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Recife Frio e o fantástico inverno curitibano: enquanto Bacurau não vem

. por Richard Roch

Sol que não esquenta, vento que não cessa, e um frio que leva pessoas em situação de rua a
queimarem lixo para resistir. Ainda que tal cenário seja mais condizente a Curitiba ou mesmo ao
realismo fantástico do livro Cem Anos de Solidão (1967), a descrição corresponde a capital
pernambucana ficcionalizada pelo cineasta Kleber Mendonça Filho no curta-metragem Recife Frio
(24 min, 2009). Sinopse: um programa do naipe Discovery Channel visita Recife depois que um
meteoro cai na praia matando três participantes de um luau. Depois da tragédia, dois fenômenos
(mais) estranhos são desencadeados – o aparecimento de pinguins no litoral recifense, e o início da
ausência de sol e do começo da chuva que, no curta, fecham o tempo há sete meses.
Coincidentemente, de dezembro de 2018 para cá, uma série de eventos menos fantásticos do que
políticos desencadeia absurdos por todo país.

Realismo fantástico é um gênero literário que encontrou em Gabriel García Marquéz (Colômbia),
Isabel Allende (Chile) e José J. Veiga (Brasil) alguns de seus escritores e escritoras. É como subir
em um balão: você entra no cesto (o livro), ganha altura (lê) e durante a viagem percebe que,
daquela perspectiva, as aparências (as versões contadas) da realidade têm outras formas – pessoas
parecem formigas, estradas parecem labirintos, governos políticos parecem ditaduras. O que quero
dizer é que a leitura de tal gênero nos possibilita desnaturalizar compreensões acerca do presente e
também da história através de situações inusitadas. No caso de Recife Frio, por exemplo, o
fenômeno fantástico da queda do meteoro dá início a uma série de mudanças sociais: pessoas em
situação de rua passam a morrer de frio em uma cidade tropical; a rede hoteleira que garantia 100%
de calor ao turismo europeu quebra porque, sem sol, os problemas de saneamento básico e
infraestrutura ficam mais nítidos; o 1% da população que possui 27,8% da riqueza nacional sofre
por ter comprado imóveis milionários à beira mar que perderam valor de venda por conta do vento e
da chuva. Tais perspectivas nos possibilitam perceber que com frio ou sem frio existem pessoas em
situação de rua; que a imagem turística que se vende do país pouco é condizente com a realidade de
uma grande parcela da população; que a concentração de riqueza e a desigualdade social possuem
níveis estratosféricos no Brasil. A questão é que não precisamos de elementos fantásticos para
associar o curta ao inverno curitibano.

Na última sexta-feira (5), os termômetros do Simepar registraram a mínima de 7,7ºC; no sábado (6),
-1,6ºC; e no domingo (7) 0ºC sem levar em conta a sensação térmica. Segundo levantamentos da
Prefeitura, Curitiba contabilizava, em 2018, cerca de 1500 pessoas em situação de rua. Com a
intensificação do inverno, postos de coleta de agasalhos já podem ser encontrados pela cidade e
peças de roupas penduradas em árvores a partir da iniciativa de alguns brechós. Sensação térmica é
um índice de avaliação climática que leva em conta não só a temperatura, como outros fatores a
exemplo da umidade relativa do ar e da velocidade do vento. O índice, criado pelo exército
estadunidense após o fracasso da invasão das tropas alemãs à Rússia na Segunda Guerra Mundial,
dá provas de que as sensações de agora são em grande medida vinculadas a um período de conflitos.

Além de Recife Frio, o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho também dirigiu os longas O
Som ao Redor (2013) e Aquarius (2016). Enquanto o frio não passa e enquanto Bacurau (2019) não
vem – Bacurau, o novo filme dirigido em coautoria com o conterrâneo Juliano Dornelles, foi
vencedor do Festival de Munique (Melhor Filme), do Festival de Cannes (Prêmio do Júri), e terá
estreia no Brasil no dia 29 de agosto –, a autocrítica sugere que sejam organizados os guarda-roupas
nas seguintes categorias: há quanto tempo não uso?; eu preciso de tantas peças?; e a principal,
recolha os agasalhos em boa condição e dirija-se o quanto antes a um dos inúmeros pontos de coleta
das Ruas da Cidadania, dos Correios, e dos supermercados Condor. É também recomendado que
peças com mofo, bolor ou mau cheiro sejam higienizadas antes da entrega. Não é uma questão de
perspectiva ou opinião. O frio mata.

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