lo interpretado mal e terrivelmente certa de que
não.
Cássio sorriu sombriamente. Ele demorou a traçar minha
expressão horrorizada com os olhos. — Não com minhas próprias mãos.
Ela se matou, mas fez isso por minha causa.
O alívio quase me deixou sem fôlego. Se Cássio tivesse matado
sua esposa, eu não poderia ficar com ele, não que ele me permitisse
deixá-lo.
Eu sabia que o suicídio era mais comum do que as pessoas
gostavam de admitir em nossos círculos, mas geralmente era o
resultado de abuso e desespero. O que Cassio fez com a esposa? Ele era
bom para mim e para seus filhos. Eu não podia imaginá-lo abusando de
sua falecida esposa, a menos que a morte dela o fizesse mudar de
atitude. Até o corte no meu braço... mesmo que não tenha sido feito por
Christian, não era sua intenção. Ele parecia culpado depois.
— Por quê? — Eu perguntei, meio assustada em saber a verdade,
mas queria me livrar das sombras escuras do passado e lançar luz
sobre o que aconteceu era a única maneira de fazê-lo.
Cassio sorriu sem humor. As chamas criaram sombras em seu
rosto afiado. — Porque eu matei o homem que ela amava.
Fiquei chocada em silêncio.
17
Cassio
O passado
Este dia tinha sido um caos absoluto. Perder dois homens para
aqueles malditos motociclistas já era ruim o suficiente. Perdê-los
porque tínhamos um traidor era pior. Eu não estava certo de quem era,
não com certeza. Muitas coisas apontavam para Andrea. Ele não estava
no jantar de Natal há dois dias, mas deveria vigiar Gaia hoje.
Era quase meia-noite quando entrei em nossa casa, esperando
todos na cama, como sempre. A luz fluía na entrada da sala de estar.
Depois, encontrei Daniele no sofá mexendo em um pequeno tablet, as
sobrancelhas franzidas em concentração. Eu fui até ele. — Por que você
ainda está acordado?
— Não consigo dormir. Tio Andrea me deu isso.
— Onde ele está?
— Lá em cima com mamãe. Eles estão jogando.
Ele nem olhou para cima, completamente hipnotizado pela tela
colorida. Era exatamente por que eu não queria que ele tivesse uma
dessas coisas.
— Jogando?
Daniele assentiu distraidamente. — Sim. Tio Andrea me deu isso
para jogar também.
— Fique aqui e continue jogando, — eu disse com firmeza e
caminhei em direção à escada, puxando minha arma. Subi as escadas,
certificando-me de não emitir nenhum som.
Em frente à porta do quarto de Gaia, parei, escutando. Atrás da
porta, alguém grunhiu e uma mulher gritou. Isso não eram sons de
tortura.
Eu empurrei a porta. Ela bateu contra a parede atrás dela.
A fúria correu pelas minhas veias com a visão diante de mim.
Gaia, minha esposa grávida, montava seu meio-irmão, os dois nus.
Minha esposa estava transando com seu meio-irmão. Por um
segundo, nenhum de nós se mexeu.
Gaia soltou um grito, cobrindo seus seios como se eu tivesse
menos direito de vê-los do que seu maldito meio-irmão. Um olhar
passou entre eles, e eu sabia que isso estava acontecendo há muito
tempo, talvez até antes do nosso casamento.
O gosto amargo da traição floresceu na minha boca, seguido pela
irresistível sede de vingança. Eu fechei a porta. Andrea empurrou Gaia
para longe dele e se atirou para a arma na mesa de cabeceira. Eu
apertei o gatilho. A bala rasgou a palma da sua mão, explodindo-a.
Sangue e carne respingaram por toda parte.
Ele rugiu em agonia.
— Não! — Gaia gritou, tropeçando em seus pés e se movendo em
direção à arma. Eu estava ao seu lado em dois grandes passos,
passando meus braços em volta de suas costelas acima de sua barriga.
— Não! — Ela gritou, lutando no meu domínio. Cobri sua boca
com a palma da mão e a arrastei para o banheiro. — Pare de gritar, —
eu rosnei. — Daniele não precisa ouvir isso.
Seus gritos abafados não cessaram. Ela não se importava se
nosso filho ouvisse isso. Empurrei-a para o banheiro e tranquei a porta
antes de me virar para Andrea, que estava saindo de seu torpor
induzido pela dor . Gaia martelou contra a porta. Andrea tentou pegar a
arma novamente. Também atirei na outra mão dele, sentindo uma
satisfação doentia por seu grito de agonia. Ele recuou com um grito
sufocado, segurando as mãos arruinadas na frente dele.
— Não machuque Andrea! Não, Cassio, ou juro que matarei a
criança no meu ventre.
Eu congelei, meus olhos se inclinando para a porta, incapaz de
acreditar no que Gaia havia dito. Entrei no closet e peguei fita adesiva e
algemas antes de voltar para o quarto. Andrea não era um perigo para
mim em seu estado atual.
Abri a porta e Gaia quase caiu em minha direção. No segundo em
que ela viu o que eu estava segurando, ela tropeçou para trás e pegou
minha lâmina de barbear, pressionando-o na parte inferior da barriga.
— Não o machuque, ou eu vou cortar Simona da minha barriga.
— Você machucaria sua filha por esse homem?
— Você não entenderia! — Ela resmungou. — Eu o amei a vida
toda. Ele é tudo o que importa.
— Abaixe a navalha, Gaia, e podemos conversar.
— Você nunca o deixará viver. Eu conheço você. É ele ou você.
— E você me quer morto.
— Sim. — Não havia um indício de hesitação na palavra. — Eu te
quero morto há muito tempo. Não há nada que eu queira mais.
Eu avancei, agarrando seu pulso antes que ela pudesse se
machucar e ao bebê. Apesar de sua luta, consegui amarrar seus pés e
mãos e cuidadosamente a coloquei em uma série de toalhas. Eu cobri
sua boca com fita adesiva para que seus gritos não alertassem Daniele.
— Eu não posso permitir que você mate nossa filha.
Seus olhos estavam frenéticos quando me endireitei e saí do
banheiro. Fechei a porta com um clique suave. Andrea tinha se
levantado, mas eu cheguei antes que ele pudesse fugir. Eu o acorrentei
ao aquecedor com as algemas, em seguida, colei sua boca também.
Conversaríamos mais tarde.
Respirando fundo, verifiquei minhas roupas em busca de sangue
e troquei de camisa antes de descer. No caminho, mandei uma
mensagem para Faro dizendo que ele precisava procurar um médico
que pudesse tratar Gaia. Eu ignorei suas perguntas.
Daniele pairava no centro da sala, o tablet ainda na mão. Seu
pequeno rosto mostrava confusão. Eu sorri apesar da escuridão
rodando em meu interior. — Você estava certo. Sua mãe e tio Andrea
estavam jogando.
— Eu ouvi gritos.
Eu ri, mesmo quando minha garganta apertou. — Sim. Eles
estavam se perseguindo e mamãe ficou assustada.
Indo para o lado dele, acariciei sua cabeça. — Eu vou te levar
para a cama agora. Você pode continuar jogando, se quiser.
Ele assentiu. Eu levantei Daniele e o carreguei para cima,
saboreando a sensação de seu corpo quente. Ele chamava meu lado
bom, uma parte que Andrea não veria hoje. Depois de colocar Daniele
na cama, saí e tranquei a porta.
Voltei para o quarto de Gaia. Antes de lidar com Andrea, verifiquei
Gaia novamente. Ela ainda estava deitada onde eu a tinha deixado.
Seus olhos me imploravam para poupar Andrea, o homem que ela
estava fodendo nas minhas costas há oito anos.
Virei às costas para ela, incapaz de suportar o olhar no seu rosto,
e fui até Andrea. Depois de soltar as algemas, agarrei-o pelo pulso e o
arrastei atrás de mim, apreciando o som de seus gritos abafados. Ele
lutou como um louco. Puxei-o escada abaixo, quando Faro entrou no
saguão com suas chaves, nosso médico mais confiável atrás dele.
Os olhos de Faro mergulharam na forma sangrenta de Andrea,
arregalaram-se e depois dispararam de volta para encontrar meu olhar.
O rosto do médico permaneceu imóvel, ele conhecia as regras. Nada do
que ele visse sairia desta casa.
— Gaia está lá em cima, — eu disse. — Examine-a, verifique se
ela e a criança estão bem. E não a deixe fora de vista por um maldito
segundo. Ela ameaçou machucar o bebê.
Não esperei uma resposta. Em vez disso, puxei Andrea em direção
à porta do porão e o empurrei escada abaixo. O som de sua queda
terminou com seu grito abafado quando ele pousou no piso. Eu o segui.
Passos ecoaram atrás de mim. Não precisei me virar para saber que era
Faro.
Andrea estava deitado em uma pilha amassada na base da
escada, gemendo. Agarrei-o novamente e o arrastei em direção a uma
sala à prova de som, onde o coloquei em uma cadeira.
Faro me olhou com cautela. — Ele é o traidor?
— Talvez, — eu disse. — Mas ele é o homem que fode sua irmã.
Os olhos de Faro se arregalaram quando ele examinou o corpo nu
de Andrea. — Cassio...
— Não, — eu rosnei. Eu não queria compaixão. Valia menos do
que a sujeira debaixo dos meus sapatos. A compaixão era para os fracos
e estúpidos. Talvez eu tenha sido o segundo, mas definitivamente não o
primeiro.
— Foda-se, — disse Faro, balançando a cabeça. Ele sabia o que
aconteceria, o que eu precisava, queria fazer.
Cheguei perto de Andrea e arranquei a fita. — Agora vamos
conversar.
Andrea cuspiu no meu peito. — Não há nada para conversar.
— Oh, há. — Eu agarrei sua garganta. — Há quanto tempo você
transa com minha esposa?
Andrea sorriu sombriamente. — Ela tem sido minha antes de ser
sua.
— O que isso significa? — Eu o sacudi com força.
Seus olhos reviraram brevemente antes de encontrarem os meus.
Ele perdeu muito sangue, estava perdendo mais a cada segundo que
passava. Ele não deixaria este porão vivo. — Estamos juntos desde que
Gaia tinha quinze anos. Estamos fodendo desde que ela tinha dezesseis
anos.
A raiva ferveu em mim como uma onda imparável. — Você está
mentindo.
— Por quê? Porque ela sangrou sua primeira vez juntos? — Ele
riu sarcasticamente. — Existem médicos para tudo.
Quase oito anos. Foi quanto tempo Gaia estava me traindo. Eu
era fiel mesmo quando ela mal tolerava minha presença na maioria dos
dias e só dormia comigo uma ou duas vezes por mês. Eu não me
importava. Eu mantive meus votos de casamento, e ela os pisoteou
desde o primeiro dia. Eu confiava nela e em Andrea, o deixara se tornar
seu único guarda-costas, porque ela me pediu. Eu não dava a mínima
para o que tinha acontecido antes da nossa noite de núpcias, se ela era
virgem ou não, mas toda traição desde então me cortou como uma faca
revestida com ácido.
Minhas mãos se fecharam em punhos.
— Lembre-se dos motociclistas, — disse Faro, mas eu mal o ouvi.
— Precisamos de informações.
Andrea engoliu em seco. — Se você quer um herdeiro, precisa
manter Gaia viva, porque Daniele e Simona não são seus. Eles são
meus.
A estática correu em meus ouvidos. Eu me joguei nele, chovendo
socos no rosto, no peito, no estômago. Eu bati cada centímetro dele que
eu poderia alcançar.
— Cassio, pare! — Faro agarrou meus ombros, mas o empurrei
com um rugido, mais animal que homem. Ele colidiu contra a parede e
cambaleou.
Então eu girei sobre Andrea novamente. Seu olhar disse que ele
sabia que iria morrer. Meus punhos queimavam com cada novo soco.
Eu atingi carne e osso, até o chão embaixo de nós na minha raiva
ofuscante. Eu soquei e soquei até que não conseguia mais respirar, até
meus dedos latejarem de dor, até minhas costelas doerem sob um peso
invisível. Afastando-me do cadáver, afundei-me contra a parede, o peito
arfando. Meus dedos estavam quebrados do impacto com o chão de
pedra.
Eu engasguei por fôlego e fechei os olhos. Quando os abri
novamente, estava calmo. Andrea estava uma bagunça sangrenta. Não
precisei verificar se havia um pulso para saber que ele estava morto. Eu
havia matado muitos homens com uma faca, arma, martelo, lâmina de
barbear, mas nunca com minhas próprias mãos. Eu não deixava a raiva
ditar minhas ações. Hoje eu fiz isso.
Faro estava sentado à minha frente, me olhando com cautela. —
Você está bem?
Estiquei meus braços cobertos de sangue. Minha camisa e calça
estavam encharcadas. Meus dedos doeram quando os mexi. Eu sorri
ironicamente. — Minha esposa transou com seu meio-irmão todo o
nosso casamento... Daniele... — Minhas palavras morreram na minha
boca, a garganta ficando seca.
Faro levantou-se com uma careta. Ele passou por cima do
cadáver e quase escorregou no sangue. — Foda-se, — ele rosnou antes
de parar na minha frente. Ele estendeu a mão.
Eu peguei e deixei ele me puxar para cima, mesmo quando uma
dor aguda cortou meus dedos.
Faro tocou meu ombro. — Andrea pode ter dito isso para provocá-
lo, Cassio. Você não sabe se ele disse a verdade. Daniele e o bebê podem
ser seus. Você realmente acha que Gaia se arriscaria a colocar ovos
estranhos no seu ninho?
— Não os chame assim, — eu murmurei.
Faro me olhou com uma intensidade penetrante que fez meus
dentes ranger. — Andrea sabia o que o esperava. Uma morte lenta,
horas de tortura brutal até que contasse todos os seus segredos. Ao
provocá-lo, ele teve uma morte rápida.
Eu considerei a bagunça sangrenta no chão. — Duvido que tenha
sido o fim indolor que ele esperava.
— Não foi indolor, não, — disse Faro, seguindo o meu olhar. —
Mas bastante rápido. Melhor do que ele merecia, se você me perguntar.
Recostei-me na parede, sem saber para onde ir a partir daqui.
Minha esposa me traiu, admitiu que preferia me ver morto, ameaçou
matar nosso bebê... se fosse nosso.
Meu peito se contraiu até cada respiração ser uma luta.
— O que você vai fazer agora? — Perguntou Faro. Eu encontrei
seu olhar cauteloso. — Com Gaia, — ele esclareceu, como se eu não
soubesse.
— Eu não sei. — Eu não poderia, não a mataria. Ela ainda era
minha esposa, mãe de Daniele e Simona. Minha cabeça caiu para frente
sob a força das emoções que me atingiam.
— Cassio. — Faro apertou meu ombro, sua voz implorando.
— Ligue para o meu pai. Peça a ele para vir. Ele precisa saber.
Não alerte mais ninguém ainda. Precisamos inventar uma história.
— Você manterá o caso de Gaia em segredo?
— Claro. Eu não quero que as pessoas saibam. Vamos culpar
Andrea. Declará-lo um traidor, como ele provavelmente já era.
— Gaia pode saber mais. Se ela era sua amante, eles podem ter
conversado.
Afastei o aperto de Faro. Uma nova onda de raiva e desespero
surgiu em mim. — Eu preciso checá-la.
— Cassio, — disse Faro, segurando meu ombro. — Mesmo que
você não a mate, não pode mais confiar nela. Seu casamento acabou.
Eu não disse nada, apenas subi as escadas. Encontrei Gaia e o
médico no quarto dela. Ela estava deitada na cama, parecendo drogada.
O médico estava coberto de suor e tinha um inchaço na testa. — Ela
lutou. Eu tive que sedá-la e arrastá-la para a cama. Caso contrário, ela
teria machucado a si mesma e ao bebê.
O doutor Sal examinou minhas roupas cobertas de sangue. —
Devo verificar seus ferimentos?
— O bebê está bem? — Eu perguntei da porta, incapaz de entrar,
de chegar mais perto da minha esposa e da cama onde ela me traiu.
— Está. Claro, não é o ideal que tive que sedá-la. Se ela ainda
estiver tão histérica quando acordar, podemos ter que contê-la. Não
posso continuar dando sedativos a ela em seu estado.
— Podemos tirar o bebê agora?
Sal balançou a cabeça. — Teoricamente. Mas devemos esperar
mais duas a três semanas pelo menos.
Como eu poderia ter certeza de que o bebê estaria seguro? Eu
teria que ficar de olho em Gaia vinte e quatro horas por dia e torcer
para que ela superasse a morte de Andrea. Eu sabia que era tolice
esperar que ela pudesse. E realmente, o que eu poderia esperar neste
momento? Que viveríamos sob o mesmo teto, nos odiando? Gaia
passaria todos os momentos de vigília desejando minha morte cruel, e
eu gastaria cada respiração que tomasse ressentindo pelo que ela fez.
Este casamento estava morto. Esteve desde o início.
— Fique com ela, — eu disse. Saí e entrei no quarto principal,
onde tomei banho rapidamente e me vesti antes de ir para o quarto de
Daniele.
Ele havia adormecido, enrolado de lado na cama. Lentamente, fui
até ele e afundei no chão. Acariciei seu cabelo rebelde. Ele parecia com
Gaia. Era o que todo mundo dizia desde o início. Seus olhos castanhos
e cabelos loiros escuros, até as feições do rosto. Ele não tinha nada de
mim. Minhas irmãs e mãe tinham cabelos loiros escuros semelhantes,
então assumi que ele herdou deles. Fechei os olhos. Andrea e Gaia
tinha a aparência muito semelhante. Se Andrea era o pai de Daniele,
isso explicava por que ele não tinha nada de mim.
Uma dor aguda cortou meu peito. Eu olhei para o menino que eu
amava mais do que qualquer coisa no mundo. Eu nunca amei Gaia, não
por ela mesma. Eu a respeitava e cuidava dela, porque ela me deu o
presente mais puro do mundo: um filho.
Eu levantei abruptamente. Vozes soaram no corredor, uma delas
pertencente ao pai. Saí, encontrando Faro e meu pai conversando em
sussurros urgentes. No momento em que o pai olhou para mim, desejei
ter escondido isso dele. Ele mancou em minha direção, parecendo
pálido e fraco. Ele agarrou meu ombro, seus olhos procurando os meus.
— Se você quiser fazer Gaia desaparecer depois que o bebê nascer,
ninguém te culpará, muito menos eu, meu filho.
Eu assenti. Não seria a primeira vez que um homem feito matou
sua esposa por traição. As coisas teriam sido diferentes se Gaia não
estivesse grávida? Eu a teria matado como fiz com Andrea? Eu já havia
matado mulheres antes. As prostitutas que os motoqueiros mantinham
por perto para chupar seus paus, mas elas estavam armadas e
tentando matar a mim e meus homens.
Gaia ainda era uma mulher, ainda minha esposa, ainda mãe de
Simona e Daniele. Eu não a mataria a menos que fosse a vida dela
contra a dos meus filhos ou a minha.
— Eu não quero que ela desapareça.
Pai parecia confuso. — Faro me contou tudo. Como você quer
mantê-la por perto? Ela é um perigo para você.
— Não estou preocupado com a minha vida, mas com a dos meus
filhos.
Papai olhou para Faro e depois para mim. — Você não sabe se
eles são seus filhos. Você precisa fazer um teste o mais rápido possível.
— E depois? — Eu rosnei.
O pai encolheu os ombros como se o assunto fosse fácil. — Se
eles não são seus, podemos enviar Gaia e eles para morar com a família
dela, e você pode encontrar uma nova esposa que possa lhe dar filhos.
Dar Daniele? Mesmo a nossa filha ainda não nascida já havia se
alojado no meu coração desde que ouvi o batimento cardíaco e vi a
imagem do ultrassom.
Papai apertou meu ombro com mais força. — Cassio, seja
razoável. Você precisa de um herdeiro. Você não pode querer criar os
filhos de outro homem. Pelo amor de Deus, essas crianças podem ser o
resultado de um incesto. Isso é pecado.
— Pecado, — eu repeti, rindo amargamente. — Eu bati em um
homem até a morte com minhas próprias mãos hoje. Hoje tirei a pele e
queimei um motociclista para conseguir informações. Eu matei mais
homens do que me lembro. Nós vendemos drogas, armas.
Chantageamos e torturamos. Como uma criança pode ser um pecado?
Pai abaixou o braço. — Vamos adiar essa discussão.
— Não haverá outra discussão, pai. Daniele e Simona são meus
filhos, fim da história. Qualquer pessoa que afirme o contrário terá que
pagar o preço. — Parte da minha determinação era covardia. Eu estava
com medo da verdade, com medo de olhar para o rosto de Daniele e não
ver meu filho, mas o de Andrea. Eu nunca permitiria que isso
acontecesse.
Pai se endireitou. — Não esqueça com quem você está falando.
— Eu não estou. Eu te respeito. Não destrua isso dizendo algo
que não perdoarei.
O pai apoiou-se com mais força na bengala, deixando escapar um
suspiro profundo. — Se você prefere viver no escuro.
— A escuridão é onde estamos todos mais confortáveis. — Eu
assenti para Faro. — Livre-se do corpo. — Ele inclinou a cabeça e
depois se virou para fazer seu trabalho. Eu sempre poderia contar com
ele. Mas confiar nele depois de hoje? Nunca mais confiaria em ninguém.
Meu olhar se fixou em Gaia, que podia ver deitada na cama do
meu ponto de vista.
— Como você será capaz de olhar em seu rosto novamente depois
do que ela fez? — Perguntou o pai.
— Duvido que seja um problema. Ela provavelmente nunca vai
olhar na minha cara depois do que eu fiz com Andrea.
***
Três semanas depois, Simona nasceu por cesariana. O estado
emocional de Gaia havia piorado, então tivemos que contê-la à noite e
verificá-la a cada minuto do dia, mesmo quando ela ia ao banheiro.
Elia, Sybil e Mia revezavam-se de olho nela. Eu não podia nem estar no
mesmo quarto que ela sem ela ficar histérica. No entanto, a evitei de
bom grado. Mesmo que eu não a amasse, sua traição me cortou de uma
maneira que não achava possível. Minha casa era meu refúgio, um
lugar onde eu podia relaxar depois de cansativos dias de trabalho, e
meus filhos eram a luz da minha vida. Agora tudo estava envolto em
uma escuridão amarga.
Daniele não entendia por que não podia visitar sua mãe, mas eu
estava com medo por ele e do que ela lhe diria. Gaia sempre foi
vingativa, e agora tinha um motivo para me odiar.
Quando abracei Simona no dia seguinte ao seu nascimento,
porque Gaia não me queria lá durante o parto, me apaixonei por aquela
menininha. Sangue significava pouco neste momento, e eu nunca
permitiria isso.
Gaia não superou a morte de Andrea. Eu fui tolo em pensar que
ela poderia, pelo bem de Daniele e Simona. Por um tempo, ela me fez
acreditar que sim. Ela tomava pílulas que a acalmaram e,
eventualmente, quase parecia o seu antigo eu. Sybil e Mia ainda tinham
que assumir a maior parte dos cuidados com Daniele e Simona. Mas as
coisas pareciam melhorar. Conseguimos desempenhar nossos papéis
em público, conseguimos evitar um ao outro a portas fechadas. Às
vezes, decidimos por educação, mas o ódio nos olhos de Gaia sempre
me lembrava da realidade da nossa situação. Eu matei o homem que
ela amava. Ela nunca me perdoaria, e eu não precisava do perdão dela.
Eu só precisava que ela se encontrasse para cuidar de nossos filhos.
Mas Gaia concentrou a maior parte de seu amor e atenção no
último presente de Andrea: Loulou. Ela tratava o cachorro como se
fosse um humano, deu-lhe ternura e palavras de amor que deveria ter
dado apenas Daniele e Simona.
Não permiti que ela ficasse sozinha com nossos filhos. Sybil ou
Mia tinham que estar por perto, porque ainda não tinha certeza se Gaia
não mataria nossos filhos apenas para me machucar tanto quanto a
morte de Andrea a machucou. Eu nunca a considerei capaz de
infanticídio, mas agora não tinha tanta certeza. Imagens dos corpos
sem vida de meus filhos assombravam meus pesadelos.
Vivíamos uma mentira, que se tornava cada vez mais insuportável
todos os dias, mas, ao mesmo tempo, me acostumei.
Quatro meses após o nascimento de Simona, no dia do nosso
oitavo aniversário, Gaia acabou com tudo. Eu tinha feito reservas para
o jantar em nosso restaurante favorito por aparência, mas no momento
em que cheguei em casa eu sabia que algo estava errado.
A casa estava muito tranquila. Muito silenciosa. Eu era um
homem que gostava do silêncio, mas esse tipo de silêncio tocava alto
demais, ricocheteava nas paredes em ecos ameaçadores.
Encontrei Sybil dormindo no sofá. Sacudindo-a, ela acordou, mas
seus olhos continuaram sem foco. — Sinto muito, mestre. Eu devo ter
adormecido.
— Isso não é simplesmente dormir. Eu disse para você tomar
cuidado com Gaia! — Eu rosnei, liberando-a. — Onde estão Daniele e
Simona?
Sybil piscou, então seus olhos se arregalaram de medo. Comecei a
subir as escadas e congelei no patamar do segundo andar. Pequenas
impressões de patas ensanguentadas cobriam o tapete bege.
Meu coração apertou tão forte que por um momento tive certeza
de que teria um ataque cardíaco. Afinal, ocorreu em nossa família. Eu
corri em direção ao quarto de Simona, empurrando a porta, depois
tropecei em direção ao berço. Simona estava imóvel e tudo em mim
parou. No segundo em que considerei sua morte, entendi por que Gaia
queria se matar depois de perder Andrea. Eu puxei Simona tão rápido,
que ela acordou com um grito de cortar os ouvidos. Deus, era o som
mais bonito do mundo. Agarrei-a contra o meu peito, apesar de seus
gritos implacáveis e beijei o topo de sua cabeça uma e outra vez.
Loulou latia e gania. Simona nos meus braços, saí do quarto.
Daniele estava no corredor, a alguns passos do quarto de sua mãe,
apertando Loulou contra seu peito. O cachorro se contorcia loucamente.
Quando me aproximei, vi que o seu pelo estava coberto de sangue e o
focinho também. Os braços de Daniele também estavam vermelhos.
Corri em direção a ele e me ajoelhei, segurando Simona em um braço
enquanto tocava sua bochecha. — Daniele, o que aconteceu? — Meus
dedos voaram sobre seu pequeno corpo, procurando por ferimentos,
mas ele estava ileso.
— Encontrei Loulou. Onde está mamãe?
O cachorro latiu loucamente até Daniele finalmente largá-lo.
Correu pela fresta da porta do quarto de Gaia. Daniele fez um
movimento como se fosse segui-lo. Agarrei seu pulso. O medo frio
perfurava todos os meus ossos. — Não. Você esteve lá?
— Mamãe estava dormindo. Ela está acordada agora?
Minha garganta entupiu. — Não. Ela ainda está dormindo. Desça
as escadas até Sybil. Ela precisa limpá-lo.
Daniele levantou o queixo. — Eu quero a mamãe.
— Daniele, desça as escadas.
Lentamente, ele se afastou e desapareceu na escada. Simona se
aquietou em meu abraço. Ela era pequena demais para entender, e
ainda assim eu não podia levá-la para o quarto comigo, sabendo o que
encontraria.
Eu a devolvi ao berço antes de ir lentamente para o quarto de
Gaia. Empurrando a porta, entrei. Um cheiro familiar flutuou até o meu
nariz; isso nunca significou nada para mim, mas a partir de hoje
significaria. Mesmo sabendo o que encontraria, a visão bateu em mim
como um soco no estômago. Eu me aproximei da cama lentamente. Um
dos braços de Gaia pendia frouxamente ao lado da cama, ainda
pingando sangue no piso de madeira. Loulou empoleirou-se embaixo
dela, lambendo as pontas dos dedos pegajosos. Sentada em uma poça
de sangue, cuja quantidade me dizia que eu não precisava chamar uma
ambulância. Meus negócios exigiam que eu soubesse quanto sangue
um corpo humano poderia perder antes de tomar medidas preventivas
para evitar uma morte prematura, antes que todas as informações
necessárias fossem extraídas da pessoa.
Gaia se foi.
O sangue continuava pingando em Loulou, e a maldita coisa o
lambia ansiosamente. Enfurecido, peguei o cachorro pelo pescoço,
cambaleei em direção à porta e joguei-o no corredor. Ele aterrissou com
um guincho antes de correr.
Eu encarei minhas mãos cobertas de sangue e depois o corpo sem
vida de minha esposa. Fechei a porta devagar, caso Daniele aparecesse.
Uma marca de mão permaneceu na madeira lacada a branco.
Daniele não precisava ver isso. Voltei para a cena horrível. As
rosas vermelhas que uma das empregadas comprara para Gaia como
presente pelo nosso oitavo aniversário estavam amassadas ao lado do
corpo mole. Rosas vermelhas para combinar com os lençóis manchados
de sangue e seu vestido branco. Uma tentativa desesperada de
consertar um casamento que não podia ser consertado. Prova do meu
próprio fracasso.
Segundos se passaram enquanto eu olhava para minha esposa.
Mesmo sem vida, ela ainda era linda. Ela escolheu usar seu vestido de
noiva quando se matou. Ainda servia perfeitamente. Os cristais em seu
corpete brilhavam a luz da lâmpada. Alguns deles manchados com
sangue, fazendo-os parecer rubis. Eles combinavam com as pedras
preciosas em seu colar. Ela até enrolou o cabelo da mesma maneira que
o usou no dia em que fizemos nossos votos. Quanto tempo ela planejou
isso?
Pegando meu telefone, liguei para o pai. Eu raramente o chamava
depois do jantar. Ele e a mãe passavam as noites assistindo clássicos
ou jogando gamão. Agora que ele se aposentara, tinham tempo para
isso. O amor deles tinha sido algo pelo qual almejava quando jovem,
antes do casamento, antes de Gaia.
— Cassio, você não tem uma reserva para jantar com Gaia?
Um jantar para exibir nosso casamento fracassado em público. —
Gaia está morta.
Silêncio. — Você pode repetir isso?
— Gaia está morta.
— Cassio...
— Alguém precisa limpar isso antes que as crianças vejam. Envie
uma equipe de limpeza e informe Luca.
Eu desliguei. Uma folha de papel na cama ao lado do corpo de
Gaia chamou minha atenção. Eu rastejei em direção à cama. A morte
não me incomodava, não quando eu era o portador dela com tanta
frequência, mas cada fibra do meu ser se rebelou em ir a qualquer lugar
perto do cadáver da minha esposa. O braço oposto que não estava
pendurado ao lado da cama estava sobre o peito. O sangue do pulso
cortado havia ensopado o tecido do vestido de noiva. Seus olhos
castanhos sem vida fixaram-se no teto, mesmo na morte estavam cheios
de acusação. Fechei suas pálpebras e peguei sua última carta com as
pontas dos dedos trêmulas.
Sua letra elegante e os caros artigos de papelaria prometiam uma
carta de amor, mas é claro que não era nada disso.
Minha respiração diminuiu quando li a carta de Gaia para mim.
Eu não conseguia me mover, só podia olhar para suas últimas palavras.
Eu não estava triste por perdê-la. Eu nunca a tive para começar. Ela
era de Andrea, mesmo após a morte dele. Senti uma profunda tristeza
pelo que isso significava para Daniele e Simona e uma loucura furiosa
com as pessoas responsáveis por essa bagunça. Em relação aos pais
dela que a forçaram a se casar comigo, mesmo sabendo a verdade. Era
incesto. O amor deles estava condenado como o nosso, mas os pais dela
me deixaram correr contra uma faca desembainhada, não me avisaram
quando permiti que Andrea passasse todos os dias sozinho com minha
esposa.
Uma batida soou, mas não reagi. A porta se abriu então. Faro
entrou e apareceu ao meu lado. Ele disse algo, mas suas palavras
estavam abafadas. Ele pegou a carta de mim. Eu o deixei. Não
importava se ele lesse.
— Cassio! — Ele me sacudiu com força e, finalmente, meu foco se
voltou para ele. Atrás dele, meu pai apoiava-se pesadamente na
bengala, parecendo furioso ao ler a carta.
— Não se atreva a se sentir culpado, Cassio, — ele murmurou. —
Era o que ela queria. Ela te traiu, provavelmente ajudou o irmão a vazar
informações para os motoqueiros, tentou matar seus filhos. Ela não vale
um lampejo de sua culpa.
Faro encontrou meu olhar. — Você não escolheu se casar com ela
também. Vocês dois foram jogados nesse casamento por fins táticos.
Você não é mais culpado do que ela.
E ainda assim me sentia. — Não sei o quanto Daniele viu disso.
Pai fez uma careta. — Ele não vai entender de qualquer maneira.
— Tranquei aquele maldito cachorro no depósito. Estava coberto
de sangue, — disse Faro.
Eu balancei a cabeça distraidamente, mas meu olhar voltou para
Gaia. Minha esposa se matou por minha causa. Eu tinha sido o prego
final em seu caixão, mas seus pais haviam construído a porra da coisa.
— Cuide de tudo, — eu disse. — Eu preciso lidar com algo.
Pai agarrou meu braço. — Filho, me diga que você não fará nada
tolo? — Eu raramente via medo nos olhos dele, mas ali estava.
— Não é o tipo de tolice que você teme. É um ato de covardia e
um crime contra os que foram deixados para trás. — Eu me afastei de
suas garras e parti.
Faro correu atrás de mim. — Você precisa da minha ajuda?
— Não.
Eu peguei o carro. Vinte minutos depois, bati na casa dos meus
sogros. Quando eles abriram a porta, apontei minha arma para eles. —
Vamos falar sobre Andrea e Gaia.
No dia seguinte, a criada os encontrou mortos no quarto. Eles se
mataram, incapazes de suportar a morte de seu filho e filha. Essa foi a
declaração oficial.
18
Cassio
O presente
Lentamente me afastei da lareira, encarando minha jovem esposa.
Ela estava pálida, seus lábios entreabertos de horror depois da minha
história. — Quando me casei com Gaia, ela estava apaixonada por seu
meio-irmão. Eu não sabia disso naquela época. Seus pais sabiam, mas
optaram por não divulgar as informações. Talvez agora você entenda
por que eu desconfiei de Christian.
Giulia cobriu a boca com a palma da mão, olhando para o chão
como se não pudesse suportar olhar para mim. Eu não podia culpá-la.
Era uma história que abalara até meu pai e Faro. — Oh meu Deus.
Eu fiz uma careta. Eu odiava lembrar, e falar sobre o que
aconteceu, mas ainda pior do que tudo isso era o olhar no rosto de
Giulia agora que ela sabia a verdade. — Depois que me casei com Gaia,
ela me perguntou se seu meio-irmão poderia se tornar um de seus
guarda-costas. Eu concordei porque ela estava infeliz fora de casa e
achei que ajudaria. Queria que ela encontrasse felicidade em nosso
casamento.
Giulia assentiu, sem erguer os olhos. — Os pais dela? Você os
matou.
— Matei. Eles me traíram. As mentiras deles custaram a vida de
Gaia e Andrea.
Ela respirou fundo, horrorizada. Giulia era uma boa menina.
Gentil e positiva, disposta a ver a luz mesmo no escuro. Eu arrastei
uma mulher para um abismo. Esperava desesperadamente que Giulia
fosse poupada do mesmo destino. — Gaia praticamente pediu para você
matá-los em sua última carta.
— Ela me conhecia bem. — Ocasionalmente, compartilhava
detalhes do meu trabalho com ela quando estava particularmente
abalado ou quando ela perguntava, o que não acontecia com frequência.
Giulia balançou a cabeça. Ela disse que nosso casamento estaria
condenado se eu não dissesse a verdade, mas tinha a sensação de que a
verdade acabou com o que quer que estivesse florescendo entre nós.
Perder Gaia não doeu. Para começar, porque ela me traiu, e porque
nunca a amei. Perder Giulia, eu não superaria isso. Não estávamos
juntos há muito tempo, mas nas semanas de nosso casamento, ela
iluminou meus dias mais do que eu achava ser possível.
— Eu nunca levantei minha mão contra Gaia, nunca. Eu nunca a
teria matado. O que você decidir, não precisa se preocupar com sua
segurança, Giulia. Eu não vou te machucar.

Giulia
Eu não conseguia respirar. Ouvir Cassio contar a história do que
aconteceu com uma voz crua e amarga me perturbou profundamente.
Isso era muito pior do que eu esperava. A ideia de encontrar Cassio com
outra mulher me rasgou. Quão pior deve ter sido para ele? Encontrar
sua esposa grávida com seu meio-irmão, um homem em quem ele
confiava e descobrir que seus filhos poderiam não ser dele. Era horrível
demais para contemplar. Mesmo eu não tinha certeza do que teria feito
em uma situação como essa. Provavelmente não mataria alguém, mas
eu não era um homem criado para sobreviver na máfia.
Cassio sorriu severamente ao ver minha expressão. — Esse é o
homem com quem você se casou, Giulia. Eu entendo se estiver com
medo de mim agora. Não vou impedi-la de se mudar para outro quarto,
mas você certamente entenderá que teremos que ficar casados por
Simona e Daniele. Eles também não podem perdê-la.
Eu me levantei, rastejei no colo de Cássio e passei meus braços
em volta dele, enquanto ele enrijecia. Eu o beijei com força. Deus, isso
era horrível. Tudo isso. Não estava tudo bem que Cassio tivesse matado
um homem com uma raiva ciumenta, mas ele era um assassino e, como
todos os homens do nosso mundo, havia matado por menos. Parte de
mim entendia.
Confusão se misturou com esperança hesitante nos olhos de
Cássio. — O que... o que você está fazendo?
Eu pressionei meu rosto contra sua garganta. Ele passou um
braço em volta de mim levemente. — Giulia? Diga algo.
— Eu não tenho medo de você. — Eu não tinha. Talvez devesse
ter, mas sempre soube que Cassio era capaz da brutalidade por algo tão
trivial quanto poder e dinheiro. Que ele matou porque alguém o
machucou, isso apenas mostrou que ele não era um assassino sem
emoção.
Cassio colocou um dedo embaixo do meu queixo e ergueu meu
rosto. — Você ouviu o que eu disse.
— Ouvi. Você protegeu Daniele e Simona. Você manteve Gaia
viva, apesar do que ela fez. Eu sei que não é algo que muitos homens
teriam feito. É mais do que eu esperava, conhecendo as histórias sobre
você.
A boca de Cassio torceu cinicamente. — Acho que é bom que sua
impressão sobre mim já seja ruim, para começar.
Revirei os olhos, esperando aliviar o clima.
Cassio segurou minha bochecha. — Só você me faz sentir melhor
me insultando com um simples olhar.
Segurei seus ombros, aproximando nossos rostos. — Você queria
deixar o passado para trás, e eu quero ajudá-lo. Pare de achar que farei
o que Gaia fez. Eu não sou ela, e definitivamente não vou acabar na
cama com meu irmão. Mesmo pensar nisso me deixa doente. E também
não vou te trair com mais ninguém. Eu te desejo e sou leal. Você
consegue assimilar isso em seu crânio grosso?
Cássio apontou para o peito. — Aqui, eu sei que você não é Gaia.
— Ele apontou para a cabeça dele. — Aqui está o problema. Eu não sou
um homem muito confiante, nunca fui. Agora menos do que nunca.
Mas eu estou tentando. — Ele segurou minha cabeça e moldou nossas
bocas antes de murmurar: — Eu não posso te perder.
— Você não vai. Não se continuar trabalhando em seus
problemas de confiança, se continuar lutando por nós, porque eu com
certeza estou pronta para entrar em guerra por esse casamento e
nossos filhos.
Cassio se moveu lentamente. — O que você disse?
Eu franzi meus lábios. — Que estou pronta para lutar por nós.
— Não, — ele disse rispidamente. — Você disse nossos filhos.
Eu corei. Não apenas quase declara meus sentimentos por
Cassio, mas também deixa escapar que queria que Simona e Daniele
fossem nossos, não apenas dele. Eu os conhecia há apenas um mês,
mas ficaria ao lado deles por muitos anos. Espero que um dia eles
sejam meus na opinião deles e de todos os outros. — Eu sei que eles
são seus... não meus, não realmente, mas meio que dói quando você diz
que são seus filhos como se eu não me importasse com eles... — Cassio
me puxou em sua direção, me beijando ferozmente. Eu me agarrei a ele,
quase sem fôlego quando ele finalmente se afastou.
— Eu não te mereço, Giulia, mas meus filhos... nossos filhos
merecem.
— Eu realmente me importo com eles. Mesmo que você nunca
queira ter outro filho, eu ficarei bem, porque vou criá-los como se
fossem meus.
— Eu sei, — ele disse calmamente. — É o que eu faria também.
Eu procurei seus olhos. — Você já fez um teste de paternidade? —
Eu tinha certeza que sabia a resposta.
— Não, — disse Cassio.
Essa palavra envolveu tanto sentimento. Amor por Simona e
Daniele, a determinação de cuidar deles, mas também o medo. — Então
você não sabe se Daniele e Simona são seus?
— Não. Simona e Daniele se parecem com a mãe... com...
Com o meio-irmão de Gaia. — Mas a cor dos cabelos é semelhante
à da sua irmã.
— É, — ele concordou, mas a dúvida soou em sua voz e entendi o
porquê. Agora que realmente pensava nisso, tinha que admitir que nem
Simona nem Daniele compartilhavam qualquer semelhança com o pai.
Meu coração doeu ao pensar na possibilidade.
Engoli. — Por quê?
— Porque eu os amo e estou com medo de que os resultados dos
testes possam mudar isso. Especialmente Daniele... Não suporto pensar
que possa me ressentir dele por parecer com Andrea. — Sua voz tremia.
— Você realmente acha que amaria menos Daniele se ele não
fosse seu?
— Eu não sei, — Cassio admitiu em uma voz bruta. — Eu não sei,
e é por isso que não vou arriscar. Prefiro não saber a verdade, prefiro
viver uma mentira a machucar Daniele ou Simona de qualquer
maneira.
Eu segurei suas bochechas. — Eles são seus filhos, Cassio.
— Você não pode saber...
— Eles são. Porque você os ama, porque os cria e porque eles
amam você como seu pai. É isso que importa.
— Sim, — ele disse depois de um momento. — Como você pode
ser tão sábia e gentil, Giulia? Eu deveria ser o único a dar-lhe
conselhos. Tenho quase o dobro da sua idade, pelo amor de Deus.
Dei de ombros. — Eu tive que crescer rapidamente.
Cassio afastou a franja da minha testa, melancolia nublando seu
rosto. — Por minha causa. Achei que você seria outra criança para
cuidar depois do nosso primeiro encontro, muito jovem para lidar com
as responsabilidades que ser minha esposa implicava, mas você provou
que eu estava errado. Você cuida dos meus filhos, daquele cachorro, até
de mim.
— Loulou. Esse é o nome dela.
— Andrea a deu a Gaia algumas semanas antes de eu descobrir.
— Oh. — Isso explicava por que ele mal conseguia olhar para
Loulou. Ela lembrou-lhe muitas coisas dolorosas. — Não é culpa dela.
— Ela lambeu o sangue de Gaia!
Eu me encolhi, não querendo refletir sobre essa imagem
perturbadora. — Ela é uma cachorra. Ela não fez por mal.
Cassio inclinou a cabeça para o lado com um sorriso cansado. —
Você pode ficar com ela, mas não espere que eu me vincule a isso.
Eu sufoquei um retorno. Algumas coisas levavam tempo.
Esfreguei as pontas dos dedos sobre a bochecha e o queixo de Cassio.
— Você sabe por que Daniele te evita? Ele viu alguma coisa?
— Ele não estava presente quando matei Andrea ou durante
minha briga com Gaia. — Ele pegou o copo e tomou um longo gole. —
Logo após a morte de Andrea, ele ainda estava bem. Mas nas semanas
seguintes, ele se afastou e, depois do suicídio de Gaia, eu não conseguia
falar com ele. Daniele se ressente de mim. Eu posso ver nos olhos dele.
Nós costumávamos ser próximos, mas tudo mudou... Ele não fala,
então eu não sei se foi algo que Gaia lhe disse ou algo que ele viu.
Eu pressionei minha testa na dele. — Vamos descobrir juntos. Por
nós. Por nossos filhos.
***
Sabendo o que sabia agora, arrepios cobriram minha pele quando
encontrei Daniele no quarto de sua mãe na manhã seguinte. Eu quase
podia vê-la deitada pela maneira vívida e crua que Cassio havia descrito
a cena. Um nó fechou minha garganta, vendo Daniele encolhido ao seu
lado. Eu gostaria de saber o que estava acontecendo em sua cabeça, se
ele tinha visto mais do que Cassio suspeitava. Aproximei-me de Daniele
lentamente, tentando tirar as imagens da minha cabeça. Quão pior
Cassio deve se sentir sempre que põe os pés dentro deste quarto?
Peguei Daniele e ele acordou em meus braços. Era fácil carregá-
lo, já que ele não era mais um bebê. Cássio saiu do berçário com
Simona no braço. Ele despenteou gentilmente os cabelos de Daniele,
que abaixou a cabeça.
Eu dei a Cassio um sorriso encorajador.
— Estarei em casa a tempo do jantar, — prometeu antes de sair.
Como todos os dias, Elia levou as crianças, Loulou e eu ao parque
de cães. Daniele foi autorizado a pegar a coleira enquanto passeávamos
pelo resto do parque no final do dia. Ele nem pediu seu tablet hoje.
Loulou solicitou toda a sua atenção, e ele deu-a com prazer. Era
maravilhoso vê-los se aproximar.
Elia se sentou no banco enquanto eu segurava Simona pelas
mãos minúsculas para que ela pudesse dar passos hesitantes ao longo
do caminho. Daniele empoleirou-se no chão, ajudando Loulou a cavar
um buraco no chão frio com um graveto que encontrara. Ele estava
sujo, e cavar buracos no parque provavelmente era proibido, mas não o
impedi.
— Loulou.
Eu congelei e quase soltei Simona, o que me rendeu um grito de
raiva dela, mas meus olhos estavam fixos em Daniele, que acabara de
falar. Não comigo, nem alto, mas eu ouvi a palavra. Engoli em seco,
tentando decidir se deveria tentar coagir mais palavras dele. Ele tinha
uma voz baixa e suave, e eu queria ouvi-lo o dia todo.
Eu decidi não pressioná-lo, mesmo que fosse difícil. Em vez disso,
olhei para Simona. — Boa menina. — Ela sorriu e deu mais alguns
passos vacilantes.
No momento em que estávamos em casa, e tive um pouco de
tempo livre, peguei meu telefone e liguei para Cassio. Mal podia esperar.
Ele atendeu após o primeiro toque. — O que aconteceu? — A
preocupação em sua voz me fez lamentar minha decisão.
— Está tudo bem. Eu só queria lhe dizer que Daniele falou com
Loulou hoje.
Silêncio. — Tem certeza? — Cada sílaba dita com dúvida.
— Sim, eu o ouvi dizer o nome dela. Isso não é ótimo? Estamos
progredindo.
— Por que ele falaria com um cachorro?
— Muitas crianças desenvolvem laços estreitos com seus animais
de estimação porque podem compartilhar tudo com eles sem
julgamento ou punição. Eles são seus melhores amigos.
— Isso não explica por que ele é tão obcecado por aquele
cachorro.
E então clicou. — Para Gaia, ela lembrava Andrea, mas para
Daniele, apenas lembra sua mãe, e isso é natural. Se ele encontra
conforto em Loulou, isso é bom.
Cassio suspirou. — Talvez. Eu preciso voltar ao trabalho agora.
— Tudo bem. Você ainda estará em casa para jantar?
— Eu prometi, então sim.
— Obrigada. Gosto de jantar com você. — Eu desliguei
rapidamente, não querendo ficar muito piegas.
***
Cassio me pediu para colocar Daniele na cama naquela noite. Ele
parecia exausto e como se não pudesse suportar a rejeição de seu filho
mais uma vez.
Depois de colocar Daniele, peguei um dos livros de imagens que
eu havia pedido e comecei a ler para ele, mas seu foco estava em
Loulou, que estava enrolada em frente à cama. Eu dei um tapinha no
colchão. — Venha, Loulou.
Seus ouvidos se animaram, e ela pulou no edredom entre Daniele
e eu. Seus dedos minúsculos encontraram o pelo dela, e ele continuou
acariciando-a enquanto eu lia o livro para ele. — Você quer que Loulou
fique com você?
Daniele assentiu.
— Mas se você andar pela casa, a acordará. Você pode ficar na
sua própria cama?
Ele considerou isso, com a cabeça inclinada para o lado, deu um
aceno decisivo. Eu sorri antes de pressionar um beijo em sua testa.
Acendendo sua fraca luz noturna, caminhei até a porta e apaguei a
lâmpada.
— Boa noite, Daniele. — Comecei a fechar a porta quando uma
voz suave soou.
— Boa noite.
Eu congelei. Lentamente, me virei, mas Daniele se escondeu
debaixo das cobertas. Engoli em seco e fui embora. Como se estivesse
em transe, desci as escadas, encontrando Cassio no salão de charutos,
arrumando a mesa de sinuca para o nosso jogo. Um olhar para o meu
rosto e ele veio em minha direção. — Ei, o que há de errado?
— Daniele disse boa noite.
Cássio deu um passo atrás. — Ele falou com você? — Surpresa se
misturava com decepção em sua voz. Primeiro Loulou, agora eu.
— Ele só disse boa noite, mas é um começo, certo?
Ele assentiu devagar, mas percebi que lhe bateu forte Daniele ter
falado comigo primeiro. Eu passei meus braços em torno de sua
cintura. — Você passa muito tempo fora, então Loulou, Simona e eu
somos as pessoas com quem ele se relaciona. Você deve reservar um
tempo para passear no parque de cães conosco ou almoçar. Quando
você o vê, ele está sempre cansado e não no estado de espírito certo
para se relacionar com você.
— Nós poderíamos passar o aniversário dele na casa de praia.
Daniele adora lá.
Eu sorri — Perfeito. Quero assar um bolo e decorar tudo com
dinossauros. Talvez possamos convidar Mia e sua família para que
Daniele tenha alguém com quem brincar. As filhas dela são próximas a
ele em idade, não são?
— Uma é um ano mais nova, a outra é dois anos mais velha. E
isso soa como um ótimo plano. — Ele afastou minha franja da minha
testa.
— Você ainda a odeia? — Lembrei-me do que ele disse sobre o
meu cabelo na primeira vez que o conheci. Doeu naquela época, mas
não tanto agora. Nossos gostos eram muito diferentes. Pelo menos
Cassio já havia desistido de me vestir do jeito que ele queria.
— Não há nada que eu odeio em você, — ele murmurou.
Meu coração bateu violentamente. Eu olhei seu rosto, tentando
determinar o que o tom em sua voz significava. Seus lábios
encontraram os meus, interrompendo meus pensamentos. Seu beijo se
tornou forte quando ele agarrou meus quadris e me içou na mesa de
bilhar. Eu gritei de surpresa. Cassio posicionou minha bunda na borda
e afastou minhas pernas. Era terrivelmente desconfortável, mas eu
seria condenada se dissesse alguma coisa. Minha saia xadrez curta
subiu. — E as minhas saias? Você também não as odeia?
Cassio lambeu uma trilha quente e úmida na minha coxa. Eu me
contorci, sufocando uma risadinha. Parte de mim queria empurrá-lo
para longe, mas a outra queria mais.
— Desde que elas me permitam acesso rápido à sua boceta doce.
— Ele me beijou através da minha calcinha.
— Você gosta muito de oral. — Eu me apoiei em meus cotovelos
para vê-lo entre minhas pernas. Ele sempre me lambia antes do sexo e
às vezes só isso. Ele também não se apressava. Ele levava o seu tempo,
e era incrível. Vê-lo se divertir tanto quanto eu era muito excitante.
— Foda-se sim. Eu poderia comê-la o dia todo. — Ele mergulhou
a língua entre as minhas dobras, minha calcinha ainda entre nós. —
Isso é uma reclamação?
Agarrei seu cabelo curto, tentando puxá-lo de volta para que ele
me lambesse. Falar era a última coisa em minha mente. —
Absolutamente não. Sua língua é mágica.
Ele riu e o estrondo profundo causou outra inundação de
umidade escorrendo de mim. Ele colocou os dedos na minha calcinha e
a arrastou lentamente. Eu levantei minha bunda para facilitar, em
seguida, abri minhas pernas ainda mais. — E você, querida, gosta de
ficar de joelhos e chupar meu pau?
— Sim, — eu pressionei, deslizando mais perto de sua boca. Ele
sorriu. Em vez de sua língua, seu dedo indicador começou a me
provocar levemente. Ele mergulhou, puxando minha excitação. — Você
me quer tanto que vai arruinar a mesa de sinuca.
— Eu não ligo. Por favor, pare de me provocar. Eu preciso da sua
língua.
O sorriso dele ficou mais sombrio. — Você se lembra de quando
lhe falei que só eu dou ordens no quarto?
— Nós não estamos no nosso quarto, — eu chiei antes que ele me
levantasse da mesa, me girasse e me empurrasse para a frente, então
eu estava curvada sobre a borda, minha bunda projetando-se. Ele deu
um tapa na minha bunda com força, fazendo-me arquear com um
gemido ofegante. O zíper dele assobiou. Ele apalpou minha bunda, sua
ponta separando minhas bochechas lentamente até que eu o senti
contra a minha abertura, e então ele meteu todo o caminho.
Eu me preparei na superfície verde quando Cassio entrou em
mim.
— Você sempre me come, — eu disse. — Você não precisa que eu
te peça para fazer isso.
Seu peito pressionou contra as minhas costas. — Mesmo agora,
estou com fome de sua doçura. — Ele bateu mais forte em mim, fazendo
as bolas na minha frente baterem uma contra a outra. Ele se
aprofundou ainda mais, e o triângulo com as bolas realmente sacudiu.
E foi tudo o que precisou, esse visual do Cassio visceral me tomando,
para me mandar para o outro lado, me tirando o controle tão rápido que
minha visão nublou, concentrando-se no tecido verde-claro enquanto
minhas unhas o arranhavam. Meu orgasmo me atingiu como uma bola
de demolição, e deixei minha cabeça cair sobre a mesa, tentando
respirar enquanto meu corpo tremia.
Cassio saiu de cima de mim. Ofeguei e minhas paredes se
contraíram com a perda inesperada. Eu podia sentir o ar frio atingir
minha carne molhada. Então sua língua estava contra mim, aquecendo-
a. Ele me lambeu com cuidado, sabendo que eu ainda estava
excessivamente sensível. Fiquei frouxa em cima da mesa, suspensa pela
borda quando minhas pernas cederam.
Logo o prazer voltou a crescer, e ele ficou mais faminto, as
lambidas se transformando em uma surra. Perdi toda a noção do
tempo, deixando Cassio assumir o controle, deixando-o me dar prazer e
tomar o seu próprio até me sentir quase delirante. Nós dois acabamos
esparramados na mesa de sinuca depois, respirando com dificuldade.
Eu tinha certeza que teria queimaduras do feltro e algumas contusões
amanhã, mas não podia me importar menos.
— Às vezes me pergunto o que direi a Daniele quando ele for mais
velho e exigir respostas. Ele se perguntará por que metade de sua
família morreu.
Eu me virei para ele, então rolei e me apoiei em seu peito, meu
queixo nos dedos unidos. — Você parece culpado.
— Às vezes me sinto culpado.
— Você tinha que matar Andrea. Mesmo se não o tivesse matado
em um acesso de raiva, teria que matá-lo por ser um traidor.
— Eu nunca tive confirmação. Eu não o questionei nem a Gaia.
Eu deveria ter, mas o matei antes que pudesse torturá-lo. E ela... eu
simplesmente não conseguiria extrair informações dela assim. Ela não
teria me dito nada de qualquer maneira.
Mordi o lábio inferior. — Andrea era um traidor. Tudo apontava
para isso, então sua morte era inevitável. A morte de Gaia foi resultado
do caso proibido e, portanto, inevitável também. A escolha foi dela, e
você não pôde fazer nada para impedir.
— Eu matei os avós de Daniele e Simona também.
— Daniele fará perguntas um dia e nós responderemos. Diremos
a ele que Andrea era um traidor que fugiu. Sua traição partiu o coração
de sua irmã, então ela se matou, e seus pais não poderiam viver tendo
perdido os dois filhos. É uma história que poucas pessoas poderiam
contestar e aquelas que poderiam, não vão.
A palma da mão acariciou minhas costas. — Eu não achei que
você seria alguém que optaria por uma mentira.
— Se proteger você e as crianças.
Cassio suspirou, seu peito forte subindo sob o meu queixo. —
Primeiro, ele terá que me perdoar pelo que quer que tenha contra mim.
19
Giulia
Dois dias antes do aniversário de Daniele, quando era certo de
que passaríamos o fim de semana na casa de praia, liguei para Mia. Eu
não tinha falado com ela desde o casamento e só troquei pequenos
textos ocasionais de brincadeiras.
— Giulia, que prazer. Está tudo bem?
— Sim, claro.
— Claro? — Sua curiosidade era inconfundível. Eu me
perguntava o quanto ela realmente sabia sobre o motivo da morte de
Gaia. A julgar pelas palavras de Cássio, ela só sabia o básico.
— Vamos passar o fim de semana na praia para comemorar o
aniversário de Daniele, e eu queria saber se você e sua família se
juntariam a nós. Ou é muito árduo para você? — A data limite de Mia
era de apenas três semanas, então eu não tinha certeza se ela queria
arriscar uma viagem curta.
— Ele já está te levando lá?
Eu fiz uma careta. — Nós já passamos um fim de semana na
casa.
— Oh. Isso é maravilhoso, Giulia.
Sua surpresa alegre me pegou desprevenida. Eu achei que a casa
era para a família, não apenas para Cassio.
— E é claro que vamos nos juntar a vocês. Você quer que eu
pergunte a Ilaria e meus pais se eles querem ir também?
— Sim, — eu disse, aliviada. Eu tinha ainda menos interação com
eles e teria me sentido estranha chamando-os do nada, especialmente
os pais de Cássio.
Estava frio, mas ensolarado quando chegamos à casa de praia na
sexta-feira à tarde. Cassio comprou o presente de Daniele, o que me
surpreendeu. Minha mãe sempre tratava de comprar coisas para nós,
mas fiquei feliz por ele estar tentando se envolver com os filhos.
Depois que nos instalamos, comecei a separar os ingredientes
para o bolo de aniversário. Cassio examinou a tela quando chegou atrás
de mim. Ele usava calça jeans que acentuava suas longas pernas
musculosas e seu suéter não fazia nada para esconder seu peito largo.
Sua loção pós-barba, um perfume apimentado que sempre me enchia
de calor surpreendente, chegou ao meu nariz, e tive que resistir à
vontade de me inclinar contra ele. Até agora, não tínhamos
compartilhado nenhum tipo de intimidade na frente das crianças, e eu
não iniciaria nada.
— O que é tudo isso? — Cassio perguntou. Com seu corpo me
protegendo, ele passou a mão na minha lateral, descansando no meu
quadril dando um breve aperto, antes de recuar.
— Um bolo arco-íris de confetes.
Eu pude ver sua confusão. Antes de fazer pesquisas on-line, eu
também não conhecia esse bolo. Eu sorri. — Você vai ver. — Daniele
pairou na frente da porta do terraço, olhando para a praia. Loulou
estava ao lado dele, com o olhar fixo nas gaivotas que vagavam pelo céu.
— Talvez você possa dar um passeio na praia com ele, para que não
veja seu bolo antes de amanhã?
As sobrancelhas escuras de Cassio se juntaram. — Eu posso
tentar.
Simona se arrastou em nossa direção então, usando minha perna
para se levantar. Após sua suspeita inicial em relação a mim, ela agora
mal saia do meu lado. — Não achei que Daniele e Simona a aceitariam
tão rapidamente.
— Suponho que é uma vantagem que eles sejam tão jovens. —
Jovens demais para realmente entender o que havia acontecido,
especialmente Simona.
— Sim. — Cassio olhou para Daniele.
— Por que não leva Loulou com vocês?
A expressão de Cassio se tornou relutante instantaneamente.
— Ouça-me, — eu disse antes que ele pudesse discutir. —
Daniele a ama. Se Loulou confiar em você, talvez Daniele também
confie. Eu acho que foi por isso que ele começou a confiar em mim.
— Esse cachorro não me deixa chegar perto dele. É um milagre
que aquilo tenha parado de rosnar para mim.
Levantando Simona, que continuava puxando minha saia, eu
enfrentei Cassio. Ele olhou para mim e sua filha, e sua expressão se
tornou mais suave. — Você poderia começar chamando aquilo de
Loulou. Dê uma chance. Por favor.
Ele franziu a testa, balançando a cabeça, depois se inclinou e me
beijou, me pegando de surpresa. Simona levou as mãos agarrando seu
queixo e ele pegou os dedos dela com a boca, fazendo-a rir. Quando ele
se afastou, meu olhar encontrou Daniele, mas ele ainda estava com o
nariz praticamente tocando a janela. — Tudo bem. Mas Loulou não vai
fugir quando estiver comigo?
— Ela pode. Mantenha-a na coleira.
Peguei a coleira no caminho para a janela. Cassio seguiu logo
atrás. Era estranho ver um homem tão duro e acostumado a dominar
outros mafiosos sem saber como lidar com um menininho. Supus que
era mais fácil manter homens perigosos na linha do que recuperar a
confiança de um garotinho. Não era algo que ele pudesse forçar, coagir
ou exigir. Coloquei Loulou na coleira e Daniele ergueu os olhos
imediatamente. — Você e seu pai vão levar Loulou para passear.
A cabeça de Daniele ficou ainda mais alta, olhando para Cássio.
— Vamos lá, está frio lá fora. Vamos colocar sua roupa de inverno
— ele disse. Ele pegou Daniele, que permaneceu quieto. Cinco minutos
depois, Daniele estava usando seu casaco quente e Cassio tinha
colocado um casaco. Eu segurei a guia para ele. Ele pegou de uma
maneira que deixou claro que nunca pegou uma em sua vida. No
momento em que abri a porta, Daniele e Loulou saíram. Cassio os
seguiu, ignorando os puxões de Loulou em direção à praia. Eu os
observei por um momento até chegarem ao oceano. Era uma visão tão
bonita. A enorme estrutura de Cássio e ao seu lado um cachorrinho fofo
e um garotinho...
Como não tinha muita experiência em cozinhar, só podia ter
esperança que tudo desse certo. Pelo menos eu tinha experiência em
pintura, então talvez corante alimentar fosse literalmente fácil.
Simona sentou na cadeira alta para poder me observar.
Normalmente, ela preferia se mover, mas me ver assar um bolo parecia
atrair muito de sua atenção. Dividi a massa em três partes e colori cada
uma de maneira diferente. Depois de cobri-las com creme de manteiga,
polvilhei tudo com confeti.
Simona estava obviamente fascinada com os granulados coloridos
e estendeu as mãos, mas eu não queria que ela engasgasse com os
pedacinhos. Coloquei o bolo pronto na geladeira, peguei Simona, nos
envolvi em um casaco grosso de lã e saí para a varanda. Apesar do frio
cortante, Daniele brincava na areia. Cássio estava sentado na beira de
uma espreguiçadeira ao lado dele, digitando no telefone e lançando um
olhar ocasional para o filho. Loulou estava ao lado de Daniele, o nariz
erguido para a brisa. Desci os degraus de madeira até a praia.
A cabeça de Cassio girou, alerta transbordando em seu corpo até
que ele olhou para mim e Simona. Ele relaxou e colocou o telefone de
volta no casaco. — Terminou o bolo?
Eu balancei a cabeça com um sorriso enquanto olhava os montes
de areia ao redor de Daniele, que parecia completamente concentrado
na tarefa a frente. — Sua irmã e sua família estarão aqui em uma hora.
Nós devemos nos arrumar. — Olhando para o estado de Daniele coberto
de areia, a limpeza provavelmente levaria um tempo.
Cássio se endireitou e se agachou diante de Daniele, que olhou
brevemente para cima. — Tia Mia vem nos visitar. Precisamos limpá-lo.
— Ele pegou Daniele gentilmente e levantou-o, depois começou a tirar a
areia do grosso traje de inverno. Daniele não protestou, seus lábios
pressionados. Ele continuou espiando Cassio e, nos olhos dele, vi o
mesmo desejo que tantas vezes capturava nos de Cassio.
— Pronto para entrar? — Eu perguntei.
Daniele assentiu e juntos voltamos. Cassio limpou Daniele. Houve
menos protestos do que no passado. Daniele também sentia falta do
pai. Limpei a cozinha e arrumei a mesa, feliz por ter concordado com a
sugestão de Mia de trazer comida para viagem. Cozinhar e assar teriam
sido demais com minha experiência limitada.
Mia se tornou ainda mais contundente desde a última vez que a vi
no casamento. O marido Emiliano tinha a idade de Cassio e apenas
apertou minha mão brevemente antes de se juntar a Cassio para um
aperitivo. As duas filhas de Mia tinham cinco e dois anos e eram
absolutamente adoráveis, com tranças e vestidos fofos. — Como está o
bebê?
Mia tocou sua barriga. — Ele está bem.
— Ele?
Mia sorriu, mas Emiliano falou antes que ela pudesse. — É um
menino. — Seu alívio e entusiasmo eram inconfundíveis. Os homens de
nossos círculos ainda precisavam de um herdeiro. Peguei a comida de
Mia e a carreguei para a mesa, um pouco irritada por Emiliano ter
permitido que Mia a segurasse, mesmo que não fosse tão pesada.
— Ela está ficando rápida, — disse Mia com um aceno de cabeça
em direção a Simona, que havia aperfeiçoado a velocidade do
rastreamento.
— Ela já está tentando andar.
Mia tocou meu ombro, abaixando a voz. — Você parece bem.
Então, acho que tudo está indo bem entre Cassio e você?
— Sim.
— Estou feliz. Ele e as crianças merecem uma folga.

Cassio
Fazia um tempo desde que eu jantara em família na casa de
praia. Eu poderia dizer como Mia estava imensamente satisfeita com
esse novo progresso. Ela estava tentando me convencer a fazer um há
meses.
Emiliano se juntou a mim para um rápido Negroni antes do
jantar. Eu o peguei olhando para Giulia de uma maneira que deixou
meus nervos no limite. Ele não faria nada. Sua autopreservação era
forte. Ele checava todas as mulheres atraentes e, infelizmente, não
parava por aí. Ele traia Mia em todas as gestações até agora. A primeira
vez que descobri, eu o ameacei, disse-lhe que cortaria seu pau em
pedacinhos se ele não parasse, mas Mia havia me pedido para ficar fora
do seu casamento. Ela o amava e preferia fingir que ele não a traía. Eu
honrei seu desejo, e Emiliano trabalhou mais para manter seu adultério
em segredo. Mia tinha um sexto sentido para infidelidade, soube
imediatamente quando descobri o caso de Gaia, mas nunca disse a ela
com quem.
Giulia era a única pessoa a quem eu tinha contado todos os
detalhes. Eu nem tinha certeza do por que. Meu pai e Faro foram as
escolhas óbvias para tal confissão, mas com Giulia, senti uma conexão
mais forte, apesar da diferença de idade. Éramos opostos completos,
desde nossa visão da vida até nossas experiências, até nosso nível de
bondade e a respectiva maldade, mas nos completávamos.
Mia me lançou um olhar orgulhoso de seu lugar na mesa como se
pudesse ler minha mente. Ela era contra Gaia desde o início e a favor de
Giulia desde o primeiro momento em que a viu. Ela estava certa sobre a
minha primeira esposa, e eu esperava que estivesse sobre Giulia
também.
***
Na manhã seguinte, despertei logo após o pôr do sol, querendo
acordar Daniele como havia feito nos últimos dois aniversários dele,
mas sua cama estava vazia. Eu o encontrei no chão em frente às
janelas, jogando a bola do cachorro para que ela pudesse pegá-la. Seus
lançamentos não foram muito longe ou bem direcionados, mas o olhar
de concentração determinada seguido de prazer em seu rosto apertou
meu peito. — Feliz Aniversário.
Daniele pulou, deixando cair à bola. Ela rolou na minha direção e
depois bateu no meu pé descalço. Loulou não se atreveu a buscá-la.
Peguei e depois rolei no chão em direção a Daniele. Ele pegou e jogou de
novo. Loulou devolveu-a ansiosamente. Daniele pegou a bola e olhou
para ela. — Vamos abrir seus presentes quando Giulia e Simona
estiverem acordadas.
Ele levantou a bola. Levei um momento para perceber o porquê.
Aproximei-me dele devagar, preocupado que ele mudasse de ideia,
então peguei a bola e a joguei através da sala para Loulou. Ela correu
atrás como se estivesse possuída e voltou com ela. Desta vez, ela deixou
cair na minha frente. Afundei-me ao lado de Daniele e estendi a bola
para ele. — Sua vez.
Ele encontrou meu olhar pela primeira vez em muitos meses.
Seus olhos eram questionadores, e se perguntasse, eu diria o que ele
precisava ouvir. Ele enrolou os pequenos dedos em volta da bola e a
jogou. Passamos muito tempo assim até que Loulou estava ofegante e,
finalmente, carregou sua bola para dentro de sua cesta, terminando a
perseguição.
Foi quando notei Giulia meio escondida no batente da porta, seus
olhos tão suaves que meu próprio coração pulou uma batida. Ela
embalava Simona contra o peito, que ainda parecia sonolenta.
— Feliz aniversário, aniversariante, — disse ela enquanto entrava.
— Que tal um bolo?
Giulia acendeu três velas em cima de um bolo, que era polvilhado
com o que aprendi era confeti. Os olhos de Daniele se arregalaram
quando ele viu o bolo. Eu o levantei em uma das cadeiras para que ele
pudesse dar uma boa olhada nele. — Você tem que apagar as velas e
fazer um pedido.
Simona tentou se afastar de Giulia para tocar as velas, e seu
rosto se enrugou de frustração quando não conseguiu. — Você precisa
de ajuda? — Giulia perguntou a Daniele quando ele soprou apenas uma
vela em sua primeira tentativa.
— Você tem três anos, é um menino grande. Você pode fazer isso
— eu disse a ele.
Ele deu um pequeno aceno de cabeça e soprou ainda mais. As
duas velas apagaram desta vez.
— Bom.
Giulia sorriu enquanto cortava o primeiro pedaço do bolo.
Quando ela o puxou, suas camadas coloridas se tornaram visíveis.
— Uau, — Daniele suspirou. Eu congelei, incapaz de acreditar no
que tinha ouvido. Uma palavra simples, a primeira palavra que Daniele
falou em minha presença há meses.
Uau, de fato.
Eu tive que concordar com ele, não apenas por causa do bolo
arco-íris de confeti. Giulia colocou um prato na minha frente e afundou
em uma cadeira com Simona no colo, que aproveitou o momento para
enfiar os dedos na fatia de bolo de Giulia.
A risada de Giulia soou como um sino quando ela pegou a mão
minúscula de Simona e a colocou na boca para lamber o creme de
manteiga antes de limpar os restos com um guardanapo. Eu não
conseguia parar de encará-la.
Ela notou, sua expressão se transformando de vergonha em
confusão. Ela tateou o rosto como se esperasse encontrar mais bolo, em
seguida escovou sua franja, o gesto nervoso que costumava expressar.
Eu não podia acreditar que tinha me concentrado no que achava errado
em Giulia, como sua franja, seus vestidos peculiares, sua idade, quando
a conheci, em vez de perceber o que era bom. E havia tantas coisas que
até os pequenos aborrecimentos desapareciam no fundo. Giulia era
perfeita para mim e meus filhos. Talvez por causa de sua idade, porque
ainda era jovem otimista, ingênua imprudente e ousadamente não
convencional.
Ela não era o que eu queria em uma esposa, mas inferno, se ela
não era exatamente o que eu precisava.
20
Giulia
— Papai é um homem mau?
Eu quase caí da escada, minha respiração ficando presa na
garganta. Daniele tinha dito uma ou duas palavras no máximo nas
duas semanas desde seu aniversário, e agora escolheu a manhã antes
da véspera de Natal para uma pergunta pesada como essa. Esperei meu
choque inicial desaparecer antes de pendurar outro enfeite em nossa
árvore de Natal. Então desci lentamente.
Daniele estava sentado entre as caixas com enfeites de Natal, que
eu havia comprado porque tinha medo de que as coisas antigas de Gaia
trouxessem muitas lembranças dolorosas, enquanto Simona rasgava o
enfeites prata que descobriu em um deles.
Sentei-me ao lado de Daniele, observando seu rosto. Ele estava
girando um enfeite vermelho no chão, observando-o com uma pequena
carranca. Loulou partiu no momento em que Elia carregou a árvore
para a sala de estar nesta manhã e se recusou a chegar perto dela. —
Quem te disse isso? — Não poderia ser algo que ele havia decidido por
si mesmo. Ele era jovem demais.
— Mamãe. — Sua voz era um sussurro flutuante e meu coração
doeu ao ouvi-la. Ele ainda não olhava para mim, apenas para o
ornamento.
— O que ela disse?
— Que papai é ruim. Que ele machucou Andrea e isso deixou
mamãe triste.
Mordi o lábio, tentando decidir o que dizer. Eu usei meu tempo
tirando um pedaço de enfeites da boca de Simona, o que levou a um
grito de raiva, mas eu estava muito distraída para reagir. Desmotivada
pela minha falta de reação, ela ficou em silêncio.
Daniele levantou os olhos, encontrando meu olhar de frente. Ele
confiava em mim o suficiente para me fazer essa pergunta, uma
pergunta que deve ter pesado muito sobre seus ombros magros em
todos esses meses. A verdade estava fora de questão. E se eu fosse
honesta, não tinha certeza de como responder à pergunta dele com
sinceridade. Tudo que eu sabia era que Daniele merecia uma infância
feliz depois de tudo o que passara. As mentiras eram uma ladeira
escorregadia que eventualmente o faria tropeçar. — Seu tio traiu seu
pai. Ele fugiu porque não queria ser punido por seu erro. Isso
machucou muito sua mãe. Ela não era a mesma depois que seu tio a
deixou. Por isso não sabia o que estava dizendo, Daniele. Seu pai faz de
tudo para proteger você e Simona porque ama vocês. Ele nunca
machucaria você ou sua irmã.
— Ele não machucou mamãe?
— Não, — eu sussurrei. Era uma verdade e uma mentira. Uma
mentira que ajudaria nossa família a se curar. Havia mentiras que
diríamos aos outros para protegê-los ou a nós mesmos; outras,
dizíamos a nós mesmos pela mesma razão. A mentira de hoje era um
pouco de tudo.
— Você?
— Ele também não me machucou.
Simona rastejou em direção à árvore e fez um movimento como se
quisesse se levantar com um galho. Eu saltei e rapidamente a arranquei
e a carreguei até Daniele. — Você pode vigiá-la?
Ele assentiu e eu a coloquei no colo dele. Ele a abraçou contra
seu corpo, e ela pareceu contente no momento. — Você vê, — eu disse
suavemente. — Você quer proteger Simona, e eu quero protegê-lo, e seu
pai quer proteger todos nós.
***
Depois que terminei de decorar, as crianças e eu fomos para a
minha sala de pintura. Como era nossa rotina nas últimas duas
semanas, as duas crianças receberam pincéis, aquarelas e papel para
que pudessem se divertir enquanto eu terminava a pintura que iniciara
para Cássio. Estava quase pronta. Eu não estava muito feliz com a
espuma nas ondas rolando na praia. Elas precisavam parecer mais
vívidas. Queria que Cássio sentisse o cheiro do ar do oceano e sentisse
a brisa refrescante quando a visse. Ele tinha uma foto exatamente da
mesma vista em nosso quarto, mas eu esperava que ele gostasse em
uma tela.
Loulou cheirou a porta, mas continuou correndo sobre o papel e
entre os potes de tinta, espalhando pegadas de pata coloridas por toda
parte, então não podia mais entrar.
Daniele arrastou o pincel sobre a folha, criando linhas azuis,
como se também estivesse pintando o oceano.
Larguei meu pincel e fui até ele. Ele não olhou quando afundei ao
seu lado. Simona batia no chão com seu próprio pincel repetidamente,
espalhando tinta por toda parte. Meu macacão e pés descalços já
estavam cobertos por uma infinidade de cores. Daniele voltou ao seu
estado de silêncio depois da nossa conversa esta manhã, ponderando o
que eu disse. Eu gostaria de poder vislumbrar sua cabeça.
— Seu pai adoraria uma pintura do oceano no Natal. Por que você
não dá a ele?
Daniele mergulhou o pincel na tinta azul e continuou desenhando
linhas bruscas. — Ok, — foi sua resposta suave.
— Nada faria seu pai mais feliz do que passar um tempo com você
e ouvir sua voz novamente.
Beijando a têmpora de Daniele, levantei-me e voltei à minha tela.
***
Realizamos o jantar na véspera de Natal para a família.
Felizmente, Sybil cozinhou a maior parte do banquete. Até Ilaria e o
marido vieram com os filhos. Mia ainda estava muito grávida. Tive a
sensação de que ela teria um bebê de Natal e percebi que ela queria
desesperadamente dar à luz. Os filhos de Mia e Ilaria eram mais
barulhentos do que Daniele, mas eles se davam bem, apesar da
seletividade silenciosa de Daniele. Quando nos acomodamos à mesa
para jantar, um tópico estava definitivamente fora dos limites: Gaia. Eu
não me importei. Muito de sua presença ainda permanecia dentro
dessas paredes.
Mansueto observou Cassio e eu como um falcão. Ele obviamente
era protetor sobre o filho. — Quando você vai nos abençoar com outro
neto?
Engasguei com um pedaço de aspargo assado.
Daniele olhou entre seu pai e eu. Eu não tinha certeza se ele
havia entendido. Pelo menos, Simona estava ocupada espremendo
cenouras em suas mãos.
— Vou te abençoar com um neto a qualquer momento, — disse
Mia intencionalmente, dando um tapinha na barriga redonda.
Mansueto acenou para ela. — E estou encantado com o seu filho,
mas e você, Cassio?
Cassio pousou o garfo e a faca lentamente. Uma veia latejava em
sua garganta. Toquei sua perna debaixo da mesa. Não queria brigas no
jantar de Natal. — Tenho dois filhos pequenos. É o bastante.
— Você deve considerar sua jovem esposa.
Isso não era sobre mim. Talvez Mansueto se preocupasse que
Andrea fosse de fato o pai, não Cássio. Continuar a linhagem era algo
profundamente arraigado em todos os homens da máfia, por isso era
surpreendente que Cassio não tivesse feito um teste de paternidade no
momento em que encontrou Gaia morta.
— Estou feliz com o que temos, — eu disse rapidamente.
Cássio tocou minha mão, agradecimento brilhando em seus
olhos.
— Agora, mas e daqui a alguns anos?
— Pai, — disse Cassio bruscamente. — Isso não é da sua conta.
Mia virou-se para mim. — Eu ouvi que você pinta?
Eu poderia tê-la abraçado e aceitado com prazer a mudança de
assunto, mesmo que Mansueto obviamente não abandonasse o assunto
tão cedo.
Cassio
Era difícil suprimir meu aborrecimento durante o jantar, então
fiquei aliviado quando todo mundo saiu. Papai ficava me incomodando
para fazer um teste de paternidade. Esta era outra dica sutil de que eu
talvez ainda não tivesse um herdeiro. Depois de levar Simona para a
cama, encontrei Giulia na porta do quarto de Daniele. — Daniele quer
ser posto na cama por você hoje à noite.
Eu não tinha certeza se a ouvi direito. Tinha sido nosso ritual, um
que eu apreciava e sentia falta sempre que chegava em casa tarde
demais, uma coisa do passado. Eu me virei para Giulia e depois olhei
além dela em direção à cama. Daniele já estava de pijama e sentado em
cima do edredom, acariciando Loulou. Cães não pertenciam à cama.
Era uma opinião que eu defendia, mas não era capaz de expulsá-la. —
Você quer que eu leia sua história para dormir?
Daniele assentiu. Parecia hesitante, mas estava lá. Eu encontrei o
olhar de Giulia, imaginando o que ela tinha feito. Ela me deu um sorriso
esperançoso. Calor lotado o meu peito. Eu nunca senti esse tipo de...
ternura em relação a uma mulher. Inclinei-me e beijei-a brevemente
antes de me mover em direção à cama.
As sobrancelhas de Daniele franziram. Afundei-me ao lado dele e
peguei o livro de figuras da mesa de cabeceira. Não tive a chance de
abri-lo.
— Você beijou Giulia.
Larguei o livro enquanto tentava me recompor. Eu sentia falta da
voz de Daniele, mesmo que ele fizesse perguntas difíceis. Eu tinha
evitado a proximidade física com Giulia na frente dele até agora,
preocupado que isso pudesse perturbá-lo. — Sim.
— Por quê? — Ele parecia curioso, não triste ou com raiva. Eu me
aproximei um pouco e acariciei sua cabeça.
— Porque eu realmente gosto de Giulia.
— Você gostava da mamãe também.
Olhando em seus olhos castanhos, os olhos de Gaia, eu não pude
fazer nada além de mentir. — Eu gostava. — Houve um tempo em que
essa afirmação seria verdadeira. Eu gostei dela no começo, até que
finalmente só restou ressentimento.
— Sinto falta da mamãe. — Sua admissão deixou minha boca
seca. É claro que eu sabia que ele sentia falta dela, mesmo que ela não
tivesse tomado conta dele e de Simona nos últimos meses de sua vida.
— Eu sei. — Puxei-o contra o meu peito, esperando que ele não
recuasse. Ele não o fez. Ele me permitiu segurá-lo, e só esse pequeno
gesto já era o maior presente de Natal que eu podia imaginar. Fiquei
feliz que ele não perguntou se eu também sentia falta dela. Uma
mentira era suficiente.
— Eu também gosto de Giulia, — ele disse calmamente.
Minha mão em sua cabeça congelou. — Bom. — Minha voz soou
estranha aos meus próprios ouvidos. Isso nunca aconteceu. Eu sempre
mantive a calma, não importa se estivéssemos sob ataque, se eu
matasse ou torturasse alguém, mas isso...
— Ela vai ficar?
— Sim, — eu disse imediatamente. Eu não deixaria nada
acontecer com ela.
— OK. — A voz de Daniele parecia sonolenta agora. Nos últimos
meses senti falta da sensação de seu pequeno corpo ficando macio
contra mim. Eu o cobri e nem tinha lido a primeira página antes que ele
já estivesse dormindo. Loulou me olhou com olhos semicerrados.
Quando ela não estava cagando em todos os lugares ou rosnando, ela
era tolerável. Levantei-me e voltei para o quarto, surpreso por encontrar
Giulia me esperando. Puxei-a contra mim, precisando dela perto. —
Então? Como foi?
— Bom.
Ela estreitou os olhos, pensativa. Havia mais que eu queria dizer.
Algo que nunca disse para ninguém além dos meus filhos. Eu tinha
formado exatamente as mesmas palavras antes, mas elas grudaram na
minha língua como cola.
— Eu achei que poderíamos trocar nossos presentes hoje à noite.
Amanhã de manhã deve ser sobre as crianças e Loulou abrindo seus
presentes.
Eu ri. — Não me diga que você comprou um presente para o
cachorro.
Giulia apertou os lábios. — Claro. Ela faz parte desta família. E
também comprei presentes para Elia, Domenico e Sybil.
— Como seus pais conseguiram criar alguém como você?
— Christian também se saiu bem.
Eu não queria falar sobre ele. Nossas interações eram tensas. Ele
não confiava em mim e eu não confiava nele. Essa não era uma boa
base para uma relação de trabalho. — Deixe-me pegar meu presente.
Está no meu escritório.
— Eu irei com você. Meu presente para você também está lá
embaixo.
Giulia pegou minha mão e me puxou para sua sala de pintura.
Eu nunca coloquei os pés dentro dela. — Feche seus olhos.
Eu lhe dei um olhar de repreensão. — Eu não tenho doze anos.
— Você é um matador de aluguel, velho. Agora feche os olhos.
Apertei sua bunda com força em aviso, fazendo-a pular, mas
depois fechei os olhos. Ela me tinha envolvido em seu dedo e eu nem
queria me libertar. Seus dedos se apertaram ao redor da minha mão
quando ela me levou para a sala. — Pare aqui. — Eu parei. O cheiro de
tinta fresca pairava pesadamente no ar. — Agora abra seus olhos.
No começo, eu não tinha certeza do que deveria ver e estava
confuso por que Giulia havia tirado a foto da parede do nosso quarto.
Então percebi que não era a foto. Era uma pintura detalhada da praia
em frente à casa. — Você pintou isso?
— Sim, — disse ela, endireitando a franja e mordendo o lábio.
Aproximei-me, impressionado com os detalhes, com a vivacidade
do oceano. Eu não era um amante da arte e só havia visitado alguns
museus porque os negócios exigiam.
— Você gostou?
Isso significava muito para ela. A pintura e sua arte em geral. Eu
não tinha pensado muito nisso até agora. — É impressionante.
Um sorriso se abriu no rosto de Giulia. — Sério?
— Sério. — Eu a beijei, mas antes que pudesse me perder em seu
cheiro e gosto, eu dei um passo para trás. — Deixe-me pegar seu
presente.
Excitação brilhou em seu rosto, e eu meio que esperava que ela
me seguisse, mas esperou impaciente. Quando voltei com o pequeno
pacote, ela correu em minha direção. — O que é isso?
— Desafiaria o propósito de embrulhar presentes, se eu lhe
dissesse.
Ela revirou os olhos e pegou o presente das minhas mãos, depois
o desembrulhou com tanta restrição quanto Daniele. Ela abriu a tampa
de veludo e seus lábios se abriram. — Brincos de girassol?
Originalmente, havia comprado argolas elegantes, joias que eu
escolheria, nada que Giulia teria gostado. Há três dias, mudei de ideia e
procurei na internet brincos de girassol. A maioria deles era horrível,
atrocidades amarelas brilhantes. Encontrei o presente de Giulia no site
de um ourives. Os girassóis eram elegantes, pequenos e completamente
feitos de ouro. Eles eram elegantes, mas peculiares. Eles eram Giulia.
— Eles são tão bonitos, — ela suspirou. — Achei que você odiava
que eu usasse girassóis.
— Você os ama.
— Oh, Cassio. — Ela os tirou e prendeu nas orelhas. — Então?
— Lindo. — Eu não podia esperar mais. Eu peguei Giulia. Ela riu.
— Onde?
— Na cama.
— Não na mesa de sinuca?
— Não. — Hoje à noite, eu queria fazer amor com ela, não fodê-la
como dois adolescentes desleixados, mesmo que um de nós fosse um
adolescente desleixado. Quando a deitei na cama na minha frente,
percebi que isso seria algo novo para mim também.
Levei meu tempo, fui mais gentil, menos urgente que o normal e,
depois da confusão inicial, Giulia espelhou meus movimentos sem
pressa. Depois, ela se enrolou contra mim. — Isso parecia diferente,
como se significasse alguma coisa.
Eu ouvi a pergunta em sua voz, mas não tinha certeza do que
dizer. Eu assenti. Significou. Nossa primeira noite juntos, eu tinha sido
cuidadoso porque Giulia precisava que eu fosse. Esta noite, eu
precisava descobrir o que estava acontecendo, confirmar o que eu
nunca havia considerado uma opção.
— Foi assim com outra mulher?
A voz de Giulia era curiosa, mas por trás dela pude ouvir um
lampejo de... ciúme, talvez. Eu não precisava mentir. — Não. Não com
Gaia, e antes dela eu só tive casos.
— E depois?
— Não houve ninguém depois.
Giulia olhou surpresa. — Realmente? Você não dormiu com
ninguém desde a morte de Gaia?
— Não. Eu tinha outras coisas em mente. — Eu hesitei, me
perguntando se deveria contar a ela sobre esse deslize. — Mas logo após
encontrar Gaia com Andrea, dormi com uma mulher que conheci
quando estava bêbado em um bar. Era para ser uma foda de vingança.
Para provar a mim mesmo que outras mulheres me queriam, mesmo
que minha própria esposa não. Depois não me senti melhor e nunca
contei a Gaia.
— Eu quero apenas você, e quando outras mulheres te olham, eu
não gosto nada disso.
Uma risada saiu de mim. — Com ciúmes?
— Um pouco. — Ela se levantou e montou em meus quadris. —
Como você, eu não gosto de compartilhar.
Ela não precisava se preocupar. — Para ser sincero, você é
exigente o suficiente. Duvido que possa satisfazer outra mulher ao seu
lado.
Os olhos dela se arregalaram em indignação. Eu a virei, apesar de
sua falsa luta, e bati nela, fodendo-a com força e rapidez, porque não
havia mais necessidade de confirmar o que eu sentia.
21
Cassio
Giulia organizou primeira festa de aniversário de Simona em
janeiro, assando um bolo e decorando tudo com balões. Minha família
apareceu na hora do lanche.
Simona já havia dado seus primeiros passos e seguia Giulia como
um filhote. Ela era jovem demais para se lembrar da mãe. Para ela,
havia apenas Giulia.
Faro e sua esposa e dois filhos também foram convidados. Ele se
juntou a mim em um momento tranquilo. — Ela fez Daniele falar
novamente.
Eu assenti, seguindo Giulia com os olhos. Ela ajeitou o girassol
no cabelo de Simona. O vestido da minha filha também tinha uma
estampa de girassol. Ela parecia adorável, então desisti de protestar. —
Ela fez. Ela é boa com as crianças.
— E boa com você, — disse Faro com um sorriso sugestivo.
Eu estreitei meus olhos.
— Vamos lá, Cassio. É como se você tivesse caído na fonte da
juventude, e está menos irritado do que no passado. Estou feliz por
você.
Eu não disse nada.
— Seu pai me procurou. — Pela mudança na voz de Faro, eu
sabia que não gostaria do que ele tinha a dizer.
— O que ele queria?
— Ele me pediu para falar com você sobre ter um filho com
Giulia. Ele acha que você deveria estar preparado para qualquer
eventualidade.
— As eventualidades são que Daniele não é meu filho? — Eu
grunhi.
Faro encolheu os ombros. — É uma opção, e não é improvável.
— Eu não preciso de outro filho, e certamente não preciso que
você ou meu pai se intrometam nos meus assuntos.
Faro levantou os braços. — Eu não queria me intrometer. É por
isso que estou te contando. Mas seu pai não vai desistir tão cedo. Ele
está preocupado.
— Se ele aceitasse que Daniele e Simona são meus filhos, poderia
parar de se preocupar.
— Diga isso a ele.
Fui até meus pais, que estavam conversando com Mia, que
embalava seu filho recém-nascido nos braços. Ela parecia exausta.
— Pare com isso, pai.
Ele sabia o que eu queria dizer sem eu ter que elaborar. — Estou
tentando pensar no seu futuro.
Fiz um gesto em direção a Daniele, que segurava a mão de
Simona, pois ela ainda estava um pouco instável nas pernas. — Ali está
o meu futuro. Fim da história.
Mãe tocou meu antebraço. — Nós os amamos, mas...
— Sem, mas.
Eles trocaram um olhar e depois assentiram com relutância. Mia
me deu um sorriso orgulhoso.
Eu esperava que esse assunto estivesse resolvido de uma vez por
todas.
Quanto mais o pai continuava cavando, mais provável era que
fosse descoberto.
***
Depois que todos se foram, Giulia e eu jogamos uma partida de
sinuca. Eu precisava da distração, e ela se tornou muito boa em me
distrair.
— Amanhã, você precisa levar Daniele para uma orientação pré-
escolar. Marquei um compromisso há alguns dias.
Debruçada sobre a mesa, Giulia congelou. Então ela se
endireitou. — O que? Por quê?
— Quero que ele interaja com outras crianças. Esta pré-escola
recebe apenas crianças de nossos círculos ou parceiros de negócios.
Daniele estará perto de seus futuros soldados. Ele aprenderá a se
afirmar entre os outros garotos. Se ele estiver somente ao seu redor,
pode ficar mole demais.
Raiva cruzou o rosto dela. Eu balancei minha cabeça. — É um
fato. Você não pode evitar. E eu só passo as noites e fins de semana
com ele. Ele precisa brigar e conhecer garotos rebeldes.
— Não me interrompa. Você nem sabe o que eu ia dizer. — Seu
tom me colocou no limite. Depois da coisa com meu pai hoje, eu estava
ansioso por uma briga.
— Então diga o que você quer dizer.
— Você deveria ter discutido seus planos comigo.
— Minha decisão está tomada. Daniele precisa da mudança.
Giulia apontou o dedo contra o meu peito. — Mesmo assim,
somos uma família. Sou sua esposa. Mereço estar envolvida em uma
decisão como essa!
— Eles são meus filhos, Giulia. — Sua dor me atingiu
inesperadamente.
— Não, — ela disse ferozmente. — Eles são nossos filhos, Cassio.
Já te disse antes e vou dizer de novo. Eu amo vocês três.
Eu a encarei, minha raiva desaparecendo mais rápido do que
areia movediça. — O que?
Ela assentiu, parecendo furiosa. — Você me ouviu. Eles não são
apenas seus filhos. Eles são meus também. Você não pode chamá-los
de seus quando achar melhor. Eles são sempre nossos, seus e meus.
Talvez não pelo sangue, mas eu sangraria por todos da mesma forma.
Então não fale comigo como se estas duas crianças não significassem
qualquer coisa para mim quando eles significam tudo. Assim como seu
pai teimoso e idiota.
Era a primeira vez que Giulia me insultava. A primeira vez que ela
falou alto, quase gritando. A raiva dela não despertou a minha, como
havia acontecido com Gaia no passado, porque as palavras de Giulia
foram a melhor coisa que já ouvi. Meus pensamentos caíram um sobre
o outro. Ainda assim, uma pequena fatia de dúvida permaneceu como
se minha mente fodida não pudesse aceitar que alguém tão boa, gentil e
amorosa quanto Giulia realmente fosse minha. Porra, eu a amava,
mesmo aquela franja que eu odiava no começo, até aqueles vestidos
horríveis de girassol, mesmo quando ela me desrespeitava revirando os
olhos. Deus, especialmente isso. Agarrei suas bochechas. — Eu também
te amo.
Ela piscou. Agora era sua vez de ficar atordoada. — O que... você
ama?
— Você realmente tem que perguntar?
Ela examinou meu rosto com a mesma descrença que senti
momentos antes. — Diga.
— Eu te amo.
— Novamente.
Eu ri. — Eu te amo.
— Eu também te amo.
Eu a beijei, puxando-a para perto. Eventualmente, ela se afastou.
— Eles são meus filhos?
— Eles são, — eu disse.
— Então me permita decidir com você.
— Eu não disse quantos dias Daniele deveria passar na pré-
escola. Eles têm opções diferentes. Que tal discuti-las com os
professores amanhã e depois decidiremos juntos?
— Combinado. — Ela sorriu. — Você realmente me ama?
Eu beijei sua franja. — Realmente.
***
Faro e eu nos encontramos no meu salão de charutos para a
nossa reunião semanal. As coisas em Nova York estavam difíceis na
melhor das hipóteses, conseguir informações sobre o assunto ainda
pior.
— Luca tem sido particularmente volátil nos últimos dois meses.
Ele está matando mais homens. Traidores, motociclistas, soldados de
Bratva. As pessoas estão preocupadas que se fizerem um movimento
errado, Luca também as matará.
— As pessoas que não têm nada a esconder não precisam se
preocupar.
Faro fez uma careta. — Exatamente, mas nós dois sabemos que
você não contou a Luca a verdade sobre Andrea e Gaia. No seu humor
atual, essa poderia ser sua sentença de morte.
— Somente você e meu pai sabem. Papai se certificou disso. —
Papai havia matado a equipe de limpeza e o doutor Sal após a morte de
Gaia sem me consultar. Às vezes, ele esquecia que eu agora era
Underboss e não precisava da sua intromissão.
— E Giulia?
Eu fiz uma careta. — Eu confio em Giulia.
Faro balançou a cabeça. — Depois de Gaia, você não deveria. E se
ela mencionar algo ao seu irmão ou Deus me livre, seu pai? Felix usará
a chance para chantageá-lo ou contará a Luca para ganhar pontos de
bônus.
— Giulia não vai contar a ninguém.
— Eles são a família dela. Ela é uma mulher. Elas tendem a
ignorar as deficiências de seus entes queridos.
— Um fato pelo qual deveríamos ser gratos, ou nem a sua nem a
minha esposa nos tolerariam. — Falhas nem sequer cobriam meus
defeitos. Giulia os aceitou. Desde o primeiro dia do nosso casamento,
ela cuidara de Simona e Daniele desinteressadamente, apesar de sua
tenra idade.
— Fale com ela, — insistiu Faro.
Uma batida soou e Giulia enfiou a cabeça. — Sinto muito por
incomodá-los, mas Christian está aqui e diz que precisa falar com você.
— Tudo bem, — eu disse lentamente. — Mande-o entrar.
Faro me deu um olhar significativo.
Christian entrou. — Faro. Cassio, posso falar a sós com você?
— Como meu Consigliere, Faro ficará.
Desde o incidente em dezembro, eu não confiava mais em
Christian. Nós nunca fomos amigos, mas ele tinha sido um bom trunfo.
Era uma pena que nossa relação de trabalho tenha sofrido por causa do
meu ciúme irracional. Eu não era um homem que pedia desculpas e
duvidava que Christian tivesse aceitado.
Christian assentiu. Ele não entrou mais na sala. Em vez disso, ele
ficou perto da porta. — Eu falei com Luca...
Faro me lançou um olhar afiado, mas não entrei em pânico. Eu
ainda não achava que Giulia tinha dito nada ao irmão. Talvez Christian
suspeitasse, mas sabia que não devia espalhar boatos que não se
baseavam em provas sólidas. Eu estava em boa posição com Luca.
Demoraria muito para convencê-lo do contrário.
— Vou trabalhar em Nova York com ele nos próximos anos, até
assumir o cargo em Baltimore.
A fúria correu por minhas veias, mas me contive. — Você não me
consultou primeiro?
— Não sou realmente um dos seus soldados, Cassio. Eu sou filho
de um Underboss. Somente Luca pode me dar ordens no final das
contas. Ele concordou em me deixar trabalhar com ele.
— Você lhe disse por quê?
— Eu disse que nós dois temos personalidades fortes demais para
trabalhar bem juntos.
Estreitei os olhos, me perguntando se isso era tudo o que ele
tinha dito. Ele tinha sido esperto em contatar Luca primeiro. Dessa
forma, teria certeza de que eu não me livraria dele. Não que eu o teria
matado. Eu já tinha feito bastante dano no passado e não arriscaria o
amor de Giulia matando seu irmão. — Boa sorte em sua nova
empreitada. Lembre-se de que Luca não hesita em matar aqueles que
considera uma ameaça.
O sorriso de Christian era tenso. — Eu acho que você e ele são
muito parecidos nesse aspecto. — Ele inclinou a cabeça e depois saiu.
Faro balançou a cabeça, franzindo a testa. — Isso não é bom.
— Você está vendo demais.
— A verdade tem o hábito desagradável de aparecer. Você deveria
ter contado tudo a Luca desde o início.
Meu telefone tocou. Era Luca. Faro parecia considerar nos
reservar o próximo voo para a Colômbia para desaparecer. — Luca, o
que posso fazer por você?
— Presumo que Christian tenha falado com você?
Nenhuma conversa fiada como sempre. Luca sempre ia direto ao
assunto. — Ele falou. Eu sempre assumi que o trabalho dele comigo
seria temporário. Agora que ele é meu cunhado, as coisas só se
tornaram mais complicadas.
— Isso foi o que imaginei. — Ele fez uma pausa. — Há algo que eu
deva saber?
Meu pulso acelerou, mas não deixei transparecer. — A respeito de
que?
— Sobre Christian. Você está lidando com ele há anos.
— Ele é eficaz. Difícil. Ele sabe como se controlar. Não é nada
como o pai. Você não vai se arrepender de recebê-lo.
— Bom. É tudo por agora.
Eu desliguei. Faro ergueu as sobrancelhas.
— Está tudo bem.
— Vamos torcer para que continue assim. Se ele descobrir, vai
nos derrubar, você, seu pai e eu. E não vai ser bonito.

Giulia
Passei perto do salão de charutos depois que Christian entrou.
Depois que Cassio quase matou meu irmão, fiquei preocupada com o
fato de eles estarem juntos em uma sala, mesmo que tivessem
trabalhado juntos nos últimos dois meses.
Meus ombros caíram de alívio quando Christian finalmente saiu.
— O que houve? Está tudo bem?
Ele assentiu. — Vou me mudar para Nova York para trabalhar
com Luca.
— Oh, — eu disse, decepcionada. Nós não nos víamos com
frequência, mas era bom saber que ele morava na mesma cidade. — Por
causa do que aconteceu entre você e Cassio?
Christian riu. — Porra, é claro. Ele nos acusou de ter um caso.
Isso é besteira demais para o meu gosto. E trabalhar com Luca me
permitirá criar melhores conexões com as pessoas importantes.
— Não existe outra maneira? Você não pode fazer as pazes com
Cassio? Não quero que você odeie meu marido.
Christian me olhou com óbvio espanto. — Você se importa com
ele.
— Eu me importo. Eu sei que é difícil de acreditar, mas ele é bom
para mim.
— Estou feliz, mas as coisas entre Cassio e eu estão muito tensas.
Um dia, teremos que trabalhar juntos novamente, mas agora é melhor
se não nos encontrarmos.
— Compreendo. Quando você vai embora?
— Amanhã.
Eu o abracei. — Não suma e me ligue.
Cassio e Faro partiram logo depois, e eu fui para o parque de cães
com as crianças e Loulou. Surpresa tomou conta de mim quando
Mansueto mancou em minha direção nem dez minutos depois de nossa
chegada.
— Giulia, posso me juntar a você?— Ele perguntou. Elia ficou de
pé imediatamente, abrindo espaço no banco.
— Claro, — eu disse, desconfiada de seus motivos. — Como você
sabia que eu estava aqui?
— Domenico.
Eu assenti, lançando um olhar para o meu guarda-costas mais
velho, mas ele estava olhando para outro lugar.
Mansueto virou-se para Elia. — Dê-nos um pouco de privacidade.
— Elia caminhou em direção a Simona e Daniele, que estavam
assistindo Loulou brincar com um dachshund. Domenico estava
vigiando a uma boa distância.
Soprei em minhas mãos para aquecê-las, ciente do intenso
escrutínio de Mansueto. — Gostaria que você reconsiderasse sua
decisão de não engravidar.
Minhas sobrancelhas franziram. — Não é só minha decisão. É de
Cassio também. Ele não quer mais filhos agora. Simona e Daniele
precisam de toda a nossa atenção.
Mansueto observou um grupo de cachorros se perseguindo. —
Isso é porque ele prefere fingir que as crianças são dele.
— Você não sabe se não são. Andrea e Gaia podem ter dito isso
para machucá-lo.
— Então ele te contou tudo?
Mordi meu lábio. — Você deve aceitar a decisão de Cassio.
— Ele mudaria de ideia se soubesse a verdade.
— Que verdade?
Mansueto me encarou com um olhar triste. — Que as crianças
não são dele.
— Você não sabe disso.
— Isso não é verdade. Fiz um teste de paternidade sem o
conhecimento de Cassio.
Eu congelei. — O que?
— Simona e Daniele não são dele. O teste confirmou isso. Eles
são de Andrea.
Meu coração afundou. — Por que você está me contando isso?
— Porque Cassio não quer saber. Se eu lhe disser... ele pode ser
muito teimoso. Preciso da sua ajuda.
— Eu também não vou contar. Ele não quer saber, e eu respeito o
seu desejo.
— Então não conte a ele agora. Um dia ele descobrirá. Está
prestes a acontecer. Pelo menos, verifique que Cassio tenha um
herdeiro até lá. Dê a ele um bebê. Você não quer seu próprio filho,
Giulia?
Simona e Daniele riam enquanto Loulou e sua amiga cachorra
faziam um cabo de guerra com um longo galho. — Eu não posso fazer
nada.
Mansueto tocou minha mão. — Cassio não ficará bravo se você
esquecer de tomar a pílula e engravidar por acidente. Você é jovem e
tem muito com o que se preocupar.
Eu não podia acreditar no que ele estava sugerindo. — Não, — eu
disse com firmeza. — Não vou enganar Cassio assim. Por favor, não me
peça algo assim nunca mais novamente. Deixe Cassio acreditar que
Daniele e Simona são dele, se é isso que ele quer. Ele os ama.
Mansueto soltou um suspiro grave. — Não é à toa que ele está
apaixonado por você. — Daniele viu seu avô e correu até nós, jogando
seus pequenos braços em volta dele. Mansueto acariciou a cabeça de
Daniele. — Você é rápido, doce criança.
Daniele sorriu para ele e começou a contar sobre Loulou e seus
amigos cachorros. Levantei-me e peguei Simona, que tropeçara duas
vezes na pressa de seguir o irmão e estava berrando. Mansueto
levantou Daniele no colo e apontou para um Dogue Alemão.
Lentamente, voltei para eles.
Simona sorriu para o avô e ele acariciou sua bochecha gordinha
com um sorriso gentil. Ele os tratava como seus netos.
Antes que ele partisse, eu o encurralei sozinho. — Por favor,
prometa que não deixará nada escapar para Daniele e Simona. Daniele
está melhorando. Ele está falando. Ele adorou seu primeiro dia de pré-
escola. Não quero abrir feridas antigas porque o sangue é mais
importante para você do que qualquer outra coisa.
— Você deve se lembrar com quem está falando.
— Eu não sou alguém para mostrar desrespeito. Mas vou proteger
essas crianças, mesmo contra o próprio avô, se necessário.
Mansueto soltou uma risada rouca e depois deu um tapinha no
meu ombro. — Cassio é um homem de sorte.
Ele se virou e voltou mancando em direção à limusine preta com
seus guarda-costas.
— Tudo certo? — Elia perguntou.
— Sim. — Eu esperava ter convencido Mansueto.
***
Cassio trabalhou até tarde e adormeci ao lado de Daniele. Quando
acordei depois da meia-noite, segui o fio de luz lá embaixo e entrei no
salão de charutos.
Cássio estava sentado em sua poltrona em frente à lareira, um
copo com uísque na mão, as sobrancelhas unidas enquanto olhava as
chamas. Seu casaco e gravata haviam sido arremessados
desleixadamente sobre a segunda cadeira. Ele ainda estava com seu
colete, mas os botões superiores da camisa estavam desfeitos e seus
punhos. Ele esfregou a barba por fazer com a palma da mão, parecendo
ter sido preparado para um comercial pós-barba ou uísque.
— Você está meditando, — eu disse enquanto entrava na sala.
— Eu não estou.
Eu tranquei a porta. As sobrancelhas de Cássio se levantaram
enquanto eu caminhava em direção a ele. — Sim você está. Você
continua se preocupando demais.
Ele balançou sua cabeça. — Há muito com que se preocupar.
— Fale comigo sobre isso.
Eu parei na frente dele. Ele parecia cansado e esgotado. Ele
estava trabalhando demais, se preocupando demais. — São negócios,
Giulia.
— É por causa do meu irmão?
— Parte disso. Luca agitou muita merda com seus ataques
brutais nos últimos meses. É apenas uma questão de tempo até a
Bratva e os motociclistas retaliarem. Mas você não deve se preocupar
com isso. Você não pode fazer nada sobre isso.
— Eu posso fazer você se sentir melhor.
Ele balançou a cabeça, mas parou quando me ajoelhei entre suas
pernas. Ele suspirou quando colocou o copo sobre a mesa. Sorrindo
para ele, puxei o zíper e o massageei através da cueca até que ele estava
quente e duro debaixo da minha palma. A respiração de Cássio acelerou
e o desejo nadou em seus olhos. Eu libertei seu pau de sua cueca e
peguei apenas a ponta na minha boca. Meu olhar encontrou o copo na
mesa lateral. Eu peguei e deslizei o cubo de gelo na minha boca. Cassio
assistia com os lábios entreabertos, o peito arfando. Chupei o gelo por
alguns segundos antes de deixá-lo deslizar de volta para o copo, depois
fechei meus lábios agora frios ao redor da ponta de Cassio novamente.
— Oh merda, — ele murmurou, a cabeça caindo para trás. Depois
de um momento, ele inclinou-o de volta para que pudesse me observar
através dos olhos semicerrados.
Levei-o mais fundo na minha boca, centímetro a centímetro,
usando minha língua para provocar a ponta sensível, realmente
tomando meu tempo, saboreando seu calor e gosto. Cássio manteve as
mãos, com as palmas apoiadas, no braço da poltrona e me deixou lhe
dar prazer. Pela primeira vez, me deixou estar no controle. Eu queria
lhe mostrar que cuidava dele porque gostava dele... porque o amava.
Eu amava os sons que ele fazia quando estava perto, os gemidos
baixos e as respirações agudas. Adorava a maneira como seus dedos se
flexionavam contra o apoio de braço de couro, como suas coxas
musculosas tremiam sob o tecido caro de sua calça Brioni. Mas acima
de tudo, amava o brilho possessivo em seus olhos um segundo antes
que ele se soltasse.
— Sim, querida, — ele murmurou. Ele ficou tenso e gozou com
um pequeno tremor, com os olhos fechados. Minha luxúria era quente e
pesada entre minhas pernas, mas a ignorei por enquanto.
Engoli e continuei trabalhando com minha língua e boca
enquanto ele se contorcia com os últimos tremores secundários de seu
orgasmo. Acariciei suas bolas levemente e o mantive em minha boca,
apenas chupando suavemente. Quando ele parou e olhou para mim,
segurou minha bochecha. Eu deixei seu pau deslizar lentamente para
fora da minha boca, fazendo-o gemer baixo novamente. Eu beijei sua
coxa. — Melhor?
Ele soltou uma risada crua. — Sim. — Ele se inclinou para frente
e agarrou meus quadris. — Agora é minha vez.
— Isso era sobre você.
— Eu sei. — Ele me levantou e enfiou a cabeça debaixo da minha
camisola. Enganchando um dedo embaixo da minha calcinha, ele a
afastou, revelando minha carne inchada. Ele deslizou a língua entre os
meus lábios e eu ofeguei. Ele agarrou minha coxa e levantou uma das
minhas pernas apoiando meu pé no braço da poltrona, me abrindo para
ele. Como eu tinha feito, ele pegou o cubo de gelo e o chupou na boca
antes de soltá-lo na mão e deslizar a língua fria pelas minhas dobras. A
frieza me emocionou, fazendo minhas costas arquearem de prazer. Ele
enfiou a língua em mim e agarrei sua cabeça para uma melhor
alavancagem, para que eu pudesse mover meus quadris e levá-lo ainda
mais fundo em mim. Ele se afastou e depois seus dedos trilharam o
cubo de gelo na minha boceta. Eu choraminguei com a sensação.
Cassio esfregou o cubo sobre minhas dobras lentamente até que eu
estava coberta com o líquido frio, e então ele se inclinou para frente
novamente e gentilmente sugou a umidade da minha pele sensível. Eu
tremi com a força do prazer, mas me contive. Cassio empurrou dois
dedos em mim, gelados de segurar o cubo.
Balancei meus quadris, precisando de mais, desesperada por
mais. Um de seus dedos encontrou minha bunda e empurrou. — Oh
Deus, — eu ofeguei. Dois dedos na minha boceta, a ponta de um na
minha bunda e a boca de Cassio no meu clitóris, eu desmoronei com
um arrepio violento. Ele me pressionou mais perto do seu rosto e,
quando o fez, deslizou mais fundo na minha entrada de trás. A força do
meu orgasmo amorteceu a dor. Eu afundei no colo dele, saciada e
exausta.
— O que foi isso? — Eu finalmente falei.
— Eu quis fazer mais do que apenas dar um tapa na sua bunda
bonita.
Eu bufei.
— Você gostou?
— Estou indecisa, mas estou inclinada a não.
Ele riu profundamente. — Talvez eu possa convencê-la.
— Talvez. Mas você terá que me convencer muito com a sua
língua antes que eu tente outra vez.
Ele acariciou meu quadril e as costas, e eu sorri para mim
mesma. Fiquei preocupada o dia todo por causa da conversa com
Mansueto. Agora eu me sentia mais leve. Nada havia mudado. Eu
manteria a verdade de Cassio, por ele e pelas crianças.
— Acho que Simona está começando a falar.
— O que ela disse? — Cassio parecia cansado, sua voz ainda mais
baixa do que o habitual.
— Dada. Parece um pouco com o pai.
Cassio apertou meu braço, mas não disse nada.
— Eu tenho me perguntado como ela deveria me chamar. Eu sei
que Daniele me chama de Giulia, mas... — Engoli em seco, preocupada
em expressar minha ideia. — Mas pensei que talvez Simona quisesse
me chamar de mãe. Ela não se lembra de Gaia, e seria triste se ela
nunca tivesse alguém a quem pudesse chamar de mamãe. Ela...
Cassio finalmente interrompeu minha divagação, afastando-me e
me beijando. — Você está certa. Você é a mãe dela agora, então é assim
que ela deveria chamá-la. Ela provavelmente ficará confusa no começo
porque Daniele chama você de Giulia.
— Sim, mas tudo bem. Vou me mover no ritmo deles. Estou feliz
que os dois me aceitem.
— É porque você os aceitou desde o primeiro dia. Você nunca se
ressentiu deles ou de mim pelo peso de suas responsabilidades.
— No começo, parecia uma responsabilidade. Como algo que eu
precisava dominar, mas não é mais assim. Esta família faz parte da
minha vida agora.
22
Giulia
Passamos nossas primeiras férias de verão na casa de praia. Era
início de junho e o sol estava brilhando intensamente. A meteorologia
havia previsto alguns dias sem chuva. Cassio tirou a semana de folga
do trabalho, o que não significava que ele não precisaria voltar em caso
de emergência, mas eu ainda estava em êxtase com a chance de passar
férias em família na praia.
Vesti Simona em um lindo traje de banho de duas peças com
babados e girassóis, óculos de sol fofos e um chapéu de palha. Meu
biquíni parecia muito semelhante, menos os babados excessivos, mas
ainda conseguimos um visual fofo de gêmeos. Daniele usava sua sunga
favorita do Super-Homem.
Cassio era um colírio para os olhos em seu calção de banho. Ele
carregou Daniele até a água, enquanto Simona e eu mergulhamos
apenas os dedos dos pés no Atlântico. Como eu preferia água morna,
não entendia como Cassio e Daniele podiam dar um mergulho no frio.
Simona compartilhava minha opinião e gritava toda vez que as ondas
tocavam seus dedos minúsculos. Seus olhos se encheram de alegria
quando ela levantou os braços. — Braço, mãe.
Toda vez que ela me chamava de “mãe”, meu coração pulava uma
batida. Ocasionalmente, ela me chamava de “Giula” quando tentava
imitar Daniele, mas tinha dificuldade em pronunciar meu nome.
Daniele ficou confuso nas primeiras vezes em que ela me chamou de
mãe, mas depois que expliquei a ele que não estava tentando tomar o
lugar da mãe dele e que isso só mostrava o quanto eu os amava e me
preocupava com eles, ele entendeu isso.
Abraçando Simona no meu peito, vi Cassio carregar Daniele em
seus ombros. Todos que os viam sabiam que eram pai e filho, não pelas
semelhanças físicas, mas por como eles agiam um com o outro. Era
bonito. Loulou latia loucamente ao meu lado, enfurecida por Cassio e
Daniele estarem fora de seu alcance, mas ela não gostava muito de
água.
— Papai! — Simona gritou, esticando os braços. Cássio saiu da
água e colocou Daniele na beira. Loulou o inspecionou imediatamente,
como se preocupada que o oceano pudesse tê-lo prejudicado. Entreguei
Simona a Cássio e, antes que ele voltasse para a água, ele me beijou.
Daniele correu ao longo da beira da água, Loulou ainda latindo
bem atrás dele. Seu pelo voltou a crescer e ela era a bola mais fofa e
encaracolada.
— Não tão rápido! — Gritei quando Daniele e Loulou ficaram
selvagens demais, e então Daniele tropeçou e caiu com força. Eu corri
até ele. Loulou já estava lambendo o seu rosto. Ajoelhei-me ao lado dele.
Ele estava segurando o joelho, chorando. Ele caiu em uma pedra e
estava sangrando por um corte abaixo do joelho. — Está tudo bem. Nós
vamos curá-lo.
A sombra de Cássio caiu sobre nós. Ele entregou Simona para
mim e levou Daniele para dentro de casa. Ele conseguiu se acalmar nos
braços de seu pai.
Felizmente, a ferida não precisava de pontos. Cassio limpou-a e
colocou um curativo, o tempo todo falando em voz baixa e suave com
Daniele.
Daniele não derramou outra lágrima. Ele tentava ser um garoto
grande quando estava perto de seu pai. Cássio deu um tapinha na
cabeça dele.
— Você quer um picolé? — Eu perguntei.
Ele mordeu o lábio, olhando para o sofá, mexendo as pernas.
— Daniele? — Fiquei de pé na frente dele, tentando descobrir o
que estava errado. Ele passou os braços em volta do meu pescoço, me
surpreendendo. — Ei, você está bem?
Abracei Daniele firmemente no meu peito, sem saber por que ele
precisava da minha proximidade, mas mais do que disposta a lhe dar.
— Mãe, — ele sussurrou. Eu congelei. Cassio ficou tenso, seus olhos
tempestuosos enquanto observava. Daniele estava pensando em Gaia?
Sentindo falta dela? Eu me afastei lentamente.
Daniele olhou para o meu queixo. — Posso te chamar de mãe?
Eu engasguei e lágrimas brotaram nos meus olhos ao seu pedido
inesperado. O rosto de Cássio ficou imóvel.
Eu beijei a bochecha de Daniele e o esmaguei contra mim mais
uma vez. — Sim. Nada me faria mais feliz. Eu te amo.
Ele começou a fungar, e eu também não consegui segurar. Cassio
desviou os olhos, o pomo de adão balançando enquanto ele engolia.
Depois de um momento, ele aproximou-se de nós e se ajoelhou ao nosso
lado, nos abraçando. Eu pressionei meu rosto em seu peito, sentindo
seu batimento cardíaco trovejando em sua caixa torácica. Cassio beijou
o topo da minha cabeça, depois a de Daniele.
Daniele me chamou de mãe todas as chances que teve naquele
dia, timidamente no início, mas depois com uma impulsividade
adorável.
À noite, Cassio e eu sentamos no balanço em frente à casa,
assistindo o pôr do sol. Ainda não tínhamos conversado sobre os
eventos de hoje. Com Daniele e Simona por perto, não houve tempo.
— Eu não esperava, — eu disse. Cássio sabia ao que eu estava me
referindo sem que declarasse isso de imediato. Seu braço em volta dos
meus ombros se apertou, me segurando ainda mais perto do seu lado.
— Nem eu. Ele tem idade suficiente para se lembrar de sua mãe,
mas suponho que até a memória desapareça com o tempo. Ele era
jovem demais para formar um forte vínculo com ela. Acho que é uma
bênção, afinal.
— Eu suponho que sim. — Parecia terrivelmente cruel estar feliz
pela morte precoce de Gaia, mas para Simona e Daniele, provavelmente
era mais fácil assim. Se ambos fossem mais velhos na época de seu
suicídio, teriam resistido ainda mais. — Eventualmente, Daniele e
Simona farão perguntas sobre Gaia. É natural querer saber mais sobre
sua mãe biológica.
Cassio expirou. — Até que eles façam, não vou falar sobre ela.
Tudo o que lhes direi será uma mentira de qualquer maneira.
— Nem tudo.
— Quando nos casamos, achei que estava controlando os danos.
Minhas sobrancelhas subiram na minha testa. Cassio riu ao vê-
las. — Eu sei. Não é muito romântico. Mas você deveria facilitar minha
vida.
— Você esperava ter uma babá com alguns momentos sexuais.
— Não posso negar. Não considerei a opção de nos tornarmos
parceiros, que eu apreciaria sua presença fora do quarto e isso até
parecia improvável depois que te conheci.
— Você sabe como deixar esse pôr do sol romântico, ainda mais
romântico, — eu provoquei.
— Romântico não é o meu forte.
— Não me diga?
Cassio virou-se para mim e segurou minha bochecha. — Você me
surpreendeu e continua me surpreendendo.
— Isso é bom... certo?
— Mais do que bom.
— Você acha que algum dia confiará totalmente em mim? Sem
esperar que eu te traia?
— Eu confio em você. — Na minha expressão duvidosa, ele
acrescentou: — Eu confio, mas não tenho certeza se a dúvida
persistente na parte de trás da minha cabeça irá desaparecer
completamente. Pegar Gaia assim... — Ele balançou a cabeça e olhou
em direção ao oceano. — Eu sei que a maioria das pessoas é capaz de
fazer coisas muito ruins. Eu vejo isso todos os dias. É difícil nem
sempre esperar o pior.
Eu o entendia. Eu não podia imaginar como deve ter sido a
sensação de pegar seu parceiro te traindo, especialmente com a família.
— Eu não vou traí-lo. Trabalharei por sua confiança todos os dias, não
importa quanto tempo leve para sua dúvida persistente sumir. Eu te
amo.
Cassio se abaixou, seus lábios tocando os meus. — Se alguém
pode calar a minha dúvida, é você. Você me deu uma nova vida.
— Você quer dizer sua nova virilidade? — Eu provoquei, sorrindo.
Cássio não sorriu. Ele acariciou meu cabelo, seus olhos seguindo
os dedos enquanto eles deslizavam para baixo. — Tudo. Eu estava
morto por dentro, passando pelos movimentos de todos os dias, vivendo
para o trabalho, para construir um futuro para meus filhos. Enquanto
fazia isso, esqueci o presente, a vida. Você me mostrou como é
importante viver o momento, experimentar a vida dos meus filhos e não
apenas planejar o futuro deles. — Ele me beijou. Então seu sorriso ficou
mais sombrio. — Mas minha virilidade recém-descoberta é
definitivamente outra vantagem de sua presença na minha vida.
Sua mão deslizou sob a minha camiseta. Eu olhei em volta.
— Ninguém pode nos ver aqui.
— Eu sei, — eu disse. Então me levantei e dei um passo para
trás. — Mas eu estava pensando em experimentar a praia...
Cássio se levantou. — Você terá areia em todos os lugares.
Dei outro passo para trás e puxei minha camiseta por cima da
cabeça. — Talvez eu goste do atrito adicional, velho.
O sorriso de Cassio se tornou lupino. — Acho que preciso
mergulhar você no oceano primeiro para puni-la por sua insolência.
Recuei, desci as escadas e Cassio me perseguiu como um caçador
atrás de sua presa. — Corra, garotinha, corra.
— Eu não estou... — Ele se lançou em mim, mas com um grito
sufocado, eu pulei para trás, virei e me afastei. Meus pés afundaram na
areia macia e a brisa fresca da noite chicoteava meus cabelos. Olhei por
cima do ombro, encontrando Cassio tirando os sapatos, camisa e calça.
Revirando meus olhos, tirei o sutiã e gritei: — Você nunca vai me
alcançar, velho!
Ele era surpreendentemente rápido. Inferno, ele era mais rápido
do que qualquer homem de sua altura e massa muscular poderia ser.
Todos os malditos exercícios estavam dando resultado, parecia.
Rindo, abri o botão da minha bermuda. Infelizmente, não podia
parar porque Cassio estava bem atrás de mim e quase tropecei na
minha tentativa de tirar a bermuda enquanto corria. Só de calcinha, eu
acelerei ainda mais, tentando correr pelas dunas e me afastar do
oceano.
— Peguei, — Cassio rosnou um momento antes de seus braços
envolverem a minha cintura e ele me levantar do chão. Ele pressionou
um beijo quente no meu pescoço e depois mordeu, fazendo-me ofegar.
Apesar da minha luta, ele me levou até a beira do oceano. — Vai estar
muito frio. Felizmente, conheço a maneira perfeita de aquecê-la
novamente.
— Cassio, não se atreva! — Eu avisei, mas ele entrou nas ondas.
Os respingos frios atingiram minhas panturrilhas. — Cassio!
Ele me jogou na água. Choque pelo frio congelante do Atlântico
atravessou meu corpo. Eu explodi na superfície da água com um
suspiro, respirando fundo enquanto meu corpo lutava para se
acostumar com o frio.
Cássio parecia estar dando um mergulho no Caribe e não no
Atlântico. Ele nem estava arrepiado!
Eu olhei feio para ele, mas ao mesmo tempo não pude deixar de
sorrir. Talvez eu o tivesse surpreendido, mas ele também me
surpreendeu. Quando o vi pela primeira vez no hall da casa dos meus
pais, parecendo tão terrivelmente equilibrado e controlado, me
perguntei como poderíamos trabalhar. Ainda éramos diferentes em
muitos aspectos de nossas personalidades, mas ambos fizemos
pequenos ajustes um pelo outro. O casamento era dar e receber, e
apesar da necessidade de Cassio de controlar tudo, ele também estava
dando para fazer isso funcionar.
— Que tal eu aquecê-la agora? — Ele se aproximou de mim, me
puxando contra seu corpo maravilhosamente quente. Sua boca
reivindicou minha garganta mais uma vez.
— Nada de sexo no oceano. Congelarei bens importantes se
permanecermos na água por mais tempo.
Cassio riu profundamente contra a minha pele. — Que tipo de
bens? — Sua boca viajou para baixo e depois fechou em torno do meu
mamilo.
Apertei a cabeça dele, assentindo. — Esse por exemplo. — Eu
examinei a fila de casas alinhadas nas dunas. A luz brilhava em
algumas delas, e me perguntei se eles poderiam nos ver se olhassem
para o oceano. Eu não me importei.
— Vou manter seus bens aquecidos, não se preocupe, — ele
murmurou contra a minha pele, e decidi que congelar até a morte
poderia valer a pena.
Depois de uma rapidinha no oceano, consegui convencer Cassio
de mais uma rodada na praia, da qual me arrependi depois...
exatamente como ele havia previsto. Uma espessa camada de areia
cobria cada centímetro do meu corpo, e mais de um grão de areia
encontrara seu caminho nas fendas que eu preferia não ter areia.
Depois de um longo banho, eu ainda me sentia dolorida quando nos
acomodamos no balanço mais uma vez. O rosto de ‘eu te disse’ de
Cassio foi um castigo adicional.
Alguém bateu na janela. Simona apertou o nariz contra o vidro e
bateu com os punhos contra ele. Cassio abriu a porta e a pegou antes
de se sentar com ela no colo ao meu lado. Simona se aconchegou contra
ele e me deu um sorriso cansado. Eu agitei suas mechas loiras escuras
e enrolei minhas pernas sob o meu corpo. Cassio manteve o balanço em
movimento com as pernas mais longas.
Pouco tempo depois, a porta do terraço se abriu novamente e
Daniele saiu descalço para a varanda. Esfregando os olhos, ele tropeçou
em nossa direção. Eu o levantei no balanço entre nós, e ele descansou a
cabecinha no meu peito.
Eu nunca me considerei pronta para me tornar mãe. Eu me
sentia criança quase todos os dias antes de papai me contar sobre meu
noivado com Cassio. Era verdade que você crescia às tarefas que lhe
eram apresentadas se as encarasse. Eu provavelmente erraria muitas
vezes criando essas crianças. Eu teria que aprender com eles.
Cassio inclinou a cabeça para trás, parecendo em paz e satisfeito.
Eu queria ser o seu refúgio. Seu trabalho era cheio de sangue, conflito e
morte. Eu não queria isso em casa. Ele me pegou olhando e me deu um
sorriso cansado.
Eu cuidaria de Simona e Daniele, os protegeria de tudo, até da
verdade. Jurei que nunca mentiria para Cássio, mas a verdade que o
pai dele me contou seria a única exceção.
Mentiras tinham uma maneira de te alcançar eventualmente. Eu
esperava que este fosse um dos casos em que elas não o fizessem.
23
Giulia
Nove anos após o casamento
Cassio chegou em casa à tarde. Ele reservou uma mesa em nosso
restaurante favorito para o nosso nono aniversário, um pequeno local
que servia comida francesa rústica. Mia concordou em cuidar de
Simona e Daniele. Embora fosse mais uma festa do pijama,
considerando que eles tinham nove e quase doze anos. Eles não
precisavam mais ser cuidados vinte e quatro horas por dia, sete dias
por semana, mesmo que aprontassem com mais frequência do que não.
Havíamos terminado um delicioso patê de fígado com brioche
quente e dois copos de Viognier, meu vinho branco favorito, quando
reuni coragem. — Você ainda não quer mais filhos? — Eu pretendia
perguntar em voz baixa e calma, mas, em vez disso, deixei escapar.
Cassio abaixou o copo devagar, as sobrancelhas franzindo. —
Você está…?
Eu olhei para ele e levantei meu copo de vinho quase vazio. —
Sério? Você acha que eu beberia duas taças de vinho se estivesse
grávida?
Ele riu. — Eu não pensei nisso.
— Homens, — murmurei, mas não pude deixar de sorrir. — Então
o que você diz?
Eu estava estranhamente nervosa sobre isso. Cassio e eu
conversamos sobre quase tudo, exceto o tipo de negócio que ele
considerava brutal demais para mim, e o segredo sobre Simona e
Daniele que eu ainda carregava no canto mais profundo do meu
coração.
Cassio colocou a mão na minha. — Você quer outro filho?
Outro filho. Não um filho, nem seu próprio filho. Percorremos um
longo caminho e agora não havia absolutamente nenhuma dúvida de
que Simona e Daniele também eram meus filhos.
— Ainda não sinto que nossa família esteja completa. Eu quero
ter um bebê para abraçar novamente.
— Eles também choram, vomitam e fazem cocô, e uma vez que
não fazem mais isso, fazem as piores birras. Você realmente quer isso?
Eu sorri. — Sim.
Cassio balançou a cabeça como se eu fosse irracional, mas pelo
olhar gentil em seus olhos, eu sabia que conseguira. — Então?
— Se você quer outro bebê, terá.
— Mas e você? Não quero que você me dê um bebê apenas para
me fazer um favor.
Cassio se inclinou sobre a mesa. — Confie em mim, dar-lhe um
bebê não é uma tarefa para mim. — Eu bati levemente em seu
antebraço, e ele continuou em voz ainda mais baixa. — Eu adoraria ter
um bebê com você.
— Podemos começar hoje, — eu sussurrei e corri meu salto alto
pela perna da sua calça, sorrindo sugestivamente. Em seu terno sob
medida, ele parecia irresistível.
Um canto da sua boca se levantou. — Tem certeza de que deseja
perder o Canard à l'orange e o Crepe Suzette? — ouvir Cassio falar
francês, mesmo que fosse apenas para elogiar um pato com molho de
laranja e panquecas, era quase demais para o pouco controle que me
restava.
Pressionei meu calcanhar contra sua virilha, fazendo-o soltar um
silvo baixo na garganta. — Ok, comida primeiro, sexo depois.
Ele balançou a cabeça, mas não conseguiu dizer nada porque o
garçom estava vindo em nossa direção com o prato principal.
***
Passamos o Natal em nossa casa de praia como fizemos nos dois
anos anteriores. Apesar do frio, adorávamos passear pela praia. Para
Cassio, era uma maneira de se livrar do peso de suas responsabilidades
por alguns dias. Quando ele estava em casa, alguém sempre queria algo
dele. Esse era o problema quando se é um Underboss. Papai sempre
delegava a maior parte do trabalho. Cassio preferia ter controle.
Simona e Daniele decoraram a árvore de Natal enquanto eu
preparava o jantar de Natal para a família. Loulou pairava ao meu lado,
esperando que uma fatia de bacon caísse no chão. Tornou-se tradição
que as irmãs de Cássio e suas famílias, assim como seus pais, viessem
até nós para comemorar. Meus pais não gostavam de dirigir longas
distâncias no inverno, então sempre os visitávamos em Baltimore
depois do Natal.
Eu tinha um presente de Natal especial para Cassio que daria a
ele quando estivéssemos sozinhos. Uma caixa de presente cheia com
um macacão fofo com as palavras ‘Olá, papai’, tampões para os ouvidos,
Advil e limpador de tapete como uma piada. Simona arrancou a fralda e
fez cocô no tapete da sala depois de comer beterraba vermelha. Foi um
momento memorável ao que o tapete não sobreviveu. Aparentemente,
era mais difícil tirar beterraba do que sangue.
Mal podia esperar pela reação dele.
Quando não bebi vinho durante o jantar, Mia me deu um olhar
conhecedor, e Cassio também pareceu perceber rapidamente. O que
mais me preocupou foi a expressão ansiosa de Mansueto. Ele cumpriu
sua promessa e não mencionou o teste de paternidade novamente, mas
seu silêncio não significava que ainda não estava em sua mente. Sua
saúde se deteriorou rapidamente nos últimos meses. Ele precisava de
uma cadeira de rodas e havia perdido muito peso. Conseguir um
herdeiro, alguém que estivesse relacionado a ele pelo sangue, poderia
ser uma das últimas coisas que ele queria realizar em sua vida.
Cassio
Mesmo antes de Giulia me dar meu presente de Natal, eu sabia
que ela estava grávida e não apenas porque não estava bebendo vinho.
Ela estava agindo de maneira diferente nas últimas duas semanas.
Mudanças sutis. Ela ocasionalmente tocava seus seios como se
doessem. Ela também não se sentia bem pela manhã. Eu nunca
perguntei, porque queria lhe dar tempo para lidar com isso.
É claro que todo mundo também descobriu durante o jantar.
Giulia sempre bebia um copo de vinho branco com a comida.
Antes de meu pai e minha mãe partirem, ele me puxou para o
lado. Eu sabia o que estava por vir. — Você deve considerar fazer um
teste de paternidade agora. Seu filho ainda não nascido merece isso.
— O que isto quer dizer? — Eu sussurrei severamente. Daniele e
Simona estavam se despedindo de seus primos e muito longe para ouvir
qualquer coisa.
— Se for um menino, ele pode ser seu verdadeiro herdeiro.
— Esta discussão acabou.
— Eu estou velho. Não sei quanto tempo ainda tenho...
— É por isso que você não deve destruir nosso relacionamento
agora.
O pai assentiu e fez sinal para que a mãe o tirasse de casa. Giulia
me observava preocupada. Eu lhe dei um sorriso tenso. Ela não
precisava saber sobre isso.
Quando abri a caixa de Giulia mais tarde em nosso quarto, fiquei
um pouco atordoado, mesmo sabendo o que revelaria. Eu tinha
quarenta anos. Após a morte de Gaia, eu tinha certeza de que nunca
mais seria pai, e agora aqui estava eu.
— Estou grávida, — ela sussurrou quando eu não disse nada por
alguns segundos.
Eu a envolvi em um abraço gentil, beijando sua boca doce. — Isso
foi rápido. — Orgulho tocou na minha voz.
Giulia revirou os olhos. — Praticamos tanto ao longo dos anos
que seus nadadores estão praticamente prontos para o ouro olímpico.
Mesmo depois de todos esses anos, o raciocínio rápido de Giulia
ainda me pegava de surpresa. — Às vezes eu não sei o que fazer com
você.
Ela apertou os lábios. — Me beijar?
Eu fiz, então me afastei. — Devemos contar a Simona e Daniele
amanhã?
Giulia hesitou.
— Tenho certeza que eles ficarão felizes. — Eles aceitaram Giulia
como mãe. Daniele quase nunca mencionava Gaia, e Simona não se
lembrava de nada sobre ela.
A preocupação cintilou no rosto de Giulia, e percebi que ela não
estava preocupada com o fato de nossos filhos não aceitarem um bebê,
até minhas palavras imprudentes. — Não foi por isso que você hesitou.
— Não, eu apenas pensei que deveríamos esperar mais algumas
semanas. Não quero que algo aconteça. — Ela procurou meus olhos. —
Eles ficarão felizes, certo?
— Claro. Eles terão mais alguém para torturar. — Aqueles dois
eram como cães e gatos às vezes, especialmente agora que haviam
crescido e Daniele estava tentando parecer legal.
***
Esperamos mais seis semanas antes de anunciarmos a gravidez
na mesa de jantar uma noite.
Por um momento, os dois apenas assistiram com os olhos
arregalados. Então eles começaram a gritar. Eles não sabiam o que um
bebê queria dizer: babá e troca de fraldas.
Giulia riu aliviada.
Simona pulou da cadeira e correu para Giulia, passando os
braços em volta dela.
— Cuidado, — eu disse. — Sua mãe tem um bebê na barriga.
Simona assentiu com os olhos arregalados e encarou o estômago
ainda plano de Giulia. — Ele pode me ouvir?
— Sim.
Ela se inclinou. — Por favor, seja uma irmãzinha. Os meninos são
irritantes.
— Ei! Você é irritante. — Daniele falou com a boca cheia e um
pouco de macarrão caiu quando ele falou.
Simona torceu o nariz. — Você fede.
Daniele engoliu em seco e soltou um arroto. — Isso fede.
— Eca!
— Chega, — eu disse com firmeza. — Estamos jantando. —
Daniele assentiu, mas manteve os olhos em Simona.
Simona acariciou a barriga de Giulia como se fosse uma lâmpada
mágica que lhe concederia um desejo antes de voltar ao seu lugar.
Daniele estendeu a língua coberta de comida para ela. Ela bateu nele.
Eu dei uma olhada para Giulia. Você realmente quer outro?
— Mal posso esperar por outro, — disse ela.

Giulia
Eu estava no meu oitavo mês quando Mansueto teve outro ataque
cardíaco. Os médicos não tinham certeza se ele sairia do hospital
novamente. Quando ele me pediu para visitá-lo sozinha, o medo me
encheu.
Ele estava pálido e magro na cama do hospital. Seus olhos
estavam ainda mais sombrios do que o habitual, e ele mal conseguia
levantar a cabeça em saudação quando entrei.
— Como você está? — Eu perguntei gentilmente quando afundei
na cadeira ao lado da cama.
— Eu não tenho muito tempo.
Toquei sua mão enrugada. — Você não sabe disso.
Ele sorriu fracamente. — Eu vou morrer, Giulia, e só há uma
coisa que preciso fazer antes de deixar esta terra.
— E o que é isso?
— Quero que meu sangue viva, governe. — Ele acenou com a
cabeça na minha barriga. — Você carrega o verdadeiro herdeiro do
nome Moretti em seu ventre. Daniele não deve se tornar Underboss.
Simplesmente não está certo.
Recostei-me e afastei minha mão. Era exatamente por isso que
desejei que não tivéssemos contado a Mansueto o sexo do bebê. Se fosse
uma menina, ele não ficaria tão obcecado.
— Faça a um moribundo o favor de dizer a Cassio a verdade sobre
essas crianças. Ele precisa saber.
Eu balancei minha cabeça. — Eu não direi a ele e você também
não deveria. Por que você está me pedindo para fazer isso?
Ele sorriu cansado. — Sou um homem velho. Não tenho muito
tempo para viver. Cassio nunca me perdoaria se eu contasse a ele. Não
posso deixar este mundo com ele me odiando. Mas se você lhe contar...
— Você não pode estar falando sério.
— Ele te ama, Giulia. Ele te perdoaria. Como não poderia?
— Mesmo se eu dissesse a ele, isso não mudaria nada. Ele ama
Daniele e Simona. Ele ainda iria querer que Daniele se tornasse
Underboss.
— Se isso é verdade, por que ele nunca quis saber a verdade?
Está enraizado em todo homem, a necessidade de criar um legado, e o
legado dele cresce em sua barriga. O único legado que Daniele carrega é
o de traição e incesto.
Meus olhos se arregalaram. Proteção feroz ferveu dentro de mim.
Eu não podia acreditar que ele tinha a audácia de insultar meu filho na
minha frente. — Como você pode dizer isso?
Mansueto lutou para se sentar. — Porque é verdade. Você não
quer que seu filho se torne Underboss? Você não quer que ele tenha a
posição que merece?
Não consegui falar. Eu pressionei a palma da minha mão na
barriga, atordoada. Mansueto não entendeu o gesto.
— Toda mãe quer o melhor para o próprio filho, e esse bebê no
seu ventre é de Cassio e seu. Se você pedir a Cassio, ele deserdará
Daniele e fará de seu filho o verdadeiro herdeiro.
Eu balancei minha cabeça lentamente. — Ele nunca faria isso.
— Ele faria. Por você. Ele faria qualquer coisa por você. Mesmo
isso. Ele te ama mais do que qualquer outra coisa.
— A pessoa que ele ama nunca pediria que deserdasse seu filho.
Os olhos de Mansueto imploravam. — Então não peça a ele. Você
poderia deixar a verdade escorrega por acidente. Se as pessoas
descobrirem sobre o pai de Daniele, nunca o aceitarão como Underboss
na Famiglia. O incesto é algo vergonhoso e nojento.
— Daniele e Simona não têm culpa de quem são seus pais.
— Giulia...
— Não, — eu disse com firmeza. — Você sabe que eu te respeito,
Mansueto, mas você pensar em sugerir algo assim... — Eu respirei
fundo. — Eu não farei isso. Vou fingir que você nunca me pediu.
Aproximei-me dele e peguei sua mão pálida e enrugada novamente. —
Prometa-me não contar a ninguém. Prometa.
Mansueto suspirou, seus olhos se apertando com
arrependimento.
Meu pulso acelerou. — Quem? Para quem você contou?
— Seu pai.
24
Giulia
Como ele pôde ter contado ao meu pai? Ele poderia muito bem ter
anunciado isso no noticiário!
Eu me virei e saí correndo do quarto do hospital, quase colidindo
com Mia ao sair. Ela me segurou com um aperto firme no meu ombro.
— Ei, o que há de errado?
Eu forcei um sorriso. — Esqueci-me de uma consulta. Eu sinto
muito. Eu preciso ir.
— OK. — Hesitação e preocupação refletiram em seu rosto.
Elia, que esperava no corredor por mim, deu um passo ao meu
lado, mas fiz sinal para que ele me desse um pouco de privacidade
enquanto ligava para papai.
Ele atendeu após o segundo toque, sua voz alegre. Claro, ele
estava em êxtase. — Giulia, como está meu neto?
— Não conte a ninguém, pai. Não conte. Prometa.
Silêncio do outro lado. — Do que você está falando?
— Você sabe do que eu estou falando. Daniele e Simona. Não
conte a ninguém o que Mansueto lhe disse.
— Giulia, — papai começou como se ainda estivesse conversando
com a ingênua eu de sete anos.
— Pai, eu estou falando sério. Não quero que as notícias sejam
divulgadas. Você é o único que pode espalhá-la. — Meus passos ficaram
mais rápidos, mas o peso adicional da minha barriga me deixou mais
lenta, e tive que esperar pelo elevador, porque subir pela escada estava
fora de questão.
— Você não pode esperar que eu esconda informações que
possam levar meu neto, minha própria carne e sangue, a se tornar
Underboss. Você deveria querer isso também. Você quer que seu filho
seja apenas um capitão e sirva ao resultado de um adultério
incestuoso?
Eu cerrei os dentes contra o insulto. Elia me observava
preocupado enquanto pegávamos o elevador até a garagem subterrânea.
— Estou indo para Baltimore. Não fale com ninguém. Eu estarei aí em
duas horas. Prometa.
Papai suspirou. — Eu prometo. Vou dizer à sua mãe para que os
cozinheiros preparem um bom jantar para nós.
Eu desliguei. — Precisamos dirigir para Baltimore.
Elia franziu a testa. — Para a casa dos seus pais?
— Sim. Temos que sair imediatamente.
Elia me levou em direção ao carro e abriu a porta para mim. —
Você precisa dizer a Cassio primeiro.
Afundei no banco do passageiro quando Elia deslizou atrás do
volante. Disquei o número de Cassio, mas recebi o sinal de ocupado.
Luca estava na cidade para conversar com Cássio e Mansueto. Todo
mundo sabia que Mansueto não tinha muito tempo. Talvez Cassio
estivesse em uma teleconferência com outros Underbosses e seu Capo.
— Não podemos esperar até que eu consiga falar com ele. É urgente.
Elia deu um aceno conciso e saiu da garagem. O tráfego estava
horrível, e minha preocupação aumentava a cada segundo que passava.
Eventualmente, Cassio me ligou de volta.
— Você está bem? — A preocupação em sua voz aqueceu meu
interior.
— Estou bem. O bebê também está bem. Não se preocupe. Estou
a caminho da casa dos meus pais.
— Qual é o problema?
Eu odiava mentir para Cássio, mas não sabia mais o que fazer. —
Minha mãe passou mal hoje. Eu só quero ter certeza de que ela está
bem, e eles estão me pedindo para visitar a um tempo.
— Não é muito extenuante em seu estado?
Eu bufei. — Estou grávida, não doente.
— Tenha cuidado. Elia está com você, presumo?
— Claro. E meus pais têm seus próprios guarda-costas, sem
mencionar que Christian também estará lá.
— Isso é bom. Ao contrário do seu pai, ele é um homem capaz.
Normalmente eu defenderia meu pai, mas hoje não consegui
encontrar as palavras. — Volto amanhã de manhã. Vou jantar com eles
e passar a noite.
— Tudo bem, — disse Cassio. No fundo, eu podia ouvir vozes
masculinas. — Eu te amo, — ele disse baixinho para que ninguém além
de mim pudesse ouvir.
— E eu te amo.
Desliguei, mais decidida do que antes. Elia me olhava
atentamente. — Há algo que eu deva saber?
— Não. — Eu suavizei a palavra com um sorriso. Já era ruim o
suficiente que Mansueto tivesse contado ao meu pai. Conhecendo-o, ele
provavelmente já havia passado as notícias para mamãe e Christian.
Era apenas uma questão de tempo até que se espalhasse como fogo. Eu
nem queria imaginar o que isso faria com Daniele e Simona.
Adormeci depois de um tempo. Elia me acordou quando paramos
na frente da minha antiga casa. Elia saiu e segurou a porta aberta para
mim.
Mamãe e papai esperavam na varanda, ambos sorrindo como
uma criança na manhã de Natal. Eu gostaria que não fosse por causa
de algo que pudesse destruir as pessoas que eu mais amava no mundo.
Fui em direção a eles e os abracei brevemente. Christian esperava
atrás deles pela sua vez. — Você está crescendo a cada dia.
— Isso não é algo que você deve dizer a uma mulher, — disse a
Christian. — Você está sozinho?
— A gripe tomou conta da nossa casa. Eu sou o último homem de
pé. — Eu sorri, mas falhei quando encontrei o olhar do meu pai.
— Você deve estar com fome, — mamãe disse ansiosamente,
apontando para eu segui-la até a sala de jantar. Eu dei um pequeno
aceno para Elia, para que ele soubesse que estava tudo bem em sair.
Ele entrou na nossa sala de segurança.
Todos nós nos acomodamos à mesa. Depois que a criada serviu o
jantar e desapareceu, eu toquei no assunto. — Suponho que papai já te
contou?
Christian assentiu sombriamente. Sua expressão tensa deixou
claro que ele desaprovava.
Mamãe apertou os lábios. — Você deveria estar em êxtase, Giulia.
Essa é sua chance.
Minhas sobrancelhas se ergueram. Como essa era a minha
chance? Eu não ia me tornar Underboss. — Não quero que as notícias
sejam divulgadas.
— Você deveria querer o que é melhor para o seu filho, — papai
disse com uma voz repreensiva.
Eu explodi. — É isso mesmo? Foi melhor para mim quando você
me casou com um homem que descreveu como o mais cruel Underboss
da Famiglia, um homem com quase duas vezes a minha idade? Isso foi
para o meu bem ou o seu, pai?
O rosto do papai se tornou pedra. Ele olhou para seu prato. Eu
quase me senti culpada porque, apesar de todos os seus defeitos, eu o
amava. Ele tinha sido um pai melhor do que muitos outros homens em
nosso mundo.
— Como você pode falar nesse tom com seu pai? Mostre algum
respeito — mamãe sibilou.
Dei uma mordida no lombo de vaca, tentando manter a calma.
Manter a cabeça nivelada tornou-se mais difícil desde que os hormônios
da gravidez estavam em jogo. — Eu respeito você, mas sua ambição vai
estragar tudo. Eu não me importo se esse bebê se tornar Underboss.
Quero apenas o melhor para ele, mas tornar-se um líder em nosso
mundo não faz parte disso.
— Você sempre foi uma sonhadora, Giulia. É o que eu amo em
você — papai disse, rompendo minha crescente raiva até suas próximas
palavras. — Mas como homem, não posso me permitir devaneios
irracionais. Eu conheço as realidades da nossa vida. E a verdade é que
tudo o que importa é uma posição de poder. Eu não aceitarei o filho de
uma prostituta trapaceira como um Underboss. Nosso neto governará a
Filadélfia e mais ninguém.
— Pai, — Christian falou com uma careta.
— Não, não discutirei mais esse assunto. Quando você for
Underboss no próximo ano, poderá tomar as decisões, mas agora ainda
é minha palavra dominando esta terra e cidade. Não me importo se
preciso contar a verdade a todos os membros da Famiglia, contanto que
isso signifique que nosso sangue governe na Filadélfia.
Larguei o garfo e me levantei. — Se esse for o caso, hoje é a
última vez que você me verá.
Christian tocou meu braço. — Fique. Você não deve voltar tão
cedo em seu estado.
— Estou bem. Não se preocupe comigo. Não vou ficar nesta casa
por mais um segundo.
Papai se levantou da cadeira. — Estou fazendo isso pela nossa
família. Você perceberá quando o seu filho nascer e depois me
agradecerá.
Eu sorri tristemente, lágrimas ardendo nos meus olhos. — Você
está errado, mas eu sei que você e mamãe nunca entenderão. Vocês não
podem.
— Você deveria estar agradecida, — mamãe sussurrou como se
eu pessoalmente tivesse quebrado seu coração. Eu estava cansada
deste jogo.
— Sou grata por não ter herdado sua ambição. Eu nunca vou
transformar meus filhos em peões neste jogo horrendo de poder. Nem
Daniele, nem Simona, nem Gabriel. — Eu toquei minha barriga. —
Porque todos eles são meus filhos, e lutarei contra todos como uma
guerreira para protegê-los dos horrores deste mundo, mesmo que eles
venham na forma de meus próprios pais.
— Como você se atreve depois de tudo o que fizemos? — Mamãe
sussurrou severamente.
— Depois de tudo que você fez? — Eu gritei. Meu estômago se
contraiu com uma dor aguda, mas eu a ignorei. — Você me casou com
Cassio, para que ele garantisse a posição de papai. Você casou com sua
própria sobrinha com monstros de Las Vegas, pela mesma razão, e você
quer minha gratidão?
Eu me virei, segurando minha barriga, meu coração batendo forte
no peito. Elia esperava no saguão, com a mão na arma, os olhos
estreitos.
— É melhor você tirar a mão da arma ou não viverá para ver o
amanhã, — Christian rosnou.
Elia o ignorou e aproximou-se de mim, segurando meu cotovelo.
— Você está bem, Giulia?
Eu dei um aceno conciso. — Me leve para casa. Eu acabei por
aqui.
Elia me levou para fora, pegando meu casaco no caminho.
Christian o seguiu. Eu caí no banco do passageiro. Antes de fechar a
porta, meu irmão se inclinou. — Me mande uma mensagem quando
estiver em casa, para que eu saiba que você está bem.
Eu dei a ele um sorriso trêmulo. — Eu gostaria que você já fosse
Underboss.
— Mesmo assim, eu não seria capaz de impedir o pai de divulgar
as notícias. Você conhece nossos pais. Essa é a chance deles.
— Eu sei.
— Vou tentar convencê-los de qualquer maneira.
Cássio e Christian haviam chegado a um entendimento provisório
ao longo dos anos. Eles ainda não eram amigos, mas se respeitavam.
Christian nunca divulgaria a notícia, mesmo que isso pudesse melhorar
sua posição.
— Não perca seu tempo, — eu disse antes de fechar a porta.
Havia apenas uma pessoa que poderia garantir o silêncio dos meus pais
neste momento. O homem que meu pai temia como o diabo, e não
apenas porque ele era seu Capo.
— Luca ainda está na Filadélfia?
Elia franziu a testa. — Acho que sim. A reunião deve ir até tarde.
Ele não voltará a Nova York até amanhã de manhã.
— Descubra onde ele está e me leve até ele.
Elia olhou para mim. — Você não pode simplesmente ir até o
Capo.
— O referido Capo também é meu primo. Ele pode arranjar tempo
para a família, certo?
— O que está acontecendo, Giulia? Você pode confiar em mim, ou
Cassio não teria me escolhido como seu guarda-costas.
— Eu confio em você. — Eu olhei pela janela. Elia era um homem
bom, e um soldado e guarda-costas ainda melhor.
— Mas não vai me dizer do que se trata?
Inclinei minha testa contra o vidro. — Eu não posso. — Elia era
antes de tudo um soldado de Cássio. Ele era leal a ele. Ele contaria a
verdade a Cassio no momento em que descobrisse.
— Porque Cassio não deve saber. — Um toque de suspeita ecoou
em sua voz.
— Leve-me até Luca, Elia. É tudo o que você precisa saber.
A boca de Elia se apertou, mas ele pegou o telefone e ligou para
alguém para perguntar onde estava o Capo. No fim das contas, Luca
estava de volta ao hotel quando finalmente retornamos à Filadélfia.
— Você tem o número de Luca? — Eu perguntei quando entramos
no luxuoso saguão do Ritz Carlton.
— Não. Nem todo soldado tem o número do Capo, Giulia. Ele
domina milhares de homens. Eu nunca falei com ele até agora.
Fui até a recepção e sorri para a recepcionista. Descobrir o
número do quarto de Luca seria complicado. A recepcionista se recusou
a me dar. — Então ligue para o quarto e diga que sua prima Giulia quer
falar com ele.
A mulher fez exatamente isso, balançando a cabeça enquanto
falava no telefone. — Tudo bem, Sr. Vitiello. — Ela desligou e sorriu
educadamente para mim. — A suíte presidencial no trigésimo andar.
Fui em direção aos elevadores. Elia balançou a cabeça enquanto
me seguia. — Ele provavelmente acha que é uma armadilha e aguarda
com armas em punho. Luca é o homem mais desconfiado que conheço,
e por boas razões.
— Bem, ele não vai atirar em uma mulher grávida. E ele me
conhece, então se acalme.
A tensão de Elia agitou minha própria ansiedade. No momento em
que chegamos ao trigésimo andar, toquei o peito de Elia. — Você fica
aqui. Eu preciso falar com Luca sozinha.
A expressão de Elia endureceu. — Eu não posso te deixar fora de
vista.
— Você dirá a Luca que não confia nele? Eu gostaria de ver isso.
Elia engoliu em seco. — Eu vou ficar do lado de fora da porta.
Revirei os olhos. — Então você pode reagir se me ouvir gritando?
Você vai matar seu Capo para me defender? Não seja ridículo. Ele te
mataria antes que você pudesse piscar.
Elia não me contradisse. Eu bati na porta. Nada aconteceu por
um tempo, então finalmente a porta se abriu e Luca parou na fresta.
Ele segurava uma arma na mão direita e sua expressão era a máscara
dura de sempre.
Eu sorri, tentando mascarar meu nervosismo. — Boa noite, Luca.
Desculpe-me por perturbá-lo. Posso falar com você?
Luca olhou atrás de mim para Elia e o brilho em seus olhos
enviou um calafrio pela minha espinha. — Eu não esperava você,
Giulia. — Seu olhar cauteloso se fixou em mim. Éramos primos, mas
isso não significava que éramos próximos ou que Luca confiava em
mim. Ele não confiava em ninguém. Depois de um momento, ele
assentiu e abriu a porta para mim. — Entre.
Eu passei por ele. — Elia vai esperar lá fora. O que temos que
discutir é privado.
Luca levantou uma sobrancelha, mas não fez nenhum comentário
quando fechou a porta. De acordo com as regras do nosso mundo, isso
era inapropriado. Uma mulher casada não deveria ficar sozinha com
outro homem, mas eu nunca me preocupei com essas regras e não ia
começar agora. Luca me indicou a área de estar de sua suíte. Eu
afundei no sofá branco. Luca sentou-se em uma poltrona na minha
frente. Ele devolveu a arma ao coldre em volta do peito, mas a suspeita
permaneceu em seu rosto. — Cassio sabe que você está aqui?
Eu franzi meus lábios. — Não, e eu apreciaria se continuasse
assim. — Luca estreitou os olhos. Como meu marido, Cássio tinha o
direito de saber se eu me encontrasse com alguém, especialmente um
homem, especialmente o Capo.
— O que você precisa discutir comigo que não quer que seu
marido descubra?
Ele olhou para minha barriga e meus olhos se arregalaram. —
Não é sobre esse bebê, — eu disse rapidamente. — É sobre Daniele e
Simona.
Eu hesitei. Cássio respeitava Luca. Ele o chamava de melhor
Capo que a Famiglia já teve, mas confiar um no outro? Não. Homens
como eles não podiam confiar em muitos. Mas Luca era o único que
conseguiria silenciar meus pais. Eu tinha que arriscar lhe contar,
porque senão a verdade sairia sem dúvida.
— O que têm eles?
— Eles não são de Cassio.
Surpresa cruzou o rosto de Luca. Então sua expressão se tornou
ainda mais dura. — Como você sabe?
— Porque Mansueto me contou. Ele fez um teste paterno depois
da coisa com Andrea e Gaia.
No momento em que as palavras saíram da minha boca, percebi
meu erro. Luca não sabia. Todos os músculos de seu corpo enrijeceram
quando ele se inclinou para frente. — A coisa com Gaia e Andrea?
Eu pisquei. Cassio não contou a Luca o que aconteceu? Eu achei
que Luca sabia sobre a morte de Gaia e por que ela se matou.
— Giulia. — A palavra cortou através de mim como uma lâmina.
Eu desviei o olhar. Era tarde demais para mentir. Mas o que a
verdade significaria para Cassio? Engoli em seco. — Gaia teve um caso
com seu meio-irmão, e Cássio descobriu. Mansueto suspeitava que
Andrea fosse o pai e o teste confirmou suas suspeitas.
— E agora você está aqui porque quer que seu filho se torne o
legítimo herdeiro de Cassio, em vez de Daniele.
— Não, — eu sussurrei horrorizada. — Não quero que Cássio
saiba. Não quero que ninguém saiba, e é por isso que estou aqui. Vim
pedir para você forçar meus pais a se calarem. Eles sabem e estão
ansiosos para espalhar a notícia.
Luca me olhou, e um pouco da brutalidade desapareceu. — Você
não quer que seu filho se torne Underboss.
— Daniele também é meu filho.
Luca olhou para o lado por alguns segundos. — Manter esse tipo
de notícia em segredo é difícil.
— Ninguém sabe, exceto meus pais, meu irmão e Mansueto.
Mansueto não contará a ninguém porque teme a reação de Cássio, mas
meus pais o farão. Meu pai tem medo de você. Se você falar com ele, ele
manterá o segredo.
Um sorriso sombrio curvou seus lábios. — Você quer que eu
ameace seus pais?
— Basta você ameaçar meu pai. Minha mãe fará o que ele diz. Ela
é obediente.
— Uma característica que você não herdou, obviamente.
Eu corei, sem saber se era um elogio ou não. — Faço o que acho
certo.
Luca ficou de pé, elevando-se sobre mim. — Seu marido me disse
que matou Andrea porque ele era um traidor. Agora descubro que ele
matou o homem que transou com sua esposa. Cassio mentiu para mim
sobre um dos meus soldados. Eu preciso falar com ele.
O chão se abriu embaixo de mim quando percebi o que isso
significava. Cássio mentiu para seu Capo. Isso poderia ser interpretado
como traição.
Eu cambaleei e tropecei em direção a Luca, agarrando seu braço.
Eu não me importava que sua expressão deixasse homens de joelhos,
que ele era um dos homens mais temidos dos Estados Unidos, apenas
rivalizando em sua crueldade com os monstros de Las Vegas. Luca não
mataria sua prima grávida, mas poderia matar o pai de um bebê ainda
não nascido. — Ele estava dividido sobre Gaia, enlouquecido de dor e
raiva. Ele não sabia o que estava fazendo.
A expressão de Luca não mudou. Talvez minhas palavras só
tenham piorado as coisas? Se Luca achasse que Cássio agia por
impulso, estimulado por suas emoções, poderia matá-lo ainda mais
rápido.
Bile subiu pela minha garganta. — Andrea poderia ser um rato de
qualquer maneira. Eu não sei.
Luca puxou seu braço para fora do meu alcance. — Vou
conversar com Cássio e ele me explicará tudo.
Eu olhei para ele. — Você não vai matar o pai do meu bebê ainda
não nascido. — Era para ser uma pergunta, mas de alguma forma
parecia uma ameaça, e por um momento eu quis rir da insanidade da
situação.
— Um homem estaria morto por me ameaçar.
— Eu não sou homem.
Luca pegou o telefone. — Vou ligar para Cassio agora e você vai
voltar para casa com seu guarda-costas. — Ele apertou o telefone no
ouvido. — Olá, Cassio, preciso que você venha até aqui. — Cassio disse
algo do outro lado, e o sorriso de resposta de Luca fez meu sangue
gelar.
Ele enfiou o telefone de volta no bolso. — Seu marido já está aqui.
Seu guarda-costas o chamou no segundo em que você entrou nesta
suíte.
— Por favor, — eu disse com voz rouca, lágrimas ardendo nos
meus olhos. Elas não chegaram a Luca. Compaixão não era um de seus
traços de caráter.
Uma batida soou e Luca fez um sinal para eu ficar onde estava.
Ele puxou a arma e foi em direção à porta. Minha mente girou,
tentando descobrir uma maneira de sair disso.
— Boa noite, Luca, — disse Cassio calmamente.
Luca deu um passo atrás e deixou Cassio passar e fechou a porta.
Cassio me examinou da cabeça aos pés e depois se aproximou de mim.
Ele me puxou contra ele, sua expressão ansiosa. — O que está
acontecendo?
— Sinto muito, — eu sussurrei. — Eu queria ajudar e arruinei
tudo. — Cassio examinou meus olhos antes que seu olhar se voltasse
para Luca, que nos olhava como se ele estivesse tentando decidir se
éramos amigos ou inimigos. A mudança no corpo de Cassio foi
imediata. Ele ficou tenso, e o olhar em seu rosto se tornou predatório
enquanto se olhavam. Ele estava armado, é claro. Duas armas e pelo
menos o mesmo número de facas. Luca não tirou os olhos de Cassio e o
encarou da mesma maneira que Cassio.
Cassio apertou meu quadril suavemente e depois beijou minha
têmpora. — Deixe Elia te levar para casa.
Ele estava falando sério? Eu não deixaria essa suíte sem ele.
— Cassio...
Ele me cutucou na direção da porta. Olhei entre Luca e ele. —
Cassio, Luca sabe sobre Gaia e Andrea, — eu sussurrei implorando,
tentando chegar até ele.
Cássio assentiu. — Eu sei. Seu irmão ligou para me avisar sobre
o plano de seu pai.
Eu congelei. — O que exatamente ele disse?
Cassio acariciou meu cabelo gentilmente. — Que você está
lutando como uma leoa para proteger Daniele, Simona e eu. — Sua
boca se abriu em um sorriso melancólico.
Eu procurei seus olhos. Isso significava que ele sabia que não
eram filhos dele? Não perguntei por medo de revelar mais do que
Christian havia revelado, mas suas palavras levavam a apenas uma
conclusão. — Eu sei que você não queria saber.
Cassio assentiu e depois olhou para Luca, que observava
atentamente, a mão com a arma pendurada casualmente ao seu lado.
— Você precisa sair agora.
— Ela deveria. Temos assuntos a discutir — disse Luca friamente.
Cassio tentou me cutucar na direção da porta novamente.
Eu recuei. — Eu não vou a lugar nenhum sem você.
— Giulia, tudo ficará bem. Deixe Elia te levar para casa para que
você possa descansar um pouco.
Eu contornei o corpo alto de Cassio para confrontar Luca com um
olhar. — Tudo vai ficar bem, Luca?
Os olhos cinzentos de Luca continuaram piscinas sem emoção. —
Eu acho que você deveria sair agora, como seu marido disse.
— Eu não me importo com o que você pensa, e definitivamente
não vou embora até que você jure que meu marido voltará para mim.
Cassio me abraçou. — Giulia, você vai sair agora. — Eu não
deixei de notar como ele posicionou seu corpo entre Luca e eu como se
estivesse preocupado que meu desrespeito pudesse fazer Luca me
matar.
— Não, — eu surtei e deixei minhas pernas cederem debaixo de
mim. Cassio ficou assustado e mal conseguiu amenizar minha queda.
Eu afundei no chão como uma criança teimosa, ou uma mulher muito
grávida decidida a salvar o homem que amava. — Eu não vou a lugar
nenhum. Eu vou ficar aqui. Você terá que me arrastar para fora.
Cássio balançou a cabeça, mas seus olhos refletiam sua
admiração. Ele se abaixou e me pegou sem problemas, apesar dos meus
protestos. Ele me carregou em direção à porta e me colocou no chão,
com o braço em volta da minha cintura, para não eu tentar sentar no
chão novamente. Eu agarrei sua camisa, amassando-a. Ele segurou
meu queixo entre o polegar e o indicador. — Vá para casa, querida. —
Sua voz era sedosa e suplicante.
Lágrimas embaçaram minha visão enquanto eu me agarrava a
ele. — Jure que você voltará para mim.
Cassio olhou de volta para Luca e por um momento eles
simplesmente se encararam. — Eu juro. — Elia apareceu ao meu lado e
a um sinal de Cassio, ele passou o braço em volta de mim e me arrastou
para longe. Olhei por cima do ombro para Cassio. Ele me deu um
sorriso encorajador antes de fechar a porta. Cassio mentiu para mim
sobre voltar para casa?
25
Cassio
Eu fechei a porta no rosto aterrorizado de Giulia antes de
enfrentar Luca, que ainda estava segurando a arma. Apesar do desejo
quase irresistível de puxar a minha, não o fiz. Eu respeitava Luca e ele
me apreciava mais do que a maioria dos outros Underbosses. Isso não
significava que ele não me mataria. Não havia um homem ou mulher
que Luca não fosse capaz de matar, exceto a esposa e os filhos, talvez.
— Você mentiu sobre Andrea.
— Eu não menti. Omiti parte da verdade.
Os lábios de Luca se curvaram de uma maneira perigosa. —
Alguns podem dizer que omitir parte da verdade é mentir.
— A única opinião que importa para mim é a sua.
Luca se aproximou. A arma ainda pendurada de maneira
descontraída. A visão poderia ter enganado alguém que não conhecia
Luca como eu. Luca era um assassino nato. Poucos homens eram tão
perigosos quanto ele com e sem uma arma. — Se isso fosse verdade,
você teria me contado tudo quando perguntei.
Eu assenti. — Andrea era meu soldado. Quando eu o matei,
estava sob a decisão da Filadélfia.
— Filadélfia é minha, Cassio. Tudo no leste é meu. Você e todos
os meus outros Underbosses dominam minhas cidades em meu nome.
Nunca se esqueça disso.
— Eu não esqueci. Mas você confia em mim para governar a
Filadélfia como achar melhor, e sabe que eu faço isso bem. Você não
espera que eu fale sobre todos os incidentes na cidade. Você confia em
mim para lidar com eles pessoalmente.
— Espero que você me diga quando houver um traidor na
Famiglia.
— Andrea era um traidor.
— Ele era? Ou era apenas o homem que transou com sua esposa?
Qualquer um além de Luca, eu poderia ter atacado. Eu sufoquei
minha fúria. — Ele era ambos. O vice-presidente da seção do Tartarus
MC na Filadélfia que desmembrei me disse que eles tinham um contato
e a descrição se encaixava em Andrea.
— Você pressionou uma confissão dele?
— É o que eu deveria ter feito, — admiti. Eu segurei o olhar de
Luca. — Quando cheguei em casa depois de atacar o clube, encontrei
minha esposa nua e muito grávida montando meu cunhado, seu meio-
irmão, debaixo do meu teto com meu filho pequeno lá embaixo,
achando que eles estavam jogando algum jogo. Quando confrontei
Andrea, ele se gabou de transar com minha esposa desde o primeiro dia
do nosso casamento e que meus filhos não eram meus. Eu bati nele até
a morte com meus punhos nus, quebrei todos os ossos do corpo dele,
esmaguei seu rosto traidor até que seus olhos saíssem, e eu faria de
novo.
Luca assentiu porque raiva ciumenta era algo que ele entendia
muito bem. — Você matou Gaia?
— Não. Eu nem considerei isso — falei. — Ela se matou, como eu
te disse. Ela sentia muita falta dele.
A dor do passado não veio desta vez. Gaia era o passado. Giulia
era meu presente e futuro. Ela me mostrou o que significava amar uma
mulher tão ferozmente quanto eu amava meus filhos.
Luca embainhou a arma. — Espero a verdade dos meus homens.
— Eu não queria que ninguém descobrisse que Gaia havia me
traído. Algumas pessoas sabem, é claro, e a reação delas é ruim o
suficiente. — Eu odiava admitir isso, mas Luca precisava entender.
Jurei a Giulia que voltaria para ela e tinha toda a intenção de cumprir
essa promessa.
— Eu entendo, — Luca disse simplesmente. — Vou garantir que
Felix mantenha a boca fechada, a menos que você queira a verdade.
A verdade sobre Daniele e Simona, sobre o sangue deles e por que
eles não se pareciam comigo. — Daniele e Simona são meus filhos em
todos os aspectos que importam. Eles nunca podem saber a verdade.
— Eles não vão. — Luca pegou o telefone.
— Eu deveria lidar com isso.
Luca sorriu ironicamente. — Sua esposa pode não ficar feliz se
você matar o pai dela, e Felix conta com isso. Felix sabe que eu não
hesitaria em acabar com sua vida de merda, no entanto.
Inclinei minha cabeça. Luca já havia matado membros da família
antes, então Felix definitivamente não podia esperar por piedade.
Luca pressionou o telefone no ouvido. — Ah, Felix, eu ouvi dizer
que você adquiriu algumas informações interessantes. Você já contou a
alguém? Luca esperou. — E continuará assim. Entendido? Eu acho que
seria melhor discutir o assunto pessoalmente, só para que eu possa
transmitir a mensagem a você. — Pausa. — Não, você vai me encontrar
em Nova York amanhã às quatro da tarde. Não me faça esperar. — Ele
desligou.
Eu balancei a cabeça em agradecimento, porque as palavras reais
nunca passariam pelos meus lábios. — Você deveria ir para sua esposa
agora.
Eu me virei e fui para a porta, mas antes que pudesse abri-la,
Luca falou novamente: — Esta foi sua última omissão, Cassio. Mesmo
três filhos não vão protegê-lo na próxima vez que você mentir para mim.
— Eu sei.
Eu saí. Faro ainda esperava no corredor e quase cedeu de alívio
quando me viu.
Ele esperou até que as portas do elevador se fechassem antes de
dizer: — Eu pensei que não voltaria a vê-lo.
— Luca sabe que eu valho mais vivo do que morto.
Faro balançou a cabeça. — Se você diz. — Ele me olhou
atentamente. — Você quer conversar?
Eu fiz uma careta. — Eu não preciso conversar.
No segundo em que entrei em nossa casa, Giulia se aproximou de
mim e me abraçou com tanta força que me preocupei que ela pudesse
machucar sua barriga. Os olhos dela estavam vermelhos. Daniele
entrou no hall atrás dela. Aos doze anos, ele era quase tão alto quanto
Giulia. Ainda me lembrava de quando ele se agarrava às pernas das
minhas calças.
— Você não deveria estar na cama? Você tem escola amanhã.
— Eu sabia que algo estava errado quando mamãe chegou em
casa chorando. Ela não me disse o que estava acontecendo. — Sua voz
já estava mudando de menino para homem. Eu o criei, suspeitei que ele
não era meu por muitos anos e agora tinha certeza. Não mudou nada.
Giulia amava Daniele e Simona como se fossem dela, e eu também.
— Eu tive uma discussão com Luca.
Daniele se aproximou, com medo no rosto. — Você está com
problemas, pai?
Essa palavra saindo de seus lábios ainda me enchia de orgulho.
Isso nunca mudaria.
Giulia deu um passo atrás para nos dar espaço.
Peguei a parte de trás da cabeça de Daniele e o puxei contra o
meu peito. — Eu esclareci tudo. Foi um mal-entendido. — Daniele me
abraçou brevemente. Agora que ele não era mais um menino, essas
demonstrações de afeto havia se tornado menor. — Agora vá para a
cama.
Daniele se afastou e subiu as escadas, subindo os degraus dois
de cada vez. Passei um braço em volta de Giulia.
— Nada mudou, — disse ela com firmeza.
— Nada mudou, — confirmei. — Daniele é um bom garoto, meu
garoto, e ele será um bom Underboss.
Giulia sorriu largamente. — Eu sei que ele será. Assim como o pai
dele. — Ela ligou nossos dedos. — Vamos para a cama. — Do jeito que
ela disse, eu sabia que ela precisava mais do que apenas dormir, e
depois de hoje, fazer amor com minha esposa parecia o bálsamo
perfeito.
Depois que Giulia adormeceu, entrei no salão de charutos. Loulou
correu atrás de mim. Ela passava a maioria das noites na cama de
Daniele ou Simona, mas meus passos devem ter chamado sua atenção.
Preparando uma bebida, afundei na poltrona larga e tomei um gole.
Estava escuro na sala, exceto pela luz da lua entrando pelas janelas e o
brilho das brasas morrendo na lareira.
Loulou olhou para mim.
Eu dei um tapinha na minha coxa e ela pulou sem esforço e
depois se enrolou no meu colo. Ela e eu chegamos a um entendimento
ao longo dos anos. Ela ainda preferia Giulia, Simona e Daniele, mas
quando eu passava uma noite sem dormir no salão, ela sempre me fazia
companhia.
Acariciei seus pelos macios com um suspiro.
Segredos tinham um jeito de sair. Hoje tinha provado isso.
Eu deveria saber que meu pai havia feito um teste de paternidade
no momento em que descobriu sobre Andrea. Ele não era um homem
que deixava as coisas que o incomodavam para trás.
Fiquei zangado por ele desconsiderar meus desejos e
absolutamente lívido por ele querer tanto a verdade que contou a
alguém como Felix. Ambos queriam ver o neto por nascer como um
Underboss. Isso era o suficiente para transformar homens que mal se
toleravam em aliados.
Não queria imaginar o que seria de Daniele e Simona se
descobrissem. Nossos círculos não olhariam gentilmente para eles. O
resultado de traição e incesto. Não importa quão brutalmente eu teria
reagido às fofocas das pessoas, duvido que pudesse ter convencido
meus homens a aceitar Daniele como seu chefe um dia.
Eu não tinha certeza se queria encarar meu pai novamente. Ele
arriscou o futuro de Daniele e Simona. Isso não era algo que eu poderia
perdoar. Luca deve ter telefonado para ele hoje porque o pai tentou falar
comigo, mas deixei meu telefone no modo silencioso. Eu não queria
falar com ele.
Como se meus pensamentos o tivessem conjurado, meu telefone
piscou, mas era Mia. O fato de ela estar acordada a essa hora da noite
já era um mau sinal. Eu atendi.
—Você tem que vir ao hospital. Papai está morrendo. Ele não
sobreviverá à noite.
Eu fiquei em silêncio, preso em algum lugar entre o choque e
minha raiva ardente. — Cassio?
— Estarei aí em breve. — Eu desliguei. Loulou pulou do meu colo
e eu corri para cima para acordar Giulia.
— Eu vou com você, — disse Giulia imediatamente.
Nós não acordamos as crianças. Eu não queria que eles vissem o
avô moribundo, especialmente se ele pudesse revelar a verdade em seus
últimos momentos. Elia vigiaria a casa enquanto estivéssemos fora.
Giulia me lançou olhares preocupados enquanto eu dirigia para o
hospital. — Você está bem?
— Não.
— Você ama seu pai, certo?
Eu fiz uma careta. Agora, minha raiva era a emoção dominante
em relação a ele, mas eu ainda o amava. — Ele foi um pai decente,
melhor do que muitos homens em nosso mundo. Ele tinha suas falhas,
mas eu também tenho.
— Então não deixe sua raiva estragar a despedida. O que ele fez
foi errado. Ele está doente há muito tempo. Isso pode ter influenciado
seu julgamento.
— Ele está querendo a verdade há anos.
— Eu sei. Mas ainda assim, não brigue com ele hoje. Que ele
morra em paz. Não apenas por ele, mas também por você.
Suspirei. Giulia era a alma complacente. Eu era mais um ser
vingativo. Eu assenti de qualquer maneira.
Ilaria esperava com a mãe no corredor. Ambas estavam chorando
e se agarrando uma a outra. Mamãe imediatamente correu na minha
direção e me abraçou com força. Eu dei um tapinha nas costas dela. —
O que aconteceu?
Mãe não conseguiu responder. Ela apenas balançou a cabeça e
continuou chorando.
Eu levantei minhas sobrancelhas para Ilaria. — Papai insistiu em
atender ligações de Luca e Felix hoje. Você sabe como ele é. Ele não
pode deixar os negócios pra lá, mesmo que você esteja no comando.
Depois disso, ele ficou chateado e isso levou a outro pequeno ataque
cardíaco. O corpo dele está muito fraco.
Eu assenti. — Ele está falando com Mia agora?
— Sim, — disse Ilaria. — Ele queria falar com cada um de nós
sozinho.
A porta se abriu e Mia saiu, com o rosto manchado de lágrimas.
Quando ela me viu, pareceu aliviada. — Você está aqui. Pai está
preocupado que você não viria.
— Estou aqui, — eu disse simplesmente. Giulia apertou minha
mão. Fui para o quarto do hospital, tentando reprimir minha raiva em
relação ao pai. No momento em que o vi deitado na cama, parecendo
frágil e como a sombra do homem que eu conhecera toda a minha vida,
desapareceu. Giulia estava certa. Hoje não se tratava de apresentar
acusações. Era sobre dizer adeus. Essa foi uma das coisas que Giulia
me ensinou: permitir a bondade quando eu pudesse me dar ao luxo, o
que não era frequente.
Os olhos do pai me seguiram enquanto eu caminhava até ele. Ele
parecia aterrorizado. Eu nunca o tinha visto assim. Ele era um homem
corajoso, um dos homens mais fortes que eu conhecia. Agora parecia
que uma palavra minha poderia quebrá-lo.
— Pai—, eu disse calmamente.
Toquei sua mão fina descansando frouxamente nas cobertas. Sua
expressão suavizou, e ele lentamente virou a mão para que pudesse
envolver seus dedos nos meus, apertando fracamente.
— Cassio. — A palavra era um sussurro rouco. Inclinei-me para
ouvi-lo melhor. — Eu só... só queria o que achava melhor.
— Eu sei. — Ele estava errado, mas eu também era culpado por
decisões erradas no meu passado.
— Eu sinto muito. Você pode me perdoar?
O perdão não era o meu forte. Eu não tinha certeza se poderia
realmente dá-lo a meu pai logo após os eventos, mas ele não tinha
muito tempo. — Eu perdoo. — Não era mentira. Eu realmente o
perdoaria. Hoje não, mas daqui a alguns meses ou anos. Ele fechou os
olhos brevemente e uma lágrima escorregou. Eu nunca tinha visto meu
pai chorar. Inclinei-me para frente e o abracei com cuidado. Ele apertou
minha mão novamente, ainda mais fraco do que antes. — Você pode
chamar…?
Concordei e pedi as minhas irmãs e minha mãe para entrar. Pai
morreu duas horas depois, cercado por sua família. Giulia estava certa.
Fazer as pazes com o pai não apenas o libertou, mas a mim também.
***
— Como está o nosso garoto? — Perguntei como fazia todas as
noites quando chegava em casa. Hoje à noite, eu não tinha conseguido
chegar para o jantar, uma ocasião rara. A data de limite de Giulia seria
em alguns dias. Após o funeral do pai e o aviso de Luca para Felix, as
coisas se acalmaram. Agora poderíamos olhar para o futuro.
— Bem, — ela disse suavemente, tocando sua barriga. — Mas
estou sempre com fome e sinto um desejo terrível por algo doce.
Eu acariciei sua orelha. — Assim como eu.
Giulia bufou. — Não esse tipo de desejo. Embora eu também não
me importe. — Ela me deu um sorriso tímido que foi direto para o meu
pau. Para minha sorte, o apetite sexual de Giulia não havia diminuído
nem um pouco durante a gravidez. Se possível, ela ficou ainda mais
insaciável. Daniele e Simona sentavam um ao lado do outro no sofá,
assistindo a um de seus canais favoritos do YouTube na TV. Loulou
estava encolhida ao lado deles.
— Daniele, Simona, vocês podem assistir outro vídeo depois
desse. Sua mãe e eu temos algo a discutir no andar de cima.
O rosto de Daniele enrugou, deixando claro que ele detectou a
mentira. Ele não era mais criança. Pelo menos, isso significava que ele e
Simona não nos perturbariam. Envolvendo meu braço com mais força
em torno de Giulia, eu a levei para cima.
— Você está ansioso, — disse ela com uma pequena risada.
— Eu te disse, desejo algo doce, e nós dois sabemos que você é
uma doce tentação à qual não posso resistir.
Giulia revirou os olhos enquanto desabotoava o vestido e o jogava
no chão do quarto. — Isso foi brega.
— Ajoelhe-se na cama.
— Você percebe que tenho cerca de nove quilos presos na minha
frente, certo? — Apesar de suas palavras, ela fez o que eu pedi. Era a
minha posição favorita para comê-la e a dela também.
Ela gemeu antes mesmo de eu tocá-la e não de prazer. — Acho
que temos que cancelar o sexo.
A ajudei a se levantar e o rosto de Giulia se contorceu.
Eu congelei. — O bebê? — Eu perguntei, minha voz calma,
mesmo que não estivesse. Tudo dentro de mim torceu e virou.
— Sim.
Passei um braço em volta de Giulia, firmando-a. Eu estava muito
nervoso, pela primeira vez na minha vida, minhas mãos não estavam
firmes. Depois de ajudar Giulia a se vestir, ligar para Elia e dizer a
Daniele para cuidar de Simona, eu nos levei ao hospital, o tempo todo
sussurrando palavras de conforto. Eu nem tinha certeza do que disse
exatamente, mal percebi a rua à nossa frente, mas cheguei lá em
segurança.
Eu nunca estive presente durante um parto. Gaia não tinha me
permitido testemunhar esse momento de um bebê nascer. Eu não
insisti porque queria que ela e nosso bebê estivessem seguros durante o
parto. Eu não a queria discutindo comigo.
Desta vez era diferente. Em todos os aspectos. Giulia me queria
ao lado dela, precisava de mim. Eu segurei sua mão através de cada
nova onda de dor, senti seu corpo convulsionar sob os impulsos dela,
maravilhado com sua força e sua capacidade de me presentear com seu
lindo sorriso sempre que ela conseguia uma pausa. Vê-la em agonia era
pior que pude imaginar, mas fiquei agradecido por ela ter me permitido
testemunhar isso.
— Mais um empurrão, — encorajou a parteira após quase cinco
horas de trabalho. Giulia apertou minha mão, seu rosto se contraindo.
Ela estava cansada e suada. O chão estava coberto de líquido, minhas
roupas estavam encharcadas de suor e sangue dela. Era uma bagunça,
e ainda o momento mais bonito da minha vida.
E então um grito ecoou. Fiquei tenso, prendendo a respiração ao
mesmo tempo em que Giulia relaxou de alívio. Eu olhei para o rosto
vermelho e suado de Giulia, contorcido de dor apenas momentos atrás,
agora cheio de uma felicidade que eu mal podia compreender. Seus
olhos estavam congelados no embrulho que a parteira segurava, mas eu
não conseguia desviar os olhos da minha esposa, da mulher que salvou
a mim e aos meus filhos de um caminho sombrio. Giulia me lançou um
olhar atordoado e, finalmente, afastei meu olhar dela para ver o
bebezinho que lhe causara tanta felicidade.
Ele estava enrugado e manchado de sangue, e dez sentido. Essa
felicidade no rosto de Giulia... lotou meu peito, me fez sentir quase
tonto com sua força. A parteira veio até nós e colocou nosso filho nos
braços de Giulia. Gabriel era lindo. Eu passei meu braço em volta dos
ombros de Giulia, beijando sua têmpora, cheio de mais gratidão do que
já me considerei capaz. O sorriso dela era puro amor, alegria
desenfreada.
Eu ficaria feliz com apenas dois filhos, mas agora que Gabriel
estava nos braços de Giulia, agora que testemunhei seu nascimento,
sabia que isso tornaria nossa vida ainda mais perfeita.

Giulia
Passar pelo trabalho de parto foi definitivamente suficiente, e por
isso fiquei totalmente agradecida por já termos três filhos, dois dos
quais não precisei parir. Eu amava Daniele e Simona de todo o coração,
e Gabriel se juntar à nossa pequena família não mudou isso. Ainda
assim, fiquei feliz por ter experimentado a gravidez, não tanto o
nascimento real, apenas uma vez.
No dia seguinte ao nascimento, Simona e Daniele visitaram o
hospital com Elia. Os dois encararam a forma adormecida de Gabriel
em seu berço, como se ele fosse um alienígena.
Eu sufoquei um sorriso. Cássio tocou seus ombros. Suas roupas
estavam enrugadas por passar a noite no hospital, e sua barba por
fazer parecia muito mais desgrenhada do que ele preferia, mas seus
olhos se iluminaram com orgulho. — Agora vocês tem um irmãozinho
para proteger. Isso significa que terão que parar de brigar o tempo todo
ou isso perturbará o bebê.
Daniele deu uma expressão duvidosa ao pai, olhando através
dele.
Boa tentativa.
— Você disse que ele seria bonito, mas ele é todo enrugado e está
perdendo a pele da cabeça, — disse Simona com o nariz enrugado.
Cassio suspirou. Com uma risada, saí da cama e caminhei
lentamente até eles, apesar da dor na parte inferior do corpo. — Ele é
um recém-nascido. É assim que eles se parecem. Eu o acho
incrivelmente fofo.
— Eu era um bebê fofo? — ela perguntou.
— Sim, — eu e Cassio dissemos ao mesmo tempo.
Daniele fez uma careta. Passei o braço em volta dele,
sussurrando: — Eu te amo. — Ele sorriu, abandonando quaisquer
pensamentos sombrios que o incomodassem. — Estou feliz que você me
deu um irmão e não uma irmã como Simona queria.
— Você precisa agradecer ao seu pai por isso.
Cassio estreitou os olhos para mim quando Simona e Daniele
olharam para ele em busca de respostas. Sorrindo, eu andei até ele. —
Talvez vocês precisem conversar sobre pássaros e abelhas em breve.
— Conversei com Daniele, e Simona não precisa saber de nada
até que ela tenha dezesseis ou dezessete anos.
Revirei os olhos. — Eu tinha dezessete anos quando ficamos
noivos.
— Não me lembre. — Ele beijou meus lábios, fazendo nossos
filhos fazerem caretas de nojo.
— Funcionou bem.
— Sim, — ele concordou, olhando para o nosso filho recém-
nascido adormecido.
***
À tarde, mamãe, papai e Christian vieram nos visitar. Eu tinha
visto meus pais no funeral de Mansueto, mas só trocamos gentilezas
públicas. Nós realmente não tínhamos conversado desde a nossa briga.
Provavelmente eles guardavam contra mim que pedi a Luca para
ameaçá-los. Por isso fiquei surpresa ao vê-los.
Cassio pairou ao lado da janela, sem cumprimentar nenhum dos
meus pais quando eles entraram. Ele apertou a mão de Christian, no
entanto, o que me fez sorrir. Meu irmão virou-se para mim e me
abraçou sem jeito porque Gabriel estava aninhado em meus braços. —
Parabéns. De Corinna também. Ela teria vindo, mas está se sentindo
frequentemente enjoada. — Sua esposa estava grávida do terceiro filho.
— Obrigada, — eu sussurrei.
— Mamãe e papai não vão lhe causar mais problemas. Conversei
com papai e deixei claro que ele precisava se controlar, se não quisesse
perder você e eu.
Uma onda de gratidão me inundou. Christian apertou meu ombro
antes de dar um passo atrás para dar espaço para mamãe e papai.
Mamãe rastejou em minha direção, seus olhos se enchendo de
lágrimas. — Oh, Giulia.
Sua alegria era sincera e entorpeceu meu ressentimento. Essa era
uma nova etapa da minha vida e eu não queria estar sobrecarregada
pelas bagagens do passado. Eu sorri. Ela me abraçou, tomando cuidado
para não esmagar Gabriel. Ela acariciou sua bochecha e pegou os dedos
minúsculos em sua mão. — Deus, eu esqueci como os bebês são
pequenos.
Papai esperava alguns passos atrás dela, parecendo desajeitado,
mas seus olhos também estavam cheios de emoção. Eu sorri para ele e
ele se adiantou. — Parabéns.
— Você não vai me abraçar?
Alívio cruzou seu rosto e, como mamãe, ele me abraçou
gentilmente. Ele realmente não sabia o que fazer com Gabriel, mas
acariciou sua cabeça uma vez antes de recuar.
O olhar de Cassio poderia ter congelado uma fornalha. — Espero
que você tenha ouvido o aviso de Luca.
— Cassio, — eu disse suavemente. — Meus pais nunca mais
mencionarão o assunto. Certo?
Eu olhei para eles com expectativa. Se eles me amassem, se
quisessem a mim e seu neto em suas vidas, esqueceriam o que
Mansueto lhes dissera.
Papai suspirou e assentiu. — Se for o seu desejo, levaremos o
segredo ao nosso túmulo.
— É.
Foi resolvido. Não voltamos a mencionar isso e, quando Simona e
Daniele se juntaram a nós mais tarde, meus pais os abraçaram e os
trataram quase como se fossem seus netos.
Isso era prova do quanto eles temiam me perder... e da ira de
Luca, mas eu me concentrei no primeiro, não no último. A vida era
decididamente mais agradável se você escolhesse se concentrar no
positivo e não no negativo. E eu tinha muito a agradecer.
Um marido amoroso, um cão razoavelmente bem-comportado e
três filhos maravilhosos.
Epílogo
Cassio
No passado, visitava a casa de praia da minha família para
encontrar paz interior e me lembrar da beleza da vida. Eu acordava
cedo para ficar na varanda e assistir o oceano rolar sobre a praia
branca, para ouvir o barulho calmo da água sem ser perturbado. Eu
sempre trazia trabalho comigo.
Hoje eu dormi. Algo que Giulia havia me ensinado. Já passava
das nove quando entrei na varanda. Giulia e as crianças já estavam de
pé. Risos vieram até mim da praia, não da quietude do passado. Eu não
sentia falta disso. Eu não vinha aqui para encontrar paz interior ou ver
algo bonito. A paz interior me encontrou quando Giulia entrou na
minha vida. Não precisava dirigir centenas de quilômetros procurando
uma casa de praia para isso. Agora eu só tinha que voltar para casa
com minha esposa. Bonita demais para palavras, por dentro e por fora.
Fechei os olhos, inclinando a cabeça para o sol da manhã,
deixando-o aquecer a parte superior do meu corpo e o rosto. Muitos
aspectos da minha vida continuavam sendo pontos escuros de
brutalidade, mas minha casa se tornou meu refúgio.
— Amor, você não se juntará a nós? — Giulia chamou.
Eu olhei para ela. Ela embalava nosso filho de dois meses com
um braço, enquanto a outra mão segurava seu enorme chapéu de sol
contra a cabeça. O vento soprava incansavelmente na coisa feia. Eu
tinha feito as pazes com suas roupas peculiares, mas algumas coisas
estavam além da minha tolerância.
— Amor?
Essa palavra não era um carinho casual nascido do hábito vindo
dos lábios de Giulia. Toda vez que ela dizia isso, tinha um significado.
Giulia abrangia a palavra ‘amor’, esse sentimento, em toda ação,
todo sorriso, toda fibra do seu ser.
Fui até ela, a areia agarrada aos meus pés descalços enquanto
atravessava a duna para a praia. Simona e Daniele estavam dando um
mergulho no oceano frio, se perseguindo e rindo. Fazia calor no final de
outubro, mas a água estava gelada. Em casa, na Filadélfia, esses
momentos de despreocupação infantil eram poucos e distantes para
Daniele. Aos doze, quase treze anos, ele estava a pouco mais de um ano
de se tornar um Homem Feito, seu décimo quarto aniversário marcaria
o dia de sua indução. Seus olhos me encontraram brevemente, e ele me
deu um sorriso de menino antes que Simona jogasse água em seu rosto
e a perseguição deles continuasse. Juntei-me a Giulia, passei um braço
em volta de sua cintura e agarrei a mão segurando seu chapéu para
puxá-la contra meu corpo, Gabriel entre nós. Uma rajada de vento
levou o chapéu de palha para longe até que apenas o amarelo brilhante
de um grande girassol piscou ao longe.
Giulia me deu um olhar indignado. — Você fez isso de propósito.
Eu a beijei e ela amoleceu contra mim. Giulia me entregou
Gabriel, que me olhou com meus olhos azuis escuros. Encheu-me de
orgulho ao ver nossas semelhanças físicas, mas não era mais forte do
que o orgulho que sentia quando Daniele e Simona faziam algo que eu
lhes havia ensinado, como jogar sinuca. Ambos eram muito bons nisso.
Eu amava os três igualmente.
— Eu tenho mais chapéus assim, — disse ela intencionalmente.
— Eu sei. Já me conformei com o seu amor pelos girassóis. —
Giulia havia plantado várias daquelas flores gigantescas em nosso
jardim. O que antes era um gramado bem cuidado agora estava cheio
de brinquedos (para as crianças e Loulou), flores silvestres e aquelas
atrocidades amarelas. — Você trouxe o caos para a minha vida.
— Você gosta do meu tipo de caos.
Daniele e Simona continuaram a perseguição na praia. Loulou
saltou do seu lugar em uma espreguiçadeira e juntou-se a eles com
latidos alegres. O chão da nossa casa de praia estaria coberto de areia
hoje à noite. No passado, isso teria me deixado furioso.
— Eu gosto. Mais do que qualquer outra coisa, eu amo a nossa
vida. É perfeita aos meus olhos.
Giulia beijou meu peito sobre meu coração e depois a testa de
Gabriel. — Nós a fizemos dessa forma. Trabalhamos todos os dias para
que continue assim. Felicidade é uma escolha.
Eu não tinha certeza se isso era verdade para todos, mas para
mim, especialmente desde que Giulia havia entrado na minha vida, era.
Giulia ainda pintava quase todos os dias e até fazia cursos para
melhorar seu ofício. Em um deles, o professor pediu que criassem uma
pintura que expressasse sua visão de felicidade.
Giulia pintou nossos filhos, Loulou, e eu dando um passeio na
praia.
Era simples assim. Sempre que olhava para a foto de Giulia e
nossa pequena família que carregava na carteira, um sentimento
avassalador me enchia: felicidade.

Fim