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Realidade Única
H á anos digo que uma vida não examinada não merece ser vivida. São
inúmeras aulas, cursos e palestras nos quais repito esta afirmação
atribuída a Sócrates. Creio firmemente que não podemos viver – não uma vida
verdadeira – sem um tipo de autoanálise sucessiva e seus consequentes balanços
existenciais. Aliás, com mais ou menos consciência, é isto que precisamente
fazemos: olhamos de modo intermitente para nós mesmos, nossa realidade
radical, e concluímos algumas coisas a respeito de quem estamos sendo e de
como estamos vivendo. Quando o resultado parcial – e até o encontro da morte
ele é sempre parcial – é aparentemente ruim, sentimos aquele desgosto, aquela
insatisfação com a própria existência. Angustiados por não estarmos “à altura”
de nós mesmos, ou do que imaginamos ser nossa forma de vida ideal, caímos
em uma série de armadilhas neuróticas que nos desinstalam da verdadeira
gravidade e nos lançam no redemoinho das falsidades. É o começo da tentativa
de substituição dos termos do problema pelo simulacro de solução, que se traduz
em mentiras biográficas, desvios vocacionais e tédio (o algoz dos homens sem
sentido).
O exame da própria vida acontece necessariamente porque a natureza
humana é assim. Somos chamados à perfeição, à realização, à plenitude. Estamos,
desde nossa criação, informados intimamente desta inclinação para o Bem que
nos impele ao movimento de vida. E é esta informação – íntima, porque dada na
substância pessoal – que nos “atormenta” de alguma forma. O paradoxo, como
esclarecido por Gustavo Coração em O Desconcerto do Mundo, é justamente
este: nós sofremos porque sabemos (ou, estamos intimamente informados) de
nossa grandeza e pretensão, nossa origem e destino. Portanto, a natural avaliação
da própria vida é feita sobre um fundo insubornável – a centelha divina,
poderíamos dizer – que revivifica dentro de nós a imagem do melhor destino a

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que fomos confiados. Em outras palavras: é realmente duro viver humanamente
porque, mesmo que não o conscientizemos, nosso coração insiste em denunciar
nossa verdadeira constituição. Esta informação íntima é a que nos faz sentir
quando estamos devendo a nós mesmos, aceitando ou não podendo reverter
um estado inferior de vida, indigno da espécie a que pretendemos pertencer
radicalmente.
A felicidade é assunto humano, radicalmente humano. Isto é, pessoal. Não
se pode falar em “felicidade animal” pelo simples fato de que animais não estão
em débito com sua própria natureza, pois já realizam de forma plena a espécie
a que pertencem. Diferentemente do homem, eles não têm um dever-ser, uma
pretensão de existência e realização a ser alcançada. Nenhum cachorro sente-se
angustiado porque não foi um bom cachorro naquele dia. Nenhum urso dorme
triste porque terá que alterar seus projetos futuros em virtude de mudanças
climáticas. Animais ou plantas não estão intimamente informados como nós.
Como bem disse Xavier Zubiri, eles sentem frio, ao passo que o homem sabe
que está frio. Portanto, somente para a nossa consciência é que a gravidade da
vida se revela e, também somente para nós, existe a angústia por não ser, a
necessidade de realização pessoal e o perigo do fracasso biográfico.
Felicidade é assunto pessoal porque somos esta realidade diferente de todas
as outras realidades criadas. Se no caso dos animais e plantas suas realidades são
“fechadas”, uma vez que não há exigência interior por um ser que ainda não são,
no nosso caso é evidente o contrário: somos realidades em aberto. Nascemos
com uma série de possibilidades que se tornam atos conforme as eleições que
fazemos; as decisões consequentes da liberdade com que deliberamos em nossas
vidas. Quando tomamos um recém-nascido nos braços, temos a sensação
de que ele poderá vir a ser qualquer coisa. Poderá ser médico como o pai,
professor como a mãe, artista ou delinquente. Sem dúvida, este mesmo bebê é
uma realidade em aberto, nascida com algumas determinações (família, sexo,
raça etc.) e potente para uma série de trajetórias possíveis. Tudo dependerá de
uma combinação complexa de fatores, da intersecção dramática entre natureza,
inclinações pessoais, meio social e causas autorais.
Portanto, somos uma realidade feita de irrealidades. Nascemos com algumas

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determinações, inerentes a qualquer vida humana, e temos a liberdade de
“preencher” pessoalmente a estrutura da vida que recebemos no nascimento. Eu
tenho uma língua-mãe, portuguesa, que herdei de meus pais e convivas. Isto tem
de ser assim, porque ter uma língua é estrutural no homem. Porém, aproprio-me
desta língua de maneira pessoal, com minhas aptidões e dificuldades, e dou a ela
uma expressão única que, embora não deva prescindir das regras gramaticais,
é desejável que seja reveladora de minha individualidade. Ainda, se depois de
internalizar minha língua-mãe eu quiser aprender outra (como o francês, por
exemplo), isto será uma aquisição pessoal que, no momento em que decido
por realizar, ainda não a conquistei. Neste sentido, agirei em direção a uma
realidade que ainda não é minha, pois não domino a língua francesa no instante
em que decido estudá-la.
Quero reforçar a idéia de realidade única que nós somos. Apenas os seres
humanos são feitos também de irrealidades – como a língua francesa que ainda
não falo – e que devem ser levadas em conta na compreensão da minha vida. Eu
sou aquele que tem todas estas realidades atualizadas agora – como a língua que
já falo, o sexo que recebi, a raça e a nacionalidade – e quer ter muitas outras que
ainda são imagens ou antecipações dentro de mim. São, em última instância,
irrealidades que corroboram a afirmação de que somos diferentes das “coisas”.
Somos mesmo pessoas, realidades únicas por sua abertura e tensão entre o real
e o irreal; as potências e os atos.
Uma verdadeira antropologia filosófica deve levar isso em conta. Em relação
ao homem não se pode aplicar conceitos estáticos como se faz com as coisas,
realidades fechadas. É preciso elaborarmos métodos apropriados de manejo da
realidade humana, adaptando as categorias aristotélicas para aquilo que somos.
Sim, somos substâncias, mas de um tipo bem peculiar e que deve ser tratada por
seu nome próprio: pessoa.

Deixe-me elucidar essa questão da pessoalidade como real substância


humana.

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Tudo o que existe no mundo tem substância: a palavra latina “substantia” é a
tradução da palavra grega “hipóstases”, que significa o que está embaixo – se nos
perguntamos qual é a substância de algo, perguntamos o que é que está debaixo
de todas as qualidades e acidentes que o compõem, o que é que os sustenta
(como diz Aristóteles, que foi, talvez, quem melhor tratou do assunto).
Algo possuir determinada cor, comprimento, formato, e não outro é acidental;
o que sustenta todos esses acidentes? A que eles se referem? À “substância”
daquilo. Tomemos os gatos, por exemplo – o que são acidentes, neles? Um gato
pode ser preto; pode ser manhoso; pode gostar disso ou daquilo; ter pêlo curto
ou longo. Esses aspectos todos são acidentais. Mas é a substância do gato – o
seu “quê”, que está por baixo de todas as suas camadas de qualidades, acidentes
e vícios, perceptíveis ou não – que permite todos esses acidentes; eles existem
sobre ela, estão nela.
Da mesma forma, quando falamos de “substância humana”, referimo-
nos ao núcleo sobre o qual estão depositadas todas as qualidades e acidentes
que percebemos em alguém (“Ela é mulher, eu sou homem”; “Ela tem cabelo
comprido, eu não”; “Ele tem sobrancelha fina, eu tenho grossa”; “Ele gosta de
futebol, eu de vôlei”), e que nos permite defini-lo, diferenciando-o das coisas e
dos animais, como pessoa.
Julián Marías nos adverte que, na história da filosofia, depois de Aristóteles,
ninguém deu a devida atenção à particularidade da realidade humana, ao fato de
que a substância do homem é diferente de todas as outras coisas – o homem não
é uma coisa, é uma pessoa que se elege a si mesma. Quando dizemos que o ser
humano é co-criador, queremos dizer que o homem recebe, de Deus, uma parte
da sua realidade, mas que a outra parte é ele quem faz. Portanto, ao tratarmos
da pessoa, é possível falarmos de uma “perda de substância”, no sentido de que
o homem pode deixar de realizar a si mesmo e as potências humanas que o
instalam devida e dignamente no mundo como exemplar desta espécie a que
pertence.
Outras realidades não têm como perder sua substância; mas nós
podemos, durante a vida, perder nossa pessoalidade: todos corremos o risco
da “despersonalização”, como a chama Julián Marías. Como nossa substância

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é radicalmente diferente de todo o resto da realidade, ela se define por uma
dimensão irreal – tudo aquilo que está por ser feito e eleito (caminhos a trilhar,
trajetórias a assumir...), a parte a ser escolhida e vivida – nós somos os únicos
que correm o risco de não ser: só o ser humano pode ficar deprimido, porque
nenhum outro ente da realidade pode estar em dívida consigo mesmo. E, dado
que todos nos movemos nessa faixa de irrealidade, podemos dizer que alguém
pode ser “mais pessoa” ou “menos pessoa”. Há quem atualize a dimensão do seu
núcleo, de sua substância, mais do que outros. Há pessoas com uma riqueza
de substância impressionante, e há outras substancialmente pobres – por quê?
Porque elegeram errado, não escolheram, não realizaram.
Não se trata, portanto, do que somos, mas de quem. Pessoa é o nome da
substância que você é, criatura feita à imagem e semelhança da Pessoa Divina.
São as categorias de conhecimento desta substância em especial que nos interessa
sobremaneira e, mais do que qualquer questão, a necessidade de felicidade que
cada um tem como pessoa irrepetível. Não é por acaso que no cristianismo
temos uma fé baseada na relação com três pessoas (Pai, Filho e Espírito).
Quando quero conhecer a alguém ou a mim mesmo, não devo me dirigir
a esta realidade como quem tem interesse em zoologia ou geografia. Veja bem,
leitor: não é “algo” que quero saber; é alguém que quero conhecer. Esta afinação
da perspectiva como sujeito cognoscente, interessado em outras pessoas ou em
si mesmo, tem suas consequências nas relações, inclusive.
Amar alguém é um bom exemplo daquilo que estamos falando. O amor
é uma decisão radical por alguém a ponto de alterar a substância do amante
em virtude do amado. Jamais amou aquele que não foi alterado pela presença
do outro. E tal alteração só é possível pelo fato de sermos uma realidade em
aberto, permeada de irrealidades. Ao nos apaixonarmos por alguém, “criamos”
dentro de nós uma história, imaginamos a vida a dois e partimos em busca de
sua conquista. Só fazemos isso porque não estamos “prontos” e queremos ser
alterados pela presença do outro em nossa história. Transformamos aquele que
amamos em projeto pessoal e, a partir deste momento, vivemos como quem já
não é o mesmo.
A felicidade é assunto pessoal porque diz respeito à substância única que

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somos, informada intimamente da vontade divina (de uma Pessoa) e inclinada
existencialmente à realização do ser em aberto. A realidade feita de irrealidades
tem um ideal de vida; uma imagem de plenitude biográfica que funciona como
força motriz ou chamamento. É o que precisamos para pôr em movimento nossas
vidas. Ninguém pode ir a lugar nenhum. Todos os homens que estão fazendo
algo de suas vidas – e por isso despertam admiração – têm um movimento
direcionado a uma imagem, mais ou menos autoral, de um eu futuro, irreal
por ora. Veja se não é isto que está por trás de um empresário de sucesso ou
um intelectual reconhecido. Ambos estão indo em direção a um ser idealizado,
pensado como “melhor” e que atrai o eu presente para seu alcance. Sem imagem
ideal – forte, detalhada e possível – não há como sentir disposição para sair do
estado atual de vida. Uma imagem pessoal de felicidade, portanto, é condição
sine qua non.
A sensação de “vida parada” é comum naqueles que carecem de projeção. Sua
vida está como um lago, quando deveria ser um rio. O descontentamento surge
justamente da paralisia biográfica, na qual, paradoxalmente, os dias passam, mas
tudo parece continuar igual. Meu conselho para quem vive algo semelhante é
quase sempre o mesmo: alguma abertura tem de ser feita; algum desvio de água
para que entre em movimento. Se nunca fez algo que teve sempre em mente,
quem sabe seja a hora de fazê-lo. E toda alteração será uma “violência” contra
o estado presente, pois nenhuma mudança acontece sem algum deslocamento
pessoal, sem algum movimento em direção a outra trajetória possível. Portanto,
o lago tem de sofrer novas interferências e a melhor delas é, sem dúvida, a imagem
de uma nova forma biográfica. Mais plena, realizada e contente. A imagem de
uma vida de feliz tem de ser melhorada, enriquecida.
Quando você consegue reconhecer que seu estado de vida atual é pobre –
ou medíocre – e, em linhas gerais, não está à altura da vida em abundância, em
seguida precisará de uma nova imagem de eu realizado. Terá de mergulhar em
si mesmo, ao encontro da substância pessoal, e descobrir, afinal, quem você foi
chamado a ser e o que falta para sê-lo. Passará a perscrutar a própria realidade
radical – sua vida – e recolherá elementos bastantes para formar a nova imagem,
o ideal de realização que daria todo sentido à sua existência. E assim, num novo

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movimento em direção a um eu ideal reconhecido como propriamente seu,
sairá do estado de paralisia e gozará do dramatismo que nos define e que não
exclui sofrimento ou morte.
Então qual é a vantagem, já que sofrimento e morte permanecerão?
Será a de poder viver de forma única e irrepetível, com a certeza de
que você não poderia estar fazendo outra coisa, nem de modo diferente
do que estará fazendo. Morrer não será mais um perigo, e sofrer se tornará
mais uma circunstância a ser reabsorvida em prol da gravidade de uma vida
verdadeiramente pessoal e intransferível.
Por isso, não se trata de usufruir da vida. Ela é um bem arredio a esse tipo de
apropriação indébita. Trata-se de gozá-la em sua profundidade, como quem se
instala humanamente e preenche a estrutura dada no nascimento com a própria
substância. Não estamos à passeio, leitor. Dentre muitas mentiras implantadas
com o advento da modernidade, esta é das mais perigosas: feliz é quem aproveita
a vida sem grandes preocupações, mantendo um jeitinho suave de sambar sobre
os problemas e de ignorar as realidades importantes. Pela lógica moderna, é
feliz quem nega a estrutura humana e fecha-se para o dramatismo inerente a
ela. Quem pode sorrir todos os dias e ter acesso a prazeres sem limite, viajando
para onde quiser, comendo o que quiser, comprando o que for de seu desejo?
Entretanto, a receita de felicidade que combina com letra de música barata
(Deixa a vida me levar, vida leva eu) não tem salvado homens e mulheres de
carne e osso do desconcerto do mundo. Logo após um show do seu pagodeiro
preferido, o sujeito imerso em tal lógica falsa sente – vindo daquele insistente e
informado coração – que lhe falta algo. A depender do caso, bebe, joga, compra,
acessa pornografia até dormir: tudo para abafar, de alguma maneira, a voz
interior que persiste em lembrá-lo que felicidade não é isto.
Outros, mais burgueses e menos afeitos a multidões reunidas para dançar e
cantar estrofes ridículas, compram livros de autoajuda, daqueles que afirmam
que a vida é colorida como um desenho dos Ursinhos Carinhosos. “Você é
especial”, “você nasceu para brilhar”: uma mentira após a outra, em doses cada
vez mais fortes para que o eu narrativo (presencial) do sujeito acredite, ainda que
por alguns dias ou meses, que é disto que se trata viver bem. “Qualidade de vida”

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é das piores expressões já inventadas e serve para neurotizar uma infinidade de
homens e mulheres que passam a se cobrar pelo que não têm, modernamente
falando.
A realidade que são, a substância pessoal, continua intocada pelo eu
narrativo, que é o ego – o registro histórico do que sabemos e experimentamos
a nosso respeito e como contamos isto a nós mesmos. Separados pelas neuroses
modernas, fragmentados interiormente em uma série de pedaços vividos
apenas como personagens sociais, os mesmos homens e mulheres vivem sob a
égide da mentira oficial do dia, incapacitados de uma intimidade real com suas
substâncias, origem das vidas sem sentido e da sensação de descontentamento
com a própria vida. Por isso é urgente a coagulação, uma reunião da realidade
pessoal em que a substância informe seu mais profundo desejo de ser e restaure,
pelo movimento orientado a um ideal antecipado imaginativamente, a forma
biográfica feliz.

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