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Índice

TOPS
Sádico
 Sadomasoquismo e romantismo, a capacidade mágica de erotizar o planeta. 256

CKJ
 DOMINAÇÃO A arte do poder 258

Votan
 BD (BONDAGE E DISCIPLINA) 259

Helga Vany Freyja


 A "FEMINA SUPREMA" e o 24/7 263

MasterDreams
 Sonho Real 269

Ulysses
 Testando a Candidata 271

Lord Conrad
 Como me tornei um dominador 271

BOTTOMS 273

RELATOS
Flavinha
 Nosso Primeiro Encontro 273

Cadella
 A Despedida 274
 A Viagem 280
 Entalada 283
 Te aceito sempre… 285
 O Plug 287
 Ser tua… Apenas tua… 289

william
 No Seu Castelo 292

lan@
 Dependência Ou Submissão 295
Liu
 A Mumificação 297

Mégara
 A Alma Submissa 299
 A Entrega 302

TEORIAS
Ian@
 Confiança 309
 Relações BDSM 312
 Sedução: Esse Estranho Poder 316
 O Simbolismo Da Coleira Para Um Submisso(A) 320
 A Condição Dialética Da Relação D/S 324

Danna
 Ciúme 326

Vitar@
 Limites e Segurança 328
 De iniciante para iniciante 329

Autora anônima
 Direitos de uma escrava 330

TEORIAS 332
 Dez Pontos Básicos Sobre A Liberdade Sexual 332
 Além Do Bem E Do Mal 333
 Arthur Koestler E Cynthia Jefferies: Um Caso De 24/7 Inconsciente? 335
 Abuso E Consenso Numa Relação D/S (Edgeh) 340
 Abuso E Consenso Numa Relação D/S (bee_a) 343
 Os Alicerces De Um Relacionamento São, Seguro E Consensual 344
 Mentor? 345
 Bdsm X Comportamento 1ª Parte 348
 Bdsm X Comportamento 2ª Parte 350
 Bdsm X Comportamento 3ª Parte 352
 Bdsm X Comportamento 4ª Parte 354
 Bdsm E A Lei Brasileira 357
 Bdsm E Suas Afinidades Com O Jogo 358
 O Emblema Bdsm 362
 Consciente, Seguro E Consensual 1ª Parte 363
 Consciente, Seguro e Consensual 2ª Parte 368
 Bem-Vindo Ao Jogo Parte 1 374
 Aproximações Bdsm Às Reflexões De Sartre Referentes À Atitude Para Com 377
O Outro Parte 1
 Aproximações Bdsm Às Reflexões De Sartre Referentes À Atitude Para Com 378
O Outro Parte 2
 Pensando O Sm Gay No Brasil (Porque Não Saímos Do Armário Ainda!) 381
 Um Estudo Sobre A Fisiologia Do Desejo Sexual Masculino 383
 Um Estudo Sobre A Fisiologia Da Resposta Sexual Feminina 387
 Moral E Bdsm 1ª Parte 389
 Moral E Bdsm 2ª Parte 395
 Neo-Sexualidade E Sobrevivência Psíquica 400
 O Poeta, Nós E O Teatro Da Mente 407
 Prazer E Dor 409
 Práticas Sexuais Ditas “Desviantes”: Perversão Ou Direito À Diferença? 412
 Regressão Vs Submissão 425
 Tabus E Sadomasoquismo: Ruptura E Inspiração 426
 Amor E Bdsm - Condição Essencial? 439
 Para Que Serve O Amor? 441
 Vai Passar? 444
 O Que É Gor? 445

TÉCNICAS
 Conhecendo Os Mistérios Do Shibari 448
 Conhecendo Os Mistérios Do Shibari 2ª Parte O Shinju 450
 Informações Básicas Sobre Spanking Parte 1 451
 Informações Básicas Sobre Spanking Parte 2 454
 Técnicas de "Spanking" 458
 Características De Utilização Dos Diferentes Instrumentos De Spanking: 462
Mãos, Raquetes E "Paddles"
 Características De Utilização Dos Diferentes Instrumentos De 464
Spanking Açoites E "Flogs"
 Características De Utilização Dos Diferentes Instrumentos De Spanking: 465
Chicotes De Montaria (E As "Guascas")
 Características De Utilização Dos Diferentes Instrumentos De 466
Spanking Chicotes De Couro Trançado (De Tamanho Variável)
 Características De Utilização Dos Diferentes Instrumentos De Spanking Vara 467
De "Rattan" (Também Existem Modelos Em Acrílico E Em Fibra De Vidro)
 Características De Utilização Dos Diferentes Instrumentos De 468
Spanking Fotos De Meus "Brinquedinhos"
 Eletro-Estimulação - Parte I 471
 Eletroestimulação - Parte II 477
 A Lista Eletrostim & Faqs 489
 A Compra De Acessórios E Equipamentos Em Sex-Shops: Cuidados E 491
Precauções Parte 1
 A Compra De Acessórios E Equipamentos Em Sex-Shops: Cuidados E 496
Precauções Parte 2
 Acessórios Eróticos - Explorando E Conhecendo Sua Intimidade 499
 Dildos Silenciosos E Cenas Públicas – Como Evitar Ser Denunciado 504
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TOPS

Tops, Dominadores e Sádicos


Dominadores(as), Sádicos(as) e Switchers são aqui
convidados a, de um lado, relatarem suas experiências e suas
"cenas"; e, de outro, a exporem suas ideias. O espaço está,
democraticamente, aberto a todos.

Teoria
Sadomasoquismo e romantismo, a capacidade mágica de
erotizar o planeta
Sádico

Sabemos que a sexualidade humana é humana na medida em que nos afasta da função
da reprodução. Iidentificamos o prazer sexual com este afastamento - quanto menos animal,
mais prazer.
Um desses afastamentos nos interessa particularmente: a capacidade de erotizar o
planeta.
Só nós humanos podemos fazer isto, e apenas dois estilos de erotismo o fazem de
maneira sistemática e consciente: o Romantismo e o Sadomasoquismo. Senão, vejamos.
Quando o romântico recolhe no alto do morro uma flor para sua amada, empresta
àquela flor o poder de falar por seu amor. Quando a amada leva a flor consigo, a deposita
dentro de um livro de cabeceira, olha lânguida para ela antes de dormir, imantou a flor com o
seu amor, com o seu amado; ou ainda, recebeu e aceitou a simbologia que o amado inventou.
O casal foi capaz de extravasar seu amor, seus desejos, seu erotismo para o resto do planeta,
para os objetos - qualquer objeto: roupas, presentes de todos os tipos, o guardanapo do
restaurante onde ele/a me disse "sim". Tudo está à disposição e é utilizado para representar,
expandir, re-significar o amor e o desejo do casal.
Ao contrário do romantismo, no sadomasoquismo o uso de objetos variados é portador
de um certo preconceito, principalmente pela falta de conhecimento de sua função (e diga-se
de passagem que por vezes o preconceito assalta inclusive os praticantes do BDSM).
Mas o que ocorre aqui é exatamente a mesma coisa que ocorre com o romantismo. Ao
penetrar sua parceira com um objeto comprado em um sex-shop (eu particularmente prefiro
257

adquirir estes brinquedinhos no supermercado da esquina), ao comprar e utilizar um


chicotinho, ao utilizar lenços ou cordas ou fios para amarrar o parceiro.
Vis a vis à pratica de ser amarrada/o, de apanhar com chicote ou palmatória, de ser
penetrada por um socador de caipirinha. Ambos, senhor/a e escrava/o estão erotizando o
planeta à sua volta, seus afetos, seus desejos. Seu tesão agora se espalha pelos objetos da
cena, da casa, do planeta. Uma/um boa/m escrava/o se excita ao entrar no supermercado
onde buscou brinquedinhos com seu/sua dono/a. Um/a bom/a senhor/a idem. Os amantes
trocam olhares lascivos ao enxergar um destes objetos quando estão andando pela rua.
Se isto não é visto assim, é graças à duas confusões teóricas encontradiças nas ciências
humanas - na psicologia e na economia.
Na psicologia, desenvolveu-se a noção de fetiche, advinda da psicanálise. Ocorre que
este conceito significa a substituição do objeto erótico pelo objeto, digamos, inanimado. Se eu
gosto de calcinhas de mulher ao invésda mulher mesma, então estou fetichizando (a palavra
vem de feitiço, ou seja imantar as coisas das propriedades que elas não tem). Vai daí que se
confundiu a propriedade humana de humanizar o mundo, com a patologia de substituir o
mundo humano pelo mundo das coisas.
E na economia, especificamente na economia política, Marx importou a mesma noção
para denunciar a alienação da mercadoria, onde os homens passam a idolatrar os bens, outra
vez, no lugar das pessoas.
Com isto, infelizmente, perdemos a possibilidade de admirar este feito maravilhoso da
consciência humana - a capacidade de abranger o mundo com nossos sentimentos, de
emprestar às coisas o nosso modo de ver e de sentir. Por isto o romântico é ridicularizado e o
sado-masoquista execrado quando usa objetos para demonstrar, simbolizar, mimetizar o seu
amor, o seu desejo, o seu tesão. Mas se a consciência execra a pratica, o corpo a sacramenta,
as glândulas reagem, e os mamilos apontam da mesma forma quando uma mulher romântica
enxerga uma flor ressecada ou quando uma escrava acaricia um chicote.
Eis uma das boas razões pelas quais romantismo e sadomasoquismo são modos tão
intensos de amar, tão apaixonantes, tão radicais: Ambos tem a propriedade de vestir o planeta
com o seu amor, de colocar o mundo a serviço de seus sentimentos, de exercer com plenitude
o que os humanos temos de mais humano.
Sádico
sadico@uol.com.br
258

Dominação, a arte do poder


CKJ

"Dos infinitos desejos do homem,


os principais são os desejos de poder
e de glória."
Bertrand Russell

Em sua definição sobre poder, J.K.Galbraith, diz :


"O poder - a habilidade de um indivíduo ou de um grupo
conseguir a submissão de outros a seu propósito."
O exercício da Dominação requer, antes de mais
nada, competência. Esta competência manifesta-se na
forma pela qual o Dominador submete sua escrava a seus
propósitos.
Tal habilidade é necessária, posto que uma relação D/s requer percepção e
sensibilidade, sem as quais pode se incorrer em graves distúrbios psicológicos, que afetarão a
ambos : Dominador e submissa.
E, entre ambos, deve existir total confiança. A submissa manifesta sua entrega de forma
plena somente quando existe total confiança na relação.
E confiança é algo que se adquire, que se conquista.
Percebendo a essência de sua submissa (isso só será possível através de muita
sensibilidade), compete (daí a necessidade de muita vivência e prática de vida) ao Dominador
conduzir a relação, potencializando toda oportunidade de prazer.
Ao conduzir o processo, o Dominador elimina todas as barreiras existentes. De forma
hábil, sutil. Ele invade. Estende este momento, posto que, o prazer provocado pela tomada de
posse é indescritível. Momento elaborado. Pleno em detalhes. A submissa, muitas vezes sem
dar-se conta, se posta, reverencia e se entrega. Nem sempre admite que esta sendo tomada.
A responsabilidade. a partir desse momento. é imensa. O Dominador, com as mãos nas
entranhas de sua submissa, serve-se do prazer na forma que mais lhe convém. Poucos têm a
ousadia de tornar o jogo ainda mais fascinante. Instruindo sua submissa, o Dominador
permitirá que momentos ainda mais intensos sejam vividos. Cada vez mais a submissa lança-se
em um pulo no escuro, sabedora que braços fortes a amparam. Mais uma vez a competência
se faz presente.
Cada qual estabelece a melhor relação para si. Mas é inegável que a relação não permite
manifestações de dúvidas, fraquezas e, acima de tudo, incompetência.
Prazer é algo singular.
Saber potencializá-lo é uma arte.
259

BD - (Bondage e Disciplina)
Votan
"As únicas liberdades às quais os seres
humanos são sensíveis são aquelas que
jogam 'o outro' numa servidão
equivalente. E, aliás, como se sabe, uma
paixão incondicional pela liberdade
certamente provocará no mundo, e
bem depressa, conflitos e guerras não
menos incondicionais."
Jean Paulhan

Agora, transportemos o pensamento acima


para um relacionamento a dois e a mistura é
completamente explosiva.

Coação erótica

"A força não faz parte do contexto do sadismo ou do masoquismo, nem faz parte
do fetichismo, da dominação ou da submissão. Mas é uma atividade normal e
corriqueira. Faz parte do dia-a-dia das pessoas. A força é parte da relação de
poder, mas no BDSM o poder não é tomado, é concedido. E não há sequer um
adepto do BDSM que não se sinta, de alguma forma, fascinado por esta relação."
(Delmonica).
A atitude de segurar ou restringir o(a) parceiro(a) durante o sexo é tão velha quanto o
mundo. Um número incalculável de espécies segura ou imobiliza o(a) parceiro(a) durante o ato
sexual. Escorpiões, aranhas, leões e alguns macacos têm um complexo jogo de imobilização e
sujeição erótica durante o acasalamento. Mas não podemos assumir que estes animais têm
atividades BDSM. Este é um jogo elaborado e executado exclusivamente pelos humanos.
Um aspecto aparentemente contraditório do BDSM é a coerção erótica.
O(a) submisso(a) que deseja viver uma relação BD, em seu sentido de escravidão e
disciplina, aceita e, portanto, torna consensual, a condição de 'escravo'. Leve-se em
consideração que para atingir esse ponto, a relação, o conhecimento mútuo, o entrosamento e
a maturidade entre os parceiros deve estar em um patamar elevado. Ou seja, tornar-se BD
requer tempo. Pois só o tempo trará o conhecimento (associado ao autoconhecimento), e só o
conhecimento levará, neste caso, à consensualidade específica do BD.
Explico melhor: quando o desejo de possuir ou ser possuído vem à tona na relação é
preciso que fique claro que a consensualidade aqui assume um caráter definitivo. O(a)
'escravo(a)' é uma propriedade, portanto faço com ele o que quero, pois ele aceitou a
condição de ser possuído, de ser meu. Por outro lado, assumo um voto extremo de confiança
que me foi dado (porque sabe que o conheço, porque tem confiança em minha experiência,
260

em minha técnica, em minha habilidade para conduzi-lo em um mergulho de confronto


consigo mesmo). Confia em minha habilidade de conduzi-lo de maneira sadia em momentos
em que emergem possíveis carências ou problemas com a auto-estima; confia em minha
sensibilidade para quebrar suas barreiras e no meu potencial para cuidar do que é meu.
Explico estes detalhes pois sempre pensamos no 'escravo' sendo forçado ou obrigado a
uma atividade contrária ao seu desejo, e por fazer sob força, ou recusar-se a obedecer, é
castigado.
Coação erótica é baseada em consentimento mútuo. Mas, como disse, uma
consensualidade definitiva, explícita no momento em que se aceita a condição de 'escravo' e
'dono', e implícita a partir daí. Onde o que valerá será o conhecimento que um tem do outro,
dos desejos, dos limites e do respeito entre parceiros.
Aí temos um paradoxo. Se é baseada em consentimento mútuo, como acreditar que
alguém está obrigando alguém a fazer algo "forçado"?
A resposta é que a fantasia é um dos ingredientes mais importantes para o BD, e o(a)
dominador(a) sensível tem a responsabilidade de tornar a cena o mais real possível. Já o
'escravo' deve corresponder de maneira comprometida com o jogo, pois mesmo numa posição
de submissão ele é fator atuante, e deve ter consciência disto para manter o clima do jogo.
Cabe ao dominador controlar e modificar a grande quantidade de variáveis que existem no
complexo jogo da dominação e posse. O inusitado, o surpreendente, o erótico, o temor, são
variáveis básicas que o(a) submisso(a), em contrapartida, deve ter a habilidade de deixar que
tomem conta de sua mente, bem como a fantasia de acreditar na situação proposta pelo
dominador.
A coação erótica é uma forma singular de atingir profundamente os mecanismos de
prazer do ser humano. E, por ser profunda, precisamos estar atentos às reações do escravo,
pois seus sentimentos e suas dificuldades devem ser respeitados.

Estar BD ou ser BD?


Não encontramos, frequentemente, em comunidades BDSM, grupos que vivam
situações de BD no sentido literal da palavra: bondage como escravidão e disciplina).
Encontramos, sim, práticas de BD em festas ou rituais.
Ou seja, ninguém é BD; pessoas podem estar em situações de BD por determinados
períodos de tempo. O que já não acontece no DS (Dominação e Submissão). Pode-se ser DS 24
horas por dia e pode-se estar em situações de DS.
No mundo atual, optar por viver uma situação em que devemos nos portar e agir como
escravos 24 horas por dia é irreal. Até porque para um dominador conhecer cada vez mais e
melhor seu 'escravo' ele precisa dos momentos onde não se está BD, para concatenar as
fantasias, saber do outro, ter o feedback do que o outro busca, o ajuste. Este ajuste é
contínuo, para que a quebra de barreira, que é um dos ingredientes constantes no BD, assim
como a coação, possam acontecer de uma maneira segura, para que ambos tenham sempre
261

novos elementos para serem trabalhados, conversados, para o próximo momento em que se
'estará' BD.
Podemos estabelecer cenas ou períodos de tempo determinados em que situações de
escravidão podem ser aplicadas: um fim de semana, um dia, uma cena em uma Play Party. Mas
não uma situação de escravidão permanente. Até porque dentro da cultura SM, o Bondage
está quase sempre associado à disciplina. Onde o prazer de castigar para corrigir é mútuo. De
quem imputa e de quem recebe o castigo.
Popularmente, Bondage está associado com restrição de movimentos, com o uso de
cordas, algemas e uma infinidade de aparatos que visam a imobilização do(a) submisso(a). E,
através da imobilização, pode-se aplicar castigos e medidas de disciplina.
Tolher movimentos desde os mais remotos tempos de nossa civilização representa uma
imposição da vontade do senhor para com o submisso. Era assim nas galés romanas, onde
remadores eram escravos presos aos remos; depois, na Idade Média, com os escravos
africanos e a desumanidade dos navios negreiros e o trabalho forçado tanto na Europa como
no novo mundo.

Disciplina
Na comunidade BDSM a disciplina e os castigos advindos como corretivos pelas faltas
são os objetivos de muitos dominadores e submissos.
Os dominadores disciplinam para treinarem seus escravos e vivenciarem o que lhes dá
prazer (dominar), e estes para agradarem seus donos e, de uma maneira simplista,
vivenciarem situações que lhes causem prazer. O ato de se colocar um submisso em seu colo e
aplicar palmadas nas nádegas como forma de disciplina (aliás, a mais básica e antiga) ,
atravessa pelo menos 3 aspectos importantes dentro do BDSM, passa pelo BD, onde se está
aplicando um castigo para corrigir uma falta, passa pelo DS no dipolo do dominador(a) -
submisso(a) e passa pelo SM no ato físico de provocar a dor pelas palmadas. Dissociá-los? Não
há como.
Podemos intuir, então, que não existe BD exclusivamente. Mas, sim, que BD está
contido dentro da filosofia do DS e do SM, onde BD é meio, e não fim. Meio de se atingir
propósitos ou fronteiras. Meio de humilhação.
"Poucos são os dominadores que não sonharam possuir um personagem Sadeano
como Justine. Mas nenhum(a) submisso(a), que eu saiba, desejou ser Justine. Não
em voz alta, com esta altivez do gemido e das lágrimas, com esta violência
conquistadora, com esta avidez pelo sofrimento e com esta vontade feita de uma
tensão que leva ao dilaceramento e à desintegração."
Porque aí estaríamos falando de ficção, o que, certamente, terminaria em patologias e,
portanto, em uma realidade contrária à filosofia do BDSM, que é o erotismo saudável e a
realização de fantasias com segurança.
262

Realidade x ficção
Dentro da literatura de Sade temos a vítima, não o escravo ou o submisso. E, a partir do
momento que a vítima se identifica, tem prazer, aprecia (como em Filosofia na Alcova, a
personagem Eugénie), passa para o grupo dos libertinos e começa a ser iniciada na filosofia. A
virgem Eugénie, em sua ansiedade, fala à Senhora de Saint-Ange: "Oh, minha boa amiga, achei
que jamais chegaria, tanta a pressa de estar em seus braços...".
Eugénie ficará apenas dois dias com a Senhora de Saint-Ange, e esta acha o tempo
curto, ao que Eugénie replica: "Ah, se não souber de tudo ficarei... Vim aqui para instruir-me e
só irei embora quando for sábia".
Um dos maiores perigos dentro do BD é um(a) dominador(a) ou submisso(a) novato ler
a famosa "História de O", de Dominique Aury, e acreditar que aquela situação irreal e
inverossímil deve ser o seu modelo de dominação ou que todos os dominadores serão Sir
Stephens e todas as submissas serão "O's" ou Justines de Sade.
"Leio a história de O como se fosse um conto de fadas (todos sabem que os
contos de fadas são os romances eróticos das crianças), como nesses castelos que
parecem completamente abandonados, mas onde, entretanto, as poltronas com
seus couros, os tamboretes e os leitos de colunas não têm um grão de poeira e
onde já encontramos as chibatas e os chicotes; eles aí estão, como se estar aí
fosse próprio de sua natureza. Não há suspeita de ferrugem nas correntes, nem
de umidade nos azulejos de todas as cores." - Jean Paulhan.
Estas cenas são irreais. Não existem no dia-a-dia dos envolvidos com o BDSM.

Relacionamento?
A sinergia do relacionamento, qualquer que seja ele, faz com que limites, anseios,
frustrações e desejos devam ser conversados, expressos e explicitados. Ninguém tem uma
"bola de cristal" para adivinhar o que se passa na cabeça do parceiro.
E ninguém põe a entrega ao outro acima de si próprio. Para dominar, exercer ou
elaborar uma cena de punição, assim como para ser punido ou participar de uma cena de
escravidão e disciplina, deve existir segurança, consensualidade e sanidade.
Não deixa de haver grandeza e, inclusive, alegria em abandonar-se à vontade de um
outro (como acontece com os apaixonados e os místicos) e em ver-se, enfim!, aliviado de seus
prazeres, interesses e complexos pessoais.
Alguém pode então lembrar-se de masoquismo. Seja, não é mais que acrescentar ao
verdadeiro mistério um mistério falso, de linguagem. Que quer dizer "masoquismo"? Que a
dor é ao mesmo tempo prazer, e o sofrimento, alegria? Pode ser. Dizem os masoquistas, trata-
se realmente de uma dor, mas que estes sabem "transformar" em prazer; trata-se de um
sofrimento do qual se desprende, por alguma química cujo segredo eles possuem, uma pura
alegria.
263

Termino este texto de Bondage & Disciplina me apropriando do trecho de um


conhecido, se não for "o mais conhecido" livro sobre BD, "A história de O":
"Uma singular revolta ensanguentou, no correr do ano de mil oitocentos e trinta
e oito, a tranquila ilha de Barbados. Cerca de duzentos negros, tanto homens
como mulheres e todos recentemente promovidos à liberdade pelos Decretos de
março, vieram uma manhã pedir ao seu antigo senhor, um certo Glenelg, que os
retomasse como escravos. Foi feita a leitura do caderno de queixas, redigido por
um pastor batista que os acompanhava. Em seguida, engajou-se a discussão. Mas
Glenelg, fosse por timidez, por escrúpulos ou simplesmente por medo das leis,
recusou-se a se deixar convencer. Por isso, a princípio foi gentilmente empurrado,
e depois massacrado com toda a sua família pelos negros que nesta mesma noite
voltaram às suas cabanas, às suas tagarelices e aos seus trabalhos e rituais de
costume. O caso pôde ser rapidamente abafado graças às diligências do
Governador Mac Gregor, e a Libertação seguiu seu curso. Quanto ao caderno de
queixas, nunca mais foi encontrado."

A "Femina Suprema" e o 24/7


Helga Vany Freyja

Introdução

Aceitei de bom grado o convite formulado


pelo "Desejo Secreto" para escrever um artigo
sobre o 24/7 e, de quebra, sobre o que é
o conceito " Femina Suprema". Antes porém de
entrar mais especificamente nesses assuntos,
quero traçar algumas preliminares que talvez
facilitem o entendimento e possam evitar
interpretações distorcidas por preconceitos
bastante arraigados em nossa cultura machista.
O entendimento de um conceito demanda
bastante reflexão, embasada em dados colhidos
de experiências concretas e sempre após
observação acurada. E esta reflexão também traz
como elementos subjacentes, as bases teóricas
conhecidas que, como tal, estão sujeitas a
interpretações variadas.
Mesmo quando se utiliza metodologia
científica experimental, os fenômenos
264

resultantes de ações que permitam o controle de grande número de variáveis conhecidas,


necessitam do imprescindível estudo estatístico, para que se possa aventar qualquer tipo de
"verdade científica".
No que se refere ao comportamento humano, as variáveis são bem mais complexas e
extremamente difíceis de serem influenciadas por controle externo. Daí os cuidados ainda
maiores que se deve ter na interpretação de comportamentos, sob pena de que sejam
formuladas conclusões apressadas, e que possam vir a se tornar "verdades" estabelecidas. E a
história está cheia de eventos que comprovam tais considerações.

Conceitos básicos
Tendo em mente esse preâmbulo, necessário para que não se entenda o que vem a
seguir como um conjunto de "regras ou normas" absolutas, coloco alguns pontos de como vivo
(experiência vivida) um relacionamento 24/7 (ou seja, não existem apenas em "cenas com
hora marcada" ), sob a égide da Dominação Feminina como estilo de vida, tendo como
embasamento conceitual o que pode ser chamado de "Femina Suprema".

"Femina Suprema" ou "Supremacia Feminina" não é 'papo', por vezes


levianamente comentado, mas trata-se de um conjunto de valores ditos
"femininos" que norteiam, não só nossa relação (minha e de zepierre, com quem
sou casada), mas nosso estilo de vida, isto é, o modo pelo qual eu e ele, livre e
refletidamente, encaramos o mundo. E temos muitas outras amigas e amigos que
também compartilham conosco esses conceitos, e até mesmo as vivências,
incluindo cenas de Dominação/submissão, onde os componentes SM são postos
em prática, coisa que também fazemos em nossa intimidade. Portanto, não só
não "me sinto", como não estou sozinha neste discurso. Atualmente, e por uma
feliz coincidência, um dos "best-sellers" mais comentados é o livro "Todo Poder às
Mulheres - Esperança de Equilíbrio para o mundo" do médico-escritor Marco
Aurélio Dias da Silva, (Ed. Best-Seller) que conceitua muito bem tais valores
femininos, contrapondo-os com os ditos "valores masculinos". [Vale a pena ser
lido pois possibilita o entendimento maior dos marcos conceituais que tentam
quebrar as "verdades" estabelecidas pelo velho paradigma "machista-patriarcal"].

A busca da felicidade é a procura de se viver dentro do princípio da realidade interna de


cada um. Dentro da verdade íntima que deve ser encarada com coragem e determinação, para
que possamos estar livres no arbítrio de direcionarmos nossa própria existência, e definirmos
nosso estilo de vida. O que costumo chamar de "quebras de paradigmas ancestrais" é
justamente a troca desse poder dominante por uma forma mais "feminina" de viver : os
valores que possam substituir a agressividade sobejamente existente e desgraçadamente
sentida nos ditames da sociedade ocidental. Não quero com isso dizer de um modo
maniqueísta que "feminino" é bom e "masculino" ruim. Não é isso. A agressividade é
265

importante e deve existir, mas ser canalizada para o bem comum, para a agregação
interpessoal, e não para uma competição desenfreada em busca de valores materiais,
predatórios, autoritários que criam uma ilusão de poder. Deixemos a solidariedade, a
compreensão, a generosidade, a bioética, direcionarem nossa existência.
Além de mulher, mãe, filha, atuando profissionalmente na área da educação, cultura e
saúde, sou também uma dominadora não profissional que vive há quase 10 anos a Dominação
Feminina como estilo de vida, desenvolvendo com meu marido/escravo, uma relação D/s,
onde componentes SM são utilizados porque ambos temos prazer em praticar tais métodos,
numa maneira consensual (portanto há limites acordados e não impostos por nenhum de nós),
sã e sadia, pois há a preservação da integridade física e psíquica, com especial atenção à
preservação do ego de cada um de nós.
E vivemos também, consensualmente e de um modo que procuramos aprofundar a cada
dia, uma relação interpessoal instigante para nós mesmos, a muito comentada relação 24/7. E
o que é isso em nossa vivência? Trata-se de uma opção consciente de "troca de poder", ou
seja, procuramos aprender e desenvolver como estilo de vida, valores que são, digamos,
divergentes dos paradigmas vigentes em nossa sociedade de cultura predominantemente
patriarcal, autoritária e competitiva. Essa ruptura de paradigmas ou troca de poder segue um
norte dado por valores ditos femininos, que podem ser sintetizados no conceito "Femina
Suprema". Esse conceito, insisto, não é a colocação competitiva de que "a mulher é superior
ao homem", o que apenas trocaria de sinal o que existe no bojo da cultura patriarcal que, em
seus preconceitos seculares, advoga uma absurda superioridade de gênero. O conceito
de "Femina Suprema" é o de supremacia do Feminino. O "poder que está acima de tudo"
dentro do humano (não falo em divindades) é o Feminino, são os valores femininos. É a
entrega do homem e seu ancestral poder cultural, ao poder de acolhimento, orientação,
direção, que tem como sentido os valores femininos. A agressividade, a competição, a ânsia
pelo poder passam a ter menos valor que a cooperação, a solidariedade, a generosidade, a
ética nos relacionamentos. Isso parece utópico, mas se lembrarmos que a sociedade é
construída por ações cotidianas, poderemos estar contribuindo para a transformação de
consciências, e daí, da realidade. Portanto, o fato de nós vivermos o 24/7 significa que
embasamos nossa vida nessa "troca de poder". E isso trouxe paz, benquerença e felicidade a
nós (e a algumas pessoas que nos cercam, sejam parentes, amigos ou companheiras(os) de D/s
SM).
Assim, 24/7 é, para nós, a vivência de novos paradigmas no cotidiano de um casal que se
respeita, admira e, fundamentalmente, se ama. Não é a absurda fantasia de uma "cena
eterna" de chicoteamentos, castigos, punições, obediência cega de um masoquista destituído
de vontades e castrado em sua personalidade para uma Dominadora insanamente sádica. Esse
é o meu ( e também de zepierre) modo de entender a D/s, onde a mulher é a figura dominante
da relação, e não somente de uma cena eventual.
E também é útil assinalar que, como qualquer outra relação interpessoal, trata-se de
um processo contínuo e dinâmico, onde os eventos e, principalmente, os sentimentos e as
sensações são captadas e discutidas, com o sentido maior de promover, sempre e sempre, a
melhoria da própria relação em si, onde nossa felicidade e nosso prazer possam ser cada vez
266

mais aprofundados. Confiança, respeito, cumplicidade, lealdade e, principalmente, amor são


fundamentais para que se possa viver uma relação D/s, 24/7, um estilo de vida.

O cotidiano lúdico na Dominação Feminina 24/7


Nosso envolvimento começou como muitos outros. Há cerca de 10 anos, numa reunião
social, os primeiros contatos permitiram o início de um namoro. Mas as características
dominantes de minha personalidade mostraram a zepierre, logo nos primeiros encontros, que
ele finalmente encontrara a "mulher de seus sonhos". A Dominadora que buscara por mais de
20 anos. Daí em diante, só houve o aprofundamento da relação nos moldes já comentados, e,
aí vem outro ponto importante, também no lúdico, ou seja, aconteceu a introdução e o
aprofundamento dos jogos SM, que são, também, nossa forma de prazer.
E como é, na prática diária, o relacionamento de Dominação Feminina, 24/7, em nossa
vida?
zepierre é um profissional bastante respeitado em sua área profissional, tendo atuação
em funções que demandam grande poder de decisão e comando sobre muitas pessoas. Por
outro lado é muito bem relacionado com a família (irmãos e filhos já adultos), exercendo
também um papel de liderança entre seus familiares consaguíneos. Mas, em nossa vida íntima,
é meu submisso assumido, meu marido-escravo.
Nosso cotidiano é quase o mesmo de todos os casais, com a diferença de que a
Dominação Feminina rege nossos atos, e os componentes SM estão muito presentes, seja
como punições por comportamento inadequado, seja como jogos que fazemos nos finais de
semana (quase todos), ou em reuniões com outras pessoas D/s SM, ou até em ocasiões sociais
comuns, mas dentro de nossa intimidade.
Um dia comum em nossa vida, começa com um despertar por volta das 7 horas. Sempre
uso o banheiro primeiro, enquanto zepierre arruma a cama e guarda as peças de roupa que
usei para dormir, colocando sobre a cama já arrumada as peças de roupa que irei vestir, e que
defini na noite anterior. Quando termino de usar o banheiro, chega a vez dele, desde que já
tenha concluído as tarefas de arrumação do quarto. Enquanto ele usa o banheiro para seu
banho matinal e demais ações (inclusive o urinar que é sempre sentado, em quaisquer
circunstâncias, exceto banheiro público), preparo o café da manhã para nós e minha filha. A
louça dessa refeição fica por conta dele. [Nos finais de semana e feriados, zepierre, além de
arrumar o quarto, também prepara o café da manhã].
Em seguida ele sai para o trabalho, só retornando à noite. Por duas vezes, no mínimo,
nos dias úteis, vamos juntos ao clube, onde realizamos exercícios aeróbicos e um pouco de
musculação. No trabalho ele tem a ordem de me telefonar pelo menos uma vez durante o dia.
Se não estou em casa, deixa um recado na secretária eletrônica, e me procura no celular.
Conta algumas de suas atividades naquele dia e diz alguma frase que mostre sua submissão a
mim. No final do dia, ao voltar para casa, também me telefona para saber se tenho alguma
instrução específica que ele precise realizar antes de chegar em casa. Desse modo mantenho
um controle muito próximo, diário. E é claro que telefono a ele de modo incerto, para marcar
267

minha presença constante, muitas vezes ordenando que vá ao banheiro e se masturbe, sem
gozar. Algumas vezes, especialmente quando ele tem alguma reunião noturna, ou um evento
especial em seu trabalho diurno, mando que ele vá trabalhar vestindo alguma calcinha de
minha coleção, ou mesmo seu cinto de castidade de couro. Essas providências sempre o
mantém ligado à sua Dona, e são excitantes para nós dois.
Chegando em casa, à noite, e minha filha não estando, zepierre toma um banho, e
permanece sempre nu, ou, quando a temperatura está mais fria, mantém os genitais à mostra.
Devo ressaltar que a cada 15 dias, ele faz a depilação do saco e da região perianal, alem de
aparar os pêlos pubeanos, que só são raspados totalmente por ocasião dos encontros com
outras Dominadoras.
Cuida do jantar e da louça, e depois, em geral, vai ao computador da manutenção da
homepage. [A exceção ocorre quando precisa completar algum trabalho profissional em casa,
geralmente recorrendo ao computador].
Fica trabalhando nisso, e/ou servindo minhas necessidades, geralmente massageando
meus pés ou sendo usado como tapete enquanto falo ao telefone, leio ou trabalho no
computador.
Por volta das 23 horas determino que vamos dormir. Faço uso do banheiro sempre
antes dele. No inverno, nesse tempo, ele deita-se no meu lado da cama ( dormimos em cama
de casal) para aquecer o leito. Nessa função, ele também é instruído a se masturbar, sempre
sem poder gozar, para facilitar a produção de calor e aquecer melhor meu lugar na cama. No
verão dorme inteiramente nu, e apenas com uma camiseta nos dias mais frios.
Nossos finais de semana começam na 6ª feira. Se não saímos para programas SM ou
vanila, zepierre sabe que haverá cenas, de punição e/ou treinamento. Em tais sessões coloco
roupas de fetiche, e ele sua coleira, algemas e tornozeleiras de couro. Posso ou não definir que
use o "cachê-sex" ou seu arreio de escravo. Confessa eventuais erros ou mau comportamento
que tenha tido durante a semana, e eu defino os castigos a serem administrados. Os
treinamentos são mais específicos - treinamento anal, alvo para treinamento de minhas
habilidades com o chicote, treinamento de excitação prolongada (esse tipo tem, geralmente, a
duração de todo o final de semana ou até de 7 a 10 dias), e outros. Algumas vezes utilizo jogos
para que as ações SM sejam definidas pelo acaso. Tenho um jogo que utiliza dados (está em
minha HP na seção correspondente), e um interessante jogo no computador, que ele está
adaptando para colocar na HP. Esses jogos permitem que os castigos sejam escolhidos ao
acaso.
Nas compras que geralmente efetuamos aos sábados, após os exercícios no clube,
zepierre está sempre usando algum item que lembra sua condição de submisso, sejam as
calcinhas que escolho, o "caché-sex", o cinto de castidade, o "sutiã de tachinhas" ou até
mesmo um "plug" anal. Aos sábados à noite, quando em reuniões "vanila" com amigos não
SM [geralmente encontros com grupos musicais], zepierre também usa, escondidos pela roupa
comum, tais "adereços".
268

Os domingos geralmente são reservados para encontros com amigos ou familiares, e/ou
para curtirmos o clube, um cinema, teatro, etc. Quando ficamos em casa, o comportamento
adotado é o D/s SM já descrito.
Algumas regras comportamentais básicas que defini para zepierre:
1. As regras de etiqueta que definem um "cavalheiro" nas relações com as mulheres
em geral, em quaisquer circunstâncias.
2. Nunca usar açúcar em bebidas em geral, incluindo café.
3. Em reuniões sociais, bebidas alcoólicas até duas doses (destiladas), ou dois copos
(fermentadas). Depois somente com minha autorização, que deve ser solicitada.
4. Em casa, como já foi mencionado, os genitais devem estar sempre expostos e
adequadamente depilados. Urinar sempre sentado, exceto em banheiros públicos.
5. Em reuniões D/s SM, sentar-se sempre em nivel inferior à(s) Dominadora(s),
exceto quando eu der ordem contrária. Nessa ocasiões somente dirigir a palavra à(s)
Dominadora(s), quando tiver autorização explícita, e nunca cortar a palavra feminina, nem
comandar a conversação, salvo com meu consentimento.
6. Sexo somente sob meu comando explícito, inclusive quanto à penetração e à
ejaculação. Masturbação terminantemente proibida, exceto quando sob meu comando.
Manter-se em ereção sempre que comandado, em quaisquer circunstâncias.
Essas são as regras básicas gerais. Outras existem, mas são mais específicas e dependerão
das circunstâncias de momento.
É claro que existem ocasiões onde nosso comportamento D/s é menos explícito, ou
ganha importância não primordial. Isso ocorre em situações tais como as provocadas por
eventos externos a nós - preocupações profissionais ou administrativas ocasionais, eventuais
doenças próprias ou na família, problemas sérios com membros da família - ou nos finais de
semana e feriados que passamos com familiares e/ou amigos "não engajados".

Considerações finais
Nas decisões de administração doméstica, aplicações financeiras, relacionamento com
irmãos e filhos (meus e dele) os assuntos são discutidos como em qualquer casal. As decisões
em geral são tomadas em conjunto, num consenso. Quando não se obtém tal consenso nesses
casos, o que tem sido muito raro, a decisão final é minha.
Hoje procuramos divulgar essa nossa experiência, como algo concreto que poderá ser
útil a quem se interessar por tais temas. Daí a construção de uma home page
(www.helgavany.org), onde são mostradas as experiências que vivemos no mundo D/s SM. E
também as que compartilharmos com amigas e amigos que têm os mesmos fetiches.
O criador deste "Desejo Secreto", em e-mail privado, fez algumas considerações em
relação à vivência que tenho com zepierre, correlacionando-a como uma utopia possível. E o
enfoque, digamos, "filosófico" de nosso estilo de vida ficou muito bem explicitado de maneira
269

clara, límpida, com as seguintes palavras de Lord Conrad: "A utopia é sonho, sim, mas o sonho
que move o homem a fazer do seu cotidiano algo melhor, mais justo, mais humano, mais
solidário. A utopia não é futuro, mas presente ... Isso, essa forma de encarar o presente, mais
que construir cotidianamente a utopia, é vivê-la intensamente" (grifo meu).
São Paulo, janeiro de 2001

Sonho Real...
MasterDreams

O telefone toca...
A voz suave da minha Kashmir sussurra a intenção de
fazer com que aquele sonho comece a ser transformado no
mais real dos momentos...
Já não existe espaço para medos, receios ou falsos
pudores... a única coisa que importa agora é que cada um
daqueles minutos que iremos viver sejam aproveitados
como se fossem os últimos de nossos mais profundos
desejos...
Um horário... o aeroporto... isso é tudo o que nos
separa agora de um possível momento supremo de
felicidade... com a certeza de que tudo o que havia sido
sentido e planejado anteriormente estava a um instante de
ser provado...
Um atraso providencial no vôo... serve para que
sejam reavidos detalhes que havíamos perdido em meio a
promessa de sermos felizes... E, estranhamente, vem uma calma, uma certeza de que tudo
aquilo realmente irá acontecer...
No meio da multidão surge seu rosto, seu sorriso encobre tudo que está à sua volta... e
ela vem, linda, como já havia se mostrado... em passos tensos, mas elegantes...
O coração dispara...
No corpo correm gotas de suor, como se fossem lágrimas oriundas de um momento de
forte emoção... O sangue corria quente no corpo, ávido para saber a verdade sobre aquela
sincronia que havia sido imposta por nossos corações, pelo nosso destino... Mas que ainda
haveria de ser reafirmada pelo toque de nossa pele...
Um olhar aprova o que não poderia jamais ser desaprovado, renegado... ela era tudo o
que eu mais poderia querer... E, como combinado, ela manifestou o desejo de beijar-me... Esse
era o gesto que havíamos concordado que fosse o símbolo do agrado mútuo... o gesto que
daria início a que tudo agora fosse vivido de maneira plena, intensa... sem mais nenhum
270

limite... A partir daquele instante estaríamos entrando num caminho em busca do prazer e da
alegria em estarmos juntos, onde não faríamos questão alguma de encontrar a saída...
Como testemunhas, agora só existiam paredes e alguns móveis que pareciam sorrir
felizes por estarem fazendo parte daquele momento mágico...
Uma palavra de ordem... e seu corpo foi descoberto... As mãos do Mestre não hesitaram
em percorrê-lo com fortes movimentos, como quem estivesse tomando posse definitivamente
de algo que há muito já lhe pertencia...
O corpo de Kashmir retorcia-se, obedecendo aos toques... palavras de entrega saíam de
sua boca...
Seu corpo era agora beijado e admirado...
Seu sexo lambido, sugado, devorado...
Seu cheiro inebriava o ambiente, transtornava...
Os olhos da menina já suplicavam que o seu sexo fosse preenchido, revirado com a força
do Homem que estava diante dela...
Mas o Mestre queria mais...
Queria cada detalhe daquele corpo indefeso, queria cada palavra de entrega que aquela
boca fosse capaz de sussurrar...
De repente os corpos misturaram-se numa loucura lúcida, violenta, de movimentos
constantes e agressivos...
A linda menina agora tinha um olhar perdido, apaixonado... e da sua boca vinham
palavras de amor e adoração ao Mestre...
Ela foi levada pelos cabelos... sua língua percorria a parede, enquanto pelo seu corpo
ficava o relevo do contorno do cinto... A língua agora percorria também o chão, em busca do
néctar que fora propositadamente jogado...
O sangue da menina deixava pequenos rastros nas mãos do Mestre, que exibia um
sorriso sádico... e não hesitava em mostrar o domínio que exercia sobre aquela doce
criatura...
Seu pescoço, agora envolto por uma coleira lúdica, obedecia à direção forte das mãos
do Homem, levando-a de volta ao ninho... onde ela clamava pelo gozo...
Seu corpo era cuspido, submetido, invadido... seus gemidos vinham em tom alto... O
Mestre a conduzia sob a linha tênue do limite entre a dor e o prazer... seu gozo era anunciado
por várias vezes... Ela já não tinha noção do que estava sendo explorado em seu corpo... mas
queria, queria mais... Sem poupá-la, o Mestre a fez mergulhar num gozo profundo... seu corpo
tremia, latejava, ardia... Palavras de agradecimento chegavam aos ouvidos do Mestre... que as
retribuía com um sorriso aberto e um olhar satisfeito....
A menina carregava no rosto as marcas da completa satisfação de seu Mestre, que
naquele momento a vislumbrava no olhar cúmplice daquela mulher...
271

Os corpos parelhos no ninho entregavam-se agora a olhares, a palavras... a pequenos


gestos... que provavam por si só... o quão grande e especial fora aquele momento... A distância
que um dia existiu fora reduzida a nada diante da verdade daquilo tudo... diante da entrega
que fora aceita...
Era hora de ir... mas, agora, com a certeza de que aquele foi apenas o prefácio de um
longo sonho...
Felizes aqueles que um dia poderão fundir o desejo na forma do BDSM, com o mais
nobre dos sentimentos... O amor...

Testando a Candidata1
Ulysses

Como me tornei um dominador


Lord Conrad

Semanalmente, aos sábados ou domingos, saíamos de nossa cidade e viajávamos menos


de uma hora até São Paulo, para desfrutar as tardes sempre no mesmo motel, nas imediações
da Marginal Tietê... Passados vinte anos, ele ainda está lá, com suas piscinas de teto solar e a
pequena sauna, que sempre foi um dos prazeres de A...
Despíamo-nos e ela repetia um ritual de higiene e maquiagem que nunca me
desagradou. Depois, do banheiro, caminhava em direção à cama, nua, a pele clara desenhando
um corpo quase translúcido, pés e mãos esmaltados em tons leves e um sedutor batom
vermelho nos lábios. Ela sorria. Os olhos verdes, cujas pupilas eram circundadas por um
estreito círculo alaranjado, mesmo que não fossem, há muito, um enigma para mim, ainda
incendiavam minha alma.
Pouco restava de nós quando os primeiros fios da
noite vinham manchar nossos lençóis, úmidos de prazer e
suor. Deitados, lado a lado, sob o zunido tranquilo do ar
condicionado, conversávamos, ríamos, ousávamos planejar
um futuro que, em muito, não se concretizou.
Foi num desses finais de tarde que ela me contou
sobre um livro... Um romance que acabara de ler, mais um
entre tantos best-sellers, no qual a heroína, além de ser
amarrada à cama, tornava-se objeto das mais incríveis

1
Infelizmente, o link para esta página estava quebrado e não foi possível coletar o material
272

sevícias de seus sequestradores. De imediato, surpreendeu-me que ela se referisse à história


sem qualquer repugnância. Ao contrário, suas pupilas dilatavam-se, os olhos brilhavam, um
sorriso insinuava-se no rosto iluminado, seus gestos cresciam, empolgavam-se. Percebi que
tudo aquilo a tocara de uma forma especial e deixei escapar: - Você gostaria de copiar o livro?
Ainda a vejo, deitada ao meu lado, paralisada pela pergunta, a respiração acelerada, olhando-
me como que em choque, dividida entre o medo e o desejo. - Gostaria?, insisti, debruçando-
me sobre o seu rosto e enfiando minha mão entre suas coxas, descobrindo uma vagina
estonteantemente molhada. Ela respondeu ao toque com um leve gemido e perguntou, quase
num pedido: - Você teria coragem? Deixei que meu dedo anular escorregasse lentamente para
dentro dela e sussurrei ao seu ouvido: - Se for para fazer você feliz, por que não? Tirei meu
dedo muito devagar, minha mão percorreu o corpo trêmulo até a nuca e trouxe-a para mais
perto de mim: - O que você quer primeiro? Arfando, hesitante, ela me implorou: - Me bate! Na
cara... Por um instante, confesso, temi não ter coragem. Uma sensação de enfraquecimento
percorreu o meu braço direito. A ideia, contudo, fora minha; como não levá-la adiante?
Coloquei-me de joelhos sobre o seu quadril, prendi suas mãos com minhas pernas e ergui meu
braço. Eu não conseguiria, com certeza não. Ela crispou os olhos e esperava, tensa. Eu
aguardava uma ordem, uma voz interior. E ela veio como um impulso, uma detonação, meu
braço descendo sobre o rosto que eu nunca pensara macular. Ao mesmo tempo, meu pênis
latejava numa ereção exuberante. Continuei, numa sequência de tapas, primeiro com a mão
direita e, depois, com a esquerda. E depois alternando as mãos, quase descontrolado. Ela
gemia alto, oferecia o rosto, deliciava-se com a violência, com a dor. Em mim, a sensação de
uma energia represada que se expandia de súbito, arrebentando tudo a sua frente, quase me
cegava, quando ela começou a implorar, aos gritos: - Me fode! Me fode!... O animal que
nascera em mim rugia... Com minhas patas, coloquei-a de quatro e lancei-me sobre ela,
penetrando-a com violência e, segurando-a pelos cabelos, puxava-a contra o meu corpo.
Gozamos rapidamente e, caídos lado a lado, começamos a rir...
Depois daquela tarde, nossos encontros nunca mais foram os mesmos. Passávamos
a semana elaborando nossas fantasias com os mais delicados pormenores. Cada sutileza trazia
uma excitação diferente, um novo calor. Éramos cães farejando o novo, descobrindo uma
trilha incandescente para, ao final, exaustos, encontrarmos o mais profundo de nós mesmos.
O mais belo é que nada tinha nome... E, a cada avanço, líamos Sade, partilhávamos
sonhos da infância - eu assistia os seriados na tevê querendo sempre ser o vilão; ela sempre se
excitara com a mocinha amarrada aos trilhos, enquanto o trem se aproximava - e
alimentávamos dezenas de fantasias...
Há anos não vejo A... Em determinado momento ela pareceu cansar-se de tudo. Eu
não. Mesmo hoje, passados todos estes anos, agora que tudo está nomeado e classificado, o
BDSM ainda me reserva a sua parcela de fantasia, de rejuvenescimento. Minha mão já não se
ergue movida por um impulso incontrolável, mas a pulsão é a mesma. E as técnicas que a
prática me concedeu só adicionaram sabor à arte da dominação.
273
274

BOTTOMS
Bottoms: Submissos e
Masoquistas

Há uns dois anos recebi um texto em


espanhol, de um amigo Dominador. Esse
pequeno texto nunca mais saiu do meu
pensamento e foi uma das principais
ferramentas para "abertura de janelas"
que um dia acontece em todos nós,
quando nos descobrimos: "Chamo-me
Olga.O que é ser mulher? Pergunto-me se as próprias mulheres o sabem. Cada uma tem sua
própria ideia da feminilidade. Os homens têm a sua e, certamente, não é a mesma para
todos... O Sadomasoquismo, para mim, é a expressão máxima da sensualidade, um culto às
relações medidas e controladas, tanto por parte da submissa como por parte do Senhor. Não
conheço forma mais transparente de adoração mútua. O corpo do outro é sempre um altar
sem sacrifício; o gesto e a súplica não esperam mais recompensa do que ver reconhecida sua
própria beleza. Conhecer melhor ao outro é conhecer-se a si mesmo..."É com essa doçura de
palavras e de respeito que esta seção se abre para expor pensamentos, relatos e confissões de
todos nós: submissas, submissos, masoquistas e bottoms de Bondage. Sua experiência e suas
palavras são importantes. Quanto mais pessoas tiverem acesso ao sentimento dos que têm
prazer em entregar sua força e coragem a outra pessoa, melhor. Pensemos nos que estão
começando e que ainda se martirizam pelas dúvidas e pela falta de informação...
Mégara*

Relatos:

Nosso Primeiro Encontro


Flavinha

As luzes da cidade já iluminavam o caminho que eu deveria seguir... minhas mãos


suavam... o nervosismo era aparente... Enquanto eu dirigia, milhares de pensamentos
brotavam em minha cabeça... cada palavra trocada soava como melodia... e foi tudo tão
rápido... da nossa primeira conversa até o nosso primeiro encontro... Lembrei-me do dia em
que o conheci... ele se destacava das demais pessoas... seus olhos me cobiçavam... tal qual
uma presa, me senti acuada... E assim como ele chegou ele se foi... Voltamos a nos encontrar
275

num chat... nossa conversa fluía na intensidade que sentíamos o desejo tomar conta de nossos
corpos... já tínhamos marcado onde nos encontraríamos e eu me via sendo conduzida ao seu
encontro... O local era um estacionamento situado no meio de uma grande avenida... carros
paravam e iam a todo instante.
Encostei o carro ao lado do dele. Mal conseguia disfarçar minha
ansiedade, desci e fui ao seu encontro... seu sorriso demonstrava a
satisfação de me encontrar... trazia em suas mãos uma singela flor...
agradeci... A sensibilidade daquele homem me fascinava... fui conduzida
ao seu carro e, por alguns momentos, senti seus olhos sobre mim...
nossos corpos se aproximaram e seguiram num terno beijo... Senti uma
das mãos de Meu Dono puxar meu cabelo, enquanto a outra abria
caminho em minha calça... seus dedos tocaram com suavidade meu
sexo... um misto de medo e tesão tomou conta de mim... ouvia Meu
Senhor mandar que eu tirasse a calça, a calcinha e que abrisse minhas
pernas... Meu olhar demonstrava o medo que tinha em ficar assim tão
exposta, uma vez que o local possuía um movimento discreto. Ele
tranquilizou-me, dizendo que não havia razão para me preocupar, pois
ele estava ali para cuidar de mim... Com minhas pernas entreabertas
senti o estalo da mão de Meu Dono em minha carne... em seguida um afago... minha
respiração ofegante demonstrava o tesão que estava sentindo e isto em muito o agradava...
outro tapa... e mais outro... não consegui conter o impulso de me encolher... seus olhos me
fitavam e nada precisava ser dito... voltei à posição que havia me sido indicada anteriormente.
Um taxista encostou ao lado do carro... novamente fiquei apreensiva, mas a situação inusitada
nos excitava muito... Foi me ordenado que me masturbasse colocando meus pés sobre o
painel... Que sensação! Sentia-me completamente nua, exposta, mas confiava naquele homem
que estava ao meu lado... O gozo veio intenso, arrebatador... senti meu corpo se abater sobre
o banco, enquanto Meu Senhor me observava... curvei-me a seus pés para lhe agradecer o
prazer proporcionado... Fui colocada de quatro sobre o banco... coração acelerado.. olhei para
o lado e o táxi ainda estava ali, parado... certamente assistia a nossa cena, muito embora as
luzes fossem muito fracas e pouco pudessem iluminar dentro do carro... Olhei para meu
Dono... sorrimos... senti meu corpo invadido... nossos movimentos se coordenavam... e ali...
naquele momento... senti o quão sua eu já era... como se tivesse nascido para ser por ele
encontrada ... E assim poder amá-lo ... poder servi-lo...

A Despedida
Cadella

Saio do banho atrasada, no som do meu quarto Chico, CD novo, não me prendo ao que
toca. Olho no relógio. São 20h10 - estou muito atrasada. Deveria estar no teatro para a Tua
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formatura as 20h30 e não conseguirei chegar a tempo. Cantarolo a música de forma


automática, abro o armário, sorrindo sozinha, me sinto recompensada lhe vendo formado.
Escolho uma lingerie cinza que Você adora. Sequer
me passa pela cabeça que poderá vê-la, mas me visto
como se ainda fossemos uma mesma alma. Corpete alto,
calcinha sem rendas, meias 7/8 fumês, Você nunca
gostou de meias pretas em contraste com a minha pele
branca. Visto os sapatos de salto agulha preto, e ainda de
hobbie vou me maquiar, nada pesado mesmo sendo para
noite. No som toca "Desalento", e continuo cantando
enquanto passo delineador finíssimo preto sob os olhos,
lápis e batom escuro. Volto ao quarto, a música já
acabou e agora está tocando "Lua Cheia". Visto minha
roupa - um vestido leve de vestir pela cabeça, sem zíper
ou botão, preto com detalhes mostarda e da coxa para
baixo, totalmente transparente.
Desligo o som, passo o perfume Roma que você adora e desço. Olho no relógio: 20h25.
Chegarei mesmo atrasada. No teatro, tudo corre normalmente, a cerimônia acaba e enquanto
todos os formandos se confraternizam, pego o carro e vou para o local da recepção. Tudo deve
estar exatamente como Você queria, os canapés bem escolhidos, garçons trajados a rigor,
vinho Miolo gelado e, para o brinde, um champanhe especial. Os convidados começam a
chegar, e mesmo não tendo mais nenhum vínculo com Você, recepciono-os como sempre -
afinal Você não chegou, e jamais deixaria os Teus convidados sem uma ótima cicerone. Todos
brincando antes de Você chegar - porque ainda não havíamos casado ou ainda por que não
tentávamos de novo - mal sabem eles que nossas almas, mesmo distantes, pensam e reagem
juntas. Estamos bem assim.
Pego uma taça de vinho branco gelado, e meu telefone toca. Vejo o número no display e
é Você. Atendo, e Você me pede que saia da recepção e vá encontrá-lo no carro, porque
trocou de roupa e precisa checar se os detalhes estão todos perfeitos. Te encontro lindo, o
terno Armani de quatro botões cinza chumbo foi uma ótima escolha, ninguém sabe lhe
comprar roupas como eu. Dou o nó na gravata, aquele liso e básico que Você gosta. Sem
entender bem, sinto meu corpo trêmulo, excitado com Você tão perto de mim. Você percebe e
sorri. Pego o perfume, também o clássico da Armani (duas gotas), e ao tirar minha mão de seu
pescoço. Sinto sua mão em meu cabelo, tento me mexer. Você ri, puxa meus cabelos e me
beija a boca.
Meu corpo amolece, você me prende pela cintura e continua me beijando. Sinto meu
corpo suar, sei que não devo me mexer, mas queria tanto te abraçar e assim ficar. Tua mão
apalpa minhas coxas e de pé, com a porta do carro aberta, não sei como agir, apenas sinto tua
mão forte me apertando a coxa e seu beijo quente me engolindo inteira. Segundos depois me
solta, pergunta se está bem. Respondo que está perfeito, Você como antigamente diz que são
meus olhos, olhos de quem te Ama. Aí dou uma risada e comento: "Não te amo mais
esqueceu?". Você não diz nada, me dá um tapinha na bunda e vai em direção a festa. Ao
277

chegar à porta da recepção, vira-se e me diz em tom autoritário: "Arrume tudo aí antes de
entrar". Me calo e obedeço.
A festa transcorre sem grandes novidades, todas as músicas que tocam nos fazem rir e
nos entreolhamos mesmo de longe. Na hora do champanhe, do brinde, brindamos os dois
antes de todos. Minhas palavras são de uma devoção que durou 7 anos e que agora terminava
como um ciclo da vida. As pessoas também se entreolham, absortas por nossos gestos e
formas de agir - parecíamos um casal comemorando 30 anos de casados, tamanha a sincronia
de tudo que fazíamos e falávamos. Em um momento você passa por mim e me pede que te
acompanhe até o banheiro, pois "crianças" sempre babam na roupa e havia caído algumas
gotas de Fontana na sua. Você vai antes, pego uns guardanapos e te sigo, no som um CD novo
do George Martin que te dei (comemorações merecem músicas inéditas). E eu sabia que você
iria adorar.
No banheiro, seco teu blazer, enquanto Você se diverte passando as pontas dos dedos
nos bicos dos meus seios sob o vestido, Você bem sabe que isso me arrepia e os deixa
eriçados, e rimos os dois. É muita cumplicidade, não sabemos parar, nossos limites estão um
no outro. Termino de secar teu blazer e levanto a cabeça, Você me abraça como há muito
tempo eu não te sentia, entregue, feliz. O volume dentro da sua calça também nos faz rir, e
Você diz que todo homem sente o cheiro de uma boa fêmea por perto - por isso a excitação.
Agradeço o elogio, sem palavras corretas, apenas um beijo de canto de boca e um sorriso.
Nessa hora a festa já passa das 4h da manhã e nos olhamos como recém-casados querendo a
noite de núpcias. Os últimos convidados se vão, eu preencho o cheque, você assina. Ao sair
ganhamos mais uma garrafa de Fontana Freda e um sorriso mais que malicioso do barman.
Estamos perto da minha casa, e em dois carros. Você comenta "deixe teu carro ai,
amanhã você pega". Eu havia bebido muito, estava feliz, radiante por Você, também era uma
vitória minha. Disse que tudo bem, perguntei ao rapaz do estacionamento, ele me disse que
não havia qualquer problema, mesmo porque somos clientes do mesmo bar desde que
começamos a namorar e isso data de... nem me lembro mais.
Pegamos os presentes, o champanhe, o CD e entramos no carro. Você apenas comenta
que fiz um bom trabalho. Estava tudo como Você gostava, nos devidos lugares e como Você,
metódico, sempre apreciou. Coloco os presentes no banco de trás, ao me virar me deparo com
Você tirando um cabresto debaixo do banco, novo, lindo, o mordedor da boca de silicone
transparente, as amarras de correntes finas, delicadas, e o fecho com um pequeno cadeado.
Apenas arregalo os olhos, mas nada falo. Além da bebida, me sentia molhada com a
possibilidade do que aquela noite poderia render. Você passa a mão no meu rosto suave,
delicado e como num sussurro me pergunta se ainda quero ser tudo o que fomos, por mais
uma noite. Como sempre fiz, nada falo - apenas abaixo os olhos e espero que me coloque o
presente novo na cabeça. Você entende, passa a mão pelo meu pescoço e sente meu coração
bater na boca, coloca de um lado sobre a orelha, depois da outra, arruma as correntes atrás,
então traz sua boca de encontro a minha, me beija voraz e molhadamente, passa a língua
pelos meus lábios e se afasta. Ergo um pouco o rosto e Você encaixa o mordedor na minha
boca, aperta com força, de maneira que não consigo nem morde-lo direito, fico com a boca
entreaberta. Você testa para ver se não há nenhuma fresta e tranca o cadeado. Coloca a
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chavinha prateada no chaveiro do carro e partimos. Vamos direto para nossa casa (digo, sua
casa). No caminho você alterna elogios surpreendentes e vulgares. Diz que agora sua vida
precisa de uma mulher mesmo e não de uma puta como eu, para em seguida dizer que serei
sempre a única vadia que você foi capaz de amar de verdade.
Subimos, ao passar a porta Você ordena que tire o vestido e permaneça de salto e
lingerie apenas. Tiro o vestido em um único movimento. Vou até a cozinha e pego uma taça
para que beba seu champanhe gelado. Você me pede que lhe dispa, afinal o terno já esta
incomodando. Afrouxo a gravata e vou abrindo os botões da camisa, enquanto você passa com
os dedos champanhe em meus lábios e por cima de meu corpete. Meu corpo está arrepiado,
uma mescla de tesão e frio. Tiro a gravata e a camisa, o blazer já havia ficado no carro, me
ajoelho, lhe tiro os sapatos e as meias, com cuidado, sei que seus pés doem. Ainda de joelhos,
ergo o tronco e tiro seu cinto. Abro sua calça, o zíper, e ela cai no chão, Você apenas
movimenta os pés. Sinto meu coração disparado, diante de teu membro rijo dentro da cueca
que também escolhemos para a ocasião da festa. Meus braços os sinto cansados, minha
cabeça gira e o cabresto está fazendo minha cabeça doer, não me atrevo a pedir que solte um
pouco.
Você senta na cama, há música agradável no som, eu me movo de quatro pela casa, os
saltos enroscam e você me zomba, chamando-me de atrapalhada. Me pede que acaricie seus
pés. Deixo um pé acomodado entre meus seios ainda cobertos, enquanto começo a massagear
o outro com carinho. Você nunca teve muita paciência para isso e logo troca os pés como que
dissesse que aquilo deveria terminar logo. Cuido deles com carinho, passando as mãos em
harmonia pela sola, cada um dos dedos, calcanhar. Você geme baixinho enquanto me observa.
Meus polegares massageando seu ego estou entregue a seus caprichos, não consigo sequer
falar e Você bem sabe que aquilo é quase como a morte, me manter muda. Permanecemos
assim enquanto acaba sua taça de champanhe.
Ao terminar, você levanta, manda que eu permaneça com as pernas para fora da cama e
apóie nela apenas o tronco. Obedeço sem sequer erguer os olhos, sinto tua respiração, e posso
ver mesmo de cabeça baixa seu vulto a mover-se. Encaixo minha pelve na quina da cama,
deixando as pernas para fora, e os joelhos apoiados no chão. Viro meu rosto para um dos lados
e espero.
Já perdi a noção de tempo, percebo que você troca o CD, e volta, à meia-luz do quarto e
o zunido que escuto, fazem minha respiração cessar por alguns segundos. Reconheceria Você
com aquele chicote em qualquer momento. Você senta ao meu lado, desabotoa o corpete com
cuidado, um por um dos pequenos botões, enquanto canta uma música que não me recordo.
Meus braços largados ao lado do corpo são cuidadosamente arrumados por Você, ficam
abertos, estendidos sobre a cama. Com um estilete você tira minha calcinha, e eu só penso
que esta deve ser a terceira desse mesmo jogo que compro em vão. Você me beija as costas,
acaricia a pele, passa sua língua, deixando meu corpo estremecer, e os gemidos quase afônicos
saem de minha boca, como uma súplica. No instante seguinte sinto o couro tocar minhas
costas, depois as diversas pontas do chicote fazem barulho de folhas ao vento, e depois
novamente me atingem, e outra vez e outra, em toda a região das costas e nádegas.
279

E começo a sentir um latejar profundo, Você esta batendo muito mais forte que o
habitual e teus movimentos não param - e por um momento, junto com tesão, senti medo.
Não posso falar - como vou dizer para você que o meu limite está próximo? Pela primeira vez
você me pergunta se quero que pare, não consigo sequer erguer os olhos, Você por um minuto
pára de chicotear minhas costas e nádegas e ordena que eu abra as pernas, me mantendo na
posição. Meu corpo esfria. O chicote nos meus grandes lábios iria ser uma dor que
desconheço. Mas não, você coloca a mão quente e sente meu sexo pulsar, já escorrendo de
tesão, brinca um pouco com os dedos e comenta: "Eu achando que estava te machucando, e
você aqui quase gozando". Consigo erguer a cabeça e lhe fitar os olhos de baixo como em
forma de agradecimento por cada sensação que agora sinto em meu corpo. Então continua me
batendo, agora só nas nádegas, em determinados golpes algumas pontas do chicote entram
virilha adentro pois não fechei as pernas e elas continuam afastadas.
Você já ri alto, é sinal que tua excitação é imensa, pára de me chicotear e senta na
"berger" ao lado da cama, me ordena que me aproxime sem ficar em pé ou erguer os olhos, já
está nu, lindo, e diz: "menininha, como está com a boca ocupada, me faça gozar com mãos.
Mas quero carinho. E não o deixe flácido, quero sentir você".
Nem sei como conseguia mover os braços, sento sobre meus pés, sinto a meia fina roçar
as marcas nas nádegas e arde muito, respiro fundo e nesta posição começo a masturbá-lo com
carinho. Coloco minhas duas mãos ao redor dele e começo os movimentos ritmados, Você se
encosta na poltrona e apenas me observa. Os movimentos são feitos com cuidado e firmeza
como Você mesmo me ensinou, pressão na palma da mão para que o contato não se perca, o
movimento toma um ritmo ainda maior, sinto Você gemendo mais alto, sinto minhas pernas
meladas, não sei mais se estou em um gozo continuo ou se não consigo parar de me excitar.
Observo na cabeça uma leve secreção, além do latejar mais forte entre meus dedos, sinto que
teu gozo se aproxima.
Então diminuo um pouco os movimento e lhe observo. Você apenas diz: no rosto. Eu
não havia me esquecido, tínhamos alguns tratos implícitos que jamais deixaríamos de cumprir,
esse era um deles, Você sempre escolheria onde gozar e para isso eu deveria, sempre com as
mãos, com o corpo ou com a boca, diminuir os movimentos para que Você escolhesse.
Movimentei mais rápido apenas uma mão agora, e aproximei meu rosto, esperando que teu
esperma me aquecesse a face e o colo. E em poucos minutos podia sentir, sua porra
escorrendo no meu rosto, eu não conseguia por a língua para fora, queria engolir mas não
conseguia e Você, relaxado ria, eu parecia uma cadela com sede que não conseguia alcançar o
pote de água. Sua porra escorreu sobre meu colo, meus seios, você não me deixou sequer
passar a mão nela.
Apenas de ver essa cena, eu desesperada tentando sentir mais de Você dentro de mim,
já te deixou excitado de novo. Não sei se Você estava sem transar a muito tempo ou se a falta
dessas ações te deixaram assim, obcecado, sorridente, mais viril que de costume. Me mandou
pegar mais champanhe na cozinha - isso era sim uma novidade, sempre transamos lúcidos,
sem qualquer bebida, e já estávamos bebendo há horas. Peguei a garrafa e lhe servi, você
pegou a taça e derramou quase todo o líquido dentro da minha boca, me afogando, comecei a
tossir engasgada e Você se servindo calmamente. Eu sentia meu pulmão sair pela boca até que
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a tosse foi diminuindo e passou. Enquanto bebia sua taça, me mandou voltar a antiga posição
e tirou meus sapatos e minha meia, suavemente. Suas mãos pareciam de veludo e eu me
extasiava com sua respiração próxima ao meu corpo.
Já estava achando que aquele cabresto fazia parte de mim, que sempre tinha sido assim.
Num momento olhei para o relógio que estava sob a mesa. Passava das 9h da manhã, eu
estava com aquilo em mim fazia mais de 4 horas. Você mandou que não me mexesse, senti teu
vulto se afastar por alguns segundos, e no minuto seguinte senti você derramando aquela
champanhe gelado nas marcas das minhas costas e nádegas, ardia muito. Queria erguer o
tronco, mexer as mãos, mas te desobedecer nem passava pela minha cabeça. A sensação de
desespero foi passando, substituída por uma de conforto que me tomava. O latejar era intenso
e Você acariciava meus cabelos como quem brinca com um bichinho de estimação. Comecei a
tremer de frio, a bebida estava mesmo muito gelada.
Você começou a lamber-me inteira, as costas, as coxas, abriu minhas ancas, e passava a
língua como que secando o que ainda restava de champanhe. Minhas unhas estavam fincadas
nos lençóis, e eu já conseguia emitir sons mais altos com aquilo na boca. Gozava
alucinadamente na tua boca, e você a sorver tudo que conseguia de mim e eu sem poder me
movimentar, mesmo não estando atada sabia que Você jamais aprovaria um movimento meu.
Minhas pernas fraquejaram e no momento seguinte senti Você de pé, erguendo meu
quadril para que ficasse com as pernas esticadas e as mãos apoiadas na cama. Como a cadela
que sempre fui pra você, sentíamos o nosso limite ali. Minha cabeça mesmo nessa posição
permanecia baixa, Você estava rude, sem cerimônia ou grande tato, me penetrou por trás em
um só movimento, e neste exato momento senti meu corpo vir para frente. Outra pessoa
poderia pensar que doía além do suportável, ou que eu estava exausta, mas não Você, e
continuou fazendo movimentos ritmados e cada vez mais fortes até que senti Você inteiro em
mim. Como teu corpo pulsava muito, eu tentava relaxar os músculos mas não conseguia, tinha
perdido o controle sobre meus movimentos, apenas reagia aos teus.
Então Você parou de se mover, eu estava em uma posição que não há como descrever.
E sentia tuas mãos, uma em meu quadril, outra puxando e maltratando meu seio, e tua voz a
dizer que eu era mesmo um brinquedo desfrutável e que era isso que te fazia tão viciado em
mim, a forma como eu me deixava ficar te fascinava. E ao terminar de falar gozou como nunca
em todo esse tempo eu havia sentido dentro de mim. Parou de mover as mãos e saiu de
dentro de mim sorrindo. Éramos perfeitos, meus olhos lacrimejavam, era felicidade que eu não
conseguia esconder.
Depois me pediu que lhe desse um banho rápido, porque estava exausto. Fiz com
carinho, uma boa ducha, lhe sequei o corpo, e nu Você se dirigiu para a cama de hóspedes que
sempre foi nossa, visto que por causa do que fazíamos na nossa, nunca conseguíamos dormir
nela... Deitou-se, e eu lhe cubro, está frio mesmo em fevereiro - olho no relógio, já são 13h20.
Em um rompante, Você me pede a chave do carro, suspiro aliviada, estava acreditando já que
ia dormir assim.
Você solta o cabresto, me ordena um banho e a volta aos teus braços em 10 minutos.
Obedeço, recompensada por tudo que vivemos. Um banho rápido, minha camiseta velha
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escondida no lugar de sempre, e teus braços enlaçados em mim, dormimos como conchinhas,
encaixados e ternos. Sabíamos que seria a última vez, algo dentro de nós delatava o final de
tudo que vivemos - mas tínhamos tido um final à altura das dores e amores que vivemos
juntos.
Toca o telefone, atendo assustada, olho Você lindo, um anjo dormindo, me viro para o
relógio, 19h - o baile começa às 23h... nos falta tempo...
Amei Você!!!

A Viagem
Cadella

Estamos indo para Florianópolis, carro pronto, me preocupo com você, poderá passar
frio, afinal não está acostumado com a temperatura. Separamos os cd's, e partimos. Será um
bom passeio, meu coração bate forte, queria muito aquele homem que havia conhecido de
volta, mas não sei se ele virá.
Você está monossilábico, fala pouco mas me olha mais. Sorrio com ar sacana, pegamos a
BR, música alta, estrada cheia, noite alta. Viagens à noite são sempre deliciosas. O ar quente
do carro ligado coloco minha mão em tua coxa como prova de carinho, você a pega e a coloca
sobre o volume de sua calça, sorrio, emudeço e mantenho minha mão no local que você
determinou. Meu coração na boca, minhas pernas se abrem lentamente. Minha respiração
aumenta lentamente os movimentos. Você manda que eu abra a jaqueta, tire a blusa e fique
de sutiã apenas. Olho descrente.
A estrada esta movimentada, passam carros e
caminhões mas você não havia pedido, era uma ordem
- que obedeço com os olhos brilhando. Tiro a jaqueta,
a blusa de lã, coloco a jaqueta novamente, aberta,
com sutiã meia taça a mostra. Você manda que eu
pegue os clamps dourados da tua mochila (eu nem
sabia que eles existiam), minha mão voltou a se
acomodar sob teu membro já pulsante, e não consigo
sequer manter a boca fechada.
Pego os clamps, são lindos... Em formato de sol,
com uma abertura no meio onde se encaixa o bico do
seio. Você, em tom solene, manda que os coloque.
Respiro fundo sinto teu membro crescer mais na
minha mão sob a calça, minha respiração acelera, tiro
um seio de dentro do bojo do sutiã, minhas mãos
tremem. E você grita: "Coloca, vagabunda!". Encaixo o
clamp no bico seio, que minha mão gelada deixou
282

duro. Coloco primeiro no esquerdo, sei que é teu preferido, é maior que o direito já, de tanto
ser deliciosamente maltratado. Os raios de sol do clamps forçam a massa do seio para dentro,
com força. Para apertá-lo e encaixá-lo começo a gemer baixinho. Dói. Sinto uma ardência e
você sorri com o canto da boca, percebendo que alguns caminhões que passam ao nosso lado
vêem o que acontece.
Pronto, um clamp colocado, o bico do meu seio esquerdo roxo já, minha respiração
ofegante, minha boca seca, passo a língua e começo a forçar minha mão sob seu membro.
Você apenas olha para baixo e volta dirigir. Entendo e abro o botão e o zíper da tua calça,
coloco a mão por dentro da cueca e toco seu membro, você se excita mais enquanto reage ao
frio toque. Tua mão sai do volante e me dá um tapa com força no rosto, que lateja. Você grita:
"Que mão gelada sua puta! Você sabe que não gosto". Mas continuo te acariciando e você
pára o carro no acostamento próximo a um destes telefones públicos de beira de estrada, e
em tom incisivo manda que eu lhe chupe.
Enquanto me abaixo em direção ao seu membro, você pega o outro clamp e o coloca em
meu outro seio. Tua mão é muito mais pesada que a minha e busca o efeito imediato. Muito,
muito mais apertado que o da esquerda... Meu corpo se contorce de dor, respiro quase em
espasmos. Minha boca alcança teu membro, duro, pulsante, passo minha língua molhada em
todo ele, bem devagar. Sinto você empurrar teu banco para trás, assim ficará mais confortável.
Coloco agora teu membro inteiro na boca e começo a sugá-lo lentamente, sentindo teu gosto
na minha boca, é como se teu coração pulsasse nela. Meu corpo estremecido pelo tesão e pela
dor se apavora ao ver suas mãos indo diretamente brincar com os clamps. Você me machuca
muito e a cada movimento teu, mais coloco teu membro dentro da minha boca, me afogo,
meus olhos lacrimejam, meu corpo sente você ali, próximo. E você sorri, geme baixo também e
tece um elogio que me faz ainda mais feliz: "Vadia, você tem uma habilidade de profissional
com a boca, chupa como uma puta mesmo". Meu corpo se excita com tuas palavras e sinto
minha buceta encharcada.
Continuo te sugando com força, a saliva escorre de minha boca aberta, minha língua
para fora dói, para que teu pau entre mais fundo e me afogue mesmo. Minha respiração quase
não acontece, meu corpo reage às tuas mãos mexendo nos clamps, deixando meus seios mais
e mais roxos e doloridos. Você puxa, torce os bicos, as garras do clamp cortam a pele e deixam
vergões. Você está muito excitado e goza deliciosamente em minha boca, sinto tua porra
escorrer dentro da minha garganta, golfadas quentes e deliciosas. Você força mais minha
cabeça e me debato e você delira. Então, com teu pau limpo, levanto a cabeça e me encosto
no banco, cansada, tentando fazer minha respiração voltar ao normal, mas não consigo, estou
muito excitada e você também está. Teu membro continua duro, grande como se não tivesse
gozado minutos antes.
Você me agride com palavras deliciosas, me chama de puta e de vadia como quem me
chama de querida. Manda que eu saia do carro e me apoie no capô do meu lado, feche os
olhos e espere. Olho apavorada, você ri alto e diz que bichinhos são tratados assim. Assusto-
me, você nunca gostou disso, não assim, na rua, mas te obedeço.
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Coração na mão, corpo latejando, respiração ofegante, saio do carro e fico na posição
que você mandou. O frio deve estar perto de 4 graus, há neblina, e só consigo te ver porque há
luz perto do telefone. O tempo passa, meu corpo começa a tremer de frio, de falta, os bicos
dos meus seios doem mais por causa do frio, os filetes feitos com os aros do clamps ardem,
fechos os olhos e tento não pensar. Você, de dentro do carro, fica observando, posso sentir,
teus olhos me fitando com ar de dono de brinquedo, descartável, desfrutável. Não sei quanto
tempo passa, meu corpo se anestesia e de repente sinto tua mão nos meus cabelos, puxando
minha cabeça para cima. Pronto, meu corpo não sente mais frio, sou sua e estou aqui nesta
posição para servi-lo e adorá-lo sempre, em todos os seus atos.
Você manda que abaixe a calça e a calcinha e mantenha as pernas abertas. Obedeço
sem sequer emitir um som, o frio aumenta, mas tento não senti-lo. Sua presença me basta e
não há frio ou calor ou medo, mesmo estando em pânico com o corpo doído e sem sequer
imaginar o que você fará. Começa brincando com meu cuzinho, coloca a ponta de uma garrafa,
de leve e tira, observa ele contrair em sua mão, meu corpo inteiro se contrai contra o carro,
você sente e grita "Pára de frescura, sua escrota, você bem que gosta. Piranhas gostam de
servir assim". Tento relaxar mas não consigo, não sei se é medo, ou frio ou tesão. Descubro
que é tesão, por que apenas ouvir tua respiração me dá a mesma sensação, e me delicio com
ela.
Percebo então que você saiu em viagem já pensando em fazer isso, talvez não aqui mas
pensou, tinha objetos na tua mochila incomuns para uma viagem. Continua brincando com a
garrafa, pede que empine mais o rabo e derrama o conteúdo da garrafa dentro de mim. Reajo,
está muito gelado. Você sorri e adora. Sinto reações que nunca havia sentido, sinto meu gozo
escorrer por minhas pernas e você sequer tocou minha buceta, meus seios latejam numa
constante, deliciosa e cruel, minha boca esta vermelha e doída do frio. Sinto sua respiração
ofegante, teu corpo quente próximo ao meu e teus atos cada vez mais insanos.
Coloca então a garrafa mais para dentro um pouco e me diz que ela vai ficar ali,
enquanto você faz xixi, fico quietinha e não entendo. Você então me puxa pelos cabelos, me
faz ajoelhar no chão, olhos abertos, calças arriadas, seios descobertos, e coloca teu pau na
minha boca. Tento fechar os olhos porque não acredito no que você está fazendo, você me
manda abri-los. Obedeço. De olhos abertos, fitando você, como mandou, sinto um jato forte
de urina em minha boca, você delira alto e se excita mais com a situação. Ela entra quente e
em grande quantidade, não consigo pensar. Meu corpo repulsa a atitude, mas nunca
repudiaria você, por isso engulo, numa mescla de tesão e nojo. Você solta palavras
desconexas, em tom baixo de voz, como um sussurro. Faz-me gozar assim nessa posição, sem
sequer me tocar ou realizar qualquer movimento para que isso aconteça.
Minha boca fica quente, não sobra nada, tudo foi engolido, a porra, a urina e sinto
minha boca como qualquer coisa, onde você joga o que quiser, me conforta a situação, me
realiza o tesão te ver satisfeito assim. A garrafa ainda dentro de mim...Você manda que me
vire, me apoio no carro e fique quietinha. Coloco-me na posição, a garrafa sai um pouco, com
o movimento dos músculos do rabo. Você sorri, vendo ele agir sozinho, e em um único
movimento, a tira de dentro de mim. Solto um grito agudo, por causa do vácuo que se fez.
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Imediatamente depois de tirar a garrafa, você enfia seu membro inteiro, maior ainda que ela
dentro de mim.
Grito mais alto, como um soluço, meu corpo implora e dói, meus seios estão roxos, meu
rabo esta ardendo muito e você não liga, mete sem parar, sinto tuas bolas baterem em mim, e
não consigo imaginar como esta meu cu, afinal ele nunca havia sentido você inteiro dentro
dele, é grande, meu cu está dilacerado, sinto escorrer filetes de dentro e não sei se é sangue,
liquido ou porra. Você puxa meus cabelos e geme alto, vadia é um nome singelo perto dos
adjetivos que você usa. Gozamos juntos, como há muito tempo não acontecia, sorrimos em
tom de cumplicidade, meu rabo ainda lateja, você tira teu membro de dentro dele devagar, só
para me fazer sentir dor, mais dor. Sinto você fora de mim, me viro, você comenta em tom de
ordem que quer se vestir limpo me ajoelho novamente, chupo teu membro, lambo ele todo,
deixando limpo como estava. Você se veste, e manda que eu também me vista e volte ao
carro.
Você entra no carro e me espera, coloca o cd novamente, me levanto, subo minha
calcinha e minha calça, meu corpo está melado de porra e suor. Meu coração ainda bate
descompassado, sorrio de canto de boca, fecho a jaqueta, me mantendo de sutiã e clamps nos
seios. Abro a porta do carro, você brinca, "Entra, minha cadelinha, boa menina". Sorrio como
quem aceita e idolatra essa situação, não consigo sentar, me posiciono de lado, você só pede
que deixe a jaqueta um pouco aberta para que veja meus seios sendo "estragados" pelos
clamps. Obedeço como sempre, sempre... Partimos, você está deliciosamente feliz, uma
música boa no som, eu sentada mesmo sentindo dor, pois sei que você está adorando saber
que dói e que estou assim para te satisfazer, invadimos a estrada e a noite, a caminho da
viagem programada para um descanso de feriado.

Entalada
Cadella

Isso aqui parece uma masmorra, fria, úmida e sombria. Estou sozinha há tempo, nem
me lembro quanto; durmo e acordo em intervalos de dores e fome.
Quando cheguei era noite, tinha tua mão a me guiar, teus olhos brilhavam e tudo
parecia mágico. Você usava uma roupa linda, solta, mas os movimentos torneavam teu corpo;
eu usava um vestido largo, longo, echarpe de seda em cores pastéis, sandálias. Bebíamos algo
doce, nada alcoólico. Você queria cada ato com total consciência. Em um determinado
momento nos afastamos da festa, você me deu um tapa maroto na bunda, virei, sorri e
comecei a correr em direção a uma luz que via no meio da escuridão. Você me seguiu até me
alcançar, me envolveu em seus braços e um beijo ardente se fez. Meu corpo se esfregava em
você, minha boca queria engoli-lo se pudesse, meu coração disparado, mais pelo tesão do que
pela corrida. Você seguro, teus braços me apertavam e tua boca comandava os movimentos
da minha língua, os olhos abertos também me engoliam, como que suplicando mais, muito
mais.
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A luz estava próxima. Você, então,


tirou a echarpe do meu pescoço e vendou
meus olhos; tive medo, estava no meio do
nada, tudo escuro, mas estava com você,
valia o medo. Meu coração alternava entre o
desespero e o descompasso, minhas mãos
geladas e meu corpo suando. Você sorri, a
última imagem que meus olhos vêem são de
teus olhos. Continuo andando sob o
comando das tuas mãos. Você me roda, me
derruba no chão úmido de grama, me
levanta e continuamos andando. Meu corpo
começa a tremer, você se encaixa em mim e
continuamos, percebo a luz próxima, e você a mexer em um molho de chaves, destranca a
porta e me coloca para dentro. Entro mais assustada que com medo, um frio me percorre a
espinha, passo a língua nos lábios e suspiro. Confiar é preciso.
Você me guia até um lugar que parece uma cama, me coloca sentada e sai do alcance
das minhas mãos. Escuto você gargalhar e não sei o que acontece; coloca então uma música
baixinho, nem identifico o que toca, mas sei que tem a mesma batida que se repete. Tua voz
está um pouco longe, mas ouço bem. Você me manda erguer o vestido e me masturbar, por
que você quer ver; reluto por minutos, mas tua entonação de voz se altera. Me coloco mais
para dentro da cama, dobro os joelhos e apoio os pés sobre a cama, ergo o vestido, coloco
minha mão por dentro de minha calcinha e começo a movimentar os dedos, em minutos eles
estão empapados, grudando, os movimentos aumentam de velocidade, meu corpo se curva.
Escuto um grito de pare. Meu corpo se contrai, minha respiração pára. Você ordena que tire a
calcinha e enfie os dedos nela... Quer ver como ela está molhada.
Sinto tua voz um pouco mais próxima, mas minhas mãos não te alcançam e você sorri da
minha tentativa. Tiro a calcinha e continuo me bolinando sem parar, sinto minhas pernas
contraírem sozinhas e enfio, como você ordenou, os dedos dentro da minha boceta; são
quatro e só escuto você dizer: tsc... tsc... tsc... Entendo o que quer dizer e forço mais um, dói
muito, parou de ser só tesão, mordo os lábios e forço. Minutos depois tenho a minha própria
mão dentro de mim, mexo os dedos, as paredes se contraem, minha boca geme, não sei se
alto, e escuto você dizendo baixinho: "- Boa menina... E você se sujeita a isso... Que puta você
é...." Continuo os movimentos, você ordena que tire a mão e coloque o objeto que esta atrás
de mim no lugar. Tiro a mão, movo até o lugar que disse e pego o que estava lá, me parece
uma estátua, tento tatear, mas não identifico que tipo de réplica barata é.
Enfio dentro de mim em um único movimento, você solta um suspiro de fascínio. Sinto
meu corpo latejar mais, ela é maior que meus dedos, arranha minhas paredes. Sinto tua
respiração ofegante e ainda não consigo alcançá-lo. Você manda, então, que, ainda com a
estátua dentro de mim, eu me vire e comece a enfiar os dedos lambuzados no rabo. Me sinto
ridícula e você percebe. É uma situação constrangedora, não te vejo, não sei o que faz, meu
coração já palpita em vez de bater. Meus músculos retesam em vez de contrair. Mas você
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altera de novo o tom da voz. E enfio, dois, quatro dedos, meu corpo agora dói muito, muito
mais que na boceta. Você urra perto de mim, se delicia com o que vê. Me sinto ridícula, não
consigo imaginar o que estou fazendo, mas faço e sentir você gemer me excita muito e forço
mais e mais.
Você me avisa que vai gozar, me manda abrir a boca que quer gozar dentro dela; enfia
teu pau, duro, teso dentro dela. Começo a chupar, vou colocar a outra mão, você me diz que
não, só minha boca em contato com ele. Sugo, lambo, com força. Me afogo com a força que
você faz com ele dentro da minha boca. Movimentos compassados, respiração forçada, minha
mão lateja dentro do meu rabo e agora brinco com a outra mão na estátua.
Sinto teu gozo se aproximar, chupo com mais volúpia, você goza, me engasgo com a
quantidade de porra, me lambuza, minha mão no rabo pára de mexer, minha outra mão passa
em minha boca deliciosamente.
Você tira ele da minha boca, me manda tirar a mão do rabo, dói muito tirar. Suspiro
forte, prendo a respiração e tiro devagar, você grita... Me assusta e tiro... Grito de dor. Volto a
respirar. Me mandar virar, enfia sem dó um plug em meu rabo, grito novamente, suspiro em
seguida. Me manda deitar assim, entalada por dois buracos, com coisas, objetos sem tesão,
sem calor. Me sinto usada, como porta objetos, constrangida, você ri muito.
Me deito, você me diz que vai buscar algo para bebermos. Que mantenha os olhos
vendados, o corpo com os objetos enfiados, que você já volta e me fará gozar com calor, com
tesão. Escuto você sair, trancar a porta. Se passaram horas, já adormeci e acordei e você não
voltou. Desobedeci, tirei a venda dos olhos, o lugar não tem janelas, o som ainda na mesma
batida insuportável, aquilo enfiado em mim e você ausente.
Volto a mexê-los dentro de mim, e gozo deliciosamente sozinha. Tiro a estátua, o plug,
ambos doem muito, assaram meu corpo, por dentro e por fora. Gemidos ao tirar. Sensação de
alívio ao sair. Em cima da mesa, água e frutas. Se passaram muitas horas eu acho, a água
acabou, ainda há frutas. E você não voltou...

Te aceito sempre...
Cadella

Cansada, chego do trabalho... Você ainda não chegou e nem sei se vai chegar. Teus
amigos são sempre uma ótima companhia. Brinco com o cãozinho. Tomo um banho
demorado, sinto meu corpo relaxar dentro da banheira. Massageio meus pés e a cada toque
vem uma pontinha de excitação - mas o relaxamento vem em seguida, e eu mesma acaricio
meu pescoço, buscando os músculos contraídos.
O som toca algo instrumental, alto,
delicioso. Nosso cachorro me observa tomar banho
e eu penso no que vou deixar para você comer na
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cozinha. Saio do banho, completamente relaxada. Foram muitos minutos de puro deleite,
mesmo que sozinha. Me enxugo e passo creme pelo meu corpo - sem cheiro, porque você
odeia odores fortes de perfumes. Penteio meu cabelo, ainda ouvindo o mesmo CD, e agora o
cãozinho já está sentado, olhando para porta da rua. Termino de me cuidar no banheiro, saio
nua até o quarto, pego uma camiseta qualquer, coloco, vou até a cozinha e faço um mate
gelado para mim. Deixo tudo pronto no caso de você chegar com fome - pães fatiados sobre a
mesa,queijo.Volto para o quarto e me deito. Só então percebo que estou sem calcinha, mas já
estava embaixo das cobertas, totalmente entregue, com a respiração lenta, deliciando-me com
Pappilon no som, as luzes baixas...
Meu corpo queria você, mas está quase dormindo sozinho. Passou um pouco da meia-
noite, fecho os olhos, abaixo a música e adormeço. Acordo algum tempo depois com a luz do
banheiro acesa, mas é aquele despertar lento e volto a dormir. Então sinto teu peso na cama.
Estou deitada de lado, e teu corpo está molhado - você tomou uma ducha antes de vir deitar, e
se encosta em mim por trás, me beijando o pescoço, um beijo carinhoso mas forte, e minha
boca se entreabre do outro lado, imediatamente.
Você mantém a boca molhada em meu pescoço, passa a língua com força, estou
despertando bem naquela fase do sono pesado. Sinto teu corpo se forçar contra o meu, você
me abraça na cintura e minha respiração se compassa à tua, meu corpo treme, mas continuo
meio sonolenta. Você força teu corpo contra o meu, e mesmo meio dormindo arrebito minha
bunda em sua direção. Você pára de lamber meu pescoço, vem até meu ouvido e fala
baixinho: "Vadia, você é muito vagabunda sabia???" Sorrio sem emitir sons. Teu corpo agora
está ainda mais próximo ao meu, nosso calor se confunde com o calor das cobertas, você força
tua perna entre as minhas, lentamente levanto uma delas sobre a tua, e como que por
descuido sinto teu pau me penetrar com força e precisão. Solto um suspiro generoso, sinto
você ofegante em meu pescoço e tua boca sorri, mesmo sem vê-la. Meu corpo se contrai a
cada respiração, remexo lentamente o quadril como quem quer mais... Tua mão, que antes
apenas me abraçava, e forçava teu corpo contra o meu, agora alcança o bico do meu seio
esquerdo e brinca com ele. Aperta, com força, gira só a pontinha... emito um som um pouco
mais alto, de prazer e satisfação. Sinto teu pau pulsar dentro de mim, como que me rasgando
por dentro, ele lateja... eu remexo... você força... eu contraio.. Meu seio dói, arde. Você passa
os dedos na minha boca, enche de saliva e volta a brincar com o bico do meu seio. Ele arde
mais e você não pára. Gemo mais alto, quase um grito. Você me morde as costas e goza
deliciosamente dentro de mim. Eu já havia gozado minutos antes, em tuas mãos e corpo. Sinto
você escorrer dentro de mim, e a se misturar comigo, minhas pernas ficam meladas...
adoravelmente meladas. Permanecemos na mesma posição, corpos grudando, respirações
alternadas, mãos atadas como as almas. A música que estava no repeat ainda toca e suaviza a
dor que meu corpo sente. Você extasiado, continua atado a mim,coxas enroscadas, teu peito
quente em minha costas suadas. Falamos bobagens, tolices que nos fascinam como sempre,
nos fazem sorrir ainda mais. Lembramos de uma propaganda idiota da TV que nos deixou
conversando por horas e nos admiramos com a sintonia que se faz presente.
Num determinado momento, no meio da conversa sem nexo, fecho os olhos, respiro
fundo e suspiro forte. Sinto você novamente excitado, duro, viril, forçando a entrada no meu
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rabo. Você me arromba com força, me sinto invadida por algo maior que meu corpo pode
suportar. Não me perguntou nada, não fez qualquer menção de que o ato iria acontecer, agora
apenas me chama de cadela, de vulgar. Não falo nada, sussurro palavras desconexas, meu
corpo magoado por teus atos treme, meu olhos lacrimejam a dor que sentem e meu coração
disparado adora se sentir forçado, entregue às tuas vontades e caprichos.
Começo a mexer o quadril devagar, dói mais, muito mais. Você percebe e então, com a
mão que não está no bico do meu seio esquerdo, segura meu quadril e força o movimento.
Agora um grito de dor sai de meus lábios, imediatamente após lhe peço desculpas. Mas é
tarde - você está fora de si e se mexe muito e sente as paredes do meu corpo forçarem o
corpo do teu pau. Respiro mais rápido, sem parar, como uma cadela mesmo... e você treme
dentro de mim, posso sentir, tua mão aperta mais meu seio e torce e belisca e enfia os dedos
na minha boca e volta ao seio e arde mais. Somos um só corpo, deleitando-se com limites e
dores inexistentes. Você sussurra mais palavras em meu ouvido, me lambe o pescoço, não
sinto quase nada, meu corpo está anestesiado pela dor de uma enrabada incisiva, penetrante
e sem palavras. O tom da tua voz me excita como tua mão, como teu pau. Meus olhos ficam
baixos e você adora a posição de cabeça baixa, coração na mão e alma entregue.
Teu corpo se contrai com força, está prestes a gozar. Você tira de uma só vez, me
causando ainda mais sensação de dor, agora pela perda do que me causava aquela sensação.
Apenas manda que abaixe ainda mais a cabeça até a altura do teu pau pulsante e que sinta tua
porra escorrer em meu rosto, meus lábios. Não posso tocá-lo, apesar de sentir uma vontade
quase incontida de senti-lo dentro de minha boca. Você observa minha vontade, mas não me
deixa aproximar e goza... um jato forte, enorme, em meu rosto... abro a boca e consigo
algumas gotas dentro dela, mas a maior parte me lambuza o rosto e escorre pelo meu pescoço
e colo. Sorrimos, mais uma noite deliciosa, às vezes acredito que poderíamos viver assim,
entre conversas e boas sacanagens. Você, pela primeira vez me beija suavemente os lábios, e
deita agora como quem vai dormir.
O cãozinho dorme no chão ao lado da cama. Te cubro com um ededron limpo, me
levanto e vou tomar uma ducha. Ligo o chuveiro, mudei agora a faixa do mesmo CD, um
pouquinho mais alto, tomo um banho rápido, vou até a cozinha, pego o restinho de mate na
geladeira e volto pra cama. Olho no relógio - passam das 5h da manhã.
Sorrio enternecida ao te ver dormir. Me deito, te beijo a fronte, me viro de lado e
cochilo... São 6h10 da manhã, sinto teu corpo grudar de novo no meu.... sorrio novamente... te
aceito sempre...

O Plug
Cadella
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Acabei de entrar no shopping, um calor gostoso em contraste ao vento frio que corta os
lábios. Entro, dou uma volta pelas lojas - ainda é cedo, marcamos às 17h em frente ao cinema
e meu relógio acusa 15h10min. A espera, a longa espera.
Me sento em um banquinho qualquer e por algum motivo sinto teu cheiro no ar. Meus
olhos se fecham e meu corpo se agita, te procurando. Não te acho, sei que você não está, mas
me excito com a ideia de sentir teu cheiro junto de mim. Sinto minhas coxas se contraírem
sozinhas, e me delicio com a sensação. Meu coração pulsa mais forte, passo minha língua
molhada em meus lábios secos, e eles ardem.
Permaneço na mesma posição, sentindo minha virilha pulsar forte. Um frio me sobe
pelo estômago, e minha respiração se altera. Tua voz ecoa em flashes sonoros pela minha
cabeça, as cenas se sobrepõem. Sinto-me suando, meu corpo já está molhado, e eu ali no meio
de uma multidão, sentindo você. Os bicos dos meus seios estão intumescidos e transparecem
na camisa cinza que uso. Não ligo, são apenas sintomas do frio para quem estiver observando.
O bico de meu seio esquerdo está maior, e sorrio sozinha lembrando como ele chegou a ficar
deste tamanho. Pareço louca eu sei, mas meu
corpo ainda se contrai e eu já não me importo
nem vejo as pessoas ao meu redor.
Por um momento me lembro que dentro da
minha bolsa está aquele plug grande, de silicone,
que você conhece e sabe manusear como
ninguém. Meu corpo se contrai mais. Queria você
dentro de mim - mas como?? Estou sozinha e meu
corpo precisa sentir algo forte, precisa das tuas
ordens. Meu calor quase escorre pelas pernas.
Levanto, olho para os lados. Ninguém me
vê, ou todos me vêem, não sei. Vou até o
banheiro do shopping, entro, o espaço é grande,
penduro minha bolsa, me sento. Meu corpo
continua latejando. Num impulso, coloco minha
mão por baixo da blusa e começo a brincar com
meu seio, apertando o bico entre os dedos, e puxando-o. Solto um gemido baixinho, uma
súplica, implorando pela tua maneira de me fazer doer. Continuo com uma das mãos a torcer,
apertar, magoar meu bico esquerdo. Me sinto mais vadia que o habitual - afinal estou me
satisfazendo sozinha, de uma forma bem pouco peculiar.
nquanto uma mão brinca em meu seio e faz minha respiração se alterar, e meus lábios
estão molhados, e minhas coxas estão se roçando, pego dentro da bolsa o plug e sorrio
sozinha, um sorriso com laivos de solidão, meio Monalisa, meio tesão. Não consigo associar
minha ação a algo impulsivo, meu corpo agora sente você, teus movimentos, teu cheiro está
impregnado em mim. Me apoio na parede do banheiro, coloco o plug na boca, encho de saliva,
muita, muita saliva, queria mesmo era teu pau na minha boca. Mas você está longe, e eu
sozinha.
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Com o plug molhado, me apoio novamente na parede, as pernas entreabertas, a mão


direita no seio esquerdo, a mão esquerda levando o plug até a abertura do meu ânus, que
lateja sozinho... vai doer, eu sei, e pode até sangrar, mas não me importo, meu corpo implora
por você, por você que eu não tenho, que eu preciso e que vai demorar.
Prendo a respiração, fecho os olhos, aperto mais meu seio para que outra dor supere
aquela, e enfio o plug em um único movimento. Não posso gritar, nem gemer, a não ser bem
baixinho. Enfio tudo, meu corpo dói muito, lateja e afinal aceita. Tento respirar
compassadamente, mas não consigo. Mexo o plug sem parar, até que a dor passa, e vira tesão.
Olho então meu seio e noto que ele está sangrando levemente, numa dor deliciosa. Me visto
novamente, mantenho o plug enfiado, arrumo meu seio no sutiã de uma maneira que a renda
permaneça roçando o tempo todo o machucado.
Saio do banheiro com meu rosto vermelho, o corpo suado. Passo um batom, lavo as
mãos e olho no relógio - são 17h05. Saio correndo em busca de você. Te encontro sorrindo, e
você me olha como se soubesse porque demorei. Sorri novamente, me beija com força na
boca, chega até meu ouvido e pergunta que cara de vadia é aquela que está em meu rosto.
Não respondo, sorrio apenas, e me viro, e você, como que de brincadeira, me dá um
tapa na bunda de leve - mas o suficiente para sentir o plug enterrado em mim. Então teus
olhos brilham, a luz se apaga, e o filme começa...

Ser tua... Apenas tua...


Cadella

Senti teus olhos me engolindo... fortes... incisivos...


Tua boca a se aproximar da minha... calor... pulsar... entreabro os lábios... lentamente...
olhos agora fechados, sinto o calor da tua boca na minha, os lábios se tocam... como um suave
encontro, mantém-se colados, a boca se abre ainda mais... e sinto tua língua invadir minha
boca... deliro... ela desliza macia, perfeita. Retribuo colocando minha língua dentro da tua boca
e a passeio por entre teus dentes, teus lábios. A volúpia aumenta... você, literalmente, me
fode a boca, força a tua contra a minha, nossos dentes se tocam... e tua língua frenética já não
deixa a minha continuar a passear em você. Sinto tua saliva escorrer em minha boca. Em um
ímpeto você me manda parar, permaneço estática... vou cerrar os lábios mas você me
impede... coloca teus dedos nela... me olha como quem diz: - Fique assim.
Permaneço com a boca entreaberta, sem movê-la... você se aproxima, sinto minha
respiração descompassar, minhas pernas tremem e meu corpo suplica por você. Tuas mãos
agora prendem meu cabelo, forçam minha cabeça para trás, abro ainda mais minha boca,
fecho os olhos e sinto tua respiração compassar, agora na cadência da minha. Tua língua
passeia por meus lábios, dentes, língua, não me movo apenas sinto... meu coração já não
bate... ele pulsa... na garganta... você me lambe... o rosto... e força ainda mais minha cabeça...
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me entrego... sem forças a seus devaneios. Sinto delírio puro com tua boca... e quero mais... e
você quer mais...
Manda-me abrir os olhos e, com eles abertos... nos fitamos com uma cumplicidade
única, você quer forçar e eu quero ser forçada... passo minha língua em meus lábios... isso te
excita ainda mais... mas não era minha língua que meus lábios deveriam querer e você, com a
determinação do teu limite, me bate com força no rosto, tua mão em meus cabelos e a outra a
fazer o meu rosto arder, latejar... fecho os olhos, gemo baixinho e entreabro novamente os
lábios como que suplicando tua boca.
Você observa cada reação do meu corpo e sorri maliciosamente. Estou totalmente
entregue, submissa a teus caprichos... você acaricia meu corpo, como quem agrada um
bichinho de estimação, e lentamente me coloca na posição que você quer. Ainda vestida, saia
curta, meia 7/8, salto alto, agora com o blazer aberto e os seios presos em um sutiã meia taça
preto, sentada em uma mesa, pernas abertas e você dentro delas. Não consigo controlar a
respiração, estou latejando inteira, lasciva, vulnerável a você, o tremor aumenta, me apoio
com as mãos na mesa e inclino meu corpo levemente para trás, você se aproxima ainda mais...
tira meu seio para fora do sutiã, sem desabotoá-lo, desce tua boca até ele e começa a lambe-
lo... um frio me percorre o corpo, minhas pernas automaticamente se abrem e tua boca agora
morde o bico do meu seio, deliro... gemo baixinho... tua mão procura minha vulva e, tirando a
calcinha de lado... enfia um dedo, deixando ela ainda mais encharcada.
Meu seio começa a latejar em tua boca... abro os olhos ainda com a boca entreaberta e
vejo o bico de meu seio esticado... pulsante... entre teus dentes... me assusto... mas não tenho
forças para lutar contra a dor lancinante que agora me consome. Você morde, puxa com
força... me fazendo gemer mais alto com a dor que agora sinto, mas a sensação de entrega me
assusta tanto que não sei como reagir e permaneço adorando tua boca em meu seio, e teu
dedo dentro de mim.
Você, de olhos bem abertos, apenas constata minhas reações, e se satisfaz me vendo
gozar na tua mão, deixando meu sumo correr entre teus dedos. Tua boca, agora não mais no
meu seio, sobe e me beija os lábios com força, tua mão prende minha cabeça para trás,
enquanto teus outros dedos vão me invadindo... como quem responde afirmativo, vou abrindo
mais minhas pernas, tremo, desfaleço em tuas mãos quentes. Meu corpo sente o pulsar,
gemendo cada vez mais, você me xinga, sorrio... tua... só tua vadia... e você força mais teus
dedos, são quatro que me arrombam e me fazem delirar de tesão, de puro êxtase, tuas
mordidas se alternam... agora um grito de dor... o retorno da tua boca ao meu seio que esta
sensível, dolorido, quase me enlouquece de dor, mas fico... eu quero... mais...
Permanecemos na mesma posição durante vários minutos... tua boca a dilacerar meu
seio... minhas pernas a tremerem em tuas mãos... e teus olhos a me consumirem... em um
único rompante você pára... tira tua mão de dentro de mim em um movimento brusco...
assustador... me sinto vazia... uma sensação de perda... meu corpo relaxa... meus olhos
lacrimejam...
Sinto meu corpo se contrair, como que implorando você... suas ações... suas palavras...
ordens ou não... o silêncio agora é aterrador... mas permaneço em silêncio... te observo
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mover-se dentro da sala... você vai em direção à cozinha... e volta com gelo em uma travessa...
num impulso totalmente idiota... pergunto o que vai fazer com ele... você se aproxima... me
bate no rosto e enfia duas pedras de gelo em minha boca... meu olhos lacrimejam ainda mais...
tento cuspir as pedras... você avisa que se as pedras caírem no chão as coisas podem piorar...
mas meus dentes doem... muito... e tento então morder a pedras... você se aproxima... puxa o
bico do meu seio... até me levantar da mesa... e vai me levando pelo seio até o quarto... já não
estou em silêncio... dói muito... sou tua vagabunda... só tua... mas dói muito ser tua escrota...
mas você quer... e eu suplico... meu coração pulsa... na boca... tua respiração acelera nas
mãos... nos atos...
Você me joga na cama... me manda abrir as pernas... os braços... e fechar os olhos... lhe
obedeço prontamente... entreabro a boca... você me xinga: sua puta... não pode ver uma
cama... (sorrio...suavemente...) e abro mais minhas pernas e boca... você se aproxima e enfia
dentro de mim... uma pedra de gelo... meu corpo se contorce... e você me gira de lado... e
coloca outra pedra de gelo em meu ânus... esse dói... mas deliro... e você se diverte.. como se
eu fosse um brinquedo desprezível... escuto teu corpo gargalhar das sensações que o meu
corpo te proporciona.
Enquanto as pedras de gelo derretem, você me escala o corpo e sobe até ficar de
joelhos na altura da minha boca... e apenas com os olhos me ordena que chupe... sem a menor
possibilidade ou vontade de me mover levanto o pescoço e levo minha boca até ele, passo
minha língua na cabeça, molhada... você me enfia um tapa na cara... com força... meu rosto
lateja forte... e diz que me mandou chupar e não lamber... enfio ele inteiro dentro da boca e
começo a sugar... abro os olhos e observo você a me fitar com carinho... sugo com vontade...
você geme baixinho... segurando minha cabeça pelos cabelos... sinto teu coração pulsar na
minha boca... sua pele quente... ardente... me enlouquece... contrai minha virilha... e sinto a
água do gelo escorrer entre minhas pernas...
Você força ainda mais teu pau para dentro da minha boca... me afogo... lágrimas saem
de meus olhos, minha língua para fora... e você força... e dói a garganta... mas você não pára e
eu não paro... nossos limites estão além de uma simples chupada... me mexo na cama... o gelo
já derreteu... e meu corpo ainda contrai... muito...
Ainda com teu pau na boca... e chupando... muito... inteiro... entalado... atolado na
minha boca... você solta o bico do meu seio... que estava puxando... e enfia os dedos
novamente em mim... com força.. não sem antes colocar dentro do meu rabo um plug...
grande... muito... muito desconfortável... grito alto... me sinto invadida por aquele pedaço de
silicone... que entra e fere... e magoa... e destrói... tudo por dentro... você me manda rebolar...
para que entre mais... o plug... teus dedos... me mexo... como uma serpente que rasteja... e
você delira... o sorriso no canto da tua boca... me sufoca... e você não pára... dobra os dedos...
dentro de mim... já são os cinco... e tira com força... me arreganha... adoro... meu corpo
continua clamando por você... quero mais... do que o teu limite pode me dar... a dor... a
humilhação... o tesão de te satisfazer assim... você me estraga e eu peço mais... gozo
exaustivamente em tua mão... teu corpo... meu corpo suado... gruda... e sinto teu pau rijo em
minha boca... duro... latejante... pulsar...
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Você se levanta... nossos corpos em êxtase... deliciosamente compensados... de


carinho... dor e perdas... sensações que não passam no papel... apenas no corpo... na
respiração, no tremor dos membros, nos sussurros... que fadigam e excitam novamente...
Você me vira... de costas agora... meus seios ardem ao tocar os lençóis, encosto
devagar... mas você percebe e me empurra de encontro a eles com força... caio... despenco...
eles latejam... grudam no tecido... você ergue minhas ancas... me deixando apoiada nos
joelhos... cotovelos fletidos, seios na cama... e cabeça de lado no travesseiro... aproxima teu
corpo do meu... sinto teu calor... tua respiração volta a compassar com a minha... ritmados...
cadenciados... o suor escorre... a boca saliva... os olhos brilham... você de pé na beira da
cama... força meu corpo para trás... e em um único movimento me preenche o rabo... paro de
respirar... por uns 40 segundos... meu coração vem à boca... minhas pernas não suportam e
fraquejam... você me manda ficar na mesma posição... não consigo... você atolado em mim... e
mexendo sem parar... muito... dói... gemo alto agora... meus olhos reluzem pelas lágrimas que
deles escorrem... não consigo mais respirar... estou ofegante... dada... entregue... e você... a
confirmar apenas... minha posição de vadia... você não pára... eu suplico que não pare... somos
uma sinfonia... as notas e os sons... duas mãos que se tocam... duas bebidas que se misturam...
cumplicidade e loucura... não paro de me mexer... rebolo com você dentro de mim... agora
não dói mais... lateja apenas... aquela sensação dolorosa maravilhosa... de um beliscão...
doído... forte... mas carinhoso...
Você... se diverte... com meus movimentos... meu corpo ao teu bel prazer... os
movimentos agora mantêm um ritmo maravilhoso... sinto que vou gozar de novo... você
percebe... e me avisa que não... que não tenho autorização para gozar... sinto meu corpo
pulsar inteiro... ele clama por sentir mais uma vez... a sensação de prazer intenso... de ser
tua... não interessa... se mulher, se amante, se vadia ou qualquer outro nome... apenas... tua...
o gozo se aproxima em você também... você tira teu pau em um único movimento... e goza
extasiado intensamente em cima de mim... me lambuzando de você.... gozo em seguida... por
ver a maravilhosa sensação que lhe proporcionei...
Fito-lhe os olhos... me beijas a boca... deito... meu corpo lateja... melado de você... você
empanturrado de mim.... somos um... mesmo sendo tantos... você em mais um gesto de
carinho... assim como os tapas... as ordens... enlaça meu corpo... me beija a testa... e
adormece.... velo teu sono...

No Seu Castelo
william

A noite acabou de cair e eu ainda estou dirigindo. Chove muito, muito mesmo, mas a
vontade de chegar logo é maior. O que será que você, minha rainha, tem guardado para mim
esta noite? A música no carro se mistura com meus pensamentos em você, causando um
misto de hipnose e ansiedade. Estaciono o carro, olho para o prédio onde você mora, que para
mim é seu castelo, seu reino, um lugar onde toda vez que entro não quero mais sair, pois lá eu
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posso ser eu mesmo, eu posso ser todo seu, anulando minha individualidade, podendo assim
atingir o máximo, que para mim é lhe servir.
Toco a campainha, uma secura invade minha boca, minha pulsação acelera, toda vez
que te vejo minha Rainha, sinto como se fosse a primeira vez, pois você, como divina que é,
sabe sempre me surpreender, a cada dia você se torna uma mulher diferente, uma deusa
diferente, uma Rainha diferente, sempre melhor, sempre maior, sempre fazendo me sentir
menor diante de sua grandeza, sempre me deixando mais e mais em suas mãos, explorando
cada vez mais o limite de minha entrega, que, a cada vez, mais se aproxima do infinito.
Você abre a porta, instantaneamente sinto seu maravilhoso perfume no ar, seu divino
sorriso se abre, me aproximo, beijando sua boca, seus lábios tocando os meus, sentindo o
calor de seu corpo contra o meu, sua mão tocando minhas costas, sinto com a mão sua nuca e
cabelos; quando nossos lábios se afastam, sinto-me mais confortável, mais em suas mãos para
servi-la até onde sua vontade almejar.
Entro fechando a porta, você se senta no sofá, eu
ao seu lado no chão, começo a fazer a massagem em seus
pés que tanto te alegra, que tanto te instiga. Minhas
mãos tocando a macia pele de sua sola, fazendo
movimentos circulares com os dedos, seu calcanhar
sempre macio me faz delirar a cada toque. Sem dizer
nada, apenas com seu olhar, entendo que você quer que
eu beije seus pés, começo beijando-os na parte de cima,
e leve e vagarosamente escorrego minha língua para os
dedos, passando-a calmamente entre cada um deles. Ao
chegar em seu dedão, coloco-o em minha boca, sugando-
o, felando-o, tentando sugar dele o néctar da sua
essência de Rainha; passo ao dedo do lado, e um após
outro, tento fazer o mesmo. Paro, levanto um pouco mais
seu delicado pé, esfregando a sola deste em meu rosto...
sentindo sua sedosa pele contra a sensível pele de meu rosto. Nisto minha língua percorre a
sola de seu pé, dos dedos ao calcanhar, chegando nele levemente toco-o com os dentes, numa
muito suave mordida, no que sou interrompido... você o tira de minha boca, me lançando um
olhar de reprovação, quando ameaço dirigir minha palavra a você sou repreendido com um
tapa no rosto. Obviamente percebo que me excedi.
Conhecendo você já sei o que me espera, apenas acompanhando seu olhar me dispo;
estando em pelo, sigo seu olhar até o sofá, ajoelhando-me. Com o corpo sobre o sofá deixo
minhas nádegas à mercê de sua repreensão. Não olho para trás, sei que isto não me é
permitido. Após um breve silêncio sinto minha nádega direita explodir num ardor intenso, logo
após a esquerda, e assim sucessivamente, uma após a outra… Após isto repetido algumas
vezes sinto que lágrimas me vêem aos olhos, não lágrimas de dor, e, sim, lágrimas de alegria,
pois eu sei que o que estás fazendo comigo é para me tornar melhor. Melhor na minha única
razão de existir que é lhe servir, com isto lhe fazer feliz. E que maior alegria eu posso ter que
ser um instrumento seu, na sua busca por felicidade.
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Repreensão feita, espero por seu próximo desejo. Afinal esta lição por mim já foi
apreendida… mas não, eu me excedi demais, cometi a indelicadeza de morder seu calcanhar e,
pior, de dirigir-lhe a palavra sem me ter sido autorizado. Continuo na mesma posição, com as
nádegas em fogo, agora percebo que há mais por vir. Neste momento você me ordena que
abra minhas pernas, afastando as minhas nádegas com as mãos… já sei o que me espera, mas
se você assim acha que eu mereço, nada posso fazer além de aceitar seu desejo. Neste
pensamento, sinto algo começar a me violar, sinto como se meu corpo estivesse sendo partido
em dois. A dor se intensifica, misturando-se com um prazer estranho, misto da excitação que
me causa, com a consciência que está te estimulando mais ainda… seus movimentos ora
bruscos, ora delicados me deixam na prazerosa angústia de estar em suas mãos. Não bastasse
você possuir minha alma, possui meu corpo também. A dor misturada com a excitação é
intensa, nesta posição você me puxa pelos cabelos ordenando-me mirar seu rosto. Vejo sua
feição de satisfação, e por esta satisfação eu faria qualquer esforço. Isto me é fácil, abdicar de
mim para te fazer feliz.
Nisto você interrompe minha sodomização. Sei que você está com um prazer imenso,
um prazer que te queima por dentro. Um prazer que almeja o derradeiro gozo. Seu olhar me
dirige ao chão…. Deito-me olhando fixamente para o teto de seu castelo, sei que não me é
permitido observar enquanto se despe, apenas aguardo inerte. Você se aproxima, se põe na
direção de meu olhar, e aproxima seu sexo, mais e mais perto de minha boca sedenta por seu
gosto. Quando minha boca a toca, sinto o quão excitada você já está, minha língua toca seu
divino botão, e começa a massagiá-lo, meus lábios sentem seu néctar abençoado os
umedecendo…. Sinto ele escorrendo por minha boca, me invadindo o corpo e a alma, me
regenerando, me redimindo, minha língua percorre sua gruta, a explorando, sabendo que cada
centímetro seu é abençoado, e por isto tem de ser aproveitado neste momento único de
prazer. Seu botão, de tanta excitação parece que desaflora a cada toque de minha língua, a
cada toque de meus lábios. Sinto seu corpo se contorcendo, prestes a explodir de luxúria e
desejo, você geme alto, o que me gratifica por estar sendo um objeto na busca de seu divino
orgasmo, até que ele chega, intenso, explosivo, como se seu corpo todo fosse consumido por
um fogo que queimasse fugazmente, sinto isto em você. Não paro - sei que se seguirão vários
êxtases até minha Rainha se dar por saciada e, um após o outro, eles te invadem, levando a
mais pura alegria a sua alma.
Estando saciada você se levanta e me ordena que eu me vista. Eu sei: hoje, a mim, será
negado o privilégio de atingir o gozo. Você me olha com carinho e ternura, eu não tenho
palavras para dizer o que seria capaz de fazer por este olhar. Já é tarde, como sempre horas
passaram-se em sua companhia, como se fossem um fugaz piscar de olhos… Dirijo-me até a
porta, você me segura pelo braço, dando-me um beijo. O jeito com que sua boca toca a minha
e que nossas línguas se acariciam me faz saber o quanto feliz e realizada minha Rainha está.
Quando atravesso sua porta e me dirijo ao elevador sinto você me observando com carinho…
com amor… Ao sair do prédio olho para cima e vejo você me observar pela última vez hoje, e
em seguida fechar sua janela. Entro no meu carro e já começo a sentir a pior dor que você me
causa, a dor de não saber quando você me presenteará com sua companhia novamente, a dor
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da ansiedade que novamente começa, que só passará quando de novo eu olhar em seus lindos
olhos e sentir o seu mágico perfume.
Nisso um sentimento invade inteiramente meu corpo, como seu um raio caísse sobre
meus ombros e eu começo a chorar, chorar muito, copiosamente, mas de felicidade, ao sentir
em mim a bênção divina que é poder te servir, que é poder te fazer feliz. Ao me lembrar de
todas as camas em que dormi e da única que me dá conforto. Ao lembrar de todas as bocas
que beijei e da única que me faz feliz. Ao lembrar de todas noites que chorei e de que agora
não existe mais a tristeza em meu coração. Ao lembrar de todas as mulheres que amei e da
única que eu entreguei minha alma.

Dependência Ou Submissão?
lan@

Seres reais povoam meu sonho: em lugares fantásticos, em situaçõesobscuras, em


labirintos de cores ainda não inventadas.
Quando o vi, ele parecia flutuar num corredor exótico e interminável: os lugares do
sonho. Seu nome não era importante. Em verdade, não tinha nome: as situações do sonho.
Tinha lábios bem desenhados, isso não me esqueço: os labirintos do sonho.
Quando falou comigo, sorriu e me olhou nos olhos. Perigosa combinação essa: voz,
sorriso, olhar. Não sei dizer exatamente em qual deles primeiro me perdi, mas ainda sei dizer
que nunca mais me encontrei. Um olhar que não consentia dúvidas, um sorriso que admitia
todas as possibilidades e uma voz que não permitia hesitação.
Ficamos juntos naquela noite. Não tive escapatória. Não
tive escolha. Acostumada que sou a decidir tudo sozinha na
minha vida - acompanhei-o - surpresa com meu próprio
comportamento.
Ninguém nunca se preocupou em escrever sobre a
angústia de ser independente. A solidão da independência. As
pessoas dependentes sempre contam com alguém para dividir
seus erros e suas culpas. As independentes não: se der tudo
certo, ótimo. Não deveria ser de outra maneira. Se der tudo
errado, a culpa será sua eterna companheira.
As pessoas independentes geralmente são obrigadas a tomar as decisões, e elas nem
sempre agradam a todos. Nesse contexto é fácil perceber que as pessoas assim são, com
frequência, confundidas com pessoas autoritárias, dominadoras ou, até mesmo, pessoas más,
sem coração.
Certa vez, li sobre a dor de ser irmã de Cinderela... A dor de ser feia... É fácil ser boazinha
quando tudo nos cai do céu; porém, é muito difícil manter o padrão se temos que "correr
297

atrás" do que nos apetece. Mas não é sobre beleza/feiúra que trata nossa história... Nossa
história trata da confusão que fiz entre os conceitos dependência/submissão.
Eu sempre lutei muito pela minha independência. Sempre achei importante ter meu
próprio dinheiro, minha própria profissão, minhas próprias opiniões. No meu simplório
entendimento, as pessoas submissas se tornavam dependentes das outras. Acho que quanto
mais meu inconsciente me enviava sinais, tentando me alertar sobre minha submissão latente;
mais eu me apegava a minha independência, mais eu fazia por não depender de nada, nem de
ninguém. Pura defesa psíquica. Criei uma imagem maravilhosa: independente, segura, auto-
suficiente. Uma postura até certo ponto invejada.
Mas havia alguma coisa que não estava no seu devido lugar. Umas vontades estranhas,
uns desejos contraditórios com a imagem, umas fantasias perturbadoras. Foi nesse estado de
espírito que me encontrei com ele.
Como dizia antes de me perder em divagações, eu não tinha escolha: ou o acompanhava
sem reservas ou não o acompanhava. Não havia o "mas", minha conjunção favorita... Adoro
orações coordenadas sindéticas adversativas...
Fui com ele. O coração aos saltos. Apesar de nunca ter tido um dono, já conhecia as
regras básicas e pensava: "não vou conseguir me ajoelhar...". Devo esclarecer aqui que esse
temor não era o único sentimento manifesto. Havia também outras sensações aparecendo e
tomando conta da situação: havia a curiosidade, havia uma atração mútua, havia um desejo
intenso, impossível de ser reprimido.
Quando me ajoelhei aos seus pés e ofereci meu pescoço para a coleira, senti como se
estivesse fazendo uma encenação. Não era real. No entanto, essa sensação desapareceu
rapidamente, no momento em que ele me segurou pela coleira e puxou com força, fazendo
meu rosto ficar bem perto do seu... Nossos lábios quase se tocando... E falou: "Você é minha
agora! Você me pertence!" A voz que não permitia hesitação. Concordei placidamente.
Minha memória não é precisa no que diz respeito aos acontecimentos daquela noite. Sei
que me submeti às vontades Dele sem nenhum vacilo e, durante o tempo que durou aquela
sessão, deixei de lado minhas preocupações com a minha independência. Entreguei-me aos
Seus caprichos, que - descobri depois -, não deixavam de ser os "meus caprichos"... - servir e
ser servido - apenas dois aspectos diferentes da mesma ordem de fatos.
Depois que nos separamos, ansiei por novos encontros, novas conversas e, uma vez livre
das dúvidas e dos preconceitos sobre a condição de "submissa", tenho levado a vida assim:
explorado o tempo todo - na companhia do meu Dono - esse meu lado submissa, que por
tanto tempo reprimi e, o que é mais importante: aprendi a diferença entre os dois conceitos.
Posso - e devo - manter minha independência, minha segurança, meus pontos de vista; sem
que isso afete a minha submissão. Posso me submeter ao meu Senhor, sem que isso me torne
dependente Dele. Obviamente, sob alguns aspectos sempre serei dependente da Sua vontade,
mas não todos os aspectos, nem tampouco aqueles aspectos de que dependem a minha
individualidade.
298

Tenho descoberto o prazer ilimitado de me ajoelhar, de usar Sua coleira, de servir aos
Seus caprichos, realizar Suas fantasias, me submeter aos castigos; afinal, a dor e o prazer - a
exemplo do "servir e ser servido" ou do "bem e o mal" ou do "amor e o ódio" - também são
apenas duas espécies contrárias do mesmo gênero.
Seres fictícios povoam minha realidade: em lugares imagináveis; em situações claras; em
labirintos de cores precisas.

A Mumificação
Liu*

Eu já havia experimentado várias posições de


Bondage com cordas de algodão. Já ficara
imobilizada por algemas e, numa Play Party,
experimentei ficar imobilizada com filme plástico.
Confesso que gostei, foi uma linda cena.
Comentando aquela cena com meu atual
Senhor, percebi seu interesse pelo assunto e,
prontamente, comprei um rolo de filme plástico no
supermercado, que incluí em meu kit pessoal.
No encontro seguinte vivi uma das experiências mais intensas e prazerosas desde que
comecei no BDSM.
Ele sentou-se numa cadeira na borda da cama e eu fiquei de pé na sua frente. Coloquei
os silicones para ouvido, conforme ordenado. Meus pulsos foram enrolados até a altura dos
cotovelos e meus braços ficaram na frente do meu corpo. Então ele começou a embrulhar
meus ombros, seios, braços, barriga, quadril e tornozelos. Minhas mãos e pernas ficaram de
fora e recebi a ordem para sentar na cama. Fui aos pulinhos e tentei sentar, mas era difícil,
porém consegui. Eu já sentia um pouco de calor, apesar de estarmos no inverno e de eu estar
nua por baixo do plástico.
"Olhe pra mim e não se mexa..."
Comecei a ver uma tira de filme plástico vindo em direção aos meus olhos, ao meu
rosto, ameacei entrar em pânico... Sou asmática.
"Fica calma..."
Respirei fundo e senti aquela coisa grudando na minha testa e dando a volta pelo meu
cabelo. E, no mesmo instante em que meu cérebro percebeu que o ar ia faltar, senti os dedos
do meu Senhor rasgando o filme exatamente onde se encontrava a minha boca. Então relaxei.
E seguiram-se cinco ou seis voltas de filme pela minha cabeça e pescoço, emendadas ao
plástico que já cobria meus ombros.
299

Eu não conseguia ver nada, pois a pressão do plástico me obrigou a fechar os olhos, o
som era abafado pelo silicone no meu ouvido e pelo plástico. Meu nariz atrapalhava, exalando
ar quente que se transformava em água ao encontrar o calor do meu corpo. Minha boca
estava aberta, claro, e secou imediatamente.
O que aconteceu depois é ainda muito confuso, mas sei que já levara umas boas
chibatadas nas coxas, que estavam marcadas, e eu sentia a ponta de um canivete me
cutucando nos pontos da coxa que mais ardiam. Agora entendo porque elas ficaram
descobertas... Sei que era um canivete, pois, antes da mumificação, ele já o usara em meu
corpo, cutucando-me de forma muito irritante.
Depois, passaram-se momentos de total silêncio, longos momentos. Eu só ouvia a minha
respiração e as batidas do meu coração. Num determinado instante percebi que ele deitou-se
ao meu lado, acariciava meus cabelos, passava a mão em meu rosto embrulhado e eu apenas
gemia. Não conseguia mexer nada.
Então senti sua mão chegando perto da minha boca, daquele pequeno buraco por onde
o ar entrava, e meu coração imediatamente disparou. O que imaginava que iria acontecer,
ocorreu: ele tampou minha boca. Entrei em segundos de desespero, sei que foram segundos.
Dava pulos na cama deitada, sentia o peso da sua mão em minha boca e, num grito abafado,
senti sua mão sair, liberando a entrada de ar.
Respirei pela boca, ofegante. Senti o ar gelado, entrando. Estava bastante alterada e ele,
em silêncio, um silêncio que só era quebrado pelo calor do seu corpo ao lado do meu.
Essa sequência, de bloquear a entrada de ar, aconteceu várias vezes. Não podia me mexer,
meus poros estavam alagados de suor, o calor era intenso, não enxergava, não escutava e
respirava de maneira alternada...
Então, algo mágico aconteceu: comecei a me sentir profundamente sozinha, num escuro
intenso; as batidas do meu coração soavam altíssimas e me senti leve, quente, exausta. Uma
onda de prazer me arrepiou inteira e eu não me sentia mais ali. Havia entrado no tão famoso
"subspace". Fiz uma viagem interior, ao som das batidas do meu coração, que agora estavam
longe... Eu não sentia dor ou qualquer incômodo... Apenas uma sensação ótima de estar
dentro de mim mesma. Perdi as noções de espaço e tempo; perdi a noção do que fazia, se é
que fazia algo. Sentia carícias, minhas mãos sendo tocadas e minhas coxas, na parte interna,
cutucadas com a ponta de um canivete. Sei que respirava fundo e era como um transe. E,
mesmo estando naquela situação de total entrega e exposição, sentia-me protegida, pois a
confiança que tenho em meu Senhor é que me proporcionou essa viagem sensorial. Senti que
ele me puxou para que me sentasse, levei tapas no rosto e a explosão de mais adrenalina,
causada pelos tapas, aumentou a imensidão onde me encontrava. Era como se estivesse num
local imenso, no espaço mesmo. Um local que você não sabe onde termina. Tudo
completamente escuro.

Além do consensual
300

Esta experiência só pode ser vivida por casais que tenham total conhecimento entre si. É
uma experiência para além do consensual, pois eu não estava no controle de mim mesma. Eu
estava totalmente dependente de alguma ação externa para me tirar daquela situação.
Safeword alguma poderia ser mencionada, já que eu nem sabia onde estava e havia perdido a
noção de tempo. Não conseguia sequer me manter sentada. E tal situação só foi quebrada
quando meu Senhor, percebendo minha "exaustão", começou a rasgar o plástico.
Para mim foi uma entrega de corpo, força e alma. Afinal, se não confiássemos muito um
no outro eu não teria alcançado um prazer tão intenso e tão completo.
Só vivi a situação de "subspace" porque me entreguei e relaxei. E isso só se consegue
com maturidade e experiência.
Não recomendo a ninguém os jogos de asfixia. Nunca deixei que fizessem comigo.
Principalmente porque sou asmática. O que aconteceu foi algo muito leve, mas que se
multiplicou pela situação e tornou-se algo maravilhoso.
Meu Senhor possuía o controle da situação. Respeitou minha entrega, porque mais que
entregar meu corpo e minha alma, entreguei-lhe meus sonhos, minhas fantasias e meus
desejos. Entreguei a ele o poder que toda sub tem: o da coragem de realizar suas fantasias e o
da adoração e do amor por aquele que nos leva pelos caminhos do autoconhecimento e da
felicidade.

A Alma Submissa
Mégara*

"Você tem 20 minutos; te espero lá. Bata na porta e espere."


E assim terminou nossa conversa de mais de duas horas pelo telefone. Nossas conversas
eram sempre assim. Dos mais variados temas. Naquela madrugada o tema era desejo.
Tínhamos conversado sobre o desejo dele em me submeter. Seria a primeira vez, ele era meu
amigo virtual por quase um ano. Nunca tínhamos nos encontrado, mas o desejo existia. Ao
desligar, senti meu coração disparar, não sabia o que fazer primeiro, eram duas horas da
madrugada e eu estava sem carro. Chamei um táxi. Demorou e, com meu kit em mãos, fui para
o motel escolhido. Claro que me atrasei, o tempo marcado era pouco, já tínhamos um bom
motivo para começar, mas mal sabia eu que aquele homem não precisava de motivos para ter
estilo.
Subi as escadas do quarto, bati na porta, esperei.
A porta se abriu. O quarto estava na penumbra e ele, atrás da porta, estava escondido.
"Entre, não vire para trás, caminhe até o meio do quarto e pegue a venda no chão."
Obedeci, fazendo com que a minha vista se acostumasse ao quarto. Vi uma venda
dessas de avião no chão, me agachei e peguei-a.
301

"Coloque-a."
Coloquei-a. Instantes depois, minha bolsa foi tirada do meu ombro e posta no chão, ao
meu lado. Ele estava atrás de mim e mexia em meus cabelos, sentindo seu perfume. Levou-me
pelo braço mais adiante.
"Tira a roupa devagar, sem mexer na venda. Quero te ver".
Eu queria morrer. Despir-me sem ver sua reação? Obedeci, tremendo; meus sentidos
estavam aumentados, eu podia ouvir sua respiração, mas não sabia onde ele estava. Fiquei
nua o tempo todo. Fui encoleirada e ele usou a guia para, além de muitas outras coisas,
passear comigo pelo quarto, sempre com a venda.
Ficamos juntos por quase quatro horas, ele não se despiu. Deixou-me tocar seu rosto,
sentir sua barba macia, seu perfume. Implorei, durante as quase quatro horas, para ver seu
rosto. Não obtive resposta. Não fui amarrada, não fui algemada, estava livre o tempo todo,
porém cativa, cativa psicologicamente deste homem sem rosto, apenas voz, cheiro, gosto e
respiração. Eu era cativa do meu desejo, do meu único desejo naquela hora: Viver minha
submissão intensamente.
Foram longos momentos de silêncio absoluto, longos momentos de tapas, que não sei
de onde vinham, nem quando. A cada tapa era um susto e a cada susto um beijo, um carinho.
Carinhos e tapas vindos pela frente, por trás. Perdi completamente a noção de espaço e tempo
nessas quase quatro horas. Meus olhos eram suas palavras, seus atos. Eu estava totalmente
entregue.
E eu chorava, ajoelhada naquele quarto; chorei por me sentir sozinha num dos longos
momentos de silêncio, mas, logo em seguida, senti um abraço apertado dele, ajoelhando-se na
minha frente e me elogiando por eu viver tão intensamente aquele momento que era único
em nossas vidas e tão esperado por ele e por mim.
Nos entregamos aos nossos desejos e foi lindo.
Eu estava exausta, lutei por quase quatro horas contra meus limites de visão e medo do
escuro. Lutei contra a vontade louca de arrancar a venda e ver seu rosto.
"Se quiser se lavar, vá até o banheiro, feche a porta, tire a venda e fique à vontade. Um
táxi vai te esperar lá embaixo. Não tenha pressa. Fique o quanto quiser."
Senti um abraço, um beijo longo, mais forte que todos os que recebi naquelas quase
quatro horas, um afago nos cabelos, um aperto na nuca.
"Você é maravilhosa, uma sub como poucas e uma mulher inesquecível, eu te ligo..."
Ouvi a porta se abrir e fechar. Ele foi embora.
Não vi seu rosto, sei que tinha uma barba macia, um perfume de banho tomado, uma
respiração de fumante e um gosto de tabaco misturado com desejo que jamais vou esquecer.
Ele podia ter-me matado? Ele podia ter-me machucado? Sim, podia, mas não aconteceu.
Será que foi sorte minha? Sim, pode ter sido.
302

Então, o que aconteceu naquela madrugada?


Aconteceu uma entrega, sincera e intensa. Eu me submeti a um homem sem rosto, me
submeti a uma personalidade forte, doce, a uma vontade. Um Mestre. Foi puramente
psicológico. Ele permaneceu vestido o tempo todo, mas eu podia ver a sua alma. Obedeci as
suas ordens com paixão, vivi cada segundo, contava as batidas do meu coração.
Nossos pensamentos estavam sincronizados, nossa alegria era transparente. Tudo o que
aconteceu foi maravilhosamente consensual, com muito respeito, com muita seriedade e
cuidado.
Uma vontade de servir.
Um desejo de obedecer.
Uma ânsia de se entregar.
Servir, obedecer e entregar-se. Sentimentos confusos se vistos de fora, mas tão fortes
quando vistos pela alma de uma submissa.
Talvez seja difícil entender como uma mulher pode ter vontade de servir, mas há prazer
nisso. E, mais do que prazer, com o tempo se torna algo natural.
Desejar ver seu Senhor feliz. Dedicar-se a ele.
Desejo de obedecer, receber ordens. Executá-las sorrindo. Desejo de pertencer a
alguém, a alguém especial, aquele alguém que conhece sua alma, sua mente.
Ora, nada mais difícil que a Dominação psicológica. A força de um olhar, de uma palavra.
Sentir-se pequena perante um homem que apenas te olha. Sentir-se pequena por saber que
esse homem sabe dos seus pensamentos e dos seus sentimentos. Ele te conhece como mais
ninguém conhece. Você confessa a este homem forte seus desejos profundos, seus medos,
seus sonhos, você chora para ele, você sorri. Você se abre naturalmente.
Há prazer em sentir-se pequena perante um homem com atitude e personalidade, pois
esse sentir-se pequena é, na verdade, ser um gigante em felicidade e prazer.
Entregar-se de corpo e alma.
Saber que, através da confiança, você pode se entregar com tranquilidade e aproveitar
ao máximo a submissão.
Ah, que delícia poder fechar os olhos e saber que seus desejos estão nas mãos de um
homem em que você confia e que em segundos pode te levar ao prazer máximo. Essa troca
constante de sentimentos, sentir que a sua entrega dá prazer - e muito! - ao seu Senhor. O
silêncio entre uma ordem e o cumprimento dela. Segundos estes de tensão e expectativa.
Aquele sorriso que você recebe e entra na alma, passando pelo seu coração.
A disciplina e a dedicação podem aumentar a força para lutar no dia-a-dia. Você se torna
mais confiante, mais forte, mais tranquila. Você acaba confiando na sua força interior, aquela
força que você achava que não existia, mas que, sem ela, você não teria a coragem suficiente
para viver suas fantasias.
303

A submissão pode parecer uma situação inferior para alguns, mas ela guarda essa força
interior que é enorme e que poucos têm.
Entregar-se de verdade, sentir prazer nisso e não sentir-se menor como ser humano
requer essa força, personalidade e equilíbrio.
Uma submissa que tenha alguns desses requisitos fragilizados, pode sofrer e se
machucar interiormente. Se não tiver força, vai desistir. Se não tiver personalidade, vai cair na
mesmice de um jogo que pode se tornar desinteressante. Se não tiver equilíbrio, vai confundir
os sentimentos, não vai perceber seus limites e vai sofrer sem ter prazer.
Todo exagero traz consequências e no BDSM estas podem ser perigosas. Se há um
desequilíbrio, uma das partes pode se machucar, física e psicologicamente. Não esconder
sentimentos é a regra número um de uma submissa. Não conversar, não entregar seus
pensamentos ao seu Senhor, é um risco que não vale a pena correr.
A consensualidade deve sempre ser soberana na relação BDSM.
O seu desejo é o desejo do seu Senhor, mas o limite sempre deve ser respeitado. E só a
observação detalhada das atitudes do seu Senhor pode te dar a confiança necessária nesse
tipo de entrega.
Junto com o consenso vem o respeito. Não andam separados. Como se submeter a
alguém que não te respeita, tanto como submissa quanto como mulher? Você entrega seus
sentimentos, suas fantasias a alguém que vai saber cuidar delas, respeitá-las. Ele vai cuidar de
você, vai te preservar, vai te proteger. E você, como submissa, vai venerá-lo, vai adorá-lo, vai
respeitar seus limites, vai honrá-lo.
Uma vez alcançado esse grau de consciência, de que a entrega é força e há prazer nisso,
um Senhor consciente e experiente saberá retribuir a entrega, mostrando prazeres e abrindo
caminhos na alma submissa.

A Entrega
Mégara*

E então, lá estava eu, ajoelhada aos pés daquele


homem maravilhoso.
Estiquei minha mão tremula, fria e sorri,
entregando a ele minha coleira e guia.
Para mim, aquele era o símbolo da minha
entrega.
304

Ele, gentilmente, colocou a coleira em meu pescoço, depois a guia...


Linda... Fica aqui do meu lado, de quatro... Fiquei de quatro olhando para o chão, senti
sua mão acariciando minha bunda, minhas costas. Seus dedos me procuraram e devem ter
achado algo molhado e quente. Soltei um gemido baixo. Ele tirou os dedos e os colocou ao
lado do meu rosto. Eu sabia o que fazer. Chupei-os, senti meu gosto.
Ele é tranquilo, tem longos momentos de observação e eu longos momentos de espera,
com o coração batendo forte.
Vem aqui, vem... E levantando-se me puxou pela guia e passeou com a sua cadelinha
pelo quarto. Subi na cama, desci, fomos para o outro lado e então ele se sentou na borda da
cama e eu parei aos seus pés, olhando sempre para o chão.
Ele pegou a chibata no pequeno sofá atrás de mim e a jogou para o lado da porta.
Vá buscá-la e traga-a com a boca.
Obedeci, sorrindo.
Fui buscá-la com a guia arrastando pelo chão, peguei-a com a boca e a entreguei
suavemente para meu Senhor. Isso... Então a jogou novamente, agora para o lado da janela.
Vai pegar, vai, com a boca.
Obedeci novamente, sorrindo. Na volta, recebi um afago delicioso e um abraço forte.
Eu, ajoelhada aos seus pés, estava inebriada pelos seus carinhos, suas mãos passavam
pelos meus ombros suavemente até chegarem aos meus seios. Ele abaixou meu sutiã e então
senti um aperto forte, gemi. Seus dedos procuraram meus bicos que, ritmadamente, iam
sendo apertados. Então senti uma dor forte, soltei um "ai", do "ai" passei para um grito mais
forte, seus dedos já eram garras e os movimentos de apertar, empurrar, puxar e torcer
fizeram-me chorar. Eu sentava e me jogava para trás e ouvia... Fica quieta! Olha pra mim!! E eu
olhava, seus olhos fixados nos meus, sem piscar e chorava e não conseguia ficar quieta. Olha
pra mim!! Meu Deus, ele não ia parar, ele queria a safe word e eu não me conformava de ter
que dizê-la!!! E aos prantos e quase aos gritos falei a safe Word: como num passe de mágica
suas mãos soltaram meus bicos amassados e vermelhos e quando meu corpo ia caindo para
trás ele me pegou no ar e me abraçou forte, me beijou e eu soltei o ar, sufocada pelas minhas
lágrimas e dor.
Minha linda... E com esse abraço no meu corpo mole pela dor, eu inexplicavelmente me
sentia protegida por ele, dele mesmo.
Ficamos alguns minutos abraçados, minutos onde suas mãos, que antes eram garras,
agora eram suaves e acariciavam meus bicos doloridos.
Tira a calcinha.
Obedeci, ficando de cinta liga, meias 7/8 e o sutiã abaixado.
Senta na cama.
Sentei.
305

Tira o sutiã e deita.


Assim foi feito.
Ele se ajoelhou na borda da cama, levantou minhas pernas bem abertas, expôs meu
clitóris, levantando e estirando bem a pele e me lambeu. Apertei os lençóis com força, estiquei
os braços e amoleci. Sua língua me invadia e meu estado de relaxamento foi interrompido por
seus dentes tentando engolir meus lábios e meu clitóris. Ele me segurava pelo quadril e me
empurrava para mais perto do seu rosto e eu sentia uma sucção violenta e os gemidos deram
lugar aos gritos e todos os músculos do meu corpo ficaram retesados pela dor. E quando ele se
cansava, soltava meu clitóris e lábios para respirar e meu corpo caia nos lençóis, os gritos
paravam e a língua voltava a ser suave e compassada e meu sexo depilado beijava a sua boca
deliciosa, mas quando eu estava entrando no ritmo, seus dentes me agarravam novamente e a
sua boca antes suave, sugava minhas peles, fazendo-me gritar novamente. As lágrimas faziam
meu tronco levantar para olhar meu cruel Senhor se deliciando com meus berros e contava os
segundos para que ele parasse para respirar; desta vez demorou-se mais. Eu já devia estar com
o sexo inchado, mas sabia que depois da violência da sua boca, vinha à suavidade da sua língua
e depois da suavidade da sua língua, sua boca violenta me pegou de novo, arrancando meus
gritos e lágrimas por mais uma vez e quando se cansou, eu já quase sem forças, senti sua
língua me forçando, meu clitóris inchado sendo arregaçado por suas mãos. Comecei a rebolar
em sua língua, sua boca, minhas pernas apertavam seu pescoço, Eu apoiava meu peso em seus
ombros e meu quadril mexia no compasso da sua boca, ele gemia, eu gemia e então me ouvi
dizer: vou gozar.... E gozei, soltei meu gemido mais profundo, sentia a força do seu desejo me
engolindo e a força do meu desejo em forma de secreção quente e doce, entrando na sua
boca, como uma entrega. Minha cabeça ardia de calor, eu gemia e arfava, ele parou com a
língua, eu de olhos fechados não queria me mexer, sentia sua língua mexer meu clitóris
novamente, bem de leve, dura. Eu me retorcia de aflição, estava muito sensível.
Ele sentou-se no pequeno sofá em frente à cama e me virei de lado pois minhas pernas
tremiam pela posição. Minha respiração foi sendo retomada e eu estava voltando das nuvens
devagar. Fiquei assim por algum tempo.
Puxou uma cadeira e sentou-se na ponta da cama.
Fica aqui na minha frente, na cama, de joelhos.
Obedeci, colocando as mãos para trás e olhando para baixo. Foi aí que vi que ele
segurava prendedores de madeira. E eu odeio prendedores, ainda mais nos bicos já
doloridos!!
Ele foi colocando, sem pressa, um a um, fazendo um desenho em volta da auréola
esquerda e eu gemendo de dor. E, no final, um último, no bico. Aí comecei a chorar. Continuou
fazendo o mesmo no seio direito e eu chorando.
Não se mexe porque vai cair!
Fiquei quieta e chorando. Ardia e doía!
Vira de costas e fica de quatro.
306

Ah... Mudar de posição com esses pregadores pendurados!! Aiiiiii!!!! Não conseguia
parar de chorar. Não conseguia porque eu sabia que ia apanhar. Não tive coragem de levantar
a cabeça. Esperei.
Então senti algo queimando minha bunda. Abri os olhos e não me mexi. Depois fiquei
sabendo que era uma cinta.
Senti mais um ardor e uma dor forte. Soltei um gemido.
Na terceira vez não aguentei e gritei.
Na quarta virei a bunda para o outro lado.
Volta para a posição!
Voltei rapidamente e levei mais uma! E outra e outra, rápida!
Aiiiiiiiiiiiii!!! O que era aquilo!!!! Eu não ia aguentar! Mas como!? Impossível o que
estava acontecendo??? Ele tem muita força!!! Não acredito que mais uma vez ia ter que dizer
a safe word!
E falei, aos prantos... E imediatamente ele parou
Por que você está chorando minha linda, hein?
Os pregadores... Chorando.
Os pregadores estão doendo, minha linda?
Estão... Soluçando.
E porque você não pede para eu tirar?
E virando-me para ele sentado na cadeira, com o rosto todo molhado, falei: por favor
Senhor, tira os pregadores.
Claro, minha linda! Com aquela voz irônica...
E começou a tirar. Claro, a pior parte! Mas juro que foi um alívio.
Obrigada meu Senhor. Falei, sorrindo.
E ele sorriu e me abraçou e me beijou e eu apoiei minha cabeça no seu peito e era uma
delicia. Ficamos assim por algum tempo, ele mexendo nos meus cabelos e eu sentindo seu
perfume delicioso.
Pega as luvas, pega...
Levantei e fui até o sofá, onde estavam meus objetos, e peguei o pacote de luvas.
Coloca em mim.
Comecei a abrir o pacote de papel , coloquei primeiro a mão direita, depois a esquerda.
Pega o KY.
Obedeci.
307

Como você prefere?


Pensei... Tanto faz, Senhor.
Então quero você de quatro, de costas para mim.
E me posicionei.
Senti o toque do látex acariciando a bunda e logo em seguida o gel frio, seguido de
dedos me penetrando. São dedos fortes, invasivos, certeiros. No começo, doía, eu estava
tensa, precisava relaxar. Então abaixei meu tronco contra os lençóis e me abri para ele.
Isso, assim...
Sentia a força das suas mãos procurando minhas reentrâncias e saliências interiores.
Mais gel, mais dedos, eu gemia e reclamava de dor. E ele não parava e eu não queria que
parasse.
Ia forçando, a pele esticava, eu ia rasgar. Ele me cutucava com um dedo e eu pulava.
Apertava do outro lado e eu tinha a nítida sensação que ia sujar tudo ali mesmo!!! É
muito interessante. Mas não aguentei, a dor do estiramento da pele me venceu e mais uma
vez gritei a safe word.
Fiquei ali deitada, ele sentado na cadeira tirando as luvas. Eu estava tão feliz!
Vai se lavar, vai meu doce...
Obedeci parando na sua frente para lhe dar um sorriso. Ele me pegou pela coleira e me
beijou.
Tomei um banho quente, o sabonete era ácido e perfumado. Meu clitóris e lábios
estavam inchados e tudo ardia. Mas eu estava tranquila e sorrindo.
Voltei para o quarto e encontrei meu Senhor deitado na cama, de lado e sorrindo.
Vem aqui minha delicia...
E suas palavras me hipnotizaram... e delicadamente me aproximei daquele homem
maravilhoso e deitei em seu braço acolhedor e num abraço forte, seguido de um beijo, tinha
absoluta certeza que minha escolha era certa e que, finalmente, eu tinha encontrado a
felicidade. Ouvi ali, deitada, as mais lindas palavras que uma mulher pode ouvir, meu coração
foi se enchendo de alegria e eram tantos carinhos, tantos sorrisos, tantos abraços, me senti
tão querida que não consegui controlar as lágrimas quando seus lábios beijaram minha testa e
meus olhos fechados. Eu era dele, inteira. Meu coração, minha pele, minha alma, meus
pensamentos.
E passando a mão pelo meu corpo e dizendo o quanto minha pele era bonita e macia, eu
não sentia mais meu corpo ali. Ouvia sua voz mansa, suas mãos hábeis percorrendo meu corpo
e minha mente estava num lindo jardim, com flores e perfume de alfazema. Foi então que
senti seus dedos no meu sexo novamente, buscando meu grelinho inchado, que agora era
dele. E, de olhos fechados, abri minhas pernas para receber o calor dos seus dedos. Eu parecia
uma gata enroscada nos seus braços, pernas abertas e gemendo baixinho, beijos profundos e
308

mordidas nos lábios. Sua barba com meu cheiro me deixava louca. E foi entre gemidos e
movimentos penetrantes de dedos e quadril rebolando, que lambi seu ombro direito, expondo
meu lado de fêmea novamente. Provoquei aquele homem maravilhoso com minha língua,
como uma puta querendo mais. E ele entendeu sentou-se na cama e imediatamente enfiou
dois dedos em mim, encontrando-me molhadissima de tesão. Ele arregaçava o prepúcio do
clitóris expondo-o e eu rebolava em seus dedos, gemendo. Então, toquei seus dedos com os
meus dedos e comecei a me masturbar, mexendo no clitóris na sua frente. Aquilo era uma
delicia. Ele me apertava, e eu gemia. E por um momento tirou seus dedos de mim, me
ajudando com os movimentos no clitóris.
Enfia, por favor...
Eu implorei que ele enfiasse seus dedos novamente. A ausência deles era um martírio. E
com todo o desejo do mundo ele me invadiu com vontade. Sua força, quase em pequenos
socos, provocaram uma dor muito forte. Pensei que não conseguiria gozar, mas apertando
seus dedos com os músculos o senti deslizar forte entre minhas secreções e com meus dedos
se chocando com os dedos dele, gozei novamente.
Prendi a respiração, não emiti som algum, explodi internamente e mais felicidade,
prazer e tranquilidade encheram meu coração e alma. Fiquei ali quieta em seus braços
novamente, torcendo para tudo aquilo não ser um sonho.
E no meio de nossa deliciosa conversa, eu fiz um pedido.
Eu adoraria levar umas palmadas na bunda.
Ahhhhh...... Mas com o maior prazer!!!!
Posicionei-me na borda da cama, perto da cadeira e esperei.
Senti uma dor forte começando ardida, passando por doída e terminando numa pressão
assustadora. Caramba!!!!!! Isso doía muito!!!
Recebi a segunda na nádega direita e estava profundamente arrependida. Não vou
aguentar, ele bate muito forte!!!!!!! Que força!
E comecei a dar uns gritos de dor e a virar a cabeça para trás e comecei a sentir uma
raiva daqueles tapas e, depois do segundo, veio um terceiro e mais um e mais outro e perdi o
controle e já não aguentando falei a safe word novamente, aos prantos. Ele parou, massageou
minha bunda quente e eu, respirando fundo, me virei de joelhos, com as mãos nas coxas e os
olhos molhados para agradecer, sorrindo.
Obrigada, Senhor... E beijei seus lábios.
Ele me pegou pelos cabelos, acariciou meu rosto, sorriu, me beijou novamente, passou a
mão pelo meu rosto... Soltou-me, sorriu e me deu um tapa no rosto que me tirou o ar com a
surpresa. Voltei o rosto e senti mais um! Mais outro. E logo um carinho, que me fez fechar os
olhos de susto. Minha respiração aumentou. Outro tapa e um puxão pela guia e um beijo
forte. Ele me engolia. Na volta, outro tapa, que me fez levantar a mão esquerda.
Abaixa a mão!!!!!!!
309

Abaixei imediatamente, nem tinha percebido que estava levantada.


Eu mal podia respirar...
Dá o rosto aqui!
E então a fêmea apareceu novamente. Levantei o rosto já ardido dos tapas e ofereci a
face esquerda com um sorriso quase provocador nos lábios e os olhos abertos.
E então percebi a sua reação num tapa explosivo que me deixou tonta. Tombei de lado e
senti sua outra mão me puxando pela guia contra seu rosto e me beijando. Ele me soltou,
verguei. Levantei-me arfando e me posicionei novamente, dando o outro lado do rosto e
sorrindo provocadoramente. Que delicia, mais um tapa forte e certeiro, só que desta vez ele
me puxou pelo pescoço, apertando-o, e uma injeção de adrenalina percorreu meu corpo!!!!
Prendi a respiração e fui de encontro à sua boca para receber seu ar e respirar novamente. Foi
a sensação mais impressionante que vivi até hoje. Depois do beijo eu ainda estava sem ar e
quando senti meu corpo solto, respirei fundo e um calor subiu pelo cérebro e eu sentia minha
secreção escorrendo.
Pede mais um...
O último meu Senhor, por favor.
E assim meu Senhor, na sua generosidade, encheu meu rosto com sua mão e mordeu
meus lábios com um beijo delicioso. Tombei para o lado novamente e ao me levantar fiquei de
joelhos, levantei meus cabelos da nuca e mostrei-a.
O que foi linda, quer que eu tire a coleira?
Mexendo a cabeça negativamente e mostrando a nuca.
Mas o que foi então? Fala!
Aqui... Morde, por favor.... Minhas palavras não saíam.
Então ele mordeu, não muito forte, mas foi o suficiente para me fazer cair na cama.
Hummm... Que interessante...
Levantei-me e ofereci a nuca novamente. E desta vez ele tirou a coleira e a jogou longe e
me mordeu com força. Nossa, quase desmaiei de tesão!!!!! Eu, caída na cama, gemendo, e ele
passando a mão pelo meu corpo completamente arrepiado. Levantei-me novamente, ofereci a
nunca, ele me mordeu, caí na cama aos gemidos, mas ao invés de mãos pelo corpo, senti algo
estalando nas minhas costas.
Abaixa a cabeça!
Abaixei, ainda tonta, e senti outra dor forte nas costas. Eu ainda estava deitada de lado
com a cabeça encolhida e não entendendo direito o que estava acontecendo. Outra dor forte e
ardida: era uma chibata!!!!!! Mais outra! Foram umas nove e, atordoada com as mordidas e a
dor forte do couro nas minhas costas, falei a safe word aos berros!
E chorando, um choro de descoberta e alegria imensa, eu me entreguei a este homem
com a certeza que fiz a escolha certa e que minha alma de mulher e submissa está em boas
310

mãos. Sou respeitada, amada, protegida e a tranquilidade invadiu meu coração. Vou adorá-lo,
amá-lo, respeitá-lo e fazê-lo muito, mas muito feliz, para poder retribuir o que me é dado com
muito desejo, amor, dedicação e seriedade.
Obrigada, Senhor, por este lindo começo de uma longa caminhada.

TEORIAS:

Confiança
lan@

Dia desses li, em algum lugar, acerca de uma


constatação realizada por profissionais de saúde,
onde não ficava claro o que se entendia por
"confiança". Os profissionais em questão, que
trabalham com exames anti-HIV, perceberam o
seguinte: uma grande porcentagem de mulheres
casadas que fazem o exame, alegam que "nunca"
usam camisinha, porque CONFIAM em seus
parceiros (= maridos). Por outro lado, as mulheres
separadas (ou solteiras) "sempre" usam a
camisinha porque "NÃO CONFIAM" nos parceiros
(= namorados ou parceiros eventuais). Ora, pois bem!!!! A grande pergunta dos profissionais
para as mulheres casadas era a seguinte: se elas não usam camisinha porque "CONFIAM" nos
parceiros, por que estavam ali fazendo o exame???... Da mesma forma, no outro extremo,
havia a pergunta para as solteiras: se elas sempre usam a camisinha porque "NÃO CONFIAM"
nos parceiros, supostamente estão protegidas... Então, porquê do exame???? Os profissionais
envolvidos estavam se perguntando a extensão dessas expressões: "confiar" ou "não confiar".
Como se processa isso????
Num primeiro momento fiquei pensando acerca do que eu entendo por confiança.
Como eu conceituo confiança. Não foi uma resposta fácil. Num segundo momento, me lembrei
que confiança é uma expressão muito usada dentro das relações BDSM. Então fiquei me
perguntando como se processa a confiança dentro dessas relações.
Normalmente, só conseguimos conceituar confiança quando a colocamos em relação ao
seu oposto: a dúvida. A dessemelhança entre a sensação de acreditar e duvidar é o que vai nos
levar a perguntar alguma coisa ou pronunciar um julgamento. Existe também uma diferença
prática: a crença é que vai guiar nossos desejos e moldar as nossas ações.
311

Segundo Peirce, "o sentimento de crença é uma indicação mais ou menos segura de se
encontrar estabelecido na nossa natureza algum hábito que determinará as nossas ações. A
dúvida nunca tem tal efeito."
Para este autor a dúvida é um estado de desconforto e insatisfação do qual lutamos
para nos libertar e passar ao estado de crença. Este é um estado calmo e satisfatório que não
desejamos evitar ou alterar por uma crença noutra coisa qualquer. Pelo contrário, agarramo-
nos tenazmente, não meramente à crença, mas a acreditar exatamente naquilo em que
acreditamos. Assim, tanto a dúvida como a crença tem efeitos positivos sobre nós, embora
muito diferentes. A crença não nos faz agir imediatamente, mas coloca-nos numa posição em
que nos comportaremos de certa forma, quando surge a ocasião. A dúvida não tem qualquer
efeito deste tipo, mas estimula-nos a agir, até que é destruída. Em outras palavras, a dúvida
nos coloca num estado de irritação.

"A irritação da dúvida é o único motivo para a luta por atingir a crença. É
certamente melhor para nós que as nossas crenças sejam tais que possam
verdadeiramente guiar as nossas ações de forma a satisfazer os nossos desejos; e
esta reflexão far-nos-á rejeitar qualquer crença que não pareça ter sido formada
para assegurar este resultado. Mas o fará criando uma dúvida no lugar dessa
crença. Logo, com a dúvida a luta inicia, e com o cessar a dúvida termina. Donde o
único objeto da inquirição é o estabelecimento da opinião. Podemos ter a
impressão de que isto não é o suficiente para nós, e que procuramos, não
meramente uma opinião, mas uma opinião verdadeira. Mas ponha-se esta
impressão à prova, e ela revelar-se-á infundada; pois assim que uma crença firme
é alcançada, ficamos inteiramente satisfeitos, quer a crença seja verdadeira, quer
seja falsa. E é claro que nada fora da esfera do nosso conhecimento pode ser
nosso objeto, pois nada que não afete a mente poderá ser motivo de esforço
mental. O máximo que pode ser sustentado é que buscamos uma crença que
julgaremos verdadeira. Mas pensamos que cada uma das nossas crenças é
verdadeira, e, na verdade, é uma mera tautologia dizê-lo." (Pierce, 1877)

Em outras palavras: confiança (crença) é uma questão de conhecimento da realidade.


Ou o que entendemos, cada um nós, por "conhecimento da realidade". O problema do
conhecimento é um dos mais difíceis da Filosofia. É também o mais difícil dos problemas do
homem. Sendo o que há de mais natural e espontâneo em nossa vida, pois todos nós
conhecemos de alguma forma a tudo.
Então a pergunta é: como conhecemos? Subordinamos a realidade a uma ordenação
caprichosa e arbitrária, sem distinguir entre uma opinião e um juízo de realidade?
Subordinamo-nos convenientemente às exigências do real para conhecê-lo segundo as suas
imposições, e não segundo as nossas conveniências? Conhecemos o real pelo que é, ou o
conhecemos apenas enquanto responde aos nossos interesses práticos? Segundo Bergson,
citado por Mendonça (1976, p.171):
312

"De um modo geral não conhecemos as coisas. Conhecemos nas coisas: escolhemos
nelas algo que responda à ordem dos nossos interesses. Não vemos o nome de um ônibus:
vemos se ele nos leva aonde queremos ir. Não vemos as horas no relógio: vemos quanto
tempo temos para realizar o que pretendemos fazer. Não lemos um livro: procuramos
identificar nele o que corresponda ao que já pensamos ou queremos pensar. Nossa visão do
real é geralmente marcada por algum interesse prático. Com relação às ideias que nos são
expostas, em geral julgamos se são verdadeiras ou não apenas conferindo se correspondem ou
não ao que já pensamos sobre o assunto exposto. (...) Tudo isso é expressão de uma falta de
objetividade, que prende o homem a si mesmo, e o aliena da existência, fazendo-o deixar de
pensar a realidade, mas apenas pensando a pretexto dela."
Até aqui já é possível concluir que na definição de confiança é impossível evitar a
circularidade. Se a definimos em termos de crença, logo temos que definir crença, que é
melhor explicada em termos de confiança. E não sabemos sequer se é mensurável.
Quando falei para minha amiga Danna que ia escrever sobre confiança, ela me enviou
um mail (Obrigada, querida!!!) com algumas de suas ideias sobre esse assunto: "Claro, confio
no meu Mestre, acredito que nunca fará nada que coloque minha integridade física e mental
em risco, mas confio baseada no que ele me passou, portanto não adianta querermos jogar
pra eles um sentimento que é nosso, uma responsabilidade nossa, na verdade confiamos no
nosso modo de vê-los; podemos errar, quantas não erraram???"
A frase da Danna que parece resumir tudo é: "na verdade confiamos no nosso modo de
vê-los..." Eis aqui o que toda teoria filosófica acima quis dizer. Quando confiamos nossa vida e
nossa integridade física nas mãos de nosso Dono, na verdade estamos é acreditando que o que
esperamos Dele não nos será traído. Estamos confiando no nosso felling, na nossa percepção
do mundo. No que acreditamos, naquele momento, ser a realidade incontestável: "Posso
confiar Nele!!!!" Talvez apenas uma questão de instinto que, por vezes, pode falhar...
Ainda no mail de Danna: "Acredito de verdade que jogamos um jogo perigoso, onde
tudo pode ser o esperado, pode deixar a desejar ou pode ultrapassar, existe sempre o risco.
Pra isso existem certos cuidados, na verdade usamos de estratégias, conversamos com alguma
sub que já tenha sido dele, analisamos alguns comportamentos sociais, caráter na vida
particular, mas nada é 100% garantido. Quantas pessoas em alguns momentos não tiveram
reações diferentes e até únicas na sua vida??"
Danna toca num ponto importante: os cuidados que tomamos em relação às pessoas
com quem travamos contato, não passam de pequenas estratégias que garantem alguma
segurança, mas não a certeza de que nossa percepção está correta. Corremos sempre o risco
de estarmos enganadas, de nossa visão da realidade estar comprometida com o grau da nossa
necessidade, com o grau da nossa vontade.
E Danna finaliza: "Porque confiar 100% só um animal, e nesses momentos somos, de
fato, umas cadelas."
A frase de Danna é espetacular e parece que resume tudo o que, de fato, sentimos,
mas... Se pararmos para pensar - como a própria Danna pensou: Se estamos na sessão...
313

amarradas... amordaçadas e ele resolve mudar as regras do jogo... O que fazemos com toda
aquela confiança que depositamos nele?
Está me parecendo que a grande realidade é: "confiança não existe". O que existe é uma
crença numa determinada pessoa, ou num determinado fato; até que uma nova crença, por
qualquer motivo, venha substituir a original.
Quantas de nós não ouvimos falar, ou temos uma amiga que tem um marido (ou
namorado) que é um verdadeiro "galinha"? E ficamos assistindo incrédulas ela acreditar nele o
tempo todo. Que confiança é essa que ela tem nele? Será que é confiança? Ou será que ela
apenas acredita nele porque naquele momento, dentro dela, existe a necessidade de acreditar
em algo? Um dia qualquer... uma evidência incontestável aparece... ou alguns meses de
terapia... e ela deixa de acreditar... deixa de confiar.
Confiança é uma coisa complicada!!!
Uma amiga mandou pra mim um conto e tive minha atenção presa a uma fala da
personagem. Ela dizia: "Não posso confiar em ninguém... não posso sequer confiar em mim
mesma... pois já me traí várias vezes..."
Lembro-me também de uma música de Raul Seixas: "Porque quando eu jurei meu amor/
eu traí a mim mesmo..."
O que entendemos por confiança, ou crença para a filosofia, não passa de uma
conveniência, uma necessidade de, naquele momento, acreditarmos naquilo que se expõe a
nós. E se o fazemos de forma tão firme, tão resoluta é porque, naquele momento, nada no
mundo nos provará o contrário do que acreditamos. Isso é confiança!!!! Seja a premissa falsa
ou verdadeira.

Referências Bibliográficas:
MENDONÇA E. P. O mundo precisa de filosofia. Rio de Janeiro: Agir, 1976.
PEIRCE, C. S. A fixação da crença. In: Popular Science Monthly. 12/nov/1877. pp. 1-15.
Tradução de Anabela Gradim Alves, Universidade da Beira Interior. Disponível na
internet: http://bocc.ubi.pt/pag/peirce-charles-fixacao-crenca.html. Em 04/06/01.
30/06/01 - tarde fria em Curitiba.

Relações Bdsm
lan@

Quando comecei a frequentar o meio BDSM,


fiquei absolutamente fascinada com as
314

possibilidades que se abriam a minha frente: falava-se em "filosofia BDSM", falava-se em


"estilo de vida BDSM", etc e tal. Quanto mais eu descobria o que era essa "filosofia" e esse
"estilo de vida", mais encantada ficava. Num primeiro momento, ainda surpresa com as
descobertas, me vi maravilhada por ter encontrado um grupo de pessoas que assumia novas
posturas, assumia comportamentos alternativos e estava se desvencilhando dos
comportamentos "viciados" das relações tidas como "normais" ou "padrão".
Curiosamente, quando comecei a prestar mais atenção nas coisas que aconteciam, do
que nos discursos que se faziam, fiquei um tanto decepcionada. O que vi então???? Vi relações
aparentemente BDSM que, na prática, não passam de relações padrão, como todas as outras
que vemos por aí (baunilhas, sim; das quais tanto insistimos em debochar e ter horror a elas).
Vamos ilustrar: o que, teoricamente, deve haver numa relação BDSM que a diferencie
das demais??? 1) Deve existir a presença de um(a) sádico(a) e de um(a) masoquista - em maior
ou menor grau; 2) existindo um(a) sádico(a) e um(a) masoquista, fatalmente existirá um que
DOMINA e um que se submete - dominador(a) e submisso(a) -; 3) acertado isso, haverá regras
em que o submisso(a) obedece ao Dominador(a); 4) na discussão dessas regras - que não são
as mesmas para todos - serão acertados os limites do(a) submisso(a). Teremos, então, o início
da relação BDSM propriamente dita. Basicamente é isso, não é????
E na prática????? O que vemos na prática???? É possível que nem todos concordem
com o meu ponto de vista, mas o que eu vejo na prática é o seguinte: mulheres baunilhas
usam aliança, submissas usam coleira - e a maioria dá para a coleira o mesmo sentido que as
baunilhas dão para a aliança (fato que, no meu ponto de vista, é um engano); mulheres
baunilhas usam o sobrenome do marido, as submissas usam as iniciais do DONO; mulheres
baunilhas exigem (e nem sempre obtêm) fidelidade do marido, as submissas exigem (e
também não obtêm) a fidelidade do DONO; mulheres baunilhas sentem ciúmes e manifestam
isso como bem entendem, as submissas... também; mulheres baunilhas não dividem seu
marido com ninguém, as submissas reclamam por "ter" que dividir (como podem querer ou
não querer dividir o que não possuem??); mulheres baunilhas se sentem donas de seus
maridos, as submissas se sentem e se comportam como se fossem donas de seus MESTRES
(não é o contrário a proposta da teoria??????); as mulheres baunilhas vigiam e controlam a
vida de seus maridos, as submissas vigiam e controlam a vida de seus DONOS (*perplexa* -
como diria um amigo meu); maridos escondem das esposas suas "escapadelas", Mestres fazem
a mesma coisa com suas submissas; maridos mentem para as esposas para justificar "pisadas
de bola", Mestres fazem a mesma coisa com suas submissas; maridos parecem ter medo das
respectivas esposas, Mestres... parecem ter medo das respectivas submissas.
Meu desencanto deve-se exatamente a esse tipo de constatação: sempre achei que as
relações BDSM possuíam a magia de serem diferentes das outras relações. Diferentes na
teoria, na prática, no conteúdo, no comportamento, etc e tal. Mas o que percebo é que as
pessoas "saem" de seu mundo baunilha e trazem para a relação BDSM todos os tiques, todos
os vícios, todas as piores particularidades que caracterizam uma relação baunilha tradicional.
Grosso modo, a diferença básica entre uma relação baunilha e as relações BDSM que vejo por
aí, é a presença - eventual - do chicote na segunda.
315

E, aqui, não estou entrando no mérito da descrição - brilhante - que Mestre Jota fez (na
lista de contos e poemas) das falsas submissas e dos falsos Mestres. Estou falando das falsas
relações entre pessoas que se denominam, "efetivamente", Mestres e submissas.
Faz-se necessário ressaltar que isso não é regra no meio BDSM. Misturado com o que
acabei de descrever, também percebo relações sérias, de Mestres e submissas que cumprem o
real papel de cada um, na teoria e na prática.
Talvez, a causa dessa "confusão" de papéis que percebo, seja em função de as pessoas
envolvidas não saberem exatamente qual é o seu papel.
Segundo Silva Filho, o sadismo e o masoquismo constituem lados opostos de uma
mesma moeda (1987, p. 31). Se entendermos essa premissa como verdadeira, concluiremos
que todos temos, dentro de nós, os dois aspectos do sadomasoquismo. Temos o sadismo e o
masoquismo igualmente dentro de nós. O autor continua: "Se no sadista fica patente a
necessidade de triunfo sobre um objeto (...), no masoquismo, embora pareça haver
autopunição no sofrimento e sujeição ao objeto, existe todo um jogo controlador da dor,
atuando também no sentido de, através do penar, controlar e triunfar." (p. 32).
"O sadista (ou, melhor falando, o sadomasoquista em fase sádica, pois os dois extremos
estão sempre juntos) projeta sua parte fraca no objeto e se identifica com o superego tirânico
(...)" (p.37).
O que, talvez, aconteça nesses relacionamentos "confusos", seja em função dessa
dificuldade. Temos os dois lados extremos dentro de nós e, embora um sempre vá
predominar, pode ser difícil aceitar o que parece óbvio. Ilustrando: tenho os dois lados dentro
de mim e já percebi que o meu lado masoquista é o predominante. Mas não quero ser
masoquista!!!! Então, vou lutar contra isso da seguinte forma: vou adotar um nick de
Dominadora e vou sair por aí, torcendo para que a minha fase sádica seja eterna.
Pelo lado da submissa, a premissa funciona da mesma forma: "O masoquista, (...), sob a
máscara da afirmação teatral de não ser nada, de fato domina o sádico, forçando-o a
desempenhar o papel que ele, o masoquista, parece ter. O poder do sádico é um simulacro;
serve apenas como instrumento controlado." (...) "A onipotência do masoquista decorreria de
ele não temer mais nada, mesmo a castração, e poder desejar tudo, mesmo esta." (p.43)
Já tive a oportunidade de escrever outro texto sobre isso: a dialética da relação D/s. Mas o
fato é que quando o escrevi, não achava que se juntássemos o fato da relação ser dialética e o
fato de as pessoas trazerem "hábitos ou vícios" ruins das relações baunilhas, pudessem
transformar a relação BDSM numa "brincadeira baunilha apimentada".
Também os limites ficam numa situação esquisita nessas relações. Em princípio, é difícil
entender como um sádico/dominador pode aceitar limites impostos por um
masoquista/submisso. Entendo perfeitamente que essa prática seja por uma questão de
segurança; mas, perguntando sobre isso para outras pessoas com quem costumo trocar ideias,
recebi um mail de Messalina {W}, no qual ela assim se expressa:

"Em função da minha experiência pessoal, não consigo conceber uma relação
316

de D/s ou de SM que não tenha lastro na confiança entre os parceiros. Sendo


assim, não consigo também entender onde entra o estabelecimento dos limites.
Entendo que, antes de se efetivar uma relação dessa natureza, os parceiros já
deveriam ter passado por uma etapa prévia de conhecimento mútuo, onde são
elucidadas expectativas, comprometimento, fantasias e fetiches de cada um.
Passado por isso, e estabelecendo-se a relação, sua condução passa ser
exclusivamente do Dominador ou do Sádico. Traduzindo, não acredito em
relações SM nas quais existam limites. Se assim for, a escolha de ambos não foi a
mais acertada e relações desse tipo podem representar um risco muito alto para
os dois. A submissa/escrava fica sujeita a traumas físicos e psicológicos e o
Dominador/Sádico corre o risco de ser desmoralizado ou ter sua imagem
arranhada para sempre dentro da comunidade SM. Volto a repetir, minha pouca
experiência me mostrou que Dominadores e/ou Sádicos não se submetem aos
caprichos de suas submissas ou escravas. A responsabilidade deles na segurança e
no prazer de ambos é grande demais para que tenham que ficar lembrando,
numa sessão, o que se pode ou não fazer. (Cada panela tem sua tampa...eh)
Outro fator importante a ser considerado é a evolução da relação de
D/s e, principalmente, a capacidade de um Dominador saber quando sua
submissa encontra-se pronta para novos desafios. Digo isso, porque existem
práticas extremamente prazerosas para mim que jamais pensei em experimentar
e só as descobri devido à determinação, respeito e inteligência do meu Dom.
Sendo assim, entendo que o estabelecimento de limites me privaria de conhecer
novas maneiras de prazer e fugiria totalmente do meu propósito. E te pergunto:
existe limite para o prazer? (risos)."

Quando recebi esse mail, fiquei pasma. Messalina conseguiu escrever tudo o que penso
sobre limites. Compreendo perfeitamente o que ela quis dizer, pois eu também, na minha
pouca experiência real, tive a oportunidade de descobrir práticas muito prazerosas e que, até
pouquíssimo tempo atrás, não conseguia conceber. Coisas que eu achava que fariam parte da
minha lista de limites. Como não houve, no meu relacionamento, uma lista "oficial" de
limites... tudo o que foi praticado, foi acontecendo de forma natural.
Faço aqui uma diferenciação entre limites e limitações. Os limites (entendo eu) seriam
aquelas práticas que não quero ou às quais não gostaria de me submeter. Limitações seriam
práticas que, de alguma forma, não dependem apenas da minha vontade ou do meu gosto
pessoal (por exemplo: eu sofro de claustrofobia, portanto asfixia é um jogo que não posso
praticar).
E é ainda com as palavras de Messalina {W} que eu gostaria de fechar esse texto. Até
porque acho que ela conseguiu resumir o que é o ideal (para mim) de uma relação D/s:
317

"Vejo nas relações de D/s e SM um meio pelo qual é possível explorar a


sexualidade, extravasar desejos e realizar fantasias, cujo único comprometimento
entre as pessoas envolvidas é o prazer. Qualquer outra coisa é brincar de SM ou
de Dominação/submissão, acarretando em desperdício de tempo, sentimentos e
expectativas.
Como já disse acima, minha relação com o Wishmaster é baseada em
lealdade e em cumplicidade e não fidelidade. Confiei a ele zelar por mim e sei que
tudo o que ele faz, mesmo que eu não entenda a princípio, tem esse objetivo.
Sendo assim, não tenho motivo para vigiar meu Dono ou restringir sua ação."
Entendo a relação de D/s repleta de rituais que buscam reforçar a
significância dos papéis exercidos, sendo assim o uso de símbolos é tão
fundamental quanto natural. Pessoalmente, a coleira sempre teve grande
importância para mim, não somente a física ou a virtual; minha coleira está
cravada em minha alma."

Referências Bibliográficas:
SILVA FILHO, A. C. P. e. Perversões Sexuais - Um estudo psicanalítico. São Paulo: EPU, 1987.

Em 01/07/01 - tarde de sol em Curitiba.

Sedução: Esse Estranho Poder


lan@

E aqui estou novamente, tentando


traduzir em palavras coisas que - por natureza
- são apenas para serem sentidas. A escolha
desse tema deve-se ao fato... Se podemos
colocar assim... De que sou apaixonada pela
sedução... E pelo poder que dela nasce.
Desde que comecei a circular pelo meio
BDSM, tenho tido a oportunidade de conhecer
pessoas que têm esse poder à flor da pele. Isso
não quer dizer que nunca tenha conhecido
outras pessoas sedutoras, mas Dominadores e
Dommes - essas personalidades fascinantes -,
318

de um modo ou de outro, exercem o poder de sedução com absoluta naturalidade.


Desde logo devo informar que não é nada fácil discorrer sobre esse tema - muito mais
fácil é sentir, obviamente.
O poder de sedução, por via de regra, vai evocar três outros conceitos, um pouco
complicados pela sua profundidade: carisma, paixão e desejo.
Se formos analisar o carisma filosoficamente, como Weber o concebeu, vamos cair no
conceito político dessa qualidade. E não é isso que nos interessa... Fiquemos pois com a
descrição do dicionário (e aqui também vamos nos ater, apenas à segunda descrição, visto a
primeira dar conta de dons espirituais): Individualidade notória; caráter mágico; magnetismo
pessoal.
O conceito de paixão é ainda mais complicado. Livros e livros, textos e textos já foram
escritos, tentando descrever esse sentimento que ainda é um mistério. Marilena Chauí
descreve o medo como uma paixão. Renato Janine Ribeiro diz que a honra é uma paixão.
Renato Mezan descreve a inveja como uma paixão. Paulo Leminski acreditava que a poesia é a
paixão da linguagem. Qualquer um de nós é capaz de descrever o que é uma paixão (já
tivemos tantas...). Voltemos ao velho dicionário, que, entre outras coisas, assinala: afeto
excessivo; atração muito viva que se sente por alguma coisa; arrebatamento; cólera; mágoa;
inclinação de um sexo pelo outro; alucinação; sofrimento prolongado; etc.
Aqui, nesse texto, vamos usar a paixão no sentido de "atração muito viva que se sente
por alguma coisa".
Numa primeira e apressada conclusão: a pessoa que tem carisma desperta em nós,
pobres mortais (= submissas) uma atração muito viva.
Dessa paixão, dessa atração nasce o desejo.
Filosoficamente, o desejo também não é um conceito fácil. Vários textos, vários artigos,
várias opiniões de amigos para não chegar a nenhuma conclusão definitiva. Apenas uma
premissa básica: o que provoca o desejo é o olhar. "O ver abre todo espaço ao desejo". Aqui,
encontrei a única definição da psicanálise que vem ao encontro do que sinto em relação ao
poder de sedução. Está dentro do conceito psicanalítico de narcisismo a diferenciação entre
"observar" e "ver":
- A observação constata.
- Ver gera sonhos, esperança, imaginação, arte.
- Sem visão, a observação só registra.
- Sem observação, a visão ilude.
Numa segunda conclusão: a pessoa que tem carisma desperta em nós uma atração
muito viva e isso vai nos levar ao desejo. Aqui, esse desejo vai ser simplificado no fato de que
nosso "olhar" vai se prender ao sedutor.
Independente de todos os conceitos que poderíamos listar aqui, o que vale realmente é
o que se sente quando em face de um(a) sedutor(a).
319

Como explicar o que faz com que voltemos nossos olhos quando um deles chega no
recinto? Nesse caso, os conceitos literários pouco ajudam. Tive oportunidade de "ver" e
"observar" isso num lugar onde estavam reunidos vários Dominadores/Dommes. Não se trata
de atração sexual (embora também não se descarte a possibilidade), também não se trata de
conceito estético satisfeito. Segundo Danna (num mail enviado para mim):

"seja feio ou bonito, corpo escultural ou não... é uma força que eles têm no olhar,
no jeito de falar, no jeito de nos tocar, de nos pegar, na maneira de teclar,
sedução é mistério que envolve, é algo que está escondido, mas que te puxa
fortemente e você não sabe o que é, e isso nos atrai mais e mais, é um imã...
parece que existe uma aura os envolvendo, sente-se a energia que emana deles."

Concordo plenamente com a descrição dela e acrescento que, quando nos encontramos
com um(a) Dominador/Domme, mesmo não sendo ele/ela nosso Dono/Dona, não somos
imunes ao seu poder de sedução. Isso é fácil perceber no chat, em conversas aparentemente
superficiais. Um Dominador relativamente conhecido (ou não) entra na sala. Mesmo que não o
conheçamos pessoalmente, somos capazes de pressentir seu poder de sedução, na sua
maneira de teclar, de se dirigir às pessoas, etc. Mesmo os mais brincalhões (sem citar nomes,
certo?) que, num primeiro momento, parecem alheios a essas considerações. É natural num
Dominador ou numa Domme esse magnetismo, essa notoriedade. Ainda que alguns discutam
esse "natural".
Um amigo, que é Mestre, me disse que esse poder de sedução a que me refiro, serve ao
Dominador para que a escolha da submissa por quem ele se interessou, recaia sobre ele.
Nesse caso concluiríamos que o Dominador não escolhe... É escolhido. Aqui entra o contexto
social da escolha (referido por Danna... again). Experimentamos, das mais diversas maneiras, o
poder de sedução de todos os Dominadores, mas elegemos o nosso Dono por alguns motivos
específicos: altivez, respeitabilidade, confiança, inteligência, sutilezas, educação, perspicácia,
sensualidade, convicção, generosidade, equilíbrio... Atributos que eles são capazes de
personificar sem esforço algum.
Num relato publicado no site do Desejo Secreto, Cadella assim se expressa: "Senti teus
olhos me engolindo... fortes... incisivos...".
Para nossa amiga Estrela-do-mar é encantamento, feitiçaria...
Esse poder (quase uma provocação), que num primeiro momento nos seduz, é o mesmo
poder que depois vai fazer com que sejamos encontradas aos pés desse homem ou dessa
mulher: "É o jogo da caça e do caçador... a gente foge (louca pra ser pega), eles correm atrás,
sabendo que depois farão o que quiserem de nós.... acredito que tenhamos que nos manter
sempre caça, mesmo quando a relação já está consolidada, é necessário se manter o jogo
ATIVO." (Danna)
O magnetismo inerente ao Dominador é aquele que faz com que a gente se sinta, por
vezes, confusa e atrapalhada. Algumas vezes nos sentimos hipnotizadas apenas com o seu
320

olhar. Olhar esse que não assegura nada, apenas sugere. Que, ao mesmo tempo em que
despoja nossa alma, também nos coloca no chão firme; lembrando-nos da nossa condição de
criaturas de carne, ossos e desejos. Noutras vezes, pode ser a voz que nos arrebata para
caminhos desconhecidos; porém, sempre iluminados pela sua presença, sempre aquecidos
pelo seu toque, sempre perfumados pelo seu refinamento, sempre repleto de prazeres
provocados pela sua sensualidade.
É esse poder que nos faz, ao seu capricho, chorar de dor e prazer; nos torna menina e
mulher; nos qualifica de santa e de puta; nos provoca medo e nos dá coragem para desafiar
limites; nos submete, humilha e quer orgulho na nossa submissão... Sem que nunca... Em
momento algum... Se possa dizer onde começa e onde termina cada um desses opostos.
Para isso nos servem um pouco as teorias. Para que, conhecendo melhor os conceitos,
nunca sejamos capazes de evitar esse jogo. Que sejamos, antes, capazes de nos entregar a ele
(ao jogo) sem restrições. Conseguindo agir assim, poderemos nos entregar a ele (o eleito)
incondicionalmente; gozando de todos os requintes a que uma relação BDSM pode chegar.
Para terminar, um poema enviado por Danna (lógico!!!), onde fica claro, mais uma vez,
como nos sentimos quando envoltas nesse poder de sedução...

"Dança o pássaro entre a fumaça do narguilé.


Embriaga meu peito com seu ritmo em transe.
Vai e volta, curto e vibrante com seus
movimentos circulares que inundam o meu ser.
Dominada por sua dança, mas sem desvelar
seus mistérios, me sinto passiva, livre de
minhas vontades.
Imóvel.
Como o fogo, o mais imaterial dos quatro
elementos, não posso tocá-lo, mas sei que sua
presença é real.
Reluz como o ouro dos templos em um ritual
de força e graça, que faz estremecer o mais
puro dos mortais.
Transe e êxtase.
Quem eu sou agora?
Não sei mais de mim, longe do meu mundo e
dentro do seu..."
321

22/05/01 - tarde fria em Curitiba

O Simbolismo Da Coleira Para


Um Submisso(A)
lan@

Há meses atrás, assistindo ao show da


Adriana Calcanhoto, dei boas risadas com um
comentário que ela fez, sobre como se
comporta quando é convidada para um
trabalho. Dizia ela que sua primeira reação era
ficar honradíssima com o convite, aceitar e só
então, começar a pensar nas dificuldades que
o trabalho traria.
Lembrei disso depois que aceitei - honradíssima - a sugestão de minha amiga Liu*, para
escrever sobre o tema proposto.
Meu primeiro impulso foi começar a escrever freneticamente, sobre o que significa para
mim o uso da coleira. Depois achei que se escrevesse assim, seria apenas um relato pessoal
sobre o uso da coleira e eu não queria um texto apenas pessoal.
Minha segunda atitude foi procurar no dicionário um significado para a palavra "coleira"
e assim encontrei no Larousse Cultural (1999, p. 243):
"COLEIRA s.f. (Do lat. collarium) 1. Correia de couro ou de metal que se coloca no
pescoço de certos animais para prendê-los, fazê-los trabalhar, reconhecê-los, etc. - 2. P. ext.
Colar, argola, gargalheira. - 3. Sujeito velhaco, mau pagador."
"Reconhecê-los"... foi essa a única parte da definição que me chamou a atenção; pois
num mail de minha amiga Danna, ela já utilizara, entre outras, essa expressão: "a coleira é uma
aliança entre o Dominador e sua escrava, é a prova que sua submissão é reconhecida por ele,
então a coleira vem como prêmio (...)" (o grifo é meu). Sem dúvida, uma maneira encantadora
de colocar a situação, mas eu imaginei que deveria haver algo mais. Também atentei para o
fato de que, no dicionário, os termos "colar" e "argola" são apresentados como equivalentes
de coleira.
Um pouco frustrada diante da descrição tão sucinta encontrada no dicionário, foi que
me lembrei das aulas de Linguística que tive na faculdade e de algumas aulas específicas em
que se discutia o que era e quais eram os objetivos da semântica.
322

Quando falamos em "simbolismo", este sempre vai evocar o "significado"; e o


significado vai evocar a semântica. Para utilizar uma definição simples, a semântica é uma
disciplina da Linguística que estuda o significado em linguagem. Em semântica, segundo Maria
Helena Marques, (1999, p.61) é possível entender por um lado,

"que uma palavra tem tantos sentidos quantos sejam as suas diversas realizações
contextuais. De outro lado, pode-se interpretar que a indeterminação inerente ao
significado decorre de uma palavra ter um sentido básico, a que se somam fatores
contextuais lógicos, emotivos, combinatórios, evocativos e associativos, que
introduzem nuances interpretativas diversas, no mesmo significado básico."

Isto posto, percebi que tinha encontrado no dicionário apenas o sentido denotativo do
termo, então precisava encontrar o(s) sentido(s) conotativo(s), que obviamente deveriam
existir e que, provavelmente, viriam ao encontro de tudo que realmente sinto quando tenho
uma coleira em meu pescoço.
Impávida, fui atrás de Dicionários de Símbolos. A primeira dificuldade foi encontrar o
termo "coleira" descrito em algum dicionário. Não o encontrei. Em Chevalier & Cheerbrant
(1999, p. 263), encontrei em "colar" uma referência à coleira:

"Afora seu papel de ornamento, o colar pode significar uma função, uma
dignidade, uma recompensa militar ou civil, um laço de servidão: escravo,
prisioneiro, animal doméstico (coleira). De modo geral, o colar simboliza o elo
entre aquele ou aquela que o traz e aquele ou aquela que o ofertou ou impôs.
Nessa qualidade, liga, obriga, e se reveste, por vezes, de uma significação erótica.
Num sentido cósmico e psíquico, o colar simboliza a redução do múltiplo ao uno,
uma tendência a pôr em seu devido lugar e em ordem uma diversidade qualquer,
mais ou menos caótica. (...)".

Aqui encontrei mais uma definição que se afina com os meus sentimentos: "um laço de
servidão: escravo, prisioneiro, animal doméstico(...)". Ter com alguém um laço de servidão
implica sempre numa entrega sem reservas. Essa entrega, por vezes, cria uma situação
contraditória:

"a sensação de que quanto mais me ajoelho aos seus pés, quanto mais o
reverencio, quanto mais te pertenço... mais sou livre. Livre para me entregar pra
você sem reservas, livre para viver essa fantasia, livre para recusar o que não mais
me apetece na vida, livre para erguer a cabeça e me orgulhar de ser sua escrava.
Parece contraditório: uma escrava se sentindo livre, orgulhosa. Mas eu tenho
orgulho, meu Dono!!! Tenho sim!!! Tenho muito orgulho de pertencer a você, de
323

ser para você que entrego minha fantasia, tenho orgulho do homem maravilhoso
a quem reverencio. Não me sinto diminuída por me ajoelhar aos seus pés; pelo
contrário: quando me ajoelho aos seus pés, sou a escrava que você escolheu; sou
a mulher que compartilha suas fantasias; sou a puta que te dá prazer; sou a
cadela que se entrega a você. Por essas e por outras várias razões é que tenho
orgulho da minha condição. Não da minha condição de escrava; mas da minha
condição de SUA escrava... não por ter um Dono, mas por VOCÊ ser esse Dono...".

"De modo geral, o colar simboliza o elo entre aquele ou aquela que o traz e aquele ou
aquela que o ofertou ou impôs. Nessa qualidade, liga, obriga, e se reveste, por vezes, de uma
significação erótica". Sobre a significação erótica, encontrei também em Cirlot (1984): "Por sua
colocação no pescoço ou sobre o peito adquire relação com estas partes do corpo e os signos
zodiacais que lhes concernem. Como o pescoço tem relação astrológica com o sexo, o colar
simboliza também um vínculo erótico".
A ideia de que a coleira crie um vínculo erótico, não causará surpresa a nenhum(a)
submisso(a). Qual de nós, submissas, ainda não sentiu no ritual de colocação da coleira, aquele
desejo. Aquele desejo que se espreme garganta abaixo e acaba por se derreter em secreções
ovarianas. Qual de nós nunca ficou molhada durante o ritual de colocação da coleira????
Ah!!!!! Sem dúvida há o vínculo erótico, inquestionável.

"Num sentido cósmico e psíquico, o colar simboliza a redução do múltiplo


ao uno, uma tendência a pôr em seu devido lugar e em ordem uma diversidade
qualquer, mais ou menos caótica. (...)". E em Cirlot: "No sentido mais geral, o colar
composto de múltiplas contas enfileiradas expressa a unificação do diverso, quer
dizer, um estágio intermediário entre o desmembramento aludido por toda
multiplicidade - sempre negativa - e a verdadeira unidade do contínuo".

Aqui falamos de mais uma maneira de entender o uso da coleira, ainda segundo Danna -
num texto inédito: "(...) É deixar que todo esse envolvimento mude minha maneira de ser, e
verificar que isso afetou para muito melhor meu relacionamento com outras pessoas (...)".
Também não causa nenhuma surpresa a um(a) submisso(a), perceber como o uso da
coleira altera, por via de regra para melhor, nosso comportamento de maneira geral. É como
se, realmente, as coisas fossem colocadas em seus devidos lugares. Dúvidas desaparecem,
sentimentos menores são deixados de lado, picuinhas perdem sua importância. Nos tornamos
mais belos, mais sensuais, mais receptivos. E como a linguagem corporal é poderosa,
recebemos de volta, das outras pessoas, tudo de bom que passamos para elas, mesmo
inconscientemente.
Chevalier & Cheerbrant sugerem que se veja o significado de "círculo" (1999, p. 254). O
círculo apresenta uma quantidade enorme de significações, mas uma determinada parte do
324

texto me chamou a atenção. Trata-se da passagem em que se toma o círculo (e suas


representações - colar ou coleira aí incluídos) como um símbolo de proteção e de alma cativa.

“(...) Em sua qualidade de forma envolvente, qual circuito fechado, o círculo é um


símbolo de proteção, de uma proteção assegurada dentro de seus limites. Daí a
utilização mágica do círculo, como cordão de defesa ao redor das cidades, ao
redor dos túmulos, a fim de impedir a penetração dos inimigos, das almas
errantes e dos demônios. Há lutadores que costumam traçar um círculo em volta
do seu corpo, antes de travar o combate. O círculo protetor toma a forma, para o
indivíduo, da argola (ou aro), do bracelete, do colar, do cinto, da coroa. (...) Esse
mesmo valor do símbolo explica o fato de os anéis e braceletes sejam retirados ou
proibidos àqueles cuja alma deve estar livre para evadir-se, como os mortos, ou
para elevar-se em direção à divindade, como os místicos. (...)"

A coleira me dá essa sensação de que minha alma não pertence mais somente a mim...
minha alma tem um Dono... o mesmo que me colocou a coleira em torno do pescoço. É um
pacto. Esse pacto, simbolizado pela coleira, me protege. É como um lembrete: lembra aos
outros, que não pertenço a mim mesma; lembra a mim, a quem devo reverenciar.

"Há uma passagem no romance "Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago


(1995, p.172), em que uma determinada personagem, assim se expressa: "Cala-te,
disse suavemente a mulher do médico, calemo-nos todos, há ocasiões em que as
palavras não servem de nada, (...)". É exatamente assim que me sinto agora: não
gostaria de ter que falar ou escrever. Gostaria apenas de estar ajoelhada aos seus
pés, aninhada no seu colo, como fiquei várias vezes enquanto estive na sua
companhia. Gostaria apenas que pudesse me ver assim: aos seus pés, de olhos
baixos. Gostaria que você colocasse os dedos sob o meu queixo e erguesse meu
rosto para você. Que me fizesse te olhar nos olhos. Se isso fosse possível, não
precisaria mais das minhas palavras: nem as faladas, nem as escritas; pois veria
tudo em meus olhos, veria tudo na minha postura. A linguagem do meu corpo
seria clara e suficiente, para que você entendesse e acreditasse que sou sua; que
pertenço a você e que não existe nada que tenha força para mudar essa
situação."

É isso!!!!! Em última análise: a coleira dispensa palavras!

Referências Bibliográficas:
CHEVALIER, J; CHEERBRANT, A. Dicionário de Símbolos. 14a ed. Rio de Janeiro: José Olympio,
1999.
325

CIRLOT, J. E. Dicionário de Símbolos. São Paulo: Moraes, 1984.


GRANDE DICIONÁRIO LAROUSSE CULTURAL DA LÍNGUA PORTUGUESA. São Paulo: Nova
cultural, 1999.
MARQUES, M. H. D. Iniciação à Semântica. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
SARAMAGO, José. Ensaio sobre a Cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
P.S.: as partes do texto que estão em itálico2, são fragmentos pertencentes a diversas
cartas escritas por mim, onde tive a oportunidade de expressar opiniões pessoais sobre como
me sentia usando uma coleira.
Em 16/04/01 (tarde de outono em Curitiba)

A Condição Dialética Da
Relação D/S
lan@

Dia desses escrevi um relato sobre a


minha iniciação no BDSM que acabou
publicado aqui no site Desejo Secreto. Nesse
relato eu me referi superficialmente ao "servir
e ser servido" como "dois aspectos diferentes
da mesma ordem de fatos" ou "duas espécies
contrárias do mesmo gênero".
Depois de escrito o relato, eu o reli várias vezes e comecei a pensar sobre a condição
dialética desse "servir e ser servido", atitudes tão comuns num relacionamento BDSM que não
nos damos conta da profundidade de ambas as ações. Achei pertinente retomar o tema.
Para o sociólogo americano Peter Berger (1972, p.105-110), o ser humano desempenha
um "papel" que lhe foi designado pela sociedade. O papel oferece o padrão segundo o qual o
indivíduo deve agir na situação. Partindo dessa premissa e transferindo-a para o nosso
assunto, podemos concluir que em BDSM, cada qual (Dominador e dominado), cumpre o seu
papel. O papel que se espera deles.
Se conseguirmos nos despir um pouco das nossas reservas, é muito fácil observar a
distribuição de papéis em todos os níveis sociais. Se vamos a uma festa de família,
encontramos os casais investidos nos seus papéis de "esposa e marido"; se vamos a um bar de
frequência homossexual, percebemos com facilidade os papéis de "feminino e masculino" na

2
Por questões de padronização, o itálico foi retirado e os fragmentos da carta foram colocados
em estilo de parágrafo diferentes
326

maioria dos casais; quando observamos uma sala de aula, percebemos professores e alunos,
investidos cada qual no seu papel; num orfanato encontramos pessoas investidas nos seus
papéis de boas e caridosas, tentando ajudar outras pessoas investidas nos seus papéis de
humildes necessitados, etc.
É preciso que se entenda que esses papéis que desempenhamos com tanta naturalidade
- ainda em Berger (1972, p. 112-113) - não foram escolhidos livremente por nós. Esses papéis
nos são designados pela sociedade. A sociedade nos ensina desde a infância a representar os
papéis e crescemos dando para a sociedade exatamente o que ela espera de nós.
Particularmente sempre fui um pouco embirrada com essa realidade da distribuição de
papéis. E questiono essa distribuição. Não questiono a existência da distribuição em si, ela
existe; é fato. O que questiono é a necessidade dela. Não a necessidade dela para a sociedade
(Berger afirma e prova que a sociedade precisa dela); questiono a necessidade dela para mim
mesma.
Por isso, gosto de analisar as coisas pela lógica dialética. Quando falo em dialética, estou
me referindo a uma maneira de analisar a realidade, colocando em evidência as suas
contradições com o objetivo de superá-las.
Senão vejamos: meu Dono me domina e eu sou dominada por ele. Como ele me
domina? A resposta é fácil: eu me submeto a ele. Nada é feito sem o meu assentimento. Tudo
é muito discutido, esclarecido e respeitado; principalmente os limites. A segunda questão é:
Por que eu me submeto? Por que eu o sirvo? Por que sou sua escrava? A resposta também é
fácil: porque gosto, porque me dá prazer. Satisfazer seus caprichos, servi-lo, é o meu grande
tesão. Certo até aqui? Então vamos ilustrar!
Quando (eventualmente) eu falo alguma coisa que o desagrada, por uma questão de
disciplina, sou castigada. E o castigo pode variar muito: desde chicotadas, humilhações ou toda
uma série de punições que a imaginação dele alcançar. Digamos que num desses castigos, ele
escolha o chicote. Ora!!! Eu gosto do chicote!!! Não cabe aqui investigar o porquê exato que
eu gosto do castigo com chicote: pode ser que eu goste da angústia provocada pela ameaça;
pode ser que eu goste da adrenalina que a tensão coloca em movimento; pode ser que eu
goste da dor; pode ser que eu goste de me submeter ao poder que eu consinto a ele nesse
momento; pode ser que eu goste das marcas que fiquem depois... Enfim, não é esse o ponto.
O ponto é: quando eu provoco um castigo (e todos sabemos que um submisso(a) pode fazer
isso - ainda que inconscientemente) ou quando eu peço por uma humilhação ou ainda quando
eu sugiro um castigo; podemos dizer que ele está fazendo exatamente o que eu (a dominada)
quero que ele faça... Então... Quem está servindo quem nesse momento? Quem está
dominando quem? Ou quem está realmente obedecendo a quem?
Nesse ponto, é bom esclarecer que não pretendo reivindicar o sumário
desaparecimento dessa classificação (dominador/dominado); até porque a classificação facilita
o entendimento do processo da relação.
O que pretendo é expor uma outra maneira de ver as coisas: para Mircea Eliade (1991,
p.127-129), "o ser humano sofre de uma nostalgia do Paraíso perdido e o desejo de recuperar
327

essa Unidade perdida o obriga a conceber os opostos como aspectos complementares de uma
realidade única". No nível desse pensamento, há um esforço do homem para ter acesso a uma
perspectiva na qual os contrários se anulem (como foi o caso de Goethe, que procurou
durante toda a sua vida, o verdadeiro lugar de Mefistófeles, a perspectiva na qual o Demônio
que negava a Vida se mostrasse, paradoxalmente, seu mais precioso e incansável
colaborador).
Minha pretensão com o exposto é investigar a possibilidade de não lutarmos contra isso,
contra o que Eliade chama de coincidentia oppositorum (reunião dos contrários). Assumir o
papel de submissa, não me tira a possibilidade de, sob alguns aspectos, estar dominando. Acho
mesmo que uma relação de BDSM pode ser muito mais rica, quando entendida como a
reunião de duas pessoas, criando um estado contraditório no qual os contrários coexistem sem
confrontar-se e que não seja tão importante à distribuição dos papéis. Que sejamos capazes
de perceber que durante uma sessão de BDSM não há quem domina e quem é dominado. O
que há são duas pessoas vivendo uma relação intensa, onde segundo Danna: "Em BDSM nos
concentramos no que sentimos de verdade, vivendo relacionamentos muito fortes em termos
de emoções. Existe extrema confiança e cumplicidade em todas as práticas, além de entrega
total. Por estarmos completamente expostos, vulneráveis, ligados um ao outro em todos os
minutos, o BDSM se torna algo mágico, que engloba conquista, sedução em todos os
momentos, um verdadeiro ritual... Tudo para que o prazer, em toda a sua plenitude,
exploda!...".

Referências Bibliográficas:
BERGER, P. Perspectivas sociológicas - uma visão humanística. Petrópolis: Vozes, 1972.
DANNA. Ciúme. Disponível na
Internet: www.desejosecreto.com.br/bottoms/bottoms04.htm. Em 19/02/01.
ELIADE, M. Mefistóteles e o andrógino. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

Em 23/03/01 (noite quente em Curitiba)

Ciúme
Danna

(Sorrindo) Está aí algo que qualquer ser


humano já sentiu um dia... Você diz que não?...
Mas eu te digo: duvido!!!
Ciúme é um sentimento, sabia disso?...
Quando bem dosado, um tempero, um motor, uma
328

motivação. Quando mal dosado, uma doença, uma tortura, uma tristeza!!!...
No Aurélio: sentimento doloroso que as exigências de um amor inquieto, o desejo de
posse da pessoa amada, a suspeita ou a certeza de sua infidelidade, fazem nascer em alguém.
Emulação, competição, rivalidade, despeito invejoso, inveja, receio de perder alguma coisa,
cuidado zelo.
Dentre algumas línguas pesquisadas, o alemão, aparentemente tão frio, foi o que
melhor traduziu a singularidade desse sentimento: Eifersucht indica uma relação com o fogo,
como queimar... E não é verdade? Ciúme queima! Queima a gente, queima o outro, queima a
relação!!!
Sejamos francos: que sentimento é esse que quase ninguém consegue controlar? Ele
vem das entranhas e explode como uma bola de fogo cuspida por um dragão. Não escolhe
hora, nem lugar. Simplesmente vem... Trata-se de um sentimento visceral.
Um sentimento feio? É, sim, muito feio... Mas, tudo bem... Só acontece em
relacionamentos tidos como "normais"... No BDSM não acontece, pois estamos todos
envolvidos no e pelo prazer. Um prazer consciente, onde tudo é consensual e seguro. Com
envolvimento, sim, mas um envolvimento emocional diferente, no qual, portanto, não cabe o
ciúme...
Em BDSM nos concentramos no que sentimos de verdade, vivendo relacionamentos
muito fortes em termos de emoções. Existe extrema confiança e cumplicidade em todas as
práticas, além de entrega total. Por estarmos completamente expostos, vulneráveis, ligados
um ao outro em todos os minutos, o BDSM se torna algo mágico, que engloba conquista,
sedução em todos os momentos, um verdadeiro ritual... Tudo para que o prazer, em toda a
sua plenitude, exploda!...
Com todas essas emoções e sentimentos à flor da pele sendo, momento a momento,
testadas, provadas, você acha mesmo que o ciúme também não ronda o mundo BDSM?
Ronda, sim! E ronda marcando forte!... Por que, então, tantas escravas fazem questão
de exclusividade? Tudo bem que o seu Dominador, o seu Mestre, o seu Dono tenha uma
sessão esporádica com outra, mas desde que a verdadeira relação seja vivida só com ela!...
Mas, existem casos em que outras existem... E aí? O que se pensa? Que as atenções e o
tempo estão sendo divididos certinhos? Ninguém está nem com menos, nem com mais? Na
verdade, são pensamentos que atordoam dia e noite! De quem ele gosta mais? O que será
que ela - a outra - faz com ele?
Não é brincadeira. Você entendeu, aceitou as regras e quis entrar. Mas, agora, como
dizer que sente ciúme? Que sofre com isso? Disfarça, se faz de forte, finge que não está nem
aí, mas quando se lembra que aquela boca que te diz coisas que te levam à loucura sem
mesmo ser tocada, aquele beijo carinhoso que te acalma, aquelas mãos que te pegam forte e
depois acariciam teu corpo, também fazem parte de um outro relacionamento, com outra
pessoa, que possivelmente sente as mesmas coisas que você, o que você sente?...
***
329

Doce ciúme, bendito sejas, porque vives em mim em dose construtiva, faz-me querer
sempre ser melhor, motiva-me a mudar, faz-me evoluir. Sei que um dia olharei para você e não
mais te acharei... Então saberei que aquele fogo que eu sentia, aquela emoção tão forte que
chegava a me atormentar, a tirar meu sono, acabou... Ai... Que coisa sem graça será viver sem
você... Mas, nunca se esqueça: venha sempre, mostre-me que estou viva, mas não me
sufoque, não me mate de overdose, pois tenho limites, sei que tenho!

Limites e Segurança
Vitar@

Quando decidi escrever sobre segurança, a primeira coisa que me veio à mente foi o
sustentáculo do BDSM: os princípios São, Seguro e Consensual. Como tive a oportunidade de
escrever num texto anterior, a relação BDSM, para ser plena, tem que conter um mínimo de
cumplicidade entre o Dominador e o /Dominado, de forma que exista a consensualidade e,
principalmente, que ela seja sadia...
Outro ponto, que todos aprendemos desde cedo, é que nosso limite acaba quando
começa o limite dos nossos semelhantes. Isso quer dizer que limite e respeito sempre
caminham juntos. Todos temos limitações e se não fosse assim, seríamos super-homens ou
super- heroínas, pois cada pessoa tem um nível de sensibilidade, seja psicológico ou físico.
No BDSM as coisas são da mesma forma condicionadas: antes de estabelecer-se uma
relação, seja ela de que tipo for, lá estão eles novamente, os nossos limites, pois os
estabelecendo estaremos, de certo modo, nos assegurando.
A literatura erótica mostra personagens desprovidos de limites ou que vão além de seus
limites apenas para ver seus Donas e Donas satisfeitos. Na História de O, de Pauline Reagè, por
exemplo, isso fica evidente pela forma da entrega de O a Renè, da mesma forma ocorrendo em
outros contos, nos quais a escrava se entrega e rompe seus limites sem pensar nas
consequências que isso pode trazer para ela mesma.
Creio que, na vida real, não é bem por aí...O prazer tem que ser mútuo, em primeiro
lugar. Outro fato importante é nunca comparar nossos limites com os de outras pessoas.
Aquele papo de que "fulano de tal" aguenta e você também tem que aguentar está fora de
questão... Apenas nós sabemos o que sentimos. Portanto, é de nossa responsabilidade nunca
burlar nossos limites, para que a relação possa ser a mais saudável possível.
É importante que cada um de nós, Submissas e Submissos, deixemos bem claro aos
nossos Donos e Donas o que queremos - ou não - durante uma sessão ou cena. Cada um tem
que expor o que sente e o que não gostaria que acontecesse, para que não fuja do seu
controle a situação. Sem dúvida alguma, também cabe a nossos donos respeitar nossos
limites. Limites que não são meramente impostos, mas sim discutidos e apresentados da
forma clara, para que a relação possa, desta forma, ser a mais sadia possível.
330

E a segurança?
Toda relação em BDSM tem, por objetivo único, criar formas de prazer através de
algumas práticas, muitas das quais provocando dor. Para tanto, desde o início da relação, o
ideal é que sejam estabelecidos e discutidos os limites. Tem que se deixar bem claro o que
deve-se e ou não se deve ser feito. Um papo aberto e franco entre o Dominador e o Dominado
pode esclarecer bem esta questão. Isso é super importante para que sejam evitados possíveis
situações que coloquem em risco a nossa própria segurança, valendo lembrar que devemos
nos entregar apenas a quem realmente confiamos e conhecemos muito bem.
Outro ponto da segurança é o estabelecimento de uma safeword. Uma safeword (ou
savecode) é uma palavra ou um código que tem por finalidade a interrupção de uma
determinada prática dentro de nossas cenas. Assim que a(o) submissa(o) a pronuncia, seja por
dor ou por qualquer motivo que fira a sua integridade física, a cena é interrompida. Uma
palavra ou expressão utilizada e previamente combinada entre o Dom e Sub para que nossos
limites sejam respeitados. É como jogar a toalha, no boxe, ou pedir tempo, no voleibol...
Segurança também inclui outros fatores, que independem da posição que cada um de
nós ocupa na cena BDSM. Cabe ao Dominador zelar por nossa segurança através dos
equipamentos que ele utiliza nas sessões, incluindo-se aí o cuidado com a higinene. Segurança
inclui saúde e, portanto, sexo seguro. Ou seja, mesmo que você use os mais variados métodos,
o uso de preservativos, seja qual for sua posição na cena, é fundamental.
Como sempre digo: tudo que é exagero, prejudica. Estabeleça seus limites, ponha sua
segurança em dia, faça de sua relação BDSM um porto seguro e... Seja Feliz!

De iniciante para iniciante


Vitar@
Muitas vezes, nós, iniciantes no BDSM, não temos a
menor noção de como devemos nos enturmar num chat. Já vi
pessoas usarem dos mais diferentes artifícios para conquistar
as atenções das pessoas de uma sala, usando os mais variados
nicks possíveis ou, até, invadindo o reservado de pessoas que
não gostam dessas práticas.
Pior que isso é você chegar a ponto de se tornar o
desagradável da sala, com piadinhas impertinentes, ou agir
como aqueles que bombardeiam a tela com mensagens repetidas...
Se você realmente quer se enturmar ou está a procura de um Mestre, NUNCA haja desta
forma. Se você procura um Mestre, tente dialogar sem demonstrar excesso de interesse, não
331

exagere logo de cara na forma de tratamento e nas formalidades. Nunca chegue, também, se
auto-promovendo no aberto ou gritando aquelas frases, do tipo: "- Me ajoelho a seus pés...",
"Estou entregue à sua mercê..." ou, pior ainda, se descrever por completo, dizer suas
preferências, mas, erroneamente, mandar a mensagem para um(a) sub... Lamentável!
Tente também não se iludir com abordagens galanteadoras, com Mestres ou
Submissos(as) maravilhosos. Existem pessoas que usam desses artifícios para ludibriar as
outras, para promover encontros e, até mesmo, cometer atrocidades, distorcendo
completamente a verdadeira relação BDSM, que deve ser sã, segura e consensual.
Particularmente, já passei por esse tipo de situação e jamais gostaria que outra pessoa
passasse pelo mesmo. A sensação de ter sido "enganada" é horrível. E o pior é não poder fazer
nada. Seja realista e tenha em mente que num chat você nunca sabe quem está do outro lado,
o que a pessoa quer realmente e se as intenções dela realmente são as melhores.
Se quer ter um encontro real, com pessoas sérias, procure participar dos encontros
promovidos pelo Grupo SoMos ou busque sempre, para os primeiros encontros, lugares
públicos, movimentados e seguros. E, atenção: uma pessoa com boas intenções nunca vai
obrigar você a fazer algo no primeiro encontro.
Estas dicas são de uma amiga iniciante para os amigos iniciantes... Sejam felizes!

Direitos de uma escrava


Autora anônima

Tenho o direito de colocar limites e de esperar que estes sejam respeitados.


Tenho o direito de modificar esses limites a qualquer momento, sempre avisando o meu
Senhor com antecedência. E tenho o direito de esperar que meu Senhor estabeleça seus
limites, ajudando-me a superar os meus, criando novas situações.
Tenho o direito à privacidade. Espero que meu Senhor esteja consciente do tempo que
passamos longe um do outro, mas entenda que sou uma pessoa separada dele e que tenho
problemas e situações na minha vida para os quais não requisitarei a sua ajuda.
Tenho o direito de esperar que o meu Senhor respeite minha independência e que eu
não seja criticada por isso.
Tenho o direito de pedir sua ajuda sempre que a precise.
Tenho o direito de ser acreditada e de esperar que me considere uma pessoa
inteligente, cuidadosa e fiel.
Tenho o direito de perguntar coisas sobre o meu Senhor e de que escute minhas
questões.
Tenho o direito de pedir sua atenção, sem ter que me sentir mal por isso.
332

Tenho o direito de pedir que contribua para o nosso relacionamento, tanto quanto eu o
faço. Assim como minhas súplicas também sejam atendidas, esperando que meu Senhor as
considere, como faria em relação a qualquer amigo ou colega.
Tenho o direito de perguntar quais os motivos dele não atender as minhas súplicas,
porém com o devido respeito.
Tenho o direito de esperar que ele administre seu castigo com cuidado e precaução. E
tenho o direito de pedir que pare a qualquer momento, se considerar necessário.
Tenho o direito de levantar e ir embora de uma sessão se o meu Senhor não respeitar
meus limites.
Tenho o direito de esperar que respeite minhas decisões e que não pense mal de mim
ou me abandone por esse motivo.
Tenho o direito de reclamar se considerar que nosso relacionamento não me dá o que
preciso.
Tenho o direito de dizer o que preciso de uma maneira respeitosa.
Tenho o direito de esperar que entenda meus motivos e que seja ouvida com a mente
aberta. E tenho o direito de abandonar o relacionamento se não conseguirmos chegar a um
acordo nessas questões.
Tenho o direito de esperar carinho, amor e uma completa compreensão depois de uma
sessão.
Tenho direito de pedir carinho se tive um dia ruim ou se sinto que necessito de uma
atenção especial. Sei que existirão momentos em que discordaremos sobre esse assunto - por
exemplo, quando o Senhor quiser uma sessão e eu não. Mas tenho o direito de exigir uma
conversa sobre isso e esperar que ele me escute e considere meus motivos.
Espero que o meu Senhor tenha a palavra final, mas também espero sua compreensão
ao considerar meus sentimentos, sejam eles quais forem.
Tenho o direito de esperar que o nosso relacionamento progrida, que nossa confiança
sempre se renove e que nossas mentes estejam tão perto como estão nossos corpos.
Tenho o direito de dizer se necessito mais do Senhor e esperar que ele respeite minhas
decisões sobre o que quero e o que preciso. Espero que meu Senhor deseje que nosso
relacionamento avance, a não ser que, antes, ele decida o contrário.
Espero que ele entenda que essa profunda confiança pouco a pouco se converte em
amor e espero que não me evite se digo que o amo. E tenho o direito de esperar que me diga,
a qualquer momento, se não pode corresponder a esses sentimentos, para que eu decida
sobre o que quero e o que preciso.
É por isso que o prazer do meu Senhor aumenta o meu prazer, tornando-o real e
permitindo que o meu junte-se ao seu.
333

Teorias
Ideias, Teorias e Conceitos
Este espaço está reservado à defesa de ideias e
teorias, bem como à análise dos conceitos os mais variados,
que se relacionem ao mundo BDSM. Novos textos e sugestões serão sempre muito bem
recebidos.

Dez pontos básicos sobre a liberdade sexual

[Extraídos do ‘The complete Guide to safe sex by the


Senior Faculty of the Institute for Advanced Study of Human
Sexuality, ed. Ted McIvenna, M.Div. Ph.D (Beverly Hills, Calif:
PreVenT Group/Specific Press, 1987) e comentados no
livro Come Hither : a commonsense guide to kinky sex, Gloria
G. Brame”]
Esta é a lista dos 10 pontos básicos a respeito da
liberdade sexual, aprovados pela Comissão de Ética do 5º
Congresso Mundial sobre Sexualidade Humana, realizado em
1987.
1. A liberdade de qualquer pensamento, fantasia ou
desejo sexual. (Qualquer pessoa tem direito a pensamentos
pessoais, não importa quão bizarros possam parecer a outras pessoas.)
2. O direito ao entretenimento, livremente disponível, incluindo material que satisfaça
toda diversidade. (Que todos possam ver pornografia, ler revistas, procurar profissionais os
mais diversos, sem sofrer qualquer preconceito ou estigma.)
3. O direito a não estar exposto a material e/ou ambiente de natureza sexual. (Ninguém
pode ser forçado a ter contato com material pornográfico ou de ordem sexual.)
4. O direito à auto-determinação sexual. (Cada um tem direito a fazer o que quiser,
sexualmente, com seu corpo.)
5. O direito de procurar e realizar atividades sexuais consensuais. (Todos têm o direito a
relacionarem-se sexualmente com quem quiserem, desde que haja consentimento mútuo.)
6. O direito de envolver-se em atos e atividades sexuais de qualquer tipo, desde que não
seja através de coação, violência, constrangimento ou fraude. (Todos os tipos de relação sexual
são aceitáveis, desde que os participantes estejam conscientes e haja consentimento mútuo.)
334

7. O direito de estar livre de perseguição, condenação, discriminação ou intervenção em


ambientes privados. (Todas as chamadas minorias sexuais - gls, BDSM, swingers, fetichistas,
bissexuais e outros - devem ser livres para realizar suas atividades sexuais sem serem
molestados de qualquer forma.)
8. O reconhecimento pela sociedade de que cada pessoa, só ou acompanhada, tem o
direito de realizar-se num contexto sócio-sexual livre de interferência política, religiosa ou
legal; e que é necessário que a sociedade crie mecanismos onde oportunidades de atividades
sócio-sexuais sejam criadas inclusive para deficientes físicos, doentes crônicos, presos de
cadeias, instituições e hospitais, e também para aqueles em desvantagem pela idade, pela
falta de atrativos físicos, ou pela falta de oportunidade social, como pobres e pessoas
solitárias. (Todo adulto, não importa a idade, habilidade, condição social ou estado de saúde,
tem direito ao conforto e ao prazer do contato sexual com um parceiro consentido.)
9. O direito básico de todas as pessoas adultas, portadoras de disfunção sexual, terem
oportunidades de tratamento médico para a sua sexualidade.
10. O direito do controle da concepção.

Além do Bem e do Mal3


Lord Conrad

Em Língua Portuguesa, assim como em todas as línguas de origem latina, o vocábulo


dominador porta uma carga semântica que duplica o seu sentido originalmente poderoso. A
expressão Dom - do latim, dominu, ou seja, senhor - enraizada ali, que o termo completo,
dominador - do latim, dominatore - sobreleva e realça, é um germe que fecunda esta última,
fertilizando-lhe o sentido. Assim, numa única palavra temos a expressão não só daquele que
domina, mas também a própria forma de tratamento utilizada apenas em relação aos que
verdadeiramente dominam.
A medida de força das palavras não está dissociada dos papéis e das personalidades que
elas costumam impregnar. Ao contrário, nomeações e nomeados parecem reforçar-se num
jogo infinito de troca e acúmulo de poder, o mesmo podendo ser afirmado pelo próprio ato de
nomear, pois quem nomeia como que se apropria...
Assim, nas relações de dominação e submissão (D/s), que compõem a base dos jogos
sadomasoquistas, o Dominador não é meramente aquele que impõe a sua vontade - com
certeza, o dado mais aparente e, no entanto, também o mais desprezível, se levarmos em
conta a regra fundamental do SM são e saudável: o consenso -, mas principalmente aquele
que, por livre e espontâneo desejo, se obedece, se respeita e se escolhe como objeto de
subserviência. Repete-se, portanto, na realidade, o que a semântica prefigura: antes do

3
O link para a imagem deste texto estava quebrado
335

Dominador preexiste o Dom, aquele que denota poder e frente ao qual os súditos vêm curvar-
se.
É terrível perceber como séculos de Cristianismo só conseguiram ampliar os atos de
submissão dos povos às disciplinas inculcadas pela política ou pela religião, pelo Estado ou pela
Igreja, interferindo até mesmo no espaço da sexualidade doméstica. Contudo, nem mesmo a
criação da ideia de pecado, o mais criminoso ato de covardia já perpetrado contra o imaginário
humano, e da Inquisição, o braço armado da teologia católica, conseguiu afastar os homens
dos seus fetichismos. A libido foi mais forte que o sangue dos cristãos derramado no coliseu
romano.
E por que tem sido assim? Porque, ainda que tenhamos nos esquecido, somos animais.
E, como animais, impregnados das regras da Natureza, obedecemos aos ditames da vida; nos
orientamos, como os vegetais supostamente cegos, na direção do Sol.
Na oposição artificial que os séculos de civilização criaram, tão bem detectada por
Nietzsche - de um lado, o instinto degenerador, contrário à vida, do Cristianismo; de outro, um
exuberante dizer Sim à vida, sem nada desconsiderar ou dispensar - venceu o Sim da coragem
e do excesso, através do qual ousamos avançar. (I)
Dessa forma, Dominadores(as) e submissas(os), além de uma infinita gama de
fetichistas, nada mais fazem do que perseverar em seu infatigável Sim ao que clama em suas
naturezas. Quando a chibata - ou apenas a mão - do Dominador desce, inflexível, leve ou
pesada, rápida ou compassadamente, mas sempre fustigante, sobre a carne da sua escrava,
esse gesto reafirma uma pulsão em direção à vida. É um Sim ao que a Natureza lhes exige. E
quando a submissa, consensualmente, oferece a sua vontade, deixando que a sua carne abra-
se às marcas daquele que ela escolheu, é como se o seu corpo inteiro, em uníssono ao do seu
Senhor, almejasse o desmedido, o ponto mais extremo da vida.
Aqui, quando esses dois animais - como felinos na selva - constróem a cena
sadomasoquista, cada gesto e cada anuência urdem uma dança de força, no centro da qual
uma vontade maior se cria. E, quando a cortina das pupilas se ergue, e os olhos do Dominador
e da submissa se encontram, a imagem que invade os membros jamais morre no coração, mas
insufla uma força e um desejo ainda maiores. (II)
Trata-se de um jogo de exaustão, no qual o consenso pode estabelecer regras que - sem
a mínima perda de prazer - dissipam e/ou esgotam toda e qualquer força física. Trata-se,
portanto, de um jogo no qual se vivencia, através do mais íntimo dos acordos, da mais íntima
cumplicidade, a dor, o medo e, até mesmo, o horror. Tudo para erguer um Sim irrepreensível à
vida. Tudo para, no dizer de Georges Bataille, "chegar ao fundo do êxtase em cujo gozo nos
perdemos". (III)
Trata-se de um Sim desmedido, dionisíaco, se pensarmos aqui nas inúmeras variantes
que a relação D/s pode tomar. Amarro minha serva e ela sussurra: ata-me. Esbofeteio-a e ela,
oferecendo a outra face, pede: beije-me. Humilho-a e ela vem beijar minhas mãos, os olhos
voltados para o chão. E, mais uma vez, o que aos olhos dos tolos ganha os contornos de uma
perversão, para nós é apenas beleza e exuberância, ainda que extenuantes.
336

Muitas vezes, ao ser questionado sobre tais relações, costumo dizer que entendo o SM,
em última instância, como uma espécie de cosmovisão, ou uma weltanschauung, pois ele me
concede um prazer verdadeiramente filosófico: quando bato ou submeto, descubro mais de
mim mesmo e conheço os limites e as faces ocultas das outras pessoas... É como se, passo a
passo, eu pudesse desvendar um pouco mais o gênero humano.
É impossível não residir beleza na relação D/s. Fazemos um contrato e nos dizemos,
reciprocamente: - Vou revelar-me para você... - Por favor, faça tudo com que sonho... -
Respeite minha vontade mais íntima... - Aceite meu pavor... - Aceite minha violência... - Vamos
nos permitir a verdade, um pouco... E cada golpe que passo a desfechar sobre a minha escrava
passa a ser um atestado de que estamos vivos e somos grandes; que podemos ir onde
nenhuma espécie foi... E voltar. Que somos soberanos da nossa própria vontade. Assim,
quando o chicote vergasta a carne ou quando a parafina quente escorre pela pele que se
retrai, inexiste o ódio, mas vibra uma violência pura, uma compulsão de violência maior do
que o Dominador ou do que a submissa, uma sensação ancestral, muito anterior a todos nós,
algo que nos liberta, nos salva e nos torna melhores, ou maiores... Sem medo de usar da
retórica, a mesma violência que fundou nossa espécie e nos preserva até hoje...
Bataille dirá que "o ser em nós só existe em excesso, na coincidência entre a plenitude
do horror e da alegria". O olhar de espanto e dor da submissa é um abismo aberto não só à
dor, mas também à alegria. Uma alegria semelhante ao Sim nietzschiano, sem qualquer
reserva.
Seria possível, no entanto, sintetizar, numa única frase, isenta de qualquer raciocínio
extravagante - que, porventura, pudesse obscurecer a radiante luz do SM -, a verdade do que
afirmamos até aqui? Nietzsche dita, com a simplicidade dos que só frequentam as alturas: "O
que se faz por amor sempre acontece além do bem e do mal." (IV)

I Nietzsche, Friedrich. Ecce Homo. Como Alguém se Torna o que é. Editora Cia. das Letras, 1995,
São Paulo.
II A imagem da pantera enjaulada, no poema de Rilke, foi minha indisfarçável inspiração aqui,
ainda que recusando o final derrotista. O original pode ser lido em: Rilke, Rainer Maria.
Poemas. Editora Cia. das Letras, 1993, São Paulo.
III Bataille, Georges. Prefácio. In História do Olho (seguido de Madame Edwarda e O Morto).
Editora e Livraria Escrita, São Paulo, 1981.
IV Nietzsche, Friedrich. Além do Bem e do Mal. Prelúdio a uma Filosofia do Futuro. Editora Cia.
das Letras, 1992, São Paulo

Arthur Koestler E Cynthia Jefferies: Um Caso De 24/7


Inconsciente?
Lord Conrad
337

Na tarde de 1º de março de 1983, em sua casa, em Montpelier Square, Londres, o


escritor Arthur Koestler e sua esposa, Cynthia Jefferies, ingeriram várias colheradas de mel
misturadas com quantidades mortíferas de barbitúricos. Morreram juntos durante a noite e
seus corpos foram encontrados no dia 03 de março. Koestler estava em uma poltrona,
segurando um cálice de brandy. Cynthia jazia num sofá, com um copo de uísque na mesa ao
lado. O escritor tinha 77 anos, estava terrivelmente afetado pelo mal de Parkinson e padecia
de uma leucemia incurável.
A carta de despedida de Koestler estava escrita
desde junho de 1982 e não deixa dúvidas sobre os
sentimentos do escritor a seu próprio respeito: "Depois
de haver sofrido uma deterioração física mais ou menos
constante durante os últimos anos, o processo chegou
agora a um estado agudo, com complicações adicionais
que fazem recomendável buscar a autoliberação agora,
antes que me encontre incapaz de tomar as medidas
necessárias (...)."
O suicídio sempre nos surpreenderá, mesmo num
caso terminal como o de Koestler. Um ato deliberado de
autodestruição é algo que, a princípio, mesmo sem
levarmos em consideração quaisquer aspectos de ordem religiosa, chega a nos causar espanto.
Mas, questionando se existiriam razões suficientemente fortes para justificar uma atitude tão
radical, concluo de maneira afirmativa. Pode ser um dever para consigo mesmo renunciar à
vida, quando o continuar vivendo tornaria impossível o cumprimento dos próprios deveres. Em
determinados contextos o suicídio é uma afirmação da liberdade do homem contra a lei da
necessidade, uma das desventuras da existência que pode alcançar níveis insuportáveis. Em
outros momentos, o suicídio é um caminho de saída de uma situação insustentável, a única
maneira de salvar a própria dignidade. "Eu elogio a minha morte", diz Nietzsche em seu Assim
falou Zaratustra, "a livre morte, que chega porque eu quero."
Arthur e Cynthia eram membros da EXIT - Sociedade pelo Direito de Morrer com
Dignidade - e ele, podemos concluir, inseria-se, ao menos, em uma das justificativas elencadas
no parágrafo anterior... Mas... E Cynthia? À época, ela ainda não chegara aos 56 anos e sua
saúde era perfeita. Que razões teriam-na levado a tomar tal decisão?
Num adendo manuscrito à carta de despedida de Koestler encontramos o início de
nossa resposta. Ali, Cynthia escreveu: "(...) Sem dúvida, não posso viver sem Arthur...".
Nos meses que se seguiram à morte do casal, multiplicaram-se as insinuações de que
Koestler havia obrigado Cynthia a acompanhá-lo em sua decisão. Alexander Cockburn, numa
espécie de "antiobituário" publicado no Village Voice, dizia: "Ao perguntar a minha mãe o que
ela pensava do que a Sra. Koestler havia feito, ela respondeu: 'Seu pai sempre dizia que esse
Koestler era um desgraçado!' " [Claud Cockburn, pai de Alexander, estivera com Koestler na
Espanha, durante a Guerra Civil]. Os jornais e revistas da época alimentaram, com a ajuda dos
338

desafetos do escritor, os boatos e as suspeitas da poderosa dominação de um homem sobre


sua mulher; de um esposo irracional, mas forte, que incitara sua jovem esposa a realizar um
último ato de autonegação.
A verdade, entretanto, é outra. Um trecho da carta de despedida de Koestler revela, por
exemplo, a certeza de que Cynthia sobreviveria a ele: "O que me torna tão difícil tomar esta
decisão é, sem dúvida, pensar na dor que causarei a meus escassos amigos sobreviventes e,
acima de todos, a Cynthia. A ela devo as relativas paz e felicidade de que gozei neste último
período de minha vida, nunca antes experimentadas."
Contudo, é nos traços mais íntimos de Cynthia, nos escritos autobiográficos que ela
deixou - e que foram encontrados e publicados por Harold Harris, editor, amigo e
testamentário de Koestler - e em testemunhos de pessoas que conviveram com o casal, que
encontraremos não só a certeza de que Cynthia não foi influenciada por Arthur em sua última
decisão, mas também uma personalidade profundamente submissa, para quem a vida sem seu
esposo seria literalmente insuportável.
"Sua relação era restrita em um grau jamais visto antes; sua devoção por Koestler não se
comparava a de nenhuma esposa que eu tenha conhecido antes", conta Melvin J. Lasky, co-
editor da revista cultural britânica, Encounter.
Para Mary Benson, sua amiga íntima, Cynthia "tinha o sentimento avassalador de ser
muito feliz por compartilhar sua vida com Koestler; não estava na sua natureza pensar que o
afortunado era ele por tê-la."
O testemunho de Harold Harris vai ainda mais longe, dirimindo qualquer dúvida sobre a
possível influência de Arthur na decisão de Cynthia em também se suicidar: "Durante os
últimos dias da vida de Koestler este já era física e mentalmente incapaz de convencê-la a
tomar qualquer decisão ou de dissuadi-la. (...) Se ele houvesse tentado convencê-la de outra
coisa, seguramente, desta vez, ela o teria desobedecido. (...) Raras vezes, para não dizer nunca,
encontra-se alguém com uma história de devoção tão plena como a que professou Cynthia a
Arthur Koestler."
Ainda que não possamos concordar plenamente com as palavras de Bernard Avishai,
autor do artigo no qual colhemos os depoimentos aqui constantes, ao classificar Cynthia como
uma neurótica, parece-nos evidente que ela "estava perfeitamente consciente de sua relação
obsessiva com seu esposo durante quase vinte anos e de que estava atada a ele por uma
espécie de contrato...".
Cynthia Jefferies nasceu numa família sul-africana conservadora e sempre se sentiu
distanciada de sua mãe, apegando-se muito mais a seu pai, que se suicidou, cortando os
pulsos, por razões desconhecidas. Começou a trabalhar com Koestler aos 22 anos,
datilografando seus trabalhos e anotando seus ditados. George Mikes, um dos amigos íntimos
do casal, relata que "ela era inteligente, aberta, amável, muito bonita e carecia absolutamente
de malícia; não falava de si mesma, pois considerava que o tema não era importante ou
interessante."
339

Os escritos autobiográficos de Cynthia estão repletos de trechos nos quais a sua


personalidade romântica e submissa avulta sem qualquer meio-tom: "As pessoas que mais me
agradavam eram os heróis imaginários dos livros e não as pessoas que me rodeavam." (...) "A
cada semana eu me transladava a Fontainele-Port [antiga residência dos Koestler] e
datilografava uma nova série de capítulos. Era-me muito difícil esperar a semana seguinte.
Recordava-me dos tempos de minha infância, todas as quintas-feiras, quando meu pai levava
para casa minhas historinhas favoritas..."
Presenciando inúmeras brigas entre o escritor e Mamaine Paget, com quem Koestler
esteve casado entre 1950 e 1952, Cynthia afirma que suas simpatias sempre estiveram do lado
de Mamaine, mas "não obstante e ainda que possa parecer paradoxal, meus sentimentos por
Arthur mantinham-se intactos." E, em outro significativo trecho: "Não conseguia imaginar
como Mamaine suportava a ideia de passar um dia sem saber a opinião de Arthur sobre este
ou aquele tema. Eu dependia tanto dele, do que pensava de um livro, de um filme, de uma
nova sensação, e não deixava de surpreender-me com suas razões."
O misterioso liame que uniu Koestler e Cynthia pouco a pouco absorveu plenamente a
jovem secretária: "Para mim era como um sonho, como se realmente eu tomasse parte de
uma emocionante novela." (...) "Às vezes, eu cometia um erro ao datilografar uma carta.
Quando isso ocorria, no rosto de Arthur desenhava-se uma expressão de incômodo. Às vezes,
inclusive, ele dava um pequeno golpe seco com o punho na escrivaninha... Nunca ditava rápido
e, a intervalos, produziam-se longos silêncios, mas eu podia ficar sentada ali por toda a
eternidade."
Não houve qualquer meandro da vida de Cynthia no qual Koestler não penetrasse. Nas
duas vezes em que engravidou, ela obedeceu a exigência dele e abortou. E, mesmo quando
Arthur já se encontrava devastado pela doença, ele se manteve, para ela, como uma figura
absolutamente preponderante. Harold Harris relata que ela sempre fora uma apaixonada pela
jardinagem, "mas abandonou seu jardim quando Arthur já não podia desfrutá-lo."
Bernard Avishai conta que, em 1952, Koestler começou a se preocupar com a atitude de
devoção de Cynthia e deu sinais de querer romper a relação. Percebendo que um provável fim
se aproximava, ela retrocedeu, chegando mesmo a pensar em suicídio. Depois de 1955, no
entanto, Cynthia tornou-se a única companheira estável de Koestler, "a que compartilhava sua
cama e abstinha-se de perguntar-lhe com quem mais ele o fazia."
O depoimento de Harold Harris em sua introdução a Stranger on the Square, a
autobiografia de Cynthia, apesar de longo, é imprescindível para nossas conclusões: "Koestler
nunca tratou como um segredo o fato de que era difícil conviver com ele... Jamais tentou
ocultar sua natureza exigente, a violência de seus estados de ânimo, suas mudanças abruptas
de direção, sua obsessiva perseguição por mulheres... Por trás de tudo isso encontrava-se um
homem que poderia mostrar uma gentileza e uma generosidade enormes, um homem com
um sentido de humor incomparável e - na maioria das vezes - um companheiro de extremo
encanto.
Cynthia estava consciente dos defeitos de Koestler, defeitos que este não tratava de
ocultar. Contudo, nos 33 anos de sua união, o único período em que ela se sentiu
340

verdadeiramente infeliz foi durante os primeiros seis anos, época em que, de vez em quando,
Arthur quis romper os vínculos que os atavam... Não será exagero dizer que, para Cynthia, a
vida de Koestler converteu-se em sua própria vida; que ela viveu a vida dele. E quando chegou
o momento de Arthur abandonar esta vida, também para ela chegou o seu fim."
Apesar de ser um sinal de evidente dependência, o suicídio concedeu a essa mulher
aparentemente frágil uma aura de força suave, de um meigo vigor. Assumindo uma completa
submissão - "contagiavam-me também os estados de ânimo de Arthur, suas depressões e sua
melancolia", diz ela -, Cynthia encontrou a forma de conciliar o seu sentimento de adoração e
a sua necessidade de ser amada.
Talvez ainda reste-nos alguma dúvida no que se refere à personalidade de Koestler...
Teria ele, realmente, o perfil de um dominador? A resposta encontra-se nas páginas de seu
diário, escritas em junho de 1954, pouco depois da morte de Mamaine: "É verdade, sempre
me atraiu um tipo de mulher: as belas gatas-borralheiras, infantis e inibidas, as quais devemos
subjugar, intimidando-as."
São Paulo, junho de 2001.

Bibliografia:
Avishai, Bernard. Anales del matrimonio (los riesgos de la devoción). La Gaceta del Fondo de
Cultura Económica; número 315, março, 1997.
Arthur Koestler: un crosé sans croix http://authologies.free.fr/koestler.html (com links para
outras páginas importantes)

Serviço:
• A obra Stranger on the Square, que também é assinada por Arthur Koestler e Henry
Irving Jorgensen, apesar de estar fora de catálogo, pode ser adquirida através
da www.amazon.com.

• Livros de Arthur Koestler disponíveis em língua portuguesa:


Tempo de Quimeras (Editora Europa-América)
Ladrões da Noite (Editora Germinal)
Chegada e Partida (Editora Germinal)
www.bravoonline.com.br/livros/chegadaepartida.php
O Zero e o Infinito (Editora Globo)
O Homem e o Universo (Ibrasa)

• EXIT - The Society for the Right to Die with Dignity


www.euthanasia.org/index.html
341

Abuso e Consenso Numa Relação D/s4


Edgeh

Em jogos de BDSM, a linha que separa o que é consensual do que é abuso é muito,
muito fina. A própria natureza do jogo inclui esse risco e, em essência, ela se baseia num
"abuso consensual", por mais paradoxal que isso possa parecer.
Em outras palavras, um submisso sente prazer em ser humilhado. E ser humilhado, por
qualquer conceito, inclui inevitavelmente o fato de sofrer algum tipo de abuso, seja ele físico,
mental ou emocional. Dentro dos limites estabelecidos - ou seja, dentro das regras pré-
estipuladas entre dominador e submisso -, esse abuso é o que chamamos de consensual. O
submisso sabe que será humilhado - ou abusado - dentro de determinados parâmetros, com
os quais ele próprio concorda e sabe que serão respeitados pelo dominador.
Até aqui, tudo muito tranquilo. Mas, suponhamos que, no decorrer de uma cena
excepcionalmente excitante, um ou outro (submisso ou dominador) presuma, por si mesmo,
que pode ir um pouquinho além daquilo que foi previamente combinado. Suponhamos, por
exemplo, que um casal (homem e mulher) tenha seguido toda a cartilha de segurança,
combinando tudo o que fariam, e que em nenhum momento se tenha falado numa penetração
anal da mulher. E suponhamos que, no ápice do jogo, o homem tenha, de repente, por
qualquer motivo, a impressão nítida de que a parceira concordaria com essa penetração,
mesmo estando ela amarrada, amordaçada e vendada, incapaz de reagir.
Aí é que o problema começa. Se o casal combinou uma palavra ou sinal que indica que o
submisso já está no limite de sua resistência - e que, portanto, é hora do dominador encerrar a
sessão imediatamente -, ainda há uma chance. Mas, se eles deixaram de lado essa "válvula de
segurança" absolutamente indispensável numa cena de BDSM, torna-se virtualmente
impossível ao submisso indicar ao dominador que este está indo longe demais.
Debater-se, gemer mais alto, tentar gritar ou se livrar das cordas: tudo isso faz parte da
cena e nada disso indica coisa alguma, servindo, para a maioria dos dominadores, apenas para
excitá-lo ainda mais e tornar mais evidente (para ele) que o submisso está gostando cada vez
mais do jogo, quando na realidade ocorre exatamente o contrário.
Nessa situação, com as endorfinas afogando o cérebro, é muito pouco provável que o
dominador vá se dar conta de que rompeu os limites do submisso. Ele só se aperceberá disso
mais tarde, quando a cena estiver encerrada - e provavelmente a relação com o submisso
também, porque se terá perdido a relação de confiança mútua, sem a qual ninguém, em sã
consciência, pode manter um jogo de BDSM.

4
O link para a imagem deste texto estava quebrado
342

Pode também ocorrer o contrário. Um submisso que goste de ser espancado, por
exemplo, pode, da mesma forma, perder o controle sobre si mesmo, permitindo ao dominador
que vá longe demais, causando até ferimentos sérios. Neste caso, embora não se possa falar
propriamente em abuso, o resultado pode ser deprimente para ambos. Para o submisso, que,
ao notar que foi longe demais consigo mesmo, tenderá a culpar o próprio dominador por não
ter notado isso, podendo acusá-lo, inclusive, de ter se aproveitado da situação de excitação em
que ele, submisso, se encontrava (e daí a acusá-lo de abuso vai apenas um pequeno passo). E
para o dominador, que tendo ou não notado que as coisas estavam saindo de controle, irá se
recriminar depois, porque ele próprio saiu de controle. Ou seja, ao dar um, dois, três passos
além do que se havia preiamente combinado, o dominador estará se mostrando fraco demais
para exercer seu papel. Dominadores, acima de tudo, têm de ter controle total sobre a cena.
Não apenas sobre o parceiro, mas especialmente sobre si mesmo. Sem isso, ele se torna muito
mais uma ameaça do que qualquer outra coisa.
Vê-se, portanto, que a questão é sutil. E, portanto, complexa. Determinar onde termina
o consensual e onde começa o abuso é tarefa delicada, que implica em alguma experiência de
ambas as partes envolvidas no jogo. Cabe ao submisso saber exatamente até onde ele quer e
pode ir; e cabe ao dominador interpretar isso corretamente, além de, claro, saber também ele
os próprios limites.
É por conta disso que muitas relações de BDSM tornam-se verdadeiramente
traumáticas. Temos visto alguns casos de iniciantes no jogo que, sem ter noções de seus
próprios limites, acabam indo longe demais - e depois culpam os dominadores, quando a
culpa, na verdade, é de ambos. Um iniciante não tem parâmetros para mensurar coisa
nenhuma. E tolo é o dominador que acredita o contrário. Não se trata aqui de duvidar da
resistência ou de subestimar os desejos de ninguém. Trata-se simplesmente de um fato: um
submisso iniciante simplesmente não sabe se, de fato, poderá chegar até onde sua imaginação
e suas fantasias lhe sugerem, porque ele nunca experimentou aquilo antes.
Não são raros os casos de pessoas que acham que adorariam transar amarradas (para
ficar num exemplo bem simples) e que, na hora em que tentam fazê-lo, descobrem que a
realidade é bem diferente do sonho... E que elas, afinal, não curtem aquilo. O que dizer então
de quem acha que vai amar ser humilhado ou chicoteado? Achar, disse certa vez um vilão num
filme, é a mãe de todos os erros...
Portanto, agir com cuidado - algo que, como praticantes mais experientes,
recomendamos o tempo todo - torna-se ainda absolutamente imprescindível na questão
abuso x consenso. E se isso vale para nós mesmos, deve valer muito mais ainda para quem
está começando, agora, a explorar suas fantasias dentro do BDSM.
Iniciantes precisam entender três coisas: primeiro, que devem ir devagar, por mais que
os instintos lhes gritem que podem ir mais e mais longe.
Segundo, que jamais devem participar de uma cena se não for com um dominador no
qual tenham a mais absoluta confiança. E é bom lembrar que essa confiança não se adquire
em conversas em chats nem em um único encontro real. A comunidade BDSM é pequena, e as
pessoas que a integram geralmente se conhecem. A recomendação é que se procure
343

informações sobre o parceiro ou parceira junto a essa comunidade. Ninguém se sentirá


ofendido com isso - e se se sentir, lamentamos dizer, está no lugar errado, porque trata-se de
uma relação que envolve riscos (sim e sempre, por mais que se tente negar) e, portanto, torna
não apenas natural, mas essencial, que quem queira vivenciá-la cerque-se de todas as
precauções que julgar necessárias. Portanto, é preciso colher informações sobre o parceiro,
conhecê-lo bem (alguns encontros pessoais, preferencialmente em locais públicos e em
programas normais, como ir a um cinema, por exemplo, ajudam a ter uma visão do parceiro ou
da parceira não enquanto dominador, mas como pessoa) e só aceitar entrar no jogo quando se
estiver totalmente convencido de que o dominador é confiável. Não 50% confiável, nem 70%
confiável, mas integralmente confiável. Se houver qualquer dúvida sobre isso, acredite: é
melhor desistir e tentar encontrar outra pessoa.
Em terceiro lugar, mas não menos importante: jamais entre numa cena sem antes ter
estabelecido a palavra ou sinal de segurança. Se for uma palavra, trate de encontrar uma bem
estranha, que não deixe a menor dúvida sobre o seu significado. Jamais use "não" ou "pare",
por exemplo, porque dizer isso faz parte do jogo - e uma das melhores parte, aliás. Use
palavras que jamais seriam ditas numa ocasião como uma cena BDSM. Quanto mais absurda
melhor. Se for um sinal, deixe muito claro qual será ele. Lembre-se que você pode estar
imobilizado(a) completamente, e que será preciso encontrar um meio de indicar que o jogo
está encerrado. E lembre-se (e lembre também o dominador): dita a palavra ou dado o sinal, o
jogo acaba imediatamente.
Finalmente, uma última observação. Quem estabelece onde termina o consensual são
os parceiros, e apenas eles. Mas o abuso geralmente é cometido por apenas um deles. Não
existe a desculpa de que o jogo estava tão bom que foi impossível segurar e ir além. Isso pode
se aplicar numa transa normal entre casais, mas jamais no universo BDSM. Não é um jogo para
crianças jogarem. É coisa para adultos. Mais do que isso, é coisa para adultos que sabem se
controlar. Nenhum dominador tem o direito de ir além do que estabeleceu com o submisso. E
nenhum submisso tem o direito de deixar que o dominador vá além do que estabeleceu com
ele.
Por isso, essa conversa de que "o submisso é meu e eu faço dele o que bem entender,
mesmo que ele não queira", só funciona se o submisso afirmar que "sou do meu dominador e
ele faz de mim o que bem entender, mesmo que contra a minha vontade". Para nós,
particularmente, esse tipo de comportamento é questionável, porque entendemos o BDSM
como uma relação de prazer para dois, nunca para apenas um. E sabemos que submissos que
aceitam absolutamente tudo que o dominador lhes ordena - e que efetivamente sentem
prazer com isso - são raríssimos. Alguns talvez aceitem apenas para agradar a seu mestre, ou
porque têm medo de que ele vá embora se assim não o fizerem. É um erro, mas um erro
particular e que só diz respeito a quem o comete.
BDSM deve, desculpem a insistência, dar prazer aos dois lados, e não a um só. Senão, o
jogo perde seu caráter de jogo - e cai no abuso puro e simples. Defender isso seria a mesma
coisa que defender o estupro, por exemplo (e mesmo entre nós, cenas de estupro são cenas
de estupro...)
344

Abuso e Consenso Numa Relação D/s5


bee_a

O erotismo e o desejo que partilhamos e expressamos em relação aos nossos parceiros


manifestam-se de diferentes maneiras a cada cultura, ganhando expressões singulares através
dos tempos.
Para algumas pessoas, a experiência de um carro, de preferência estrangeiro, com um
motorista esperando-o(a) para levar a um jantar romântico, à luz de velas, em um restaurante
top de linha, terminando a noitada num motel cinco estrelas é o que há de mais erótico neste
mundo... Para outras, entrar em um quarto de motel e encontrar seu querido parceiro
esperando-o(a) com um par de algemas numa mão e um chicote na outra, pronto para mandá-
lo(la) ajoelhar-se, beijar-lhe os pés, tirar a roupa e ser sexualmente "usado(a)", é o que dá
sentido à vida...
Assim, percebe-se, a maioria dos envolvimentos sexuais e/ou amorosos traz, em
evidência ou de forma subjacente, o poderoso ícone do Poder.
Poder é sexy! (E, qualquer dúvida quanto a esta afirmação, favor ler a reportagem de
capa da revista Exame, de outubro passado...)
No primeiro exemplo que apresentamos, o poder foi expresso através do dinheiro, do
poder econômico. No segundo exemplo, o poder manifesta-se de maneira, digamos assim,
mais "primitiva". E o que isso significa? Significa, apenas, que gosto é gosto. Simples. Algumas
pessoas se excitam com manifestações mais "civilizadas" de poder (isso não deveria ser um
fetiche também?); outras almejam algo mais visível, mais claro, mais rude, quem sabe...
E, mesmo dentre estas últimas, há inúmeras variações. Por exemplo, a maioria das
pessoas envolvidas no BDSM quase sempre combina a relação D/s com algumas das práticas
denominadas sadomasoquistas. Para outros, ao contrário, a dominação/submissão é mais
erótica do que quaisquer das práticas SM. Para outros, ainda, o contrário é mais satisfatório.
A verdade, contudo, é que, nesse jogo, há uma parte dos envolvidos que considera
extremamente excitante entregar o poder a outrem dentro de um contexto erótico. E, como
não existem "dois sem um", graças ao bom Deus!, é claro que uma grande quantidade de
pessoas adora e considera extremamente excitante ser o depositário daquele poder.
Na verdade, mais do que uma entrega unilateral, o que ocorre aqui é uma troca de
poder erótico, muito própria de todos os que praticam SM como estilo de vida. Trata-se de
uma troca consensual e negociada, isto é, o quanto de poder encontra-se envolvido e em quais
áreas essas trocas vão ocorrer, depende de cada caso, de cada relacionamento.

5
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345

São todas experiências muito individuais, pessoais, cuja finalidade é o prazer mútuo. E
este, é claro, depende das fantasias e das necessidades de cada um. Assim, tudo vai depender,
em última instância, da capacidade de explorar as fronteiras da imaginação dentro de um
ambiente são. Independente de como e porque agem dessa forma, há um elemento comum a
todas essas relações, elemento muito caro à comunidade BDSM: o fascínio pelo jogo da troca
de poder.

Os Alicerces De Um Relacionamento São, Seguro e Consensual


bee_a

Molly Devon é co-autora do famoso


livro Screw the Roses, Send me the Thorns (Foda-se
com as rosas, dê-me os espinhos), um dos três
livros sobre SM mais famosos nos EUA, ganhador,
por dois anos seguidos, do prêmio de melhor livro
SM, dado pela Amazon.com.
Seu parceiro de vida e de autoria do
livro, Philip Miller, morreu em 1998. Molly
continua, desde então, levando à frente sozinha os
projetos idealizados pelos dois, incluindo várias
conferências sobre sexualidade, relacionamentos
e, claro, BDSM.
Recentemente, um pequeno artigo sobre as bases de um relacionamento que envolve a
transferência de poder foi disponibilizado em alguns sites de língua inglesa. Pequeno (5
pontos), sucinto, mas direto e fundamental. Feito por alguém que viveu - e bem - o DS como
estilo de vida. Apesar de pequeno, toca em pontos de grande importância. Vale a pena
conferir.
Molly começa colocando a importância da confiança e da comunicaçãodentro do
relacionamento SM ou DS, sem os quais nenhum relacionamento BDSM pode ser proveitoso. A
confiança depende de uma comunicação honesta. Ela chama atenção para a diferença entre
um erro - falhas, todos fazemos/vivenciamos mais cedo ou tarde em nossas vidas - e a má fé.
Uma negociação incompleta é um erro, mas desonestidade durante uma negociação é
manipulação abusiva e isso é indefensável.
Ela segue, no segundo ponto, batendo (nunca é demais!) nas questões da igualdade,
do valor e do peso das pessoas envolvidas num relacionamento SM, independente do papel
escolhido dentro desta relação. É o obvio. Não existe o dominador/a sem a figura do/a
submisso/a. Nem o submisso/a sem o/a dominador/a. É importante entender a diferença
entre fantasia e realidade. Enquanto na fantasia o/a submisso/a escolhe viver o papel de
escrava/o, cadela, um fucktoy (um "objeto" para o prazer), ou seja lá o que for que lhe excite,
346

na vida real essas pessoas têm o mesmo valor, o mesmo peso, os mesmos direitos que
qualquer pessoa. Apesar do clichê, vale a pena repetir. Se a pessoa do/a submisso/a não se
amar, não se respeitar, não tiver auto estima, o que ele está transferindo ao dominador/a??
Entregando o quê? Troca erótica de que mesmo? De nada!!!
O controle assumido é igual a responsabilidade aceita: é o próximo ponto ressaltado por
Molly. É preciso que o dominador/a conheça e entenda muito bem a dinâmica contida num
relacionamento BDSM. E saiba que no estado de submissão, durante uma cena, o/a
submissa/o está atuando em estado de diminuição de capacidade e habilidade de tomar
decisões. É o chamado "subspace". Este é exatamente o ponto da transferência, da troca. O
que, convenhamos, não é pouco. Daí a necessidade de uma negociação cuidadosa, cautelosa,
pois a/o submissa/o entrega seu corpo, mente e espírito aos cuidados do/a parceiro/a
dominador/a. Recado claro aos(às) dominadores/as: se você não quer aceitar as
responsabilidades por seus atos, não aceite o poder.
A autora continua citando outro ponto de importância fundamental: O único poder que
um/a dom/mme tem é aquele entregue pelo seu/sua parceiro/a submisso/a, colocando, de
forma muito clara e explícita, na roda, a consensualidade. Dominadores não podem, de
maneira unilateral, ter mais poder do que o que já foi negociado, da mesma maneira que subs
não podem resolver de maneira unilateral que querem mais controle do que aquele já
acordado. Entretanto, ambos os parceiros podem, a qualquer momento, acabar com a troca
de poder. Quaisquer mudanças de nível, duração ou circunstâncias do controle devem ser
negociadas fora de cena, em situação de calma, não importando se este acordo é para uma
cena especifica ou para um relacionamento mais duradouro.
Molly Devon não acabaria a listagem do que considera importante sem mencionar o
abuso, lembrando que uma relação que funciona para uma pessoa em detrimento de outra é
sempre abusiva. Com isso reforça novamente a diferença da fantasia em relação à realidade,
onde as vontades e necessidades da pessoa que se encontra no papel de sub têm igual
importância. Não podemos esquecer que a transferência de controle e de tomada de decisão
que o/a submisso(a) entrega a(o) seu(sua) Dominador(a) é para o benefício e prazer de ambos
os parceiros envolvidos.
A capacidade que Molly teve, como submissa, de continuar sozinha o trabalho e a obra
iniciados com seu companheiro, Philip, é mais uma demonstração de que o BDSM não castra
pessoas, personalidades ou vontades. Ao contrário, permite que cada um cresça e assuma, de
maneira responsável, o que de mais caro existe no substrato do ser humano: a sua
sexualidade.

Mentor
Delmonica
347

"Mentor, sinônimo de pessoa que guia, ensina ou aconselha outro, mestre, conselheiro,
guia." (Dicionário Aurélio)
Etimologicamente falando, a palavra 'mentor', no sentido que atualmente conhecemos,
é usada desde 1873 no francês, 'mentor', derivado do latin mentor-is , que, por sua vez, vem
do grego, antropônimo (nome próprio de pessoa) 'Méntor'. (Dicionário Etimológico Nova
Fronteira)
Mentor (ou Mentes, em outra edições) é o amigo de Ulisses na famosa Odisséia (séc. VIII
a.C.) e ocupa posição de relevo como preceptor e também conselheiro do filho de Ulisses,
Telêmaco. Fato curioso: a deusa Palas Atena, a deusa da sabedoria, escolhe "a figura exterior e
a fala" de Mentor para "dirigir-lhe as palavras aladas" (Odisséia, Livro II).
Minerva ou Atena: "símbolo do conhecimento racional com a percepção da luz lunar por
reflexo, opondo-se, destarte, ao conhecimento intuitivo com a percepção direta da luz solar".
(Junito Brandão, Mitologia Grega)
Estive em uma palestra, tempos atrás, de um famoso diretor de teatro, Jerzy Grotowski,
e ele dizia: "Sou um professor de performers. Falo no singular. O professor é alguém através
de quem passa o ensinamento; o ensinamento deve ser recebido, mas a maneira do aprendiz
redescobri-lo, lembrar-se, é pessoal."
Professor, chefe religioso ou mentor SM, todos estes têm um nódulo comum de
concentração de energia, todos estes têm uma base psíquica comum a todos os seres
humanos.
O Mentor tornou-se uma imagem na mente humana, uma matriz arcaica, onde
configurações análogas ou semelhantes tomam forma. A figura do Mentor é arquetípica.
Bem, você pode estar se perguntando: "- E daí? O que tudo isso tem em comum com
SM?"
Foi a partir da observação da importância que se atribui ao Mentor no BDSM, que me
motivei a procurar estas raízes, estes fundamentos anteriores, e que, justamente por isso,
encontram também seu peso dentro do universo BDSM.
O jovem Telêmaco é guiado por Mentor em sua longa viagem, cheia de receios, dúvidas
e aventuras até a ilha de Ítaca, em busca de seu pai, Ulisses.
Outra referência está na Divina Comédia (Séc. XVI), na figura de Virgílio. Dante escolhe
Virgílio para guia e mestre em sua viagem através do Inferno e do Purgatório, tornando
"Virgílio símbolo da razão, que pode tornar o homem senhor das quatro virtudes cardeais".
Contudo, é Beatriz quem conduz Dante ao Paraíso, que é o símbolo da teologia. Mas
nem só a razão conduzirá Dante a Deus; aqui surge a figura de S. Bernardo, já que o homem
jamais poderá estar diante de Deus servindo-se exclusivamente do instrumento da razão. A
razão humana, em um certo ponto, torna-se impotente para conduzi-lo a Deus.
É preciso notar momentos de passagens em ambos os exemplos, tanto na Odisséia
quanto na Divina Comédia. O caminho pode ser conduzido até certo ponto pela figura do
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mentor, entretanto, as buscas do pupilo tomam seus próprios rumos e outras intervenções
surgem... E me parece importante notar, que surgem partindo do próprio pupilo. Ou,
curiosamente, nos exemplos citados, simbolizados pela figura feminina de Palas Atena ou
Beatriz, que podem ser a representação psíquica da feminilidade inconsciente do homem, que
Jung denomina de anima (na mulher falaríamos em animus).
A anima ou animus, um outro olhar contido em todos nós, na verdade uma projeção de
si mesmo, como num espelho, conteúdos de nossa própria psique. Esse tipo de instrumental
deve ser de conhecimento do pupilo, é esse tipo de conteúdo que o propulsiona a alçar vôo
próprio, na tentativa de alcançar os próprios objetivos ou, melhor definindo, um processo de
auto conhecimento: o que quero, como quero, o que gosto, quais meus limites, no que
acredito, quem sou EU nisto tudo. Mais uma vez, na Odisséia e na Divina Comédia, o mito
encarna o ideal de do ser humano: a conquista da própria individualidade.
E, da mesma forma, o Mentor dentro do BDSM tenta orientar e aconselhar um(a)
noviço(a) nas descobertas e nos primeiros estágios perpassados de dúvidas e angústias. E,
acima de tudo, prepará-lo para dar seus próprios passos, com auto estima, domínio e auto
conhecimento.
O Mentor, no SM, além de ter domínio de técnicas e práticas, deve ter a sensibilidade
para perceber as potencialidades inatas de seu pupilo.
Por outro lado, quem procura um Mentor e o aceita verdadeiramente, não está dando
mostras de incompetência, ignorância ou qualquer sentido menor, muito pelo contrário, esta
pessoa busca completar-se, o que é muito diferente. E para completar-se terá que enfrentar a
si próprio, seja em suas qualidades ou defeitos, seja em aprender a conviver com estas
'tendências', em alguns casos irreconciliáveis.
São nestes momentos que o Mentor está presente, tentando questionar e conduzir,
como disse, não apenas no que toca à prática, porém numa tarefa mais árdua... no que
permeia os meandros da alma.
É indiscutível que esta figura no SM tenha conhecimento e experiência, pois a prática do
SM necessita de consciência e técnica. Ser são, seguro e consensual é muito sedutor para os
que se interessam pela prática, mas essa realidade deve passar pelo processo de introspecção.
Trazer para dentro de si a verdade de que o BDSM é uma prática de RISCO, sim. E que isso não
afasta as possibilidades de realização. BDSM, é um 'esporte' radical.
O papel do Mentor é o de orientar, informar, incentivar a busca do domínio das técnicas
destes jogos eróticos e alertar, chamar atenção sobre as regras de segurança que fazem destes
jogos realização e prazer de uma forma segura.
Em minha opinião, o Mentor não é ser um altruísta ou algo que lembre sacerdócio. Até
porque o sacerdote é investido através de ritos e/ou cerimônias, tendo uma autoridade
institucionalmente concedida. Já o mentor tem sua autoridade reconhecida naturalmente, seu
poder advém daí, do seu comprometimento com a ética, a filosofia e o conhecimento. Ele não
dissemina uma crença ou tem como objetivo "converter" pessoas ao SM, mas é um
pesquisador constante e faz seus mentorados na constante busca de aprofundamento.
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Não se deve esperar paternalismo de um Mentor. Manter uma relação produtiva com
um Mentor requer maturidade. E está ai uma qualidade difícil de se reconhecer
essencialmente, assimilar, lidar e adquirir: MATURIDADE.
E pego carona nas palavras de J. Grotovisk: "O Mentor é alguém através de quem passa
o ensinamento, o ensinamento deve ser recebido, mas a maneira do aprendiz redescobri-lo,
lembrar-se, é pessoal."
É famosa a afirmação de que "quem sabe faz, quem não sabe ensina". Pois está aí o
paradoxo do Mentor. Ele não pratica com seu pupilo, orienta-o; não direciona, acompanha-o;
também não estabelece vínculos de dependência, LIBERTA.
E há de se ter "quilha interior" para abraçar a liberdade, a liberdade com
responsabilidade, (tão proclamada... risos), e tão factual quando se fala em BDSM são, seguro
e consensual, seja na posição de dominador(a) ou submissa(o).
Encontrar um verdadeiro Mentor SM não é fácil. Reconhecer um Mentor não é difícil.
Ter um Mentor no BDSM é muitas vezes aconselhável e necessário. Se o Mentor é um
"escravo(a)", "submissa(a)", "dominador(a)" ou "Mestre/Mistress"... realmente acredito não
ser o mais importante, não vou discutir isso agora. Mas, uma coisa é certa: cada praticante ou
candidato a praticante de SM tem o Mentor que merece.

BDSM x Comportamento – 1ª Parte6


(Traduzido e adaptado das obras de Gloria Brame e Alan R. Meltzer por Delmonica)

"A mãe prescreverá sua leitura à filha."


Marquês de Sade, Filosofia na Alcova

As relações pessoais são cercadas de sutilezas, por entre as quais a sensibilidade


encontra sempre um maior espaço para o exercício do humano. Nas relações BDSM não é
diferente.
As perguntas abaixo, juntamente com suas respectivas respostas, tentam desenhar um
mapa seguro para o estabelecimento dessas relações.

1. Com quem irei praticar? Quem é esta pessoa?


O princípio de uma relação dentro do BDSM é o mesmo que em qualquer outro tipo de
relação: conhecer o outro.

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Você pode conhecer alguém em uma reunião social com adeptos ou simpatizantes SM,
em uma festa, num grupo... Mas nada disso "avaliza" uma pessoa. As pessoas não vêem com
nenhuma espécie de "painel" onde apresentam um "detector" de caráter, um "medidor" de
intenções, um "localizador" de objetivos ou, ainda, um "indicador" de equilíbrio mental.
Você pode pensar: "Mas em determinado grupo sei que encontrarei pessoas sérias e
comprometidas...". Este é um erro recorrente por parte dos novatos. Não caia nessa.
Um grupo renomado, um clube sério, ou uma comunidade reconhecida não são
garantias. Ou seja, você não pode adotar, automaticamente, a postura de que lá encontrará
pessoas confiáveis.
Nenhuma dessas organizações funciona como um filtro que, eventualmente, pudesse
barrar a frequência de pessoas indesejáveis.
Sendo assim, não há nenhum motivo para imaginarmos que qualquer tipo de
organização que congregue, seja de maneira real ou virtual, pessoas com interesses comuns,
como no BDSM, seja diferente de todo o resto do mundo, onde encontramos pessoas com
uma grande variedade de valores, atitudes e objetivos.
Alguns incidentes no SM, em certos casos, inclusive, desastrosos, acontecem -
inevitavelmente - quando as pessoas não têm o conhecimento suficientemente claro de quem
é a outra pessoa com a qual estão se relacionando.
É sempre importante lembrar que antes de alguém ser um(a) bom(boa) Mestre(a) ou
Submisso(a), ele(a) é um ser humano. E conhecer esse ser humano é de grande valia.
Portanto, valem a pena umas perguntinhas, do tipo:
- Qual é a história desta pessoa dentro do SM?
- Qual a experiência que ela tem?
- Qual a visão que o restante do grupo tem dela?
E mais:
- Quem é esta pessoa em todos os aspectos? Como ela pensa? Quais suas opiniões sobre
os mais diferentes assuntos?
- Ele(a) é uma pessoa confiável?
- É um bom ser humano?
Conheci o caso de uma submissa que, entusiasmada com uma sala de chat, por
exemplo, estabeleceu contato com um dominador. Depois de algumas conversas, sabendo que
ele frequentava reuniões de um determinado grupo SM, resolveu sair do virtual para uma
sessão real. O resultado é que esta sessão aconteceu completamente fora de suas expectativas
e ela veio a sofrer práticas absolutamente não consensuais por parte de um sádico que
aparentou ser um sério e respeitável dominador.
Não podemos, inocentemente, pressupor que, por estarmos batendo papos virtuais,
trocando e-mails, ou mesmo frequentando um determinado grupo, estamos em contato com
351

pessoas que respeitam, por exemplo, a pedra fundamental do SM, que é o São, Seguro e
Consensual.
É muito fácil uma pessoa se aproveitar da credibilidade de um grupo ou de novatos
inexperientes, para colocar para fora seus conceitos equivocados ou seus impulsos violentos.
Mesmo que durante os encontros de um grupo, sejam virtuais ou reais, essa pessoa pareça
emitir opiniões sérias ou ter comportamento responsável, nem isso avaliza tal criatura.
É quando estamos sozinhos com tal pessoa que percebemos o perigo que ela pode
representar.
A comunidade SM, seja nacional ou internacional, vem se expandindo e com isso surge a
necessidade de estarmos orientando a todos, principalmente para que os novatos conduzam
suas relações BDSM de uma forma segura e consensual, a fim de que a sua forma de expressão
do prazer sexual seja preservada de forma saudável.
E lembrem-se: SM e maltratos são tão opostos quanto relação sexual e estupro.
Praticantes responsáveis e comprometidos na comunidade BDSM repudiam qualquer forma de
atividade não consensual.
(Continua na próxima semana)

BDSM x Comportamento – 2ª Parte7


(Traduzido e adaptado das obras de Gloria Brame e Alan R. Meltzer por Delmonica)

2. Então, como saber em quem confiar?


Como em todo o tipo de relacionamento, não existe outra forma de confiar a não ser
conhecendo a outra pessoa. E isto implica em dedicar tempo.
Portanto, se você acredita que conhece o suficiente alguém depois de uma ou duas
semanas de convívio, ou após uma série de trocas de e-mails, além de estar completamente
enganado(a), está brincando com a própria sorte.
Caso tenha em mente um relacionamento duradouro, o que se pode recomendar são os
mesmo hábitos que envolvem os de uma relação convencional. Ou seja, aquelas velhas e
gostosas maneiras de investir seu tempo em descobrir o outro que, de alguma forma,
despertou seu interesse: ir ao cinema, praia, teatro, shopping, jantar. Em suma, atividades
sociais que qualquer pessoa interessada em uma amizade ou relacionamento faz no mundo
inteiro.
Você precisará despender tempo no cotidiano da vida real. Apesar de hoje em dia ser
possível se fazer inúmeras coisas virtualmente, conhecer os segredos da alma de outra pessoa

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O link para a imagem deste texto estava quebrado
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continua sendo uma vantagem da relação olhos nos olhos, ação/reação, que só a vida real
oferece.
Observe que a única diferença entre um relacionamento D/s e os outros
relacionamentos interpessoais é o "tempero" SM.
Mesmo que sua opção seja uma companhia passageira, insisto na recomendação de que
você faça todo o possível para saber com quem realmente você está saindo. Até uma mera
conquista fica mais interessante quando temos o tempo a nosso favor.
Um bom tempo para você perceber o outro deve girar algo em torno de três meses, mas
você descobrirá seu próprio tempo, seja um pouco mais ou um pouco menos.
Este tempo oferece a oportunidade de você ver o outro em uma série de circunstâncias.
E se durante este tempo eu descubro que, por exemplo, fulano é dissimulado, tem conceitos
ou opiniões muito divergentes de mim dentro do BDSM, ou que não fala a verdade sobre as
coisas, é irresponsável ou direciona as coisas e elabora jogadas para alcançar exclusivamente
seus "objetivos", ou qualquer outra característica que me desagrada, isto tornará essa pessoa
um companheiro incompatível. Para mim, os encontros terminarão e eu não estarei
comprometida, emocionalmente desgastada ou me arriscando à toa.
Pode parecer um processo lento, mas todas as recompensas serão provenientes deste
processo de investimento de tempo. E quando se sentir pronto(a) para assumir um
compromisso com um submisso ou dominador, um Mestre ou escravo, permanente, estará
certo(a) que conhece realmente aquela pessoa. Saberá reagir às situações, terá sensibilidade
para reconhecer e desenvolver códigos, compreender ou intuir melhor como a mente do seu
parceiro funciona; e, com todos estes aspectos a relação só tende a crescer.
E por outro lado, um(a) submisso(a) terá bases firmes para depositar maiores doses de
confiança em seu(sua) dominador(a) e menores chances de decepções.
Ao observar o outro, também estamos nos observando. É através do outro que
descobrimos quem somos.
Veja um exemplo: se um(a) determinado(a) dominador(a) tem um comportamento em
sua vida diária em que é capaz de demonstrar equilíbrio, sentir-se confortável nas diversas
situações cotidianas e/ou que tem uma posição de domínio em seu mundo real, isso será
altamente tranquilizador para um(a) submisso(a), aumentará a confiança e a credibilidade
nele. Por outro lado, se houver um(a) submisso(a) que esteja apenas procurando viver uma
aventura, ou viver seus fetiches 24 horas por dia, logo perceberá que você não é o(a)
dominador(a) que ele(a) procura.
Enumeramos algumas regrinhas simples e objetivas que não devem ser deixadas de
lado:
- Tenha certeza de ter o telefone da casa e do trabalho do(a) parceiro(a);
- Certifique-se de ter pelo menos uma pessoa de sua confiança sabendo que você irá
a um encontro;
353

- Deixe que seu parceiro saiba que outras pessoas estão sabendo de seu
relacionamento e/ou encontro;
- Se possível, evite que situações íntimas já se desenrolem no primeiro encontro.

(Continua na próxima semana)

BDSM x Comportamento – 3ª Parte


(Traduzido e adaptado das obras de Gloria Brame e Alan R. Meltzer por Delmonica)

3. Mas, manter meus relacionamentos em um círculo já limitado de amigos que


praticam BDSM não será tedioso?
Não. Você poderá, em uma festa, por exemplo, relacionar-se com uma pessoa estranha.
Para isto foi criada a "safe word", ou seja, a palavra de segurança: para limitar danos
involuntários ao praticar jogos com um desconhecido.
A questão não é se você pode ou não
praticar com um desconhecido. A pergunta é se
você poderá fazer uma escolha sã para você
mesmo(a). Quanto de sua confiança estará
depositando em alguém que você não sabe quem
é? Você deve se prevenir no sentido de não
depositar demasiada confiança, não ser arbitrário
consigo mesmo, principalmente se você for do tipo
cheio de "ideais românticos".
Partimos do princípio que você é uma
pessoa adulta e que não existe nada de errado em
experimentar o que seu coração manda. A vida é
para ser vivida. E você tem todo o direito de
aceitar e assumir sua sexualidade e ser muito feliz.
O que dizemos é que você deve ser uma pessoa
cautelosa, que deve se preocupar com sua segurança física e emocional e ficar "com um pé
atrás" até ter boas razões - tais como repetidas experiências positivas com o(a) parceiro(a) -
para entregar, ou assumir, o controle de um relação BDSM.
Responda-me você, agora: por que um(a) submisso(a) ou dominador(a) que está em um
munch (encontro), wokshop, playpartie (festa SM) ou mesmo na internet (chat) deveria fazer
um completo investimento físico e emocional em uma relação repentina? Baseado em quê?
354

Quer minha resposta? DESESPERO. E nada justifica isso. Mesmo compreendendo que
todos nós temos ansiedade para obtermos experiência e conhecermos o(a)
submisso(a)/dominador(a) de nossos sonhos.
Para algumas pessoas o impulso SM está reprimido ou se torna um desejo sublimado
por muito tempo, mas o fato é o seguinte: NÃO HÁ ATALHOS NO BDSM.
Se você quiser um relacionamento com segurança e qualidade, você deve investir tempo
e ter compromissos com você mesmo(a), para não queimar etapas, para não se expor, para
não perder oportunidades por estar envolvido(a) com a coisa errada.
Nem todas as oportunidades são iguais. E, mesmo com todos esses cuidados, algumas
experiências ainda podem causar algum desconforto emocional.

4 - Então, como me proteger até realmente conhecer bem alguém?


Adote uma atitude simples: limite seus riscos. Você não pode sair dando "carta branca"
para quem não dedicou tempo suficiente em conhecer.
Conhecer alguém via Internet, por exemplo, não oferece a mínima garantia. São
famosos os casos de composição de personagens virtuais que não sobreviveram um ínfimo
instante no mundo real.
Só a convivência e as situações vivenciadas no mundo real trazem a grande possibilidade
de se vislumbrar quem é outro.
Se você conhece uma pessoa numa festa SM, encontro, grupo ou qualquer outro meio
(incluindo aqui a Internet) você deve estar apto(a) a usar sua sensibilidade e procurar outras
pessoas, dentro ou fora do grupo, que conheçam e possam passar alguma referência sobre a
pessoa na qual você está interessado(a). Não tenha receio em procurá-las.
Não pense que estará sendo mal-educado(a) ou desrespeitando seu(sua) possível
parceiro(a) fazendo tais "consultas". Saber se uma outra pessoa conhece um determinado
praticante ou se já viu ele(a) em ação em uma cena, é uma busca de referências
extremamente aceitável.
Observe a pessoa com quem você pretende partir para a prática. Observe se essa pessoa
expressa raiva, medo, ressentimentos ou qualquer outra emoção negativa com frequência. E,
principalmente, se expressa tudo isso com você. Este já será um primeiro aviso de que as
coisas não estão caminhando bem.
Caso seu parceiro em potencial faça qualquer uma das colocações abaixo, pare e pense
se realmente valerá a pena prosseguir na relação:
- Não quero que você fale a ninguém sobre mim.
- Você não pode perguntar a ninguém sobre mim.
- Se eu achar que você falou sobre mim para outras pessoas eu nunca mais falarei com
você.
355

- Você deve confiar apenas no que eu digo, não ouça o que as pessoas falam sobre
mim.
- Sim, o que as pessoas falaram sobre mim é verdade, mas agora eu mudei, sou outro.
- Tudo que as pessoas falam sobre mim é mentira.
Mesmo que uma pessoa seja conhecida, e até "famosa" dentro de um grupo, se ela for
madura o suficiente e realmente comprometida com o BDSM ela entenderá e até achará
prudente seu questionamento e não ficará chateado(a), ressentido(a) ou receberá isso como
uma ofensa.
A primeira responsabilidade dentro do SM é a sua saúde e o seu bem-estar.
Esperamos que os novatos sejam cautelosos e incentivamos para que eles tomem suas
próprias decisões, de maneira independente e sem pressão de ninguém.

(Continua na próxima semana)

BDSM x Comportamento – 4ª Parte8


(Traduzido e adaptado das obras de Gloria Brame e Alan R. Meltzer por Delmonica)

5 - A safe word me protege de maneira suficiente?


Não necessariamente. Considere o seguinte: se você não conhece seu parceiro, como
pode ter certeza se ele será fiel a esse código? Como saber se, quando estiverem a sós, ele não
lhe impedirá, com uma mordaça por exemplo, de pronunciar a safe word? Como ter a garantia
de que ele(a) não irá ameaçar você de, por exemplo, parar completamente a prática, caso você
use a safe word?
A safe Word, por si só, não tem poderes. Ela é um código, um sinal que só será
respeitado e compreendido por praticantes sérios.
No caso que citei na primeira questão, por exemplo, a submissa foi ameaçada de ter a
prática totalmente encerrada caso viesse a pronunciar a safe Word. E, ainda mais, seria
excluída das relações do tal dominador. Sendo assim, a safe word depende do respeito entre
os praticantes para ser levada em consideração. A safe word deve interromper um ato e não
necessariamente paralisar ou encerrar toda a prática. Por esse motivo ela é uma ferramenta
imprescindível, que deve ser combinada antes de toda e qualquer atividade BDSM.
Você pode até imaginar que, de agora em diante, aquela submissa de que falei não mais
cairá em uma enrascada desse tipo, ou que, pelo menos, terá o bom senso de saber parar.
Entretanto, a natureza de um(a) submisso(a) é a de uma pessoa vulnerável, que deseja
agradar, e, mesmo diante de um quadro complicado, ele(a) sente-se ligado(a) ao(a)

8
O link para a imagem deste texto estava quebrado
356

dominador(a). Ou, ainda, pode ter tanta vontade de viver suas fantasias ou é tão inexperiente
que acredita que o simples fato daquela pessoa ser um(a) dominador(a) significa que "sabe de
tudo". É por esse motivo que o(a)s submisso(a)s acabam muitas vezes assumindo mais riscos.
Ele(a)s preferem sofrer um pouco mais do que colocar em risco o relacionamento ou
decepcionar o(a) dominador(a).
É importante lembrar que uma das características mais bonitas e estimulantes de um(a)
submisso(a), é o desejo de servir e agradar, e é o que precisamente as pessoas de má-fé
buscam para concretizar seus maus propósitos.
Existe um crime famoso nos Estados Unidos, ocorrido em Nova York há alguns anos,
quando um dominador costumava abordar submissos em um bar da comunidade BDSM gay,
assegurando a eles o respeito aos limites e o uso garantido da safe word. Certa vez, quando
estivam sozinhos no apartamento ele ignorou o uso da safe word e até impossibilitou a
articulação da plavra ( o rapaz foi amordaçado com uma fita silver type). Acho que não preciso
dizer como termina o caso.
É claro que toda moeda tem dois lados: nem todos(as) os(as) submisso(a)s são
verdadeiros(as) e dignos de confiança. Existe uma porção de submissos de ocasião por aí
(pessoas que não estão procurando um relacionamento SM verdadeiro, mas meramente
momentos fortuitos, de modo a, no instante seguinte, estarem livres, descomprometidos e
longe de qualquer responsabilidade).
Existem novatos que não fazem a menor ideia de quando e onde usarem a safe word
(vamos insisitir: invista tempo para ter certeza que será compreendido e preserve-se de
mágoas e sentimentos amargos no futuro). Como também há o(a)s submisso(a)s experientes
que usam a safe word muito mais para manipular e controlar o(a) dominador(a) do que para
indicar quando eles(as) atingiram um limite real.
As situações mais problemáticas ocorrem quando o(a) submisso(a) não se utiliza da safe
word quando deveria e o(a) dominador(a) fica achando que está tudo tranquilo. Contudo, no
futuro (horas, dias ou mesmo meses depois) o(a) submisso(a) achará que que o(a)
dominador(a) foi longe demais...
Ora, por que não usar a safe word se ela existe??? Às vezes, é um desejo irresistível por
parte do submisso de que o(a) dominador(a) tenha a capacidade de ler pensamentos! Em
certos momentos, um(a) submisso(a) é ingenuamente transparente e, em outros, é um(a)
cabeça dura orgulhoso(a). Alguns subs se colocam à prova, para mostrar que aguentam
qualquer coisa que o(a) dominador(a) os obrigue, mesmo que isso os magoe ou machuque.
Isto é algo extremamente perigoso para todos os envolvidos. E esta relação está fadada ao
desgaste e ao término, muitas vezes, desastroso.
Tanto subs quanto doms devem ter a responsabilidade de nunca deixar a safe word
perder seu sentido primeiro, que é complacência e confiança mútua. Repetimos: a safe word é
uma das ferramentas da prática segura, mas não é uma garantia de segurança.
357

6 - É possível usar a Internet como veículo para estabelecer contatos para relações
BDSM? Há uma maneira segura para isso?
É uma questão complexa, mas tentarei fazer algumas sugestões que nos cerquem de
alguma segurança no momento de fazer a passagem do virtual para o real, e tentar, assim,
evitar más experiências.
Encontrar qualquer estranho, como vimos até agora, é algo que envolve uma parcela de
risco. Portanto, todo cuidado é pouco. E encontrar um estranho com propósitos BDSM não é
exceção.
Existem riscos adicionais para qualquer um na posição de submisso, sejam homens ou
mulheres. Assim, devemos desenvolver alguns mecanismos básicos de segurança:
A) Dominadores sérios e conscienciosos não se sentem incomodados em fornecer
referências. Para partir para o real, recomenda-se que você pergunte a ele(a) de parceiros que
já praticaram com ele(a). Você deve buscar estas referências contatando essas pessoas. Este
sistema é normalmente usado na comunidade BDSM no exterior e nenhum dominador(a)
repeitável se sentirá ofendido(a) ao ser questionado(a) nesse sentido.
B) A Internet tem espaço para você abordar outras pessoas que conheçam este(a)
dominador(a) ou submisso(a) de seu interesse e, desta forma, obter informações sobre essa
pessoa. Tenha um certo distanciamento, mas leve em consideração os comentários feitos em
salas de bate-papo a respeito de atos ou situações que envolvam a tal pessoa. Caso você fique
sabendo de algo que realmente lhe deixe de sobreaviso, coloque a questão para o
dominador(a) ou submisso(a) sem identificar a fonte de tal informação. Lembrando que
estamos, até então, lidando apenas com um "nick".
C) Leve em consideração tudo que você já aprendeu ou experimentou das regras de
segurança. Utilize-se dos tempos despendidos em chat e das trocas de e-mail de uma maneira
dirigida. Procure entender a pessoa e saber como funciona o mecanismo das fantasias dele(a).
Peça para que lhe explique a sua técnica favorita. Converse sobre opiniões e conceitos dentro
do BDSM. Proponha jogos virtuais. Coloque situações cotidianas de problemas e observe como
o outro reage (tente colocá-lo o mais próximo possível de uma situação real). Aqui também
vale pedir conselhos de como agir numa determinada situação, ou contar uma reação sua
diante de um fato e observar o comentário dele(a).
D) Use sua sensibilidade para ir trazendo a pessoa para o real. O primeiro passo é um
telefonema. Evite nesse primeiro momento fornecer seu telefone do trabalho, por exemplo.
Estabeleça um horário conveniente para receber as ligações e observe como o outro usa esse
direito cedido por você.
E) Tenha claro para você mesmo o que significa um "alerta vermelho" . Não desrespeite
estes avisos internos. Se você acha que existe algo estranho ou errado, reavalie a relação.
Lembre-se, você está lidando com um desconhecido. Mais vale desistir em caso de dúvida do
que dar um passo incerto, que venha a comprometer seu emocional ou físico. Um(a)
dominador(a) que, ao telefone, concorda com o uso da safe word mas, ao encontrar você,
repentinamente diz que quer uma sessão sem safe word, ou um dominador(a) que usa uma
358

faca numa sessão onde facas não foram negociadas ou são inegociáveis, são exemplos que
devem disparar seu alerta vermelho e sua habilidosa saída de cena.
F) Use a Internet como meio de pesquisa para livros, técnicas e grupos de discussão que
abordem as práticas seguras e questões comportamentais dentro do BDSM. Dessa forma você
será capaz de reconhecer se seu possível parceiro está falando de uma maneira correta e se
segue a linha do São, Seguro e Consensual. Outra boa maneira é encontrar pessoas da
comunidade BDSM em munches ou wokshops para trocar experiências.
G) Desde o virtual até o real, sendo dominador(a) ou submisso(a), sempre deixe claro
suas intenções, do que gosta e até onde pretende ir. Deixe explícito seus limites, o que aprecia
e o que DE JEITO NENHUM TOLERARIA.
Por fim, volte e leia todas as outras questões colocadas anteriormente antes de partir
para uma sessão real! Pratique BDSM de maneira sadia, consensual e sinta-se seguro(a). E não
deixe que seu sexo fale antes de sua razão, pois será a sua saúde que estará em jogo. Smaks!

Caso tenha alguma dúvida, por favor, escreva para delmonica@uol.com.br. Gostaria de
saber o que você pensa sobre o que está aqui colocado. Também pretendo anexar alguns
relatos ou depoimentos em versões futuras deste texto. Caso queira contribuir, conte com
minha total discrição. Você poderá optar por usar um nick diferente de seu habitual, se achar
conveniente.

BDSM e a Lei Brasileira9


BondageRS

Manter alguém amarrado ou de qualquer maneira aprisionado, constitui-se, no Brasil,


como em qualquer outra parte do mundo, em princípio, em crime. Estaremos frente aos tipos
penais que a legislação chama de constrangimento ilegal ou sequestro e cárcere privado,
dependendo do caso concreto. Da mesma maneira, lesões corporais, sejam de natureza grave
ou leve, têm o mesmo efeito no mundo jurídico: são condutas reprovadas pelo ordenamento
legal, passíveis de punição pelo Estado.
Entretanto, para que determinada conduta seja tida como crime, não basta que esteja
prevista no código penal (tipo penal) - o crime é mais do que isso. Crime é o fato que além de
ser típico (previsto na lei), é antijurídico, isto é, deve, realmente, ser contrário ao senso médio
de justiça: tem de ter o atributo da lesividade. Assim, existem fatos típicos, como matar
alguém, que não configuram um delito, quando, por exemplo, tal acontece ao abrigo de uma

9
O link para a imagem deste texto estava quebrado
359

excludente de ilicitude, como a legítima defesa (prevista em lei). Note-se que, nesse caso, o
agente feriu o tipo penal (matou um ser humano), mas não cometeu crime.
No entanto, as excludentes que constam no Código Penal (legítima, defesa, estado de
necessidade, etc.) não são exaustivas, isto é, comportam outras formas similares de situações
que podem definir que determinado fato proibido seja, eventualmente, permitido. É o que
acontece nas situações que envolvem parceiros que desenvolvem jogos ou brincadeiras
sexuais, entre pessoas adultas e capazes (no sentido jurídico do termo), que consentem em
serem dominados, aprisionados ou em sofrer lesões leves, que não lhes cause maiores
gravames à saúde.
Assim, a excludente de antijuridicidade (ilicitude) chamada pela doutrina
de consentimento do ofendido é plenamente aceita pelo ordenamento pátrio e permite que as
pessoas possam dispor de suas vidas como bem queiram, na medida em que não transijam
com bens jurídicos indisponíveis, como a vida, a saúde ou integridade física (lesões corporais
graves, não pode!).
De modo que os fetichistas podem continuar fruindo a sua herança de prazer, sem peias
(agora a dúvida: melhor com peias?), na busca da felicidade como sentido real da existência
humana.

BDSM e Suas Afinidades com o


Jogo
Delmonica
Muitas vezes ouvi a expressão Jogo
Erótico para definir as práticas realizadas no
BDSM. E tenho que admitir que há uma
precisão nesta expressão. Em uma cena de
bondage, disciplina ou sadismo/masoquismo,
sempre 'algo' está em jogo.
Consultando as teorias sobre jogo de H. Zondervan, encontramos vários conceitos que
tentam definir as origens e os fundamentos do jogo. Mas todas partem do mesmo
pressuposto: o jogo se acha ligado a alguma coisa que não exatamente o jogo. Todo bom
jogador sabe e sente isso.
A intensidade do jogo e seu poder de fascinação não podem ser explicados por análises
biológicas. E, contudo, é nessa intensidade, nesse fascínio, nessa capacidade de excitação que
está a essência e característica principal do jogo.
A natureza podia nos ter oferecido outros caminhos para as descargas de energia, para a
preparação às exigências da vida - no que se refere à compensação de desejos não satisfeitos -,
mas ela ofereceu a tensão, a alegria, o divertimento e o prazer do jogo, que nos permitem
elaborar modelos para a vida real, pessoal e social.
360

Que modelos buscamos nos jogos eróticos? O que nosso mundo interior procurar
elaborar a partir deles?
Quando jogamos, acreditamos naquela realidade como autônoma; ela encerra um
mundo em si mesma. Uma possibilidade de estar sendo, sem ser o tempo inteiro. Ao se jogar
se estabelece uma ordem na imperfeição do mundo, uma perfeição temporária e limitada.
Será que o BDSM por lidar com tanta intimidade e tentar ordenar a relação de poder
pode estar 'ameaçando' de alguma forma as quest&oatilde;es sociais e políticas do poder
constituído a serviço do sistema?
O que o homem fez ao elaborar a linguagem? Veja, de uma maneira ou de outra, ao dar
expressão à vida, o homem criou um outro mundo que melhor o ajudasse a compreender o
que e onde ele vive.
Será que o BDSM não participa deste mesmo princípio?
"O jogo é fundamentalmente um símbolo de luta, luta contra a morte." (Dicionário dos
Símbolos)
Os mitos são outro exemplo, bem mais elaborados, da capacidade de transformação de
uma "imaginação" do mundo exterior pelo homem.
Se BDSM é jogo erótico não deveria representar risco. Jogo, afinal, não é brincadeira?
Diversão?
Percebemos que jogos comuns, como o xadrez, o nosso futebol e mesmo os jogos feitos
pelas crianças, são realizados dentro da mais profunda seriedade, não se vê nos participantes a
menor tendência para o riso ou descaso.
Claro, isso varia de jogador para jogador. Ocorre o mesmo entre os praticantes do
BDSM.
(Talvez o problema seja não limitarmos nossos "brinquedos" a um tabuleiro de xadrez,
com suas pecinhas tão interessantes ou a uma simples bola... risos)

"... O jogo é por si só um universo no qual através de oportunidades e riscos, cada


qual precisa achar o seu lugar. O jogo não é apenas a atividade específica que leva
o seu nome, mas ainda a totalidade das figuras, dos símbolos ou dos instrumentos
necessários a essa atividade ou ao funcionamento de um conjunto complexo."
(Dicionários dos Símbolos)

Quando chamamos uma comédia ou uma farsa de "cômica", fazemos referência a


situação e aos pensamentos ali expressos, e não ao jogo da representação.
Como uma cena BDSM, o jogo está repleto de ritmo, harmonia, vivacidade. O jogo é
livre, pelo fato dele próprio ser liberdade. O jogo é uma atividade voluntária; sujeito a ordens,
deixa de ser jogo. (Como no BDSM, se forçássemos alguém que não aprecia a participar de
361

uma cena de spanking ela deixaria de ser uma cena, passaria a quebrar todas as regras de SSC.
Estaria se tornando uma legítima vítima, digna de estar na galeria dos personagens do
Marquês de Sade. Estaria sendo submetida apenas à violência, à coação.)
Para uma pessoa adulta e responsável o jogo poderia ser completamente dispensável.
Mas por que não acabam com os campeonatos de xadrez? E por que o BDSM não é
tratado pelos seus adeptos como algo supérfluo?
Tem-se uma necessidade urgente do prazer por ele proporcionado, transformando-o em
necessidade.
O jogo jamais é imposto pela necessidade física ou por dever moral. É possível adiá-lo ou
suspendê-lo a qualquer momento. Não é tarefa. Liga-se à noção de obrigação e é dever apenas
quando constitui uma função cultural reconhecida, como no culto ou ritual.
Mas, uma coisa é certa, o jogo não é vida corrente ou vida real. É uma evasão da vida
real para uma esfera temporária de atividade com orientação própria.
Costuma-se dizer que jogos são tensos. Tensão significa incerteza, acaso e emoção. O
jogador quer acabar com a tensão.
Que tensão queremos encerrar ao nos envolvermos nos jogos eróticos do BDSM?
Embora o jogo, enquanto jogo, esteja para além do bem e do mal, o elemento de tensão
lhe confere um certo valor ético, na medida que está se colocando em prova as qualidades do
jogador: seja habilidade e técnica ou coragem e tenacidade.
E, apesar de nosso tremendo desejo de "ganhar" o jogo, de satisfazermos nosso desejo,
de darmos vazão à tensão... temos que seguir as regras. A desobediência às regras implica na
derrocada de toda imaginação... O jogo acaba, o apito do árbitro quebra o feitiço e a vida real
recomeça.
Um jogador que ignore as regras, é um "desmancha- prazeres". E há os que fingem jogar
honestamente, fingem seguir as regras, mas não o fazem. São os "desonestos".
Engraçado perceber que tanto num jogo convencional, quanto no BDSM, aceitamos com
mais facilidade o jogador que é desonesto... mas não toleramos o "desmancha-prazeres".
Provavelmente pelo fato do "desonesto" aparentar reconhecer o círculo mágico do jogo e o
"desmancha- prazeres" abalar a existência ou continuidade do jogo. Felizmente, nenhum dos
dois está apto a integrar uma comunidade permanente, mesmo depois de acabado o jogo.
Quando partimos para uma cena BDSM, ou uma Play Party, vemos repetir-se mais uma
das características do jogo: o ar de mistério. É difícil para um novo "jogador" dar este passo.
Fazemos do jogo um segredo. E o encanto do jogo aumenta por isso. Fazer dele um segredo é,
no mínimo, conferir-lhe ilusão... (palavra cheia de sentido que significa "em jogo"- deinlusio,
illudere ou inludere).
As comunidades de "jogadores" tendem a tornar-se permanentes, mesmo depois de
acabado o jogo. A sensação de estar separadamente juntos, numa situação excepcional, de
362

partilhar algo importante afastando-se das regras habituais, conserva sua magia para além da
duração do jogo.
O encanto do BDSM está, sem dúvida, na mágica de nos transportar para longe de nosso
"eu" cotidiano, sem contudo nos deixar perder inteiramente o sentido da "realidade habitual".
A qualquer momento é possível à vida quotidiana reafirmar seus direitos, seja devido a um
'impacto exterior' que venha interromper o jogo, por um afrouxamento das intenç&oatilde;es,
uma perda do espírito do jogo, uma desilusão ou desencantamento ou devido a uma quebra
das regras.
O BDSM esbarra, necessariamente, em valores morais, que implicam na noção do
binômio vício-virtude.
Mas o conceito de jogo, enquanto atividade não material, não desempenha função
moral.
Ora, se o jogo, como nas fantasias sexuais, se baseia na manipulação de certas imagens,
numa certa imaginação da realidade (ou seja, a transformação desta imaginação em
realidade), nossa preocupação deverá voltar-se para o valor e o significado dessas imagens e
dessa "imaginação".
Sendo assim, o BDSM pode ser tratado como fenômeno cultural? Será que o BDSM não
é uma forma de expressão de uma sexualidade que só escandaliza por estar vinculada a uma
"estética" ainda não compreendida ?
Mas é importante notar que o jogo erótico deixa sempre transparecer a espontaneidade
mais profunda, as reaç&oatilde;es mais pessoais às press&oatilde;es de nossa vida externa, e
talvez aí resida sua complexidade.
Bem, esse foi apenas mais um exercício de reflexão sobre a natureza e significado do
jogo para o BDSM, aliás, com mais questionamentos do que afirmaç&oatilde;es, uma tentativa
de situar o BDSM para além dos parâmetros da 'doença' ou 'anormalidade'. Talvez, juntando
mais elementos possamos começar a formar as bases que levem à compreensão dessa prática
e de nós mesmos!

"Eu vivo bem o século que passa.


Sente-se o vento de uma folha imensa
Escrita por deus, e por ti e por mim,
De mãos estranhas a pender suspensa.

Percebe-se o clarão de uma página nova,


Sobre a qual tudo pode vir a ser.
As calmas forças testam-lhe a extensão
E trocam olhares na escuridão."
363

Rainer Maria Rilke, O Livro das Horas

O Emblema BDSM10
Órion

Para muitas pessoas, uma simples imagem; para outros, um desenho bonito.
Mas, pra nós, adeptos do BDSM, este símbolo tem muitos significados, além de todo um
enigma por trás dele. Por isso, vejamos o que ele vem a ser.
O emblema do BDSM na verdade não tem nenhum significado óbvio. Ele foi criado para
gerar todo esse clima de mistério em torno de si.
Uma pessoa comum, que não está a par da prática BDSM e do mundo que ele
representa, não saberá, de imediato, o significado da imagem - a não ser a superficialidade
comum de se apreciar uma bela jóia ou um objeto interessante, não indo além disso.
Nós, praticantes, podemos usar este símbolo livremente como um "sinal" para outras
pessoas que o conhecem, identificando o adepto BDSM onde quer que ele vá.
As três divisões do emblema podem ser analisadas sob 3 aspectos.
1º aspecto - a filosofia BDSM
BD (Bondage - Disciplina)
DS (Dominação - Submissão)
SM (Sadismo - Masoquismo)

2º aspecto - o modo de comportamento/trilogia do BDSM "SSC"


S - São
S - Seguro
C - Consensual

3º aspecto - a comunidade BDSM


Tops - (Doms, Dommes, Senhores, Senhoras, Mestres, Mestras)
Bottoms - (Submissos, Submissas, Escravos, Escravas)
Switchers - (vivenciadores de ambas as situações de Tops e de Bottoms)

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O link para a imagem deste texto estava quebrado
364

Segundo o texto oficial sobre este emblema, este último aspecto citado é o que
fundamenta a existência das aberturas colocadas em cada uma das divisões do símbolo. Tais
aberturas também significam que um completa o outro numa relação BDSM, integrando o
Dominador e o Dominado.
A forma desse símbolo não é, por mera coincidência, semelhante ao símbolo do Yin e
Yang, os pólos de equilíbrio, segundo a filosofia oriental. Com as curvas mostrando onde
começa um e onde termina o outro, dá toda a profundidade de significação do que o BDSM
representa para seus adeptos.
Dessa maneira, tem-se a representação concreta dos desejos do que busca completar-se
e do que completa, numa ciranda em permanente movimento e evolução.
E o curioso deste símbolo, foi a forma que ele foi idealizado. De acordo com o site oficial
do detentor de seus direitos de uso, nos tempos em que a AOL (America Online - poderoso
provedor de acesso internet da américa) era um "gigante odiado" pelos norte-americanos, o
símbolo foi inspirado em uma jóia usada por O em "A História de O", um clássico BDSM
francês, de Pauline Reage.
Mistérios a parte, o símbolo foi todo desenhado em função de todos estes significados
demonstrados acima (SSC, Comunidade e Aspecto/Filosofia).
Por isso, qualquer semelhança com o símbolo da Revolução Chinesa ou coisa parecida,
será mera coincidência.
Para maiores informações, fica aí uma dica do site oficial do emblema. Importante ver
também que nesse site a autora do emblema mostra todos os procedimentos de como usar a
imagem em outros sites especializados, onde encontrar jóias com este símbolo, FAQS
(perguntas mais frequentes) e outros temas ligados ao assunto.

Serviço:
The Emblem Project http://members.aol.com/quagmyr/emblem.htm (em inglês) - site
oficial do emblema BDSM.

Consciente, Seguro E Consensual: Os três mandamentos básicos


do BDSM, 1ª parte
bee_a

Se você demonstra algum interesse em ler este texto, então certamente é porque
pratica sexo sadomasoquista ou, no mínimo, tem curiosidade em conhecê-lo um pouco melhor
- o que indica que, mais cedo ou mais tarde, como podem comprovar praticamente todos os
que optaram por este tipo de prazer, você vai querer experimentá-lo.
365

Partimos do princípio que, no primeiro caso - o das pessoas que já são adeptas deste
tipo de sexo - as regras para um relacionamento sadio, seguro e consensual já são
perfeitamente conhecidas e entendidas. Por isso, nosso trabalho, aqui, será o de procurar
explicar ao leitor menos afeito à pratica o que é e como se pratica o sexo sadomasoquista.
Gostaríamos, assim, de construir um texto que
seguisse do mais básico ao mais complexo, de maneira
didática e clara, permitindo que os curiosos possam
compreender melhor sobre o que estão curiosos.
Portanto, pedimos aos leitores que já conhecem um
pouco do assunto uma pequena dose de paciência, se
porventura nos alongarmos em termos e situações as
quais, para eles, nada têm de novo. Mesmo para esses,
porém, temos a pretensão de tocar em um ou outro
ponto de interesse, de forma a fazê-los perceber novas
perspectivas dentro de seus relacionamentos atuais ou
futuros. É essa, em resumo, a nossa intenção: colocar o
assunto sobre a mesa, sem anteparos ou disfarces, e
discuti-lo de maneira direta. Se conseguirmos fazer isso a
contento, nosso trabalho já estará plenamente
justificado.

1. Sobre o que estamos falando?


O leitor já terá percebido, a esta altura, que sadomasoquismo é um conceito que vai
muito além das Tiazinhas e seus chicotinhos e mascarazinhas. As Tiazinhas, na realidade, estão
brincando com coisas que nem de longe imaginam o que sejam.... Embora tenham o mérito
inquestionável de terem despertado, em massa, a curiosidade das pessoas sobre o assunto.
O leitor também estará começando a imaginar se esse tipo de experiência não seria, por
acaso, algo reservado a mentes desequilibradas (coisa que ele, certamente, não se considera).
Essa, no entanto, é uma discussão inútil e sem fundamento. Os praticantes de SM (como
passaremos a chamar o sadomasoquismo a partir de agora) são, em sua quase totalidade,
pessoas normais (por "normal", compreende-se um comportamento socialmente aceitável sob
qualquer ponto de vista).
Na realidade, poderíamos nos arriscar a dizer que essas pessoas são até mais
equilibradas do que aquelas que se reprimem por conta de convenções que não são capazes
de desobedecer. Senão, vejamos (e que Freud nos perdoe pelo simplismo): quem é mais
equilibrado? Aquele que rompe barreiras para vivenciar suas próprias fantasias, ou aquele que
é incapaz de fazê-lo e tem, por consequência, de encontrar outras válvulas de escape, que não
raro se traduzem em "manias" ou até em manifestações de algum tipo de distúrbio físico ou
mental? Quem está mais apto a ser chamado de "racional"? Aquele que, conhecendo seus
próprios desejos, trata de conviver harmonicamente com eles de maneira sadia ou aquele que
os reprime até quase explodir interiormente?
366

A questão, evidentemente, é mais complexa do que isso - mas não pretendemos fazer
nenhuma apologia do certo e do errado. Há que se considerar, de fato, que o termo "sadismo"
engloba extremos repletos de violência, em que a morte por tortura lenta e cruel não se exclui,
até por conta da tese central do próprio Sade: a de que o mais forte, ou mais inteligente, ou
mais rico, ou mais poderoso, teria o direito natural a fazer do mais fraco, do mais estúpido, do
mais pobre ou do menos poderoso o que bem entendesse - torturá-lo e matá-lo para sua
própria diversão e prazer, inclusive. Vê-se logo porque o homem era visto como uma ameaça
pelas autoridades do seu (e do nosso) tempo...
Por outro lado, o sadismo encontra no masoquismo a sua "cara metade". E se
admitirmos que um sádico encontra um masoquista para juntos poderem explorar as suas
fantasias, e se o fazem de maneira segura e de comum acordo, ora, isso não seria mais
extraordinário do que, por exemplo, admitirmos um casal de homossexuais vivendo juntos.
Trata-se de mera preferência sexual, a qual não diz respeito a mais ninguém além dos
envolvidos nela.
No entanto, aceita-se com mais naturalidade o homossexualismo do que o
sadomasoquismo. Por quê? Porque o primeiro é mais comum do que o segundo? Nem tanto.
Acreditamos que o problema é muito mais de desconhecimento das pessoas do que qualquer
outra coisa. Todo mundo sabe o que significa ser um gay. Mas pouca gente sabe o que quer
dizer ser, de fato, um sádico ou um masoquista - ambos os termos usados depreciativamente e
sempre significando algo anormal, doentio, abjeto.
Para os parceiros de SM, porém, a sua relação é apenas uma forma de se obter prazer,
tão válida e natural quanto qualquer outra. As pessoas se excitam das mais variadas maneiras.
Pode ser observando um casal fazendo sexo. Pode ser praticando sexo em lugares pouco
convencionais. Pode ser fazendo amor com uma pessoa do mesmo sexo. E pode ser
participando de uma cena em que ela seja imaginariamente atacada, agredida, humilhada,
violentada, etc, etc. Enfim, para não nos alongarmos mais sobre esse aspecto: SM é
simplesmente uma modalidade de fantasia sexual. Não é doentio, nem errado, nem
escandaloso. Desde que praticado de forma consciente, desde que praticado de forma segura
e desde que praticado de forma consensual, perde imediatamente qualquer tipo de rótulo de
"anormalidade" ou "doença".
E é sobre esses três aspectos que passaremos a falar agora.

2. SM Consciente
O leitor já terá percebido que, numa relação SM, é indispensável que haja uma perfeita
e clara noção entre os parceiros do que eles estão fazendo e porque o estão fazendo. Num
casal SM, haverá sempre quem exerça o papel de dominador e quem exerça o de submisso.
Mas é de ambos o papel de terem sempre em mente que estão ambos ali pelo mesmo motivo:
querem sentir e dar prazer. A partir do momento em que essa troca se rompe, a relação,
imediatamente, deixa de ser válida, para tornar-se uma via de mão única. E aí, adeus à fantasia
367

- a coisa cai realmente num processo degenerativo, cujo resultado final será sempre o mesmo:
o rompimento da relação.
Mas sobre o que é que estamos falando exatamente? O assunto, caro leitor, é um tanto
extenso. Por isso, vamos tentar não nos alongar demais sobre ele.
Antes de qualquer outra coisa, uma relação SM tem várias, vamos dizer assim,
categorias. Há os que preferem punições físicas, onde entra uma enorme gama de acessórios;
há os que preferem punições psicológicas, onde os acessórios podem até ser dispensáveis,
bastando uma ou outra ordem humilhante, que tem de ser cumprida sem questionamentos ou
protestos. Em ambos os casos, há variações de intensidade e limites a serem respeitados por
ambos os lados.
Falemos primeiro da punição física, onde entrará aquele já referido chicote da Tiazinha...
Para alguns praticantes de SM, o ideal é que as punições sejam leves, quase que simbólicas:
uma ou outra chicotada dada com cuidado, uma corda passada sem nenhuma brutalidade por
aqui ou por ali, um puxão significativo dos cabelos - e está perfeito.
Para outros, há que haver severidade: chicotadas violentas, a ponto de marcar a pele,
cordas, correntes e coleiras apertados e o corpo dobrado ou distendido em posições que
provocam dores intensas, pingos de vela sendo espargidos sobre o corpo, prendedores de
metal colocados nos mamilos ou nos órgão genitais, choques elétricos, agulhas - a lista é
enorme.
Mas o importante disso tudo é apenas um ponto: não há definições do que é correto ou
incorreto na relação. Ou seja: nenhum praticante de SM mais pesado tem o direito de dizer a
um praticamente de SM leve que ele está "errado", ou que o que ele pratica não é SM. Esse
tipo de discussão, além de inútil, vai contra os princípios dos próprios praticantes, que prezam,
acima de tudo, a liberdade - sua e dos outros - de exercerem o direito às suas fantasias. Sejam
elas mais ou menos intensas.
A única regra é que, seja o SM leve ou pesado, ele deve proporcionar prazer a quem o
pratica. E isso quer dizer: aos dois. Os limites e a intensidade desse prazer dizem respeito
apenas e tão somente a quem o procura. E o procura conscientemente, o que implica em que
o faça usando, acima de tudo, o seu próprio bom-senso.
A mesma argumentação vale para os praticantes que dispensam a punição física, mas
não a psicológica - que pode ser igualmente prazerosa, se essa é a fantasia que se quer
vivenciar. Nela, o dominador poderá mostrar o seu poder sobre o submisso das mais variadas
maneiras: impedindo-o de ir ao banheiro, exceto em determinadas horas, forçando-o a
permanecer no mais absoluto silêncio quando em sua presença (mesmo que estejam, por
exemplo, num local público), expondo-o a situações de medo ou suspense, e uma série de
outras regras que podem ser criadas por ambos. Mas sempre e invariavelmente usando o
bom-senso.
Ora, o SM consciente nada mais é do que o reconhecimento desse simples fato: o de
que se estará partindo para um tipo de relação que envolverá, sempre, algum tipo de punição,
sendo essa punição programada para que dela advenha prazer.
368

Que tipo de punição será, qual a sua intensidade, até onde ela poderá ir e onde ela irá
parar - isso é tarefa para o casal que se propõe a procurá-la, devendo discutir e estabelecê-la
de comum acordo.
É absolutamente inútil querer convencer alguém a participar de uma relação dessas de
maneira brusca e achando que, só porque você acha sensacional colocar um par de algemas e
uma mordaça em uma pessoa, essa pessoa também achará isso sensacional. Pode ser que o
resultado seja exatamente o oposto - nem todo mundo gosta de se sentir tão indefeso assim. E
nenhum argumento será capaz de fazer a pessoa mudar de ideia: ela não gosta, e pronto. Por
outro lado, pode ser que essa mesma pessoa adore a ideia de ser obrigada a cumprir ordens e
obedecer sem discutir, fazendo coisas que não faria de livre e espontânea vontade...
Portanto, use o seu bom-senso. O SM é um mundo para ser explorado com calma e de
maneira - insistimos no ponto - consciente. Não é algo a ser encarado como uma mera
brincadeira. Trata-se de uma opção, de uma escolha - e como qualquer escolha, exige que se
pense um pouco sobre ela antes de se tomar a decisão.
O termo consciente tem também um outro aspecto igualmente importante a ser
considerado - este, mais relacionado à sanidade mental dos praticantes de SM. Falando
claramente: a relação SM sempre incorrerá em algum tipo de risco. Pode ser do mais
inofensivo (uma marca indesejada sobre os pulsos, por exemplo) até algo mais sério (um
ferimento decorrente de uma relação mais agressiva, por exemplo). Ou mesmo casos de danos
extremos ao organismo - chegando ao ápice de se correr um sério risco de vida. Para quem
acha isso um exagero, basta lembrar que já foram noticiados casos de gente que marcou um
encontro com parceiros desconhecidos e acabou tendo o seu corpo encontrado boiando num
rio ou enterrado no quintal de alguma casa...
Quase sempre, os praticantes de SM são pessoas absolutamente comuns. Eles
trabalham, muitas vezes são casados, algumas vezes têm filhos. Suas vidas são perfeitamente
produtivas e nada nelas chama atenção para esse aspecto. Eles não andam com roupas de
couro preto, cheias de algemas e chicotes pendurados... Simplesmente assumiram um lado de
sua sexualidade que diz respeito só a eles mesmos (daí porque não precisam ficar exibindo isso
para mais ninguém). E eles têm sempre em mente que essa é uma opção sexual, e não de
vida.
Há um limite além do qual as coisas deixam de se tornar conscientes para se tornar
patológicas ou, no mínimo, com sérios riscos de danos emocionais graves - e querer viver as 24
horas do dia dentro de uma fantasia, francamente, é algo que qualquer médico pode
classificar como patológico. Por isso, se você encontrar alguém que insista em fazer de seu dia-
a-dia um exercício constante de SM, cuidado: a sanidade, aqui, já estará beirando
perigosamente aquele limite.
E pessoas que não conseguem mais distinguir as duas coisas também serão incapazes de
fazer isso pelo parceiro. Para elas, ele também deverá viver o tempo todo dentro do universo
SM. Logo, o que importa se ele ficar marcado ou não? O que importa se ele se ferir ou não? O
que importa se ele se machucar gravemente ou não? E, finalmente, o que importa se ele
369

correr risco de vida ou não? A vida, afinal, se resume a servir de objeto de prazer para o
dominador - e se isso significa torturar ou ser torturado perigosamente, pouca diferença faz.
Por conta disso, a sanidade mental do parceiro é um aspecto extremamente importante,
que jamais deve ser negligenciado. Mas, infelizmente, é um risco que nunca será 100%
afastado, até que se tenha o primeiro encontro.
Para os submissos, entretanto, é importante ter em mente alguns cuidados. É preciso
tentar conhecer o dominador antes de se entregar a ele. Sair para um passeio, observar seu
comportamento no mundo "real", ver como ele se relaciona com as pessoas no seu dia-a-dia,
saber se ele usa drogas ou se bebe além dos limites, verificar se é equilibrado nas coisas que
faz, se tem manias estranhas - enfim: é preciso checar muitas coisas antes de se dispor a
vivenciar a fantasia.
A comunidade SM geralmente conhece os seus membros. E, atualmente, boa parte
dessa comunidade se comunica pela Internet. Pode-se encontrar parceiros confiáveis na rede,
especialmente porque, na própria rede, é possível obter informações sobre a pessoa com
outros integrantes desse universo. O que jamais se deve fazer é aceitar um encontro a sós logo
na primeira conversa. Deve-se buscar um encontro, sim, mas em primeiro lugar num local
público - um almoço num restaurante, por exemplo (esse assunto é explorado em detalhes no
capítulo "Relacionamentos").
Evidentemente isso não basta, já que a pessoa pode parecer absolutamente confiável ali
e se mostrar totalmente descontrolada depois. Não há um padrão a ser seguido, infelizmente.
O que há são meios de se reunir o maior número de informações possíveis sobre o provável
parceiro. Algo que o bom-senso recomenda que se faça não apenas em relações SM, mas em
qualquer tipo de relacionamento mais íntimo.
Considere ainda que uma relação SM não pode ser admitida se qualquer um dos
parceiros não estiver plenamente de posse de suas faculdades. Em outras palavras: nada de
álcool e muito menos de drogas. Nada deve interferir com a capacidade de percepção e reação
dos envolvidos. Eles precisam estar integralmente senhores de suas ideias, sensações e
reflexos, por motivos óbvios. Tome isso como inegociável - e não abra mão de forma alguma.
Lembre-se que SM pressupõe sempre e invariavelmente que um dos parceiros estará
irremediavelmente à mercê do outro. E isso é literal. Portanto, cautela redobrada antes de
querer partir para qualquer relação real. Tome todas as precauções que achar necessárias - e
faça isso antes do primeiro encontro. No mínimo, essas precauções ajudarão que esse
encontro não seja também o último...
continua...

Consciente, Seguro E Consensual: Os três mandamentos básicos


do BDSM, 2ª parte
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370

3. SM Seguro
Antes que o leitor pense que esse item irá repetir o anterior, vamos esclarecer logo de
uma vez: estamos falando aqui de segurança física, incluindo nessa noção o sexo seguro, pura
e simplesmente. Como já dissemos, a relação SM tem diversos matizes e graus. Mas em todos
é preciso levar em conta o risco real de se contrair doenças sexualmente transmissíveis, de
qualquer espécie. E nem precisamos dizer que a Aids está incluída na lista.
Acontece que, nesse universo, é preciso estar mais atento do que quando se trata de
sexo convencional. A relação SM pode incluir atos de "humilhação" que incluam, por exemplo,
obrigar o submisso a engolir o esperma do dominador. Ora, para quem ainda não sabe, o vírus
da Aids se contenta com qualquer microscópico ferimento na boca para se infiltrar. Basta um
canal de contato com a corrente sanguínea e o mal está feito. Isso, claro, sem falar em engolir
o esperma...
Portanto, siga as regras de sempre: camisinha é indispensável, mesmo que o dominador
diga que não. Se isso acontecer é melhor desistir e procurar outro parceiro. Se a relação for
incluir qualquer tipo de objeto cortante ou perfurante (como agulhas, por exemplo), o mínimo
que se exije é que elas sejam novas e nunca tenham sido usadas antes. Nunca compartilhe
seringas com quem quer que seja. E jamais abra mão desses direitos. Qualquer dominador que
queira obrigar um submisso a fazê-lo não merece confiança e deve ser imediatamente
descartado.
Sobre a segurança física é bom também
destacarmos alguns pontos de importância. Em
primeiro lugar, é preciso ter sempre em mente que
nada em nossas vidas é 100% previsível e 100%
sem riscos. Sempre existe a possibilidade de que
alguma coisa saia errada. Saber disso, claro, não
deve servir de pretexto para que não procuremos
extrair o máximo que pudermos de nossas vidas.
O risco faz parte do dia-a-dia de cada um de
nós, em suas mais variadas formas: corremos risco
ao andar pela rua, de perdermos o emprego, de
deixar passar uma boa oportunidade... O que
fazemos, nesse caso - e nem sempre de maneira
consciente - é encontrar formas de administrar
esses riscos, avaliando as possibilidades e
alternativas, e escolhendo aquele caminho que nos
pareça mais seguro.
E "seguro", nesse caso, é um conceito
bastante relativo e basicamente individual. Depende do que cada um considera como sendo
um risco e de quanto desse risco é aceitável para cada um.
371

Por outro lado, quando, por qualquer motivo, somos incapazes de identificar os riscos
em potencial, deixando de considerar suas consequências, estamos agindo de maneira
totalmente incoerente. Estamos assumindo uma atitude não-segura. E atitudes não-seguras
geram situações inevitavelmente desagradáveis.
Em outras palavras, é preciso saber reconhecer e evitar os riscos. Especificamente numa
relação SM eles são perfeitamente detectáveis e perfeitamente contornáveis. Basta não fingir
que eles não existem...
Portanto, além daquelas recomendações referentes ao sexo seguro - seja qual sexo for -
há que se considerar também a questão da segurança relativa à prática do SM.
Por exemplo: numa relação em que se vai amarrar o parceiro, é preciso ter em mente
que não se deve apertar demasiadamente as cordas ou correntes, sob o risco de interromper a
circulação sanguínea para determinadas partes do corpo - o que pode ter consequências
bastante graves. Se ambos quiserem partir para nós mais apertados, devem sempre se lembrar
que, de tempos em tempos, é preciso afrouxá-los, para que a circulação se normalize.
Saber amarrar corretamente é também uma tarefa que exige algum tempo de prática.
Não se trata simplesmente de passar a corda aqui ou ali e apertá-la. Deve-se saber por onde
ela pode passar sem provocar qualquer tipo de dano, e sem que, por causa disso, permita mais
conforto ou liberdade de movimentos para o parceiro. Há centenas de sites sobre o assunto
que podem ser encontrados na rede. E há os praticantes mais experientes, que sempre podem
fornecer algumas dicas valiosas sobre o assunto.
Os órgãos vitais devem sempre ser deixados de fora de uma relação SM. E isso inclui
uma longa lista de cuidados, que vão desde a não-ingestão de tóxicos ou remédios de qualquer
espécie até o completo abandono da prática de bater com a cabeça do submisso na parede...
Falando sério, para os masoquistas que preferem ser espancados, há que se respeitar
não os seus limites, mas os limites de segurança de seu próprio corpo. Ninguém deve chegar
ao extremo de ter ossos quebrados ou hemorragias internas...
E por favor, passe sempre o mais longe possível da asfixia, que exige um conhecimento
quase clínico para ser praticada, e ainda assim com extremo cuidado, para não resultar na pura
e simples morte do parceiro.
Nenhum tipo de lesão irreversível é aceitável, seja ela da natureza que for e por mais
inofensiva que pareça. Se fosse realmente inofensiva, não se chamaria lesão, como é óbvio.
Marcas de chicote são perfeitamente aceitáveis, desde que não rompam a pele até o
sangramento; pingos de vela sobre o corpo são aceitáveis, desde que não signifiquem
queimaduras sérias; e assim por diante.
No mais, siga as regras de praxe para garantir a sua saúde. Jamais se arrisque, por
qualquer motivo ou argumento. SM é apenas uma variação sobre o mesmo tema: sexo. E as
regras de sexo seguro não devem ser nunca postas de lado.

4. SM Consensual
372

Pelo que já dissemos até agora, é evidente que qualquer relação SM tem que ser
também consensual. É preciso que os parceiros tenham isso sempre em mente. Correndo o
risco de nos tornarmos repetitivos, usamos a mesma imagem acima: SM é uma variação sobre
o mesmo tema: sexo. E para ele vale também a velha máxima que, se um não quer, dois não
fazem.
Os parceiros devem ser perfeitamente capazes de compreender e concordar com esse
tipo de relacionamento. Uma das piores coisas que se pode propor a um adepto sério do SM é
querer incluí-lo na relação das pessoas que, por qualquer motivo - pouca idade, inclusive - não
saibam do que estão falando. Tampouco interessa querer convencer quem quer que seja a
participar desse universo, se a ideia for inaceitável para o parceiro. Isso resultará em uma
experiência sempre frustrante para o dominador e revoltante para o submisso.
Se, porém, o parceiro demonstrar algum interesse - geralmente, as pessoas admitem
que têm "curiosidade" sobre o assunto - e aceitar participar de uma relação SM, ainda que a
título de experiência, a chance deve ser aproveitada. Mas tudo - absolutamente tudo - deve
ser muito bem explicado antes.
E para os que já fazem parte do universo SM, nunca é bom deixar de lembrar que, para
um novato neste universo, tudo é também novo. Trata-se de uma pessoa que não tem
nenhum tipo de conhecimento anterior sobre o assunto, e muito menos é capaz de
estabelecer limites para si mesma ou para o dominador - o que eleva a responsabilidade do
dominador à enésima potência.
Temos que considerar que, nesses casos, o conceito de "consensual" assume novas
facetas. Como uma pessoa pode consentir com algo que não conhece? A resposta é simples:
ela não pode. Portanto, cabe ao mais experiente da relação assumir totalmente as rédeas da
situação. E ir com calma. Com muita calma.
A ideia é apresentar, aos poucos, as técnicas e conceitos do SM. Sem jamais forçar nada,
sem querer criar uma situação que não existe. O parceiro, nessas relações iniciais, estará
apenas experimentando coisas novas, que não sabe ainda com certeza se irá gostar ou não. E
ele tem todo o direito do mundo de não gostar. Portanto, não é admissível fazer do consenso
uma "carta branca" e extrapolar a relação apenas porque, no início, o parceiro aceitou as
regras.
Aceitar regras é uma coisa, mas ter de vivenciá-las é outra, completamente diferente. O
"sim" dito pelo iniciante deve soar, aos ouvidos do mais experiente, apenas e sempre como
um "sim, quero experimentar e descobrir se gosto ou não". Não se deve querer tratar um
submisso iniciante como se trata um submisso já experiente. É o mesmo que querer dar o
mesmo tratamento de um adulto para uma criança: não funciona.
Contudo, há algumas regras que mesmo o mais inexperiente dos submissos deve aceitar
- e tem todas as condições de cumprir: a relação SM não deverá ser vista como uma
brincadeira. Nenhum dominador consegue manter o clima de fantasia se o submisso começar
a achar tudo muito engraçado durante o ato e soltar gostosas gargalhadas.
373

Uma vez que ele aceitou desempenhar o seu papel, deve cumprí-lo até o fim - quando
mais não seja, ao menos para agradecer a oportunidade de estar experimentando uma coisa
nova. Se, depois, ele quiser comentar o que achou, e resolver morrer de rir, tudo bem - o
dominador terá tido a oportunidade de um bom encontro e saberá que ele provavelmente não
se repetirá.
Por outro lado, se o submisso tiver gostado da experiência, o dominador terá tido o
duplo prazer de não apenas haver conseguido um encontro agradável, como também de ter
descoberto um novo parceiro, que ainda tem muito que aprender. Portanto, antes de partir
para a relação, coloque tudo sempre de forma muito clara. E tenha certeza de duas coisas: que
o provável parceiro entendeu o que você disse e que ele concorda com o que foi explicado.
Isso é o consensual.
Para casais que já têm alguma experiência, o consensual tem também um outro
aspecto: o do respeito mútuo aos limites de cada um. Aqui, trata-se apenas de definir até onde
cada um dos parceiros poderá ir. Se uma das partes não concordar ou tiver a intenção secreta
de desrespeitar esses limites, é melhor simplesmente desistir da relação ou encontrar alguma
alternativa. A confiança de um no outro precisa ser sempre total - e quebrá-la significará
quebrar o próprio relacionamento.
O consentimento do parceiro é o que separa a relação SM do simples e puro abuso. E
isso faz toda a diferença. Assim como faz também em qualquer outro tipo de relacionamento:
nenhuma relação, seja ela SM ou não, deixa de ser abuso quando uma das partes é obrigada,
contra sua vontade, a viver determinadas situações. E abuso, para nós, só é aceitável no nível
da fantasia, nunca no da realidade.

5. Comunicação, Negociação, Senha de Segurança, Limites


Um dos conceitos mais importantes num relacionamento SM é a ideia da negociação.
Parceiros negociam sobre suas fantasias, seus sentimentos, suas emoções, necessidades,
sonhos e até - e principalmente - sobre aqueles desejos escondidos e nunca antes
verbalizados.
Pressupõe-se, portanto, uma boa dose de confiança com quem se está falando. E
confiança, por sua vez, pressupõe pelo menos um limite mínimo de conhecimento mútuo.
Querer restringir a relação SM apenas ao ato em si é deixar passar uma oportunidade
fantástica de se relacionar com uma pessoa com a qual se pode discutir, livre e abertamente,
assuntos que muitas vezes nos sentimos incapazes de abordar com amigos ou parceiros com
quem convivemos. A experiência dessas conversas, a troca de ideias que elas proporcionam,
são extremamente enriquecedoras, uma vez encontrado o parceiro certo.
Mas voltemos à negociação, que é um aspecto mais prático da relação. Evidentemente,
não estamos falando de nada tipo "toma lá dá cá". O objetivo dessa negociação é, antes de
tudo, conhecer e partilhar as barreiras e as fantasias dos parceiros. Portanto, é essencial que
se seja absolutamente honesto. Nada de prometer coisas que não se poderá cumprir depois -
regra válida tanto para o dominador quanto para o submisso.
374

A ideia é tentar estabelecer as possibilidades em comum, o quanto se poderá avançar


nas fantasias e onde se deverá parar dentro delas, respeitando-se os "territórios proibidos" de
cada um.
Num relacionamento SM, os parceiros podem perfeitamente escolher papéis desiguais,
baseados na sua livre vontade e escolha. Isso não significa, porém, que exista desigualdade de
responsabilidades entre eles. Ambos têm responsabilidades intransferíveis, tanto em relação a
si mesmo quanto em relação ao outro.
Como diz Wendy Chapkis, professora na Women's Studies and Sociology da
Universidade de Southerm Maine: "O SM é uma atividade sexual totalmente negociada. Esse
tipo de negociação de consensualidade seria terrível se adicionada a todas as outras atividades
sexuais. Tenho notado que a comunidade SM é muito mais atenta a assuntos concernentes a
consensualidade do que qualquer outra comunidade". E tem mesmo de ser assim.
As regras de negociação são simples. Em primeiro lugar, antes que o ato sexual SM se
inicie, seus participantes devem discutir e rediscutir o que querem e o que não querem. E para
assegurar que nada irá passar desses limites previamente acertados, para assegurar que seja lá
o que for que estiver acontecendo só continuará enquanto assim os dois o desejarem, os
parceiros devem combinar uma "senha de segurança".
A senha é uma maneira inquestionável de interromper de imediato e sem discussões a
relação SM. Seria como um alarme que significasse: "ei, você está indo além do que
combinamos ou além do que eu considero prazeroso".
E o melhor é escolher para senha uma palavra de uso menos comum. Nada de combinar
dizer "pare", ou "chega", ou "não suporto mais" - até porque, essas expressões podem ter o
efeito contrário... Qual o dominador que não gosta de ouví-las ditas pelo submisso em seu
poder? E como saber se o próprio submisso não sentirá prazer em dizê-las? Melhor optar por
outras palavras, de livre escolha dos parceiros, mas que não deixe margem para nenhuma
dúvida. Escolha palavras incomuns - quaisquer palavras - e tenha em mente que, se e quando
ela for dita, será um sinal inequívoco de que a relação deve ser imediatamente interrompida.
Se a relação incluir o uso de mordaças, o que evidentemente impedirá o parceiro de
proferir a palavra combinada, acerte então um determinado sinal feito com os dedos ou com
os olhos. Só não se esqueça de estar atento a esse sinal - que terá o mesmo efeito de
interrupção imediata da relação.
São combinações simples de se fazer - mas que desempenham uma válvula de
segurança extremamente eficiente e absolutamente indispensável.

6. Conclusão
O leitor poderá, neste momento, estar pensando que a relação SM é muito complexa.
Afinal, ela exige muitas coisas - respeito, cumplicidade, bom-senso, segurança, confiança...
375

A essa ponderação, respondemos com uma pergunta: não seriam essas, por acaso, as
mesmas premissas sobre as quais se constroem qualquer tipo de relação? Qual desses fatores
pode ser dispensado em qualquer tipo de relacionamento que envolva intimidade?
Portanto, não estamos tratando de nada assim tão extraordinário. Simplesmente, por
envolver uma fantasia que, em maior ou menor grau, de forma real ou imaginária, presume
algum tipo de violência, é preciso que cada um desses fatores seja visto com um pouco mais
de cautela do que o usual.
As fantasias contidas no universo SM são numerosas demais para serem citadas aqui.
Todas elas, no entanto, exigem essa cautela adicional. Muitas mulheres fantasiam ser
estupradas, por exemplo. Algumas delas com direito até a espancamentos ou penetrações
brutais. Mas nenhuma delas, certamente, gostaria de ver rompida aquela linha que traçaram
para sua fantasia - linha além da qual a coisa deixa de ser prazerosa para se tornar incômoda
ou efetivamente ofensiva. Até determinado ponto, extravasar um desejo reprimido é uma
sensação simplesmente vertiginosa (como podem dizer aqueles que tiveram a coragem de
fazê-lo). Mas, além desse ponto, as coisas se invertem com a rapidez de um raio - e o que era
prazer se torna desconfortável e desagradável.
Saber respeitar esse limite, saber chegar até esse preciso ponto, sem no entanto
ultrapassá-lo, é a verdadeira arte do dominador. Conhecer esse limite e saber que, além dele,
tudo se tornará apenas uma sensação ruim é a verdadeira arte do submisso. E estabelecer o
equilíbrio em que haverá prazer para os dois dentro desse limite é a verdadeira arte da relação
SM. Quando se consegue isso, tem-se em mãos uma das mais intensas e profundas formas de
prazer que o sexo é capaz de proporcionar. Aprender a fazê-lo é um trabalho que vale a pena.

Bem-Vindo Ao Jogo: Dominação/submissão e


autoconhecimento - Parte 111
Dom Felix
"....O medo de amar é não
arriscar
esperando que façam por
nós
o que é nosso dever:
recusar o poder..."
[Beto Guedes]

11
A parte 2 deste texto não consta no site
376

No BDSM, não negamos nossas fantasias; lidamos com elas. Para isto, utilizamos
algumas práticas físicas e psicológicas que certamente são incomuns, intensas e que podem
até causar danos, se forem mal-conduzidas.
BDSM - Bondage, ou amarração, Dominação/submissão e Sadomasoquismo, ou SM -
não é, portanto, apenas deixar o inconsciente agir. Uma relação só é BDSM se for SSC: Sã,
Segura e Consensual. E se, no fim das contas, for capaz de transformar até a dor em prazer.
Normalmente, quando seguimos estes princípios, começamos a conhecer não só
técnicas; mas também a conhecer-nos melhor. Neste sentido, a relação de Dominação e
Submissão, ou D/s, é uma das práticas mais estimulantes do BDSM.

D/s e relações de poder


No BDSM, em grande parte, lidamos com a energia erótica através do psicológico. No
caso do D/s, poderíamos dizer que lidamos, principalmente, com as relações de poder. Em
especial, aquelas que se estabelecem em torno do gênero - dos papéis socialmente
determinados para homem e mulher.
No D/s, se estabelecem duas polaridades: Dominador e Submisso. São polaridades
arquetípicas, talvez com raízes muito primitivas, situadas ainda em nosso passado selvagem.
Por isso mesmo, talvez, sejam tão carregadas de conteúdo erótico.
De um lado, temos o(a) submisso(a): aquele que deseja a entrega. Ele concede poder
sobre si e, estabelecendo seus limites, se coloca à disposição para ser subjugado. Do outro,
temos aquele que deseja o poder que o submisso cede: o(a) Dominador(a) que, subjugando,
obtém prazer.
Apesar do que as palavras Dominador e submisso possam sugerir, não há superioridade
real entre as partes: servir não é simples, porque exige desprendimento; e também não é
simples dominar, porque é preciso respeito real pelo outro.
Há portanto, neste encontro, uma troca. Talvez possamos dizer que o submisso,
procurando o prazer, manobra no imaginário e ações do Dominador: espertamente, enquanto
brinca de "ser-cada-vez-menos", cedendo o poder, ele se afirma. Já o Dominador atua no
imaginário e ações do submisso - e exercendo o poder que lhe é concedido, procura afirmar-se
ao brincar de "ser-cada-vez-mais".
É divertido pensar nesse brinquedo quando o imaginamos virando de cabeça para baixo
as relações de gênero. Uma mulher, por exemplo, poderá dominar um homem que implora
pelo papel no qual ela foi historicamente encarcerada, o de submissa; já outra pode também
brincar, mas de forma oposta e sutil, com esse mesmo papel, oferecendo voluntariamente a
coleira para um homem dominá-la explicitamente. Para o homem e para a mulher, as
combinações possíveis podem ser variadas, surpreendentes, muitas vezes incompreensíveis - e
deliciosas.
377

O D/s como jogo


"Brincar" talvez seja o verbo, portanto, mais adequado para explicar a essência da
relação que Dominador e submisso criam entre si. Observando este espaço imaginário e
idealmente seguro que é criado, vemos o que a relação D/s é, em essência: um jogo.
Sendo um jogo, é uma relação que não só proporciona desafio e prazer; mas que
também pode contribuir para um maior autoconhecimento. Como acontece com a criança, ao
participar de um brinquedo: ela pode "ser" livremente um cachorro, um foguete, o pai, a mãe,
homem ou mulher, mocinho ou bandido. Ali, experimentando diferentes personagens, é que
ela descobre quem é, ou quer ser.
Em nossa sociedade, contudo, o jogo tem cada vez menos espaço. Além disso, a lei do
mercado, a competição, nos impelem desde a infância a lutarmos todos contra todos. Seremos
"vencedores" ou "perdedores"?
Uma consequência disto é que não aprendemos a lidar muito bem, por exemplo, com o
poder, seja na vida pessoal como na social. Talvez, por isso mesmo, servir tornou-se há muito
tempo pouco mais que um condicionamento diante da opressão, um motivo para
ressentimento, revolta e vergonha. Dominar, por outro lado, transformou-se em simples
compulsão egoísta, geralmente alimentada pela injustiça.

Poder e poder aprender


O jogo de dominação e submissão abre, a partir do erótico, um espaço para
vivenciarmos o poder de uma forma diferente, onde o desejo individual pode ter lugar. A
mulher feminista, guerreira e nada passiva na vida diária, por exemplo, pode experimentar o
que é ser espontaneamente submissa de corpo e alma. Ou poderá, talvez, ensinar ao executivo
implacável, egocêntrico e machista o que significa servir por completo... uma mulher. O manso
enfrentará a plenitude de receber em suas mãos poder palpável, quase absoluto. E o tirano
poderá, quem sabe, conhecer um domínio que é feito de consenso e não de coerção.
A relação de Dominação/submissão gera, portanto, um contexto onde relações de poder
podem ser recriadas, graças ao espaço da fantasia e do jogo. Um jogo que é intenso, porque
não há personagens: ali, antegozando o estalar do chicote ou a carícia desarmante, estamos
nós mesmos, com nossa dor e nosso prazer, muito reais.
Através do jogo do D/s podemos, assim, aprender algo real sobre nós mesmos.
Principalmente, sobre o poder: ao usá-lo, talvez possamos também aprender a recusá-lo.

(Na próxima parte, uma segunda reflexão sobre D/s, autoconhecimento e uso seguro de
mecanismos psicológicos no BDSM).
378

Aproximações Bdsm Às Reflexões De Sartre Referentes À


Atitude Para Com O Outro, Parte 112
Skelter

Lá pelo meio de L'Être et le Néant, Jean-Paul Sartre expõe dois tipos de atitudes para
com o outro que me fizeram pensar bastante. São indagações filosóficas de um existencialista
que, ao menos para mim, tem muito a contribuir no debate que se propõe aqui neste espaço.
Sartre descreve a primeira das duas possibilidades como sendo o amo, a linguagem, o
sadismo. Ele afirma que tudo que vale para mim vale para o outro. Enquanto tento livrar-me
do domínio do outro, o outro tenta livrar-se do meu; enquanto procuro subjugar o outro, o
outro procura me subjugar. Não se trata, aqui, de modo algum, de relações unilaterais com um
objeto-em-si, mas sim de relações recíprocas e moventes. A partir daí ele faz descrições que
revelam o eterno conflito de nossa existência.
Entre as três grandezas que ele propõe como sendo parte desta primeira atitude para
com o outro, prefiro destacar somente a do masoquismo - obviamente uma categoria
fundante de nossas discussões. Sartre começa esta parte afirmando que quanto mais sou
amado, mais perco meu ser, mais sou devolvido às minhas próprias responsabilidades, ao meu
próprio poder de ser. Em segundo lugar, o despertar do outro é sempre possível; a qualquer
momento ele pode fazer-me comparecer como objeto: daí a perpétua insegurança do amante.
Em terceiro lugar, o amor é um absoluto perpetuamente feito relativo pelos outros. Seria
necessário estar sozinho no mundo com o amado para que o amor conservasse seu caráter de
eixo de referência absoluto. Daí a perpétua vergonha do amante, ou seu orgulho, o que neste
caso, dá no mesmo.
Assim, foi em vão que tentei me perder no objetivo: minha paixão para nada serviu; o
outro - seja por si mesmo, seja pelos outros - devolveu-me à minha injustificável subjetividade.
Tal constatação, segundo o filósofo francês, pode provocar um desespero total e uma nova
tentativa para realizar a assimilação entre o outro e eu. Seu ideal será o inverso daquele que
acabamos de descrever: em vez de projetar absorver o outro preservando a sua alteridade, irei
projetar ser absorvido pelo outro e perder-me em sua subjetividade para desembaraçar-me da
minha. O empreendimento será traduzido no plano concreto pela atitude masoquista.
O masoquismo, tal como o sadismo, é assunção de culpabilidade. Sou culpado, com
efeito, pelo simples fato de que sou objeto. Culpado frente a mim mesmo, posto que consinto
em minha alienação absoluta; culpado frente ao outro, pois lhe dou a ocasião de ser culpado,
ou seja, de abortar radicalmente minha liberdade enquanto tal. O masoquismo é uma
tentativa, não de fascinar o outro por minha subjetividade, mas de fazer com que eu mesmo
me fascine por minha objetividade-para-o-outro, ou seja, fazer u me constitua em objeto pelo
outro, de tal modo que apreenda não-teticamente minha subjetividade como um nada, em

12
A imagem deste texto estava com o link quebrado
379

presença do Em-si que represento aos olhos do outro. O masoquismo caracteriza-se como
uma espécie de vertigem: não a vertigem ante o precipío precipício de rocha e terra, mas
frente ao abismo da subjetividade do outro.
Mas o masoquismo é e deve ser um fracasso em si mesmo: para fazer-me fascinar por
meu eu-objeto seria preciso que eu pudesse realizar a apreensão intuitiva deste objeto tal
como é para o outro, o que, por princípio, é impossível. Sartre conclui dizendo que, assim, o eu
alienado, longe de que eu possa sequer começar a fascinar-me por ele, permanece, por
princípio, inapreensível. Em vão o masoquista arrasta-se de joelhos, mostra-se em posturas
ridículas, faz-se utilizar como simples instrumento inanimado; é para o outro que será obsceno
ou simplesmente passivo, é para o outro que irá padecer essas posturas; para si, está
eternamente condenado a dá-las a si mesmo. Em particular o masoquista que paga a uma
mulher que ela o açoite, trata-a como instrumento e, por isso, coloca-se em transcendência
em relação a ela. Assim, o masoquista acaba por tratar o outro como objeto e por transcendê-
lo rumo à sua própria objetividade.
O que é interessante, também, é a lembrança de Sartre no finalzinho. Ele utiliza o
exemplo de Sacher Masoch, que, para se fazer depreciado, insultado, reduzido a uma posição
humilhante, via-se obrigado a utilizar o grande amor que lhe professavam as mulheres, ou
seja, a agir sobre elas na medida que elas se experimentavam como objeto para ele. Assim, de
qualquer modo, a objetividade do masoquista lhe escapa, e pode até ocorrer, como
geralmente ocorre, que, buscando captar sua própria objetividade, ele venha a encontrar a
objetividade do outro, o que libera, a despeito de si mesmo, a sua subjetividade.
O masoquismo é, portanto, para Sartre, por princípio, um fracasso. Isso em nada pode
nos surpreender, se pensarmos que o masoquismo é um "vício" e que um vício é, por
princípio, o amor do fracasso. Mas Sartre não descreve as estruturas próprias do vício. Apenas
sublinha que o masoquismo é um perpétuo esforço para nadificar a subjetividade do sujeito,
fazendo com que seja reabsorvida pelo outro, e que este esforço é acompanhado pela
fatigante e deliciosa consciência de fracasso, a ponto de ser o próprio fracasso aquilo que o
sujeito acaba buscando como sua meta principal.
Até aqui a discussão sobre masoquismo. O texto continua com as ideias de Sartre sobre o
sadismo na parte II. Até lá

Aproximações Bdsm Às Reflexões De Sartre Referentes À


Atitude Para Com O Outro, Parte 2
Skelter

O fracasso da primeira atitude para com o outro pode ser ocasião para que se adote
uma segunda. Mas cabe lembrar aqui que nenhuma das duas é realmente primordial: cada
uma é uma reação fundamental ao ser-Para-outro como situação originária. Portanto, pode
acontecer que, pela própria impossibilidade de identificar-me com a consciência do outro por
380

intermédio de minha objetividade para ele, eu seja levado a me voltar deliberadamente para o
outro e olhá-lo. Nesse caso, o que Sartre chama de olhar o olhar do outro é colocar-se a si
mesmo em sua própria liberdade e tentar, do fundo desta liberdade, afrontar a liberdade do
outro.
Minha tentativa original de apossar-me da subjetividade livre do Outro através de sua
objetividade-para-mim é o desejo sexual. Diz-se que o homem é um ser sexual porque possui
um sexo. E se for o contrário? E se o sexo não for mais que o instrumento e, por assim dizer, a
imagem de uma sexualidade fundamental? E se o homem só possuir um sexo por ser originária
e fundamentalmente um ser sexual, enquanto ser que existe no mundo em conexão com
outros homens? A sexualidade infantil precede a maturação fisiológica dos órgãos sexuais; os
eunucos, por assim serem, não deixam de sentir desejo. Nem como muitos idosos. O fato de
poder dispor de um órgão sexual apto a fecundar e buscar o prazer só representa uma fase e
um aspecto de nossa vida sexual.
Há um modo de sexualidade "com
possibilidade de satisfação", e o sexo constituído
representa e concretiza esta possibilidade.
A partir deste ponto, Sartre mostra os
mecanismos das relações de desejo. Mas, de novo,
vamos nos ater aqui, por circunstâncias óbvias,
somente ao tema do sadismo. E aí o célebre
existencialista francês nos lembra que o desejo está
na origem de seu próprio fracasso, na medida que é
desejo de tornar e apropriar-se. Com efeito, não
basta que a turvação faça nascer a encarnação do
Outro: o desejo é desejo de se apropriar desta
consciência encarnada.
Portanto, prolonga-se naturalmente, não
mais por carícias, mas por atos de preensão e
penetração. A carícia só tinha por objetivo
impregnar de consciência e liberdade o corpo do
outro. Agora é preciso capturar esse corpo saciado,
segurá-lo e penetrar nele. Mas pelo simples fato de que, neste momento, procuro apossar-me
dele, puxá-lo contra mim, agarrá-lo, mordê-lo, meu corpo deixa de ser carne e volta a ser o
instrumento sintético que sou eu; e, ao mesmo tempo, o Outro deixa de ser encarnação: volta
a converter-se em instrumento no meio do mundo, instrumento que apreendo a partir de sua
situação. Sua consciência, que aflorava à superfície de sua carne e que eu tentava saborear
com minha carne, desvanece ante meus olhos: conserva-se apenas como objeto com imagens-
objetos em seu interior. Ao mesmo tempo, minha turvação desaparece: não significa que eu
deixe de desejar, mas sim que o desejo perdeu sua matéria, tornou-se abstrato; é desejo de
manusear e agarrar; obstino-me em agarrar, porém minha própria obstinação faz desaparecer
minha encarnação: agora, transcendo novamente meu corpo rumo às minhas próprias
possibilidades (aqui, a possibilidade de agarrar), e, igualmente, o corpo do Outro, transcendido
381

rumo às suas potencialidades, cai o nível de carne ao nível de puro objeto. Esta situação
implica a ruptura da reciprocidade de encarnação, que era precisamente o objetivo próprio do
desejo: o Outro pode permanecer turvo, pode continuar sendo carne para si mesmo, e posso
compreendê-lo, mas é uma carne que já não apreendo com a minha, uma carne que já não é
mais senão propriedade de um Outro-objeto, e não a encarnação de uma Outro-consciência.
Assim, sou corpo (totalidade sintética em situação) frente a uma carne. Encontro-me
novamente quase na situação da qual tentava justamente sair Poe meio do desejo; ou seja,
tento utilizar o objeto-Outro para que preste contas de sua transcendência, e, precisamente
por ser todo objeto, ele me escapa com toda a sua transcendência. Chego a perder, de novo, a
compreensão nítida daquilo que busco, e, no entanto, acho-me comprometido na busca.
Agarro e me descubro no processo de agarrar, mas o que agarro em minhas mãos é algo
diferente daquilo que queria agarrar, porque, juntamente com minha turvação, a própria
compreensão de meu desejo me escapa; sou como um adormecido que, ao despertar, vê-se a
ponto de crispar as mãos sobre a borda do leito, sem lembrar-se do pesadelo que provocou
seu gesto. Esta situação está na origem do sadismo.
O sadismo é paixão, secura e obstinação. É obstinação porque é o estado de um Para-si
que se capta como comprometido e persiste em seu compromisso sem ter clara consciência do
objetivo a que se propôs, nem lembrança precisa do valor que atribuiu a esse compromisso. É
secura porque aparece quando o desejo foi esvaziado de sua turvação. O sádico recuperou seu
corpo enquanto totalidade sintética e centro de ação; recolocou-se na fuga perpétua de sua
própria facticidade; faz experiência de si mesmo frente ao outro enquanto pura
transcendência; tem horror à turvação para si mesmo e considera-a um estado humilhante;
pode até ocorrer, simplesmente, que não consiga realizá-la em si mesmo.
O sadismo é um esforço para encarnar o Outro pela violência, e esta encarnação "à
força" já deve ser apropriação e utilização do outro. O sádico procura - tal como o desejo -
despir o Outro dos atos que o disfarçam. Procura descobrir a carne por baixo da ação. Na dor,
com efeito, a facticidade invade a consciência e, por fim, a consciência reflexiva é fascinada
pela facticidade da consciência irrefletida. Portanto, há de fato uma encarnação pela dor. Mas,
ao mesmo tempo, a dor é procurada por meio de instrumentos; o corpo do Para-si torturador
já nada mais é que um instrumento para provocar dor. Assim, o Para-si, desde a origem, pode
nutrir a ilusão de apoderar-se à maneira instrumental da liberdade do Outro, ou seja, de verter
esta liberdade na carne, sem deixar de ser aquele que provoca, que agarra, que captura. Vê-se
logo o sentido da exigência sádica: a graça revela a liberdade como propriedade do Outro-
objeto e remete, de modo obscuro, tal como fazem as contradições do mundo sensível, no
caso da reminiscência platônica, a um Para-além transcendente, do qual só retemos nebulosa
recordação e que só podemos alcançar por uma modificação radical de nosso ser, ou seja,
assumindo resolutamente nosso ser-Para-outro. O sádico, portanto, visa destruir a graça para
construir realmente outra síntese do Outro: quer fazer aparecer a carne do Outro; na sua
própria aparição, a carne será destruidora da graça, e a factibilidade irá reabsorver a liberdade-
objeto do Outro. O ideal do sádico, enfim, irá consistir em alcançar o momento em que o
Outro seja da carne; o momento em que as coxas, por exemplo, já se oferecem em uma
passividade obscena e expansiva e continuam sendo instrumentos que se pode manejar,
382

separar, arquear, a fim de ressaltar mais as nádegas e, por sua vez, encarná-las. Mas não
sublinha uma última advertência: não nos iludamos. O que o sádico busca com tal tenacidade,
o que almeja amassar com as mãos e submeter com os punhos é a liberdade do outro;
portanto, é da liberdade que o sádico tenta apropriar-se. Assim, o esforço do sádico consiste
em enviscar o Outro em sua carne através da violência e da dor, apoderando-se do corpo do
Outro pelo fato de tratá-lo como carne nascida da carne, mas esta apropriação transcende o
corpo de que se apropria, porque só quer possuí-lo na medida em que enviscou em si a
liberdade do Outro. Eis porque o sádico irá exigir provas manifestas desta servidão da
liberdade do Outro pela carne; seu propósito será fazer com que ele peça perdão, obrigará o
Outro se humilhar por meio da tortura e da ameaça, irá forçá-lo a renegar o que lhe é mais
caro. Essas poucas indicações não visam esgotar o problema do sadismo. O que Sartre quis foi
apenas mostrar que o sadismo está como em germe no próprio desejo, como sendo o fracasso
de desejo: com efeito, a partir do momento que busco possuir o corpo do Outro, o qual levei a
encarnar por meio de minha encarnação, rompo a reciprocidade de encarnação e transcendo
meu corpo rumo às suas próprias possibilidades e me oriento na direção do sadismo. Assim, na
opinião de Sartre, sadismo e masoquismo são os dois obstáculos do desejo, quer eu
transcenda a turvação rumo a uma apropriação da carne do Outro, quer dê atenção somente à
minha carne, inebriado que esteja por minha própria turvação, e nada mais exija do Outro
senão o olhar que me ajude a realizar minha carne. Devido a esta inconsistência do desejo e
sua perpétua oscilação entre esses dois obstáculos é que Sartre passou a designar a
sexualidade "normal" como "sadomasoquista".
Obs.: O leitor atento não deve ter percebido que, quando Sartre lança mão do termo
"encarnação", obviamente não está se referindo à rasa teoria kardecista.

Pensando O Sm Gay No Brasil (Porque não saímos do armário


ainda!)13
Mestre Hugo Steel

Quando falamos de SM GAY no Brasil, forçosamente e infelizmente temos que falar em


nosso velho conhecido, O PRECONCEITO.
Na verdade, é ele o maior responsável pelo fato dos gays brasileiros não assumirem sua
porção SM, mesmo que já o tenham feito publicamente com relação à sua homossexualidade.
Se pararmos para pensar, em primeira instância, o preconceito (e por que não dizer a
homofobia também) no Brasil tem muito a ver primeiramente com o conceito já ultrapassado,
mas ainda vigente, de MACHÃO LATINO-AMERICANO, que se incorporou à sociedade

13
O link para a imagem do texto estava quebrado
383

brasileira, apesar de nos sentirmos um pouco à parte do restante da América Latina,


principalmente por questões linguísticas. Ou seja, aqueles conceitos, já tão velhos e
ultrapassados, de que "homem não chora" ou, ainda, de que "homem que é homem não leva
desaforo para casa" ou, quem sabe, "meninos não brincam com bonecas", estão tão
arraigados no inconsciente coletivo de nosso povo que, mesmo tendo em vista a visão mais
liberal da maioria dos homossexuais brasileiros, esses conceitos acabam por criar uma
barreira, na qual a mentalidade é mais ou menos a seguinte:
"Se eu já sou discriminado por ser homossexual, imagine quando descobrirem que eu
gosto de apanhar (ou bater). Aí é que vão me internar de vez!"
Isso, lamentavelmente, nos faz chegar à conclusão de que o preconceito sobre a
questão do SADOMASOQUISMO X HOMOSSEXUALISMO no Brasil não parte apenas da
sociedade. Mas, sim, e o que é pior, também e, quem sabe principalmente, de dentro dos
próprios homossexuais brasileiros, que se curvam a velhos conceitos e tabus.
E, em segundo lugar, no Brasil impera a ideia de que ser gay é ser... Digamos... Mais
"delicado" (afeminado), ideia essa que, à primeira vista, não combina com a personalidade de
um verdadeiro sadomasoquista. Isso, tanto na cabeça dos heterossexuais quanto na dos
próprios homossexuais. Pensam alguns desavisados que, para ser um VERDADEIRO SM, temos
que ser machões e DAR PORRADA. E que, para sermos VERDADEIROS GAYS, temos de ser
DELICADOS, FRÁGEIS E AFEMINADOS.
Ledo engano!
Nos EUA, essa ideia de "delicadeza" já foi abstraída há muito. E a mentalidade vigente
por lá é que homossexualidade nada tem a ver com "frescura". Aliás, a ideia é a de um
homossexual másculo e saradíssimo! Porém, essa ideia foi importada da Europa no início dos
anos 50, com o lançamento do primeiro personagem gay, conhecido como Tom da Finlândia.
Além disso, a comunidade SM GAY norte-americana foi, sem sombra de dúvidas, uma
das mais atuantes no cenário mundial e uma das que mais contribuiu para a instauração de
uma mentalidade BDSM sadia. Basta citar a máxima "Pratique SM sadio, seguro e consensual",
cunhada por David Steini, conhecido ativista da comunidade GAY BDSM norte-americana.
Mas, voltando ao assunto, essas falsas ideias sobre o homossexualismo, nós as devemos
ainda ao tempo do Império, quando os senhores de engenho mandavam seus filhos estudar na
Europa e, quando eles voltavam já devidamente civilizados e comprometidos com as
requintadas etiquetas européias da época, eram tidos como "frescos" ou "maricas" por seus
rudes e quase analfabetos (senão totalmente analfabetos) pais.
Isso tudo nos leva a concluir que, no Brasil, ainda temos a mesma mentalidade de um
século atrás, tanto no tocante ao homossexuailismo, quanto no tocante ao
sadomasoquismo.
Isso, por si só, já estabelece um paradigma, pois, com o advento da Internet no Brasil,
começaram a aparecer os primeiros sadomasoquistas gays, ou seja, temos uma mentalidade
do século passado gerindo os infinitos recursos do presente e do futuro. Todavia, é bom
ressaltar que o que deu certo na Internet no Brasil, nesse sentido, foi o fato de os gays
384

poderem estar protegidos pela tela de seus computadores. Isso é facilmente comprovado pelo
baixíssimo número de sites e home pages em português dedicados exclusivamente a esse tipo
de público. Ou seja, a Internet, no Brasil, em termos de SM GAY, ainda não possui o mesmo
número e qualidade de informações que já temos disponíveis no resto do mundo.
Infelizmente, os gays brasileiros ainda não tiveram a coragem de se expor por completo,
ainda não perceberam que ser sadomasoquista nada tem a ver com o fato de ser
homossexual, ou melhor, tem tudo a ver. Pois, assumir o fato de ser sadomasoquista é tão
normal quanto assumir o fato de se ser homossexual, uma vez que também há
sadomasoquistas heterossexuais e bissexuais.
SER SADOMASOQUISTA, INDEPENDE DA OPÇÃO SEXUAL DE CADA UM!
Ser SM e GAY são apenas duas nuances das características sexuais de alguém, não é nem
um demérito assumir e/ou vivenciar sua verdadeira "personalidade sexual".
Quando entendermos isso e, também, que SER MÁSCULO É DIFERENTE DE SER MACHO,
ACHAREMOS A NOSSA VERDADEIRA IDENTIDADE SEXUAL e, assim, poderemos nos orgulhar de
pertencer a uma comunidade que tanto fez e faz pelo sadomasoquismo em todo o mundo.

I
Veja, em Desejo Secreto, mais informações sobre David Stein.

Um Estudo Sobre A Fisiologia Do Desejo Sexual Masculino


Cadella {M}

A maioria dos homens que vivencia uma


excitação sexual que se prolonga até a ejaculação
exibe as alterações fisiológicas descritas abaixo.
Contudo, como verificaremos em outros textos,
esses estágios sequenciais resultam de respostas
coordenadas em sistemas diferentes, ainda que inter-
relacionados. Isso explica o fato de que, em certas
condições clínicas, os estágios não são coordenados e
não ocorrem sequencialmente.
Essa sequência depende do momento, da
situação e, principalmente, do envolvimento
emocional, pois mesmo sendo uma reação puramente
física, o psicológico envolve - e muito - as etapas e formas de prazer que o homem vai
desenvolver.
As provas clínicas e fisiológicas indicam que há três componentes distintos na resposta
sexual masculina:
385

(1) um estágio de desejo sexual;


(2) uma reação vasocongestiva do pênis, que produz uma ereção (fases de excitação
e nivelamento);
(3) as contrações musculares clônicas que acompanham o orgasmo masculino (fase
orgásmica).
Pode-se observar uma dissociação dos dois últimos componentes em certos estados
clínicos, nos quais, por exemplo, o homem tem uma ereção, mas a ejaculação fica
involuntariamente inibida, ou ejacula sem que ocorra ereção.
A separação da resposta sexual humana nessas fases é comprovada pelo fato de que a
ereção e a ejaculação se apóiam em estruturas anatômicas e mecanismos fisiológicos
separados, sendo cada um deles diferentemente afetado por certos traumas psicológicos e
físicos, estados de doença, drogas e envelhecimento.
Além disso, sabe-se agora claramente que o desejo, a ereção, a ejaculação e o orgasmo,
embora habitualmente coordenados e tendo a aparência de uma resposta unificada,
constituem, na verdade, respostas separadas.
Por exemplo, uma pequena percentagem dos homens submetidos à castração,
enquanto sexualmente maduros e ativos, e que não recebem uma terapia substitutiva à base
de testosterona, continua a experimentar algum desejo, ereção e orgasmo, embora sem
nenhuma emissão, durante anos.
Ademais, as síndromes clínicas que implicam um prejuízo do desejo, ereção e ejaculação
apresentam etiologias um tanto diversas, reagem a diferentes estratégias de tratamento e têm
prognósticos diferentes.

Fase de Desejo
As três fases sucessivas no ciclo de resposta sexual masculina normal são:
(1) desejo;
(2) lubrificação-intumescência (as fases de excitação e nivelamento);
(3) fase orgásmica.
Embora as bases fisiológicas do desejo sexual sejam precariamente conhecidas, diversos
fatos já ficaram estabelecidos.
Primeiro, o desejo sexual masculino geralmente exige quantidades suficientes de
testosterona, embora não seja simples estabelecer a relação entre o nível de desejo e a
quantidade de hormônio.
Segundo, o impulso sexual está relacionado, de algum modo, com o funcionamento do
sistema límbico, posto que alguns pacientes com convulsões psicomotoras experimentam
alterações substanciais no impulso sexual; o uso de medicamentos que reduzem a atividade
convulsiva ou a execução de uma lobotomia temporal alteram ainda mais o impulso sexual.
386

Terceiro, sabemos que há neurotransmissores centrais de amina envolvidos, posto que


os distúrbios afetivos, como a depressão e a mania, nos quais se acham implicadas alterações
na disponibilidade funcional dessas substâncias, estão geralmente associados com aumentos
ou reduções substanciais no impulso sexual. As doenças ou intervenções médicas que afetam
esses sistemas neurotransmissores centrais podem modificar o nível de interesse sexual.

Fase de Excitação (estágio inicial da fase de lubrificação-intumescência)


No homem, a primeira resposta à estimulação sexual eficaz é a ereção. Há também uma
reação mais generalizada de vasocongestão e tensão muscular aumentada. Os batimentos
cardíacos aumentam, a pressão sanguínea eleva-se e a respiração torna-se mais profunda e
mais rápida. Outras modificações, durante esse estágio, incluem achatamento e espessamento
do saco escrotal e encurtamento dos cordões espermáticos, o que resulta na elevação dos
testículos.

Fase de platô (estágio avançado da fase de lubrificação-intumescência)


A fase de platô é um prolongamento e uma extensão da fase de excitação. Com o
aumento da estimulação e da excitação sexual, as respostas vasocongestiva e miotônica
continuam e o pênis atinge seu ingurgitamento máximo com sangue. Os testículos também se
tornam túrgidos, aumentando cerca de uma vez e meia em relação a seu tamanho no estado
não-congestivo.
Os testículos dão continuidade à elevação iniciada no estágio de excitação, atingindo
eventualmente uma posição estreitamente oposta ao períneo. Durante esse estágio,
aparecem duas ou três gotas de material mucóide, que emerge do meato peniano. Acredita-se
que a fonte desse material seja a glândula de Cowper.

Fase Orgásmica
Ambos os componentes da ejaculação masculina foram descritos por Masters e
Johnson. O primeiro componente, que consiste nas contrações dos órgãos acessórios internos
da reprodução, é acompanhado pela sensação de ejaculação iminente e, em seguida,
inevitável. Esse aspecto da fase orgásmica é chamado "emissão".
Durante o segundo componente, denominado "ejaculação propriamente dita", ocorrem
contrações de recorrência regular do esfíncter uretral e dos músculos bulboesponjosos,
isquíocavernoso e transverso superficial e profundo do períneo, todos dando origem a diversos
jorros ejaculatórios a intervalos de 0,8 segundo.
As sensações mais intensamente prazerosas são experimentadas nesse estágio. A
emissão ocorre um ou dois instantes antes da ejaculação propriamente dita. Acredita-se que
os órgãos internos se contraiam de modo a que os vários componentes do ejaculado possam
acumular-se na uretra bulbar, imediatamente antes da expulsão efetuada pelo poderoso
mecanismo muscular bulbar.
387

Após a ejaculação, o homem fica resistente à estimulação sexual adicional, no sentido


de que se faz necessário o decurso de um período variável de tempo antes que outra
ejaculação se torne possível. Há um período inicial absolutamente resistente, durante o qual
nenhuma quantidade de estimulação desencadeia outra ejaculação, seguido por um período
mais longo e relativamente resistente, no qual a ejaculação pode ocorrer, embora exija
estimulação mais intensa e mais prolongada.
Em geral, o período resistente dos homens torna-se mais longo à medida que
envelhecem. Assim, na adolescência, é possível que sejam necessários de alguns momentos a
um ou dois minutos para que o homem seja capaz de experimentar uma segunda ejaculação,
mas, nos homens mais velhos, o período resistente pode prolongar-se por horas, ou, em
alguns casos, dias.
Nos homens mais velhos, Masters e Johnson observaram que, mesmo sem a ejaculação,
a capacidade de conseguir novamente uma ereção após sua perda pode ficar adiada por várias
horas. Os autores denominaram esse fenômeno de "período resistente paradoxal".

Estágios de Resolução
Durante a resolução, as modificações que acompanham a tensão sexual aumentada
retrocedem, à medida que o organismo volta a seu estado de repouso, não-estimulado. Tendo
ocorrido o orgasmo, a respiração, o ritmo cardíaco e a pressão sanguínea retornam
rapidamente ao nível basal. Os testículos decrescem de tamanho e voltam a sua posição
habitual de repouso.
Exceto nos homens jovens, o pênis detumesce em duas etapas após o orgasmo. Há uma
redução imediata de 50% do tamanho, provavelmente em vista do esvaziamento dos corpos
cavernosos. A detumescência da segunda etapa é mais retardada, em decorrência do
esvaziamento mais lento do corpo esponjoso e da glande.
A primeira etapa da involução do pênis prolonga-se quando os estágios de excitação e
nivelamento do ciclo da resposta sexual são deliberadamente estendidos. A segunda etapa é
retardada quando há alguma estimulação sexual residual, tal como ocorre quando o pênis
permanece no interior da vagina.
Quando o período imediatamente pós-ejaculatório é desprovido de estímulos sexuais,
como pode acontecer se o homem levantar-se e andar, falando sobre algum assunto diferente,
a detumescência completa ocorre com maior rapidez.

Fontes:
Patologia e Terapia Sexual - 1ª Ed. - 1994.
Guyton - Fisiologia Humana - 13º ed - 2001
388

Um Estudo Sobre A Fisiologia Da Resposta Sexual Feminina


Cadella {M}
A famosa descrição de Masters e
Johson sobre os estágios do ciclo da
resposta sexual feminina, posteriormente
aprimorada por Helen Kaplan, sublinha o
fato de que o ciclo feminino resulta da
coordenação e da integração de diversos
componentes distintos e relativamente
independentes: (1) fase do desejo; (2)
fase vasocongestiva de excitação e
nivelamento sexual inicial, que produz a lubrificação vaginal e a tumescência; e (3) contrações
musculares clônicas reflexas que constituem a fase orgásmica.
Como na resposta sexual masculina, a natureza multifásica da resposta sexual feminina
é apoiada pelo fato de que: (1) cada componente é servido por estruturas anatômicas distintas
e (2) a inibição dos componentes separados acarreta síndromes clínicas separadas, que
requerem intervenções terapêuticas um tanto diferentes.
Todavia, essa distinção se dá em bases um tanto menos firmes nas mulheres do que nos
homens, por causa da escassez de pesquisas sobre a neuroanatomia da reatividade sexual
feminina e em decorrência de dificuldades encontradas na mensuração de respostas sexuais
femininas, menos prontamente observáveis.
Aqui, colocamos a definição menos detalhada, afinal, no sexo masculino, algumas das
fases são visuais, o que, na mulher, podemos analisar apenas através das descrições e das
sensações que o corpo nos dá como resposta ao estímulos e ao orgasmo.
Embora a lubrificação e a tumescência sejam regularmente observadas, mesmo que o
orgasmo possa deixar de ocorrer, é menos certo que a resposta orgásmica possa ocorrer sem
que se manifestem, previamente, a lubrificação e a tumescência (convém lembrar que a
ejaculação pode ocorrer sem a ereção).
As três fases sucessivas do ciclo da resposta sexual feminina normal são: (1) desejo; (2)
lubrificação-tumescência (fases de excitação e nivelamento); e (3) fase orgásmica.

Fase do desejo
A fisiologia do desejo sexual feminino é precariamente compreendida. Entretanto, está
razoavelmente esclarecido que é o androgênio, e não o estrogênio, que fornece a base
hormonal para o impulso sexual feminino. A queda dos níveis de estrogênio, por si mesma,
como ocorre durante a menopausa ou em decorrência de castração cirúrgica ou por radiação,
não afeta o interesse sexual feminino.
389

Por outro lado, a eliminação dos suprimentos endógenos de androgênio, ou a


administração de androgênio exógeno, pode alterar drasticamente o impulso sexual da
mulher. Talvez seja também verdadeiro que as várias flutuações de desejo sexual, registradas
durante o ciclo menstrual feminino, resultem do possível efeito antilibidinoso da
progesterona.
Como acontece com os homens, os distúrbios afetivos, como a depressão e a bulemia,
estão frequentemente associados a flutuações significativas no interesse sexual, implicando na
presença de transmissores centrais aminados como fatores do desejo sexual feminino. Além
disso, não devemos nos esquecer, aqui, do fator cultural, que afeta, e muito, a libido feminina.

Fase de excitação (estágio inicial da fase de lubrificação-tumescência)


A fase de excitação, geralmente, começa por um sentimento subjetivo de excitação
sexual, pelo início de uma reação orgânica generalizada de miotonia (tensão muscular),
vasocongestão e início de lubrificação vaginal. Cerca de 10 a 30 segundos após o começo de
uma estimulação sexual eficaz, uma reação vasocongestiva nos tecidos que circundam a vagina
faz com que um transudato passe através das paredes da vagina e forme gotículas no seu
revestimento interior. Essas gotículas logo se agregam, formando a lubrificação vaginal., de
caráter viscoso e coloração opaca transparente.
Outras alterações que ocorrem durante a fase de excitação incluem um ligeiro aumento
do clitóris, devido a vasocongestão, e a ampliação do útero, face a seu ingurgitamento com
sangue e ao início de sua elevação da posição original de repouso. À medida que o útero se
eleva, produzindo o efeito de uma barraca, a parte posterior da vagina começa a expandir-se e
inflar-se; o que amplia funcionalmente a vagina e aumenta sua capacidade de acomodar o
pênis.

Fase de platô
Durante a fase de platô, a vasocongestão local atinge sua extensão máxima e os
pequenos lábios, ingurgitados, assumem uma intensa coloração arroxeada ou cor de vinho. O
terço anterior, ou inferior, da vagina atinge sua vasocongestão máxima, formando uma
"plataforma orgásmica". As modificações adicionais, durante a fase de nivelamento ou platô,
incluem uma ascensão ainda maior do útero e a retração do clitóris de sua posição
protuberante, colocando-se por trás da sínfise pubiana.
Nesse ponto, a mulher tende a aumentar a lordose e retroprojetar seu corpo, a fim de
melhor encaixar o pênis dentro do canal e facilitar a movimentação.

Fase orgásmica
O orgasmo feminino consiste em contrações reflexas e ritmadas dos músculos
perivaginais e perineais, que circundam a vagina, a intervalos de 0,8 segundo. Essas contrações
são particularmente visíveis no terço inferior da vagina, a plataforma orgásmica. O útero
390

participa também dessas contrações rítmicas e, durante a menstruação, pode-se, às vezes,


observar o sangue escoando em jatos do osso cervical.
Contrariamente ao homem, a resposta orgásmica feminina não é acompanhada por um
período resistente. A mulher é, imediatamente, capaz de atingir um segundo orgasmo, caso a
estimulação sexual prossiga. De fato, os orgasmos adicionais são possíveis, até que a exaustão
física interfira. Essa exaustão é identificada pela fadiga muscular, dificuldade de respiração ou,
ainda, de contorcionismo do corpo.
Masters e Johnson registraram um fenômeno ao qual denominam status orgasmicus,
no qual a mulher, sexualmente reativa, oscila "com extrema rapidez entre picos orgásmicos
sucessivos... e a tensão da fase avançada de nivelamento". O status orgasmicus pode durar de
20 a 60 segundos.
Esses investigadores também relataram que, embora a fisiologia da resposta sexual
feminina pareça ser a mesma, independentemente do modo de estimulação, a intensidade
fisiológica máxima na resposta orgásmica parece ocorrer, geralmente, durante a masturbação,
ocorrendo a resposta de menor intensidade durante o coito. Essa regra geral pressupõe que
todas as formas de estimulação são aceitáveis.

Fase de resolução
Na fase de resolução, as alterações fisiológicas, ocorridas durante a resposta sexual,
regridem e os tecidos reativos retornam a um estado de repouso. Embora o clitóris geralmente
retorne à sua posição normal em 10 segundos e a plataforma orgásmica sofra uma rápida
detumescência, 10 a 15 minutos podem transcorrer antes que a vagina retorne a seu estado
habitual não-estimulado e para que o útero desça até sua posição basal. Os pequenos lábios
começam a perder sua intensa coloração arroxeada momentos após o orgasmo.

Fontes:
Patologia e Terapia Sexual - 1ª Ed. - 1994.
Guyton - Fisiologia Humana - 13º ed - 2001.

Moral e BDSM Parte 1


nii{D}

"A verdade não se torna mais verdadeira


pelo fato de todo mundo acreditar nela,
tampouco pelo fato de todo mundo
391

discordar dela." - Maimônides - Moreh


Nevuchim 2:15

Pretendemos aqui abordar o tema "moral" e associa-lo com o BDSM - embora saibamos
que o termo "associar" não seria o mais adequado, tendo em vista o que moral e BDSM
representam. Não vamos partir do princípio de que o conceito de moral e suas variações na
sociedade sejam perfeitamente conhecidas e entendidas, embora todos já tenham ouvido
falar nisso em algum momento de suas vidas. Também não pretendemos esgotar o assunto
porque ele é inesgotável e ricamente diversificável. Entretanto acreditamos que aqui estamos
fornecendo alguns subsídios para a flexibilização do tema e para que as pessoas possam
conduzir suas relações BDSM (ou não) da melhor forma possível dentro do SSC.

"A comunidade SM, seja nacional ou internacional, vem se expandindo e com isso
surge a necessidade de estarmos orientando a todos, principalmente para que os
novatos conduzam suas relações BDSM de uma forma segura e consensual, a fim
de que a sua forma de expressão do prazer sexual seja preservada de forma
saudável." (Delmônica, BDSM e suas afinidades com o jogo)

Situada dentro do aspecto sócio-cultural das sociedades, mais especificamente no


campo da antropologia social, as práticas BDSM são uma das formas através das quais o
indivíduo expressa sua sexualidade. A sexualidade aparece no ser humano desde muito cedo e
suas primeiras manifestações não tem caráter genital, mas trata-se mais da organização do
impulso libidinal que, mais tarde, será fundamental na busca do prazer sexual. Justamente por
isso, o termo "sexualidade" é bastante amplo, não resumindo apenas a atividade sexual.
Desde que vive em sociedade o homem invariavelmente esbarra em problemas de
relacionamentos (afetivos ou não), ligados ou não a sua sexualidade. E esses problemas
sempre trazem a questão do conhecimento sobre outra pessoa. Sobre esperarmos que alguém
seja assim e comprovarmos, mais tarde, que ela é "assado". Não raro é nos encontrarmos
perplexos diante das atitudes de algumas pessoas, amigos, colegas, conhecidos, entes mais
próximos e nos perguntarmos, internamente, o que poderia ter levado aquela pessoa a fazer o
que fez. Não que o que ela tenha feito seja certo ou errado, mas sim porque o que ela fez não
era o que "nós" esperávamos que fizesse ou simplesmente porque o que fez nos causou
espanto. A moral pode ser um dos principais aspectos que se possa observar em alguém para
que possamos qualificar aquele alguém como um possível parceiro ou parceira para o nosso
convívio, nossa amizade, nossa prática BDSM.

"As pessoas não vêm com nenhuma espécie de 'painel' onde apresentam um
'detector' de caráter, um 'medidor' de intenções, um 'localizador' de objetivos ou,
ainda, um 'indicador' de equilíbrio mental." (Delmônica, BDSM x Comportamento
- 2a parte)
392

E é por essas palavras transcritas acima, de Delmônica, que temos que ser perspicazes e
abertos para nos conhecermos e buscarmos de forma prazerosa a nossa satisfação através do
BDSM e devemos ter muito cuidado e atenção ao escolhermos os nossos parceiros nesse jogo.
Embora isso não seja uma tarefa simples, não é, contudo, impossível de se fazer de forma um
pouco mais segura.
Entretanto, cabe aqui ressaltar, antes de entrarmos no assunto propriamente dito, que
não pretendemos "ensinar" nada a ninguém, nem "criar uma moral" e muito menos fazer
apologia sobre o que é certo ou errado. Cada um, dentro do seu contexto, é que melhor sabe,
sempre, o que é ou não adequado para si.
Reiteramos que os conceitos e definições aqui expostos são, antes de tudo, um estudo
fundamentado sobre o tema proposto, estando citados no final do artigo toda bibliografia
utilizada. Entendemos que o leitor, leigo ou não, poderá e deverá buscar sempre maiores
informações, outras fontes sobre o assunto e inclusive contribuir com ideias e sugestões -
desde que não sejam meros "achismos" sem sentido e que não se desvinculem da realidade
que ora vivemos.
Há bilhões de anos atrás o homem primitivo relaciona-se com outros de sua espécie e
interage com a natureza buscando submetê-la. A própria fraqueza de suas forças diante do
mundo que o rodeia determina que, para enfrentá-lo e tentar domina-lo, reúnam todos seus
esforços com o objetivo de multiplicar o seu poder. A fragilidade de seus filhotes, que exigem
um período de cuidados mais prolongado do que outras espécies, leva o homem primitivo a
permanecer mais tempo junto a fêmea e assim, garantir a perpetuação da espécie. Dessa
forma, agrupam-se em tribos, clãs, num arranjo semelhante ao que entendemos hoje por
família, onde passam a conviver.
Notamos aqui que a "família" não surge de uma imposição externa ao homem, mas de
uma necessidade natural por ele internalizada de manter-se, de viver mais, de impor-se sobre
o mundo hostil daquela época e assim perpetuar a espécie. E dessa "vida social" em tribos e
clãs e da observação das atividades de seus integrantes, surge a compreensão comum de
todos os membros da tribo do que são valores bons e maus para a harmonia da clã/tribo.
Valores como coragem/covardia, força/fraqueza, bondade/maldade, altruísmo/egoísmo... O
trabalho do homem primitivo assume, na tribo, um caráter coletivo e o fortalecimento da
coletividade se transforma numa necessidade vital. Somente o caráter coletivo do trabalho e,
em geral, da vida social, garante a subsistência e a afirmação da tribo. Assim, cada membro da
tribo recebe atividades para desempenhar para que a mesma possa se desenvolver em
harmonia. A mãe a cuidar dos filhos, da comida, os mais velhos a ensinar os mais novos, os
bravos a cuidarem da segurança e caça, etc.
Então uma série de normas, mandamentos ou prescrições não escritas surgem a partir
dos atos ou qualidades dos membros da tribo que beneficiam a comunidade. Essas normas são
aceitas por todos e por todos cumpridas para o bem da comunidade. Nascia então, lá naquele
tempo distante e primitivo, o que chamamos hoje de MORAL, do latin "mos" (costume) ou
"mores" (costumes), com a finalidade de assegurar a concordância do comportamento de cada
393

um com os interesses coletivos dos membros da tribo (sociedade). Um conceito mais


elaborado e completo do termo moral podemos dar agora como sendo:

"... um sistema de normas, princípios e valores, segundo o qual são


regulamentadas as relações mútuas entre os indivíduos ou entre estes e a
comunidade, de tal maneira que estas normas, dotadas de um caráter histórico e
social, sejam acatadas livre e conscientemente, por uma convicção íntima, e não
de uma maneira mecânica, externa ou impessoal." (VÁZQUEZ, 1987)

Dentro deste conceito podemos ver que a moral compreende um aspecto normativo
(regras de ação) e um aspecto factual (atos que se conformam num sentido ou no outro com
as normas mencionadas). E que mesmo a moral possuindo um caráter social, o indivíduo tem
um papel essencial, visto que exige primeiro a interiorização dessas normas em cada homem
individual, sua adesão íntima ou reconhecimento interior dessas normas estabelecidas e
sancionadas pela comunidade. Natural isso porque para que existe uma comunidade é preciso
que cada ser individual a componha. Podemos dizer, observando o desenvolvimento da
humanidade, que a moral aparece primeiro em seu aspecto factual e posteriormente, com o
surgimento do Estado, aparece em seu aspecto normativo.
Exemplificando o aspecto factual da moral, podemos dizer que "não mentir" é uma
postura internalizada pela grande maioria das pessoas e por elas aceita naturalmente, não
havendo uma regra escrita para todos onde diga que "Não se deve mentir." Vamos excluir aqui
os dogmas religiosos porque eles fariam referência a um grupo específico de pessoas (as que
professam aquela religião) não abrangendo os demais. Ninguém é preso, na sociedade atual,
por ter dito uma mentira sem grandes consequências. No entanto o mentiroso inveterado,
identificado por um grupo, sofre as restrições morais factuais daquele grupo: exclusão do
mesmo, descrédito, desconfiança, etc. Já a afirmativa "não matar" é um aspecto normativo da
moral de nossa atual sociedade, escrito na Constituição e imposto aos membros da sociedade
pelo poder coercitivo do Estado. Mas sabemos, pela história, que em outros tempos, em
algumas sociedades, a disponibilidade sobre a vida de outras pessoas era bastante natural
para os que detinham o poder. Matar, nessas sociedades, era aceitável, desde que da vontade
do Senhor.
Quando o indivíduo age de acordo com "uma moral", ele pratica um ato moral. O ato
moral é o resultado concreto do comportamento moral dos indivíduos e os
aspectos/elementos que o integram são: motivos, intenção, decisão, meios e resultados. A
moral, assim como as sociedades, se sucedem e substituem umas as outras, através dos
tempos, e por isso possuem um caráter histórico, não podendo ser concebida como dada de
uma vez para sempre e sim considerada como um aspecto da realidade humana mutável com
o tempo. Por isso, observando o desenvolvimento das sociedades historicamente, podemos
ver sociedades com costumes diferentes que foram "progredindo" através dos tempos e,
inclusive, costumes que foram abolidos. Um claro exemplo disso era a sociedade escravagista,
que não considerava os escravos (negros) como pessoas que pudessem ter uma alma e serem
394

considerados como humanos. Naquela época este pensamento era perfeitamente aceitável.
Hoje, estudando tal sociedade, achamos que aquela prática era errada e que o pensamento
estava errado. Mas precisamos também considerar que nós, hoje, somos o fruto evoluído
daquela sociedade. E precisamos também observar que em muitas pessoas ainda existe o forte
sentimento daquela sociedade, traduzida pelo preconceito, transmitido por seus ascendentes
e internalizado por elas. É óbvio que hoje entendemos perfeitamente que os escravos (negros)
são seres humanos com alma e com os mesmos direitos que nós. Talvez hoje, nós mesmos
tenhamos certos conceitos tão arraigados em nós e tenhamos tanta certeza que estejam
certos e daqui a dez, quinze anos tais conceitos sejam considerados "errados" pela sociedade
evoluída daquela época. Tais análises de sociedades, tomando épocas diferentes, é bastante
interessante e digna de ser abordada em texto posterior, considerando os vários aspectos das
mudanças das sociedades.
A moral não exige só que o homem esteja em relação com os demais, mas também
exige certa consciência - por limitada e imprecisa que seja - desta relação, para que se possa
comportar de acordo com as normas ou prescrições que o governam.
Uma distinção é importante que se faça aqui entre moral e ética, para que no decorrer
do texto se entenda melhor quando nos referimos a um e a outro. Todos os
problemas práticos reais, surgidos das relações propriamente ditas entre os indivíduos são
problemas morais que o indivíduo busca resolver utilizando as normas comportamentais que
lhe foram ensinadas no meio em que vive (família, sociedade). E estas normas são aceitas
internamente por ele e reconhecidas como obrigatórias e de acordo com elas o indivíduo
entende que tem o dever de agir desta ou daquela maneira.
Então, quando numa prática BDSM o/a Dominador/a escolhe parar com a cena
combinada com a/o submissa/o mesmo que a/o submissa/o não peça ou queira a interrupção,
o/a Dominador/a está agindo de acordo com normas que por ele/a foram aceitas e
internalizadas - porque ele/ela pressente que se continuar com a prática indiscriminadamente
poderá advir algum problema que atente contra a integridade física e/ou moral de sua/seu
submissa/o e isso lhe parece errado. Outras pessoas refletindo sobre essa atitude do/a
Dominador/a poderiam julgar e formular juízos, aprovando ou não a atitude tomada ("- O
Dominador X agiu corretamente ao parar naquele momento.")
Então vemos que temos de um lado atos e formas de comportamento dos homens
diante de determinados problemas (problemas morais) e de outro lado, juízos que aprovam ou
desaprovam esses mesmos atos. Consequentemente, esses atos e formas de comportamento
humano e os juízos feitos sobre eles pressupõem a existência de uma norma - a de que deve-
se respeitar a vida acima de tudo (o "não matar"). E pressupõem também que eu vivo em
sociedade porque eu quero e assim sendo me preocupo com o que possam pensar de mim
aqueles que comigo convivem. Inevitavelmente seremos seres sociais para o resto de nossas
vidas porque quer queiramos ou não, vivemos em busca de aprovação daqueles que nos
cercam. Só podemos fazer o que quisermos se esse nosso querer não agredir a outrém.
Na vida real, constantemente, defrontamo-nos com problemas práticos e para resolvê-
los recorremos às normas, cumprimos determinados atos, formulamos juízos e nos utilizamos
395

de argumentos ou razões para justificar a decisão tomada ou os passos dados. Assim, esse
comportamento efetivo, tanto dos indivíduos quanto dos grupos sociais, de ontem ou de hoje,
é chamado de comportamento humano prático-moral, mesmo sujeito a variação de uma
época para a outra e de uma sociedade para outra e vem desde as próprias origens do homem
social, lá na sua clã/tribo.
Se por um lado esse comportamento prático-moral acompanha o homem desde as suas
origens, já a reflexão sobre esse comportamento surge muitos milênios depois. Assim, o
homem age moralmente e também reflete sobre esse comportamento, passando da moral
práticapara a teoria da moral. Isto é, ele reflete e questiona um ato que pode ter sido feito no
presente ou no passado, emitindo juízos sobre ele. Essa reflexão sobre o comportamento
prático moral do homem se verifica com o início do pensamento filosófico e caracteriza o
surgimento dos problemas teóricos morais ou éticos. Então, quando precisamos agir num
determinado momento usando apenas nossa própria concepção e critérios de moral,
enfrentamos um problema prático-moral. E quando refletimos sobre as atitudes que tivemos,
estamos diante de um problema teórico moral ou ético. Então a ética é a ciência que estuda a
moral e que nos diz o que é um comportamento ditado por normas ou em que consiste o fim -
bom - visado pelo comportamento moral.
Como diz Vázquez:

"O problema do que fazer em cada situação concreta é um problema prático-


moral e não teórico-ético. Ao contrário, definir o que é bom não é um problema
moral cuja solução caiba ao indivíduo em cada caso particular, mas um problema
geral de caráter teórico, de competência do investigador da moral, ou seja, do
ético." (VÁZQUEZ)

Evidentemente pressupõem-se que sabendo o que é o bom para o indivíduo e a


sociedade, se pode traçar um caminho geral através do qual os homens possam orientar a sua
conduta e resolver de forma adequada para todos os seus problemas prático-morais.
Mas aqui enfrentamos uma outra dificuldade: o tempo das mudanças. Precisamos
considerar os avanços em todas as áreas do conhecimento para podermos avaliar com o
máximo de precisão possível o que seria o "bom" atualmente para a sociedade. Mas é certo
que esse "bom" de hoje é bem distinto do "bom" daquela sociedade da antiguidade, da era da
agricultura, por exemplo. E porque? Bem, naquela época da era da agricultura (por exemplo),
as mudanças não aconteciam com muita frequência e rapidez. Segundo Alvin Toffler, o
predomínio da agricultura durou cerca de seis mil anos e nesse espaço de tempo dezenas de
gerações viveram e morreram com pouca ou nenhuma mudança em seus hábitos de trabalho
e vínculos sociais. As mudanças eram lentas, os seres humanos dispunham de quase uma
"eternidade" para mudar. Naquela sociedade seria facílimo determinar o que seria o "bom"
para o indivíduo e mais fácil ainda resolver problemas prático-morais e refletir sobre as
decisões tomadas! Hoje, após o avanço inexorável das ciências e a rapidez com que as
396

mudanças ocorrem, tendo um intervalo de tempo curto demais entre elas, às vezes de apenas
dez, quinze anos (com a tendência a diminuir esse espaço), a consequência é uma "mistura" de
gerações com concepções diferentes do que seria o "bom" para o todo e com conceitos novos
que ainda não foram totalmente assimilados por todos. E nessa mistura de "gerações" (que
implica numa "mistura" de morais) os parâmetros para a reflexão sobre os atos morais se
tornam numerosos demais para que se consiga traçar rumos claros e que agradem a todos.
continua...

Moral E BDSM Parte 2


nii{D}

“Não é um jogo para crianças jogarem. É uma coisa para


adultos. Mais do que isso, é coisa para adultos que sabem se
controlar.” - (Edge, Abuso e consenso numa relação D/s)

O ato moral leva à responsabilidade. Atos morais são


somente aqueles em que se pode atribuir ao indivíduo uma responsabilidade não apenas pelo
que fez mas também pelos resultados ou consequências do feito. Só é possível falar em
comportamento moral quando o indivíduo que assim se comporta é responsável pelos seus
atos, mas isto, por sua vez, envolve o pressuposto de que ele pode fazer o que queria fazer, ou
seja, de que pode escolher entre duas ou mais alternativas, e agir de acordo com a decisão
tomada.
Por isso, a liberdade da vontade é inseparável do da responsabilidade. E aqui é
importante salientar que os sistemas humanos mais evoluídos, para que tenham a flexibilidade
necessária para essa evolução, deveriam sempre, para qualquer problema, ter três ou mais de
três alternativas de escolha.
Como diz a Lei do Requisito de Variedade Cibernética: “Em qualquer sistema aberto, a
parte do sistema que exibir maior flexibilidade sobrevive e tende a dominar o sistema.”
O estudo da cibernética é importante porque é a ciência dacomunicação e do controle,
seja no animal (seres vivos), seja na máquina. A comunicação é que torna os sistemas
integrados e coerentes e o controle é que regula seu comportamento. Segundo estudos
cibernéticos, as sociedades e os homens são sistemas abertos, isto é, recebem energia e
liberam energia. O que entra, sai. Existe troca, fluxo. Se não existisse, o sistema tenderia a
explodir ou sumir, o que aqui vem dar no mesmo.
Então, quando se precisa escolher, fica mais cômodo e adequado ter várias opções de
escolha do que apenas duas. Sempre lembrando que na maioria das vezes somos nós mesmos
que apresentamos nossas próprias opções. Se conseguirmos pensar em três ou mais opções,
ótimo – estamos efetivamente evoluindo e dentro do fluxo de energia do universo. Se não
397

conseguirmos, para qualquer problema que nos surja, nos apresentar mais de duas opções...
então estamos com um grande problema, com toda certeza!
Continuando, não basta julgar determinado ato por uma norma ou regra de ação;
precisa-se saber das condições concretas nas quais o ato acontece, a fim de verificar se existe a
possibilidade de opção e de decisão necessárias para que se possa imputar a responsabilidade
moral. E quando nos perguntamos em que condições alguém pode ser louvado ou censurado
por sua maneira de agir, buscamos a resposta que Aristóteles já possuía:
1) o comportamento tem que possuir um caráter consciente por parte do indivíduo, isto
é, que não ignore as circunstâncias nem as consequências da sua ação;
2) a conduta tem que ser livre, isto é, que a causa da conduta seja interior, esteja no
próprio indivíduo (que ele não seja obrigado/coagido a fazer).
Só se pode responsabilizar o indivíduo que escolhe, decide e age
conscientemente. A ignorância não exime o indivíduo da responsabilidade moral em todos os
casos. Existem circunstâncias em que o indivíduo ignora o que poderia ter conhecido ou o
que tinha obrigação de conhecer. Então a ignorância não pode eximi-lo da responsabilidade já
que o indivíduo é responsável por não saber o que deveria saber.
Assim, decidir e agir numa situação concreta é um problema prático-moral; mas
investigar o modo pelo qual a responsabilidade moral se relaciona com a liberdade e com o
determinismo ao qual nossos atos estão sujeitos é um problema teórico, cujo estudo é de
competência da ética. Logo, o objeto de estudo da ética é constituído por um tipo de atos
humanos: os atos conscientes e voluntários dos indivíduos que afetam outros indivíduos,
determinados grupos sociais ou a sociedade em seu conjunto.
Assim, sendo a moral flexível e variando de sociedade para sociedade de acordo com a
sucessão das mesmas, podemos dizer que o comportamento humano é que varia e se
diversifica com o tempo, tanto vertical como horizontalmente, isto é, tanto no seu
relacionamento com membros da mesma sociedade, como na sucessão de novas sociedades.
Mas, e porque isso poderia ser importante para a prática BDSM? Simples: porque se
antigamente o tempo era muito grande para que mudanças pudessem ocorrer numa
sociedade como um todo sem perturbar o desenvolvimento de seus membros; hoje temos
uma sociedade onde ocorrem mudanças num intervalo de tempo muito pequeno, fazendo
com que diferentes grupos com morais diferentes coexistam sob um mesmo “estado” e sob
mesmas “leis” que visam o bem de todos, propiciando os choques entre os membros da
grande sociedade e a desestabilização da mesma. Mas esse aspecto das mudanças e como
elas ocorrem e assunto para análise posterior.

“O erotismo e o desejo que partilhamos e expressamos em relação aos nossos


parceiros manifestam-se de diferentes maneiras a cada cultura, ganhando
expressões singulares através dos tempos.” (Bee_a, Erotismo e Poder)
398

Mas o que determina o progresso moral? Não se pode considerar o progresso moral
sem considerar os fatores sócio-econômicos, culturais e políticos que fazem com que as
sociedades progridam e se sucedam umas as outras, no tempo. Não vamos discorrer aqui
sobre esses fatores porque não é esse nosso objetivo, mas podemos dizer, basicamente, que o
progresso moral se mede de duas formas: primeiro, pela expansão do próprio aspecto moral
na vida social. (Entendam sempre o termo “moral” como as regras que regem uma
determinada relação social de indivíduos).
Essa expansão se dá quando as relações entre os indivíduos, que eram regidas por
normas externas, passam a ser regidas apenas pela moral interna de cada um. Isto é, quando
as relações entre os indivíduos passam a se dar dentro do padrão moral intimamente
assumido por cada membro da sociedade e tido como certo e coerente para essa sociedade.
Por exemplo, não vou praticar determinado ato porque entendo e aceito internamente que
esse ato é errado para o grupo e não porque existe uma norma externa me obrigando a agir
assim.
Segundo, pela elevação do caráter consciente e livre do comportamento dos indivíduos
ou dos grupos sociais e, consequentemente, pelo aumento da responsabilidade desses
indivíduos ou grupos no seu comportamento moral.
Vejam que não estamos citando regras morais específicas, nem estabelecendo
comparações e nem dizendo quais são corretas e quais não são corretas. Estamos apenas
discorrendo sobre a moral em si, existente em cada grupo, comunidade, sociedade e a forma
com que ela molda o comportamento de cada indivíduo em cada sociedade. Que todos temos
uma moral, isso é indiscutível. Se ela é a mais adequada ao momento atual, isso sim é
discutível, devendo-se sempre considerar que caminhos de evolução a humanidade toma.
Bem, mas surge novamente a pergunta: “- Porque falar em moral num contexto BDSM?”
Ora, moral tem tudo a ver com BDSM porque tem tudo a ver com o homem e seus “atos”.
Como vamos avaliar nosso parceiro para uma cena? Para um relacionamento? Que valores
vamos apreciar que ele tenha? Que tipo de comportamento moral vamos querer que ele
tenha conosco? A resposta as vezes é básica: vamos olhar o outro sob o prisma
da nossa moral, do que aprendemos a valorizar e a cultivar e esperar que ele se comporte da
forma que nós achamos que ele deveria se comportar! Sempre, absolutamente sempre que
emitimos um juízo, o fazemos basicamente considerando o que nós entendemos como
correto, considerando a nossa moral. Se nos reportássemos para a era da agricultura, onde as
mudanças ocorriam de forma tão lenta que dezenas de gerações viviam e morriam com pouca
ou nenhuma alteração nos seus hábitos de vida, poderíamos sim avaliar o outro sobre o
“nosso” prima moral, porque a moral seria uniforme para todos.
Entretanto hoje, quando as mudanças ocorrem vertiginosamente, não podemos
esquecer que o nosso parceiro é um indivíduo inserido numa comunidade que “muta” a cada
segundo com a diversidade de processamento das informações e que os princípios morais dele
podem (e provavelmente serão) completamente diferentes dos nossos. E se não tivermos essa
compreensão, poderemos vir a nos arrepender em algum momento de nossa vida.
399

“...: se um(a) determinado(a) dominador(a) tem um comportamento em sua


vida diária em que é capaz de demonstrar equilíbrio, sentir-se confortável nas
diversas situações cotidianas e/ou que tem uma posição de domínio em seu
mundo real, isso será altamente tranquilizador para um(a) submisso(a),
aumentará a confiança e a credibilidade nele. [...] A questão não é se vc pode ou
não praticar com um desconhecido. A pergunta é se vc poderá fazer uma escolha
sã para vc mesmo(a).” - Delmonica, BDSM x Comportamento – 2a. parte

Nessas transcrições de trechos do texto de Delmonica, vemos que existe a preocupação


de escolher bem o parceiro e escolher o bem para si. Dessa forma é importante que se saiba o
tipo de comportamento prático moral que esperamos do parceiro e, o principal – o tipo de
comportamento prático moral que ele realmente terá. Conseguindo identificar isso no outro e
sabendo o que é o bom para mim, com certeza saberemos como fazer boas escolhas sem que
tenhamos que nos arrepender depois.

“Manter alguém amarrado ou de qualquer maneira aprisionado, constitui-se, no


Brasil, como em qualquer outra parte do mundo, em princípio, em crime.”
(BondageRS, BDSM e a lei brasileira.)

Evidentemente, não podemos ignorar a relação da moral com o direito. Se a moral


surge, básica e primeiramente, da necessidade do relacionamento entre os indivíduos e surge
para regular esse relacionamento e se essas normas (chamadas de moral) são aceitas
intimamente por cada indivíduo que compõe a sociedade e por esta, natural foi que, quando a
sociedade se sentisse mais organizada, criasse uma forma de fazer valer a “sua moral” para
todos seus membros quando muitos desses não assumissem o compromisso íntimo de
cumprimento das regras, assegurando dessa forma, a segurança da maioria dos membros da
sociedade. Surge então o Estado e o comportamento jurídico ou legal.
O comportamento jurídico ou legal (direito) é o que mais intimamente se relaciona com
a moral, porque ambos estão sujeitos a normas que regulamentam as relações humanas. O
direito possui aspectos comuns com a moral. Ambos regulamentam, como já foi dito, as
relações dos indivíduos através de normas e pregam uma conduta obrigatória e devida. Ambos
possuem regras que exigem que se cumpram e ambos possuem a mesma necessidade social,
isto é, regulamentar as relações dos homens visando a garantir a coesão social e o bem estar
geral.
Entretanto, moral e direito possuem diferenças fundamentais. As normas morais se
cumprem pela convicção íntima de cada um dos indivíduos (adesão íntima) e as normas
jurídicas não exigem essa convicção íntima e adesão interna. O indivíduo inserido naquele
contexto social deve cumprir a norma jurídica, ainda que não esteja convencido de que é justa
e, por conseguinte, ainda que não adira intimamente a ela.
400

A coação é uma outra diferença. No cumprimento das normas morais a coação é


interna, isto é, o próprio indivíduo “se cobra” uma atitude. Mas nada e ninguém pode obrigar
internamente o indivíduo a cumprir a norma moral. No entanto, a coação para cumprir a
norma jurídica é externa, existe o dispositivo externo que pode obrigar-nos a cumpri-la – que é
o organismo estatal.
As normas do direito encontram-se codificadas formal e oficialmente (leis), mas as
normas morais não. A abrangência da moral é “muito mais” ampla que a do direito. As regras
morais atingem todos os tipos de relacionamentos entre os homens e nas suas várias formas
de comportamento. O direito regulamenta as relações humanas mais vitais para o Estado, para
as classes dominantes ou para a sociedade em seu conjunto.
A moral existe antes do direito porque não exige coação, porque existe antes da
organização do estado. O direito, por depender de um dispositivo coercitivo externo de
natureza estatal, está ligado ao surgimento do estado. A moral não depende do estado: numa
mesma sociedade podem haver várias morais: uma favorável ao Estado e outra contrária. Na
sociedade dividida em classes antagônicas existe somente um direito porque tem um só
Estado, mas podem coexistir várias morais.
É preciso considerar o caráter histórico da moral. Ela surgiu antes do direito, mas se
amplia e expande através do direito, isto é, através do progresso das sociedades e
reformulação de suas leis.
Mede-se o índice de progresso social através da ampliação da esfera da moral com a
diminuição da esfera do direito, isto é, diz-se que houve progresso social quando os indivíduos
de uma dada sociedade agem mais de acordo com as regras morais sem a necessidade da
coerção externa do direito. E o ideal é que assim fosse sempre.

Bibliografia:
CHÂTELET, François. A filosofia e a história. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1974.
CHIAVENATO, Idalberto. Introdução à Teoria Geral da Administração. 5.ed. São Paulo, Makron
Books do Brasil Editora Ltda, 1997.
EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Trad.: H. P. De Andrade. São Paulo, Editora Nova
Fronteira S/A, 1953.
FULLER, R. Buckminster. Synergetics: Explorations in the Geometry of thinking. New York ,
Collier Books, 1982.
GRAVES, Clare. The Graves Technology. Denton , New York , Viking, 1988. Texas, National
Values Center, 1988.
GLEICK, James. Caos: a criação de uma nova ciência. Trad.: Waltensir Dutra. Rio de Janeiro,
Editora Campus, 1990.
LYNCH, Dudley & KORDIS, Paul. L. A Estratégia do Golfinho: a conquista de vitórias num mundo
caótico. São Paulo, Editora Cultrix, 1988.
401

SPRITZER,. Nelson. Pensamento e Mudança: desmitificando a Programação Neurolisguística


(PNL). Porto Alegre, L & PM, 1993.
TOFFLER, Alvin. A Terceira Onda. Rio de Janeiro, Record, 1980.
VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética.

Da internet:
Bee_a, Erotismo e Poder
http://www.desejosecreto.com.br/pagteoria3.html
BondageRS, BDSM e a lei brasileira
http://www.desejosecreto.com.br/pagteoria10.html
Delmonica, BDSM e suas afinidades com o jogo
http://www.desejosecreto.com.br/pagteoria11.html
Delmonica, BDSM x Comportamento – 2a.

partehttp://www.desejosecreto.com.br/pagteoria7.html
Edge, Abuso e consenso numa relação D/s http://www.desejosecreto.com.br/pag4.1.html
O que é vida?
http://acd.ufrj.br/consumo/disciplinas/tl_capra.htm
Visões da ciência na era do complexismo
http://www.geocities.com/Paris/Bistro/5657/argigo2.html

Neo-sexualidade e Sobrevivência Psíquica*14


Paulo Roberto Ceccarelli**

Introdução
A análise de algumas práticas sexuais "patológicas" revelam que estas últimas
representam não somente uma solução afim de evitar sofrimentos psíquicos insuportáveis -
uma forma de sobrevivência psíquica - mas que constituem também uma tentativa de
construir um sentimento de identidade sexual. Este sentimento, como tive oportunidade de

14
O link para a imagem estava quebrado
402

mostrar em outro lugar, pode encontrar-se em desacordo com a anatomia do sujeito, desaf_
famosa afirmação de Freud: "a anatomia é o destino". Aqui, o conceito de neo-sexualidade(1)
é muito útil pois descreve organizações psíquicas inovadoras resultantes de intensos
investimentos libidinais.
Nesta perspectiva, certas práticas sexuais ditas perversas podem representar, para o
sujeito, a única possibilidade de atividade sexual e, ao mesmo tempo, de construir um
sentimento de identidade sexual. Por outro lado, renunciar a tais práticas pode significar uma
verdadeira ameaça de castração, no sentido de uma fantasia de inexistência total e
permanente de toda capacidade sexual. Não é de se estranhar que estas práticas sejam, por
muito tempo, mantidas em segredo, e o sujeito só seja capaz de analisá-las quando o vínculo
transferencial está bem estabelecido. Além disto, raramente, tais práticas constituem a razão
de procura da análise.
Uma pergunta nos acompanhará ao longo deste texto: em quais circunstâncias uma
manifestação da sexualidade - por mais "perversa" que ela seja em relação a uma normalidade
dentro de um contexto cultural - deve ser considerada uma "versão modificada" da
sexualidade adulta, e quando ela deve ser considerada sintomática? O que motiva esta
pergunta é a noção mesmo de perversão antes de Freud e o remanejamento que esta noção
sofreu após a ruptura freudiana, embora paradoxalmente alguns psicanalistas se esqueçam
disto. Para deixar bem claro a perspectiva deste trabalho, uma rápida incursão na noção de
perversão se faz necessária.
A palavra "perversão", (perversio em latim), define a "ação de perverter", "transformar
em mal", "depravação", "corrupção": perversão dos costumes, do gosto artístico... Na esfera
do sexual, fala-se de perversão quando determinada prática desvia-se de uma finalidade dada
à sexualidade humana.
O que sustenta este julgamento é a noção de uma sexualidade normal segundo a
natureza - união de dois orgãos sexuais diferentes para a preservação da espécie - cujo desvio,
a depravação (pravus) é definido como "contra a natureza". Tal concepção, herdeira d_` mento
grego em particular de Aristóteles, apoia-se na concepção teológica de uma Natureza (physis),
onde existiriam inclinações naturais nas coisas. Logo, todo ato sexual que desvia da finalidade
primeira da sexualidade - pedofilia, necrofilia, masturbação, heterossexualismo separado da
procriação, homossexualismo, sodomia - é perverso.
É neste discurso teológico que se apoiam determinadas ações jurídicas destinadas a
reprimir todo ato perverso: certos atos ditos "contra a natureza" são considerados_` _tado ao
pudor ou à opinião pública, o que acarreta sanções. Ao definir a perversão em função de uma
finalidade natural e universal, o discurso psiquiátrico vigente no século XIX, o da época de
Freud, dá continuidade às posições teológicas e jurídicas e faz com que o penal passe a ser da
ordem médica. Surgem então novas patologias que vêm juntar-se à infindável nosografia
psiquiátrica da época: voierismo, exibicionismo, sadismo, masoquismo...

O Sexual Perverso
403

A partir de 1896, e sobretudo no começo de 1897, Freud começa a inverter este quadro
ao interessar-se, através da análise das psiconeuroses em particular da histeria, pelas
manifestações ditas perversas da sexualidade. Freud(2) observa que as construções e os
fantasmas apresentados pelos pacientes, correspondiam às perversões descritas pelos grandes
clínicos da época. Ou seja, o que aparece nas perversões está, mascarado, recalcado nas
psiconeuroses. "A histeria, escreve Freud(3), não é uma sexualidade repudiada, mas, antes,
uma perversão repudiada."
A grande contribuição de Freud para a compreensão da perversões não vem do tipo de
material clínico observado (Freud cita, nos Três Ensaios , os autores que já haviam falado de
perversão, sobretudo Havelock Ellis), mas da afirmação escandalosa de que as tendências
perversas minuciosamente catalogadas pelos seus colegas como aberrações humanas
assombram o espíritos de todos os homens, inclusive daqueles que as catalogaram estando
também presentes nas crianças: "a criança é um perverso polimorfo".
O inconsciente dos homens, afirma Freud, é animado pelos desejos que os perversos
põem em cena. Se na perversão as pulsões inconscientes estão "a céu aberto"; na neurose elas
agem na clandestinidade, disfarçadas nos sintomas: "a neurose é o negativo da perversão". As
perversões sexuais deixam então de ser uma prática que só eles - os perversos - exibem e
passam a ser entendidas como algo presente, ainda que no inconsciente, em todos os seres
humanos. Como diz Hamlet no final do segundo ato: "a se tratar cad_` _segundo seu
merecimento, quem escapará do açoite?"
As raízes da sexualidade humana,constata Freud, se encontram nas pulsões parciais e o
objetivo destas pulsões múltiplas e anárquicas é simples: o prazer; o prazer imediato e ao
menor preço possível.
O objeto nos fantasmas eróticos, sublinha Freud, é o que há de mais intercambiável,
parcial, instável: tudo é bom desde que se obtenha prazer! Pode ser que o sujeito se faça
objeto para gozar de um outro objeto; ou que o outro seja utilizado sem a menor consideração
daquilo que ele realmente é. (Uma reflexão se impõe: ora, se a sexualidade se baseia em
pulsões parciais cujo objetivo é o prazer e se o objeto da pulsão é variável, como definir, do
ponto de vista da psicanálise, o que seria normal em sexualidade? O que é uma fantasia
normal?)
Outro escândalo vem contrariar a visão que a biologia, a moral, a religião e a opinião
popular têm da natureza da sexualidade: o objetivo da sexualidade humana não é a
procriação; ela escapa à ordem da natureza, agindo a serviço próprio: ela é contra a natureza.
Em suma, o que Freud denuncia aqui e que foi, e continua sendo, tão difícil a digerir é a
ideologia que está por trás da definição tradicional, e em vigor até hoje, de "perversão". Freud
vai mostrar, vale a pena insistir, que todas estas perversões são manifestações da sexualidade
e, como tal, integram o psiquismo humano. Ou seja, o estudo das perversões mostra que a
pulsão não possui um objeto fixo; que a normalidade é uma ficção; que não existe mais
diferença qualitativa entre o normal e o patológico.
404

Gostaria de discutir, através de fragmentos de um caso clínico, uma forma de


sexualidade que pode ser compreendida como a única possibilidade que o sujeito teve de
construir, ainda que a um preço elevado, uma vida sexual e um sentimento de identidade
sexual.

Caso Clínico
João, 35 anos, procurou-me para um trabalho analítico encaminhado por uma colega
que tinha em análise o seu companheiro. Este última ameaçara de deixá-lo pois ele - João -
estava levando ___`0áticas sado-masoquistas "um pouco longe demais". João teria, num
excesso de excitação, quase quebrado o braço de seu namorado.
João, a princípio, não achou que, devido ao acontecido, precisasse ver alguém. Por outro
lado, esta seria uma boa ocasião visto que, há algum tempo vinha sentindo um tanto
deprimido e que a vida sua vida estava meio vazia. As vezes tinha crises de angústia quando
sentia algo que definia como "medo de tudo".
Ao mesmo tempo, ele não dava muito crédito ao trabalho analítico, e os primeiros
meses de nosso trabalho foram marcados por uma intensa transferência negativa que se
manifestava por um desfile de queixas e de reservas quanto a eficacidade da psicanálise e a
competência profissional do analista. Ele faltou algumas sessões dizendo que estava pensando
seriamente a interromper a análise.
Entre ameaças de abandono e ausências - chegou a faltar duas semanas sem avisar -
João, aos poucos, estabeleceu uma relação transferencial. A medida que trabalho analítico
avançava, ele expressava sua angústia dizendo que tinha muito medo de mudar com a análise;
de não mais se reconhecer; e mais, que começava a compreender que tinha perdido muito
tempo e que se dava conta que era impossível recuperar o tempo perdido. Que seu grande
medo, disse após muita hesitação, era de perder a sua sexualidade que, afinal, dava-lhe muito
prazer.
Um detalhe fundador da história de João merece ser contado:
O lugar de João na economia libidinal da família é peculiar. Ele relato um fato, que pode
ser entendido como seu mito fundador: a mãe de João, tinha uma irmã dois anos mais nova
que ela. Quando essa irmã tinha 4 anos, logo a mãe de João 6, a irmã ficou gravemente
doente, com febre alta, diarreia, etc, provavelmente devido à uma infecção. A avó de João,
figura central em toda a dinâmica familiar, sentida como distante, ausente, fria, recusou a
levar a menina para o hospital sem a presença do marido. Segundo a historia corrente, o avô
de João tinha uma amante e estaria com ela naquela noite. Enfim, o que aconteceu foi que
quando levaram a criança para o hospital, era tarde demais e esta veio a falecer. (Esta avó
morreu num hospital psiquiátrico e foi João que autorizou que os aparelhos que a mantinham
viva fossem desligados.)
Quando a mãe de João engravidou-se, o então namorado, tentou convencê-la de
abortar; como ela recusou-se a fazê-lo, ele se viu obrigado a casar. Quando João nasceu, diz
ele, a mãe o "deu" para a avó para que ela cuidasse dele pois sentia-se incapaz de fazê-lo.
405

(Pode-se aqui conjecturar-se sobre os sentimentos de culpa da mãe quando da morte da irmã
pequena, que de certa forma forma apaziguados neste ato de "doação do filho.)
João apresenta sua mãe como "era uma mulher obcecada por limpeza, sobretudo pela
higiene pessoal". Precocemente, João foi obrigado a aprender a controlar os esfincteres e cada
vez que isto não acontecia era severamente punido: João vivia esta punição como uma ameaça
de perda do amor maternal. Seu pai, sentido como uma ausência constante, partira de casa
quando João tinha 8 anos. Ele só veio a revê-lo quando já era adolescente e nunca o perdoou
por "tê-lo abandonado deixando-o só com sua mãe".
De sua sexualidade, ele me dá a seguinte apresentação: "trepar nunca foi um problema
para mim: quando estou afim, vou e trepo. É isto aí". A vida sexual de João começou bem
cedo, e aos 20 anos tinha uma intensa atividade sexual com parceiros de ambos os sexos.
Contudo, à medida que o tempo passava ele "optou" por uma orientação exclusivamente
homossexual. "Com os homens, disse-me, consigo viver melhor minhas fantasias". Para isto,
era preciso encontrar um parceiro que ele procurava nas boates Hard, e que se prestasse a
participar a um cenário bem preciso, em vários atos, no qual cada detalhe era cuidadosamente
preparado para que o "prazer máximo" fosse alcançado. Este cenário sexual, francamente
sodo-masoquista, consistia em dominar o parceiro. Tudo começava por uma luta corpo-a-
corpo, até que o adversário fosse totalmente subjugado para ser, em seguida, amarrado.
A etapa seguinte consistia em torturar o pênis do vencido. Quando maior esse fosse,
mais intensa eram as torturas infligidas e, consequentemente, mais gloriosa a vitória. "Meu
parceiro, disse-me ele, enquanto pessoa, não conta em nada: a única coisa que conta é seu
pinto."
(Esta separação entre pulsão e objeto foi, em determinado momento, central na análise
de João)
Um dia, durante seu segundo ano de análise, ele começou a sessão dizendo: "Há algum
tempo hesito em falar sobre algumas de minhas fantasias sexuais". Agora acho que tenho a
confiança necessária para falar disso, e acho que você é forte o bastante para suportá-lo",
acrescentou.
Para atingir o "prazer máximo", o que nem sempre acontecia, era necessário dar vazão a
suas fantasias escatofílicas. "Defecar em alguém, evacuar toda minha sujeira em cima da
pessoa, é a pior humilhação que se pode infligir a alguém: este é o meu maior prazer." Várias
vezes ele participou de "surubas escato", se bem que, segundo ele, isto não lhe interessava
muito: "sou obrigado, disse, a mostrar em público as coisas que eu produzo. Entretanto, eu
sempre tive a impressão que minhas fezes são mais limpas que as dos outros."
Todo seu prazer corria o risco de ser aniquilado caso fosse o parceiro que tomasse a
dianteira. Quer dizer, se seu parceiro pedisse que João defecasse nele. "Nesta situação, ele
disse, sou tomado por uma grande angústia, pois tenho a impressão que estou fazendo isto
para ele e não para meu próprio prazer." Uma fantasia de "impotência fecal" aparecia quando
ele tinha_` _as intestinas pois em tais circunstâncias, "minhas fezes podem estar líquidas. E aí,
não tenho nenhum controle sobre elas. Quando está sólida, pode-se controlá-la e limpá-la. Ela
406

é limpa. Mas a merda líquida escorre por toda parte. É impossível limpá-la." Um dia ele chega
muito agitado, e angustiado: tinha-se apaixonado pela primeira vez. Esta relação aconteceu
durante as férias de verão.

Discussão
A análise permitiu a João de elaborar as fantasias subjacentes as suas práticas sexuais e
de se libertar de seu jugo. Por exemplo, ele compreendeu que torturar o pênis do parceiro era
uma maneira de se vingar, e ao mesmo tempo de se defender, de seu pai e dos homens em
geral. O pênis, objeto parcial, foi transformado, por condensação e deslocamento, em objeto
total, ao mesmo tempo idealizado e persecutório: controlando-o ele podia, finalmente,
possedê-lo.
Ele associou sua angústia face a demanda escatofílica de seu parceiro aos momentos
quando, ainda criança, sua mãe o acompanhava ao banheiro, que se encontrava fora da casa,
para seu "cocô matinal". Sua mãe, o esperava de fora e, às vezes, reclamava do frio que fazia.
João se sentia então obrigado a fazer um grande esforço para evacuar rapidamente "toda
minha sujeira para deixar minha mãe contente" e também para que ela pudesse, em seguida,
utilizar o toalete. "Que coisa mais doida, disse, não era eu que tinha vontade de fazer cocô, era
minha mãe!" Suas fezes, assim como tudo que ele produzia - sua capacidade de amar, de ser
amado - tudo isto era sujo. Por associação, o interior de seu corpo era também sujo.
Sua análise revelou que, para João, toda esta sujeira vinha de sua mãe, ou melhor de seu
interior. Mas, João, que esteve no interior daquele corpo não seria ele também sujo? De fato,
isto constituía uma fantasia fundamental para ele. A partir daí, ele compreendeu que as "scato
parties" às quais ele participava tinham por objetivo, dentre outros, o de saber se aquilo que
ele produzia era mais sujo que os produtos dos outros. Quanto às fezes líquidas, tão temidas,
João as associou, através de sonhos e de devaneios, ao leite maternal que, segundo ele, nunca
o alimentara realmente pois "este leite que vinha do interior do corpo de minha mãe era
seguramente sujo."
O fato que João achasse que suas fezes eram mais limpas que as dos outros indica que
ainda que a relação com sua mãe não tenha sido "suficientemente boa"(4), João pôde, ao
menos obter o mínimo de afeto necessário, evitando assim arranjos psíquicos mais
catastróficos.
A erotização das fezes, e seu contrário, o excesso de limpeza, criaram entre João e sua
mãe uma território privilegiado de trocas sem que, no entanto, as fezes tenham sido
transformadas em objeto fetiche.(5)
A medida que João compreendia os significados inconscientes de suas práticas sexuais,
estas últimas tornaram-se menos compulsivas e ele pode encontrar outras formas de prazer
em suas relações. A angústia que sentiu quando se apaixonou pela primeira vez, foi associada
ao fato que foi-lhe muito difícil se reconhecer em sua nova vida sexual: a fantasia subjacente
era que ao mudar sua sexualidade, ele correria o risco de perdê-la completamente. Ao mesmo
tempo, as associações à partir de seu relacionamento amoroso que começou quando eu "o
407

abandonei" para sair de férias, permitiu-lhe elaborar sua raiva em relação a seu pai que,
também, o abandonara.
Finalmente, o afeto que se manifestava em forma de angústia ligado ao medo de
mudanças, de não mais se reconhecer, enfim, de perder suas referências identificatórias, pôde
ser lentamente reinvestido em relações afetivas mais estáveis, menos persecutórias
permitindo, ao mesmo tempo, um aumento de investimentos não erotizados.

Manifestações da sexualidade
A economia libidinal do ser humano, assim como as manifestações da sexualidade - a
maneira como cada sujeito leva concretamente sua vida sexual - é o resultado de um longo
percurso pulsional que repousa sobre as relações - sempre em movimento - estabelecidas
entre as identificações ao pai e à mãe.(6) É isso que permitirá ao sujeito investir
libidinalmente, de maneira manifesta ou latente, os objetos dos dois sexos, de criar
imaginariamente o fantasma do sexo que ele não possui, assim como de construir a
representação psíquica de corpo próprio.(7) O que se pode chamar de "saúde psíquica" reside
no equilíbrio dinâmico das tendências pulsionais homossexuais e heterossexuais; a
dissociação, ou a denegação, desses elementos pode levar a graves distúrbios. "Em todos nós,
no decorrer da vida, escreve Freud, a libido oscila normalmente entre objetos masculinos e
femininos."(8)
A identidade sexual representa uma criação particular e única que cada sujeito tem que
fazer na tentativa de dar soluções aos conflitos - reais ou imaginários - presentes desde o início
da vida, uma forma de escapar ao sofrimento psíquico(9): não podemos compreender as
construções identitárias, sem levar em conta o equilíbrio singular de cada sujeito. As diversas
manifestações da sexualidade, por mais sintomáticas que possam parecer, são parte
integrante do sentimento de identidade sexual. Isso não exclui, entretanto, a possibilidade de
que a sexualidade possa ter um uso defensivo. Ou seja, uma prática sexual compulsiva, ou seu
oposto uma total falta de sexualidade, pode constituir uma defesa contra o perigo de se entrar
em contato com representações inconscientes cujos conteúdos são potencialmente
depressivos.
Se certas manifestações da sexualidade podem surpreender por seu caráter insólito, a
análise de tais práticas mostram que estas "invenções" são, no fundo, rearranjos de velhos
conflitos que, quando criança, o sujeito teve que enfrentar em suas primeiras trocas com o
mundo.
Quando a libido se fixa nestes pontos conflituais, a sexualidade infantil se perpetua, de
forma que a sexualidade adulta torna-se uma repetição empobrecida da infantil. A angústia
que então se manifesta, reduz consideravelmente as possibilidades relacionais do sujeito
assim como sua capacidade sublinatória.

Notas Bibliográficas:
408

McDOUGALL, J., As múltiplas faces de Eros, Rio de Janeiro, Martins Fontes, 1997, p. 188.
FREUD, S., Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). Vol VII, E. S. B., , 1972.
MASSON, J., A correspondência completa Freud-Fliess, 1887-1904. Rio de Janeiro, Imago, 1986,
213.
WINNICOTT, D., W., Collected Papers, London, Tavistock Publications, 1958.
STEWART, S., "Quelques aspects théoriques du fétichisme", in La sexualité perverse, Paris,
Payot, 1972.
CECCARELLI, P. R. "A construção da Masculinidade", Percurso 19, São Paulo: Sedes Sapientiae,
1998
CECCARELLI, P. R. "Os destinos do Corpo", in Psicossoma II. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998..
FREUD, S., A psicogênese de um caso de homossexualismo numa mulher (1920). Vol XVIII, E. S.
B., 1976, p. 196.
McDOUGALL,J.,As múltiplas faces de Eros, Rio de Janeiro,MartinsFontes, 1997
* in Psychê, ano II, 2,Univ. de São Marcos, São Paulo, 61-69, 1998.
** Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela
Universidade de Paris VII; Co-fundador do Laboratório de Psicopatologia Fundamental do
Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da
UNICAMP; Membro da Rede Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental;
Membro Praticante da "Société de Psychanalyse Freudienne", Paris, França; Consultor científico
(Editorial Reader) do "International Forum of Psychoanalysis"; Membro do Conselho Científico
da Revista Psychê (Revista do Centro de Estudos e Pesquisas em Psicanálise Univ. São Marcos -
SP); Membro Fundador da ONG TVer (ONG fundada pela Dra. Marta Suplicy que discute a
qualidade da TV brasileira); , Ex-consultor e colaborador no projeto PRO-SEX (Projeto
Sexualidade) do Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de SP; Ex-colaborador do
Ambulatório de Endocrinologia do HC-SP; Professor no Departamento de Psicologia da PUC-
MG; Membro Efetivo do X Plenário do Conselho Regional de Psicologia da Quarta Região -
CRP/O4
http://www.geocities.com/HotSprings/Villa/3170/PauloCeccarelli.htm

O poeta, Nós e o Teatro da Mente15


Me and mine

15
O link para a imagem deste texto estava quebrado durante o período de coleta do material
409

Não foi pensando em BDSM que o poeta inglês - considerado maldito na sua época -
Samuel Taylor Coleridge cunhou, um belo dia, o seu mais famoso conceito - the willed
suspension of disbelief - ou seja, a suspensão voluntária da descrença.
O que ele pretendia era discorrer sobre o "acordo tácito" entre o criador de uma obra e
seu público, que permitiria a este público manter sua mente aberta e mergulhar na obra que
lhe é apresentada, de maneira a se identificar com os personagens, passando de um público
expectador ou leitor a um público participante. Tal condição sugerida por Coleridge, no
entanto, nada mais é do que a capacidade de deixarmos de lado, temporariamente, a nossa
realidade, o mundo em que vivemos, para entrarmos de cabeça e de coração na realidade e no
mundo que o autor coloca à nossa frente, aproveitando o sonho que ele criou para o nosso
próprio prazer.
Trata-se, portanto, de algo que todos nós já fizemos - e mais de uma vez - na vida. Quem
nunca se emocionou com um filme, um livro, uma novela ou qualquer outra obra do gênero,
mesmo que momentaneamente, mesmo que disfarçadamente, deve ter algum tipo de
bloqueio emocional. Pois é exatamente isso o que acontece numa cena BDSM. Trata-se de
deixar de lado a nossa vida "normal", para entrarmos temporariamente em um outro mundo,
igualmente feito de fantasia. Uma fantasia mais palpável, é verdade, pois nossa referência não
será uma tela, a página de um livro ou o palco do teatro, mas estará ao alcance de nossas
próprias mãos. E ainda mais: um mundo de fantasia no qual temos o poder de escrever o
roteiro, de determiná-lo, de fazer acontecer o que desejamos dentro dos limites de sanidade,
da segurança e da consensualidade, bases nas quais se baseiam os nossos relacionamentos
sadomasoquistas.
Uma cena BDSM, portanto, deve ter para seus praticantes este mesmo caráter de
fantasia que tem um filme ou uma peça de teatro. A diferença principal é que estaremos
participando ativamente dela - e participar ativamente implica em uma responsabilidade
maior do que ser meramente um expectador. E é isso o que os nossos amigos baunilhas (e
infelizmente, devemos dizer, alguns de nossos amigos BDSMistas) não são capazes de fazer.
Viver uma cena BDSM é se desligar temporariamente do mundo real para se entregar a um
prazer (no caso, sexual) envolto em fantasia, do qual se pode voltar depois, sem que isso
signifique que se está louco (ou será que alguém já ficou louco vendo um filme ou assistindo
uma novela?).
Para os baunilhas, o grande problema é simplesmente a questão sexual. Na mente
deles, ao que parece, mergulhar num mundo fictício de um livro ou de um filme é simples e
aceitável. Fazer isso no mundo BDSM - embora o conceito, repito, seja exatamente o mesmo -
é algo complexo e indesculpável. Pecaminoso, se quiserem.
A grande maioria dos baunilhas - estatisticamente chutando, aí por uns 90% - jamais
cogitaram da possibilidade de se libertar de suas próprias amarras para experimentar outras
sensações (no caso, sexuais), simplesmente por incapacidade para compreender um ponto
essencial: tais sensações outras são, ao fim e ao cabo, fantasias a serem exploradas.
Embora isso possa parecer óbvio, para muita gente continua sendo algo invisível. Ou
que passa debaixo de seus próprios narizes, sem que se dêem conta disso. De fato, todos nós -
410

baunilhas ou não - temos a capacidade de fantasiar as coisas. E fazemos isso desde sempre; e
com tamanha naturalidade, que nem percebemos mais. E o fazemos, vale repetir, em relação a
muitas coisas: um filme de Spielberg, uma novela global, um livro, uma peça de teatro -
situações que requerem de nós a tal suspensão voluntária da descrença. Uma pena para eles,
os baunilhas, porque estão perdendo a chance de vivenciar uma outra realidade, da qual,
assim como num livro ou num filme, voltariam, depois, enriquecidos. Em conhecimentos, em
ideias, em conceitos e, o principal, em prazer.
Para alguns BDSMistas, o grande problema é que eles se recusam a vivenciar suas
experiências como fantasias. Querem que aquilo seja sua vida real. Querem inverter as coisas.
E aí começam a aparecer conflitos sérios, primeiro com seus próprios amigos e parceiros,
depois com as demais pessoas de seus círculos de amizade e, por fim, com eles mesmos. Daí a
importância - e a nossa insistência - de afirmar que o jogo BDSM é uma fantasia, tanto quanto
o é uma peça de teatro ou um filme. Para além de seu aspecto lúdico, a prática do BDSM se
move, perigosamente, na direção das patologias. Assim como na leitura de um livro ou no ato
de se assistir a um filme, as coisas terminam quando se chega à última página ou quando as
luzes se acendem. No jogo BDSM isso também acontece: o livro vai acabar, as luzes vão
acender... e a cena vai terminar.
A realidade, ao final da cena, continua no mesmo lugar de antes - e é fácil voltar para
ela, quando se desejar. O que mudou de lugar foi a nossa mente, mergulhada
temporariamente em novas sensações, em novas emoções, em um novo mundo, com
segurança e de livre vontade, exatamente como se estivéssemos confortavelmente instalados
numa poltrona de cinema... E é por isso que o BDSM é tão sedutor: ele mexe com dois dos
mais essenciais elementos que nos tornam humanos: a imaginação e o sexo praticado de
maneira consciente.

Prazer e Dor16
Mestre Votan

Este tópico me fez pensar algum tempo, e coloco aqui minha opinião pessoal, baseada
em reflexões, experiências e pesquisa sobre o tema. E espero que possamos aprofundar a
ideia.
Para entender o conceito de dor e prazer, fui dar uma passeada pela definição clássica de
sadomasoquismo.
Kraftt Ebing, médico alemão, foi quem primeiro utilizou os termos Sadismo e
Masoquismo no seu livro "Psycopathia Sexualis", em 1885. Sade já era falecido, mas Masoch

16
O link para a imagem deste texto estava quebrado durante o período de coleta do material
411

ainda estava vivo, e isso gerou bastante polêmica na época. Kraftt Ebing substituiu o termo
"algolagnia", que estava em vigor na época, para as inexplicáveis relações de prazer e dor que
ele começara a documentar e que eram estudadas na época. (Noto que este
termo,"algolagnia", é usado até os dias de hoje...embora tenha mais de 150 anos..)
Por Sadismo, Kraftt Ebing referiu-se a busca de prazer sexual através do sofrimento
imposto à pessoa que lhe faz companhia. É o prazer com o sofrimento alheio. Aqui cabe outra
discussão, porque a concepção do personagem e comportamento Sadeano é completamente
diferente do que praticamos e acreditamos hoje. Sade era muito mais libertino do que sádico.
Mas isto fica para outra hora.
Masoquismo, a grosso modo, foi definido como a incapacidade para obter prazer sexual
sem sofrimento. É sentir prazer com a dor. O sado-masoquismo é (ainda?) considerado dentro
da psiquiatria como sendo uma Parafilia (para = desvio; filia = atração) ou transtorno da
conduta sexual em que há preferência por atividades sexuais que impliquem dor, humilhação
ou subserviência. Comumente, os indivíduos com esse transtorno obtêm a excitação sexual
por comportamentos tanto sádicos como masoquistas.

Beleza, mas, e a dor, o sofrimento?


A justificativa médica para a dor é de que os nervos sensoriais das regiões genitais, tanto
masculinos como femininos, são os mesmos que transmitem sensações de dor e prazer.
O sofrimento como um valor legítimo a ser alcançado, não é novo em nossa cultura.
Esteve presente no estoicismo dos gregos, na penitência dos cristãos, e está presente ainda
hoje nos regimes alimentares, nos exercícios físicos para o corpo; e o que até bem pouco
tempo atrás era enaltecido com jejuns de penitência pela fé, por exemplo, hoje se foca no
culto ao corpo. O que observo é que, quando o sofrimento ou a dor está ligada ao erotismo, a
tendência é considerá-lo um comportamento doente ou criminoso. Logo, o escândalo do sado-
masoquismo não é o sofrimento ou a dor. É sua vinculação ao sexo.

Bom, mas e a dor?


A dor é uma experiência humana universal, o que torna falar sobre ela fácil e difícil, ao
mesmo tempo. Poderia separar a dor (grosseiramente) em dois lados, a dor física e a dor
emocional. Quando falo de dor a seguir, estarei falando da dor física, da dor sensorial. Embora
a dor seja um dos tópicos do tema proposto, ela daria uma outra discussão, portanto, vou
deixar como a definição da dor, a que existe no universo de cada um. Mesmo porque ela não
altera a compreensão deste mail ou minha linha de raciocínio.

E a dor no BDSM?
Muitas pessoas fora do BDSM, acreditam ainda, inocentemente, que o(a) masoquista é
aquele(a) capaz de sentir toda e qualquer dor como prazer. Bom, mas se fosse assim, eles(as)
412

não necessitariam de nós, os sádicos. Bastaria a eles(as) se auto-flagelarem, infligirem a si


mesmos a dor. Jean Paulhan, que foi por muito tempo o objeto de desejo de Dominique Aury,
a escritora de "Estória de O", dizia que: "desta forma o homem teria encontrado (a respeito da
dor) o que tão assiduamente procura na medicina, na moral nas filosofias e nas religiões."
Na verdade creio que o sado-masoquista é aquele que em determinadas situações tem a
capacidade de erotizar a dor, fazendo-a perder muito de seu caráter assustador, ao mesmo
tempo em que surge ou potencializa o prazer, e não alguém que tenha um orgasmo cortando
a própria pele, ou indo ao médico para fazer uma endoscopia. Portanto a dor não é substituída
pelo prazer. Este surge concomitante a ela, quase complementar, sendo a atuação da sensação
da dor fundamental na relação BDSM, do contrário a relação perderia o sentido.

Primeira conclusão: A dor não substitui o prazer!


Na verdade a dor serve como elemento para potencializar o prazer. E não é a dor pela
dor. O ser humano é extremamente complexo. Logo, a dor como agente potencializador, tem
um efeito bombástico se inserida em uma fantasia ou contextualizada. Exemplo:
Um(a) masoquista (com a permissão de vocês, uso aqui a palavra masoquista para
definir submissos(as) e masoquistas, indistintamente) sente prazer com o spanking. Mas se o
agente potencializador (spanking) estiver contextualizado dentro da fantasia dele(a); por
exemplo, um professor severo, uma governanta, ou algo assim, o prazer é mais intenso. O
exemplo que dei, na verdade define algo que vejo faltar na maioria das relações BDSM, a
elaboração de situação. E como disse anteriormente, o ser humano, é extremamente
complexo. Necessita da elaboração, da fantasia, do contexto.

Epa, então temos mais um componente?


Exatamente! Temos na verdade três componentes:
O prazer, a dor, e a situação onde elas surgem. (contexto).
Resumindo: Normalmente temos o prazer dito normal, ou baunilha, seja como
sádicos(as) ou dominadores(as), seja como masoquistas ou submissos(as). A dor é uma forma
de aumentar este prazer. De amplificá-lo. Então quando associamos o prazer à dor, usamos
um instrumento (a dor) para aumentar o prazer. Mas sem o contexto (a situação) o conjunto
pode ficar prejudicado.
Atenção dominadores homens: Este ponto é especialmente importante se você tem
uma submissa ou masoquista mulher! A maioria dos sádicos ou dominadores acha que pelo
fato de estarem "no comando" podem fazer o que quiserem, sem se importarem com o
contexto da situação. Deixam de elaborar um clima para contextualizar o prazer e a dor,
concentrando-se em si próprios. E todos nós sabemos que as mulheres são maravilhosamente
elaboradas. Portanto, vamos usar a imaginação?
413

Concluí, depois de todo este discurso que, a dor pela dor, não tem sentido. Ela, no
universo BDSM precisa estar erotizada e elaborada, para ter nexo e alcançar à que se propõe:
aumentar o prazer seja do sujeito ativo, o que proporciona: (dominador(a)/sádico(a)) seja do
sujeito passivo (masoquista/submisso(a)). Logo o(a) masoquista/submisso(a) tem a capacidade
de erotizar a dor, utilizando-a como elemento amplificador do prazer. E contextualizada na
relação com seu sádico(a)/dominador(a) alcança seu ponto máximo, permitindo novos
horizontes e sensações.
Mestre Votan

Práticas Sexuais Ditas "Desviantes": Perversão Ou Direito À


Diferença?
Maria Cristina Martins e Paulo Roberto Cecarelli

Autora: Maria Cristina Martins, Psicóloga Clínica e Especialista em Sexualidade Humana


- Unicamp - Cam pinas - SP – BRASIL
E-mail: machriss@globo.com
Co-autor: Paulo Roberto Ceccarelli, Psicólogo, Psicanalista, PhD em Psicopatologia e
Psicanálise por Paris VII, Paris - França; Professor do Dep. De Psicologia da Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais – BRASIL
E-mail: pr@ceccarelli.psc.br
Homepage: www.ceccarelli.psc.br

Introdução
A Internet tornou-se mais um veiculo onde pessoas, de forma ocasional ou rotineira,
podem desfrutar e realizar fantasias e desejos muitas vezes inconfessáveis e frustrados em
seus relacionamentos amorosos e sexuais, de forma segura e anônima sem que suas
identidades reais sejam reveladas. Da mesma forma, a Internet propicia oportunidades para
que homens e mulheres, independente de orientação sexual, estado civil, idade e com
distintas preferências sexuais, possam tornar concreto no mundo "real", um contato iniciado e
mantido através da comunicação on-line (Martins & Grassi, 2001). Partindo-se da premissa
que a definição de "normalidade" é histórica e culturalmente construída, conceitos como
"normal", "saudável" e "patológico" estão sendo questionados por todos os profissionais que
se interessam pelo estudo e compreensão da sexualidade humana. As inúmeras manifestações
da sexualidade humana, assim como as mais variadas buscas de prazer, confirmam uma vez
mais que no ser humano a sexualidade não está vinculada á procriação. A dinâmica da
sexualidade humana - o que leva um sujeito a ter a sexualidade que tem - vem sendo objeto de
414

estudo desde a Antiguidade sem que um consenso tenha sido alcançado, o que têm levado à
busca de novos paradigmas para compreender os comportamentos sexuais ditos "desviantes".
Uma das razões que dificulta a compreensão dos interesses sexuais não convencionais é que o
paradigma sexual tradicional, baseado na psicologia, psiquiatria como também na opinião
popular, assume que a procriação é a mais importante função biológica (Fog, 1992). A maioria
dos dados coletados e estudados sobre comportamentos ditos "desviantes" foram baseados
em casos considerados patológicos. Tais estudos foram feitos sob a ótica médica forense, ou
tendo como referência pessoas que procuravam tratamento psiquiátrico e/ou psicológico por
suas preferências sexuais "desviarem" do comportamento sexual "normal" (Ceccarelli, 2000).
Este último entendido como o relacionamento sexual heterossexual, finalizado com a
penetração genital e com o intuito de procriar. Certas práticas sexuais ditas "desviantes" como
o Sadismo e o Masoquismo Sexual, como também o Fetichismo são categorizados como
"parafilias" e comportamentos disfuncionais pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais - 4a Edição (1995) da Associação Americana de Psiquiatria (APA) e pela
Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados á Saúde -10th
Revisão (1999) da Organização Mundial da Saúde, o que tem gerado muitos debates em
relação ao seu critério diagnóstico, com o qual muitos profissionais que se interessam pelo
estudo das práticas sexuais "alternativas", não concordam.
O objetivo do presente estudo é explorar a sexualidade humana nas suas mais diversas
variações como o BDSM ( Bondage/Disciplina, Dominação/Submissão, Sadismo/Masoquismo)
ou SM e Fetichismo, através de um questionário on-line enviado á um grupo de pessoas que se
descrevem como praticantes de BDSM e Fetichismo e que tem na Internet o seu referencial
para a troca e procura de informações, assim como para a procura de parceiros que partilham
das mesmas fantasias sexuais.
Este estudo não tem a intenção de incentivar ou condenar a escolha de práticas sexuais,
mas explorar a diversidade da sexualidade humana adulta de um grupo de pessoas dentro do
contexto da sociedade brasileira contemporânea.

Método
Um e-mail foi enviado ás várias listas de discussão e classificados postados em websites
dirigidos aos praticantes de BDSM consensual e Fetichismo do Brasil e que utilizam a Internet
como um meio para a troca e obtenção de informações e contatos com pessoas que partilham
das mesmas fantasias sexuais. Explicou-se o caráter exploratório do estudo, o qual seria
basicamente conduzido por e-mail, onde a identidade real dos participantes seria preservada.
Os interessados deveriam ter mais de 18 anos de idade, não importando sua orientação sexual
e estado civil. Aos voluntários foi pedido que entrassem em contato replicando ao e-mail
enviado. Cento e onze pessoas de vários estados brasileiros manifestarem interesse em
participar. Foi-lhes enviado, então, um questionário abordando questões como: o que os
levava á usar a Internet; quais as práticas sexuais em que estavam envolvidos; como e quando
se interessaram por atividades sexuais consideradas "diferentes" e como se sentiam em
relação a ter prazer com práticas consideradas não convencionais.
415

Informações sobre a idade, formação religiosa, sexo, estado civil, nível de escolaridade,
e orientação sexual, também foram objeto de interesse para a pesquisa. Não foi objetivo do
presente estudo, estabelecer critérios diagnósticos da amostra pesquisada nem tampouco
descrever em detalhes as práticas sexuais não convencionais.

Revisão
Apesar da crescente evolução observada ao longo dos anos nas ciências humanas e nas
áreas tecnológica e científica, a sexualidade ainda é objeto de muita especulação, preconceitos
e tabus. Se observarmos as diversas reações da atualidade frente às manifestações sexuais,
veremos o quanto tais reações permanecem imutáveis ao longo da história. Embora a
"revolução sexual" dos anos sessenta e os inúmeros movimentos objetivando o
reconhecimento dos direitos humanos, sobretudo os feministas, tenham mudado o cenário
social, a sexualidade continua sendo um enigma para o ser humano e objeto de muitas
discussões desde a Antiguidade.
No séc. V, a partir dos grandes Padres da Igreja - Agostinho, Jerônimo e Tomás de
Aquino, o cristianismo passa a vincular sexualidade e procriação: o exemplo inquestionável a
seguir é a vida "naturalmente heterossexual" dos animais. Toda prática sexual que escapasse a
esta norma traria o chamado "estigma negativo do prazer". Surge a partir de então, uma forma
de moralidade que é essencialmente uma moralidade sexual. As práticas "contra a natureza" -
consideradas atentado ao pudor, aos bons costumes, e à opinião pública - acarretam severas
sanções para que o "normal" seja mantido. Entretanto, a história assim o mostra, tal objetivo
nunca foi alcançado: a sexualidade sempre escapou a toda e qualquer tentativa de
normatização (Ceccarelli, 2000).
Na segunda metade do século XIX aparece o discurso psiquiátrico contemporâneo que,
marcado pela mesma visão moralista, dá continuidade às posições teológicas e jurídicas,
trazendo para a ordem médica o que, até então, era do jurídico. Os grandes psicopatólogos da
época, dentre eles, Havellock-Ellis (1888) e Kraftt-Ebing (1890), classificaram e etiquetaram as
práticas sexuais que escapavam aos ditames morais. Traçou-se um minucioso inventário das
sexualidades ditas desviantes, onde novas formas de práticas sexuais, que utilizam o outro
para a obtenção de prazer e a finalidade natural da sexualidade - a procriação - é subvertida,
são criadas: homossexualismo, voyeurismo, exibicionismo, sadismo, masoquismo, juntando-se
á infindável nosografia psiquiátrica da época. É também nesta época que termos que, mais
tarde, tornaram-se clássicos, são aí introduzidos: perversão (1882, Charcot e Magna),
narcisismo (1888, Havellock-Ellis), auto-erotismo (1899, Havellock-Ellis), sadismo e
masoquismo (1890, Krafft-Ebbing) [Ceccarelli, 2000].
No final do Séc. XIX, e de forma ainda mais contundente no início do XX, Sigmund Freud
em seu texto mais importante sobre a sexualidade, os "Três Ensaios sobre a Teoria da
Sexualidade" publicado em 1905, sustenta que subordinar a sexualidade á função reprodutora
é "um critério demasiadamente limitado". Na perspectiva freudiana, a sexualidade é contra a
natureza, ou seja, em se tratando de sexualidade, não existe uma "natureza humana".
(Ceccarelli, 2000).
416

Joyce McDougall e o conceito de "Neo-Sexualidade".


A autora contemporânea Joyce McDougall (1997) fez uma importante e inovadora
leitura crítica de Freud em relação á perversão. Segundo a perspectiva teórica desta autora, a
palavra "perversão", denota uma conotação depreciativa e em direção ao mal, já que nunca se
ouve que alguém foi "pervertido" para o bem. A autora sustenta que além da implicação
moralista no uso vernacular da palavra, o atual padrão de classificações psiquiátricas e
psicanalíticas é igualmente questionável. Ao se rotular e diagnosticar alguém como
"neurótico", "psicótico", "psicossomático" ou "perverso", não se leva em consideração as
inúmeráveis variações de estrutura psíquica de cada categoria clínica, perdendo-se de vista o
aspecto mais notável aspecto dos seres humanos em sua estrutura genética, que é a sua
"singularidade" (McDougall, 1997, p 186). Em relação ás chamadas sexualidades perversas
como o fetichismo e as práticas sadomasoquistas, constata que as mesmas acontecem na
qualidade de jogos eróticos nas atividades sexuais de adultos não-perversos, sejam estes
heterossexuais ou homossexuais, sendo que tais práticas não despertam conflito, pois não são
experienciadas como compulsivas ou como condições exclusivas para o prazer sexual. Já os
adultos heterossexuais e homossexuais que só tem roteiros eróticos fetichistas ou
sadomasoquistas, para os quais essas práticas sexuais são a única via de acesso ás relações
sexuais, deve-se tomar o cuidado quanto á desejar que essas pessoas percam essas versões
heterodoxas de desejo, simplesmente porque podem ser consideradas sintomáticas. Ao invés
de "perversão", McDougall (1997, p 188) prefere nomeá-las como "neo-sexualidades".
Segundo a autora, o termo "perversão" seria mais apropriado "como um rótulo para atos em
que um indivíduo impõe desejos e condições pessoais a alguém que não deseja ser incluído
naquele roteiro sexual (como no caso do estupro, do voyeurismo e do exibicionismo) ou seduz
um indivíduo não-responsável (como uma criança ou um adulto mentalmente
perturbado").[McDougall, 1997, p 192].

Os Manuais de Saúde Mental e o Projeto ReviseF65


Svein Skeid é um dos responsáveis pelo projeto ReviseF65 ou Projeto CID
(www.revisef65.org), o qual tem como objetivo através de um website e um grupo de
discussões na Internet de mobilizar grupos SM/Couro/Fetichista e profissionais da área da
saúde mental mundial, com o intuito de retirar o diagnóstico psiquiátrico ("parafilias") do
Fetichismo, Transvestismo e Sadomasoquismo, da Classificação Estatística Internacional das
Doenças e Problemas de Saúde (www.revisef65.org/ICD10.html), publicada pela Organização
Mundial da Saúde (OMS). O diagnóstico de "parafilia" pode servir como justificativa á
estigmatização e violência contra as minorias sexuais. Vários relatos de violência contra
praticantes do Sadomasoquismo e Fetichismo, podem ser encontrados no website do
ReviseF65 (www.revisef65.org). A U.S Leather Leadership Conference relata que de trinta a
cinquenta por cento da população SM sofre discriminação, violência ou perseguição devido a
sua orientação sexual. O Projeto CID (ICD) afirma "que estigmatizar minorias através de
diagnóstico de sua orientação sexual é tão desrespeitoso como discriminar pessoas por sua
417

raça, etnia ou religião (www.desejosecreto.com.br/revisef65.html). Trata-se sem dúvida de


uma proposta legítima em defesa dos direitos humanos das minorias sexuais. Países como a
Dinamarca, em consonância com as necessidades e direitos legítimos das minorias sexuais,
retirou totalmente o diagnóstico de sadomasoquismo em 1995 de seus manuais de saúde.
O Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais-4a.Edição (DSM-IV, 1995,
pp 495), também classifica o Fetichismo, o Sadismo e o Masoquismo Sexual como "parafilias",
onde além de ter fantasias e impulsos sexuais, recorrentes e intensos ou comportamentos
envolvendo tais práticas (Critério A), essas fantasias, impulsos sexuais ou comportamentos
devem causar sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social ou
ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo (Critério B).[DSM-IV, 1995, p
495]. Caso o Critério B não seja atendido, as variantes sexuais acima não são consideradas
patológicas ou sintomáticas, configurando-se apenas uma variação da sexualidade humana
adulta.
Devido á falta de informação, desconhecimento do que se tratam as práticas eróticas
consensuais, seus praticantes são erroneamente confundidos com vítimas ou perpetradores
de atos coercitivos de violência e abuso sexual.

Conceitos e Práticas BDSM


As práticas sadomasoquistas consensuais e fetichistas não são facilmente definidas, pois
abrangem um leque de comportamentos onde muitos dos praticantes não apreciam todos os
papéis e atividades, estando a descrição detalhada de cada prática BDSM e fetichista, fora do
âmbito do presente estudo. Focaremos, no entanto, os termos mais gerais.
O termo "BDSM', que se refere ao universo sadomasoquista como um todo, envolve todos os
seus aspectos - dominação, submissão, bondage, disciplina, sadismo e masoquismo, enquanto
"SM" significa "sadomasoquismo" (Paschoal, 2002, p 14). Entretanto, a relação entre os dois
termos é análoga á distinção entre os termos "homossexual" e "gay" (Moser, 1996, p 24).
Segundo a perspectiva teórica deste autor, "Dominação e Submissão (DS), implica na
transferência deliberada do controle psicológico e sexual de um parceiro para o outro, sem
que haja necessariamente, elementos de dor física ou humilhação. O termo "Bondage e
Disciplina", "B&D" ou B/D, refere-se ás práticas sexuais com variados tipos de imobilização ou
restrição física, enquanto "Disciplina" indica a representação de fantasias que se relacionam á
punição/castigo, como por ex, a fantasia "professor/estudante". "Humilhação" refere-se ás
cenas de "role-play" nas quais o parceiro dominante detém o controle do poder sobre o
parceiro submisso, infligindo e ritualizando torturas psicológicas, como insultos verbais de
conotação sexual. Em relação aos termos "sadista" e "masoquista", existe uma conotação mais
fisiológica, de natureza sexual, onde as pessoas experimentam sensações de prazer ao dar
e/ou receber cuidadosamente controladas sensações de dor, como no caso de levar chineladas
ou chicotadas (Moser, 1996, p 25). Já a palavra "leather" é usada na comunidade
sadomasoquista por gays e lésbicas (Moser, 1996, p 63).
Outros comportamentos também geralmente incluídos na prática sadomasoquista são o
"age-play", um fetiche no qual exige-se que o parceiro atue como tendo uma idade diferente,
418

algumas vezes mais velho ou mais novo (representando um bebê, por ex.); a feminização
forçada ou voluntária dos submissos masculinos que vestem saltos altos, cintas-ligas e
vestimentas femininas (crossdressing) e também jogos sexuais que envolvem urinas e
excrementos. Paschoal (2002, p 16) sustenta que "cada um desses conceitos tem aspectos
pessoais, individuais e únicos, tais como as pessoas que os praticam...Cada um é livre para
escolher qual deles prefere e como prefere....Não há como seguir os vários conceitos de forma
literal, já que a criatividade humana e as liberdades individuais são o que há de mais precioso
no ser humano".
Com a mesma criatividade, a comunidade BDSM criou o termo "baunilha" ("vanilla"),
para se referir ás práticas sexuais convencionais que não envolvem nenhum componente SM
(Scott, 1997, p 3). A tríade "Sanidade, Segurança e Consensualidade" (Brame G, Brame W &
Jacobs, 1993, p 49) é considerada uma norma básica das práticas não convencionais
consensuais e jamais pode ser ignorada ou negligenciada. Paschoal (2002, p 22) afirma que a
não existência de qualquer um dos aspectos SSC, torna toda e qualquer relação BDSM
totalmente inviável.
Por "Consensualidade", Moser (1996, p 31), entende o acordo voluntário firmado entre
os participantes do jogo erótico, no qual os limites de cada participante são honrados.
Esclarece que, não se pode chamar o abuso doméstico que ocorre entre um casal de SM, pois
o SM é consensual e o abuso imposto á um parceiro não é. Podemos usar como exemplo o
intercurso sexual e o estupro, onde o primeiro é consentido e o segundo é imposto sob
coação. Portanto, a diferença entre o sadomasoquismo e a verdadeira violência, encontra-se
no consentimento informado ("informed consent") [Moser, 1996, p31]. A "Sanidade" refere-se
á conscientização do que os participantes estão fazendo numa cena SM: trata-se de uma
fantasia e que não corresponde á realidade. Certas práticas BDSM implicam em riscos
consideráveis. Nesse sentido, o conhecimento do parceiro, o estabelecimento de limites e
saber os riscos inerentes á cada prática, são fatores importantíssimos para que o jogo erótico
BDSM seja seguro e prazeroso. Vale dizer também, que segurança engloba também algumas
proibições. Como é extremamente importante que se tenha completa consciência sobre o que
se está fazendo, o uso do álcool e de qualquer tipo de droga é severamente desaconselhado
antes ou durante a cena ou jogo BDSM (Paschoal, 2002, p 27). Caso algum limite físico ou
psicológico seja ultrapassado, o uso da "safeword" ou "palavra de segurança" restabelece os
limites da segurança física e emocional dos participantes e o jogo é imediatamente
interrompido.(Paschoal, 2002, p 25).
Segundo Brame, G, Brame, W & Jacobs (1993, p 358), a origem da palavra fetish vêm da
palavra em português feitiço e consta que foi usada pela primeira vez por exploradores
portugueses do séc. XV para descrever figuras sagradas. No seu sentido antropológico o
fetiche está ligado á artefatos sagrados investidos de poderes espirituais. Para os fetichistas, o
fetiche erótico é o próprio símbolo do divino, podendo excitar e mesmo induzir os seus
devotos ao êxtase. Exemplos de fetiches eróticos são encontrados naqueles que admiram um
par de sapatos, ao invés do pé que o veste; ou então o próprio pé é considerado
extremamente excitante, em detrimento do corpo humano como um todo. Todos os seres
humanos são fetichistas em algum grau. Na cultura brasileira, as nádegas são objeto de
419

adoração nacional, enquanto na cultura americana, há uma extrema valorização dos seios. Na
China, um pé feminino pequeno é extremamente sexy. Isso demonstra que diferentes culturas
elegem seus próprios fetiches. Como Paschoal (2002, p 68) muito bem ilustra, "um fetiche
seria uma preferência específica dentro de um universo de possibilidades...o BDSM está mais
para uma fantasia repleta de fetiches. Assim como um masoquista prefere (ou tem o fetiche
de) receber dor, ou ser torturado exclusivamente com cordas; ou com velas; ou com gelo; ou
com todas as alternativas; ou com nenhuma delas. O sádico prefere ( ou tem o fetiche de )
causar dor. Tudo são fetiches".
No tocante á realidade brasileira, a Internet tornou-se um poderoso veículo para a
procura de informações e contatos de pessoas que se interessam pelas práticas eróticas
sadomasoquistas e fetichistas, contribuindo largamente para a formação de uma subcultura
"virtual" de minorias sexuais. O movimento BDSM brasileiro encontra-se num estágio
embrionário, mas crescente, com centenas de websites (vide www.associacaoBDSM.com.br) e
listas de discussões (www.yahoo.com.br e www.msn.com.br), na tentativa de se formar um
movimento agregador que proporcione reconhecimento, visibilidade e contatos fora da
realidade "virtual", seguindo uma tendência internacional proposta pela organização
americana "The National Coalition for Sexual Freedom" (NCSF) que luta para garantir direitos
iguais nas áreas legal, política e social para os adultos que estão engajados na práticas de
expressões sexuais alternativas. Segundo os artigos sobre SM disponibilizados em seu website
(www.ncsfreedom.org.), a NCSF esclarece que o Sadomasoquismo não é abuso nem violência
doméstica, sendo este último "um padrão de comportamento intencional de intimidação com
o objetivo de coagir ou isolar o outro parceiro sem o seu consentimento
"(www.ncsfreedom.org/what.htm), opostamente ao que ocorre nas práticas BDSM, onde os
parceiros envolvidos concordam sobre tudo o que vai acontecer no jogo erótico, além de
serem pessoas muito bem informadas sobre as possíveis consequências na troca erótica do
jogo de poder. Esclarece ainda que a violência doméstica pode ocorrer em qualquer grupo de
pessoas, inclusive entre os que praticam SM, mas com a diferença de que dentro da
comunidade sadomasoquista, a violência doméstica não é perdoada e suas vítimas e
abusadores são encorajados a procurar ajuda especializada.

RESULTADOS
Tabela 1
Dados quantitativos da amostra pesquisada (n = 111) %
Sexo
Masculino 93,7
Feminino 6,3
Idade
18-25 18,9
26-35 41,4
36-45 30,6
46-55 8,1
+55 0,9
420

Orientação Sexual
Heterossexuais 84,7
Bissexuais 9,9
Gays 5,4
Estado Civil
Casados 31,5
Solteiros 52,3
Separados/ Divorciados 16,2
Escolaridade
Nível Secundário 16,2
Nível Universitário Completo 70,3
Pós - Graduados 13,5
Religião
Católica 53,2
Protestante 2,7
Espírita 12,6
Agnóstico 5,4
Ateus 5,4
Nenhuma 14,4
Outras 6,3
Práticas
Dominação/ Sadismo 32,4
Submissão/ Masoquismo 43,3
Switchers ("role reversal") 15,3
Crossdressing 1,8
Podolatria 4,5
Outras 2,7
Participação da parceria
Sim 36,1
Não 25,2
Sem parceria fixa 38,7

Como podemos perceber na tabela 1, a grande maioria da amostra total (n =111), é


composta de heterossexuais, mas cabe a observação de que apenas sete (6,3%) respondentes
são do sexo feminino, sendo quatro (4) oficialmente casadas e três (3) solteiras. O número de
pessoas com parcerias que possuem e praticam as mesmas fantasias sexuais, (36,1%), foi
maior do que o esperado. Interessante salientar que, nas práticas sexuais envolvendo a
Submissão e o Masoquismo (43,3%), apenas seis (6), são mulheres e heterossexuais, enquanto
que o restante do grupo pertence ao sexo masculino independente de orientação sexual. A
religião católica (53,2%) é a que tem o maior número de seguidores. O nível de escolaridade
mostra-se elevado, sendo que 70,3% dos respondentes têm curso superior completo e 13,5%
são pós-graduados.
421

Conclusão
Abaixo citaremos recortes de alguns relatos para ilustrar a parte qualitativa do estudo,
onde os respondentes falam a respeito de como se sentem em relação ás suas vivências
sexuais e aos tópicos que foram abordados no questionário por eles respondido.
-SS, pós-graduado, fetichista, 35 anos, casado: "Quando tinha aproximadamente 5 anos,
lembro-me que tinha tesão em vestir camisolas de cetim, gostava de urinar nelas e sentir o
cheiro da urina por vários dias.....Desde criança percebi que tinha desejos "diferentes", mas só
fui entender de fato que esses fetiches não são uma "aberração da natureza", há uns três anos
com o advento da Internet....na net, vi, conversei e sei que tem gente com os mesmos gostos".
- S, administrador de empresas, masoquista, 34 anos, casado, lembra: "Tinha uma
brincadeira de policia e ladrão onde as meninas eram sempre da polícia e os meninos ladrões.
As meninas corriam, pegavam e prendiam os meninos. Lembro que quando eu era preso
sempre pedia para ser amarrado, pois senão fugiria, assim fui sem perceber desenvolvendo
meu instinto de submissão ao sexo feminino...Uma fantasia que me marcou muito na infância
e na adolescência foi a figura da "Mulher Gato" do seriado Batman.....hoje ao rever com olhos
mais experientes dá para perceber uma explicita citação fetichista. A Mulher Gato era linda,
aquela roupa em látex, bem justa e colada ao corpo...sempre que capturava os heróis , eles
eram amarrados e ficavam aos pés dela ...sempre era mostrado a Mulher Gato em seu
esconderijo sentada em uma cadeira tipo trono em um pedestal e seus ajudantes ficavam
sentados no chão aos seus pés...ás vezes ela dava um jeito de pisar em um ajudante...fetiche
puro".
- Fbond, importador, fetichista bondagista, 31 anos, casado, lembra: "Levo o bondage e
o fetichismo extremamente a sério, não sou adepto de nada que provoque dor, mas gosta da
sedução aliada á bondage, cinta-liga, roupas insinuantes (mas não vulgares), sou
culto....descobri que era fetichista aos 8 anos de idade assistindo um filme do Jerry Lewis e
hoje tenho um acervo com mais de 150 fitas do gênero....Considero-me uma pessoa
extremamente amiga, por isso acho um absurdo comparações que coloquem um fetichista na
casa dos "anormais". Talvez até haja casos assim, mas não se trata da grande maioria".
- Al Z, dominador, pós-graduado em análise de sistemas, 38 anos, casado, relata: "Desde
pequeno eu apreciava quando via cenas em que apareciam mulheres presas, amarradas ou
surradas (normalmente em filmes), mesmo desconhecendo totalmente o sexo... acho que era
instintivo.....Despertei totalmente para minhas fantasias há uns cinco ou seis anos atrás
quando entrei acidentalmente num site ...na época eu tinha 32 ou 33 anos e esse fato mudou
totalmente a minha vida...O bondage e o spanking ( bumbum feminino), me excitam bastante
e também outras formas de dominação física e psicológica, como por exemplo, transformar a
parceira em uma cadelinha colocando correia e correntinha guia....Meu relacionamento com
minha esposa é do tipo "padronizado", ou seja, segundo ditam as regras religiosas e sociais
para um casamento...Ela não sabe das minhas incursões no mundo virtual, nem tampouco que
procuro alguém para realizar minhas fantasias no "real". Sinto-me uma pessoa absolutamente
normal....O que penso é que a sociedade é quem realmente tem medo de admitir que quem
422

gosta de BDSM ( dentro do contexto erótico, é claro), é um ser humano normal. As pessoas
buscam sempre viver cada vez com mais tesão e o BDSM é apenas mais uma forma alternativa
de alcança-lo plenamente. ...Nunca abri o livro da minha vida tanto assim como estou fazendo
com você, mas me sinto muito bem, porque isso estava me sufocando demais".
- J, analista de sistemas, submisso, 32 anos, solteiro: "Sinto-me perfeitamente normal e
até porque não privilegiado, por saber explorar a minha sexualidade de uma forma
diferenciada e muito mais intensa do que a maioria das pessoas. Fico muito feliz por ter
capacidade suficiente em entender o meu fetiche e tirar proveito dele de forma sadia, segura e
muito peculiar".
- N, assistente administrativa, bondagista, 26 anos, solteira: "Gosto de ser amarrada e
imobilizada completamente, me sentir completamente vulnerável nas mãos do meu parceiro,
mas não ficar passiva e sim relutar em estar amarrada, como se estivesse sendo obrigada a
estar naquela situação, não aceitar passivamente que o outro me amarre, mas "fugir", tentar
me soltar, mas acabar sendo "vencida" pela força e técnica do meu parceiro...a privação dos
sentidos como a visão e a fala....assim os mesmos ficam ainda mais aguçados, mas não saber o
que a pessoa vai fazer é uma excitação sem igual... estar amordaçada é uma sensação
incrível... Juntar tudo isso é uma sensação inexplicável ... Sinceramente, me sinto mais normal
do que as outras pessoas, eu me sinto assumida. Acho que o que não é normal é as pessoas se
podarem, ou mesmo viverem um relacionamento de aparências e procurarem fora do
relacionamento a realização de suas fantasias...acredito que uma pessoa será completamente
feliz quando procurar um relacionamento que lhe complete no todo... difícil, mas acho que
mais difícil ainda é viver duas vidas...em uma delas você vai encenar... A sociedade em que
vivemos é hipócrita... todos têm suas fantasias, mas para se encaixar no padrão "normal",
ninguém se assume e ainda critica e se escandaliza coma opção do próximo. Acredito que cada
um é dono da sua vida e não tem que dar satisfação para ninguém do que gosta ou deixa de
gostar dentro de quatro paredes, ou melhor, acho que devemos ser livres para vivenciar
nossas fantasias e outras coisas cotidianas também, é claro, respeitando o limite e espaço do
outro. Para mim o BDSM é uma forma de prazer, é um mundo vasto com muitas ramificações
e cada pessoa escolhe dentro dessas a que lhe dá prazer ...eu escolhi a minha e não me
incomoda o fato da sociedade não aceitar ou me achar uma aberração... eu me sinto mais
normal que todos, pois sou sincera comigo mesma, me assumo e me aceito assim e isso me faz
feliz ...".
- M.H, dentista, crossdresser, submissa, 39 anos, casado: "Sou casada e minha esposa
participa de tudo e me domina há mais de um ano...Como você pode perceber sou uma
crossdresser submissa e como tal me porto. Sou uma sissy da minha esposa. Me visto sempre
que posso feminina, tenho todos os afazeres da casa e sou uma mulher para minha esposa.
Sou totalmente passiva e ela é ativa ....frequentemente apanho e sou humilhada, o que
adoro...fui descobrir que o que eu sentia e fazia estava em total sintonia com o universo
BDSM, mais ou menos aos 18 anos. Mas sem saber que era uma postura BDSM, desde que me
conheço por gente ...aos 6 ou 7 anos de idade...Adorava brincar de casinha com meus primos e
primas e sempre eu era a empregadinha, sempre trabalhando e humilhada. Este era o papel
que eu escolhia. Isto me dava prazer e no meu ponto de vista encaixa no BDSM...Aos 10 anos
423

gozei a primeira vez quando pus uma saia de uma tia...gozei sem ao menos me tocar. Desde
então sempre fui fora dos padrões , mas aos 16 anos notei que era "diferente". Seria eu gay?
Mas como ser gay se não me interessava e nunca me interessei por homens? Mas se não era
gay, por que me fantasiava no papel feminino? ...As pessoas infelizmente vivem num padrão
proposto hipócritamente por esta sociedade machista e repressora em que vivemos."
- ZZ, assistente de faturamento, podólatra submisso, 34 anos, casado: "O meu
relacionamento com minha esposa é o melhor possível em todos os sentidos. Ela sabe de
minha atração por pezinhos, tanto é que começou a trata-los bem melhor e de vez em
quando, quando transamos, ela me dá umas boas chineladas e eu gosto muito. Desde que não
prejudique física ou emocionalmente ninguém e ambos estejam de acordo, vale tudo na
prática sexual entre um casal. Sobre como a sociedade vê e julga os meus atos, isso para mim
não tem a mínima relevância".
- JP, advogado, sádico, 38 anos, casado: "Sinto-me um privilegiado por ter certos
interesses sexuais diferentes da maioria das pessoas e sempre conseguir realizá-los. O BDSM é
muito complexo, pois existem diferentes níveis de SM e me incluo em um
intermediário...algumas práticas me soam indigestas, como por exemplo a coprofagia,
humilhação em público, perfurações, cortes ou queimaduras, mas como diz o ditado, " se feito
com o consentimento de ambos o problema é deles...".

Podemos sugerir que as pessoas que fizeram parte da amostra pesquisada, longe de
representar a totalidade de indivíduos com práticas sexuais não convencionais na sociedade
brasileira, sentem-se em sintonia com suas diversas preferências sexuais, as quais são
experienciadas como prazeirosas , sentindo-se também privilegiadas por terem uma
sexualidade "diferenciada " daqueles que vêem no sexo e nos papéis convencionais , a única
forma de expressão para o amor, intimidade e para a realização de suas fantasias sexuais. Não
podemos afirmar pelos dados colhidos e relatados, que os praticantes de BDSM e Fetichismo
que participaram desse estudo, possam ser chamados de "parafílicos". Preferimos descreve-los
como praticantes esclarecidos, bem informados, e conscientes daquilo que consideramos
como variações na expressão da complexa sexualidade humana adulta.
É muito clara a importância do uso da Internet na formação de uma subcultura BDSM
consensual no Brasil, não só para a comunicação, obtenção de informações entre praticantes
afins, mas também como um mecanismo de inclusão social, reunindo milhares de pessoas que
compartilham das mesmas fantasias e práticas sexuais não convencionais. Esse estudo foi
possível, justamente pela facilidade de acesso, anonimato e a facilidade que a Internet
proporciona para todos os seus usuários. Cooper et al (2000, p 6), sustenta que a Internet
oferece a oportunidade para a formação de comunidades virtuais, onde indivíduos isolados e
discriminados, como por exemplo, gays e lésbicas, podem se comunicar entre si sobre
assuntos sexuais que sejam de interesse dessa comunidade.
Ao se darem conta do número de pessoas "iguais", a sensação de isolamento e de ser
"diferente" diminui ou desaparece e um novo sentido de "pertinência" ("belonging") e
identidade surge para aqueles que, anteriormente ao advento da Internet, sentiam-se
424

"anormais" e "fora do padrão" por não terem com quem compartilhar e dividir seus anseios e
suas fantasias devido ao preconceito e estigma em relação á tudo o que se desvia da "norma"
ou "padrão". Podemos sugerir que a Internet pode servir como um "salva-vidas" virtual" , pois
ao dar aos praticantes de BDSM, fetichismo e outras minorias sexuais, a oportunidade de "sair
do armário", proporciona um ambiente onde não há repressão, preconceito e onde tudo é
possível no mundo da fantasia, dando também a oportunidade para que essas fantasias saiam
da "virtualidade" e possam ser concretizadas no mundo "real". Segundo Bader (2002, p 259), o
porque de algumas pessoas "atuarem" ( "act out") suas fantasias e outras não, não encontra
uma resposta fácil. Ainda segundo a perspectiva teórica deste autor, é mais fácil compreender
porque uma pessoa desenvolve determinada fantasia ou prática sexual, mas raramente pode-
se afirmar o porquê ela "atuou" ou simplesmente a manteve a nível de fantasia.
O mundo tem passado por mudanças tecnológicas quase impossíveis de serem
acompanhadas na área da concepção da vida humana: o bebê de "proveta" e a inseminação
artificial são práticas corriqueiras antes impossíveis de serem imaginadas e concretizadas,
como o é agora, a possibilidade da clonagem de seres humanos em laboratórios. O novo
assusta, provoca medos e inseguranças e sentimentos de desproteção. Mas é inegável que
mudanças nas mentalidades estão a caminho nesse novo milênio. A tradição judaico-cristã que
forma a base religiosa da sociedade brasileira há séculos, mostra-se anacrônica perante os
fatos mencionados e pelo o que ainda está por vir. A tão propagada vida "naturalmente
heterossexual" dos animais, que serviu como justificativa para o encarceramento do desejo
sexual e do prazer pela instituições religiosas, começa a cair por terra com as últimas pesquisas
científicas sobre a vida sexual dos animais, as quais demonstram que as "práticas contra a
natureza", são parte também da sexualidade animal
(www.subversions.com/french/pages/science/animals.html). Para onde vamos, já que os
conceitos e normas psico-sociais, religiosas e culturais, que definiam a noção de
"normalidade", não mais se aplicam á sociedade pluralista que se nos apresenta? A nossa
tradicional ética sexual seguida há centenas de anos, não mais se adequa ás mudanças sócio-
culturais e aos novos desafios do Século XXI. Vivemos numa sociedade plural, onde começam a
se tornar visíveis as mais diversas expressões da sexualidade humana adulta, as quais querem
ser aceitas, reconhecidas e legitimizadas. Expressões sexuais que demonstram maturidade,
respeito e consciência entre aqueles que as praticam.Cabe salientar que, por se sentirem
confortáveis e em egossintonia com suas práticas sexuais, tenha sido este o motivo que tenha
levado esses indivíduos a participarem desse estudo A linha que separa as práticas consensuais
BDSM e as práticas sexuais ditas "perversas" "é muito tênue. Mas é importante que se saiba
distinguir umas das outras.
E com base nesta distinção, o presente estudo demonstrou que, apesar de limitado no
seu alcance, é um direito humano legítimo ser "diferente" da maioria e consequentemente, ter
essa "diferença" respeitada e aceita pelos demais.

Referências:
Animals prefer Homossexuality to Evolution. Retrieved January 17, 2003, from
www.subversions.com/french/pages/science/animals.html
425

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EditoraArtes Médicas, Porto Alegre, 1995, p 495.
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Infidelity. Abstracts Book. 15th World Congress of Sexology, June 24-28, Paris, 2001, p 149.
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www.ncsfreedom.org/what.htm
www.associacaoBDSM.com.br. Retrieved May 7, 2002.
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www.yahoo.com.br. Retrieved April 02, 2002.
426

Regressão X Submissão17
Ms Rika
(texto gentilmente traduzido por ^gato^)

Recentemente recebi um e-mail de um homem perguntando se ele seria capaz de se


submeter a mim. Como é muito comum, ele me deu sua lista de desejos disfarçada de serviços
para mim. Eu já escrevi muito sobre pseudo subs que realmente querem ser possuídos em
seus próprios termos. Eu sempre frisei a importância de tornar mais fácil a vida da Domme em
vez de dificultá-la e que a tentativa de moldá-la à sua fantasia é muito trabalhosa para ela.
Como vocês podem imaginar, eu normalmente desconsidero essas cartas na mesma hora.
Algo nessa pessoa, entretanto, me fez acreditar que ele realmente não havia entendido
a mensagem que suas palavras não escritas estavam transmitindo. Ao responder à sua carta eu
me achei tentando auxilia-lo a perceber o que ele realmente buscava num relacionamento e o
que a projeção de sua mensagem estava dizendo. Foi quando escrevia a resposta que eu
percebi algo. Não sei se sou a primeira a achar ou pensar isso e eu deveria ter percebido isso
antes, mas fui atingida por essa ideia, de toda forma.
Essas pessoas não são realmente egoístas; elas simplesmente confundem Regressão
com Submissão!
O que esse tipo de submisso diz que quer?
· Eles querem obedecer aos desejos da mais bela mulher - A Deusa Provedora
· Eles desejam ser ordenados sobre o que devem fazer, sobre como agir, sobre o que é
ou não um comportamento adequado.
· Eles querem ser "treinados"
· Eles querem ser punidos se falharem
· Eles querem se submeter a uma mulher que os ame
· Eles querem se sentir tão apaixonados por ela que não consigam resistir a nenhum
desejo dela
· Eles querem abdicar do controle de seu prazer e dá-lo nas mãos da mulher que adoram
incondicionalmente
· Eles querem ser sacudidos e mantidos sem saída (figurativamente e muitas vezes
literalmente)
· Quem nos proporciona tudo isso em nossa vidas baunilha? Nossas Mães!!!
Agora eu percebo que metade dos leitores já parou de ler. Mas se você examinar o
assunto honestamente este é o tipo de desejo sobre o qual estamos falando. Não estamos
falando de submissão, mas de regressão à infância deles, quando as decisões eram poucas e

17
O link para a imagem desse texto não estava disponível no período da coleta do material
427

fáceis, a tensão na vida deles não existia e todo o prazer deles estava nas mãos de pessoas que
eram amadas incondicionalmente, e de absoluta confiança. O fato bem conhecido de que
homens procuram Dommes profissionais para "escapar" da realidade corrobora isso. O
bondage usado nessas cenas adiciona um senso de realismo físico à sua falta de alternativa.
Falta de alternativa, que eles não conseguiram mais sentir, apos terem crescido e se tornado
maiores e mais fortes que suas mães.
Então agora eu entendo como algumas mulheres conseguem lidar com esse tipo de
solicitações e eu não! De uma certa forma, muitas das mulheres dominantes talvez se sintam
muito gratificadas com esse tipo de relacionamento. Ele pode preencher uma carência.
Pessoalmente eu sinto (eu tenho dois filhos jovens) que a maternidade é uma tarefa dura! Ë
um monte de trabalho (mesmo contando com um sub residente que me auxilia
consideravelmente). A ÚLTIMA coisa que eu desejo é uma enorme criança dependente. Eu já
escrevi como sobre eu foco os meus subs em tornar a minha vida mais fácil, não mais difícil.
Esse é o porque de eu ser tão adepta da submissão orientada ao servir. Como já defini
em outros artigos, submissão para mim é sobre o que o sub possa fazer POR MIM, não sobre o
que eu faça PELO SUB. Ela é centrada na Domme. Eu insisto em que o sub trabalhe para me
dar prazer, que se esforce para antecipar os meus desejos e necessidades e para que seja um
pensador INDEPENDENTE cujo único objetivo seja o meu prazer. Eu não desejo que ele seja
uma criança teleguiada que aguarda ordens ou tenta descobrir brechas nas regras da casa ou
ainda pior, que desobedece para ganhar atenção. Eu desejo que ele seja um homem, seguro
dos seus desejos e inteligente o suficiente para raciocinar por si próprio, para obter a
autodisciplina requerida para servir sem a ameaça de punições. Eu não sou um repositório
para ele aliviar o seu stress (a não ser que eu deseje isso).
Com isso eu encontrei uma nova forma de entendimento e um novo nível de tolerância
para "homens que querem ser dominados quando não possuem alternativas". Entretanto, na
minha opinião, tentar recriar a infância perdida é algo que pode ser razoável...mas não é
submissão.
Com Amor,
Rika

http://www.tiedmoments.com/rika/

Ms Rika mora nos USA e vive o D/s como um estilo de vida. Gentilmente nos permitiu a
reprodução deste seu texto.

Tabus E Sadomasoquismo: Ruptura E Inspiração


#dumuz#_RF

1. Introdução
428

Essa série de "análises" foi iniciada a partir de uma pergunta: Por que várias submissas,
ao longo do tempo, se transformavam em dominadoras? Por que essa passagem do
masoquismo ao sadismo?
Disso resultou a discussão dos itens 1 e 2, nos quais surgiu a tese de que as experiências
sadomasoquistas tinham como um tema original a ruptura de um tabu estabelecido pela
civilização.
Essa "tese" se fundamenta na necessidade contínua e dupla do sadomasoquismo de
ritualizar e transgredir em suas formas de expressão.
O resultado é um texto completamente desigual e heterogêneo. Não foi resultado de
um plano ou um estudo mas uma reflexão feita diante do teclado, "pensando em voz alta".
O objetivo é ser muito mais um texto sugestivo do que científico. Mais retórico, no
sentido de querer fixar motivações, do que lógico, ou seja, nos prover de demonstrações.
Não é o caso de agradar ou aprovar, mas apenas, pensar sobre esses tabus...

2. Dominação feminina: de submissa a dominadora


Mesmo a mais masoquista das mulheres poderá se deparar com a incômoda questão: o
poder de vida ou morte sobre o embrião/feto/criança em seu útero, que se concretiza no
aborto.
Essa experiência ou, ao menos, para as que nunca engravidaram, a possibilidade
biológica dessa experiência, remetem à mulher diretamente ao poder de criar e destruir
concretamente outra pessoa, coisa que as pessoas do sexo masculino só podem experimentar
simbolicamente, por meio da cultura (guerra, nesse caso, é cultura).
São dois extremos - o amor supremo que pode dar a vida, uma ira suprema que pode
dar a morte (não falemos do aborto no sentido moral ou ético agora, porque a ética e a moral
já pertencem à civilização). Esses extremos são vividos pela mulher de uma forma muito
concreta, o que as capacita, visceralmente e naturalmente, a um domínio que exerce o poder
sem destruir, mas mantendo a destruição sempre possível.
Sade é um exemplo de dominador que dificilmente se tornaria submisso. Entretanto,
seu sadismo :) já é uma construção cultural. Nele permanece em aberto a possibilidade de que
muitos homens sejam dominadores e assim o permaneçam, pois a dominação masculina é, em
grande parte, resultante da construção da paternidade a partir do poder fálico, que serviu de
contraponto e equilíbrio ao possível delírio das mães furiosas e uterinas, mas foi na verdade,
uma trabalhosa e complexa elaboração cultural, dado que o falo, por si, não tem o poder
destruidor do útero, que pode *por si mesmo* abortar a vida... (para além do desejo cultural
da mãe, como no caso do aborto natural).
Lembremos que tanto Urano como Saturno, já deuses de uma era patriarcal, eram,
antes de mais nada, devoradores de seus filhos, ou seja, capazes de manifestar a mesma ira da
mãe uterina. O mesmo se pode dizer do Javé do Antigo Testamento, sempre pronto a destruir
o mundo e que na simpática passagem de Noé tenta auto-limitar esse poder destruidor que
429

anteriormente estava nas mãos de deusas uterinas como Hathor ou Kali...Lembremos ainda
que tanto Hathor quanto Kali somente contêm o seu poder ao encontrar um consorte
masculino que as limite, no caso de Hathor, um deus que lhe oferece cerveja no lugar de
sangue e no caso de Kali, Shiva, que se permite pisar por Kali, que dança sobre seu corpo. Por
ser visceralmente destruidora, o que contém e satisfaz essa impetuosidade feminina é um
submisso-forte, presente no masculino, daí sempre aparecer nas relações esse tema de
mulher-dominadora, homem-dominado, pois é um tema que já manifestou equilíbrio em
vários mitos. Observe como Masoch se refere diretamente a Vênus e não a Hécate...
Evidentemente, nas relações pessoais, fatores bem mais complexos que os mitos se
manifestam e encontraremos parcerias de homens-dominadores e mulheres-dominadas,
como tanto apreciava Sade. Parece-me que o que está se constatando é, sim, a
*potencialidade* destrutiva e dominadora de toda mulher, através do arquétipo (modelo) da
mãe uterina, presente em *toda* a mulher que tem, ou teve, um útero. A concretização dessa
potencialidade, dependerá de outros fatores e escolhas, que dependerão das trilhas de
individuação de cada mulher. O que se observa com frequência, é que ao *experimentar*
concretamente o sadomasoquismo, muitas submissas se reconectam com a violência. Entram
num ambiente onde a violência e a destruição são consentidas e de alguma forma, seguras. E
essa experiência tem um poder liberador (eu diria até, em alguns casos, catártico) da ira da
mãe uterina, desse aspecto do feminino bastante recalcado pela cultura patriarcal...
O resgate desse aspecto da personalidade lhes traz a possibilidade de Dominar, na
plenitude de todos os aspectos femininos...uma experiência integradora, então gradualmente
se "transformam" em Dominadoras(a dominadora sempre esteve ali, como mito da mãe
uterina recalcado), como realização desse prazer.
Em seguida, discutiremos a dinâmica da submissão masculina, apenas antecipo que ela
tem muito do retorno do homem à essa mesma vida intra-uterina e da construção de seus
símbolos de renascimento.
Por hora, basta concluir que a Dominação Feminina foi contida moral e religiosamente
por meio de uma limitação legal e mítica ao aborto. A ruptura da energia contida nesse tabu se
expressa de forma civilizada nas formas de Dominação Feminina.

3. Raízes do masoquismo na vida uterina e no parto.


Agora precisamos, nem que seja de forma bem precária, tratar do segundo aspecto, que
seria o da submissão nos homens, porque nota-se um fenômeno comum em casais
sadosmasoquistas, o da passagem de submissa a Dominadora e, também, de Dominador a
submisso. O ponto de partida é uma experiência universal, a vida uterina.
Não a experimentamos da mesma forma, mas todos passamos pela vida uterina. Claro
que com o avanço da ciência, poderemos um dia pensar no masoquismo dos bebês de
proveta: terão eles fetiches por vidros? Gostarão de ser encarcerados em redomas? Nem
imagino.
430

Vimos no item anterior que a mulher tem uma questão aberta com relação ao poder
que lhe confere o útero. Porque diferentemente do pênis, externo ao homem (tem até nome
próprio: Bráulio, o que mostra quão dissociado é do homem), o útero está no âmago da
mulher e representa fisicamente sua essência, que, muito além da maternidade social, é a
essência do poder de vida ou morte que está presente na natureza. Porém...todos, mulheres e
homens, passamos pela experiência de completa exposição e dependência ante o poder do
útero e de sua Senhora, a Grande Mãe que, bem depois, descobrimos ser apenas a nossa mãe.
Bem, é verdade, alguns nunca descobrem isso e continuam com A Mãe...mas isso é outra
neurose J.
Nus, dependentes, expostos, despossuídos de nós mesmos, fragilizados ante o poder
infinito de quem, com um simples comprimido, agulha, cirurgia, injeção poderia, a qualquer
tempo, eliminar qualquer chance de nosso futuro. Ela pode nos transformar de possíveis
pessoas em restos de tecido misturado com restos de placenta em algum recipiente de lixo
hospitalar, em poucos minutos. Não é à toa que, de todos os pecados, o que insiste em
permanecer como tal é o aborto. Demolimos a moral sexual (afinal adolescentes de 12/13
anos "ficam" e nenhum pai vai à delegacia dizer que alguém violentou seus filhos...), liberamos
o casamento e fizemos do divórcio uma realidade, contam-se os dias para que se
descriminalizem as drogas, mas o aborto, ah...o aborto.
O aborto criminalizado é o último bastião da solidariedade que resta na nossa sociedade
de formação cristã... todos nós já estivemos lá um dia... desprotegidos, implorando para que
aquela grande mãe não resolvesse usar a solução final... Claro que, nascidos e crescidos,
gostamos de negar essa dependência, nosso ego inflado e adolescente gosta de repetir que
"não pediu para nascer" e nos abismos de depressão acha sempre "melhor não ter nascido".
Nada mais falso. Passamos nove meses na *inocência*, no saudável desconhecimento psíquico
de que podíamos acabar a qualquer tempo...
Nascer é morrer. Na hora do parto, não tínhamos como saber se aquilo era um parto ou
um aborto. Somente o espanto do ar nos pulmões, a luz perturbadora, a proximidade dos
conhecidos ruídos abdominais da Grande Mãe nos deram a certeza de que havíamos nascido.
A satisfação dessa vitória fruída nos lábios e no morder (sem dentes!) dos seios que traziam
enfim, o leite... É mítico: se precisamos renascer, retornamos ao ventre. Jonas ao ventre da
baleia, Perséfone no inferno de Hades, Jesus na mansão dos mortos e todos os renascidos e
ressuscitados das várias religiões.
De fato, há os que como Grof, acreditam que na raiz do sadomasoquismo, ou ao menos
na raiz do fetiche por merda e sangue, está o prazer de conseguir nascer, pois antigamente,
dada a falta de preparação da mãe, não raro ela defecava durante o parto, fazendo com que o
nascituro associasse o prazer de viver com o aroma de merda e sangue que estava no seu
quarto de nascimento. A primeira impressão é a que fica.
Examinem as inúmeras fotos de cenas sadomasoquistas. Imobilização, restrição de
movimentos, constrição a espaços exíguos, uma frequente busca da posição fetal, sem falar
em masmorras e cavernas escuras, que dispensam uma óbvia interpretação uterina. Observem
como frequentemente ao ficar de quatro os submissos se curvam sobre o ventre.
431

No submisso está sempre presente a necessidade de renascer. De sobreviver a uma dura


prova, de suportar além do suportável da dor. Isso não tem a ver com a mania masculina de se
centrar no desempenho, mas de renascer após uma prova. Submissas femininas também
reclamam de não poder suportar mais dor... Ao mesmo tempo, Dominadoras ( e Dominadores)
reclamam que dá trabalho dominar. Do quão cansativo é ter que controlar, castigar, nutrir com
crueldade as fantasias de seus escravos. Literalmente, amamentam essas crianças
dependentes...e se queixam como mães cansadas.

4. Distinção entre submissão masculina e feminina: passagem da submissa a


dominadora
Há um momento nessa experiência que divide os grupos de submissos e submissas. E
essa divisão acontece quando a submissa percebe que tem, em si, como falamos no item
anterior, a questão do poder do útero.
Poderá renascer como "Grande Mãe" e passará a tender à dominação, poderá escolher
ser submissa de outra mulher, mas terá a tendência de dominar homens, pois estes não lhe
trarão o prazer em lhes ser submissa, pois saberá ter um poder maior que o deles. A Mulher
submissa poderá, ainda, entrar em outro mito, que teremos que analisar adiante, quando
falarmos da dominação masculina. O tema será o da filha sedutora do Pai, a filha que substitui
a Mãe como útero gerador e como amante, que aparece de forma sensual em Elektra, mas
também, de forma sutil e moral em Antígona, a filha de Édipo.
Os submissos se descobrirão despossuídos de útero e se deparam com o vazio de
identidade. O culto ao pênis é, como lembra Valerie Solanas, uma construção cultural.
Lembremos que a "fase fálica" foi proposta por Freud como uma dinâmica do
desenvolvimento da psique preponderantemente *masculina*, pois naquele momento, Freud
pensava o masculino como antecessor do próprio feminino. A fase fálica é importante para a
formação de uma identidade masculina, porém, organicamente, o falo é quase um apêndice,
quase um "outro". Enquanto a Mãe pode ver até o feto como uma extensão de si mesma, o
pênis é para o homem, antes de tudo um "outro", um "estranho" e, até mesmo, um
"desconhecido" (vai saber se esse troço levanta hoje ou não...) e, na melhor das hipóteses, um
"companheiro" ou "amigo"...
Observem nosso mundo da ciência: mulheres com serenidade e até certo alívio se livram
de um útero físico doentio que não lhes serve, senão lhes prejudica a saúde. Livram-se do
útero e do fardo social e cultural nele contido e mantém em si mesmas a essência uterina: o
poder da identidade feminina. Poderíamos prescrever a mesma solução para um homem?
Uma pura e simples remoção do pênis sem que isso lhe afetasse a identidade masculina? O
pênis é o "outro" que dá identidade ao homem, se ele se vai...

5. Masoch como modelo de submisso. Passagem de dominador a submisso.


O submisso percebe o engodo do pênis. Uma identidade que não é a *sua*, mas de uma
civilização que cultua o pênis. Um vazio. Natural que sua vivência de submissão passe por dois
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filtros muitos comuns: a castração simbólica ( a flagelação e a tortura do pênis) e a


despersonalização, quando a falta de identidade o aproxima mais dos animais e dos objetos
que de uma figura humana como a mulher. O dogplay - ser transformado em cachorro , o
ponyplay - ser transformado em cavalo - o ser usado como mesa, cadeira ou capacho, a
redução a relação apenas com partes do corpo da mulher, como os pés...
Esses dois filtros são como que métodos para uma outra dinâmica que pode surgir como
opção para o submisso: a feminização, forçada ou não. Por incrível que pareça, a melhor coisa
para um submisso é saber cuidar de si mesmo. Saber-se dependente da Mulher que o domina,
mas não se "embrionar" a ponto de lhe ser quase um parasita. O parasita é o que procura
"dominar a partir de baixo", o pequeno tirano edípico, que se faz de dependente para
controlar a Grande Mãe.
Estudem com atenção relatos das raras relações 24/7 (24horas por dia, 7 dias por
semana) que deram certo entre Dominadora e dominado, verão que o submisso é uma pessoa
individuada e adulta e não um infantil emocional. Terá caminhado uma longa trilha de
desmontagem da masculinidade produzida culturalmente, com todas as mentiras do
patriarcado, para ter *escolhido* renascer sob as ordens de uma Mulher em seu poder
uterino.
É o final genial dado por Masoch ao romance de Severin e Wanda: ela percebe que ele
está completamente entregue, mas ele ainda não é livre o suficiente para ser completamente
submisso, seu masoquismo é ainda uma fuga, no entender de Wanda, uma doença, que fará
de Severin um parasita dependente. Severin precisaria viver sua vida, amadurecer, saber do
que era e do que não era capaz, enfim tornar-se homem, em toda a dimensão cultural e social
dessa palavra, para então poder entregar-se, desmontar esse poder patriarcal diante do
fascínio do poder de Wanda, a Vênus...
Severin jovem é o modelo do homem que percebe sua completa dependência e
incompletude diante do feminino, mas é inexperiente de si mesmo...acredita que será alguém
pelo domínio de Wanda...O velho Severin, que é, agora, um dominador, cultua o feminino do
belo quadro de Wanda que o tem a seus pés, ela sempre o teve ali e nunca deixou de tê-lo, ele
ainda está a seus pés, porém, viveu a vida, enfrentou o mundo da sociedade e da cultura, fez-
se homem como dele se esperava, para poder se desvestir desse papel...
Só é possível entregar aquilo que se tem.
Só é possível renascer de uma vida já vivida. Só é possível permitir-se a submissão a
quem, de algum modo, já provou em si mesmo o poder. Assim, não admira que um dominador
possa fazer a trajetória rumo à submissão. Pois não há um abismo, senão a mesma busca de
sentido que é o enigma do masculino...

6. Pressuposto da dominação masculina: o caráter social do poder do falo.


Como vimos antes, a questão feminina está em como lidar com o poder do útero, que já
é naturalmente presente na mulher, como poder de vida ou morte sobre o outro, que pode ser
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vivido simbolicamente numa relação sm, onde o alívio da Dominadora seria o de se sentir
Senhora Absoluta de outrem e, ainda assim, não matá-lo.
Recordem de Vênus das Peles, como Wanda conduz Severin a ponto de poder matá-lo
sem que fosse punida se o fizesse... O poder masculino, representado pelo falo - sempre
"outro" - emerge da dinâmica social e cultural de convivência.
Diferentemente do útero, que é uma questão posta no corpo, o poder fálico precisa de
expressão social, precisa "se exibir". Isso vai desde a divertida brincadeira de "mostrar o pipi",
passa por tormentosas medidas em centímetros (atire a primeira pedra quem não levou régua
escolar para o banheiro na adolescência) para se consolidar e se difundir em objetos de status
para os quais se "difunde" o poder fálico.
Esse caráter "social" do poder masculino dá uma cor diferente ao dominador. Deixamos
agora o cenário de Masoch e adentramos ao cenário de Sade. Enquanto para Masoch há a
importância do contrato e do privado(oculto), para Sade predomina a Sociedade (do Crime) e
seu caráter público-institucional ("exibido"). Deste modo, Sade desenha o modelo da
dominação masculina e, nesse modelo, o dominador transita por diferentes papéis sociais, seja
de padre, seja de patrão (Senhor, Rei), que até etmologicamente desembocam no primeiro
papel fundamental masculino: pai. 6. O incesto como tabu e eixo da dominação masculina.
Indo diretamente ao ponto, o tema chave da dominação masculina será, em alguma medida,
uma forma de incesto.
O prazer da submissa nasce desde o momento em que ela cuidadosamente escolhe um
"novo" pai, não mais o biológico, mas que terá do pai original a projeção do poder que ela
busca e que ela teme, na dúvida se ela merecerá o falo para que seu útero desperte (daí o que
vimos antes: ao despertar o poder do útero, o poder do falo provoca às vezes o emergir de
uma dominadora). Ela será a escrava-puta, a filha "do outro", que tinha dignidade mas que,
descuidada, foi aprisionada e agora é castigada e simplesmente usada. Para o dominador, é o
incesto com a filha "do outro". Preso sempre pelas normas sociais que justificam seu poder
fálico, o homem se vê, repentinamente, pela entrega e presa da submissa em suas mãos, livre
dos limites morais, podendo exercer e viver sob o império do imediatismo, inconsequência,
narcisismo e, sobretudo, voracidade dos desejos masculinos...
Da escrava-puta não se espera família, apenas a satisfação do instinto. Por um outro
caminho, diferente do submisso, a submissa adentra à despersonalização: cadela, égua,
vaca...animais domesticados e reprodutores por excelência, mas numa relação que lhe nega a
reprodução. Compete ao dominador a difícil tarefa de negar o útero e seu poder.
Observem como é frequente na manipulação e disciplina da submissa o treinamento
anal. Diferente do homem, que é levado à feminização; a submissa é liberta do seu "fardo de
poder" transferin do o prazer genital-uterino para o anal. Não há masculinização forçada, mas
ela é despersonalizada como mulher: ao ter prazer anal, ela não é distinta de um homem
(entre outros motivos mais dolorosos, essa é *uma* das razões latentes que leva mulheres
baunilha a recusar sexo anal). A escrava-puta é o modelo favorito de Sade, pois qualquer traço
de moralidade e virtude é severamente punido.
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Outro tema é o da relação patrão-empregada. Tema mais sutil que o da escrava-puta,


onde o Dominador confere, de início, algum reconhecimento de dignidade da submissa. Nesse
tema se encaixam vários jogos psicológicos em que a submissa vai tendo comprovada,
sistematicamente, sua dependência e incompetência, descendo, nos casos mais graves ao
castigo físico. No nosso modelo patriarcal-colonial, diríamos que a escrava-puta é a da senzala,
e a "empregada" é a mucama da Casa-Grande. Pode estar no leito de Senhora ou no tronco...
Ainda é o tema do incesto com "filha do outro", mas há o prazer em elaborar mais o
ritual. Os ritos goreans às vezes são mais dessa escrava-empregada, por sua ritualização que
adia a violência explícita que se abate, inevitavelmente, sobre a escrava-puta... Os dois temas
anteriores derivam do tema fundamental: o incesto com a filha. O incesto com a filha é um
tabu masculino que tem seu paralelo no feminino tabu do aborto.
Os dominadores, quando se atribuem títulos, raramente usam Deus ou Pai (mesmo em
inglês). Preferem os institucionais Senhor, Dom, Mr, Sir... o que é uma injustiça para com o
nosso patriarcal, colonial e brasileiro "Painho"...
A dificuldade aqui - tal como nas dominadoras que evitam o uso de Mãe como prenome
- é a de não tornar explícito o que deve ser implícito. Não escancarar o apelo velado do
simbólico. Há em algumas relações Dominador-submissa a eclosão de um afeto. O homem,
que poderia simplesmente se apaixonar, antepõe a essa paixão a crueldade - novamente
Sade.
Seria o homem livre a ponto de romper todos os liames morais e usar a própria filha
como uma escrava-puta? Se esse homem encontrasse a submissa "ideal", a que desejasse ser
recebida como filha e ultrajada pelo pai, pela sedução de sua simples submissão... essa seria -
muitas vezes é - a combinação explosiva.

7. Dominação masculina e submissão feminina: patriarcalismo e rebeldia.


Enquanto é próprio da dinâmica feminina a intuição e a síntese, a dinâmica masculina se
fundamenta na previsibilidade e análise. Uma Dominadora entra na cozinha e volta de lá com a
primeira colher de pau que encontrou. O Dominador, por outro lado, passa horas estudando e
montando a unidade de choque elétrico na tensão exata para ferir e não machucar sua sub...
Se recordarmos a precisão milimétrica e paciente dos laços e nós do shibari,
compreenderemos a ansiedade masculina pelo desempenho, pela perfeição, ansiedade que
encontra seu conforto e sua catarse na submissa, que comporta-se como boa filha, obediente,
disciplinada, higiênica, para, num instante, ser jogada ao chão e usada como animal pior que a
escrava-puta... Disciplina e catarse. Ordem e caos. Esse é o anseio do pai rebelde contra a
civilização que o instituiu, cuja rebeldia máxima é estuprar a filha e ver em seus olhos não mais
que prazer... A Sociedade do Crime de Sade é a ordem a serviço da perversão, a civilização a
serviço da violência...
O fascínio da submissa em ser essa filha pode ser compreendido por dois mitos: a
submissa física, que corresponderia a Elektra, o amor ao pai como carne do pai e carne da
filha-amante-esposa (sim, ela chegaria novamente ao útero, o incesto que procria). De outro
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lado, a subserviência completa ao pai, vivida no plano afetivo moral, como Antígona, que
enfrenta as leis e a civilização para dar sepultura digna a seu irmão e, simbolicamente, a seu
pai, Édipo e seus ancestrais. O chicote ainda descerá sobre o corpo dessa submissa moral, mas
a dor será sempre a experiência de liberdade ante a civilização. A liberdade de Antígona se
rebela ante a civilização representada pelas leis de Creonte, seu tio, que não se esquece de
castigar-lhe devidamente a virtude.
Poderíamos pensar que o tema Dominador-submissa fosse o mais conservador, por se
fundamentar em regras vigentes do patriarcalismo. Isso é falso, ao menos em parte.
Dominador e submissa pervertem o patriarcalismo, fundado no princípio de "foder a filha dos
outros" e "não deixar que fodam minha filha".
Ao se passar por filha e escrava-puta, a submissa abre ao Dominador a perspectiva do
incesto, da corrupção do eixo de toda a moral patriarcal, que deu tudo ao homem apenas para
que ele não fodesse as próprias filhas. Quando amadurecida e bem sucedida, a relação
Dominador-submissa é a denúncia escancarada da insuficiência da civilização: o tesão vence a
ordem, o pai fode a filha, ela consente e tem orgasmos...

8. Homoerotismo masculino e sadomasoquismo.


A origem do homem é bastante controversa. Quando se encontram restos de ancestrais
humanos, encontram-se apenas restos de fêmeas. Alguns, não sem o devido bom humor
lembram que, afinal, "pênis não tem osso", porém, não é só pelo pênis, mas também pelas
dimensões ósseas, notadamente a adaptação da bacia ao parto, que nos fazem sugerir que
determinados ossos são femininos...
Seja por esse aspecto da paleontologia, seja pelo aspecto já anteriormente abordado da
experiência comum de todos termos passado por um útero feminino - e, portanto, termos sido
todos ao menos mulheres *em parte* - há em todos uma memória feminina, pois todos já
estivemos, concreta e simbolicamente, "contidos no feminino".
Uma visão bastante procriativa da sexualidade insistiria em chamar as relações entre
iguais de relação homossexual. Esse é o uso corrente, que, entretanto, encobre o fato de que
essa é uma visão procriativa e sexista da vivência sexual, bem próxima do determinismo
científico: somos seres determinados pela natureza e contra ela lutamos por meio da cultura.
A refutação - ao menos da versão ingênua dessa hipótese - pode ser encontrada em
qualquer sala de aula do ensino médio.
Procure por alguns estereótipos de garoto nessa sala: um que não gosta de jogar bola,
tem na sala duas ou três amigas que mais o protegem e o têm mais por colega do que como
possível "ficante" e outro, que espera ansioso o final da aula de educação física, onde, no
vestiário, muitas vezes é passivo para os demais colegas, usa brincos, sandálias e quando
provocado, imita Vera-Verão, de saudosa memória, rodando a baiana.
Lá estão eles, sendo bombardeados pela tempestade de testosterona da adolescência
masculina e lidando com a contradição do determinismo biológico: um está identificado com
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as mulheres, como um igual; outro, atraído pelos homens e buscando atraí-los explicitando já
na adolescência sua "homossexualidade", assumidamente o "viado" da turma.
Há um terceiro, que nós não vemos: o que tem um aspecto socialmente masculino, que
como as colegas do primeiro, o protege das gozações dos outros garotos e que, nas festas do
segundo, fica com ele, num quarto, no banheiro da escola e que, confuso, se sente atraído
mesmo pelas meninas...
Esses três garotos, presentes em praticamente todas as escolas do país, jogam por terra
o determinismo biológico da sexualidade. Para que caibam nos rótulos dessa visão sexista, na
vida adulta, o primeiro será chamado de enrustido, o segundo de assumido, o terceiro de
bissexual.
A falsidade desses rótulos está em aplicá-los apenas aos que se interessam, em algum
momento, pelos iguais.
O olhar um pouco mais seletivo sobre essa mesma classe de adolescentes encontraria
entre os "heterossexuais" as mesmas categorias: enrustidos, assumidos e bissexuais. Mas,
como aos olhos da cultura, a heterossexualidade "não é problema", essas três categorias
aplicadas ao heteroerotismo, passam desapercebidas. Ou, se algum garoto for heteroerótico e
enrustido, teremos a triste confusão de achar que, por ele ser enrustido, é homoerótico, o que
é um desastre frequente, pois buscará continuamente os parceiros errados.
A garota heteroerótica enrustida é tida por "normal", pois espera-se na sociedade
patriarcal que a mulher seja o mais frígida possível. Nesse caso, se ela for heteroerótica
assumida é que passará por "biscate", por "puta" da turma e até, por "sapatão" mesmo que
nunca chegue perto de outra garota.
Essa digressão toda vem para que coloquemos de lado o determinismo biológico e
voltemos nossa atenção para o fato de que a sexualidade, e não apenas o gênero, é também
uma construção cultural.
Livres da perspectiva procriativa, o que temos são corpos com capacidade de obter
estímulos que produzem prazer. Que estímulos são esses e o significado do prazer é tarefa
para os sexólogos e "psicocoisicos" (psicólogos, psiquiatras, psicanalistas...) discutir. Aos
demais, basta sentir.
O par "escolha do estímulo-significado do prazer" compõe a chave inicial do que
chamaremos de erotismo, o conjunto de fatores que nos leva a uma vivência do prazer
corporal que produz uma reação física determinada, o orgasmo.
Infelizmente não temos espaço aqui para discutir essas definições de orgasmo e
erotismo, que têm lá seus defeitos, mas que estamos usando para enfatizar bem o que é o
prazer corporal: uma reação obtida de estímulos *e* os significados que atribuímos a essa
reação (de nada adianta agora a "mecânica" do orgasmo, dissociada de sua significação).
Gostaria que me desculpassem por dar somente agora essa definição, mas a construção
desses textos foi absolutamente hipertextual: pulamos de um assunto a outro, sem a
linearidade que a lógica textual exige.
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Pela definição acima vimos que o que fizemos, em todos os outros textos foi discutir o
*significado* da experiência de prazer corporal obtida ao se infligir ou receber dor ou
simplesmente dominar e ser dominado, em diferentes dinâmicas sadomasoquistas, a partir
das construções culturais mais primitivas, o ser mãe, o ser pai - transmutando, mas não
superando completamente a perspectiva procriativa, dado que isso beira o impossível.
Compreendido o que é o erotismo, para fins desse texto :), podemos falar em
homoerotismo, heteroerotismo e pan-erotismo, sado-erotismo, maso-erotismo, verbo-
erotismo (um dos meus fetiches, por sinal....:)).
Em particular, como a dinâmica erótica masculina é definida, no patriarcalismo, em sua
identidade, por construções culturais - lembremos mais uma vez a interioridade do útero e a
exterioridade do pênis - a dinâmica homoerótica em geral e a dinâmica homerótica
sadomasoquista, em particular, passarão por análise semelhante à da dominação masculina
heteroerótica, fortemente baseada em *papéis sociais*, para, então, desembocar nos
aspectos físico-corporais.

9. Civilização e selvageria como tensões no homoerotismo masculino.


Nos dois casos anteriores, dominação feminina e dominação masculina, lidamos com
papéis derivados dos aspectos procriativos - mãe e pai - e vimos que o sadomasoquismo
extraía, em ambos os casos, muito de seu significado erótico da ruptura, ao menos simbólica,
de dois tabus: o aborto e o incesto. É verdade que, embora seja possível retornar à temática
do incesto, agora sob a relação pai-filho, essa temática só explicaria, parcialmente, o
significado do sadomasoquismo homoerótico, como veremos adiante.
Abro um parênteses (na esperança de evitar nova seção!) para mostrar aos alternantes
(switchers) mais aflitos que o tabu do incesto é o ponto de partida para a explicação dessas
relações, quando visto nas relações eróticas irmã-irmão. Por alternar os papéis de dominação
e submissão, esses parceiros incluem uma pausa lúdica que acrescenta fantasia sobre a
fantasia: "Agora você é o Pai e me domina", "Agora eu sou a Mãe e te domino"... como nas
brincadeiras de faz-de-conta da infância. Ao assumir o papel de "Pai", o irmão consuma o
incesto; ao assumir o papel de "Mãe", a irmã adentra ao poder do útero... e assim segue a
relação.
Também devo indicar que não me sinto plenamente em condições de analisar o
sadomasoquismo homoerótico feminino, pois creio que essa análise depende de alguma
vivência direta ou indireta, que não possuo. Mesmo assim, adiante farei algumas indicações.
No caso do homoerotismo, surpreende o seguinte fato: não há que lidar simbolicamente
com um tabu, porque o tabu já está explícito, há um tabu sobre a "homossexualidade", e, em
princípio, o sadomasoquismo não se constitui numa forma simbólica para a expressão
homoerótica, tal como acontece com o incesto e o aborto. Ou seja, no caso do homoerotismo,
a "tensão" do tabu já está rompida quando se dá a relação. Não é a relação que dará a vivência
"velada" do tabu.
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Também é verdade que, enquanto nossa cultura tem um repertório de papéis bem
definidos nas relações heteroeróticas que permitem uma clareza na hora de "romper" com
esses papéis, essa mesma cultura não propõe um repertório padrão para a relação
homoerótica, ou seja, o simples acontecer de uma relação homoerótica, já é, por si, a ruptura.
O que vamos encontrar nas relações homoeróticas é um padrão de dispersão de formas e
papéis. Tentaremos aqui achar elementos comuns nesses vários papéis que vão desde uma
relação incestuosa pai-filho (um padrão que aparece em alguns pares de gays-ursos) até à
relação de completa despersonalização do outro em objeto (os glory-holes, paredes onde um
parceiro passa seu pênis sem saber se há outro parceiro do outro lado e quem é ele).
Uma tendência inquietante do sadomasoquismo homoerótico masculino (abreviarei
para SHM) é que homens entre homens rompem facilmente com a civilização e retornam à
selvageria. Isso vai desde a queixa dos parceiros pela instabilidade e traições nos
relacionamentos (o casamento é uma instituição civilizada) e chega até a pratica do
sadomasoquismo, muitas vezes coletiva ou impessoal, em sessões de fisting ou spanking que
mais parecem uma matilha reunida numa darkroom do que uma organizada play-party. Há o
fato da expectativa de, entre homens, se esperar uma maior resistência à dor, resquício
machista ou patriarcal. Porém a prática sadomasoquista toma a relação Senhor-escravo a
partir da memória da relação de Guerra: Guerreiro-prisioneiro. O destino do guerreiro
derrotado é o de ser escravo. Ao poupar-lhe a vida, o vitorioso o aprisiona numa dívida sem
fim... e é assim, em última análise, que Senhor e escravo se posicionam. Entre esses guerreiros,
a civilização está rompida e o caminho da selvageria e da violência sem limites está aberto. O
destino da punição de um prisioneiro deveria ser o canibalismo. E eis aí o tabu envolvido na
relação SHM. Cabe ao mestre "comer" de formas simbólicas e físicas o escravo que o destino
lhe entrega nas mãos. É uma relação de dominação diversa da heteroerótica. Senhora-escravo
se relacionam por um útero e seu poder de vida e morte. Senhor-escravo se relacionam pela
guerra, pelo aprisionar e devorar o outro, o igual e o diferente, ao mesmo tempo, há apenas o
elemento comum da face da morte, em ambos os casos.
A coletividade e impessoalidade da guerra fazem com que as ligações Senhor-escravo
sejam bem mais fracas do que os pares heteroeróticos, pois seu pressuposto é o curto prazo. O
fim da guerra, a decisão de quem vence e quem é derrotado, o espólio, o estupro e o
canibalismo. Fim.
Nada de relações muito duradouras, como acontece inclusive no homoerotismo
"baunilha". Esse tema, selvagem e violento, é repetido à exaustão até mesmo nos filmes de
SHM. Impressiona o apego do masculino ao desempenho. O escravo se esforça por se superar
na tolerância a dor. Um guerreiro que quer ser provado. O Mestre se esforça por se superar na
crueldade, na exibição do domínio, em deixar claro quem domina... Sobre esse tema intenso e
de curta duração, se constrói, à semelhança da relação Mestre-empregada, uma relação
Senhor-servo, de mais longa duração. O caráter servil é diferente do prisioneiro condenado ao
canibalismo, Já é um indício de civilização, de relação que se institui em torno à propriedade.
Porém, a violência física será sempre bem mais explícita e as violações bem mais fortes do que
as que cercam a sub-empregada ou a sub-escrava-puta. Enquanto uma Dominadora castra
para que o filho não a violente, o Mestre castra apenas para exibir poder, para provocar mais
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uma morte simbólica. Castrado, mas não morto, o prisioneiro passa a servo e mantém a
relação de subserviência ao mestre. Observem que, curiosamente, no estágio mais próximo da
civilização, a relação pai-filho, que é por si complicadíssima (Édipo, lembrem-se, *matou* o
próprio pai), *diminui* a intensidade SHM.
A temática ursina - os gays ursos - é antes de tudo uma temática de proteção, de afeto,
de tudo o que o patriarcalismo vetou aos pais e filhos. Nesse caso, o carinho é a ruptura do
tabu de que "homem não pode ser afetivo com homem". Notem como na relação de incesto
Pai-filha, acontecia o oposto: castigar a filha, discipliná-la, chicoteá-la eram formas simbólicas
do estupro paterno desejado pela filha, que muitas vezes o Senhor consuma na serva desejosa.
Agora, entre pai-filho, abre-se uma via de afeto, que quase distancia essa experiência da
dominação SHM, por se enojar da violência que a cultura entende como "masculina".

10. Paradigmas(?) do SH.


Além do chocante e trágico "caso Édipo", devemos evocar o sempre lembrado amor
entre Davi e Jônatas, que não impediu que, ao final, Davi levasse Jônatas à morte (afinal
estavam em lados opostos de uma guerra). Poderíamos lembrar de Átila, o Huno e o não
menos memorável Vlad, o empalador, predecessor de ninguém menos que Drácula. Embora os
delírios do amor romântico façam de Drácula um mordedor de pescoços femininos, Vlad se
alegrava em empalar guerreiros pelos campos...
Evidentemente, o primeiro paradigma é do próprio guerreiro canibal.
Na medida em que chegamos próximos à civilização, os homens se "des-hominizam" e
se tornam ursos, e o paradigma ursino é encontrado em infinitas e bem-humoradas parcerias
masculinas que negam essa selvageria canibal (o paradoxo de ser urso e não-selvagem :) ) que
divertidamente (e por absoluta falta de outro bom exemplo) poderíamos chamar de
"Paradigma Zé Colmeia e Catatau", fundamentado na amizade, na definição da liderança por
deixar o outro ser quem é.
A alusão ao guerreiro canibal nos faria lembrar o nazismo, mas o nazismo representa um
estágio de doença da própria civilização: da impessoalidade da matilha coletiva o nazismo
implantou a impessoalidade do exército do Estado. Da catarse da orgia canibal restou apenas
um "civilizado" a cumprir ordens, sem prazer de matar, matar burocraticamente, assar e não
comer. O nazismo foi a negação da volúpia e do prazer selvagem da guerra para torná-la um
produto industrial, racional e insosso. É o paradigma anti-erótico por excelência.
Devemos evocar a negação ursina da selvageria-mortandade em um outro fato histórico
sempre lembrado: convidado a uma caçada de ursos, o Presidente Ted Roosevelt não
conseguiu matar nenhum. Os puxa- sacos, prevendo que isso talvez acontecesse, deixaram um
pequeno urso acorrentado, para que o presidente pudesse matá-lo. Ted recusou-se a cometer
essa atrocidade, por julgá-la covarde e, por essa razão, em inglês, os ursinhos de pelúcia são
chamados de "Teddys". "Não matar quem é incapaz de combater" e "devorar apenas quem
poderia me vencer" são os pilares da ética SHM em qualquer de seus modelos...pois esses dois
princípios selvagens definem os "iguais" de que fala o homoerotismo masculino.
440

É provável que o sadomasoquismo homoerótico feminino siga os moldes semelhantes


aos do "guerreiro canibal", sucesso de guerreias como Xena fazem a cabeça de muitas
dominadoras e suas escravas. Porém, pela possibilidade de passagem da submissa a
dominadora, o sadomasoquismo homoerótico feminino - SHF - poderia também ter uma
característica de iniciação: os rituais de preparação de uma mulher para que ela pudesse
chegar a exercer o seu poder uterino. A mãe que faz a filha descer aos infernos, como
aconteceu a Perséfone, pode ser uma boa indicação, mas realmente isso demanda mais
estudo e mais relatos das mulheres que vivem essa experiência.

11. Dos ruídos da masmorra.


Evidentemente, as relações concretas são bem mais complexas que o que pudemos
discutir. Daí o caráter sugestivo e não conclusivo desta reflexão. Os temas estão presentes mas
percebê-los ou não, vivê-los ou não depende do que buscamos no sadomasoquismo. O mais
das vezes nossa condição é tão angustiante, que bastam-nos o espancar ou o ser espancados
para que tudo se aquiete em nosso interior. Seria bom que cessassem os dicursos e tudo o que
pudéssemos ouvir fossem chicotes e gemidos...mas quando tudo se aquieta na masmorra,
inevitavelmente, conversamos...

Por #dumuz#_RF

Amor e BDSM - Condição essencial?


jullia

Quando a beea me pediu que escrevesse sobre


esse assunto, sabia que iria enveredar por um terreno
pantanoso, uma vez que iria lidar com dois paradigmas
muito poderosos na vivência de cada um de nós: o
amor e o BDSM.
De um modo geral, pela minha experiência pessoal e pelo que vejo da dos outros, o
BDSM surgiu na vida de cada um de nós como resultado de um processo mais ou menos
intenso, mas sempre libertário. Escravas ou Mestres, submissos ou Dominadoras, para a
maioria de nós o BDSM representa a possibilidade insuspeitada de viver uma fantasia que não
sabíamos até então poderia ser experimentada como algo inteiramente são, seguro e
consensual. A descoberta disso, via de regra, transborda de entusiasmo. É como se enfim nos
livrássemos dos preconceitos, menos os alheios e mais os nossos próprios. Mas sempre que a
humanidade (e cada pessoa em particular) se livra de algo que lhe oprime, a tendência inicial é
rejeitar completamente o que antes lhe sufocava. E o que nos impedia de alcançar a liberdade
da vivência BDSM?
441

Bem, essa questão é bem pessoal, mas creio que no âmago de cada resposta em maior
ou menor grau está um pouco do ideal do amor romântico, aquele amor sublime, que não traz
o paradoxo do ódio dentro de si, que é apenas enlevo e alegria, que é celebrado nos
matrimônios, nas letras de música, nos poemas de todos os tempos, nos romances, no cinema,
no palpitar dos corações adolescentes (e dos nem tanto). Dentro do ideal do amor romântico é
impossível pensar que alguém que me ame possa comprazer-se em êxtase como meu
sofrimento. E como eu posso amar alguém que me tortura? Desse modo, muitas vezes foi
preciso questionar (e negar) muito esse ideal de amor para se chegar à possibilidade da
experiência BDSM. E aí, muitos de nós vangloriam-se por dissociar o amor (qualquer amor) do
BDSM, inclusive tratando com um certo desprezo, mais ou menos sutil, aqueles que se dizem
amorosamente envolvidos com os seus parceiros nos jogos BDSM, pressupondo que quando
tais sentimentos não estão presentes nas relações, o jogo é mais maduro, mais puro, mais
"essencialmente" BDSM.
No entanto, nesse ponto, acho que me cabe comentar, há amores e amores. Formas
inúmeras de amar, talvez tantas quanto sejam as pessoas no mundo. Dizendo isso não
pretendo me eximir do cerne da questão, relativizando tudo e portanto não afirmando nada.
Afirmo, sim, que no meu entender o amor é condição essencial para viver o BDSM. Mas não
me refiro aqui ao ideal do amor romântico, até porque nesse eu não acredito. Também com
isso não pretendo retroceder no que a maioria de nós, mulheres, conquistamos nas últimas
décadas, ou seja, a capacidade de dissociar sexo de amor. Embora algumas espécimes
remanescentes ainda não tenham tido o prazer dessa descoberta, a maioria de nós já sabe que
é possível (e muito prazeroso) o sexo pelo sexo, sem necessidade de maiores sentimentos
envolvidos. Inclusive o sexo BDSM.
Não é disso que trato aqui. Para dizer do que trato aqui, tentarei falar sobre o que
significa o BDSM, do meu ponto de vista:

1. Antes de tudo, entrega irrestrita. Não consigo imaginar um relacionamento BDSM


onde há espaço para algum canto escuro, secreto, intocável, sagrado. Não há nada que
possa ser pensado, imaginado, vivido, fantasiado, mas que não possa ser dito ao outro.
2. Desse modo, o BDSM também significa confiança absoluta, porque não se partilha
nossas sombras com alguém em quem não se possa depositar total confiança.
3. É preciso cumplicidade, sintonia, afinidade para submeter-se a uma outra pessoa,
para seguir na trilha que ela indicar, para colocar o prazer do outro acima do nosso (sabedores
que já somos de que ali estará, ao final, também o nosso prazer).
4. É preciso muitas vezes uma determinação férrea para suportar a dor (especialmente
aquela que realmente não buscamos - pois sabemos que para nós é muito fácil rir com
prazer da maioria das dores que nos infligem), e uma imensa força de vontade para
retirar dessa dor verdadeira (dessa "dor pura" digamos assim) um prazer real, já que é
essa a nossa glória e o nosso suplício.
442

5. Por fim, é preciso um respeito profundo, muito tesão e um interesse constante pelo
outro para que palavras seguras sejam ditas e sejam recebidas, sem que a natural e
mútua frustração se transforme em mágoa, ressentimento, cansaço ou desânimo.

Para mim, entrega irrestrita, confiança, cumplicidade, sintonia, afinidade, determinação,


força de vontade, respeito profundo, muito tesão e interesse constante nada mais são que
outro modo de falar, em conjunto, de AMOR. E talvez se há alguma divergência entre nós, essa
seja apenas de terminologia. Percebo, que acabei construindo um outro ideal de amor, menos
ingênuo talvez, menos maniqueísta, já capaz de incluir em sua estrutura sentimentos menos
"nobres" como o ódio, a raiva, a força do poder, mas nem por isso menos ideal. No entanto
isso só reforça o pensamento de que é de amor que estamos tratando aqui, pois qual a
matéria de que é feito o Amor senão o Ideal?
Na prática, nada é assim tão simples, e a determinação férrea muitas vezes se confunde
com resistências férreas, a entrega irrestrita às vezes se confunde com o medo da perda, a
sintonia se abraça com a acomodação, a força de vontade vira teimosia, e é preciso doses
extras de paciência e tolerância para não perder o rumo. Mas amor é assim mesmo, cantado
na prosa e no verso sempre soa diferente do que se vive dentro da pele - mas aí já é tema para
um outro colóquio...
jullia

Para Que Serve O Amor?


Konstantin Gavros

A cultura impregnou nossas consciências de tal


maneira que só conseguimos aceitar nossas pulsões
sexuais depois de racionalizá-las. Ou melhor, depois de
passá-las pelo filtro da autocensura.
E não me refiro aqui ao raciocínio frio,
supostamente lógico, que, reconhecendo e aceitando a
necessidade manifestada pelo corpo, distancia-se de seus
instintos, analisa a real medida deles - bem como a
possibilidade de satisfazê-los - e, a seguir, parte para a
realização do seu desejo ou da sua fantasia. Não, não é
esse processo mental que analiso. E não o faço pelo
simples fato de ele não existir. Infelizmente, o animal
humano ainda não se mostrou capaz de agir dessa maneira, nem mesmo quando filosofa, nem
mesmo quando pretende erguer um monumento de novas ideias, cujo objetivo último seria
melhorar a vida de seus semelhantes. E se há sempre um outro eu por detrás das nossas
443

ideias, dos nossos julgamentos - ou seja, se a isenção e a imparcialidade são impossíveis -,


então não poderia ser diferente em relação aos nossos desejos mais íntimos.
No caso específico do sexo, o filtro da autocensura não só nos impede de agirmos de
acordo com o que verdadeiramente desejamos, mas impregna nossas ideias e nossos
julgamentos com todos os recalques e preconceitos que as camadas da cultura, sobrepondo-se
uma à outra no transcorrer da história, têm poluído e maculado a consciência humana.
O instinto - e a paixão nascida desse impulso - não são mais forças livres. No substrato
de cada mínimo gesto encontramos os pequenos ódios, as mesquinharias e os medos que
nossas famílias, a escola - e, portanto, o Estado - e a religião inocularam em nós. E se os
carregamos em nosso ser, trazemos também conosco, como uma consequência natural e
infeliz, nossas neuroses e nossas fobias, nossas inseguranças e nossa timidez, nossas
justificativas tolas e covardes para o Não que dizemos a nós mesmos repetidas vezes, nossa
repulsa em relação ao Outro e o asco que devotamos a todos os que são diferentes de nós.
A maioria dos animais humanos consegue se conter, é claro, consegue até mesmo
ludibriar essas forças antagônicas que rasgam a nossa carne minuto a minuto - mas a que
preço! Nosso consciente fustiga, momento a momento, os porões do cérebro em busca de
desculpas razoáveis - para nós, para nossas famílias e para o grupo social a que pertencemos -,
a fim de justificar - ou apenas silenciar - os uivos e os gemidos que a libido emite a partir dos
nossos corpos. E em nossa furiosa luta para domesticar o animal que carregamos em nosso
ventre - essa luta ultrajante que a cultura nos impõe - passamos a sublimar o sexo, passamos a
edulcorar nossos desejos sexuais, chegando a purificá-los com tal exagero que acabamos por
criar o mito do amor.
Amenizamos a força de nossa libido até chegarmos ao ponto em que vivemos hoje,
quando o sexo em estado puro, ou seja, a relação casual e fortuita com os mais diferentes
parceiros, com o objetivo único de copular e satisfazer-se por meio do orgasmo, tornou-se
uma prática marginalizada pela sociedade. Uma marginalização, infelizmente, reforçada pela
Aids.
O prazer pelo prazer é aceito entre nós, dessa forma, com imensas reservas, apenas em
momentos de exceção, em datas festivas nas quais a liberalização e a ausência de censura
tornam-se, magicamente, um consenso. Fora desses curtíssimos períodos - incentivados pelo
mercado de consumo e por suas ferozes aliadas: a propaganda e a mídia - a busca do prazer
gratuito, isto é, destituído dos laços do amor, transformou-se em uma prática que deve ser
relegada às sombras, aos becos sujos, aos ambientes fechados e de público restrito, aos motéis
e às ruas escuras ou de pouco movimento. Ou a grupos restritos, minorias que conseguiram, a
fim de garantir sua sobrevivência social, instituir um código próprio de regras, sinais e
comunicação.
Mas, mesmo no interior desses grupos, há um significativo número de pessoas que
insistem em inocular, nas relações sexuais que travam com seus companheiros, o germe do
amor. Escravos das regras impingidas pelo Estado, pela família e pelas religiões, eles não
conseguem aceitar que a satisfação de suas pulsões sexuais possa ocorrer de forma
444

absolutamente descomprometida e desdobram-se em sucessivas e quase insanas tentativas de


criar laços.
E essa talvez seja uma herança, mais do que cultural, biológica. Vários antropólogos nos
oferecem o resultado de suas pesquisas, atestando o comportamento monógamo - ou
parcialmente monógamo - de alguns dos primatas. Contudo, pergunto-me, não seria
exatamente essa a mais forte das razões para nos afastarmos, conscientemente, da repetição
condicionada de um comportamento marcado somente pela necessidade de sobrevivermos
frente às leis insensíveis da evolução?
A promiscuidade, portanto, ainda é vista com reservas até mesmo no seio de
comunidades que se intitulam libertinas. Há um delicado - mas indisfarçável - preconceito
nessa maneira de olhar e avaliar, com silenciosa censura, aqueles que saltam de parceiro a
parceiro, sempre insatisfeitos, sempre em busca de novas experiências, sempre prontos a
exercer seu direito de copular com quem desejarem, sempre alegres, sempre isentos de
qualquer culpa, sempre escandalosamente leves e felizes.
A liberdade desses corajosos animais humanos incomoda e fere o íntimo dos que ainda
se encontram apegados às regras frias da monogamia, que a moral usa rotular - com o apoio
da religião - de fidelidade. A recusa à monogamia é uma afronta à ordem e à aparente
tranquilidade burguesas.
O comportamento verdadeiramente libertino é uma afronta para aqueles que escondem
seu puritanismo sob uma falsa capa de licenciosidade.
Mas a verdade é que o amor nos diminui. Em um primeiro momento, ele nos serve
como desculpa para termos à mão as satisfações sexuais que buscamos. Mas depois,
escravizados em um círculo no qual, em seu centro, brilham apenas as brasas semi-apagadas
da paixão, no fundo nos arrependemos do muito que abdicamos em seu nome.
À segurança e à estabilidade emocional e material que as relações duradouras nos
trazem, correspondem, elevadas a uma indescritível e maligna potência, a frustração, o vazio e
a incerteza em relação às súplicas da nossa libido. O amor torna-se, assim, a desculpa dos
tímidos, dos fracos e dos inseguros à pujança da vida.
O amor é um Não, disfarçado em Sim, à energia sexual que, indomável, flui em nossos
corpos.
Seria o amor a única saída para nós, se pretendemos sobreviver enquanto espécie? Não
creio. Talvez o animal humano encontre, no ato de escravizar-se a um único companheiro,
certo indecifrável prazer masoquista. Talvez a absoluta liberdade - frente aos outros e a nós
mesmos - seja um peso que nossa espécie ainda não evoluiu o suficiente para suportar. Mas,
com certeza, a recusa ao prazer destituído de amarras sentimentais é apenas o ranço de uma
civilização cujos valores judaico-cristãos perdem força, de maneira imperceptível, a cada dia.
445

Konstantin Gavros é escritor.


Assina, diariamente, o blog A verdade é o sexo, o sexo a
verdade(http://sexoverdade.blogspot.com/)

Vai passar?
Beea

Passou longe dos noticiários um simpósio da Sociedade Americana de Psiquiatria


realizado em São Francisco, em maio do ano passado, onde a pauta discutida foi se algumas
categorias de "doença mental" deveriam ou não continuar fazendo parte das próximas edições
do DSM (Manual de Doenças Mentais) editado por aquela associação.
Entre as doenças mentais discutidas naquele evento estavam todas as parafilias,
incluindo pedofilia, exibicionismo, fetichismo, transvestismo, voyerismo, sadomasoquismo e
distúrbio de identidade de gênero.
O debate que está sendo – ainda - travado torna-se mais importante na medida que este
manual tornou-se referencia para a psiquiatria em todo mundo e , muito mais delicado,
quando nos lembramos que o assunto está sendo discutido num pais onde a sodomia ainda é
crime.
Charles Moser, nosso já conhecido medico simpatizante do SM, autor de livros sobre o
assunto e representante do Instituto para Estudos Avançados da Sexualidade Humana
juntamente com Peggy Kleinplatz da Universidade de Ottawa apresentaram uma veemente
defesa da retirada das parafilias, num estudo de nome DSM-IV-TR e as parafilias.
O argumento deles é simples: ter interesse sexual atípico, culturalmente proibidos ou
religiosamente proscritos não pode ser motivo para uma pessoa ser rotulada de doente
mental.
A verdade é que diferentes sociedades estigmatizam diferentes comportamentos
sexuais. Fora isso, um dado muito importante é que ate hoje, pesquisadores não conseguem
distinguir pessoas com parafilias do resto da população "normofílica" - termo que os autores
usam para qualificar pessoas com interesses sexuais convencionais.
Não existe motivo para haver um diagnóstico parafílico, portanto.
Alem disso, Moser também chamou atenção para o fato de que não existe ate hoje uma
linha de base ou um modelo teórico do que seria, de fato, uma sexualidade normal e saudável
com a qual pudesse se comparar pessoas com interesses sexuais tendendo, por exemplo, ao
sadomasoquismo.
Na edição de dezembro/2003 da prestigiosa revista Archives of Sexual Behavior Moser
acaba seu artigo reforçando a ideia que para eles é muito clara: que qualquer que seja o foco
de interesse sexual de uma pessoa, isso pode ser vivido de maneira saudável, de forma plena e
totalmente positiva.
446

Os métodos de diagnóstico psiquiátricos mudaram.


A Associação de Psiquiatria Americana classifica uma condição como doença mental
baseado em suas origens psicológicas, emocionais ou de desenvolvimento juntamente com as
motivações inconscientes que teorizavam essa condição. Mas a verdade é que nas ultimas 3
décadas, a psiquiatria deixou de ter confiança nas teorias tipo causa - efeito que tipicamente
nunca puderam ser comprovadas e saiu a buscar evidencias empiricamente prováveis, não das
origens patológicas de uma condição em especial mas sim de seu efeito incapacitante no
presente.
E isso é importante porque geralmente não é considerado desordem mental se não há
evidencia de inaptidão incapacitante no portador de uma condição especial.
Pessoas com interesses "sexualmente incomuns", podem estar vivendo, na realidade,
bem felizes e bem ajustados. Ao rotulá-los como patológicos, a APA coloca-os como alvo de
discriminação e isso sim é causa de stress e pode ser danoso ao perfil psicológico de qualquer
um.
Ficamos aqui pensando como a APA, que não tem nenhum conceito do que seja
"sexualidade saudável" ou até mesmo o conceito de uma "personalidade saudável", pode
querer definir sexualidade "não saudável"?
Na medida em que as pessoas engajadas nestes comportamentos não usuais são
capazes de viver suas vidas de maneira adequada dentro de seus próprios interesses, como
pode a APA continuar patologizando essas situações é a pergunta que Moser e Kleinplatz
deixam no ar ao finalizarem a defesa de seus pontos de vista, afirmando que a situação dos
parafílicos no momento atual tem paralelo ao enfrentado pelos homossexuais antes da
retirada desta condição do DSM.
Vai passar?

Beea
beea@desejosecreto.com.br

A íntegra do artigo de Charles Moser e Peggy Kleinplatz, "DSM-IV-TR and the Paraphilias:
An argument for removal", está a disposição de quem tenha interesse no assunto.

O que é Gor?
tavi{CS}

Literatura
447

Essa pergunta admite várias respostas porque GOR não se limita a uma única
compreensão. A forma mais simples de responder talvez seja dizendo que GOR é um mundo
de ficção, criado pelo filósofo e escritor John F Lange, sob o pseudônimo de John Norman.
Nesse planeta ele ambienta sua série de 26 livros conhecidos também como “As Crônicas da
Contra-Terra”. Em GOR, a escravidão é instituída e bem aceita como um dos três pilares da
sociedade. As escravas Goreanas são conhecidas como kajiras e pertencem, sem qualquer
reserva ou condição, a seus Mestres.
Os livros de John Norman não estão mais sendo publicados. Nos Estados Unidos, a
editora de John Norman sofreu grande pressão e vários boicotes até falir por completo. Com
medo de terem o mesmo fim, os editores passaram a rejeitar essas obras. A ilusão da
liberdade de expressão na América foi desmentida por esses eventos. Há uma frase de John
Norman bastante conhecida: “Não é preciso queimar os livros se os impedimos de serem
publicados”.

Grupos Goreanos
Os leitores, fascinados pela ideia e pela filosofia contida nos livros, criaram grupos em
diversos países. As sociedades Goreanas tem crescido e se espalhado pelo mundo em três
formatos: Algumas delas são puramente virtuais e realizam sua existência apenas em salas de
chat onde a liturgia Goreana é a regra obrigatória. Isso é chamado de “Online Gor” e é um
ótimo meio para se aprender um pouco mais sobre o tema (ainda que de maneira superficial).
Alguns grupos reais também vivem como em um jogo, aplicando regras tal como se
apresentam nos livros em seus encontros. Esses (tanto os virtuais quanto os reais) constituem
o primeiro tipo de Goreanos, chamado de ROLE PLAYER (JOGADOR) Mas é comum que alguém
que realmente se interesse pelo assunto busque, mais cedo ou mais tarde, por um
aprofundamento filosófico. Isso só se dará com a leitura e análise dos livros. Existem então,
para esse fim, grupos destinados ao estudo da FILOSOFIA. Por último teremos os LIFESTYLERS,
que aplicam a Filosofia Goreana a sua vida quotidiana e muitas vezes em seus grupos
fechados.
Esses três formatos admitem combinações e, embora dificilmente um Filósofo seja um
Role Player, é bastante comum que haja algum tipo de Role Playing entre os Lifestylers, em
maior ou menor quantidade, dependendo do grupo. Muitos Filósofos aplicam o que aprendem
na sua vida, passando de estudiosos a Lifestylers também. As classificações servem apenas
para facilitar o entendimento sobre três tendências. Porém sabemos que essas tendências, na
vida real não são puras. Existe uma certa mobilidade entre os estilos

A questão do mérito entre Goreanos e os tipos de leitores


O tempo de experiência com Gor não necessariamente fará de alguém um grande
conhecedor. Muitas pessoas podem permanecer em grupos não muito exigentes sem nunca
compreender ao certo as implicações da Filosofia Goreana.
448

Uma pessoa pode ter lido vários livros da série Goreana sem nunca entender o que eles
refletem. Existem dois tipos básicos de leitores: Os que lêem por entretenimento apenas e os
que buscam compreender o que há por trás da história (observando o contexto histórico, a
biografia do autor, o simbolismo intrínseco do livro e o uso de ironia, por exemplo). O leitor
filósofo deve ver sempre além das palavras e situações descritas. O importante não é a história
que se apresenta, mas o que ela quer dizer de forma mais global, como obra, crítica social e
representação de certa forma de se ver o mundo.
Um exemplo clássico onde as pessoas se confundem muito frequentemente diz respeito
a uma das bases inegáveis da Filosofia Goreana.Uma das grandes preocupações de John
Norman é a de expressar que Homens e Mulheres são diferentes, não apenas na biologia. No
BDSM, temos apeptos da FEM DOM, que acreditam na dominção como sendo papel do sexo
feminino. Já para John Norman, existe uma natureza masculina e uma feminina. A masculina é
a de liderança. A feminina é de submissão (resumindo-se muito, apenas para concluir). Para
argumentar em favor dessa teoria, John Norman permite em seus livros a existência de
Mulheres Livres e de Escravos. O objetivo é demonstrar que o ser, fora de seu lugar natural é
incompleto. As mulheres livres nos livros frequentemente resenten-se por não terem a seu
lado uma figura masculina forte para conduzi-las. Um ótimo exemplo disso é a Tatrix de
Tharna, Lara, que governa a cidade, mas sonha com um homem que a domine. Quando Tarl
(personagem condutor da saga) parte, Lara o pede para que se algum dia ele tiver interesse
em ter uma escrava, que ele se lembre dela, a Tatrix de Tharna.

O respeito acima de tudo


Um conceito muito presente nos livros é o de sinceridade sobre o que se é e sobre
nossas próprias limitações. É comum a mensagem de que devemos nos conhecer e respeitar a
nossa essência. O bom e velho clichê do “Seja quem você é” parece estar presente no
Goreanismo. Penso que isso implica em se aceitar não somente nossa essência, mas também a
forma de ser de quem nos cerca.
Como não existe imparcialidade total, por mais que tentemos obtê-la, é importante
dizer que este, e qualquer outro texto meu sobre GOR não é e nem pretende ser palavra final.
Para mim, Gor é muito mais do que um fetiche, e quanto mais me aprofundo na leitura e
crítica, mais entendo a complexidade e abrangência dessa filosofia. Sou submissa e
masoquista, mas também estudante de letras (Inglês) com ênfase em Literatura e Linguística e
minha paixão por Gor vai bem além dos campos do fetiche. Penso que John Norman e os
grupos que abraçaram GOR, sejam Role Players, Filósofos ou Lifestylers, fazem parte de um
movimento de contra-cultura que nasceu em resposta aos excessos do feminismo e a uma
criação que em muito poda a essência masculina. Havendo opção e respeito, seja qual for a
forma de pensar, cada um faz suas próprias escolhas. Ser bem sucedido é ser quem você é, e
não um escravo do sistema.
Well wishes!
+tavi{CS}
449

Técnicas
Esta seção abrigará textos referentes às diversas técnicas que
tornam o mundo BDSM extremamente sedutor. Cada uma delas, com suas
particularidades, será aqui analisada e discutida de forma séria e
responsável. As contribuições que contemplarem tais requisitos básicos
serão muito bem recebidas.

Conhecendo os mistérios do shibari18

Para entendermos o shibari - ou bondage japonês - é importante entender, antes de


mais nada, a maneira japonesa de pensar e quais os objetivos que os amantes dessa arte
esperam alcançar.
Na cultura japonesa, o grupo é
sempre mais importante do que os
indivíduos que constituem esse grupo.
Neste caso, o grupo é você e sua
parceira; e o bondage é o resultado de
um esforço conjunto desse grupo. O
sucesso de um bondage é determinado
pelo valor que os parceiros colocam
nesse ato. É a habilidade, o
conhecimento e a técnica do amarrador
unidos à capacidade da(o) parceira(o)
de enfrentar, suportar e lidar com as
amarras.
Os efeitos psicológicos do bondage japonês são incríveis. Não somente sua(seu)
parceira(o) sentir-se-á totalmente exposta(o), à sua mercê, mas também estará
constantemente - e de maneira crescente - excitada pelo efeitos eróticos das cordas. Isso é
maravilhoso e, ao mesmo tempo, embaraçoso, porque além de sua parceira não ter como
controlar essa sensação de excitação crescente, também sabe que isso não é o suficiente para
satisfazê-la e vai acabar pedindo - e muito provavelmente implorando! - por mais.
Interessante, não?

18
Não consta neste texto o nome do autor
450

E como você pode, muito facilmente, usar o shibari básico em qualquer situação,
inclusive na rua, as oportunidades deste jogo aumentam de maneira incrível. Estonteante,
seria uma palavra adequada, não?
Uma outra característica interessante do shibari é que a corda, ao contrário do couro ou
das algemas de metal, sempre deixará sua parceira com a ideia de que poderá escapar.
Contudo, se o seu bondage for bom, ela poderá se debater, mas não vai
conseguir escapar. Mas sempre tentará. Isso deixa a maioria das mulheres
brigando com a questão de submeter-se de vez (frustrante) ou colocar mais
esforço ainda para livrar-se das cordas. Com um detalhe: quanto mais se
debater, maior será a estimulação erótica a que estará submetida.
Existe no shibari, uma integração complexa de vários objetivos: a
imobilidade, a instabilidade, a exposição, a dor, o desconforto, a
humilhação, a incerteza e a estimulação erótica sem alívio.
Óbvio que nem todas as cenas de bondage conseguem combinar todos esses estímulos
ao mesmo tempo. Mas todo bondage tem, sempre, a combinação de dois ou mais desses
elementos.
Não é para menos que, de uma maneira geral, o bondage é, disparado, a prática com
maior número de amantes dentro do universo BDSM.
No Japão, o shibari tem um sucesso imenso. Existem literalmente centenas de
publicações de todo o tipo: revistas semanais, livros, filmes, exposições de fotos em galerias de
arte e programações ao vivo. E por programação ao vivo entenda-se tanto locais de encontro
como exposições com modelos ao vivo. Que pagam para serem amarradas(os) por mestres do
shibari. E não é barato!
Mas, é claro, para a boa prática do bondage é
necessário treino, treino, e treino. De quem amarra e
de quem é amarrado.
A pessoa envolvida no papel receptivo (passivo,
botton, submisso, escravo) deve ter noção do que é
estar imobilizada, do que é estar exposta, do estar sem
defesa, saber negociar, ter muito respeito próprio,
confiança no parceiro, e ambos precisam aprender a se
entenderem da maneira mais completa possível.
Mas o parceiro ativo (dominador, top, mestre)
também tem muito a aprender e treinar. Precisa ter
uma personalidade balanceada e ser capaz de abrir mão
de suas motivações pessoais em favor do esforço do
"grupo". Apesar de estar no papel ativo e de ser líder do, digamos , time, e líder na ação, ele
tem que entender que só existe liderança se houver
alguém para ser liderado. Time é isso. Grupo é isso.
451

Este treino é, por si só, um dos aspectos mais importantes e chamativos do bondage
japonês. Treinando juntos para conseguir seus objetivos, o que pode demorar anos, é mais um
motivo de prazer para os parceiros envolvidos neste processo. Porque é um processo contínuo
de aprendizado e melhora. O shibari diz respeito a encontrar um equilíbrio, encontrando
o optimum entre os parceiros, não omaximum. Nunca esquecendo que o perfeito equilíbrio
entre parceiros, o optimum, na maneira japonesa de pensar, é o máximo!
(continua na próxima semana)

Conhecendo os mistérios do shibari 2ª Parte19

O shinju

Shinju significa pérolas e é a palavra japonesa para seios.


É, também, por isso mesmo, o nome de uma das formas mais básicas e sensuais do
bondage japonês. Pode ser feito de diversas maneiras, dependendo do propósito com que é
feito, e pode ser usado por baixo de roupas, criando com isso oportunidades incrivelmente
sensuais e sadomasoquistas.
O shinju necessita de 3 pedaços de cordas não muito longas.
Vamos por etapas:
1. Passe em volta do dorso de sua sub, logo abaixo dos seios, o primeiro pedaço de
corda. Esta corda deve tocar os seios. Não aperte muito, mas cuide para, a cada volta da corda,
apertar de maneira igual a anterior e, da mesma forma, a próxima. Quando acabar de dar as
voltas, amarre as pontas desta corda com um nó lá atrás, bem perto da espinha, mas ao lado
dela, e NÃO sobre ela.
2. Pegue a segunda corda e faça a mesma coisa, só que comece envolvendo o dorso
na parte superior dos seios.
Não está difícil, não é? Olhe o seu trabalho. Já esta parecido com o shibari das fotos que
você costuma ver, não é mesmo?
Vamos, então, para a terceira e última corda.
3. Dobre esta corda ao meio e passe entre os seios, por baixo daquela primeira, a
que está logo abaixo dos seios. Enrole a corda em si mesma duas ou três vezes, passe uma das
pontas por baixo e a outra por cima da alça que passa pela parte superior dos seios e leve, em
forma de "V",em direção aos ombros e, depois, para as costas.

19 O nome do autor não consta nesse texto


452

Chegando lá, puxe os dois pedaços de cordas o suficiente para levantar um pouco os
seios (lembre-se onde está ancorada esta corda) e termine amarrando ambas as pontas em
cada lado da espinha, tendo o cuidado, novamente, de não deixar que os nós se fixem sobre
ela.
O shibari, que tem suas origens na Idade Média, quando foi criado como uma técnica de
tortura, conserva regras que, como em outras tantas torturas orientais, são as mesmas: tempo
e repetição. No moderno bondage erótico oriental o tempo também
é um fator muito importante. Use o tempo... com tempo. E dê
tempo ao tempo para o efeito do shinju se fazer sentir.
Esta simples técnica de amarração que acabamos de aprender
cria uma certa tensão erótica, causada principalmente pelas cordas
envolvendo os seios e passando pelos ombros, além dos nós, que
estão colocados em pontos conhecidamente sensíveis. Aos poucos,
quase que com a lentidão própria do zen,
os seios e os mamilos vão ficando cada
vez mais sensibilizados, chegando a
ponto da própria roupa ser um estímulo
demasiado forte para a sua submissa.
Você está começando a descobrir por qual motivo a
combinação dos efeitos já conhecidos do bondage ocidental, como
o poder e a vulnerabilidade, somados à beleza, à estética e à
intensa massagem erótica causada pelas cordas fazem
do shibari uma arte apaixonante.

Informações Básicas Sobre Spanking Parte 1


Autor Anônimo
Tradução: Victor {D}

I. Da posição e postura
Um dos fatores que diferencia o spanking das outras formas
de punições corporais é o deliberado e, às vezes, cerimonial
453

posicionamento dos participantes. Enquanto o spanking pode, frequentemente,


ocorrer de maneira ocasional, eu particularmente prefiro realiza-lo através de um
ritual de posicionamento.
Nesse ritual, tanto o espancador quanto aquele a ser espancado adotam posições que
facilitam e ampliam a prática. Estas posições geralmente atuam em favor da pessoa que
espanca e, também, em desfavor do espancado.
De sua posição, o espancador desfruta das seguintes vantagens:

Conforto
Seja de pé ou sentado, o espancador se posiciona de maneira a permanecer confortável
durante o desenrolar da prática. Ele pode movimentar seu braço em um ângulo natural e é
capaz de conduzir uma longa sessão de spanking com facilidade devido à sua posição.

Força
Considerando que o espancador pode movimentar seu braço de maneira livre e natural,
ele pode aplicar castigos em sua sub com força. Enquanto de pé, o espancador não apenas tem
liberdade para mover o braço, mas também pode rotacionar o tronco para aumentar a força
do golpe no ansioso "bum-bum" de sua sub.

Acesso pleno às nádegas a serem espancadas


A posição da sub serve para expô-la de maneira completa, e a posição do Dominador
funciona de maneira a colocá-la em um ângulo e altura convenientes. Portanto, o espancador
pode enxergar, beliscar, acariciar e espancar a submissa.

Segurança
Visto que o espancador está em uma posição facilitada para o espancamento das
nádegas da submissa no ângulo adequado, é muito menos provável que um golpe irá acertá-la
fora do alvo.

Controle
A posição do espancador é vantajosa o suficiente para permitir o controle da submissa.
Sentado ou em pé, ele se encontra acima da submissa e esta posição lhe dá a capacidade de
contê-la.

II. A pessoa espancada sofre os seguintes efeitos, oriundos de sua posição:


454

Relativo comforto
Exceção feita às nádegas, considero importante que a pessoa espancada esteja
relativamente confortável, para que possa se concentrar nas sensações inflingidas em seu
traseiro.

Antecipação
Inclinar-se e assumir a posição para que seu traseiro ganhe algumas marcas indica o
início do spanking e constrói um clima de antecipação. Aumenta a sensação. Uma sub
devidamente posicionada tenderá a ser espancada com mais força e de maneira mais
completa na sensível região de se sentar.

Humilhação
Ser colocada sobre os joelhos de alguém é uma postura infantil e humilhante. Ter que
"assumir a posição" é humilhante em sua submissão e esfrega na cara de pessoas submissas
que elas estão sendo espancadas.

Exposição
Um traseiro devidamente posicionado está completamente exposto. As nádegas estão
completamente visíveis, abertas e empinadas. No caso de submissos homens, o ânus e as
costas do saco escrotal aparecem. Mulheres submissas encontram-se ainda mais expostas,
pois seus retos e vulvas aparecem completamente.

Ênfase na submissão
Posições de spanking colocam a submissa no centro das atenções, e isso é sempre
notado pela pessoa em questão. A submissa é realçada pela sua exposição e sua postura em
relação ao espancador.

Apresentação de suas nádegas


Não apenas o traseiro encontra-se exposto e evidenciado, mas a pessoa espancada
sente-se como se estivesse apresentando seu corpo de maneira proposital para a punição, da
mesma forma que um homem condenado deve colocar a cabeça embaixo da lâmina de uma
guilhotina. A submissa sabe que seu traseiro não pode escapar dos golpes.

Submissão
Assumir mansamente a posição de spanking é o ato primário de submissão durante esta
prática.
455

Segurança
Embora possa oferecer pouco consolo, a submissa pode relaxar sabendo que seu
posicionamento garante segurança contra ferimentos. Evidentemente, este fato pode ser
desconcertante se elas souberem que serão espancadas com muito mais rigor.

Perda de controle
Uma vez posicionada, a pessoa espancada abdica de qualquer controle e não o
reconquistará até que o spanking esteja terminado. Elas podem ter dificuldade removendo
seus traseiros da linha de fogo, se tentarem.

Impossibilidade de contrair as nádegas


Quando de pé, a submissa pode contrair suas nádegas, diminuindo a dor de um golpe e
sua exposição. Se propriamente posicionada, é mais difícil contrair-se e o espancamento será
aplicado em um traseiro relaxado.

Excelente apresentação visual


Falando do ponto de vista de um admirador de traseiros, poucas são as vezes que
alguém parece mais adorável e bonita quando em posição de espancamento. Não apenas as
nádegas estão expostas, mas também estão curvadas de maneira lisonjeira e empinadas
sensualmente. Posições de espancamento seriam consideradas sexy mesmo por pessoas que
não apreciam a prática do spanking.

Informações Básicas Sobre Spanking


Parte 2
Autor Anônimo
Tradução: Victor {D}

Seguem descrições de várias posições que eu


considero eróticas, suas características particulares,
táticas que podem ser utilizadas para intensificar a experiência e precauções a serem tomadas.
Todas as descrições presumem que quem aplica o espancamento seja destro.

No colo
456

O espancador está sentado ereto em uma cadeira sem braços. A pessoa espancada deve
deitar-se com o rosto virado para baixo no colo do espancador, sua cabeça à esquerda e seus
pés à direita. Deve estar de maneira tal no colo do espancador que seu traseiro esteja
convenientemente acima da coxa direita do espancador.
Em uma tentativa de reservar seu pudor, a submissa pode tentar simplesmente se deitar
com a cabeça erguida e as pernas soltas... Porém, pessoas preocupadas com seu pudor não
deveriam se colocar em uma cena de espancamento, para começar. A cabeça e os ombros da
pessoa espancada devem estar virados para baixo e seus joelhos dobrados e fora do caminho,
para que seu traseiro esteja bem saliente. Pressionar a mão na nuca da submissa e golpes
aplicados em suas coxas ajudam a posiciona-la corretamente.
Os joelhos devem estar separados por pelo menos 15 centímetros e a região inferior das
costas deve estar arqueada para melhor empinar o traseiro. Para uma mulher, isso resultará
na exposição completa de sua vulva. Dependendo do tamanho da pessoa, seus dedos dos pés
estarão ou rentes ao chão, ou pairando alguns centímetros acima. O peso da submissa deve se
concentrar no colo do Dominador.
As mãos podem estar no chão ou agarrando as pernas da cadeira. Se a mão direita se
debater muito durante o espancamento, esta deve ser contida pela mão esquerda do
Dominador e presa na região inferior das costas da submissa.
Antes do início do espancamento, o Dominador deve puxar firmemente a submissa para
junto de si com a mão esquerda, pela cintura da submissa; assim, esta não escorregará de seu
colo durante a prática. Depois, o cotovelo esquerdo deve ser colocado entre os ombros para
impedir que a cabeça e os ombros se levantem.
O espancador deve erguer ligeiramente seu joelho direito, aumentando a elevação do
traseiro da pessoa espancada. No caso de uma mulher espancando um garoto, ela deve se
certificar que o pênis dele esteja prensado firmemente contra a sua coxa direita e virado para
a esquerda.
Rotacionando seu corpo para a direita, o espancador pode conseguir um arco maior
para seu braço e, confortavelmente aplicar, um golpe mais forte.
Combinando-se todas estas táticas - o joelho levantado, o cotovelo para trás, a mão nas
costas - o espancador pode efetivamente conter a submissa e espancá-la a granel.

Sobre o joelho
Similar ao espancamento sobre o colo; exceto que a submissa se dobra por sobre o
joelho esquerdo com suas pernas contidas pela perna direita do Dominador.

Mãos nos tornozelos


Este é o estilo escolar clássico para posições de paddling. A estudante deve se colocar
longe de quaisquer obstáculos, com os pés abertos na mesma largura que seus ombros. Com
457

os joelhos e as costas retos, a estudante deve se curvar e agarrar seus próprios tornozelos,
com ambas as mãos. Quem espanca pode querer osbervar as mãos da estudante durante
o paddling, para se assegurar que estas não soltem os tornozelos, ato que lhe valeria alguns
golpes extras.
O espancador se situa ao lado esquerdo da estudante. Ele deve manter a distância
necessária para que o paddledificilmente ultrapasse a nádega direita dela. Ele deve se
assegurar que ambas as nádeas sejam atingidas ao mesmo tempo (partindo-se do pressuposto
que sejam paddles que estejam sendo usadas. Canes e cintas garantem um posicionamento
ligeiramente mais distante).
Não é possível que um traseiro esteja mais exposto do que nesta posição. Quando
alguém é ordenada a se inclinar e agarrar seus tornozelos, essa pessoa está na verdade
ouvindo: "Eu pretendo fustigar completamente seu traseiro com umapaddle. Então, você não
apenas vai apresentar suas nádegas, mas vai se esforçar o máximo para que elas se
mantenham inteiramente expostas. E, durante o castigo, você vai manter um esforço
constante para se manter exposta para a paddle."
Levando-se em consideração que o ângulo das pernas - em função da parte superior do
corpo - está bem abaixo de 90º, esta posição abre as nádegas e expõe o reto e genitália mais
do que qualquer outra posição.
Esta é uma grande posição em fantasias, mas creio que funciona com segurança apenas
para submissas que possuam o corpo flexível (especialmente quando uma paddle mais grossa
é utilizada). Pessoas inflexíveis não podem alcançar seus tornozelos sem dobrar os joelhos.
Homens correm o risco de serem atingidos nos testículos. Bumbuns mais magros deixam o
osso pélvico se sobressair de maneira à não protegê-lo quando uma paddle mais grossa é
usada.

Mãos nos joelhos


Uma posição mais trabalhável e segura que a anterior. A submissa se apresenta em uma
posição mais aceitável para um paddling, mas sem dirimir a imagem de punição escolar.
Dependendo da pessoa, acredito que esta posição seja mais estética, em vista da possibilidade
das costas estarem arqueadas. De fato, quanto mais para cima das pernas a submissa apoiar
suas mãos, mais ela poderá arquear suas costas e empinar seu glúteo. Novamente, os pés
devem estar alinhados pela distância dos ombros e a posição das mãos deve ser observada.
Isso - já que as costas podem ser arqueadas e o traseiro pode ser empinado - deve ser exigido
tanto antes quanto durante o paddling.
Uma técnica que tende a arquear as costas corretamente é exigir que a estudante
mantenha o olhar fixo em um ponto bem alto da parede. Desta forma, ela mantém a cabeça
para cima e as costas arqueadas.

Sobre uma escrivaninha, nas pontas dos pés


458

Outra posição que remete a fantasias escolares. A estudante deve se inclinar por sobre
uma escrivaninha com o nariz ou os peitos pressionados contra a superfície da mesma. Mãos e
braços devem ser colocados na mesa, acima de sua cabeça, para provocar um maior
arqueamento das costas. Para maior elevação do traseiro a ser espancado, ela deve
permanecer nas pontas dos pés. Golpes extras podem ser acrescidos à penalidade original
para cada vez que os pés da estudante tocarem completamente o chão. Dica: preste atenção
depois do último golpe, antes de dizer para a estudante que ela já pode relaxar.

Sobre um banco ou cavalo de ginásio


Esta é, provavelmente, a melhor posição para paddling, porque a submissa pode se dar
ao luxo de relaxar completamente. A pessoa a ser punida deve colocar todo o seu peso através
do banco, deixando seus pés no ar e segurando as pernas do banco em um nível tal que exista
pouco suporte para a região superior do corpo. Esta é uma posição relaxada e confortável, e
funciona bem para longas sessões de spanking.

Deitada na cama
Outra posição confortável para longos espancamentos e diversões subsequentes. A
pessoa a ser espancada deve deitar-se de bruços na cama. Seu rosto deve estar afundado no
colchão enquanto seus quadris e traseiro estão elevados por travesseiros. Já que travesseiros
são moles, podem ser necessários três ou quatro destes para atingir a eleveção necessária.

Ajoelhada na cadeira
Uma de minhas posições prediletas para submissas com bumbuns bonitos, porque,
quando propriamente gerenciada, apresenta o traseiro em sua luz mais atraente. O truque
está na sua execução. A submissa deve ajoelhar no assento de uma cadeira estofada, voltada
para o encosto da mesma; suas coxas devem estar alinhadas verticalmente com o encosto e a
região superior do corpo deve se inclinar por sobre o mesmo. Novamente, a submissa deve
arquear bem suas costas.
Dois fatores conspiram para moldar o formato do traseiro dela (ou dele) de maneira
atraente. Primeiro, o encosto da cadeira impede ele (ou ela) de se inclinar além do necessário
para um bom arqueamento das costas. Segundo, do mesmo jeito que saltos altos deixam os
pés em um ângulo que contrai a batata da perna, ajoelhar-se com as panturrilhas em ângulos
corretos em função das coxas parece permitir que o bumbum se contraia de maneira a ficar
mais "cheio".

IV. Táticas
Descobri que as seguintes táticas podem ser utilizadas para incrementar e focar o
posicionamento:
459

Ajuste e reajuste
Acredito que seja importante, deliberadamente, posicionar e ajustar a pessoa a ser
espancada antes do início da sessão. Deve-se enfatizar o posicionamento e a completa
exposição das nádegas. Ao longo do espancamento, a pessoa espancada deve ser reajustada
caso sua postura mude.

Instruções verbais
Acho que é melhor requisitar que a submissa assuma espontaneamente sua posição
sem interferência física do Dominador, especialmente em sessões onde ela deve permanecer
em pé. Portanto, comunicação verbal é necessária ao longo do espancamento, para encorajar
a submissa a se manter devidamente posicionada.

"Frescura"
Finalmente, um dos aspectos disciplinários do spanking é que, não importa quão
perfeita esteja a posição da submissa, sempre haverá espaço para melhorias. O Dominador
não deve se sentir culpado se suas exigências quanto à posição forem, talvez, um tanto
"frescas" ou irreais.

TÉCNICAS DE "SPANKING"
Helga Vany Freyja

"Este é o primeiro texto de uma série que mostrará como utilizo as surras no
treinamento e na punição do escravo, e também, é claro, para minha diversão e
entretenimento. Como sempre ressalvo, essa é a minha maneira de atuar nestes casos. Não é a
única, nem a mais certa, mas é a que sei e que quero transmitir a todas as pessoas que se
interessam pelo BDSM".

Introdução
Talvez o principal método para disciplina e treinamento, largamente usado na cultura
ocidental e oriental, especialmente no século passado, o "spanking" , como aqui considerarei
(*), pode ser empregado nas mais variadas formas e com diferentes instrumentos.
(*) - O termo "spanking" ou surra é usualmente empregado na literatura de língua
inglesa apenas como o "bater nas nádegas com as palmas das mãos" ou, para algumas
460

Dominadoras, também com cintos e "paddles". Outros termos como "whipping"


(chicoteamento), "flogging" (açoitamento), "caning" (bater com varas de rattan ou de outros
materiais), etc. referem-se ao uso de instrumentos específicos. No entanto, aqui, utilizarei o
termo "spanking" ou surra, indiferentemente ao tipo de instrumento utilizado.
A escolha da forma e/ou do instrumento depende do sentido que a Dominadora queira
dar ao evento: punição, treinamento próprio ou do escravo, ou simplesmente para
demonstração. Neste último caso, demonstração, a plasticidade dos movimentos da
Dominadora durante o "spanking", especialmente com o uso de chicotes e "flogs", torna
esteticamente muito bonita a performance, para a observação das espectadoras(es). É o que
ocorre, por exemplo, em alguns dos encontros entre Dominadoras de que participo, e nas
festividades do OWK, onde Dominadoras do mundo inteiro demonstram suas habilidades no
manejo de tais instrumentos.

Regras Gerais
O local mais natural e seguro para ser alvo do "spanking" é o traseiro (nádegas) do
escravo. Abaixo da pele daquela região, uma grossa camada de gordura protege os músculos e
demais estruturas mais profundas.
As coxas também são um ótimo alvo, seja em
sua face interna como naexterna. Neste caso,
especialmente na parte interna, a sensibilidade é
maior. A região entre as coxas e as nádegas
também constitui um excelente alvo,
especialmente quando se quiser que o escravo
traga, por mais alguns dias, a "recordação" do
castigo, especialmente nos momentos em que ele
se sentar
Outra região que utilizo muito é a próxima
dos mamilos do escravo, especialmente quando
quero incrementar a punição já em curso com
prendedores de mamilos ou com o "sutiã" de tachinhas. Neste caso, um instrumento que
permita uma direção segura ao alvo é mais recomendável: além das próprias mãos, uso
frequentemente o chicote de montaria.
A face, a região posterior do tórax, o abdome e os genitais requerem alguns cuidados
especiais que devem ser destacados em nome da segurança do "spanking".
A face deve ser usada apenas para os humilhantes "tapas na cara". Estes devem ser bem
dosados quanto à intensidade e frequência, para se evitar danos aos sensíveis órgãos dos
sentidos aí localizados, e também nas pequenas alterações cumulativas que a repetição de
golpes na face, especialmente os de intensidade forte, podem provocar no cérebro.
Obs.: deve-se também alertar que, dependendo da existência de defeitos anatômicos
não sabidos - principalmente malformações vasculares no cérebro ou descolamento de retina -
461

golpes fortes e repetidos na face poderão provocar acidentes mais graves e altamente
indesejados. Portanto muito cuidado nessa região!
Sempre evite bater contra as superfícies ósseas com instrumentos rígidos (coluna
vertebral, costelas, osso esterno, clavículas, ossos do quadril, osso do púbis, parte anterior das
pernas e dorso das mãos e dos pés), pois assim poderão ser provocadas lesões na pele, tecido
sub-cutâneo, periósteo (membrana que recobre os ossos) e até no próprio osso.
Evite também bater com instrumentos rígidos no tórax anterior e posterior e na região
dos rins. Nestes casos, como já mencionei anteriormente, a região próxima aos mamilos
(peitoral) pode receber golpes leves ou moderados com chicotes de montaria, varas ou
"paddles". Dê preferência aos "flogs" quando optar por castigar seu escravo no tronco como
um todo. Mesmo assim, procure evitar a região dos rins e a administração de golpes profundos
na região do abdome
Os genitais masculinos podem ser castigados com "flogs" ou chicotes próprios ("penis
whips"), bem leves. Não bata com força, nem repetidamente, no membro ereto pois poderá
provocar lesão grave nos tecidos responsáveis pela ereção (corpos esponjoso e cavernoso).
A região escrotal pode ser castigada com os chicotes próprios para os genitais.
Entretanto, tenha o cuidado de prender os testículos, de modo que a pele do saco fique bem
esticada, impedindo que haja um balanço muito intenso dos testículos quando receberem os
golpes. Isso evita a possibilidade de torção desses órgãos.

Obs.: O castigo nos genitais será melhor desenvolvido


em Lição específica (CB & T), em preparação.

Como palavra final, vale lembrar que a


intensidade e a frequência de quaisquer dos tipos de
"spanking" tem que ser bem dosadas para evitar danos
à pele e demais estruturas, especialmente músculos e
ossos.
O uso de instrumentos rígidos, como a vara de
rattan ou de acrílico, ou de chicotes ou "flogs" com
pontas de metal ou outro material rígido, pode
provocar ferimentos na pele, abrindo-a e expondo as
camadas mais profundas ao contato com o meio
ambiente. Nestes casos, o risco de infecção do
ferimento é real. Portanto, se acontecer, lave bastante
o local com água e sabão, e aplique pomadas anti-sépticas e/ou cicatrizantes. Se infeccionar,
procure um profissional competente na área médica.
Caso haja a formação de equimoses (o local fica "roxo") ou hematomas (sangue
"pisado"), use também pomadas específicas para esses casos. Para se minimizar ou mesmo
evitar o aparecimento de equimoses ou hematomas, após um "spanking" pesado, é
462

aconselhada a aplicação de compressas ou bolsas frias (bolsa de gelo) sobre o local. Caso tenha
perguntas específicas sobre tais cuidados, escreva-me no endereço eletrônico mostrado no
final desta página.

Obs.: Essas indicações que estou fazendo são fruto de Minha experiência pessoal, de pesquisas
em outras publicações SM e de conversas com pessoas que praticam a Arte do "Spanking".
Também procurei consultoria médica para Me sentir mais segura e habilitada em realizar esta
técnica de punição.

O escravo
Sempre que o escravo vai ser punido, mesmo nas demonstrações de técnicas, deixo-o
inteiramente nu, exceto pelo uso da coleira. A única exceção é a utilização de um colete de
couro que protege a região dos rins, quando do uso de chicotes longos tipo "bull whip".
Também exijo silêncio absoluto por parte dele, exceto quando mando contar o número
de golpes que está recebendo, agradecendo por cada um deles, o que aumenta sua sensação
de humilhação. É evidente que ele poderá falar, a qualquer momento, a palavra de segurança.
Se o escravo for do tipo "barulhento", a mordaça é bem indicada (Neste caso a palavra de
segurança é substituída por um sinal previamente
combinado).
Pode-se também vedar os olhos e tapar seus ouvidos,
de modo que o isolamento de outros sentidos permitirá que a
mente do escravo esteja concentrada quase que
exclusivamente nas sensações provocadas pelo "spanking",
aumentando o componente psicológico do castigo.
As posições em que coloco o escravo dependem do tipo
de castigo a ser empregado, do instrumento escolhido e das
partes do corpo que escolhi como alvo. Descrevo tais posições
nos itens por instrumento, nas páginas seguintes.
O escravo poderá ser amarrado a um gancho do teto, às
barras de separação de membros, ao banco ou à mesa de
castigos, para impedir movimentos indesejados, ou manter-se
livre, mas com a ordem de estrita imobilidade, sob pena que,
no caso de se mover, haja incremento do castigo que está sendo administrado.

Outros pontos básicos


Informe ao escravo o tipo de castigo que será ministrado, com que instrumento e com
que finalidade, salvo quando estou fazendo um jogo de adivinhação de instrumentos e de sua
procedência. Muitas vezes deixo que o escravo "escolha" o tipo de chicote, de "paddle", etc.,
mas sempre entre duas e só duas opções.
463

A quantidade de golpes também deverá ser previamente conhecida pelo escravo, salvo
se a punição for parte de um jogo de resistência ou de competição.
Também mando que o escravo repita, de tempos em tempos, o porque ele está sendo
punido "Diga porque v. está apanhando?".
Quando o castigo deve ser administrado imediatamente após a falta cometida
(geralmente tapas na cara e/ou surra na bunda com as mãos, chinelos ou "paddles"), sempre
se acompanha de "broncas", mostrando o erro e o modo de como quero que seja o
comportamento do escravo. Nesses casos, do castigo físico costumo mandar o escravo de
castigo por alguns minutos em pé ou de joelhos num canto, face contra a parede e exposição
ampla das nádegas vermelhas.

A seguir... "Spanking segundo o tipo de instrumento (1)"

Contato:
www.helgavany.org
E-mail: helgavany@helgavany.com

Características De Utilização Dos Diferentes Instrumentos De


Spanking: Mãos, Raquetes E "Paddles"
Helga Vany Freyja

1 - Mãos, Raquetes e "Paddles"


As tabelas que se seguem trazem algumas características que utilizo com os diferentes
"instrumentos", incluindo aqui as minhas mãos. Essas características não são, obviamente,
absolutas, mas traçam as linhas gerais deste método de punição. Eu mesma as modifico nas
várias situações de "spanking" dos Meus escravos.

Mãos

Método Posição do Técnica Motivação Advertência


escravo básica

TAPAS NA Ajoelhado, Tapa com a palma da mão Castigo Cuidado com a


CARA mãos às estendida. Sempre é imediato por intensidade e a frequência
costas, acompanhado de advertência desobediência dos tapas. Use até uma
olhando para oral, apontando a condição de leve ou por intensidade média, e
a face da escravo rebelde e mal mau nunca ultrapasse 10
464

Dominadora. comportado. comportament repetições, alternando os


o. lados e mantendo um
intervalo de no mínimo 5
segundos entre um tapa e
outro. Pare
imediatamente se o
escravo se sentir
ligeiramente atordoado.

SURRA Nádegas de Mãos espalmadas, Castigo Cuidado que suas mãos


NAS fora ou modificando aleatoriamente a motivado também "esquentam" e
NÁDEGAS inteiramente intensidade, a frequência e o geralmente por podem doer. Use luvas
nu, deitado no alvo (nádega direita ou mau para minimizar esse
colo da esquerda), de modo que o comportament efeito.
Dominadora escravo não possa antecipar o social e/ou
ou no banco onde e qual a intensidade do desobediência
de castigos. golpe a ser dado. Geralmente leve.
acompanhado de "broncas
repetidas". Costumo, em
seguida, deixar o escravo de
castigo num canto do
aposento, olhando a parede e
com as nádegas à mostra.

Posição do Motivação
Método Técnica Advertência
escravo básica

SURRA Nádegas de Usar a maior amplitude Castigo O efeito do castigo


NAS fora ou possível do movimento motivado por geralmente dura
NÁDEGAS inteiramente dos braços, mantendo o comportamento algumas horas ou até
nu, deitado no instrumento firmemente inadequado de mesmo dias. Os
colo da seguro nas Mãos da gravidade instrumentos muito
Dominadora Dominadora. Inicie com média ou pesados podem
ou no banco intensidade leve, grande, ou por provocar dor muscular
de castigos. aumentando desobediência que persiste alguns
gradativamente até ou dias. Evite fazer
atingir o efeito desejado, impertinência seguidas repetições
seja pela coloração manifestas e com este tipo de
vermelha ou vermelho- repetidas. punição, pois pode-se
arroxeada das nádegas, provocar repetidas
seja pelo choro ou sincero lesões nos músculos,
arrependimento seguidas de fibrose
demonstrado pelo muscular.
escravo.
465

Mais quadros serão acrescentados paulatinamente em outras edições. Não percam!

Contato:
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E-mail: helgavany@helgavany.com

Características De Utilização Dos Diferentes Instrumentos De


Spanking: Açoites E "Flogs"
Helga Vany Freyja

2 - Açoites ou "Flogs"

Método Posição do Técnica Motivação básica Advertência


escravo

AÇOITAMENTO Em pé, atado a um As batidas são de Aquecimento do Evite sempre a


CORPORAL gancho no teto, intensidade sempre corpo do escravo região do rosto
com ou sem barra variável, iniciando-se para castigo mais do escravo.
de separação de as menores para intenso Lembre-se que
braços e de pernas, aquecimento. Os posteriormente. Para algumas tiras do
mas oferecendo movimentos são demonstração da açoite poderão
todo o corpo à ação feitos nos dois habilidade da atingir os olhos.
do açoite. sentidos das mãos - Dominadora, Com açoites
anterior e posterior - especialmente mais pesados
como nas batidas da quando é realizado evite a região
raquete num jogo de com dois açoites dos rins.
tênis - direita e iguais,
esquerda. simultaneamente e
com ambas as mãos.

AÇOITAMENTO Em pé ou deitado, Utilizo geralmente Além de ser uma Cuidado com


GENITAL preferencialmente um "flog" pequeno, punição para erros batidas fortes
de frente, com as capaz de fazer graves, tem um efeito e/ou repetidas
pernas bem rápidos movimentos psicológico muito sobre os
abertas, expondo circulares. Mas acentuado na testículos e
os genitais. É também uso chicotes demonstração do sobre o pênis,
bastante "duros" como os de poder da Dominadora especialmente
conveniente montaria (com sobre o escravo. O quando ereto.
amarrar as mãos e batidas suaves) ou homem tem uma Lembre-se que
os pés do escravo. uma "guasca" relação muito forte os tecidos dos
Uma ótima posição pequena. Os genitais com seus genitais genitais são
é prender os pulsos podem estar livres, (até muitos tem muito delicados
466

aos tornozelos do mas prefiro amarrá- apelidos ou nomes e sensíveis, e


mesmo lado, com o los antes, separando para o pênis) e este uma
escravo deitado. os testículos. Outro estar à mercê da Dominadora não
fator que pode ser Dominadora quer estragar o
adicionado para representa uma forte seu
aumentar o castigo é entrega do poder à "brinquedo".
a colocação de Mulher.
presilhas (uso as
"frutinhas") na pele
dos genitais.

continua na próxima semana...

Contato:
www.helgavany.org
E-mail: helgavany@helgavany.com

Características De Utilização Dos Diferentes Instrumentos De


Spanking: Chicotes De Montaria (E As "Guascas")
Helga Vany Freyja

3 - Chicotes de montaria (e as "guascas")

Método Posição do Técnica Motivação básica Advertência


escravo

Chicoteamento Em pé, atado a As batidas com os Geralmente Fora das nádegas e


nas nádegas um gancho no chicotes de montaria são reservo os chicotes da parte interna da
e/ou na parte teto, com ou de intensidade sempre de montaria para coxa, utilizo o
interna das sem barra de variável, dependendo da punições mais chicote de montaria
coxas. separação de punição a ser severas e/ou para para os mamilos,
braços e de administrada. deixar marcas na com ou sem
pernas. pele das nádegas presilhas atadas
Gosto de usar a "guasca" do escravo. nestes, e para os
Corpo arcado na parte interna das Quando as batidas genitais (nesse caso
para frente e coxas e a "guasca" são fortes, o mais como efeito
amarrado no pequena para punições escravo pode psicológico).
banco de genitais. reclamar ou gemer.
punições. Aconselha-se aí o
O chicote "inglês" de uso de mordaças.
Deitado na treinamento de cavalos é
maca de interessante porque Outra vantagem do
467

massagens ou permite batidas fortes e chicote de


na cama. rápidas nas nádegas e montaria é o de
nas coxas do escravo, poder se atingir,
Em posição de que se assemelham a com boa precisão,
castigo (tórax finas picadas de abelhas, mais vezes um
encostando no conforme depoimento mesmo local (uma
chão ou na dos escravos. E sua haste batida sobre a
cama) e flexível ainda pode ser outra) aumentando
nádegas usada como uma "vara". a intensidade da
"empinadas", dor.
com as pernas
separadas.

continua na próxima semana...

Contato:
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Características De Utilização Dos Diferentes Instrumentos De


Spanking Chicotes De Couro Trançado (De Tamanho Variável)
Helga Vany Freyja

4 - Chicotes de couro trançado (de tamanho variável)

Método Posição do Técnica Motivação básica Advertência


escravo

Chicoteamento Corpo arcado As batidas são quase Punições severas ou Deixa marcas bem
nas nádegas. para frente e sempre fortes, em demonstração da nítidas na pele do
amarrado no razão de que os habilidade da escravo. Pode
banco de chicotes são Dominadora no manejo romper a pele, o que
punições. pesados, feitos de desse tipo de chicote, leva à necessidade
couro trançado em especialmente os de se ter o cuidado
Em posição de sua maioria, e a longos (estes utilizados de desinfetar o local
castigo (tórax força do movimento no jogo de apagar a atingido, lavando-o
encostando no dos braços e da mão vela colocada entre as com água e sabão,
chão ou na cama) da Dominadora se nádegas do escravo, além de usar
e nádegas amplia até a ponta como ocorre nas pomada cicatrizante.
"empinadas", do chicote. celebrações do OWK).
468

com as pernas Para proteção do


separadas. resto do corpo do
escravo, mando que
ele use um colete de
couro para proteção
dos flancos e que
proteja bem a
cabeça.

continua na próxima semana...

Contato:
www.helgavany.org
E-mail: helgavany@helgavany.com

Características De Utilização Dos Diferentes Instrumentos De


Spanking Vara De "Rattan" (Também Existem Modelos Em
Acrílico E Em Fibra De Vidro)
Helga Vany Freyja

5 - Vara de "Rattan" (também existem modelos em acrílico e em fibra de vidro)

Método Posição do Técnica Motivação Advertência


escravo básica

Castigo Corpo arcado para Esse é um castigo forte, muito Punições Deixa marcas
forte nas frente, amarrado no difundido como método de educação severas ou bem nítidas
nádegas e banco de punições escolar na Inglaterra vitoriana. em jogos de na pele do
nas coxas ou em pé. resistência escravo. Pode
(parte A intensidade é variável. Inicio o castigo à dor. romper a
externa) Em posição de com múltiplas batidas leves, pele, o que
castigo (tórax acompanhadas de um discurso sobre a leva à
encostando no chão razão da punição. Essa batidas são necessidade
ou na cama) e entremeadas, ao acaso, por batidas de se ter o
nádegas fortes e firmes, cujo número dou a cuidado de
"empinadas", com as conhecer previamente. Após cada uma desinfetar o
pernas separadas. dessas batidas fortes, o escravo diz o local atingido,
número correspondente e agradece o lavando-o
Deitado na maca de castigo. com água e
massagens ou na sabão, além
469

cama. de usar
pomada
cicatrizante.

continua na próxima semana...

Contato:
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E-mail: helgavany@helgavany.com

Características De Utilização Dos Diferentes Instrumentos De


Spanking - Fotos De Meus "Brinquedinhos"
Helga Vany Freyja

Fotos de meus "Brinquedinhos"


Como complemento às tabelas onde apresentei algumas técnicas que utilizo no
"spanking", coloco aqui os instrumentos de minha coleção. Lembro novamente que as técnicas
apresentadas não são, obviamente, absolutas, mas traçam as linhas gerais deste método de
punição. Eu mesma as modifico nas várias situações de punição dos Meus escravos.
1. "Paddle" pesada feita por
zepierre_HVF com raquete de frescobol.
2. "Paddle" de couro com tachinhas
nas bordas, de fabricação americana,
comprada na Livraria Desejo Infinito em São
Paulo.
3. "Paddle" de madeira tipo "colher
de pau", feita por ulisses{ShQ}, presente
pessoal de Shadow Queen.
4. Espátula de plástico pesado,
utensílio de cozinha.
5. "Paddle" de madeira pesada, com minhas iniciais em baixo relevo, feita por
ulisses{ShQ}, presente pessoal de Shadow Queen.
6. Raquete de madeira forrada com borracha e ornada por zepierre_HVF com tachinhas
coloridas.
7. Escova de madeira leve transformada em paddle por zepierre_HVF.
8. Escova de cabelos de plástico, com pontas duras.
470

9. "Flog" de couro leve com cabo giratório para açoite de genitais, adquirido no Club
Doma, em Haia, Holanda.
10. "Flog" de couro cru médio, fabricação holandesa e adquirido no "Atelier Eliana" em
São Paulo, que carrego em minha bolsa diariamente.
11. "Flog" de camurça leve, meu primeiro instrumento de "spanking", adquirido no
"Atelier Eliana", em São Paulo.
12. "Flog" de couro macio, leve,
adquirido no Club Doma, em Haia,
Holanda.
13. "Flog" de borracha, leve, de
procedência holandesa, adquirido no
OWK, República Checa, cujo cabo também
serve como dildo.
14. "Flog" de couro macio,
prateado, adquirido no OWK, República
Checa, excelente para demonstração de
técnicas.
15. "Flog" de couro cru, pesado, adquirido em Praga, República Checa.
16. "Guasca" de couro cru, adquirida em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
17. "Guasca" de couro cru, pesada, adquirida em Praga, República Checa.
18. "Guasca" pequena de couro cru, leve, para os genitais, adquirida em Porto Alegre,
Rio Grande do Sul.
19. Chicote de montaria de couro trabalhado com ponta triangular, pesado, adquirido
em São Paulo.
20. Chicote de montaria coberto com couro vermelho sobre fibra de vidro, pesado,
(sobre "echarpe" preta) fabricado na Inglaterra e adquirido no OWK, República Checa.
21. Chicote de montaria de couro preto, pesado, fabricado no OWK, Republica Checa,
prêmio no concurso de "pinturas com cera de velas" durante as celebrações do OWK em
2001.
22. Chicote de montaria de couro cru, pesado, adquirido em Porto Alegre, Rio Grande do
Sul.
23.Chicote com formato de "mãozinha", pesado, feito de couro e tachas de um lado e
espículas de plástico duro na face oposta, adquirido no OWK, República Checa.
24. Chicote de couro trançado, pesado, com cabo trabalhado com filetes de ouro,
presente da Rainha Patrícia I, do OWK.
25. Chicote longo de couro trançado, pesado, utilizado pelos húngaros para levar tropas
de cavalos, adquirido em Budapeste, Hungria.
471

26. Chicote de couro trançado, pesado, adquirido


em Viena, Áustria.
27. Chicote médio de couro trançado, leve,
utilizado pelos húngaros para levar tropas de cavalos,
adquirido em Budapeste, Hungria.
28.Chicote de
couro trançado, pesado, adquirido em Nápoles, Itália,
presente de batismo do escravo iberê_HVF.
29. Chicote de couro trançado, com duas pontas,
adquirido no OWK, República Checa.
30. Vara de "rattan" de espessura média,
pesada, adquirida no OWK, República Checa.
31. Chicote para treinamento de equinos, inglês,
com ponta de cordinhas trançadas e haste flexível de fibra
de vidro que pode ser usada como vara de castigos,
adquirido em São Paulo.
32. Vara de "rattan" de espessura fina, para
castigos mais leves, adquirida em Praga, República
Checa.
33. Chicote de couro cru trançado, haste flexível
e com 3 pontas rígidas, pesado; é uma mistura de
chicote rígido e vara, presente de Úrsula
MAIOR.
34. Chicote rígido estilo "mãozinha", o
mesmo do número 23, mas "especial" em razão de sua
face de plástico duro espiculado.
35. Chicote de couro cru trabalhado, pesado,
utilizado pelos vaqueiros do Nordeste (um desses
instrumentos está no filme "Eu, Tu, Eles"), presente de
Samia, a Rainha Frágil.
36. Luva ou "mãozinha". de couro que
se adapta à mão da Dominadora, tendo na face
palmar espículas de plástico duro, adquirida no OWK, República Checa.
Contato:
www.helgavany.org
E-mail: helgavany@helgavany.com
472

Eletro-Estimulação - Parte I
Mestre Votan

Em várias oportunidades já percebi o interesse que o tema "eletro-estimulação"


desperta. Partindo deste princípio, procurei condensar as experiências e informações que
consegui sobre eletro-estimulação.
Esta série está dividida em três partes
A primeira, conta um pouco da estória da Eletro-estimulação, e da descoberta dos
impulsos elétricos em nosso corpo. Acho importante conceituar historicamente, qual foi o
caminho percorrido na ciência e na tecnologia, para chegarmos até estas caixinhas, que
despertam nossa curiosidade e satisfazem nosso prazer.
E se queremos comprar uma caixinha, precisamos saber, no mínimo, o que acontece
quando apertamos seus botões. Porque um bom Dominador(a) vai querer se precaver de
todos os cuidados e conhecimentos necessários, para poder proporcionar uma boa sessão em
sua/seu submisso(a).
E o(a) submisso(a) certamente desejará saber quais as reações e como elas se
processam em seu próprio corpo.
A segunda, introduz alguns conceitos básicos de eletricidade e eletro-estimulação. A
terceira parte , fala especificamente sobre como conduzir uma sessão de eletro-estimulação.

CAPÍTULO 1
Os impulsos enviados pelos órgãos dos sentidos ao cérebro, e os impulsos que o cérebro
envia aos órgãos e músculos em resposta, são de natureza elétrica.
Tensões de algumas dezenas de milivolts (milésima parte do volt), são responsáveis por
tudo o que sentimos, e por todas as nossas reações. É claro pois, que qualquer diferença de
potencial (DDP), aplicada externamente, possa interferir no nosso sistema nervoso, tanto nos
estímulos que são enviados ao cérebro, como nos estímulos que o cérebro envia para os
órgãos e músculos.
O perigo do choque elétrico pode ser explicado justamente por esta "interferência"
provocada em nosso organismo. Em alguns casos, por exemplo, o choque não só causa a
sensação de dor, como também pode inibir as reações que nos livram do perigo.
Em suma, o cérebro pode enviar aos órgãos o impulso que nos faz retirar a mão do fio
que está causando o choque, mas este impulso não chega até lá por sofrer interferência da
corrente que está sendo responsável pelo choque. A pessoa nesta situação sente-se "presa "
ao local que lhe causa o choque, não podendo sozinha, livrar-se do perigo.
473

No laboratório, as tensões controladas dentro de certos limites, podem ser utilizadas


para uma análise do comportamento do sistema nervoso de uma cobaia, ou de um paciente.
No caso de um paciente, pode-se verificar sua sensibilidade ao choque e suas reações.
Podemos citar a clássica experiência de Galvani, (Fig.01)com a qual se demonstrava a
sensibilidade elétrica do sistema nervoso, realizada com
uma rã.
Aqui, abro um parênteses para vocês acompanharem
a evolução científica da eletro-estimulação:
" Como resultado das demonstrações experimentais
realizadas por Luigi Galvani e seus seguidores (lembram da
perninha do sapo que "se mexia" ao se aplicar uma corrente
elétrica em seu músculo ?), a natureza elétrica da função
nervo-músculo estava finalmente desvendada. Entretanto, a
prova direta somente poderia ser feita quando os cientistas
conseguissem medir ou detectar as correntes elétricas
naturais geradas nas células nervosas e musculares. Galvani
não tinha a tecnologia necessária para medir essas
correntes, porque elas eram muito pequenas. Os
electroscópios, os dispositivos medidores usados naquele tempo, não eram sensíveis o
suficiente. Como resultado, o estudo da bio-eletricidade quase desapareceu do cenário
científico até 1827.
Em 1826, Johannes Muller (1801-1858), um notável psicólogo e fisiologista alemão,
propôs sua teoria da "energia nervosa específica", a qual defendia que os diferentes nervos
(ótico, auditivo, etc) transmitiam uma espécie de "código", que identificava sua origem ao
cérebro. Sua proposição, válida até hoje, foi no entanto baseada no vitalismo, uma doutrina
filosófica errônea, que afirmava que a vida era caracterizada por uma "energia vital"
intrínseca. Entretanto, a teoria de Muller foi importante como o início de uma escola
inteiramente nova do pensamento neurofisiológico, o qual eventualmente refutaria o
vitalismo como um conceito válido em biologia.
O palco para as descobertas revolucionárias sobre a função nervosa que seriam feitas
nas próximas décadas tinha como pano de fundo os avanços que estavam sendo realizados
continuamente no conhecimento anatômico sobre o sistema nervoso. (Para quem quiser saber
mais, em 1836, Robert Remak descreveu axônios mielinizados não-mielinizados.) No ano
seguinte, Jan Purkyne descreveu células cerebelares e identificou o núcleo e os processos
neuronais. Novamente em 1838, ele e Remak sugeriram que as fibras nervosas são unidas (ou
seja, a fibra nervosa ou axônio é um processo emergindo da célula nervosa).
Em 1839, Theodor Schwann propôs a teoria celular, ou seja, que o sistema nervoso é
composto de células neuronais individuais.
474

Então, em 1848-9, meio século após a descoberta de


Galvani, e graças à invenção do galvanômetro (Fig. 02) feito
duas décadas antes, o cientista suiço-alemão Emil Heinrich
Du Bois-Reymond (1818-1896), professor de fisiologia em
Berlim, discípulo e sucessor de Johannes Muller, conseguiu
usar um novo e sensível tipo de galvanômetro desenvolvido
por ele, para detectar o que ele chamou de "corrente de
ação" no nervo do sapo.
Ele foi chamado assim porque Du Bois-Reymond
notou uma pequena variação negativa do potencial elétrico
de repouso em eletrodos metálicos conectando o nervo ao
galvanômetro, somente quando a estimulação do nervo
(mecânica ou elétrica) eliciava uma resposta do músculo.
Ele demonstrou que este fenômeno de "variação negativa"
também ocorre em músculos estriados e é a causa primária da contração muscular.
A corrente de ação (posteriormente denominada de potencial de ação) foi descoberta
por Du Bois-Reymond como sendo um tipo de "onda de impulso elétrico", a qual se propagava
em uma velocidade fixa e relativamente lenta ao longo da fibra nervosa. Em 1852, Hermann
von Helmholtz (1821-1894) foi capaz de medir a velocidade de impulsos nervosos em sapos, e
determinou que a mesma era de aproximadamente 27 metros/seg. ( Esta é a velocidade que
um comando proveniente do seu cérebro para um músculo, ou um estímulo - de dor, por
exemplo, - caminha pelo seu corpo)
As contribuições de Du Bois-Reymond, publicadas em seu livro "Untersuchungen uber
thierische Elektricität". ("Pesquisas Sobre a Eletricidade Animal") em 1848, criou o campo da
eletro-fisiologia científica.
O trabalho dos dois cientistas serviu para refutar a visão de seu mestre, Johannes
Muller, de que o impulso nervoso era um exemplo de uma função vital que nunca poderia ser
medida experimentalmente. O impressionante avanço tecnológico na segunda metade do
século XIX marcaria o caminho para o progresso do novo campo da eletrofisiologia. (Bendita
revolução industrial...)
Acho interessante citar também o caminho percorrido pelos cientistas, para termos o
que chamamos hoje de "eletro-estimulação".
Nas primeiras décadas do século XIX, a nascente ciência da neurofisiologia estava
rompendo fronteiras de forma fascinante. Era a primeira vez na história da ciência que surgia
uma cooperação íntima entre a física e a biologia. Ela era necessária, não somente porque a
biologia estava tentando interpretar os fenômenos da função neural, à luz dos recentes
conhecimentos fornecidos pela física, mas também porque ela estava usando os mesmos
instrumentos de medida, dispositivos e aparelhos.
O conhecimento aplicado que tinha sido reunido pelos físicos experimentais nos campos
da eletricidade, da ótica e da mecânica estava começando a trazer grandes contribuições para
475

a fisiologia. Muitas vezes, no entanto, os fisiologistas que estavam conduzindo experimentos


pioneiros eram forçados a inventar ou adaptar instrumentos já existentes para obedecer as
exigências do trabalho com os tecidos vivos, capazes de gerar correntes e tensões (voltagens)
extremamente fracas, de uma magnitude tal que os físicos nunca tinham estudado antes.
(Como seria um aparelho de eletro naquela época?)

CAPÍTULO 1.1
Estimulação Elétrica
Em primeiro lugar, os fisiologistas necessitavam de fontes estáveis e confiáveis de
corrente elétrica, de modo a estimular os nervos e músculos de suas preparações. Quando
Luigi Galvani começou seus experimentos pioneiros, existia apenas um pequeno número de
técnicas à sua disposição: jarros de Leyden, geradores eletrostáticos e eletricidade natural (ou
seja, raios !). Não havia pilhas!!!
O gerador eletrostático (Fig. 03) era feito de um
disco de vidro vertical ou horizontal, que podia ser girado
rapidamente usando uma manivela manual, ligada a uma
polia. Uma escova metálica, em contato com o disco,
coletava cargas elétricas, criadas pelo atrito. Duas bolas
metálicas conectadas aos pólos eram então usadas para
transferir essa carga para um jarro de Leyden.
A garrafa, ou jarro, de Leyden também era feita de
vidro e forrada internamente com folha fina de estanho, e
um pino de metal com uma bola, inserido através de uma
rolha isolante. Ela funcionava como um condensador
elétrico, e era usada para armazenar cargas elétricas, bem
como para ministrar choques elétricos aos tecidos que se queria estimular. Infelizmente, a
quantidade de corrente elétrica não era controlável e quantificável, portanto as garrafas de
Leyden eram pouco confiáveis quando se queria fazer experimentos replicáveis. Isto era o mais
perto do que se podia chegar de uma pilha!
A invenção definitiva se originou diretamente da disputa cientifica de Galvani com seu
colega Alessandro Volta. (A palavra Volt, vem de uma homenagem a Volta).
Volta interpretou corretamente que as rãs de Galvani contraiam seus músculos quando
estavam penduradas por ganchos de cobre de grades de ferro, porque a junção entre dois
metais diferentes funcionava como um dispositivo de geração de eletricidade. (É por isso que
não pomos em nossa casa canos de ferro junto com canos de cobre!).
Volta montou então um dispositivo, ao qual chamou de "pilha "(Fig.
04), porque realmente ele empilhava uma série de discos de prata e de
zinco alternadamente, separados entre si por discos de papelão
embebidos em água com sal
476

Uma corrente elétrica se produzia quando o disco de prata no topo da pilha era
conectado por um fio ao último disco de zinco na parte de baixo.
A bateria de células voltaicas deu inicio a uma revolução abrangente nos anos que se
sucederam, não apenas na física, mas também na fisiologia. Controlando cuidadosamente a
área e o material de suas partes constituintes, a concentração das substâncias químicas e o
número de discos na pilha, voltagens conhecidas e precisas podiam ser ministradas aos tecidos
que se queria estimular. Claude Bernard, o famoso fisiologista francês, chegou a fabricar
engenhosas "pinças elétricas", que usava para segurar e tocar nervos delicados, estimulando-
os, ao mesmo tempo.
Posteriormente, os fisiologistas tiveram que inventar interruptores mecânicos especiais,
de modo a aplicar pulsos de corrente elétrica aos nervos e músculos, em instantes
precisamente determinados, e com durações conhecidas e muito curtas. Normalmente esses
interruptores eram feitos de piscinas de mercúrio, bastonetes pontiagudos de metal e botões
acionados por molas fortes.
Quando o experimento exigia estimulações repetidas regularmente de forma precisa,
um disco giratório era usado para acionar o interruptor a instantes precisos. Já pensaram a
trabalheira que dava?

CAPÍTULO 1.2
Medindo a Bio-eletricidade
As correntes e potenciais elétricos gerados pelos tecidos biológicos são muito pequenos,
da ordem de micro- ou milivolts. Portanto, chega a ser espantoso constatar como os aparelhos
primitivos usados pelos fisiologistas no século XIX eram capazes de registrar variações tão
minúsculas. Em uma certa ocasião, um fisiologista foi capaz de discernir meros 10 mV (mais
tarde termos uma boa ideia de o quanto isto representa!) de alteração positiva na "corrente
de ação do nervo", que mesmo hoje é difícil de se conseguir usando modernos amplificadores
eletrônicos e osciloscópios.
Um melhor instrumento de medida foi conseguido apenas por volta de 1820, com o
galvanômetro (cujo nome, evidentemente, homenageava Galvani). Ele utilizava o princípio do
eletromagnetismo, descoberto por Oersted e Faraday.
Consistia de uma bobina enrolada de fio isolado de
cobre, em volta de um magneto colado à uma agulha (Fig.
05). Ao se passar uma corrente elétrica pela bobina, um
campo eletromagnético era provocado, o qual interagia
com o campo magnético do ímã e fazendo-o girar em torno
de um eixo.
O valor do desvio da agulha era medido sobre uma
escala impressa, permitindo assim uma medida mais exata
da corrente ou potencial elétrico. Quanto maior fosse o
477

magneto e a bobina, mas sensível era o instrumento.


O cientista suiço-alemão Emil Du Bois-Reymond desenvolveu em 1840 um galvanômetro
muito sensível, e que foi um dos melhores instrumentos de medida a serem usados por muitas
décadas em experimentos neuro-fisiológicos. Seu sensível dispositivo necessitava quase
24,000 voltas de fio em sua bobina, com mais de 5 km de comprimento!
Posteriormente no mesmo século, registros temporais de fenômenos fisiológicos se
tornaram possíveis com o quimógrafo de tambor. A agulha do galvanômetro era colocada em
contato com uma alça de papel recoberta com uma fina camada de negro de fumo, a qual era
esticada sobre um cilindro de metal. Um mecanismo de engrenagens de relojoaria, muito
preciso, girava o cilindro a qualquer velocidade que se desejasse, e os movimentos da pena do
galvanômetro riscavam a superfície do negro de fumo, expondo um
traçado da intensidade em função do tempo. (Fig. 06) Este é um
rudimento do osciloscópio, que serve para aferir e regular os
equipamentos de eletro-estimulação modernos.
Fenômenos mecânicos, como a contração de um músculo,
movimentos respiratórios e pressão sanguínea, podiam ser também
registrados em função do tempo, através de engenhosas montagens
de dispositivos complicados, feitos de alavancas, eixos, membranas,
molas e fios.
O eixo do tempo era calibrado e medido usando-se diapasões
eletromagnéticos conectados a penas tinteiros. Até o começo do
século XX, estas eram as ferramentas básicas da eletro- estimulação.
Uffa! Vocês pensam que é fácil? Que é só comprar os aparelhos e apertar os
botões? Não, não e não! Para se usar eletricidade, temos de saber um pouco de muita coisa:
Física, Fisiologia, Química e Biologia.
Mas esta será a segunda parte nosso artigo.
A Eletroestim - Eletroestimulaçao Erótica é uma lista de discussão recentemente criada
pelo Senhor_Carlos – engenheiro especializado em Planejamento energético – com o objetivo
de debater o tema de uma maneira sem preconceitos e principalmente, prevenir a propagação
de informações distorcidas. A lista já inicia com um banco de dados recheado de FAQS –
perguntas mais frequentes – e how-to deveras interessante, disponibilizando material
educacional em língua portuguesa.
Esse material, resultado de anos de pesquisa e experiência do Senhor_Carlos, foi
gentilmente disponibilizado para publicação no Desejo Secreto, o que será feito em partes, a
cada atualização do site. Para assinar a lista, ter acesso a mais informações e tirar dúvidas,
mande e-mail em branco para eletroestim-subscribe@yahoogrupos.com.br
Veja a FAQ da Eletrostim20

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ELETROESTIMULAÇÃO PARTE II
Mestre Votan

Concluído o apanhado histórico da Parte 1, de como o homem intuiu e depois


experienciou a eletricidade na fisiologia, passemos à segunda parte da série sobre
eletroestimulação, onde abordaremos alguns conceitos importantes sobre eletricidade e as
grandezas envolvidas. Faremos uma pequena incursão na eletricidade e fisiologia.
Tentei deixar esta parte o mais palatável possível para os que não estão familiarizados
com a eletrônica, a física médica e a eletricidade. Peço paciência aos que já conhecem o tema,
e para atender aos que não gostam das ciências exatas, tentei eliminar o máximo possível o
tratamento matemático e a física do assunto.

1.0 A ELETRICIDADE
A eletricidade é uma forma de energia que existe em todas as coisas, em seu próprio
corpo, no papel onde eu imprimi este texto, na cadeira em que voce está sentado, no ar que
voce respira e em todas as coisas que tem massa e ocupam lugar no espaço. A razão pela qual
não percebemos sua presença é porque nestes objetos, a eletricidade não está em
movimento.
Não precisamos saber a fundo o que é a eletricidade ou do que ela é feita, para
aproveitá-la na prática. Precisamos saber, no entanto, como ela atua e como pode ser utilizada
para realizar o que desejamos.
A principal parte da eletricidade com a qual devemos familiarizar-nos é a que se refere
ás suas características e aos efeitos que produz em certas circunstâncias. Precisamos aprender
as qualidades da eletricidade para aplicá-la eficientemente e sem perigos.

2.0 ESTUDO SIMPLIFICADO DA ELETRICIDADE


Algumas características da eletricidade podem ser comparadas com as da água, e visto
que todos nós estamos familiarizados ou temos uma ideia intuitiva a respeito da água,
utilizarei na maioria das vezes esta comparação.

Podemos observar na
Fig. 1 dois tanques cheios de
água, no mesmo nível. Os
tanques estão ligados entre
si por meio de canos, em
cujo sistema incluí uma

Figura 1
479

válvula e uma turbina. Se neste desenho, abrirmos a válvula, as palhetas da turbina não se
moverão, porque não existe diferença de pressão entre um tanque e outro para que se tenha
um fluxo de água. (As duas estão no mesmo nível.)
Mas quando o nível da água em um dos tanques for mais alto, existirá uma diferença de
pressão entre eles, e a água passará do tanque mais alto para o mais baixo, fazendo a turbina
girar. A diferença de alturas na caixa d'água, produz a força eletro motriz.

3.0 PRODUÇÃO DA PRESSÃO ELÉTRICA (Força Eletro Motriz)


Por analogia com a água, estou chamando a Força Eletro Motriz de Pressão Elétrica.
Quando se trata de eletricidade, encontramos uma condição muito parecida com o que
acabamos de estudar em relação ao sistema
hidráulico.

Na Figura 2 temos um gerador, ligado a um


interruptor e auma lâmpada. Se o gerador não estiver
funcionando, mesmo que liguemos o interruptor, a
lâmpada não se acenderá. No entanto, existe no
sistema tanta eletricidade, como se o sistema
estivesse funcionando. Podemos comparar esta
figura com a Fig.1; onde temos dois tanques de água
no mesmo nível. Figura 2
Agora, se o gerador estiver funcionando, uma corrente
elétrica passará através do circuito, fazendo com que a lâmpada se acenda. O que realmente
acontece, é que quando o gerador é ligado, ele dá origem a alguns fenômenos que
estabelecem uma diferença de potencial.
Esta diferença de potencial, pode ser comparada com a diferença de níveis entre as
caixas d' água.
Em geral, não se emprega o termo "pressão elétrica" como fiz anteriormente.
Costumamos chamar a "pressão elétrica" de força eletro motriz (F.E.M.). E a unidade que se
emprega para medirmos a F.E.M. é o Volt. (V)
Bom, então, podemos pensar que Volt seria a diferença de alturas entre as caixas
d'água? Certo! Em uma linguagem mais técnica, a tensão elétrica, ou popularmente,
"voltagem".

4.0 O AMPÉRE ou CORRENTE ELÈTRICA


Continuando no mesmo raciocínio, precisaremos de um nome, para medirmos quanta
água passa entre as caixas d'água. A medida equivalente da quantidade de água no nosso
exemplo, na eletricidade é quantidade de corrente elétrica, e chamamos de Ampére (A). Em
480

homenagem ao físico francês André Marie Ampére. As unidades menores que um Ámpére, são
divididas em miliampéres e microamperes. (mA e mA, respectivamente.)
O Ampére é a indicação da quantidade de eletricidade que se movimenta em um
condutor, em um determinado instante de tempo. E este fenômeno recebe o nome
de corrente elétrica. Então por analogia, o Ampére é a quantidade de água que circula entre as
caixas d'água? Certo de novo!
Bem, você pode estar se perguntando... – E o que isso tudo tem a ver com eletro
estimulação?
Costumo dar como exemplo, nos encontros sobre eletroestimulação aos quais sou
convidado, que, o que mata, ou é prejudicial, não é a tensão (Volts), mas sim, a corrente
elétrica. (Ampéres). Querem um exemplo pensando na água?
Se você entrar debaixo de uma cachoeira com 800 metros de altura, mas com um filete
mínimo de água, nada lhe acontecerá. No entanto, se você entrar embaixo de uma cachoeira
de 20 metros de altura, mas com um volume de água muito grande, certamente você sairá
machucado, ou mesmo, poderá morrer.
Na prática, isto significa que você pode tomar um choque de 10.000 Volts e somente
sentir uma agulhadinha, (às vezes, quando saímos do carro em um dia de verão e encostamos
na porta, ou em alguma parte metálica, tomamos um choque desta ordem de grandeza.). Ou
tomar um choque de 90 Volts e morrer.
- Quer dizer....o que pode causar danos é a corrente, e não a tensão?, ou Seja o mais
importante é saber a "Amperagem" e não a "Voltagem"?
- Certíssimo!!

5.0 APARELHOS DE ELETRO-ESTIMULAÇÃO


Agora vamos começar com algumas coisas mais "práticas". A grande maioria dos
aparelhos de eletro-estimulação, utiliza pilhas. Todas as pilhas e baterias, sem exceção, são
fontes de corrente contínua. Elas tem dois pólos, um negativo, e outro positivo. A corrente
elétrica, sempre vai do pólo negativo para o pólo positivo. Mas atenção,...pelo fato destes
aparelhos usarem pilhas, não significa que eles entregam corrente contínua!
Aquelas baterias quadradinhas, normalmente têm 9 volts e podem gerar entre 70 e 90
miliamperes por alguns instantes.
As pilhas, pequenas, médias ou grandes, geram 1,5 Volts. Mas o que muda é a corrente
elétrica. O quanto cada uma pode fornecer em Ampéres. O que um aparelho de eletro-
estimulação faz, é pegar a tensão da bateria (9V), e a corrente que ela proporciona, e
transformar a tensão para algo próximo dos 200 Volts, e transformar a corrente contínua em
corrente alternada.
- Epa! Que negócio é esse de corrente contínua e corrente alternada?
481

6.0 CORRENTE CONTÍNUA E CORRENTE ALTERNADA


Vimos que uma bateria tem dois pólos. Um negativo e outro positivo. Bem marcados,
com um sinal de mais (+) para o pólo positivo, e um sinal de menos (-) para o pólo negativo.
Eles sempre serão assim. Um sempre negativo e outro, sempre positivo. Seja daqui á um
minuto, uma hora, um dia. Chamamos então de corrente contínua. Já na corrente alternada,
(encontrada nas tomadas de casa) não há necessidade de se marcar qual o pólo positivo, ou
qual o pólo negativo, sabem porque?
Porque eles se alternam 60 vezes por segundo.
Ou seja, durante um segundo, um daqueles buraquinhos da tomada não importa qual
você escolha, vai mudar entre pólo positivo e pólo negativo, 60 vezes por segundo. Eles se
alternam. Daí vem o nome de corrente alternada. Veja a Figura 3.
A maioria dos aparelhos eletrônicos,
depois da indicação da tensão ("voltagem")
em que trabalham (110V ou 220V) ainda tem
a seguinte marca: 50/60 Hz.
A abreviatura de Hz, significa Hertz,
sobrenome de um físico alemão que
descreveu as propriedades de oscilação de
ondas.
Um Hertz é algo que acontece uma vez por segundo. 60 Hertz significa que 60 vezes por
Figura 3 segundo, alguma coisa (a alternância entre os pólos negativo e
positivo de nossa tomada, por exemplo) se alterna de um modo
exatamente igual. Daí, de uma maneira rudimentar podemos definir a frequência.
A grande maioria dos aparelhos de eletroestimulação usa corrente alternada.
Isto significa que nos fios que saem destes aparelhos, embora marcados com positivo
(vermelho) e negativo (preto), os pólos se alternam várias vezes por segundo.
E por favor, não me vão ligar dois fios na tomada, e usar como eletro-estimulador,
porque a corrente que uma tomada pode fornecer é da ordem de algumas dezenas de
Ampéres. Suficiente para provocar sérias queimaduras ou matar qualquer um.
Um bom exemplo de corrente alternada pode ser encontrado neste endereço:
http://www.geocities.com/CapeCanaveral/Hall/6645/electmag/generatorengl.htm
É um applet em Java, que mostra um motor (á esquerda, que fica virando), um
voltímetro (o aparelho á direita, que fica mexendo o ponteiro, reparem que o 0 (zero) está no
meio da escala). E ao fundo, há um gráfico, com uma bolinha azul que vai percorrendo a
extensão deste.
Note que existe uma barra logo após o botão "change direction". ( a direita)
Clique e segure com o mouse o botão da barra, e leve até o fim da escala.
482

Observe o ponteiro ir do negativo, passar pelo zero, e ir ao positivo, e observe a bolinha


ao fundo.
O gráfico ao fundo representa a corrente alternada.
Neste applet, o máximo de alternância que chegamos é 12 vezes por minuto. Lembre-se
que na tomada, temos 60 vezes por segundo, ou 60 Hertz.
É a alternância entre positivo e negativo, que causa a sensação de formigamento
quando tomamos um choque elétrico.
A maioria dos aparelhos de eletroestimulação tem um controle de frequência, que serve
para alterarmos o tipo de estímulo que o(a) submisso(a) irá sentir.

7.0 FREQUÊNCIA
A frequência, fenômeno físico que não abordaremos em profundidade aqui, pode ser
definida como quantas vezes por segundo um fenômeno se repete.
A frequência é o segundo mais importante parâmetro dentro da eletro-estimulação.
Variando-se a frequência, podemos variar o tipo de sensação e de resultado que queremos
obter. Com a variação da frequência, pode-se induzir músculos á fadiga, pode-se induzir
ereções e orgasmos.
As frequências altas são nocivas para o corpo humano. Um aparelho de eletro
estimulação, deve trabalhar na faixa entre 4 e 200 Hertz, admitindo-se uma variação de mais
ou menos 15%.
Se as frequências de trabalho são muito altas, o corpo humano oferece pouca
resistência á passagem da corrente elétrica, podendo ocasionar queimaduras e lesões.

8.0 SEGURANÇA
Para um aparelho ser seguro e eficiente, o mesmo precisa possuir um limitador de
corrente. É um circuito que impede o aparelho, caso haja algum problema, de aplicar uma
corrente passível de causar danos ao nosso parceiro(a). Todo bom circuito de eletro-
estimulação tem um limitador de corrente.
Normalmente os aparelhos de eletro-estimulação não oferecem controle manual sobre
a corrente. Isto os encareceria bastante.
Já vimos que o que pode ocasionar danos ou até mesmo matar, é a corrente elétrica.
Estudos determinaram o seguinte:
 Acima de 10 mili-ampéres nosso corpo já sente os efeitos da eletricidade
 Entre 30 e 70 mili-ampéres é o limite seguro para eletro-estimulação abaixo da linha
da cintura em uma pessoa sadia.
483

 Acima de 80 mili-ampéres a corrente elétrica é suficiente para induzir uma fibrilação


cardíaca.
 Acima de 150 mili-ampéres pode-se obter queimaduras por eletricidade.

9.0 ELETRODOS
Aqui está uma parte do segredo de uma boa ou má experiência com eletro-estimulação.
Eletrodos são os componentes que fazem a ligação entre seu corpo e o aparelho de eletro-
estimulação. Servem para entregar a eletricidade no local que desejamos aplicá-la. Por isso
têm várias formas e tamanhos.
Difíceis de serem encontrados, normalmente recorremos à criatividade e habilidade
para confeccioná-los. Os eletrodos encontrados facilmente em lojas de equipamentos
cirúrgicos e que podem ser usados, são os de borracha condutiva, alguns contém uma
pequena bomba de sucção de borracha, próprios para eletrocardiograma. (ver: "Mais

Eletrodo Bipolar Bipolar Detalhe Unipolar

Eletrodos")
Os eletrodos de borracha condutiva, daqueles usados em
fisioterapia, ou em eletrocardiogramas, são inadequados para
aplicações de eletro-estimulação internas.
Os eletrodos podem ser unipolares, ou bipolares.
Eletrodos unipolares só tem uma conexão para a ligação com o
aparelho de eletro-estimulação, e devem ser usados aos pares.
Você precisará de dois eletrodos para estabelecer o circuito de
Eletrodo Anal de Inox - peso
eletro-estimulação.
aprox 1,3 Kg
Os eletrodos bipolares tem
dois pontos de contato isolados entre si. E basta um único eletrodo
com os dois fios para se estabelecer o circuito.
Eletrodos bipolares são muito difíceis de serem conseguidos.
Um dois maiores cuidados que devemos tomar é não
provocarmos o curto-circuito, inutilizando o aparelho de eletro-
estimulação. Curto-circuito?
484

Eletrodos Uretrais

10.0 CURTO-CIRCUITO
Devemos nos lembrar que a regra básica da eletricidade, é que ela sempre vai fazer o
menor caminho para fechar o circuito. Ou seja: ela vai fazer o caminho que oferecer menor
resistência, que tiver menos obstáculos.
A pele seca tem uma resistência na ordem de alguns mega ohms. (Ver resistência
elétrica)
Quanto mais úmida estiver a pele, melhor a eletricidade vai andar por ela. É por isso
que devemos sempre usar um gel entre a pele e os eletrodos. Pois se a eletricidade encontrar
uma resistência grande para andar pela pele, ela pode queimar.
Mas voltemos ao curto-circuito. Se o aparelho de eletro-estimulação estiver ligado, e os
dois eletrodos se encostarem, teremos um curto-circuito, e o aparelho queimará.
Mesmo que os dois eletrodos estiverem em contato com a pele, a eletricidade sempre fará o
menor caminho, o que oferecer menos resistência, portanto, ela vai passar de um eletrodo
para outro. Era uma vez um aparelho de eletroestimulação.
Querem um exemplo? Dois eletrodos unipolares inseridos no ânus ou na vagina.
Você não consegue ver o que está acontecendo lá dentro, e de repente seu/sua submisso(a)
misteriosamente se aquieta.
O que aconteceu? Você se pergunta. Você aumenta a intensidade nos controles do
aparelho e nada acontece.
Bem, o mais provável, é que os eletrodos se encostaram lá dentro dele(a), e houve um
curto-circuito, danificando o aparelho.

Eletrodo de sucção
Estimulação anal – clitoriana externa 11.
485

MAIS ELETRODOS
Se desejarmos eletro-estimular o ânus ou vagina, precisaremos de um eletrodo em
forma de butt plug, ou vibrador, onde o mesmo NÃO pode ter um diâmetro grande. Por que
não? Porque poderemos causar uma lesão muscular, não dando espaço para o músculo se
contrair. E a última coisa que desejamos é um feixe muscular vaginal ou anal lesado, não é?
Evite eletrodos de cobre, latão ou bronze. Estes metais são prejudiciais á saúde.
Os melhores eletrodos são de ouro ou aço inox cirúrgico.
A maior parte da eletroestimulação masculina é feita entre a próstata, atingida por via
anal e o pênis. Também pode-se alcançar bons resultados com eletro-estimulação por uma
sonda uretral (um pólo) e próstata (outro pólo), ou na região escrotal.
Na eletroestimulação feminina, normalmente um eletrodo é aplicado no ânus, e outro
na vagina. Outra forma bastante comum é um eletrodo externo na região clitoriana e outro,
inserido no ânus ou internamente na vagina.
Sempre deve haver um gel condutor entre o eletrodo e a pele, para se evitar
queimaduras, e para diminuir a resistência elétrica da pele, proporcionando uma boa interface
entre pele e eletrodo. Lembre-se que a eletricidade sempre faz o caminho mais curto, ou que
oferecer menor resistência.
- Espera!!! Você falou em resistência elétrica? Que negócio é esse?

12. RESISTÊNCIA ELÉTRICA


A resistência elétrica é o ato de oferecer, como o próprio nome diz, resistência á
passagem da corrente elétrica. A medida da resistência elétrica é expressa em Ohm. Uma
homenagem ao físico alemão George Simon Ohm que iniciou sua carreira científica como
professor de matemática no Colégio dos Jesuítas, em Colônia. Em 1827 ele publicou o
resultado de seu trabalho mais importante em um folheto, "O circuito galvânico examinado
matematicamente". Nessa publicação ele apresentava a lei sobre a resistência dos condutores,
que mais tarde foi denominada Lei de Ohm.
A pele seca de um ser humano tem uma resistência da ordem de 1 á 2 MegaOhms. Ou
seja: de 1 a 2 milhões de Ohms. Quanto mais seca estiver a pele maior será a resistência á
eletricidade, e por conseguinte, quanto mais molhada estiver a pele, menor a resistência
elétrica que ela oferecerá para a passagem da corrente.
Ohm disse que a Tensão (Voltagem) é igual ao produto da corrente pela resistência
elétrica. Em outras palavras:
V=RxI
"Voltagem" = Resistência x "Amperagem"
486

Não devemos nos esquecer que a pele seca tem uma resistência da ordem de 2
MegaOhms ( dois milhões de Ohms), e que quando molhada, esta resistência cai para 30
Ohms.
Portanto, quanto menor a resistência, maior a corrente elétrica que passa por ela!
– Pára! Estou em um site BDSM, não quero estudar matemática e muito menos física do
segundo grau!
Mas você vai precisar entender resistência elétrica, porque é ela que está diretamente
envolvida em eletroestimulação, e se não entendermos como ela funciona, poderemos
provocar umas boas queimaduras em seu(sua) submisso(a).
Explicando dentro do BDSM, podemos dizer assim:
Quanto maior for a resistência que a pele do submisso(a) oferecer, mais corrente e
tensão (amperagem e voltagem) precisaremos fornecer, para causar alguma sensação.
O problema é que se aumentarmos a corrente e a tensão, podemos obter alguns efeitos
físicos interessantes, que na sua maioria levam a um mesmo lugar:
Queimaduras de primeiro, segundo e terceiro grau.
- Bom, e como resolver este problema?
De uma forma muito simples: Se a pele não está suficientemente umedecida, basta
molharmos a pele. Uma possibilidade, é que se prepare uma solução de água com sal de
cozinha ( 1 colher de sobremesa para um litro de água). E aplica-se esta solução com um
vaporizador de água. (Você pode encontrá-los em lojas de jardinagem).
Este método é muito bom para a pele externa.
Para uso interno (ânus, vagina, uretra) deve-se usar o gel KY ou similar, que é a base de
água. Não use óleo mineral do tipo Johnson Baby gel, ou algo parecido.
Fique atento: a cada 20 ou 30 minutos você deve acrescentar mais gel lubrificante,
porque primeiro: tanto a vagina como o ânus, que são ricos em mucosas, absorvem por
osmose a água contida no gel, e depois, porque, devido á eletricidade, ocorre uma dissociação
iônica nos componentes do gel.
Tendo estes cuidados, reduzimos muito a possibilidade de queimaduras por
eletroestimulação, além de aumentar a sensação e o efeito desejado.

13.0 FAZENDO ELETROESTIMULAÇÃO


Agora que temos os conceitos básicos, podemos falar um pouco da eletro-estimulação
dentro do BDSM.
A primeira coisa que você vai precisar é de um submisso(a). Parece brincadeira, mas não
é. Não é qualquer submisso(a) que pode receber umas descargas elétricas no corpo.
Devemos estar atentos para NUNCA praticarmos eletroestimulação em:
487

· Portadores de marca-passo
· Portadores de qualquer doença cardíaca
· Portadores de próteses ou pinos de metal nas pernas, pés, braços e pelve
· Grávidas
Depois, iremos precisar de um aparelho que produza eletricidade. Estes
aparelhos NÃO podem ser do tipo ABTronics, ElyzeeBelt (da feiticeira) ou similares.
Esta é a forma mais rápida de voce ter um acidente com eletroestimulação em suas
mãos.
No Brasil não existem aparelhos específicos para isso, e os importados são caríssimos.
Existem duas linhas distintas de eletroestimulação, mas que no final buscam a mesma
coisa:
 Os que usam aparelhos para produzir os estímulos
 Os que usam ondas sonoras convertidas em sinais elétricos
Neste artigo tratamos principalmente do primeiro tópico. Na falta destes, sobram os
aparelhos para fisioterapia, que embora não sejam os mais adequados, podem gerar bons
resultados, embora seu preço seja alto.
A maioria dos aparelhos trabalha com corrente alternada.
Qualquer que seja a opção que faça, ainda falta um componente fundamental. O
eletrodo, que, como vimos anteriormente, é o dispositivo que entrega e eletricidade produzida
pelo aparelho no local do corpo que queremos estimular. Podem ser agulhas, pedaços de
borracha condutiva, objetos metálicos, etc...
As agulhas são usadas para estimular feixes de fibras nervosas diretamente, e requerem
uma técnica aprimorada.
Determine se os eletrodos que irá usar são unipolares ou bi-polares.
Lembre-se que você irá precisar de no mínimo dois eletrodos caso estes sejam
unipolares.
Se for aplicar eletro-estimulação no ânus ou vagina, precisará de um Gel condutor.
Certifique-se que os eletrodos não estejam encostando um no outro após fixados, e que
não estejam provocando um curto circuito, que irá danificar seu aparelho.
Não utilize eletrodos unipolares para eletro-estimulação somente anal ou somente
vaginal. Isto não dá certo, pois os eletrodos entrarão em contato no interior do corpo.
Não aplique eletro-estimulação acima da linha da cintura. Eletroestimulação nos
seios NÃO se faz!!!! Estas fotos que vemos são pura tapeação.
Se aplicar uma corrente elétrica no tórax, você pode, dependendo da corrente utilizada,
induzir uma fibrilação cardíaca.
488

Jamais aplique eletroestimulação na cabeça, principalmente intracraniana.


NÃO ACREDITE QUE QUANTO MAIS, MELHOR, pois em eletro-estimulação, se usar este
critério, poderá ocasionar uma lesão, contratura muscular ou mesmo rompimento de feixes
musculares, e a brincadeira ficará mais séria que imagina.
Lembre-se que as fibras musculares tem sentidos diferentes em nosso corpo, portanto
estudar um mínimo de anatomia é essencial para um dominador(a) tirar o máximo de proveito
de uma sessão de eletro-estimulação;
Teste o limiar de sensibilidade do seu submisso(a). Ajuste os controles de intensidade e
frequência para obter o efeito desejado.
Seja paciente. O maior aliado da eletroestimulação, além do conhecimento de anatomia,
é o tempo.
Lembre-se de usar luvas de borracha quando estiver fazendo uma sessão de
eletroestimulação.
Fique atento para a sensação de "agulhadas" e desconforto por parte da(o) submisso(a),
este é um bom sinal para o início de queimaduras por eletricidade.
O sucesso de uma sessão de eletroestimulação é planejamento!
Pessoas diferentes têm níveis diferentes de sensibilidade e de resistência elétrica na
pele. Caso tenha mais de um submisso(a) faça uma tabela para cada pessoa.
Planeje onde vai aplicar, que tipo de eletrodo vai usar, se vai precisar de um
esparadrapo para fixar os eletrodos, que tipo de efeito quer conseguir, se é um prêmio ou se é
um castigo.
Lembre-se que tanto no homem quanto na mulher, o gozo está intimamente
relacionado com contrações musculares.
Uma, duas, três vezes pode ser prêmio, mas estimular isso seguidamente pode ser um
castigo terrível. Na mulher, a sensação de gozo depois da sexta vez, na média, torna-se
insuportável.
No homem, a contração repetida da musculatura que envolve a próstata é terrivelmente
perversa. Para as dominadoras: a eletroestimulação masculina pode provocar reações
bastante interessantes.

14.0 COMO FUNCIONA UM APARELHO DE ELETRO ESTIMULAÇÃO


489

Um aparelho de eletro estimulação, em termos gerais, retira os 9 Volts da bateria,


entrega á um transformador, que eleva a tensão da bateria para algo entre 170 e 250 Volts, e
junto com um oscilador, ou alternador, transforma a corrente (que era antes contínua, em
alternada.)Depois, temos os controles de tensão (Voltagem) e Frequência. Variando estes dois
controles, temos uma
ampla gama de
sensações, que podem ir
de uma estimulação
prazerosa ao castigo.

Resumindo, o aparelho
entregará na saída, os 9
Volts originais em
Corrente Contínua da
pilha, transformados em
até 250 Volts, Corrente
Alternada, com uma
corrente entre 50 e 80
miliamperes (mA),
através de dois
conectores, onde se
inserem os bornes ou
pinos, com fios e que vão
ligados a(os) eletrodos.
Existem aparelhos que podem fornecer duas saídas independentes, com controles
independentes. Observe o eletrodo bi-polar branco no protótipo 3. em um único eletrodo tem-
se dois polos isolados. Usei tinta condutiva para confeccioná-lo.
Diagrama 1

Protótipo 01 referente ao diagrama 01 Protótipo 02 com eletrodos de borracha Protótipo 03 com eletrodo bi-polar
(branco
15.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Se você pretende iniciar-se nas práticas de eletroestimulação, siga três regras básicas:
 Nunca faça nada acima da linha de cintura
490

 Estude, estude, estude. Planeja suas sessões com antecedência


 Saiba o que fazer e como fazer. Em caso de dúvidas, converse, busque informações.

Por último, o autor lembra que este artigo não habilita ninguém a sair praticando
eletro estimulação por aí.
O autor também não é responsável por lesões, acidentes, ferimentos ou traumatismos
que incapacitem ou venham a tirar a vida de alguém.
Este artigo é meramente ficcional e em hipótese nenhuma pode ser tomado como
referência para prática ou aplicação de eletroestimulação por quem quer que seja.
Este artigo não dá base nem capacita ou habilita pessoas para exercerem a eletro
estimulação.
Mestre Votan

A Lista Eletrostim & Faqs


senhor_carlos

A Eletroestim - Eletroestimulaçao Erótica é uma lista de discussão recentemente criada


pelo Senhor_Carlos – engenheiro especializado em Planejamento energético – com o objetivo
de debater o tema de uma maneira sem preconceitos e principalmente, prevenir a propagação
de informações distorcidas. A lista já inicia com um banco de dados recheado de FAQS –
perguntas mais frequentes – e how-to deveras interessante, disponibilizando material
educacional em língua portuguesa.
Esse material, resultado de anos de pesquisa e experiência do Senhor_Carlos, foi
gentilmente disponibilizado para publicação no Desejo Secreto, o que será feito em partes, a
cada atualização do site. Para assinar a lista, ter acesso a mais informações e tirar dúvidas,
mande e-mail em branco para eletroestim-subscribe@yahoogrupos.com.br

Veja a FAQ da Eletrostim


ELETROSTIM – FAQs (em atualização)21

1. O que é "eletroestimulação erótica"?

21
O FAQ não fazia parte deste texto, mas foi acrescido aqui por não constar em nenhum menu
do site
491

"Eletroestimulação erótica", e-estim, ou mesmo, e-stim é a prática de obter prazer


erótico através da aplicação de eletrochoques de baixa intensidade nas regiões erógenas do
corpo humano

2. Quem pratica e-estim?


Pessoas solteiras, casais, grupos de amigos. Heterossexuais ou não. Enfim, os amantes
do BDSM, pois exige uma certa mística, pois não são todos, os afeitos aos eletrochoques.

3. Por quê se pratica e-estim?


É uma prática BDSM como todas as outras. Envolve uma mistura de dor e prazer e uma
boa dose de imaginação. Se não for afeito às outras práticas BDSM, esta também é
desaconselhada.

4. Qualquer um pode praticar?


Não. Certamente portadores de marcapasso estão excluídos. Outros grupos de risco,
deve-se consultar um médico. Aliás, é uma prática que deve ter acompanhamento médico e
todos os riscos à saúde ainda não são conhecidos.

5. Existem publicações especializadas?


Ao que parece, sim. Existe até um "site" da Erotic Electro Estim Magazine (em inglês).
Nunca tivemos um exemplar deste periódico em mãos, mas o "link" está adicionado aos
Favoritos...

6. No que se consiste o e-estim?


Consiste em uma técnica de "enganar" as terminações nervosas existentes nas regiões
erógenas do corpo, produzindo impressões sensuais e até o orgasmo, se bem praticado. Os
estímulos são gerados em um aparelho próprio, de baixa intensidade e transmitido aos tecidos
através do posicionamento de eletrodos apropriados.

7. Pode-se produzir um "aparelho caseiro" de e-estim?


Sim, embora isso não seja aconselhável. Terá que ter bons conhecimentos em eletrônica
para produzir um aparelho realmente confiável, segundo a norma norte-americana para TENS.
E a confecção de eletrodos caseiros também é possível, embora igualmente desaconselhada.

8. O E-estim pode ser praticado na gestação?


492

Não é aconselhável. Não conhecemos todos os riscos desta prática e de qualquer


maneira, deve sempre vir acompanhado de orientação médica.

9. Pode ser praticado por casais?


Sim. Há muitos relatos na Internet sobre isso. Existem inclusive "esquemas seguros"
para compartilhamento dos eletrodos. Demanda cautela e o beijo, por exemplo, é altamente
desaconselhado durante esta prática.

10. Vi esquemas de montagens na Internet. São seguros?


A maioria, não. Como estão sendo veiculadas muitas apostilas e esquemas, a este
respeito iremos discutir detalhadamente as principais técnicas utilizadas e os principais riscos
de cada uma.

11. Vi desenhos e fotos sugestivas na Internet. Podemos tentar copiá-las em casa?


Não se arrisque! Há muitos desenhos incorretos, de montagens que certamente poriam
em risco o praticante. Quanto às fotos, ainda há muitas práticas incorretas acontecendo,
infelizmente...
12. E-estim é perigoso?
Depende. Uma prática mal realizada pode causar queimaduras graves e até a morte. Por
isso é necessário conhecimento e cautela antes de se aventurar em qualquer dessas práticas.

A Compra De Acessórios E Equipamentos Em Sex-


Shops: Cuidados E Precauçõe Parte 1
Senhor Carlos
O que me motivou a escrever este pequeno
artigo, foi a atestada baixa qualidade da maioria
dos equipamentos eróticos atualmente vendidos
nos "sex-shops" da cidade.
Isso não é um problema apenas no Brasil,
uma vez que a maioria dos produtos é importada
e os nacionais igualmente não primam pela
qualidade. Como dificilmente causas envolvendo
este tipo de produto chegam à justiça, o comércio de produtos defeituosos e/ou de má
qualidade continua intenso. Apenas para consolo dos brasileiros, nos "sex-shops" que visitei
pelo mundo, também notei esta generalização de "falta de qualidade" (embora existam linhas
493

produtos de melhor qualidade e preços mais elevados que não estão vindo para o País, em
razão da instabilidade cambial, etc)
Deixando de lado as críticas, pretende-se fazer uma abordagem prática, para que
usuários destes produtos não "queimem dinheiro", comprando equipamentos que depois se
mostram pouco funcionais.

Escolhendo entre "dildos" e "plugues"


Como distinguir
A diferença entre um "dildo" (consolo) e um "plugue" é bastante grande. Os "dildos" são
projetados basicamente para inserção vaginal e portanto, possuem um formato anatômico
mais semelhante a um pênis (cilíndrico e comprido, com variações). As estrias são geralmente
mais acentuadas, pelo fato dos tecidos a ficarem em contato ao "dildo" serem sensualmente
sensíveis ao estímulo vibratório. Podem ser feitos em plástico ABS (liso e opaco/transparente)
ou em variações de borracha de silicone (em Amsterdam vi de madeira torneada, que
sinceramente não aconselho).
Os "plugues", por sua vez foram concebidos principalmente para inserção anal
(masculina ou feminina). Possuem um acabamento normalmente mais "liso", são mais curtos e
possuem um formato semicônico peculiar. Se devidamente inseridos, permitem estimulação
da base da bexiga, próstata (caso dos homens) e cólon do útero (caso das mulheres). A
remoção posterior geralmente é feita com facilidade e como possuem uma base larga (que
jamais deve ser inserida), não possuem o risco de "entalar", como garrafas, etc. Normalmente
"assentam" em uma posição que permite ao usuário "segurar" o plugue, comprimindo o
esfíncter (alguns homens costumam usar um "plug" anal durante a prática sexual). São
normalmente feitos em borracha de silicone, mas podem ser encontrados também em metal
(alumínio anodizado), em diversos tamanhos.

Escolhendo a finalidade
Claro que o fato do "desenho" ser "peculiar" não impede que "dildos" sejam utilizados
por via anal ou "plugues" em via vaginal. Mas não se aconselha que um mesmo "acessório"
seja compartilhado nos dois fins: as borrachas de silicone são porosas e a higienização deste
tipo de acessório jamais será perfeita. Portanto, ao adquirir um "dildo" ou "plugue", escolha
sua "finalidade" definitiva e não a altere, principalmente se inserido primeiramente por via
anal.
Uma vez definida a finalidade do "acessório" em questão, convém ter em mente alguns
fatores relevantes: formato, diâmetro, material, etc. É comum ver pessoas entrarem em "sex-
shops" e ficarem completamente desnorteadas em meio a um mundo de acessórios tão
diversificados. Antes de pedir para testar todos os tipos de aparelhos, tente mentalizar onde
será utilizado e qual a sensação que se deseja obter. Se for utilizar em si, lembre-se das suas
próprias "dimensões" ou corre o risco de adquirir um equipamento completamente inútil!
494

Se for presentear alguém, isto se torna ainda mais crítico: a maioria dos "acessórios"
possui dimensões acima daquelas que se poderia considerar "adequadas" e serve mais para
impressionar o presenteado do que para o uso, principalmente de iniciantes. Lembre-se que
um "dildo" de borracha certamente não acomodará tão facilmente como um pênis de
verdade, das mesmas dimensões. Tenha isso em mente antes de sair comprando...
Por fim, seja criativo! Não é necessário se fiar plenamente nas finalidades expostas nas
embalagens para adquirir equipamentos em "sex-shops" (os "dildos" de um modo geral são
muito bons para estimulação peniana - coisa que pouca gente sabe. fui informado também
que alguns "G-reacher" podem ser utilizados para "massagem prostática" - quem diria? Mas
não tenho certeza do resultado...) Não aconselho que proceda a modificações "gratuitas" por
sua conta e risco nos "aparelhos", por mais engenhosa que possa parecer...

Defeitos de injeção e projetos esdrúxulos


É comum os "acessórios" virem com rebarbas, farpas, bicos de injeção, etc. Verifique
cautelosamente se não é o caso; uma rebarba de plástico pode fazer um estrago tão grande
como um bom bisturi...
Descobri em alguns "acessórios" injetados, "buracos" no silicone. Isso quer dizer que ao
invés da superfície ser perfeitamente lisa, possuía reentrâncias que permitiam reter matéria
orgânica/fluidos (o aparelho não foi tirado de venda!). Notei que este tipo de defeito é
bastante frequente, principalmente em peças de silicone. Se for o caso, não adquira um
produto defeituoso...
Outro defeito bastante comum são soldas do plástico/borracha mal feitas. Neste caso,
além das rebarbas, há o problema de entrar água/fluidos/matéria orgânica, contaminando o
aparelho. De uma maneira geral, o ideal é que o aparelho seja completamente estanque. Os
melhores possuem um "o-ring" (um anelzinho de borracha) na rosca da tampa do "holder" de
pilhas, que dá uma vedação muito boa. Portanto, prefira aparelhos que tenham "o-ring".
Desconfie também de "projetos fantásticos": o que o fabricante informa na embalagem
nem sempre é verdadeiro... Desconfie também daquelas informações tipo "projeto
revolucionário aprovado por 500 mulheres". (comprei um "G-reacher" que realmente não
pode alcançar o tão falado "ponto-g" de mulher alguma: o aparelho ao ser inserido "vira de
lado" e o "magnífico acessório" fica sempre fora de posição...).
Mas há de fato bons projetos: alguns possuem "duplo vib", um vaginal outro clitoriano,
etc. No exterior, há aparelhos disponíveis com "timer", controle remoto, etc. Alguns possuem
inclusive comando de "vib" computadorizado, variando a frequência, pulsando, etc.
Infelizmente com disse, a maioria não chega no Brasil...

Escolhendo o acabamento
Higienizar um "acessório" de plástico ABS é bastante fácil: basta um pouco de água
morna e espuma de sabonete neutro, sem imergí-lo totalmente na água. Não molhe a
495

tampinha de trás, onde está o potenciômetro, pois este é muito sensível à umidade. Se tiver
"vib" e entrar água por ter sido submergido, poderá danificar o motor ou o potenciômetro
(como a higienização é complicada, não se aconselha repartir "dildos" ou "plugues" com
parceiros). Pessoalmente, não gosto muito da sensação de contato do ABS (plástico duro),
principalmente diretamente sobre os genitais. Para inserção anal, ainda são os mais
aconselháveis, pelo motivo da fácil higienização.
Já os acessórios com acabamento em borracha de silicone ou análogo, são mais difíceis
de serem higienizados: a superfície é um tanto porosa, retendo partículas de fluidos/matéria
orgânica. A sensação de contato, no entanto, é mais próxima à da pele humana, tornando-os
bem mais "agraváveis". Uma solução para a higienização é adquirir acessórios deste tipo em
que a borracha de silicone seja destacável (há vários no mercado). A borracha pode ser
totalmente imersa em água com um pouco de solução bactericida à base de amoníaco ("pato
purific") por meia hora e depois lavada em água corrente com sabonete neutro.
Depois de lavado em água corrente, deixar secar naturalmente na sombra, sobre uma
toalha limpa e macia antes de guardar. Aconselha-se sempre a lavar os equipamentos com
água e sabonete neutro antes do uso. Se tiver "vib", deixe-o após ter sido lavado, ligado por
uns 15 minutos sobre a toalha. Isso evitará que o motorzinho, se tiver recebido gotículas
d'água durante a lavagem, oxide, travando e perdendo-se para sempre o "equipamento"
(nenhuma loja irá substituí-lo por um novo...)
Observação: nunca desmonte o aparelho para lavar sua parte interna: você poderá estar
molhando o motorzinho do "vib", o potenciômetro e o "holder" de pilhas e ele nunca mais irá
funcionar...

Vibradores, etc
A maioria dos acessórios eróticos possui dentro dele, um vibrador encapsulado, movido
de uma a quatro pilhas de 1,5V. O sistema de vibração funciona da seguinte maneira: as pilhas
fornecem energia a um motorzinho de corrente contínua (parecido com aqueles que existem
em brinquedos para crianças), que irá girar. No eixo deste motorzinho, existe uma pequena
massa descentralizada que ao ser impressa a rotação, causará trepidação (mais ou menos
como uma roda de automóvel desbalanceada).
Um outro sistema de "vib" é por "indução eletromagnética". Este é mais usado naqueles
massageadores musculares, que são ligados à tensão de 127V. Nestes, não há parte móvel.
Existe uma espécie de bobina, enrolada na forma de um transformador. Ao ser carregada com
uma tensão oscilante, fará oscilar um "induzido" de ferro, que produz as vibrações. São
aparelhos bem maiores e como dependem de uma fonte de energia AC (corrente contínua),
não existem nas versões para "estimulação erótica" (embora alguns destes aparelhos possuam
acessórios adaptáveis "interessantes")...
Se for comprar um equipamento com "vibro", verifique cautelosamente se o motorzinho
está funcionando adequadamente. As lojas de "sex-shop" não trocam equipamentos
defeituosos e a maioria dos "acessórios" é feito na China, com baixo ou nenhum controle de
496

qualidade. Os motorzinhos utilizados são os mais baratos que existem em produção (até agora
não encontrei nenhum que utilizasse motores de melhor qualidade).
Verifique principalmente o funcionamento do potenciômetro. O potenciômetro é um
resistor colocado em série, rotativo (montado na parte de trás do aparelho) ou translativo
(montado no "holder" das pilhas), que permite "variar a velocidade" do motorzinho,
implicando em sensações de vibração diferentes. Se for montado no "holder" das pilhas, pode-
se depois de ajustar o aparelho ao usuário, ir "variando repentinamente" a velocidade,
criando-se assim, sensações pulsativas interessantes...
Muitas vezes, é exatamente o potenciômetro que vem defeituoso, principalmente os
translativos (sobe-desce). O vendedor provavelmente irá colocar pilhas no "acessório" e lhe
mostrar na mão que "está funcionando". A maior parte das pessoas se contenta com isso e
"fecha o negócio" (normalmente estão tensos demais exatamente por estarem dentro de um
"sex-shop", para pensarem adequadamente).
Ao invés disso, pegue um pouco o aparelho na mão e sinta por um instante se a vibração
é realmente agradável: não se apresse em comprar... Depois vá variando a velocidade do
"zero" ao "máximo" e retornando ao "zero" e verifique se a mudança é constante. Se a
transição não for suave, provavelmente o potenciômetro está com defeito... Aliás, ficar tenso
por se estar adentrando um "sex-shop" no fundo é uma imensa besteira: quem me dera ver
chegar o dia em que as pessoas adentrarem estas lojas como o fazem num supermercado ou
numa loja de roupas...
Dica: se o aparelho for "encapsulado", verifique se não há orifícios abertos na saída do
fio (vibradores tipo "bullet" - as pilhas ficam num "holder" à parte e o "vib" tem o formato
aproximado de uma grande cápsula de medicamento). Caso exista algum orifício, o aparelho
não poderá ser usado para inserção anal/vaginal. Diga o que quiser o fabricante na
embalagem: os fluidos penetram através do orifício deixado para a passagem do fio,
"contaminando" internamente o aparelho.
Além de não poder ser higienizado adequadamente (se imerso na água, provavelmente
nunca mais voltará a funcionar), os próprios fluidos que penetrarem na cápsula causarão com
o tempo, oxidação do motorzinho, que irá parar de uma hora para outra...
Uma solução para os "bullet" (que aliás, são bastante divertidos) é comprar uma bisnaga
de silicone em uma loja de material de construção (de preferência, marcas conhecidas) e vedar
a saída do fio com silicone. Pode-se também aplicar silicone sobre o "bullet", revestindo-o com
uma camada que irá propiciar um melhor contato físico. Se fizer isso, para obter uma camada
"lisa", aplique por cima um filme de PVC tipo "perfex", com o material recém-aplicado
(demanda certa habilidade manual). E não se esqueça: deverá deixar a borracha de silicone
"curar" por aproximadamente 48 horas antes do uso, pois o solvente é ácido acético que é
muito irritante...
(Alguns usuários também tiveram a ideia de utilizar "bullets" inseridos em uma dessas
"camisinhas de dedo", que é uma ideia interessante; ou cortando-se o dedão de uma luva
cirúrgica, para que possa ser "encapsulado com borracha".)
497

Aguarde a segunda parte : Chegando em casa !

A Compra De Acessórios E
Equipamentos Em Sex-
Shops: Cuidados E Precauções
Parte 2
Senhor Carlos

Chegando em casa
Com o aparelho recém-adquirido, lave o aparelho com água corrente morna e sabonete
neutro, seque-o externamente com uma toalha, coloque pilhas novas, teste-o contra a sua
mão. Antes de tentar utilizar qualquer equipamento BDSM, você deverá conhecê-lo muito
bem, estar familiarizado com seu funcionamento, com suas peculiaridades. Com isso, poderá
evitar muitos acidentes por mau uso...
Depois disso, deixe-o funcionando por aproximadamente 1 hora a uma velocidade
"mediana". De vez em quando, varie a velocidade, suavemente do "mínimo" ao "máximo".
Com isso, estará "amaciando" o motorzinho que vem dentro do aparelho. Como um motor de
automóvel, só que muito mais simplório, o motorzinho dos "vibs" também precisa ser
"amaciado". Pouca gente sabe disso, mas farpas, defeitos de fabricação, irregularidades irão
ser "desgastados" com essa operação simples e o funcionamento do aparelho irá ficar mais
"macio"...
Se for usar em alguém, estude antes como irá fazer isso. Ensaie, perceba as dimensões
reais do equipamento, pois "na hora-H" isso será realmente muito mais difícil...

Por fim... o lubrificante!


Nunca utilize "dildos" ou "butts" sem uma generosa lubrificação: normalmente por via
vaginal, no sexo "natural" nosso organismo se encarrega de fazer isso de uma maneira
bastante eficiente (pessoalmente, assim mesmo eu costumo complementar a lubrificação com
uma pequena dose de KY).
No entanto, os "dildos" e "butts" não são "autolubrificantes" e a inserção de um
acessório destes sem lubrificação não é prática BDSM - é insanidade! Pode provocar ruptura
dos tecidos, com consequências gravíssimas à saúde (consulte um médico a respeito).
Lubrificantes à base de petróleo (óleo mineral, vaselina, etc..) não são adequados, pois não são
solúveis em água, não podem ser removidos com facilidade e destroem as partes de borracha
do equipamento e preservativos de borracha.
Existem algumas receitas de "lubrificantes caseiros", mas considero o mais adequado
ainda o velho e bom KY, da Johnson. Sim, na farmácia da esquina tem! (já vejo até nas
498

gôndolas do Pão de Açúcar, junto com cosméticos – não é nenhuma vergonha comprar e tem
pessoas que necessitam dele, mesmo se não estiverem praticando sexo...) Experimentei certa
feita um da Preserv, que é mais difícil de encontrar e com bons resultados (a lubrificação me
pareceu mais durável). Existe também KY em líquido, que ainda não experimentei.
Não recomendo aqueles lubrificantes comercializados em "sex-shops": não sabemos em
quais condições foram transportados até o Brasil, nem ao certo a formulação contida. Tenha
em mente que algumas pessoas são muito sensíveis e eu, por exemplo, sou muito alérgico – e
não sou exceção na população brasileira. Jamais se deve usar "lubrificante com anestésico"
para prática anal, pois se pode estar mascarando danos reais e graves aos tecidos, que ao
cessar o "efeito anestésico", irão ficar evidentes... Lubrificantes vaginais com "aquecimento"
ou penianos com "excitante", aconselho a correr destes produtos!
Lembre-se que o KY "vence" depois de um tempo: se for abrir a embalagem e ao invés
de gel, se apresentar como líquido, está vencido e deve ser descartado. Pode ser usado
normalmente com preservativos de borracha; não tem odor e praticamente não tem gosto
(embora acredite que não deve ser ingerido - não encontrei indicações a respeito na bula, que
não é lá muito "kinky"...).

Usando aparelhos.
Cuidado! Aparelhos para inserção anal/vaginal podem provocar muito mais estragos do
que imagina! Portanto, use com cautela, considerando que irá inserir algo em regiões muito
sensíveis do corpo humano. Lembre-se também que os aparelhos devem ser guardados sem
pilha e cuidadosamente lavados antes e depois do uso...
Dicas para inserção. Se for inserir um "dildo" via vaginal, antes de iniciar a inserção
propriamente dita, teste antes o aparelho, escolhendo a velocidade desejada (dificilmente
poderá alterar isso posteriormente). Lubrifique com abundância a extremidade do aparelho e
aplique-o suavemente sobre a vulva, clitóris, etc.. Não tenha pressa... Algumas mulheres
preferem gozar com "dildos" apenas na estimulação clitoriana. Você terá que descobrir o
caso..
Se este for o caso, continue a fazer movimentos circulares na região do clitóris,
exercendo ligeira pressão constante. Quando perceber que começou a gozar, encoste a
superfície do "dildo" ao longo da vulva (mantendo a extremidade sobre o clitóris), de maneira
a estimular externamente também os grandes lábios. Enquanto estiver gozando, mantenha o
"dildo" parado nesta posição. À menção de "retirar", cesse o contato imediatamente e isso
poderá acontecer "de uma hora para outra". Não tente fazer sexo logo em seguida a uma
prática desta natureza... (se fizer bem feito, a pessoa fica como que "exaurida").
Se não "resolveu parar" na estimulação clitoriana, agora "vá descendo" o aparelho, até
encontrar os grandes lábios. Provavelmente, nessa altura, terá que reforçar a lubrificação do
aparelho - sempre aplique o KY sobre o aparelho, não sobre as partes íntimas, pois o contato
"frio" é fortemente desestimulante... Vá fazendo movimentos ligeiramente circulares, até que
comece a observar o aparecimento dos pequenos lábios. Continue os movimentos, até que
499

possa "encontrar a posição" para inserção. Nessa altura, a vagina ficará com uma conformação
bem particular, como "de espera".
Antes de inserir, lembre-se agora de lubrificar o "dildo" completamente, até a base
(mesmo se não for inserir completamente)... Insira mantendo o aparelho na posição
adequada, fazendo ligeira pressão na base, constante, até que penetre inteiramente na vagina.
Atenção: se encontrar resistência, não force - poderá ter chegado ao final do "comprimento"
da vagina antes de terminar o do aparelho... Mantenha o aparelho inserido, fazendo ligeira
massagem no clitóris e movimentos de "sobe-e-desce" com a base do aparelho, até obter o
orgasmo. Depois disso, comece a operação inversa, movimentando com muito cuidado o
aparelho para fora, bem lentamente... Só tente desligar depois que estiver totalmente
removido. Lave-o em seguida.
Para inserção anal, lembre-se que é uma espécie de variação da prática de "fisting": o
objetivo é tornar a musculatura do esfíncter "complacente", antes de começar a inserção
propriamente dita. Lubrifique abundantemente, inclusive aplicando KY sobre o ânus, com uso
do indicador (cuidado para não contaminar a bisnaga – esprema o KY sobre o dedo e não o
inverso). Massageie lentamente com o indicador e o dedo maior, fazendo ligeira pressão
contra o esfícter. Segure a pressão por uns 5 segundos, depois relaxando novamente.
Massageie novamente, sempre com muito cuidado. Faça pressão novamente. Não tenha
pressa: em determinado momento, a musculatura irá naturalmente "se abrir" e poderá
introduzir um dedo, previamente lubrificado (recomenda-se o uso de luvas descartáveis para
esse procedimento). Quando tiver "ganho confiança", é ora de experimentar o "plugue"...
Alguns "kits" contêm plugues de três tamanhos: "iniciante", "médio" e "expert". Não
subestime: há produtos que servirão apenas para "os mais experimentados"... Se for a
primeira vez, recomenda-se iniciar com o plugue correto. Lubrifique-o inteiramente e
abundantemente. No ato de inserção, não force sua passagem: comece lentamente mais a
"posicioná-lo" corretamente, do que a "empurrar para dentro".
No processo, se o esfíncter se fechar, não insista: deixe que o plugue "deslize para fora"
naturalmente. Depois, limpe tudo com papel e tente tudo de novo... Uma dica: se estiver já no
meio da inserção, pode mandar à pessoa que estiver "recebendo" o plugue, que "empurre".
Mantenha apenas com a sua mão, o plugue na posição: ao ser "empurrado", irá penetrar um
tantinho de cada vez... Se tiver sistema para inflar, recomenda-se tomar o máximo de cautela:
os danos que podem ser causados são muito extensos e o aparelho deve ter medidor preciso
do nível de pressão a que está submetendo as paredes do reto...
Para remover o plugue, basta segurá-lo firmemente pela base. A pessoa deverá fazer
força, como se estivesse expelindo fezes. O aparelho deverá sair tranquilamente. Se não for
possível, tente a operação novamente, sem jamais forçar. Se for totalmente impossível,
procure ajuda médica imediatamente...
Por fim, já que os "dildos" também servem para estimulação peniana, por quê não falar
dela?
500

Sim, apenas não se recomenda que sejam aplicados diretamente sobre os testículos:
podem causar micro-lesões irreversíveis - isso é sério! Mas, lubrificando-se bem o pênis, pode-
se estimular a base do pênis, pressionando o "dildo" na região de saída da bolsa estrotal (sem
tocar testículos). É uma estimulação bastante interessante e a vibração na base faz com que
fique bem ereto.
Depois, pode-se estimular a glande, aplicando a extremidade do "dildo" diretamente
sobre ela. Estimular a pele do prepúcio, com a glande totalmente exposta é também bastante
excitante (lembre-se de manter sempre um bom nível de lubrificação). Por fim, para gozar,
basta pressionar o "dildo" contra a parte anterior do pênis, na região do "freno", ligeiramente
abaixo da glande. Colocar o "vib" no máximo e manter a pressão até ocorrer a ejaculação. O
difícil é conseguir manter o "dildo" em posição por ainda mais um ou dois minutos, durante e
um pouco depois da ejaculação, para forçar uma "ejaculação total" do parceiro... (o que é bem
"kinky")

Abraço a todos e boa sorte! E lembre-se sempre: prudência...


Senhor Carlos

Acessórios Eróticos - Explorando E Conhecendo Sua Intimidade


Senhor Carlos

A primeira questão que tentaremos abordar é: "por que o uso de acessórios eróticos?".
O que eles têm a ver com nossa sexualidade? Em quê eles poderiam nos ajudar, se é que isso
acontece?
Para a maioria das pessoas, o simples uso de um vibrador é entendido como
"descontentamento sexual". Ou seja, ou o parceiro não está "dando conta do recado", ou é
por "efeito da solidão"... Veremos que não é bem assim.
Na civilização greco-romana, o uso de
acessórios eróticos foi grandemente difundido.
Escavações das décadas de 1960 e 1970 em
Herculano e em Pompéia recolheram material
suficiente para equipar um pequeno "museu
erótico", mas que infelizmente está com visitação
restrita. Nas culturas árabe clássica, chinesa,
japonesa, indiana antigas e em outras, o uso de
acessórios nas cortes era bastante difundido e até
estimulado.
O que são "acessórios eróticos"? Basicamente, qualquer objeto que insinue, ou que seja
definitivamente usado para excitar a si ou ao parceiro. Um simples pedaço de napa vermelha e
muito macia poderia ser um acessório erótico para alguém que se excite com aquela textura
501

macia do couro tratado. Há também acessórios que se podem apenas simular, não sendo
recomendável seu uso. A exemplo, frutas e legumes frescos, objetos de uso quotidiano como
canetas e outros que como não foram desenhados para o objetivo, poderiam causar lesões por
perfuração ou corte, portar bactérias e outros agentes nocivos/irritantes, etc..
Qual o conceito que está por trás de "estimulação erótica"? Em primeiro lugar, explorar
e conhecer seu próprio corpo. Nos orgulhamos de termos nascido em uma "sociedade livre de
preconceitos", mas o fato é que nunca se falou tanto e nunca se praticou tão mal a
sexualidade humana. Não conhecemos nosso corpo, não sabemos nossos limites. Nunca nos
ensinaram na escola a segurar o gozo, esperando o parceiro atingir igual excitação. Nunca
disseram para nós o que fazer após o ato sexual. É tudo isso que precisamos redescobrir.
Como fazer isso? Em primeiro lugar, você deve estar disposto a se conhecer melhor, a
ensaiar na frente de um espelho. Aconselho a arranjar um espelhinho portátil e uma fonte de
iluminação adequada. Com as mãos, você deverá explorar seus órgãos sexuais, conhecer
melhor seu próprio corpo. Explore outros ângulos de visão, com ajuda do espelho é possível
conhecer melhor as dobras da vagina, bolsa escrotal, ânus e região próxima. Dificilmente
alguém que não se conhece aprenderá a se amar. Quem não se ama, não poderá fazer o
mesmo com o parceiro.
Para quê servem os acessórios eróticos? Basicamente, enumerei seis utilidades: 1-
voyerismo; 2-excitar e prolongar as prévias antes da cópula melhorando a ereção; 3-produzir
excitação e gozar, ou prolongar o clímax; 4-iniciação em práticas "avançadas"; 5-jogos BDSM.
Abordarei brevemente algumas delas:

1-voyerismo. Muitas pessoas se excitam em assistir ao parceiro trajado de determinada


maneira, ou tendo sensações eróticas/fazendo uso de acessórios. Pessoalmente, me incluo
nesta categoria. Os "sex-shops" normalmente possuem material abundante para isso e
infelizmente, na maior parte de baixa qualidade. Se for comprar vestimentas, verifique se não
é possível mandar confeccionar em algum lugar exclusivo antes de apelar para fantasias
baratas. Dica: dificilmente quem confecciona trajes de gala se espanta com pedidos
estranhos...
Aconselho sempre a dialogar com o parceiro(a). Se não quiser abordá-lo diretamente,
pode presenteá-lo com alguma vestimenta ou acessório especial. Na hora de entregar o
presente, demonstre naturalidade e não tente se explicar. Nossa cultura nos obriga a negar o
prazer e não raramente, uma resposta inicial de repúdio do parceiro pode significar, de fato,
aprovação. Seja paciente, ganhe aos poucos a confiança e o mais importante: não o obrigue a
vestir ou fazer nada. Tudo deve ocorrer naturalmente.
Se o presente for um acessório. No caso de mulheres, escolha ou um pênis de borracha
macia de tamanho pequeno (tome muito cuidado com a qualidade), ou um desses excitadores
clitorianos (em forma de ursinho, coelhinho, unicórnio, etc..). Saia fora de acessórios
grosseiros, equipamentos inadequados ou extravagantes e desconfie dos que forem baratos
demais. Importante: teste muito bem o aparelho antes de sair da loja: normalmente a porta do
502

estabelecimente é o limite sua garantia... (ah, e não esqueça de dar as pilhas junto com o
aparelho!)
No caso de homens, presenteie com algum acessório peniano. A educação masculina
obriga a repudiar o erotismo anal, que na maioria dos casos permanece latente. Portanto, não
comece dando logo de cara um plugue anal para seu namorado/noivo/marido. Não são
aconselháveis: bombas de vácuo (perigosas demais - apenas para experientes), anéis metálicos
(entalam com frequência e devem ser retirados num serviço de saúde), vibradores para
escroto (podem causar lesões irreversíveis/impotência). Recomendo pequenos vibradores (são
fantásticos para estímulação da glande), vibradores com adaptador para cabeça do pênis,
anéis de borracha macia para base de pênis (com ou sem vib) e principalmente: uns
masturbadores em borracha macia. Estes possuem a forma de um cilindro transparente e dão
sensações eróticas indescritíveis (não são aquelas "vaginas de silicone"). Importante: não
esqueça de comprar também um tubo de KY na farmácia (normalmente é mais barato).
Plugues anal - se a prática já for conhecida entre os parceiros, aconselho começar com
um plugue pequeno. A adaptação aos acessórios de borracha dever ser feita com muita
cautela, com o risco de causar danos irreversíveis. Se for presentear com um vibrador em
formato de pênis e acabamento em borracha, aconselho de seja inserido por esta via com uso
de camisinha. Cuidado com plugues metálicos (devem ser totalmente lisos e ausentes de
farpas). O problema da borracha é que é porosa e será quase impossível higienizar o acessório
após o uso. O uso de acessórios infláveis comporta riscos e deve ser considerado uma prática
BDSM "avançada" - cuidado!

2-Excitar/provocar o parceiro antes da cópula. O essencial nestas práticas é não


produzir o orgasmo. É uma espécie de equilíbrio muito delicado: se sentir qualquer espécie de
dor indesejada, o parceiro(a) irá perder a excitação e provavelmente tudo se acaba; se a
estimulação for insuficiente, perde o interesse e irá se distrair; se for forte demais, irá gozar e
tudo se encerra como se tivesse ocorrido a cópula. Os antigos ficavam nestes jogos por horas a
fio. Pode haver pausas, pode-se parar para fazer xixi e depois retomar os jogos. O importante é
que haja continuidade e que possa ser sustentado por muito tempo.
Não tenha pressa. Não vá "cêdo ao pote". A excitação é como o desabrochar de uma
flor, não pode ser forçada ou esta será uma flor doente. Tenha as mãos muito leves, faça
transições lentas. O beijo ajuda a manter a ereção. Se for tocar a região genital ou inserir algo,
tenha certeza de que está tudo muito bem lubrificado (lubrifique o aparelho e não a genital). A
televisão distrai. Música clássica em CD é mais aconselhável que MPB ou FM. Deixe uma
garrafa de água por perto e não marque compromissos para o dia. Se for atender o telefone,
não interrompa os estímulos.
Com o tempo, será possível "treinar" o parceiro para este aprender a segurar o gozo.
Isto irá melhorar o desempenho sexual de ambos. Quando se aprende a controlar o próprio
corpo, é possível por exemplo, manter a ereção por períodos prolongados e a penetração fica
mais "interessante". (Pode ser feito individualmente, sem o mesmo resultado). Lembre-se:
formar uma "máquina de sexo" exige tempo de treinamento...
503

Se for usar "eletroestimulação" (aparelhos próprios para isso), use baixíssimas


intensidades, por períodos bem prolongados. Enquanto o aparelho estiver operando, lembre-
se de que beijo é terminantemente proibido!

3-Levar o parceiro ou a si ao gozo. Se pretende simular o sexo com um acessório


erótico, há algumas regras que devem ser seguidas. Como a maioria das pessoas as
desconhece, é usual comprarem um acessório em uma "sex-shop" e sobrevir a decepção.
Vamos a algumas delas.
Primeiramente, seu corpo não é uma "máquina de sexo". Não basta introduzir/adaptar
o acessório e esperar o gozo. Pelo contrário, já que está emulando a prática sexual, deve seguir
todas as etapas. Não adianta tentar "violar a natureza", antes adaptar as técnicas à nossa
constituição natural.
Consideremos as seguintes fases: a)despir-se/iniciar os jogos eróticos - se for fazer isso
sozinho(a), faça-o na frente de um espelho. Dispa-se bem devagar, explore a sensualidade das
suas formas, sejam elas quais forem; b)começo das "brincadeiras" - um lugar macio para
sentar/deitar e à prova de vazamentos de KY e fluidos. Aconselho a ter uma toalha especial
para proteger sua cama/sofá. Os jogos devem ser lentos e começa-se a alisar, passar a mão
bem de leve sobre as zonas eróticas. Depois começam as experimentações com os acessórios.
Se tiver mais de um, deixe-os por perto, assim como coisas que o(a) excitem (livros,
fotografias, filmes, etc..). Só comece os jogos mais pesados quando sentir que começaram a
ficar molhado(a)... (esta fase deverá durar entre dez e quarenta minutos, de maneira geral); c)
introduzir/acoplar seu "acessório de cópula". Lubrifique o acessório bem antes de fazer isso e
mantenha-o firme em sua posição durante a "cópula". Pode se mexer ou movimentar o
acessório, se assim desejar, mas não o retire/desacople até atingir o clímax; d) clímax e gozo -
quando perceber que for gozar, tente assim mesmo "segurar o gozo". Na verdade, isso irá
aumentar o tempo de excitação máxima, sempre mantendo o aparelho no lugar. Quando
começar a gozar, certifique-se de que o equipamento não irá desacoplar, pois deve ainda
prolongar o prazer por algum tempo. Não basta "excitar e gozar", deve-se manter a excitação
também durante o gozo e um pouco mais, ou não irá ficar satisfeito(a). Se for um equipamento
de "eletroestim", é conveniente baixar um pouco a intensidade dos choquinhos nesta hora,
pois a região fica mais sensível que o normal. e) após o gozo - muitas pessoas ignoram esta
fase, que é uma das mais importantes. Retire/desacople os acessórios lentamente, solte
amarras e mordaças devagar e acaricie muito o parceiro(a). Aconselha-se a ficar abraçado por
um tempo e há homens e mulheres que gozam ainda uma outra vez desta maneira (sim,
homens também!). Depois, uma dormida ou uma pequena descansada e nada como um bom
banho! Evite nesta hora falar alto ou colocar música irritante (a não ser que curta um bom
"heavy metal").

4-Iniciação em "práticas avançadas". Pode ser que seu objetivo seja por exemplo,
explorar o sexo anal ou o "fisting" (introdução de membros na vagina ou ânus). Neste caso,
deve buscar acessórios eróticos que irão gradualmente ajudá-lo a explorar esta dimensão da
504

sua sexualidade. Não considere anormalidade também o homem buscar o prazer anal. A nossa
sexualidade exclui os "anormais" (gays, lésbicas, sadomasoquistas e outros) e dependendo da
educação recebida, a "purificação" vai ainda mais longe, proibindo estimulação na zona anal,
felação (masturbação), exploração sensual do próprio corpo e até mesmo negando a própria
libido (desejo sexual).
Se você segue este caminho, muito bem. Não deveria estar lendo este texto. Mas se
você acredita que as coisas poderiam tomar outros rumos, então é possível explorar outras
dimensões na sua forma de encarar o prazer erótico. Hoje os "sex-shops" estão mais abertos e
a importação garantiu a entrada de equipamentos antes desconhecidos no mercado brasileiro.
Para os iniciantes em sexo anal, por exemplo, há "kits" de plugues anal de tamanhos
progressivos, indo desde o "iniciante", até o "avançado" e em diversas cores. Para praticantes
do "fisting", já vi mãozinhas e braços de todos os tamanhos e não mais é necessário começar
com um acessório de tamanho inconveniente. O mundo BDSM é um universo à parte e a
criatividade atinge níveis indescritíveis. Infelizmente, ainda há quem pense que "bolinhas
tailandesas", por exemplo, servem apenas aos "depravados"...
Dica: se for começar uma prática nova, seja ela "pumping" (uso de bombas de vácuo),
"fisting" (introdução de dedos e punho) ou qualquer outra, aconselho a buscar ajuda de
pessoas mais experientes. Não tenha pressa em se iniciar em uma prática que desconheça os
efeitos. Se possível, converse com um médico da sua confiança para esclarecer eventuais
dúvidas. Cuide muito bem do aspecto da higienização dos equipamentos e no caso de surgir
qualquer tipo de lesão por efeito mecânico (acidente físico) ou por agente microbiano
(infecções), procure seu médico imediatamente.

5-BDSM. A "bondage e dominação, sadismo e masoquismo" é praticamente universo à


parte. Há pessoas inciadas das mais diversas opções sexuais e os ritos também são muito
diversificados. Existem desde práticas "light" até as mais "pesadas" imagináveis. A regra básica
a seguir é: "são, seguro e consensual" e deve-se ter em mente que qualquer prática desta
natureza envolve sim, riscos. Os riscos podem ser gerenciados, mas jamais ignorados.
Se for se iniciar, procure se informar muito bem antes. Você terá que aprender a
distinguir os "falsos mestres e senhoras" dos verdadeiros. Qualquer prática que viole qualquer
uma das três "regras de outro" (são, seguro, consensual) não deve ser considerada BDSM e sim
um tipo penal punível por lei.
Se for o caso, antes de sair comprando chicotes, braceletes e máscaras, entre em
contato com praticantes do BDSM real (não valem "mestres" dos chats de Internet). Quase
que certamente, deverá ter que confeccionar seus próprios acessórios, uma vez que o que é
vendido nas "sex-shops" é praticamente imprestável (não acredite nos "conselhos da
vendedora", a não ser que quem esteja comercializando realmente "entenda do assunto").
Sim, BDSM é 9O% teatro. Sim, é necessário aprender a se portar, a vestir e trajar os
"uniformes" e a ordenar/obedecer. É preciso ensaiar muito, uma vez que se "faz um papel". Os
acessórios devem ser muito bem testados previamente e não se admite a menor falha no
505

"ato". É possível se "inverter papéis", desde que todos saibam precisamente qual o papel que
está desempenhando.
Mas há os 10% que não tem nada de encenação. Para isso, é necessária muita prática ou
os acessórios não irão funcionar. Se for chicotear, aprenda antes com alguém que saiba fazer
isso muito bem. Experimente antes em você mesmo, até que tenha certeza do que está
planejando, que não irá colocar em risco ou comprometer a saúde do parceiro(a). Se for usar
"eletroestim", pratique muito em você mesmo antes e não tenha seu limite como parâmetro
universal, pois há pessoas mais e outras menos sensíveis. Muita dor não significa
necessariamente muito prazer; o resultado ideal está em um casamento perfeito das duas
coisas e na medida exata. Jamais use eletricidade "acima da cintura" e eletroestimulação de
mamilos definitivamente não é uma boa ideia!
Assim, pretendo encerrar estes breves comentários sobre o uso de acessórios eróticos
na prática sexual. Não pretendi esgotar o tema e certamente, muitas dúvidas irão surgir. Na
medida do possível, tentarei esclarecer algumas delas. Certamente o texto deve conter erros -
peço desculpas aos leitores mais aguçados. Por fim, não levem ao pé da letra tudo o que foi
escrito. O espírito crítico ainda é a melhor arma do homem.
Por fim, espero não ter cometido nenhuma injustiça com os diversos grupos/opções
sexuais. Da mesma maneira, espero que os leitores aceitem as diversidades que possam estar
contidas nas ideias aqui expostas.
Um abraço a todos,
Senhor Carlos
jan/2003
Senhor Carlos

Dildos Silenciosos E Cenas Públicas - Como Evitar Ser


Denunciado
Senhor Carlos

Práticas BDSM crescem de modo notável, principalmente no que se convencionou


chamar de "mundo ocidental". Não é verdade afirmar que este é um fenômeno exclusivo
deste "bloco", uma vez que há fortes indícios de retomada do crescimento da cultura SM
mesmo em países onde não se imagina que tenha penetrado:
Arábia Saudita, Jordânia, Turquia e muitos outros.
O levandamento da proibição de concessão de alvará de
funcionamento a "sex-shops", aliado a uma maior abertura do país
contribuiu para universalizar a cultura BDSM no Brasil. Ela já existia
e é antiga em nosso país, mas ficou por longos anos restrita a ilhas
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fechadas, a comunidade BDSM se comportava como uma espécie de "maçonaria" e seus


hábitos eram desconhecidos a maioria dos "não-iniciados".
A quem está adentrando neste rico mundo, uma pergunta muito comum: "quais práticas
de BDSM existem atualmente"? A diversidade é quase incomensurável e a lista de verbetes do
Dicionário BDSM do Brasil já conta com cerca de cem tipos, que estão longe de esgotar o
assunto. Alguns usuários são afeitos a algumas práticas, se consideram "simpáticos" a outras e
dificilmente aceitam todas. Então a pergunta pode ser melhor formulada:
"Qual BDSM você pratica?"
Uma das práticas muito em voga nos E.U.A. é a chamada "public scenes" , onde se
espera levar ao gozo um escravo, através de dispositivos escondidos em sua roupa.
Obviamente, envolve muita "humilhação", uma vez que a platéia é composta de pessoas
comuns e não se isenta a possibilidade de tudo terminar em uma delegacia de polícia!
Dispositivos ativados por controle remoto, temporizados, dispositivos de acionamento
aleatório e outros, que foram concebidos ou adaptados para este fim. A ideia básica é levar ao
gozo aquele que tem que disfarçar, como se "nada estivesse ocorrendo". Nota-se o forte vetor
de "mind fuck" da prática, uma vez que tudo pode dar errado...
Outra deliciosa adaptação é a prática individual de masturbação pública, quando o ator
sai às ruas portando um dispositivo desta natureza. Imagine-se tomando o elevador,
cumprimentando o síndico e o porteiro, seguido de um vibrante "sundae" no Mac Donald's
enquanto se esgotam as pilhas de um "dildo" ...
O que imediatamente pode dar errado nestas práticas?
Bem, se o dispositivo for de eletroestimulação e a intensidade estiver mal selecionada,
ou se os eletrodos saírem de posição, podem ocorrer contrações involuntárias muito fortes. Se
pensarem que está passando mal, no ato de prestar socorro pode ser descoberta a "fraude" e
estaria armada uma grande confusão, principalmente quando descobrissem algumas
evidências de que...
No caso dos vibs, o que costuma denunciar mesmo é aquele barulhinho "bzzzzz"... Este é
inconfundível e é como se atraísse os ouvidos diretamente ao alvo: "Vem daquele(a) lá! he-he-
he!".
Outra "denúncia" pode ocorrer em sua própria casa, se tiver convidados ou se estiver
hospedado em hotel, etc.. Se quiser usar um "dildo", no caso de hotéis e pousadas, o problema
é ainda mais crítico, pois não raramente as paredes são "falsas", deixando passar facilmente os
sons agudos produzidos pelo "vib". Os sons podem ser ouvidos a dezenas, até uma centena de
metros e por ouvidos minimamente atentos, você será denunciado!
Para contornar estes problemas, todos os fabricantes colocam em suas embalagens as
líricas palavras "ultra-silence". Que utopia! Os "vibs" parecem mesmo serem feitos para
denunciar, não para ocultar. Isso se deve a baixa qualidade dos componentes utilizados e os
motorzinhos ao rotacionarem uma massa desbalanceada, costumam produzir aquele "bzzzz"...
A origem do "bzzzzzz" é dupla:
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- dos mancais do próprio motorzinho. Normalmente, são de material plástico ("nylon") e


não há rolamentos. Como o material é de qualidade inferior, o eixo do rotor acaba colidindo
com os mancais, produzindo o barulhinho. Quando a isso, não há o que fazer, a não ser que
tenha perícia suficiente para substituir o motor por um de melhor qualidade (de preferência
"sem escovas" - "brushless"). Dica: prefira "dildos" com motores maiores. Costumam a ser
mais silenciosos, principalmente a baixa rotação. Antes de levar a um local em que possa ser
ouvido, deixe-o "amaciando" por uma hora, mais ou menos. Às vezes, uma irregularidade em
um dos mancais acaba sendo nivelada naquela primeira operação.
- da fixação do motorzinho na carenagem do "dildo". Peça sempre para ver diversas
unidades do mesmo "dildo" que pretende comprar. Notará que alguns "giram" melhor, outros
pior. Se um deles fizer barulho acima do normal, provavelmente o motorzinho está carecendo
de fixação. Livre para colidir contra a carenagem, o ruído produzindo é mais intenso. Se notar
isso e ainda estiver na loja, não compre. Se só tiver notado em casa, com um pouco de perícia
pode tentar corrigir o problema, fixando-o adequadamente à carenagem. O encaixe é "por
pressão" e um pouco de silicone entre o corpo do motor e a carenagem pode ajudar. Não
deixe o silicone aderir ao rotor (parte móvel) ou entrar na carenagem do motor. Verifique
também se não é o rotor que está colidindo contra a carenagem, causando o ruído.
Pessoalmente, gosto muito de "vibs" tipo "bullet" para cenas públicas.
O "bullet" é um "vib" destacado da parte onde ficam as pilhas. O "holder" das pilhas fica
preso à cintura com o botão de regulagem da intensidade acessível, enquanto que e o "vib" é
fica totalmente inserido, via anal ou vaginal. Como não ficam "partes de fora", diferente dos
demais, não deixa escapar nenhum barulhino. Também não há o risco de ser expelido,
denunciando o "artista".
O ideal de um "bullet" é que a cápsula fosse feita em aço-inox cirúrgico e que fosse
vedada com um "O-ring" e desmontável para limpeza/inspeção. Que os condutores fossem um
cabo único, tipo coaxial e bem flexível e que houvesse uma cordinha ultra-resistente para suar
retirada. O comando ideal deveria ter dispositivos como mudança automática de velocidade,
disparos aleatórios e talvez até um controle-remoto por infra-vermelhos.
Infelizmente, os "bullet" que tenho encontrado no comércio são de baixíssima qualidade
e muitas vezes tem que ser "reformados" mesmo antes do primeiro uso. Devem ser vedados
com silicone na saída do fio do "bullet" e é recomendável que sejam inseridos vestidos em
uma camisinha...
Não é nada estranho usar camisinha em "dildos" e "bullets", uma vez que os materiais
emborrachados costumam a ser porosos e os dispositivos costumam não ser "à prova d'água".
Se quiser uma higienização melhor, vista sempre uma camisinha em seus dildos.
Principalmente se forem de borracha e se a via escolhida for a anal.
No caso de plásticos "duros" como o ABS, a camisinha irá tornar o contato mais
agradável, pois simula a pele humana. Então, esta pode ser uma forma de retornar ao uso
alguns "dildos" abandonados nas gavetas do armário...
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Outra coisa ruim nos "bullet" é que normalmente não possuem uma "cordinha para
puxar" e o fio de energia dever servir também como "cordinha". Isto é inadequado, pois se
submetido à tração, o núcleo do condutor pode se romper e o "vib" pára de funcionar. Fora o
risco de ficar sem o meio mais natural para o retirar ... Resolvi o problema reformando meu
bullet.
Com duas ampoulas daquelas de PET que usam para guardar tempero, cortei as partes
arredondadas, na forma de duas semi-cápsulas. Furei com um Dremmel para passar os
condutores e o fio "de retirada" e fixei por pressão o motorzinho à parede do novo "bullet",
com auxílio de um courinho bem fino. Soldei as cápsulas e vedei as saídas dos fios com
borracha de silicone. Ficou um "bullet" transparente.
Se for experimentar um "bullet", lubrifique muito bem a via anteriormente. Use KY com
abundância e massageie lentamente com o indicador. Quando estiver relaxado(a), insira o
"bullet" com cuidado (se for usar com camisinha, acondicione-o dentro da camisinha antes de
inserir). Com o indicador, garanta que está em uma posição confortável e que os fios não
ficaram tensionados. Lubrifique muito bem a passagem do ânus ou vagina, para que o contato
dos fios não seja desconfortável.
Fixe a caixinha de comandos à cintura, presa na cueca/calcinha ou mesmo na aba da
calça. A caixinha de comandos, dificilmente alguém sabe o que é. Não precisa ter muito
cuidado, pois o desenho a confunde com a de um controle remoto. Teste antes de ir à "cena".
Em público, aja sempre com a maior naturalidade...
Na velocidade máxima, provavelmente irá trepidar um pouco e não será confortável.
Acelere-o para que ganhe inércia e em seguida escolha uma velocidade menor. Se perceber
que está parando, aumente discretamente a velocidade. Não deixe-o parar completamente,
pois terá que refazer a manobra da aceleração. Em uso e com pilhas alcalinas novas,
normalmente dá para um "jogo" de uma hora, ou um pouco mais.
Após o uso, lave-o muito bem com água morna corrente e espuma de sabão. Tente
remover toda a água com uma toalha macia e sacudindo a cápsula, para que não reste água
em contato com o motor. Deixe-o funcionando sobre a toalha por cêrca de 30 minutos,
variando a velocidade de vez em quando, para que o motor se aqueça e perca a umidade.
Guarde-o em local sêco e ventilado e sem as pilhas. Se não fizer isso, provavelmente não irá
funcionar da próxima vez.
Se seguir estes conselhos, dificilmente será denunciado. No caso de quartos de hotel, há
outra dica: acione o "vib" somente depois do "dildo" ter sido inserido. Quando em contato
com a pele, o ruído tende a cair ao quase imperceptível...
Um abraço a todos,
Senhor Carlos