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Apontamentos de Português 12º Ano

Mensagem, de Fernando Pessoa, foi publicada em 1934.


Contém 44 poemas.
Nesta obra, o autor procura anunciar um novo império civilizacional.

É uma obra mítica e simbólica. Surge tripartida (estruturada em três partes), a traduzir a evolução
do país desde a sua origem (Primeira parte), passando pela sua fase adulta (Segunda parte), até à morte,
a que se seguirá a ressurreição (Terceira parte).

Primeira Parte, “Brasão”, corresponde ao nascimento, com referência aos mitos e figuras históricas. Dá-
nos conta do Portugal erguido pelo esforço dos heróis e destinado a grandes feitos (os construtores do
império). Nesta parte, faz-se o elogio da grandiosidade portuguesa, do heroísmo do povo português, a
valorização dos predestinados que construíram o país e das mulheres portuguesas, mães dos fundadores
(“humano ventre do império”).

Segunda Parte, “Mar Português”, realização e vida. Refere personalidades e acontecimentos dos
Descobrimentos que exigiram uma luta contra o desconhecido e os elementos naturais. A missão foi
cumprida, porque “tudo vale a pena” (sonho marítimo e descobertas). Esta parte procura simbolizar a
essência do ideal de ser português vocacionado para o mar e para o sonho. O poema “Infante” traduz
uma concepção messiânica da História (Deus é a causa de tudo, o homem é o seu intermediário e a obra
é o efeito). O sonho é essencial, pois é ele que alimenta a nossa alma e nos leva mais longe. Além disso,
é a forma de Deus nos comunicar as suas vontades.

Terceira Parte, “Encoberto”, a desintegração que conduziu a um presente de sofrimento e de mágoa,


pois “falta cumprir-se Portugal”. Contudo, existem já as sementes da ressurreição (império moribundo).
Esta parte encontra-se tripartida: “Os Símbolos”, manifesta a esperança e o “sonho português”, pois o
atual império encontra-se moribundo. Acredita que a morte tem o gérmen da ressurreição; “Os avisos”,
define os espaços de Portugal; “Os Tempos”, traduz a ânsia e a saudade do “salvador/encoberto”, que na
“hora” vai chegar para edificar o V Império (império espiritual, moral e civilizacional).

Esta obra é percorrida por um sentido simbólico e messiânico. O país está à espera “do sinal”
para voltar a acordar para a glória. Estamos predestinados para construir o novo império civilizacional,
Deus escolheu-nos e estamos só à espera da altura certa. O nosso herói encoberto (D. Sebastião) virá e
conduzir-nos-á.

Ocultismo na obra – o herói é o “encoberto”; há um sentimento de mistério; só o detentor do


esotérico se encontra legitimado para realizar o sonho do V Império.
Nem todos estão predestinados para o novo império, só os que conseguirem elevar-se além do
mundo sensível, o mundo das sombras. Só a força criadora do mundo inteligível nos permitirá atingir o
verdadeiro conhecimento.

Fernando Pessoa aborda o sebastianismo como mito, o que exprime o drama de um país
moribundo, desiludido, que precisa de acreditar nas suas capacidades e nos valores que, no passado, lhe
permitiram conquistar os mares. D. Sebastião simboliza a capacidade de sonhar, já que foi o sonho que o
conduziu para Alcácer Quibir. Ao longo da obra, a sua figura evolui do príncipe feliz para o mito.

Outro mito da obra é o das “Ilhas Afortunadas”, um lugar sem tempo nem espaço, onde o rei
mora até que chegue o sinal. Este mito faz parte da tradição clássica, como o paraíso onde repousam os
deuses e os heróis míticos.
D. Sebastião, na ideia de Pessoa, simboliza o poder absoluto, o chefe que poderá realizar o sonho
do V Império (outro dos mitos da obra). Este império é espiritual e está destinado a acontecer após o
“intenso sofrimento patriótico”.

Para se construir o futuro (revolução cultural) há que ter em conta o presente e aproveitar as
lições do passado, fundamentando-se nas nossas ancestrais tradições.

O verdadeiro poder é aquele que se baseia na justiça, na lealdade e na coragem.

Comparação entre Mensagem e Lusíadas

Tanto a Mensagem, de Fernando Pessoa, como Os Lusíadas, de Camões, são obras que
enaltecem o período dos Descobrimentos e o valor do povo português.
Os Lusíadas referem-se a um herói coletivo que conquistou o mar e têm uma intenção patriótica:
consciencializar os Portugueses do seu valor e registar de uma forma única a aventura marítima e a
História do país, para que todo o mundo as fique a conhecer.
A Mensagem, escrita quatro séculos mais tarde, pretende fazer ressurgir o heroísmo e o desejo de
superar os limites do povo português, que atravessava uma fase se “apatia nacional”.
Camões pretende eternizar os feitos passados dos portugueses e Fernando Pessoa pretende
incentivar os portugueses do futuro, lembrando-lhes que podem voltar a ser gloriosos.
No entanto, Camões refere-se mais às conquistas do território e à formação do Império, embora
foque a importância dos valores e do aspeto emocional do herói. Fernando Pessoa escreveu Mensagem
com intenções saudosistas, a crença no Sebastianismo e no quinto império que, juntos, poderão reanimar
a alma decadente e vazia dum país que já foi grandioso e que poderá voltar a sê-lo.
Uma e outra são obras nacionalistas e patrióticas reveladoras do amor dos autores pela nossa
nação, que pretendem levar mais longe, a partir de um impulso emocional que conduza o povo à ação.

Os Lusíadas e a Mensagem, obras separadas por quatro séculos, apresentam semelhanças e


diferenças:

São obras de caráter épico que pretendem enaltecer os descobrimentos portugueses e o valor do
povo lusitano. Embora apresentem semelhanças, têm também diferenças ao nível da forma e do
conteúdo.
Como semelhanças, podemos apontar o tema, que é Portugal e o seu passado glorioso. A história
portuguesa surge contada como uma empresa mística, quase divina, em que D. Sebastião é descrito
como um rei enviado por Deus para conduzir os destinos do país e expandir a fé cristã. Os heróis de uma
e outra são os concretizadores da vontade divina e são motivados por um conceito abstrato de Pátria. A
Pátria é mais do que as fronteiras dum país, mais do que uma nação. É a mãe que os cria e guia.

Em ambas as obras, os heróis portugueses são apresentados de forma fragmentária e permitem-nos


verificar a exaltação épica da ação humana no domínio dos mares. É no mar e na guerra que os nossos
heróis superam os limites humanos e provam a sua superioridade relativamente aos povos antigos. A
glória conseguida tem o preço do sofrimento e das lágrimas, mas o mais importante é a luta pela
afirmação do ideal patriótico. Tanto uma como outra têm uma estrutura rigorosamente pensada e
evocam o passado com intenção de construir o futuro.

No que se refere às diferenças, n’Os Lusíadas existe o dinamismo da viagem, da aventura e do


perigo. Esta obra, por privilegiar o concreto, os feitos dos portugueses e a glória do Império, traz a
possibilidade de ter esperança. Camões dirige-se a D. Sebastião, que na altura era vivo, e incentiva-o a
novos feitos para uma nova epopeia. Por isso, a memória e a esperança estão juntas, no mesmo plano. A
conceção de heroísmo presente consiste na concretização de feitos épicos pelos humanos.
Além destas caraterísticas, destacamos ainda o amor à Pátria e o enaltecimento da história e do
povo; uma linguagem épica; a forma e o conteúdo da epopeia clássica, assim como o assunto que são os
feitos dos Portugueses e a fé que é a motivação dos heróis. Esta epopeia é humanista-renascentista pelo
acesso ao conhecimento dos segredos da natureza.

A Mensagem caracteriza-se, por sua vez, pelo estatismo do sonho e do indefinido. Em vez do
concreto, está presente o abstrato da sensibilidade, da utopia e do sebastianismo. Existe em toda a obra a
falta de razões para ter esperança e o desânimo, como se Portugal estivesse num beco sem saída. D.
Sebastião simboliza a força que vive na memória do povo e que pode ser reanimada. A memória e a
esperança pertencem a planos diferentes e só a última existe no sonho. A conceção do heroísmo não é
concreta, mas sim mental e concetual. O autor identifica-se com os heróis, mas ao nível do ideal e não
da ação.

Nesta obra, o amor à Pátria é metafísico e exprime-se na crença no Quinto império; a linguagem é
épico-lírica, de estilo lapidar. A Mensagem é um mega - poema de caráter ocultista. O seu assunto é a
essência da pátria e a missão que o povo tem de cumprir. Para isso, os heróis devem procurar o sonho e
o infinito. Este poema é épico – lírico – simbólico - mítico e faz o elogio do sonho e da imaginação.

“A Mensagem é também o elogio do Português desvendador e dominador de mundos. O que a


define não é a ânsia do poderio terreno, mas a fome de Absoluto, o ideal cujo escopo pertence à alma
interna”.
A Mensagem é uma obra épica, mítica e simbólica que pretende enaltecer o potencial espiritual
do povo português e elogiar a loucura, o sonho e a imaginação.
Além de elogiar o português dinâmico, empreendedor, que desvenda e domina os mundos, elogia
também o homem insatisfeito em cujas veias corre o desejo de Absoluto, de sublime. Neste sentido,
Fernando Pessoa une o herói d’Os Lusíadas, um herói que, com suor e lágrimas, dignifica a Pátria,
aumentando o Império e dilatando a fé, a um herói que tem dentro da alma o desejo de perseguir aquilo
que ainda não tem, o objeto longínquo e indeterminado que, por vezes, nem ele próprio sabe definir. A
fome de Absoluto que carateriza o herói da Mensagem leva-o ao dilema constante de “tudo ou nada”,
“vida ou morte”. Ele não se importa de arriscar tudo, mesmo que venha a perder a vida. O que lhe
interessa é investir as suas forças na concretização de um ideal maior.
Segundo Fernando Pessoa, Portugal é um país predestinado, escolhido por Deus para concretizar,
não o império material da época dos Descobrimentos, mas sim um império espiritual (o Quinto
Império), que consiste na vivência do mundo invisível como almas. Por isso, repugna o carnal e o físico
e aponta o mito e a lenda como a chama que animam a alma insatisfeita. O mito é o “nada que é tudo”
que define o destino do Homem. Por essa razão é que temos nos nossos genes homens como Viriato e o
Infante D. Henrique, depois de Ulisses ter aportado em Lisboa, o centro do império físico e espiritual.
Fomos escolhidos e temos de cumprir o nosso destino. D. Sebastião vive nas nossas almas e espera ser
libertado para nos conduzir mais longe.

Sebastianismo

O sebastianismo é um mito nacional de tipo religioso.


«D. Sebastião voltará, diz a lenda, por uma manhã de névoa, no seu cavalo branco...»
O sebastianismo, fundamentalmente, o que é? É um movimento religioso, feito em volta duma figura
nacional, no sentido dum mito. No sentido simbólico D. Sebastião é Portugal: Portugal que perdeu a sua
grandeza com D. Sebastião, e que só voltará a tê-la com o regresso dele, regresso simbólico (como, por
um mistério espantoso e divino, a própria vida dele fora simbólica (mas em que não é absurdo confiar).
D. Sebastião voltará, diz a lenda, por uma manhã de névoa, no seu cavalo branco, vindo da ilha
longínqua onde esteve esperando a hora da volta. A manhã de névoa indica, evidentemente, um
renascimento anuviado por elementos de decadência, por restos da Noite onde viveu a nacionalidade.

D. Sebastião não morreu porque os símbolos não morrem. O desaparecimento físico de D.


Sebastião proporciona a libertação da alma portuguesa. D. Sebastião aparece cinco vezes explicitamente
na Mensagem (uma vez nas Quinas e outra em Mar português e três vezes nos Símbolos). Aliás, pode
mesmo dizer-se que o Brasão e o Mar português são a preparação para a chegada do Encoberto, na sua
qualidade de Messias de Portugal.
D. Sebastião faz uma espécie de elogio da loucura (condenação da matéria e sublimação do
espírito).

Quinto Império
“É evidente que Pessoa não inventou o Sebastianismo, encontrou-o na tradição portuguesa; mas,
ao adotá-lo, aprofundou-o e transfigurou-o. Sobretudo, uniu-o de uma forma pessoal ao outro grande
mito tradicional português, o do Quinto Império. A ideia do Quinto Império vem de muito longe na
mitologia judaico-cristã. Todos concordam em ver a sua origem no sonho de Nabucodonosor, contado
no Livro de Daniel. O rei vê em sonhos uma estátua de dimensões prodigiosas: a cabeça é de ouro, o
peito de prata, o ventre de bronze e os pés de barro misturado com ferro. De súbito, uma pedra bate no
barro, o que faz com que toda a estátua venha abaixo; e a pedra transforma-se numa alta montanha que
cobre a terra inteira. Daniel interpreta assim o sonho: o ouro representa o império da Babilónia, e a
prata, o bronze e o barro misturado com o ferro significam os outros três impérios que irão suceder-lhe.
Esses quatro impérios serão destruídos. A pedra que se transforma em montanha profetiza a vinda de um
Quinto Império universal, que não terá fim. (...)
Para Pessoa, os quatro primeiros impérios já não são os da tradição, mas os quatro grandes
momentos da civilização ocidental: a Grécia, a Roma antiga, o Cristianismo, a Europa do Renascimento
e das Luzes. Já não se fala da Assíria nem da Pérsia, nem, aliás, do Egipto ou da China: o mundo é
europeu. Mas, sobretudo, quando fala do Império vindouro, já não se trata de todo do exercício de um
poder temporal, nem sequer espiritual, mas da irradiação do espírito universal, refletido nas obras dos
poetas e dos artistas. Ele condena a força armada, a conquis- ta, a colonização, a evangelização, todas as
formas de poder. O Quinto Império será «cultu- ral», ou não será. E se diz, como Vieira, que o Império
será português, isso significa que Portugal desempenhará um papel determinante na difusão dessa ideia
apolínea e órfica do homem que toda a sua obra proclama. Um português como ele, homem sem
qualidades, infi- nitamente aberto, menos marcado que os outros, tem mais vocação para a
universalidade. Não há dúvidas de que acreditou que aquilo a que chama metaforicamente o Quinto
Império se realizaria por ele e nele; é o sentido de um texto de 1925, em que afirma que «a segunda
vinda» de D. Sebastião já se verificou, cumprindo a profecia do Bandarra, em 1888, data que marca «o
início do reino do sol».

Robert Bréchon. Estranho Estrangeiro - Uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal, 1996, pp. 404-406

Os Lusíadas

Os Lusíadas, de Camões, foram publicados em 1572 e são a principal obra épica da


Renascença.
Influenciado pelo mundo antigo e pelas epopeias de Virgílio e Homero, Camões canta o povo
aventureiro, a viagem de Vasco da Gama à Índia e as descobertas.
Exalta o espírito do povo português que foi capaz da formação de Portugal e da expansão
imperial.
Narrativa épica que faz uma leitura mítica da História de Portugal, em estilo elevado, canta uma
ação heroica passada e analisa os acontecimentos futuros, cuja visão os deuses são capazes de antecipar.
O povo português é o herói coletivo e o sujeito da ação heroica.
Camões procura perpetuar a memória de todos os heróis que construíram o Império Português.
Os nautas, incluindo Vasco da Gama, são símbolo do heroísmo lusíada, do seu espírito de
aventura e da capacidade de vivência cosmopolita.

Camões faz a síntese entre o mundo pagão e o mundo cristão.

Estrutura Externa
O poema é uma narrativa, em dez cantos, organizados em oitavas, com versos decassílabos e rimas com
esquema abababcc (cruzada nos primeiros seis versos e emparelhada nos dois últimos).

Estrutura Interna
Tal como as epopeias clássicas, divide-se em quatro partes:
“Proposição”, a apresentação do assunto;
“Invocação”, súplica da inspiração para escrever o poema;
“Dedicatória”, oferecimento da obra a D. Sebastião,
“Narração”, desenvolvimento do assunto, já a meio da ação – in media res).

A obra desenvolve-se em quatro planos:


Plano da Viagem (plano central, em que se narram os acontecimentos ocorridos durante a
viagem de Lisboa a Calecut);
Plano da História de Portugal (plano encaixado em que são contados episódios marcantes da
nossa História);
Plano da mitologia (plano paralelo que permite a evolução da ação, os deuses ou apoiam a
viagem ou opõem-se-lhe);
Plano do Poeta (plano ocasional em que o poeta vai fazendo as suas considerações).

Há um narrador principal que introduz o narrador Vasco da Gama (o herói individual) que
representa o povo português (o herói coletivo). O Gama narra a História de Portugal e a viagem desde
Lisboa até Moçambique.
O narrador principal conta a viagem de Vasco da Gama desde Moçambique até à Índia e toda a
viagem de regresso. É ele que passa a função aos outros narradores secundários: Paulo da Gama, que,
em Calecut, explica o significado das vinte e três figuras representadas nas bandeiras; e a Fernão
Veloso, que descreve o episódio dos Doze de Inglaterra; ou a Júpiter que, através de profecias, anuncia
para os Portugueses “feitos ilustres” no Oriente; ao Adamastor que vaticina as desgraças futuras; à Ninfa
Sirena, que fala das glórias futuras dos Portugueses; e a Tétis que aponta os lugares onde os Portugueses
hão de realizar feitos heróicos.

Esta obra não canta apenas a viagem marítima e a História portuguesa, mas também revela o espírito do
homem da Renascença que acredita na experiência e na razão.

No fim da obra a “Ilha dos Amores” é o símbolo da capacidade dos Portugueses na exploração
dos mares, graças às experiências marítimas e ao seu espírito de aventura, mas também à vontade de
aproximarem o Oriente e o Ocidente.

Camões faz as suas considerações e críticas ao longo do poema:


→ refere os perigos, a guerra e os enganos;
→ faz a apologia da expansão territorial para divulgar a fé cristã;
→manifesta o seu patriotismo e exorta D. Sebastião a dar continuidade à obra
do povo português;
→ realça o valor das glórias alcançadas por mérito próprio;
→ critica o facto de nem sempre se dar a devida importância às letras;
→ denuncia a ambição e a tirania como honras vãs que não dão verdadeiro
valor ao homem;
→ lamenta a importância dada ao dinheiro, que é fonte de corrupções e
traições.

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