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LOBO DO MAR: SUPER-HOMEM X SOCIALISMO1

RESUMO:O Lobo do Mar (1904) é uma obra do escritor americano Jack London (1876-
1916), a qual trata da vida dura dos homens do mar, suas ambições, expectativas. E,
principalmente, através das personagens Humphrey Van Weyden (um intelectual de alta
classe social que naufraga) e Lobo Larsen (capitão da escuna que o recolhe) é que se travam
os verdadeiros embates acerca de questões como: trabalho, ética, capitalismo, materialismo,
hedonismo, imortalidade da alma, luta pela sobrevivência, ecologia, luta entre o bem e o mal,
amor, entre outras. De maneira natural, através dos diálogos e pensamentos das personagens,
London discute algumas teorias de Nietzche, fazendo também referências a escritores como
Herbert Spencer, Omar Khayyám, Shakespeare e John Milton. Nosso objetivo é apresentar as
diferentes visões das duas personagens em relação aos temas abordados estabelecendo noções
do pensamento filosófico.

Palavras-chave: Super-homem. Relação de poder. Moral

ABSTRACT: The Sea Wolf (1904) is a book written by the American Jack London (1876-
1916), that treats of men hard life, their ambitions, expectations. And, mainly, through
characters like Humphrey Van Weyden (a high-social intellectual who wracks) and Lobo
Larsen (schoon capitan who salves him) that we see real discussions about: work, ethic,
capitalism, materialism, hedonism, immortality, fight to survive, ecology, fight goodness
against badness, love, among other ones. Naturally, through dialogs and character thoughts
London discuss some Nietzche theries, making also references of writers as Herbert Spencer,
Omar Khayyám, Shakespeare and John Milton. Our objective is to show some different
visions of these two characters in what concern to the themes establishing some Philosophical
thought notions.

Keywords: Superman. Power relationship. Moral.

O LOBO DO MAR

A trama é escrita em primeira pessoa, cujo narrador é Humphrey Van Weyden


– escritor de artigos e ensaios, crítico de arte e literatura - o qual naufraga e acaba por ficar a
bordo de uma escuna de caçadores de focas. Ele começa a narrativa depois que os fatos
ocorreram. É como se quisesse deixar registradas as experiências por que passou, tanto que
inicia o romance assim (p.13):

Não sei por onde começar, embora por brincadeira eu costume atribuir a
causa de tudo a Charley Furuseth. (...) Não fosse o meu costume de aparecer
1
Poster apresentado por Tarcísio Alves dos Santos, estudante de Filosofia da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte

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por lá aos sábados, ficando até a semana seguinte, e aquela manhã de janeiro
não me teria encontrado a navegar na baía S. Francisco.

A partir daí, começam várias lições de vida para o protagonista que,


acostumado a uma vida regalada, cheia de dinheiro e poder, vê-se, de repente, obrigado a
trabalhar em um navio a fim de sobreviver. Ele assim descreve a si mesmo (LONDON, p.
45):

Deitei-me e pus-me a refletir sobre a situação. Era na verdade absurda. Eu,


Humphrey Van Weyden, estudioso e diletante da vida, amigo da arte e da
literatura, ali – jogado ali como um fardo, naquela terrível escuna de caça e
pesca! Criado de bordo, eu que jamais soube o que fosse serviço braçal!
Sempre vivi a vida calma e sedentária do estudioso, sob a garantia de uma
renda apreciável; nunca me atraíram os esportes atléticos, nem a vida
violenta e aventurosa. Fui sempre um caruncho dos livros (...). Eu não era de
constituição robusta. Os médicos sempre acharam boa a minha constituição,
mas pouco desenvolvida por falta de treino. Meus músculos poderiam
equiparar-se aos duma mulher sadia. Mas sempre me recusei ao uso
sistemático da ginástica, preferindo desenvolver o cérebro a engrossar os
músculos.

Para Van Weyden, aquele era um ambiente hostil, em que ele teve que
aprender o trabalho duro, além de conhecer um outro grupo de pessoas, aos quais ele não
tinha nada em comum, em princípio. Vivendo entre pessoas que trabalhavam para sobreviver,
ele, de início, posiciona-se como superior, com o passar do tempo, contudo, começa a
irmanar-se a ponto de ter os mesmos modos de vestir e de se comportar. Também, pelo
constante trabalho desenvolve músculos e aprende a navegar. Além disso, torna-se, a cada dia,
mais seguro de si, mais experiente na vida. Assim, mesmo em meio ao sofrimento e
insegurança, aos quais o nosso protagonista não estava acostumado. O leitor percebe que o
tempo em que passou na escuna fez de Van Weyden um ser humano menos teórico e começa
a ver a vida em termos mais práticos. Ele mesmo diz em relação ao trabalho (p. 60): “A lição
valeu num ponto. Saberei daqui por diante avaliar a vida dos que trabalham. Nunca, nem por
sombras, havia eu sonhado que o trabalho fosse coisa tão penosa”.
A outra personagem, que se contrapõe a Van Weyden é o capitão da escuna,
chamado Lobo Larsen. Como o nome já deixa perceber, é alguém com imensa força física e
astúcia. Em sua primeira visão do capitão, Van Weyden assim o descreve (p. 24-25):

Passeando por ali de lá para cá, a morder com ar selvagem uma ponta de
charuto, vi o homem que ocasionalmente me avistara boiando sobre as ondas
e, pois, me salvara. Alto. Teria provavelmente cinco pés e dez polegadas de

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altura; mas o que nele mais impressionava era a força. Não força maciça,
mas nervosa, flexível, embora numa constituição de gorila. Força como a
que associamos aos animais selvagens e aos seres que temos como os nossos
ancestrais protótipos – força feroz, elástica, cuja essência vital reside na
própria potencialidade do movimento, o estofo elementar em si mesmo, de
que foram extraídas e moldadas todas as formas de vida; em suma, a energia
que ainda vibra no corpo da cobra depois que lhe cortamos a cabeça.
Foi a impressão que tive daquele homem, plantado firme sobre as pernas, a
passear pelo convés; cada movimento de músculos, desde o encolher dos
ombros ao morder do charuto, era decisivo e denunciador duma pujança
esmagadora. E embora essa pujança transparecesse em todos os seus atos,
parecia ser apenas um reflexo da que ele continha em si, oculta e
adormecida, capaz de rugir incoercível como a cólera do leão ou a fúria da
tempestade.

Larsen é, desse modo, descrito como um ser animalesco, com força


descomunal provida pela natureza. Uma fera humanizada. Às vezes um comportamento
gentil, às vezes desumano. O capitão, descrito por Van Weyden como um homem amoral,
individualista e materialista; consciente de sua superioridade física, sobrepunha-se a todos da
escuna, tratando-os como servos, ou mesmo escravos, muitas vezes trazendo humilhações.
Por isso, o clima entre os tripulantes era sempre tenso, sempre com guerras iminentes. E Van
Weyden, enfrentou, já em seu primeiro dia na escuna, o seu primeiro embate com o capitão
(p. 30-31):

- Quem o sustenta? Insistiu. Quem conquistou essa renda? Seu pai, com
certeza, e você vive sobre as pernas dum homem já falecido. Nunca obteve
nada pelo esforço próprio. Não sabe cavar a vida, se o largarem só.
(...)
- As mãos do morto (referia-se a meu pai) conservaram as suas macias. Você
só serve para lavar pratos e ajudar na cozinha.
(...)
- Para o bem da sua alma, tenho uma contra-proposta a fazer, disse ele. Meu
contra-mestre foi-se e já promovi outro marinheiro para o lugar. Você
tomará o posto desse marinheiro, recebendo vinte dólares por mês. E
acabou-se. Que me diz agora? Note que é para bem da sua alma. Será o
início da sua reconstrução. Aprenderá a caminhar sobre as próprias pernas,
embora cambaleie um pouco no começo...

E Larsen estava certo, Van Weyden enfrentou na escuna a dor, o medo, o


trabalho duro e a mudança, a partir da experiência prática, de determinados conceitos que ele
trazia em seu ser. Tanto que, após um momento de reflexão, ele diz (p. 112): “Ia
desaparecendo o Humphrey Van Weyden. Começava a nascer Hump2, moço da cabina da

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Hump: em inglês significa imbecil. Apelido dado a ele por Lobo Larsen e assim passou a ser chamado, durante
algum tempo, por todos da escuna.

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escuna ‘Ghost’, com Lobo Larsen por chefe. Thomas Mugridge e o resto por companheiros.
Aquela malta brutal estava a recunhar-me a personalidade”.
Mas em Larsen não havia apenas vigor físico, ele também possuía vasto
conhecimento da vida, através de sua experiência pessoal e da leitura de livros (embora de
forma autodidata)de filosofia, literatura, entre outros. Desse modo, os dois começaram as
discussões com grandes embates argumentativos, geralmente com Lobo Larsen vencendo,
deixando Van Weyden confuso e sem saber o que dizer. Só muito depois é que Van Weyden,
a custa de seu duro aprendizado na escuna, pôde começar a rebater seus argumentos.
De início, Humphrey era um idealista, usava as teorias filosóficas a seu favor,
como a de Marx, a respeito da divisão do trabalho (p. 14):
Lembro-me que me pus a pensar na divisão do trabalho. Graças a ela me via
dispensado do estudo e conhecimento dos nevoeiros, marés e o mais relativo
à navegação (...). Os conhecimentos marítimos do capitão e do piloto, por
exemplo, permitem que milhares de pessoas não pensem nisso, e permitem
que uma, como eu, se dedique a estudos (...). Ao subir a bordo eu tinha visto
(...) um homem a ler com atenção essa revista - a ler meu ensaio. Era outra
demonstração da divisão do trabalho.

Para o narrador, então, a divisão do trabalho era excelente negócio, porque lhe
permitia o ócio e o conforto. No entanto, Larsen tratou de mostrar-lhe a verdade (p.52-53):

Também eu e você somos a mesma coisa. Não vejo diferença, a não ser que
temos comido mais e melhor. Eu estou a devorá-los agora – e a você
também. Mas no passado você devorou mais e melhor que eu. Dormiu em
macias camas, usou roupas finas e regalou-se de manjares. Quem fez essas
camas, essas roupas e esses manjares? Não foi você. Você nada fez, nunca,
com o suor do seu rosto. Sempre viveu duma renda conseguida por seu pai.
Tal qual uma fragata, das que atacam outras aves marinhas para lhes roubar
o peixe. Você faz parte do bando que organizou o que se chama governo e
que depreda o que os outros conseguem para si. Você usa roupas agradáveis.
Outros teceram e coseram essas roupas – mas lá estão andrajosos, a tiritar de
frio, implorando de você, ou do seu advogado, ou do seu procurador, um
miserável emprego.

Sob essa ótica, Humphrey não tinha argumentos, pois, em toda a sua vida,
nunca conhecera o trabalho duro e não sabia fazer nada por si mesmo. Ele que, de início,
julgava-se superior àqueles homens, descobria-se, nesse momento, no mesmo nível do Lobo,
tão explorador quanto ele. A diferença é que no mundo de Humphrey, ele era o mais forte
pelo dinheiro e, no seu caso, não ganho por seu próprio esforço; já no de Larsen, o que
imperava era a força física. Nas palavras de Larsen (p.51): “Para manter-se em movimento, o

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grande come o pequeno. Para manter-se forte, o forte come o fraco. O que tem sorte prolonga
o seu movimento por mais tempo – eis tudo”.
Essas discussões eram proveitosas para ambos. De um lado, Lobo Larsen tinha
em Van Weyden uma oportunidade de discutir assuntos que conhecia apenas em livros,
trocando idéias, expondo seus argumentos com alguém, conhecendo e recebendo explicações
de assunto por ele desconhecidos. Por outro, Humphrey pôde rever vários de seus conceitos,
muitos deles esmagados ante o imenso poder argumentativo de Larsen. Um de seus temas
preferidos era sobre a vida e a imortalidade da alma, conforme veremos no trecho a seguir
(p.66-67):

Não vê que em matéria de oferta e procura a vida é a mercadoria mais barata


que existe? Tudo tem limitações, menos a vida. Existe tanto de ar, tanto de
água, tanto de terra. Quantidades limitadas. Mas a vida que procura brotar
não tem limites. A natureza é infinitamente pródiga de vida. Veja o peixe e
seus milhões e milhões de ovos. Em nós dois, por exemplo. Há em nós dois,
em nossas glândulas, possibilidades para milhões de vidas. Tivéssemos
tempo, e meios de utilizar o que há de vida em nós dois, e seríamos
progenitores de continentes inteiros. Vida! Bah! Não tem valor. Entre as
coisas baratas é a mais barata.
(...)
O único valor que a vida tem é o que ela atribui a si mesma. E esse valor é
duvidoso por ser valorização em causa própria. Tome, por exemplo, o rapaz
que subiu no mastro. Agarrava-se lá como se sua pessoa fosse algo precioso,
um tesouro mais rico que uma arca de diamantes. Precioso pra você? Não.
Para mim? Não. Para ele apenas. (...) Um indivíduo nada vale para o mundo.
O suprimento é grande demais.

Outro assunto abordado na obra, diz respeito à ecologia. Esse assunto não parte
das discussões entre Larsen e Humphrey, mas das observações deste em relação ao trabalho
desenvolvido pela escuna, como vemos em (p.141):

E também para o norte seguimos, destruindo-as, lançando as carcaças aos


tubarões e salgado as peles que iriam mais tarde abrigar os ombros alvos das
nossas damas.
Era matança desenfreada, e tudo para regalo de mulher. Nenhum homem se
utilizava da carne ou gordura das foca. Após um bom dia de matança, o
convés enchia-se de peles sangrentas e carcaças, tornando-se escorregadio de
gordura e sangue, com os esgotos a verterem constantemente enxurro
vermelho. Mastros, cordame, corrimãos, tudo avermelhava. Os homens
encarregados da tarefa, quais açougueiros nus borrados de sangue,
trabalhavam sem descanso com as suas facas de abrir e escorchar as lindas
criaturas brutalmente mortas.

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Outra lição de moral para a sociedade da época, lembrando que se tratava do
início do século 20 e, um século depois, o tema continua atual, com o homem depredando a
natureza para sustentar luxo e futilidades. Era a sociedade freqüentada por Humphrey.
Além disso, a vida no mar fez Van Weyden crescer como homem. Tanto que
ele reconhece isso quando diz (p. 246): “A ‘Ghost’ ensinara-me tudo. Ensinara-me a arcar
com responsabilidades”.
Ghost3 é o nome da escuna comandada por Lobo Larsen. Vocábulo que possui
vários significados, geralmente de referência sobrenatural. O que se vê na obra, é uma
tripulação de Homens do mar que não agem naturalmente, que não parecem ter família, nem
para onde voltar, mas são movidos pela aventura ou medo, pela vontade de sobreviver ou pela
necessidade de satisfazer o estômago. Nenhum deles compreendia o que Humphrey e Larsen
discutiam e, certa vez, o próprio Larsen queixou-se de não ser igual a eles, principalmente
igual ao irmão, que não filosofava sobre a vida. “É mais feliz do que eu [o irmão] porque
deixa a vida em paz. Vive muito ocupado em viver para que pense na vida. Meu erro foi ter
aberto uns livros...” (p.96) disse ele, com tristeza. Assim, o conhecimento deu ao Lobo a
inquietude da alma, coisa que não passava pela cabeça dos demais homens de sua escuna, que
estavam mais preocupados em viver e satisfazer seus instintos carnais. A vida era, assim,
reduzida a instintos, a uma sobrevida, por isso, podiam ser considerados também fantasmas:
estavam no mundo, mas não se inseriam na sociedade.
Um dos momentos cruciais do livro foi o resgate de um bote no qual haviam
cinco tripulantes, sendo uma mulher a bordo. Van Weyden que há muito não presenciava uma
figura feminina, ficou impressionado com a presença da mulher como se algo estranho fosse
acontecer. Maud Brewster não só faria algo acontecer à Ghost, como também traria o amor e
a coragem ao coração do jovem Van Weyden. A presença de Brewster tornaria os dias do
jovem mais felizes a bordo da escuna e cuidadosos com sua própria vida. O amor tinha lhe
trazido forças novas para a luta com o Lobo Larsen. A vida já fazia sentido, a ponto de ele
tomar coragem até para fugir daquele inferno em que viviam.

QUESTÕES FILOSÓFICAS

O livro aborda várias questões de temas filosóficos, em que seu autor teve
influência de Marx, Darwin e Nietzsche. Entre elas podemos citar a luta entre o bem e o mal,

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Ghost: fantasma em Português.

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que se desenvolve em todo o enredo; a questão da vida e da morte; a imortalidade; questões
envolvendo o trabalho, ética etc.
As questões envolvendo vida, morte e imortalidade passam a ser questionadas
em alguns diálogos. Muitos pontos de vista abordados em relação a isso estão presentes no
pensamento do filósofo alemão Nietzsche. Para ele, assim como para Larsen, a imortalidade é
algo irracional, já que cremos em um mundo ilusório. A fé nesse mundo pós-morte seria
ignorar aquilo que de fato é verdade. Desse modo, Larsen diz (p. 101):

- Não é da natureza da vida ser de outra maneira. A vida sempre se rebela


diante da morte. Não pode evitá-lo. O pregador [Salomão] diz que tudo na
vida é vaidade e mortificação de espírito – um mal, portanto: mas a morte, a
interrupção desta vaidade e mortificação de espírito ele achou que mal ainda
maior. Através de todos os capítulos ele mostra-se amargo contra a única
coisa que nos vem a todos nós, os vivos. Também Omar Rubaiyat, também
eu, também você – sim, também você rebelou-se contra a morte quando a
viu no fio da faca do cozinheiro. Você tem medo de morrer; a vida que
reside em você, que compõe você, não quer morrer. Falou-me já por vezes
no instinto da imortalidade. Eu falo no instinto da vida, que é viver, e que
quando a morte se aproxima sufoca o tal instinto da imortalidade. (...) Está
duvidando da imortalidade, amigo? Ah, ah!... Não está mais seguro dela.
Não arrisca...Só tem certeza de uma coisa – da vida, não é?

No existencialismo nietzchiano a morte é real e, não há nada de eterno após a


vida, devemos aprender a ver a vida como um eterno retorno. Van Weyden era um idealista,
mas Larsen jogava-lhe na cara a falta de fé humana nas crenças que ele mesmo criou. O
homem pregava a imortalidade da alma, mas no momento que estava para alcançá-la,
desejava ardentemente viver. E isso, mais uma vez, calava os argumentos do narrador.
Uma outra influência de Nietzche em O Lobo do Mar é a personagem Lobo
Larsen. Jack London o criou baseado no super-homem nietzchiano, um homem de pura
energia vital, dotado de impressionante vigor físico e mente genial. Não trazia consigo idéias
igualitárias, humanísticas e democráticas, mas sim, a vontade do poder da energia vital. O
super-homem tratava de olhar a vida como ela é: sem ilusões, com conflitos, sem certeza,
apenas a valorização da força, numa constante luta pela vida e pelo poder (FONTES, 2008).
No entanto, London constrói um oponente para Larsen, Van Weyden, que critica o seu
individualismo, materialismo e falta de senso social. Desse modo, London critica o super-
homem nietzchiano que, apesar de ter inúmeros e poderosos atributos, utiliza-os em causa
própria.

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Em uma de suas conversas, Larsen mostra até seu desconforto em relação ao
altruísmo, ao discutirem a Ética de Spencer4. Para ele, o altruísmo é a “cúpula suprema da
moral” (p.78). Para Larsen, no entanto, não interessava sacrificar nada em respeito ao outro, à
vida humana. Isso para ele não passava de sentimentalismo. Van Weyden aponta certas
atitudes aparentemente altruístas do Lobo como sendo, na realidade, pela necessidade de
proteger-se, como no caso de dois marujos que estavam querendo brigar e Larsen não
permitiu, mas “não por razões morais, mas porque necessita deles” (p.98). Para Nietzche, o
filósofo deve se colocar “para além do bem e do mal, que tenha abaixo de si5 a ilusão do juízo
moral” (BOEIRA, 2002, p.57), de modo que para esse filósofo não existem fatos morais.
Esses são alguns temas presentes na obra, tendo, assim, muito o que se discutir
em uma sala de aula, principalmente com alunos de ensino médio. A nossa proposta é, a
priori, trabalhar a interdisciplinaridade entre a aula de língua portuguesa e a de filosofia. No
entanto, há assuntos aqui que poderiam ser abrangidos e discutidos na geografia, artes,
religião, dentre outras disciplinas, trabalhando, assim, com várias áreas de conhecimento do
aluno.
O super-homem nietzcheniano entra na obra de London por vários aspectos,
tanto na questão moral, quanto nas questões da força e da vontade primeira (vontade de
potência). Larsen que também se desprendia de toda a cultura moral do homem comum,
buscava sempre o homem superior, a própria moral. Não tendo, assim, compaixão, piedade,
amor ao próximo, buscando sempre as forças no seu próprio ser, estabelecendo que, dessa
maneira, o forte é aquele que consegue estabelecer a sua própria maneira de encarar a vida,
pois se houvesse algum conteúdo na bondade não seríamos derrotados, pois o que podemos
ganhar tornando a bondade um elemento superior, já que não alimentamos a vontade de
potência do outro, ou seja, a vontade primeira. Assim, toda e qualquer negação é uma vontade
várias formas desse ser paradoxal (p. 50):

Era-me impossível compreender a existência daqueles livros na cabina de


um bruto como Larsen, a não ser que ali estivessem por acaso, para não
serem lidos. Ao arrumar a cama, entretanto, descobriu um volume de
Browning aberto na poesia “In the Balcony”, e com passagens marcadas a
lápis. Um papel assinalava uma página – um papel com diagramas
geométricos e cálculos.
Evidentemente Larsen não era apenas a brutíssima fera que suas violências
me haviam mostrado – e tornou-se-me logo um enigma para o espírito. Ou
era o homem daqueles livros ou era Larsen daquelas brutalidades. Que
coexistissem os dois no mesmo ser, parecia-me absurdo.
4
Herbert Spencer (1820 - 1903), filósofo inglês.
5
Grifo do autor.

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Assim como Larsen, na obra de Jack London, Nietzche também se referia ao
tema da morte com um certo “desprezo”, pois os homens não podem negar a vida da qual a
morte apenas faz parte. “Não é com ira que se mata, mas com riso...” (NIETZCHE apud
HAYMAN, 2000, p. 23). Dessa forma, tanto Nietzche quanto Larsen ironizavam, de certa
maneira, a morte; buscavam quebrar valores morais, no que estabelece relação entre o bem e o
mal. Para ambos, a experiência negativa poderia transformar-se em algo positivo o bastante
para inflamar outras pessoas. Portanto, a todo momento Larsen sorria da morte, do medo,
buscando sempre ser um ser superior dentro da Ghost.

REFERÊNCIAS:

BOEIRA, Nelson. Nietzche. Rio de Janeiro: Zahar, 2002. (Filosofia passo-a-passo)

FONTES, Carlos. Navegando na Filosofia. Disponível em: http://72.14.205.104/search?


q=cache:Qh9kS6dj9FQJ:afilosofia.no.sapo.pt/12.nietzsche.htm+filosofo+frederick+nietzsche
+o+super+homem&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=6&gl=br Acesso em: 30/07/2008.

HAYMAN, Ronald. Nietzche: Nietzche e suas vozes. São Paulo: UNESP, 2000 (Coleção
Grandes Filósofos).

LONDON, Jack.O lobo do mar. São Paulo: Martin Claret, 2004.

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